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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA 
CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE 
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENFERMAGEM 
 
 
 
 
 
Claudini Honório de Pieri 
 
 
 
 
 
 
 
Boas práticas na assistência ao recém-nascido durante a cesariana em uma maternidade 
pública do Sul do Brasil à luz de Foucault 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Florianópolis 
2020 
 
Claudini Honório de Pieri 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Boas práticas na assistência ao recém-nascido durante a cesariana em uma maternidade 
pública do Sul do Brasil à luz de Foucault 
 
 
 
 
 
Dissertação submetida ao Programa de Pós-Graduação 
em Enfermagem da Universidade Federal de Santa 
Catarina (UFSC) como requisito para a obtenção do título 
de Mestre em Enfermagem. 
 
Área de Concentração: Filosofia e Cuidado em Saúde e 
Enfermagem 
 
Linha de Pesquisa: O cuidado em Enfermagem à Saúde 
da Mulher e do Recém-Nascido 
 
Orientadora: Profª. Evangelia Kotzias Atherino dos 
Santos, Drª. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 Florianópolis 
2020 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Claudini Honório de Pieri 
 
Boas práticas na assistência ao recém-nascido durante a cesariana em uma maternidade 
pública do Sul do Brasil à luz de Foucault 
 
O presente trabalho em nível de mestrado foi avaliado e aprovado por banca examinadora 
composta pelos seguintes membros: 
 
Profª. Evangelia Kotzias Atherino dos Santos, Drª. 
Universidade Federal de Santa Catarina 
 
Profª. Marli Terezinha Stein Backes, Drª. 
Universidade Federal de Santa Catarina 
 
Profª. Laís Antunes Wilhelm, Drª. 
Universidade Federal de Santa Catarina 
 
Certificamos que esta é a versão original e final do trabalho de conclusão que foi julgado 
adequado para obtenção do título de Mestre em Enfermagem. 
 
 
 
____________________________ 
Profª. Jussara Gue Martini, Drª. 
Coordenadora do Programa de Pós-Graduação 
 
 
 
____________________________ 
Profª. Evangelia Kotzias Atherino dos Santos, Drª. 
Orientadora 
 
 
Florianópolis, 2020. 
AGRADECIMENTOS 
 
Segundo uma mulher que admiro muito, “A gratidão é um dos mais nobres gestos que 
um ser humano pode ter”. Assim, gostaria de iniciar este exercício público de gratidão 
agradecendo à todas as mães, pais e avós que me permitiram participar deste momento ímpar 
das suas vidas, para a realização deste estudo. Aos bebês, que apesar do pouco tamanho, são 
gigantes em ensinamentos e amor. Você são o motivo de tudo. 
Aos maravilhosos servidores e servidoras da maternidade onde realizei este trabalho, 
que me acolheram com carinho durante os meus quase dois anos de estágio e nunca me 
enxergaram como somente uma estagiária. Vocês me ensinaram a cuidar das mães, dos pais e 
dos filhos. Com vocês, aprendi tudo o que sei e, ao mesmo tempo, aprendi que tenho muito a 
aprender. Obrigada por tanto, obrigada por tudo! Vocês moram no meu coração. 
Àquela que acreditou em mim, acolheu meus sonhos e inspirou-me a ser uma pessoa 
melhor: Profª. Drª. Evangelia. Obrigada é uma palavra muito pequena para expressar o quanto 
me sinto honrada em poder aprender com você e ter tido o privilégio de ser sua orientanda. 
Obrigada pela orientação, compreensão e carinho de sempre. 
Aos meus queridos pais, João Teixeira de Pieri e Maria Nirce de Pieri, por nunca 
medirem esforços para que eu pudesse alcançar meus sonhos, pelo cuidado, pela atenção e pela 
confiança que sempre tiveram em mim. Vocês tornam possíveis as minhas conquistas através 
do amor. 
À Banca de Sustentação e Qualificação: Profª. Drª. Evangelia Kotzias Atherino dos 
Santos, Profª. Drª. Marli Terezinha Stein Backes, Profª. Drª. Laís Antunes Wilhelm, Profª. Dda. 
Vanessa Martinhago Borges Fernandes, Profª. Drª. Rosane Gonçalves Nitschke, Drª. Maria de 
Jesus Hernandez Rodriguez, Drª. Joyce Green Koettker e Profª. Drª. Margarete Maria de Lima, 
pelas contribuições em todo o percurso de elaboração deste trabalho e por serem verdadeiras 
inspirações profissionais. 
À Profª. Drª. Ana Maria Peçanha, pelo acolhimento, ensinamentos e reflexões durante 
o período de estudos na Université Paris Descartes, em Paris. 
À Profª. Drª. Mara Vargas e à Profª. Drª. Ana Izabel Jatobá, por compartilharem seus 
saberes e pelas ótimas conversas. 
Aos meus queridos e grandes amigos Alexandre Hoeller, Ana Paula Ramos Costa (e, 
agora, à Orla!), Gilliard Lach, Maíra Assunção Bicca, Renata Nunes Marchette e à Profª. Drª. 
Thereza de Lima, por terem me ensinado tanto durante todo este tempo e seguirem sendo a 
melhor referência científica e de amizade que alguém pode ter. Amo muito vocês. 
À Samira Baião Mucci, pelas imensas contribuições neste trabalho e na vida. À Rayanna 
Beckmann, por se tornar família e paz em tempos difíceis. 
Às queridas Roberta Ribeiro, Maria Octavia Costa, Isabel Linck Gomes e Thaís Bardini 
Idalino, pela amizade que se fortalece apesar da distância, pela ajuda na elaboração deste 
trabalho e por me instigarem a pensar além do que se vê. 
À Larysse Mendonça, Larissa Faqueti, Ana Caroline Machado e Amanda Athayde, 
pelos cafés, jantares, conversas, risadas e acolhimento naqueles dias em que o tempo parecia 
não passar. 
Aos colegas do Laboratório de Pesquisa em Enfermagem na Saúde da Mulher e do 
Recém-nascido (GRUPESMUR), pelo apoio e pelas trocas ao longo destes quatro anos. Em 
especial, à Pattrícia Damiani, que se tornou uma grande amiga e incentivadora, nunca deixando 
a peteca cair. 
Ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFSC, à CAPES, ao CNPq e ao 
meu pai pelo apoio financeiro. 
E por fim, mas nunca menos importante: à Camila Mattos Baptista, que aguentou 
minhas mudanças de humor com a maior paciência do mundo, incentivou-me todos os dias e 
não deixou que me faltassem a tranquilidade e a confiança em todas as etapas deste trabalho. 
Obrigada por confiar em mim e estar ao meu lado sempre. Felicidade é poder compartilhar a 
vida com você! 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“Momento intangível, impalpável, instante do 
nascimento, em que a criança deixa a mãe... 
Esse momento frágil, imperceptível, não 
toquemos nele com mãos grosseiras, sem 
compreender. 
Deixemos mais para a criança. Deixemos que 
ela aja. 
Somos rústicos, não entendemos nada dos 
mistérios. 
A criança vem do mistério. Ela sabe”. 
 
Frédérick Leboyer 
RESUMO 
 
As boas práticas na atenção ao parto e ao nascimento são um conjunto de práticas de assistência 
às mães e aos recém-nascidos baseado em evidências científicas, que tem como objetivo a 
redução do risco de complicações neonatais e puerperais, a redução da mortalidade materna e 
neonatal, e a promoção de uma atenção individualizada às mulheres e bebês. Apesar de estarem 
sendo cada vez mais implementadas no contexto do parto normal, ainda são observadas 
dificuldades na realização das boas práticas com os recém-nascidos de via cesariana. Este 
estudo teve como objetivo geral compreender a assistência multiprofissional acerca das boas 
práticas na assistência ao recém-nascido durante a cesariana em uma maternidade pública do 
sul do Brasil, à luz de Foucault. Foram adotados os estudos de Michel Foucault acerca das 
relações de poder e da biopolítica como referencial teórico-filosófico. Para tanto, foi realizada 
uma revisão integrativa da literatura e uma pesquisa de campo, resultando em dois manuscritos. 
O manuscrito 1 teve como objetivo identificar o conhecimento acerca dos desafios para 
promoção de boas práticas na assistência ao recém-nascido de via cesariana. Foram utilizadas 
as seguintes fontes de dados: Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde 
(LILACS), Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE), Cumulative 
Index to Nursing and Allied Health Literature (CINAHL), Scientific Electronic Library Online 
(SciELO), Base de Dados da Enfermagem (BDENF), Webof Science, Scopus e Cochrane 
Library, no período de 2010 a 2019, sendo incluídos 14 artigos. Foram identificadas categorias 
de desafios para a realização do contato pele-a-pele durante a cesariana: desafios relacionados 
à equipe, ao ambiente, à segurança, à mulher e família, e também fatores positivos e 
possibilidades de mudança, e recomendações para novas pesquisas. Os resultados apontam que 
é possível implementar melhorias no cuidado às mães e aos bebês na cesariana, principalmente, 
através da mobilização das instituições e profissionais de saúde. O manuscrito 2 tratou-se de 
uma pesquisa qualitativa, descritivo-exploratória, que teve como objetivo compreender a 
assistência multiprofissional acerca das boas práticas na assistência ao recém-nascido durante 
a cesariana em uma maternidade pública do sul do Brasil, à luz de Michel Foucault. A coleta 
dos dados ocorreu de julho de 2019 a janeiro de 2020, em duas etapas: foi observada a dinâmica 
profissional durante 15 cesarianas, e realizadas entrevistas semi-estruturadas com 18 
profissionais de saúde atuantes no setor. Os dados foram analisados a partir da Analise Crítica 
do Discurso de Norman Fairclough. Os temas selecionados para a análise a partir do corpus 
foram: As visões acerca do nascimento de um bebê, A assistência ao recém-nascido e à família 
na cesariana, e Relações entre os profissionais de saúde. Partindo de uma perspectiva 
foucaultiana, a análise do discurso das entrevistas e das observações apontam a importância das 
relações de poder-saber entre os profissionais, que influenciam diretamente na realização de 
boas práticas de assistência aos recém-nascidos e às famílias. Ainda, observou-se que os 
discursos reforçam estas relações de poder e, ao mesmo tempo, geram novas possibilidades e 
configurações para promoção de boas práticas através da mudança social. 
 
Palavras-chave: Recém-nascido. Cesariana. Boas práticas. Contato pele-a-pele. Aleitamento 
materno. Análise Crítica do Discurso. 
 
 
 
ABSTRACT 
 
Best practices in childbirth and birthcare are a set of care practices for mothers and newborns 
based on scientific evidence, which aims to reduce the risk of neonatal and puerperal 
complications, to reduce maternal and neonatal mortality, and to promote individualized care 
for women and babies. Despite being increasingly implemented in the context of normal birth, 
difficulties are still observed in carrying out the best practices with newborns through cesarean 
delivery (C-section). In this study we aimed to understand multiprofessional care regarding best 
practices in assisting the newborn during C-section at a public maternity hospital in southern 
Brazil.Michel Foucault's studies on power relations and biopolitics were adopted as a 
theoretical-philosophical framework. To this end, an integrative literature review and a field 
research were carried out. Manuscript #1 of this thesis corresponds to an integrative review. 
Initially, we gathered data about the challenges for promoting best practices in assisting 
newborns through C-section. Searches were performed in the Literatura Latino-Americana e 
do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Medical Literature Analysis and Retrieval System 
Online (MEDLINE), Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature (CINAHL), 
Scientific Electronic Library Online (SciELO), Base de Dados da Enfermagem (BDENF), Web 
of Science, Scopus and Cochrane Library databases, from 2010 to 2019, resulting in the 
inclusion of 14 articles, in which we identified categories of challenges for skin-to-skin contact 
during C-section: the professional team, the environment, safety, the women, and the family. 
Besides, positive factors and possibilities for change, as well as recommendations for further 
research. The results indicate that it is possible to implement care improvements for the mothers 
and the babies following C-section, mainly through institutional mobilization and health 
professional’s awareness. Manuscript #2 regards the field research that was a qualitative, 
descriptive-exploratory study, and aimed to understand multiprofessional care regarding best 
practices in assisting the newborn during C-section at a public maternity hospital in southern 
Brazil. Data collection took place in two stages: i) professional dynamics were observed during 
15 cesarean sections, ii) and semi-structured interviews were conducted with 18 health 
professionals who work in the operating room. Data was analyzed using Norman Fairclough's 
Critical Discourse Analysis. The following were the themes selected for analysis from the 
corpus: visions on the birth of a baby, assistance to the newborn and the family during and after 
a C-section, and relationships between health professionals. Starting from a foucaultian 
perspective, the interview discourse analysis and observations point to the importance of power-
knowledge relationships among professionals, which directly influence good care practices for 
newborns and families. Still, it was observed that the speeches reinforce these powerful 
relations and, at the same time, generate new possibilities and configurations for the promotion 
of best practices through social change. 
 
Keywords: Newborn. Cesarean. Best practices. Skin-to-skin contact. Breastfeeding. Critical 
Discourse Analysis. 
 
 
 
 
 
 
LISTA DE FIGURAS 
 
Figura 1 - Concepção tridimensional do discurso......................................................................54 
 
Figura 2 - Fluxograma de seleção dos artigos encontrados nas fontes de busca.........................62 
 
 
LISTA DE QUADROS 
 
Quadro 1 – Resumo dos dados dos artigos de projetos de melhoria da qualidade da assistência 
incluídos na revisão integrativa: autores/ano de publicação, título, país de origem, objetivo, 
método de implementação, profissionais envolvidos, população da intervenção .................. 64 
 
Quadro 2 - Resumo dos dados dos artigos originais incluídos na revisão integrativa: autores/ano 
de publicação, título, país de origem, objetivo, delineamento/referencial teórico, participantes 
e instrumento de coleta de dados ......................................................................................... 65 
 
SUMÁRIO 
 
1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................... 13 
2 OBJETIVOS ................................................................................................................... 21 
2.1 OBJETIVO GERAL ...................................................................................................... 21 
2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS ......................................................................................... 21 
3 REVISÃO DA LITERATURA ....................................................................................... 22 
3.1 BOAS PRÁTICAS NA ASSISTÊNCIA AO NASCIMENTO ........................................ 22 
3.2 HUMANIZAÇÃO DA ATENÇÃO NO CENTRO CIRÚRGICO ................................... 25 
3.3 RELAÇÕES DE PODER ENTRE OS PROFISSIONAIS DA SAÚDE .......................... 27 
4 REFERENCIAL TEÓRICO-FILOSÓFICO ................................................................. 29 
4.1 BREVE BIOGRAFIA DE MICHEL FOUCAULT ......................................................... 30 
4.2 ARQUEOLOGIA E GENEALOGIA FOUCAULTIANA .............................................. 32 
4.3 O PODER À LUZ DE FOUCAULT .............................................................................. 35 
4.4 A FORMAÇÃO DA INSTITUIÇÃO HOSPITALAR .................................................... 39 
4.5 BIOPODER: PODER DISCIPLINAR E BIOPOLÍTICA ............................................... 42 
5 TRAJETÓRIA METODOLÓGICA .............................................................................. 45 
5.1 ESTUDO DE REVISÃO ................................................................................................45 
5.2 PESQUISA DE CAMPO ............................................................................................... 46 
5.2.1 Tipo de estudo............................................................................................................ 46 
5.2.2 Local e contexto do estudo ........................................................................................ 47 
5.2.3 Participantes .............................................................................................................. 48 
5.2.4 Coleta dos dados ........................................................................................................ 48 
5.2.5 Organização e análise dos dados ............................................................................... 51 
5.2.6 Aspectos éticos ........................................................................................................... 54 
6 RESULTADOS E DISCUSSÃO ..................................................................................... 56 
6.1 MANUSCRITO 1 – DESAFIOS PARA PROMOÇÃO DE BOAS PRÁTICAS NA 
ASSISTÊNCIA AO RECÉM-NASCIDO DURANTE A CESARIANA: UMA REVISÃO 
INTEGRATIVA .................................................................................................................. 57 
6.2 MANUSCRITO 2: BOAS PRÁTICAS NA ASSISTÊNCIA AO RECÉM NASCIDO 
DURANTE A CESARIANA À LUZ DE FOUCAULT........................................................ 75 
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................ 103 
REFERÊNCIAS ............................................................................................................... 106 
APÊNDICES .................................................................................................................... 113 
APÊNDICE A – Protocolo para Revisão Integrativa da literatura ............................... 113 
APÊNDICE B – Instrumento de observação das cesarianas .......................................... 116 
APÊNDICE C – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido aos profissionais 
(observação) ..................................................................................................................... 117 
APÊNDICE D – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido às mães ....................... 120 
APÊNDICE E – Instrumento de entrevista com os profissionais................................... 123 
APÊNDICE F – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido aos profissionais 
(entrevista)........................................................................................................................ 124 
ANEXOS .......................................................................................................................... 128 
ANEXO A – Parecer consubstanciado do Comitê de Ética em Pesquisa....................... 128 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
13 
 
1 INTRODUÇÃO 
 
As boas práticas na atenção ao parto e ao nascimento são um conjunto de práticas de 
assistência às mães e aos recém-nascidos baseadas em evidências científicas, que têm como 
objetivo a redução do risco de complicações neonatais e puerperais, a redução da mortalidade 
materna e neonatal e a promoção de uma atenção individualizada às mulheres e bebês (WHO, 
2018). 
Com o objetivo de divulgar e incentivar as boas práticas obstétricas, a Organização 
Mundial da Saúde (OMS) lançou, em 1996, um guia prático intitulado “Maternidade segura: 
assistência ao parto normal”. Nesse documento, são apresentadas e discutidas as intervenções 
comumente realizadas nos partos normais, classificando-as quanto às práticas que são 
demonstradamente úteis e que devem ser estimuladas, práticas prejudiciais ou ineficazes que 
devem ser eliminadas, práticas que não são sustentadas por evidências científicas e que 
necessitam maiores estudos e práticas que são utilizadas de modo inadequado (WHO, 1996). 
Em 2018, a OMS atualizou suas recomendações e lançou o documento “WHO 
recommendations: intrapartum care for a positive childbirth experience”. Ainda que ele verse 
sobre as práticas recomendadas ao parto normal, a assistência ao recém-nascido baseada em 
evidências pode e deve ser praticada também durante a cesariana. As práticas recomendadas no 
cuidado com o recém-nascido são: realizar o clampeamento tardio do cordão umbilical, pelo 
menos um minuto após o nascimento; não aspirar as vias aéreas de neonatos que começam a 
respirar espontaneamente e que apresentam líquido amniótico fluído; manter os recém-nascidos 
sem complicações em contato pele-a-pele com as mães durante a primeira hora após o parto 
para prevenir hipotermia e promover o aleitamento materno; todos os neonatos (incluindo os 
de baixo peso) que podem ser amamentados devem ser colocados no peito o quanto antes, 
quando estão clinicamente estáveis e a mãe e o bebê estiverem prontos; administração de 1 mg 
de vitamina K intramuscular, após a uma hora de contato pele-a-pele e estímulo da 
amamentação; o banho deve ser realizado 24 horas após o nascimento, e se isto não for possível, 
deve ser esperado ao menos seis horas; o bebê e a mãe não devem ser separados e devem 
permanecer no mesmo quarto 24 horas por dia (WHO, 2018). 
Para a realização destas ações, é necessário que outros aspectos também sejam levados 
em conta no atendimento ao recém-nascido. Para auxiliar na manutenção da temperatura, além 
do contato pele-a-pele, é recomendado que a sala esteja entre 23 e 26 °C e que a mãe também 
esteja normotérmica (SBP, 2018). Um dos fatores importantes, também, é a aquisição da 
14 
 
microbiota intestinal através da passagem do bebê pelo canal de parto. Em caso de cesariana, o 
contato pele-a-pele com a mãe também pode fazer com que o bebê tenha o sistema 
gastrointestinal colonizado por bactérias que compõem a flora da pele da mãe (SBP, 2018). 
Assim, as boas práticas vieram ao encontro dos 8 Objetivos de Desenvolvimento do 
Milênio (ODM), uma declaração desenvolvida durante os anos 1990 e adotada no ano 2000 
pela ONU, em reunião com os 191 Estados-membro. O quarto objetivo do milênio refere-se à 
redução da mortalidade infantil. A partir disto, os estados e governos deveriam articular 
políticas e ações a nível internacional, nacional e local, até o ano de 2015. Na Conferência 
Rio+20, em 2013, foram discutidas as ações para além de 2015. Na Assembleia Geral da ONU 
de 2015 foi, então, estabelecida a Agenda 2030, uma declaração composta por 17 Objetivos do 
Desenvolvimento Sustentável (ODS) e 169 metas para alcançá-los até 2030 (ONU, 2015). Em 
relação à saúde do recém-nascido, o objetivo é o de acabar com as mortes evitáveis desta 
população e de crianças menores de 5 anos, com redução da mortalidade neonatal para no 
máximo 12 óbitos por 1.000 nascidos vivos (ONU, 2015). 
Felizmente, o Brasil já atingiu os valores previstos, apresentando uma redução 
estimada de 43,7% na taxa de mortalidade neonatal, significando uma taxa de 5,3 por 1.000 
nascidos vivos atualmente (IPEA, 2018). Em Florianópolis, no ano de 2017, este número 
também foi atingindo, tendo ocorrido um total de 9,87 óbitos por 1000 nascidos vivos (sendo 
que a maioria deles ocorreu no período neonatal precoce – 5,56 óbitos por 1000 nascidos vivos). 
No entanto, entre esses óbitos, os classificados como evitáveis alcançaram 59,19%. Entre as 
articulações e ações necessárias para reduzir este número, está a atenção adequada durante o 
pré-natal e o nascimento, principalmente em relação à sífilis congênita (SANTA CATARINA, 
2018). 
Neste sentido, a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança (PNAISC), 
instituída pela Portaria nº 1.130, de 5 de agosto de 2015, leva em consideração diversas leis, 
decretos, resoluções e demais portarias que tem como objetivo, em linhas gerais, “promover e 
proteger a saúde da criança e o aleitamento materno, [...] visando à redução da 
morbimortalidadee um ambiente facilitador à vida, com condições dignas de existência e pleno 
desenvolvimento” (BRASIL, 2015b). Algumas das ações estratégicas desta portaria tem relação 
direta com as boas práticas preconizadas para o nascimento do recém-nascido a termo e 
saudável, como a atenção humanizada e qualificada ao parto e ao recém-nascido, no momento 
do nascimento, por meio da da capacitação dos profissionais de enfermagem e médicos para 
prevenção da asfixia neonatal; a Iniciativa Hospital Amigo da Criança (IHAC) e a Norma 
15 
 
Brasileira de Comercialização de Alimentos para Lactentes, Crianças de Primeira Infância, 
Bicos Chupetas e Mamadeiras (NBCAL). De forma importante, a Portaria nº. 371, de 7 de maio 
de 2014, instituiu as diretrizes para a organização da atenção integral e humanizada ao recém-
nascido no Sistema Único de Saúde (SUS). Esta portaria recomenda que, para o recém-nascido 
a termo com ritmo respiratório e tônus normais, sem líquido meconial, deve ser realizado o 
contato pele-a-pele imediato e contínuo entre mãe e bebê, em temperatura ambiente de 26 °C; 
o clampeamento do cordão umbilical após cessadas as pulsações (aproximadamente de um a 
três minutos); o estímulo ao aleitamento materno na primeira hora de vida; e que os 
procedimentos de rotina (administração da vitamina K, exame físico do recém-nascido) devem 
ser realizados após a primeira hora de vida (BRASIL, 2014a). 
A IHAC foi lançada pela OMS e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância 
(UNICEF) em 1991, e tem como objetivo mobilizar maternidades e hospitais de forma que 
modifiquem suas condutas e rotinas responsáveis pelos altos índices de desmame precoce e de 
desincentivo ao aleitamento materno exclusivo (BRASIL, 2011). No Brasil, a certificação de 
qualidade IHAC é conferida pelo UNICEF e Ministério da Saúde às maternidades ou hospitais 
que cumprem os Dez Passos para o Sucesso do Aleitamento Materno, passos estes elaborados 
pela UNICEF e pela OMS. Após 27 anos de implementação no país, os hospitais credenciados 
à IHAC têm demonstrado maiores índices de aleitamento materno exclusivo, menos risco de 
intervenções desnecessárias após o nascimento e maiores índices de contato pele-a-pele logo 
após o parto e aleitamento materno precoce (BRASIL, 2010; LAMOUNIER et al., 2019). 
A despeito das várias diretrizes que tratam sobre boas práticas com o recém-nascido, 
a realização destas mesmas boas práticas imediatamente após o nascimento via cesariana 
continua sendo um grande desafio para os hospitais e maternidades. Isto ocorre porque são 
necessárias mudanças no fluxo de atendimento e na rotina da equipe, levando a dificuldades na 
sua implementação (MANGAN; MOSHER, 2012). 
A cesariana é um procedimento cirúrgico que permite a extração do feto, vivo ou não, 
através da realização de uma laparotomia seguida de uma histerotomia. Apesar de seu nome ser 
frequentemente associado à forma de nascimento do imperador romano Júlio César, considera-
se que essa cirurgia foi assim denominada pelo médico francês François Rousset em 1581, 
section césarienne, derivada de caesus (do latim, cortar). Foi recomendada pela primeira vez 
por Rousset como procedimento médico em mulheres vivas - já que, até então ela era realizada 
somente para extrair os fetos de mães falecidas na esperança de salvá-los ou batizá-los. No 
16 
 
entanto, somente em 1876 foi descrita a primeira cesariana com resultados positivos para a mãe 
e o bebê, marcando uma nova era para esta cirurgia (MARTÍNEZ-SALAZAR et al., 2015). 
Embora seja uma cirurgia capaz de salvar a vida de mães e bebês, a cesariana aumenta 
o risco de mortalidade materna e neonatal quando realizada sem indicações reais e precisas 
(WHO, 2015), ou seja, quando o risco inerente da cirurgia supera os benefícios. Ainda assim, 
o aumento do número de cesarianas na segunda metade do século XX fez com que o Brasil e 
outros países se deparassem com uma epidemia desta cirurgia, que é a mais realizada no mundo 
atualmente, sendo considerada um problema de saúde pública mundial (MARTÍNEZ-
SALAZAR et al., 2015). Isto significa que um grande número de mães e bebês não são 
beneficiados rotineiramente com a realização do contato pele-a-pele e outras boas práticas de 
assistência que são obtidos por meio do parto vaginal (MANGAN; MOSHER, 2012). 
A disseminação da realização da cesariana vem ancorada em um paradigma biomédico 
de assistência que emergiu a partir do Relatório Flexner, em 1910, nos Estados Unidos. Este 
relato trouxe o enfoque na doença, o conhecimento médico dividido em disciplinas, o hospital 
como espaço de cura e ensino, bem como a intensa especialização. Sendo a sua superação um 
dos desafios atuais do sistema de saúde do Brasil e do mundo, o modelo biomédico se baseia 
numa divisão entre corpo e mente, com a desqualificação de aspectos psicológicos, sociais e 
ambientais envolvidos no processo saúde-doença. Assim, o indivíduo é reduzido apenas a um 
organismo biológico, segmentado, distanciando-o de sua humanidade (ARAÚJO; MIRANDA; 
BRASIL, 2007; FERTONANI et al., 2015). A cesariana, então, atende às exigências do modelo 
biomédico de assistência, já que possui normas que excluem a imprevisibilidade, o descontrole 
e os perigos comumente associados à fisiologia do parto normal, trazendo uma sensação de 
controle, disciplina e segurança, estando de acordo com as práticas técnicas da biomedicina 
(NAKANO; BONAN; TEIXEIRA, 2016). 
Os números acerca da realização da cesariana no Brasil e no mundo são alarmantes, 
mostrando que os bebês que nascem por via cesariana não são exceção – em algumas situações, 
dependendo de questões socioeconômicas e culturais, são a maioria dos recém-nascidos. No 
Brasil, o número de cesarianas cresceu consideravelmente nas últimas décadas. Enquanto no 
começo dos anos 70 a taxa de cesariana estava perto de 15%, nos anos 80 esta taxa subiu para 
30%, alcançando 40% no começo dos anos 90. Em 2012, esta taxa ultrapassou os 50%, ou seja, 
a maioria dos bebês brasileiros estão vindo ao mundo através de uma grande cirurgia 
abdominal, acarretando questões importantes no que concerne ao seu nascimento, ainda que 
deva ser levado em conta a especificidade social, financeira e geográfica de cada estado e região 
17 
 
(RAMIRES DE JESUS et al., 2015). Já no ano de 2018, 56% dos bebês brasileiros nasceram 
por via cirúrgica, sendo que a região com a maior taxa foi a Centro-Oeste (63%), seguida pelas 
regiões Sul (61%), Sudeste (58%), Nordeste (52%) e Norte (47%) (BRASIL, 2020a). Há 
também uma diferença das taxas de cesariana nas redes pública e privada, sendo que na pública 
a taxa de operação está em torno de 40%, enquanto na privada está em torno de 85% (BRASIL, 
2015a). 
Ao comparar as taxas de cesarianas mundiais, o Brasil encontra-se em posição de 
destaque pelo excesso, com 56%, ficando atrás apenas da República Dominicana, com 59,3%. 
O número de cesarianas aumentou em todas as regiões do mundo entre 2000 e 2015, com 
variações por conta de fatores socioeconômicos das populações, bem como aspectos culturais 
(BOERMA et al., 2018). As regiões oeste e central da África apresentam as menores taxas 
atualmente (4,1%), sendo que a América Latina e o Caribe apresentam as maiores (44,3%), 
seguida pela norte-América (32%), meio-leste e norte da África (29,6%), leste da Ásia e 
Pacífico (28,8%), leste da Europa e Ásia central (27,3%), oeste da Europa (26,9%), sul da Ásia 
(18,1%), e sul e leste da África (6,2%). Em todos os locais, mostra-se necessário a existência 
de controle quanto as taxas de mortalidade materna e perinatal, bem como do número de 
cesarianas, de forma que a população se beneficie da melhor forma desta cirurgia, sem que os 
riscos pela realização da mesma sejam aumentados. 
Em 2019, a taxa de cesariana na Grande Florianópolis foi de 49,76%, enquanto a de 
parto vaginal foi de 49,78%. Ainda que seja uma diferença muito pequena, esta inversão devalores não acontecia desde 2007. Este número exige atenção dos órgãos de saúde, com o 
objetivo de que possam ser implementadas políticas públicas que promovam uma redução do 
número de cesáreas. Na Grande Florianópolis, estes valores variaram muito ao longo dos anos: 
de 1994 a 2005, o número de partos normais foi maior que o de cesarianas, ocorrendo uma 
inversão nos anos de 2006 e 2007, e entre 2008 e 2018 o número de cesarianas esteve acima do 
número de partos normais (BRASIL, 2020a). 
Apesar da OMS recomendar que 10-15% dos nascimentos de um país ocorram por 
cesárea, ao considerarmos as características populacionais obstétricas do Brasil, a taxa de 
referência fica em torno de 29% ao levarmos em conta o elevado contingente de mulheres com 
cesarianas prévias (BRASIL, 2015a). Isto significa que, mesmo que as taxas de cesariana 
alcancem o ideal recomendado atualmente para o nosso país, ainda teremos aproximadamente 
um terço dos recém-nascidos vindos ao mundo através de uma cirurgia. 
18 
 
Diante do número excessivo de operações cesarianas desnecessárias, em março de 
2016 foram lançadas pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS 
(CONITEC) as Diretrizes de Atenção à Gestante: a operação cesariana, que orientam os 
profissionais de saúde a levar em conta a eficácia, segurança, efetividade e custo-efetividade 
das intervenções recomendadas, sendo um marco para a assistência prestada às mães e bebês 
que passam por essa cirurgia, objetivando promover boas práticas de assistência (BRASIL, 
2016). 
Estas diretrizes foram elaboradas a partir da adaptação de outras duas diretrizes 
clínicas: Cesariana, do Instituto Nacional para Saúde e Excelência de Cuidado – Departamento 
de Saúde do Reino Unido, atualizado em 2013; e, Guia de Assistência ao parto para mulheres 
com cesarianas prévias, do Colégio Francês de Ginecologistas e Obstetras, publicado em 2013. 
Nesse documento, é ressaltada a importância de boas práticas como a promoção do contato 
pele-a-pele entre mãe e recém-nascido, o clampeamento tardio do cordão umbilical (para o 
recém-nascido a termo com ritmo respiratório normal, tônus normal e sem líquido meconial, de 
mães não-portadoras de HIV), e suporte adicional para auxiliar as mães a iniciar o aleitamento 
materno logo após o nascimento do bebê (BRASIL, 2016). Este é o único documento oficial 
brasileiro que discorre sobre as boas práticas que devem ser preconizadas no atendimento 
específico ao recém-nascido de cesariana. 
Diante do exposto até aqui, pode-se considerar que a adoção de boas práticas na 
cesariana segue como um desafio importante para a assistência ao recém-nascido e à mãe 
quando no caso da cesariana. A cesariana envolve não só aspectos relativos à técnica cirúrgica 
em si, mas também práticas relacionadas ao cuidado e assistência de enfermagem à mãe e ao 
recém-nascido, ainda na sala de cirurgia. Mesmo que as boas práticas realizadas no parto normal 
não possam ser aplicadas em sua totalidade aos bebês nascidos por via cirúrgica, algumas ações 
podem ser feitas para que o nascimento ocorra de forma respeitosa para o recém-nascido e sua 
família, como o estímulo à amamentação na primeira hora de vida, o contato pele-a-pele, o 
envolvimento do acompanhante no processo de nascimento, entre outras ações que possam 
fortalecer o vínculo entre mãe e filho. Além disso, é importante que tenhamos em mente que a 
cesárea não é como as demais cirurgias, uma vez que a parturiente apresenta anseios, 
expectativas e preocupações relacionadas não somente a si mesma, mas também em relação ao 
seu filho/à sua filha que está vindo ao mundo. 
Ao acompanhar a dinâmica da assistência prestada à parturiente e ao recém-nascido 
durante a cesariana em uma maternidade pública de Florianópolis (Santa Catarina), e tendo em 
19 
 
vista as práticas descritas nas diretrizes propostas pela CONITEC, é possível observar que, de 
uma forma geral, os profissionais não seguem uma rotina ou protocolo que busque promover 
um cuidado humanizado, ainda que durante uma cirurgia. Há, assim, uma diferença entre a 
assistência prestada ao recém-nascido de parto normal e ao de cesariana. A rotina do setor, o 
fluxo de trabalho e a dinâmica da equipe multiprofissional possuem aspectos que necessitam 
ser estudados mais profundamente para melhor elucidar a assistência ao recém-nascido neste 
local. 
O presente estudo justifica-se pelo fato de que as boas práticas obstétricas aplicadas 
em partos normais não são realizadas durante a cesariana, por fatores que não podem ser 
isolados, uma vez que a equipe multiprofissional trabalha conjuntamente para a promoção da 
assistência ao recém-nascido e à parturiente (BALATERO; SPILKER; MCNIESH, 2019). Ao 
buscar na literatura, são encontrados diversos estudos sobre as boas práticas na assistência ao 
parto normal, contudo, ainda é escassa a literatura que aborda a realização dessas práticas 
especificamente na cesariana. É necessária, portanto, uma análise mais ampla destas situações, 
uma vez que os estudos apontam lacunas na construção deste conhecimento. 
O nascimento de um bebê por cesariana envolve diversos atores, de forma que é 
necessário englobar todos eles para que uma pesquisa seja fidedigna à realidade. Os médicos 
obstetras, anestesistas, pediatras, enfermeiros, técnicos de enfermagem e obstetrizes que 
transitam por este ambiente são co-responsáveis pela assistência prestada ao recém-nascido, 
por meio de intervenções de maior ou menor impacto no início da vida da criança (STEVENS 
et al., 2018). Diante do exposto, emergiu a seguinte questão de pesquisa: como ocorrem as boas 
práticas na assistência multiprofissional ao recém-nascido durante a cesariana em uma 
maternidade pública do Sul do Brasil, à luz de Foucault? 
Devido ao fato da assistência à parturiente e ao recém-nascido ser prestada por 
diversos profissionais da saúde em um ambiente de cuidado hospitalar, optamos por adotar os 
estudos do filósofo francês Michel Foucault acerca das relações de poder, da formação 
hospitalar e do biopoder como referencial teórico-filosófico desta pesquisa. Os estudos de 
Foucault tratam, dentre vários aspectos, das relações de poder existentes em instituições como 
o hospital, a escola e a prisão. O autor frisa que o poder não é algo que se detém, e sim que se 
exerce, e que ninguém possui o poder em detrimento de alguém que não o possui (FOUCAULT, 
2017). Acreditamos que este referencial teórico se adapta à realidade observada no contexto da 
cesariana, pois os profissionais interagem entre si através de relações de poder uns sobre os 
20 
 
outros, em uma instituição hospitalar, influenciando a forma como o recém-nascido é cuidado 
e suscitando questionamentos acerca do biopoder inerente à situação. 
 
21 
 
2 OBJETIVOS 
 
2.1 OBJETIVO GERAL 
 
Compreender a assistência multiprofissional acerca das boas práticas na assistência ao 
recém-nascido durante a cesariana em uma maternidade pública do Sul do Brasil, à luz de 
Foucault. 
 
2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS 
 
 Identificar quais as evidências do conhecimento acerca dos desafios para promoção de 
boas práticas na assistência ao recém-nascido por via cesariana. 
 Identificar o conhecimento da equipe multiprofissional acerca da utilização de boas 
práticas na assistência aos recém-nascidos durante a cesariana; 
 Conhecer a visão da equipe multiprofissional sobre a dinâmica da assistência prestada 
aos recém-nascidos durante a cesariana; 
 Analisar os limites e possibilidades da equipe multiprofissional para a utilização de 
boas práticas na assistência aos recém-nascidos durante a cesariana. 
22 
 
3 REVISÃO DA LITERATURA 
 
A primeira modalidade de revisão desta pesquisa consiste em uma revisão narrativa. 
A revisão narrativa é realizada para tratar de questões amplas e sobre o “estado da arte” de 
determinado tema, sendo que as fontes e o método de seleção da literaturanão são especificados 
– ou seja, a metodologia de sua construção não segue um método sistematizado. Este tipo de 
revisão permite adquirir e atualizar o conhecimento de forma rápida e flexível, sendo mais 
aberta e abrangente que outros tipos de revisão, como a integrativa ou a sistemática (ROTHER, 
2007). Assim, geralmente, as revisões narrativas não informam as fontes utilizadas, a 
metodologia de busca, nem os critérios avaliados na avaliação e seleção dos trabalhos 
(ROTHER, 2007). Nesta modalidade de revisão, são abordados os tópicos: Boas práticas na 
assistência ao Nascimento; Humanização da Atenção no Centro Cirúrgico; e, Relações de poder 
entre os profissionais da saúde, conforme apresentado a seguir. 
 
3.1 BOAS PRÁTICAS NA ASSISTÊNCIA AO NASCIMENTO 
 
O uso excessivo da cirurgia cesariana nas últimas quatro décadas está intimamente 
ligado a uma perda de autonomia da mulher sobre seu próprio corpo e processo de parturição, 
uma vez que o corpo feminino vem sofrendo intensa medicalização, fator também evidenciado 
pelo aumento de tratamentos hormonais (KANTOVISKI; VARGENS, 2010) e de cirurgias 
plásticas (BROCKHAUSEN, 2005). Quanto à parturiente, ao sair do centro obstétrico e ser 
submetida ao centro cirúrgico para a realização de uma cesariana, observa-se uma perda de 
protagonismo, autonomia e poder de decisão sobre o processo de nascimento do seu bebê. Por 
consequência, as mulheres também se sentem menos capacitadas para escolher a sua via de 
parto e tem dificuldades em se impor perante os médicos para fazer valer seus desejos 
(BRASIL, 2001; VELHO; DOS SANTOS; COLLAÇO, 2014). 
Neste sentido, diversas ações podem ser tomadas pela equipe de saúde para que a 
vivência do parto/nascimento seja prazerosa para a mulher que passa por uma cesariana. 
Porfírio, Progianti e Souza (2010) observaram que o simples toque por parte das enfermeiras 
obstétricas, através de afagos ou massagens, transmite apoio e segurança às mulheres durante 
o trabalho de parto, fazendo com que se sintam protegidas e importantes no processo. 
Uma das práticas reconhecidas por lei que traz benefícios à parturiente é a presença de 
um acompanhante de sua escolha, durante o pré-parto, parto e pós-parto imediato, tanto na rede 
23 
 
pública quanto privada (BRASIL, 2005). A presença de um acompanhante de escolha da 
mulher, sendo o pai da criança ou não, faz com que a mesma sinta-se segura, afasta sentimentos 
de abandono e isolamento em um ambiente desconhecido e aumenta a sensação de bem-estar 
do binômio mãe-bebê. Além disso, os pais acreditam que presenciar o nascimento de um filho 
é uma experiência única, independente de quantos filhos já tenham, e entendem que o papel do 
acompanhante é estar presente para oferecer suporte emocional, através de carinho e palavras 
de apoio (PERDOMINI; BONILHA, 2011). 
Quanto à presença do acompanhante durante a cesariana, estudos sugerem uma 
diminuição dos sentimentos de ansiedade, solidão e de preocupação com o estado de saúde do 
bebê, por parte da mãe, bem como maior sentimento de prazer em relação ao nascimento 
(FIGUEIREDO; COSTA; PACHECO, 2002). Além disso, o acompanhante pode promover 
auxílio na primeira mamada e, em decorrência disso, uma maior duração do aleitamento 
materno (ERLANDSSON et al., 2007). Todavia, alguns profissionais de saúde ainda carregam 
preconceitos, impedindo a presença do acompanhante na cirurgia cesariana e interferindo 
negativamente na experiência do parto/nascimento para a mulher. Em uma revisão sistemática 
de Bohren e colaboradores (2017), observou-se que, em 22 dos ensaios realizados, 25% das 
mulheres não tiveram acompanhante durante a realização da cesárea. Além disso, o suporte 
contínuo à parturiente mostrou-se capaz de reduzir os números de cesarianas. Por fim, o 
acompanhante pode exercer um “controle social direto” do serviço de saúde, evitando abusos e 
identificando situações de violência com maior facilidade do que a parturiente, sendo, portanto, 
indesejado em algumas instituições (BRASIL, 2014b). 
No que diz respeito ao contato entre mãe e filho durante os primeiros momentos de 
vida, estudos pré-clínicos utilizando modelos animais mostram que o cuidado maternal pode 
traduzir os sinais ambientais aos bebês e influenciar no desenvolvimento dos sistemas neurais 
envolvidos no comportamento e nas respostas ao estresse do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal 
na idade adulta (WANG et al., 2015). Segundo recomendação do CONITEC, o contato pele-a-
pele precoce deve ser estimulado e é importante para o desenvolvimento do comportamento de 
maternagem, uma vez que melhora a percepção materna do recém-nascido e favorece o 
estabelecimento de laços afetivos. 
Naturalmente, os recém-nascidos tem tendência à hipotermia, sendo importante 
verificar a temperatura do ambiente, que deve estar em torno de 26 °C, e colocar o recém-
nascido em contato com a mãe (caso ela deseje), sobre o tórax, de bruços, cobrindo-o com uma 
coberta seca e aquecida (BRASIL, 2016a). Esse contato pele-a-pele é capaz de manter o bebê 
24 
 
aquecido e ajuda na termorregulação, facilitando, instintivamente, a amamentação logo após o 
parto. Isto ocorre por conta do primeiro comportamento de alerta do bebê e da sua necessidade 
de sucção, sendo que este comportamento na primeira hora de vida está intimamente ligado 
com a prática exclusiva e efetiva da amamentação (RAMOS et al., 2018). 
Schneider, Crenshaw e Gilder (2017) mostraram que o contato pele-a-pele entre mãe 
e bebê imediatamente após o nascimento via cesariana diminuiu significativamente a taxa de 
transferência de recém-nascidos para a unidade de terapia intensiva neonatal, sugerindo que o 
contato pele-a-pele é importante, independente da via de nascimento. Além disto, a prática de 
contato pele-a-pele pode ser realizada também com o pai. De forma semelhante ao contato com 
a mãe, o bebê para de chorar, acalma-se, atinge um estado sonolento antes dos que não são 
colocados em contato e tem o desenvolvimento do comportamento de amamentação facilitado 
(ERLANDSSON et al., 2007). 
O contato imediato e a amamentação após o nascimento via cesariana promovem 
benefícios não só para a saúde do bebê, mas também da mãe. Um estudo mostrou que as mães 
que tiveram contato pele-a-pele ainda em sala de cirurgia com seus recém-nascidos 
apresentaram menores níveis de estresse oxidativo quando comparadas às que tiveram contato 
com seu bebê somente 1 hora após o nascimento (YUKSEL et al., 2016). Em um estudo 
qualitativo de Kologeski e colaboradores (2017), realizado no Rio Grande do Sul, foram 
relatadas as dificuldades de realização do contato pele-a-pele durante a cesárea por parte da 
equipe multiprofissional, por conta de fatores como alegação de demanda excessiva pelos 
técnicos de enfermagem, diminuição do espaço para circulação do anestesista e obstetras, bem 
como a necessidade dos pediatras de avaliarem o bebê imediatamente. 
Quanto à promoção da amamentação na primeira hora de vida, uma revisão sistemática 
de Moore e colaboradores (2016) mostra que as evidências sugerem o uso do contato pele-a-
pele para promover o aleitamento materno, apesar de serem necessários mais estudos para 
confirmar os benefícios fisiológicos para os bebês durante a transição para a vida extra-uterina 
e estabelecer um tempo ótimo para início do contato. A recomendação da CONITEC é que a 
mulher submetida à cesariana tenha suporte adicional para ajudá-la a iniciar o aleitamento logo 
após o nascimento. Neste sentido, a recomendação da OMS (WHO, 2018) é de que bebês sem 
complicações devem ser colocados em contato com a mãe o mais rápido possível e mantidos 
em contato pele-a-pele com suas mães durante a primeira hora de vida, de modo a prevenir a 
hipotermia e promover a amamentação. Alguns estudos populacionais mostraram que as taxas 
de aleitamento materno inicial foram maiores em partos vaginais (LEUNG; HO; LAM, 2002; 
25SAMUELS; MARGEN; SCHOEN, 1985), mas que não há diferença na taxa da amamentação 
três e seis meses após o nascimento ao comparar cesariana e parto vaginal (HANNAH et al., 
2002). 
Hobbs e colaboradores (2016) mostraram que mulheres que passaram por uma 
cesariana de emergência apresentaram maiores dificuldades na amamentação e utilizaram mais 
recursos para a amamentação quando comparadas com as que tiveram um parto vaginal ou 
cesariana programada. Além disso, revelam que a cirurgia cesariana programada está associada 
a uma descontinuação precoce da amamentação. 
Quanto à técnica de aspiração nasal ou oral de rotina do recém-nascido, a mesma não 
é recomendada em bebês que começam a respirar por si mesmos após o parto e que tem líquido 
amniótico fluído e claro (WHO, 2018). Ainda neste documento, a OMS ressalta a importância 
da administração da vitamina K, na dose de 1 mg por via intramuscular, como profilaxia à 
doença hemorrágica do recém-nascido. 
Por fim, estudos mais recentes envolvendo a microbiota intestinal mostram a 
importância da passagem do bebê pelo canal de parto para a sua colonização intestinal, e como 
essa microbiota está intimamente ligada ao desenvolvimento de comportamentos e até mesmo 
doenças na idade adulta. A transmissão vertical da microbiota materna para o filho é essencial 
no desenvolvimento metabólico e imunológico da criança e é associada com o desenvolvimento 
de doenças como asma, obesidade, diabetes mellitus tipo 1, alergia e até mesmo problemas 
neurológicos (MOYA-PÉREZ et al., 2017). Esta colonização é afetada pela realização da 
cirurgia cesariana, uma vez que não há a passagem pelo canal de parto. No caso de bebês que 
nascem por cesariana, isto deve ser levado em consideração no que concerne às práticas de 
incentivo ao aleitamento, já que esta será a principal fonte de composição da sua microbiota. 
 
3.2 HUMANIZAÇÃO DA ATENÇÃO NO CENTRO CIRÚRGICO 
 
A Política Nacional de Humanização (PNH), lançada em 2003, propõe mudanças no 
modo de agir e cuidar dos usuários do SUS através da prática dos princípios do próprio SUS no 
cotidiano da assistência. Para isso, é importante a interação e articulação entre trabalhadores, 
usuários e gestores na gestão do cuidado e nos processo de trabalho. Para a PNH, humanizar 
significa incluir as diferenças entre os indivíduos e grupos de pessoas nos processos de gestão 
e de cuidado. Sendo assim, os princípios da PNH são a transversalidade, indissociabilidade 
26 
 
entre atenção e gestão, e protagonismo, corresponsabilidade e autonomia dos sujeitos e 
coletivos (BRASIL, 2013). 
No entanto, a inserção da PNH em um ambiente como o Centro Cirúrgico pode ser um 
tanto quanto difícil. O Centro Cirúrgico é um ambiente hospitalar que dispõe de técnicas 
avançadas para a realização de intervenções invasivas, onde tanto o ambiente quanto os 
profissionais estão organizados de forma a atender as necessidades do trabalho clínico, com 
uma dinâmica de trabalho essencialmente técnica e que nem sempre permite abertura para a 
interação psicossocial entre profissionais e pacientes, durante a realização do cuidado 
(SALBEGO et al., 2015). 
A humanização não se trata apenas de chamar o paciente pelo nome ou demonstrar 
empatia pela sua condição e sua vida, e sim compreender seus anseios, angústias e medos, 
oferencendo apoio contínuo. Para humanizar, é necessario se entregar sinceramente ao outro, 
de forma leal, ouvindo com paciência as palavras e também os silêncios. Só assim, seria 
possível valorizar a essência humana para que se alcance a efetividade do cuidado 
(MENDONÇA et al., 2016). 
Ainda segundo Medonça e colaboradores (2016), em um estudo realizado com 
técnicos de enfermagem de um Centro Cirúrgico, os profissionais percebem que humanizar é 
um sinônimo de carinho, dedicação e respeito à privacidade do outro, entendendo que o Centro 
Cirúrgico é um ambiente estranho ao paciente, que pode gerar medo e ansiedade. Isto fica 
expresso em ações como não despir o paciente desnecessariamente e cuidar para que sua 
intimidade seja preservada, uma vez que os pacientes relatam se sentir sozinhos, amedrontados 
pela presença de equipamentos desconhecidos, profissionais usando máscaras e uniformes, 
gerando um sentimento de desconexão com o profissional. Além disso, a empatia também é 
colocada como essencial para o processo de humanização. Ao sermos empáticos, colocamo-
nos no lugar do outro, tratando-o como gostaríamos de sermos tratados e dando abertura para 
que o paciente expresse seus sentimentos. Um dos obstáculos relatados pelos participantes deste 
estudo foi a falta de tempo para realização de um cuidado humanizado, já que as rotinas são 
exaustivas e as atividades burocráticas tomam um tempo considerável do período de trabalho. 
No contexto cirúrgico, é importante prestar cuidados não só ao paciente, como também 
aos seus acompanhantes. A interação dos profissionais de saúde com pacientes e familiares 
minimiza angústias, medos, ansiedade e insegurança frente à operação, oferecendo conforto e 
segurança (CAVERZAN et al., 2017). No caso do acompanhante da mulher submetida à 
cesariana, que é um dos poucos casos em que é permitida a presença de acompanhante durante 
27 
 
uma cirurgia, a presença deste se torna ainda mais essencial, tendo em vista a vivência do 
momento familiar do nascimento. 
Entretanto, apesar da Lei do Acompanhante (BRASIL, 2005) estar em vigor há 13 
anos, alguns profissionais ainda apresentam resistência em aceitar a presença do acompanhante 
na sala cirúrgica, sob as afirmações de que este local é inadequado para recebê-lo pois a cesárea 
trata-se de uma cirurgia de grande porte e os acompanhantes não estão acostumados com as 
condutas desenvolvidas, podendo vir a aumentar os riscos já inerentes à cirurgia. Os 
acompanhantes, na grande maioria os pais dos bebês, sentem-se insatisfeitos e excluídos por 
não terem participado do momento do nascimento. Torna-se, enfim, necessária a sensibilização 
dos profissionais sobre esta prática que é benéfica para a mãe e o recém-nascido (ALMEIDA 
et al., 2018). 
 
3.3 RELAÇÕES DE PODER ENTRE OS PROFISSIONAIS DA SAÚDE 
 
A relação de poder entre os profissionais de saúde advém do histórico das profissões 
e do desenvolvimento da instituição hospitalar. Segundo Foucault (2017), os mecanismos 
disciplinares como a distribuição espacial (arrumação do lugar para que sua eficácia seja 
máxima), vigilância perpétua e constante dos indivíduos e registro contínuo de atividades foram 
introduzidas, a partir do exército, no ainda confuso espaço hospitalar. A partir de uma mudança 
também do papel do médico, que passa de um médico particular chamado somente em casos de 
extrema necessidade para o organizador da instituição hospitalar, este profissional aparece 
como sendo detentor do saber neste local. 
Estando no controle do hospital, o médico é o centro das atenções e delega o controle 
de certas funções a outros trabalhadores de saúde, porém, mantendo a vigília sobre quem o está 
realizando. A enfermagem, por ser originária de uma assistência religiosa e de caridade, é vista 
como facilmente docilizável, na figura do anjo branco, caridoso e bondoso, que somente mais 
recentemente vem tomando seu lugar no hospital e nas práticas de saúde como um todo, 
promovendo um cuidado humanístico e resolutivo, a despeito do valorizado saber médico 
(ZAGONEL, 1996). 
Em um estudo de Costa e Martins (2011), identificou-se que o poder de coerção 
médica possui uma capacidade de predição significativa de estresse entre técnicos de 
enfermagem, e que estes profissionais reconhecem a legitimidade deste poder por conta do 
conhecimento específico dos médicos. O poder médico também é denominado de poder 
28 
 
carismático, por serem detentores do saber de poder curar doenças, salvar vidas, e baseados na 
competência técnica, o que permite a estes profissionais se oporem às decisõese regras da 
administração e defenderem os privilégios de sua categoria profissional dentro do hospital 
(CECÍLIO, 1999). 
Uma das consequências das relações de poder entre os profissionais da saúde é o 
sofrimento moral, que é um desequilíbrio psicológico decorrente da incapacidade de adotar 
atitudes e comportamentos considerados corretos de acordo com seu julgamento moral e 
profissional, por conta de obstáculos que dificultam ou negam suas ações, sofrimento 
decorrente da incoerência entre suas ações e suas convicções profissionais e pessoais (RENNO; 
BRITO; RAMOS, 2015). Neste sentido, Barlem e colaboradores (2013) mostram que durante 
a prática profissional, trabalhadores da enfermagem podem tender ao imobilismo e ao 
conformismo por tentarem evitar confrontos diretos com os profissionais que detém o poder. 
Porém, ao passo em que onde há poder, há resistência, estes profissionais também exercem o 
poder e se organizam coletivamente em busca de empoderamento. Ao que parece, é menos 
custoso acatar as ordens e regras da instituição e de outros profissionais do que enfrentá-los e 
desafiar o poder dominante. 
Situações onde o profissional de enfermagem se opõe, se coloca perante outros 
profissionais ou até mesmo se nega a determinada ação, mostram que não existe relação de 
poder sem a possibilidade de resistência, fuga ou escapatória. Os profissionais que buscam 
construir formas de resistência ou de mudanças de realidade acreditam que é possível haver 
mudança nas relações de poder (BARLEM et al., 2013), o que torna estas relações 
extremamente complexas e impossíveis de serem analisadas a partir de um único prisma. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
29 
 
4 REFERENCIAL TEÓRICO-FILOSÓFICO1 
 
Segundo Silva e Arruda (1993), é impossível abrangermos a realidade do fenômeno 
que nos cerca em sua totalidade, uma vez que o mundo é complexo e seria muito pretensioso 
almejar abordá-la em um trabalho desta natureza. Portanto, para a ciência poder estudar e 
trabalhar suas nuances, é necessário que lancemos mão de paradigmas que nos permitam 
conhecer o fenômeno a partir de uma perspectiva específica. 
O referencial teórico de uma pesquisa científica serve a este propósito, uma vez que 
pode ser considerado um mapa que guiará o viajante - no caso, a pesquisadora -, sendo 
importante para o desenvolvimento de todos os tipos de pesquisa científica (TRENTINI; PAIM, 
2004). Portanto, o referencial teórico pode ser interpretado como os “óculos” que utilizamos 
para nos debruçarmos sobre os dados e interpretá-los. Levando-se em conta a problematização 
já apresentada neste estudo, é de suma importância deixar claro sob qual visão os dados desta 
pesquisa foram analisados ao longo da trajetória metodológica. Sendo assim, o referencial 
teórico-filosófico escolhido para o presente estudo foram os estudos do filósofo francês Michel 
Foucault. 
Diversos aspectos deste estudo, como a delimitação do tema de pesquisa, a definição 
da questão de pesquisa, bem como o local de estudo (instituição hospitalar), fizeram com que 
os estudos e abordagens de Foucault fossem escolhidos como o referencial teórico-filosófico 
desta pesquisa. Foram adotados, especialmente, seus estudos sobre a concepção de poder e suas 
relações, sobre a formação da instituição hospitalar e sua abordagem do discurso. Acreditamos 
que este seja o referencial teórico mais abrangente e que permitirá uma análise profunda das 
relações sociais existentes na sala operatória de uma maternidade e como elas impactam as 
práticas de saúde. 
Nos dias de hoje, a concepção de poder, discurso e as relações de poder-saber das quais 
falou Foucault são muito claras, ao ponto que se tornou quase impossível aos pesquisadores da 
área da saúde deixarem totalmente de lado este conhecimento. Porém, este grande filósofo 
contemporâneo esteve muito à frente de seu tempo, construindo novos conceitos a partir do que 
nos parecia óbvio e renovando profundamente diversas áreas do conhecimento. As disciplinas 
outrora separadas, como medicina, história e direito, passam a ser vistas como integradas, co- 
 
1 O aprofundamento do referencial teórico-filosófico foi realizado através de Mobilidade Acadêmica na Université 
Paris Descartes (Paris, França), no Laboratoire d'Éthique Médicale et Médecine Legale, sob supervisão da Profª. 
Drª. Ana Maria Peçanha. 
30 
 
dependentes umas das outras. Não à toa, os projetos e trabalhos multiprofissionais são muito 
valorizados atualmente: Foucault foi capaz de mostrar-nos a importância da transversalidade 
das ciências e de novas formas de pensar, tirando-nos de nossas caixas disciplinares. 
Com o objetivo de aprofundar o conhecimento na obra de Foucault, este capítulo tem 
como subtemas: Breve biografia de Michel Foucault; Arqueologia e Genealogia Foucaultiana; 
O Poder à Luz de Foucault; A Formação da Instituição Hospitalar; e, Biopoder: Poder 
disciplinar e Biopolítica. 
 
4.1 BREVE BIOGRAFIA DE MICHEL FOUCAULT 
 
Nascido em 15 de outubro 1926 na cidade de Poitiers, cidade provinciana no sudoeste 
da França, Paul-Michel Foucault foi um filósofo, historiador, psicólogo e professor, dos mais 
importantes da modernidade. Filho do médico Paul-Michel e de Anne Malapert, vem de uma 
família rica onde seus dois avôs eram cirurgiões. O casal teve três filhos: Francine, a mais velha, 
Paul-Michel e Denys. A família ia à missa todos os domingos mas, segundo Michel Foucault, 
era uma família anticlerical, onde os assuntos religiosos não ocupavam as preocupações 
(ERIBON, 1990). 
Foucault entrou na escola antes da idade legal permitida, aos 4 anos, pois sua mãe 
pediu que ele não fosse separado de Francine. Sempre obteve boas notas e recebia prêmios no 
final do ano escolar. Desaponta o pai quando decide não seguir o caminho da medicina após o 
término dos estudo secundários, enquanto sua mãe argumenta com ele: “Por favor, não insista. 
O menino é esforçado, deve fazer o que deseja”. Assim, após três anos de estudos preparatórios, 
Foucault é admitido na Escola Normal Superior da França (ERIBON, 1990). 
Os anos na Escola Normal Superior foram muito difíceis para Foucault, que era muito 
solitário, arisco, com relações complicadas e conflituosas com os demais. Briga com os colegas, 
profere apelidos ofensivos, vive rindo e demonstra agressividade, sendo prontamente detestado 
e tido como maluco. Uma das questões centrais da vida de Foucault, que certamente transparece 
em seus trabalhos, é a sexualidade. Devido a sua orientação sexual, enfrentou a vergonha de si 
e dificuldades de adaptação na cidade, em um contexto onde os homossexuais eram tidos como 
aberração. Tentou o suicídio em 1948 e recebeu atendimento psiquiátrico e psicológico. Estima-
se que vem daí o seu interesse pela psiquiatria e psicanálise, como forma também de aprofundar 
os estudos sobre si mesmo (ERIBON, 1990). 
31 
 
Em 1950, Foucault filia-se ao Partido Comunista Francês, do qual se desvinculará em 
1955. Foucault formou-se em filosofia, história e psicologia na Escola Normal Superior da 
França. Após, em 1955, parte para Uppsala – Suécia, onde passa três anos lecionando. Mora 
também em outras cidades europeias: é diplomata em Varsóvia – Polônia, diretor do Instituto 
Francês de Hamburgo – Alemanha, e realiza conferências em universidades de todo o mundo 
(ERIBON, 1990). Volta para a França em 1960, tornando-se diretor do Instituto de Filosofia da 
Faculdade de Letras da Universidade Clermont-Ferrand até 1966. De 1966 a 1968, lecionou em 
Túnis – Tunísia, retornando a Paris em seguida. 
Em abril 1970, Foucault foi eleito professor titular do Collège de France, sendo 
responsável pela cátedra recém-criada denominada História dos Sistemas de Pensamento. 
Proferiu sua aula inaugural aos 43 anos, em 2 de dezembro de 1970, em um curso que ocorria 
todas nas quartas-feiras, do início de janeiro ao fim de março (FOUCAULT,1999). Ele ocupa 
esta cadeira após o falecimento de Jean Hyppolite, que foi seu professor na Escola Normal 
Superior da França e na Sorbonne, sendo seu orientador na realização da tese complementar 
Antropologia (ARAÚJO, 2017). 
Até aquele ano, Foucault já havia publicado as obras História da Loucura (1961, sua 
primeira obra de relevância), O Nascimento da Clínica (1963), As palavras e as Coisas (1966), 
e A Arqueologia do Saber (1969). Estas quatro obras formam o eixo arqueológico (ou primeira 
fase) de sua obra. A segunda fase de Foucault é denominada de eixo genealógico e abrange as 
obras Vigiar e Punir (1975) e A Vontade de Saber (1976, primeiro volume de História da 
Sexualidade). A terceira fase de Foucault, ou eixo da ética, engloba as obras O Uso dos Prazeres 
e O Cuidado de Si (respectivamente, volumes II e III da História da Sexualidade). Os estudos 
sobre suas obras consideram que “eixo” seria uma palavra mais cabível que “fase”, pois esta dá 
a ideia de que ele havia mudado sua linha de pensamento, o que realmente não aconteceu. 
Michel Foucault lecionou no Collège de France até seu falecimento, na tarde de 25 de 
junho de 1984. No início do mês, havia sido internado por conta de manifestações neurológicas 
que vieram a confirmar um estado septicêmico devido ao HIV/AIDS. Estima-se que Foucault 
não sabia da doença que o afligia; porém, no início de 1984, ligou para o amigo Georges 
Dumézil e revelou: “Acho que estou com AIDS...”, como se não quisesse admitir a doença aos 
demais amigos que o rodeavam e se preocupavam com seu estado de saúde (ERIBON, 1990, 
p. 305). 
Durante seus últimos meses de vida, já debilitado por conta do curso natural da AIDS, 
que lhe causava quadros de febre e tosse, Foucault finalizou os volumes II e III da História da 
32 
 
Sexualidade (O Uso dos Prazeres e O Cuidado de Si). Deixou o último volume, Os Prazeres da 
Carne, em forma de manuscrito. Este último livro foi publicado somente em 2017, pois Foucault 
chegou a manifestar em vida o desejo de que “não houvesse publicação póstuma” (ERIBON, 
1990, p. 303). 
Foucault e sua obra tiveram um grande impacto em diversas áreas do conhecimento, 
principalmente na filosofia. Segundo Margareth Rago, para Foucault, a filosofia é um modo de 
vida, um conhecimento que deve ser praticado, que se pauta nas práticas e que “sacode as 
evidências”, problematizando o que é comum. Assim, Foucault torna visível o que é visível e 
desfamiliariza o que é tão óbvio, tão básico (RAGO, 2019). 
Desta forma, este grande filósofo moderno procurou novos caminhos para se pensar a 
realidade, sendo o principal crítico do poder e deslocando verdades e certezas enraizadas. É um 
dos estudiosos sobre os quais pesquisadores de diversas áreas mais se debruçam com o objetivo 
de compreender e aprofundar seus trabalhos. Conhecer um pouco de sua biografia nos ajuda a 
compreender de onde ele veio e qual o pano de fundo de seus pensamentos. 
 
4.2 ARQUEOLOGIA E GENEALOGIA FOUCAULTIANA 
 
Foucault entende arqueologia como o “desvelamento da circunstância histórica que faz 
necessária certa forma de pensamento” (THIRY-CHERQUES, 2010). Sendo assim, Foucault 
procura demarcar que a arqueologia não se trata da história factual (uma vez que não está focada 
em acontecimentos específicos ou demarcações históricas), nem de história das ciências ou 
história das ideias. A arqueologia busca explorar as formas de racionalidade que o sujeito aplica 
em si mesmo, as condições filosóficas, políticas, econômicas, institucionais, entre outras, que 
permitem o aparecimento de certos saberes e discursos. 
A arqueologia se difere da história da ciência pois não está interessada em saberes 
científicos, e sim nos saberes que transcendem e englobam também o que é científico em 
determinada época, ou seja, o que confere condições e é terreno fértil para o desenvolvimento 
um determinado saber científico. Foucault também demarcou as diferenças entre a arqueologia 
e a história das ideias: 1) a arqueologia busca definir os discursos enquanto práticas que 
obedecem a regras; 2) não objetiva encontrar a transição entre um discurso e outro, mas sim 
analisar diferencialmente as modalidades de discurso; 3) pretende mostrar como a história, 
processos econômicos e sociais podem dar condições para o aparecimento de certos discursos, 
e 4) não busca encontrar o que foi pensado, desejado, almejado pelos sujeitos no instante em 
33 
 
que proferiam o discurso, não tenta repetir o que foi dito, reencontrando-o em sua própria 
identidade (FOUCAULT, 2008). 
No livro A História da Loucura (1961), Foucault não se limitou a disciplina alguma 
para estudar e procurar destrinchar como a psiquiatria nasceu e se solidificou enquanto ciência. 
Para isto, o autor desenvolveu a metodologia de não seguir a história de forma linear, como 
numa busca incessante por percursores de algo, e sim procurou analisar ciência e pré-ciência 
sem julgamentos prévios, adentrando ao campo da relação entre os saberes e considerando que 
todos são válidos, sem que haja um saber posterior e superior ao qual se deve reverenciar a 
verdade absoluta. 
Foucault traçou uma possível história para a loucura. Foucault não traçou uma história 
da psiquiatria, que era quem aparentemente se encarregava do estudo do louco até então. É 
comum atribuirmos a determinada área da ciência (no caso, a psiquiatria) toda a detenção do 
conhecimento sobre algum assunto (no caso, a loucura), mas Foucault foi além disto e buscou 
conhecer a história da loucura em si, do saber sobre o louco. Buscou formas de saber comum, 
o conhecimento empírico. Além de não se prender à psiquiatria, Foucault também buscou 
analisar espaços físicos, institucionais, que abrigavam os loucos e tinham como objetivo o 
controle da loucura, como os manicômios, e também as instâncias sociais como Igreja, família, 
política e justiça, sem ignorar as causas econômicas e sociais das modificações institucionais. 
Em O Nascimento da Clínica (1963), Foucault descreve como o desenvolvimento da 
Biologia foi essencial para que houvesse uma ruptura entre medicina clássica e medicina 
moderna. Enquanto a medicina clássica estaria fundada na história natural, a medicina moderna 
teria se desenvolvido a partir de questões anátomo-clínicas, gerando rompimentos que impedem 
a conversação entre as mesmas, já que os objetos, conceitos e métodos mudaram. Em seu 
estudo, Foucault articulou os saberes com questões extra discursivas, como instituições 
(hospital, família, escola) e transformações sociais. 
O livro As Palavras e as Coisas (1966) tem como objetivo “aprofundar e generalizar 
inter-relações conceituais capazes de situar os saberes constitutivos das ciências humanas, sem 
pretender articular as formações discursivas com as práticas sociais” (FOUCAULT, 2017, p. 
10). Assim, a análise arqueológica objetivava estudar a relação entre os saberes, e não entre 
estes e as estruturas econômicas e políticas. Estes três livros, portanto, possuíam 
homogeneidade de instrumentos metodológicos, como “o conceito de saber, o estabelecimento 
das descontinuidades, os critérios para a datação de períodos e suas regras de transformação, o 
34 
 
projeto de inter-relações conceituais, a crítica da ideia de progresso em história das ciências, 
etc” (FOUCAULT, 2017, p. 10). 
Até então, Foucault havia centrado seus estudos em como os saberes apareciam, se 
transformavam e se relacionavam. A partir de então, seus estudos passaram a questionar o 
porquê destes saberes, levando em conta condições externas que possibilitassem o seu 
aparecimento, como a formação das pessoas e suas crenças. A partir dos livros Vigiar e Punir 
(1975) e A Vontade de Saber (1976, primeiro volume da História da Sexualidade), foram feitas 
análises históricas do poder como instrumento para explicar a produção dos saberes. 
A segunda fase de Foucault é denominada de eixo genealógico e abrange asobras Vigiar 
e Punir (1975) e A Vontade de Saber (1976, primeiro volume de História da Sexualidade). A 
genealogia não substitui a arqueologia, e sim adiciona na análise as relações de poder que 
corroboram os discursos e os saberes. Considerando o saber como um discurso, pode-se dizer 
que a genealogia agrega a análise não-discursiva – a das relações entre saber e poder – à análise 
discursiva. Isto ampliou o campo de investigação, analisando o saber em termos de estratégia e 
práticas de poder (CASTRO, 2004). Foucault considerou que as relações de poder permeiam 
os saberes, transformando-os em verdade quase absoluta para determinada época e local. Para 
isto, escolheu analisar temas como a sexualidade, doenças, instituições prisionais e hospitalares, 
dentre outros (GONÇALVES, 2012). Em Microfísica do Poder, Foucault deixa claro as 
diferenças entre os dois eixos: 
 
A genealogia seria portanto, com relação ao projeto de uma inscrição dos saberes na 
hierarquia de poderes próprios à ciência, um empreendimento para libertar da sujeição 
os saberes históricos, isto é, torná-los capazes de oposição e de luta contra a coerção 
de um discurso teórico, unitário, formal e científico. A reativação dos saberes locais 
– menores, diria talvez Deleuze – contra a hierarquização científica do conhecimento 
e seus efeitos intrínsecos de poder, eis o projeto dessas genealogias desordenadas e 
fragmentárias. Enquanto a arqueologia é o método próprio à análise da discursividade 
local, a genealogia é a tática que, a partir da discursividade local assim descrita, ativa 
os saberes libertos da sujeição que emergem desta discursividade. Isto para situar o 
projeto geral (FOUCAULT, 2017, p. 269). 
 
A terceira fase de Foucault, ou eixo da ética, engloba as obras O Uso dos Prazeres e O 
Cuidado de Si (respectivamente, volumes II e III da História da Sexualidade). Diferentemente 
dos outros eixos, este não traz uma mudança de método. A partir de então, Foucault continua 
utilizando a genealogia como método de análise. Trata-se do domínio da subjetividade, de 
“como nos constituímos como sujeitos de ação moral sobre nós mesmos” (GONÇALVES, 
2012). Em suas palavras: 
35 
 
 
Enfim, em terceiro lugar, tratava-se de analisar o eixo de constituição do modo de ser 
do sujeito. E aí o deslocamento consistiu em que em vez de se referir a uma teoria do 
sujeito, pareceu-me que seria preciso tentar analisar as diferentes formas pelas quais 
o indivíduo é levado a se constituir como sujeito. E, tomando o exemplo do 
comportamento sexual e da história moral sexual, procurei ver como e através de que 
formas concretas de relação consigo o indivíduo havia sido chamado a se constituir 
como sujeito moral da conduta sexual (FOUCAULT, 2010, p. 6). 
 
Posto isto, Foucault busca responder de onde vem as práticas que constituem o sujeito 
moderno, o que levou-o a uma analítica do poder. Por que e como nós somos o que somos, 
atualmente? Seu foco de estudo é o sujeito, mas para alcançar seu objetivo de análise, também 
estudou o poder e como se articulam as relações de poder. Considera-se que Foucault é o 
filósofo da descontinuidade, pois ele lançou um olhar diferenciado sobre tudo que já estava 
posto como normal e óbvio. Havia, até então, uma ideia de que a história fosse contínua, de que 
o homem moderno fosse a “evolução” ou o extremo de uma linha traçada de nós até os gregos. 
Foucault mostra que isto não é verdade: nós não somos os gregos, nem os romanos, nem a 
“evolução” inevitável de outra civilização, e sim que nos tornamos o que somos devido a redes 
de poder que penetram em todos os âmbitos de nossas vidas. 
 
4.3 O PODER À LUZ DE FOUCAULT 
 
Uma das questões importantes acerca da genealogia do poder de Foucault é que o 
mesmo não descreveu uma teoria geral do poder. Isso quer dizer que o autor não considera que 
o poder seja uma realidade dotada de natureza, mas uma prática social construída 
historicamente, não havendo uma forma ímpar de poder, mas formas “díspares, heterogêneas, 
em constante transformação” (FOUCAULT, 2017, p. 12). 
No livro Vigiar e Punir (1975), Foucault mostra que o poder soberano, que é exercido 
repressiva e violentamente por um indivíduo sobre outro, não é mais eficaz diante das relações 
sociais, econômicas e políticas no Ocidente, desde o final do século XVI. O poder do rei, que 
até então era exercido com repressões públicas violentas (por exemplo, execuções), não surtia 
mais o efeito de coibir atos criminosos e promover a ordem social e política. Pelo contrário: 
neste contexto, a rebelião e revolta popular contra o rei torna-se ainda mais intensa. Sendo 
assim, o poder soberano entra em declínio e cede lugar ao poder como uma rede de relações 
que vão desde o âmbito pessoal (incluindo nossa relação conosco mesmos) até relações sociais, 
políticas e econômicas entre indivíduos, grupos, comunidades, e alcançando instituições e 
36 
 
estruturas. Por serem dinâmicas, relacionais, onipresentes, horizontais e fluídas, as relações de 
poder, segundo Foucault, são mais difíceis de serem identificadas e contrariadas quando 
comparadas ao clássico poder soberano, exercido verticalmente (FOUCAULT, 2017; 
TAYLOR, 2018). 
Sendo assim, segundo Foucault, para o exercício do poder é necessário que haja 
também o exercício da liberdade. Assim, o poder na sociedade moderna ocidental não obriga 
os indivíduos a efetivamente fazerem alguma coisa através de atos coercitivos de violência, mas 
molda seus comportamentos através de intimidação, irritação, pressão social, econômica ou 
política, obrigando-os a fazerem algo ou assumirem determinada posição sob a falácia de que 
estariam decidindo meramente por si só. Para Foucault, a relação de poder tem origem numa 
relação desequilibrada entre dois sujeitos, quando um se permite sofrer a ação promovida por 
outro (FOUCAULT, 2017). 
Para Foucault, é impossível conceber a ideia de relação de poder sem resistência. De 
um lado, há a vontade de impor algo, e de outro, a vontade de resistir, e estas forças podem ser 
visíveis ou invisíveis, fracas ou fortes, com uso de violência ou não (FOUCAULT, 2017). Uma 
vez que na instituição hospitalar existem relações sociais, e que estas implicam em relações de 
poder, é viável dizer que há também movimentos de resistência neste local. Alguns críticos 
disseram que, ao colocar o poder em todas as partes, Foucault excluiu qualquer possibilidade 
de resistência, ao que o autor respondeu 
 
É o contrário! Quero dizer que as relações de poder suscitam necessariamente, apelam 
a cada instante, abrem a possibilidade a uma resistência, e é porque há possibilidade 
de resistência e resistência real que o poder daquele que domina tenta se manter com 
tanto mais força, tanto mais astúcia quanto maior for a resistência (FOUCAULT, 
2006, p. 232). 
 
A partir de estudos sobre a formação histórica das sociedades capitalistas, passando 
pelo nascimento da instituição carcerária e a sexualidade, Foucault diz que não há uma ligação 
direta e necessária entre Estado e poder. Isto já aparecia em estudos anteriores, onde ele analisou 
instituições (escola, hospital, prisão) e relatou as articulações entre poderes locais e específicos, 
fechados em uma pequena área de atuação, como a medicina e a psiquiatria nos manicômios, 
que não necessariamente envolvem o poder aparentemente central e exclusivo do Estado. 
Nestes locais, outros saberes reinam e deslocam a ideia de poder unicamente advindo do Estado, 
ficando evidente “a existência de formas de exercício do poder diferentes do Estado, a ele 
articuladas de maneiras variadas e que são indispensáveis inclusive a sua sustentação e atuação 
37 
 
eficaz” (FOUCAULT, 2017, p. 13). Isto pode ser exemplificado com os trabalhos da psiquiatra 
Nise da Silveira, que olhava de outra forma para os pacientes internados em manicômios. Ela 
era contra as formas violentas de tratamento, como lobotomia

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