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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO 
CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E ECONÔMICAS 
FACULDADE DE DIREITO 
 
 
 
 
 
 
DIREITOS DA PERSONALIDADE VERSUS O DIREITO DE SÁTIRA PELA 
TÉCNICA DE PONDERAÇÃO DE INTERESSES: UMA ANÁLISE A PARTIR DO 
JULGADO DA RECLAMAÇÃO 38.782 
 
 
 
 
 
 
 
DANIEL PERETE FRANCISCO 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
RIO DE JANEIRO 
2021 
 
 
DANIEL PERETE FRANCISCO 
 
 
 
 
 
DIREITOS DA PERSONALIDADE VERSUS O DIREITO DE SÁTIRA PELA 
TÉCNICA DE PONDERAÇÃO DE INTERESSES: UMA ANÁLISE A PARTIR DO 
JULGADO DA RECLAMAÇÃO 38.782 
 
 
 
 
 
Monografia de final de curso, elaborada no âmbito 
da graduação em Direito da Universidade Federal 
do Rio de Janeiro, como pré-requisito para 
obtenção do grau de bacharel em Direito, sob a 
orientação da Professora Dr. Andreia Fernandes 
de Almeida Rangel 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
RIO DE JANEIRO 
2021 
DANIEL PERETE FRANCISCO 
 
 
 
 
 
 
DIREITOS DA PERSONALIDADE VERSUS O DIREITO DE SÁTIRA PELA 
TÉCNICA DE PONDERAÇÃO DE INTERESSES: UMA ANÁLISE A PARTIR DO 
JULGADO DA RECLAMAÇÃO 38.782 
 
 
Monografia de final de curso, elaborada no âmbito da graduação em Direito da Universidade 
Federal do Rio de Janeiro, como pré-requisito para obtenção do grau de bacharel em Direito, sob 
a orientação da Professora Dra. Andreia Fernandes de Almeida Rangel. 
 
 
Data da Aprovação: / / . 
 
Banca Examinadora: 
 
___________________________________ 
Professor - Orientador 
 
 
___________________________________ 
Membro da Banca 
 
___________________________________ 
Membro da Banca 
 
 
RIO DE JANEIRO 
2021 
 
 
RESUMO 
 
O presente trabalho busca, perante análise do julgamento da Reclamação nº 38.782 como ponto 
referencial, como a técnica de ponderação de interesses tem sido utilizada nos tribunais 
brasileiros como método de resolução de conflitos entre Direitos Fundamentais amparados pela 
Constituição Federal brasileira, e, mais precisamente, nos conflitos entre o direito de sátira e os 
conhecidos direitos da personalidade. Apesar da citada ação ser o ponto central do trabalho, 
sendo escolhida por ser um dos casos mais recentes e de maior visibilidade sobre o tema 
estudado, esta monografia utiliza de outros julgados, pensamentos doutrinários e da legislação 
brasileira para compreender a técnica de ponderação de interesses, desde o seu histórico, 
metodologia e a forma que já fora aplicada dentro da ordem jurídica nacional. 
 
Palavras-chave: ponderação de interesses; direitos da personalidade; direito de sátira; 
Constituição; Direitos Fundamentais. 
 
 
 
ABSTRACT 
 
The present dissertation seeks, in the analysis of the judgment of Reclamação nº 38.782 as a 
reference point, how the technique of balancing of interests has been used in Brazilian courts 
as a method of resolving conflicts between Fundamental Rights supported by the Brazilian 
Federal Constitution, and, more precisely, in conflicts between the right of satire and the known 
rights of personality. Despite the aforementioned action being the central point of the work, 
being chosen because it is one of the most recent and most visible cases on the subject studied, 
this monograph uses other judgments, doctrinal thoughts and Brazilian legislation to understand 
the technique of balancing of interests, from its history, methodology and the way it had already 
been applied within the national legal order. 
 
Keywords: balancing of interests; personality rights; right of satire; Constitution; Fundamental 
rights. 
 
 
SUMÁRIO 
INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 7 
1 - COMPREENDENDO O JULGADO ............................................................................. 9 
2 - DIREITOS DA PERSONALIDADE............................................................................ 13 
2.1 direitos da personalidade: uma visão geral ................................................................. 13 
2.2 história e recepção dentro do ordenamento jurídico brasileiro ................................. 16 
2.3 Espécies de direito da personalidade ........................................................................... 18 
2.4 Direito de sátira ............................................................................................................ 23 
2.4.1 Conceituação .............................................................................................................. 23 
2.4.2 histórico na ordem jurídica brasileira ......................................................................... 26 
3 - COLISÃO NORMATIVA ENTRE NORMAS CONSTITUCIONAIS ...................... 31 
3.1 O que são colisões normativas? ................................................................................... 31 
3.2 Técnica de ponderação de interesses ........................................................................... 34 
3.3 A técnica de ponderação nos tribunais brasileiros...................................................... 38 
3.4 Ponderação de interesses na Reclamação 38.782 ........................................................ 41 
CONCLUSÃO .................................................................................................................... 47 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .............................................................................. 48 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
7 
 
INTRODUÇÃO 
 
O objetivo deste trabalho que vos apresento é analisar, a partir de decisão recente do 
Supremo Tribunal Federal sobre caso que, à época, tomou as páginas de jornais e sites 
(ENTIDADE..., 2020, n/p; DOLZAN, 2020, n/p; COLETTI, 2021, n/p) do Brasil, como o 
ordenamento jurídico brasileiro argui sobre os limites da liberdade de expressão (no caso 
trabalhado, sendo sua subdivisão do direito de sátira) quando em confronto com outros Direitos 
Fundamentais (com o foco nos direitos da personalidade). 
 
Em uma sociedade que valoriza os Direitos Fundamentais e entende o papel do Estado 
em defendê-los e aplicá-los e, sendo incontroverso que ocorrerão conflitos entre esses direitos, 
irrefutável que caberá ao Poder Judiciário encontrar a forma mais justa e que melhor atenda os 
anseios da comunidade aos casos em que houver colisões normativas de regras constitucionais 
tão preciosas ao ordenamento jurídico e população brasileira. 
 
Dentro dos diversos métodos de resolução desses conflitos entre direitos (chamados de 
antinomias reais), o utilizado no caso a ser examinado neste trabalho de conclusão de curso e 
em tantos outros julgados é o da técnica de ponderação de interesses. Essa forma de sopesar 
interesses medulares à ordem jurídica nacional e que não possuem hierarquia, quando 
encontrarem-se em divergência, busca estabelecer, pela análise e interpretação jurídica com 
parâmetros racionais e controláveis em cada caso concreto, concluir por qual direito deve 
prevalecer perante o outro, em uma forma que as restrições impostas na decisão causem o menor 
dano possível ao bem jurídico a ser protegido. 
 
A técnica de ponderação de interesses foi utilizada (e expressamente citada) na 
argumentação do relator ministro Gilmar Mendes na Reclamação nº 38.782 para definir se a 
liberdade de expressão deveria ser restringida em benefício da liberdade religiosa e dos direitos 
da personalidade supostamente afrontados em produção humorística do grupo Porta dos 
Fundos. Esse julgado não foi a primeira vez em que esse método fora empregado pela Suprema 
Corte brasileira, firmando-se, decisão após decisão, como fórmula comumente aplicada aos 
conflitos entre Direitos Fundamentais, e em um mundo em que novas tecnologias e situações 
se apresentam constantemente, denota a importância do entendimento da técnica de ponderação 
para que possamos entender como é construída a jurisprudência de resoluçãode antinomias de 
normas constitucionais. 
8 
 
 
Dados os parâmetros gerais da monografia e para seguir com o aprofundamento dos temas 
adiante, gostaria de falar a motivação para a escolha desse assunto como meu trabalho de 
conclusão de curso. Em um momento que o Brasil se encontra em grande instabilidade social e 
política, onde ataques às liberdades individuais têm sido constantes, por vezes provenientes de 
membros dos Poderes da República, e cerne de debates acalorados entre governistas e oposição, 
e, considerando que em uma democracia é imprescindível o exercício livre da manifestação de 
pensamento1, é necessário entender as técnicas e critérios utilizados pelo Poder Judiciário, 
baseado nos entendimentos dos tribunais (especialmente os superiores), para encontrar os 
limites e restrições da liberdade de expressão quando em confronto com outros direitos e 
garantias individuais, em decisões pós Constituição de 1988, conhecida como a Carta Cidadã, 
que estabeleceu uma nova ordem jurídica fundada na valorização dos Direitos Fundamentais. 
Para saber em que estágio estamos da nossa ainda recente democracia, é forçoso entender como 
a liberdade de expressão (e os outros direitos também, inegavelmente) são exercidos e 
protegidos dentro do nosso país. 
 
 
 
1 A Democracia não existirá e a livre participação política não florescerá onde a liberdade de expressão for ceifada, 
pois esta constitui condição essencial ao pluralismo de ideias, que por sua vez é um valor estruturante para o salutar 
funcionamento do sistema democrático. ADPF nº 548, Relatora Cármen Lúcia, DJE 09 jun. 2020. 
9 
 
1 - COMPREENDENDO O JULGADO 
 
Para se entender a decisão do Supremo Tribunal Federal, órgão de maior autoridade no 
Judiciário brasileiro, na Reclamação 38.782 na qual o tribunal julgou pela manutenção da 
exibição do Especial de Natal da produtora de conteúdo Porta dos Fundos na plataforma de 
streaming2 Netflix, é necessário que se volte à origem do processo. 
 
A Associação Centro Dom Bosco De Fé e Cultura ajuizou no dia 13/12/2019 Ação Civil 
Pública, pedindo que fosse determinado que a Netflix suspendesse exibição do “Especial de 
Natal Porta dos Fundos: A Primeira Tentação de Cristo”, e que a Produtora Porta dos Fundos 
não autorizasse a sua exibição e/ou divulgação por qualquer outro meio, assim como de trailers. 
A parte autora pediu ainda a indenização pelo dano moral coletivo no valor de R$ 2.000.000,00 
(dois milhões de reais). A alegação se baseava na alegação de ofensa à honra e à dignidade dos 
devotos da religião católica pela produção audiovisual insinuar que Jesus Cristo era 
homossexual. 
 
Em 19/12/2019, a juíza Adriana Sucena Monteiro Jara Moura da 16ª Vara Cível da 
Comarca da capital do Estado do Rio de Janeiro não concedeu o pedido liminar feito pela 
associação por considerar não presente os requisitos legais para à concessão da liminar 
requerida visto que a juíza entendeu que não houve violação aos Direitos Humanos ou à 
liberdade de crença, incitação ao ódio, à discriminação e ao racismo, de forma a justificar a 
censura pretendida. 
 
Também não entendeu se tratar de exibição em local público e de imagens que alcancem 
àqueles que não desejam ver o seu conteúdo, assegurada a plena liberdade de escolha de cada 
um de assistir ou não ao filme e mesmo de permanecer ou não como assinante da plataforma 
Netflix. A magistrada encerra a decisão arguindo que o periculum in mora não se mostra 
configurado, na medida que a exibição do filme se iniciou no último dia 3 de dezembro e, no 
momento da decisão, segundo notícias divulgadas pela imprensa, o Especial já era a obra 
nacional mais assistida da plataforma ré. 
 
2 Streaming é uma forma de distribuição digital, em oposição à descarga de dados. A difusão de dados, geralmente 
em uma rede através de pacotes, é frequentemente utilizada para distribuir conteúdo multimídia através da Internet. 
Nesta forma, as informações não são armazenadas pelo usuário em seu próprio computador. STREAMING. In: 
Wikipedia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Streaming. Acesso em: 30 set. 2021. 
10 
 
A decisão foi em sentido contrário ao Parecer do MP que opinou pelo deferimento da 
antecipação de tutela, entendendo que não haveria censura no caso, mas sim uma forma de 
evitar o excesso de liberdade de expressão ultrapassando seus limites. 
 
No dia seguinte, a associação católica interpõe Agravo de Instrumento com pedido 
liminar de antecipação da tutela recursal mantendo a base dos argumentos utilizados em 1ª 
instância. Em regime do plantão judiciário, o pedido foi indeferido pelo Desembargador 
plantonista Cezar Augusto Rodrigues Costa. Contudo, o magistrado fez constar, de ofício, na 
parte final de sua decisão, a obrigação à Netflix de incluir “no início do filme e na publicidade 
do mesmo um aviso de gatilho de que se trata de uma sátira que envolve valores caros e sagrados 
da fé cristã” (TJRJ, 2019, p. 279). 
 
Com o fim do recesso judiciário no Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, o 
agravo de instrumento foi distribuído à 6ª Câmara Cível. No dia 07/01/2020, o desembargador 
Benedicto Abicair, da 6ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, acolheu o 
recurso apresentado pela agravante e determinou que fosse retirado da plataforma de streaming 
ré ou de qualquer outro meio de exibição o “Especial de Natal”. O desembargador arguiu que 
pelo acesso incontrolável ás redes sociais como a Netflix possibilita menores ou pessoas 
desavisadas acessarem o conteúdo, visto que o título da produção não reflete a realidade do que 
foi reproduzido. Por isso, entende o magistrado que as consequências da divulgação e exibição 
da “produção artística” da primeira Agravada são mais passíveis de provocar danos mais graves 
e irreparáveis do que sua suspenção” (TJRJ, 2019). 
 
No dia 09 de janeiro de 2020, a Netflix, apresentou Reclamação (RCL 38782) ao STF, 
requerendo a suspensão da decisão do desembargador. A empresa sustentou que a determinação 
de inserção de aviso e a suspensão da exibição do filme vão contra os entendimentos 
consolidados do Supremo nos julgamentos da Arguição de Descumprimento de Preceito 
Fundamental (ADPF) 130 e na Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 2404 sobre a 
inconstitucionalidade de qualquer tipo de censura prévia e de restrição à liberdade de expressão 
não previstas na Carta Magna brasileira. As contestações apresentadas posteriormente pelos 2 
réus em 10 de fevereiro de 2020 seguiram a mesma linha argumentativa da reclamação 
interposta de defesa da liberdade de expressão. 
 
11 
 
Cumpre frisar que o Porta dos Fundos também questionou a legitimidade ativa da parte 
autora para ajuizar ação coletiva como se possuísse a tutela dos direitos dos católicos como um 
grupo em si. Ainda menciona que a Ação Civil Pública, objeto deste trabalho, era a quarta 
tentativa judicial da associação contra o grupo humorístico, sendo as outras três julgadas 
improcedentes ou extintas sem resolução de mérito. 
 
No mesmo dia da apresentação da Reclamação Constitucional, o presidente do STF à 
época, ministro Dias Toffoli, suspendeu a decisão de desembargador do Tribunal de Justiça do 
Estado do Rio de Janeiro que havia determinado a suspensão da exibição do vídeo especial de 
Natal da produtora Porta dos Fundos na plataforma de streaming Netflix e a decisão sob regime 
de plantão judiciário que deu o comando à Netflix de inserir aviso para informar que tratava de 
produção que ironizava símbolos e valores aos adeptos do Cristianismo. 
 
Expôs o ministro que em casos semelhantes, como os casos de apreensão de livros na 
Bienal do Rio de Janeiro e a apresentação de cantora gospel no réveillon de Copacabana, o STF 
sempre decidiu pela liberdade de expressão, Direito Fundamentale base de um regime 
democrático. Arguiu também que não houve violação à liberdade de crença dada a 
voluntariedade da exposição ao conteúdo e a vedação de que o Poder Público favoreça um 
grupo religioso em detrimento dos demais, conforme entendimento firmado na ADI 4439 e 
ainda afirmou que o vídeo não possua a capacidade de abalar os valores da fé cristão, religião 
milenar e de grande importância a cultura e identidade brasileira, haja vista que do início da sua 
formação como país até os dias de hoje, é a religião com o maior número de adeptos. 
 
Após três petições de amicus curiae opinando pela procedência da reclamação em defesa 
da liberdade de expressão e contra a prévia censura do Estado de qualquer produção artística e 
Parecer da PGR apresentando entendimento favorável ao reclamante por compreender que o 
acesso à plataforma se dá de forma voluntária e a mesma ter seguido as recomendações da ADI 
n° 2.404 que versa sobre classificações indicativas, em 03/11/2020, a Segunda Turma do STF 
decidiu, de forma unânime, pela procedência da reclamação e pondo por fim quaisquer 
restrições impostas judicialmente à exibição do especial. 
 
O relator Ministro Gilmar Mendes seguiu a arguição dada pelo Ministro Dias Toffoli em 
decisão liminar e de outros julgados do Supremo, entendendo que qualquer medida proveniente 
do Estado que busca cercear, restringir ou controlar a liberdade artística e de pensamento, tem 
12 
 
repercussões abomináveis ao estado democrático de direito e como exposto pelo Ministro 
Alexandre de Moraes em sede da ADI nº 4.451 e citado pelo relator em seu voto na RCL 38782: 
O direito fundamental à liberdade de expressão não se direciona somente a proteger as opiniões 
supostamente verdadeiras, admiráveis ou convencionais, mas também aquelas que são 
duvidosas, exageradas, condenáveis, satíricas, humorísticas, bem como as não compartilhadas 
pelas maiorias. Ressalte-se que, mesmo as declarações errôneas, estão sob a guarda dessa 
garantia constitucional. 
 
Transitado em julgado em 08/04/2021, o julgado objeto deste estudo representa atual caso 
jurisprudencial sobre tema há muito debatido pela doutrina e tribunais brasileiros que é o do 
conflito entre direitos da personalidade, como o direito à honra, seja ela individual ou coletiva, 
e a liberdade de expressão, mais especificamente a liberdade a produções artísticas que utilizam 
do deboche, escárnio, ironia, para transmitir uma mensagem, causar reflexão ou apenas 
provocar risadas. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
13 
 
2 - DIREITOS DA PERSONALIDADE 
 
2.1 Direitos da personalidade: uma visão geral 
 
Antes de se aprofundar sobre a história da proteção do ordenamento jurídico brasileiro 
aos direitos da personalidade, vale explicar esse conceito tão precioso e complexo ao Direito 
Civil. Direitos da personalidade são características inerentes a personalidade humana que, pela 
sua importância, recebem a tutela do Estado para proteção (NICOLODI, 2003, n/p). 
 
Apesar de quando se fala em direitos da personalidade, algumas espécies mais comuns 
virem à tona como o direito à honra, direito à imagem ou direito à privacidade, esses direitos 
não se resumem a isso, visto que novas situações surgem constantemente e com isso o Estado 
tendo de prover proteções jurídicas a novas categorias dos direitos da personalidade 
(NICOLODI, 2003, n/p). 
 
Apesar de já nas civilizações antigas haver a ideia de proteção jurídica à pessoa humana, 
como em Roma onde já havia a tutela de diversas manifestações da personalidade, apenas não 
apresentando a mesma intensidade e o mesmo aspecto que hoje, principalmente devido à 
diferente organização social daquele povo, distante e desprendidos da visão individualista que 
possuímos de nossa pessoa, e da inexistência de tecnologia e aparelhos que viessem a atacar e 
violar as diversas manifestações da personalidade humana (NICOLODI, 2003, n/p), os direitos 
da personalidade tem a conceituação atual de formação recente como será visto mais a frente, 
havendo ainda debate sobre sua definição, a natureza desses direitos e a amplitude de proteção 
que almejam alcançar. 
 
Os primeiros registros materiais da proteção da pessoa humana como Direitos 
Fundamentais e inerentes a toda pessoa são Bill of Rights, de 1689, a Declaração de 
Independência das Colônias inglesas, de 1776 e a Declaração dos Direitos do Homem e do 
Cidadão, proclamada em 1789, com a Revolução Francesa (NICOLODI, 2003, n/p). 
 
O reconhecimento dos direitos da personalidade como visto atualmente vem no contexto 
pós Segunda Guerra Mundial, dado que após as atrocidades cometidas, muitas autorizadas pelos 
ordenamentos jurídicos dos Estados que cometeram tais barbáries (o maior exemplo é a 
14 
 
Constituição da Alemanha pré-Nazista)3, era necessário maior garantia aos direitos intrínsecos 
ao ser humano. Como consequência, o sistema de direito privado, pela via constitucional, 
acabou integrando os direitos da personalidade, não havendo mais dúvida quanto à admissão 
dessa categoria de direitos (NICOLODI, 2003, n/p). 
 
A teoria pluralista se baseia na tese de que os direitos da personalidade tutelam atributos 
da personalidade, logo, o objeto personalidade não se confunde com a pessoa em si sujeito de 
direitos (MOREIRA; PLETI, s/d, n/p), devendo-se tutelar atributos da personalidade, não 
interligados entre si, mas com desígnios autônomos e não sendo protegidos por uma norma ou 
cláusula geral. Dentro dessa teoria, há duas principais divisões: a que considera os direitos da 
personalidade como apenas aqueles que sejam tipificados no ordenamento jurídico, conhecida 
como teoria dos números fechados, fortemente influenciada pelo positivismo jurídico, e a que 
contempla a complexidade da personalidade e busca tutelar novos direitos da personalidade em 
cada caso que surja uma nova demanda de proteção do indivíduo (MOREIRA; PLETI, s/d, n/p). 
 
Atualmente, se encontra consolidada no ordenamento jurídico brasileiro a ideia de 
reconhecimento dos direitos da personalidade como uma pluralidade de direitos que sejam da 
esfera pessoal do ser humano. Essa teoria é conhecida como teoria pluralista dos direitos da 
personalidade. A doutrina pluralista considera como direitos da personalidade como aqueles 
previamente identificados e que representam, cada um, uma parcela da personalidade, não 
havendo ligação entre eles de forma a criar um Direito único da personalidade (MOREIRA; 
PLETI, s/d, n/p). 
 
Contudo, existe há um tempo a teoria do Direito geral da personalidade, no qual “se 
integrariam todos os tipos previstos ou não pelo direito positivo” (QUEIROZ; ZANINI, 2020, 
p. 17). 
 
3 O artigo 48 da Constituição de Weimar estabelecia que, caso a ordem pública estivesse em risco, o presidente 
do Reich poderia, sem necessidade de aval do Legislativo, tomar as medidas necessárias para restituir a lei e a 
ordem. Para isso, poderia suspender direitos civis como Habeas Corpus, inviolabilidade de domicílio, sigilo de 
correspondência, liberdade de expressão, direito de reunião e associação e autorizar expropriações. O artigo 47 foi 
outro dispositivo relevante para a tomada do Estado alemão por Hitler. Segundo ele, o presidente era o supremo-
comandante das Forças Armadas, poderia nomear os seus oficiais e tinha competência para tomar as "medidas 
apropriadas" - incluindo usar militares — para combater distúrbio na ordem ou segurança públicas. RODAS, 
Sérgio. Por prever suspensão de direitos, Weimar facilitou ascensão de ditadura de Hitler. Disponível em 
https://www.conjur.com.br/2019-ago-08/prever-suspensao-direitos-weimar-facilitou-ascensao-hitler. Acesso em: 
14 ago. 2021. 
15 
 
 
O Direito Geral da Personalidade é um instituto que não concebe a ideia da pessoa 
humana como uma série de valores fracionados e autônomos, mas sim uma tutela de forma 
ampla a tudoque se compreende como o indivíduo, uma unidade da personalidade humana 
(QUEIROZ; ZANINI, 2020, p. 23). 
 
Nesta teoria, a proteção seria mais completa pois não necessitaria da previsão pelo 
legislador de todos os aspectos individuais da pessoa humana no ordenamento jurídico local. 
Assim, a teoria caberia mais ao momento atual da humanidade onde as inovações tecnológicas 
trazem uma gama nova de situações constantemente, de forma que a lei está sempre um passo 
atrás (QUEIROZ; ZANINI, 2020, p.27). 
 
Contudo, o reconhecimento de um Direito Geral da Personalidade não necessariamente 
implica na exclusão da catalogação de direitos da personalidade que podem ser expressamente 
tipificados no ordenamento jurídico, de forma a aumentar a tutela de determinado aspecto da 
personalidade. Pois, apesar de mais completa, a teoria do Direito Geral da Personalidade 
tornaria a tutela mais lenta e complexa, já que todo tipo de violação deveria ser reconhecido a 
partir da concretização do direito geral da personalidade. A previsão de direitos especiais da 
personalidade protegeria a pessoa humana de determinadas violações de foram mais céleres 
dada a expressa previsão da sua tutela no ordenamento jurídico. Desse modo, as teorias monista 
e pluralista podem ser concomitantemente utilizadas dentro do mesmo ordenamento jurídico, 
não sendo excludentes entre si (QUEIROZ; ZANINI, 2020, p. 27/28). 
 
Todavia, não é preponderante a teoria monista do Direito da Personalidade dentro da 
doutrina brasileira (QUEIROZ; ZANINI, 2020, p.33). A teoria pluralista ainda encontra maior 
aceitação. Silvio Romero Beltrão se opõe a tese de Direito Geral da Personalidade pois impõe 
“a generalização das situações protegidas, com o indivíduo tendo que se defender não do caso 
típico, mas sim do direito geral, o que pode provocar insegurança jurídica, pela falta de 
percepção social das situações que merecem respeito” (BELTRÃO, 2005, p. 46). Entende o 
autor que a teoria pluralista não exclui a ideia de cláusula geral, que seria a norma de onde os 
direitos especiais da personalidade derivariam de forma a individualizar as características da 
personalidade e as protegendo de forma mais eficiente (BELTRÃO, 2005, p. 46). 
 
16 
 
Para a realização desse trabalho, em virtude da orientação utilizada no julgamento da 
Reclamação objeto do estudo, será utilizada a teoria pluralista como base das conceituações dos 
termos a serem apurados. 
 
2.2 História e recepção dentro do ordenamento jurídico brasileiro 
 
No Brasil, na Constituição Imperial viriam as primeiras aparições de certos direitos da 
personalidade, tais quais a inviolabilidade da liberdade, igualdade e o sigilo de correspondência. 
Já a primeira Constituição Republicana de 1891 acrescentara a tutela estatal aos direitos à 
propriedade industrial e o direito autoral4. Apesar disso, os direitos da personalidade não foram 
matéria presente no Código Civil de 1916. Apenas com a promulgação da Constituição Federal 
de 1988, que dita como princípio basilar da Lei Maior e do ordenamento jurídico a dignidade 
da pessoa humana, houve acolhimento aos demais direitos e garantias fundamentais, em 
especial dos direitos da personalidade, expressos no art. 5.º, inciso X5 (NICOLODI, 2003, n/p). 
 
O atual Código Civil Brasileiro, sancionado em 2002, dada a importância que os direitos 
da personalidade possuem na ordem jurídica vigente, dedicou capítulo especial (Capítulo II, 
artigos do 11 ao 21) aos direitos da personalidade. No capítulo, são positivadas algumas 
características desses direitos como a irrenunciabilidade e intransmissibilidade logo no primeiro 
artigo6, a possibilidade de indenização por lesão a essa categoria de direitos7. Contudo, não há 
previsão expressa a condutas que se caracterizariam como lesão aos direitos da personalidade 
e a previsão expressa de certas categorias de direitos da personalidade tais quais o direito ao 
nome, honra e imagem e à integridade do seu corpo (NICOLODI, 2003, n/p). 
 
Entretanto, o rol e regramento do Código Civil referente aos direitos da personalidade 
não é, de forma alguma, exaustivo. Como a Constituição Federal institui como princípio regente 
 
4 Art.72 - A Constituição assegura a brasileiros e a estrangeiros residentes no paiz a inviolabilidade dos direitos 
concernentes á liberdade, á segurança individual e á propriedade, nos termos seguintes: 
§ 27. A lei assegurará a propriedade das marcas de fabrica. Disponível em: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao91.htm. Acesso em 07 set. 2021. 
5 Artigo 5º, inciso X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o 
direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação. Disponível em: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 20/08/2021. 
6 Artigo 11: Com exceção dos casos previstos em lei, os direitos da personalidade são intransmissíveis e 
irrenunciáveis, não podendo o seu exercício sofrer limitação voluntária. Disponível em: Acesso em: 20/08/2021 
7 Artigo 12: Pode-se exigir que cesse a ameaça, ou a lesão, a direito da personalidade, e reclamar perdas e danos, 
sem prejuízo de outras sanções previstas em lei. Disponível em: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm Acesso em: 20/08/2021 
17 
 
da ordem jurídica nacional a dignidade da pessoa humana, todas as normas devem sujeitar-se a 
este fundamento, mesmo aqueles que regem relações privadas, como é o Código Civil. Tal 
entendimento, inclusive, aparece em Enunciado nº 274, aprovado na IV Jornada de Direito Civil 
do Conselho da Justiça Federal8 (QUEIROZ; ZANINI, 2020, p.32). 
 
O enunciado pode representar uma tendência no ordenamento jurídico que é a 
constitucionalização do Direito Civil. O fenômeno promove uma releitura do Código Civil e de 
outras leis especiais à luz da Constituição Federal. No Código Civil anterior ao atual, de 1916, 
o legislador privilegiava as relações de compra e venda, em um momento que o fundamental à 
recente república brasileira era a circulação de riquezas a fim de desenvolver o Estado e 
economia nacional. Nesse contexto, a influência do direito público nas relações privadas, apesar 
da hierarquia da Constituição Federal, era mínima (TEPEDINO, 2006, p. 38). 
 
Contudo, em cenário após a promulgação da Carta Cidadã de 1988, é colocada em pauta 
a hipótese de maior inserção do Código Civil e de todas as outras normas e leis ao que está 
disposto na Constituição e nos objetivos e deveres que ela impõe ao Estado e população 
brasileira. Logo, a constitucionalização busca uma atualização do Direito privado e alteração 
do foco do legislador apenas aos proprietários, comerciantes e contratantes como era feito 
anteriormente, mas a forma de negociações, o uso dos bens e os impactos sociais advindo dessas 
relações, (TEPEDINO, 2006, p.42 e p.53). 
 
Contudo, cumpre ressaltar que a doutrina majoritária brasileira observa a corrente 
pluralista dos direitos da personalidade (QUEIROZ; ZANINI, 2020, p.23), e, como o julgado 
estudado é decidido com base na ideia de que há dois direitos autônomos em choque e não há 
a afirmação na decisão do Ministro Gilmar Mendes que confirme a existência do Direito Geral 
da Personalidade, o trabalho seguirá a orientação da doutrina pluralista. 
 
Cumpre ressaltar que, conforme a comunidade dentro de determinado Estado passa a 
demandar dos seus representantes uma maior valorização e proteção de condições que tornem 
possíveis uma vida digna, os direitos da personalidade como matéria evolui para se tornar a 
 
8 Os direitos da personalidade, regulados de maneira não-exaustiva pelo Código Civil, são expressões da cláusula 
geral de tutela da pessoa humana, contida no art. 1º, III, da Constituição (princípioda dignidade da pessoa humana). 
Em caso de colisão entre eles, como nenhum pode sobrelevar os demais, deve-se aplicar a técnica da ponderação. 
Disponível em: https://www.cjf.jus.br/cjf/corregedoria-da-justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-
1/publicacoes-1/jornadas-cej/EnunciadosAprovados-Jornadas-1345.pdf. Acesso em: 20 ago. 2021. 
18 
 
mais abrangente possível objetivando a dignidade da pessoa humana e isso, em sua maior 
demonstração na Constituição de 1988, é uma demanda do povo brasileiro (BARROS, 2016, 
n/p). 
 
2.3 Espécies de direito da personalidade 
 
Explicitadas as teorias que versam sobre a natureza dos direitos da personalidade, é um 
fato que no ordenamento jurídico brasileiro há previsão expressa à proteção de direitos especiais 
da personalidade, visto nos artigos citados nos tópicos anteriores e outros mais serão citados 
mais à frente. 
 
Previamente a conceituação das espécies de direito da personalidade que são objeto deste 
estudo, cumpre ressaltar que a promoção e tutela da pessoa humana devem ser amplas. 
Conforme evolução da sociedade e surgimento de novas relações jurídicas que precisam ser 
reguladas, o rol dos direitos da personalidade se amplia (MOREIRA; PLETI, 2011, n/p). Com 
isso, a doutrina e jurisprudência vão reagindo às inovações e situações jurídicas que são 
apresentadas. Portanto, uma classificação só terá interesse como forma de sistematizar e 
facilitar o estudo desses direitos. 
 
Dentre os diversos direitos especiais expressos pelo ordenamento jurídico brasileiros, 
para melhor compreensão deste trabalho, serão conceituados o direito à honra, o direito ao 
nome, o direito à imagem e o direito à intimidade e vida privada. 
 
Com conteúdo fluido e variante, a honra persegue a história das comunidades desde as 
primeiras civilizações, evoluindo com o tempo e as contingências histórico-culturais de um 
determinado povo. Citada para justificar práticas escusas antigas e atuais, tais como a prática 
de duelos na Inglaterra e no mundo, o enfaixamento dos pés na China, a cultura escravagista e 
o atual assassinato de meninas e mulheres em alguns países islâmicos, a honra é conteúdo 
precioso aos direitos da personalidade e de difícil conceituação (REIS JÚNIOR, 2013, p.6). 
 
O conceito de honra se exprime por sua natureza interna (pautada na consciência do ser 
humano de sua própria dignidade) e externa (baseada no respeito e decoro que as pessoas devem 
ter para com as outras). Sendo assim, é possível aferir que direito à honra possui duas 
dimensões: a proteção da dignidade pessoal refletida na consideração dos outros, conhecida 
19 
 
como a honra objetiva, e ao sentimento da própria pessoa, ligado diretamente à dignidade, 
chamada de honra subjetiva (MARQUES, 2010, n/p). 
 
A honra de uma pessoa, no entendimento atual do ordenamento jurídico brasileiro, é 
intimamente ligada à sua própria dignidade, este princípio basilar da Constituição Federal. 
Portanto, a proteção à honra é de ampla importância para o ordenamento jurídico brasileiro, 
especialmente após o processo de constitucionalização do Direito Civil, onde as relações 
privadas passam a ser regidas pelos princípios constitucionais. O Direito à honra, inclusive, é 
diretamente citado na Carta Maior no capítulo dos Direitos Fundamentais (art. 5º, inciso X)9, 
que inclusive garante o direito a indenização em caso de violação (MARQUES, 2010, n/p). 
 
O Direito de imagem, apesar da conotação que essa expressão traz ao imaginário popular, 
não se resume a proteção dos aspectos físicos do indivíduo (BELTRAME, 2020, n/p). “Direito 
de Imagem, em definição simples, constitui a expressão exterior sensível da individualidade 
humana, digna de proteção jurídica” (PAMPLONA FILHO; STOLZE, 2020, n/p). Sendo assim, 
a imagem pode ser caracterizada na percepção física que temos do outro (imagem-retrato) e 
qualquer outra forma de exteriorização da sua identidade e personalidade, esse conceito é 
chamado pelos autores Pamplona e Stolze de imagem-atributo (2020, n/p). 
 
Assim, conclui-se que a imagem protegida pelo direito brasileiro não se limita a uma 
representação gráfica ou física (BELTRAME, 2020, n/p). O direito de imagem abrange a voz 
do indivíduo ou qualquer outra forma de exteriorização da personalidade do indivíduo. A sua 
violação ocorre, pelo disposto no Código Civil vigente, quando a imagem de indivíduo é 
indevidamente utilizada de forma que atinja sua “honra, a boa fama, a respeitabilidade ou se 
destinarem a fins comerciais”10. Também possui previsão expressa na Lei Maior brasileira no 
artigo 5º, inciso X. 
 
 
9 X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a 
indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação. Disponível em: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm. Acesso em: 20 ago. 2021. 
10 Artigo 20: Salvo se autorizadas, ou se necessárias à administração da justiça ou à manutenção da ordem pública, 
a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma 
pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a 
honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais. Disponível em: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm. Acesso em: 20 ago. 2021. 
20 
 
Desde os primórdios que o ser humano começou a formar comunidades, ele buscou forma 
de se identificar e individualizar perante seus semelhantes. Dentre todas os meios de 
identificação, o nome é um dos mais antigos em que há registro. O nome é a primeira forma de 
individualização que possuímos e que não se cessará nem mesmo após a morte ou extinção no 
caso de empresas (SOUZA, s/d, n/p). 
 
Dessa forma, se observa a magnitude da proteção ao nome de pessoas físicas e jurídicas 
(SOUZA, s/d, n/p). Também conhecido como o Direito à identidade, como elucidado por 
Amorim (2003, p.121) “ele gera a seu titular o direito de uso e gozo em todos os momentos de 
sua vida, quer pública ou privada, exigindo de outrem a abstenção de uso e o respeito ao 
mencioná-lo”. O Direito ao nome encontra proteção na Constituição Federal11 e no Código 
Civil de 200212. 
 
A despeito da nomenclatura utilizada, o Direito à intimidade compreende a ideia de 
garantia da privacidade do ser humano e a prerrogativa de todo indivíduo em guardar para si 
mesmo as informações de sua vida pessoal que julgar necessário. O princípio do sigilo, como 
também pode ser denominado, encontra implicações não só na esfera privada como na pública 
pois esse mesmo direito garante que o Estado também não viole essa liberdade (OLIVEIRA, 
2014, n/p). Em relação ao direito à intimidade no ordenamento jurídico brasileiro: 
 
No Brasil, mesmo quando não existia legislação específica quanto ao direito à 
intimidade, esse já se manifestava em diversos dispositivos legais, a exemplo do 
Código Civil de 1916, que muito embora não tenha abordado de forma sistemática a 
matéria em harmonia com as grandes codificações liberais e patrimonialistas, tutelava 
a privacidade da vida doméstica, dispondo a respeito da vizinhança e estabelecendo 
limites à proximidade entre construções prediais e similares.13’(BRUM; GOMES; 
SPAREMBERGER, 2015, p.8). 
 
11 Artigo 5º, inciso XXIX - a lei assegurará aos autores de inventos industriais privilégio temporário para sua 
utilização, bem como proteção às criações industriais, à propriedade das marcas, aos nomes de empresas e a outros 
signos distintivos, tendo em vista o interesse social e o desenvolvimento tecnológico e econômico do País. 
Disponível em: Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 
20 ago. 2021.12 Artigo 16: Toda pessoa tem direito ao nome, nele compreendidos o prenome e o sobrenome. Disponível em: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm. Acesso em: 20 ago. 2021. 
13 Artigo 573: O proprietário pode embargar a construção de prédio que invada a área do seu, ou sobre este deite 
goteiras, bem como a daquele, em que, a menos de metro e meio do seu, se abra janela, ou se faça eirado, terraço, 
ou varanda. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l3071.htm. Acesso em: 20 ago. 2021. 
21 
 
Contudo, atualmente, pela importância que os Direitos Fundamentais possuem no 
ordenamento, é possível notar o direito à intimidade expresso na Constituição Federal no artigo 
5º, inciso X, sendo também a base axiológica dos incisos XI e XII do artigo 5º.14 
 
Apesar dos direitos da personalidade serem intransmissíveis, os direitos citados (honra, 
intimidade, nome e imagem) podem ser protegidos após o falecimento do indivíduo. Para o 
ministro Luis Felipe Salomão do Superior Tribunal de Justiça: 
 
(...) essa proteção é feita em benefício dos parentes dos mortos, para se evitar os danos 
reflexos que podem sofrer em decorrência da injusta agressão moral a um membro da 
família já falecido. Assim como a morte do chefe da família acarreta dano material 
reflexo aos seus dependentes, por ficarem sem o sustento, a ofensa aos mortos atinge 
também reflexamente a honra, a imagem, a reputação dos seus familiares 
sobreviventes (STJ, 2010, n/p). 
 
Com o avanço de novas tecnologias, situações que ameaçam variados direitos da 
personalidade se apresentam constantemente. Com isso, os Poderes Legislativo e Judiciário têm 
buscado se adaptar a essa realidade de forma a proteger os direitos da personalidade. Como 
exemplo, há a Lei nº 12.737/2012, conhecida como Lei Carolina Dieckmann. 
 
A Lei Carolina Dieckmann tipificou os chamados delitos ou crimes informáticos que 
consistiam em violações ao Direito à intimidade, honra e imagem como obtenção e divulgação 
indevida de dados particulares que estivessem presentes na rede de computadores ou dispositivo 
informático. O diploma legal alterou e adicionou dispositivos do Código Penal de forma a punir 
esses novos crimes contra a liberdade individual15. 
 
Em 2021, houve alteração na Lei Carolina Dieckmann pela Lei nº14.155/2021, que além 
de aumentar a pena, promoveu outra alteração importante que deve ser destacada: foi retirado 
o fragmento que regrava só ser possível cometer o crime de violação de dispositivo informático 
se houvesse violação de um mecanismo de segurança.16 
 
14 XI - a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, 
salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial; 
XII - é inviolável o sigilo da correspondência e das comunicações telegráficas, de dados e das comunicações 
telefônicas, salvo, no último caso, por ordem judicial, nas hipóteses e na forma que a lei estabelecer para fins de 
investigação criminal ou instrução processual penal; Disponível em: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em 20 ago. 2021. 
15 Disponível em: https://fmp.edu.br/lei-carolina-dieckmann-voce-sabe-o-que-essa-lei-representa/. Acesso em: 01 
out. 2021. 
16 Art. 154-A. Invadir dispositivo informático alheio, conectado ou não à rede de computadores, mediante violação 
indevida de mecanismo de segurança e com o fim de obter, adulterar ou destruir dados ou informações sem 
22 
 
 
Outra Lei importante acerca dessa questão é o Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965/14) 
que estabeleceu princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da internet no Brasil de 
forma que direitos garantidos constitucionalmente continuariam protegidos dentro do universo 
da rede mundial de computadores17, bem como regular como se daria nesse contexto a atuação 
legislativa e administrativa da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios18. 
 
O Poder Judiciário também tem decidido questões referentes a violações de direitos da 
personalidade em meio cibernético. O Superior Tribunal de Justiça possui jurisprudência sobre 
o conflito entre liberdade de informação e os direitos da personalidade. Em decisão 
paradigmática proferida em 2007, ministro Massami Uyeda, relator do RESP 783.139 suscitou 
tal entendimento: 
 
A liberdade de informação e de manifestação do pensamento não constitui direitos 
absolutos, sendo relativizados quando colidirem com o direito à proteção da honra e 
da imagem dos indivíduos, bem como ofenderem o princípio constitucional da 
dignidade da pessoa humana. (STJ, 2008, n/p). 
 
 
autorização expressa ou tácita do titular do dispositivo ou instalar vulnerabilidades para obter vantagem ilícita. 
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848compilado.htm. Acesso em: 20 ago. 
2021. 
17 Art. 3º A disciplina do uso da internet no Brasil tem os seguintes princípios: 
I - garantia da liberdade de expressão, comunicação e manifestação de pensamento, nos termos da Constituição 
Federal; II - proteção da privacidade. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-
2014/2014/lei/l12965.htm. Acesso em: 20 ago. 2021. 
18 Art. 24. Constituem diretrizes para a atuação da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios no 
desenvolvimento da internet no Brasil: 
I - estabelecimento de mecanismos de governança multiparticipativa, transparente, colaborativa e democrática, 
com a participação do governo, do setor empresarial, da sociedade civil e da comunidade acadêmica; 
II - promoção da racionalização da gestão, expansão e uso da internet, com participação do Comitê Gestor da 
internet no Brasil; 
III - promoção da racionalização e da interoperabilidade tecnológica dos serviços de governo eletrônico, entre os 
diferentes Poderes e âmbitos da Federação, para permitir o intercâmbio de informações e a celeridade de 
procedimentos; 
IV - promoção da interoperabilidade entre sistemas e terminais diversos, inclusive entre os diferentes âmbitos 
federativos e diversos setores da sociedade; 
V - adoção preferencial de tecnologias, padrões e formatos abertos e livres; 
VI - publicidade e disseminação de dados e informações públicos, de forma aberta e estruturada; 
VII - otimização da infraestrutura das redes e estímulo à implantação de centros de armazenamento, 
gerenciamento e disseminação de dados no País, promovendo a qualidade técnica, a inovação e a difusão das 
aplicações de internet, sem prejuízo à abertura, à neutralidade e à natureza participativa; 
VIII - desenvolvimento de ações e programas de capacitação para uso da internet; 
IX - promoção da cultura e da cidadania; e 
X - prestação de serviços públicos de atendimento ao cidadão de forma integrada, eficiente, simplificada e por 
múltiplos canais de acesso, inclusive remotos. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-
2014/2014/lei/l12965.htm. Acesso em: 20 ago. 2021. 
23 
 
Em conclusão, o ordenamento jurídico brasileiro, seja com normas jurídicas e 
jurisprudência, possui diversos posicionamentos sobre a proteção dos direitos da personalidade. 
 
2.4 Direito de sátira 
 
2.4.1 Conceituação 
 
Para se entender o direito de sátira, que pode ser definido como a garantia de se produzir 
conteúdo que utilize do escárnio e ironia19, é necessário primariamente se entender a ideia de 
liberdade de expressão, conceito mais amplo que objetiva assegurar a livre manifestação do 
indivíduo por meio de ideias, pensamentos, expressões verbais ou não e até por meio do 
silêncio, dentro de determinado contexto (BOTTI, s/d, n/p). 
 
No momento em que o ser humano toma consciência de sua própria existência, fazer 
escolhas é um ato inevitável durante todo seu percursoe que irão impactar diretamente sua vida. 
Isso implica afirmar que ele deve ter a prerrogativa de escolher os valores e princípios que o 
guiarão. E para isso, além de ser necessário a liberdade para viver essas escolhas, o indivíduo 
deve ter o direito de expressá-las (COSTA, 2017, p.134). 
 
O direito à liberdade de expressão, além de precípua garantia do indivíduo, é intimamente 
vinculado ao ideal de Estado democrático de Direito, onde todo indivíduo tem direito a exprimir 
seus pensamentos e ideias sem ser censurado previamente por isso (como será trabalhado mais 
a frente, é possível uma censura posterior no caso de colisão da direito à liberdade de expressão 
com outros Direitos Fundamentais), sendo assim um direito essencial na esfera individual de 
cada ser humano mas também imprescindível para o funcionamento da vida pública de 
determinada comunidade que opta pelo sistema político conhecido como Democracia 
(AMARAL, 2019, n/p). 
 
Cumpre ressaltar que acerca do conteúdo do direito à liberdade de expressão, é preciso 
ressaltar que esse tipo de liberdade possui uma dupla dimensão, que é a liberdade de se 
manifestar livremente e de possuir os meios para que receba as manifestações dos outros, 
conhecido como direito à informação (TÔRRES, 2013, p. 62). 
 
19SÁTIRA. Wikipedia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A1tira. Acesso em: 30 set. 2021. 
24 
 
 
Dada a natureza complexa e de leitura ampla do que se considera como expressão, a 
liberdade de manifestação pode ser vista como um conjunto de direitos. O direito de expressar-
se livremente reúne diferentes categorias de liberdades, todas igualmente fundamentais e que 
devem ser protegidas para que esteja garantida a matéria liberdade de expressão em sua 
totalidade (MAGALHÃES, 2008). 
 
Dessa maneira, dentro da liberdade de expressão encontram-se variadas prerrogativas do 
ser humano, como o direito de informar e ser informado, garantia intimamente ligada à 
liberdade de imprensa, a liberdade de reunião, a liberdade religiosa, liberdade de associação 
(todas essas garantidas na Constituição de 1988). Mesmo com diversas previsões positivadas, 
o rol não há de se exaurir nessas possibilidades, devendo a liberdade de expressão ter a 
concepção mais ampla possível de forma a ser garantida à luz de novas situações (TÔRRES, 
2013, p. 63). 
 
Dentro desse vasto campo de liberdades, encontra-se o direito ao pensamento crítico, que 
pode ser feito por meio de sátira. A sátira é uma das incontáveis formas de expressão que o ser 
humano possui, sendo a produção satírica uma demonstração artística ou intelectual, que busca 
tecer uma crítica e provocar o riso no ouvinte ou leitor (AMARAL, 2019, n/p). 
 
Não há consenso de quando criado a primeira sátira ou quando houve a primeira 
conceituação desse gênero literário. Contudo, há relatos de pinturas rupestres que possuíam 
críticas às comunidades e seus agentes. Na Grécia Antiga, em meados do Século V A.C., a 
sátira, na definição atual que tem do termo foi utilizada por autores da Nação para tecer críticas, 
recheadas de ironia, contra os intelectuais gregos. Um dos principais autores que utilizavam da 
sátira era o autor Epicarmo20. Há também relatos de textos satíricos na época do Império 
Romano (Século I A.C.) sendo um dos mais conhecidos o poeta Lucílio21. Mais à frente no 
curso da história, a Idade Média possuía o gênero evidente nas cantigas trovadorescas de 
 
20 Epicarmo foi um poeta e dramaturgo grego. Considerado o primeiro poeta, entre os antigos, a dar 
unidade artística à comédia. EPICARMO. In: Wikipedia. Disponível em: 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Epicarmo#cite_note-1. Acesso em: 30 set. 2021. 
21 Caio Lucílio (em latim, Gaius Lucilius; 180-102 a.C.) é o mais antigo satirista latino cujos textos 
chegaram à época moderna, ainda que em estado fragmentário. Suas sátiras eram consideradas já 
pelos romanos como extremamente mordazes, chegando às raias da invectiva, razão pela q ual 
posteriormente chamou-se luciliânica toda sátira feroz. LUCÍLIO. Wikipedia. Disponível em: 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Luc%C3%ADlio. Acesso em: 30 set. 2021. 
25 
 
escárnio e maldizer. Com isso, constata-se que a sátira esteve junto da humanidade desde uma 
das mais primordiais civilizações pois é um recurso eficaz de criticar os problemas de uma 
determinada comunidade e ainda assim provocar o riso (DIANA, 2017, n/p). 
 
No contexto mundial atual, a liberdade de se manifestar com conteúdo satírico é 
comumente vista como uma marca de países que possuem democracias consolidadas de forma 
que o pensamento crítico é assegurado não importando a quem a crítica é realizada 
(MAGALHÃES, 2016, n/p). Um caso mundial marcante foi o caso Böhmermann que ocorreu 
na Alemanha. 
 
Após a exibição de um vídeo no programa televisivo satírico Extra3 (emissora 
pública alemã NDR, 17.03.2016), que, por meio de uma paródia musical, criticava o 
Presidente turco Recep Tayyip Erdogan, por perseguir minorias étnicas e reprimir 
jornalistas turcos e estrangeiros que o criticassem, o governo turco notificou o 
embaixador alemão para protestar contra a referida sátira e exigir que ela não mais 
fosse exibida. Isso gerou polêmica na Alemanha, com reações políticas, sociais e da 
imprensa. 
Em 31.03.2016, Jan Böhmermann, apresentador do programa televisivo 
satírico Neo Magazin Royale (emissora pública alemã ZDF) retomou o debate sobre 
o vídeo do Extra3 e criticou a postura do presidente turco, afirmando que ele deveria 
entender que sátiras e críticas seriam decorrências da liberdade de expressão, prevista 
na Lei Fundamental alemã. 
A seguir, de forma irônica e alegando que queria explicar ao público e ao 
presidente turco o que seria e o que não seria permitido pelo direito alemão, o 
apresentador decide recitar uma espécie de poema satírico proibido (Schmähgedicht), 
que extrapolaria os limites da crítica (Schmähkritik), a fim de demostrar o que 
realmente seria incompatível com a liberdade de expressão e passível de 
responsabilização jurídica. Assim, tendo ao fundo do palco a imagem da bandeira e 
do presidente turcos, Böhmermann recita o poema satírico proibido, recheado de 
palavras rudes e de baixo calão, referências negativas (de cunho sexual, físico e moral) 
à pessoa do presidente turco e acusações de que ele reprimiria minorias e maltrataria 
curdos e cristãos. (MAGALHÃES, 2016, n/p). 
 
Dito isso, é possível deduzir que os conflitos ligados a críticas políticas, charges, 
humorismo político e sátiras incitam estimulantes desafios de compreensão da liberdade de 
expressão. Ainda que o grau de tolerância próprio da história e da cultura de cada país influencie 
esse debate, e ainda que tal liberdade tenha que observar certos limites e correção de excessos, 
não se deve perder de vista o princípio de que uma ampla liberdade de expressão é essencial 
para a democracia, para o Estado de Direito e para o estímulo ao pensamento crítico. E esse 
paradigma de busca dos limites e restrições ao direito de sátira é encontrado dentro do 
ordenamento jurídico brasileiro (MAGALHÃES, 2016, n/p). 
 
26 
 
2.4.2 histórico na ordem jurídica brasileira 
 
A liberdade de expressão no Brasil é um direito conhecido do ordenamento jurídico 
brasileiro desde a Constituição Imperial de 1824 e possuía menção na Carta Maior do Estado 
Brasileiro até a Constituição de 1937. Contudo, o governo de Getúlio Vargas, período esse que 
também ficou conhecido como Estado Novo, institui nova Constituição em 1937 e a liberdade 
de expressão, assim como outras Garantias Fundamentais, deixam de existir na ordem jurídica 
brasileira (COSTA, 2017, p. 163). 
 
A liberdade de expressão passou a ser reprimida por meio da censura de agentes de 
governo que restringiam manifestações críticas ao regime daépoca. Após o fim do regime 
varguista e em um contexto pós Segunda Guerra Mundial, a Constituição de 1946 apresentou 
o período da redemocratização, que voltou a garantir Direitos Fundamentais. Desde então a 
manifestação do pensamento voltou a ter proteção dentro do novo ordenamento jurídico (Costa, 
2017, p 163). 
 
Já a Constituição de 1967, elaborada pelo regime de ditadura civil-militar, não retirou do 
seu texto o princípio da liberdade do pensamento (nomenclatura que se confunde ao conceito 
de liberdade de expressão). No entanto, restringiu sua aplicação, limitando esse direito para que 
ele não fosse contrário à norma de ordem pública e dos bons costumes, conceitos utilizados 
pelo Governo militar para reprimir manifestações contrárias à ditadura (Costa, 2017, p 163). 
 
A Constituição brasileira de 1988 garante a liberdade de expressão logo no início do seu 
texto no título II, demonstrando o valor deste direito perante o novo ordenamento jurídico 
brasileiro. Nos incisos IV e V do artigo 5º é assegurado a livre manifestação do pensamento, 
vedado o anonimato e assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da 
indenização por dano material, moral ou à imagem. Também assegura a livre expressão da 
atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou 
licença, e protege o amplo acesso à informação (art. 5º, IX e XIV)22. 
 
 
22 IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, 
independentemente de censura ou licença; XIV - é assegurado a todos o acesso à informação e 
resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional. Disponível em: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Aces so em: 20 ago.2021. 
27 
 
Mais à frente, a liberdade de expressão é novamente aludida, no Título VII: Da Ordem 
Social, onde o art. 22023 que busca dar proteção a mais a liberdade de expressão no seu substrato 
de liberdade de informação. Tal artigo também veda em seu parágrafo 2º toda e qualquer 
censura política, ideológica e artística, reafirmando o compromisso do Estado brasileiro com a 
liberdade de expressão plena e a mínima intervenção na comunicação dos seus cidadãos. 
 
Além da proteção constitucional se dar por meio de distintos enunciados normativos, na 
ordem internacional o Brasil é signatário de tratados que reafirmam a liberdade de expressão, 
como a Declaração Universal dos Direitos Humanos, onde se lê, no art. XIX24. Da Convenção 
Americana de Direitos Humanos (1969) – Pacto de San José da Costa Rica – extrai-se também 
que toda pessoa tem o direito à liberdade de pensamento e de expressão25. 
 
Contudo, embora a liberdade de expressão seja imprescindível para a emancipação 
individual e social, sua garantia não se sobrepõe de forma absoluta aos demais direitos, que são 
também essenciais, não sendo assim um direito absoluto (TÔRRES, 2013, p. 65). 
 
Nesses termos, para a doutrina dominante, falar em direito de expressão ou de 
pensamento não é falar em direito absoluto de dizer tudo aquilo ou fazer tudo aquilo 
que se quer. De modo lógico-implícito a proteção constitucional não se estende à ação 
violenta. Nesse sentido, para a corrente majoritária de viés axiológico, a liberdade de 
manifestação é limitada por outros direitos e garantias fundamentais como a vida, a 
integridade física, a liberdade de locomoção. Assim sendo, embora haja liberdade de 
manifestação, essa não pode ser usada para manifestação que venham a desenvolver 
atividades ou práticas ilícitas (antissemitismo, apologia ao crime) (FERNANDES, 
2020, p. 478). 
 
E dentro dessa elucidação, se encontram também as limitações ao direito de sátira. 
 
 
23 Art. 220. A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo 
ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição. Disponível em: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 20 ago. 2021. 
24 todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado 
pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por 
qualquer meio de expressão. Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/declaracao-universal-dos-direitos-
humanos. Acesso em: 20 ago. 2021. 
25 ARTIGO 13 
Liberdade de Pensamento e de Expressão 
1. Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento e de expressão. Esse direito compreende a liberdade de 
buscar, receber e difundir informações e idéias de toda natureza, sem consideração de fronteiras, verbalmente ou 
por escrito, ou em forma impressa ou artística, ou por qualquer outro processo de sua escolha. Disponível em: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d0678.htm. Acesso em: 20 ago. 2021. 
28 
 
Embora a Constituição Federal tenha imposto certos limites à liberdade de expressão 
como vedação do anonimato (art. 5º, IV); direito de resposta (art. 5º, V); restrições à propaganda 
comercial de tabaco, bebidas alcoólicas, agrotóxicos e terapias (art. 220, § 4º); classificação 
indicativa (art. 21, XVI) (STF, 2018); o constituinte brasileiro não definiu hierarquia dentre os 
Direitos Fundamentais nem estabeleceu a forma de resolver esses conflitos. Dessa forma, essa 
tarefa fora submetida ao Poder Judiciário (os métodos utilizados pelos magistrados serão 
delineados mais à frente neste trabalho, sendo importante no momento apenas como tem 
decidido o Supremo Tribunal Federal). 
 
Desde a promulgação da Carta Maior de 1988, há vasto número de julgados em que se 
discutiu os limites da liberdade de expressão em virtude de afronta a outros Direitos 
Fundamentais, havendo decisões onde a liberdade de expressão predominou; outras que esse 
direito teve de ser restringido em favor da garantia de outros Direitos Fundamentais. 
 
Em notório julgamento do Supremo Tribunal Federal, a Suprema Corte brasileira 
entendeu pela restrição da liberdade de expressão em favor de outros Direitos Fundamentais 
(como igualdade e dignidade da pessoa humana). 
 
Siegfried Ellwanger, era diretor da Revisão Editora Ltda, responsável por editar e 
distribuir livros considerados antissemitas. Denunciado pelo Ministério Público do Rio Grande 
do Sul em 1991 pelo crime de racismo, seu processo foi julgado pelo STF em 2003 que decidiu 
por manter a condenação em desfavor do Ellwanger (VIOLANTE, 2010, n/p), pois houve o 
entendimento do Tribunal que: 
 
(...) 1. Escrever, editar, divulgar e comerciar livros "fazendo apologia de idéias 
preconceituosas e discriminatórias" contra a comunidade judaica (Lei 7716/89, artigo 
20, na redação dada pela Lei 8081/90) constitui crime de racismo sujeito às cláusulas 
de inafiançabilidade e imprescritibilidade, artigo 5º XLII (...)” e “ (...) o preceito 
fundamental de liberdade de expressão não consagra o "direito à incitação ao 
racismo", dado que um direito individual não pode constituir-se em salvaguarda de 
condutas ilícitas, como sucede com os delitos contra a honra. Prevalência dos 
princípios da dignidade da pessoa humana e da igualdade jurídica (...) (STF, 2004, 
n/p). 
 
Em outro julgado consideravelmente recente, o STF debateu os limites da sátira no 
tocante a recursos humorísticos envolvendo candidatos e partidos políticos durante período 
eleitoral. Em 2010, o STF julgou a ADI 4451-MC. Nessa ação direta de inconstitucionalidade, 
alegava-se que os incisos II e III do art. 45 da Lei das Eleições (Lei 9.504/97) constituiriam 
29 
 
barreira à veiculação de sátiras, charges e programas humorísticos sobre questões ou 
personagens políticos durante o período eleitoral e haveria restrição indevida ao direito de 
divulgação de temas políticos polêmicos,sob o argumento de favorecimento de candidatos ou 
partidos durante o período eleitoral. Às vésperas do pleito, o relator Ministro Ayres Britto 
deferiu a liminar para suspender as restrições mencionadas, por entender se tratar de proibição 
aparentemente inconstitucional do direito de crítica jornalística, em especial dos programas de 
humor (MAGALHÃES, 2016, n/p). 
 
O julgado acentuou que programas humorísticos e suas mais diversas formas de expressão 
como charges, quadros, frases, integram a liberdade de imprensa e o exercício dessa liberdade 
em plenitude assegura ao jornalista ou humorista o direito de tecer críticas a qualquer pessoa 
ou instituição, especialmente contra as autoridades públicas, o que não configura um abuso de 
direito visto que ainda seria garantido eventual direito de resposta proporcional ao agravo 
conforme prevê nossa Lei Maior (artigo 5º, inciso V) e responsabilidade penal e civil pelos 
possíveis excessos (MAGALHÃES, 2016, n/p). 
 
A conclusão da Corte, logo, foi de não haver lugar para a censura, e que a restrição, a 
subordinação e a forçosa adequação da liberdade de expressão a normas cerceadoras durante o 
período eleitoral (ou qualquer outro período) tem a clara finalidade de diminuir a liberdade de 
opinião, a criação artística e a livre multiplicidade de ideias, nesse contexto se inserindo a 
produção e a veiculação de charges, sátiras e programas humorísticos que envolvam partidos 
políticos, pré-candidatos e autoridades em geral (MAGALHÃES, 2016, n/p). 
 
Em outra decisão onde o STF mais uma vez se pôs do lado da liberdade de expressão e 
contra a interferência do Estado à manifestação de pensamento foi na ADPF 130. 
 
Em 2009, ao julgar a dita Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (STF, 
2009), o STF decidiu pela não-recepção da Lei de Imprensa (Lei no 5.520/67), diploma 
normativo anterior à Constituição Federal de 1988 e elaborado quando o Brasil se encontrava 
em uma ditadura civil-militar que cerceava inúmeros Direitos Fundamentais. No caso, 
acentuou-se a relação de inerência entre pensamento crítico e imprensa livre, a qual funcionaria 
como instância natural de formação da opinião pública e como alternativa à versão oficial dos 
fatos (MAGALHÃES, 2016, n/p). 
 
30 
 
A Corte destacou que: 
 
(...) Pensamento crítico é parte integrante da informação plena e fidedigna. O possível 
conteúdo socialmente útil da obra compensa eventuais excessos de estilo e da própria 
verve do autor. O exercício concreto da liberdade de imprensa assegura ao jornalista 
o direito de expender críticas a qualquer pessoa, ainda que em tom áspero ou 
contundente, especialmente contra as autoridades e os agentes do Estado. A crítica 
jornalística, pela sua relação de inerência com o interesse público, não é 
aprioristicamente suscetível de censura, mesmo que legislativa ou judicialmente 
intentada (STF, 2009, p.7). 
 
Nesse julgamento, houve referência a mais de 20 decisões de cortes estrangeiras nos votos 
dos ministros, como meio de ilustrar a amplitude e limites da liberdade de expressão, a partir 
de distintos coloridos históricos e culturais (MAGALHÃES, 2016, n/p). 
 
Posto isso, conclui-se que a Corte superior do Brasil, o Supremo Tribunal Federal, como 
guardião da Constituição Federal, tem protegido o direito à liberdade de expressão em suas 
mais diversas subdivisões, como a liberdade de imprensa e liberdade de crítica, entendendo que 
qualquer ingerência do Estado a esse Direito importaria em sua violação ou anulação. Nessa 
perspectiva, não caberia ao Estado regulamentar tal direito, a não ser para ampliar as condições 
de sua efetivação. Nessa linha de raciocínio, uma vez que o constituinte originário não fez 
restrições a tais liberdades, presume-se que também não permitiu expressamente que lei 
infraconstitucional o fizesse. Assim, ainda que na figura do Judiciário, não poderia o Estado 
interferir no exercício da liberdade de imprensa (TÔRRES, 2013, p. 64). 
31 
 
3 - COLISÃO NORMATIVA ENTRE NORMAS CONSTITUCIONAIS 
 
3.1 O que são colisões normativas? 
 
Antes de examinar-se os casos de colisão entre normas constitucionais, deve-se 
compreender o conceito de antinomias. Para Hans Kelsen, ocorre uma antinomia quando “uma 
norma determina uma certa conduta como devida e outra norma determina também como 
devida uma outra conduta, inconciliável com aquela” (KELSEN, 1998, p. 143). Elas podem 
ocorrer não só no conflito entre normas, mas entre dois princípios ou uma norma e um princípio 
do ordenamento jurídico (ALVES, 2010, n/p). 
 
As antinomias são classificadas quanto a sua solução como antinomias aparentes e 
antinomias reais. As antinomias aparentes são aquelas que possuem um metacritério para 
solução de conflito, ou seja, um método preestabelecido e objetivo que o julgador ou qualquer 
pessoa interessada no embate entre normas poderá conferir e resolver o problema. Dentro da 
categoria de antinomias aparentes, há as de primeiro grau e as de segundo grau. O primeiro 
grupo é composto por conflitos que podem ser solucionados através da aplicação dos critérios 
hierárquico, cronológico e da especialidade (DINIZ, 1998, p. 26). 
 
O critério cronológico (lex posterior derogat legi priori) se baseia no período em que as 
normas entram em vigor. Tendo duas normas incompatíveis será mantida a norma posterior 
(Lex posterior) (DINIZ, 1998, p. 34). Bobbio (1995, p. 93) argui que há uma norma geral do 
Direito que a vontade que motiva o legislador em norma posterior será sempre superior a norma 
anterior, sendo assim o último ato tendo maior valor, desde que as normas sejam de igual 
hierarquia. É positivado no ordenamento jurídico brasileiro no artigo 2º, § 1º, da Lei de 
Introdução às Normas do Direito brasileiro.26 
 
O critério hierárquico (Lex superior derogat legi inferiori) tem como pilar a posição da 
norma dentro da hierarquia do ordenamento jurídico (BOBBIO, 1995, p. 93). Como ensina 
Kelsen (1998, p.155), as normas de um ordenamento jurídico são escalonadas, retirando sua 
validade das normas superiores, sendo a Constituição a norma superior a todas as outras. Assim 
 
26 Artigo 2º, parágrafo 1º: A lei posterior revoga a anterior quando expressamente o declare, quando seja com ela 
incompatível ou quando regule inteiramente a matéria de que tratava a lei anterior. Disponível em: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del4657compilado.htm. Acesso em: 20 ago. 2021. 
32 
 
sendo, havendo duas normas incompatíveis, a norma superior revoga a inferior, como exemplo, 
no caso de norma constitucional versando sobre mesma matéria de norma do Código Civil, 
prevalece a norma da Constituição Federal (KELSEN, 1998, p. 144). 
 
O critério de especialidade (Lex specialis derogat legi generali) trata da prevalência das 
normas especiais em relação às normas gerais (BOBBIO, 1995, p. 96). Bobbio (1995, p. 96) 
categoriza essas espécies legais como “lei especial é aquela que anula uma lei mais geral, ou 
que subtrai de uma norma uma parte da sua matéria para submetê-la a uma regulamentação 
diferente.” Este critério também se encontra na Lei de Introdução às Normas do Direito 
Brasileiro, em seu artigo 2º, § 2º.27 
 
As antinomias aparentes de segundo grau decorrem da existência de normas conflituosas 
onde e que envolvem dois dos critérios expostos acima simultaneamente, portanto, necessitando 
de novos fundamentos para a resolução (DINIZ, 1998, p. 50/51). 
 
Em caso de antinomia de segundo grau aparente, quando se tem um conflito de uma 
norma especial anterior e outra geral posterior, o critério a ser utilizado deve ser o da 
especialidade, valendo a primeira norma no caso mencionado. No caso de norma superior 
anterior e outra inferior posterior versando sobre a mesma matéria, persiste o critério 
hierárquico (DINIZ, 1998, p. 51). Agora, quando se tem conflito entre umanorma geral superior 
e outra norma, especial e inferior, não há solução exata. Para Maria Helena Diniz28 esse caso 
não há metacritério que solucione, devendo ser utilizado pelo julgador métodos interpretativos 
e racionais para resolução, configurando-se como um caso de antinomia real. 
 
27 Artigo 2º, parágrafo 2º: A lei nova, que estabeleça disposições gerais ou especiais a par das já existentes, não 
revoga nem modifica a lei anterior. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-
lei/del4657compilado.htm. Acesso em: 20 ago. 2021. 
28 No conflito entre o critério hierárquico e o de especialidade, havendo uma norma superior-geral e outra norma 
inferior especial, não será possível estabelecer uma meta-regra geral, preferindo o critério hierárquico ao da 
especialidade ou vice-versa, sem contrariar a adaptabilidade do direito. Poder-se-á, então, preferir qualquer um 
dos critérios, não existindo, portanto, qualquer prevalência. Todavia, segundo Bobbio, dever-se-á optar, 
teoricamente, pelo hierárquico; uma lei constitucional geral deverá prevalecer sobre uma lei ordinária especial, 
pois se se admitisse o princípio de que uma lei ordinária especial pudesse derrogar normas constitucionais, os 
princípios fundamentais do ordenamento jurídico estariam destinados a esvaziar-se, rapidamente, de seu conteúdo. 
Mas, na prática, a exigência de se adotarem as normas gerais de uma Constituição a situações novas levaria, às 
vezes, à aplicação de uma lei especial, ainda que ordinária, sobre a Constituição. A supremacia do critério da 
especialidade só se justificaria, nessa hipótese, a partir do mais alto princípio da justiça: suum cuique tribuere, 
baseado na interpretação de que ‘o que é igual deve ser tratado como igual e o que é diferente, de maneira 
diferente’. Esse princípio serviria numa certa medida para solucionar antinomia, tratando igualmente o que é igual 
e desigualmente o que é desigual, fazendo as diferenciações exigidas fática e valorativamente. Diniz, Maria 
Helena. Conflito de Normas, 1998, p. 50-51. 
33 
 
As antinomias reais são solucionadas por outros critérios, critérios esses que não são 
consenso entre todos os operadores do Direito. A antinomia real não poderá ser solucionada 
pelos metacritérios já apresentados, utilizados nas antinomias aparentes, contudo poderá ser 
solucionada pela edição de uma norma definindo que, em caso de antinomia, uma das duas ou 
ambas perdem a validade (KELSEN, 1962 apud DINIZ,1998, p.53/54). 
 
Essa forma não evita, contudo, que haja risco de a antinomia ressurgir. Ou o Poder 
Judiciário pode resolver com base em princípios gerais do direito, outras fontes como analogia 
e decisões de outras legislações e seguindo os interesses predominantes da sociedade. Nesse 
caso, não se resolve a colisão normativa, apenas define a norma que deve prevalecer em um 
caso submetido à apreciação judicial, aplicando-se os artigos 4º29 e 5º30 da LINDB (DINIZ, 
1998, p.57/58). Dentro desta alternativa, há 2 tipos de recursos interpretativos que podem ser 
empregados. 
 
O primeiro é o método subsuntivo de aplicação do direito. É utilizado pelo julgador ao 
enquadrar uma das normas legais em abstrato ao caso concreto. É a adequação do fato concreto 
(norma-fato) à norma jurídica (norma-tipo), decidindo pela inaplicabilidade de uma das normas 
conflituosas àquele caso (LIMA, 2014, n/p). Como ensina Barroso (2001, p. 25): 
 
Um típico operador jurídico formado na tradição romano-germânica, como é o caso 
brasileiro, diante de um problema que lhe caiba resolver, adotará uma linha de 
raciocínio semelhante à que se descreve a seguir. Após examinar a situação de fato 
que lhe foi trazida, irá identificar no ordenamento positivo a norma que deverá reger 
aquela hipótese. Em seguida, procederá a um tipo de raciocínio lógico, de natureza 
silogística, no qual a norma será a premissa maior, os fatos serão a premissa menor e 
a conclusão será a conseqüência do enquadramento dos fatos à norma. Esse método 
tradicional de aplicação do direito, pelo qual se realiza a subsunção dos fatos à norma 
e pronuncia-se uma conclusão, denomina-se método subsuntivo. 
 
Já o segundo método para tomada de decisão, consagrado no parágrafo 2º do artigo 489 
do Código de Processo Civil31, é a técnica de ponderação de princípios, regras e normas. 
 
29 Art. 4º: Quando a lei for omissa, o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia, os costumes e os princípios 
gerais de direito. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del4657compilado.htm. Acesso 
em: 20 ago. 2021. 
30 Art. 5º: Na aplicação da lei, o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum. 
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del4657compilado.htm. Acesso em: 20 ago. 
2021. 
31 § 2º No caso de colisão entre normas, o juiz deve justificar o objeto e os critérios gerais da ponderação efetuada, 
enunciando as razões que autorizam a interferência na norma afastada e as premissas fáticas que fundamentam a 
conclusão. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm. Acesso em: 
20 ago. 2021. 
34 
 
3.2 Técnica de ponderação de interesses 
 
Por tratar-se de uma resolução que demanda interpretação, para que a decisão seja bem 
fundamentação, os critérios utilizados para resolução devem ser racionais e passíveis de 
moderação, em ordem ao que prescreve o artigo 489, parágrafo 2º do Código de Processo Civil. 
Para isso, o julgador deve analisar, a priori, qual o peso que a ordem jurídica dá a cada direito 
envolvido, de forma a conferir se há a mesma relevância entre os interesses conflitantes ou se 
há algum dos Direitos Fundamentais que se sobreponha ao outro. Após, deve verificar qual o 
direito que possui a maior incidência na lide em questão, sendo a incidência do Direito 
inversamente proporcional ao grau de restrição que ele possa sofrer (Karam, 2011, p. 22). 
 
A intepretação para sopesamento dos interesses deve seguir o princípio da 
proporcionalidade em sua tríplice dimensão: adequação, necessidade e proporcionalidade 
strictu sensu (BARCELLOS, 2005, p. 83). Essa divisão é entendida como subprincípios dentro 
do princípio da proporcionalidade. Para Humberto Ávila: 
 
O exame de proporcionalidade aplica-se sempre que houver uma medida concreta 
destinada a realizar uma finalidade. Nesse caso devem ser analisadas as possibilidades 
de a medida levar à realização da finalidade (exame da adequação), de a medida ser a 
menos restritiva aos direitos envolvidos dentre aquelas que poderiam ter sido 
utilizadas para atingir a finalidade (exame de necessidade) e de a finalidade pública 
ser tão valorosa que justifique tamanha restrição (exame da proporcionalidade em 
sentido estrito). (ÁVILA, 2018, p. 207). 
 
Antes do aprofundamento do conceito das 3 dimensões, urge definir o princípio da 
proporcionalidade em sua natureza ampla. Este princípio garante que nenhum direito, por mais 
relevante ao ordenamento jurídico, possa se sobrepor ao que é mais benéfico para a sociedade, 
sendo assim, ele obriga o julgador (e qualquer agente público, falando na esfera administrativa) 
a sempre ser razoável em suas decisões, de forma a se comprometer com o direito das partes 
envolvidas e com os interesses da sociedade, de forma a não restringir em excesso nenhum 
indivíduo ou grupo (RAMOS, 2011, n/p). Dado o panorama geral, em análise seus 3 
subprincípios. 
 
Cumpre ressaltar que essas divisões do princípio da proporcionalidade, a fim da aplicação 
correta, devem ser obedecidas dentro de uma ordem (LIMA, 2014, n/p). 
 
35 
 
No subprincípio da adequação, se entende que o julgador irá almejar a decisão que seja o 
meio mais apropriado para resolução do caso. Logo, a adequação se refere a qualidade de