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Doença celíaca A doença celíaca é definida como uma enteropatia crônica autoimune, desencadeada por uma intolerância permanente ao glúten, em indivíduos geneticamente predispostos, levando a manifestações intestinais e extraintestinais. Caracterizada por atrofia total ou parcial da mucosa do intestino delgado proximal, levando a má absorção de micronutrientes, como vitaminas e minerais e macronutrientes, como carboidratos, proteínas e gorduras. A doença celíaca também pode ser conhecida como enteropatia sensível ao glúten, espru celíaco ou espru não-tropical. O glúten é a fração proteica encontrada no trigo, no centeio e na cevada, que em portadores de doença celíaca promove o início de um processo inflamatório que atinge o intestino delgado, fazendo atrofia das vilosidades e hipertrofia das criptas do intestino delgado. A doença celíaca é resultado da interação de fatores ambientais (ingesta de glúten), fatores genéticos (presença de HLA DQ2 ou HLA DQ8) e resposta imunológica. Fisiopatologia Quando um indivíduo geneticamente predisposto ingere um alimento que contém glúten, inicia uma resposta inflamatória na mucosa intestinal, que cronicamente leva a atrofia das vilosidades. A suscetibilidade genética à doença celíaca ocorre pela presença do HLA DQ2 ou HLA DQ8. Esses genes codificam proteínas que se ligam a peptídeos e formam um complexo antígeno-HLA. Então, na mucosa intestinal, esses complexos são reconhecidos por receptores na superfície de células T CD4+. *HLA= antígeno leucocitário humano. A transglutaminase tecidual é uma enzima intracelular presente na mucosa intestinal, liberada em momentos de estresse, apoptose, infecção e inflamação. Ela é encontrada em todas as camadas do intestino delgado e em contato com a glutamina do glúten, retira o radical amina de sua molécula, transformando-a em ácido glutâmico, que tem alta afinidade pelo HLA DQ2 ou HLA DQ8, situados nas células apresentadoras de antígeno, sendo posteriormente reconhecidas por células T CD4+. A formação do complexo HLA-ácido glutâmico induz alterações nas células envolvidas na resposta imune, sendo responsável pelas modificações intestinais e sistêmicas da doença celíaca. No intestino, essas alterações levam a atrofia das vilosidades e hipertrofia das criptas do intestino delgado e, consequentemente, má absorção de nutrientes. Quadro clínico Pode se manifestar de diversas formas, conforme a extensão e grau da lesão na mucosa intestinal. Os sintomas que mais comumente estão associados à doença celíaca são diarreia com esteatorreia, vômitos, distensão abdominal, perda de peso, anemia e deficiência de nutrientes ou vitaminas. Durante a infância, os sintomas aparecem geralmente após o desmame, durante a introdução alimentar com o incremento de cereais na dieta. Em crianças mais velhas e adolescentes, costuma se manifestar como diarreia, atraso no desenvolvimento estrutural e ponderal, anemia, dificuldade de alcançar bom desempenho escolar, atraso da puberdade, cansaço crônico inespecífico, sinais de desnutrição e alterações do ciclo menstrual. Os pacientes podem apresentar sintomas extra intestinais, como: dermatite herpetiforme, hipoplasia do esmalte dentário, hipertransaminemia isolada, epilepsia, alteração do humor e artrite. Classificação A doença celíaca pode ser classificada em cinco tipos: a forma clássica ou típica, a forma não clássica ou atípica, a forma assintomática ou silenciosa, a forma latente e a forma potencial ou incipiente. Forma clássica (típica) Se caracteriza pelo início precoce, entre os 2 e os 24 meses de vida, logo após a introdução do glúten na dieta. Diarreia crônica com distensão abdominal, dificuldade de ganho de peso ou perda ponderal, atrofia muscular na região glútea, falta de apetite vômitos, anemia, alteração do humor e diminuição do tecido celular subcutâneo são os sintomas mais frequentes. Forma não clássica (atípica) É definida por um quadro mono ou oligossintomático que se inicia mais tardiamente, após os 24 meses, com presença de manifestações extraintestinais (dermatite herpetiforme; anemia ferropriva refratária; menarca tardia e ciclos menstruais irregulares) causados pelo déficit nutricional ou por reações imunológicas e com sintomas intestinais ausentes ou discretos. Forma assintomática (silenciosa) A forma assintomática (silenciosa) é caracterizada pela presença de alterações sorológicas e histológicas na mucosa intestinal compatíveis sem que haja sintomatologia para suspeita clínica de doença celíaca. Forma latente É descrita pelo paciente com diagnóstico prévio de doença celíaca com lesão duodenal comprovada histologicamente que após um período de dieta isenta de glúten, volta a consumi-lo e não apresenta qualquer sintoma associado a patologia e não há lesão histológica na mucosa intestinal. Supõe-se que esses pacientes passam a ter maior tolerância ao glúten ou que precise de maior tempo de exposição para manifestar novos sintomas. Forma potencial (incipiente) A forma potencial (incipiente) ocorre quando o paciente possui testes sorológicos com anticorpos específicos para doença celíaca e HLA compatíveis, mas não apresenta alteração na histologia do intestino delgado. Esses pacientes podem evoluir no futuro com ou sem manifestações ou histologia compatíveis com doença celíaca. Diagnóstico Na suspeita clínica de doença celíaca o diagnóstico deve ser confirmado pela presença de sorologia positiva específica e biopsia intestinal. Os testes sorológicos devem ser realizados com o paciente em uso de dieta com glúten. Os testes sorológicos podem ser de dois tipos: autoanticorpos, anticorpo antiendomísio e anti- transglutaminase tecidual; e anticorpos dirigidos contra a gliadina, anticorpos contra peptídeos de gliadina desaminados sintéticos. Caso o paciente apresente algum dos testes sorológicos positivos, deve ser encaminhado para realizar endoscopia digestiva alta com biopsia duodenal, que é o padrão ouro para doença celíaca. A biopsia também está indicada caso haja suspeita clínica evidente e as sorologias forem negativas, devido a possibilidade de doença celíaca soronegativa. A biopsia deve ser realizada com o paciente em dieta rica em glúten, retirando pelo menos um fragmento do bulbo e quatro da segunda porção do duodeno. A histopatologia da doença celíaca é dividida em categorias de acordo com a classificação de Marsh. - Marsh tipo 0: fragmento sem alterações histológicas. - Marsh tipo 1: lesão infiltrativa com vilos arquiteturalmente normais, mucosa normal, com aumento do número de linfócitos T intrepiteliais. - Marsh tipo 2: lesão com hiperplasia dos elementos glandulares, com aumento do número de mitoses. - Marsh tipo 3: graus variados de atrofia vilositária com hiperplasia das criptas glandulares, altura reduzida da superfície dos enterócitos e bordas em escova irregulares associado ao aumento de linfócitos T intraepiteliais, sendo subdividido em: • Marsh tipo 3a: atrofia vilositária leve. • Marsh tipo 3b: atrofia vilositária moderada. • Marsh tipo 3c: atrofia vilositária grave. - Marsh tipo 4: atrofia total com hipoplasia das criptas. Se o paciente apresentar títulos muito elevados (maior que 10 vezes o limite superior de referência positivo) não é necessário fazer biopsia intestinal, porém é recomendado fazer HLA DQ2 eDQ8 e antiendomísio IgA para reforçar o diagnóstico. A biopsia também não precisa ser realizada em pacientes com dermatite herpetiforme com depósitos granulares de IgA na derme confirmados por imunofluorescência, pois nesse caso um dano intestinal sempre está presente. Uma biopsia de controle não é necessária após a retirada do glúten da dieta se o paciente obteve melhora clínica.Ela fica reservada para casos onde a primeira biopsia e os testes sorológicos não são conclusivos ou pacientes sem boa resposta apesar da retirada do glúten. Tratamento O tratamento para doença celíaca é fundamentado em uma dieta isenta de glúten por toda a vida. A exclusão completa do glúten da dieta induz a remissão clínica, sorológica e histológica em grande parte dos pacientes, o crescimento se normaliza e as complicações são evitadas. Cerca de 70% dos pacientes percebem melhora sintomatológica após 2 semanas de dieta. O acompanhamento é multiprofissional com médicos e nutricionistas. No primeiro ano após o diagnóstico aconselha-se consultas trimestrais e, posteriormente, anuais para acompanhamento. Além da exclusão dos alimentos com glúten da dieta, é importante orientar a família sobre a contaminação cruzada e a importância de higienizar adequadamente os utensílios utilizados para preparar alimentos com glúten antes de preparar alimentos para o celíaco.