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Assembléia_de_Deus_Origem,_Implantação_e_Militância_1911_1946_Gedeon

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Gedeon Alencar
Apresentação do Prof. Dr. Leonildo Silveira Campos
Origem, implantação e militância (1911-1946)
v :
Origem, implantação e militância (1911-1946)
Gedeon Alencar
AbSe jEdijoriab 
São Paulo /'2010
_ Dados Internapionais de Catalogação na Publicação . . \
ClP-Brasil. Catalogação na fonte -c ' • . V
A368a Alencar, Gedoon '
Assomblèia do Deus - origem, irpplantação e mllitâricia 
(19110946) / Gectéon Alfencar. São Paulo: Arte Editorial,:2010 • •' ‘ ' 
192 p.: 14X21 cm ’
ISSN 978-85-98172-85-9' . ,,; , v’
Ir A^emblèla deíDeus 2. ÁssSmbielaüà Dèuà (io Brasil, •
. .3,, Daniel Berg 4. Pentecostalismó I. Título V. '
, ’ "\ ■ ' , , . ■ CDD 230
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N
Copyright © 2!01 O^por Arte Editorial. Jodòs os direitos reservados.
Coordenação editorial e projeto gráfico: Magno J?aganelli . 
.Revisão: João Guimarães , . ■
1* Edição: julho / 2010 .
Publicado' no Brasil, por Arte' Editorial..
.. V / VS'V
A r t e E d it o r ia l
Rua Parapuã, 574 - ttaberaba 
02831-000 - São Paulo - SP ’ 
editora@arteeditòriaÍ:coiji;br 
www.arteedltoriai.com.br..
SUM ÁRIO
Apresentação, pelo Prof. Dr. Leotiildo Silveira Campos. . .9
INTRODUÇÃO. . . . ' . . . ............ . . . .19
Um parêntese pessoal •Justáficativadoperíodo (1911-1946) !
1 1. PENTECOSTALISMO: ORIGEM, TEORIAS
E CRESCIMENTO, ........................... . . . . . . ------. . . 27
A ORIGEM (MARGINAI.) DO PENTECOSTAIJSMO. . . . . .-. /......... .. .29
Um filho deèscravo perturbao mundo evangélico • Babel ou 
Pentecostes, a mensagem se espalhou
R eferenciais teóricos. . . ............... .. . . . . . . . . ... .......... .. 32
Três idéias clássicas sóbre religião no Século 20 • Weber - ó 
( Carisma e às aãeptos-* SíiebUhr - a igreja dos deserdados 
' renasçe sempre? • T illic h - o . “principio protestante ” está 
peràido? • Três visões sóbre ò penéecostalistrtó brasileiro •
Leohard - um pentecostalismo serft leitura bíblica hão terá 
Juturo • Beatriz de Souza - o ajuste úfbanò • Cartaxo Rolim 
- alienação sacral /
, .Crescimento. . .". . . . . . . .'. . . . - . . • • • • • • . . . . . . . . . 42 -
Estatísticas: além da teoria, uma estimativa comprovaixwa........'45
' Tapela 1: Estimativas do crescimento.dopentecostalismo . . . . . . . . 4 5
Primeira' Fase: .Penteoostamsmq àssembleiano Brasileiro
. 2;> A IMPLANTAÇÃO DA “SEITA
\..fr PENTECOSTISTA’ - 1 9 1 1 -1 9 3 0 , ..........................., . . . 4 7
1/ Primeira Fase: a implaniação da SErrA peniecostisia (1911-1930)... 48 
-^{SegundaFase:A niSTrnjaoíiAiJZAÇÃODAlGREjA l^930-1946) . . . .50 
7; TTe^ ceiraFase: a ohçiauzação da p^eí o^minação (1946 em diante).;. .51 
Os suecos visionários. . »• •;> . ^ . . . . . . . . . . . J. . . . . . . . . 54
'/v D anielB erg(l884-1963), o operário • Gunnar Vingren (1879- 
, : }1 $33), 0 líder • O estilo Vingreri-Vingren
^'■Dissidência e Oficialização, '. . .~. v . . . 7. . . . . . ................. . .,..60-
Tabela 2: Versão assembleiana eKersáo batistà dá divisão. . . . . . . . . . . 61
O nome “Assembléia de Deus" • A expansão aleatória
Tabela 3: A expansão da AD:em.seus primeiros!anos.......... 69
Tabeia 4: Quadro estatístico da Igreja em Bèíém (1911-1914). . . . . .'. . . 71
Batismos na AD Belém (1911-1914) • A crise dá borracha ajuda y 
na expansão da A l) • .
Jo r n a is : o princípio d a modernidade. . . ; . . . . . . . . . . ; . . . . . 76
A experiência p ioneira de 1917: A Voz da Verdade • Som Alegre.-' 1 
uma dissidência carioca? • Uma palavra oficia l: Boa Semente 
(1919-29) • As êitfaêé&igóiôgicas genienté '
Tabela 5: Tabulàção do Jornal Boa Semente (1919ri 92^). . . ’. . . . . . . . 7 9
/Lv singularidades da mensagem pentecostal
Igrejas Calvinistas crescem menos que Igrejas A rm inianas? . . .-.,. . . 85
S e g u n d a F a s e : P en te ç o stalism o A sse m b le ian o B r a s ile ir o
3. A INSTITUCIONALIZAÇÃO DA IGREJA - 1930-1946 . ! . . 89
AD - Um projeto brasileiro? .,. ....;. . . . . . . . . . . . . ; . .......... .. 90
Qual a ligação da Ad no Brasil com a dós EUA ? • A Igreja Filadélfia 
dc / stocolm o é quem sustenta. E.decide • Os missionários vêm da 
,Suécia e não dos EUA • A ütísência de registro norte-americáno 
sobre a AD no Brasil * AD norte-americana versus AD brasileira *
"Projeto brasileiro"? Queprojetó? ~
6 ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA
Tabela 6: “Igrejas sédçs.Te pastpres em 1931 . . . . . .-. ...Vi". . . . . . 106 
O Ethos sueco-nordestino . . . . . . . . . . . . . ; . . . . . . . C . . p íQ 7
O ethos sueco nordestino: umà visão sòciológica * O ethos suecà 
nordestino: urna visão teológica V - '
O “M ensageiro de Paz” como consolidação da Igreja . . . . . . . . . .113 
Tabela 7;,As ênfases teológicas nos textos . . . . . . . . . .1 Í6
As convenções. . . . . . . ; . . A .;. . . . . . . v . . ;A . . . c. . . 1 1 6
Tabeuv 8: As Convenções da AD . . . . . . . . . . . . . . . . .-. . . . ' , . . . 118
A Convenção de 1930: os suecos “entregaram” ou os brasileiros . '
“tomaram ”? • A versão sueca das “Igréjas Livres ’’ e a construção 
da autonomia brasileira • Prim eira (e únibaydissidência teológica?
Os M inistérios . ................ . . . . -. . ............. . . . . . . . ... . . .127
Paulo Macalão: o alijado quê estabeleceu um estilo
A CHEGADA DE NOVAS IGREJAS.. . . , . ... , . . . . . . . . . . . . . . . ... .; . 132
■t ‘ A dissidência da cura: Cruzada nacional.de Evarigeíizàção • O c 
- que é a AD na década d e50? " •
SU M ÁR IO ■ „ 7
' 4. CARACTERÍSTICAS DO PÉNTECOSTÀLISMO
' Al-GUMS CARACTERÍSTICAS DO PENTECOSTAUSMO ASSEMBLF.IANO........ . . ....... . , ■: 1.39
1. A "síndromede m arginal" 2 .0 discurso de negação do mundo e 
o escatologismo 3. A aversão a mudanças (ou “Não destruam nossos 
m itos") 4. Liderança diversificada, doutrinação homogênea 5.
Sistema eclesiástico ássembleiano: episcopalismo vitalício\- \ ' \ ■ . ^ y. ‘“1. ■ . ■'
' Nada mais brasileiro que um asçembleiano: omisso e feliz. . . . , . . . .... . . . 1 5 0
-Uma iòreja além da “normalidade” . ........................................ . 1 5 2
- • CONSIDERAÇÕES FINAIS. . . . . . . . . . . . . . . . ... ... • • .155
J ABREVIATURAS.......• • i-k • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • lè ?
> v> REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS. , . . . . . . , . . . . . . . . . . . .159
A. . ; , ■ . •' ' ■'
,r ^ ANEXO 1: Pesquisarias fontes primárias. . : . . k . ; .171
1 ANEXO 2: Prêsençá missionária estrangeira no Brasil.. . 181 
\ > ' ANEXO 3: Convocação da Convenção de 1930 em Natal. .185 
ANEXO 4: Comparação entre as
f ■
/-
) ■
\
n ui
DEDICATÓRIA
 ^ • •
À memória de
■ í f f '■ - : :u; f \' ' ■ .
José Freire de Alencar e Francisca Rosalina de Lima Alencar
; como tributo, mesmo tendo me deixado
C V cedo, ainda sã,o responsáveis
v ; ^ por minhas conquistas.
Á P R E ^ É N m ç Ã a
E M B U S C A D E U M A I D E N T I D A D E P R Ó P R IA 
PA R A O P E K lT E C O S T A L IS M O A S S E M B L E I A N O '
yy. . ; -r. r.;,:r ; , y B R A S IL E IR O . '
Dezenas de eventos, de grande envergadura estão sendo. 
preparados para comemorar, em 2011, os 100 anos da chegada 
a Belém, Estado do Pará, dos pregadores pentecostais, de , 
origem batista, e imigrantes suecos nos Estados Unidos, 
Gunnar Vingrçn (1879-1933) e Daniel Berg (1884-1963). 
Naquela, cidade, a partir de uip pequeno grupo de fiéis 
pertencentes à Igreja Batista,, em 1911 Qrganizou-se a Missão 
da Fé Appètólica, que eih 1918 adotou ó nome d e ,.Igreja 
Evangélica Assembléia de Deus (IEAD).
Nas primeiras décadas, a IEAD avançou no norte, nordéste 
e sul do país sem se fragmentar. Cem anos depois, os 
assembleianos se acham divid idos em dezenas de 
“Ministérios” e várias “Convenções” , que coiri suas
redes dè; 
templos, recebem aproximadamente 10 milhões de brasileiros 
que buscam viver a fé cristã numa perspectiva pentecostal.
As comemorações do centenário do pentecostalismo no 
Brasil ocorrem após as celebrações acon tecidas no Chile (1909)
e no próprio berço - Azusa Street, em Los Angeles, Califórnia 
- (2006). Para aquela cidade norte-americana, em abril de 2006, 
pentecostais do mundo se dirigiram para comemorar a data 
considerada ofieialmente como o marco inicial"do avivamento 
péntecostal eo início do “Século do Espírito Santo”, na expressão 
. de Vinson Synan. É claro que tais datas evocam eventos cuja 
datação é quase sempre discutível. Em que ponto da História 
poderse fixar o “ponto zero” , a partir do qual se cria uma 
historiografia? 1
Estamos aqui iios referindo ao “mito das origens”. Mas, 
por que esse avivamento de Los Angeles foi escolhido’ como 
“marco zero” no lugar do que aconteceu em Topeka, em 1901, 
com Charles Parham (1873-1929)? Não vem ao ca.so discutir 
aqui os m otivos dessa opção comemorativa, porém é 
importante assinalar que a historiografia do movimento 
pentecostál acabou consagrando o ministério de um filho de 
ex-escravos negros da Lousiania, Willian Seymour (1870- 
1922) como o “ herói c iv ilizador” . Seymour foi assim 
consagrado como aquele que despertou o mundo para as 
bênçãos de Pentecostes no século 20. / ’ '
Ô movimento pentecostál ficou conhecido pela sua 
capacidade de crescimento e, ap mçsmo tempo, de 
fragmentação. Daí'ser significatiyo que o site criado na internet 
relativo ao centenário pentecostál tei^^ .êsçòMdQ .çomo/seu:v 
slogan principal a expressão Together Again. Isto é, depois de 
100 anos, os pentecostais estavam novamente unidos. Esse 
slogan é sugestivo, pois, ess’a explosão do avivamento 
pentecostál criou - tantos ecos, e provoco q tantas ondas no 
“ lago re lig ioso” que acabou por gerar milhares de 
movimentos, instituições autônomas oú redes pentecostais é 
carismáticas em todo o mundo. O pentecostalismo assumiu 
culturas, tendências e se aclimatou em várias partes do 
mundo. Daí a necessidade de se Falar nesse objeto sempre np 
plural - Pentecostalismos. .. A
12 ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA
Porém, depois de tanta fragmentação, resultante do 
dinamismo do movimento e dos conflitos que frequentemente 
ocorrem entre lideranças carismáticas, ainda se pode falar 
que cada um desses; fragmentos conseguiu construir uma só 
identidade e alcançar uma coesão interna duradoura no tempo 
e no espaço? Como captar, além do dinamismo operante em 
; cada indivíduo ou comunidade, o dinamismo operante nas 
grandes e pequenas igrejas e denominações pentécóstais? Há 
■ uma identidade pentecostal que sübjaz a todas as partes desse 
mosaico? v e
APRESENTAÇÃO
v Há pouco mais de 15 anos, Paul Charles Freston, com sua 
' } costumeira acuidade, observava haver uma ausência de 
' pesquisas que conseguissem ultrapassar a dimensão do micro, 
;d'nos estudos do pentecostalismo brasileiro. Em uma frase de 
,' seu artigo sobre a Assembleià de Deus (1994:106), que é citado 
N ■ neste texto de Gedeon Freire Alencar Freston defendia que 
" estava na hora db estudioso de Sociologia da Religião se lançar 
^>no “ estudo das grandes igrejas pentecostais enquanto 
'^instituições em evolução dinâmica” .
t ' Há 10 anos, tendo inclusive Paul Freston. na sua Banca de 
;rMestrádo, Alencar se incluiu entre os estudiosos dispostos a 
atender ao desafio verbalizado por Freston. No ano 200Q, 
'^Àlençar apresentou, na Universidade Metodista de São Paulo, 
^/i'a sua/dissertação de mestrado\ Todo poder aos pastores, todo 
f}ptrabalho ao povo, todo louvor a Deus. Assembleià de Deus:
jt- Origem, implantação ém ilitância (1911-1946). O novo Mestre 
'íT-ém Ciências da 'Religião fõi orièntadò pela Prof.a Dr.a Maria 
á^ jçséF . R. Nunes uma aguerrida e competente autoridade 
h . .brasileira em Ciências Sociais e„ Religião.
J Desde à apresentação daquela dissertação passou-se uma
^rdçcada. Porém, esse.,texto sobre á Igreja Evangélica Assembleià 
l^de^eussdiãò*^perihainéceú nas "prateleiras, esquecido como 
acontecevcórn muitos textos ácadêmicos enfocando ou não a 
l.P 'religião. Sua dissertaçáo de mestrado circulou entre estudiosos
ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA
do pentecostalismo ná forma de cópias xerográficas ou 
digitalizadas. Houve até uma infeliz tentativa de plágio de sua 
dissertáção, que acabou sendo parcialmente resolvida na 
]ustiça anos depois. Alencar pensou em esperar pelo Doutorado 
(neste momento em andamento na PUC-SP) para aperfeiçoar o 
texto de sua dissertação. No entanto, ele acabou por não resistir 
à pressão, que. se tomou mais forte depois do sucesso de seu 
provocativo texto Protestantismo mpiniqüim; Hipóteses sobre 
a (não) contribuição evangélica à cultura brasileifa, (2005).
O texto de Gedeon Alencar não esconde as suas raízes
, assembleianas nem as dificuldades oriundas dessa pertença, 
O pai de Alencar foi pastor da Assembléia de Deus. Em suas 
andanças, Alencar se tornou membro de uma Rede de 
Teólogos Pentecostais, que admite prioritariamente intelectuais 
pentecostais, sempre com a tarefa de repensar teologicamente 
o movimento pentecòstal na América Latina.
Portanto, a visão qtie A lencar comunica da Igreja 
Assembléia de Deus está longe do ideal positivista de 
afastamento do objeto ou. de neutralidade acadêmica. Mesmo 
assim, não se pode afirmar què seu texto é apenas uma forma 
de fazer um acerto de contas com seu passado assembleiano. 
Porém, é possível que o fato delé ter sido filho de pastor e de 
congregar hoje na Igreja Betesdá lhe tenha fechado algumas 
poucas portas nà pesquisa- Alencar, no entanto, consegue 
t ransformar o qtie parecería uma desvantagem acadêmica em
uma oportunidade de fazer um estudo inovador a partir de ; 
dentro de seu objeto de estudo. Ele consegue, quase sempre, ; 
conter as paixões pelo objeto e desenvolver interesses de 
pesquisa usuais nos. meios da Academia.
Por isso, Gedeon Alencar circula com naturalidade pelos 
meandros do mundo assembleiano. Essa pertença lhe abriu 
portas e lhe possibilitou um diferencial nas investigações, 
permitindo que ele pudesse ler documentos nas entrelinhas,
interpretar discursos, colocár em prática uma forma muito
f , . • . . . .r ' V /■'
APRESEN TAÇ Ã O ■ : 15
- pessoal de interpretar o “mundo assembleiano brasileiro” .
' Essa pertença ainda lhe deu uma flua sintonia, para não dizer 
um faro refinado, para os conflitos naturais e humanos, sem 
|-'0S quais a constituição do campo religioso não ocorre com 
: fidelidade, confbrmé nos ensina Pierre Bourdieu. '
Em sua análise, Alencar não centra a sua atenção nas 
' origens norte-americanas do peritèeoStalismb brasileiro. Poderia 
até fâzê-lo, visto, que tanto o ítalo-americano que começou a 
Congregação Cristã no Brasü (l910), como os suecos da Igreja 
Assembléia de Deus, tiveram o impulso inicial para o trabalho 
missionário em. outras terras sob a influência da dinâmica 
missão pehtecOstar inaugurada em'Chicago por Williàn H. 
Durham (1873-1912). Porém, como assinala Alencar, a 
' jástalação do pentecostalismo assembleiano no Brasil, se tiver 
. faturas a serem pagas, teriam que ser creditadas aos suecos, 
em particular à Missão Filadélfia de Estocolmo* Fòi essá missão 
j que, liderada por um dos pioneiros do pentecostalismo europeu, 
|>Betrús Lew i Pethrtís ( l :88#r 197*4), etíyípu dezenas de 
 ^missionários pentecostais para o norte e nordeste brasileiro 
’ -entre 1912 e 1930. Mesmo assim, o despertar inicial do 
* pentecostalismo no Brasil não esteve ligado a empreendimentos 
. . missionários, comb ocorreu com os protestantes históricos nas 
%deçâdas anteriores. Daí ser possível afirmar que as principais 
&iaízes da Assembléia de Deiis brasileira não são a Igreja
^ííomônima norte-americana^ organizada a partir de uma 
VfcÔhfêderação de igrejas pentecostais de brancos naquele país. 
|;"dabè aqui, pelo menos no caso da Congregação Cristã rio Brasil 
|^|nã: fa sè in ic ia l;d á apelidadade “^ i t â ' penteçbsíiSta” 
^CAsséihbleia de Deus), reconhecer que a expansão perttecostal 
^íoVurn, trabalho liderado por leigos, e que,ganhou força num 
í^bqntexto depois batizado por pesquisadores cariocas - 
^^^Htécostálismo âutónomo’\ Em outras palayras, a sua 
pfópàgaçãò. dependeu muito mais dos esforços laicos e livres 
'"'.das .organizações missionárias qu^se sempre pressionadas 
^ f i lá s burocracias clericais. - v ' ■
ló ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA .
Entre os vários tentas que Gedeon Alencar atrai para o 
debate sobre a Assembléia de Deus no Brasil, -no período de 
1911 a 1946, podemos destacar alguns deles. O primeiro é 
que as origens, avanço e crescimento do pentecostalismo 
reforçam a teoria de Webér retomada por Niebuhr, a respeito 
do papel desempenhado pelos atores que estão à margem dos 
principais movimentos e organizações religiosos. Isto é, a 
criatividade e a inovação, inclusive no interior do campo' 
religioso, dependem muito mais dos que estão fora dos 
paradigmas (na linguagem de Thomas Khun) do que daqueles 
qué são os privilegiados pelos modelos predominantes. No 
pentecostalismo inicial, os negros, brancos'pobres, imigrantes 
e outros desprestigiados da economia e cultura norte- 
americana, assumem a vanguarda da inovação peritecostal. 
Nos países onde os pregadores pentecostais foram bem 
recebidos, os que os receberam eram também oriundos das 
camadas mais pobres da sociedade. ^ / V
O, texto de Alencar torna visível a figura de Frida Maria 
Strandberg Vingren (1891 -1940), a esposa de Vingren, cuja 
tenacidade, iniciativa e autoridade gerou um indisfarçável 
desconforto entre a segunda geração de pastores da 
Assembléia de Deus, especialmente na elite nordestina que 
assume, a partir de 1930, os destinos dq denominação no 
Brasil Frida Vingren participou de muitas átividades no meio 
assembíeiano que ainda hoje é úni espaço cQhsiderádp corno 
um espaço” dos homens. Ela era na vida prática uma pastora, 
mais. do que um complemento do ministério do marido! 
Escrevia pára osx jornais da denominação muitos artigos na 
forma de reflexãp e poésias. Somente nos números editados 
entre 1930 e 1931, conforme Alencar, Frida escreveu para o 
Mensageiro de Paz 10,9 % de artigos e poesias. O seu marido 
produziu ápenas-3,4% do total publicado nesse jornal. O papel 
ousado do trabalho de Frida é usado por Alencar para 
ressaltar a problemática de gênero ainda não resolvida entre 
os assembleianos às vésperas dé seu centenário. "
* Outro texto, em que Alencar descobre questões ainda 
>'■ insúficieritemènte debatidas é o crescente processo de 
autonomia e independência dos pastores nacionais em relação 
'■'< aos suecos. Os anos 1920, entre as denominações evangélicas 
/ brasileiras, ainda ressoavam. a divisão da Igreja Presbiteriana 
t" ,(1903) por problemas ligados à intervenção das missões: norte- 
; americanas. Os batistas também tinham os seus problemas e 
os metodistas caminharam naquela década rumo à autonomia. 
Das denominações pentecostais, somente a Assembléia de Deus 
): teve esse problema, pois, a Congregação Cristã' no Brasil 
’ praticamente ficou nas mãos dos leigos brasileiros que 
D reçeberam desde o início o apoio de Franciscon, ele também 
, uni leigo pentecostal ítalo-norte americano, que nunca esteve 
• ligado a quaisquer agências missionárias.
1( A famosa convenção assembleiana de 1930, realizada em 
Natal, marcou o afastamento dos missionários, a ascensão 
V dos nordestinos, e a fixação dos suecos para áreas novas. 
:«8>Rprém, pergunta Alencar, naquela Contenção os suecos 
“entregaram” ou os brasileiros “ tomaram” oá destinos da 
f~' Igreja? Seja qual for a resposta, o certo é que tais conflitos 
1'j' entre nacionais e estrangeiros, onde houveram, sempre 
^ acabaram por deixar marcas profundas em ambos os lados, 
5?i' cjúando não lima independência não bem resolvida.
n?- C O último capítulo deste texto faz referência às características 
jt^do' pentecostalismo desenvolvido no Brasil pela Igreja 
í. . .-^Assembléia de Deus. Hoje o nome Assembléia de Deus, serve de 
A um guarda-chuva para cerca de 10 milhões de pentecostais 
^jbmsílçirps. O seu crescimento sé deve à facilidade que ela se 
*> d acomodou ^ cultura brasileira? A sua penetração em áreas 
7D; marcadas pela migração interna, pelo êxodo rural, pela vinda 
dé nordestinos para o sudeste do Brasil, pela formação de um 
«r.Dpperariado nas grandes cidades que perderam as raízes 
, religiosas finca tias nò mundo rural, não teriam ajudado na 
'■ expansão dessa Igreja? A süa inserção no campo da política
v APRESENTAÇÃO 17
- v ■ â. ' ■ ' ".. ,
após o regime militar, uma crescente visibilidade na mídia, onde 
no Norte a Igreja tem suas próprias estações de televisão, o 
estabelecimento de um enorme parque gráfico, de escolas de 
formação teológica para os futuros pastores e obreiros. Ora, 
tudo isso não está potencializando o dinamismo inicial do 
movimento pentecostal e encaminhando a Assembléia de Deus 
para uma identificação cada vez maior com a cultura brasileira*?
Algumas dessas questões ainda não estavam claras quando 
Gedeon Alencar escreveu o seu texto, no final,da década 
passada, As pesquisas sobre pentecostalismq no BrSsil 
caminharam muito nesta última década que está se 
encerrando. Porém» o texto escrito por Alencar sobre a 
Assembléia de Deus no Brasil não perdeu á sua capacidade 
de estimular nôvas investigações desse conglomerado de 
igrejas e ministérios, cujo início parecia ser tão simples há 
100 anos. Hoje não se pode negar que de cada 10 evangélicos 
brasileiros pelo menos quatro'deles fazem parte de alguma 
igreja ligada à Assembléia de Deus. , r ^ . d
Por tudo isso, este texto de Gedeon Freire Alencar, a despeito 
de alguns pequenos problemas típicos de uma investigação 
que não pode contar com literatura ácadêmicá específica, ainda 
assim soube trazénà tona questões que vale a pena discuti- 
las. Com certeza, neste ano de centenário da Assembléia de 
Deus no Brasil esta e outras obrás viraó preencher um vazio 
em- nossos conhecimentos sobre o pentecostalismo que se 
aclimatou no Brasil. Infelizmente, apesar dos lõ anos 
passados do desafio de Paul Freston sobre a necessidade de 
se conhecer mais as-principais denominações penteçostais 
b ras ile iras, temos produzido na Academia tão pouco 
conhecimento sobre elas. f ^ r, .. ■ -
Prqf. Dr. LemtídpSilveimC&mp&s ;
U n ivers id ad e M etod ista de São Pau lo UM ESP V - -
P rogram a de Pós-Graduação em Ciências da R elig ião .
: 8 ÂSSEMBLEIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃÒ E MILITÂNCIA
IN TRO DUÇÃO
- Em 1910, a Igreja Católica celebrava missas em latim, a 
igreja Luterana, cultos em alemão, a Igreja Anglicana em 
inglês. Até mesmo a .única igreja pentecostal da época, a 
■Congregação Cristã do Brasil, celebrava sèus cultos em 
lialiano.^O espiritismo ainda era caso de políciaje os cultos 
mo rèferénçíãl religioso, nem sequer eram nomeados 
-ou reconhecidos. Qual.então, o espaço para a expressão de 
frélígipsidade popular da época? Oficialmente, nenhum.
^>'Dè um ,lado havia uma densa institucionalização religiosa 
lha Jgreja Católica e demais denominações protestantes e, de 
gSSteo, uma religiosidade marginal não aceita dentro densas 
líSldtuições^estabelecidas, cbmoAs expressóes-da religiosidade 
lafrb. Há, portanto, um imenso espaço no campo religioso 
káüuado entre essas duas realidades. É neste momento (em 
que a Assembléia de Deus surge no Brasil. Há muito 
I Í f e o - a ser conquistado. Hoje, o surgimento de uma igreja 
|Je§teçóstaL popülarTnãp causa nenhuma alteração no cenário; 
^jela
perde-se no meio de tantãs outras. Em 1911, põr ser a 
fíprimèira igreja estabelecida em Blém, fez muita diferença, 'fôm 
b t íà ó com viiite pessoas e- segundo Read (1976;122), ja em 1930 
.0 0 0 membros,- ém 1950, 120.00.0 membros, üm. 
^crescimento de aproximadamente 69.000% em 19 anos e 108.000%
em 38 anos, respectivamente. No total, mais 600.000% de 
créscimento nas quatro primeiras décadas, algo em torno de 
? 15.000% ao ano.
Este ppntecosfalismo, atualmente nominado “clássico”, foi ' 
trazido por imigrantes pobres, sendo, portanto, marginal no 
sentido de sua posição frente àsf instituições estabelecidas e 
v aceitas, e marginal por ser uma religião de pobpes e negros. 
Aqui no Brasil, esse pentecostalismo cresce entre imigrantes 
nordestinos e alcança todo o país sempre de forma periférica.
Os suecos de- tradição batista, que o trouxeram para o 
Brasil, não estranham a perseguição religiosa, pois já de muito 
eram vitimados por ela. Na Suécia, pela Igreja Luterana, uma 
entidade estatal, rica e aliada do governo, onde ser “batista” 
era üm grave ato subversivo. Aqui são perseguidos pela Igreja 
Católica e demais igrejas protestantes, mas, ironicamente, 
protegidos pelo Governo por dispositivo constitucional da 
liberdade religiosa. Tal realidade política é fundamental para 
a postura desta igreja, sempre elogiando o governo.
,r T^ntbém por causa da “aversão à organização”, seu discurso
— negativo aos olhos de todo e qualquer modelo institucional
- faz disso, pretensamente, seu estilo. Portanto, não desenvolve 
nenhuma instância burocrática nacional e quando cresce fica 
vulnerável ao personalismo de seus líderes, resultattdo distò/ 
uma igreja guantitativamente grande,, más fraçanèm sua 
representatividade. Nunca teve um órgão nacional de estratégia, 
mas alcançou o país em 20 anos; nunca teve organização 
efetiva, mas é am aiorigreja evangélica do país; nunca teve 
teólogos e/ou eruditos, mas foi a que mais cresceu; neste 
.período, não havia nenhuma escola de formação de obreiros, 
mas proliferou mais que qualquer outra,- .sempre foi periférica 
e marginal, mas alcançou os pobres e simples como nenhuma 
outra; Ela incorpora como “bênção” todas as críticas que lhe Ç 
são dirigidas (alienação política, conservadorismo, atraso etc.).
20 ; ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPIANTAÇÂO E MILITÂNCIA
í ' INTRODUÇÃO.
' *. . . . . . . . . . _ .
% Este pentecostalismo está bem distante do moderno quando 
X a ênfase é riqueza, poder e saúde - a tríade d.a teologia da 
prosperidade.1 No primeiro momento, as marcas do 
‘pentecostalismo eram glossolalia (falar em-línguas estranhas 
como resultado do batismo com o Espírito Santo), cura divina 
,/ e forte escatologia. Com uma interpretação bíblica funda- 
^ mentalista e espaço apenas para uma moral individual 
puritana.
? . . D i a n t e d is s o , e s t e l i v r o t r a t a do n a s c i m e n t o da AD no Brasil,
,v' sua expansão e seus membros. Como dois suecos solitários 
u ' iniciam acidentalmente essa Igreja que veio a ser a maior 
A instituição evangélica do planeta e, apesar disto, que efeito 
i>, çaüsa na vida sociocultural dèste país? Como esses suecos se 
piantêm durante quatro décadas no pòder e depois são 
fefGompletamente substituídos por lideranças nacionais, não sem 
muitás tensões e contradições dás mesmas. Acrescente-se 
R$ nésta disputa, á tentativa dos norte-americanos de também 
teMínfluenciarem a liderança nacional. Por fim, quem de fato faz 
esta igrejá: quem a constrói, á leva nos otnbros e a mantém? 
Este membro anônimo que prêga, sofre a perseguição, abre 
K òs"trabalhos, contribui, “põe a mão ha massa” , mas passa ao 
^ largo das disputas e do exercício do poder, porque é assim a 
ifeAssembléia de Deus, especialmente no período coberto por 
fiz e s te livro.Taisdisputas máò interessam-ão membro, que não 
|^/doma partido, antes, quer agradar ao seu Senhor. Como o t ítulo 
Ju?deste trabalho quando apresentado inicialmente sugeria, os 
^ bastores"têm todo o poder, os membros todo o trabalho e Deus
neopenteeostaiismo e apoiiMuy como mwuuiym^ xy*** — r~*. ~
X'U teologia, apesar de alguns grupos da terceira onda à renegarem. Cf. Campos (1999 
‘ b) e Mariano (1999). , ' ;
■J • '
22 . . ' ASSEMBLEIA d e d e u s - o r ig e m , im p l a n t a ç ã o e m il it â n c ia
; . ■ : / ' -i ’ ■, ' ; * ~ /;: ''
Um parêntese pessoal
A discussão da imparcialidade científica é antiga. Esta 
pretensa assepsia cien tífica , defendem alguns, é algo da 
própria ‘‘essência” da ciência. AÍgo, aliás qüe não resolve nem 
ajuda a ciência, pois, desta forma, se lhe daria uma categoria 
metafísica, e, ironicamente, foi contra a metafísica religiosa 
medieval que a ciência mais lutou no seu processo de 
emancipação. Ontologicamente, a ciência precisa ser feita em 
nome da exatidão, da metodologia, da objetivação, excluindo- 
se, daí, toda a subjetividade, valores crenças, etc. Ora, quem 
consegue isto? yma pesquisa científica sobre religião situa- 
se sobre um limite muito tênue.2 Por que um pesquisador 
escolhe esse e não outro tema? Por que, depois de escolhido, 
toma esse rumo e não outro? (ÜonvenhamòSí situar is to numa 
objetividade científica é muita subjetividade.
Esta pesquisa, como qualquer outra, tem problemas pela 
escassez de dados, pela dificuldade de coletá-lòs, pelo 
ineditismo do foco pesquisado. Averiguando a produção da 
sociologia da religião no Brasil, este deve ser o primeiro 
trabalho sobre a: Assem bléia de Deus escrito por um 
assembleiano. Mas não aceito, a p rio ri, o policiamento 
científico” de que apenas um ateu e/ou agnóstico téria a 
isenção necessária para escpevér sobre teligiâò, pois, assim 
sendo, mulher não podería escrever sobre mulher, comunista 
sobre, comunismo, negro sobre negro, ateu sobre ateísmo - ó 
ser humano sobre a raça humana! ^ V v
Como assembleiano, admito, soir duplamente suspeito: na 
academia, pelo qüe destaquei anteriormente, mas creio ser 
possível superar; já dentro da igreja, d caso é mais grave. 
Diversos pesquisadores que trabalharam no meio evangélico 
foram alvo de afçição e proselitismo (Gouveia, 1986;
i Cí. Pedro Ribeiro de QÍiveira (1998) Estudos da Religião no Brasil: um dilema entre 
academia e instituições religiosas, in Sousa (1998) Sociologia da fieligião nò Brasil.
23f lN T R W U Ç Ã ®
^Mariano, 1^99; Brandão, 1986) e “os erros/má interpretação’’ 
& seüs trabalhos, se por acaso Hdos pelos fiéis, serão 
desculpados pela “falta de fé, discernimento espiritual etc.” . 
j»(jEu não terei esta atísoivição^ dos; mens entrevistados e dos 
» leitores da igrejá - e, isto ja deve seryir de indício, para os de, 
,r fora, de como a igrêjà age. Tudo na igreja, de forma úniça e 
TexclusiVa, é explicado “espiritualmente” . I^to pode ser tão 
1 obtuso quanto uma “explicação puramente cièntÍfica”JÊ peste 
terreno minado que tenho de seguir. Interessante como duas 
áreas opostas podem se encontrar em seus extremos.
£ ,v» . ' .. . ■ ’ ;V - v > ‘ • ,
^ i “Suspender provisoriamente as opiniões pessoais do
/ investigador acerça da existência, e açêo dos-seres
. N sobrenaturais, hão deixando que tais opiniões penetrem
 ^ ’ na investigação científica com á função dê’ “critérios'” (...)
^ ^ De fato, è desté modo que investiga e expõe qualquer bom
*> ' historiador da Igreja, por mais crente e praticante que seja” 
' (Maduro, 1981:46). ^11 •-
Esta não e uma obra apologética,3 mas também não ê.um 
~h“ácerto de contas” . As publicações produzidas pela própria 
igreja, obviámente, todas são “apologetiças e triunfalistas 
|^(Mõnteiro, 1995:11), mas no universo protestante,, alguns 
^pesquisadores aproveitaram seus trabalhos para,1 digamos, 
íiççontarem outra versão. Rubem Alves4 justifica este ãcertò 
• Adé contas” da seguinte forma: “Os cientistas que se dedicaram
fe ^
fá z é r tinia análise’ crítica dó Protestantismo sãó todos, (na
- ! ■ ■ ■ ■ - - ■ ' ■ ' ■
^Quando ainda na pesquisa na CPAD - Casa Publicadora das Assembléias de Deus, 
wlr/Vem conversa com um dos diretores na ocasião, ele sé mostrou interessado na 
' ' publicação de meu trabalho. Desconversei. Quando d conteúdo completo da 
pesquisa fosse conhecido, elè,' èvidentemente, entendería qtiè ã Çaáa (çomo a 
V, ,.C^AD é conhecida entre eles) não poderia publicâ-la. O tjue não difere de nenhuma 
f’ ‘editora religiosa confessional;. ’ t
f> * * Rubem Alves, autor de Protestantismo é Repressão (Àtica, 1978);:e Dogmatisnto e 
^ v Tolerância (Paulinas, 19.82), é um bom exemplo deste “ajuste de contas”.
24 . ASSEMBlEIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO e M il it â n c ia :
v medida eni que eu conheço), ex-pastores, ex-seminaristâs, ex- 
líderes le igos forçados a deixar suas funções ( . . .) Q 
protestantismo e analisado como uma ideologia repfessora, 
totalitária, capitalista, que se encontra em casa rium Estado 
Capitalista e totalitário” (1984:136-13 7)-.5 ■ \ "
Concordo com Otto Maduro quando diz que “ fazer 
sociologia da reljgiãó é ver e estudar as religiões (todas da 
mesma maneira) como fenômenos sociais” .6 Como minha área 
de atuação é a sociologia da religião (e não a teologia), ative- \ 
me a uma análise sociológica da denominação, dentro dos 
padrões estabelecidos por esta ciência. As “razões dos fiéis” , 
serão respeitadas, mas não validadas como explicação 
sociológica. A ■ ■ J 7:
, Assim, este livro pretende ser, como diria Bergér, '‘uma 
tentativa de: compreensão”7 da fundação e construção da AD 
em suas primeiras quatro décadas. Iniciada em 1911 , é, 
representante de um pentecostalismo brasileiro nascente e 
monolítico até a década de 50, quando õ movimento se ramifica 
sobretudo, se diversifica. Apresentava-se ben| diverso do 
pentecostalismo moderno e pluralista de hojé. " -> :
Justifiçativa do período (1911-1946)
O pentecóstàlismo brasileiro, eni seus pfú^èirqs 40 anos V 
prim eira onda (Freston, 1993), tem dois modelos: um italiano 
e outro sueco, ambos vindos dos EUA. A versão italiana é a
nenhnm exPurg ° ou algo similar por questões políticas — isto ': 
não melhora nem, piora” a AD, é apenas indíciodc sua postura política que 
iremos discutir no capítulo IV. ■ 'Ç ; - - ' , ,
6 Op.cit. Maduro (1981:46). ’ ' . ■ ■ ;•
7 função da sociologia da religião: compreensão dos fenômenos religiosos
enquanto realidades sociais. Ou na defínição completa de llerger (19976:14) “a 
sociologia não é uma ação e sim urna tentativa de çompreensão” Cf. ainda Maduro \ ' 
(1981) Martelli (19S>5); Wetier (1998). ' ' (
^ i n t r o d u ç ã o 25
Mppngregação Cristã no Brasil — CBB. Nascida em 1910, é, em 
Jf$iiâs primeiras décadas, uma “igrejã italiana” . Cresceu no 
Pferièio da colônia italiana rio Sudeste e até 1947, Seus hinários 
teseusxu ltps ' eram ieãlizados rièssa líriguá, quando começou 
|L:a “abrasileirar-sé". O binário da CCB, em sua I a Edição, èm 
p ft ’924, çra italiario. A terceira edição, èm 1935, foi bílíttgüe, e 
i fem 1943/rim portüguê^ definitivaménte.; (Silva, 1995:77-78) 
W jNão sofreri nenhuma alteração doutrinária, não teve nenhum 
Cisma e continua, ainda hojç, uma igreja muito próxima de 
f^ u a s origens.8
f c a versão sueça do pentecostalismo brasileiro é Vista na 
uv Assembléia de Deus, que se mantém razoavelmente uníssona 
pi!, pm seus primeiròs anos, mas a partir da década de 50, além 
|!'dai disputa frâtricida dos “ministérios” e seu processo de 
^institucionalização irreversível, ela tem que disputar espaço 
Ip^rim. os diversos'grupos pentecoStais que surgem rio cenário.
Apenas para citar aá igrejas de maior expressão, temos a Igrèja 
|i^-do Evangelho Quadrángulap (Í951), Ò Brasil para Cristo 
(1955) e a Igreja Peritecostal Deus É Amor (1962). O mundo 
'^i/pentecostal já não é o mesmo. 1
O pèríodo coberto neste livro vai, portanto, do nascimento 
j^p da AD em 1911, até o momento de seu registro estatutário em 
|í?,‘Í946 como uma Convenção Geral, de âmbito nacional, e com 
i í '-'um órgão de imprensa e produção oficial, de seu material, a 
fÇ ' Casa Publicadora das Assembleias de Deus - CPAD. Esse é 
jfe'- também o período que chamo de “dqminação sueca” , pois com 
f f / o estabelecimento da CPAD, com. recursos norte-americanos, 
||Sa,ÀD no Brasil “ sai” <ia influencia sueca e passa pára a 
influência nórte-americana.
WS ■ - v ' ' " ■"
g&k.c* .... . - -• _■■■••
1 ^ E^stc é un t típico movimento religioso baseado em tradição orâl, já que não publica 
^liyros e/ou tratados pará qué, a partir dos mesmos» possa ser avaliada. Poi causa 
disto, evidéntemente, tudo o que é dito a respèito da mesma, via de regra, é 
'x interpretação de alguém de fora. Sem entrar no mérito da questão, as fontes para 
fêAfjs. * ,as informações sobre a CCB são de Read (1967) e Monteiro, (1997).
' 6 ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM , IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA
Algumas correlações entre a AD antiga p a ~
realizadas com o o b je to dò benefício
^ b e S e l
1. Pentecostalismo: origem , 
 ^ teorias e crescim ento
É Repetindo o senso comum, o pentecostalismo é o mais portante fenômeno religioso do século 20. E, senso comum, 
iflmbém sé tornararti alguiis “princípios sôciòlôglcos” que 
^ p íiç a m Ò pentecostalismo, ou pelo menos se tornaram 
fp^drão metodológico pará enquadrá-lo à partir dós' anos 
Ressenta, quando éle começou a ser estudado no Brasil. Esses 
^pfitícípios sociblógicòs” , resümidamente, seriam que a 
'^èligião institucional não conseguiu responder à. .anomia 
; provocada pela urbanização e industrialização das cidades 
brasileiras, agravadas pelo seu caráter opiáceo, num amplo 
processo de alienação deste continente pobfe que nãò aderiu 
e/ou não entendeu a racionalização m odernizadora
‘ protestante das denom tóspójricaè-;
■v Mas a complexidade, tanto dó fenômeno pentecostal cómo 
"do pensamento destes autores, é bem maior. Portanto, dizer 
'que o crescimento do pentecostalismo deu-se como resultado 
‘Jaà anomia produzida pela urbanização a partir da década de 
. iôO poderia até ser uma explicação a partir dessa época, mas 
'éómo e por que o pentecostalismo cresceu - e cresceu muito - 
^nas décadas anteriores? justificar a adesão ao pèntecostalismo 
pór absoluta alienação das massas empobrecidas é uma cias 
respostas, mas por que parte da “ massa alienada” adere 
também á outras religiões ou a nenhuma delas? E qual a
explicação para as alterações sociais operadas conco- 
m itaptem ente a esta alienação? Por ,fim, situar o 
pentecostalismo tluma “efervescência carismática”, excluindo- 
lhe do mínimo de racionalização, negando-lhe, inclusive, a 
nominação de igreja e/ou protestante9 pode ser apenas a mera 
indicação do problema e não sua explicação. Mas o que dizer 
' do processo de institucionalização das chamadas “agências 
de cura diviria”? Repetindo, não dá para enquadrar úm 
“fenômeno paradoxal" (André Droogers, 1991)e a complexidade 
dos marcos teóricos durkhamiano, marxista e weberiano em 
poucas linhas. /s ’ ~
Adem ais, algumas perguntas que os primeiros 
■ pesquisadores lançaram ou se propuseram a responder, por 
causa da renovação dõ fenômeno continuam esperando 
respostas; as respostas dadas foram superadas, mas outras 
surgiíam. E, atualmente, as pesquisa têm um leque bem 
' d iversificado. Há diferentes perspectivas no estudo do 
pehteçostalismó, como acomodação social (Sotisa, 1967; 
D’Epiriay, 1967), superação da pobreza e machismo (Mariz,
- 1994, Machado, 1994), alienação social (Rolim, 1985; Brandão, 
1980), formação da cidadania (Novaes, 1985), atuação política 
(Frestón, 1993), adesismo político (Pierucci, 1996), 
relativização ética (Mariano, 1999) e até modelo administrativo 
de marketing (Campos, 1999b). Há, portanto, ditérerites 
respostas e
análises dos diversos pesquisadores em suas 
respectivas épocas. ' V
tyosso objetivo >é, a partir das mesmas épocas, entender a 
pluricausalidade do crescimento do pentecostalismo, e não 
tratá-lo num só marco teórico como foi feito anteriormente- 
(Fernàndes/ISER, 1998:134; Campos, 1995). “Para se entender * •
, P °r razões diversas, e em contextos diferentes, alguns autores entendem q u e '.
• determinados grupos ditos,pentecostais ou neopentecôstáis não'podem ser
chamados de protestantes e/de igrejàs evangélicas, cf. Mendonça, 1998; Mariano, 
1988, Jardilino, 1994. >
28 . ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA
ENTECOSTAUSMO.' ORIGEM, TEORIAS E CRESCIMENTO 29
gi-bem os pentecostalismos10 presentes na sociedade brasileira, 
pAe-preciso que seus analistas passem dos paradigmas da 
^ s im p lic id a d e para o domínio dos parad igm as da 
Wicpmplexidade" (Campos, 1995:29, grifo no original). piversos 
LÇ trabalhos escr(tõs há alguns artos úsafáin uma das antinomias 
basilares, como igreja-seita, pobre-rico, opressor-oprimido, 
^^cfenal-m ísttco ,.;forém i ha • atualidade, com a superação 
£ n desses paradigmas, o desafio é, usando o que eles têm de 
£ ■ válido e ao mesmo tempo ultrapassando-os, interpretar a
w í T
l i k
i ' r
^realidade com uma visão mais ampla.
■ A O R I G E M ( M A R G I N A L ) O O 
, P E N T E C O S T A L I S M O
U m filho de escravo perturba o mundo evangélico
^ jr ípjpi}
*àx;, A/ma Azuza, 312, em Los Angeles, no início do século 20, 
^"considerada o marco do nascimento do pentecostalismo 
^moderno (Hollehweger; 1976; Dayton 1987) tendo como líder 
^principal o “apóstolo negro” (Forbers J, 1983:12),J. W. Seymor. 
t Esse filho de ex-escravos havia assistido algumas aulas nà 
t Escola Bíblica Betei, sob a liderança de Chàrles Fox Parham, 
^'e^cola-na qiíal bm oyimeittp^ estranhas” teve início,;
| çm 1901. Parham desafiou os alunos a estudarem o livro de 
Átos dos Apóstolos e, a partir desse estudo, o fenômeno da 
Kglossblãlia aconteceu e se espalhou.
|£ : ; Apesar .desse registro localizável, há diversos relatos segundo 
l,ps quais o mesmo fenômeno acontecera simultaneamente em 
li,outros lugares, sem nenhuma conexão uns com os outros. A 
5a referência que be faz à rua AzuZa ganha destaque muitó mais
ífíf-1? Neste mesmo texto; Leonildo Cáítipos diz que não“há-pfentecostalismo no singular 
Í - ,'op. cit., 27 e Rolim (1995:22) diz que o “pentecostalismo não é uma.religião 
í,uniforme. Foi homogênea apenas durapte os seus primeiros anos”.
porque remanescentes dali se espalharam-pelo mundo?11 ainda 
que sem todos os princípios doutrinários, porém munidos com 
o que pareceu mais “notável”, que foi a questão àaglússolalia.
Em diversos momentos dâ história da igreja podé-se 
encontrar fenômenos parecidos com os da rúa Azuza: 
profecias, visões, línguas. Além dessas especificidades, uma 
“ postura pentecostai” pode ser identificada em outros ■ 
movimentos. Se considerarmos, mesmo que estereotipadamente, 
como “postura pentecostai” a ênfase na espiritualidade e um ' 
pretenso retorno ideal de Atos dos Apóstolos, dá para apontar 
para o Movimento de Santidade do Metodismo, os avivamentos '
do século 18,o pietismo etc. Dada a fragmentação denominacional 
(Niebuhr,1992) decorrente da Reforma protestante, há sempre 
grupos insurgentes contra a “frieza da liturgia”, o “desvio da ' 
igreja” , a “adesão ao Estado”, o “abandono dâ espiritualidade”, 
na procura de - segundo eles - “resgatar” o que seria ô verdadeiro * 
cristianismo. Em diversos momentos da história do cristianismo - 
as “religiões do Eápírito” se manifestam invariavelmente dé 
forma subversiva,, herética,12 enfim, marginal. ; '
Este discurso de retorno às origens é bem típico do '
, protestantismo, ou uma variante do lema “Igreja reformada 
sempre se reformando” ,, clássica expressão dá Reforma 
protestante. Todas as igrejas, aliás, justificam suas origens 
(q uem sabe uma forma de encobrir o problemático surgimento 
de cada denominação (Niebuhr, 1992) como um retorno à 
‘Verdade bíblica” , daí ser bem natural o “retorno a Atos dos
30 _ ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA ‘
11 W.G. Hoover, o missionário metodista Reiniciou opentecostalismo nò CMè, conheceu 
o movimento por intermédio da mesma fonte que os missionários suecos e italiano • 
que vieram para o Brasil, berp como divérsps outros mpirimentos pentéfcpstaiS no 
mundo. Cf. Walker (1990), Deiros,(Í994), Conde'(160), Daytoii (1987).
12 Apalavra/usada no seusentido etimolágico sem conotação teólógífca. Heresia go 
grego, “hairesís”, é, literãlménte; Vscolhã” I usado pêlos clássicos e na Septuáginta 
como uma escolha de um grupo filosófico ou de umá pessoa. Posteriormente, 
tomou uma conotação pèjorafiya de üm erro doutrinário. CírNovó Dicionário da ,
^ E N ÍE C O S T A M S M O : O R IG E M , TEORIAS .E GRESCIM ENTO ' 31/
■■ ; ; ;
vApóstolos” 13 flue o movimento péntecostal (neste momento a 
ç;ÀD, especificamente) tanto defende. í
Babel ou Pentecoste, a merisagem se espalhou
t f ' O que torna o movimento da rua Azuza um marco? Além 
■da propagação internacional que ele causou, o fato dè, a partir 
idaí, 1. ser um movimento urbano e 2. ser um fenômeno inter-
. racial. Mesmo não significando que' esses dois fatores lhe 
sejam favoráveis, indiscutivelmente, porém, foram marcantes.
' sendo um fenômeno moderno urbano, evidenteménte, este 
fqto ájudou em sua propagação com mais facilidade. Los Angeles 
: recebia muitos imigrantes europeus que se encarregaram de- 
an^néiar a novidade. Segundo Corten (1995:58), ò 
Vpentecostalismo" é um “fenômeno transnaeionãlizãdò’!. O fato 
de que diversos grupos, independentemente de. seus rótulos; 
 ^denominacionais, terem sido atingidos pelo fenômeno, ajudoii 
N na propagação. E , entre disputas dê espaço e entusiasmo com 
; a novidade, o movimento espalhou7se rapidamente. Mas essa 
'possibilidade quantitativa lhe trouxe uma fragmentação 
irreversível, a ponto de não conseguir estabelecer um referencia 
^doutrinário único. Há algumas características genéricas -|||| 
podem ser atribuídas aq movimento, mas sua principal máflk 
* é a pluralidade ou, para os não-pentecostais, a “confusão
doutrinária!’ .
A questão teológica da “bênção dupla” ou “bênção tripla” 
(Hollenweger, 1976: Dayton, 1987: Horton, 1996) taml>ám foi 
^ um fator de divisão dos diversorgrupos originados “ problema 
teológico que nunca - afetou o pentecostahsmò brasileiro.
' Bíblia, São;Paulói yida Noyà, pág.709. Enciclopédia Hisútrteo ^ U gfC fpipJ& eja 
^ Crístã, São Paulo: Vid^ Nova, 1990, pág. 248.
p 13 É no livro de Atos dos Apóstolos (cap. 2) que acontece o fenômeno do pentecostes 
' na nascente Igreja..
32 ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA
Em uma região e época em que as tensões e separações entre 
as raças ainda eram muito bem delimitadas, mesmo nas igrejas 
evangélicas (Niebuhi; 1992), um grupo religioso que reunia num 
mesmo lugar negros e brancos ,era, no mínimo, inusitado./Iãlvez 
essa tenba sido a causa da perseguição jornalística14 que, 
ironicamente, terminou por ajudar na süa divulgação. E por mais 
que o movimento, no início, tenha reunido diversos grupos e 
raças, esse mèsmo movimento é separado também em grupos e 
raças - o sectarismo protestante não pode ser negado.
v R E F E R E N C IA IS T E Ó R I C O S ;
Há algumas teorias sobre a religião, que a nosso ver podem 
ajudar no entendimento, e mais especialmente, sobre o 
pentecostálismo que, tanto pela originalidade quanto pela 
primazia do tempo, se tornaram referenciais e precisam ser 
citadas. . ' T ; 9 ; T
1 ■ 4.. 'v ... ■ ' • ’ ■ * ' . 'V
Três idéias clássicas sobre religião no Século 20
Levaremos em conta três livros escritos no início do século 
que analisaram a religião,- Economia e Sociedade (escrito
em 
As origens sociais das religiões cristãs (escrito em 
1929) , e A era protestante (escrito em 1937),15 por Max Weber, 
H. Richard Niebuhr e* Paul Tillich, respectívamente. Do ponto
Os jornais em Los Angeles noticiaram os eventos da rua Azuza assiiníLos Angeles 
Daily rimes: “Santos esperneadores promovem orgias” ; O Lps Angeíes 'finies: 
“Brancos e Negros se misturam nüin frenesj religioso”. (Campos, i 999b: 179). Os 
jornais Chilenos na época <lo surgimento do pentecostálismo têm comportamento 
idêntico (D lipinayt 1970:49). No Brasil, sem a conotação racista, as consequências 
feiram menores até porque p âmbito de alcance dos jornais de Belém do Pará 
também.era menor (Vingren, I973:50;55)’.- : ■ ; ^ v :r
Publicado em português em 1992,fo i lançado originalmente ent inglês ein 1948 
como uma cpletânéa dé àrtigos escritos desde 1929 a 1945. Aqui trataremos 
éspecifkamertte do texto “O fim da era protestante” escrito em 1937.
t 
• 
-
I I I / pI n TEG Ó STALISM Q : • O RIG EM ,.'TEQ ,r ia s t . c r e s c im e n t o
pe vista específico, nenhum deles falou do Pentecostalismo 
& mas tratam de questões religiosas que transcendem; suai 
‘ épocas e são marcadas pela originalidade,
' ;■
Weber “ o carisma e os adeptos
Weber tem um conceito muito importante - os tipos d< 
'dominação16 17 - que é fundamental para o presente caso 
Segundo sua definição, dominação “é a probabilidade d. 
«encontrar obediência a umâ ordem de determinado conteúdo 
,• entre determinadas pessoas. ind icáveisV 7 Dentro de su; 
" çlassificação há três tipos de dominação: a racional, a tradiciona 
a carismática'. A que nos interessa, mais precisamente, é ; 
/carismática.
, a dominação carismática é “baseada ha veneraçã* 
extrucotidiana da santidade, do poder heroico ou do cáráte 
' exemplar de uma pessoa e das ordens1 por esta reveladas 01 
t príadás” .1S Enquanto as anteriores, para funcionarem e seren 
,/íegitimadas, necessitam um corpo burocrático, orden 
r 'impessoais, duâlificação pessoal, prebéndas etc., esta s 
legitima a partir dos adeptos.1" Adeptos isto é algo de sum 
, importância para o entendimento do fenômeno pentecostal
K Q carisma é uma dotação pessòahéxtrácotidiana, e como 
^jprpprio Weber diz, é impossível avaliar isto “objetivamente 
-Á .Cbm critérios estéticos, éticos etc., pois o portador do 
^carismas” é reconhecido por seus adeptos. Õ pentecostalism 
', se realizou, cresceu e expandiu-se a partir do reconhecíment 
;í^ endógeno dos carismas; líderes - homens e mulheres - n 
íA condição de “enviados por Deus” que reúnem em torno d
fjH
16 Gf. Weber (1991), cap. 3.
17 Òp.cit., 33.
34 ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA
seuá dons um grande grupo de adeptos, e causaram a guinada. 
Só que esse carisma, por mais fenomenal que seja* tendè a se 
rotinizar” , daí aparece um novo personagem extracotidiano 
(de preferência mais exfraCotidiano que os anteriores), com 
um novo carisma (ou o mesmo carisma, mas, com uma nova 
roupagem), consegue novos adeptos, e dá nova guinada, 
mesmo sem a iptensidade original. Issõ porque por mais 
carismática que a igreja seja - ou pretenda ser - eíá tende a 
se tradicionalizar (entrando, assim, na segunda fase da 
dominação tradicional) e também porque, como Weber diz, 
não existem “ tipos ideais puros” . Nenhuma dominação é 
exclusivamente carismática ou tradicional - mesmo que as 
igrejas insistam em afirmar o contrário. v
Ora, enquanto as demais instituições religiosas estão se 
legitimando a partir do Credo X, Documento Y, Comissão A 
instituída pelo Concilio D, cóm um corpo eclesiástico formado 
e racionalizado, a carismática não tem “ funcionários 
profissionais” , pòrque não há seleção por critérios objetivos, 
mas pelas qualidades carismáticas (“discípulos”, “homens de 
confiança”, “nomeaçãô”). Não há hierarquia, salário, autoridade 
institucional, regulamento algum. Há somente a intervenção dò 
líder, a camaradagem do amor, os jüízois de Deus, as revelações e 
o reconhecimento como dever1 Ó carisma e ps adeptjbs. Haverá 
sempre espaço para os carismas se manifestarem e, muito mais 
espaço legitimador para realimentarem os mesmos. , :
Niebuhr — a igreja dos deserdados renasce sempre?
Em seu livro, Niebuhr pretende explicar o “fracasso ético” 
do cristianismo por causa das divisões, pois, as pretensas 
razões teológicas dás denominações são àpènas disfarces para 
racismos, nacíonalismos, étriocentrismos; a “ética das castas
i :
* PENTECOSTALISMO: ORIGEM, TEORIAS E CRESCIMENTO 35
acaba com a ética da fratern idade” ,30 Fazendo um 
ç levantamento histórico desde a Reforma,2? o autor identifica
• vários movimentos sociais - “ anabatistas, metodistas, 
f Ekército da Salvação e seitas mais recentes”22 que ele chama 
V de “ igreja dos deserdados” , em contraposição à “igreja dos
• ' afortunádos e cultos” . ' -
:/;;v: ô presbiterianismo era intelectualista, aristocrático e 
autoritário,23 e o luíerahismo aliado à nobreza tornou-se
I religião estatal com os mesmos problemas que o catolicismo 
- tinha antes; portanto, a Reforma não conseguiu satisfazer 
' as necessidades religiosas dos camponeses e das demais' 
N classes não-privilegiadas. E quais eram essas necessidades? 
jüstiça social, participação popular nós cultos, fervor 
"emocional, esperanças apocalípticas. A Igreja dos deserdados 
^ tem tudo isso, além de “visões, revelações, luz interior, 
^tqtrhõsferá sobrenatural de milagres” ~ tüdo o que rnáis tárdé 
u>; -vai caracterizar o pentecostalismo. É interéssãntfe qúe Niebúhfp 
èm 1929, não se reporta, em nenhum momento, aõ 
. 7 pentecostalismo. Aliás, para ele o metodismo24 foi o últimò 
ihòviihento dos deserdados no cristianismo e “não há, 
atualmente, movimento efetivo religioso entre os deserdados 
U como resultado, eles estão simplesmente fora do pálio do 
cristianismo orgânizado” .?s Niebuhr não acreditava ou, por 
l^preConceito. não conseguiu ver, que uma “ igreja de 
lb-deserdados” pudesse surgir sempre.26 .V/■" , /. ?'
’ ' ' ___ —----' ' - ' . .. ■ ■>. '
1.1 20 Op.cit., 21 : .
O livro, portanto, deileria se jchamai “As ^ origens sociais das fáríoMitiaçõès
protestantes" pois é deste-universo quertraía. '
op/çit.,2 6 - v ■ ■ . V p-'
; 23 Op.ut., 34 ^ j ,
ú, ÓriginalmentéTpois, no momeiito êm que ele éscrfeve.já o considera Uma igreja de 
ky-y classe média, (50). . .. . , , ' r -
p>-• 2f Òp. cit., 53 i ■' : \ \ V
f Urda possibilidade seria ele, como tantos outros, estar convicto de que aseculaiização 
V modemizante, enfim, descartaria a religião como fenômeno social relevante. A
36 ASSEMBLÉIA DE D.EUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA
. Como os movimentos inendicàntes, a Irmandade do Livre 
Espirito, os anabatistas, o Pietismo e outros, o movimento 
penteçostãl do sêculò 2 0 nasce marginal, entre os pobres que 
nao tinliam espaço e resposta à? suas necessidades^ dentro das 
instituições religiosas de classe média e alta. Se tem à 
originalidade da igreja primitjvçi, o fervor dos morávios, a 
santidade dos montanistas, é outra questão, mas origens, ou, 
do,atra forma, as causas sociais são paralelâs (Dayton, 1 9 9 1 ).'
TiUich> ^ ° “princípio protestante” está perdido?
. Em 1958, o teólogo Tillich vê o protestantismo rendido a nutros
Graduação/Ciências da Religião, Ano I, 
Op. çit., 204., , '
Op. d/. , 243. . '
em Ciências Sociais, Série Ensaios dé -Pós- 
* 1> n-° 1, novembro de 1995 (pp. 29-53).
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PENTECOSTALISMO: ORIGEM , TEORIAS E CRESCIMENTO 3;
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O cátplicismo,, com sua hierarquia autônoma29 e seu podei 
simbólico, séria a única força religiosa com apelo significativc 
às massas desintegradas. Ou seja, 0 protestantismo precisará 
. 1 . resgatar uma nova compreensão dos símbolos, a: 
“objetividades do sagrado” ; 2 . ultrapassar a barreira
dc 
sagrado e do profano e resgatar à cultura; 3o realizar c 
“protesto profético” contra o Estado, a Igreja, o partido 01 
líder “ todas as instâncias que reivindicam caráter divino, cas< 
, contrário será'o “fim da era protestante”.'0
É possível que Weber, em 1914, na Alemanha, nã< 
conhecesse o pentecostalismo moderno, mas será que Niebuh 
e Tillich, nos EUA, nas décadas de vinte e trinta, não tenhan 
ouvido falar - ainda que mal - do pentecostalismo para incluí 
. Io em suas análises? 31 Faz sentido que a religião de pobres 
negros, liderada por ex-escravos e mülheres (Hollenwege 
. 1-9X2) não tinha chegado ao conhecimento da academia.
Não se pode afirmar que o pentecostalismo seria ou é:
•. carisma que atende aos deserdados num protesto proféticc 
no entanto, qual outro fenômeno religioso neste sécul 
podería aproximar-se disto? ,
, Mendonça (1997:109), inclusive, comentando este texto d 
Tillich, diz: ■ -" '.. /A
“Tillich achava, na época em que escreveu, que 
catolicismo romano estava preenchendo essa função pel 
v - seu poder reintegrador e simbólico. Parece que se
, raciocínio não valeparaoTerceiro Mundo, em que a
Ir?;1' ' 79 O contento protestante èuropeqjf dé igréjàs estatais onde a hierarquia está atrelac 
t , e dependente do Estadçr, já nos EUA o comprómjsso é cóm“ grupos sociais” (245 
jgrij' 249, A : ’ ' ' V , ■ '
' 11 Talvez um episódio, que Leoniídp.(Campos conta río artigo já citado, possa s
KH flústratiyo disto?nuin debate entre Harvey Cóke Rubem Alves; em J969 (not•, : (- -se bem a data) ao ser perguntado spbre a’ “pèntecòstálização do pròtestantisn 
histórico”, Alves disSe textuálmente: “ Esse é o tipo de problema que não n 
ifa , interessa nó momento”. '
38
religiõesde mais apelo simbólico, cerno o pentecostalismo, 
estão suplantando o protestantismo e o catolicismo.” .
Ires visões sobre o pentecostalismo brasileiro
Hã muitas análises distintas sobre o pentecostalismo 
(destacadas nesta obra), no entanto,- poucas trabalham sua 
origem e o período especifico escolhido. Usaremos^ portanto, 
três autores que, historicamente, estão próximos, até porque 
são os primeiros a escreverem sobre o assunto. O 
P to testa n tis mo Brasileiro um estudo de eçlesiologia e
história social (1963), A experiência da salvação: pènteçostais 
em São Paulo (1969) e Pentecostais: uma análise sócio- 
religiosa jói979), de Ejmile G. Léornad, Beatriz Muniz de Souza 
e Francisco Cartaxo Rolim, respectivamente.
Léonard - um pentecostalismo sem leitura 
; bíblica não terá faturo a--: ,
Pelo título do livro vê-se que ele trata do Protestantismo, e 
hãovdo pentecostalismo especificamente;32 no entanto, no final 
de seu livro ele faz rápidas considerações sobre as “religiões 
iluministas” . Sua análise sobre as igrejas “pentecostistas” 
da época se reporta à AD e CCB. Sobre a Assembleia de Deus', 
ele afirma seu “caráter bíblico”, mas vê a Congregação Cristã 
no Brasil com muitas reservas, inclusive, de esfacelamento 
do movimento porque não tem algum tipo de estrutura bíblica 
ou estudo sistemático, da Bíblia. O irônico é que, 50 anos 
depois, aconteceu o inverso. À Congregação Cristã continua 
coesa, sem dissidência, sem mudança na orientação polítiCa
■ ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E M ltlTÂNÇIA
”■ Aqui há uma lógica” histórica, porque seu livro, originalmènte, foi publicado como 
artigos na Revista de História da USP entre janeiro de 1951 a dezembro de 1952. 
Nesta época, o pentecostahsmq ãinda era tuna religiosidade completamente ignorada.
PENTECOSTAUSMO: QRÍGEM, -TEORIAS t CRESCIMENTO •39
ou ética, e “bíblica”33 com seu sistema èclesiológiço intocável, 
tanto quanto niacomèçodoáéçulo.-Se melhor óq pior nãonos 
cabe definir. Isto é apenas uma constatação sociológica.
tío entanto, à Assembléia, também com seu Caráter “bíblico”
: (aqui vale o mesmo que se afirmou pára a Congregação), foi 
| completaménte alterada. Hoje ela é outra igreja, bem diversa 
da que fòi analisada por Léornad.
Qual é a nossa percepção afinal? As realidades sociais são 
. mais fortes e capazes de alterações mais significativas que o 
s pretenso “caráter bíblico ou não bíblico de uma igreja”.33 34 Isto,
' aliás, já foi analisado por Niebuhr (1992), sobre as estruturas 
^eclesiòlógicas que se alteram ou se conservam obedecendo às 
dem andas sociais. A CCB conseguiu tornar-se um grupo 
homogêneo èm seus primeiros anos porque teve início dentro 
de grupo étnico, razoavelmente coeso, de forte tradição e com 
(/interesse de preservá-la. Desenvolveu uma estrutura de poder 
' leigo que ficoü imune, às disputas de poder ou tentações 
financeiras. Socialmente, nunca teve atuação e, parece, não 
sente necessidade disto; optou por uma postura apenas 
" “sacral”35 em sua religiosidade. Permaneceu sempré um grupo 
/'fechado e com visibilidàde reduzida e, consequentemeritè, fácil 
• he administrar e àe preservar.36 Já a AD pluralizou-se, modificou- 
/T^e é hoje, cofti exceção" da doutrina da contemporaneidade dos 
\'dotíS'$Q Espírito Santo, não carrega elementos quê lembrem a 
■'/antiga igrejà. FOi áltérada, fundamentalmente, por demándas
sociais. /. - - :) : a ’ ; y
33 “Bíblica” no sentido que Léonard entende de “bíblica correta”, riãò nos cabendo
f ’ aqui definir se correto ou errado. O que se quer dizet com isto: sjiá doutrinação, 
// (calvinista, congregacional. não clerical, não prpselitista) que ele entendia como 
, / correta no início do século se mantém até hoje. / V
34 Isto deve causar calafrios e ser visto cóího absoluta “heresia”, pelos, religiosps. < . 
/ “ Em todos os seus trabalhos, Rolim ( Í979,1980, 1995) critica o pentecostaljsmo 
. ■ , por sua ação alienada, de postura sacral e não social.
' 36 Nãò encontramos documentos ou textos dá igreja para alguma análise, mas por 
conversas informaiscòm membros, tem-se áimpressão de que aigrefa^debaseus
Wt
\
. Beatriz de Souza — o ajuste urbano
- ■, . f - - . ■ 7 ,■ ■ *, •• v . Ur-' •.
. Uma tese funcionalista que entende o peritecostalismo 
como uma resposta à anomia social (Durkheim), fruto do 
processo de urbanização e industrialização. E mantém-se 
dentro da questão que move os pesquisadores da década de 
1960, em relação ao pentecostalismo, algo que D’Epinay 
expressa claramente em seu. trabalho sobre o Chile: 1, o 
pentecostalismo é uma expressão cultural do povo chileno 
ou é algo estrangeiro? 2 . tal.expressão religiosa contribui no 
processo de transformação social? Para Beatriz de Souza, o 
pentecostalismo, mesmo tendo origem estrangeira, se 
“abrasileirou”,37 aculturando-se o suficiente para tornar-se 
: UIda das expressões da religiosidade local. Apesar - ou por
causá disto mesmo - de sua “descontinuidade-continuidade” 
(D’Epinay, 1970) exerce exatamente este papel nds camadas 
, as quais atinge, ou seja, a “deséontjnuidade” do rompimento 
com a identidade anterior (católica) e “continuidade” de 
permanecer alheio à realidade. ^
Procopio Camargo, na mesma linha de pensamento, diz 
que, apesar disso o pentecostalismo também tem a capacidade 
de reconstrução de relações fraternas e o estabelecimento de 
reajustamentos na urbanização desagregadosa. A “seita” 
fechada, reacionária e excludente tem também uma coesão e 
rigor moral muito necessário” apsmigrantés que sé agártcpn 
a isso como força agregadora e normatizadora de suas vidas.
4© ■ .. . ASSEMBLÉIA DE :pE U S - ÕRIC3EM>'lMPUHTAÇÂO EM !LITÂNCIA '
membros .à vontade em sua conduta: Por exemplo, cm suas reuniões de 
confraternização álguns ingerem bebidas alcoólicas s outros nãcr.Aígreja não os 
proíbe, mas também não incentiva, Isso pròbleinatiza ainda mais a caracterização 
de seita em seu rigqrismOpnoral individual dòs niembròs. Eliana Gouveia(Í986), > 
em seu trabalho sobre a questão feminina, analisando a Igréjá Pentecostalláeus é 
Amor e a Congregação Cristã do Brasü, entende-a
primeira como “ igreja” e a 
segunda como “seita”. ' ' _ ■ . /- ..
D Epinay( 1970:17) tem a n>esma preocupáçãoi saber se o pentecostalismo éum 
corpo estranho ou se “chilenizou”. , . . ,
PENTECOStAl.ISMO: ORIGEM, TEORIAS E CRESCIMENTO 4
“Aética puritana, contrapondo-se por suà rigidez à lassidã» 
f 'cK moral considerada pelos protestantes como típica d-
; catolicismo, veio acompanhar a vivência da conversão a. 
V,;. ; novo credo,religioso. Esta ética desenvolveu entre os fiéi
' ' i padrões de conduta característicos, sociologicament
v ': importantes. Enfatizando estrita honestidade nos negócio*
/ conduta austera e recato do trajar, propugnavam
paralelamente, severas restrições de comportamento: não te 
vícios, como õs de fumar e beber-, não frequentar diversõe 
profanas; não participar de jogos de azar; não ter relaçõe 
. sexuais extraconjugais” (Camargo 1973; 136-7).
Cartaxo Rolim — alienação sacral
=',/ Para Rolim, a inexistênciade atuação política se dá 
^'primeiro, porque a “religião pentecostal que se implantou n 
y -Brasil é úm rebento daquela experiência pentecostal dos norte 
-'^americanos de cor branca" e> segundo; “as camadas pobre 
.. que a ela aderiram, se traziam a experiência religiosa d 
$ deVocionál católico,'náò traziamaexperiência político-social 
{Rolim, 1995:24,47-48). Gs missionários trouxeram apenas 
“experiência religiosa” e não de^átuação na luta de libertaçã 
dos pobres é marginalizados na sociedade (o viés pentecoste 
negro norte-americano).
' Então, esta experiência religiosa estrangeira aqui encontr 
uma' religiosidade nativa, acomodada è marginalizada pela 
A instituições religiosas, que se alastra na periferia ser 
' > ilenhuma alteração social. Não fora exigido antes' e tambér 
não sente necessidade dela na sua implantação.
.^olim , em seus diversos textos, registra alguma 
jd, experiências políticas dos penteCostais, como as Liga 
Camponesas (Pernambuco), um levante de agricultore 
^ .(ídarãnhão) e um protesto de. pescadores (Rio de Janeiro; 
^ ç o jí iò eSperança dê que 0 pentecostalismo seja alterado. Póréir 
V. como ele mesmo admite, esses são casos isolados. Esses caso 
de, atuação política no meio pentecostal foram “acidentes d
42
percurso . Ou seja, não foi uma determinação çla igreja em 
participar. Em nenhum momento existiu pma orientação 
teológica da necessidade de presença na realidade, muito ao 
contrário, a igreja condenou áempre esta participação. Além 
de condenar, ignora còmpletamente esses episódios: não há 
um só registro nos jornais, histórias e livros da igreja.38
Conquanto as indicações de Rolim possam estar corretas, 
ele não atentou para duas outras causas dessa postura: 1 . a 
condição de estrangeiros num período tenso da História, que 
lhes prejudicaria qualquer postura política; e' 2 . A aversão que 
eles sentiam por qualquer instituição, pelo trauma da 
perseguição sofrida eiii Seu pãís de origem; daí a defesa sueca 
das chamadas “igrejas livres”. Não se pode excluir a influência 
da “mentalidade sacral católica” , mas também não se pode 
reduzir isto à orientação racista dos .brancos norte-americanos. 
Os suecos não. compartilhavam deste racismo. Foram omissos 
politicamente, mas por outras razões.
C R E S C I M E N T O
Inicialmente, vejamos as “razões” que o pentecostalismo 
tinha para não crescer:
1. A Igreja Católica é forte e hegemônica e a menos de 30 
anos do suígimeritó do pentecostalismo no país, com á 
proclamação da República, deixou de ser a religião oficial, mas 
continuava plena e oficiosa. Ela dava conta de todas as 
instâncias da vida - nascimento, casamento e enterro; 
mantinha, ainda em sua influência, de cartórios a cemitérios.39 
As denominações protestantes só foram toleradas, porque,
ASSEMBLÉIA DE D EUS- ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA
38 Nos anos 1990, a AD nem mesmo citava Benedita, da Silva.em Seus jornais, 
quando ela começou sua atuação, nas favelas do Rip de Janeiro, se elegendo 
vereadora, deputada e depois senadora pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Mais 
à frente, já como vice-governadora (deixou de ser oposição e passou a ser Governo), 
o jornal Mensageiro da Paz publicou fotos suas e elogios, mas nãó diz como e por
que ela saiu da Assembléia de Deus e ligou-se à Igreja Presbiteriana."
PENTECOSTALISMO: O R IG E M , TEORIAS E C RESC IM ENTO '» 43
v \ ‘ ■ - ■ ' ■ ' . . . ■ ~ ... •• '
originalmente se restringiram a grupos étnicos; depois, as 
' igrejas de missão, àté então, com um crescimento insignificante.
2. As igrejas protestantes, até então pequenas, mas tofias 
> ç.om aspectos “modernizantes” da cultura ángio-saxônica 
, (Léornad, 1963; Mendonça, 1989 e 90), eram distintivas da 
' çultura brasileira. Igrejas cultas, ricas, lideradas por 
v ■ êstrangèifos, financiadas por dólares, representantes da moderna 
pedagogia, portanto, vistas com bons olhos pela elite republicana.
, Ademais, herdeiros do “destino manifesto” (Mendonça, 1989 e 
\ 90; Jardilino, s/d) estaVam trazendo a “rédenção” nãó' aptenas 
v espiritual, mas econômica e sociocultural para o Brasil.; ~
V Como, apesar disto, uma nova modalidade de religião 
^protestante nasce e cresce neste espaço? v .
' O pentecostalismo, como já foi frisado, é um fenômeno 
I fiijrbano, mas sua principal çaracterística ó a marginalidade 
i a ! qual nasceu e proliferou % Seu aspecto mais visível ~ .e ; 
 ^ folclórico - é a participação e liderança de negros e mulheres.
■' ^E, talvez, esta tenha sido a principal causa de sua estranheza 
s no início. Será que o pentecostalismo, mesmo com a glossolalia,
, se lideradq por homens,-brancos, ricos e cultos, teria Sofrido 
’ ' as mesmas perseguições e preconceitos teológicos? 40
', Disseminado pelo mundo por migrantes, chega até o Brasil, 
írí-çpo norte e no sudeste,41 espnlha-se, maS vitimado por 
>; ;preconceitos de, todos os lados. E não podemos dizer que o 
péntecostalismo não contribuiu parà o agravamento de tal 
TV' preconceito. Sem nenhum julgamento teológico, mas o exercício 
/ do “falar em línguas estranhas”, o permitir que qualquer adepto 
(analfabeto, negro ou mulher) tivesse suá própria fiíblia e, a * *
39 Cemitériqs forajn uma das principais zonas de tensão entre os evangêncos.ç a 
Igreja Católica. :: ' ' • ^ '
* Alguém podería objetar que, homens brancos,..cultos e ricos não se envolveríam 
com este tipo de “doutrina” — rio que persiste ò preconceito. ..
. • « A colônia italiana, rto Brás, e^S ao Baulo, não éra padrão dc riqueza e cultura,
, pois era cpmpostá de imigrantes igualmente pobres. (Rolim, 1989)
V. ■ . V"
- V -f. . •
■44... * '' s ASSEMBtElÁ DE DEUS ^ ORIGEM; IMÉLANTAÇÃp E MILITÂNCIA,
ensinasse, pregasse ou testemunhasse em público, é, no mínimo, 
s algo inusitado para a época. Adernais, o pentécòstalismo tem 
duas características inicialmente, graves: 1 . o proselitismo 
exacerbado, inviabilizando uma conduta pacífica; 2 . um 
discurso sectário sobre a “verdade” . Pretensamente, nele e 
somente nele está a verdade completa da Bíblia.
Esta avaliação, no entanto, não responde, a uma das questões 
centrais: por que cresce o pentecostalismo? Foi. exatamente esta 
“mensagem libertária popular” que ensinava a receber a todos 
indistintamente, e da mesma forma lhes dava a oportunidade 
de falar de suas “experiências”, o que encantou/converteu as 
pessoas. Todos - e todas - têm acesso a este “poder” (em se 
tratando de pentecostalismo, esta palavra adquire uma conotação 
muito mais abrangente, de contato com o divino), sem a mediação 
da classe produtora de bens sagrados-, e não é um erudito/ 
instituição quem/que delimita, instrui ou permite sua experiência. 
No pentecostalismo acontece, exatamente, o contrário: sua 
experiência — pessoal, intransferível, com seu linguajar, sua 
realidade, sem que ninguém critique ou tente moldá-la - é que 
define
a teologia e a instituição. É muito significativo para aqueles 
que nunca tivèram acesso ao sagradó, identidade autônoma ou 
independência pessoal. ' ... u
Há uma ruptura com o atual estado da pessoa - mesmo que 
depois voite. tudo ao “normati.O encontro com este tipo de 
religiosidade, ou esta acessibilidade ao sagrado, é algo que 
altera a conduta. Os deserdados encontram um espaço para se 
; expressarem sem cérceainentos. As autoridades não estão 
. ouvindo, os eruditos religiosòs^não estão condenando, os cultos 
não estão debochando -não se faz diferença. A abertura/êxtase, 
por meio do choro, línguas, riso, é realizada para Deus, e Deus 
— o crente tem certeza - está ouvindo, compreendendo e se 
' solidarizando. :v ; a;' ~ - r 'P ' ; '
E se as instituições são incompatíveis, as regras não se 
coadunam, isto não importa porque a legitimação se dá pela
' PENTECOSTALISMO: ORIGEM,-TEORIAS E CRESCIMENTO 
*' .. . ' ■' • >/< ‘ 
aceitação dos adeptos; como já foi dito, é a experiência qc 
^legitima a regra teológica e não o contrário. Portanto, est 
5 capacidade de renascer, de se insurgir contra o s tatus, d 
y questionar o estabelecido e este inconformismo protestam 
'■ encontra-se presente também aqui.
A- ESTATÍSTICAS: A L É M D A T E O R IA , U M A 
A . E S T IM A T IV A C O M P R O V A D O R A
A í ' As estatísticas são um problema grave para a análise c 
k, religião no Brasil. Mais grave ainda, para nossa pesquisa, é 
’ fato de que os pentecostáis só paissam a ser computadc 
! nficialmente a partir do censo de 19804’. O que temos sã 
('^estimativas, e elas serão citadas sem questionamento, pois nã 
■ há como prová-las nem desacreditá-lás. Possivelmente, elas nã 
^'sejam os números exatos, pias não dispomos de outros. E 
- qualquer fontia, eías acertam no fundamental. O penteCostáliair 
ç\surge no Brasil na década de 1910 e cresce o suficiente pai 
se tornar o maior contingente evangélico do país. ^
• Tabela 1: Estimativas do crescimento do pentecostaiismc
i f - : Percentual 1900 1911 1930 1940 1950 1960
* \ '
Evangélicos no país43 1,1%,
. /
‘ " .’ A ‘ 2% 3,4% ■
' Pentecostáis44 ■> '■■■. < ' 9,5% 60%45-
' Assembléia de Deus: A 20 14.000 80.000 120.000
u membros46 _< ' : A '
jÇ , 6 Õ Censo de 1900 foi impugnado, refeito em 1906, quando o dado sobre religi 
íí?, foi excluído se mantendo até 1940. (Rolim, 1995:32) 
t j/ ^ R o lin j (1989:32). . ^ .
Souza (1969:17). " ' 7
... 45 Esta'estimativa é questionável.
46 Read (1967:121).
46 ASSEMBLÉIA DE DEUS - ORIGEM, IMPLANTAÇÃO E MILITÂNCIA
AAD, que tem início ejn 1911 com 20 membros tem’ secundo 
a estimativa de Read (1976:122), em 1930, 14.Ò00 membros 
e, em 1950, í 20.000 membros. Esses núníeros representam, 
respectivamente, 69,76% de crescimento em 19 anos e 
108.000% em 38 anos. No total, são mais de 600.000% de 
crescimento nas primeiras quatro décadas. É uma taxa de 
crescimento anual de Í5.000% ao ano! -C v
O Censo Demográfico do IBGE de 1991 apontou 8,98% de 
evangélicos na população brasileira, com a projeção de 
crescimento de 67,3%, o que na prática se confirmou,, pois o 
Censo de 2000 apontou 15,4% dè evangélicos na população 
brasileira (cerca de 25,5 milhões de evangélicos no país). E, 
se no Censo de 1980, os peritecostais já eram 51% da população 
cristã, há estimativas que hoje mais de 80% da população 
evangélica é pentecostal. A jpesquisa áo Datqfolha em 1994 
indicou um percentual de 76% da população evangélica sendo 
pentecostal. É indiscutível que os pentecostais são maioria, 
no entanto, a questão permanece: Quántos são? Qual a taxa 
de crescimento dos diferentes grupos?
Fernandes (1998), na pesquisa Novo Nascim ento, dá 
algUmas pistas sobre crescimento e um dado chama atenção:
a AB é a igreja que mais perde membros, mas é também a 
igreja que mais ganha membros, tanto pela conversão como 
por adèsão de membros vindos àe. outras igrejas, isto, por 
conseguinte, explicaria a estimativa assembleiana de ser â 
maior igreja evangélica brasileira. V
'•). P R IM E IR A F A S E - P E N T E C O S T A L IS M O A S S E M B L E IA N O B R A S IL E IR O ^ v - ■ , ... -X' - . - ■> - i ■ ~ ___ V
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ml&f
2.. A im plantação da "Seita 
Pentecostista" - 1911-1
fcüsi,íeitr
A divisão dq história da AD em fases é meramente didática.
teoria das ondas do pentecostalismo*7 v 
ÍL^Frestpn, 1993) e não pretendemos entrar na infindável 
p f discussão metodológica sobre está divisão.4? Nà primeira onda 
èstão as igrejas Congregação Cristã no Brasil (1910) e 
i^ ^ sem b j^ ia de Déus (1911) . N|sta proposta do divisão vále mais
f7. VO título que identifica o período do que as datas propriamente 
pi^ ditas, porque os processos sociais .apenas culminam nüma 
^determinada datâ. mas têm causas anteriores.4,9
Rolim (1985:89) já propusera uma divisão tríplice do
£t>
||;.'pentecostàlísnlp 1. ittiplãntãçãó^ (1910-35); 2. Expansão(1935- 
m.\Wo) e 3. “enelausuramento na dsfem-satíaieyádiaLcí^'práticas
&V. 47 CfiFrestòn (1993), em'seu. trabalho, sobre a participaçao .política evangélica, no 
K ^ '5iíàiil» dividiu o. movimento pentècostál errí três ondas. Sobre a periodização do 
jÉ&Ti protestantismo, ver Burgessd-Í99S) e Martin (1990). * - '/•-
Élfc;48 ®stá discussão-provavelmente còmeçou còm jCésar (1973) è fosteriormente 
^ .taitibém foi-ânálisada por Femandès (1977): Mais recentemente, Mariano ( í 9?9)
que düránte algum tempo estiveram consólídadas. Alguns autores, inclusive, têm 
,K:'divérgèncias quanto.à teoria das ondas, como Campos (1999), Mendonça (1998). 
Ç íff49 “As datas, éntretantó, não são marcos definitivos. De'maior significação são os 
f f f 1 fatos que procuramos descrever. Nãò se trátà assim períodos fixos e definitivos. 
^ São arítepassos de uma experiência históricó-religiosa em nexo,-Com a sifuação 
«« social e política” (Rolim, 1985:89).
sociais” .(1964-1985). Como este livro se reporta apenas, aos 
dois primeiros períodos, propomos o seguinte:
I a fase: A implantação de “seita pentecostista” - 1911-1930 
2a fase: A institucionalização da Igreja - 1930-1946 
3a fase: A oficialização da denominação - 1946 em diante.
48 . ASSEMBEEIA DE DEUS - ÒRIGJM,IMPLANTAÇÃO,E MItlTÂNÇIÁ
P R I M E I R A FASE: A I M P L A N T A Ç Ã O D A “SEITA50 
, • P E N T E C Q S T IS T A "51 (1911-1930) : ; r ,
. , Utilizando a conceituação de Weber (1991) e Tro.eltsch
(1987), neste período a AD tem todas as características de 
seita: nasce de uma dissidência, é exclusivista,'' estábelece-se
' - í / V ' * \ f '
50 Esta .pãíavra tem uma conotação herética no meio evangélico, e é um paradigma 
um tanto anacrônico ná sociologia da religião, mas a usamos etimologicamente 
na conceituação sociológica definida por Webér e Tjroeltsch, como grupo 
m inoritário, iniciante ainda sem uma postura de igreja, anterior à sua 
institucionalizaçãp. O aspecto negativo dapalavrá vem ém função/aindaneste 
momento, de seu sectarismo e exçlusivismo quAÇaracteiiza uma seita, algo nãç> - 
muito distante da AD neste, período. Concordo com Cam póill995:4Í) quando 
diz que ò “páradigma seita-igreja não está mais servindo para delimitar mesmè)
 ^ dentro do próprio protestantismo, os vários grupos sociais e padrões de 
\ comportamento”, pois o que é seita ou igreja hoje? Portanto, se “se nasce na igreja, 
e se adere à seitá” (Troeltsch, 1987:143), o que dizer de grupos sectários que 
poderíam ser.énqüadradós na perspectiva de exclusjvísmo, e são ao mesmo tempo, 
grandesdnstitúições oqde mais de uma geração se faz presente nela. Sobre òs- 
,grupps pentécostáis sendo estudados como “seitas” ver Sousa (1969), Gouveia 
(1987.) e Bòbsin (4984). Para urna visão crítica dò uso degtè conceito; vèr Santa . 
Ana (1992), Campos (1995) e Gomes (1996). 7 A A
5 Pentecostista” é uma expressãopejoràtiva? É desta forma que o pen tecos

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