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Universidade Federal de Juiz de Fora 
Faculdade de Enfermagem 
Mestrado em Enfermagem 
 
 
 
 
Katiusse Rezende Alves 
 
 
 
 
 
FILOSOFIA, VALORES E CONCEITOS DA CLÍNICA AMPLIADA NA PRÁTICA DE 
ENFERMEIROS DA REDE DE ATENÇÃO À SAÚDE MENTAL 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Juiz de Fora 
2012 
 
 
Katiusse Rezende Alves 
 
 
 
 
 
 
 
FILOSOFIA, VALORES E CONCEITOS DA CLÍNICA AMPLIADA NA PRÁTICA DE 
ENFERMEIROS DA REDE DE ATENÇÃO À SAÚDE MENTAL 
 
 
 
Dissertação apresentada ao Curso de 
Mestrado em Enfermagem da Faculdade 
de Enfermagem, da Universidade Federal 
de Juiz de Fora, como requisito parcial 
para a obtenção do título de Mestre em 
Enfermagem. 
Área de concentração: Ciências da saúde; 
Enfermagem Psiquiátrica. 
Orientador: Prof.Dr. Marcelo da Silva 
Alves 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Juiz de Fora 
2012 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
REZENDE-ALVES, Katiusse. 
 
Filosofia, valores e conceitos da clínica ampliada na prática de 
enfermeiros da rede de atenção à saúde mental. Katiusse Rezende Alves 
2012. 
95f. 
 
Dissertação de mestrado (Mestrado em Enfermagem) - Faculdade de 
Enfermagem, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2012. 
 
 
1. Enfermagem. 2. Saúde mental. 3. Filosofia em enfermagem. 4. Cuidados 
de enfermagem. 5. Assistência centrada no paciente. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
À minha família. 
Aos meus mestres. 
Aos meus amigos. 
 
 
AGRADECIMENTOS 
 
 
A Deus e à Espiritualidade. 
 
Ao meu orientador Marcelo da Silva Alves pela confiança, parceria, incentivo e 
convivência amistosa e agradável durante o período que estivemos juntos. 
 
Às professoras Cristina Maria Douat Loyola, Teresa Cristina Soares e Geovana 
Brandão Santana Almeida por terem aceitado fazer parte da minha banca. 
 
À coordenação do Curso de Pós-Graduação e à Faculdade de Enfermagem/UFJF. 
 
Aos professores do Curso de Mestrado. 
 
Às professoras Cristina Arreguy Senna, Mariléia Leonel e Arlete Moreira do Amaral 
por terem contribuído em diferentes momentos com a minha formação acadêmica. 
 
Aos colegas do Curso de Mestrado em Enfermagem Ana Beatriz, Fábio, 
Fabíola,Fernanda, Flávia, Gisele, Juliana, Raquel e Sibely por compartilharem da 
realização deste sonho que foi o mestrado para todos nós e pelas amizades que 
surgiram. 
 
Aos pacientes que encontro pela vida através da atuação na saúde mental pelo 
carinho e pelo muito que aprendo com eles a cada dia. 
 
Aos profissionais que me receberam e me concederam entrevistas. 
 
Aos amigos que estiveram ao meu lado pelas contribuições, apoio e incentivo e ao 
Ricardo pela parceria. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
RESUMO 
 
 
REZENDE-ALVES, Katiusse.Filosofia, valores e conceitos da clínica ampliada na 
prática de enfermeiros da rede de atenção à saúde mental. 2012. 95 f. 
Dissertação (Mestrado) - Faculdade de Enfermagem, Universidade Federal de Juiz 
de Fora, Juiz de Fora, 2012. 
 
Os movimentos de reforma sanitária e psiquiátrica ocorridos na segunda metade do 
século XX no Brasil impulsionaram mudanças no pensar e no fazer das práticas em 
saúde mental. Desde então, a Enfermagem passou a ter o desafio quotidiano, nos 
serviços, de superar suas dificuldades na assistência aos usuários portadores de 
transtornos mentais oriundas da visão social da loucura e cristalizada pelos estigmas 
sociais que essa parcela da população carrega, historicamente, de serem indivíduos 
alienados, perigosos e agressivos. Assim, este estudo sobre a filosofia, valores e 
conceitos de clínica ampliada na visão de enfermeiros que atuam nos serviços que 
compõem a rede de atenção à saúde mental de um município da Zona da Mata 
mineira teve como objetivo analisar qual é a filosofia e quais são os valores e 
conceitos de clínica ampliada na visão destes profissionais à luz do referencial 
teórico e filosófico da microssociologia compreensiva proposto por Michel Maffesoli. 
Trata-se de uma pesquisa qualitativa descritiva exploratória que teve como sujeitos 
da investigação 30 enfermeiros. Adotou-se como perspectiva de investigação a 
compreensão da vivência social em profundidade. A coleta de dados foi realizada 
através de entrevista semiestruturada e os dados foram transcritos, tratados e 
categorizados em unidades de significados, em seguida, foram triangulados a fim de 
alcançar o máximo possível de abrangência na descrição, explicação e 
compreensão do objeto de estudo. A investigação mostrou que o cuidado da 
Enfermagem na área da saúde mental ainda necessita ser fundamentado na 
filosofia, nos valores e conceitos da clínica ampliada e da Reforma Psiquiátrica, a fim 
 
 
 
de garantir que a assistência seja centrada na pessoa e não apenas no enfoque 
biológico das doenças, ou seja, no sujeito singular, social, histórico, cultural e 
subjetivo, que, em algum momento de sua vida, apresenta alguma necessidade 
relacionada à saúde mental. Além disso, foi constatada a necessidade de 
investimentos na formação dos profissionais para o manejo desta população e na 
organização de uma rede de serviços de saúde mental resolutiva. O estudo mostrou 
a Enfermagem, conforme está posta, mergulhada nos pressupostos da 
modernidade, que delimitam o fazer como um ―deve ser‖ e um ―deve fazer‖ 
interligado ao trabalho médico, que não harmoniza com as ideias da pós-
modernidade. Este espaço-tempo encerra a existência, no quotidiano, de pequenas, 
mas importantes coisas que vão dando contorno ao cuidado humano, construindo as 
relações interpessoais e sociais entre sujeito-profissional e sujeito-paciente e 
também a esperança de uma Enfermagem capaz de superar suas fragilidades e 
contribuir para a transformação do contexto social no qual convive, sobretudo no 
campo da saúde mental. Assim, fazem-se necessárias, na Enfermagem, a adoção 
de bases filosóficas que deem suporte a este fazer da ótica pós-moderna e que 
sejam capazes de considerar o contexto das interações e os aspectos humanístico e 
subjetivo que cercam cada encontro de cuidado. Para que se vejam sujeitos em vez 
de loucos, drogados, alienados destituídos de razão e de capacidade de convívio 
social, é necessário ―trocar os óculos‖ e buscar o humano, colocando-o como centro 
do processo de cuidado. 
 
 
Palavras chave: Enfermagem.Saúde mental.Filosofia em enfermagem. Cuidados de 
enfermagem. Assistência centrada no paciente. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
ABSTRACT 
 
 
REZENDE-ALVES, Katiusse.Filosofia, valores e conceitos da clínica ampliada na 
prática de enfermeiros da rede de atenção à saúde mental. 2012. 95 f. 
Dissertação (Mestrado) - Faculdade de Enfermagem, Universidade Federal de Juiz 
de Fora, Juiz de Fora, 2012. 
 
The sanitary and psychiatric movements that happened in the 2nd half of the 20th 
century impelled changes in the way of thinking and mental health practicing. Since 
then Nursing started having a daily working challenge, of overturning its difficulties in 
assisting at those who carry mental disturbances , difficulties that sprung up from the 
social stigma that became a burden to those who, along history, carry the fame of 
being insane, dangerous and aggressive. This way, this study on the philosophy, 
merits and concepts of a widened clinic , under the vision of the nurses who work at 
a net of mental health care of a city of a Zona da Mata region, state of Minas Gerais, 
had as an aim the analysis of what is the philosophy and what are the merits and 
concepts of a widened clinic, under the vision of those professionals ,following the 
theoretical and philosophical reference of understandable ―microsociology‖ placed 
by Michel Maffesoli. It deals with an exploring, descriptive and qualifying survey 
which had 30 nurses as the aim of investigation. The comprehensionof social living, 
in its deepest, was adopted as the perspective of investigation. The gathering of 
information was done through a semi-structured interview , transcription, explanation 
and understanding of the object of the study. The investigation has shown that the 
nursing care in the mental area still needs to be based on the philosophy, merits and 
concepts of the widened clinic as well as the Psychiatric Reformation, in order to 
assure an assistance focused on the person not on the biological aspects of the 
sicknesses , in other words, on the singular, social, historical ,cultural and subjective 
being that, at any time of its life, has shown any need related to mental health. 
Furthermore, it was verified the need of investing in the graduation of professionals 
for the handling of this population and the organization of a defining mental health 
service net. This study has shown that nursing, in its present context, is dove in the 
modernity conjectures that delimit the acting as a ―must be‖ and a ―must do‖ 
 
 
 
connected to the doctor’s work, what doesn’t match with the post-modernity ideas. 
This space-time encloses the existence, in our daily life, of small but important things 
which keep giving boundaries to human care, building social and inter-personal 
relations between the professional –being and the patient-being and, also, the hope 
of a nursing able to surpass its weaknesses and contribute to the transformation of 
its living, social context, moreover in the field of mental health. Thus, nursing requires 
a philosophical basis that supports this post-modern option and are able to consider 
the context of the interactions and the personal and humanistic aspects that surround 
every meeting with a lot of care. In order to see human beings, instead of madmen, 
addicts, mindless lunatics, unable of social intimacy, it’s necessary a ―changing of 
glasses‖ and a searching of the human as the center of the caring process. 
 
 
KEYWORDS: Nursing. Mental health.Philosophy nursing.Nursing care. Patient-
centered care. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SUMÁRIO 
 
 
1 INTRODUÇÃO....................................................................................... 10 
2 REFERENCIAL TEÓRICO.................................................................... 14 
2.1 A FILOSOFIA COMO FORMA EXPLICATIVA DO PENSAR 
HUMANO............................................................................................... 
 
14 
2.2 CONCEITOS E VALORES: Contextualizando os modos de ser no 
mundo.................................................................................................... 
 
16 
2.3 A MICROSSOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MICHEL 
MAFFESOLI........................................................................................... 
 
18 
2.4 SAÚDE MENTAL E A REDE DE ATENÇÃO À SAÚDE........................ 20 
2.5 A CLÍNICA AMPLIADA E A REDE DE SERVIÇOS............................... 29 
2.6 A ENFERMAGEM E A SAÚDE MENTAL.............................................. 35 
3 MÉTODOS E TÉCNICAS...................................................................... 41 
3.1 REFERENCIAL METODOLÓGICO....................................................... 41 
3.2 SUJEITOS DA PESQUISA.................................................................... 41 
3.3 CENÁRIO DE ESTUDO......................................................................... 43 
3.4 A COLETA E TRATAMENTO DOS DADOS......................................... 44 
4 RESULTADOS...................................................................................... 46 
4.1 O CUIDADO PENSADO E VIVIDO NA REDE DE ATENÇÃO À SAÚDE 
MENTAL: Valores, conceitos e filosofias inespecíficas descontextualizando 
o atendimento...................................................... 
 
 
47 
4.2 O CUIDADO PENSADO E VIVIDO NA REDE DE ATENÇÃO À SAÚDE 
MENTAL: Relativizando valores, conceitos e filosofias específicas na 
contextualização do 
atendimento........................................................................................... 
 
 
 
51 
4.3 CONCEPÇÕES DE CLIENTES NA CLÍNICA VIVIDA NO DIA A DIA: 
Sujeitos das práticas de saúde como um valor da 
atenção.................................................................................................. 
 
 
57 
4.4 CLÍNICA AMPLIADA: Concepções, valores e conceitos correlatos aos 
aspectos humanísticos da enfermagem......................................... 
 
65 
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................. 75 
REFERÊNCIAS............................................................................................... 80 
APÊNDICE....................................................................................................... 92 
ANEXO............................................................................................................ 93 
 
11 
 
 
 
1 INTRODUÇÃO 
 
 
A Enfermagem tem acompanhado, ao longo do tempo, mudanças nas 
concepções filosóficas, ideológicas e teóricas na área da saúde mental que têm 
refletido no âmbito da assistência praticada no país. Através da história, observa-se 
que o trabalho da Enfermagem em saúde mental esteve atrelado à prática médica, 
voltado, sobretudo, para a atenção hospitalar. A partir dos movimentos das 
Reformas Psiquiátrica e Sanitária e da criação do Sistema Único de Saúde foram 
introduzidas novas formas de pensar e implementar a assistência a uma parcela da 
população até então relegada aos espaços asilares. 
Com a introdução dos pressupostos teóricos e filosóficos dos movimentos 
reformistas, a atenção dos profissionais da Enfermagem necessitou mudar de uma 
atuação voltada para a vigilância, o controle e a centralização na doença para outra 
que necessita ser reinventada no quotidiano dos cenários de prática. Estes 
passaram de serviços fechados para espaços abertos e comunitários em que 
pacientes, famílias e comunidades constituem atores importantes. 
Nesta perspectiva, a relação não deve ser marcada pelo poder do 
profissional sobre o paciente, como ocorria no modelo asilar, surgindo a 
necessidade de estabelecer uma relação de vínculo e confiança entre profissionais e 
usuários a fim de desenvolver uma assistência baseada na corresponsabilidade e 
implicação de ambos no tratamento. 
A escuta do que está nas entrelinhas, do que é dito e do não dito pelo 
paciente e a observação do que é objetivo e subjetivo são ferramentas 
indispensáveis à modalidade de cuidado do modelo psicossocial. O cuidado não 
demanda procedimentos com alta densidade tecnológica para ser implementado, ao 
contrário, utiliza pouca tecnologia pesada, pois é atravessado, a todo momento, pela 
relação humana e pela concepção do paciente como sujeito possuidor de 
subjetividade, história, cultura, vivências e não como mero objeto. 
O meu contato com tais concepções ocorreu durante a graduação e, 
posteriormente, ao desenvolver as minhas atividades como enfermeira em um 
serviço substitutivo. Inicialmente, percebi a falta de uma definição do papel e das 
12 
 
 
 
atribuições do enfermeiro nestes serviços, no meu caso, um Centro de Atenção 
Psicossocial (CAPS I). 
A experiência de trabalhar em um CAPS facultou-me articular meus 
conhecimentos teóricos com os adquiridos no quotidiano, o que favoreceu a 
consolidação da concepção de sujeito como um ser integral, já vista na graduação, 
pois, na área da saúde mental, convocavam-me, rotineiramente, a resolver questões 
outras dos usuários, além das referentes à saúde mental. 
Assim, aprendi a conceber o paciente como um sujeito único, histórico, 
social, cultural e protagonista de sua história e sua vida, visão que vai ao encontro 
da abordagem da clínica ampliada. 
Entretanto, através da minha atuação, no referido serviço, foi possível 
verificar que ainda há lacunas na assistência deEnfermagem na área da saúde 
mental. Muitos enfermeiros da rede de serviços de saúde do município onde 
desenvolvia minha prática relatavam dificuldades em lidar com a clientela, a 
abordagem quase nunca existia e, na visão da maioria dos profissionais, a 
internação psiquiátrica era o principal recurso e deveria ser adotado para grande 
parte dos casos. 
No quotidiano dos serviços, era comum as queixas dos clientes, 
relacionadas à saúde em geral serem negligenciadas e interpretadas como 
decorrentes de sintomas como delírios e alucinações. Os pacientes eram 
encaminhados para o CAPS como se este serviço tivesse que, sozinho, dar conta de 
todas as necessidades de saúde dos sujeitos. 
As dificuldades por mim encontradas no percurso da assistência sempre 
versavam sobre: a inexistência de uma assistência que considerasse o sujeito e não 
fosse centralizada na doença; a falta de acompanhamento e seguimento na atenção 
ao paciente por parte da Enfermagem nos serviços da rede do município; 
conhecimento limitado dos profissionais; assistência marcada pelo preconceito e 
pelo medo do paciente em sofrimento psíquico e quase nenhuma ação de 
Enfermagem voltada para a atenção em saúde mental. 
No contexto da minha prática, pude observar que ainda há dificuldade em 
estabelecer o relacionamento entre enfermeiro e sujeito, quando este possui 
necessidades relacionadas à saúde mental e que os enfermeiros se distanciam 
desta clientela. 
13 
 
 
 
Observa-se que existe a centralização na figura do médico e da medicação 
(ALVES, 1999). Consequentemente, trabalha-se pouco com promoção e educação 
em saúde, há pouca inserção do enfermeiro nas práticas reformistas, o cuidado ao 
paciente com transtorno mental fica centralizado no CAPS e, em muitos municípios, 
nos hospitais psiquiátricos, os usuários não têm voz nem vez quando se trata do 
controle social. 
Foi a partir da constatação dos problemas existentes no quotidiano dos 
serviços em relação à clínica praticada, dos avanços na mesma decorrentes da 
mudança de paradigma após a reforma psiquiátrica, da observação da evolução das 
políticas de saúde mental e da necessidade de expansão das ações de saúde 
mental para a toda a rede, que surgiram meus questionamentos acerca da clínica e 
do cuidado que os enfermeiros estariam prestando aos sujeitos em sofrimento 
psíquico. Para tanto, foi adotado o conceito de clínica ampliada por dar sustentação 
a esta abordagem de sujeito que defendo. 
Considerando que a atenção em saúde mental, no paradigma psicossocial, 
tem como foco o indivíduo com sua singularidade e unicidade, surgiu a necessidade 
de compreender se a prática dos enfermeiros está em concordância com o conceito 
de clínica ampliada. Os enfermeiros estão conscientes da importância de assistir 
estes sujeitos no quotidiano da prática? Estes estão sendo compreendidos enquanto 
sujeitos ou apenas como objetos das ações de saúde? O alvo da assistência são os 
sujeitos ou as doenças? As ações são direcionadas pelo modelo psicossocial ou 
pelo biológico? Os enfermeiros conhecem a filosofia, os conceitos e valores de 
clínica ampliada? 
Assim, a realização do estudo se justifica pela necessidade de buscar 
respostas cientificamente obtidas para o problema, a fim de contribuir para a 
reflexão dos profissionais de Enfermagem e para a construção do conhecimento da 
profissão e por constatar teoricamente, e também na prática, que não são 
desenvolvidas muitas ações específicas da Enfermagem em saúde mental na 
maioria dos serviços de saúde, que estes ainda estão organizados com base no 
modelo biomédico e, em geral, de forma burocratizada e não integrada em rede, 
levando à descontinuidade do cuidado. 
Diante do exposto, esta investigação teve como objeto a compreensão da 
filosofia, dos valores e conceitos de clínica ampliada no atendimento em rede de 
atenção em saúde mental a partir da visão dos (as) enfermeiros (as). 
14 
 
 
 
Por acreditar que é possível prestar a assistência centrada na pessoa e não 
na doença, decidi fazer este estudo que teve a seguinte questão norteadora: qual é 
a filosofia e quais são as concepções e valores de clínica ampliada que permeiam o 
cuidado prestado por enfermeiros que atuam nos dispositivos de atenção em saúde 
mental? 
O objetivo geral da pesquisa foi analisar qual é a filosofia e quais são os 
valores e conceitos de clínica ampliada na visão de enfermeiros que atuam nos 
serviços que compõem a rede de atenção à saúde mental, à luz do referencial 
teórico e filosófico da microssociologia compreensiva proposto por Michel Maffesoli. 
 
15 
 
 
 
2 REFERENCIAL TEÓRICO 
 
 
2.1 A FILOSOFIA COMO FORMA EXPLICATIVA DO PENSAR HUMANO 
 
 
A palavra filosofia tem origem grega e, literalmente, significa amor à 
sabedoria. A filosofia usa um determinado saber em proveito do ser humano e isso 
implica a existência dos seguintes elementos: a posse, a busca, a revelação e/ou a 
aquisição de um conhecimento e o uso deste com finalidade de melhorar a vida do 
homem na terra. Seja na obtenção de bens espirituais ou materiais, ou na realização 
de mudanças no mundo, tais elementos estão comumente presentes nas diversas 
conceitualizações de filosofia ao longo do tempo (ABBAGNANO, 1998). 
McEwen e Wills (2009, p. 53) definem filosofia como ―[...] uma declaração de 
crenças e valores sobre os seres humanos e seu mundo [...]‖; ocupa-se com a 
finalidade da vida do homem, bem como com a natureza do ser e da realidade, a 
teoria e os alcances do conhecimento, tendo como métodos filosóficos a intuição, a 
introspecção e o raciocínio. 
Este campo do saber se preocupa com o estudo de problemas mais gerais e 
abstratos e com as explicações últimas das essências das coisas, em geral, 
relacionadas à natureza da existência, do conhecimento, dos valores morais, da 
razão e finalidade do existir (TEICHMAN; EVANS, 2003). Existem subcategorias 
como a metafísica, a ética, a lógica, a epistemologia, a filosofia da religião, a filosofia 
política ou sociopolítica, a filosofia da arte ou estética, entre outras (SOLOMON; 
HIGGINS, 2010). 
Como métodos, não são utilizados procedimentos empíricos ou 
experimentos, mas isso não isenta a filosofia de critérios rigorosos na produção do 
saber. Há necessidade de um conceito filosófico estar fundamentado na 
argumentação lógica e racional e na análise conceitual, além de conter uma 
articulação precisa de conceitos para que se obtenha consistência em suas 
afirmações e conclusões. 
Essa preocupação com o rigor na filosofia pode ser exemplificada pelo 
critério de falseabilidade proposto por Popper (1994) em seus estudos acerca da 
16 
 
 
 
filosofia das ciências, segundo o qual o que distingue uma afirmação, um fato, uma 
teoria ou um princípio científico é a possibilidade de serem submetidos a testes 
empíricos capazes de corroborá-los ou refutá-los. Através das testagens, busca-se 
comprovar que as hipóteses são falsas, ou seja, se não houver a comprovação da 
falseabilidade ou da refutabilidade, elas são consideradas verdadeiras. 
Solomon e Higgins (2010) citam quatro características principais da filosofia: 
a articulação, que trata da clareza das ideias; o argumento, que se refere à 
sustentação das mesmas por outras ou princípios; a análise, quando são 
compreendidas e há a distinção de seus componentes; e síntese, que engloba o 
agrupamento de ideais diferentes a fim de alcançar uma visão unificada. 
Conceituar filosofia é uma tarefa difícil, não há um conceito único, exato e 
universal, pois este está relacionado ao período em que foi escrito e à escola ou 
movimento filosófico a que pertence e, com o tempo, veio sofrendo modificações, 
bem como os objetivos e a abrangência desta disciplina (SIMMEL, 1959). 
Não se conceitua filosofia fora da filosofia, o que a difere da física, por 
exemplo, que não se ocupa da natureza de si mesma, mas da óptica, da 
eletrostática, entreoutras; a própria filosofia é o primeiro de seus problemas. Simmel 
(1959) já considerava que o único procedimento da filosofia parte de um esforço 
fundamental que é pensar sem pressupostos. Para ele, é impossível ao homem 
começar essencialmente do começo, já que ele sempre encontra dentro ou fora de 
si uma base na realidade ou no passado para a sua conduta, ou seja, um ponto de 
partida. Assim, o conhecimento é sempre condicionado por algo que já existe, por 
realidades ou leis internas. 
Strawson (2002) faz uma analogia entre a gramática e a filosofia. Para ele, o 
fato de um indivíduo ser capaz de desempenhar uma atividade, como falar, fazer 
uso de uma linguagem, não implica que ele seja capaz de dizer como é que se faz 
isso. Ele pode possuir o domínio prático da gramática sem saber como enunciar 
sistematicamente as regras gramaticais e, vale ressaltar, que a estruturação teórica 
da linguagem veio após a prática da fala. De maneira similar, na filosofia, mesmo 
não compreendendo de forma clara e explícita os princípios que ordenam a estrutura 
conceitual, o que cabe ao filósofo, somos capazes, a partir da prática, de entender 
significados, pois dominamos certos conceitos e aprendemos como utilizá-los sem 
termos recebido uma instrução explícita sobre os mesmos. 
17 
 
 
 
Ferrater-Mora (2005) aponta que há divergências entre os filósofos sobre o 
fazer da filosofia. Assim, os problemas filosóficos se avolumam indefinidamente e os 
métodos são variados de acordo com a concepção do que concerne ao filosofar. 
Quando é adotada determinada concepção e método, a fim de conhecer um 
problema, há que se ter claro que existem outros pensadores que possuem o direito 
de produzir saber filosófico a respeito do mesmo tema; com isso, não se deve ter o 
objetivo de produzir um saber único, verdadeiro e definitivo. 
Para esse autor, a reflexão filosófica não ocorre de forma isolada. Ela 
acompanha a evolução das ciências, das artes, da religião e da política e isso 
conduz ao surgimento de novos problemas que, quando escapam do campo de 
saber dessas disciplinas, passam a configurar como filosóficos. 
Neste estudo, será adotada a definição de Deleuze e Guattari (1992, p. 12), 
segundo a qual a filosofia é a ―[...] disciplina que consiste em criar conceitos [...]‖, ou 
seja, trata-se de uma ação, um ato de pensamento, uma atividade essencialmente 
criativa de vivenciar a produção de conceitos novos. Cabe ao filósofo empenhar-se 
em fabricá-los e em não acatar, sem a devida análise, explicações tradicionais e 
históricas, consideradas verdades irrefutáveis; ao contrário, deve manter sempre a 
desconfiança acerca de conceitos não fabricados por ele (NIETZSCHE, 1970). 
 
 
2.2 CONCEITOS E VALORES: Contextualizando os modos de ser no Mundo 
 
 
Conceitos, para Deleuze e Guattari (1992), não se referem apenas à 
definição ou noção de algo, pois, após obter uma definição ou uma resposta, 
acabam-se o movimento e a ação que envolvem o ato de filosofar, e a filosofia não é 
algo estático, mas dinâmico. O ato de pensar é constante acerca de problemas 
filosóficos, que não possuem soluções rápidas, objetivas e definitivas. Portanto, o 
conceito não é uma descrição ou representação mental, é um ato e produto do 
pensamento simultaneamente, uma forma de equacionar um problema que motiva a 
experiência filosófica, porém não tem o intuito de eliminá-lo ou resolvê-lo. 
O conceito é o resultado da experiência de pensar, argumentar e analisar 
uma temática, como também um fator motivador e propulsor de novas vivências, 
18 
 
 
 
pensamentos e criações. Segundo os autores, conceitos apenas são produzidos por 
filósofos. O que os cientistas fazem eles chamam de ―prospectos‖ (proposições ou 
funções científicas) e o que é produzido pelo artista eles denominam de ―afectos‖ ou 
―perceptos‖, sendo a filosofia, a ciência e as artes consideradas as três potências do 
pensamento (DELEUZE; GUATTARI, 1992). 
Na teoria deleuzo-guattariana, o conceito não se ocupa em falar de um fato, 
de uma essência ou de uma coisa em si, mas de um acontecimento, uma 
experiência paradoxal que ocorre em um determinado estado de coisas. Os 
acontecimentos não são considerados como noções gerais ou universais, mas como 
singularidades e tratam da consistência entre um conceito e a construção do 
sentido. Todos os conceitos remetem a um problema, pois, sem este, não teriam 
sentido e os problemas são originários da realidade, da prática cotidiana (DELEUZE; 
GUATTARI, 1992). 
Na Enfermagem, a necessidade de produção e também da clarificação de 
uma base própria de conhecimentos que desse suporte à prática, à teoria e à 
pesquisa, deflagrou o interesse pelo desenvolvimento de conceitos, o que também 
implica a construção e atenção às abordagens metodológicas empregadas para 
alcançar a clareza conceitual. Porém, não estão consolidados os fundamentos 
filosóficos e as implicações da realização de uma análise conceitual, bem como não 
há nenhuma filosofia ou sistema de crenças estruturado e nem um consenso sobre o 
conhecimento já disponível na Enfermagem (RODGERS, 1989 apud MCEWEN; 
WILLS, 2009). 
Os conceitos são criados a partir de fenômenos ou problemas da realidade e 
podem ser comparados a tijolos em uma parede, ou seja, são partes de um todo que 
é a ciência (HARDY, 1973; WUEST, 1994 apud MCEWEN; WILLS, 2009). Os 
conceitos na Enfermagem, como para Deleuze e Guattari (1992), são mais do que 
termos. Eles partem de visões de mundo adquiridas através das experiências 
vivenciadas, as quais dão sentido aos fenômenos da natureza ou do pensamento e 
são vitais à construção da teoria (CHINN; KRAMER, 2004 apud MCEWEN; WILLS, 
2009). 
Os conceitos podem se referir a fenômenos concretos ou abstratos e ser 
compostos por uma palavra, duas ou por frases que formam ideias. Estas são 
utilizadas como representações de experiências, que são a base para a elaboração 
19 
 
 
 
do significado conceitual, o que é fundamental para a construção da teoria (CHINN; 
KRAMER, 2004; HARDY, 1973; WUEST, 1994 apud MCEWEN; WILLS, 2009). 
Aconceitualização de valores, assim como a de conceitos, pode ser 
abordada a partir de várias perspectivas. Inicialmente, o termo ―valor‖ foi empregado 
para descrever preços de bens materiais na área das ciências econômicas e valores 
morais ou a dignidade das pessoas. 
Sanchez-Vazquez (1996) fala de subjetivismo e objetivismo axiológico como 
características dos valores. O primeiro refere-se ao valor que o ser humano imprime 
aos objetos e está ligado aos desejos e às emoções que despertam e o segundo 
refere-se ao valor implícito que os objetos possuem independentemente da relação 
com os sujeitos, o valor subsiste por si próprio. O valor 
[...] não é somente a preferência ou o objeto da preferência, mas é o 
preferível, o desejável, o objeto de uma antecipação ou de uma 
expectativa, não é um mero ideal que possa ser total ou parcialmente 
posto de lado pelas preferências ou escolhas efetivas, mas é guia ou 
norma (nem sempre seguida) das escolhas e, em todo caso, seu 
critério de juízo. Conseqüentemente, a melhor definição de valor é a 
que o considera como possibilidade de escolha, isto é, como uma 
disciplina inteligente das escolhas [...](ABBAGNANO,1998, p.993). 
 
A prática da Enfermagem está atravessada por valores, já que as ações 
implicam tomada de decisões e escolhas, que, entre outros aspectos, estão ligadas 
ao conjunto de valores que cada profissional traz subjetivamente construído em 
consequência da vivência no meio profissional, familiar, histórico e sociocultural em 
que está inserido. Tais valores podem ser considerados como um dos paradigmas 
que norteiam a prática e definem condutas, comportamentos bem como formas de 
olhar ou identificar o mundo (KUHN, 2007; SILVA; SILVA, 1998). 
 
 
2.3 A MICROSSOCIOLOGIA COMPREENSIVA DE MICHEL MAFFESOLI 
 
 
A natureza filosófica e conceitual de toda a metodologiaempregada nesta 
pesquisa se origina nos marcos teóricos da microssociologia compreensiva de 
Michel Maffesoli, cuja perspectiva de investigação está na compreensão da vivência 
social em profundidade. 
20 
 
 
 
Michel Maffesoli é um sociólogo francês, professor e diretor do Centro de 
Estudos do Atual e do Quotidiano (CEAQ) da Universidade René Descartes, 
Sorbonne, Paris. Antigo aluno de Gilbert Durand, Maffesolise tornou conhecido por 
construiu uma obra que aborda a pós-modernidade, a questão do laço social 
comunitário e por suas análises da vida cotidiana nas sociedades contemporâneas. 
Para Maffesoli (1988), o saber sociológico distancia-se do cientificismo 
positivista e não se contenta com a lógica dos conceitos, redutora e totalitária, pois o 
conhecimento empírico vai além das construções racionalizadoras. Toda experiência 
tem poder cognitivo, tudo é método, tudo é caminho e tudo serve à sociologia. A 
sociologia compreensiva interessa-se também pela transdisciplinaridade e procura 
como método de investigação trivializar as fronteiras fixas e preestabelecidas de 
domínio e atuação de cada campo do saber. 
Na abordagem da temática da clínica ampliada, é necessário ―[...] buscar o 
sensível, mas... racionalmente; uma razão sensível, isto é, capaz de elaborar sobre 
os dados da sensibilidade intuitiva [...]‖ conforme aponta Maffesoli (1984 apud 
ALVES, 1999, p.34). Na lógica da razão sensível, há a 
[...] preocupação em defender a flexibilidade e a sensibilidade ao se 
desenvolver o conhecimento, mesmo que se utilizem termos que se 
contraponham para se referir a mesma ideia e vice-versa 
[...](NITSCHKE, 1999 apud ALVES, 1999, p. 34). 
 
Maffesoli (2008) destaca a intuição como parte do processo de investigação. 
Para ele, o pesquisador busca o que está oculto, para tanto pode utilizar a intuição. 
Intuir é ver o que está por dentro, ou seja, a essência. Assim, cabe ao pesquisador 
buscar a compreensão íntima dos objetos de estudo, o que se concretiza por meio 
da interação na vida quotidiana. Ele precisa ver o que está escondido como o que 
está evidente, pois o alcance da profundidade se dá através do exame da superfície 
das coisas. 
Assim, considerando o objeto de estudo da investigação em tela, 
amicrossociologia compreensiva de Michel Maffesoli constituiu um suporte teórico-
filosófico adequado para a análise da prática de Enfermagem em saúde mental, por 
ser capaz de ajudar no entendimento dos momentos de cuidado eficazes e dos 
ineficazes, bem como de contemplar a complexidade que envolve o quotidiano das 
vivências e das relações enfermeiro-paciente (PEREIRA, 2005). 
21 
 
 
 
A microssociologia possui quatro premissas básicas: 1) a supremacia do 
vivido no quotidiano e da ―socialidade‖ (enfoque à comunhão entre os sujeitos e 
destes com a natureza oriunda do ―ser/estar junto com‖) sobre o representado (em 
laboratório, por exemplo); 2) preponderância da criação de noções pelo cientista 
social que considerem a diversidade e especificidade das vivências do homem 
comum, sobre a criação de conceitos redutores e totalitários; 3) na concepção 
maffesoliana do saber e do método sociológico, trabalha-se com verdades 
aproximativas, com o banal, com o plural que acontece no quotidiano na busca da 
compreensão do ato societal, distanciando-se da inflexibilidade do método científico 
de inspiração positivista e do teste empírico de hipóteses; 4) existe a negação do 
historicismo e do projeto político, sustentada pela afirmação das invariantes da 
condição humana (MAFFESOLI, 1988; PEREIRA, 2005;PITTA, 1997). 
O quotidiano é um espaço-tempo próprio da pós-modernidade, no qual os 
sujeitos estão unidos por uma espécie de laço social que é construído a partir da 
atração do ser/estar junto, promovendo a socialidade (MAFFESOLI, 1993;1996). 
Ocupa-se, sobretudo, com o banal, o trivial, o que escapa à lógica, o imaginário, o 
sensível, a paixão e a subjetividade (PEREIRA, 2005). 
Esta noção maffesoliana está em concordância com a concepção de clínica 
do sujeito, pois, em ambas, o sujeito é concreto, social e subjetivamente constituído 
(CAMPOS, 2003), assim como se busca concebê-lo no âmbito ideológico do 
movimento da reforma psiquiátrica. 
 
 
2.4 SAÚDE MENTAL E A REDE DE ATENÇÃO À SAÚDE 
 
 
O arcabouço de conhecimentos valores e conceitos implícitos na prática de 
Enfermagem atual vem sendo construído ao longo da história da profissão, das 
práticas de saúde e da sociedade, assim como influenciado pelo momento histórico, 
pelo aspecto socioeconômico e cultural de cada período. 
Através de uma breve incursão pela história da assistência em saúde 
mental, pode-se depreender que foi a partir das mudanças nos modos de produção 
promovidas pela Revolução Industrial no século XVII que a Europa presenciou o 
progressivo enclausuramento de todos os indivíduos que viviam à margem da 
22 
 
 
 
sociedade, entre eles o louco, como forma de ocultar toda a miséria da sociedade. O 
número de pessoas hospitalizadas,gradativamente,foi crescendo assustadoramente, 
chegando a oito mil na Salpetrière, um dos estabelecimentos que compunha o 
Hospital Geral de Paris (DESVIAT, 1999). 
Nesse ínterim, o manicômio representou a libertação da sociedade do perigo 
da loucura que constituía uma ameaça ao exercício da razão, um castigo de Deus 
ao louco, que era considerado um sujeito mau e moralmente inadequado, sendo, 
então, essencial a internação/institucionalização. A institucionalização da loucura 
constituiu, sobretudo, uma reação da sociedade à miséria e uma forma de 
relacionamento do homem com o que considerava inumano na existência. O 
internamento não era instituído por razões de cura, mas como medida de detenção 
de pobres, desempregados, mendigos e visava ―[...] impedir a mendicância e a 
ociosidade, bem como todas as formas de desordens [...]‖ (FOUCAULT, 2005, 
p.110). 
Nesta época, iniciam os trabalhos de Pinel, que, por meio de investigações 
empíricas, desenvolveu o tratamento moral, através do qual o paciente era isolado 
do meio que lhe causava perturbações e distúrbios a fim de ―[...] distrair a loucura, 
ocupando o corpo e o espírito do louco em lugares isolados [...]‖ (DESVIAT, 1999, p. 
17). Esta clínica, praticada pela psiquiatria nascente, fundava-se na crença da cura 
do louco e na ―[...] confiança na razão e no sujeito humano [...]‖ (DESVIAT, 1999, p. 
19). 
A loucura, durante o século XVIII, esteve situada como um problema que 
oscilava como responsabilidade de três poderes, o da família, o judiciário e o do rei. 
No entanto, com a introdução do saber médico que começava a se estruturar, surge 
uma nova justificativa para a tutela do louco, embasada na esperança de cura e na 
crença da prevenção, entendida como a intervenção antes da repressão pelas 
forças públicas ou familiares. A inserção deste quarto poder (saber médico) 
contribuiu para a permanência e a consolidação do modelo asilar. O louco vai, 
paulatinamente, deixando de ser um problema de polícia, de ordem pública, 
tornando-se uma questão médica, o que reforçava a necessidade de 
enclausuramento justificado pela necessidade de tratamento (CASTEL, 1978). 
Apesar das críticas ao modelo de assistência centrado no asilo desde o 
surgimento, ele, progressivamente, se consolidou durante os séculos XIX e XX e, 
apenas após a segunda metade do século XX, surgiram iniciativas mais organizadas 
23 
 
 
 
para questioná-lo e propor alternativas de mudanças na atenção em saúde mental. 
Essas iniciativas foram influenciadas por fatores como o crescimento econômico, a 
reconstrução social, os movimentos civis e sociais, a descoberta dos psicofármacos 
e a introdução de novos saberes, entre eles a psicanálise, nos serviços. Esses 
elementos podem ser considerados como os propulsores dos movimentos da 
reforma psiquiátrica, que, em cada país, obedeceram às características sociais, 
políticas e sanitárias específicas(DESVIAT, 1999). 
Na França, a Psicoterapia Institucional e a Política de Setor não romperam 
com o asilo, ao contrário, constituíram uma tentativa de melhorá-lo e torná-lo um 
local terapêutico. Na Inglaterra, a Psiquiatria Comunitária e a Antipsiquiatria 
negavam o hospício como local terapêutico e pregavam a vida em comunidade, a 
negação do uso de medicações, a ausência de regras rígidas e a recusa de 
liderança, bem como a redução dos leitos nos hospitais psiquiátricos e o aumento 
nos hospitais gerais, o tratamento comunitário e as residências protegidas para 
egressos de internação (DESVIAT, 1999). 
A Psiquiatria Anti-institucional e a Psiquiatria Democrática, na Itália, 
criticavam toda forma de controle e sujeição imposta ao doente, sobretudo a 
exercida pelo manicômio, assim como a psiquiatria como teoria e prática que gerava 
exclusão, suspensão do exercício da cidadania e neutralização da experiência 
subjetiva do sujeito (DESVIAT, 1999). 
A desinstitucionalização nos Estados Unidos, influenciada pelas noções de 
preventivismo e história natural das doenças, cujo trabalho envolvia identificar e 
corrigir fatores ou práticas de risco que estavam na gênese dos transtornos mentais, 
propunha que a intervenção ocorreria na comunidade, não mais nos hospitais, 
sendo criados centros comunitários de saúde mental com foco na prevenção e no 
tratamento. Contudo, como consequência, a desinstitucionalização americana gerou 
desospitalização em massa, e não desinstitucionalização, e uma profunda 
desassistência a essa parcela da população constituindo um grande equívoco 
(DESVIAT, 1999). 
A história brasileira de exclusão e isolamento dos loucos apresenta 
semelhanças com a europeia, pois, desde o século XIX, o Estado ocupava-se, 
unicamente, de construir um espaço político para o desvio do comportamento e da 
atitude. Datam desta época as preocupações da saúde pública, sobretudo com as 
24 
 
 
 
endemias (varíola, febre amarela, entre outras) e com a loucura nos grandes centros 
urbanos portuários como Rio de Janeiro, Salvador, Recife (LUZ, 1994). 
Com o desenvolvimento econômico,o surgimento da indústria e o 
crescimento das cidades, surge, gradualmente, a preocupação em manter a ordem 
social e a necessidade de conservar as ruas limpas do risco de endemia oriunda da 
falta de saneamento e planejamento e do grande número de mendigos e 
desempregados que vagavam pelas ruas. As endemias e a doença mental 
comprometiam as relações comerciais, as exportações, bem como o equilíbrio do 
Estado, o que colocou em evidência a necessidade de organizar um sistema 
sanitário. O interesse do Estado pela loucura deriva do fato de a loucura atravessar 
todas as classes sociais, não só as menos favorecidas, e exigir uma resposta 
institucional que atenda a diversidade desses setores da sociedade (LUZ, 1994). 
Assim, na segunda metade do século XIX, foram criados os primeiros 
hospícios no Brasil. Até então, os loucos ficavam nas ruas, mas, a partir de 
denúncias na imprensa solicitando local para os mesmos, eles passaram a ser 
amontoados nos porões dos hospitais, sobretudo das Santas Casas de Misericórdia. 
As condições desumanas em que eram tratados foram alvo de denúncias. Foi 
construído, então, o Hospício Pedro II, em 1852, com donativos da Coroa, entre 
outros recursos (LUZ, 1994). 
No início do século XX, ocorre a expansão dos asilos e hospitais-colônia 
públicos por todo o país como proposta de unificar e centralizar as decisões e 
serviços nas mãos daqueles considerados qualificados para lidar com a loucura – os 
psiquiatras – já que a sociedade não conseguia. 
Observa-se que a clínica foi se estruturando com base no modelo hospitalar, 
no isolamento e no tratamento moral, apesar de aparentemente constituir tentativa 
de oferecer tratamento especializado aos chamados ―loucos curáveis‖ e acabou se 
consolidando como forma de banir das cidades a loucura e indivíduos com 
problemas mentais de toda ordem, não sendo alvo de preocupações o sofrimento e 
as vivências do louco (LUZ, 1994). 
Até o início do século XX, os médicos não encontraram agentes etiológicos 
como vírus ou bactérias para a loucura, como os sanitaristas os encontraram para 
as endemias, então passaram a buscar relações entre hereditariedade, crime, raça e 
loucura, chegando a propor soluções eugênicas que não se consolidaram. 
Entretanto, justificavam na conduta moral do sujeito as origens da doença mental, o 
25 
 
 
 
que explicava impetrar o tratamento, buscando uma solução moral como educação, 
formação de sentimentos nobres, a conduta nobre e reta no trabalho, na família, 
entre outros, perdurando as instituições asilares devido à crença de que estas 
seriam capazes de reformar os indivíduos com desvios e os loucos (LUZ, 1994). 
Contudo, essas práticas manicomiais agressivas, excludentes e, em geral, 
ineficientes foram apontadas desde então, mas foi no fim da década de 1970 que se 
iniciou o movimento a favor da reforma da atenção em saúde mental no Brasil, após 
profissionais de saúderealizaremgreves e denúncias de agressão, de estupro, de 
trabalho escravo e demortes com causas desconhecidas ocorridas nas instituições 
psiquiátricas. 
Estes episódios deflagraram a crise da Divisão Nacional de Saúde Mental 
(DINSAM), que era um subsetor de saúde mental do Ministério da Saúde. Em 
decorrência da crise e também pelas influências das reformas ocorridas na Europa e 
nos Estados Unidos, nasce o Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental 
(MTSM), que, inicialmente, visava, ainda de forma muito heterogênea, uma 
transformação na assistência psiquiátrica e uma organização corporativa dos 
profissionais. 
O MTSM fazia exigências que enfocavam os aspectos salariais, a formação 
de recursos humanos e criticava o autoritarismo das instituições, o modelo médico 
assistencial e as condições precárias de atendimento. O movimento passou por uma 
fase de enfraquecimento, período que estava em destaque o movimento dos 
residentes médicos, que contava com maior número de adeptos e por conseguirem 
parar atividades essenciais (AMARANTE, 1995). 
Outro evento importante, ocorrido em 1978, foi a realização do I Congresso 
Brasileiro de Psicanálise de Grupos e Instituições, pois proporcionou a vinda ao país 
de atores importantes das reformas europeias como Franco Basaglia, Felix Gattarri, 
Robert Castel, ErwingGoffiman, dentre outros, e constituiu um espaço de debates e 
polêmicas, muitas provocadas por Basaglia ao criticar o caráter elitista do evento e 
da psicanálise (AMARANTE, 1995). 
Em 1979, foi organizado o I Congresso Nacional de Trabalhadores em 
Saúde Mental em São Paulo, que deixou claro que a luta pela transformação do 
sistema de saúde estava ligada à dos demais setores sociais por constituir, em 
última análise, uma luta pela democracia, por uma organização mais justa da 
sociedade e pelo fortalecimento dos movimentos sociais. 
26 
 
 
 
Outro aspecto importante foram as críticas ao modelo manicomial apontando 
para a necessidade de formular diretrizes legais e políticas para melhorar a 
assistência psiquiátrica, refletindo uma mudança no direcionamento do movimento 
que foi deixando de enfocar os interesses corporativos (AMARANTE, 1995). 
No I Encontro Nacional de Trabalhadores em Saúde Mental, em 1980, 
entraram em debate os problemas sociais ligados à doença mental. Foram 
enfocadas políticas para a área, a defesa dos direitos dos pacientes, as condições 
laborais dos trabalhadores da área e as condições político-sociais da população. 
Além disso, foram criticadas as privatizações na área da saúde, envolvendo 
a Federação Brasileira de Hospitais (FBH), a Associação Brasileira de Medicina de 
Grupo (ABRANGE) e empresas multinacionais ligadas à saúde, a ingerência do 
poder público e foram feitas denúncias dos abusos ocorridos nas instituições 
psiquiátricas (AMARANTE, 1995). 
Ainda no início da década de 80, tendocomo contexto a crise previdenciária, 
o sucateamento do sistema público de saúde e a insatisfação da população, os 
Ministérios da Saúde (MS) e da Previdência e Assistência Social (MPAS) 
estabeleceram um convênio denominado cogestão, em que o MPAS deixa de ser 
mero comprador de serviços do MS e passa a participar do processo administrativo 
dos serviços. Assim, é criada a Comissão Interministerial de Planejamento e 
Coordenação (CIPLAN), que elaborou diretrizes para serem cumpridas pelos 
ministérios, entre elas a universalização do atendimento à saúde (AMARANTE, 
1995). 
Segundo Amarante (1995), o debate que, a partir daí, se instaurou entre a 
FBH e a cogestão significou uma luta entre modelos de assistência, o primeiro 
totalmente privatista voltado para a produção e o lucro e o segundo, um modelo 
assistencial público e eficiente. Para a assistência psiquiátrica, a cogestão fez 
ampliar o número de atendimentos e de leitos nos hospitais da DINSAM, o que, a 
princípio, contrariava uma das preocupações do MTSM que era desconstruir a 
assistência centrada no manicômio. Com a inserção do MTSM no setor público de 
saúde, gradualmente, vai ocorrendo uma fusão entre MTSM e Estado e o 
movimento vai perdendo seu caráter modernizante ou reformista para adquirir uma 
postura cada vez mais estatizante (AMARANTE, 1995). 
Este cenário passou por mudanças a partir de 1985, quando foi organizado o 
I Encontro de Trabalhadores de Saúde Mental da Região Sudeste, em que vários 
27 
 
 
 
dirigentes se reuniram para debater e revisar as práticas do movimento, bem como 
para elaborar estratégias de ajuda recíproca, o que culminou com a realização de 
outros eventos e, finalmente, a I Conferência Nacional de Saúde Mental (CNSM) em 
1987. Esta conferência foi um desdobramento da 8.ª Conferência Nacional de Saúde 
(CNS), durante a qual foram propostas as realizações de outros eventos com temas 
como a saúde do trabalhador, saúde da criança e da mulher, recursos humanos em 
saúde e saúde mental (AMARANTE, 1995). 
Teve destaque na I CNSM a participação de usuários no evento, bem como 
a recomendação da participação da população nos processos de elaboração, 
implementação e decisão acerca das políticas na área da saúde mental. Outros 
aspectos importantes foram: 1) a proposta de investimento em atenção extra-
hospitalar; 2) a preocupação em envolver a sociedade civil no processo de 
democratização das instituições, participação no campo decisório das políticas e 
criação de espaços comunitários de promoção da saúde mental e 3) a necessidade 
de investimentos em educação profissional a fim de que pudesse atuar no combate 
da tendência de ―psiquiatrização‖ presente na sociedade (AMARANTE, 1995). 
Assim, o movimento foi deixando de ser apenas uma luta em busca de 
mudanças na assistência prestada nas instituições, de modernização destas, para 
tornar-se um processo mais abrangente, que envolvia o campo teórico-ideológico, a 
sociedade, a política, a justiça e a cultura (AMARANTE, 1995). 
A I CNSM representou um marco histórico para a Reforma Psiquiátrica 
brasileira devido à aproximação de usuários e familiares, o gradual distanciamento 
que se daria com o Estado e a reconstrução política e ideológica do movimento 
(AMARANTE, 1995). 
A abertura para associações organizadas de usuários e familiares que 
estavam surgindo foi um avanço para a Reforma, pois, a partir daí, passaram a ser 
envolvidos na elaboração de projetos, na luta pela transformação na assistência e 
no cuidado até então centrado no asilo. O II Congresso Nacional do MTSM, 
realizado em Bauru, foi o grande cenário para a inserção destes novos atores ao 
movimento (AMARANTE, 1995). 
No fim da década de 1980 e, sobretudo, na década de 1990, instaura-se um 
período de mudanças na assistência e, consequentemente, reorientação do modelo 
assistencial quando se inauguram novos serviços, inicialmente alternativos ao asilo 
(Centros de Atenção Psicossocial e Centro de Convivência em São Paulo, Núcleos 
28 
 
 
 
de Atenção Psicossocial em Santos), mas trazendo a expectativa de serem 
realmente substitutivos ao hospital psiquiátrico (AMARANTE, 1995). 
Assim, o Ministério da Saúde adotou como estratégia de mudança a 
implantação dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), serviços abertos e 
comunitários, que têm como objetivo melhorar a qualidade do cuidado às pessoas 
portadoras de transtornos mentais para que possam prescindir da internação 
psiquiátrica (AMARANTE, 1995). 
O bom resultado, obtido com as experiências de São Paulo e Santos, 
atravessa o campo jurídico-político, culminando na elaboração do projeto de Lei 
3.657/89 do deputado Paulo Delgado, em 1989, que deu início à discussão sobre a 
regulamentação das políticas na área da saúde mental. Abriram-se, gradativamente, 
as portas dos hospitais para as saídas dos sujeitos e dos serviços substitutivos para 
recebê-los nas comunidades, uma vez que este projeto propunha a extinção 
progressiva daqueles e sua substituição por outros recursos assistenciais 
(AMARANTE, 1995). 
A partir da criação dos serviços substitutivos no Brasil (CAPS ouNúcleos de 
Atenção Psicossocial, Residências Terapêuticas, etc.), foi necessário ocorrer, 
gradualmente, mudanças nas relações entre trabalhador e objeto de trabalho, já que 
o usuário passa a ser mais importante que a doença. Surge a necessidade de 
avaliar e inserir uma nova forma de se produzir cuidado e clínica na assistência e no 
processo de organização dos serviços especializados e não especializados em 
saúde mental, que também fazem parte da rede de assistência em saúde 
(ONOCKO-CAMPOS, 2001). 
A noção de rede implica a operacionalização do conceito de integralidade, 
que, na prática, significa a integração e cooperação entre os serviços assistenciais e 
está embasada nas ações de promoção da saúde, garantia da assistência na baixa, 
média e alta complexidade, articulação das ações de prevenção, promoção e 
recuperação da saúde e abordagem integral do indivíduo e das famílias; todavia 
ainda não há eficácia na aplicação deste princípio (HARTZ; CONTANDRIOPOULOS, 
2004). 
Franco (2006) aponta para a existência de micro redes de cuidado que 
independem da estrutura e organização formal da rede, pois se dão ao nível da 
micropolítica que é uma variedade de redes funcionando interligadas, em várias 
direções e sentidos, arquitetando linhas de produção do cuidado. Ou seja, o trabalho 
29 
 
 
 
em saúde ocorre através de encontros entre trabalhadores e desses com os 
usuários; são fluxos constantes entre sujeitos e estes são operativos, políticos, 
comunicacionais, simbólicos, subjetivos e formam uma rede de relações em que os 
produtos do cuidado ganham materialidade e condições de consumo. Os saberes e 
fazeres, tecnologias e subjetividades se encontram e o trabalho passa a ser 
configurado como um amálgama, tornando os atos de saúde produtivos e 
implementando o cuidado. 
Portanto, fundamental é a articulação, o diálogo e o envolvimento dos atores 
para trabalharem no projeto terapêutico dos usuários que têm em comum, mas que 
cada um desses atores ou serviços se destaquem em determinados momentos, a 
fim de sustentar as ações, as relações e manter a rede viva, atuante e em constante 
movimento (FIGUEIREDO; ONOCKO-CAMPOS, 2008). Assim, a saúde mental seria 
um saber transversal e não apenas uma especialidade. 
Contudo, em consequência de hábitos cristalizados em práticas históricas e 
excludentes, cujo enfoque estava na negação da autonomia do sujeito, ainda hoje 
vive-se com a dificuldade de diálogo entre saberes e atores envolvidos no processo 
saúde-doença mental e de percepção da multidimensionalidade do ser humano 
inserido na história, na cultura, na família e na sociedade (TERRA et al., 
2006;MORIN, 2004). 
Essencial para o avanço do processo de desinstitucionalização e ampliação 
da rede em saúde mental é o comprometimento dos trabalhadorescom a promoção 
da vida e saúde desta parcela da população, pois o usuário tem direito de receber 
atenção fundamentada nos princípios de integralidade, universalização, equidade e 
descentralização. O paciente acometido em sua saúde mental traz em sua bagagem 
o peso do estigma da periculosidade e da necessidade de exclusão do meio, o que 
tem como consequência o asilamento e isolamento (TERRA et al., 2006). 
O CAPS, no município, deve ser parte de um cuidado que abrange um 
território (campo de abrangência do serviço) no qual está inserida uma rede (linhas 
que preenchem o território) de atenção clínica, social e comunitária (DELGADO; 
LEAL, 2007). A rede deve ser composta pela Atenção Primária à Saúde (APS), os 
serviços residenciais terapêuticos (SRT), os centros de convivência, os pontos de 
cultura e lazer e os serviços de baixa, média e alta complexidade (BRASIL, 2003). 
Além disso, deve envolver também outras áreas como educação, justiça, 
cultura, entre outras, visando aumentar o poder de contratualidade do portador de 
30 
 
 
 
sofrimento psíquico (ALVES; GULJOR, 2006), bem como contribuir para se 
construírem ou reconstruírem laços sociofamiliares perdidos. Enquanto dispositivo 
substitutivo, os CAPSs não podem ser organizados de forma que as relações 
interpessoais e as atividades dos usuários e trabalhadores ocorram apenas no 
interior do serviço, com uma dinâmica que gira em torno das intervenções 
medicamentosas e psicoterápicas, pois isso produz a cronicidade dos usuários e, 
sobretudo, desses profissionais. 
Onocko-Campos (2001) fala em mudança do cenário, pois essa clínica que 
se almeja tem que ser construída dentro e fora dos serviços de saúde mental. Daí a 
necessidade de criar uma rede de suporte e sustentação social para acolher os 
usuários, o que os pode levar a experimentar o novo, novas vivências e 
transferências. 
Vale ressaltar que, por desinstitucionalização, não podemos entender 
apenas como a transferência do usuário do hospital psiquiátrico para o CAPS ou 
outro serviço, mas como um ―[...] processo de desconstrução/construção de saberes, 
práticas, aparatos científicos e códigos de referência, buscando a produção de vida, 
de sentido, de sociabilidade[...]‖ (ROTELLI, 2001, p.30). Esse processo se reflete no 
quotidiano dos serviços através da prática de cuidados embasados nessa clínica da 
atenção psicossocial, dentro e fora dos CAPSs. 
 
 
2.5 A CLÍNICA AMPLIADA E A REDE DE SERVIÇOS 
 
 
A criação dos serviços de base comunitária, pautados na lógica da não 
institucionalização e da territorialização, produziu grande impacto na assistência à 
saúde mental praticada no país. Viu-se cair o número de leitos em hospitais 
psiquiátricos e crescer o número de serviçossubstitutivos (BRASIL, 2007a). 
Não basta, entretanto, a introdução e ampliação do número de serviços 
substitutivos para obter mudança no fazer dos profissionais. Além de diretrizes de 
mudança estrutural dos serviços, a reforma psiquiátrica trouxe concepções 
ideológicas valiosas que deram suporte para a elaboração de propostas de 
mudanças na assistência. Com isso, ficou evidente a necessidade de mudar o 
enfoque da clínica praticada nas instituições psiquiátricas, historicamente marcada 
31 
 
 
 
pela segregação e exclusão da loucura, para um modelo voltado para o cuidado 
humanizado e respeito aos direitos dos portadores de transtornos mentais. 
Aqui são consideradas como práticas clínicas não somente as médicas, mas 
as de todas as profissões que lidam no quotidiano de seu trabalho com diagnóstico, 
tratamento, reabilitação e promoção da saúde (CAMPOS, 2003). 
A clínica praticada no CAPS tem sido definida como clínica ampliada, clínica 
da atenção psicossocial e clínica da reforma (DELGADO; LEAL, 2007) para 
diferenciar esta nova concepção de fazer do olhar até então direcionado à doença, 
―ao estudo médico no corpo doente‖ (LUFT; FERNANDES; GUIMARÃES, 1995, p.). 
O indivíduo passa a estar no foco,bem como seus modos de ser e estar no mundo, 
seus valores e crenças sobre a própria vida e saúde. 
Este é o enfoque da Política Nacional de Saúde Mental (PNSM), que tem por 
objetivo a mudança de um modelo de atenção centrado no hospital psiquiátrico para 
outro extra-hospitalar, baseado na manutenção das relações afetivas e sociais dos 
sujeitos. 
A assistência, no modelo psicossocial, além de contribuir para a recuperação 
dos quadros agudos e prevenção das reagudizações, visa aumentar a autonomia e, 
consequentemente, o poder contratual dos sujeitos. Isso se aplica, por exemplo, aos 
pacientes com quadros psicóticos, pois se acredita que, para estabelecer uma 
condição de trabalho e cidadania não é preciso ser plenamente saudável. A saúde 
do louco não está na ausência da loucura, já que não há como removê-la, e sim na 
instrumentalização do sujeito para vivenciar a doença como parte da existência 
(COSTA-ROSA, 2000). 
Assim, a reforma tem buscado, ao longo dos anos, a melhoria da qualidade 
na atenção à saúde oferecida aos cidadãos em sofrimento mental. Este processo foi 
favorecido com a criação de uma rede de serviços substitutivos ao hospital 
psiquiátrico, sendo os CAPSs os serviços que devem gerir a rede. A construção da 
rede de saúde mental de base comunitária deve ser constituída por dispositivos 
articulados que respondam à complexidade das demandas e possibilitem 
construções coletivas de intervenções (BRASIL, 2007a). 
Figueiredo e Onocko-Campos (2008) propuseram, em um estudo, uma 
noção de rede multicêntrica e o CAPS como agenciador das necessidades em 
saúde mental. Assim, todos os serviços (APS, CAPS, ambulatórios, residências 
terapêuticas, associações e pontos de cultura) se destacariam em algum momento, 
32 
 
 
 
desenvolvendo ações de acordo com as demandas do projeto terapêutico de cada 
usuário. 
Estas ações, tendo em vista o princípio da integralidade das práticas da 
clínica dentro e fora dos CAPS e a ampliação da rede de assistência, não excluem a 
participação ativa do usuário, na medida do possível, no próprio cuidado e a 
responsabilização da família, a fim de que a assistência não se interponha na 
manutenção dos laços familiares e comunitários. 
Os CAPSs são os principais dispositivos, mas não os únicos e, de acordo 
com a Portaria n.º 336 do Ministério da Saúde, devem responsabilizar-se pela 
organização da demanda e da rede de cuidados em saúde mental no âmbito de seu 
território, como também desempenhar o papel de reguladores da porta de entrada 
da rede assistencial (BRASIL, 2004a). 
Estes serviços representam ferramentas fundamentais para a 
desinstitucionalização, mas devem sustentar-se sobre um tripé composto pela rede, 
a clínica e o quotidiano, imprescindível para dar suporte ao modo CAPS de operar o 
cuidado; sem esse tripé, estes serviços não poderão constituir estratégia eficaz de 
desinstitucionalização(DELGADO; LEAL, 2007). 
Através de portarias vêm sendo estabelecidas, recentemente, as diretrizes 
que tratam da implantação e organização da rede de saúde mental. De acordo com 
a Portaria n.º 3.088, de dezembro de 2011, a rede de atenção psicossocial é 
composta pelos seguintes serviços: a) atenção primária em saúde (apoiada por 
equipes de consultório de rua, equipe de apoio aos serviços do componente atenção 
residencial de caráter transitório, centro de convivência e núcleo de apoio à saúde 
da família); b) atenção psicossocial especializada (CAPS I; CAPS II; CAPS III; CAPS 
AD;CAPS ad III 24 horas; CAPS i); c) atenção de urgência e emergência (SAMU 
192, sala de estabilização, UPA 24 horas, as portas hospitalares de atenção à 
urgência/pronto socorro, unidades básicas de saúde, CAPS); d) atenção residencial 
de caráter transitório (unidade de acolhimento adulto e infantil); e) atenção hospitalar 
(enfermaria especializada em hospital geral e serviço hospitalar de referência para 
internação de curta duração); f) estratégias de desinstitucionalização(serviços 
residenciais terapêuticos e programa de volta para casa); g) reabilitação psicossocial 
(engloba cooperativas que promovem ações de inclusão e reabilitação) (BRASIL, 
2011a). 
http://www.sesa.pr.gov.br/arquivos/File/Portaria_130_CAPS_adIII_24_horas__1.pdf
33 
 
 
 
A rede é o resultado da interação dos serviços com a comunidade e com o 
sofrimento psíquico do paciente e desta relação será produzida a intervenção 
terapêutica. Nesta perspectiva, podem ser utilizados recursos do paciente, da 
família, da comunidade, do serviço e do território. A assistência em rede tem como 
objetivo levar o paciente a encontrar acolhimento em seu meio, para experimentar 
um modo diferente de relação consigo e com o outro, não devendo ser a clínica 
praticada restrita aos consultórios e aos serviços (DELGADO; LEAL, 2007). Exige a 
superação da concepção de cuidado centrado em procedimentos e a adoção de 
formas de organização do cuidado conectado com a realidade e contexto de cada 
usuário. 
Conforme afirma Boff (2004), cuidado é uma atitude de ocupação, 
preocupação, responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro, envolve 
mais que um momento de atenção, de zelo e de desvelo. Assim, o cuidado e a 
clínica ultrapassam os muros dos serviços e somente são possíveis se incorporarem 
as noções de território e rede, que vão inserir conceitos importantes como as 
dimensões sociais e políticas da cidade (DELGADO; LEAL, 2007). 
 Delgado (1997apud TENÓRIO, 2002, p. 42) aponta, em relação ao cuidado 
psicossocial, que ―[...] o território não é apenas o bairro de domicílio do sujeito, mas 
o conjunto de referências socioculturais e econômicas que desenham a moldura de 
seu cotidiano, de seu projeto de vida, de sua inserção no mundo [...]‖. Já em Pitta 
(1996), encontramos a noção de território como um espaço familiar, organizado, que 
promove um sentimento de segurança e proteção contra qualquer ameaça. A 
organização do cuidado no território tem se mostrado um importante instrumento de 
estruturação da rede, pois engloba a atenção integral ao indivíduo em todos os 
níveis e a parceria entre os serviços, o que dá sustentação a uma clínica embasada 
no princípio da integralidade. 
 A ação no território implica que haja permeabilidade entre os serviços e 
regiões, que sejam definidos pontos de contato, edificadas alianças, além de 
implicação nos conflitos, articulação de alternativas de inserção dos usuários no 
território, produção e elaboração conjunta de respostas às demandas, que são por 
ações da rede de serviços e não, exclusiva e unicamente, dos serviços de saúde 
mental (NICÁCIO, 1994). 
 Outro aspecto a ser analisado é o quotidiano, ou seja, 
34 
 
 
 
[...] o mundo de vida, é o lugar de existência para todos nós, lugar de 
vida feito de heterogeneidade de atividades, espaços e movimentos 
modulados pela especificidade de interesses de seus 
protagonistas[...] (DELGADO; LEAL, 2007, p.144). 
 
 Considerar o quotidiano do CAPS é indispensável para fazê-lo um 
dispositivo eficaz na desinstitucionalização. Entretanto, como isso poderia ser feito? 
Esta questão nos leva a pensar nesse ―lugar de existência‖ tanto da instituição, 
quanto dos usuários e em como administrar esse ―lugar de heterogeneidade‖ para 
produzir efeitos terapêuticos capazes de dar suporte aos usuários para que possam 
prescindir da internação em hospitais psiquiátricos e não reproduzir modos 
diferentes de institucionalização (DELGADO; LEAL, 2007). 
 A ampliação da atenção em saúde mental para rede é um passo importante 
para a continuidade da reforma psiquiátrica brasileira, pois as intervenções podem 
se tornar mais sólidas a partir do momento que exista maior articulação entre os 
diversos profissionais e serviços. Neste ínterim, é imprescindível a qualificação das 
equipes de atenção primária à saúde e as dos demais serviços para uma assistência 
integral considerando a subjetividade, a singularidade e o conjunto de relações 
sociais que determinam desejos, interesses e necessidades (CAMPOS, 2003). 
 Assim, caberá aos serviços, sobretudo aos CAPSs, cuidar do aspecto 
clínico, médico e psíquico da doença mental e também do agenciamento social da 
loucura, que abarca vários níveis de intervenção e tem como responsabilidade 
mediar as relações do usuário com o mundo (ALVES; GULJOR, 2006). Portanto, 
são necessárias transformações no fazer dos trabalhadores que lidam com saúde 
mental em seu quotidiano de forma que seja implementado um modo de atuar na 
clínica que envolve, além de cuidados, as relações. 
 Nesta perspectiva, Campos (2003)aborda três modelos de clínica. 
Primeiramente, fala do que denomina de clínica degradada, que está embasada na 
queixa-conduta, que não faz tratamento, apenas alivia os sintomas, realizada em 
pronto-atendimentos e em grande parte dos atendimentos à demanda nos demais 
serviços. O autor a chama de clínica da eficiência, que produz muitos procedimentos 
e pouca eficácia, pois não reflete acerca do grau de saúde que se produz nestas 
consultas. A partir da noção de acesso, inaugurada com a criação do Sistema Único 
de Saúde, observa-se ainda mais a degradação da clínica, devido, primeiro, à 
preocupação em garantir o acesso e a eficácia sem questionar se há produção de 
35 
 
 
 
cuidado e, segundo, em decorrência de os usuários terem a noção de saúde 
enquanto direito do cidadão e dever do estado, mas vê-la meramente como um bem 
de consumo. 
 De acordo com Cunha (2005), isso gera, por um lado, pressão nos 
municípios por atendimento médico e remédios e, por outro, os médicos e os 
gestores possuem interesses em manter tal modelo como forma de inserção dos 
profissionais nos serviços, com manutenção de vários vínculos empregatícios 
simultâneos, a fim de obter maior remuneração, maior independência e maior poder 
de negociação. Para os gestores, esta resolução é politicamente viável e contenta 
também população e profissionais. 
 O segundo modelo é o da clínica tradicional, quetem ênfaseno curar, não se 
ocupa com a prevenção nem com a reabilitação; nela o sujeito é tratado como uma 
doença, não se tratam os doentes, mas as doenças. Trata-se da clínica das 
especialidades, em que a evidência está no corpo, no biológico, ficando amarrada às 
prescrições técnicas, o que acaba limitando as possibilidades de ampliação e de 
fazer uma práxis na prática (CAMPOS, 2003). 
 E, por último, a clínica ampliada, queé a clínica do sujeito, em que a doença 
não sobressai a ponto de praticamente ignorar o sujeito, sendo considerada apenas 
uma parte da vida. O sujeito não é reduzido a objeto, pois é biológico, social, 
histórico e subjetivo. Vale ressaltar que não se trata de negar a existência da 
doença, dos diagnósticos, mas de ampliar o enfoque na medida em que utiliza vários 
saberes articulados a serviço da clínica. 
 As demandas dos usuários são consideradas, também, como manifestações 
de necessidades sociais produzidas através das vivências/experiências sociais e 
históricas. Esta clínica estimula o trabalho em equipe que agrega saberes diversos, 
mas não visa alcançar a equipe transdisciplinar, que acaba sendo utópica e 
inatingível para a realidade dos serviços públicos (CAMPOS, 2003). 
 Conforme Amarante (1996), a constituição da clínica na saúde mental 
assemelha-se à dos serviços públicos de saúde, entretanto, com algumas 
especificidades decorrentes de influências como a da crítica ao modelo manicomial. 
Neste caso, a doença é colocada entre parênteses, não o doente, pois a ênfase está 
na produção social do paciente e na invenção da saúde, o que não significa negar a 
existência da doença e do sofrimento. 
36 
 
 
 
 A clínica ampliada traz à tona o sujeito histórico, cultural, biopsicossocial, 
não como objeto submetido a várias intervenções em seu corpo e sua mente. Cabe 
aqui o sujeito operante, ativo no seu processo de existir, viver e adoecer, porém, 
quando lidamos comuma clientela que aparentemente vive alheia a tudo isso, 
compete aos profissionais trabalhar para obter um mínimo de autonomia, a que for 
possível, considerando a singularidade, a unicidade de cada pessoa (ONOCKO-
CAMPOS, 2001). 
 Dessa forma, se a clínica constitui uma práxisque visa à produção de 
sujeitos autônomos o quanto possível, não se pode ter como objetivos apenas ações 
em saúde, mas compreender estas ações como meio de produção de saúde, de 
cidadania, promoção, prevenção, tratamento, reabilitação, como também satisfação 
e autonomia dos profissionais (ONOCKO-CAMPOS, 2001). 
 Neste contexto, os enfermeiros que atuam nos serviços que compõem a 
rede, sobretudo na APS, encontram-se em posição favorável para estabelecer o 
primeiro contato, para promover a continuidade do cuidado visando à integralidade 
na atenção, para a coordenação da atenção, que pode ser favorecida por 
informações acerca dos problemas de saúde captadas no território e pela 
possibilidade de agregar familiares e estabelecer parcerias na implementação do 
tratamento. 
 Além disso, o estabelecimento de vínculos com usuários e famílias, o 
conhecimento da situação socioeconômica, dos dispositivos comunitários que 
podem ser utilizados na reabilitação psicossocial, constituem instrumentos valiosos 
para oferecer uma atenção de qualidade à parcela da população acometida em sua 
saúde mental. Para tanto, os enfermeiros precisam se implicar e estar cientes da 
importância do papel que podem desempenhar no campo da saúde mental. 
 
 
2.6 A ENFERMAGEM E A SAÚDE MENTAL 
 
 
 Os enfermeiros têm papel preponderante no contexto da Reforma 
Psiquiátrica. Para tanto, precisam estar implicados com o movimento 
antimanicomial, a fim de imprimir no cuidado quotidiano as mudanças de paradigma 
contidas no modelo psicossocial. 
37 
 
 
 
 O trabalho da Enfermagem, historicamente, esteve ligado ao do médico 
desde o início da organização das instituições de assistência psiquiátrica no Brasil, 
em meados do século XIX, com a criação do Hospital Pedro II no Rio de Janeiro, 
como também esteve centralizado no cuidado direto, na aplicação de procedimentos 
de disciplina e controle, a fim de manter a ordem no interior do espaço asilar 
(KIRSCHBAUM, 1997). 
 Nestas instituições, cabia ao psiquiatra a função administrativa, pois detinha 
o saber acerca do doente, da doença e do tratamento e, à Enfermagem, ser o 
instrumento para a implementação das ações propostas pela administração. Com 
isso, o trabalho da Enfermagem teve grande importância na constituição e 
consolidação do modelo asilar (KIRSCHBAUM, 1997). 
 Os primeiros trabalhadores da Enfermagem que atuavam nesta modalidade 
de assistência, em sua maioria, não contavam com uma formação profissional. Eram 
treinados nos próprios hospitais pelos psiquiatras para aplicarem os preceitos do 
tratamento moral. Este tinha o objetivo de levar os doentes a modificarem suas 
condutas e manifestarem obediência e adaptação ao espaço asilar (KIRSCHBAUM, 
1997). 
 Esta situação começou a se modificar a partir do Movimento dos 
Trabalhadores de Saúde Mental (MTSM), ocorrido na segunda metade do século 
XX, após uma série de denúncias de profissionais de saúde e serviços acerca dos 
maus-tratos a que eram submetidos os doentes nestasinstituições (RESGALLA, 
2004). 
 O enfermeiro, em sua prática clínica, necessita apreender que a tarefa da 
reforma é tentar dar ao problema da loucura outra resposta social, uma resposta não 
asilar e agenciar o problema da loucura de modo a permitir ao louco manter-se na 
sociedade (TENÓRIO, 2002), portanto, cabe aos profissionais imprimir essa filosofia 
em sua prática quotidiana. 
 A Enfermagem necessitou mudar o paradigma e, consequentemente, a 
forma como desenvolvia o cuidado em saúde mental, ou seja, passou da vigilância, 
do controle e da disciplina para a necessidade de se aproximar e de se envolver 
com aquele que constituía a representação social da agressividade, da 
periculosidade e da alienação mental. No âmbito da assistência em saúde mental, 
área, historicamente, marcada pela exclusão e isolamento dos sujeitos, a introdução 
das concepções teóricas, ideológicas e filosóficas do movimento da reforma 
38 
 
 
 
psiquiátrica, fez reacender a necessidade de inserir o vínculo na relação com o 
paciente e, alicerçada neste vínculo, construir uma relação de confiança e cuidado. 
 No âmbito da abordagem da relação interpessoal, a Enfermagem possui um 
corpo de conhecimentos já estruturados e, neste trabalho, destacamos as 
contribuições das teóricas Joyce Travelbee e HildegardPeplau, que apontaram a 
relação enfermeiro-paciente como ferramenta fundamental ao cuidado. 
 As ideias centrais de Travelbee versavam sobre a construção da relação 
interpessoal como meio para alcançar os objetivos do cuidado, para tanto, é 
importante que enfermeiro e paciente transcendam os limites de seus papéis, a fim 
de estabelecer o relacionamento, sendo a comunicação o meio que torna isso 
possível. O papel do enfermeiro envolve ajudar o paciente e a família deste a 
enfrentar e a ressignificar suas experiências com a doença e com o sofrimento. A 
doença é vista como uma experiência humana que ultrapassa o aspecto biológico. 
 Para esta autora, o enfermeiro e o paciente são concebidos como sujeitos, 
ou seja, seres humanos únicos e interdependentes, portanto, considera os aspectos 
subjetivos, como a capacidade de percepção do enfermeiro e do paciente, como 
fatores influenciadores do cuidado (TRAVELBEE, 1979; WAIDAMAN; ELSEN; 
MARCONI, 2006). 
 Assim, para Joyce Travelbee, a enfermagem psiquiátrica é 
[...] um processo interpessoal através do qual o enfermeiro ajuda a 
uma pessoa, uma família ou uma comunidade, a fim de promover a 
saúde mental, prevenir ou lidar com a experiência da doença e do 
sofrimento mental, se necessário, ajuda a descobrir um sentido para 
estas experiências... É um processo interpessoal que lida com as 
pessoas. Essas pessoas podem ser indivíduos, famílias ou grupos 
que precisam da ajuda que o enfermeiro pode oferecer [...] 
(TRAVELBEE, 1979, p. 5, traduçãonossa)1. 
 
As famílias de pacientes com transtorno mental têm dificuldades em manejar 
o relacionamento com o parente doente, com isso o enfermeiro deve oferecer apoio 
a estas famílias a fim de ajudá-las nesta tarefa. Travelbee (1979) considerava o 
transtorno mental além da dimensão biológica, pois o concebia como parte da 
 
1―[...] um proceso interpersonal mediante el cual la enfermera ayuda a una persona, familia o 
comunidad con el objeto de promover la salud mental, prevenir o afrontar la experiencia de la 
enfermidad y el sofrimiento mental y, si es necesario, contribuye a descubrir un sentido a estas 
experiencias... constituye un proceso interpersonal que se ocupa de personas‖. Estas personas 
pueden ser pacientes individuales, familias o grupos que necesitan la ayuda que la enfermera puede 
ofrecer[…] (TRAVELBEE, 1979, p. 5). 
39 
 
 
 
experiência humana em que o doente precisa ser respeitado e aceito como ele é, 
uma individualidade com possibilidades e limitações. 
Para Travelbee (1979), o enfermeiro é um profissional capacitado, com 
conhecimentos que lhe facultam intervir nas condições de saúde da população, na 
prevenção de doenças, na promoção da saúde, e também capaz de ajudar os 
sujeitos doentes a encontrarem um sentido na vida. Travelbee (1979) enfoca a 
busca de um sentido na doença e na vida e a relação terapêutica como pontos 
centrais de sua teoria. 
A concepção de paciente e profissional de saúde desta autora vai ao 
encontro das propostas da clínica ampliada, já que considera ambos como seres 
humanos únicos, que possuem necessidades humanas e biológicas importantes 
para a sobrevivência e para a manutenção da saúde mental (TRAVELBEE, 1979; 
WAIDAMAN; ELSEN; MARCONI, 2006). A autora considera que a comunidade

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