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Paul Tillich * Edição R evista f " Teologia Sistemática Paul Tillich i " X*^ertamente os três volumes de minha Teologia Sistemática I não teriam sido escritos se eu não estivesse convicto de que o evento que deu origem ao cristianismo possui um significado central para toda a humanidade tanto antes como depois dele. Mas o modo como se pode compreender e receber este evento muda com a transformação das condições em cada período histórico. Por outro lado, esta obra tampouco teria sido escrita, se eu não tivesse tentado, durante a maior parte da minha vida, penetrar no significado dos símbolos cristãos, que se tornaram cada vez mais problemáticos no contexto cultural do nosso tempo. Como a cisão entre uma fé inaceitável para a cultura e uma cultura inaceitável para a fé era inaceitável para mim, a única alternativa foi tentar interpretar os símbolos da fé com expressões de nossa própria cultura. O resultado desta tentativa são os três volumes da Teologia Sistemática" (Da Introdução ao volume 3). Editora S inÓdÃl^ CULDADES ISBN 85-233-0780-X '8 8 5 2 3 307806 "O teólogo e filósofo teuto-americano Paul Tillich (1886-1965) foi um dos mais expressivos pensadores do século 20. Doutorou-se em Filosofia em Berlim (1910) e em Teologia em Halle (1912). Foi capelão militar durante a I Guerra Mundial, o que marcou o seu pensa mento de forma indelével." Depois de lecionar Teologia, Filosofia e Ciências da Religião em várias universi dades alemãs no período entre 1919 e 1929, "foi professor de Filosofia em Frankfurt, onde foi deposto em 1933 pelo regime nacional-socialista. [...] No final de 1933 Tillich foi forçado a emigrar para os EUA, onde iria se estabelecer em Nova Iorque, junto ao Union Theological Seminary e à Columbia University. Em 1955 assumiu uma cátedra honorária na Universidade de Harvard, e em 1962 em Chicago, onde ficou até sua morte em 1965. Em sua fase americana, o pensamento já amadurecido de Tillich ganhou novas perspectivas e nuanças, de acordo com as novas coordenadas de tempo e espaço em que ele agora se situava Do período inicial na Alemanha já resultaram tentativas de sistematizar seu pensamento teológico. "A grande síntese, todavia, teria que esperar até o pe ríodo final de sua vida, resul tando na Teologia Sistemá tica que o/a leitor/a tem em mãos, escrita em inglês em três volumes, entre os anos 1951-63" (Do Prefácio à no va edição portuguesa). "O pensamento de Tillich sempre se deu 'na fronteira’, como ele mesmo descreve. Esta fronteira significa o espaço-limite entre as disciplinas, mas também a interface fecun da entre as mesmas. Trata- -se de um pensamento rico e complexo, multi e inter- disciplinar, e que já anteci pa surpreendentemente muito da atual discussão sobre inter e transdiscipli- naridade. Seu Sistema das Ciências (1923) tenta or ganizar o conjunto das dis ciplinas científicas de uma forma inovadora e criativa. Sua Teologia Sistemática apresenta uma imensa e complexa trama contendo uma interpretação abran gente e transdisciplinar da realidade vista como um todo. O livro que o/a leitor/a tem em mãos é uma re visão completa da antiga tradução portuguesa da Teologia Sistemática de Paul Tillich. Várias inade quações, tanto de tradução como de revisão editorial, tornaram premente uma nova edição totalmente revisada desta que é uma das principais obras teoló gicas da história do cristia nismo" (Do Prefácio à nova edição portuguesa). Paul Tillich Teologia Sistemática Três volumes em um T edição revista fA C U LOADga EST SlNODAL rA C U LO A O CS * ------- “ E < l ito r a 2014 Traduzido do original inglês “Systematic Theology - Three volumes in one”, sob licença da Universidade de Chicago, Chicago, Illinois, Estados Unidos da América, Volume I, © 1951 by The University of Chicago, renovado em 1979; Volume II , © 1957 by The University of Chicago; Volume III, © 1963 by The University of Chicago. Todos os direitos reservados. © Editora Sinodal 2005 Rua Amadeo Rossi, 467 Caixa Postal 11 93001-970 São Leopoldo/RS Tel.: (51) 3037-2366 editora@editorasinodal.com.br www.editorasinodal.com.br Capa: Editora Sinodal Tradução: Getúlio Bertelli e Geraldo Komdõrfer Revisão: Enio Mueller Coordenação editorial: Luís M. Sander Série: Teologia Sistemática/Dogmática Publicado sob a coordenação do Fundo de Publicações Teológicas / Programa de Pós-Graduação em Teologia da Faculdades EST. Tel.: (51) 2111 1400 est@est.edu.br Fax: 951)2111 1411 www.est.edu.br T577t Tillich, Paul Teologia sistemática / Paul Tillich ; tradução Getúlio Bertelli e Geraldo Komdõrfer. - São Leopoldo: Sinodal, 2005. 868p.; 15,5x22,5 cm. Título original: Systematic theology. ISBN 85-233-0780-X 1. Teologia - Tillich, Paul. 2. Teologia dogmática. I. Bertelli, Getúlio. II. Komdõrfer, Geraldo. III. Titulo. CDU 21 TILLICH Catalogação na publicação: Leandro Augusto dos Santos Lima - CRB 10/1273 mailto:editora@editorasinodal.com.br http://www.editorasinodal.com.br mailto:est@est.edu.br http://www.est.edu.br Prefácio à nova edição portuguesa O teólogo e filósofo teuto-americano Paul Tillich (1886-1965) foi um dos mais expressivos pensadores do século 20. Doutorou-se em Filosofia em Berlim (1910) e em Teologia em Halle (1912). Foi capelão militar durante a I Guerra Mundial, o que marcou o seu pensamento de forma indelével. De 1919 a 1924 foi professor adjunto de Teologia em Berlim; entre 1924 e 1925 foi, por três semestres, professor de Teologia em Marburg; de 1925 a 1928 foi professor de Filosofia e Ciências da Religião em Dresden, sendo por dois anos também professor de Teolo gia em Leipzig. O curto período em Marburg foi importante, entre ou tras coisas, por seu encontro com Heidegger, que ali era professor de Filosofia. De 1929 a 1933 foi professor de Filosofia em Frankfurt, onde foi deposto em 1933 pelo regime nacional-socialista. Deste período é mar cante a cristalização de suas reflexões no âmbito de sua filosofia social e do pensamento socialista. Em Frankfurt Tillich estabelece relações com Max Horkheimer e Theodor W. Adorno, principais expoentes da chamada Escola de Frankfurt. Isto deixará marcas indeléveis no pensa mento dos três. No final de 1933 Tillich foi forçado a emigrar para os EUA, onde iria se estabelecer em Nova Iorque, junto ao Union Theological Semi- nary e à Columbia University. Em 1955 assumiu uma cátedra honorária na Universidade de Harvard, e em 1962 em Chicago, onde ficou até sua morte em 1965. Em sua fase americana, o pensamento já amadurecido de Tillich ganhou novas perspectivas e nuanças, de acordo com as novas coordenadas de tempo e espaço em que ele agora se situava. Do período em Marburg resultaram suas primeiras preleções sobre Dogmática1, que representam significativo estágio no amadurecimento de sua Teologia Sistemática. Já nos anos 1913-14 Tillich havia feito uma primeira tentativa de sistematizar seu pensamento teológico2. A grande síntese, todavia, teria que esperar até o período final de sua vida, resultan 1 Dogmatik-. Marburger Vorlesungen von 1925, editadas por Werner Schüssler (Düsseldorf: Patmos, 1986). 2 Um conjunto de notas intitulado Systematische Theologie, editadas por Gert Hummel, foi publicado em Main Works / Hauptschriften, 6:63-81. Os cadernos completos desta primei ra versão da Teologia Sistemática estão sendo preparados para publicação próxima no âmbito dos Ergänzungs- und Nachlassbände zu den Gesammelten Werken, em curso. do na Teologia Sistemática que o/a leitor/a tem em mãos, escrita em in glês em três volumes, entre os anos 1951-633. O pensamento de Tillich sempre se deu “na fronteira”, como ele mesmo descreve. Esta fronteira significa o espaço-limite entre as disci plinas, mas também a interface fecunda entre as mesmas. Trata-se de um pensamento rico e complexo, multi e interdisciplinar, e que já ante cipa surpreendentemente muito da atual discussãosobre inter e trans- disciplinaridade. Seu Sistema das Ciências (1923) tenta organizar o con junto das disciplinas científicas de uma forma inovadora e criativa. Sua Teologia Sistemática apresenta uma imensa e complexa trama contendo uma interpretação abrangente e transdisciplinar da realidade vista como um todo4. O livro que o/a leitor/a tem em mãos é uma revisão completa da antiga tradução portuguesa da Teologia Sistemática de Paul Tillich. Vá rias inadequações, tanto de tradução como de revisão editorial, tomaram premente uma nova edição totalmente revisada desta que é uma das prin cipais obras teológicas da história do cristianismo. A tradução de Getúlio Bertelli, que por 20 anos serviu aos leito res e leitoras de língua portuguesa e que agora é substituída por esta, teve seus problemas mas também seus inegáveis méritos. Os maiores problemas estavam, na verdade, em questões perenes para todo tradutor ou tradutora de Tillich. Como fazer jus a tal tarefa, este é o problema. Como compreender cada página desta imensa obra nas implicações de tal compreensão para uma boa tradução da mesma, este é o problema. Mesmo a tradução alemã, autorizada e acompanhada pelo próprio Tillich, é hoje objeto de várias discussões entre leitores/as de língua alemã. As sim, quero deixar registrada a nossa apreciação pela coragem e pelo imenso labor de Bertelli, pelo seu empenho e dedicação na primeira tradução da TS para o português. A nova edição portuguesa passou por três diferentes estágios. No primeiro, Geraldo Komdõrfer fez uma revisão completa da tradução existente, a partir de uma leitura, linha por linha, do original inglês. Em 3 Uma excelente síntese do percurso da sistematização da teologia de Tillich foi escrita por Gert Hummel para a introdução do referido vol. 6 da edição crítica selecionada Main Works / Hauptschriften, publicada em 6 volumes entre os anos 1988-98, e que é edição padrão para os textos que nela se encontram; cf. “Der Weg zur Systematischen Theologie” / “The Way to the Systematic Theology” (MW 6; 1-18). 4 Uma boa aproximação a esta obra se encontra no número 10 de Estudos de Religião, publi cados pela UMESP (São Bernardo do Campo), com contribuições de vários autores sob a coordenação de Etienne Higuet, Paul Tillich Trinta Anos Depois (1995). Uma síntese intro dutória, em Enio R. Mueller, “A Teologia Sistemática”, no livro Fronteiras e interfaces: o pensamento de Paul Tillich em perspectiva interdisciplinar, em fase de publicação pela EST / Editora Sinodal, São Leopoldo, 2005. vários lugares a tradução alemã foi usada para esclarecer aspectos difí ceis do texto. Também a tradução espanhola foi consultada, quanto às possibilidades de versão do texto para o português. Milhares de altera ções foram introduzidas na antiga tradução, resultando praticamente numa nova tradução. O segundo estágio foi o da revisão técnica, onde o texto foi nova mente submetido por mim a uma meticulosa leitura à luz do texto origi nal e adequado aos conhecimentos que hoje possuímos na pesquisa es pecializada sobre Paul Tillich. Também este estágio gerou muitas alte rações, no esforço de captar o melhor possível na língua portuguesa tanto o estilo de Tillich como a precisão de seu pensamento' e de sua escrita. Um terceiro estágio foi a cuidadosa leitura de provas realizada por Luís Marcos Sander, e que, graças à sua competência, agregou valor ao texto final. Para se poder compreender em toda a sua extensão e profundida de o pensamento de Tillich, é necessária uma boa percepção da comple xa trama e da terminologia filosófica e teológica alemã dos séculos 19 e 20. Na Teologia Sistemática isto geralmente aparece sem aviso, conden sando extraordinariamente as entrelinhas desta obra. Destaco aqui alguns exemplos para que o/a leitor/a possa ter uma idéia da amplitude da revisão que deu origem a esta nova edição portu guesa. Um primeiro exemplo é o recorrente uso das categorias de “po tência” e “ato”, de origem aristotélica. Especialmente complicada é a tradução para o português de “ato” e seus derivados. O texto inglês usa sempre actual, actuality ou derivados. Muitas vezes as traduções portu guesas de textos filosóficos, tal como a primeira edição da Teologia Sistemática em português, falam de “atual”, “atualidade”, “atualização”. Isto, porém, não corresponde exatamente ao uso destes termos na língua portuguesa, onde sempre possuem forte noção temporal. Tal noção de temporalidade, porém, é justamente uma das coisas que o pensamento de Tillich quer evitar quando emprega estas categorias aristotélicas para dis tinguir entre o estado potencial e o estado efetivo das realidades a que se refere. Isto tem especial importância para a correto entendimento da dis tinção tillichiana entre “essência” e “existência”; se mal compreendida, ela gera desvios sérios na compreensão de um dos eixos fundamentais de seu pensamento. Nesta nova edição, optou-se finalmente por traduzir actual e seus derivados por “efetivo” e seus derivados, com isso sinalizando o aspec to dinâmico e sempre presente deste eixo categorial. Alternativas possí veis, como “real”, p. ex., foram examinadas e descartadas por, de uma ou outra forma, conterem elementos que representariam desvios na com preensão do uso destas categorias por Tillich, o que também se aplica à compreensão do pensamento existencial em geral. Sempre haveria a possibilidade de um neologismo, “atoai”, “atoalizar”. Mas isto dificil mente faria os termos mais compreensíveis. Outra categoria tillichiana de difícil compreensão em todo o seu potencial descritivo é a categoria “poder de ser”, que junta em si dois grandes focos do pensamento de Tillich: o poder e o ser. O inglês power ofbeing é indiferenciado, como é próprio da língua inglesa. Aqui o ale mão Macht zum Sein nos dá a chave. “Poder do ser” representaria fazer do “ser” a realidade básica, e de “poder” uma força auxiliar, o que não traduz corretamente o que Tillich quer dizer. A tradução “poder de ser”, então, representa a melhor opção possível em nossa língua para expres sar a simultaneidade destas duas grandezas correlatas sobre as quais o autor constrói aspectos importantes do seu pensamento. Um terceiro exemplo diz respeito à tradução da palavra inglesa anxiety. A primeira edição da TS traz sempre a tradução que seria a nor mal, “ansiedade”. Acontece que aqui estamos falando de um termo téc nico da linguagem psicanalítica, e Tillich praticamente sempre o usa com esta conotação. Numa nota na própria TS ele menciona sua insatis fação com o termo anxiety como tradução do alemão Angst, que é a palavra que Freud classicamente empregou, e que Tillich sempre usa em seus textos alemães. Como na linguagem psicanalítica portuguesa se impôs o termo “angústia”, é conveniente que o façamos também na tra dução dos textos de Tillich. Assim, nesta edição, sempre que anxiety tem esta conotação psicanalítica optamos pela tradução “angústia”. Uma próxima questão é a da tradução de demonic. Aqui nossa opção foi por distinguir entre o uso do termo como substantivo e como adjetivo. O substantivo é normalmente traduzido por “demônico”, ter mo que vem se impondo nos estudos de religião. Já o adjetivo normal mente é traduzido por “demoníaco”, conforme o uso corrente em portu guês, com a exceção dos casos em que a conotação é substantiva e dos casos em que o uso remete a uma positividade que justamente distingue o “demônico” do “demoníaco”. Como se trata de um conceito importan te em Tillich, cuja compreensão está sempre sujeita a deformações, es tes cuidados são neçessários. Exemplos como estes poderiam ser multiplicados. Os aqui men cionados são os mais significativos por sua importância no pensamento de Tillich e pela sua freqüência no texto. Três esclarecimentos de outra ordem me parecem ainda necessários. O primeiro diz respeito à necessi dade de distinguir, como Tillich o faz no texto inglês, entre termos iguais iniciados ora comminúscula ora com maiúscula. Sempre que isto acon tece aqui, é intencional. É uma das maneiras usadas por Tillich para distinguir entre o imanente e o transcendente (ex.: espírito e Espírito). A segunda observação é que já a tradução do pensamento de Tillich para o inglês sempre foi um problema com o qual ele próprio se con frontou pelo resto de sua vida. Vários conceitos importantes da língua alemã, especialmente os da linguagem filosófica, são praticamente im possíveis de se traduzir sem perda substancial de conteúdo. Basta, como exemplo, o conceito de Schicksal, que em inglês é traduzido por fate ̂ O inadequado disto é evidente, como é evidente que não há alternativa melhor. O mesmo acontece na tradução para o português, onde sempre usamos “destino”. Fora conotações de cunho religioso e supersticioso que foram se agarrando ao termo como usado correntemente no portu guês, ainda há o problema de um excesso de determinismo em relação ao termo alemão, que especialmente na primeira metade do século 20, em virtude das vicissitudes históricas do povo alemão, adquire uma espe cificidade e profundidade intraduzíveis pela simples troca de palavras de uma língua para outra. Em terceiro lugar, julgou-se conveniente adaptar o texto a uma demanda da nossa época e, assim, fazer uso de linguagem inclusiva, sempre que possível, substituindo a palavra “homem” pelo termo ser humano” ou “pessoa” quando usada em sentido genérico. Isto sem dúvi da corresponde à sensibilidade manifesta do próprio autor. Finalmente, cabe registrar um especial agradecimento ao Fundo de Publicações da Escola Superior de Teologia, de São Leopoldo, que assumiu e arcou com este projeto e com o risco da publicação de um texto tão denso e volumoso. Isto acontece na certeza de que a Teologia Sistemática, que marcou profundamente a atmosfera teológica do sécu lo 20, encerra em si um rico potencial para a teologia do século 21, não por último na América Latina e no Brasil. Enio R. Mueller Escola Superior de Teologia São Leopoldo (RS) Sumário Volume 1 A razão e a revelação O ser e Deus Prefácio................................................................................................. 19 Introdução........................................................................................... 21 A. O ponto de vista............................................................................... 21 1. Mensagem e situação.................................................................... 21 2. Teologia apologética e querigma.................................................. 23 B. A natureza da teologia sistemática................................................... 26 3. O círculo teológico.................................................. .................... 26 4. Os dois critérios formais de toda teologia...................................... 29 5. Teologia e cristianismo................................................................. 32 6. Teologia e filosofia - uma pergunta.............................................. 35 7. Teologia e filosofia - uma resposta............................................... 39 C. <4 organização da teologia................................................................ 45 D. O método e a estrutura da teologia sistemática................................ 50 8. As fontes da teologia sistemática.................................................. 50 9. Experiência e teologia sistemática................................................ 56 10. A norma da teologia sistemática.................................................. 62 11.0 caráter racional da teologia sistemática.................................... 67 12. O método de correlação.............................................................. 74 13. O sistema teológico..................................................................... 80 Parte 1 A razão e a revelação I. A razão e a pergunta pela revelação................................................ 85 A. A estrutura da razão......................................................................... 85 1. Os dois conceitos de razão............................................................. 85 2. Razão subjetiva e objetiva............................................................ 89 3. A profundidade da razão............................................................... 92 B. A razão na existência....................................................................... 95 4. A finitude e as ambigüidades da razão efetiva............................... 95 5. O conflito dentro da razão efetiva e a pergunta pela revelação...... 97 C. A função cognitiva da razão e a pergunta pela revelação................ 107 6. A estrutura ontológica do conhecimento....................................... 107 7. Relações cognitivas....................................................................... 110 8. Verdade e verificação.................................................................... 113 II. A realidade da revelação............................................................... 119 A. O sentido da revelação.................................................................... 119 1. As marcas da revelação................................................................. 119 2. Os meios da revelação................................................................... 1 3 0 3. A dinâmica da revelação: revelação original e revelação dependente 138 4 .0 conhecimento da revelação....................................................... 140 B. A revelação efetiva............................................................................ 143 5. Revelação efetiva e final............................................................... 143 6. A revelação final em Jesus como o Cristo...................................... 146 7. A história da revelação.................................................................. 148 8. Revelação e salvação.................................................................... 154 C. A razão na revelação final................................................................ 157 9. A revelação final supera o conflito entre autonomia e heteronomia 157 10. A revelação final supera o conflito entre absolutismo e relativismo 160 11. A revelação final supera o conflito entre formalismo e emocionalismo.......................................................................... 163 D. O fundamento da revelação.............................................................. 165 12. Deus e o mistério da revelação.................................................... 165 13. A revelação final e a Palavra de Deus.......................................... 166 Parte 2 O ser e Deus I. O ser e a pergunta por Deus............................................................ 173 Introdução: a questão do ser.................................................................. 173 A. A estrutura ontológica básica: o eu eo mundo................................. 178 1. O ser humano, o eu e o mundo...................................................... 178 2. O objeto lógico e o ontológico...................................................... 181 B. Os elementos ontológicos................................................................. 184 3. Individualização e participação..................................................... 184 4. Dinâmica e forma.......................................................................... 187 5. Liberdade e destino....................................................................... 191 C. O ser e a finitude............................................................................... 195 6. Ser e não-ser................................................................................. 195 7.0 finito e o infinito........................................................................ 198 8. A finitude e as categorias............................................................... 2019. A finitude e os elementos ontológicos............................................ 207 10. Ser essencial e ser existencial..................................................... 210 D. A finitude humana e a questão de Deus............................................. 212 11. A possibilidade da questão de Deus e o chamado argumento ontológico.................................................................................... 212 12. A necessidade da pergunta por Deus e os chamados argumentos cosmológicos............................................................................... 216 II. A realidade de Deus........................................................................ 219 A. O sentido de "Deus"........................................................................ 219 1. Uma descrição fenomenológica.................................................... 219 2. Considerações tipológicas............................................................. 226 B. A realidade efetiva de Deus.............................................................. 242 3. Deus como ser............................................................................... 242 4. Deus como vivente........................................................................ 248 5. Deus como criador....................................................................... 258 6. Deus como relação....................................................................... 275 Volume 2 A existência e o Cristo Prefácio................................................................................................. 297 Introdução........................................................................................... 299 A. A relação do segundo volume da Teologia Sistemática com o primeiro volume e com o sistema como um todo........................... 299 B. Nova exposição de respostas dadas no volume 1 .............................. 301 1. Para além do naturalismo e do supranaturalismo........................... 301 2. O uso do conceito do ser na teologia sistemática........................... 305 3. Independência e interdependência das perguntas existenciais e das respostas teológicas...................................................................... 308 Parte 3 A existência e o Cristo I. A existência e a pergunta por Cristo............................................... 315 A. Existência e existencialismo................................... ......................... 315 1. A etimologia de “existência” ......................................................... 315 2 .0 surgimento do problema existencialista..................................... 317 3. Existencialismo contra essencialismo............................................ 320 4. Pensamento existencial e existencialista........................................ 321 5 .0 existencialismo e a teologia cristã............................................. 322 B. A transição da essência à existência e o símbolo da "queda ”........... 324 1. O símbolo da “queda” e a filosofia ocidental................................. 324 2. A liberdade finita como possibilidade da transição da essência à existência................................................................................... 326 3. “Inocência sonhadora” e tentação................................................. 328 4. O elemento moral e o trágico na transição do ser essencial ao ser existencial..................................................................................... 331 5. Criação e queda............................................................................ 334 C. As marcas da alienação do ser humano e o conceito de pecado....... 339 1. Alienação e pecado....................................................................... 339 2. Alienação como “descrença” ......................................................... 341 3. Alienação como hybris.................................................................. 343 4. Alienação como “concupiscência” ................................................ 346 5. Alienação como fato e como ato................................................... 349 6. Alienação individual e coletiva..................................................... 352 D. A autodestruição existencial e a doutrina do mal............................. 353 1. A perda do eu e a perda do mundo no estado de alienação............. 353 2. Os conflitos intemos das polaridades ontológicas no estado de alienação....................................................................................... 356 3. Finitude e alienação...................................................................... 360 4. O sentido do desespero e seus símbolos........................................ 367 E. A pergunta pelo Novo Ser e o sentido de "Cristo " ............................ 371 1. A existência como fatalidade ou a vontade cativa.......................... 371 2. Formas de auto-salvação e seu fracasso......................................... 372 3. Expectativas não-históricas e históricas pelo Novo Ser................. 378 4. O símbolo “Cristo”, seu sentido histórico e trans-histórico............ 380 5 .0 sentido do paradoxo na teologia cristã....................................... 381 6. Deus, o ser humano e o símbolo do “Cristo” ................................. 384 II. A realidade do Cristo...................................................................... 388 A. Jesus como o Cristo.......................................................................... 388 1. O nome “Jesus Cristo” .................................................................. 388 2. Evento, fato e recepção................................................................. 389 3. A história e o Cristo....................................................................... 390 4. A pesquisa sobre o Jesus histórico e o fracasso desta investigação . 392 5. Pesquisa histórica e teologia......................................................... 397 6. Fé e ceticismo histórico................................................................. 402 7. O testemunho bíblico sobre Jesus como o Cristo........................... 406 B. O Novo Ser em Jesus como o Cristo................................................. 407 1. O Novo Ser e o novo éon.............................................................. 407 2. A aparição do Novo Ser numa vida pessoal................................... 409 3. As expressões do Novo Ser em Jesus como o Cristo..................... 410 4. O Novo Ser em Jesus como o Cristo e sua vitória sobre a alienação 414 5. A dimensão histórica do Novo Ser................................................ 423 6. Elementos conflituosos na imagem de Jesus como o Cristo........... 424 C. Valoração do dogma cristológico..................................................... 426 1. A natureza e a função do dogma cristológico................................. 426 2. Perigos e decisões no desenvolvimento do dogma cristológico..... 429 3. A tarefa cristológica da teologia atual........................................... 432 D. O significado universal do evento Jesus como o Cristo.................... 437 1. A singularidade e a universalidade deste evento............................. 437 2. Os símbolos centrais do significado universal de Jesus como o Cristo, e sua relação...................................................................... 439 3. Símbolos que corroboram o símbolo “cruz do Cristo” ................... 444 4. Símbolos que corroboram o símbolo “ressurreição do Cristo” ....... 445 E. O Novo Ser em Jesus o Cristo como poder de salvação................... 450 1. O sentido da salvação.................................................................... 450 2. O Cristo como o salvador (mediador, redentor)............................. 453 3. Doutrinas da expiação................................................................... 455 4. Princípios da doutrina da expiação................................................458 5.0 caráter tríplice da salvação........................................................ 460 Volume 3 A vida e o Espírito A história e o Reino de Deus Prefácio................................................................................................ 467 Introdução........................................................................................... 469 Parte 4 A vida e o Espírito I. A vida, suas ambigüidades e a busca da vida sem ambigüidade.... 475 A. A unidade multidimensional da vida................................................ 475 1. Vida: essência e existência............................................................ 475 2. A inadequação da distinção em “níveis” ........................................ 476 3. Dimensões, esferas, graus............................................................. 479 4. As dimensões da vida e suas relações........................................... 481 B. A auto-efetivação da vida e suas ambigüidades................................ 492 Consideração fundamental: as funções básicas da vida e a natureza de sua ambigüidade................................................................................... 492 1. A auto-integração da vida e suas ambigüidades............................. 494 2. A autocriatividade da vida e suas ambigüidades............................ 510 3. A autotranscendência da vida e suas ambigüidades....................... 544 C. A busca da vida sem ambigüidade e os símbolos de sua antecipação 563 II. A Presença Espiritual..................................................................... 567 A. A manifestação da Presença Espiritual no espírito humano.............. 567 1. O caráter da manifestação do Espírito divino no espírito humano .. 567 2 .0 conteúdo da manifestação do Espírito divino no espírito humano: fé e amor......................................................................... 583 B. A manifestação da Presença Espiritual na humanidade histórica..... 592 1. Espírito e Novo Ser: ambigüidade e fragmento............................. 592 2. A Presença Espiritual e a antecipação do Novo Ser nas religiões.... 594 3. A Presença Espiritual em Jesus como o Cristo: cristologia do Espírito......................................................................................... 597 4. A Presença Espiritual e o Novo Ser na Comunidade Espiritual...... 602 III. O Espírito divino e as ambigüidades da v ida .............................. 614 A. A Presença Espiritual e as ambigüidades da religião....................... 614 1. A Comunidade Espiritual, a igreja e as igrejas............................... 614 2. A vida das igrejas e a luta contra as ambigüidades da religião....... 623 3. O indivíduo na igreja e a Presença Espiritual................................ 662 4. A superação da religião pela Presença Espiritual e o princípio protestante.................................................................................... 686 B. A Presença Espiritual e as ambigüidades da cultura........................ 688 1. Religião e cultura à luz da Presença Espiritual.............................. 688 2. O humanismo e a idéia da teonomia............................................. 691 3. Manifestações teônomas da Presença Espiritual............................ 694 C. A Presença Espiritual e as ambigüidades da moralidade................. 706 1. Religião e moralidade à luz da Presença Espiritual: moralidade teônoma....................................................................................... 706 2. A Presença Espiritual e as ambigüidades da auto-integração pessoal 708 3. A Presença Espiritual e as ambigüidades da lei moral................... 711 D. O poder curativo da Presença Espiritual e as ambigüidades da vida em geral.............................................................................. 714 1. A Presença Espiritual e as ambigüidades da vida em geral............. 714 2. Cura, salvação e a Presença Espiritual........................................... 716 IV. Os símbolos trinitários.......................................................... 721 A. Os motivos do simbolismo trínitário.................................................. 721 B. O dogma trínitário............................................................................ 724 C. Reabrindo o problema trínitário....................................................... 728 Parte 5 A história e o Reino de Deus Introdução........................................................................................... 735 O lugar sistemático da quinta parte do sistema teológico e a dimensão histórica da vida.................................................................................... 735 I. A história e a pergunta pelo Reino de Deus.................................... 738 A. A vida e a história............................................................................. 738 1.0 ser humano e a história............................................................. 738 2. A história e as categorias de ser.................................................... 750 3. A dinâmica da história................................................................... 762 B. As ambigüidades da vida sob a dimensão histórica.......................... 11A 1. As ambigüidades da auto-integração histórica: império e centralização 774 2. As ambigüidades da autocriatividade histórica: revolução e reação 777 3. As ambigüidades da autotranscendência histórica: o “terceiro estágio” como algo dado e como objeto de expectativa................ 778 4. As ambigüidades do indivíduo na história..................................... 780 C. Interpretações da história e a pergunta pelo Reino de Deus............. 782 1. A natureza e o problema de uma interpretação da história.............. 782 2. Respostas negativas à pergunta pelo sentido da história................ 784 3. Respostas positivas, mas inadequadas à pergunta pelo sentido da história.......................................................................................... 786 4. O símbolo “Reino de Deus” como resposta à pergunta pelo sentido da história..................................................................................... 790 II. O Reino de Deus dentro da história............................................... 794 A. A dinâmica da história e o Novo Ser................................................. 794 1. A idéia da “história da salvação”.................................................... 794 2. A manifestação central do Reino de Deus na história.................... 796 3. “Kairos” e “kairoC’........................................................................ 800 4. A providência histórica.................................................................. 803 B. O Reino de Deus e as igrejas............................................................ 805 1. As igrejas como representantes do Reino de Deus na história........ 805 2. O Reino de Deus e a história das igrejas........................................ 808 C. O Reino de Deus e a história universal............................................. 811 1. A história da igreja e a história universal....................................... 811 2. O Reino de Deus e as ambigüidades da auto-integração histórica... 814 3. O Reino de Deus e as ambigüidades da autocriatividade histórica.. 817 4. O Reino de Deus e as ambigüidades da autotranscendência histórica 819 5. O Reino de Deus e as ambigüidades do indivíduo na história........ 820 III. O Reino de Deus como fim da história......................................... 822 A. O fim da história ou Vida Eterna....................................................... 822 1.0 duplo sentido de “fim da história” e a presença permanente do fim 822 2. O fim da história como elevação do temporal para dentro da eternidade..................................................................................... 824 3.0 fim da história como exposição do negativo comonegativo, ou o “juízo final” ............................................................................... 826 4. O fim da história e a superação final das ambigüidades da vida..... 828 5. Bem-aventurança eterna como superação eterna do negativo......... 830 B. A pessoa individual e seu destino eterno........................................... 833 1. Plenitude universal e individual.................................................... 833 2. Imortalidade como símbolo e como conceito................................ 836 3 .0 sentido de ressurreição.............................................................. 838 4. Vida Eterna e morte eterna........................................................... 841 C. O Reino de Deus: tempo e eternidade.............................................. 845 1. A eternidade e o movimento do tempo........................................... 845 2. Vida Eterna e Vida Divina............................................................. 846 índice remissivo.................................................................................. 849 Volume 1: razão e a revelação O ser e Deus A meus ex-alunos e alunas aqui e no exterior Prefácio Durante um quarto de século, quis escrever uma teologia sistemá tica. Jamais consegui pensar teologicamente sem fazê-lo de forma siste mática. O problema mais insignificante, se o colocava séria e radical mente, suscitava em mim todos os demais e me induzia a antecipar uma totalidade em que pudessem encontrar sua solução. Mas os aconteci mentos mundiais, o destino pessoal e alguns problemas particulares me impediram de realizar essa tarefa que eu mesmo me impusera. De certa forma, as proposições mimeografadas que usei para minhas preleções tomaram-se, para meus alunos e amigos, um substituto do sistema. Este volume trata dos problemas contidos na introdução e nas duas primeiras partes das proposições. O conteúdo das proposições foi preservado e ampliado, enquanto que a forma proposicional foi alterada e substituída por um texto contínuo. O escopo de um sistema teológico pode ser quase ilimitado, como o mostram as “Summae” da escolástica e da ortodoxia protestante. Limitações pessoais e práticas, bem como problemas de espaço, impediram inclusive que me encaminhasse na di reção de uma “Summa”. Não foi viável tratar de todos os problemas tradicionais de um sistema teológico. Aqueles que não são decisivos para a estrutura do sistema foram omitidos, enquanto que outros apenas são mencionados, porque os discuti em outros escritos. Além disso, foi impossível fazer referências extensas à Bíblia ou aos teólogos clássicos. A elaboração da linha de pensamento consumiu todo o esforço e todo o espaço disponível. Não será difícil reconhecer o caráter bíblico e eclesi ástico das soluções que proponho para os problemas teológicos apre sentados neste volume, embora ele seja mais implícito do que explícito. Finalmente, não me foi possível entrar em uma discussão aberta com os diferentes representantes da teologia e da filosofia contemporâneas, embora uma discussão “subterrânea” com eles esteja presente em quase todas as páginas deste livro. Meu propósito - e creio que seja justificado - foi apresentar o método e a estrutura de um sistema teológico escrito a partir de um ponto de vista apologético e levado a cabo em correlação contínua com a filosofia. O tema de todas as seções deste sistema é o método de corre lação, e ilustrei suas conseqüências sistemáticas com a discussão dos principais problemas teológicos. Se tenho êxito em evidenciar a ade quação apologética e a fecundidade sistemática deste método, não la mentarei as limitações do meu sistema. Este volume não poderia ter sido escrito sem a ajuda de alguns de meus amigos mais jovens, que realmente demonstraram sua amizade pela maneira altruísta com que leram e criticaram o primeiro e o segun do esboços desta obra, tanto do ponto de vista teológico como estilísti co. Em primeiro lugar, quero mencionar o professor A. T. Mollegen, titular da cadeira de ética cristã no seminário de Alexandria, Virgínia, que me ofereceu importantes críticas materiais e formais acerca de am plas seções do primeiro esboço. Mas o fardo maior coube a meu antigo assistente, John Dillenberger, do Departamento de Religião da Univer sidade de Colúmbia, e a meu assistente atual, Comelius Loew; ambos, em reuniões regulares, estabeleceram o texto final e cuidaram de todo o aspecto técnico da preparação do manuscrito. Quero também mencio nar minha antiga secretária, a falecida senhora Hilde Frankel. Ela, com grande empenho, datilografou minhas páginas manuscritas, fazendo cópias para todos aqueles que me ajudaram. Também sou grato aos edi tores, The University of Chicago Press, que esperaram pacientemente, durante vários anos, pelo término do manuscrito. Dedico este livro a meus alunos, daqui e da Alemanha, que, ano após ano, instaram-me a publicar o sistema teológico com que se fami liarizaram através de minhas preleções. Seu desejo de ver impresso aquilo que ouviam na sala de aula constituiu o impulso psicológico mais forte para que eu superasse minhas hesitações, meu perfeccionismo e a cons ciência de minhas limitações. Desejo ardentemente que encontrem nes sas páginas algo do que esperam: uma ajuda no sentido de responder às perguntas que lhes são formuladas dentro e fora das suas igrejas. Uma ajuda para responder a perguntas: este é, exatamente, o pro pósito deste sistema teológico. Cidade de Nova Iorque 20 de agosto de 1950 Introdução A. O ponto de vista 1. Mensagem e situação A teologia, como função da igreja cristã, deve servir às necessi dades desta igreja. Um sistema teológico deve satisfazer duas necessi dades básicas: a afirmação da verdade da mensagem cristã e a interpre tação desta verdade para cada nova geração. A teologia oscila entre dois pólos: a verdade etema de seu fundamento e a situação temporal em que esta verdade etema deve ser recebida. Não são muitos os sistemas teoló gicos que souberam combinar perfeitamente essas duas exigências. A maioria deles ou sacrificam elementos da verdade ou não são capazes de falar ao momento atual. Alguns padecem de ambos os defeitos. Temero sos de perder a verdade etema, identificam-na com algum trabalho teo lógico anterior, com conceitos e soluções tradicionais, e tentam impô- los a uma situação nova e diferente. Confundem a verdade etema com uma expressão temporal desta verdade. Isto se toma evidente na ortodo xia teológica européia, conhecida nos Estados Unidos como fundamen- talismo. Quando o fundamentalismo se combina com uma tendência antiteológica, como ocorre, por exemplo, em sua forma biblicista-evan- gelical, a verdade teológica de ontem é defendida como uma mensagem imutável contra a verdade teológica de hoje e amanhã. O fundamentalis mo deixa de entrar em contato com a situação presente, não porque fale desde além de qualquer situação, mas porque fala desde uma situação do passado. Eleva algo finito e transitório a uma validez infinita e eter na. Neste sentido, o fundamentalismo possui traços demoníacos. Ele destrói a humilde honestidade da busca pela verdade, cria em seus se guidores pensativos uma crise de consciência e os toma fanáticos, por que são forçados a suprimir elementos da verdade dos quais têm consci ência, mesmo que vaga. Os fundamentalistas da América e os teólogos ortodoxos da Eu ropa podem alegar que sua teologia é avidamente recebida e professada por muitas pessoas exatamente por causa da situação histórica ou bio gráfica em que as pessoas se encontram hoje. O fato é óbvio, mas a interpretação é equivocada. A “situação”, como um dos pólos de todo trabalho teológico, não se refere ao estado psicológico ou sociológico em que vivem os indivíduos ou grupos. Ela se refere às formas científi- cas e artísticas, econômicas, políticas e éticas em que expressam sua interpretação da existência. A “situação”, à qual ateologia deve falar com relevância, não é a situação do indivíduo como indivíduo e não é a situação do grupo como grupo. A teologia não é nem pregação nem acon selhamento; por isso, o sucesso de uma teologia, quando aplicada à pre gação ou ao aconselhamento pastoral, não é necessariamente um crité rio de sua verdade. O fato de as idéias fundamentalistas serem avida mente acolhidas em um período de desintegração pessoal ou comunitá ria não prova sua validade teológica, assim como o sucesso de uma teo logia liberal em períodos de integração pessoal ou comunitária não é certificado de sua verdade. A “situação” que a teologia deve considerar é a interpretação criativa da existência tal como se realiza em todos os períodos da história, sob todos os tipos de condições psicológicas e soci ológicas. A “situação” certamente não é independente destes fatores. Con tudo, a teologia se ocupa com a expressão cultural que eles encontraram tanto na prática quanto na teoria e não com esses fatores condicionantes como tais. Assim, a teologia não está interessada na ruptura política entre o Leste e o Oeste. Ela está interessada na interpretação política desta rup tura. A teologia não está interessada no aumento das doenças mentais ou na consciência crescente delas. Ela está interessada na interpretação psi quiátrica dessas tendências. A “situação” à qual a teologia deve responder é a totalidade da auto-interpretação criativa do ser humano em um perío do determinado. O fundamentalismo e a ortodoxia rejeitam essa tarefa e, ao fazê-lo, perdem o sentido da teologia. A teologia “querigmática” coincide com o fundamentalismo e a ortodoxia na medida em que enfatiza a verdade imutável da mensagem (querigma) contra as exigências cambiantes da situação. Ela tenta evitar os defeitos do fundamentalismo, sujeitando toda teologia, inclusive a ortodoxia, ao critério da mensagem cristã. Esta mensagem está contida na Bíblia, mas não é idêntica à Bíblia. Ela está expressa na tradição clássica da teologia cristã, mas não é idêntica a nenhuma forma particu lar desta tradição. A teologia da Reforma e, em nossos próprios dias, a teologia da neo-Reforma de Barth e sua escola são exemplos marcantes de teologia querigmática. Em sua época, Lutero foi atacado pelos pen sadores ortodoxos; agora, Barth e seus seguidores sofrem duros ataques dos fundamentalistas. Isso significa que não é totalmente justo chamar Lutero de “ortodoxo” ou Barth de “neo-ortodoxo”. Lutero corria o peri go de se tomar ortodoxo, e o mesmo ocorre com Barth, mas essa não era a intenção deles. Ambos fizeram uma séria tentativa de redescobrir a men sagem eterna dentro da Bíblia e da tradição, em oposição a uma tradição distorcida e a uma Bíblia utilizada de forma errônea e mecânica. A crítica de Lutero ao sistema-romano de mediações e gradações em nome das decisivas categorias bíblicas de juízo e graça, sua redescoberta da mensa- gem paulina e, ao mesmo tempo, sua corajosa avaliação do valor espiritu al dos livros bíblicos foram uma genuína teologia querigmática. A crítica de Barth à síntese burguesa e neoprotestante feita pela teologia liberal, sua redescoberta do paradoxo cristão e, ao mesmo tempo, a liberdade de sua exegese espiritual da Epístola aos Romanos e sua aceitação da crítica histórica radical constituem uma genuína teologia querigmática. Em am bos os casos, acentuou-se a verdade etema em contraposição à situação humana e suas exigências. Em ambos os casos, esta ênfase teve poder profético, abalador e transformador. Sem essas reações querigmáticas, a teologia se perderia nas relatividades da “situação”; ela própria se toma ria a “situação” - como é o caso, por exemplo, do nacionalismo religioso dos chamados cristãos alemães e do progressismo religioso dos chamados humanistas da América. Contudo, a “situação” não pode ser excluída do trabalho teológi co. Lutero estava suficientemente livre de preconceitos para usar sua formação nominalista e a educação humanista de Melanchthon para a formulação das doutrinas teológicas. Mas ele não estava suficientemen te consciente do problema da “situação” para evitar o deslize em atitu des ortodoxas, preparando assim o caminho para o período da ortodoxia protestante. A grandeza de Barth consiste em que sempre de novo corri ge a si mesmo à luz da “situação” e tenazmente se esforça para não se tomar um seguidor de si mesmo. Mas ele não percebe que, ao agir as sim, deixa de ser um teólogo puramente querigmático. Ao tentar derivar toda afirmação diretamente da verdade última - por exemplo, ao derivar o dever de lutar contra Hitler da ressurreição de Cristo1 - acaba usando um método que pode ser chamado de “neo-ortodoxo”, método que re forçou na Europa todas as tendências rumo a uma teologia restauracio- nista. Não é possível, na teologia, descuidar do pólo chamado “situa ção” sem correr o risco de sérias conseqüências. Só uma corajosa parti cipação na “situação”, isto é, em todas as formas culturais que expres sam a interpretação da existência por parte do ser humano moderno, pode superar a atual oscilação da teologia querigmática entre a liberdade implícita no querigma genuíno e sua fixação ortodoxa. Em outras pala vras, a teologia querigmática, para ser completa, necessita da teologia apologética. 2. Teologia apologética e querigma A teologia apologética é uma “teologia que responde”. Ela res ponde às perguntas implícitas na “situação” com o poder da mensagem 1 Karl BARTH, A Letter to Great Britain from Switzerland, in: This Christian Cause, New York: Macmillan, 1941. eterna e os meios oferecidos pela situação a cujas perguntas ela responde. O termo “apologético”, que gozou de tão alta reputação na igreja primitiva, caiu em descrédito por causa dos métodos empregados nas tentativas malogradas de defender o cristianismo contra os ataques do humanismo, do naturalismo e do historicismo modernos. Uma forma especialmente débil e desagradável de apologética usava o argumentum ex ignorantia [“argumento a partir da ignorância”]: tentava descobrir lacunas em nosso conhecimento histórico e científico a fim de encontrar um lugar para Deus e suas ações em um mundo completamente calculá vel e “imanente”. Cada vez que nosso conhecimento avançava, outra posição de defesa tinha que ser abandonada. Mas essa retirada contínua não dissuadiu os ávidos apologetas de encontrar, nos desenvolvimentos mais recentes da física e historiografia, novas ocasiões para situar a ativi dade de Deus em novas brechas do conhecimento científico. Esse proce dimento indigno desacreditou tudo o que é chamado de “apologética”. Há, contudo, uma razão mais profunda para desconfiar dos méto dos apologéticos, especialmente por parte dos teólogos querigmáticos. Para responder a uma pergunta, deve-se ter algo em comum com a pes soa que a formula. A apologética pressupõe uma base comum, por mais imprecisa que seja. Mas os teólogos querigmáticos tendem a negar qual quer base comum com aqueles que estão fora do “círculo teológico”. Eles temem que a base comum destrua a unicidade da mensagem. Apon tam para os primitivos apologetas cristãos, que viram uma base comum na aceitação do Logos; apontam para a escola alexandrina, que encon trou uma base comum no platonismo; apontam para o uso que Tomás de Aquino fez de Aristóteles; apontam sobretudo para a base comum que a própria teologia apologética julgou encontrar na filosofia do iluminis- mo, no romantismo, no hegelianismo e no kantismo, no humanismo e no naturalismo. Tentam demonstrar que aquilo que, em cada caso, se considerava uma base comum não era mais do que a base da “situação”, que a teologia perdeu sua própria base quando entrou na situação. A teologia apologética em todas essas formas - na prática isto significa toda teologia não-fundamentalista desde o começo do século 18 - é, do ponto de vista dos recentes teólogos querigmáticos, um abandono do querigma, da verdade imutável. Se estafor uma leitura correta da histó ria da teologia, então a única teologia real é a querigmática. Nesta pers pectiva, a “situação” é impenetrável. Não se pode dar nenhuma resposta às perguntas implícitas nela, pelo menos não em termos que possam ser aceitos como uma resposta. A mensagem deve ser lançada como uma pedra àqueles que estão na situação. Este pode ser, certamente, um mé todo efetivo de pregação sob condições psicológicas especiais, por exem plo, em reavivamentos. Pode ser eficaz mesmo se expresso em termos teológicos polêmicos. Mas não presta nenhum serviço à função teológi- ca da igreja. E, além disso, é inviável. A própria teologia querigmática é obrigada a usar o instrumental conceituai de seu tempo. Ela não pode simplesmente repetir passagens bíblicas. Mesmo quando o faz, não pode evitar a situação conceituai dos diferentes escritores bíblicos. Como a linguagem é a expressão básica de toda situação e a permeia por inteiro, a teologia não pode evitar o problema da “situação”. A teologia querig mática deve abandonar sua transcendência exclusiva e levar a sério a tentativa da teologia apologética de responder às perguntas que a situa ção contemporânea lhe coloca. Por outro lado, a teologia apologética deve levar em conta a ad vertência implícita na existência e na reivindicação da teologia querig mática. Ela se perde se não tiver o querigma como substância e critério de cada uma de suas afirmações. Mais de dois séculos de trabalho teoló gico têm sido determinados pelo problema apologético. “A mensagem cristã e a mentalidade moderna” constitui o tema dominante desde o final da ortodoxia clássica. A questão constante tem sido: pode a mensa gem cristã ser adaptada à mentalidade modema sem perder seu caráter essencial e único? A maioria dos teólogos acredita que isso seja possí vel. Alguns o consideram impossível, seja em nome da mensagem cris tã, seja em nome da mentalidade modema. Não há dúvida de que as vozes daqueles que enfatizam o contraste, a diástase, têm sido mais for tes e mais impactantes - os seres humanos normalmente são mais vigo rosos em suas negações do que em suas afirmações. Mas o esforço con tínuo daqueles que tentam encontrar uma união, uma “síntese”, tem mantido a teologia viva. Sem eles, o cristianismo tradicional teria se tomado estreito e supersticioso. E o movimento cultural em geral teria seguido seu curso sem o “espinho na carne” de que necessitava, isto é, sem uma teologia honesta de alto valor cultural. As condenações maci ças da teologia durante os dois últimos séculos, próprias de grupos tra dicionais e neo-ortodoxos, são profundamente equivocadas. (O próprio Barth reconheceu isto em seu livro Die protestantische Theologie im neunzehnten Jahrhundert). Contudo, certamente é necessário pergun tar, em cada caso específico, se a tendência apologética diluiu ou não a mensagem cristã. E, além disso, é necessário procurar um método teoló gico em que a mensagem e a situação estejam relacionadas de tal forma que nenhuma delas seja eliminada. Se este método for encontrado, a velha questão de já dois séculos sobre “o cristianismo e a mentalidade modema” pode ser atacada com mais êxito. O sistema que exponho a seguir é uma tentativa de usar o “método de correlação” como uma forma de unir mensagem e situação. Ele tenta correlacionar as perguntas implí citas na situação com as respostas implícitas na mensagem. Não deriva as respostas das perguntas, como o faz uma teologia apologética auto-sufici ente, mas tampouco elabora respostas sem relacioná-las com as pergun tas, como o faz uma teologia querigmática auto-suficiente. Ele coirelaci- ona perguntas e respostas, situação e mensagem, existência humana e ma nifestação divina. Obviamente, esse método não é um instrumento a ser manipulado a bel-prazer. Tampouco se trata de um truque ou de uma invenção. Ele mesmo é uma afirmação teológica. E, como todas as afirmações teológi cas, é feito com paixão e risco. Em última análise, não é diferente do sistema que sobre ele é construído. Sistema e método se pertencem mu tuamente e devem ser julgados juntos. Será um julgamento positivo se os teólogos das gerações futuras reconhecerem que o método ajudou a eles - e também a pensadores não-teólogos - a compreender a mensa gem cristã como resposta às perguntas implícitas em toda situação hu mana e em sua própria situação. B. A natureza da teologia sistemática 3 .0 círculo teológico Tentativas de elaborar uma teologia como uma “ciência” empíri- co-indutiva ou metafísico-dedutiva, ou como uma combinação de am bas, evidenciaram amplamente que não conseguem ter êxito. Em toda teologia pretensamente científica, há um ponto em que a experiência individual, a valoração tradicional e o compromisso pessoal exercem um papel decisivo. Tal ponto, muita vezes ignorado pelos autores de tais teologias, é óbvio para os que olham para elas com outras experiências e outros compromissos. Se empregarmos uma abordagem indutiva, de vemos perguntar pela direção em que o escritor busca seu material. E se a resposta for que ele olha em qualquer direção e para qualquer experi ência, devemos perguntar: que característica da realidade ou da experi ência é a base empírica de sua teologia? Qualquer que seja a resposta, está implícito um a priori de experiência e valoração. O mesmo ocorre quando o método empregado é o dedutivo, como no idealismo clássico. Os princípios últimos da teologia idealista são expressões racionais de uma preocupação última; como todas as ultimidades metafísicas, tais prin cípios são, ao mesmo tempo, ultimidades religiosas. Uma teologia daí derivada se encontra determinada pela teologia oculta implícita neles. Em ambas as abordagens, a empírica e a metafísica, bem como nos inúmeros casos que combinam as duas, podemos observar que o a priori que dirige a indução e a dedução é um tipo de experiência místi ca. Seja ele o “ser-em-si” (escolástica) ou a “substância universal” (Spi- noza), seja o “além da subjetividade e objetividade” (James) ou a “iden tidade de espírito e natureza” (Schelling), seja o “universo” (Schleier- macher) ou a “totalidade cósmica” (Hocking), seja o “processo criador de valor” (Whitehead) ou a “integração progressiva” (Wieman), seja o “espírito absoluto” (Hegel) ou a “pessoa cósmica” (Brightman) - cada um desses conceitos está baseado em uma experiência imediata de um valor ou ser último, do qual podemos chegar a ser conscientes intuitiva mente. Idealismo e naturalismo, quando desenvolvem conceitos teoló gicos, diferem muito pouco em seu ponto de partida. Ambos dependem de um ponto de identidade entre o sujeito que vive a experiência e o elemento de caráter último que aparece na experiência religiosa ou na experiência do mundo como “religioso”. Os conceitos teológicos, tanto dos idealistas quanto dos naturalistas, estão enraizados em um “a priori místico”, uma consciência de algo que transcende a separação entre su jeito e objeto. E se, no curso de um processo “científico”, descobrimos tal a priori, isto só é possível porque ele já estava presente desde o começo. Esse é o círculo do qual nenhum filósofo religioso pode esca par. E de modo algum ele é vicioso. Toda compreensão no âmbito do espírito (Geisteswissenschaft) é circular. Mas o círculo em que atua o teólogo é mais estreito do que o do filósofo da religião. Ele acrescenta ao “a priori místico” o critério da mensagem cristã. Enquanto o filósofo da religião tenta permanecer ge ral e abstrato em seus conceitos, como o próprio termo “religião” indi ca, o teólogo é, consciente e intencionalmente, específico e concreto. A diferença naturalmente não é absoluta. Já que a base experimental de toda filosofia da religião está parcialmente determinada pela tradição cultural à qual pertence - mesmo o misticismo está culturalmente con dicionado - ela inevitavelmente inclui elementos concretos e específi cos. Mas o filósofo, enquanto filósofo,tenta abstrair desses elementos e criar conceitos acerca da religião que tenham validade geral. O teólogo, por seu tumo, propõe a validez universal da mensagem cristã, apesar de seu caráter concreto e específico. Ele não justifica esta reivindicação abstraindo da concretude da mensagem, mas acentuando sua unicidade irrepetível. Ele entra no círculo teológico com um compromisso concre to. Entra nele como membro da igreja cristã para cumprir uma das fun ções essenciais da igreja: sua auto-interpretação teológica. O teólogo “científico” quer ser mais do que um filósofo da reli gião. Ele quer interpretar a mensagem cristã de uma forma geral com o auxílio de seu método. Isto o coloca diante de duas alternativas. Ele pode incluir a mensagem cristã em seu conceito de religião, e então o cristianismo é considerado como um exemplo de vida religiosa, ao lado de outros. Certamente é a religião mais alta, mas não é a final nem a única. Esta teologia não entra no círculo teológico. Ela permanece den tro do círculo religioso-filosófico e de seus horizontes indefinidos - hori zontes que se abrem para um futuro de novas e talvez mais elevadas for mas de religião. O teólogo científico, apesar de seu desejo de ser teólogo, permanece um filósofo da religião. Ou ele se toma realmente um teólogo, um intérprete de sua igreja e de sua reivindicação à unicidade e validez universal. Neste caso, ele entra no círculo teológico e deveria admitir que o fez e parar de falar de si mesmo como um teólogo “científico” no senti do corrente do termo. Mas inclusive o ser humano que ingressou consciente e aberta mente no círculo teológico enfrenta outro problema sério. Para estar dentro do círculo, ele deve ter tomado uma decisão existencial. Deve estar na situação de fé. Mas ninguém pode dizer de si mesmo que está na situação de fé. Ninguém pode chamar a si mesmo de teólogo, mesmo que tenha sido chamado a ser professor de teologia. Todo teólogo está comprometido e alienado. Ele está sempre na fé e na dúvida; está dentro e fora do círculo teológico. Às vezes um lado prevalece, às vezes o ou tro, e ele jamais tem certeza sobre qual dos lados prevalece efetivamen te. Portanto, só é possível aplicar um critério: alguém só pode ser teólo go na medida em que reconhecer o conteúdo do círculo teológico como sua preocupação última. A verdade disso não depende de seu estado intelectual, moral ou emocional. Não depende da intensidade e da certe za da fé. Não depende do poder de regeneração ou do grau de santifica ção. Antes, depende de que ele se sinta preocupado de forma última com a mensagem cristã, ainda que, às vezes, esteja inclinado a atacá-la e rejeitá-la. Essa compreensão da "existência teológica” resolve o conflito entre os teólogos ortodoxos e pietistas sobre a theologia irregenitorum (“teologia dos não-regenerados”). Os pietistas sabiam que não se pode ser teólogo sem fé, sem decisão, sem compromisso, sem estar no círculo teológico. Mas identificavam a existência teológica com uma experiên cia da regeneração. Os ortodoxos protestaram contra isso, argumentan do que ninguém pode estar certo de sua regeneração e que, além disso, a teologia lida com materiais objetivos que podem ser manuseados por qualquer pensador, dentro e fora do círculo teológico, desde que satisfa ça as condições intelectuais requeridas. Hoje, os teólogos ortodoxos e pietistas se acham aliados contra os teólogos críticos, supostamente des crentes, ao passo que a herança do objetivismo ortodoxo foi assumida pelo programa (não pelas realizações) da teologia empírica. Diante des sa antiga controvérsia, devemos reafirmar que o teólogo deve estar den tro do círculo teológico, mas o critério para determinar se está dentro dele é a aceitação da mensagem cristã como sua preocupação última. A doutrina do círculo teológico tem uma conseqüência metodoló gica: nem a introdução nem qualquer outra parte do sistema teológico constitui a base lógica para as outras partes. Cada parte é dependente das outras. A introdução pressupõe a cristologia e a doutrina da igreja, e vice-versa. A distribuição temática depende tão-somente de considera ções práticas. 4. Os dois critérios formais de toda teologia A última consideração se aplica significativamente a esta intro dução, que trata de estabelecer os critérios para todo empreendimento teológico. Os critérios são formais, já que são abstraídos dos materiais concretos do sistema teológico. Eles derivam, contudo, da totalidade da mensagem cristã. Forma e conteúdo podem ser distinguidos, mas não separados (esta é a razão por que mesmo a lógica formal não pode fugir do círculo filosófico). Forma e conteúdo não funcionam como base de um sistema dedutivo, mas são os guardiães metodológicos na linha divi sória da teologia. Usamos o termo “preocupação última” sem nenhuma explicação. Preocupação última é a tradução abstrata do grande mandamento: “O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força.”2 A preocupação religiosa é última. Ela despoja todas as outras preocupações de uma significação última. Ela as transforma em preliminares. A preocupação última é incondicional, independente de qual quer condição de caráter, desejo ou circunstância. A preocupação incon dicional é total: nenhuma parte de nós mesmos ou de nosso mundo está excluída dela. Não há “lugar” onde nos possamos esconder dela3. A preo cupação total é infinita: nenhum momento de relaxamento ou descanso é possível em face de uma preocupação religiosa que é última, incondicio nal, total e infinita. A palavra “preocupação” aponta para o caráter “existencial” da experiência religiosa. Não podemos falar adequadamente do “objeto da religião” sem remover, simultaneamente, seu caráter de objeto. Aquilo que é último só se dá a si mesmo na atitude de preocupação última. É o correlato de uma preocupação incondicional, mas não é uma “coisa su perior” chamada “o absoluto” ou “o incondicionado”, sobre o qual se pudesse argumentar com fria objetividade. O último é o objeto de uma entrega total, exigindo também, enquanto olhamos para ele, a entrega de nossa subjetividade. E uma questão de paixão e interesse infinitos (Kierkegaard), transformando-nos em objetos sempre que tentamos trans formá-lo em nosso objeto. Por este motivo, evitamos termos como “o último”, “o incondicional”, “o universal”, “o infinito”, e falamos da pre ocupação última, incondicional, total e infinita. Sem dúvida, em cada 2 Marcos 12.29. 3 Salmo 139. preocupação há algo pelo que se está preocupado, mas este algo não deveria aparecer como um objeto separado que pudesse ser conhecido è manipulado sem a preocupação. Este, então, é o primeiro critério formal da teologia: O objeto da teologia é aquilo que nos preocupa deforma última. Só são teológicas aquelas proposições que tratam de seu objeto na medida em que ele pode se tomar questão de preocupação última para nós. O sentido negativo dessa proposição é óbvio. A teologia jamais deveria abandonar o âmbito da preocupação última e tentar desempe nhar um papel na área das preocupações preliminares. A teologia não pode e não deve emitir julgamentos sobre o valor estético de uma cria ção artística, sobre o valor científico de uma teoria física ou de uma interpretação histórica, sobre os melhores métodos de cura médica ou reconstrução social, sobre a solução dos conflitos políticos e internacio nais. O teólogo, enquanto teólogo, não é especialista em nenhum assun to de preocupação preliminar. E, inversamente, os especialistas nesses assuntos não deveriam, enquanto tais, reivindicar que são especialistas em teologia. O primeiro princípio formal da teologia, que guarda a linha divisória entre a preocupação última e as preliminares, protege tanto a teologia quanto os campos culturais do outro lado da linha. Mas esse não é todo seu sentido. Emboranão indique o conteúdo da preocupação última e sua relação com as preocupações preliminares, tem implicações em ambos os aspectos. Há três relações possíveis entre as preocupações preliminares e aquilo que nos preocupa de forma últi ma. A primeira é uma indiferença mútua; a segunda é uma relação em que uma preocupação preliminar é elevada à ultimidade; e a terceira é aquela em que uma preocupação preliminar se toma veículo da preocu pação última sem reivindicar ultimidade para si mesma. A primeira rela ção é predominante na vida cotidiana com sua oscilação entre situações condicionadas, parciais, finitas e experiências e momentos em que a pergunta pelo sentido último da existência se apodera de nós. Essa divi são, contudo, contradiz o caráter incondicional, total e infinito da preo cupação religiosa. Ela coloca nossa preocupação última ao lado de ou tras preocupações e a priva de sua ultimidade. Essa atitude contorna a ultimidade dos mandamentos bíblicos e a do primeiro critério teológico. A segunda relação é idolátrica por sua própria natureza. A idolatria é a elevação de uma preocupação preliminar à ultimidade. Algo essencial mente condicionado é considerado como incondicional, algo essencial mente parcial é elevado à universalidade, e algo essencialmente finito é revestido de significado infinito. (O melhor exemplo é a idolatria con temporânea do nacionalismo religioso). O conflito entre a base finita de tal preocupação e sua reivindicação infinita leva a um conflito de ulti- midades; ele contradiz radicalmente os mandamentos bíblicos e o pri meiro critério teológico. A terceira relação entre a preocupação última e as preocupações preliminares toma estas portadoras e veículos daquela. Aquilo que é preocupação finita não é elevado a significado infinito, nem é colocado ao lado do infinito, mas em e através dele o infinito se toma real. Nada é excluído desta função. Em e através de toda preocu pação preliminar, a preocupação última pode efetivar a si mesma. Toda vez que isso acontece, a preocupação preliminar se toma um objeto pos sível da teologia. Mas a teologia lida com ela só na medida em que é um meio, um veículo, apontando para além de si mesma. Quadros, poemas e música podem se tomar objetos da teologia, não sob o ponto de vista de sua forma estética, mas de sgu poder de expressar, em e através de sua forma estética, alguns aspectos daquilo que nos preocupa de forma última. Percepções físicas, históricas ou psi cológicas podem se converter em objetos da teologia, não sob o ponto de vista de sua forma cognitiva, mas de seu poder de revelar, em e atra vés de sua forma cognitiva, alguns aspectos daquilo que nos preocupa de forma última. Idéias e ações sociais, projetos e procedimentos legais, programas e decisões políticas podem se tomar objetos da teologia, não sob o ponto de vista de sua forma social, legal e política, mas de seu poder de efetivar, em e através de suas formas sociais, legais e políticas, alguns aspectos daquilo que nos preocupa de forma última. Problemas e desenvolvimentos da personalidade, metas e métodos educacionais, saúde corporal e mental podem se converter em objetos da teologia, não sob o ponto de vista de sua forma ética e técnica, mas de seu poder de nos mediar, em e através de sua forma ética e técnica, alguns aspectos da quilo que nos preocupa de forma última. Agora surge a questão: qual é o conteúdo de nossa preocupação última? O que de fato nos preocupa incondicionalmente? A resposta, obviamente, não pode ser um objeto, nem mesmo Deus, pois o primeiro critério da teologia deve permanecer formal e geral. Se devemos dizer algo mais sobre a natureza de nossa preocupação última, temos que de rivá-lo de uma análise do conceito “preocupação última”. Nossa preo cupação última ê aquilo que determina nosso ser ou não-ser. Só são teológicas aquelas afirmações que tratam de seu objeto na medida em que este possa se tom ar para nós uma questão de ser ou não-ser. Este é o segundo critério formal da teologia. Nada que não tenha o poder de ameaçar e salvar nosso ser pode ser para nós de preocupação última. O termo “ser”, neste contexto, não designa existência no tempo e no espaço. A existência é continuamente ameaçada e salva por coisas e eventos que não são de preocupação últi ma para nós. O termo “ser” significa a totalidade da realidade humana, a estrutura, o sentido e a finalidade da existência. Tudo isso está ameaça do; pode ser perdido ou salvo. O ser humano está preocupado de forma última com seu ser e sentido. “Ser ou não ser”, neste sentido, é uma questão de preocupação última, incondicional, total e infinita. O ser humano está infinitamente preocupado pelo infinito ao qual pertence, do qual está separado e pelo qual anseia. O ser humano está totalmente preocupado pela totalidade que é seu verdadeiro ser e que está rompida no tempo e no espaço. O ser humano está incondicionalmente preocupa do por aquilo que condiciona seu ser para além de todos os condiciona mentos que existem nele e ao redor dele. O ser humano está preocupado de forma última por aquilo que determina seu destino último para além de todas as necessidades e acidentes preliminares. O segundo critério formal da teologia não aponta para nenhum conteúdo, símbolo ou doutrina específicas. Ele permanece formal e, con seqüentemente, está aberto a conteúdos que são capazes de expressar “aquilo que determina nosso ser ou não-ser”. Ao mesmo tempo, exclui do domínio teológico conteúdos que não tenham esse poder. Seja um deus concebido como um ser ao lado de outros (mesmo que seja um ser supremo) ou um anjo que habita num reino celeste (chamado o reino dos “espíritos”) ou um ser humano que possui poderes sobrenaturais (mesmo que seja chamado de homem-deus) - nenhum desses é objeto da teologia se não resiste à crítica do segundo critério formal da teolo gia, isto é, se não for para nós uma questão de ser ou não-ser. 5. Teologia e cristianismo A teologia é a interpretação metódica dos conteúdos da fé cristã. Isto está implícito nas afirmações precedentes sobre o círculo teológico e sobre a teologia como função da igreja cristã. Surge agora a pergunta: existe uma teologia fora do cristianismo? Caso existir, a idéia de teolo gia é realizada na teologia cristã de forma plena e final? De fato, é isto que a teologia cristã reivindica. Mas seria esta convicção mais do que uma pretensão, uma expressão natural do fato de que o teólogo trabalha dentro do círculo teológico? Teria a teologia cristã qualquer validez para além da periferia do círculo? E tarefa da teologia apologética provar que a reivindicação cristã tem validez também do ponto de vista daqueles que estão fora do círculo teológico. A teologia apologética deve mostrar que tendências imanentes a todas as religiões e culturas caminham em direção à resposta cristã. E isto se refere tanto às doutrinas quanto à interpretação teológica da teologia. Considerada no sentido mais amplo da palavra, a teologia, o lo- gos ou o raciocinar sobre o theos (Deus e as coisas divinas), é tão antiga como a própria religião. O pensar impregna todas as atividades espiritu ais do ser humano. O ser humano não seria espiritual sem palavras, pen samentos e conceitos. Isso é especialmente verdadeiro na religião, a fun- ção todo-abrangente da vida espiritual do ser humano4. Foi uma inter pretação equivocada da definição schleiermacheriana de religião (“o sen timento de dependência absoluta”) e um sintoma de debilidade religiosa os sucessores de Schleiermacher terem situado a religião como uma fun ção psicológica entre outras, no âmbito do sentimento. Relegar a reli gião ao âmbito não-racional das emoções subjetivas a fim de ter os do mínios do pensamento e da ação livres de interferência religiosa consti tuiu uma forma cômoda de evitar os conflitos entre a tradição religiosa e o pensamento moderno. Mas foi também uma sentença de morte contra a religião, ea religião não a aceitou nem poderia aceitá-la. Todo mito contém um pensamento teológico que pode ser e, de fato, muitas vezes foi, explicitado. Harmonizações sacerdotais de mitos diferentes algumas vezes revelam profundas percepções teológicas. Es peculações místicas, como as do hinduísmo vedanta, unem elevação me ditativa com penetração teológica. Especulações metafísicas, como as da filosofia clássica grega, unem análise racional com visão teológica. Interpretações éticas, legais e rituais da lei divina criam uma forma dis tinta de teologia no âmbito do monoteísmo profético. Tudo isto é “teo logia”, logos do theos, uma interpretação racional da substância religio sa dos ritos, símbolos e mitos. A teologia cristã não é exceção. Ela faz a mesma coisa, mas o faz de uma forma que implica a reivindicação de ser ela a teologia. A base desta reivindicação é a doutrina cristã de que o Logos se tomou carne, de que o princípio da auto-revelação divina se tomou manifesto no evento “Jesus como o Cristo”. Se esta mensagem é verdadeira, a teologia cristã recebeu um fundamento que transcende o fundamento de qualquer ou tra teologia e que não pode ser transcendido. A teologia cristã recebeu algo que é absolutamente concreto e, ao mesmo tempo, absolutamente universal. Nenhum mito, nenhuma visão mística, nenhum princípio metafísico, nenhuma lei sagrada tem a concretude de uma vida pessoal. Em comparação com uma vida pessoal, tudo o mais é relativamente abstrato. E nenhum desses fundamentos relativamente abstratos da teo logia tem a universalidade do Logos, que é ele mesmo o princípio da universalidade. Em comparação com o Logos, tudo o mais é relativa mente particular. A teologia cristã é a teologia na medida em que se baseia na tensão entre o absolutamente concreto e o absolutamente uni versal. Teologias sacerdotais e proféticas podem ser muito concretas, mas carecem de universalidade. Teologias místicas e metafísicas podem ser muito universais, mas carecem de concretude. 4 O termo “espiritual” (com e minúsculo) deve ser nitidamente distinguido de “Espiritual” (com E maiúsculo). Este último se refere às atividades do Espírito divino no ser humano; o primeiro, à natureza dinlmico-criativa da vida pessoal e comunitária. Parece paradoxal afirmar que só aquilo que é absolutamente con creto pode também ser absolutamente universal e vice-versa. Mas isto descreve adequadamente a situação. Algo que é meramente abstrato tem uma universalidade limitada, porque está restrito às realidades das quais foi abstraído. Algo que é meramente particular tem uma concretude li mitada porque, para manter-se como concreto, deve excluir outras reali dades particulares. Só aquilo que tem o poder de representar todo o particular é absolutamente concreto. E só aquilo que tem o poder de representar todo o abstrato é absolutamente universal. Isto leva a um ponto onde o absolutamente concreto e o absolutamente universal são idênticos. E este é o ponto onde emerge a teologia cristã, o ponto que se descreveu como o “Logos que se tomou carne”5. A doutrina do Logos como doutrina da identidade do absolutamente concreto com o absolu tamente universal não é uma doutrina teológica entre outras. É o único fundamento possível de uma teologia cristã que reivindica ser a teolo gia. Não é necessário chamar o absolutamente universal de logos. Ou tras palavras, derivadas de outras tradições, poderiam substituí-lo. O mesmo é verdadeiro do termo “came” com suas conotações helenísti- cas. Mas é necessário aceitar a visão do cristianismo primitivo de que, se Jesus é chamado o Cristo, deve representar tudo o que é particular e deve ser o ponto de identidade entre o absolutamente concreto e o abso lutamente universal. Na medida em que ele é absolutamente concreto, a relação com ele pode constituir uma preocupação completamente exis tencial. Na medida em que ele é absolutamente universal, a relação com ele inclui potencialmente todas as relações possíveis e pode, portanto, ser incondicional e infinita. A referência bíblica a um desses aspectos é encontrada nas cartas de Paulo, quando ele fala do “estar em Cristo”6. Não podemos estar em nada particular, por causa da auto-reclusão do particular frente ao particular. Só podemos estar no que é absolutamente concreto e, ao mesmo tempo, absolutamente universal. A referência bí blica a este outro aspecto também encontramos nos escritos de Paulo, quando ele fala da sujeição dos poderes cósmicos a Cristo7. Só aquilo que é absolutamente universal e, ao mesmo tempo, absolutamente con creto pode vencer o pluralismo cósmico. Não foi um interesse cosmológico (Hamack), mas uma questão 5 A doutrina do Logos é mal compreendida se a tensão entre universal e concreto for interpre tada como uma tensão entre abstrato e particular. A abstração nega partes daquilo do qual é abstração. A universalidade inclui cada parte, porque inclui concretude. A particularidade exclui cada particular de todo outro particular. A concretude representa todo outro concre to, porque inclui universalidade. A teologia cristã se move entre os pólos do universal e do concreto e não entre os de abstrato e particular. 6 2 Corfntios 5.17. 7 Romanos 8. de vida e morte para a igreja primitiva que a levou a utilizar a doutrina estóico-filônica do logos para expressar o sentido universal do evento “Jesus, o Cristo”. Ao fazê-lo, a igreja anunciou sua fé na vitória do Cris to sobre os poderes demoníaco-naturais que constituem o politeísmo e impedem a salvação. Por esta razão, a igreja lutou desesperadamente contra a tentativa ariana de tomar o Cristo um dos poderes cósmicos, ainda que fosse o mais alto, privando-o tanto de sua universalidade ab soluta (ele é menos do que Deus) quanto de sua concretude absoluta (ele é mais do que o ser humano). O Jesus semideus da teologia ariana não é nem suficientemente universal nem suficientemente concreto para ser a base da teologia cristã. É óbvio que estes argumentos não provam a afirmação de fé de que, em Jesus Cristo, o Logos se tomou carne. Mas eles mostram que, se esta afirmação for aceita, a teologia cristã tem um fundamento que trans cende infinitamente os fundamentos de tudo que, na história da religião, poderia ser chamado de “teologia”. 6. Teologia e filosofia - uma pergunta A teologia reivindica constituir um campo especial de conheci mento, lidar com um objeto especial e empregar um método especial. Estas reivindicações colocam o teólogo sob a obrigação de prestar conta da forma em que relaciona a teologia com outras modalidades de conhe cimento. Ele deve responder a duas perguntas: qual é a relação da teolo gia com as ciências especiais (Wissenschaften) e qual é sua relação com a filosofia? A primeira pergunta foi respondida implicitamente pela afir mação anterior dos critérios formais da teologia. Se nada daquilo que não nos preocupa de forma última é objeto da teologia, a teologia não está interessada, como tal, nos processos e resultados científicos, e vice- versa. A teologia não tem o direito nem a obrigação de prejulgar uma investigação física ou histórica, sociológica ou psicológica. E nenhum resultado desta investigação pode ser diretamente benéfico ou desastro so para a teologia. O ponto de contato entre investigação científica e teologia está no elemento filosófico de ambas, as ciências e a teologia. Portanto, a questão da relação da teologia com as ciências especiais se funde com a questão da relação entre teologia e filosofia. A dificuldade desta questão está em parte no fato de não existir uma definição de filosofia aceita de forma geral. Toda filosofia propõe uma definição que concorda com o interesse, propósito e método do filósofo. Sob tais circunstâncias, o teólogo pode sugerir uma definição de filosofia que seja suficientemente ampla para abarcar a maioria das filosofias importantes que apareceram naquilo que normalmente se cha ma de história da filosofia. A sugestãoque fazemos aqui é chamar de filosofia aquela abordagem cognitiva da realidade na qual a realidade como tal é o objeto. A realidade como tal, ou a realidade como um todo, não é toda a realidade; é a estrutura que toma a realidade um todo e, portanto, um objeto potencial de conhecimento. A investigação da natu reza da realidade como tal significa investigar aquelas estruturas, cate gorias e conceitos que são pressupostos no encontro cognitivo com cada setor da realidade. Deste ponto de vista, a filosofia é por definição críti ca. Ela separa os múltiplos materiais da experiência daquelas estruturas que tomam possível a experiência. Não há diferença, neste sentido, en tre um idealismo construtivo e um realismo empírico. A pergunta refe rente ao caráter das estruturas gerais que tomam possível a experiência é sempre a mesma. Ela é a pergunta filosófica. Esta definição crítica de filosofia é mais modesta do que aqueles empreendimentos filosóficos que tentam apresentar um sistema com pleto da realidade, incluindo os resultados de todas as ciências especi ais, bem como as estruturas gerais da experiência pré-científica. Tal ten tativa pode ser feita partindo de “cima” ou de “baixo”. Hegel trabalhou desde “cima” quando preencheu as formas categoriais, desenvolvidas em sua Lógica, com o material disponível do conhecimento científico de seu tempo e ajustou o material às categorias. Wundt trabalhou desde “baixo” quando abstraiu princípios gerais e metafísicos do material ci entífico disponível de seu tempo, com a ajuda dos quais pôde organizar a totalidade do conhecimento empírico. Aristóteles trabalhou desde “cima” e desde “baixo” quando realizou estudos metafísicos e científi cos em interdependência. Este era também o ideal de Leibniz quando esboçou um cálculo universal capaz de sujeitar toda a realidade à análi se e à síntese matemática. Mas todos estes casos evidenciaram os limi tes da mente humana, a finitude que a impede de compreender o todo. Mal o sistema havia sido concluído, a pesquisa científica rompia suas fronteiras e o rompia em todas as direções. Só ficaram os princípios ge rais, sempre discutidos, questionados, mudados, mas jamais destruídos. Eles brilham através dos séculos, reinterpretados por cada geração, ine xauríveis, nunca antiquados ou obsoletos. Estes princípios são o material da filosofia. Esta compreensão de filosofia é, por outro lado, menos modesta do que a tentativa de reduzir a filosofia à epistemologia e à ética, meta do neokantismo e escolas afins no século 19. E é menos modesta tam bém do que a tentativa de reduzi-la ao cálculo lógico, meta do positivis mo lógico e escolas afins no século 20. Ambas as tentativas de evitar a questão ontológica fracassaram. Os seguidores posteriores da filosofia neokantiana reconheceram que toda epistemologia contém uma ontolo gia implícita. Não pode ser diferente. Já que o conhecer é um ato que participa do ser ou, mais precisamente, de uma “relação ôntica”, toda análise do ato de conhecer deve se referir a uma interpretação do ser (cf. Nicolai Hartmann). Ao mesmo tempo, o problema dos valores apontava para um fundamento ontológico da validade dos juízos de valor. Se os valores não têm um fundamentum in re (cf. a identificação que Platão fez do bem com as estruturas essenciais, as idéias do ser), eles flutuam no ar de uma validez transcendente ou se sujeitam a testes pragmáticos que são arbitrários e acidentais, a menos que introduzam sub-repticia- mente uma ontologia de essências. Não é necessário discutir a linha prag- mático-naturalista do pensamento filosófico. Pois, apesar das afirmações antimetafísicas de alguns de seus adeptos, ela se expressou em termos decididamente ontológicos tais como vida, crescimento, processo, expe riência, ser (entendido em um sentido todo-abrangente), etc. Mas é necessário comparar a definição ontológica de filosofia, sugerida acima, com as tentativas radicais de reduzir a filosofia à lógica científica. A questão é saber se a eliminação de quase todos os proble mas filosóficos tradicionais pelo positivismo lógico é uma maneira exi- tosa de evitar a ontologia. Tem-se, como primeira reação, a impressão de que tal atitude paga um preço demasiadamente alto: toma a filosofia irrelevante. Mas, além desta impressão, pode-se apresentar o seguinte argumento: se a restrição da filosofia à lógica das ciências é uma ques tão de gosto, não é preciso levá-la a sério. Se está baseada em uma aná lise dos limites do conhecimento humano, está baseada, como toda epis- temologia, em afirmações ontológicas. Sempre há, pelo menos, um pro blema a respeito do qual o positivismo lógico, como todas as filosofias semânticas, deve tomar uma decisão. Qual é a relação de sinais, símbo los ou operações lógicas com a realidade? Toda resposta a esta pergunta diz algo sobre a estrutura do ser. É ontológica. E uma filosofia que é tão radicalmente crítica de todas as outras filosofias deveria ser suficiente mente autocrítica para ver e revelar suas próprias pressuposições onto lógicas. A filosofia levanta a pergunta pela realidade como um todo; ela pergunta pela estrutura do ser. E responde em termos de categorias, leis estruturais e conceitos universais. Ela deve responder em termos onto lógicos. A ontologia não é uma tentativa especulativa e fantástica de estabelecer um mundo por trás do mundo; ela é uma análise daquelas estruturas do ser com as quais nos deparamos em todo encontro com a realidade. Este era também o sentido original de metafísica. Mas a pre posição meta tem agora a irremediável conotação de designar uma dupli cação deste mundo por uma ordem transcendente de seres. Portanto, tal vez seja menos desorientador falar de ontologia em vez de metafísica. A filosofia levanta necessariamente a questão da realidade como um todo, a questão da estrutura do ser. A teologia suscita necessaria mente a mesma pergunta, pois aquilo que nos preocupa de forma última deve pertencer à realidade como um todo; deve pertencer ao ser. Caso contrário, não poderíamos encontrá-lo e não poderia nos concernir. Sem dúvida, não pode ser um ser entre outros. Neste caso, não nos preocupa ria infinitamente. Deve ser o fundamento de nosso ser, aquilo que deter mina nosso ser ou não-ser, o poder último e incondicional do ser. Mas o poder de ser, seu fundamento infinito ou “ser-em-si”, expressa-se a si mesmo em e através da estrutura do ser. Portanto, podemos nos encon trar com ele, ser possuídos por ele, conhecê-lo e caminhar em direção a ele. A teologia, ao lidar com nossa preocupação última, pressupõe, em toda sentença, a estrutura do ser, suas categorias, leis e conceitos. A teologia, portanto, não pode evitar a questão do ser com mais facilidade do que o pode a filosofia. A tentativa do biblicismo de evitar termos não-bíblicos, ontológicos, está condenada ao fracasso com tanta certeza quanto as tentativas filosóficas correspondentes. A própria Bíblia usa constantemente categorias e conceitos que descrevem a estrutura da ex periência. Em cada página de cada texto religioso ou teológico, apare cem os conceitos de tempo, espaço, causa, coisa, sujeito, natureza, mo vimento, liberdade, necessidade, vida, valor, conhecimento, experiên cia, ser e não-ser. O biblicismo pode tentar preservar o sentido popular destes conceitos, mas então deixa de ser teologia. Ele é forçado a igno rar o fato de que uma compreensão filosófica destas categorias influen ciou a linguagem ordinária por muitos séculos. É surpreendente a des preocupação com que biblicistas teológicos usam um termo como “his tória” quando falam do cristianismo como uma religião histórica ou de Deus como o “Senhor da história”. Eles esquecem que o sentido que conferem à palavra “história” foi formado por milhares de anos de his toriografia e filosofia da história. Esquecem que o ser histórico é um tipo de ser ao lado de outros e que, para distingui-lo da palavra “nature za”,por exemplo, pressupõe-se uma visão geral da estrutura do ser. Eles esquecem que o problema da história está ligado aos problemas de tem po, liberdade, acidente, propósito, etc., e que cada um desses conceitos teve um desenvolvimento semelhante ao conceito de história. O teólogo deve considerar seriamente o sentido dos termos que emprega. Eles lhe devem ser conhecidos em toda a profundidade e amplitude de seu senti do. Por isso, o teólogo sistemático deve ser um filósofo na compreensão crítica, mesmo que não o seja em poder criativo. A estrutura do ser e as categorias e conceitos que descrevem essa estrutura constituem uma preocupação implícita ou explícita de todo filósofo e de todo teólogo. Nem um nem outro podem evitar a questão ontológica. Tentativas de ambos os lados no sentido de evitá-la fracas saram. Se esta é a situação, toma-se mais urgente a pergunta: qual é a relação entre a questão ontológica suscitada pelo filósofo e a questão ontológica suscitada pelo teólogo? 7. Teologia e filosofia - uma resposta A filosofia e a teologia formulam a pergunta pelo ser. Mas elas o fazem a partir de perspectivas diferentes. A filosofia lida com a estrutu ra do ser em si mesmo; a teologia lida com o sentido do ser para nós. Desta diferença surgem tendências convergentes e divergentes na rela ção entre teologia e filosofia. O primeiro ponto de divergência é a diferença na atitude cogniti va do filósofo e do teólogo. Embora conduzido pelo eros filosófico, o filósofo tenta manter uma objetividade distanciada em relação ao ser e suas estruturas. Ele tenta excluir condições pessoais, sociais e históricas que possam distorcer uma visão objetiva da realidade. Sua paixão é a paixão por uma verdade aberta à abordagem geral, sujeita à crítica ge ral, mutável de acordo com toda intuição nova, aberta e comunicável. Em todos estes aspectos, ele não se sente diferente do cientista, historia dor, psicólogo, etc. Colabora com eles. O material para sua análise críti ca é amplamente fornecido pela pesquisa empírica. Assim como todas as ciências têm sua origem na filosofia, assim também elas contribuem por sua vez com a filosofia, proporcionando aos filósofos material novo e definido com exatidão, o que é muito mais do que se poderia conse guir de um estudo pré-científico da realidade. Sem dúvida, o filósofo, como filósofo, não critica nem aumenta o conhecimento fornecido pelas ciências. Este conhecimento forma a base de sua descrição das categorias, leis estruturais e conceitos que constituem a estrutura do ser. Neste sen tido, o filósofo é tão dependente do cientista quanto o é de sua própria observação pré-científica da realidade. Às vezes é ainda mais dependente. Esta relação com as ciências (no sentido amplo de Wissenschaften) re força a atitude distanciada e objetiva do filósofo. Mesmo no aspecto intui- tivo-sintético de seu procedimento, ele tenta eliminar as influências que não são puramente determinadas por seu objeto8. O teólogo, ao contrário, não se encontra distanciado de seu obje to, mas envolvido com ele. Ele olha para seu objeto (que transcende o caráter de objeto) com paixão, temor e amor. Este não é o eros do filóso fo ou sua paixão pela verdade objetiva; é o amor que aceita a verdade salvadora e, portanto, pessoal. A atitude básica do teólogo é de compro metimento com o conteúdo que expõe. O seu distanciamento significa ria a negação da própria natureza deste conteúdo. A atitude do teólogo é “existencial” . Ele está envolvido com a totalidade de sua existência, com sua finitude e sua angústia, com suas autocontradições e seu de sespero, com as forças terapêuticas que atuam nele e em sua situação 8 Deste ponto de vista, o conceito de uma “fé filosófica” parece questionável (veja Karl JASPERS, The Perennial Scope o f Philosophy, New York: Philosophical Library, 1949). social. Toda afirmação teológica deriva sua seriedade desses elementos da existência. O teólogo, em resumo, é determinado por sua fé. Toda teologia pressupõe que o teólogo se encontra no círculo teológico. Isso contradiz o caráter aberto, infinito e mutável da verdade filosófica. Di fere também da forma na qual o filósofo é dependente da pesquisa cien tífica. O teólogo não tem relação direta com o cientista (incluindo o historiador, sociólogo, psicólogo). Lida com ele só na medida em que estão em jogo implicações filosóficas. Se ele abandona a atitude exis tencial, como o fizeram alguns teólogos “empíricos”, será levado a afir mações cuja realidade não será reconhecida por ninguém que não parti cipe das pressuposições existenciais do teólogo pretensamente empíri co. A teologia é necessariamente existencial, e nenhuma teologia pode escapar do círculo teológico. O segundo ponto de divergência entre o teólogo e o filósofo é a diferença em suas fontes. O filósofo olha a totalidade da realidade para descobrir dentro dela a estrutura da realidade como um todo. Ele tenta penetrar nas estruturas do ser por meio do poder e das estruturas de sua função cognitiva. Ele supõe - e a ciência confirma continuamente esta suposição - que existe uma identidade ou, pelo menos, uma analogia entre razão objetiva e subjetiva, entre o logos da realidade como um todo e o logos atuando dentro dele. Portanto, este logos é comum; todo ser racional participa nele, usa-o ao formular perguntas e criticar as res postas recebidas. Não há um lugar especial onde descobrir a estrutura do ser; não há um lugar privilegiado onde descobrir as categorias da experiência. O lugar para onde olhar está em qualquer lugar; o lugar de onde olhar não é lugar algum. E a razão pura. O teólogo, por seu lado, deve descobrir onde se manifesta aquilo que o preocupa de forma última e deve ficar onde sua manifestação o alcança e possui. A fonte de seu conhecimento não é o logos universal, mas o Logos “que se tomou carne”, isto é, o logos que se manifesta num evento histórico específico. E o meio através do qual ele recebe a mani festação do logos não é a racionalidade comum, mas a igreja, suas tradi ções e sua realidade presente. Ele fala na igreja sobre o fundamento da igreja. E fala porque está possuído pelo poder deste fundamento e pela comunidade edificada sobre ele. O logos concreto que ele vê é recebido através de um comprometimento de fé e não, como o logos universal para o qual olha o filósofo, através de um distanciamento racional. O terceiro ponto de divergência entre a filosofia e a teologia é a diferença em seu conteúdo. Mesmo quando falam do mesmo objeto, falam sobre algo diferente. O filósofo trata das categorias do ser em relação com o material estruturado por elas. Ele trata da causalidade tal como esta aparece na física ou na psicologia; analisa o tempo biológico ou histórico; discorre sobre o espaço astronômico e o microcósmico. Ele descreve o sujeito epistemológico e a relação entre pessoa e comu nidade. Apresenta as características da vida e do espírito em sua depen dência recíproca e em sua independência mútua. Ele define a natureza e a história em seus limites mútuos e tenta penetrar na ontologia e lógica do ser e não-ser. Inumeráveis outros exemplos poderiam ser dados. To dos eles refletem a estrutura cosmológica das afirmações filosóficas. O teólogo, por outro lado, relaciona as mesmas categorias e conceitos à pergunta por um “novo ser”. Suas afirmações têm caráter soteriológico. Ele discute a causalidade em relação com uma prima causa, o funda mento da série total de causas e efeitos; lida com o tempo em relação à eternidade, com o espaço em relação ao exílio existencial do ser huma no. Ele fala da auto-alienação do sujeito, do centro espiritual da vida pessoal e da comunidade como uma possível incorporação do “Novo Ser”. Relaciona as estruturas da vida com o fundamento criativo da vida e as estruturas do espírito com o Espírito divino. Ele fala da participação da natureza na “história da salvação”, da vitória do ser sobre o não-ser. Tambémaqui os exemplos poderiam ser multiplicados indefinidamen te. Eles mostram a nítida divergência entre a teologia e a filosofia no tocante a seu conteúdo. A divergência entre filosofia e teologia é contrabalançada por uma convergência igualmente óbvia. De ambos os lados atuam tendências convergentes. O filósofo, como o teólogo, “existe” e não pode se desfa zer da concretude de sua existência e de sua teologia implícita. Ele está condicionado por sua situação psicológica, sociológica e histórica. E, como todo ser humano, está sujeito ao poder de uma preocupação últi ma, esteja plenamente consciente disso ou não, admita isso para si mes mo e para os outros ou não. Não há motivo por que mesmo o mais cien tífico dos filósofos não devesse admiti-lo, pois sem uma preocupação última sua filosofia careceria de paixão, seriedade e criatividade. Para onde quer que olhemos na história da filosofia, encontramos idéias e sistemas que reivindicam ser relevantes num sentido último para a exis tência humana. Ocasionalmente, a filosofia da religião expressa aberta mente a preocupação última que está por trás de um sistema. Com mais freqüência, é o caráter dos princípios ontológicos ou uma seção especial de um sistema, como a epistemologia, a filosofia da natureza, da políti ca e da ética, a filosofia da história, etc., que melhor nos revela a preocu pação última e a teologia subjacente ao sistema. Todo filósofo criativo é um teólogo latente (às vezes, inclusive um teólogo declarado). É um teólogo na medida em que sua situação existencial e sua preocupação última moldam sua visão filosófica. E um teólogo na medida em que sua intuição do logos universal da estrutura da realidade como um todo é formada por um logos particular que aparece a ele em seu lugar particu lar e lhe revela o sentido da totalidade. É um teólogo na medida em que o logos particular é uma questão de comprometimento ativo dentro de uma comunidade especial. É raro encontrar um filósofo importante his toricamente que não mostre essas marcas de um teólogo. Mas o filósofo não pretende ser um teólogo. Ele quer servir ao logos universal. Tenta afastar-se de sua situação existencial, incluindo sua preocupação últi ma, rumo a um lugar acima de todos os lugares particulares, em direção à pura realidade. O conflito entre a intenção de tomar-se universal e o destino de permanecer particular caracteriza toda existência filosófica. Este é seu fardo e sua grandeza. O teólogo carrega um fardo análogo. Em vez de se afastar de sua situação existencial, incluindo sua preocupação última, ele se volta para ela. E o faz, não para fazer uma confissão da mesma, mas para tomar clara a validez universal, a estrutura de logos daquilo que o preocupa de forma última. E só pode fazer isso em uma atitude de distanciamento de sua situação existencial e em obediência ao logos universal. Isso o obri ga a ser crítico com relação a toda expressão especial de sua preocupa ção última. Ele não pode afirmar nenhuma tradição e nenhuma autorida de exceto através de um “Não” e de um “Sim”. E sempre é possível que não consiga percorrer o longo caminho que vai do “Não” ao “Sim”. Ele não pode unir-se ao coro daqueles que vivem em afirmações ininterrup tas. Deve assumir o risco de ser levado além da linha divisória do círcu lo teológico. Por isso, os piedosos e poderosos da igreja suspeitam dele, embora vivam na dependência do trabalho de teólogos anteriores que se encontravam na mesma situação. A teologia, já que serve não só ao lo gos concreto, mas também ao universal, pode se tomar uma pedra de tropeço para a igreja e uma tentação demoníaca para o teólogo. O dis tanciamento exigido num trabalho teológico honesto pode destruir o envolvimento necessário da fé. Esta tensão é o fardo e a grandeza de todo trabalho teológico. A dualidade de divergência e convergência na relação entre teo logia e filosofia conduz a uma dupla questão: há um conflito inevitável entre as duas e há uma síntese possível entre elas? Ambas as respostas devem ser negativas. Não existe um conflito inevitável entre filosofia e teologia, nem é possível uma síntese entre elas. Um conflito pressupõe uma base comum sobre a qual se possa contender. Mas não existe uma base comum entre teologia e filosofia. Se o filósofo e o teólogo travam um combate, eles o fazem ou sobre uma base filosófica ou teológica. A base filosófica é a análise ontológica da estrutura do ser. Se o teólogo necessita desta análise, deve ou recebê-la do filósofo ou ele próprio deve se converter em filósofo. Normalmente ele faz ambas as coisas. Se pisar na arena filosófica, são inevitáveis conflitos assim como alianças com outros filósofos. Mas tudo isso acon tece em um plano filosófico. O teólogo não tem o direito de argumentar a favor de uma opinião filosófica em nome de sua preocupação última ou à base do círculo teológico. Ele está obrigado a argumentar a favor de uma decisão filosófica em nome do logos universal e do lugar que não é lugar: a razão pura. É uma vergonha para o teólogo e é intolerável para o filósofo se, numa discussão filosófica, o teólogo de repente rei vindica uma autoridade que não seja a razão pura. Conflitos em nível filosófico são conflitos entre dois filósofos, um dos quais casualmente é um teólogo. Mas não são conflitos entre teologia e filosofia. Contudo, muitas vezes o conflito é travado no plano teológico. O teólogo latente no filósofo luta contra o teólogo professo. Esta situação é mais freqüente do que imagina a maioria dos filósofos. Já que desen volveram seus conceitos com a sincera intenção de obedecer ao logos universal, eles relutam em reconhecer os elementos condicionados exis- tencialmente em seus sistemas. Crêem que esses elementos, ao mesmo tempo em que dão cor e norte a seu trabalho criativo, diminuem seu valor de verdade. Nesta situação, o teólogo deve romper a resistência do filósofo contra a análise teológica de suas idéias. Ele pode fazer isso recorrendo à história da filosofia. Esta revela que, em todo filósofo de importância, a paixão existencial (preocupação última) e o poder racio nal (obediência ao logos universal) estão unidos e que o valor de verda de de uma filosofia depende da amalgamação desses dois elementos em cada conceito. A compreensão dessa situação é, ao mesmo tempo, a compreensão do fato de que dois filósofos, um dos quais casualmente é um teólogo, podem lutar um com o outro e que dois teólogos, um dos quais é casualmente um filósofo, podem lutar um contra o outro. Mas não há conflito possível entre teologia e filosofia, porque não há base comum para tal conflito. O filósofo pode ou não convencer o filósofo- teólogo. E o teólogo pode ou não converter o teólogo-filósofo. Em ne nhum dos casos, o teólogo como tal se opõe ao filósofo como tal, e vice- versa. Assim, não há conflito entre teologia e filosofia, e tampouco há síntese - exatamente pela mesma razão que assegura não haver conflito. Falta uma base comum. A idéia de uma síntese entre teologia e filosofia levou ao sonho de uma “filosofia cristã”. O termo é ambíguo. Ele pode significar uma filosofia cuja base existencial é o cristianismo histórico. Neste sentido, toda a filosofia moderna é cristã, mesmo que seja huma nista, ateísta e intencionalmente anticristã. Nenhum filósofo que vive dentro da cultura ocidental cristã pode negar sua dependência dela. Igual mente nenhum filósofo grego poderia ter ocultado sua dependência da cultura apolíneo-dionisíaca, mesmo que fosse um crítico radical dos deuses de Homero. A visão moderna da realidade e sua análise filosófi ca diferem das dos tempos pré-cristãos, estejamos ou não determinados existencialmente pelo Deus do Monte Sião e pelo Cristo do Monte Gól- gota. Nosso encontro com a realidade agora é distinto; a experiência tem dimensões e direções diferentes daquelas do clima cultural da Gré cia. Ninguém é capaz de sair deste círculo “mágico”. Nietzsche, que tentoufazê-lo, anunciou a vinda do Anticristo. Mas o Anticristo é de pendente do Cristo contra o qual ele se levanta. Os primitivos gregos, por cuja cultura Nietzsche ansiava, não tiveram que combater o Cristo. De fato, eles prepararam inconscientemente sua vinda ao elaborar as questões às quais ele deu a resposta e as categorias nas quais a resposta podia ser expressa. A filosofia moderna não é pagã. O ateísmo e o anti- cristianismo não são pagãos. Eles são anticristãos em termos cristãos. As marcas da tradição cristã não podem ser deletadas; elas são um cha- racter indelebilis [“caráter indelével”]. Mesmo o paganismo do nazis mo não foi, na verdade, um retomo ao paganismo (assim como a besti alidade não é uma volta à condição de besta). Mas o termo “filosofia cristã” freqüentemente é empregado num sentido diferente. Ele é usado para denotar uma filosofia que não olha para o logos universal, mas para as exigências pretensas ou efetivas de uma teologia cristã. Isso pode ser feito de duas maneiras: ou as autorida des eclesiásticas ou seus intérpretes teológicos designam um dos filóso fos passados como sendo seu “santo filósofo” ou exigem que os filóso fos contemporâneos desenvolvam uma filosofia sob condições especi ais e com uma finalidade especial. Em ambos os casos, o eros filosófico é destruído. Se Tomás de Aquino é oficialmente designado o filósofo da Igreja Católica Romana, ele deixa de ser um parceiro genuíno dos filó sofos católicos no diálogo que atravessa os séculos. E se os filósofos protestantes da atualidade são solicitados a aceitar o ideal de personali dade como seu princípio ontológico mais elevado, porque é o mais con forme com o espírito da Reforma, o trabalho desses filósofos fica muti lado. Não há nada no céu e na terra, ou além deles, a que o filósofo deva se sujeitar exceto ao logos universal do ser tal como se apresenta a ele na experiência. Por isso, a idéia de uma “filosofia cristã” no sentido mais estreito de uma filosofia que é intencionalmente cristã deve ser rejeitada. O fato de toda filosofia moderna ter nascido em solo cristão e mostrar traços da cultura cristã na qual vive não tem nada a ver com o ideal autocontraditório de uma “filosofia cristã”. O cristianismo não necessita de uma “filosofia cristã” no sentido mais estreito do termo. A reivindicação cristã de que o logos que se tomou concreto em Jesus como o Cristo é, ao mesmo tempo, o logos universal inclui a reivindicação de que, onde quer que o logos esteja atuando, ele concorda com a mensagem cristã. Nenhuma filosofia que é fiel ao logos universal poderia contradizer o logos concreto, o Logos “que se tomou carne”. C. A organização da teologia A teologia é a explanação metódica dos conteúdos da fé cristã. Esta definição é válida para todas as disciplinas teológicas. Portanto, seria uma infelicidade chamar tão-somente a teologia sistemática de “te ologia”. A exegese e a homilética são tão teológicas quanto a sistemáti ca. E a sistemática pode deixar de ser teológica tão rapidamente como as demais. O critério de qualquer disciplina teológica é se ela lida com a mensagem cristã como sendo questão de preocupação última ou não. A tensão entre os pólos concreto e universal na fé cristã leva à divisão da tarefa teológica em grupos de disciplinas históricas e cons trutivas. Isto está prenunciado na divisão do Novo Testamento em evan gelhos (incluindo os Atos dos Apóstolos) e epístolas. É significativo notar, contudo, que no Quarto Evangelho há uma completa amalgama- ção dos elementos históricos e construtivos. Isso aponta para o fato de que, na mensagem cristã, a história é teológica e a teologia é histórica. Contudo, razões práticas tomam inevitável a divisão em disciplinas histó ricas e construtivas, já que cada uma delas tem um aspecto não teológico distinto. A teologia histórica inclui pesquisa histórica; a teologia sistemá tica inclui discussão filosófica. O historiador e o filósofo, ambos mem bros da faculdade de teologia, devem unir-se na tarefa teológica de inter pretar a mensagem cristã, cada um com seu respectivo instrumental cog nitivo. Mas algo mais está envolvido na sua cooperação. A cada passo de seu trabalho, o historiador da teologia pressupõe um ponto de vista siste mático; caso contrário, ele seria um historiador da religião, não um his toriador da teologia. Esta imanência mútua dos elementos histórico e construtivo representa uma marca decisiva da teologia cristã. A teologia histórica pode ser subdividida em disciplinas bíblicas, história da igreja e história da religião e da cultura. Os teólogos biblicis- tas tendem a conceder somente ao primeiro grupo a plena categoria teo lógica, bem como a negá-la completamente ao terceiro grupo. O próprio Barth considera a história da igreja apenas como Hilfswissenschaft (uma ciência auxiliar). Isso, sem dúvida, é uma afirmação teológico-sistemá- tica que, vista à luz de princípios críticos, é errônea, pois os três grupos conjugam um elemento não-teológico com um elemento teológico. Há muita investigação não-teológica nas disciplinas bíblicas. Pode haver uma interpretação radicalmente teológica da história da religião e da cultura sob o ponto de vista de nossa preocupação última. E ambas as afirmações valem para a história da igreja. Apesar do significado básico das disciplinas bíblicas, não é justo excluir os dois outros grupos da categoria de plenamente teológicos. Isto é confirmado pelo fato de os três grupos serem amplamente interdependentes. Em certo sentido, a literatura bíblica é uma seção não só da história da igreja, como também da história da religião e da cultura. A influência de religiões e culturas não bíblicas sobre a Bíblia e a história da igreja é demasiadamente ób via para que possamos negá-la (cf., por exemplo, o período intertesta- mentário). O critério para que uma disciplina seja ou não teológica não é sua origem pretensamente sobrenatural, mas seu significado para a interpretação de nossa preocupação última. A teologia sistemática é mais difícil de ser organizada do que a teologia histórica. Questões que têm a ver com verdade e conveniência devem ser respondidas antes que seja possível uma organização adequa da. O primeiro problema é criado pelo fato de que a seção sobre a “teo logia natural” na tradição clássica foi substituída (definitivamente des de Schleiermacher) por uma filosofia da religião autônoma e geral. Mas enquanto a teologia natural era, por assim dizer, um preâmbulo à teolo gia da revelação, desenvolvida em vista desta última e sob seu controle, a filosofia da religião é uma disciplina filosófica independente. Ou, mais exatamente, a filosofiada religião é uma parte dependente de uma tota lidade filosófica e de forma alguma constitui uma disciplina teológica. Schleiermacher estava consciente desta situação e falava sobre proposi ções tomadas de empréstimo da “ética” pela teologia9 - ética significan do para ele filosofia da cultura. Mas Schleiermacher não respondeu à pergunta pela relação desta verdade filosófica “emprestada” com a ver dade teológica. Se a verdade filosófica está situada do lado de fora do círculo teológico, como ela pode determinar o método teológico? E se está dentro do círculo teológico, ela não é autônoma, e a teologia não necessita tomá-la de empréstimo. Este problema preocupou todos aque les teólogos modernos que não aderiram à teologia natural pré-crítica tradicional (como o fizeram os católicos e protestantes ortodoxos), nem rejeitaram a teologia natural ou a filosofia da religião, afirmando exclu sivamente uma teologia da revelação (como os teólogos neo-ortodoxos o fizeram). A solução que embasa o presente sistema e que é plenamente ex plicada apenas mediante o sistema todo aceita a crítica filosófica e teo lógica da teologia natural em seu sentido tradicional. Ela aceita também a crítica neo-ortodoxa de uma filosofia geral da religião como base da teologia sistemática.Ao mesmo tempo, tenta fazer justiça aos motivos teológicos que estão por trás da teologia natural e da filosofia da reli gião. Ela introduz o elemento filosófico dentro da estrutura do próprio sistema, usando-o como o material a partir do qual formula suas pergun tas. As perguntas são respondidas pelos conceitos teológicos. O proble 9 Friedrich SCHLEIERMACHER, The Christian Faith, trad. H. R. Mackintosh, Edinburgh: T & T . Clark, 1928, p. 5ss. ma “teologia natural ou filosofia da religião?” é respondido por um ter ceiro caminho: o “método de correlação” (veja adiante, p. 74). Para a organização da teologia sistemática, isso significa que nenhuma disci plina especial chamada “filosofia da religião” pertence ao âmbito da teologia sistemática. Esta decisão não significa, contudo, que os proble mas incluídos atualmente naquilo que é chamado de “filosofia da reli gião” não mereçam uma consideração no currículo teológico. O segundo problema da organização da teologia sistemática é a posição da apologética. Teólogos modernos comumente a identificaram com a filosofia da religião, ao passo que, na teologia tradicional, a seção sobre a teologia natural continha muito material apologético. A exclu são desses dois métodos toma necessária outra solução. Uma contribui ção à solução foi dada na segunda seção deste sistema, ‘Teologia apolo gética e querigma”. Ressalta-se o fato de que a teologia sistemática é a “teologia que responde”. Ela deve responder às perguntas implícitas na situação humana geral e na situação histórica especial. A apologética, portanto, é um elemento onipresente e não uma seção especial da teolo gia sistemática. O “método de correlação” aplicado no presente sistema expressa claramente o caráter decisivo do elemento apologético na teo logia sistemática. Essa solução é igualmente válida para o elemento ético na teolo gia sistemática. Foi apenas no final do período da ortodoxia que, sob a influência da filosofia moderna, a ética foi separada da dogmática. Como resultado positivo, houve um desenvolvimento mais rico da ética teoló gica. Como resultado negativo, apareceu um conflito não solucionado com a ética filosófica. Hoje, embora algumas faculdades de teologia possuam excelentes departamentos de ética cristã, pode-se constatar a tendência de situar novamente a ética teológica dentro da unidade do sistema. Esta tendência foi realçada pela rejeição, por parte do movi mento neo-ortodoxo, de uma ética teológica independente. Uma teolo gia que, como o presente sistema, enfatiza o caráter existencial da teolo gia deve seguir esta tendência até o fim. O elemento ético é um elemen to necessário - e freqüentemente predominante - em toda afirmação teológica. Mesmo proposições tão formais como os princípios críticos apontam para a decisão do indivíduo ético quanto a seu “ser ou não- ser”. As doutrinas da finitude e existência, da ansiedade e culpa têm um caráter simultaneamente ontológico e ético. Nas seções sobre “A igreja” e “O cristão”, o elemento ético (social e pessoal) é predominante. Todos esses exemplos mostram que uma teologia “existencial” implica a ética de tal forma que não é necessária uma seção especial para a ética teoló gica. Razões práticas, contudo, podem justificar a preservação de depar tamentos de ética cristã. O terceiro e mais significativo elemento na teologia sistemática é o elemento dogmático. Durante um longo período, este elemento deu o nome para toda a teologia sistemática. A dogmática é a formulação da tradição doutrinal para nossa situação presente. A palavra “dogmática” enfatiza a importância do dogma formulado e reconhecido oficialmente para o trabalho do teólogo sistemático. E neste sentido a terminologia se justifica, pois o teólogo exerce uma função da igreja dentro da igreja e para a igreja. E a igreja está baseada num fundamento cuja formulação protetora está dada nos credos. Apropria palavra “dogma” originalmen te expressava esta função. Nas comunidades filosóficas gregas tardias, ela designava as doutrinas específicas aceitas como tradição de uma escola específica. Dogmata eram doutrinas filosóficas distintivas. Nes te sentido, a comunidade cristã também teve seus dogmata. Mas a pala vra recebeu um outro sentido na história do pensamento cristão. A fun ção dos credos como proteção contra as heresias destrutivas fez com que sua aceitação fosse para o cristianismo uma questão de vida ou morte. O herege era considerado um inimigo demoníaco da mensagem de Cris to. Com a união completa entre igreja e estado depois de Constantino, as leis doutrinais da igreja se tomaram também leis civis do estado, e o herético foi considerado um criminoso. As conseqüências destrutivas desta situação, as atividades demoníacas dos estados e igrejas, tanto da católica quanto das protestantes, contra a integridade teológica e a auto nomia científica, desacreditaram as palavras “dogma” e “dogmata” a tal ponto que é muito difícil recuperar seu sentido genuíno. Isso não reduz a importância dos dogmata formulados para a teologia sistemática, mas inviabiliza o uso da palavra “dogmática”. “Teologia sistemática”, abran gendo a apologética, a dogmática e a ética, parece ser o termo mais adequado. A organização do labor teológico não está completa sem a inclu são daquilo que é comumente conhecido como “teologia prática” . Em bora Schleiermacher a elogiasse como sendo o coroamento da teologia, ela não é uma terceira parte que se acrescenta às partes histórica e siste mática. Ela é a teoria técnica através da qual estas duas partes são apli cadas à vida da igreja. Uma teoria técnica descreve os meios adequados para alcançar um fim determinado. O fim da teologia prática é a vida da igreja. Enquanto a doutrina da igreja sobre sua natureza e suas funções constitui o objeto da teologia sistemática, a teologia prática trata das instituições através das quais a natureza da igreja se efetiva e suas fun ções são cumpridas. Ela não trata delas desde um ponto de vista históri co, determinando o que foram e continuam sendo na igreja, mas as con sidera a partir de um ponto de vista técnico, perguntando como atuar mais eficazmente. Se o teólogo prático faz um estudo da história do hino protestante, está trabalhando no âmbito da teologia histórica. E se ele escreve um ensaio sobre a função estética da igreja, está trabalhando no âmbito da teologia sistemática. Mas se aplica o material e os princípios adquiridos através de seus estudos históricos ou sistemáticos para fazer sugestões sobre o uso de hinos ou sobre o projeto das construções da igreja, ele está atuando no âmbito da teologia prática. É o ponto de vista técnico que distingue a teologia prática da teórica. Como ocorre em toda atitude cognitiva diante da realidade, também na teologia ocorre uma bifurcação entre o conhecimento puro e o aplicado. E já que para a sen sibilidade moderna, em contraste com a antiga, as ciências puras não têm uma dignidade maior do que as ciências técnicas, a teologia prática não tem um valor menor do que a teologia teórica. Finalmente, assim como há um contínuo intercâmbio de conhecimentos entre a investiga ção pura e a investigação técnica em todos os domínios científicos, da mesma forma a teologia prática e a teórica são interdependentes. Isso também se deduz do caráter existencial da teologia, pois, no estado de preocupação última, desaparece qualquer diferença entre teoria e prática. A organização da teologia prática está implícita na doutrina das funções da igreja. Cada função é uma conseqüência necessária da natu reza da igreja e, portanto, é um fim para o qual os meios institucionais existem, por mais escassamente desenvolvidos que estejam. Cada fun ção necessita de uma disciplina prática para interpretar, criticar e trans formar as instituições existentes e sugerir novas, se for necessário. A própria teologia é uma dessas funções, e sua realização institucional dentro da vida daigreja é uma das muitas preocupações da teologia prática. Assim como a teologia histórica e a sistemática, a teologia prática tem um aspecto não-teológico. Para discutir as expressões institucionais da vida da igreja, o teólogo prático deve usar: (1) nosso conhecimento atual das estruturas psicológicas e sociológicas gerais do ser humano e da sociedade; (2) uma compreensão prática e teórica da situação psico lógica e sociológica de grupos específicos; e (3) um conhecimento das realizações e dos problemas culturais nos âmbitos de seu interesse espe cial: educação, arte, música, medicina, política, economia, ação social, comunicação, etc. Desta forma, a teologia prática pode se tomar uma ponte entre a mensagem cristã e a situação humana, em geral e em espe cífico. Ela pode apresentar novas perguntas ao teólogo sistemático, per guntas que surgem da vida cultural da época. E pode induzir o teólogo sistemático a fazer novas investigações a partir de pontos de vista suge ridos pelas necessidades reais de seus contemporâneos. Ela pode pre servar a igreja do tradicionalismo e do dogmatismo e pode induzir a sociedade a levar a igreja a sério. Mas só pode fazer isso se, em unidade com a teologia histórica e a sistemática, for impulsionada pela preocu pação última, que é, ao mesmo tempo, concreta e universal. D. O m étodo e a estrutura da teologia sistemática 8. As fontes da teologia sistemática Toda reflexão metodológica é abstraída do trabalho cognitivo em que já estamos engajados. A consciência metodológica sempre é poste rior à aplicação de um método; nunca a precede. Este fato muitas vezes foi esquecido em recentes discussões sobre o emprego do método empí rico na teologia. Os adeptos deste método fizeram dele uma espécie de fetiche, esperando que fosse “funcionar” em todos os domínios e tarefas cognitivas. Na verdade, eles haviam encontrado a estrutura básica de sua teologia antes de refletirem sobre o método a ser usado. E o método que preconizavam só poderia ser chamado “empírico” com grande difi culdade e artificialidade. As considerações metodológicas que se se guem descrevem o método efetivamente usado no presente sistema. Já que o método se deriva de uma compreensão prévia do assunto da teolo gia, ou seja, a mensagem cristã, ele antecipa as afirmações decisivas do sistema. Esse é um círculo inevitável. Se o “método de correlação” (nome que sugiro sem ênfase especial) é empírico, construtivo, ou de outro tipo qualquer, carece de importância; basta que ele se revele adequado a seu assunto. Se a tarefa da teologia sistemática é explicar os conteúdos da fé cristã, surgem imediatamente três perguntas: quais são as fontes da teo logia sistemática? Qual é o meio de sua recepção? Qual é a norma que determina o uso das fontes? A primeira resposta a essas perguntas pode ria ser a Bíblia. A Bíblia é o documento original sobre os eventos em que está baseado o cristianismo. Embora isso não possa ser negado, a res posta ainda é insuficiente. Ao estudar o problema das fontes da teologia sistemática, devemos rejeitar a afirmação do biblicismo neo-ortodoxo de que a Bíblia é a única fonte. A mensagem bíblica não pode ser enten dida e não poderia ter sido recebida sem uma preparação da religião e da cultura da humanidade. E a mensagem bíblica não teria sido mensagem para ninguém, incluindo o próprio teólogo, sem a participação experi- encial da igreja e de cada cristão. Se a “Palavra de Deus” ou o “ato da revelação” é considerado a fonte da teologia sistemática, devemos enfa tizar que a “Palavra de Deus” não está limitada às palavras de um livro e que o ato da revelação não se identifica com a “inspiração” de um “livro de revelações”, mesmo que o livro seja o documento da “Palavra de Deus” final, plenitude e critério de todas as revelações. A mensagem bíblica abrange mais (e menos) do que os livros bíblicos. A teologia sistemática, portanto, tem fontes adicionais, além da Bíblia. A Bíblia, contudo, é a fonte básica da teologia sistemática, por que é o documento original sobre os eventos em que a igreja cristã se fundamenta. Se usamos a palavra “documento” para a Bíblia, devemos excluir as conotações legais. A Bíblia não é um registro juridicamente concebido, formulado e selado sobre um “feito” divino em cuja base se decidem reivindicações. O caráter documentário da Bíblia reside no fato de que ela contém o testemunho original daqueles que participaram nos eventos reveladores. Sua participação consistiu em sua resposta aos acon tecimentos que se tomaram eventos reveladores através de sua resposta. A inspiração dos escritores bíblicos é sua resposta receptiva e criativa a fatos potencialmente revelatórios. A inspiração dos escritores do Novo Testamento é sua aceitação de Jesus como o Cristo e, com ele, do Novo Ser, do qual se tomaram testemunhas. Já que não há revelação sem al guém que a receba como revelação, o ato da recepção é uma parte do próprio evento. A Bíblia é tanto um evento original quanto um docu mento original; ela dá testemunho daquilo de que é parte. O material bíblico como fonte da teologia sistemática é apresen tado de forma metodológica pelo teólogo histórico. A teologia bíblica, em cooperação com as outras disciplinas da teologia histórica, abre a Bíblia como a fonte básica da teologia sistemática. Mas a maneira como ela o faz de forma alguma é óbvia. O teólogo bíblico, na medida em que é teólogo (o que inclui um ponto de vista sistemático), não nos apresen ta fatos puros. Ele nos oferece fatos teologicamente interpretados. Sua exegese é pneumática (Espiritual) ou, como a chamaríamos hoje, “exis tencial”. Fala dos resultados de sua interpretação filosófica, distancia da, como questões de sua preocupação última. Ele une filologia e devo ção ao lidar com os textos bíblicos. Não é fácil fazer isso e ser, ao mes mo tempo, justo com ambos os pontos de vista. Uma comparação de qualquer comentário científico recente sobre a Carta aos Romanos (p. ex., C. H. Dodd ou Sanday e Headlam) com a interpretação pneumático- existencial feita por Barth deixa claro o abismo intransponível entre ambos os métodos. Todos os teólogos, mas em especial os estudantes de teologia sistemática, sofrem por causa desta situação. A teologia siste mática necessita de uma teologia bíblica que seja histórico-crítica sem quaisquer restrições, mas que seja, ao mesmo tempo, interpretativo-exis- tencial, levando em conta o fato de que ela trata de assuntos de preocu pação última. É possível satisfazer esta exigência, pois aquilo que nos preocupa de forma última não está vinculado a nenhuma conclusão es pecífica da pesquisa histórica e filológica. Uma teologia que depende de resultados predeterminados da investigação histórica está atrelada a algo condicional que reivindica ser incondicional, isto é, algo demoníaco. E o caráter demoníaco de qualquer exigência que impõe ao historiador resultados definidos toma-se visível no fato de que destrói sua integri dade científica. Estar ultimamente preocupado com aquilo que realmen te é último liberta o teólogo de toda “desonestidade sagrada” e o sensi biliza tanto para a crítica histórica conservadora quanto para a revoluci onária. Unicamente este trabalho histórico livre, unido à atitude de pre ocupação última, pode fazer da Bíblia a fonte fundamental do teólogo sistemático. A gênese da Bíblia é um evento da história da igreja, um evento em um estágio relativamente tardio da história da igreja primitiva. O teólogo sistemático, portanto, ao usar a Bíblia como sua fonte, implici tamente usa a história da igreja como fonte. Ele deve fazer isto explici tamente. A teologia sistemática possui uma relação direta e definida com a história da igreja. Neste aspecto, há uma diferença real entre a atitude católica e a protestante, e nenhum teólogo sistemático pode evitar uma decisão a este respeito. A decisão é fácil para aqueles que estão sujeitos à autoridade da igrejaromana. Também é fácil para aqueles que crêem que o protestantismo significa um biblicismo radical e supõem que o biblicismo radical seja uma posição teológica possível. Mas a maioria dos teólogos das igrejas não-romanas não está disposta a aceitar essa alternativa. Para eles é óbvio que a atitude biblicista radical é uma auto- ilusão. Ninguém é capaz de saltar sobre 2 mil anos de história da igreja e tomar-se contemporâneo dos escritores do Novo Testamento, exceto no sentido espiritual de aceitar Jesus como o Cristo. Toda pessoa que se defronta com um texto bíblico é guiada, em sua compreensão religiosa do mesmo, pela compreensão de todas as gerações anteriores. Até mes mo os reformadores eram dependentes da tradição romana contra a qual protestaram. Eles opuseram elementos especiais da tradição eclesiástica contra outros, a fim de combater a distorção que afetara a tradição toda, mas não saltaram, nem poderiam, sobre a tradição para se colocar na situação de Mateus e Paulo. Os reformadores estavam conscientes desta situação, e seus sistematizadores ortodoxos também, mas o biblicismo evangelical, tanto passado quanto presente, não está consciente disso e produz uma teologia “bíblica” que, na verdade, é dependente de deter minados desdobramentos dogmáticos do período da pós-Reforma. A pes quisa histórica pode mostrar facilmente a diferença entre o ensino dog mático da maioria das igrejas evangelicais americanas e o sentido origi nal dos textos bíblicos. Não se pode negar a história da igreja. Por con seguinte, é uma necessidade tanto religiosa quanto acadêmica afirmar franca e decisivamente a relação da teologia sistemática com a tradição eclesiástica. Outra posição que não é aceitável para a maioria dos teólogos não-romanos é a sujeição da teologia sistemática às decisões dos concí lios e dos papas. A dogmática católica romana utiliza aquelas tradições doutrinais que ganharam status legal (de fide) como fonte real da teolo gia sistemática. Ela pressupõe dogmaticamente, com ou sem provas a posteriori, que aquelas doutrinas cuja validez está garantida pelo direito canônico concordam essencialmente com a mensagem bíblica. O traba lho do teólogo sistemático é uma interpretação exata e, ao mesmo tem po, polêmica das afirmações de fide. Esta é a razão para a esterilidade dogmática da teologia católica romana, em contraste com sua criativi dade litúrgica e ética, bem como com a grande pesquisa que ela desen volve em áreas da história da igreja que estão livres de proibições dog máticas. É importante para o caráter ecumênico da teologia sistemática o fato de que os teólogos ortodoxos gregos, embora aceitem a autorida de da tradição, neguem sua legalização pela autoridade papal. Isto dá ao teólogo ortodoxo grego possibilidades criativas das quais estão excluí dos os teólogos romanos. A teologia protestante, em nome do princípio protestante (veja Parte 5, Seção D), protesta contra a identificação de nossa preocupação última com qualquer criação da igreja, incluindo os escritos bíblicos, na medida em que seu testemunho daquilo que real mente é preocupação última é também uma expressão condicionada de sua própria espiritualidade. Portanto, ela pode usar todos os materiais fornecidos pela história da igreja. Pode usar conceitos gregos, romanos, alemães e modernos ao interpretar a mensagem bíblica. Pode usar as decisões dos protestos sectaristas contra a teologia oficial, mas ela não está presa a nenhum desses conceitos e decisões. Um problema especial surge do fato de que ninguém realmente está em condições de manejar todos esses materiais, porque as estrutu ras denominacionais operam como um princípio de seleção tanto consci ente como inconsciente. Isso é inevitável, mas apresenta um lado criativo. O clima eclesiástico e teológico no qual o teólogo cresceu ou pelo qual ele, mais tarde, tomou uma decisão pessoal produz compreensão através da familiaridade. Sem essa familiaridade, não é possível nenhum uso exis tencial do material histórico-eclesiástico. O teólogo sistemático encontra na vida concreta de sua denominação, em sua liturgia e hinos, seus ser mões e sacramentos, aquilo que o preocupa ultimamente: o Novo Ser em Jesus como o Cristo. Portanto, a tradição denominacional é uma fonte decisiva para o teólogo sistemático, por mais ecumenicamente que a use. A fonte bíblica se toma acessível ao teólogo sistemático através de uma teologia bíblica crítica e marcada pela preocupação última. Da mesma forma, a história da igreja se toma acessível ao teólogo siste mático através de uma história do pensamento cristão que utilize a crítica histórica e esteja marcada pela preocupação última, história antigamente chamada de “história do dogma”. O termo tradicional “dogmática” implica uma preocupação que o termo mais recente não expressa. A “história do pensamento cristão” pode significar uma des crição distanciada das idéias dos pensadores teológicos através dos sé culos. Algumas das histórias críticas do pensamento cristão não es ão muito distantes desta atitude, mas o historiador da teologia deve mostrar que, em todos os períodos, o pensamento cristão tratou de questões de preocupação última e que, portanto, ele mesmo é objeto de preocupação última. A teologia sistemática necessita de uma história do pensamento cristão éscrita de um ponto de vista radicalmente crítico e, ao mesmo tempo, existencialmente orientado. Uma fonte mais ampla da teologia sistemática do que todas aque las até aqui mencionadas é o material oferecido pela história da religião e da cultura. O impacto deste material sobre o teólogo sistemático co meça com a linguagem que ele utiliza e a educação cultural que recebeu. Sua vida espiritual está moldada por seu encontro social e individual com a realidade. Isto se expressa na linguagem, poesia, filosofia, religião, etc., da tradição cultural na qual ele cresceu e da qual se nutre em todos os momentos de sua vida, tanto em seu labor teológico quanto fora dele. Além deste contato imediato e inevitável com sua cultura e religião, o teólogo sistemático lida com elas diretamente de várias maneiras. Ele usa intencionalmente a cultura e religião como seus meios de expressão, cita- as a fim de confirmar suas afirmações, luta contra elas como contradições da mensagem cristã e, sobretudo, formula as perguntas existenciais implí citas nelas e às quais sua teologia pretende responder. Esse uso contínuo e incessante de conteúdos culturais e religio sos como fonte da teologia sistemática suscita a pergunta: como esses conteúdos podem ser disponibilizados para o uso por um método para lelo ao que usa o teólogo bíblico para dispor dos materiais bíblicos e ao que utiliza o historiador do pensamento cristão para dispor dos materi ais doutrinários? Não há resposta estabelecida a essa pergunta, pois não se concebeu teoricamente ou se estabeleceu praticamente nem uma his tória teológica da religião nem uma história teológica da cultura. Uma história teológica da religião deveria interpretar teologica mente o material produzido pela investigação e análise da vida pré-reli- giosa e religiosa da humanidade. Ela deveria elaborar os motivos e tipos de expressão religiosa, mostrando como derivam da natureza da preocu pação religiosa e, portanto, aparecem necessariamente em todas as reli giões, inclusive no cristianismo, na medida em que é uma religião. Uma história teológica da religião deveria assinalar também distorções de moníacas e novas tendências nas religiões do mundo que apontam para a solução cristã e preparam o caminho para a aceitação da mensagem cristã pelos adeptos das religiões não-cristãs. Poder-se-ia dizer que uma história teológica da religião deveria ser elaborada à luz do princípio missionário de que o Novo Ser em Jesus como o Cristo é a resposta à pergunta levantada implícita e explicitamente pelas religiões da huma nidade. Alguns materiais procedentes de uma história teológicada reli gião aparecem neste presente sistema teológico. Uma história teológica da cultura não pode ser um relato históri- co contínuo (isto também se aplica à história teológica da religião). Só pode ser o que tenho denominado de “teologia da cultura”10, uma tenta tiva de analisar a teologia subjacente a todas as expressões culturais e de descobrir a preocupação última no fundamento de uma filosofia, de um sistema político, de um estilo artístico, de um conjunto de princípios éticos ou sociais. Esta tarefa é mais analítica do que sintética, mais his tórica do que sistemática e constitui uma preparação para o trabalho do teólogo sistemático. No momento, uma teologia da cultura está sendo construída continuamente nos âmbitos não-teológicos e, com menos vi gor, no âmbito teológico. Ela se tomou uma parte importante das muitas análises críticas da situação atual do mundo, do declínio cultural do Ocidente, do desenvolvimento em alguns domínios especiais. Tem-se desenvolvido uma análise teológica em conexão com a história do pen samento moderno, da arte, da ciência, dos movimentos sociais (em ale mão, Geistesgeschichte, “a história do pensamento humano”). Mas esta análise deveria ser elaborada de forma mais organizada pelos teólogos. Ela deveria ser ensinada como “teologia da cultura” em todas as insti tuições de ensino teológico; por exemplo, como história teológica da filosofia, artes, etc. No que diz respeito ao método desta análise teológi ca da cultura, pode-se dizer o seguinte. A chave para a compreensão teológica de uma criação cultural é seu estilo. Estilo é um termo que procede do campo das artes, mas é possível aplicá-lo a todos os domíni os da cultura. Há um estilo de pensamento, de política, de vida social, etc. O estilo de uma época se expressa em suas formas culturais, na escolha de objetos, nas atitudes de suas personalidades criativas, em suas instituições e costumes. “Ler estilos” é tanto uma arte quanto uma ciência. Requer-se uma intuição religiosa, com base em uma preocupa ção última, para penetrar nas profundidades de um estilo, para chegar ao nível em que uma preocupação última exerce seu poder condutor. Mas é isso que se exige do teólogo que se ocupa com a história da cultura. E, ao desempenhar essa função, ele abre uma fonte criativa para a teologia sistemática. Esse exame das fontes da teologia sistemática mostrou sua rique za quase ilimitada: Bíblia, história da igreja, história da religião e da cultura. Ele mostrou, além disso, que há diversos graus de importância nessa imensa fonte de material, conforme sua relação mais ou menos direta com o evento central em que se fundamenta a fé cristã, o apareci mento do Novo Ser em Jesus como o Cristo. Mas duas questões decisivas não foram nem levantadas nem respondidas: a questão do meio através do 10 Paul TILLICH, Über die Idee einer Theologie der Kultur, in: Kantstudien, Berlin: Pan- Verlag, Rolf Heise, 1920); veja também meu livro The Religious Situation, New York: Henry Holt, 1932. qual esse material é recebido pelo teólogo sistemático e a questão da nor ma a ser usada por ele na avaliação das fontes. 9. Experiência e teologia sistemática As fontes da teologia sistemática só podem ser fontes para quem participa nelas, isto é, através da experiência. A experiência é o meio através do qual as fontes “falam” a nós, através do qual podemos rece bê-las. A questão da experiência tem sido uma questão central onde quer que se discuta a natureza e o método da teologia. Os teólogos da antiga escola franciscana estavam bem cônscios daquilo que hoje se chama de relação “existencial” com a verdade. Para eles, a teologia era um conhe cimento prático, baseado em uma participação do sujeito cognoscente nas realidades espirituais, um tocar e saborear (haptus e gustus) daquilo com que ele lida. Alexandre de Hales e Boaventura foram teólogos es tritamente “experienciais”. Eles se empenharam muito em analisar a natureza especificamente religiosa naquilo que a distingue de outras for mas de experiência. Subjacente a seu esforço estava o princípio místico- agostiniano da consciência imediata do “ser-em-si”, que é, ao mesmo tempo, a “verdade-em-si” (esse ipsum - verum ipsum). Mesmo que a teologia predominante sob a orientação de Tomás de Aquino e Duns Scotus tenha substituído a imediatez mística dos primeiros franciscanos pelo distanciamento analítico, a tradição agostiniano-franciscana nunca perdeu sua força. O princípio da experiência foi preservado por movi mentos sectários (amplamente dependentes do entusiasmo dos francis canos radicais) antes e durante a Reforma. Um entusiasta evangélico como Tomás Muenzer tinha quase todos os traços característicos daqui lo que chamamos hoje de “experiência existencial”, inclusive os ele mentos de ansiedade e desespero, a “situação limite” e a experiência da “falta de sentido”. E, por outro lado, ele tinha a experiência extática de um poder Espiritual que o conduzia e guiava nas decisões práticas de sua vida pessoal e social. Embora a vitória da autoridade eclesiástica ou bíblica em todas as igrejas européias e a ascensão da ortodoxia clássica tenham suprimido o princípio da experiência, nunca o erradicaram. O princípio da experiência reapareceu com toda força no pietismo conti nental e no independentismo anglo-americano, no metodismo e no evan- gelicalismo. Nestas formas, ele sobreviveu ao período do iluminismo e encontrou sua expressão teológica clássica no método teológico de Schleiermacher. Nenhuma teologia atual deveria fugir de uma discussão do méto do experimental de Schleiermacher, seja para concordar ou discordar dele. Um dos motivos do efeito perturbador da teologia neo-ortodoxa foi que ela se distanciou completamente do método de Schleiermacher. Conseqüentemente, negou o desenvolvimento teológico dos dois últi mos séculos (um século antes e um século depois de Schleiermacher). A questão crucial da teologia hoje é a seguinte: esta negativa é justificada ou não? E até que ponto? Certamente não se justificaria caso se baseas se unicamente em uma interpretação equivocada de Schleiermacher. Mas o julgamento neo-ortodoxo implica muito mais do que isso. Uma inter pretação psicológica da famosa definição de religião por Schleierma cher é errada e mesmo injusta, na medida em que ela pode facilmente ser evitada. Quando ele definiu religião como o “sentimento de depen dência absoluta”, “sentimento” significava a consciência imediata de algo incondicional no sentido da tradição agostiniano-franciscana. Esta tradição foi mediada a ele, religiosamente, por sua educação morava e, filosoficamente, por Spinoza e Schelling. “Sentimento”, nesta tradição, referia-se não a uma função psicológica, mas à consciência daquilo que transcende intelecto e vontade, sujeito e objeto. “Dependência”, na de finição de Schleiermacher, era, no plano cristão, dependência “teleoló- gica” - uma dependência de caráter moral que implica a liberdade e exclui toda interpretação panteísta e determinista da experiência do in condicional. O “sentimento de dependência absoluta” de Schleierma cher estava bastante próximo daquilo que denomino neste presente sis tema de “preocupação última com o fundamento e sentido de nosso ser”. Compreendido desta forma, não o atinge a maior parte das críticas habi tuais que lhe são dirigidas". Por outro lado, deve-se criticar o método de Schleiermacher em sua Glaubenslehre (A fé cristã). Ele tentou derivar todos os conteúdos da fé cristã do que chamou de “consciência religiosa” do cristão. De modo semelhante, seus seguidores, especialmente a “escola luterana de Erlangen”, que incluía os teólogos Hoffmann e Frank, tentaram estabe lecer todo um sistema de teologia derivando os conteúdos da experiên cia do cristão regenerado. Isso era uma ilusão, como o prova claramente o sistema de Frank. O acontecimento (que Frank chamava de “Jesus de Nazaré”) sobre o qual se fundamenta o cristianismonão é derivado da experiência; ele se dá na história. A experiência não é a fonte da qual procedem os conteúdos da teologia sistemática, mas o meio através do qual eles são existencialmente recebidos. Outra forma de teologia experiencial, não exposta à mesma críti ca, surgiu da tradição evangelical do cristianismo americano. Ela se dis tingue da teologia européia da experiência por sua vinculação com o empirismo e o pragmatismo filosóficos. Ela tenta criar uma “teologia 11 Felizmente Barth rejeitou o livro de Emil BRUNNER sobre Schleiermacher, Die Mystik und das Wort, Tübingen: J. C. B. Mohr, 1924, por esta mesma razão. empírica” com base na mera experiência, à maneira dos filósofos empi- ristas. Para o método da teologia sistemática, tudo depende do sentido em que se usa o termo “experiência”. Uma análise acurada da presente discussão filosófica e teológica mostra que o termo é usado em três sentidos: ontológico, científico e místico. O sentido ontológico de expe riência é uma conseqüência do positivismo filosófico. O que é dado positivamente é, segundo esta teoria, a única realidade da qual se pode falar de modo significativo. E positivamente dado significa dado na ex periência. A realidade é idêntica à experiência. O pragmatismo, tal como foi desenvolvido por William James e em parte por John Dewey, revela o motivo filosófico atrás desta elevação da experiência ao mais alto grau ontológico. O motivo é negar a ruptura entre um sujeito ontológico e objetos ontológicos. Pois, uma vez estabelecida, essa ruptura não pode ser superada, a possibilidade do conhecimento já não pode ser explica da, e a unidade da vida e seus processos permanece um mistério. O naturalismo dinâmico da filosofia recente envolve um conceito ontoló gico de experiência, independentemente de este naturalismo ser mais realista ou mais idealista ou mais místico quanto à ênfase. Se a experiência neste sentido é usada como fonte da teologia sistemática, nada pode aparecer no sistema teológico que transcenda a totalidade da experiência. Um ser divino no sentido tradicional é exclu ído de tal teologia. Já que, por outro lado, a totalidade da experiência não pode ser objeto de preocupação última, uma experiência especial ou uma qualidade especial da experiência toda deve ser a fonte da teologia sistemática. Por exemplo, os processos criadores de valor (Whitehead), os processos unificadores (Wieman) ou o caráter de totalidade (Hocking) podem ser chamados a experiência especificamente religiosa. Mas, para isso, deve-se ter um conceito do que é experiência religiosa. De outra forma, não se poderia reconhecê-la dentro do todo da experiência. Isto significa que deve haver outro tipo de experiência, uma participação imediata na realidade religiosa, que precede qualquer análise teológica da realidade como um todo. E essa é a situação de fato. Os teólogos empíricos que usam o conceito ontológico de experiência não derivam sua teologia desta experiência. Eles a derivam de sua participação em uma realidade religiosa concreta, de sua experiência religiosa no senti do místico de experiência, e tentam descobrir os elementos correspon dentes dentro da totalidade da experiência. Eles procuram uma confir mação cosmológica de sua vida religiosa. Apesar de sua argumentação circular, a teologia empírica deste tipo deu uma contribuição indiscutível à teologia sistemática. Ela mos trou que os objetos religiosos não são objetos entre outros, mas são ex pressões de uma qualidade ou dimensão de nossa experiência geral. Neste ponto, a teologia empírica americana concorda com a teologia fenome- nológica continental (p. ex., Rudolph Otto e Max Scheler). Sempre que se pergunta: “O que significa ‘santo’?” em vez de perguntar: “Deus exis te?”, estamos em uma linha de pensamento em que concordam o prag matismo e a fenomenologia12. O segundo sentido com que se usa o termo experiência é derivado da experiência da ciência testada experimentalmente. A experiência neste sentido constitui um mundo articulado. Ela não designa o dado como tal, mas o dado em sua estrutura reconhecível. Ela combina elementos racionais e perceptivos e é o resultado de um processo incessante de experimentação e verificação. Alguns teólogos empíricos tentaram apli car o método da experiência científica à teologia, mas não lograram êxito, e nem poderiam, por duas razões. Primeiro, o objeto da teologia (isto é, nossa preocupação última e suas expressões concretas) não é um objeto dentro da totalidade da experiência científica. Ele não pode ser descoberto por uma observação distanciada ou por conclusões deriva das de tal observação. Só pode ser encontrado em atos de entrega e participação. Segundo, ele não pode ser testado por métodos científicos de verificação. Nestes métodos, o sujeito verificador se mantém fora do processo de verificação. E se isso é parcialmente impossível, como, por exemplo, na microfísica, o cientista inclui os efeitos desta variante em seus cálculos. O objeto da teologia só pode ser verificado por uma par ticipação na qual o teólogo que realiza a verificação se arrisca pessoal mente no sentido último de “ser ou não ser”. Esta verificação nunca é concluída, nem mesmo numa vida inteira de experiência. Permanece sempre um elemento de risco que toma impossível uma verificação ex perimental no tempo e no espaço. Isso é confirmado pelos resultados da teologia científico-experi- mental. Se uma análise epistemológica da experiência leva a conceitos abrangentes como “pessoa cósmica” (Brightman) ou “mente cósmica” (Boodin) ou “processo criativo” (Wieman), estes conceitos não são ci entíficos nem teológicos. Eles não são científicos, mas ontológicos. Não descrevem um ser ao lado de outros seres, mas apontam para uma quali dade do ser-em-si. E isto não se alcança pela experiência científica, mas por uma visão em que se combinam elementos científicos e não-cientí- ficos. Por outro lado, estes conceitos não são teológicos. Certamente eles podem e devem ser usados pela teologia sistemática. Mas a “pessoa cósmica” e o “processo criativo” não são em si mesmos objetos de pre ocupação última. São possibilidades filosóficas, nada mais. Não são necessidades religiosas. São teóricos, não existenciais. Se, contudo, rei- 12 Cf. também minha própria Religionsphilosophie, in: Max DESSOIR, Lehrbuch der Phi losophie, Berlin: Ullstein, 1925. vindicam um significado religioso - o que constitui uma genuína possi bilidade de todos os conceitos ontológicos - então desaparece sua fun ção científica, e devem ser discutidos em termos teológicos como ex pressões simbólicas de nossa preocupação última. Em caso algum a ex periência científica como tal pode proporcionar um fundamento para a teologia sistemática e ser uma de suas fontes. A experiência mística, ou experiência por participação, é o pro blema real da teologia experimental. Ela é pressuposta secretamente pelo conceito ontológico e científico de experiência. Sem uma experiência de participação, nem a totalidade da experiência nem a experiência arti culada revelariam qualquer coisa sobre nossa preocupação última. Mas a questão é: o que a experiência por participação revela? Para os Refor madores, a experiência não era uma fonte da revelação. O Espírito divi no testemunha em nós a respeito da mensagem bíblica. O Espírito não oferece nenhuma revelação nova. Nada de novo é mediado pela experi ência do poder Espiritual em nós. O entusiasmo evangélico, por outro lado, inferia novas revelações da presença do Espírito. A experiência do ser humano que tem o Espírito seria a fonte da verdade religiosa e, por tanto, da teologia sistemática. A letra da Bíblia e as doutrinas da igreja permanecem letra e lei se o Espírito não as interpreta no indivíduo cris tão. A experiência como presença inspiradora do Espírito seria a fonte última da teologia. Os entusiastas do período da Reforma não contam com experiên cias espirituais que transcendama mensagem cristã. Embora esperas sem, seguindo Joaquim de Fiore, um “terceiro período” na história da revelação, o período do Espírito, não o descreviam como um período pós-cristão. O Espírito é o Espírito do Filho, que rege o segundo perío do, e do Pai, que rege o primeiro período. O terceiro período é uma transformação do segundo, sem uma mudança substancial do mesmo. Esta ainda era a atitude de Schleiermacher, mas não tem sido a da teolo gia experiencial recente. O encontro com as grandes religiões não-cris- tãs, o esquema do pensamento evolucionista, a abertura para o novo que caracteriza o método pragmático, tudo isso fez com que a experiência se tenha tomado não só a principal fonte da teologia sistemática, mas uma fonte inesgotável da qual se podem tirar continuamente novas verdades. Estar aberto a novas experiências, que podem inclusive ultrapassar os limites da experiência cristã, é agora a atitude própria do teólogo. Ele não está confinado a um círculo cujo centro é o evento de Jesus como o Cristo. Sem dúvida, como teólogo, ele também atua em um círculo, mas em um círculo cuja periferia é dilatável e cujo centro é móvel. A “expe riência aberta” seria a fonte da teologia sistemática. Contra esta concepção, a neo-ortodoxia se volta para os Reforma dores, e o biblicismo evangélico se volta para as seitas da Reforma. Ambos negam que uma experiência religiosa que ultrapasse o círculo cristão possa ser uma fonte da teologia sistemática. E a neo-ortodoxia nega categoricamente que a experiência possa se tomar uma fonte da teologia sistemática. Se a experiência é considerada o meio através do qual as fontes objetivas são recebidas, exclui-se a confiança do teólogo em uma possí vel experiência pós-cristã. Mas também se nega a afirmação de que a experiência é uma fonte da teologia. E, finalmente, nega-se a crença de que experiências, embora permanecendo no círculo cristão, acrescen tem algum novo material às outras fontes. A teologia cristã se baseia no evento único Jesus o Cristo. E, apesar do sentido infinito deste evento, permanece só este evento. Como tal, ele é o critério de toda experiência reli^Fosa. Este evento é anterior à experiência e não se deriva dela. Por tanto, a experiência recebe e não produz. Seu poder produtivo está res trito à transformação do que lhe é dado. Mas essa transformação não é o objetivo que se procura alcançar. O ato de recepção pretende receber e tão-somente receber. Se se visa transformação, a recepção se toma falsi ficação. O teólogo sistemático está atado à mensagem cristã. Ele deve derivá-la de outras fontes e não de sua experiência, submetendo-se ao critério da norma (ver a próxima seção). Isso exclui qualquer subjetivi dade intencional, mas confere à subjetividade do teólogo aquela influ ência que um meio tem sobre o que é mediado através dele. O meio colora a apresentação e determina a interpretação daquilo que recebe. Devem-se evitar dois extremos neste procedimento: a influência do meio, a experiência do teólogo, não deveria ser tão pequena que o resultado fosse uma repetição em vez de uma transformação. E não deveria ser tão ampla que o resultado fosse uma nova produção em vez de uma trans formação. Enquanto a primeira falha predominou em vários períodos precedentes da história do pensamento cristão, a segunda falha se tor nou mais visível no período modemo. A razão última para essa mudança é um câmbio na doutrina teológica do ser humano. A experiência religi osa do ser humano só poderia se tomar uma fonte independente da teo logia sistemática se o ser humano estivesse unido à fonte de toda expe riência religiosa, o poder Espiritual que habita nele. Só se o seu espírito e o Espírito divino nele fossem uma só realidade, sua experiência pode ria ter caráter revelador. Esta unidade está implícita na doutrina moder na do ser humano. Mas, como os reformadores sublinharam realistica mente contra os entusiastas, esta unidade não é um fato. Até mesmo o santo deve ouvir aquilo que o Espírito diz ao seu espírito, porque o santo também é um pecador. Pode haver revelação através dele, como houve através dos profetas e apóstolos. Mas esta revelação vem contra ele e para ele - ela não provém dele. Um olhar penetrante sobre a realidade humana destrói toda teologia que faz da experiência uma fonte indepen dente em vez de um elemento mediador que depende da teologia siste mática. 10. A norma da teologia sistemática A discussão das fontes e do meio da teologia sistemática deixou sem resposta uma questão decisiva - a questão do critério ao qual tanto as fontes como a experiência mediadora devem se submeter. A necessi dade deste critério é óbvia em vista da amplitude e variedade do materi al e em vista da indefinição da função mediadora da experiência. As fontes e o meio só podem produzir um sistema teológico caso seu em prego estiver sujeito a uma norma. A questão da norma da doutrina cristã surgiu muito cedo na histó ria da igreja. Ela recebeu uma resposta material e uma formal. No as pecto material, a igreja criou um credo que, tendo a confissão batismal de que Jesus é o Cristo como seu centro, devia conter a norma doutrinal. No aspecto formal, a igreja estabeleceu uma hierarquia de autoridades - bispos, concílios, o papa - que deviam salvaguardar a norma contra dis torções heréticas. Nas Igrejas Católicas (Romana, Grega, Anglicana), a segunda resposta se tomou tão predominante que desapareceu a neces sidade de uma norma material. Nelas, a doutrina cristã é aquilo que a igreja declara como tal através de suas autoridades oficiais. Esta é a razão para a falta de um princípio organizador inclusive nos sistemas escolásticos, tão radicalmente organizados em outros pontos. É a razão para a identificação final da tradição com as decisões papais (Concílio de Trento). E é a razão por que a Bíblia teve tão pouca influência no desenvolvimento dogmático posterior das Igrejas Grega e Romana. A questão da norma se tomou novamente crucial no protestantis mo tão logo as autoridades eclesiásticas perderam seu prestígio. Estabe leceu-se uma norma formal e uma norma material, não por decisão deli berada, mas, como nos primórdios do cristianismo, pelas exigências da situação. Lutero lançou-se contra o sistema romano com a força da nor ma material que, seguindo Paulo, chamou de “justificação através da fé” e com a autoridade da mensagem bíblica (especialmente a paulina). A justificação e a Bíblia em interdependência mútua foram as normas da Reforma luterana. No calvinismo, a justificação foi cada vez mais substituída pela predestinação, e a relação mútua entre as normas mate rial e formal foi enfraquecida por uma compreensão mais literal da au toridade bíblica. Mas o problema e a linha de solução foram os mesmos. Se considerarmos a totalidade da história da igreja à luz da afir mação explícita da norma material por parte dos reformadores, encon tramos normas análogas implícitas em todos os períodos. Enquanto que a norma para a primitiva Igreja Grega foi a libertação do ser humano finito da morte e do erro pela encarnação da vida imortal e da verdade eterna, para a Igreja Romana foi a salvação da culpa e da desintegração pelo sacrifício efetivo e sacramental do Deus-homem. Para o protestan tismo modemo foi a imagem do Jesus “sinótico”, representando o ideal pessoal e social da existência humana, e para o protestantismo recente a norma tem sido a mensagem profética do Reino de Deus no Antigo e no Novo Testamento. Estes símbolos foram os critérios inconscientes ou conscientes para a forma como a teologia sistemática lidou com suas fontes e julgou a experiência mediadora do teólogo. A proliferação dessas normas é um processo histórico que, apesar das muitas decisões conscientes, é em sua totalidade inconsciente. Ele ocorre em e através do encontro da igreja com a mensagem cristã. Este encontro é diferente em cada geração, e sua diferença se toma visívelnas sucessivas etapas da história da igreja. A norma cresce; ela não é produzida intencionalmente. Sua aparição não é obra da reflexão teoló gica, mas da vida espiritual da igreja, pois a igreja é o “lar” do teólogo sistemático. Só na igreja as fontes e as normas da teologia têm existên cia real. Só neste lugar a experiência pode converter-se em meio da teo logia sistemática. O leitor solitário da Bíblia de forma alguma se encon tra fora da igreja. Ele recebeu a Bíblia,' compilada e preservada pela igreja através dos séculos. Recebeu o livro através da atividade da igreja ou de algum de seus membros. Ele a recebeu interpretada pela igreja, mesmo se esta interpretação lhe chega simplesmente na forma de uma tradução aceita pela igreja. A experiência do teólogo sistemático é mol dada pelas fontes que são mediadas através dela. E a mais concreta e próxima destas fontes formativas é a igreja e sua experiência coletiva. Nela vive e nela está seu “lugar de trabalho” como teólogo sistemático. Sem dúvida, ela é seu lugar mesmo que ele trabalhe e proteste contra ela. O protesto é uma forma de comunhão. A norma usada como critério no sistema presente só pode ser afir mada com reservas. Para ser uma norma genuína, não deve ser uma opinião privada do teólogo, mas a expressão de um encontro da igreja com a mensagem cristã. Se este é o caso deste sistema, não podemos sabê-lo no momento. A norma da teologia sistemática não é idêntica ao “princípio crí tico de toda teologia”. Este é negativo e protetor; a norma deve ser posi tiva e construtiva. O princípio crítico é abstrato; a norma deve ser con creta. O princípio crítico foi formulado sob a pressão da situação apolo gética, para evitar a interferência mútua entre a teologia e outras formas de conhecimento. A norma deve ser formulada sob a pressão da situação dogmática no protestantismo modemo, que se caracteriza pela falta de uma autoridade formal e pela procura de um princípio material. As normas da teologia sistemática que estiveram em vigor na his tória da igreja não se excluíam mutuamente pelo conteúdo; elas se ex cluíam quanto à ênfase. A norma a ser afirmada aqui é diferente em ênfase da norma dos Reformadores e da norma da teologia liberal moder na, mas pretende preservar a mesma substância e apresentá-la de uma forma mais adequada à situação presente e à fonte bíblica. Não é exagero dizer que hoje o ser humano experimenta sua pre sente situação em termos de ruptura, conflito, autodestruição, falta de sentido e desespero em todos os setores da vida. Esta situação se expres sa na arte e na literatura, conceitualiza-se na filosofia existencial, con cretiza-se nas divisões políticas de todos os tipos e é analisada na psico logia do inconsciente. Ela deu à teologia uma nova compreensão das estruturas trágico-demoníacas da vida individual e social. A pergunta que surge desta experiência não é, como na Reforma, a questão de um Deus misericordioso e do perdão dos pecados. Nem é, como na primiti va Igreja Grega, o problema da finitude, da morte e do erro; nem é a questão da vida religiosa pessoal ou da cristianização da cultura e da sociedade. E a questão de uma realidade na qual seja superada a auto- alienação de nossa existência, uma realidade de reconciliação e reunião, de criatividade, sentido e esperança. Chamaremos essa realidade de “Novo Ser”, um termo cujas presssposições e implicações só podem ser explicadas através da totalidade deste sistema. Ele se baseia naquilo que Paulo chama “a nova criação” e se refere a seu poder de superar as divisões demoníacas da “velha realidade” na alma, na sociedade e no universo. Se a mensagem cristã é entendida como a mensagem do “Novo Ser”, dá-se uma resposta à pergunta implícita em nossa situação atual e em qualquer situação humana. Mas essa resposta não é suficiente. Ela conduz imediatamente a uma outra questão: “Onde se manifesta este Novo Ser?” A teologia sis temática responde dizendo: “Em Jesus, o Cristo”. Esta resposta também apresenta pressuposições e implicações que a totalidade do sistema se propõe a desenvolver. Agora só podemos dizer o seguinte: esta fórmula aceita a antiga confissão batismal cristã de Jesus como o Cristo. O Cris to é aquele que traz o novo éon, a nova realidade. E é o ser humano Jesus quem, numa afirmação paradoxal, é chamado de o Cristo. Sem este pa radoxo, o Novo Ser seria um ideal, não uma realidade e, conseqüente mente, não seria uma resposta à pergunta implícita em nossa situação humana. * A norma material da teologia sistemática, que usamos no presen te sistema e consideramos a mais adequada para a presente situação apologética, é o “Novo Ser em Jesus como o Cristo”. Se a combinamos com o princípio crítico de toda teologia, podemos dizer que a norma material da teologia sistemática hoje é o Novo Ser em Jesus como o Cristo enquanto nossa preocupação última. Esta norma é o critério para a utilização de todas as fontes da teologia sistemática. A questão mais importante é como esta norma se relaciona com a fonte básica, a Bíblia. Se a própria Bíblia é considerada a norma da teologia sistemática, não se está dizendo nada em concreto, pois a Bí blia é uma antologia de literatura religiosa, escrita, compilada e editada através dos séculos. Lutero estava cônscio desta situação numa forma que o coloca muito acima da maioria dos teólogos protestantes. Ele deu uma norma material segundo a qual os livros bíblicos deveriam ser in terpretados e avaliados, a saber, a mensagem de Cristo ou da justifica ção através da fé. A luz desta norma ele interpretou e julgou todos os livros bíblicos. Seu valor normativo depende do grau em que expressam essa norma, embora, por outro lado, a norma se derive deles. A Bíblia pode ser chamada de norma da teologia sistemática só porque a norma se deriva da Bíblia. Mas ela se deriva dela num encontro da igreja com a mensagem bíblica. A norma derivada da Bíblia é, ao mesmo tempo, o critério para o uso da Bíblia pela teologia sistemática. Na prática, esta foi sempre a atitude da teologia. O Antigo Testamento nunca foi direta mente normativo: ele foi medido pelo Novo Testamento. E o Novo Tes tamento nunca exerceu a mesma influência em todas as suas partes. A influência de Paulo quase desapareceu no período pós-apostólico. João ocupou seu lugar. Quanto mais o Evangelho era entendido como a “nova lei”, tanto mais as cartas católicas e as correspondentes passagens sinó- ticas se tomaram decisivas. Sempre de novo ocorriam reações paulinas, de forma conservadora em Agostinho e de forma revolucionária nos Reformadores. A predominância dos evangelhos sinóticos sobre Paulo e João caracteriza o protestantismo moderno. Nos tempos mais recentes, o Antigo Testamento, numa interpretação profética, superou o próprio Novo Testamento13. A Bíblia como um todo nunca foi a norma da teolo gia sistemática. A norma tem sido um princípio derivado da Bíblia num encontro entre ela e a igreja. Isso nos dá uma perspectiva para a questão da canon icidade dos livros bíblicos. A igreja cerrou o cânon bastante tarde, e não há concor dância entre as igrejas cristãs quanto ao número de livros que pertencem ao cânon bíblico. Quando a Igreja de Roma aceitou e as igrejas protes tantes rejeitaram os apócrifos do Antigo Testamento como livros canô- 13 O fundamento bíblico do presente sistema está indicado nas palavras da norma material: o Novo Ser em Jesus como o Cristo. Isto se refere sobretudo à doutrina paulina do Espfrito. Enquanto o protesto paulino de Barth contra a teologia liberal concorda com o dos refor madores e depende da doutrina protetora de Paulo da justificação através da fé, o paulinis- mo do presente sistema procede da doutrina construtiva de Paulo sobre a Nova Criação em Cristo, que inclui a mensagem profético-escatológica do “novo éon”. nicos, a razão que determinou ambas as decisões foi a respectiva norma de suas teologias sistemáticas. Lutero queriaexcluir até mais do que os apócrifos. Esta situação mostra que há um elemento de indefinição na composição do cânon bíblico e confirma vigorosamente a diferença en tre a norma teológica e a Bíblia como fonte básica da qual se deriva a norma. A norma decide a canonic idade dos livros. Ela coloca alguns deles na linha limítrofe (antilegomena, na igreja primitiva). Foi o Espí rito que criou o cânon. E, como todas as coisas Espirituais, o cânon não pode ser fixado legalmente de forma definitiva. A abertura parcial do cânon é uma salvaguarda da Espiritualidade da igreja cristã. Essa relação da Bíblia, como fonte básica da teologia sistemática, com a norma derivada dela sugere uma nova abordagem à questão do caráter normativo da história da igreja. Deve-se encontrar um caminho intermédio entre a prática católica romana de fazer das decisões eclesi ásticas não só uma fonte, mas também a norma efetiva da teologia siste mática, e a prática protestante radical de privar a história da igreja não só de seu caráter normativo, mas também de sua função como fonte. Este último ponto já foi discutido. O caráter normativo da história da igreja está implícito no fato de que a norma, embora derivada da Bíblia, surge num encontro entre a igreja e a mensagem bíblica. Cada período da história da igreja, esta é a implicação, contribui, inconsciente ou cons cientemente, através de sua situação especial, para o estabelecimento de uma norma teológica. Mas, além disso, as decisões da igreja não têm caráter normativo direto. O teólogo sistemático não pode reivindicar validez para a norma que ele usa invocando os Pais da Igreja, concílios, credos, etc. A possibilidade de que todos estes tenham incorrido em erro deve ser mantida pela teologia protestante com a mesma radicalidade com que Roma sustenta o contrário em sua doutrina da infalibilidade papal. O caráter indiretamente normativo das decisões eclesiásticas con siste em sua função como sentinelas que apontam para perigos que ame açam a mensagem cristã e já foram superados por tais decisões. Elas constituem uma advertência muito séria e uma ajuda construtiva para o teólogo. Mas não determinam autoritativamente a direção de seu traba lho. Ele aplica sua norma ao material da história da igreja, não se impor tando se ela foi afirmada pelas autoridades mais importantes ou menos importantes. A contribuição da história da religião e da cultura à norma da teologia sistemática é ainda mais indireta. Uma influência da religião e da cultura sobre a norma da teologia sistemática só é perceptível na medida em que o encontro da igreja com a mensagem bíblica é parcial mente condicionado pela situação religiosa e cultural na qual vive a igreja. Não há razão para negar ou rejeitar esta influência. A teologia sistemática não é a própria mensagem. E, enquanto a mensagem em si está além de nosso alcance e nunca está à nossa disposição (embora possa alcançar-nos e dispor de nós), sua interpretação teológica é um ato da igreja e de indivíduos dentro da igreja. Ela é, portanto, condicio nada religiosa e culturalmente, e mesmo sua norma e critério não podem reivindicar independência da situação existencial do ser humano. As tentativas do biblicismo e da ortodoxia de criar uma teologia “não-con- dicionada” contradizem o correto e indispensável primeiro princípio do movimento neo-ortodoxo de que “Deus está no céu e o ser humano na terra” - mesmo se este ser humano for um teólogo sistemático. E “estar na terra” não só significa ter defeitos pessoais; significa também estar condicionado historicamente. A tentativa dos teólogos neo-ortodoxos de evitar esta marca da finitude é um sintoma daquela arrogância religi osa contra a qual estes mesmos teólogos estão lutando. Já que a norma da teologia sistemática é o resultado de um encon tro da igreja com a mensagem bíblica, podemos considerá-la produto da experiência coletiva da igreja. Mas esta asserção é perigosamente ambí gua. Poderia ser entendida como se a experiência coletiva produzisse o conteúdo da norma. Mas o conteúdo da norma é a mensagem bíblica. As experiências, tanto individuais quanto coletivas, são- os meios através dos quais a mensagem é recebida, colorida e interpretada. A norma cres ce dentro do meio da experiência. Mas ela é, ao mesmo tempo, o critério de qualquer experiência. A norma julga o meio no qual cresce. Ela julga o caráter débil, fragmentado, distorcido de toda experiência religiosa, embora seja tão-somente através deste meio frágil que a norma tem aces so à existência. 11.0 caráter racional da teologia sistemática As questões de fonte, meio e norma da teologia sistemática estão relacionadas a seu fundamento concreto-histórico. Mas a teologia sis temática não é uma disciplina histórica (como afirmou erroneamente Schleiermacher)14; é uma tarefa construtiva. Ela não nos diz o que as pes soas pensaram sobre a mensagem cristã no passado; antes, tenta dar-nos uma interpretação da mensagem cristã que seja relevante para a situa ção atual. Isso suscita a seguinte pergunta: “Até que ponto a teologia sistemática tem caráter racional?” Certamente devemos usar a razão na construção de um sistema teológico. Contudo, tem havido e ainda há muita dúvida e controvérsia no que diz respeito ao papel da razão na teologia sistemática. O primeiro problema está em dar uma definição adequada de “ra- 14 Kurze Darstellung des theologischen Studiums zum Gebrauche fiir Vorlesungen (2. ed. 1830). cional” no presente contexto. Apresentar esta definição envolveria, con tudo, uma extensa discussão da razão em suas várias estruturas e fun ções (Parte 1, Seção I). Já que essa discussão é impossível nesta introdu ção, devemos fazer as seguintes afirmações antecipatórias: há um tipo de conhecimento implícito na fé que é qualitativamente diferente do conhecimento envolvido no labor técnico e acadêmico do teólogo. Ele tem um caráter completamente existencial, autodeterminante e de auto- entrega e pertence à fé, mesmo do crente intelectualmente mais primiti vo. Quem participa do Novo Ser participa também em sua verdade. O teólogo, além disso, deve não só participar no Novo Ser, mas também expressar sua verdade de forma metódica. Chamaremos o órgão com que recebemos os conteúdos da fé de razão autotranscendente ou extáti ca. O órgão do teólogo acadêmico chamaremos de razão “técnica” ou formal. Em ambos os casos, a razão não é uma fonte da teologia. Ela não produz seus conteúdos. Razão extática é a razão possuída por uma pre ocupação última. A razão está subjugada, invadida, comovida pela pre ocupação última. A razão não produz um objeto de preocupação última por processos lógicos, como tentou fazê-lo uma teologia equivocada em seus “argumentos a favor da existência de Deus”. Os conteúdos da fé possuem a razão. E também a razão técnica ou formal do teólogo não produz seu conteúdo, como vimos na discussão de suas fontes e de seu meio. Mas a situação não é tão simples como seria se o ato da recepção fosse meramente um ato formal sem qualquer influência naquilo que é recebido. Não é este o caso. Conteúdo e forma, dar e receber têm uma relação mais dialética do que as palavras parecem conotar. Neste ponto surge uma dificuldade. Já a encontramos na formulação da norma teoló gica. Esta formulação é uma questão de experiência religiosa pessoal e comunitária e, ao mesmo tempo, é uma questão de julgamento metodo lógico do teólogo. É, simultaneamente, recebida pela razão extática e concebida através da razão técnica. As teologias tradicional e neo-orto doxa não diferem neste ponto. A ambigüidade não pode ser evitada en quanto existir a teologia. Este é um dos fatores que toma a teologia uma empresa “problemática”. O problema só poderia ser resolvido se a razão formal do ser humano estivesse em completa harmonia com sua razão extática, se o ser humano estivesse vivendo em uma completa teonomia, isto é, na plenitude do Reino de Deus. Uma das verdadesbásicas que a teologia deve testemunhar é que a própria teologia, como toda atividade humana, está sujeita às contradições da situação existencial humana. Embora o problema do caráter racional da teologia deva perma necer, em última análise, insolúvel, podemos estabelecer alguns prin cípios diretivos. O primeiro princípio que determina o caráter racional da teologia sistemática é o princípio semântico. Há palavras que são usadas na lin guagem filosófica, científica e popular. Se o teólogo usa essas palavras, freqüentemente pode pressupor que o conteúdo indica o âmbito do dis curso do qual essa palavra procede. Mas esse não é sempre o caso. Há termos que, durante séculos, foram adotados pela teologia, embora, ao mesmo tempo, retivessem sentidos religiosos, filosóficos e outros. Nes ta situação, o teólogo deve aplicar a racionalidade semântica. Um dos méritos do escolasticismo foi que ele se tomou, em última análise, um centro de clarificação semântica tanto para a teologia quanto para a filo sofia. E é uma deficiência freqüente e, às vezes, uma vergonha para a teologia modema o fato de utilizar conceitos não aclarados, mas ambí guos. Pode-se acrescentar, contudo, que o estado caótico das terminolo gias filosófica e científica toma essa situação mais ou menos inevitável. O princípio da racionalidade semântica não deve ser confundido com a tentativa de construir um formalismo pan-matemático. No reino da vida espiritual, as palavras não podem ser reduzidas a signos mate máticos, nem as proposições a equações matemáticas. O poder das pala vras que designam realidades espirituais está em suas conotações. A remoção destas conotações deixa um esqueleto que não tem sentido em âmbito algum. Neste caso, os positivistas lógicos estão certos em rejei tar estas palavras. Quando a teologia emprega um termo como ‘Espíri to”, estão presentes conotações que apontam para conceitos filosóficos e psicológicos de espírito, para a visão mágica do mundo na qual respi ração e espírito são idênticos, para a experiência místico-ascética do Espírito em oposição à matéria ou à carne, para a experiência religiosa do poder divino possuindo a mente humana. O princípio da racionalida de semântica não exige que essas conotações sejam excluídas, mas que a ênfase principal seja elaborada mediante a referência a suas conota ções. Assim, por exemplo, deve-se relacionar “Espírito” com “espírito” (com e minúsculo), excluir o sentido mágico primitivo e discutir as co notações místicas em relação às conotações personalistas, etc. Outro exemplo é o conceito “Novo Ser”. O termo “Ser” está ple no de conotações de caráter metafísico e lógico e tem implicações mís ticas quando usado em relação a Deus como ser-em-si. “Novo” em co nexão com “Ser” possui conotações de criatividade, regeneração, esca- tologia. Estes elementos de sentido sempre estão presentes quando se emprega uma expressão como “Novo Ser”. O princípio de racionalida de semântica exige que todas as conotações de uma palavra sejam cons cientemente relacionadas entre si e centradas em tomo do sentido pri mordial. Quando se emprega a palavra “história”, os diferentes níveis de seu sentido científico estão mais em evidência do que nos dois exem plos anteriores. Mas a ênfase especificamente modema sobre a história como progressiva, a ênfase especificamente profética em Deus como atuando através da história e a ênfase especificamente cristã no caráter histórico da revelação estão unidas aos sentidos científicos sempre que se discuta a história em um contexto teológico. Estes exemplos ilustram a enorme importância do princípio de racionalidade semântica para o teólogo sistemático. Eles também sugerem a dificuldade de aplicação deste princípio - dificuldade enraizada no fato de que todo termo teoló gico significativo incide em vários níveis de sentido e que todos eles contribuem para o sentido teológico. A situação semântica toma evidente que a linguagem do teólogo não pode ser uma linguagem sagrada ou revelada. Ele não pode se res tringir à terminologia bíblica ou à linguagem da teologia clássica. Não poderia evitar conceitos filosóficos mesmo que usasse tão-somente pa lavras bíblicas, poderia evitá-los menos ainda se empregasse apenas as palavras dos reformadores. Portanto, deveria usar termos filosóficos e científicos sempre que os julgar úteis para sua tarefa de explicar os con teúdos da fé cristã. As duas coisas que deve observar ao fazer isso são a clareza semântica e a pureza existencial. Ele deve evitar a ambigüidade conceituai e uma possível distorção da mensagem cristã pela intromis são de idéias anticristãs numa roupagem terminológica filosófica, cien tífica ou poética. O segundo princípio que determina o caráter racional da teologia é a racionalidade lógica. Este princípio se refere sobretudo às estrutu ras que determinam qualquer discurso significativo e que são formula das na disciplina da lógica. A teologia depende da lógica formal tanto quanto qualquer outra ciência. Este princípio deve ser mantido contra os protestos da filosofia assim como da teologia. O protesto filosófico contra a posição controladora da lógica for mal foi feito em nome do pensamento dialético. Na dialética, sim e não, afirmação e negação, requerem um ao outro. Mas, na lógica formal, eles se excluem mutuamente. Contudo, não há conflito real entre a dialética e a lógica formal. A dialética segue o movimento do pensamento ou o movimento da realidade através do sim e do não, mas ela o descreve em termos logicamente corretos. Sempre se usa o mesmo conceito no mes mo sentido. E se o sentido do conceito muda, o dialético descreve, de forma logicamente correta, a necessidade intrínseca que conduz do ve lho para o novo. A lógica formal não é contradita quando Hegel descre ve a identidade do ser e do não-ser ao mostrar o vazio absoluto do puro ser no pensamento reflexivo. Tampouco se contradiz a lógica formal quando, no dogma da trindade, a vida divina é descrita como uma trin dade dentro da unidade. A doutrina da trindade não afirma o absurdo lógico de que três é um e um é três. Ela descreve, em termos dialéticos, o movimento interno da vida divina como uma eterna separação de si mesma e um retomo a si mesma. Não se espera que a teologia aceite uma combinação absurda de palavras, isto é, puras contradições lógi cas. O pensamento dialético não está em conflito com a estrutura do pensamento. Ele transforma a ontologia estática subjacente ao sistema de Aristóteles e seus seguidores em uma ontologia dinâmica, ampla mente influenciada por motivos voluntaristas e históricos enraizados na interpretação cristã da existência. Esta mudança na ontologia abre no vas perspectivas para a tarefa da lógica em descrever e interpretar a estrutura do pensamento, pois ela coloca de forma nova a questão da relação entre a estrutura do pensamento e a estrutura do ser. A dialética teológica não viola o princípio da racionalidade lógi ca. O mesmo é verdadeiro das afirmações paradoxais na religião e na teologia. Quando Paulo descreve sua situação de apóstolo e a dos cris tãos em geral com uma série de paradoxa (2 Coríntios), não pretende dizer algo ilógico; tenciona dar expressão adequada, compreensível e, portanto, lógica às infinitas tensões da existência cristã. Quando ele fala do paradoxo da justificação do pecador (na fórmula de Lutero, simul justus et peccator [“simultaneamente justo e pecador”]), e quando João fala do Logos se tomando carne (mais tarde expresso nos paradoxa do Credo de Calcedônia), nenhum deles tem a intenção de incorrer em con tradições lógicas15. Ambos querem expressar a convicção de que o agir de Deus transcende todas as possíveis expectativas humanas e todas as suas necessárias preparações. Ele transcende, mas não destrói a razão finita, pois Deus atua através do Logos, a fonte transcendental e trans cendente da estrutura de logos do pensamento e do ser. Deus não aniqui la asexpressões de seu próprio Logos. O termo “paradoxo” deveria ser definido cuidadosamente, e a linguagem paradoxal deveria ser usada com discriminação. Paradoxal significa “contra a opinião”, isto é, a opi nião da razão finita. O paradoxo aponta para o fato de que, no agir de Deus, a razão finita é superada, mas não aniquilada. Ele expressa este fato em termos que não são logicamente contraditórios, mas que apon tam para além do âmbito em que a razão finita é aplicável. Isto é indica do pelo estado extático em que todos os paradoxa teológicos bíblicos e clássicos se apresentam. A confusão começa quando se reduzem esses paradoxa ao plano de genuínas contradições lógicas e quando se pede que as pessoas sacrifiquem sua razão e aceitem combinações absurdas de palavras como sendo sabedoria divina. Mas o cristianismo não exige essa “boa obra” intelectual de ninguém, assim como não pede as “boas obras” de um ascetismo artificial. Existe, em última análise, só um para doxo genuíno na mensagem cristã: o aparecimento daquilo que vence a 15 O erro de Emil Brunner em The Mediator é tomar a ofensa da racionalidade lógica o critério da verdade cristã. Esta “ofensa” não é nem a de Kierkegaard nem a do Novo Testamento. existência sob as condições da existência. A encarnação, a redenção, a justificação, etc., estão implícitas neste evento paradoxal. Não é uma contradição lógica que o toma um paradoxo, mas o fato de transcender todas as expectativas e possibilidades humanas. Ele irrompe no contex to da experiência e da realidade, mas não pode ser derivado delas. A aceitação deste paradoxo não é a aceitação do absurdo, mas é o estado de ser possuído pelo poder daquilo que irrompe em nossa experiência a partir de cima. O paradoxo em religião e teologia não conflita com o princípio da racionalidade lógica. O paradoxo tem seu lugar lógico. O terceiro princípio que determina o caráter racional da teologia sistemática é o princípio da racionalidade metodológica. Ele implica que a teologia segue um método, isto é, um caminho definido de derivar e afirmar suas proposições. O caráter deste método depende de muitos fatores não-racionais (veja cap. 1). Mas, uma vez estabelecido, ele deve ser trilhado racional e consistentemente. A expressão final de coerência na aplicação da racionalidade metodológica é o sistema teológico. Se o título ‘Teologia Sistemática” tem alguma justificativa, o teólogo siste mático não deve ter medo do sistema. É função da forma sistemática garantir a consistência das afirmações cognitivas em todos os âmbitos do conhecimento metodológico. Neste sentido, alguns dos mais apaixo nados detratores do sistema são os mais sistemáticos na totalidade de seus enunciados. E não é raro que aqueles que atacam a forma sistemá tica se mostrem muito impacientes quando descobrem uma inconsistên cia no pensamento de alguém. Por outro lado, é fácil descobrir lacunas no sistema mais equilibrado, porque a vida continuamente rompe o in vólucro sistemático. Poder-se-ia dizer que encontramos, em cada siste ma, um fragmento de vida e de visão prolongado, para cobrir inclusive domínios dos quais estão ausentes a vida e a visão. E, inversamente, poder-se-ia dizer que, em cada fragmento, está implícito um sistema que ainda não foi desenvolvido. O sistema imponente de Hegel, inclusive sua dialética da religião e do estado, foi construído sobre seus parágra fos fragmentários anteriores sobre a dialética da vida. O “sangue” de seu sistema, bem como suas imensas conseqüências históricas, estavam enraizados nesta visão fragmentária da existência. O que mais tarde es creveu com a ajuda de seu instrumental lógico não demorou a se tomar obsoleto. Os muitos fragmentos de Nietzsche parecem ser permanente mente contraditórios, mas em todos eles está implícito um sistema cuja força demoníaca se tomou manifesta no século 20. Um fragmento é um sistema implícito; um sistema é um fragmento explícito. Freqüentemente, ataca-se a forma sistemática desde três pontos de vista. O primeiro ataque se baseia em uma confusão entre “sistema” e “sistema dedutivo”. A história da ciência, filosofia e teologia mostra que muito raramente se tentou construir um sistema dedutivo, exceto no campo da matemática. Spinoza o tentou em sua Ética, que elaborou more geometrico. Ele foi planejado, embora não executado, por Leibniz quando sugeriu uma mathesis universalis que descreveria o cosmos em termos matemáticos. Físicos clássicos, tendo alcançado seus princípios induti vamente, tentaram ser dedutivamente sistemáticos, mas de novo em ter mos matemáticos. Com exceção de Raimundo Lúlio, a teologia nunca tentou construir um sistema dedutivo da verdade cristã. Por causa do caráter existencial da verdade cristã, tal tentativa teria sido uma contra dição em termos. Um sistema é uma totalidade que se compõe não de proposições deduzidas, e sim consistentes. A segunda crítica ao sistema é que ele parece fechar as portas à pesquisa ulterior. Por trás deste sentimento está a violenta reação com que a ciência, desde a segunda metade do século 19, se opôs à filosofia romântica da natureza. Esta reação agora já perdeu seu ímpeto e não deveria determinar nem nossa atitude diante das conquistas científicas da filosofia da natureza (por exemplo, na doutrina do ser humano e na psicologia do inconsciente), nem nossa atitude diante da forma sistemá tica em todos os âmbitos do conhecimento. É um fato histórico que os grandes sistemas estimularam a pesquisa pelo menos tanto quanto a ini biram. O sistema confere sentido a um conjunto de afirmações factuais ou racionais, mostrando suas implicações e conseqüências. A partir des ta visão global e das dificuldades envolvidas em sua efetivação, surgem novas perguntas. O balanço das conseqüências positivas e negativas do “sistema” para a pesquisa empírica está, no mínimo, equilibrado. A terceira razão para a hostilidade contra o sistema é, em grande parte, emocional. O sistema se parece com uma prisão em que se abafa a criatividade da vida espiritual. A aceitação de um sistema parece proi bir quaisquer “aventuras nas idéias”. A história mostra que esse não é o caso. As grandes escolas da filosofia grega produziram muitos discípu los criativos que permaneceram na escola, aceitaram o sistema no qual ela se baseava e, ao mesmo tempo, transformaram as idéias de seu fun dador. O mesmo podemos dizer das escolas teológicas do século 19. A história do pensamento humano foi, e ainda continua sendo, idêntica à história dos grandes sistemas. Podemos concluir a exposição do caráter sistemático da teologia sistemática e de sua racionalidade metodológica fazendo uma distinção entre três termos. O sistema se situa entre a summa e o ensaio. A summa trata explicitamente de todos os problemas reais e de muitos problemas potenciais. O ensaio trata explicitamente de um problema real. O siste ma trata de um grupo de problemas reais que exigem uma solução em uma situação especial. Na Idade Média, a summa era predominante, embora não de modo exclusivo. No início do período moderno, o ensaio se tomou predominante, embora a tendência sistemática nunca tenha deixado de existir. Hoje em dia, o caos de nossa vida espiritual e a im possibilidade de criar uma summa fizeram com que surgisse a necessi dade da forma sistemática. 12 .0 método de correlação O princípio de racionalidade metodológica implica que a teologia sistemática, como todas as abordagens científicas à realidade, siga um método. O método é um instrumento, literalmente um “caminho em tor no de”, que deve ser adequado a seu assunto. Não se pode decidir a priori se um método é ou não adequado. Isto se decide continuamente no próprio processo cognitivo. Método e sistema se determinam mutua mente. Por isso, nenhum método pode reivindicar ser adequado para todo e qualquer assunto. O imperialismo metodológico é tão perigoso quanto o imperialismo político. Como esse último, ele se desfazquando os elementos independentes da realidade se revoltam contra ele. Um método não é uma “rede indiferente” com que se prende a realidade, mas um elemento da própria realidade. Em pelo menos um sentido a descrição de um método é a descrição de um aspecto decisivo do objeto ao qual se aplica. A própria relação cognitiva, independentemente de qualquer ato cognitivo específico, revela algo tanto sobre o objeto quan to sobre o sujeito da relação. Na física, a relação cognitiva revela o caráter matemático dos objetos no espaço (e no tempo). Na biologia, a relação cognitiva revela a estrutura (Gestalt) e o caráter espontâneo dos objetos no tempo e no espaço. Na historiografia, a relação cognitiva revela o caráter individual e axiológico dos objetos no tempo (e no espa ço). Na teologia, a relação cognitiva revela o caráter existencial e trans cendente do fundamento dos objetos no tempo e espaço. Portanto, ne nhum método pode ser desenvolvido sem um conhecimento prévio do objeto ao qual se aplica. Para a teologia sistemática, isto significa que seu método se deriva de um conhecimento prévio do sistema que se vai construir sobre esse método. A teologia sistemática usa o método de correlação. Ela sempre o empregou, de forma às vezes mais, às vezes menos consciente, mas deve fazê-lo de forma consciente e explícita, especialmente se há de prevale cer o ponto de vista apologético. O método de correlação explica os conteúdos da fé cristã através de perguntas existenciais e de respostas teológicas em interdependência mútua. O termo “correlação” pode ser usado de três maneiras. Ele pode designar a correspondência de diferentes séries de dados, como em re gistros estatísticos. Pode designar a interdependência lógica de concei tos, como em relações polares, e pode designar a interdependência real de coisas ou eventos em conjuntos estruturais. Se este termo é usado na teologia, todos os três sentidos têm aplicações importantes. Há uma cor relação no sentido de correspondência entre símbolos religiosos e aqui lo que é simbolizado por eles. Há uma correlação no sentido lógico en tre conceitos que denotam o humano e aqueles que denotam o divino. E há uma correlação no sentido fatual entre a preocupação última do ser humano e aquilo pelo que ele se preocupa de forma última. O primeiro sentido de correlação se refere ao problema central do conhecimento religioso (Parte 1, Seção I). O segundo sentido de correlação determina as afirmações sobre Deus e o mundo; por exemplo, a correlação do infi nito e do finito (Parte 2, Seção I). O terceiro sentido de correlação qua lifica a relação divino-humana dentro da experiência religiosa16. O ter ceiro uso do pensamento correlativo na teologia provocou o protesto de teólogos como Karl Barth, porque temem que qualquer tipo de correla ção divino-humana tome Deus parcialmente dependente do ser huma no. Mas embora Deus, em sua natureza abismal17, de forma alguma de penda do ser humano, Deus em sua automanifestação ao ser humano é dependente da forma em que o ser humano recebe sua manifestação. Isto é verdadeiro mesmo que se sustente a doutrina da predestinação, isto é, que esta recepção é predeterminada por Deus e de todo indepen dente da liberdade humana. A relação divino-humana, e assim tanto Deus quanto o ser humano dentro da relação, muda com os estágios da histó ria da revelação e de todo desenvolvimento pessoal. Há uma interdepen dência mútua entre “Deus para nós” e “nós para Deus”. A ira de Deus e a graça de Deus não são contrastes no “coração” de Deus (Lutero), na profundidade de seu ser, mas eles são contrastes na relação divino-hu mana. A relação divino-humana é uma correlação. O “encontro divino- humano” (Brunner) significa algo real para ambos os lados. E uma corre lação real, no terceiro sentido do termo. A relação divino-humana é uma correlação também em seu as pecto cognitivo. Simbolicamente falando. Deus responde às perguntas do ser humano, e, sob o impacto das respostas de Deus, o ser humano formula suas perguntas. A teologia faz as perguntas implícitas na exis tência humana, e a teologia formula as respostas implícitas na automa nifestação divina guiando-se pelas perguntas implícitas na existência humana. Isto é um círculo que conduz o ser humano a um ponto em que pergunta e resposta não estão separadas. Este ponto, contudo, não é um momento no tempo. Ele pertence ao ser essencial do ser humano, à uni dade de sua finitude com a infinitude na qual ele foi criado (veja Parte 2) e da qual se encontra separado (veja Parte 3). Um sintoma tanto da unidade essencial quanto da separação existencial do ser humano finito 16 Lutero: “Como o crês, o tens.” 17 Calvino: “Em sua essência”. com relação à sua infmitude é sua capacidade de perguntar pelo infinito ao qual ele pertence: o fato de que precisa perguntar pelo infinito indica que se encontra separado dele. As respostas implícitas no evento da revelação só são significati vas na medida em que estejam em correlação com questões que dizem respeito à totalidade de nossa existência, com questões existenciais. Só as pessoas que experimentaram o choque da transitoriedade, a angústia na qual se tomam conscientes de sua finitude, a ameaça do não-ser, podem entender o que significa a palavra de Deus. Só as que experimen taram as ambigüidades trágicas de nossa existência histórica e questio naram totalmente o sentido da existência podem compreender o que significa o símbolo do Reino de Deus. A revelação responde perguntas que foram formuladas e sempre serão formuladas, pois estas perguntas somos “nós mesmos”. O ser humano é a pergunta que ele formula a respeito de si mesmo, antes que qualquer pergunta tenha sido formula da. Não surpreende, pois, que as perguntas básicas tenham sido formu ladas muito cedo na história da humanidade. Toda análise do material mitológico mostra isto18. Tampouco surpreende que as mesmas pergun tas apareçam na primeira infância, como qualquer observação de crian ças toma evidente. Ser humano significa formular as perguntas acerca do próprio ser e viver sob o impacto das respostas dadas a estas pergun tas. E, inversamente, ser humano significa receber respostas à pergunta do próprio ser e formular perguntas sob o impacto das respostas. Ao usar o método de correlação, a teologia sistemática procede da seguinte maneira: faz uma análise da situação humana a partir da qual surgem as perguntas existenciais e demonstra que os símbolos usados na mensagem cristã são as respostas a estas perguntas. A análise da situação humana é feita em termos que hoje chamamos de “existenciais”. Essas análises são bem mais antigas do que o existencialismo. Na verdade, são tão antigas quanto a reflexão do ser humano sobre si mesmo e foram ex pressas em várias formas de conceitualização desde o começo da filoso fia. Sempre que o ser humano contemplou seu mundo, ele se descobriu como parte dele. Mas também compreendeu que é um estranho no mundo dos objetos, incapaz de penetrá-lo além de um certo nível de análise cien tífica. E então tomou consciência do fato de que ele mesmo é a porta de acesso para os níveis mais profundos de realidade, de que, em sua própria existência, ele tem a única possibilidade de ter acesso à existência em si19. 18 Cf. H. GUNKEL, The Legends o f Genesis, Chicago: Open Court, 1901. 19 Cf. a doutrina agostiniana da verdade que habita na alma e, ao mesmo tempo, a transcen de; a identificação mística do fundamento do ser com o fundamento do eu; o uso de cate gorias psicológicas para finalidades ontológicas em Paracelso, Böhme, Schelling e na “filosofia da vida” de Schopenhauer a Bergson; a noção heideggeriana do Dasein (estar aí) como a forma da existência humana e o acesso à ontologia. Isto não significa que o ser humano seja mais acessível do que outros objetos como material de pesquisa científica. Muito pelo contrário! Sig nifica que a experiência imediata do próprio existir revela algoda natu reza da existência em geral. Quem quer que tenha penetrado na natureza de sua própria finitude pode encontrar traços da finitude em tudo o que existe. E pode formular a pergunta implícita em sua finitude como a pergunta universalmente implícita na finitude. Ao fazê-lo, ele não for mula uma doutrina do ser humano; expressa uma doutrina da existência como ele a experimentou em si mesmo como ser humano. Quando Cal- vino, nas sentenças iniciais de suas Instituías, correlaciona nosso co nhecimento de Deus com nosso conhecimento do ser humano, não fala da doutrina do ser humano como tal nem da doutrina de Deus como tal. Ele fala da miséria do ser humano, que dá a base existencial para sua compreensão da glória de Deus. E fala da glória de Deus, que dá a base essencial para a compreensão que o ser humano tem de sua miséria. O ser humano como existente, representando a existência em geral e for mulando a pergunta implícita em sua existência, é um lado da correla ção cognitiva de que fala Calvino, enquanto que o outro lado é a majes tade divina. Nas frases iniciais de seu sistema teológico, Calvino ex pressa a essência do método de correlação20. A análise da situação humana emprega materiais disponibiliza dos pela auto-interpretação criativa do ser humano em todos os âmbitos da cultura. A filosofia contribui, mas também a poesia, o drama, o ro mance, a psicoterapia e a sociologia. O teólogo organiza estes materiais em relação com a resposta dada pela mensagem cristã. À luz desta men sagem, ele pode fazer uma análise da existência que é mais penetrante do que a da maioria dos filósofos. Ela permanece, porém, uma análise filosófica. A análise da existência, inclusive o desenvolvimento das per guntas implícitas na existência, é uma tarefa filosófica, mesmo se reali zada por um teólogo e mesmo se esse teólogo for um reformador como Calvino. A única diferença entre o filósofo que não é teólogo e o teólogo que trabalha como filósofo ao analisar a existência humana é que o pri meiro tenta fornecer uma análise que será parte de um trabalho filosófi co mais amplo, enquanto que o segundo tenta correlacionar o material de sua análise com os conceitos teológicos que deriva de sua fé cristã. Isso não converte em heterônomo o trabalho filosófico do teólogo. Como teólogo, ele não determina o que é filosoficamente verdadeiro. Como filósofo, não determina o que é teologicamente verdadeiro. Mas ele não 20 "O conhecimento de nós mesmos não é só um incitamento para buscar a Deus, mas igual mente uma ajuda considerável para encontrá-lo. Por outro lado, fica claro que ninguém chega ao conhecimento verdadeiro de si mesmo sem ter contemplado primeiro o caráter divino e ter descido depois à consideração de si mesmo” (João Calvino, Instituías, 1,48). pode deixar de considerar a existência humana e a existência em geral de tal forma que os símbolos cristãos lhe pareçam significativos e com preensíveis. Seu olhar está parcialmente focalizado por sua preocupa ção última. Isto vale para todo filósofo. Mas seu ato de ver é autônomo, pois é determinado só pelo objeto como lhe é dado em sua experiência. Se vê algo que não esperava ver à luz de sua resposta teológica, ele se agarra firme àquilo que viu e reformula a resposta teológica. Ele está seguro de que nada do que vê pode mudar a substância de sua resposta, pois esta substância é o logos do ser, manifesto em Jesus como o Cristo. Se esta não fosse sua pressuposição, ele teria que sacrificar ou sua inte gridade filosófica ou sua preocupação teológica. A mensagem cristã fornece as respostas às perguntas implícitas na existência humana. Estas respostas estão contidas nos eventos reve- latórios sobre os quais se fundamenta o cristianismo, e a teologia siste mática as toma das fontes, através do meio, sob a norma. Seu conteúdo não pode ser derivado das perguntas, isto é, de uma análise da existência humana. Elas são “ditas” à existência humana desde mais além dela. Do contrário, não seriam respostas, pois a pergunta é a própria existência humana. Mas a relação é mais profunda do que isso, porque é correla ção. Há uma dependência mútua entre pergunta e resposta. Quanto ao conteúdo, as respostas cristãs são dependentes dos eventos revelatórios nos quais elas aparecem. Quanto à forma, são dependentes da estrutura das perguntas às quais respondem. Deus é a resposta implícita na ques tão da finitude humana. Esta resposta não pode ser derivada da análise da existência. Mas se a noção de Deus aparece na teologia sistemática em correlação com a ameaça do não-ser implícita na existência, Deus deve ser chamado de poder infinito de ser que resiste à ameaça do não- ser. Na teologia clássica, é o ser-em-si. Se definimos angústia como a consciência de ser finito, Deus deve ser chamado de fundamento infinito da coragem. Na teologia clássica, é a providência universal. Se a noção de Reino de Deus aparece em correlação com o enigma de nossa existência histórica, ele deve ser chamado de sentido, plenitude e unidade da histó ria. Desta forma, obtém-se uma interpretação dos símbolos tradicionais do cristianismo que preserva o poder destes símbolos e os abre às pergun tas elaboradas pela nossa presente análise da existência humana. O método de correlação substitui três métodos inadequados de relacionar os conteúdos da fé cristã com a existência espiritual do ser humano. O primeiro método pode ser chamado de supranaturalista, pois ele interpreta a mensagem cristã como sendo uma soma de verdades reveladas que caíram sobre a situação humana como corpos estranhos procedentes de um mundo estranho. Não é possível nenhuma mediação para chegar à situação humana. Estas mesmas verdades criam uma nova situação antes que possam ser recebidas. O ser humano precisa se tomar algo mais do que humano para receber a divindade. Em termos das here sias clássicas, poder-se-ia dizer que o método supranaturalista apresenta traços docético-monofisitas, especialmente em sua valoração da Bíblia como um livro de “oráculos” supranaturais no qual a receptividade hu mana é completamente ignorada. Mas o ser humano não pode receber respostas para perguntas que jamais formulou. Ademais, o ser humano formulou e formula, em sua própria existência e em cada uma de suas criações espirituais, perguntas a que o cristianismo responde. O segundo método a ser rejeitado pode ser chamado “naturalista” ou “humanista”. Ele deriva a mensagem cristã do estado natural do ser humano. Desenvolve suas respostas a partir da existência humana sem perceber que a própria existência humana é a pergunta. Grande parte da teologia liberal nos dois últimos séculos foi “humanista” neste sentido. Ela identificou o estado essencial do ser humano com o estado existen cial, ignorando a ruptura entre ambos, refletida na condição humana universal de auto-alienação e autocontradição. Teologicamente, isto sig nifica que os conteúdos da fé cristã foram explicados como criações da auto-realização religiosa do ser humano no processo progressivo da his tória religiosa. Perguntas e respostas foram colocadas no mesmo plano da criatividade humana. Tudo foi dito pelo ser humano, nada ao ser humano. Mas a revelação é “dita” ao ser humano, não pelo ser humano a si mesmo. O terceiro método a ser rejeitado pode ser chamado de “dualista”, na medida em que constrói uma estrutura supranaturalista em cima de uma subestrutura natural. Este método, mais do que os outros, está cons ciente do problema que o método de correlação tenta resolver. Ele se dá conta de que, apesar do abismo infinito entre o espírito humano e o espírito de Deus, deve haver uma relação positiva entre eles. Tenta ex pressar esta relação apresentando um corpo de verdades teológicas que o ser humano pode alcançar através de seus próprios esforços ou, em termos de uma expressão autocontraditória, através da “revelação natu ral”. As chamadas provas da “existência de Deus”, outro termo autocon-traditório, constituem a seção mais importante da teologia natural. Estas provas são verdadeiras (veja Parte 2, Seção I) na medida em que anali sam a finitude humana e a pergunta implícita nela. São falsas na medida em que derivam uma resposta da forma da pergunta. Esta mistura de verdade e falsidade na teologia natural explica por que sempre houve grandes filósofos e teólogos que atacaram a teologia natural, especial mente as provas da existência de Deus, e por que houve outros, igual mente grandes, que as defenderam. O método de correlação resolve este enigma histórico e sistemático, reduzindo a teologia natural a uma aná lise da existência e reduzindo a teologia supranaturalista a respostas dadas às perguntas implícitas na existência. 80 - Teologia sistemática 13.0 sistema teológico A estrutura do sistema teológico vem determinada pelo método de correlação. Este método requer que cada parte do sistema inclua uma seção em que se desenvolve a pergunta mediante uma análise da exis tência humana e da existência em geral e uma seção em que se dá a resposta teológica com base nas fontes, no meio e na norma da teologia sistemática. Esta divisão deve ser mantida. Ela é a espinha dorsal da estrutura do presente sistema. Poder-se-ia pensar em uma seção que mediasse as duas seções prin cipais interpretando materiais históricos, sociológicos e psicológicos à luz tanto das perguntas existenciais quanto das respostas teológicas21. Mas já que esses materiais das fontes da teologia sistemática não são usados tal como aparecem em seu contexto histórico, sociológico e psicológico, e sim em termos de seu significado para a solução sistemática, eles perten cem à resposta teológica e não constituem uma seção à parte. Em cada uma das cinco partes do sistema que derivam da estrutu ra da existência em correlação com a estrutura da mensagem cristã, as duas seções se correlacionam. Na medida em que a existência humana tem o caráter de autocontradição ou alienação, exige-se em sua análise uma dupla consideração, por um lado tratando do ser humano tal como é essencialmente (e deveria ser), e por outro lado tratando daquilo que ele é em sua existência auto-alienada (e não deveria ser). Tais conside rações correspondem à distinção cristã entre o âmbito da criação e o âmbito da salvação. Por isso, uma parte do sistema deve apresentar uma análise da natureza essencial do ser humano (junto com a natureza es sencial de tudo o que tem ser) e da questão implícita na finitude do ser humano e na finitude em geral, e deve nos dar a resposta que é Deus. Esta parte, portanto, se intitula “O ser e Deus”. Uma segunda parte do sistema deve apresentar uma análise da auto-alienação existencial do ser humano (junto com os aspectos autodestrutivos da existência em geral) e da questão implícita nesta situação, e deve dar a resposta que é Cristo. Esta parte, portanto, é chamada de “A existência e o Cristo”. Uma terceira parte se baseia no fato de que tanto as características es senciais quanto as existenciais são abstrações que, na realidade, apare cem na unidade complexa e dinâmica que chamamos de “vida”. O poder do ser essencial está ambiguamente presente em todas as distorções exis tenciais. A vida, isto é, o ser em sua concretude, manifesta este caráter em todos os seus processos. Portanto, esta parte do sistema deve propor- cionar-nos uma análise do ser humano como ser vivo (junto com a vida 21 Em esboços anteriores, especialmente nas “Proposições” preparadas para minhas prele- ções, sempre estava inserida uma seção dessas. em geral) e da questão implícita nas ambigüidades da vida, e deve dar a resposta que é o Espírito. Esta parte, portanto, é chamada de “A vida e o Espírito”. Estas três partes compõem o corpo principal da teologia siste mática. Elas abarcam as respostas cristãs às perguntas da existência. Mas, por razões práticas, é necessário “arrancar” algum material de cada parte e combiná-lo para formar uma parte epistemológica. Esta parte do sistema deve nos oferecer uma análise da racionalidade do ser humano, especialmente de sua racionalidade cognitiva (junto com a estrutura raci onal da realidade como um todo) e das questões implícitas na finitude, na auto-alienação e nas ambigüidades da razão, e deve dar a resposta que é a revelação. Esta parte, portanto, é chamada de “A razão e a revelação”. Finalmente, a vida tem uma dimensão que se chama “história”. E é útil separar, da parte que fala da vida em geral, o material que trata do aspecto histórico da vida. Isto corresponde ao fato de que o símbolo “Reino de Deus” é independente da estrutura trinitária que determina as partes centrais. Esta parte do sistema deve nos proporcionar uma análise da existência histórica do ser humano (junto com a natureza do histórico em geral) e das questões implícitas nas ambigüidades da história, e deve dar a resposta que é o Reino de Deus. Esta parte é intitulada de “A história e o Reino de Deus”. Seria mais lógico começar com “O ser e Deus”, porque esboça a estrutura básica do ser e dá a resposta às questões implícitas nesta estru tura - resposta que determina todas as outras respostas - , pois a teologia é sobretudo doutrina sobre Deus. Mas, por várias razões, é necessário começar com a parte epistemológica “A razão e a revelação”. Primeiro, porque todo teólogo é perguntado: “Em que você baseia suas afirma ções? Que critérios, que provas você tem?” Isto toma necessária, já des de o início, uma resposta epistemológica. Segundo, o conceito de razão (e Razão) deve ser clarificado antes que se possam fazer afirmações que pressupõem que a razão se transcende a si mesma. Terceiro, a doutrina da revelação deve ser tratada logo no início, pois ela é pressuposta em todas as partes do sistema como a fonte última dos conteúdos da fé cris tã. Por esses motivos, “A razão e a revelação” deve iniciar o sistema, assim como, por razões óbvias, “A história e o Reino de Deus” deve encerrá-lo. Não se pode evitar que, em cada parte, se antecipem e repi tam elementos de outras partes. De certa forma, cada parte contém o todo sob uma perspectiva diferente, porque o presente sistema de forma nenhuma é dedutivo. O próprio fato de que, em cada parte, a questão é desenvolvida de forma nova toma impossível qualquer continuidade de dutiva. A revelação não nos é dada como um sistema, mas tampouco é incoerente. O teólogo sistemático pode, pois, interpretar sistematica mente aquilo que transcende todos os sistemas possíveis: a automani- festação do mistério divino. . Parte 1 A razão e a revelação A razão e a pergunta pela revelação A. A estrutura da razão 1. Os dois conceitos de razão A epistemologia, o “conhecimento” do conhecer, é uma parte da ontologia, a ciência do ser, pois o conhecer é um evento dentro da tota lidade dos eventos. Toda afirmação epistemológica é implicitamente on tológica. Portanto, é mais adequado começar uma análise da existência com a questão do ser, em vez de começar com o problema do conheci mento. Ademais, isso está em conformidade com a tradição clássica pre dominante. Mas há situações em que se deve seguir a direção contrária, ou seja, quando uma tradição ontológica se tomou tão duvidosa a ponto de surgir a pergunta se os instrumentos usados na criação dessa tradição são responsáveis por esse fracasso. Esta foi a situação do antigo proba- bilismo e do ceticismo na luta travada entre as diversas escolas filosófi cas. Essa foi a situação de Descartes frente às tradições medievais em vias de desintegração. Essa foi a situação de Hume e Kant com respeito à metafísica tradicional. Esta é a eterna situação da teologia, que sempre tem de prestar contas de suas vias de acesso ao conhecimento, porque elas parecem divergir radicalmente das vias ordinárias. Embora a epis temologia preceda a ontologia nestes exemplos, é um erro supor que a epistemologia seja capaz de oferecer um fundamento ao sistema filosó fico e teológico.Mesmo que ela preceda as outras partes do sistema, é dependente delas de tal forma que só pode ser elaborada antecipando-as explícita e implicitamente. Os filósofos neokantianos recentes reconhe ceram a dependência da epistemologia em relação à ontologia e contri buíram para o declínio da onda epistemológica que surgiu na segunda metade do século 19. A teologia clássica sempre esteve consciente de que uma doutrina da revelação pressupõe doutrinas de Deus, do ser hu mano, de Cristo, etc. Ela sempre soube que o “preâmbulo” epistemoló- gico depende da totalidade do sistema teológico. As tentativas recentes de transformar considerações metodológicaíe epistemológicas em base independente para o labor teológico têm sido inúteis1. Portanto, é nec ;s- 1 Veja a Introdução. sário que o teólogo sistemático, quando começar pela parte epistemoló- gica (a doutrina da Razão e Revelação), indique claramente tudo o que dá por pressuposto, tanto com respeito à razão quanto com respeito à revelação. Uma das maiores fraquezas de numerosos textos teológicos e de grande parte do discurso religioso reside na forma indeterminada e vaga com que empregam a palavra “razão”, forma que, às vezes, é apreciati va, mas, em geral, se mostra depreciativa. Ainda que se possa desculpar esta imprecisão na linguagem popular (embora ela comporte perigos religiosos), é indesculpável que um teólogo use termos sem tê-los defi nido ou circunscrito com toda a exatidão. Portanto, é necessário definir já desde o início o sentido em que se empregará o termo “razão”. Podemos distinguir entre um conceito ontológico e um conceito técnico de razão. O primeiro predomina na tradição clássica, desde Par- mênides até Hegel. O segundo, embora sempre tenha estado presente no pensamento pré-filosófico e filosófico, tomou-se predominante desde o colapso do idealismo alemão clássico e com o surgimento do empirismo inglês2. Conforme a tradição filosófica clássica, a razão é a estrutura da mente que a capacita a apreender e transformar a realidade. Ela é efetiva nas funções cognitiva, estética, prática e técnica da mente humana. Nem sequer a vida emocional é irracional em si mesma. O eros impulsiona a mente rumo ao verdadeiro (Platão). O amor pela forma perfeita move todas as coisas (Aristóteles). Na “apatia” da alma, o logos manifesta sua presença (estóicos). A nostalgia por sua origem eleva a alma e a mente rumo à fonte inefável de todo sentido (Plotino). O appetitus de tudo que é finito o conduz ao bem-em-si (Tomás de Aquino). O “amor intelectu al” une intelecto e emoção no estado mais racional da mente (Spinoza). A filosofia é “serviço de Deus”, é um pensar que, ao mesmo tempo, é vida e alegria na “verdade ■absoluta” (Hegel), etc. A razão clássica é Logos, seja ela entendida de forma mais intuitiva ou mais crítica. Sua natureza cognitiva é um elemento entre outros, pois ela é cognitiva e estética, teórica e prática, distanciada e apaixonada, subjetiva e objeti va. A negação da razão no sentido clássico é anti-humana, porque é an- tidivina. Mas esse conceito ontológico de razão sempre é acompanhado, e às vezes substituído, pelo conceito técnico de razão. A razão é reduzida à capacidade de “raciocinar”; só perdura o lado cognitivo do conceito clássico de razão, e, no aspecto cognitivo, só perduram aqueles atos cognitivos que se ocupam em descobrir os meios adequados para alcan 2 Veja Max HORKHEIMER, The Eclipse o f Reason, New York / Oxford: Oxford University, 1947. çar certos fins. Enquanto a razão no sentido de Logos determina os fins e só em segundo lugar os meios, a razão no sentido técnico determina os meios e se limita a aceitar os fins que lhe são dados desde “fora dela mesma”. Não há perigo nesta situação enquanto a razão técnica estiver acompanhando a razão ontológica e enquanto for utilizado o “racioci nar” para satisfazer as exigências da razão. Esta situação prevaleceu na maior parte dos períodos pré-filosóficos e filosóficos da história huma na, embora sempre estivesse presente a ameaça de que o “raciocinar” se separasse da razão. Desde a metade do século 19, esta ameaça tomou-se uma realidade dominante. A conseqüência é que os fins são supridos por forças não-racionais, seja por tradições positivas ou por decisões arbi trárias a serviço da vontade de poder. A razão crítica deixou de exercer sua função controladora sobre normas e fms. Ao mesmo tempo, os as pectos não-cognitivos da razão foram relegados à irrelevância da pura subjetividade. Em algumas formas do positivismo lógico, o filósofo até mesmo se recusa a “compreender” tudo o que transcenda a razão técni ca, tomando assim sua filosofia completamente irrelevante para as ques tões de significação existencial. A razão técnica, por mais sutil que pos sa ser em seus aspectos lógicos e metodológicos, desumaniza o ser hu mano quando está separada da razão ontológica. E, além disso, a própria razão técnica se empobrece e se corrompe quando não se nutre continu amente da razão ontológica. Mesmo na estrutura meios/fins do “racioci nar”, pressupõem-se afirmativas sobre a natureza das coisas que, em si mesmas, não se baseiam na razão técnica. Não se podem compreender nem estruturas, nem processos gestálticos, nem valores, nem sequer sig nificados sem a razão ontológica. A razão técnica pode reduzi-los a algo menos do que sua verdadeira realidade. Mas, ao fazê-lo, ela priva a si mesma de percepções que são decisivas para a relação meios/fins. Sem dúvida, conhecemos muitos aspectos da natureza humana mediante a análise dos processos fisiológicos e psicológicos e mediante o uso de elementos fornecidos por essa análise para fins fisicotécnicos ou psico técnicos. Mas se reivindicamos conhecer o ser humano desta maneira, deixamos de entender não só a natureza humana, mas inclusive verda des decisivas sobre o ser humano dentro da relação meios/fins. E isto vale para todos os domínios da realidade. A razão técnica sempre teve uma função importante, mesmo na teologia sistemática. Mas só é ade quada e significativa como expressão da razão ontológica e como sua companheira. A teologia não necessita decidir-se a favor ou contra um destes dois conceitos de razão. Ela usa os métodos da razão técnica, a relação meios/fins, ao estabelecer um organismo de pensamento coe rente, lógico e corretamente derivado. Ela aceita os refinamentos dos métodos cognitivos aplicados pela razão técnica, mas rejeita a confusão entre razão técnica e ontológica. Por exemplo, a teologia não pode acei tar o auxílio da razão para “raciocinar” a existência de Deus. Tal Deus pertenceria à relação meios/fins. Ele seria menos do que Deus. Por ou tro lado, a teologia não se perturba com os ataques que a razão técnica faz à mensagem cristã, já que esses ataques não atingem o nível onde se encontra a religião. Eles podem destruir superstições, mas nem sequer tocam a fé. A teologia é (ou deveria ser) grata pela função crítica exerci da pela razão técnica, porque ela mostra que não existe “algo” como um Deus dentro do contexto das relações meios/fins. Objetos religiosos, vistos em termos do universo de discurso constituído pela razão técnica, são objetos de superstição, sujeitos a uma crítica destrutiva. Onde quer que domine a razão técnica, a religião é superstição, tanto se mantida neciamente pela razão quanto se corretamente rejeitada por ela. Embora a teologia use invariavelmente a razão técnica em seu labor sistemático, ela não pode evitar a questão de sua relação com a razão ontológica. Mas a questão tradicional envolvendo a relação entre razão e revelação não deveria ser discutida em nível de razão técnica, onde ela não constitui um verdadeiro problema, mas sim em nível de razão ontológica, de razão no sentido de logos. A razão técnica é um instrumento e, como todo instrumento, pode ser mais ou menos perfeito e pode ser usado com maior ou menor habilidade. Mas seu uso não implica qualquer problema existencial.A situação é totalmente diferen te no que tange à razão ontológica. O erro da filosofia idealista foi iden tificar a revelação com a razão ontológica, rejeitando, ao mesmo tempo, as reivindicações da razão técnica. Esta é a própria essência da filosofia idealista da religião. Em oposição ao idealismo, a teologia deve mostrar que, embora a essência da razão ontológica, o logos universal do ser, seja idêntica ao conteúdo da revelação, a razão efetiva no eu e no mundo é dependente das estruturas destrutivas da existência e das estruturas salvíficas da vida (Partes 3 e 4); está sujeita à finitude e à separação e pode participar do “Novo Ser”. Sua efetivação não é uma questão de técnica, mas de “queda” e “salvação”. Segue-se que o teólogo deve con siderar a razão desde várias perspectivas. Em teologia, deve-se distin guir não só razão técnica de razão ontológica, mas também a razão onto lógica em sua perfeição essencial dessa mesma razão nos seus diferen tes estágios de efetivação na existência, na vida e na história. O julga mento religioso de que a razão é “cega”, por exemplo, não se refere à razão técnica, que pode ver muito bem a maioria das coisas em seu pró prio âmbito. Tampouco se refere à razão ontológica em sua perfeição essencial, isso é, em unidade com o ser-em-si3. O julgamento de que a razão é cega se refere à razão sob as condições da existência. E o julga 3 Cf. o mito de Platão sobre a alma em seu estado original, contemplando as “idéias” ou essências eternas. mento de que a razão é fraca - em parte liberada da cegueira e em parte permanecendo nela - se refere à razão dentro da vida e da história. Se não fizermos essas distinções, toda afirmação sobre a razão é incorreta ou perigosamente ambígua. 2. Razão subjetiva e objetiva A razão ontológica pode ser definida como a estrutura da mente que a capacita a compreender e configurar a realidade. Desde o tempo de Parmênides, tem sido uma convicção comum de todos os filósofos que o logos, a palavra que apreende e configura a realidade, só pode fazê-lo porque a própria realidade tem o caráter de logos. Deram-se ex plicações bastante variadas da relação entre a estrutura de logos do eu que apreende e configura a estrutura de logos do mundo apreendido-e- configurado, mas admitiu-se, quase que com unanimidade, a necessida de de tal explicação. As descrições clássicas de como se relacionam a razão subjetiva e a razão objetiva - a estrutura racional da mente e a estrutura racional da realidade - agrupam-se em quatro grandes tipos. O primeiro conside ra a razão subjetiva como um efeito da totalidade da realidade sobre uma de suas partes, isto é, sobre a mente. Pressupõe-se que a realidade tenha o poder de produzir uma mente racional através da qual pode apre ender e configurar a si mesma. O realismo, seja ingênuo, crítico ou dog mático (materialismo), adota esta posição, muitas vezes sem reconhecer sua pressuposição básica. O segundo tipo considera a razão objetiva uma criação da razão subjetiva, que atua sobre uma matéria não estrutu rada na qual ela se efetiva a si mesma. O idealismo, seja nas formas estritas da antiga filosofia ou nas formas não-estritas da filosofia moder na, sustenta essa afirmação, muitas vezes sem dar qualquer explicação acerca da receptividade da matéria em relação ao poder estrutural da razão. O terceiro tipo afirma a independência ontológica e a interdepen dência funcional da razão subjetiva e da razão objetiva, apontando para a mútua realização de uma na outra. O dualismo ou o pluralismo, seja metafísico ou epistemológico, adota esta posição, muitas vezes sem le vantar a questão de uma unidade subjacente a ambas as razões, a subje tiva e a objetiva. O quarto tipo afirma uma identidade subjacente que expressa a si mesma na estrutura racional da realidade. O monismo, tanto o que descreve a identidade em termos de ser quanto aquele que o faz em termos de experiência (pragmatismo), assume esta posição, mui tas vezes sem explicar a diferença entre razão subjetiva e razão objetiva. O teólogo não está obrigado a tomar uma posição quanto ao grau de verdade destes quatro tipos. Contudo, ele deve levar em consideração suas pressuposições comuns quando usa o conceito de razão. Implicita- mente, os teólogos sempre fizeram isto. Eles falaram da criação através do Logos ou da presença de Deus em todo o real. Chamaram o ser humano de imagem de Deus por causa de sua estrutura racional e o encarregaram da tarefa de apreender e configurar o mundo. A razão subjetiva é a estrutura da mente que a capacita a apreen der e configurar a realidade apoiando-se em uma estrutura correspon dente da realidade (independentemente de como se explique essa cor respondência). A descrição do “apreender” e “configurar”, nesta defini ção, baseia-se no fato de que a razão subjetiva sempre se efetiva num eu individual que se relaciona com seu ambiente e seu mundo em termos de recepção e reação. A mente recebe e reage. Ao receber racionalmen te, a mente apreende seu mundo; ao reagir racionalmente, a mente con figura seu mundo. “Apreender”, neste contexto, tem a conotação de pe netrar na profundidade, na natureza essencial de uma coisa ou evento, de entendê-lo e expressá-lo. “Configurar”, neste contexto, tem a conota ção de transformar um material dado numa Gestalt, numa estrutura viva que tem o poder de ser. O “apreender” e o “configurar” da razão não excluem um ao ou tro. Todo ato de recepção racional implica um ato de configuração, e cada ato de reação racional implica um ato de apreensão. Transforma mos a realidade de acordo com nossa forma de vê-la e vemos a realidade de acordo com nossa maneira de transformá-la. Apreender e configurar o mundo são interdependentes. No âmbito cognitivo, isto foi expresso claramente no Quarto Evangelho, quando fala de conhecer a verdade fazendo a verdade4. Só na realização ativa da verdade é que a verdade se toma manifesta. De forma semelhante, Karl Marx chamou toda teoria que não se baseia no desejo de transformar a realidade de “ideologia”, ou seja, uma tentativa de preservar os males existentes mediante uma construção teórica que os justifique. Parte do impacto que o pensar ins trumental causou em nossos contemporâneos se deve à sua ênfase na unidade entre a ação e o conhecimento. Enquanto o aspecto cognitivo da “racionalidade receptiva” re quer uma discussão especial, o que já dissemos toma possível um exa me de todo o campo da razão ontológica. Em ambos os tipos de atos racionais, no apreender e no configurar, podemos discernir uma polari dade básica que se deve à presença, em todo ato racional, de um elemen to emocional. No lado receptivo da razão, encontramos uma polaridade entre os elementos cognitivos e estéticos. No lado reativo da razão, en contramos uma polaridade entre os elementos organizacionais e orgâni cos. Mas esta descrição do “campo da razão” só é preliminar. Cada uma 4 João 3.21. das quatro funções mencionadas inclui estágios de transição no cami nho que conduz a seu pólo oposto. A música se acha mais distante da função cognitiva do que o romance. A ciência técnica se acha mais dis tante do âmbito estético do que a biografia ou a ontologia. A comunhão pessoal está mais distanciada da organização do que a comunidade naci onal, e o direito mercantil está mais distante do âmbito orgânico do que o governo. Não devemos tentar construir um sistema estático das fun ções racionais da mente humana. Não há um limite claro entre elas, e existe muita mudança histórica em seu crescimento e suas relações. Mas todas elas são funções da razão ontológica, e o fato de que em algumas delas o elemento emocional seja mais decisivo do que em outras não as toma menos racionais. A música não é menos racional do que a matemá tica. O elemento emocional na música abre uma dimensão da realidade que se acha fechada para a matemática. A comunhão não é menos racio nal do que a lei. O elemento emocional nacomunhão abre uma dimen são da realidade que se acha fechada à lei. Há, sem dúvida, uma qualida de matemática implícita na música e uma qualidade jurídica potencial em todas as relações comunitárias. Mas esta não é sua essência. Elas têm suas próprias estruturas racionais. Este é o sentido da frase de Pas cal sobre as “razões do coração que a razão não pode compreender”5. Aqui, o termo “razão” é usado em duplo sentido. As “razões do cora ção” são as estruturas da experiência estética e de comunhão (beleza e amor); a razão “que não pode compreendê-las” é a razão técnica. A razão subjetiva é a estrutura racional da mente, enquanto a ra zão objetiva é a estrutura racional da realidade que a mente pode apre ender e de acordo com a qual pode configurar a realidade. A razão no filósofo apreende a razão na natureza. A razão no artista apreende o sentido das coisas. A razão no legislador configura a sociedade de acor do com as estruturas do equilíbrio social. A razão nos líderes de uma comunidade configura a vida comunitária de acordo com a estrutura da interdependência orgânica. A razão subjetiva é racional se, no duplo processo de recepção e reação, expressa a estrutura racional da realida de. Esta relação, seja ela descrita em termos ontológicos ou epistemoló- gicos, não é estática. Como o próprio ser, a razão une um elemento dinâ mico a um estático num amálgama indissolúvel. Isso se refere não só à razão subjetiva, mas também à objetiva. Tanto a estrutura racional da realidade quanto a estrutura racional da mente possuem duração na mudança e mudança na duração. O problema da razão efetiva, portanto, não é só evitar erros e falhas na apreensão e na configuração da realida de, mas também tomar efetiva a dinâmica da razão em todo ato da razão subjetiva e em todo momento da razão objetiva. 5 Blaise PASCAL, Pensées: Selection, 277. O perigo envolvido nesta situação é que a dinâmica da criativi dade racional pode ser confundida com as distorções da razão na exis tência. O elemento dinâmico da razão força a mente a assumir este ris co. Em todo ato racional, estão presentes três elementos: o elemento estático da razão, o elemento dinâmico da razão e a distorção existenci al de ambos. Portanto, é possível que a mente defenda algo como um elemento estático da razão que não seja mais que uma distorção dela ou ataque algo como distorcido que não seja mais que um elemento dinâmi co da razão. A arte acadêmica defende o elemento estático da razão estéti ca, mas em grande parte da arte acadêmica há uma distorção de algo que foi criativo e novo quando surgiu pela primeira vez e que foi atacado em sua origem como distorção dos ideais acadêmicos anteriores. O conserva dorismo social é uma distorção de algo que certa vez foi uma criação dinâmica e foi atacado no momento de seu surgimento como uma distor ção de ideais conservadores anteriores. Estes riscos são inevitáveis em todos os processos da razão efetiva, tanto na mente quanto na realidade. Devemos perguntar o que significa o elemento dinâmico na razão objetiva. É difícil saber se podemos falar sobre um elemento mutável dentro da estrutura da realidade. Ninguém duvida de que a realidade muda, mas muitas pessoas pensam que a mudança só é possível porque a estrutura da realidade é imutável. Se fosse assim, a estrutura racional da própria mente seria imutável, e o processo racional teria então só dois elementos: o elemento estático e o fracasso em apreendê-lo e con figurá-lo adequadamente. Dever-se-ia descartar totalmente o elemento dinâmico da razão, se somente a razão subjetiva fosse dinâmica. A pró pria realidade cria possibilidades estruturais dentro de si mesma. A vida, assim como a mente, é criativa. Só podem viver aquelas coisas que in corporam uma estrutura racional. Os seres vivos são ensaios exitosos da natureza para se efetivar de acordo com as exigências da razão objetiva. Se a natureza não segue estas exigências, seus produtos serão ensaios frustrados. O mesmo é verdadeiro para as formas jurídicas e as relações sociais. Novos produtos do processo histórico são ensaios que só podem ter êxito se seguirem as exigências da razão objetiva. Nem a natureza nem a história podem criar algo que contradiga a razão. O novo e o velho na história e na natureza estão unidos em uma surpreendente uni dade racional, que é estática e dinâmica ao mesmo tempo. O novo não rompe esta unidade. Ele não pode fazê-lo porque a razão objetiva é a possibilidade estrutural, o logos do ser. 3. A profundidade da razão A profundidade da razão é a expressão de algo que não é a razão, mas que a precede e se manifesta através dela. A razão, tanto em sua estrutura objetiva quanto subjetiva, aponta para algo que aparece nestas estruturas, mas que as transcende em poder e significação. Não se trata de outro campo da razão que pudesse ser progressivamente descoberto e expresso, mas daquilo que se expressa através de toda expressão racio nal. Poderíamos chamá-lo a “substância” que aparece na estrutura raci onal, ou o “ser-em-si” que se manifesta no logos do ser, ou o “funda mento” que é criativo em toda criação racional, ou o “abismo” que não pode ser esgotado por nenhuma criação nem pela totalidade delas, ou a “potencialidade infinita de ser e de sentido” que se derTama nas estrutu ras racionais da mente e da realidade, efetivando e transformando as mesmas. Todos esses termos que apontam para o que “precede” a razão têm caráter metafórico. “Preceder” também é metafórico e assim é, ne cessariamente, porque se estes termos fossem usados em seu sentido próprio pertenceriam à razão e não a precederiam. Embora só seja possível uma descrição metafórica da profundi dade da razão, as metáforas podem ser aplicadas aos vários âmbitos em que a razão se efetiva. No âmbito cognitivo, a profundidade da razão é sua qualidade de apontar para a verdade-em-si, isto é, ao poder infinito do ser e do ultimamente real, através das verdades relativas em todos os campos do conhecimento. No âmbito estético, a profundidade da razão é sua qualidade de apontar para a “beleza-em-si”, isto é, para um sentido infinito e um significado último, através das criações em todos os cam pos da intuição estética. No âmbito legal, a profundidade da razão é sua qualidade de apontar para a “justiça-em-si”, isto é, para uma seriedade infinita e uma dignidade última, através de todas as estruturas da justiça tomada efetiva. No âmbito comunitário, a profundidade da razão é sua qualidade de apontar para o “amor-em-si”, isto é, para uma riqueza infi nita e uma unidade última, através de todas as formas de amor tomado efetivo. Esta dimensão da razão, a dimensão de profundidade, é uma qualidade essencial de todas as funções racionais. E sua própria profun didade, tomando-as inexauríveis e dando-lhes grandeza. A profundidade da razão é aquela característica da razão que ex plica duas funções da mente humana, o mito e o culto, cujo caráter raci onal não se pode afirmar nem negar, porque apresentam uma estrutura independente que não pode ser reduzida a outras funções da razão nem ser derivada de elementos psicológicos ou sociológicos pré-racionais. O mito não é ciência primitiva, nem o culto é moralidade primitiva. Seu conteúdo, assim como a atitude das pessoas frente a eles, revela elemen tos que transcendem tanto a ciência quanto a moralidade - elementos de infinitude que exprimem preocupação última. Esses elementos estão es sencialmente implícitos em todo ato e processo racionais. Por isso, eles não requerem, a princípio, uma expressão separada. Em todo ato de apre ender a verdade, apreende-se implicitamente a verdade-em-si, e, em todo ato de amor transformador, o amor-em-si implicitamente transforma, etc. A profundidade da razão está manifesta de forma essencial na razão, mas está oculta na razão sob as condições da existência. Por causa des sas condições, a razão na existência se expressa a si mesma não somente em suasfunções próprias, mas também no mito e no culto. Em si, não deveria haver nem mito nem culto; eles contradizem a razão essencial. Eles mostram, por sua própria existência, o estado “caído” da razão que perdeu a unidade imediata com sua própria profundidade. Ela se tomou “superficial”, desvinculando-se de seu fundamento e abismo. O cristia nismo e o iluminismo concordam no julgamento de que não deveria haver mito nem culto, mas partem de pressupostos diferentes. O cristia nismo vislumbra um estado sem mito e sem culto, potencialmente no “começo” e efetivamente no “fim”, fragmentariamente e por antecipa ção no fluxo do tempo. O iluminismo vê o fim do culto e do mito num futuro novo, quando o conhecimento racional tiver vencido o mito e a moral racional tiver vencido o culto. O iluminismo e o racionalismo confundem a natureza essencial da razão com a situação da razão na existência. Essencialmente, a razão é transparente à profundidade em cada um de seus atos e processos. Na existência, essà transparência se toma opaca e é substituída pelo mito e pelo culto. Portanto, ambos são profundamente ambíguos do ponto de vista da razão existencial. As inu meráveis teorias que os definem, explicam ou eliminam são uma prova desta situação. Se ignorarmos as teorias meramente negativas, a maior parte das quais se baseiam em explicações psicológicas e sociológicas e são conseqüências da compreensão racionalista da razão, somos leva dos à seguinte alternativa: ou o mito e o culto são âmbitos especiais da razão junto com outros âmbitos ou representam a profundidade da razão de forma simbólica. Se os considerarmos como funções racionais especi ais que se agregam às outras, eles se acham em um conflito sem fim e insolúvel com essas outras funções. São tragados por elas, relegados à categoria de sentimentos irracionais ou tolerados como corpos estranhos, heterônomos e destrutivos, dentro da estrutura da razão. Se, contudo, con siderarmos o mito e o culto como expressões da profundidade da razão em forma simbólica, eles se encontram numa dimensão onde não é possí vel nenhuma interferência com as funções próprias da razão. Onde quer que se aceite o conceito ontológico da razão e se compreenda sua profim- didade, os conflitos entre mito e conhecimento, entre culto e móral dei xam de ser inevitáveis. A revelação não destrói a razão: é a razão que suscita a pergunta pela revelação6. 6 Para uma ampla exposição das formas simbólicas, veja p. 244-253. B. A razão na existência 4. A fínitude e as ambigüidades da razão efetiva A razão, como estrutura da mente e da realidade, toma-se efetiva nos processos do ser, da existência e da vida. O ser é finito, a existência é autocontraditória, e a vida é ambígua (veja Partes 2-4). A razão efetiva participa destas características da realidade. Ela atua através das catego rias finitas, dos conflitos autodestrutivos, das ambigüidades e da busca por aquilo que não é ambíguo, situado além do conflito e da sujeição às categorias. A natureza da razão finita é descrita de forma clássica por Nico- lau de Cusa e Immanuel Kant. O primeiro fala da docta ignorantia, a “ignorância esclarecida”, que reconhece a fínitude da razão do ser hu mano e sua incapacidade de compreender seu próprio fundamento infi nito. Mas, ao reconhecer esta situação, o ser humano tem, ao mesmo tempo, a consciência do infinito que está presente em todo finito, embo ra o transcenda infinitamente. A esta presença do fundamento inexaurí vel em todos os seres Cusa chama de “coincidência dos opostos”. Ape sar de sua fínitude, a razão está consciente de sua profundidade infinita. Ela não pode expressá-la em termos de conhecimento racional (ignorân cia), mas o conhecimento desta impossibilidade é conhecimento real (esclarecido). A fínitude da razão não está no fato de ela carecer de perfeição no apreender e configurar a realidade. Tal imperfeição, para a razão, é acidental. A fínitude é essencial para a razão, assim como é para tudo o que participa do ser. A estrutura desta fínitude está descrita da forma mais profunda e completa nas Críticas de Kant7. As categorias da experiência são categorias da fínitude. Elas não capacitam a razão hu mana a apreender a realidade-em-si. Mas capacitam o ser humano a apre ender seu mundo, a totalidade dos fenômenos que se apresentam a ele e constituem sua experiência efetiva. A principal categoria da fínitude é o tempo. Ser finito significa ser temporal. A razão não pode romper os limites da temporalidade e alcançar o eterno, como tampouco pode rom per os limites da causalidade, do espaço e da substância para alcançar a causa primeira, o espaço absoluto, a substância universal. Até aqui, a situação é exatamente a mesma que descreve Nicolau de Cusa: median te a análise da estrutura categórica da razão, o ser humano descobre a 7 É uma pena que se interprete Kant freqüentemente só como um idealista epistemológico e um formalista ético - e, conseqüentemente, seja rejeitado. Kant é mais do que isto. Sua doutrina das categorias é uma doutrina da fínitude humana, Sua doutrina do imperativo categórico é uma doutrina do elemento incondicional na profundidade da razão prática. Sua doutrina do princípio teleológico na arte e na natureza amplia o conceito de razão para além de seu sentido cognitivo-técnico e aponta para aquilo que chamamos "razão ontológica”. finitude em que está aprisionado. Ele descobre também que sua razão não aceita esta prisão e tenta apreender o infinito com as categorias da finitude, o realmente real com as categorias da experiência, e que ela necessariamente fracassa. O único ponto em que a prisão da finitude está aberta é o âmbito da experiência moral, pois nele algo incondicio nal irrompe na totalidade das condições temporais e causais. Mas este ponto a que Kant chega não é mais do que um ponto, uma exigência incondicional, uma mera consciência da profundidade da razão. A “ignorância crítica” de Kant descreve a finitude da razão tão claramente quanto a “ignorância esclarecida” de Nicolau de Cusa. A diferença, porém, é que em Cusa o misticismo católico aponta para uma comunhão intuitiva com o fundamento e o abismo da razão, ao passo que em Kant a crítica protestante restringe a razão à aceitação do impe rativo incondicional como o único acesso à realidade-em-si. Na metafí sica pós-kantiana, a razão esqueceu sua servidão às categorias da finitu de. Mas esta auto-elevação à dignidade divina trouxe o destronamento e o desprezo da razão, e tomou possível a vitória de uma das suas funções sobre as outras. A queda de uma razão dei ficada após Hegel contribuiu decisivamente para a entronização da razão técnica em nosso tempo e para a perda da universalidade e da profundidade da razão ontológica. Mas a razão não é meramente finita. É verdade que a razão, como todas as coisas e acontecimentos, está sujeita às condições da existên cia. Ela se contradiz a si mesma e está ameaçada pela desintegração e autodestruição. Seus elementos se opõem uns aos outros. Mas este é apenas um lado da moeda. Na vida efetiva da razão, sua estrutura básica não se perde completamente. Se ela se perdesse, tanto a mente quanto a realidade se desintegrariam no exato momento em que passassem a exis tir. Na vida efetiva da razão, as forças essenciais e existenciais, as forças de criação e de destruição estão unidas e desunidas ao mesmo tempo. Estes conflitos na razão efetiva proporcionam o conteúdo para uma crí tica teológica justificável da razão. Mas uma acusação da razão como tal é um sintoma de ignorância teológica ou de arrogância teológica. Por outro lado, um ataque à teologia como tal em nome da razão é um sinto ma de superficialidade racionalista ou de hybris racionalista. Uma des crição adequada dos conflitos interiores da razã© ontológica deveria subs tituir as populares lamentações da religião e as semipopulares da teolo gia no que diz respeito à razão como tal. E deveria, ao mesmo tempo,induzir a razão a reconhecer sua própria condição existencial, da qual surge a pergunta pela revelação. 5 .0 conflito dentro da razão efetiva e a pergunta pela revelação a) Autonomia contra heteronomia - Sob as condições da existên cia, os elementos estruturais da razão se opõem uns aos outros. Embora nunca completamente separados, eles incorrem em conflitos autodes- trutivos que não podem ser resolvidos à base da razão efetiva. Uma descrição destes conflitos deveria substituir os populares ataques da re ligião ou da teologia contra a fraqueza ou a cegueira da razão. A autocrí tica da razão à luz da revelação penetra muito mais profundamente e é muito mais racional do que estes ataques inarticulados e, em geral, me ramente emocionais. A polaridade da estrutura e da profundidade dentro da razão produz, sob as condições da existência, um conflito entre razão autônoma e heterônoma. Desse conflito surge a pergunta pela teonomia. A polaridade entre os elementos estático e dinâmico da razão produz, sob as condições da existência, o conflito entre o absolutismo e o relati- vismo da razão. Este conflito leva à pergunta pelo concreto-absoluto. A polaridade entre os elementos formal e emocional da razão produz, sob as condições da existência, o conflito entre formalismo e irracionalismo da razão. Deste conflito surge a pergunta pela união de forma e mistério. Nos três casos, a razão é levada à pergunta pela revelação. A razão que afirma e efetiva sua estrutura sem considerar sua profundidade é autônoma. Autonomia não significa a liberdade do indi víduo de ser uma lei para si mesmo, como muitas vezes afirmam os teólogos, estabelecendo assim um fácil bode expiatório para seus ata ques contra uma cultura independente. Autonomia significa a obediên cia do indivíduo à lei da razão, lei que ele encontra em si mesmo como ser racional. O nomos (lei) do autos (selj) não é a lei da estrutura da própria personalidade. E a lei da razão subjetivo-objetiva. É a lei implí cita na estrutura de logos da mente e da realidade. A razão autônoma, ao afirmar-se a si mesma em suas diferentes funções e nas exigências es truturais destas, usa ou rejeita aquilo que é simplesmente uma expres são da situação de um indivíduo dentro dele ou ao redor dele. Ela resiste ao perigo de ser condicionada pela situação do eu e do mundo na exis tência. Considera estas condições como o material que a razão tem que apreender e configurar segundo suas leis estruturais. Portanto, a razão autônoma tenta permanecer livre de “impressões não apreendidas” e de “impulsos não configurados”. Sua independência é o contrário da obsti nação; é a obediência à sua própria estrutura essencial, à lei da razão que é a lei da natureza dentro da mente e da realidade, e que é a lei divina, enraizada no fundamento do próprio ser. Isto se aplica a todas as funções da razão ontológica. Historicamente, a razão autônoma se libertou e sustentou numa luta sem fim com a heteronomia. A heteronomia impõe uma lei (nomos) estranha (heteros) a uma ou a todas as funções da razão. Ela emite or dens a partir de “fora” sobre como a razão deveria apreender e configu rar a realidade. Mas este “fora” não significa meramente “do exterior”. Ele representa, ao mesmo tempo, um elemento da própria razão, isto é, da profundidade da razão. Isso toma a luta entre autonomia e heterono mia perigosa e trágica. Trata-se, em última análise, de um conflito den tro da própria razão. Enquanto a razão for pré-racional, uma massa con fusa de impressões sensoriais, uma massa caótica de instintos, impulsos e compulsões, não aparecerá a heteronomia genuína. Tudo isso é exteri or à razão, mas não é uma lei à qual a razão tenha que se sujeitar: não é lei no sentido racional. O problema da heteronomia é o problema de uma autoridade que reivindica representar a razão, isto é, a profundida de da razão, contra sua efetivação autônoma. A base de tal reivindicação não é a superioridade no poder racional que muitas tradições, institui ções ou personalidades obviamente têm. A base de uma heteronomia genuína é a reivindicação de falar em nome do fundamento do ser e, portanto, de forma incondicional e última. Uma autoridade heterônoma geralmente se expressa em termos de mito e culto, porque estas são as expressões diretas e intencionais da profundidade da razão. Também é possível que formas não-míticas e não-rituais ganhem poder sobre a mente (p. ex., idéias políticas). A heteronomia, nesse sentido, costuma ser uma reação contra uma autonomia que perdeu sua profundidade e se tomou vazia e sem poder. Mas como reação, ela é destrutiva, negando à razão o direito à autonomia e destruindo suas leis estruturais a partir de fora. A autonomia e a heteronomia estão enraizadas na teonomia, e cada uma delas se extravia quando se rompe sua unidade teônoma. Teo nomia não significa aceitação de uma lei divina imposta à razão por uma autoridade suprema. Significa a razão autônoma unida à sua pró pria profundidade. Numa situação teônoma, a razão se efetiva a si mes ma em obediência a suas leis estruturais e no poder de seu próprio fun damento inexaurível. Já que Deus (theós) é a lei (nomos) tanto da estru tura quanto do fundamento da razão, ambos, estrutura e fundamento, estão unidos nele, e sua unidade se manifesta numa situação teônoma. Mas não há teonomia completa sob as condições da existência. Ambos os elementos, que essencialmente estão unidos nela, lutam um contra o outro sob as condições da existência e tentam destruir um ao outro. Nes ta luta, eles tendem a destruir a própria razão. Por isso, a pergunta pela reunião daquilo que sempre está separado no tempo e no espaço surge a partir da razão e não em oposição a ela. Esta pergunta é a pergunta pela revelação. Visto desde uma perspectiva de história universal, o conflito en tre autonomia e heteronomia é a chave para qualquer compreensão tanto do desenvolvimento grego quanto do moderno e de muitos outros pro blemas da história espiritual da humanidade. A história da filosofia gre ga, por exemplo, pode ser descrita como uma curva que começa com o período pré-filosófico, ainda teônomo (mitologia e cosmologia), seguin- do-se então a lenta elaboração das estruturas autônomas da razão (pré- socráticos), a síntese clássica de estrutura e profundidade (Platão), a racionalização desta síntese nas diferentes escolas (depois de Aristóte les), o desespero da razão em sua tentativa de criar autonomamente um mundo onde possa viver (ceticismo), o transcender místico da razão (ne oplatonismo), o questionamento das autoridades do passado e do pre sente (escolas filosóficas e seitas religiosas), a criação de uma nova teo- nomia sob a influência cristã (Clemente e Orígenes) e a intrusão de ele mentos heterônomos (Atanásio e Agostinho). Durante a alta Idade Mé dia, levou-se a cabo uma teonomia (Boaventura) sob a predominância de elementos heterônomos (Tomás de Aquino). Ao final do período me dieval, a heteronomia se tomou todo-poderosa (Inquisição), em parte como reação contra tendências autônomas na cultura e na religião (no minalismo), e destruiu a teonomia medieval. No período do Renasci mento e da Reforma, o conflito cobrou nova intensidade. O Renasci mento, que mostrava um caráter teônomo em seus inícios neoplatônicos (Cusa, Ficino), tomou-se cada vez mais autônomo em seu desenvolvi mento posterior (Erasmo, Galileu). A Reforma, que, ao contrário, em seus primeiros anos unira a ênfase religiosa à cultural na autonomia (a confiança de Lutero em sua consciência e a afinidade de Lutero e Zwín- glio com os humanistas), muito cedo se converteu em uma heteronomia que, em alguns aspectos, inclusive superou a da Idade Média tardia (or todoxia protestante). Nos séculos 18 e 19, apesar de alguns remanescen tes e algumas reações heterônomas, a autonomia obteve uma vitória quase absoluta. A ortodoxia e o fundamentalismo, estéreis e ineficazes, fica ram à margem da vida cultural.As tentativas clássicas e românticas para restabelecer a teonomia com meios autônomos (Hegel, Schelling) não lograram êxito, produzindo reações tanto em favor de uma autonomia radical (pós-hegelianos) quanto de uma forte heteronomia (pietismo). Guiada pela razão técnica, a autonomia superou todas as reações, mas perdeu completamente a dimensão de profundidade. Ela se tomou su perficial, vazia, sem um sentido último e deu lugar a um desespero cons ciente ou inconsciente. Nesta situação, poderosas heteronomias de cará ter quase político preencheram o vazio criado por uma autonomia que carecia da dimensão de profundidade. A dupla luta contra uma autono mia vazia e uma heteronomia destrutiva toma a pergunta por uma nova teonomia tão urgente hoje quanto o foi no fim do mundo antigo. A catás trofe da razão autônoma é total. Nem a autonomia nem a heteronomia, isoladas e em conflito, podem dar-nos uma resposta. b) Relativismo contra absolutismo - Essencialmente, a razão une um elemento estático e um dinâmico. O elemento estático impede que a razão perca sua identidade dentro do processo vital. O elemento dinâmi co é o poder da razão de efetivar-se a si mesma racionalmente no pro cesso da vida, ao passo que sem o elemento estático a razão não poderia ser a estrutura da vida. Sob as condições da existência, os dois elemen tos estão separados um do outro e se opõem um ao outro. O elemento estático da razão aparece em duas formas de absolu tismo - o absolutismo da tradição e o absolutismo da revolução. O ele mento dinâmico da razão aparece em duas formas de relativismo - o relativismo positivista e o relativismo cínico. O absolutismo da tradição identifica o elemento estático da razão com tradições específicas, tais como a moral socialmente aceita, formas políticas estabelecidas, estéti ca “acadêmica” e princípios filosóficos não questionados. Esta atitude é normalmente chamada de “conservadora”. Mas o conservadorismo pode significar duas coisas. Pode significar a disposição de defender o lado estático da razão contra uma ênfase exclusiva no aspecto dinâmico e pode significar o fanatismo que considera as estruturas dinâmicas da razão como estáticas e as eleva à validez absoluta. Contudo, em qual quer caso especial, é impossível separar o elemento estático do dinâmi co, e toda tentativa de fazê-lo leva, no fim das contas, à destruição das formas absolutizadas através do ataque de outras formas que emergem no processo da razão efetiva. Tais ataques procedem de outro tipo de absolutismo, o revolucionário. Mas depois que um absolutismo é destru ído por um ataque revolucionário, o vencedor se estabelece em termos igualmente absolutos. Isso é quase inevitável, porque o ataque foi vitori oso através da força de uma reivindicação absoluta, geralmente de caráter utópico. A razão revolucionária crê, tão profundamente quanto o tradicio- nalismo, que ela representa a verdade imutável, mas é mais inconsistente nesta crença. O absolutismo da tradição pode invocar o passado para que confirme sua reivindicação de que está dizendo aquilo que sempre foi dito. O absolutismo revolucionário, contudo, experimentou em pelo me nos um caso a derrota de tal reivindicação, isto é, quando conseguiu abrir uma brecha na tradição com sua própria vitória e, por isso, deveria vis lumbrar a possibilidade de seu próprio fim. Mas não o faz8. Isso mostra 8 O absolutismo ortodoxo protestante é menos coerente do que o absolutismo eclesiástico cató lico. A afirmação de Schleiermacher de que “a Reforma continua” é a única atitude protestan te consistente. É um fato assombroso, embora antropologicamente revelador, que, na América, grupos que representam o absolutismo mais radical da tradição chamem-se a si mesmos “Fi lhas” ou “Filhos” da Revolução Americana. O comunismo russo não só sustentou o absolutismo de seu ataque revolucionário como também se desenvolveu, em parte, no sentido de um absolu tismo da tradição, unindo-se conscientemente às tradições do passado pré-revolucionário. O próprio Marx, em sua ênfase no caráter transitório de todo estágio do processo revolucionário, era bem mais coerente neste sentido. Ele poderia ter dito: “A revolução continua.” que os dois tipos de absolutismo não são exclusivos: eles suscitam um ao outro. Ambos são contestados por diferentes formas de relativismo. O relativismo nega a existência de um elemento estático na estrutura da razão ou acentua de tal forma o elemento dinâmico que não deixa lugar definido para a razão efetiva. O relativismo pode ser positivista ou cíni co; o primeiro é paralelo ao absolutismo da tradição; o segundo, ao ab solutismo da revolução. O relativismo positivista toma o “dado” (esta belecido) sem aplicar critérios absolutos à sua valoração. Na prática, portanto, ele pode se tomar tão conservador quanto qualquer absolutis mo da tradição, embora sob outra base e com outras implicações. Por exemplo, o positivismo da lei, em meados do século 19, foi uma reação contra o absolutismo revolucionário do século 18, mas ele próprio não foi absolutista. Ele aceitou o direito positivo de diferentes nações e pe ríodos como “meramente” dado, mas não permitiu ataques críticos por parte do direito natural, nem considerou um direito positivo vigente como direito etemo. Da mesma forma, o relativismo estético deste período pôs todos os estilos anteriores no mesmo nível, sem dar a nenhum deles a preferência em termos de um ideal clássico. Na esfera das relações sociais, elogiaram-se as tradições locais, e seus desenvolvimentos di vergentes foram aceitos sem uma norma crítica. Mais importante do que todos estes é o positivismo filosófico. Desde o tempo de David Hume, ele se desenvolveu em muitas direções e substituiu normas e critérios absolutos em todos os âmbitos da vida por testes pragmáticos. A verda de é relativa a um grupo, a uma situação concreta ou a um estado exis tencial. Neste sentido, as formas recentes de existencialismo concor dam, em um grau surpreendente, com os princípios do relativismo prag mático e com algumas formas da Lebensphilosophie (“filosofia da vida”) européia. A tragédia deste positivismo é que ele se transforma ou num absolutismo conservador ou numa forma cínica do relativismo. As im plicações autodestrutivas do positivismo só deixam de se manifestar em países onde os remanescentes de antigos absolutismos ainda são bastan te poderosos para retardar esses desenvolvimentos (Inglaterra, Estados Unidos). O relativismo cínico normalmente é o resultado da desilusão oca sionada pelo absolutismo utópico. Ele emprega argumentos céticos con tra princípios absolutos, mas não tira nenhuma das duas conseqüências possíveis do ceticismo radical. Não se volta para a revelação nem aban dona totalmente o âmbito do pensamento e da ação, como o fez freqüen temente o ceticismo antigo. O cinismo é uma atitude de superioridade ou de indiferença para com qualquer estrutura racional, seja estática ou dinâmica. O relativismo cínico usa a razão tão-somente para negar a razão - uma autocontradição que é aceita “cinicamente”. A base do rela- tivismo cínico não é a crítica da razão, que pressupõe algumas estrutu ras válidas. Sua base é a descrença na validez de qualquer ato racional, mesmo que ele seja meramente crítico. O relativismo cínico não é destru ído por suas autocontradições. Sua nêmesis é o espaço vazio que ele pro duz, o vácuo completo para o qual fluem novos absolutismos. O “criticismo” é uma tentativa de superar o conflito entre absolu tismo e relativismo. E uma atitude que não está restrita à chamada filo sofia crítica. Ele está presente em toda a história da filosofia, mas tam pouco se limita à filosofia. E efetivo em todas as esferas da razão onto lógica e tenta unir os elementos estático e dinâmico da razão, despojan do o elemento estático de conteúdo e reduzindo-o a pura forma. Um exemplo é o “imperativo categórico”, que nega toda exigência específi ca e subordinaos detalhes concretos às contingências da situação. O criticismo combina um elemento positivista com um revolucionário, excluindo o tradicionalismo bem como o cinismo. Sócrates e Kant são representantes da atitude crítica na filosofia. Mas o desenvolvimento de suas escolas mostra que a atitude crítica é mais uma exigência do que uma possibilidade. Em ambas as escolas, prevaleceu ou o elemento es tático ou o dinâmico, frustrando a tentativa crítica. Embora os primeiros diálogos de Platão fossem críticos, o platonismo se desenvolveu na dire ção do absolutismo. Apesar de aceitarem o racionalismo de Sócrates, o hedonismo e o cinismo se desenvolveram na direção do relativismo*. Os seguidores clássicos de Kant se tomaram absolutistas puros, enquanto que a escola neokantiana enfatizou o relativismo de um processo infinito. Isso não é acidental. A atitude crítica, ao estabelecer critérios absolutos, embora supostamente vazios, enganava-se a si mesma quanto a seu vazio. Esses critérios sempre eram o reflexo de uma situação çspecial, por exem plo, a situação de Atenas na Guerra do Peloponeso ou a vitória da menta lidade burguesa na Europa ocidental. Os princípios estabelecidos pela fi losofia crítica eram demasiadamente concretos e, por isso, demasiada mente relativos para sua pretensão absoluta. Mas sua aplicação foi dema siadamente absolutista, pois representava uma forma especial de vida que reivindicava mais do que validez relativa. Por isso, tanto no mundo antigo quanto no moderno, o criticismo foi incapaz de superar o conflito entre absolutismo e relativismo. Só aquilo que é, ao mesmo tempo, absoluto e concreto pode superar este conflito. Só a revelação pode fazê-lo. c) Formalismo contra emocionalismo - Em sua estrutura essen cial, a razão une elementos formais e emocionais. Há uma predominân cia do elemento formal nas funções cognitiva e jurídica da razão, e o elemento emocional predomina nas funções estética e comunitária. Em todas as suas atividades, porém, a razão essencial une ambos os elemen- * N. do R.: O fluxo do argumento requer aqui “relativismo”. A versão alemã o confirma. tos. Sob as condições da existência, esta unidade se rompe. Os elemen tos se opõem um ao outro e produzem conflitos tão profundos e destru tivos como os que já debatemos. O formalismo aparece quando se enfatiza exclusivamente o lado formal de toda função racional e se separam as funções uma da outra. O conhecimento controlador e a lógica formal correspondente, se os toma mos como modelo de todo conhecimento, representam o formalismo no âmbito cognitivo. O conhecimento controlador é apenas um aspecto da razão cognitiva e um elemento essencial em todo ato cognitivo. Mas sua tentativa de monopolizar a totalidade da função cognitiva e de negar que qualquer outro acesso à realidade seja conhecimento e possa atingir a verdade evidencia sua ruptura existencial. Ele impede a razão cogniti va de mergulhar naqueles estratos das coisas e acontecimentos que só podem ser apreendidos pelo amor intellectualis. O formalismo no âmbi to cognitivo é intelectualismo, o uso do intelecto cognitivo sem o eros. As reações emocionais contra o intelectualismo esquecem a obrigação de um pensamento estrito, sério e tecnicamente correto em todas as ques tões do conhecimento, mas estão certas ao exigir um conhecimento que não só controle, mas também una9. No âmbito estético, o formalismo é uma atitude que se expressa na fórmula “a arte pela arte” e não leva em conta o conteúdo e o sentido das criações artísticas em função de sua forma. O esteticismo priva a arte de seu caráter existencial, substituindo a união emocional por jul gamentos imparciais de gosto e sutilezas do crítico. Nenhuma expressão artística é possível sem a forma racional criativa, mas a forma, mesmo em seu maior refinamento, é vazia se não expressa uma substância espi ritual. Inclusive a criação artística mais rica e profunda pode ser destru tiva para a vida espiritual se for recebida em termos de formalismo e esteticismo10. As reações emocionais da maioria das pessoas contra o esteticismo são erradas em seu juízo estético, mas acertadas em sua in tenção fundamental. O formalismo no âmbito da razão jurídica enfatiza exclusivamen te as necessidades estruturais da justiça, sem levantar a questão da ade quação de uma forma jurídica à realidade humana que pretende confi gurar. A trágica alienação entre lei e vida, tema de lamentação em todas as épocas, não se deve à má vontade daqueles que promulgam e aplicam a lei; é uma conseqüência da separação de forma e participação emocional. O legalismo, no sentido de formalismo legal, pode se tomar, como cer- 9 Veja as seções seguintes. 10 Toda interpretação pública da “Paixão segundo São Mateus”, de Bach, comporta o risco de tomar a história do Evangelho menos significativa para as pessoas que admiram a grande arte da música de Bach sem serem tomadas por seu sentido infinito. tos tipos de lógica, uma espécie de jogo com puras formas, coerente em si mesmo, mas separado da vida. Se aplicado à vida, esse jogo pode se tomar uma realidade destrutiva. A forma investida de poder pode se con verter em um órgão terrível de repressão num grupo social. Desde nosso ponto de vista, o formalismo legal e a repressão totalitária estão intima mente relacionados. As reações emocionais contra o formalismo legal entendem mal as necessidades estruturais da lei, mas compreendem ins tintivamente a incapacidade do formalismo legal de satisfazer as deman das da vida. Na função comunitária da razão, o formalismo preserva, aplica e defende as formas convencionais que estruturaram a vida social e pes soal. O convencionalismo, como pode ser chamada esta atitude, não deve ser confundido com o tradicionalismo. Este último faz uma reivin dicação absoluta para tradições ou convenções específicas por causa de seu conteúdo e sentido. O convencionalismo, por seu tumo, não formu la nenhuma reivindicação absoluta das convenções que defende, nem as valoriza por causa de seu conteúdo ou significação. O convencionalis mo afirma as formas sociais e pessoais como formas. O formalismo con vencional exige uma obediência automática às formas aceitas de com portamento. Seu tremendo poder nas relações sociais, na educação e na autodisciplina convertem-no em uma força trágica ao longo de toda a história humana. Ele tende a destruir a vitalidade e a criatividade inatas de cada ser vivo e de cada nova geração. Mutila a vida e substitui o amor pela regra. Configura personalidades e comunidades suprimindo a subs tância espiritual e emocional que deveria configurar. A forma destrói o sentido. As reações emocionais contra o formalismo convencional são especialmente explosivas e catastróficas. Elas são “cegas” no que se refere ao poder de sustentação, preservação e orientação da convenção e do hábito, mas têm razão em se opor, com paixão e sacrifício, à sua distorção formalista. O formalismo não só aparece em toda função da razão ontológi ca, mas também na relação das funções entre si. A unidade da razão é destruída por sua divisão em compartimentos, cada um dos quais se acha controlado por um conjunto especial de formas estruturais. Isto se refere tanto às funções de apreensão e configuração da razão como à sua inter-relação. A função cognitiva, privada de seu elemento estético, está separada da função estética, privada do seu elemento cognitivo. Na ra zão essencial, estes dois elementos estão unidos em vários graus, como se reflete, por um lado, em funções como a intuição histórica e ontológi ca e, por outro, nos romances psicológicos e na poesia metafísica. A união das funções cognitiva e estética está expressa plenamente na mi tologia, da qual ambas nasceram e da qual se tomaram independentes, mas para a qual tendem a voltar. Os românticos do começo do século 19, filósofos e artistas, tentaram restabelecer a unidade das funções cogniti va e estética (essa tentativa foicontinuada por muitos artistas e filósofos recentes - expressionismo, novo realismo, existencialismo). Eles se afas taram do formalismo cognitivo e estético e, conseqüentemente, da sepa ração das duas funções. Até tentaram uni-las num novo mito. Mas nisso fracassaram. Nenhum mito pode ser criado, nenhuma unidade de fun ções racionais pode ser alcançada à base da razão em conflito. Um novo mito é a expressão do poder reunificador de uma nova revelação, não o produto da razão formalizada. Também as funções configuradoras da razão estão separadas umas das outras pela formalização da razão e sua separação da emoção. A função organizacional, privada de uma base orgânica, está separada da função orgânica, privada de uma estrutura organizacional. Na razão es sencial, esses dois elementos possuem diversos graus de união e transi ção, de um modo análogo à vida das organizações livres dentro de uma estrutura jurídica abrangente. A união das funções jurídica e comunitá ria tem sua expressão plena na comunidade de culto, que é a mãe de ambas e à qual elas tentam voltar. Os românticos antigos e novos aspi ram por um estado que represente o “corpo” cristão da Idade Média idealizada ou, se isso não for possível, por corpos nacionais ou raciais ou pelo “corpo” da humanidade. Eles procuram um organismo que pos sa se tomar o portador de uma lei não formalizada11. Mas nem a humani dade como organismo, nem um culto comum como função de uma co munidade religiosa mundial podem unir em si a lei e a comunhão. Essa unidade não pode ser criada nem por uma constituição formalizada, nem por simpatias, desejos e movimentos não-organizados. A pergunta por uma comunhão nova e universal, onde a organização e o organismo es tejam unidos, é a pergunta pela revelação. Finalmente, a formalização da razão separa suas funções de apre ender e configurar. Normalmente se descreve este conflito como o con flito entre teoria e prática. Uma apreensão que perdeu o elemento da configuração e uma configuração que perdeu o elemento da apreensão estão em conflito. Na razão essencial, esses dois elementos estão uni dos. A desgastada palavra “experiência” tem uma conotação que aponta para essa unidade: a experiência une percepção e ação. Na relação de mito e culto, nenhuma separação é sequer imaginável. O culto inclui o mito sobre cuja base representa o drama divino-humano, e o mito inclui o culto do qual é a expressão imaginária. É, portanto, compreensível 11 Este é o verdadeiro problema da organização mundial pela qual a humanidade está se empenhando hoje e que é antecipada prematuramente pelo movimento em favor de um governo mundial. que haja uma luta contínua pela reunião de teoria e prática. Em sua descrição da “pobreza da filosofia”, Marx contestou uma filosofia que interpreta o mundo sem mudá-lo. Nietzsche, em seu ataque contra o historicismo, contestou uma historiografia que não se refira à nossa exis tência histórica. O socialismo religioso assumiu a percepção do Quarto Evangelho de que a verdade deve ser feita e assumiu também a percep ção de toda a tradição bíblica de que, sem participação ativa na “nova realidade”, sua natureza não pode ser conhecida. O instrumentalismo, embora permaneça predominantemente no nível da razão técnica, apon ta para a relação íntima entre ação e conhecimento. Contudo, os confli tos permanecem. A prática resiste à teoria, que ela considera inferior a si mesma; exige um ativismo que renuncie a toda investigação teórica an tes de estar concluído. Na prática, não se pode agir de outro modo, pois é preciso atuar antes de haver terminado de pensar. Por outro lado, os horizontes infinitos do pensar não podem fornecer com certeza a base para qualquer decisão concreta. Exceto no âmbito técnico, onde não está envolvida uma decisão existencial, devem-se tomar decisões à base de percepções limitadas ou distorcidas ou incompletas. Nem a teoria nem a prática isoladas podem resolver o problema de seu conflito mú tuo. Só uma verdade que esteja presente apesar da infinitude de possibi lidades teóricas e só um bem que esteja presente apesar do risco infinito implícito em cada ação podem superar a ruptura entre as funções de apreensão e de configuração da razão. A pergunta por tal verdade e por tal bem é a pergunta pela revelação. As rupturas funcionais da razão são conseqüências da formaliza ção da razão, do conflito entre formalismo e emocionalismo. As conse qüências da formalização da razão são manifestas. A emoção reage con tra elas e contra a razão formal em todos os âmbitos. Mas essa reação é inútil, porque ela é meramente “emocional”, isto é, faltam-lhe elemen tos estruturais. Se permanecer mera emoção, a emoção é impotente con tra o intelectualismo e o esteticismo, contra o legalismo e o convencio nalismo. Mas, embora impotente contra a razão, ela pode exercer grande poder de destruição sobre a mente em sua dimensão pessoal e social. Emoção sem estrutura racional (no sentido, da razão ontológica, sem dú vida) se toma irracionalismo. E o irracionalismo é destrutivo em dois as pectos. Se ele ataca a razão formalizada, deve ter algum conteúdo racio nal. Contudo, esse conteúdo não está sujeito à crítica racional e adquire seu poder a partir da força da emoção que o sustenta. Ainda é razão, mas razão impulsionada irracionalmente e, portanto, cega e fanática. Tem to das as qualidades do demoníaco, mesmo que o expresse em termos religi osos ou seculares. Se, por outro lado, o irracionalismo se esvaziar a si mesmo de todo conteúdo e se tomar mero sentimento subjetivo, produz- se então um vácuo no qual a razão distorcida pode irromper sem um con trole racional12. Se a razão sacrificar suas estruturas formais e, com elas, seu poder crítico, o resultado não será um sentimentalismo vazio, mas a ascensão demoníaca de formas anti-racionais, que geralmente são apoia das por todos os instrumentos da razão técnica. Esta experiência leva os seres humanos à pergunta pela reunião de forma e emoção. É uma pergun ta pela revelação. A razão não se opõe à revelação. Ela a requer, pois a revelação significa a reintegração da razão. C. A função cognitiva da razão e a pergunta pela revelação 6. A estru tu ra ontológica do conhecimento A teologia sistemática, ao desenvolver o conceito de revelação, deve dar atenção especial à função cognitiva da razão ontológica, pois a revelação é a manifestação do fundamento do ser para o conhecimento humano. A teologia como tal não pode produzir uma epistemologia pró pria a partir de si mesma. Ela deve se referir àquelas características da razão cognitiva que são relevantes para o caráter cognitivo da revela ção. Em particular, a teologia deve dar uma descrição da razão cognitiva sob as condições da existência. Mas uma descrição dos conflitos da cog nição existencial pressupõe uma compreensão de sua estrutura ontoló gica, pois é a estrutura polar da razão cognitiva que toma possíveis seus conflitos existenciais e a leva à pergunta pela revelação. O conhecimento é uma forma de união. Em todo ato cognitivo, aquele que conhece e aquilo que é conhecido estão unidos; o abismo entre sujeito e objeto é superado. O sujeito “apreende” o objeto, adapta- o a si mesmo e, ao mesmo tempo, adapta-se ao objeto. Mas a união do conhecimento é uma união peculiar; é uma união através da separação. O distanciamento é a condição da união cognitiva. Para conhecer uma coisa, deve-se “olhar” para ela, e, para poder fazer isso, deve-se estar “à distância”. A distância cognitiva é o pressuposto da união cognitiva. A maioria dos filósofos viu ambos os aspectos. A velha disputa para saber se o igual reconhece o igual ou se o desigual reconhece o desigual é a expressão clássica da percepção de que a união (que pressupõe alguma igualdade) e a distância (que pressupõe alguma desigualdade) são ele mentos polares no processo de conhecimento. A unidade de distância e união constitui o problema ontológico do conhecimento.Ele levou Pla tão ao mito da união original da alma com as essências (idéias), da sepa 12 O irracionalismo vazio do movimento da juventude alemã foi solo fértil para o irraciona- lismo racional dos nazistas. ração da alma com relação ao verdadeiramente real na existência tem poral, da recordação das essências e da reunião com elas através dos diferentes graus de elevação cognitiva. A unidade jamais é completa mente destruída; mas também há alienação. O objeto particular como tal é estranho, mas contém estruturas essenciais com as quais o sujeito que conhece está essencialmente unido e as quais pode recordar quando olha para as coisas. Este tema percorre toda a história da filosofia. Ele explica os esforços titânicos do pensamento humano em todas as épocas para tomar a relação cognitiva compreensível - o estranhamento entre sujeito e objeto e, apesar dele, sua união cognitiva. Enquanto o ceticis mo desesperou da possibilidade de unir o objeto com o sujeito, o criti- cismo afastou o objeto como coisa-em-si do âmbito do conhecimento efetivo, sem explicar como o conhecimento pode apreender a realidade e não só a aparência. Enquanto o positivismo eliminou completamente a diferença entre sujeito e objeto, e o idealismo decretou sua identidade, ambos não conseguiram explicar a alienação de sujeito e objeto e a pos sibilidade do erro. O dualismo postulou uma união transcendente de sujeito e objeto em uma mente ou substância divina, sem explicar a participação do ser humano nela. Mas cada uma dessas tentativas estava consciente do problema ontológico do conhecimento: a unidade de se paração e união. A situação epistemológica é confirmada existencialmente por cer tos aspectos da vida pessoal e social, quando relacionados ao conheci mento. A paixão do conhecer por conhecer, que freqüentemente pode mos encontrar tanto sob formas primitivas quanto refinadas, indica que um vazio, um vácuo é preenchido pela cognição bem-sucedida. Algo que era estranho, mas que, no entanto, me pertence, torna-se familiar a mim, uma parte de mim. Segundo Platão, o eros cognitivo se origina da pobreza e abundância. Ele nos leva à reunião com aquilo ao qual perten cemos e que nos pertence. Em todo ato de conhecimento, são vencidos o vazio e a alienação. Mas o conhecimento é mais do que realização plena; ele também transforma e cura. Isto seria impossível se o sujeito que conhece fosse só um espelho do objeto, permanecendo em uma distância invencível do mesmo. Sócrates estava consciente desta situação quando afirmou que, do conhecimento do bem, segue-se a prática do bem. Sem dúvida, é fácil e cômodo constatar que podemos conhecer o bem sem realizá-lo, sem poder fazê-lo. Não se deve confrontar Sócrates com Paulo para demons trar como Paulo era bem mais realista. É no mínimo provável que Sócra tes soubesse o que toda criança em idade escolar já sabe - que algumas pessoas agem em oposição àquilo que sabem. Mas ele também sabia algo que até filósofos e teólogos ignoram: o verdadeiro conhecimento inclui união e, portanto, abertura para receber aquilo com o que nos unimos. Este é o conhecimento do qual também Paulo nos fala, a gnosis que no grego neotestamentário significa, ao mesmo tempo, união cogni tiva, sexual e mística. Neste sentido, não há contraste algum entre Só crates e Paulo. Aquele que conhece a Deus ou a Cristo no sentido de sentir-se apreendido por ele e estar unido a ele pratica o bem. Quem conhece a estrutura essencial das coisas no sentido de haver recebido seu sentido e poder age de acordo com eles; faz o bem, mesmo que tenha que morrer por ele. Recentemente, o termo insight recebeu conotações de gnosis, isto é, um tipo de conhecimento que transforma e cura. A psicologia do pro fundo atribui poderes terapêuticos ao insight, aludindo não a um conhe cimento distanciado da teoria psicanalítica ou do próprio passado à luz desta teoria, mas a uma repetição das experiências efetivas da pessoa, com todos os sofrimentos e horrores que acarreta este processo. Insight, neste sentido, é uma reunião com o próprio passado da pessoa, e especi almente com aqueles momentos dele que exercem uma influência des trutiva sobre o presente. Esta união cognitiva produz uma transforma ção tão radical e tão difícil quanto aquela pressuposta e exigida por Sócrates e Paulo. Para a maioria das filosofias e religiões asiáticas, o poder unificador, terapêutico e transformador do conhecimento consti tui algo incontestável. O problema delas - nunca inteiramente resolvido - é o elemento da distância, não o da união. Outra confirmação existencial da interpretação do conhecimento como uma unidade entre distância e união é a valorização social do conhecimento em todos os grupos humanos integrados. A percepção dos princípios sobre os quais se baseia a vida do grupo e a aceitação dos mesmos são consideradas pré-condição absoluta para a vida do grupo. Não há diferença, neste aspecto, entre os grupos religiosos ou seculares, democráticos ou totalitários. Se não reconhecemos o caráter unificador do conhecimento, fica impossível compreender a ênfase com que todos os grupos sociais destacam a importância do conhecimento de seus prin cípios dominantes. Muitas críticas ao chamado dogmatismo, muitas ve zes feitas por pessoas que não estão conscientes de suas próprias con cepções dogmáticas, estão enraizadas em uma interpretação equivocada do conhecimento como uma cognição fria de objetos separados do su jeito. O dogmatismo com respeito a tal conhecimento realmente não tem sentido. Mas se o conhecimento une, muito depende do objeto com o qual ele une. O erro se torna perigoso se isto significar união com elementos distorcidos e enganadores da realidade, com aquilo que não é realmente real, mas apenas reivindica sê-lo. A ansiedade ante a possibi lidade de incorrer em erro ou a ansiedade diante do erro em que outros podem incorrer ou incorreram, as tremendas reações contra o erro que experimentam todos os grupos sociais coesivos, a interpretação do erro como possessão demoníaca - tudo isso é compreensível unicamente se o conhecimento inclui união. O liberalismo, o protesto contra o dogma tismo, baseia-se no elemento autêntico de distanciamento que forma parte do conhecimento e que exige abertura para o questionamento, a investi gação e novas respostas, mesmo que isso possa acarretar a desintegra ção de um grupo social. Sob as condições da existência, não se pode encontrar solução definitiva para este conflito. Como a razão em termos gerais é arrastada para o conflito entre absolutismo e relativismo, assim a razão cognitiva está sujeita ao conflito entre união e distanciamento em todo ato cognitivo. Deste conflito surge a pergunta por um conheci mento que una a certeza da união existencial com a abertura do distanci amento cognitivo. Esta pergunta é a pergunta pelo conhecimento da re velação. 7. Relações cognitivas O elemento de união e o elemento de distanciamento aparecem em diferentes proporções nos diferentes âmbitos do conhecimento. Mas não há conhecimento sem a presença de ambos os elementos. Dados estatísticos constituem o material para o conhecimento físico e socioló gico, mas por si só não são conhecimento. Meditações devocionais impli cam elementos cognitivos, mas por si só não são conhecimento. O tipo de conhecimento que é determinado predominantemente pelo elemento de distanciamento pode ser chamado “conhecimento con trolador”13. Este conhecimento é o exemplo mais importante, embora não o único, de razão técnica. Ele une sujeito e objeto para estabelecer o controle do objeto pelo sujeito. Transforma o objeto em uma “coisa” completamente condicionada e calculável. Ele o priva de qualquer qua lidade subjetiva. O conhecimento controlador olha seu objeto como algo que não lhe pode devolver o olhar. Certamente, em todo tipo de conhe cimento, sujeito e objeto estão logicamente distinguidos. Há sempre um objeto, mesmo em nosso conhecimentode Deus. Mas o conhecimento controlador “objetifica” não só logicamente (o que é inevitável), mas também ontológica e eticamente. Nenhuma coisa, contudo, é meramen te uma coisa. Como tudo o que é participa da estrutura eu-mundo do ser, elementos de auto-relação são universais. Isto torna possível a união com qualquer coisa. Nada é absolutamente estranho. Falando de forma metafórica, poder-se-ia dizer que da mesma maneira como olhamos as coisas, assim as coisas olham para nós com a expectativa de serem rece bidas e com a oferta de nos enriquecer na união cognitiva. As coisas nos 13 Cf. Max S C H E L E R , Versuche zu einer Soziologie des Wissens, München, 1924. dizem que elas podem ser “interessantes” se entramos em seus níveis mais profundos e experimentamos seu poder especial de ser14. Ao mes mo tempo, isto não exclui que sejam objetos no sentido técnico, coisas a serem usadas e trabalhadas, meios para fins que são estranhos a seu sentido interior (feios). Um metal é “interessante”; tem elementos de subjetividade e auto-relação. Ele é, por outro lado, material para inume ráveis instrumentos e finalidades. Enquanto a natureza dos metais admi te uma quantidade surpreendente de conhecimento objetivante e de uso técnico, não ocorre o mesmo com a natureza do ser humano. O ser hu mano resiste à objetivação, e se sua resistência for quebrada, quebra-se o próprio ser humano. Uma relação verdadeiramente objetiva com o ser humano está determinada pelo elemento da união; o elemento do distan ciamento é secundário. Não está ausente; há níveis na constituição cor poral, psíquica e mental que podem e devem ser apreendidos pelo co nhecimento controlador. Mas esta não é a maneira de conhecer qualquer personalidade individual do passado ou do presente, incluindo a si pró prio. Sem união, não há acesso cognitivo ao ser humano. Em contraste com o conhecimento controlador, esta atitude cognitiva pode ser cha mada de “conhecimento receptivo”. Ele não é nem efetiva nem potenci almente determinado pela relação meios-fins. O conhecimento recepti vo toma o objeto em si mesmo, na sua união com o sujeito. Isto inclui o elemento emocional, do qual o conhecimento controlador tenta se dis tanciar o máximo possível. A emoção é o veículo para receber a cogni ção. Mas o veículo está longe de converter o próprio conteúdo em emo cional. O conteúdo é racional, algo a ser verificado, olhado com prudên cia crítica. Contudo, nada pode ser recebido cognitivamente sem emo ção. Nenhuma união de sujeito e objeto é possível sem participação emocional. A unidade de união e distanciamento é descrita com precisão pelo termo inglês understanding, “compreensão”. Seu sentido literal - estar sob o lugar onde está o objeto do conhecimento - implica uma partici pação íntima. No uso habitual, ele designa a capacidade de apreender o sentido lógico de algo. Compreender outra pessoa ou uma figura histó rica, a vida de um animal ou um texto religioso, envolve um amálgama de conhecimento controlador e receptivo, de união e distanciamento, de participação e análise. A maior parte das distorções cognitivas está enraizada na descon sideração da polaridade que existe na razão cognitiva. Esta desconside ração não é simplesmente um erro evitável; é um conflito genuíno sob as condições da existência. Um lado deste conflito é a tensão entre dog- 14 Goelhe nos pede que consideremos o quão “seres” (seiend) as coisas são/apontando para a estrutura singular que é seu poder de ser. matismo e criticismo dentro de grupos sociais. Mas há outros aspectos. O conhecimento controlador pretende controlar cada nível da realidade. Vida, espírito, personalidade, comunidade, sentidos, valores, até mes mo nossa preocupação última, deveriam ser tratados em termos de dis tanciamento, análise, cálculo e utilização técnica. O que confere força a esta reivindicação é a precisão, a verificabilidade, a acessibilidade pú blica do conhecimento controlador e, sobretudo, o estupendo sucesso de sua aplicação a certos níveis da realidade. É impossível desconsiderar ou minimizar tal reivindicação. A mentalidade pública está tão impreg nada de suas exigências metodológicas e de seus impressionantes resul tados, que toda tentativa cognitiva que pressuponha a recepção e a união logo suscita grande desconfiança. Esta atitude acarreta uma rápida de cadência da vida espiritual (não só Espiritual), uma alienação da nature za e, a mais perigosa das conseqüências, o tratamento dos seres huma nos como se fossem coisas. Em psicologia e sociologia, em medicina e filosofia, o ser humano foi decomposto nos elementos que o compõem e determinam. Verdadeiros tesouros do conhecimento empírico foram pro duzidos desta forma, e novos projetos de pesquisa aumentam esses te souros diariamente. Mas se perdeu o ser humano nesse empreendimen to. Desdenha-se aquilo que só podemos conhecer mediante participação e união, aquilo que constitui o objeto do conhecimento receptivo. O ser humano efetivamente se tomou aquilo que o conhecimento controlador considera que ele é: uma coisa entre coisas, um parafuso na máquina dominante de produção e consumo, um objeto desumanizado da tirania ou um objeto normalizado das comunicações públicas. A desumaniza- ção cognitiva produziu a desumanização efetiva do ser humano. Os três principais movimentos que tentaram resistir à onda cres cente do conhecimento controlador são o romantismo, a filosofia da vida e o existencialismo. Todos eles tiveram sucesso momentâneo, mas fracassaram a longo prazo, porque não conseguiram resolver o proble ma do critério com que determinar o falso e o verdadeiro. A filosofia romântica da natureza confundiu poesia e intuição simbólica com co nhecimento. Ela ignorou a estranheza do mundo dos objetos, a estranhe za não só dos níveis mais baixos da natureza, mas também dos níveis mais altos em relação ao ser humano. Se Hegel chamou a natureza de “espírito alienado”, sua ênfase não estava em “alienado” mas em “espí rito”. Isto lhe deu a possibilidade de se aproximar da natureza com co nhecimento receptivo, com o intento de participar nela e se unir a ela. Mas a filosofia da natureza de Hegel foi um fracasso com amplas reper cussões. Uma filosofia romântica da natureza não pode evitar esta der rota. Tampouco pode evitá-la uma filosofia da vida que tenta criar uma união cognitiva com o processo dinâmico da vida. Tal filosofia reconhe ce que a vida não é um objeto do conhecimento controlador, que, para ser subjugada à estrutura meios-fins, ela deve primeiro ser morta, que a vida, em sua criatividade dinâmica, em seu élan vital (Bergson), só está aberta ao conhecimento receptivo, à participação intuitiva e à união mís tica. Isto, contudo, suscita a pergunta que a filosofia da vida nunca con seguiu responder: como podemos verificar a união intuitiva em que a vida está consciente de si mesma? Se ela é inexprimível, não é conheci mento. Se pode ser expressa, cai debaixo do critério da razão cognitiva, e sua aplicação exige distanciamento, análise e objetivação. A relação entre conhecimento receptivo e conhecimento controlador não é expli cada por Bergson nem por qualquer outro dos filósofos da vida. O exis tencialismo tenta preservar a liberdade do eu individual contra o domí nio do conhecimento controlador, porém descreve esta liberdade em ter mos que não só carecem de qualquer critério, mas também de qualquer conteúdo. O existencialismo constitui a tentativa mais desesperada de escapar do poder do conhecimento controlador e do mundo objetivado que a razão técnica produziu. Ele diz “não” a este mundo, mas, para dizer “sim” a alguma outra coisa, tem que usar ou o conhecimento con trolador ou voltar-se para a revelação. O existencialismo, assim como o romantismo e a filosofia da vida, deve se entregar à razão técnica ou formular a pergunta pela revelação. A revelação reivindica criar uma união completa com aquilo que se manifesta na revelação. Elaé conhe cimento receptivo em sua plenitude. Mas, ao mesmo tempo, pretende satisfazer as exigências do conhecimento controlador, do distanciamen to e da análise. 8. Verdade e verificação Todo ato cognitivo se esforça por alcançar a verdade. Já que a teologia reivindica ser verdadeira, precisa discutir o sentido do termo “verdade”, a natureza da verdade revelada e sua relação com outras for mas de verdade. Se não o fizer, a reivindicação teológica pode ser des cartada com um simples expediente semântico, como o fazem freqüen temente os naturalistas e positivistas. Segundo eles, o uso do termo “ver dade” está restrito a afirmações verificáveis empiricamente. O predica do “verdadeiro” deveria ser reservado para enunciados analíticos ou para proposições experimentalmente confirmadas. Essa limitação termino lógica dos termos “verdade” e “verdadeiro” é possível e uma questão de convenção. Mas, se aceita, significa uma ruptura com toda a tradição oci dental e requer a criação de outro termo para designar aquilo que se tem chamado de alethés ou verum na literatura clássica, antiga, medieval e moderna. E necessária tal ruptura? A resposta depende, em última instân cia, não de razões de conveniência, mas da natureza da razão cognitiva. A filosofia moderna costuma falar de verdadeiro e falso como qualidades de juízos. Os juízos podem apreender ou deixar de apreender a realidade e, em conseqüência, podem ser verdadeiros ou falsos. Mas a realidade em si é o que é. Não pode ser nem verdadeira nem falsa. Essa é certamente uma linha de argumentação possível, mas também é possí vel ir além dela. Se perguntarmos: “O que toma verdadeiro um juízo?”, é preciso dizer algo sobre a própria realidade. Deve haver uma explica ção que nos aclare por que a realidade pode se entregar ao ato cognitivo de tal forma que torne possível um juízo falso e se necessitem muitos processos de observação e pensamento para chegar a juízos verdadei ros. A razão disso é que as coisas ocultam seu verdadeiro ser; é necessá rio descobri-lo sob a superfície das impressões dos sentidos, das aparên cias cambiantes e das opiniões infundadas. Esta descoberta é feita atra vés de um processo de afirmações preliminares, subseqüentes negações e afirmações finais. Ela se dá por um processo de “sim” e “não”, ou seja, dialeticamente. A superfície deve ser atravessada, a aparência desfeita, é preciso alcançar a “profundidade”, isto é, a ousia, a “essência” das coisas, aquilo que lhes dá o poder de ser. Esta é sua verdade, o “realmen te real”, à diferença do aparentemente real. Não seria chamado “verda deiro”, contudo, se não fosse verdadeiro para alguém, isto é, para a mente que, pelo poder da palavra racional, do logos, apreende o nível da reali dade em que “habita” o realmente real. Esta noção de verdade não está vinculada a seu lugar de nascimento socrático-platônico. Independente mente de como se possa mudar a terminologia, de como se possa descre ver a relação entre o verdadeiro e a realidade aparente, de como se possa entender a relação entre a mente e a realidade, não se pode evitar o problema do “verdadeiramente real”. O aparentemente real não é irreal, mas é enganador se tomado como sendo o realmente real. Poder-se-ia dizer que o conceito de verdadeiro ser é o resultado de expectativas frustradas em nosso encontro com a realidade. Por exem plo, encontramo-nos com uma pessoa, e as impressões que dela recebe mos produzem em nós certas expectativas quanto a seu comportamento futuro. Algumas dessas expectativas serão frustradas e provocarão o de sejo de uma compreensão “mais profunda” de sua personalidade, em comparação com a qual nossa primeira compreensão era “superficial”. Surgem novas expectativas que também se mostram parcialmente ilusó rias, levando-nos a pensar em um nível ainda mais profundo de sua per sonalidade. Finalmente, talvez consigamos descobrir a estrutura de sua personalidade real, verdadeira, a essência e o poder de seu ser, e não mais seremos decepcionados. Podemos ainda ter alguma surpresa, mas essas surpresas são de esperar se o objeto de nosso conhecimento é uma pessoa. A verdade de algo é aquele nível de seu ser cujo conhecimento nos livra de ter falsas expectativas e de experimentar conseqüentes de sapontamentos. A verdade, portanto, é a essência das coisas bem como o ato cognitivo no qual apreendemos sua essência. O termo “verdade”, assim como o termo “razão”, é subjetivo-objetivo. Um juízo é verdadei ro porque apreende e expressa o verdadeiro ser, e o realmente real se torna verdade se é apreendido e expresso num juízo verdadeiro. A resistência que a filosofia recente oferece ao emprego ontoló gico do termo “verdade” surgiu do postulado de que a verdade só pode ser verificada no âmbito da ciência empírica. Afirmações que não po dem ser verificadas pela experiência são consideradas tautologias, auto- expressões emocionais ou proposições sem sentido. Há uma verdade importante nesta atitude. Afirmações que não possuem nem evidência intrínseca nem possibilidade de verificação não têm valor cognitivo. Por “verificação” entende-se um método que nos permita decidir sobre a verdade ou falsidade de um julgamento. Sem esse método, os juízos são expressões do estado subjetivo de uma pessoa, mas não atos da ra zão cognitiva. O teste de verificação pertence à natureza da verdade; nisto o positivismo está certo. Todo postulado cognitivo (hipótese) deve ser testado. A comprovação mais segura é o experimento repetível. Um âmbito cognitivo em que isso é possível tem a vantagem do rigor meto dológico e a possibilidade de testar uma afirmação a todo momento. Mas não é admissível fazer do método experimental de verificação o critério exclusivo de toda verificação. A verificação pode ocorrer dentro do próprio processo vital. Este tipo de verificação (experiencial, para distingui-la da experimental) tem a vantagem de não precisar deter e destruir a totalidade de um processo vital para destilar dele elementos calculáveis (o que a verificação experimental deve fazer). Esta verifica ção de caráter não-experimental é mais fiel à vida, embora menos exata e definida, e constitui de longe a maior parte de toda a verificação cogni tiva. Em alguns casos, as verificações experimental e experiencial atuam juntas. Em outros casos, o elemento experimental está completamente ausente. E obvio que esses dois métodos de verificação correspondem às duas atitudes cognitivas, a controladora e a receptiva. O conhecimento controlador é verificado pelo sucesso das ações controladoras. O uso técnico do conhecimento científico constitui sua verificação maior e mais impressionante. Cada máquina que funciona é um teste constante mente repetido da verdade das pressuposições científicas sobre as quais ela foi construída. O conhecimento receptivo é verificado pela união criativa de duas naturezas, a daquele que conhece e a daquilo que é conhecido. Este teste, sem dúvida, não é nem repetível, nem preciso, nem definitivo em momento algum. O próprio processo da vida faz o teste. Portanto, o teste é indefinido e preliminar e implica um elemento de risco. Estágios futuros do mesmo processo vital podem provar que aquilo que parecia um grave risco era algo bom, e vice-versa. Contudo, é preciso correr o risco; o conhecimento receptivo deve ser aplicado, a verificação experiencial deve prosseguir continuamente, seja ela respal dada por testes experimentais ou não. Os processos vitais são objeto de pesquisa biológica, psicológica e sociológica. Nestas disciplinas, é possível e realmente se obteve uma grande quantidade de conhecimento controlador e de verificação expe rimental; e, ao lidar com os processos vitais, os cientistas têm razão quando buscam estender o método experimental até onde for possível. Mas essas tentativas apresentam limites, que não são impostos pela im potência, mas por definição. Os processos da vida se caracterizam por sua totalidade, espontaneidadee individualidade. A experimentação pres supõe isolamento, regularidade e generalidade. Portanto, só os elemen tos separáveis dos processos da vida estão sujeitos à verificação experi mental, enquanto que os próprios processos devem ser recebidos em uma união criativa para serem conhecidos. Médicos, psicoterapeutas, educadores, reformadores sociais e líderes políticos lidam com este as pecto do processo vital, que é individual, espontâneo e total. Eles só podem trabalhar à base de um conhecimento que'una os elementos con troladores e receptivos. A verdade de seu conhecimento é verificada, em parte, pela prova experimental e, em parte, por uma participação na vida individual com que lidam. Se este “conhecimento por participação” é chamado de “intuição”, a atitude cognitiva diante de todo processo vital individual é intuitiva. A intuição, neste sentido, não é irracional e não nos exime de ter uma plena consciência do conhecimento verificado experimentalmente. A verificação no âmbito do conhecimento histórico também une um elemento experimental com um experiencial. O lado factual da pes quisa histórica se baseia em fontes, tradições e documentos que se tes tam uns aos outros de uma forma comparável aos métodos experimen tais (embora nenhum evento histórico possa ser repetido). O aspecto seletivo e interpretativo, contudo, sem o qual nenhuma historiografia jamais foi escrita, está baseado numa participação em termos de com preensão e explicação. Sem uma união da natureza do historiador com a do seu objeto, nenhuma história significativa é possível. Mas com esta união, o mesmo período e a mesma figura histórica receberam, com base no mesmo material verificado, muitas diferentes interpretações his toricamente significativas. A verificação, neste sentido, significa ilumi nar, tomar compreensível, dar um quadro significativo e consistente. A tarefa do historiador consiste em “tomar vivo” aquilo que “passou”. A comprovação de seu sucesso cognitivo, da verdade de seu quadro, é se ele é capaz de fazer isso ou não. Este teste não é definitivo, e todo traba lho histórico comporta um risco. Mas é um teste, uma verificação expe riencial, embora não experimental. Os princípios e normas que constituem a estrutura da razão subje tiva e objetiva são o objeto cognitivo da filosofia. O racionalismo e o pragmatismo discutem a questão de sua verificação de tal forma que ambos esquecem o elemento constituído pela união cognitiva e pelo conhecimento receptivo. O racionalismo tenta desenvolver princípios e normas em termos de auto-evidência, universalidade e necessidade. Categorias do ser e do pensar, princípios de expressão estética, normas de lei e de comunhão estão sujeitos à análise crítica e ao conhecimento a priori. A analogia da evidência matemática, que não necessita nem dos testes do conhecimento controlador nem do conhecimento recepti vo, é usada para a derivação dos princípios racionais, das categorias e das normas. O pensamento analítico pode, assim, tomar decisões sobre a estrutura racional da mente e da realidade. O pragmatismo afirma exatamente o contrário. Ele considera os chamados princípios da razão, as categorias e as normas como os resul tados de uma experiência acumulada e testada, mas suscetível de mu danças radicais pela experiência futura e sujeita a testes sempre repeti dos. Estes princípios, categorias e normas devem provar seu poder de explicar e julgar um material dado do conhecimento empírico, de ex pressão estética, de estruturas legais e de formas comunitárias. Se con seguem fazer isso, eles estão verificados pragmaticamente. Nem o racionalismo nem o pragmatismo vêem o elemento de par ticipação no conhecimento. Nenhum dos dois distingue conhecimento receptivo de controlador. Ambos estão amplamente determinados pela atitude do conhecimento controlador e presos às alternativas implícitas nele. Em oposição a ambos, deve-se dizer que a verificação dos princí pios da razão ontológica não tem nem o caráter de auto-evidência racio nal, nem de teste pragmático. A auto-evidência racional não pode ser atribuída a um princípio que contenha mais do que a mera forma de racionalidade, como ocorre, por exemplo, com o imperativo categórico de Kant. Todo princípio concreto, toda categoria e norma que expresse mais do que a pura racionalidade está sujeita à verificação experimental ou experiencial. Não é auto-evidente, mesmo que contenha um elemen to auto-evidente (que, contudo, não pode ser abstraído do conjunto). O pragmatismo não está em melhor posição. Falta-lhe um critério. Se con siderarmos o êxito operacional dos princípios como “o critério”, surge a pergunta: “Qual é o critério do êxito?” Esta pergunta não pode ser res pondida novamente em termos de êxito, isto é, pragmaticamente. Nem pode ser respondida racionalmente, exceto de forma inteiramente for- malista. A forma com que os sistemas filosóficos foram aceitos, experi mentados e verificados aponta para um método de verificação situtdo além do racionalismo e do pragmatismo. Estes sistemas se impuseram à mente de muitos seres humanos em termos de conhecimento receptivo e união cognitiva. Em termos de conhecimento controlador, de crítica ra cional ou de testes pragmáticos, eles foram refutados inúmeras vezes. Mas seguem vivos. Sua verificação é sua eficácia no processo vital da humanidade. Eles demonstram ser inexauríveis em termos de sentido e criativos em termos de poder. Este método de verificação certamente não é preciso nem definido, mas é permanente e efetivo. Ele elimina do processo histórico o que está desgastado e sem força e o que não pode manter-se à luz da pura racionalidade. De certa forma, ele combina ele mentos pragmáticos e racionais sem cair nos erros do pragmatismo ou do racionalismo. Contudo, mesmo esta forma de verificação está amea çada pela possibilidade da falta de sentido final. E mais fiel à vida do que os métodos que rivalizam com ela, mas comporta o risco radical da vida. É significativa naquilo que tenta verificar, mas não é segura em sua verificação. Essa situação espelha um conflito básico na razão cognitiva. O conhecimento se encontra em um dilema: o conhecimento controlador é seguro, mas não é significativo de forma última; o conhecimento recep tivo pode ser significativo de forma última, mas não oferece certeza. Raramente se reconhece e se compreende o caráter ameaçador deste dilema. Mas se o assumirmos e não encobrirmos com verificações pre liminares e incompletas, ele deve levar ou a uma resignação desespera da quanto à verdade ou à pergunta pela revelação, pois a revelação rei vindica dar uma verdade que é, simultaneamente, segura e objeto de preocupação última - uma verdade que inclui e aceita o risco e a incer teza de todo ato cognitivo significativo, mas que os transcende ao acei- tá-los. A realidade da revelação A. O sentido da revelação 1. As m arcas da revelação a) Considerações metodológicas - A finalidade do chamado mé todo fenomenológico é descrever “significados”, deixando de lado, por um tempo, a questão da realidade à qual se referem1. A importância desta abordagem metodológica está em sua exigência de que o sentido de uma noção seja esclarecido e circunscrito antes que se determine sua validez, antes que se aceite ou se rechace tal noção. Em muitos casos, especialmente no âmbito da religião, uma idéia foi tomada em seu sen tido não purificado, vago ou popular, e tornada vítima de uma rejeição fácil e injusta. A teologia deve aplicar a abordagem fenomenológica a todos os seus conceitos básicos, forçando assim seus críticos a ver so bretudo o que significam os conceitos criticados e obrigando a si pró pria a fazer descrições cuidadosas de seus conceitos e a usá-los com consistência lógica, evitando assim o perigo de tentar preencher as lacu nas lógicas com material devocional. Por isso, o presente sistema come ça cada uma de suas cinco partes com uma descrição do sentido dasidéias determinantes, antes de afirmar e discutir sua verdade e realidade efetiva. O teste de uma descrição fenomenológica consiste em sua capa cidade de oferecer um quadro que seja convincente, de torná-lo visível a qualquer pessoa que esteja disposta a olhar na mesma direção, de ilumi nar com ele outras idéias afins e de tomar compreensível a realidade que estas idéias pretendem refletir. A fenomenologia é uma forma de conside rar os fenômenos tal como “se apresentam”, sem a interferência de pre conceitos e explicações negativas ou positivas. Contudo, o método fenomenológico deixa sem resposta uma ques tão que é decisiva para sua validez. Onde e para quem se revela uma idéia? O fenomenólogo responde: tome como exemplo um evento reve- 1 Edmund HUSSERL, Ideas, trad. Boyce Gibson, New York: Macmillan, 1931. latório típico e veja nele e através dele o sentido universal de revelação. Esta resposta se mostra insuficiente tão logo a intuição fenomenológica se depare com exemplos diferentes e talvez contraditórios de revelação. Que critério deve determinar a escolha de um exemplo? A fenomenolo- gia não pode responder a esta pergunta. Isso indica que a fenomenolo- gia, embora seja competente no âmbito das significações lógicas, que são o objeto das pesquisas originais de Husserl, o inventor do método fenomenológico, é só parcialmente competente no âmbito das realida des espirituais, como a religião2. A questão acerca do critério que deve determinar a escolha de um exemplo só pode ser respondida se introduzirmos um elemento crítico na fenomenologia “pura”. A decisão a respeito do exemplo não pode ser deixada ao acaso. Se o exemplo não fosse nada mais do que um exem plar de uma espécie, como acontece no reino da natureza, não haveria problema. Mas a vida espiritual cria mais do que exemplares; ela cria corporificações únicas de algo universal. Em conseqüência, a decisão sobre o exemplo a ser usado na descrição fenomenológica do significa do de um conceito como “revelação” é de extrema importância. Esta decisão é crítica na forma e existencial na matéria. Realmente, ela de pende de uma revelação que foi recebida e considerada como final e que é crítica com respeito a outras revelações. Contudo, preserva-se a aborda gem fenomenológica. Trata-se de uma “fenomenologia crítica”, que une um elemento intuitivo-descritivo com um elemento existencial-crítico. O elemento existencial-crítico é o critério segundo o qual se sele ciona o exemplo; o elemento intuitivo-descritivo é a técnica mediante a qual se descreve o sentido que é manifesto no exemplo. O caráter con creto e único do exemplo (p. ex., a visão reveladora de Isaías) está em tensão com a reivindicação universal da descrição fenomenológica se gundo a qual o significado deste exemplo é válido para todos os exem plos. Esta tensão é inevitável. Pode-se reduzi-la de duas formas: por uma comparação de diferentes exemplos ou pela escolha de um exem plo em que absoluta concretude e absoluta universalidade estejam uni das. A primeira forma, porém, leva ao método da abstração, que priva os exemplos de sua concretude e reduz seu significado a uma generalidade vazia (p. ex., uma revelação que não é nem judaica nem cristã, nem profética nem mística). E precisamente isso que a fenomenologia deseja superar. A segunda forma está baseada na convicção de que uma revela ção especial (p. ex., a aceitação de Jesus como o Cristo por Pedro) é a revelação final e, em conseqüência, é universalmente válida. O signifi- 2 Cf. a justificação fenomenológica que Max SCHELER nos oferece de todo o sistema cató lico romano em seu livro Vom Ewigen im Menschen, Leipzig: Neuer Geist, 1923. Husscrl com razão rejeitou esse empreendimento. cado da revelação é derivado do exemplo “clássico”, mas a idéia inferi da desta maneira é válida para toda revelação, por mais imperfeito e distorcido que o evento revelador seja efetivamente. Julga-se cada exem plo de revelação segundo os termos deste conceito fenomenológico. E este conceito pode ser empregado como critério, porque expressa a na tureza essencial de toda revelação. A fenomenologia crítica é o método mais adequado para fornecer uma descrição normativa dos significados espirituais (e também Espiri tuais). A teologia deve usá-la ao tratar de cada um de seus conceitos básicos. b) Revelação e mistério - Tradicionalmente se tem usado a pala vra “revelação” (“remover o véu”) para designar a manifestação de algo oculto que não pode ser alcançado pelas vias comuns de obtenção de conhecimento. Na linguagem cotidiana, emprega-se esta palavra em um sentido mais amplo, porém mais vago: alguém revela um pensamento oculto a um amigo, uma testemunha revela as circunstâncias de um cri me, um cientista revela um novo método que testou por longo tempo, um insight vem a alguém “como uma revelação”. Em todos esses casos, contudo, a força das palavras “revelar” e “revelação” procede de seu sentido próprio e mais estrito. Uma revelação é uma manifestação espe cial e extraordinária que remove o véu de algo que está oculto de forma especial e extraordinária. Freqüentemente chama-se este caráter oculto de “mistério”, palavra que igualmente possui um sentido mais estrito e outro mais amplo. No sentido mais amplo, abarca tanto histórias de mis térios quanto o mistério da matemática superior e o mistério do sucesso. No sentido mais limitado, do qual se deriva a força destas expressões, aponta para algo que é essencialmente um mistério, algo que perderia sua própria natureza se perdesse seu caráter misterioso. “Mistério”, nes te sentido próprio, é derivado de muein, “fechar os olhos” ou “fechar a boca”. Para alcançar um conhecimento comum, é necessário abrir os olhos para apreender o objeto e abrir a boca para se comunicar com outras pessoas e pôr à prova as próprias percepções. Um mistério genu íno, contudo, é experimentado em uma postura que contradiz a atitude da cognição comum. Os olhos são “fechados”, porque o verdadeiro mis tério transcende o ato de ver, de confrontar-se com objetos cujas estru turas e relações se apresentam a um “sujeito” para que as conheça. O mistério caracteriza uma dimensão que “precede” a relação sujeito-ob- jeto. A mesma dimensão é indicada no “fechar a boca”. E impossível expressar a experiência do mistério em linguagem comum, porque esta linguagem nasceu do esquema sujeito-objeto e está presa a ele. Se o mistério é expresso na linguagem comum, ele necessariamente é com preendido de forma equivocada, reduzido a outra dimensão, profanado. Por essa razão, a violação do conteúdo dos cultos de mistério era uma blasfêmia que tinha de ser expiada com a morte. Tudo que é essencialmente misterioso não pode perder seu cará ter de mistério, mesmo quando é revelado. De outra forma, ser-nos-ia revelado algo que só aparentemente era mistério e não aquilo que é es sencialmente mistério. Mas não é um oxímoro falar da revelação de algo que permanece um mistério em sua própria revelação? É exata mente este aparente paradoxo que é afirmado pela religião e teologia. Onde quer que se mantenham as duas proposições: que Deus se revelou a si mesmo e que Deus é um mistério infinito para as pessoas a quem ele se revelou, afirma-se implicitamente este paradoxo. Mas este não é um paradoxo real, pois a revelação inclui elementos cognitivos. A revelação daquilo que é essencial e necessariamente misterioso significa a mani festação, no contexto da experiência comum, de algo que transcende o contexto habitual da experiência. Sabemos algo mais do mistério depois que se manifesta na revelação. Em primeiro lugar, sua realidade se tor nou uma questão de experiência. Em segundo lugar, nossa relação com o mistério também se tomou uma questão de experiência. Ambos os elementos são elementos cognitivos. Mas a revelação não dissolve o mistério em conhecimento. E tampouco acrescenta algo diretamente à totalidade de nosso conhecimento comum, ou seja, a nossoconheci mento sobre a estrutura sujeito-objeto da realidade. Para salvaguardar o uso apropriado da palavra “mistério”, é pre ciso evitar seus usos errôneos ou confusos. Não deveríamos chamar de “mistério” a algo que cessa de ser um mistério depois que foi revelado, e nem a qualquer coisa que possa ser descoberta por uma abordagem cognitiva metódica. O que não conhecemos hoje, mas poderemos co nhecer amanhã, não é um mistério. Outro uso impreciso e confuso da palavra está relacionado com a diferença entre conhecimento controla dor e receptivo. Dizemos que são “misteriosos” aqueles elementos da realidade que não podem ser alcançados pelo conhecimento controla dor, como qualidades, Gestalten, significados, idéias, valores. Mas o fato de requererem uma abordagem cognitiva diferente não os toma mis teriosos. A qualidade de uma cor, o sentido de uma idéia ou a natureza de um ser vivo só é um mistério se o método de análise quantitativa constituir o padrão de todo conhecimento. Nada justifica essa redução do poder cognitivo da razão. O conhecimento destes elementos da reali dade é racional, embora não seja um conhecimento controlador. O verdadeiro mistério aparece quando a razão é conduzida para além de si mesma, a seu “fundamento e abismo”, àquilo que “precede” a razão, ao fato de que “o ser é e o não-ser não é” (Parmênides), ao fato original (Ur-Tatsache) de que há algo e não nada. Podemos chamar a isso de “lado negativo” do mistério. Este lado do mistério está presente em todas as funções da razão; ele se manifesta tanto na razão subjetiva quanto na razão objetiva. O “estigma” da finitude (veja p. 198ss.), que aparece em todas as coisas e na totalidade da realidade, e o “choque” que se apodera da mente quando se encontra com a ameaça do não-ser (veja p. 195ss.) revelam o lado negativo do mistério, o elemento abis mal no fundamento do ser. Este lado negativo está sempre potencial mente presente, e podemos detectá-lo nas experiências tanto cognitivas quanto comunitárias. É um elemento necessário da revelação. Sem ele, o mistério não seria mistério. Sem o “eu estou perdido” de Isaías em sua visão vocacional, não pode haver experiência de Deus (Is 6.5). Sem a “noite escura da alma”, o místico não pode experienciar o mistério do fundamento. O lado positivo do mistério - que inclui o lado negativo - mani- festa-se na revelação efetiva. Aqui o mistério se apresenta como funda mento e não apenas como abismo. Aparece como o poder de ser, ven cendo o não-ser. Aparece como nossa preocupação última e se expressa em símbolos e mitos que apontam para a profundidade da razão e seu mistério. A revelação é a manifestação daquilo que nos diz respeito de for ma última. O mistério revelado é nossa preocupação última, porque é o fundamento de nosso ser. Na história da religião, os eventos reveladores sempre foram descritos como acontecimentos que chocam, transformam, exigem, que são significativos de forma última. Eles procedem de fon tes divinas, do poder daquilo que é santo e que, portanto, possui uma reivindicação incondicional sobre nós. Só o mistério que é de preocupa ção última para nós aparece na revelação. Grande parte das idéias que procedem de pretensas revelações a respeito de objetos e eventos situa dos na estrutura sujeito-objeto da realidade não são mistérios genuínos nem se baseiam em uma revelação autêntica. O conhecimento da natu reza e da história, dos indivíduos, de seu futuro e seu passado, de coisas e acontecimentos ocultos - nada disso é material de revelação, mas ob jeto de observações, intuições e conclusões. Se tal conhecimento alega vir da revelação, deve ser submetido aos testes de verificação dos méto dos acadêmicos e aceito ou rejeitado à base destes testes. Ele se encon tra à margem da revelação, porque não é questão de preocupação última nem constitui um mistério essencial. A revelação, como revelação do mistério que é nossa preocupa ção última, é invariavelmente revelação para alguém numa situação con creta de preocupação. Isto está claramente indicado em todos os eventos que tradicionalmente foram caracterizados como reveladores. Não há uma revelação “em geral” (Ojfenbarung überhaupt). A revelação se apodera de um indivíduo ou de um grupo, geralmente de um grupo através de um indivíduo; ela só tem poder revelador nesta correlação. Revelações rece- bidas fora da situação concreta só podem ser apreendidas como relatos sobre revelações que outros grupos afirmam haver recebido. O conheci mento de tais relatos, e mesmo uma aguda compreensão dos mesmos, não os torna reveladores para quem não pertence ao grupo que foi tomado pela revelação. Não há revelação se não houver alguém que a receba como sua preocupação última. A revelação sempre é um evento subjetivo e um evento objetivo em estrita interdependência. Alguém se sente tomado pela manifestação do mistério; este é o lado subjetivo do evento. Algo ocorre através do qual o mistério da revelação se apodera de alguém; este é o lado objeti vo. Não é possível separar esses dois aspectos. Se nada acontece objeti vamente, nada é revelado. Se ninguém recebe subjetivamente o que acon tece, o evento deixa de revelar algo. A ocorrência objetiva e a recepção subjetiva pertencem ao evento total da revelação. A revelação não é real sem o aspecto receptivo e não é real sem que algo seja dado. O mistério aparece objetivamente em termos daquilo que se chama tradicionalmente de “milagre” e aparece subjetivamente em termos daquilo que é, às ve zes, chamado de “êxtase”. Ambos os termos necessitam de uma reinter- pretação radical. c) Revelação e êxtase - O uso da palavra “êxtase” em uma expli cação teológica implica um risco ainda maior do que o uso da palavra “mistério”, pois, apesar das muitas distorções do sentido deste termo, pouquíssimas pessoas hesitariam em falar do mistério divino ao falar de Deus. Não ocorre o mesmo com a palavra “êxtase”. Os chamados movi mentos “extáticos” sobrecarregaram esse termo com conotações infeli zes, embora profetas e apóstolos tenham falado reiteradamente de suas experiências extáticas usando uma variedade de termos. A palavra “êxta se” deve ser resgatada de suas conotações deformadas e restaurada para uma função teológica sóbria. Se isto não for possível, a realidade descrita pela palavra desaparecerá de nossa vista, a menos que possamos achar outra palavra para substituí-la. O termo “êxtase” (“estar fora de si mesmo”) aponta para um esta do de espírito que é extraordinário no sentido de que a mente transcende sua situação habitual. O êxtase não é uma negação da razão; é um estado mental em que a razão está além de si mesma, isto é, além da estrutura sujeito-objeto. Ao estar além de si mesma, a razão não nega a si mesma. A “razão extática” continua sendo razão; ela não recebe nada irracional ou anti-racional - o que não poderia fazer sem autodestruir-se - , mas transcende a condição básica da racionalidade finita, a estrutura sujeito- objeto. Este é o estado que os místicos procuram alcançar mediante suas atividades ascéticas e meditativas. Mas os místicos sabem que estas ati vidades são apenas preparatórias e que a experiência do êxtase se deve exclusivamente à manifestação do mistério em uma situação revelató- ria. O êxtase só ocorre se a mente se sentir possuída pelo mistério, isto é, pelo fundamento do ser e do sentido. E, vice-versa, não há revelação sem êxtase. No máximo, há uma informação que pode ser testada cien tificamente. O “êxtase do profeta”, acerca do qual canta o hino e do qual a literatura profética está repleta, indica que a experiência do êxtase possui um significado universal. O termo “êxtase” freqüentemente é confundido com entusiasmo. É fácil compreender esta confusão. O termo “entusiasmo” significa ter deus dentro de si ou estar dentro de deus. Em ambos os casos, o estado entusiástico da mente tem qualidades extáticas e não existe uma dife rença básica no sentido originalde ambas as palavras3. Mas a palavra “entusiasmo” perdeu estas conotações religiosas e é empregada para designar a luta apaixonada por uma idéia, um valor, uma tendência, um ser humano, etc. “Entusiasmo” já não possui mais a conotação de uma relação com o divino, enquanto que “êxtase”, ao menos até certo ponto, ainda apresenta essa conotação. Hoje, o sentido de “êxtase” é amplamente determinado por aque les grupos religiosos que reivindicam ter experiências religiosas especi ais, inspirações pessoais, dons espirituais extraordinários, revelações in dividuais e o conhecimento de mistérios esotéricos. Tais reivindicações são tão antigas quanto a religião e sempre foram objeto de admiração e avaliação crítica. Seria errôneo rejeitar a priori essas reivindicações e negar que estes grupos tenham experimentado um êxtase autêntico. Mas não se deveria permitir que usurpassem esse termo. Ele tem um uso legítimo na teologia, especialmente na teologia apologética. Os chamados movimentos extáticos correm constantemente o perigo - ao qual geralmente sucumbem - de confundir superexcitação com a presença do Espírito divino ou com a ocorrência da revelação. Em toda manifestação genuína do mistério, algo ocorre tanto objetiva quando subjetivamente. No estado de superexcitação religiosa, só ocor re algo subjetivo, em geral produzido artificialmente. Portanto, não tem qualquer poder revelador. Nenhuma interpretação teórica ou prática nova daquilo que nos preocupa ultimamente pode ser derivada de tais experi ências subjetivas. A superexcitação religiosa é um estado de espírito que pode ser perfeitamente explicado em termos psicológicos. O êxtase transcende o nível psicológico, embora tenha um lado psicológico. Ele revela algo válido sobre a relação entre o mistério de nosso ser e nós mesmos. O êxtase é a forma na qual aquilo que nos preocupa incondi 3 Durante o período da Reforma, dava-se o nome de “entusiastas” àqueles grupos que reivin dicavam ser guiados por revelações Espirituais especiais. cionalmente se manifesta dentro da totalidade de nossas condições psico lógicas. Ele aparece através delas, mas não pode ser derivado delas. A ameaça do não-ser, quando se apodera da mente, produz o “cho que ontológico” em que se experiencia o lado negativo do mistério do ser - seu elemento abismal. O termo “choque” aponta para um estado de espírito em que a mente é arrancada de seu equilíbrio normal e abalada em sua estrutura. A razão alcança seu limite último, é lançada de volta sobre si mesma e de novo é arrastada para sua situação extrema. Esta experiência do choque ontológico é expressa na função cognitiva pela questão filosófica básica: a questão do ser e não-ser. E, sem dúvida, enganador perguntar com alguns filósofos: “Por que há algo? Por que não existe nada?”, pois esta forma da pergunta aponta para algo que precede o ser, para algo do qual o ser possa ser derivado. Mas o ser só pode ser derivado do ser. O sentido desta pergunta pode ser expresso na afirmação de que o ser é o fato original, que não pode ser derivado de outra coisa. Tomada neste sentido, a questão é uma expressão paradoxal do choque ontológico e, como tal, o começo de toda filosofia genuína. Na revelação e na experiência extática em que é recebida, o cho que ontológico é preservado e superado ao mesmo tempo. Ele é preser vado no poder aniquilador da presença divina (mysterium tremendum) e é superado no poder fascinante da presença divina (jnysterium fascino- sum). O êxtase une a experiência do abismo, ao qual é conduzida a razão em todas suas funções, e a experiência do fundamento, no qual a razão é possuída pelo mistério de sua própria profundidade e da profundidade do ser em geral. O estado extático em que ocorre a revelação não destrói a estrutu ra racional da mente. Os relatos sobre experiências extáticas na literatu ra clássica das grandes religiões coincidem neste ponto - enquanto a possessão demoníaca destrói a estrutura racional da mente, o êxtase di vino a preserva e eleva, embora a transcenda. A possessão demoníaca destrói os princípios éticos e lógicos da razão; o êxtase divino os afirma. “Revelações” demoníacas são desmascaradas e rejeitadas em muitas fon tes religiosas, especialmente no AT. Uma pretensa revelação em que a justiça, como princípio da razão prática, seja violada é antidivina e, por tanto, considerada uma mentira. O demoníaco cega; não revela. No es tado de possessão demoníaca, a mente não está de fato “fora de si mes ma”, mas em poder de alguns elementos dela mesma que aspiram ser a totalidade da mente, apoderam-se do centro do eu racional e o destroem. Há, contudo, um ponto de identidade entre êxtase e possessão. Em am bos os casos, a estrutura habitual sujeito-objeto da mente é desativada. Mas o êxtase divino não viola a totalidade da mente racional, ao passo que a possessão demoníaca a enfraquece ou destrói. Isso indica que o êxtase, embora não seja um produto da razão, não destrói a razão. É óbvio que o êxtase comporta um forte aspecto emocional. Mas seria um erro reduzi-lo à emoção. Em qualquer experiência extática, todas as funções de apreensão e configuração da razão são conduzidas para além de si mesmas, e o mesmo ocorre com a emoção. O sentimento não está mais próximo do mistério da revelação e de sua recepção extá tica do que as funções cognitivas e éticas. Com respeito a seu elemento cognitivo, o êxtase é freqüentemen te chamado de “inspiração”. Esta palavra, derivada de spirare, “respi rar”, enfatiza a pura receptividade da razão cognitiva em uma experiên cia extática. Confusões e distorções tomaram o termo “inspiração” qua se tão inútil quanto as palavras “êxtase” e “milagre”. O uso impreciso desta palavra para descrever atos não-reflexivos de conhecimento é par cialmente responsável por esta situação. Neste emprego da palavra, es tar inspirado significa estar em um estado criativo, ou sentir-se possuído por uma idéia, ou alcançar a compreensão de algo através de uma intui ção repentina. O abuso oposto do termo está vinculado a certas formas da doutrina da inspiração dos textos bíblicos. Descreve-se a inspiração como um ato mecânico de ditar ou, de maneira mais sutil, como um ato de ministrar informações. Nestas idéias de inspiração, a razão é invadi da por um corpo estranho de conhecimento com o qual não se pode unir, um corpo que destruiria a estrutura racional da mente se permanecesse dentro dela. Em última análise, uma doutrina mecânica ou qualquer ou tra doutrina não-extática da inspiração é demoníaca. Ela destrói a estru tura racional que deve receber a inspiração. E óbvio que a inspiração, se com este nome se designa a qualidade cognitiva da experiência extática, não pode mediar conhecimento de objetos ou relações finitas. Ela nada acrescenta ao complexo de conhecimento que é determinado pela estru tura sujeito-objeto da razão. A inspiração abre uma nova dimensão de conhecimento, a dimensão de compreensão em relação com nossa preo cupação última e com o mistério do ser. d) Revelação e milagre - O termo “milagre”, segundo sua defini ção usual, designa um acontecimento que contradiz as leis da natureza. Esta definição e as inúmeras histórias de milagre não comprovadas em todas as religiões falsearam o termo e o tornaram perigoso para o uso teológico. Mas uma palavra que expressa uma experiência genuína só pode ser abandonada se houver uma outra que possa substituí-la. E não parece que se tenha encontrado tal palavra substitutiva. O NT freqüen temente usa a palavra grega semeion (sinal) para designar o sentido reli gioso dos milagres. Mas a palavra “sinal”, sem qualquer outra qualifica ção, não pode expressar esse sentido religioso. Seria mais acertado an tepor a palavra “evento” a “sinal” e falar em evento-sinal. O sentido original de milagre, “aquilo que produz assombro”, é bastante adequado para descrever o aspecto objetivo de uma experiência revelatória. Mas esse sentido foiabsorvido pela má conotação de uma interferência so brenatural que destrói a estrutura natural dos eventos. Evita-se esta má conotação com a palavra “sinal” e a expressão “evento-sinal”. Enquanto a consciência religiosa em sua ingenuidade original acei ta estórias espantosas em conexão com manifestações divinas sem ela borar uma teoria supranaturalista de milagres, períodos racionalistas fa zem da negação das leis naturais o ponto principal dos relatos de mila gres. Desenvolve-se uma espécie de racionalismo irracional em que o grau de absurdo numa história de milagre se toma a medida de seu valor religioso. Quanto mais impossível, tanto mais reveladora! Já no NT po demos observar que, quanto mais tardia a tradição, tanto mais se enfati za o elemento antinatural em oposição ao elemento de sinal. No período pós-apostólico, quando se escreveram os evangelhos apócrifos, não ha via freio algum para o absurdo. Tanto pagãos quanto cristãos estavam mais interessados na sensação produzida em suas mentes racionalistas pelos acontecimentos anti-racionais do que na presença do divino em eventos abaladores e significativos. Esse anti-racionalismo racionalista contaminou o cristianismo posterior e ainda constitui um fardo para a vida da Igreja e para a teologia. A manifestação do mistério do ser não destrói a estrutura do ser em que se manifesta. O êxtase no qual o mistério é recebido não destrói a estru tura racional da mente que acolhe o mistério. O evento-sinal que medeia o mistério da revelação não destrói a estrutura racional da realidade em que aparece. Se aplicarmos esses critérios, é possível estabelecer uma doutrina significativa dos eventos-sinais ou milagres. Não se deveria usar a palavra “milagre” para designar eventos que criam assombro por um certo tempo, tais como descobertas científi cas, criações técnicas, obras impressionantes de arte ou de política, rea lizações pessoais, etc. Todos cessam de produzir assombro tão logo nos acostumemos com eles, embora continuemos a admirá-los e nossa ad miração por eles inclusive cresça. Tampouco são milagres as estruturas da realidade, as Gestalten, as qualidades, as finalidades (teloi) internas das coisas, mesmo que sempre sejam objetos de admiração. Há um ele mento de assombro na admiração, mas não se trata de um assombro numinoso; ele não aponta para um milagre. Assim como o êxtase pressupõe o choque produzido pelo não-ser na mente, também os eventos-sinais pressupõem o estigma do não-ser na realidade. No choque e no estigma, que são estritamente correlatos, aparece o lado negativo do mistério do ser. A palavra “estigma” aponta para as marcas da infâmia, por exemplo, no caso de um criminoso, e para as marcas da graça, por exemplo, no caso de um santo; em ambos os casos, contudo, indica algo negativo. Há um estigma que aparece em todas as coisas, o estigma da finitude ou do não-ser implícito e inevitá vel. É impressionante que, em muitas histórias de milagre, haja uma descrição do temor “numinoso” que se apodera das pessoas que partici pam dos eventos numinosos. Experimentam a sensação de que o sólido fundamento da realidade cotidiana é retirado de “sob os seus pés”. A experiência correlata do estigma do não-ser na realidade e do choque do não-ser na mente produz essa sensação que, embora não seja reveladora em si mesma, acompanha toda experiência autêntica de revelação. Milagres não podem ser interpretados em termos de uma interfe rência sobrenatural em processos naturais. Se esta interpretação fosse verdadeira, a manifestação do fundamento do ser destruiria a estrutura do ser; Deus se cindiria em si mesmo, como tem afirmado o dualismo religioso. Seria mais pertinente chamar tal milagre de “demoníaco”, não porque seja produzido por “demônios”, mas porque revela uma “estru tura de destruição” (veja Parte 4, Seção I). Ele corresponde ao estado de “ser possuído” na mente e poderia ser chamado de “magia”. A teoria supranaturalista dos milagres toma Deus um mágico e uma causa de “possessão”; confunde Deus com as estruturas demoníacas na mente e na realidade. Tais estruturas existem, baseadas em uma distorção de ma nifestações genuínas do mistério do ser. Certamente é intolerável uma teologia supranaturalista que empregue modelos derivados da estrutura de possessão e magia para descrever a natureza da revelação em termos de destruição da razão subjetiva e objetiva. Os eventos-sinais, em que o mistério do ser se manifesta, consis tem em constelações especiais de elementos da realidade em correlação com constelações especiais de elementos da mente. Um milagre genuí no é, sobretudo, um evento assombroso, incomum, abalador, mas que não contradiz a estrutura racional da realidade. Em segundo lugar, é um evento que aponta para o mistério do ser, expressando sua relação co nosco de uma forma definida. Em terceiro lugar, é uma ocorrência que recebemos como um evento-sinal em uma experiência extática. Só po demos falar de milagre autêntico, se estas três condições forem satisfei tas. Aquilo que não nos abala por seu caráter assombroso não tem poder revelador. Aquilo que abala sem apontar para o mistério do ser não é milagre, mas magia. Aquilo que não é recebido em êxtase é um relato sobre a crença num milagre, não um milagre efetivo. Enfatiza-se isto nos relatos sinóticos dos milagres de Jesus. Milagres tão-somente são dados àqueles para quem eles são eventos-sinais, para aqueles que os recebem em fé. Jesus se recusa a realizar milagres “objetivos”. Eles são uma contradição em termos. Esta correlação estreita torna possível in- tercambiar as palavras que descrevem os milagres e as que descrevem o êxtase. Pode-se dizer que êxtase é o milagre da mente e que milagre é o êxtase da realidade. Já que nem o êxtase nem o milagre destroem a estrutura da razão cognitiva, a análise científica, a investigação psicológica, física e histó rica são possíveis e necessárias. A pesquisa pode e deve avançar sem restrição. Ela pode destruir as superstições e interpretações demoníacas de revelação, êxtase e milagre. A ciência, a psicologia e a história são aliadas da teologia na luta contra as distorções supranaturalistas da re velação genuína. A explicação científica e a crítica histórica protegem a revelação; elas não podem dissolvê-la, porque a revelação pertence a uma dimensão da realidade para a qual tanto a análise científica quanto a histórica são inadequadas. A revelação é a manifestação da profundi dade da razão e do fundamento do ser. Ela aponta para o mistério da existência e para nossa preocupação última. E independente do que a ciência e a história dizem sobre as condições em que aparece e não pode tomar a ciência e a história dependentes dela. Nenhum conflito entre dimensões diferentes da realidade é possível. A razão recebe a revelação no êxtase e no milagre; mas a razão não é destruída pela revelação, assim como a revelação não é esvaziada pela razão. 2. Os meios da revelação a) A natureza como meio de revelação - Não há realidade, coisa ou evento que não possa tomar-se portador do mistério do ser e entrar numa correlação revelatória. Em princípio, nada está excluído da revela ção, porque nada está incluído nela em virtude de qualidades especiais. Nenhuma pessoa e nenhuma coisa é digna em si mesma de representar nossa preocupação última. Por outro lado, toda pessoa e toda coisa par ticipa no ser-em-si, isto é, no fundamento e no sentido do ser. Sem essa participação, careceria do poder de ser. Esta é a razão por que quase todos os tipos de realidade chegaram a ser, em um momento ou outro, um meio de revelação. Embora nada se tenha tomado portador da revelação em virtude de qualidades extraordinárias, estas qualidades determinam a direção na qual uma coisa ou um evento expressa nossa preocupação última e nossa relação com o mistério do ser. Não há a menor diferença entre uma pedra e uma pessoa em sua potencialidade de se tomarem portado res de revelaçãopor sua entrada em uma constelação revelatória. Mas existe uma grande diferença entre elas no que tange ao significado e à verdade das revelações mediadas através delas. A pedra representa um número bastante limitado de qualidades capazes de apontar para o fun damento do ser e do sentido. A pessoa representa as qualidades centrais e, por implicação, todas as qualidades que podem apontar para o misté rio da existência. Há, contudo, qualidades na pedra para as quais a pes soa não é explicitamente representativa (o poder de perdurar, resistir, etc.). Tais qualidades podem fazer da pedra um elemento auxiliar na revelação através de uma pessoa, por exemplo, a metáfora “rocha eter na” aplicada a Deus. Os elementos sacramentais (água, vinho, óleo, etc.) devem ser vistos sob essa luz. Seu caráter original como portadores in dependentes de revelação foi transformado em uma função auxiliar. Mas mesmo nesta função, ainda se pode perceber seu poder original inde pendente. Os meios de revelação procedentes da natureza são tão numero sos quanto os objetos naturais. Oceano e estrelas, plantas e animais, corpos e almas humanos são todos meios naturais de revelação. Igual mente numerosos são os eventos naturais que podem entrar em uma constelação de caráter revelatório: os movimentos do céu, a mudança do dia e da noite, o crescimento e o declínio, o nascimento e a morte, as catástrofes naturais, as experiências psicossomáticas, tais como a matu ração, a doença, o sexo, o perigo. Em todos esses casos, não é a coisa ou o evento como tal que possui caráter revelatório; eles revelam aquilo que os utiliza como meios e portadores de revelação4. Enquanto a vida cotidiana é uma mescla ambígua do regular e do irregular, nas constelações revelatórias um ou o outro é experimentado em sua forma radical. Se o “extraordinariamente regular” é o meio de revelação, o mistério do ser se manifesta em sua relação com o caráter racional da mente e da realidade; o divino expõe sua qualidade de logos sem deixar de ser o mistério divino. Se o “extraordinariamente irregu lar” é o meio de revelação, o mistério do ser se manifesta em sua relação com o caráter pré-racional da mente e da realidade; o divino mostra seu caráter abismal, sem deixar de ser o mistério divino. O extraordinaria mente regular como meio da revelação determina o tipo social e ético de religião. A coordenação kantiana da lei moral com o céu estrelado como expressão do incondicionalmente sublime constitui a formulação clássica da interdependência mútua da experiência da lei social e natural e da rela ção de ambas com o sentido último da existência. O extraordinariamente irregular como meio de revelação determina o tipo individualista e para doxal de religião. O símbolo de Kierkegaard para a situação do crente sempre suspenso como um nadador sobre a profundidade do oceano, e 4 Ao julgar os ritos e símbolos sexuais de muitas religiões, e preciso lembrar que não é o sexual em si mesmo que se revela, mas o mistério do ser que, através do sexual, manifesta sua relação conosco de forma especial. Isto explica c justifica a profusa utilização de sím bolos sexuais no cristianismo clássico. O protestantismo, corretamente consciente do peri go de uma demonização desses símbolos, desenvolveu uma extrema desconfiança deles, muitas vezes esquecendo o caráter mediador do sexo cm experiências reveladoras. Mas as deusas do amor são em primeiro lugar deusas, manifestando poder e dignidade divinos, c só cm segundo lugar representam a esfera do sexual em seu sentido último. O protestantismo, ao rejeitar o simbolismo sexual, não só se arrisca a perder muita riqueza simbólica, mas também a separar a esfera sexual do fundamento do ser c sentido no qual está enraizada c do qual proccde sua consagração. sua ênfase no “salto” que deixa para trás todas as coisas regulares e racio nais, são expressões clássicas deste tipo de religião. A mesma diferença embasa o presente conflito entre a teologia ritschliana e a neo-ortodoxa. A revelação através de meios naturais não é revelação natural. “Revelação natural”, se distinguida da revelação através da natureza, é uma contradição em termos. Pois se é conhecimento natural não é reve lação, e se é revelação ela toma extática e milagrosa a natureza. O co nhecimento natural sobre o eu e o mundo não pode conduzir à revelação do fundamento do ser. Pode levar à questão do fundamento do ser, e é isso que a chamada teologia natural pode e deve fazer. Mas esta questão não é levantada nem pela revelação natural nem pela teologia natural. É a questão da razão sobre seu próprio fundamento e abismo. Ela é levan tada pela razão, mas a razão não pode respondê-la. A revelação a res ponde. E esta resposta não se baseia nem na chamada revelação natural nem na chamada teologia natural. Está baseada na revelação real, no êxtase e nos eventos-sinais. A teologia natural e, de um modo ainda mais definido, a revelação natural não são mais do que nomes errôneos para designar o lado negativo da revelação do mistério, para uma inter pretação do choque e do estigma do não-ser. A razão cognitiva pode chegar até este ponto. Ela pode desdobrar a pergunta pelo mistério no fundamento da razão. Mas todo passo além da análise desta situação é ou uma argumentação vã, ou um remanes cente de crenças tradicionais, ou ambas as coisas. Quando Paulo fala da perversão idólatra de um conhecimento potencial de Deus através da natureza, ele não contesta as nações por causa de sua argumentação ques tionável, mas por causa de sua distorção das revelações através da natu reza. A natureza em seções especiais ou a natureza como um todo pode ser um meio de revelação em uma experiência extática. Mas a natureza não pode ser a base de uma argumentação conclusiva sobre o mistério do ser. Mesmo que ela pudesse ser isso, não se deveria chamá-la de teologia natural e, menos ainda, de revelação natural. b)A história, os grupos e os indivíduos como meios de revelação - Eventos históricos, grupos ou indivíduos em si não são meios de re velação. E a constelação revelatória em que entram, sob condições espe ciais, que os toma revelatórios, não seu significado histórico ou sua gran deza pessoal e social. Se a história aponta para além de si mesma em uma correlação de êxtase e evento-sinal, ocorre revelação. Se grupos de pessoas se tomam transparentes ao fundamento do ser e sentido, ocorre revelação. Mas sua ocorrência não pode ser prevista ou derivada das qualidades de pessoas, grupos e eventos. E questão de destino histórico, social e pessoal. Está sob a “criatividade diretiva” da vida divina (veja infra, p. 269ss.). Revelação histórica não é revelação na história, mas através da história. Já que o ser humano é essencialmente histórico, toda revela ção, mesmo que seja mediada através de uma rocha ou uma árvore, ocorre na história. Mas a própria história só é revelatória se um acontecimento especial ou uma série de eventos for experimentado extaticamente como milagre. Tais experiências podem estar vinculadas a grandes eventos criativos ou destrutivos de uma história nacional. Os eventos políticos então são interpretados como dons, julgamentos, promessas divinos e, portanto, como objetos de preocupação última e manifestação do misté rio do ser. A história é a história de grupos, representados e interpretados por personalidades. Tanto grupos quanto personalidades podem se tor nar meios de revelação em conexão com eventos históricos de caráter revelatório. O grupo que tem uma experiência extática em relação com seu destino histórico pode se tomar um meio de revelação para outros grupos. É isso que o profetismo judaico antecipou quando incluiu todas as nações na bênção de Abraão e previu todas as nações chegando ao Monte Sião para adorar o Deus de Israel. A igreja cristã sempre esteve consciente de sua vocação de ser portadora da revelação para nações e indivíduos. Da mesma forma, personalidades vinculadasa eventos re- velatórios podem se tornar elas próprias meios de revelação, seja como representantes ou intérpretes desses eventos e, às vezes, como ambas as coisas. Moisés, Davi e Pedro são descritos como representantes e como intérpretes de eventos revelatórios. Ciro representa um acontecimento revelatório, mas o Dêutero-Isaías o interpreta. O Paulo missionário re presenta um evento revelatório, enquanto o Paulo teólogo o interpreta. Em ambas as funções, todos esses seres humanos são meios de revela ção histórica. E todos eles, assim como os próprios eventos, apontam para algo que os transcende infinitamente: para a automanifestação da quilo que nos preocupa de forma última. A revelação através de personalidades não está restrita àquelas que representam ou interpretam a história. A revelação pode ocorrer através de qualquer personalidade transparente ao fundamento do ser. O profeta, embora seja um meio de revelação histórica, não exclui outros meios pessoais de revelação. O sacerdote que administra a esfera do santo, o santo que encama a própria santidade, o crente comum que é possuído pelo Espírito divino - todos podem ser meios de revelação para outros e para todo um grupo. Contudo, não é a função sacerdotal como tal que possui caráter revelador. Uma administração mecânica de ritos religiosos pode excluir qualquer presença reveladora da realidade sagrada que pretende mediar. Só sob condições especiais, a função sa cerdotal revela o mistério do ser. O mesmo é verdadeiro do santo. O termo “santo” foi mal interpretado e distorcido; a santidade foi identifi- cada com perfeição religiosa ou moral. O protestantismo, por estas ra zões, aboliu finalmente da teologia o conceito de santidade, e da reli gião a realidade do santo. Mas a santidade não é perfeição pessoal. Os santos são pessoas transparentes ao fundamento do ser que se revela através deles e são capazes de entrar como meios em uma constelação revelatória. Seu ser pode se tomar um evento-sinal para outros. Esta é a verdade que subjaz à prática católica de exigir milagres de cada santo. O protestantismo não admite qualquer diferença entre o santo e o crente comum. Todo crente é um santo na medida em que pertence à comunhão dos santos, à nova realidade que é santa em seu fundamento. E todo santo é um crente comum na medida em que pertence ao grupo daqueles que necessitam do perdão dos pecados. Sobre esta base, porém, o crente pode chegar a ser um meio de revelação para outros e - neste sentido - um santo. Sua fé e seu amor podem se tomar eventos-sinais para aqueles que são possuídos por seu poder e criatividade. Certamente é necessário que a teologia protestante repense o problema da santidade. A revelação histórica pode ser, e normalmente é, acompanhada e auxiliada pela revelação através da natureza, pois a natureza é a base sobre a qual se desenrola a história. Sem ela, a história careceria de qualquer realidade. Por isso, o mito e a lenda sagrada relatam a participa ção de constelações naturais de caráter revelatório na revelação histórica. Os evangelhos sinóticos estão repletos de histórias em que a presença do Reino de Deus em Jesus como o Cristo é testemunhada por eventos natu rais que entram na correlação de revelação. c) A palavra como meio de revelação e a questão da palavra interior- A importância da “palavra”, não só para a idéia de revelação, mas também para quase toda doutrina teológica, é tão grande que se faz urgentemente necessária uma “semântica teológica”. Dentro do sistema teológico, há vários lugares onde questões semânticas devem ser formu ladas e respondidas. A estrutura racional do ser humano não pode ser entendida sem a palavra com que apreende a estrutura racional da reali dade. A revelação não pode ser compreendida sem a palavra como meio de revelação. Não se pode descrever o conhecimento de Deus exceto através de uma análise semântica da palavra simbólica. Os símbolos “Palavra de Deus” e “Logos” não podem ser entendidos em seus vários sentidos sem uma percepção da natureza geral da palavra. Não se pode interpretar a mensagem bíblica sem princípios semânticos e hermenêu ticos. A pregação da Igreja pressupõe uma compreensão das funções expressiva e denotativa da palavra, além de sua função comunicativa. Sob essas circunstâncias, não surpreende que se tenha tentado reduzir toda a teologia a uma doutrina ampliada da “Palavra de Deus” (Barth). Mas, para isso, a “palavra” ou deve ser identificada com a revelação e o termo “palavra” ser usado em um sentido tão amplo que toda automani- festação divina possa ser subsumida nela, ou a revelação deve ser res tringida à palavra falada e a “Palavra de Deus” entendida literalmente em vez de simbolicamente. No primeiro caso, perde-se o sentido especí fico do termo “palavra”; no segundo, o sentido específico é preservado, mas Deus é afastado de uma automanifestação que não seja falada. Isto, contudo, contradiz não só o sentido do poder de Deus, mas também o simbolismo religioso dentro e fora da literatura bíblica que usa a visão, o tato e a gustação tão freqüentemente quanto a audição para descrever a experiência da presença divina. Portanto, a “palavra” só pode se tornar um símbolo abrangente da automanifestação divina se a “Palavra” divi na puder ser vista, provada e ouvida. A doutrina cristã da encarnação do Logos inclui o paradoxo de que a Palavra se tomou objeto de visão e tato (veja infra, p. 166ss.). A revelação através de palavras não deve ser confundida com “palavras reveladas”. Palavras humanas, seja na linguagem religiosa ou secular, são produzidas no processo da história humana e se baseiam na correlação experiencial entre a mente e a realidade. A experiência extá tica da revelação, como qualquer outra experiência, pode contribuir para a formação e transformação de uma linguagem. Mas não pode criar uma linguagem própria, que seria necessário aprender como se precisa apren der uma língua estrangeira. A revelação usa a linguagem comum, assim como usa a natureza e a história, a vida psíquica e espiritual do ser huma no como meios de revelação. A linguagem comum, que expressa e denota a experiência comum da mente e da realidade em sua estrutura categorial, converte-se em um veículo para expressar e denotar a experiência extra ordinária da mente e da realidade no êxtase e no evento-sinal. A palavra comunica a experiência auto-relacionada e inacessível de um profundo (ego-self) para outro de duas maneiras: mediante a ex pressão e a denotação. Essas duas formas em grande parte estão unidas, mas há um pólo da expressão no qual a denotação está quase ausente. E há um pólo da denotação onde a expressão está quase ausente. O poder denotativo da linguagem é sua capacidade de captar e comunicar senti dos gerais. O poder expressivo da linguagem é sua capacidade de dis cernir e comunicar estados pessoais. Uma equação algébrica tem um caráter quase exclusivamente denotativo; um grito tem um caráter qua se exclusivamente expressivo. Mas mesmo no caso de um grito indica- se um conteúdo definido de sentimento, e inclusive no caso de uma equação matemática, pode se expressar satisfação por causa da evidên cia do resultado e da adequação do método utilizado. A maior parte da linguagem se move entre esses dois pólos: quanto mais científica e téc nica, tanto mais próxima do pólo denotativo; quanto mais poética e co munitária, tanto mais próxima do pólo expressivo. A palavra como meio de revelação aponta para além de seu senti do comum, tanto na denotação quanto na expressão. Na situação de re velação, a linguagem tem um poder denotativo que, através do sentido comum das palavras, aponta para a relação delas conosco. Na situação de revelação, a linguagem tem um poder expressivo que, através das possibilidades expressivas da linguagem, aponta para o inexprimível e sua relação conosco. Isso não significa que a estrutura lógica da lingua gem comum seja destruída quando a palavrase torna um meio de reve lação. Uma combinação absurda de palavras não indica a presença do divino, embora elas possam ter um poder expressivo sem qualquer fun ção denotativa. A linguagem comum, por outro lado, mesmo quando lida com questões de preocupação última, não é um meio de revelação. Ela não possui o “som” e a “voz” que tomam perceptível aquilo que é último. Quando fala do último, do ser e do sentido, a linguagem comum o traz ao nível do preliminar, do condicionado e do finito, enfraquecen do assim seu poder revelador. A linguagem como meio de revelação, ao contrário, tem o “som” e a “voz” do mistério divino em e através do som e da voz da expressão e da denotação humanas. A linguagem com esse poder é “Palavra de Deus”. Utilizando uma metáfora óptica para carac terizar a linguagem, poder-se-ia dizer que a Palavra de Deus como pala vra da revelação é linguagem transparente. Através da linguagem co mum, brilha algo (mais precisamente, soa) que é a automanifestação da profundidade do ser e do sentido. É óbvio que a palavra como meio de revelação, a “Palavra de Deus”, não é uma palavra de informação sobre uma verdade que, de outra forma, permaneceria oculta. Se fosse isso, se a revelação fosse uma informação, não seria necessária qualquer “transparência” da linguagem. A linguagem comum, sem transmitir qualquer “som” de ultimidade, po deria dar uma informação sobre “assuntos divinos”. Tal informação seria de interesse cognitivo e talvez ético, mas careceria de quaisquer caracte rísticas da revelação. Não teria o poder de apreender, abalar e transformar, este poder que se atribui à “Palavra de Deus”. Se a palavra como meio de revelação não é informação, ela não pode ser pronunciada separadamente de eventos reveladores na nature za, na história e no ser humano. A palavra não é um meio de revelação além dos outros meios; é um elemento necessário em todas as formas de revelação. Já que o ser humano é ser humano pelo poder da palavra, nada realmente humano pode ser tal sem a palavra, seja ela falada ou silenciosa. Quando os profetas falavam, falavam dos “grandes feitos de Deus”, dos eventos reveladores na história de Israel. Quando os apósto los falavam, falavam do grande feito de Deus, do evento revelador que se chama Jesus, o Cristo. Quando os sacerdotes, os videntes e os místi cos do paganismo pronunciavam oráculos sagrados e criavam escritos sagrados, ofereciam interpretações de uma realidade Espiritual em que haviam penetrado após terem abandonado a realidade comum. O ser precede o falar, e a realidade revelatória precede e determina a palavra revelatória. Uma coletânea de supostas revelações divinas a respeito de “fé e moral”, sem um evento revelatório que as interprete, é um tratado jurídico com autorização divina, mas não é palavra de Deus e não tem poder revelatório. Nem os Dez Mandamentos, nem o grande manda mento são reveladores, quando separados da aliança divina com Israel ou da presença do Reino de Deus em Cristo. Estes mandamentos signi ficavam e deveriam ser tomados como interpretações de uma nova rea lidade, não como ordens dirigidas contra a velha realidade. Eles são des crições e não leis. O mesmo vale para as doutrinas. Não há doutrinas reveladas, mas há eventos e situações reveladores que podem ser descri tos em termos doutrinais. Doutrinas eclesiásticas, quando separadas da situação revelatória da qual surgiram, carecem de sentido. A “Palavra de Deus” não contém nem mandamentos revelados nem doutrinas reveladas. Ela acompanha e interpreta situações revelatórias. A expressão “palavra interior” é infeliz. Palavras são meios de comunicação. A “palavra interior” seria uma espécie de autocomunica- ção, um monólogo da alma consigo mesma. Mas emprega-se “palavra interior” para descrever o falar de Deus na profundidade da alma indivi dual. Algo é dito à alma, mas não é dito nem em palavras faladas nem em palavras silenciosas. Não se trata, em absoluto, de palavras. É um movimento da alma em si mesma. A “palavra interior” é uma expressão da negação da palavra como meio de revelação. Uma palavra é dita a alguém; a “palavra interior” é a consciência do que já está presente e não necessita ser dito. O mesmo aplica-se à expressão “revelação interi or”. Uma revelação interior deve revelar algo que ainda não faz parte do ser humano interior. Caso contrário, não seria revelação, mas lembran ça; algo potencialmente presente se tornaria efetivo e consciente. Esta, de fato, é a posição de místicos, idealistas e espiritualistas5, estejam conscientes dela ou não. Mas o ser humano no estado de alienação exis tencial não pode atingir a mensagem do Novo Ser mediante a lembran ça. Ela deve chegar até ele, deve ser dita a ele; é uma questão de revela ção. Esta crítica à doutrina da palavra interior é confirmada historica mente pela facilidade com se passa do espiritualismo ao racionalismo. A palavra interior se identificou cada vez mais com as normas lógicas e éticas que constituem a estrutura racional da mente e da realidade. A voz 5 A palavra “espiritualistas", que recebeu a conotação de ocultistas. deveria ser usada para designar os chamados entusiastas do período da Reforma e do começo do século 18. Sua característica era a crença na palavra interior ou na revelação interior dentro da alma do cristão individual. da revelação foi substituída pela voz de nossa consciência moral, lem- brando-nos daquilo que essencialmente já sabemos. Contra a doutrina da palavra interior, a teologia cristã deve sustentar a doutrina da palavra como meio de revelação ou, simbolicamente, a doutrina da Palavra de Deus. 3. A dinâm ica da revelação: revelação original e revelação dependente A história da revelação indica que há uma diferença entre revela ções originais e revelações dependentes. Esta diferença é uma conseqüên cia do caráter correlativo da revelação. Uma revelação original é uma revelação que ocorre numa constelação que não existia antes. Este mila gre e este êxtase estão unidos pela primeira vez. Ambos são originais. Numa revelação dependente, o milagre e sua recepção original juntos for mam o elemento doador, ao passo que o elemento receptor muda, na me dida em que indivíduos e grupos novos entram na mesma correlação de revelação. Jesus é o Cristo, tanto porque podia se tomar o Cristo quanto porque foi recebido como o Cristo. Sem estes dois aspectos não teria sido o Cristo. Isso não só foi verdadeiro com respeito àqueles que o receberam em primeiro lugar, mas é verdadeiro de todos os que, nas gerações poste riores, entraram em uma correlação reveladora com ele. Há, contudo, uma diferença entre a revelação original e a dependente. Enquanto Pedro se encontrou com o ser humano Jesus, a quem ele chamou Cristo, num êxta se revelatório original, as gerações seguintes se encontraram com o Jesus que fora recebido como o Cristo por Pedro e os outros apóstolos. Há uma revelação contínua na história da Igreja, mas é uma reve lação dependente. O milagre original, junto com sua recepção original, é o ponto de referência permanente, enquanto que a recepção Espiritual pelas gerações seguintes muda continuamente. Mas se um elemento da correlação muda, toda a correlação se transforma. É verdade que “Jesus Cristo (...) o mesmo ontem, hoje e para sempre” é o ponto irremovível de referência em todos os períodos da história da Igreja. Mas o ato de referir-se a ele nunca é o mesmo, já que novas gerações com novas po tencialidades de recepção entram na correlação e a transformam. Ne nhum tradicionalismo eclesiástico e nenhum biblicismo ortodoxo po dem evitar essa situação de “revelação dependente”. E isto responde a tão discutida questão sobre o poder revelatório da história da igreja. A história da igreja não é um lugar de revelações originais em acréscimo àquela sobre a qual se baseia a igreja (cf. a seção sobre a experiência, p. 56ss.). Antes, é o lugar de contínuas revelações dependentes, que são um aspectoda obra do Espírito divino na igreja. Este aspecto freqüente mente é chamado de “iluminação”, referindo-se à igreja como um todo, bem como a seus membros individuais. O termo “iluminação” designa o elemento cognitivo no processo de efetivação do Novo Ser. E o lado cognitivo do êxtase. Enquanto que “inspiração” tradicionalmente foi usa do para designar uma revelação original, “iluminação” tem sido usado para expressar o que chamamos “revelação dependente”. O Espírito di vino, que ilumina os crentes individualmente e como grupo, estabelece uma correlação revelatória entre a razão cognitiva dos crentes e o even to no qual se baseia o cristianismo. Isso conduz a uma visão mais ampla da revelação na vida do cris tão. Existe uma situação revelatória dependente sempre que o Espírito divino possuir, abalar e mover o espírito humano. Toda oração e medita ção, se cumprem seu sentido, isto é, se reúnem a criatura com seu funda mento criativo, são revelatórias neste sentido. As marcas da revelação - mistério, milagre e êxtase - estão presentes em toda oração verdadeira. Falar a Deus e receber uma resposta formam uma experiência extática e milagrosa; transcendem todas as estruturas comuns da razão subjetiva e objetiva. Constituem a presença do mistério do ser e uma efetivação de nossa preocupação última. Se a oração é rebaixada ao nível de uma con versa entre dois seres, é blasfema e ridícula. Se, contudo, é entendida como a “elevação do coração”, isto é, como a elevação do centro da personalidade a Deus, é um evento revelatório. Essa consideração exclui radicalmente todo conceito não-exis- tencial de revelação. As proposições sobre uma revelação passada dão informação teórica; elas não têm poder revelador. Só através de um uso autônomo do intelecto ou através da sujeição heterônoma da vontade poderiam ser aceitas como verdade. Tal aceitação seria uma obra huma na, um ato meritório do tipo contra o qual a Reforma declarou uma guerra de vida e morte. A revelação, seja original ou dependente, tem poder revelador só para as pessoas que participam nela, que entram numa correlação revelatória. A revelação original é dada a um grupo através de um indivíduo. Originalmente, a revelação só pode ser recebida na profundidade de uma vida pessoal, em suas lutas, decisões e auto-entrega. Nenhum indi víduo recebe uma revelação para si mesmo. Ele a recebe para seu grupo e, implicitamente, para todos os grupos, para a humanidade como um todo. Isto é óbvio na revelação profética, que sempre é vocacional. O profeta é o mediador da revelação para o grupo que o segue - freqüente mente depois de este havê-lo rejeitado primeiro. E isso não se restringe ao profetismo clássico. Encontramos a mesma situação na maioria das religiões e inclusive em grupos místicos. Um vidente, um fundador de religião, um sacerdote, um místico - esses são os indivíduos dos quais a revelação é derivada por grupos que entram na mesma correlação de reve lação de um modo dependente. Já que a correlação da revelação é transformada por todo novo grupo e, de forma infinitesimal, por todo novo indivíduo que ingressa nela, a questão que se impõe é se esta transformação pode alcançar um ponto onde a revelação original se esgote e seja ultrapassada. Trata-se da questão do possível fim de uma correlação revelatória, seja pelo com pleto desaparecimento do ponto de referência imutável, seja pela perda completa de seu poder de criar novas correlações. Ambas as possibilida des se verificaram inúmeras vezes na história da religião. Movimentos sectários e protestantes em todas as grandes religiões atacaram institui ções religiosas então vigentes como sendo uma traição completa ao sen tido da revelação original, embora estas instituições ainda a conservas sem como seu ponto de referência. Por outro lado, a maioria dos deuses do passado perderam até mesmo esse poder; converteram-se em símbo los poéticos e deixaram de criar uma situação reveladora. Apoio carece de qualquer significado revelador para os cristãos; a Virgem Maria não revela nada para os protestantes. A revelação através destas duas figuras chegou a um fim. Contudo, poderíamos nos perguntar como uma revela ção real pode chegar ao fim. Se é Deus que subjaz a toda revelação, como é possível que algo divino chegue a seu fim? E se não é Deus que se revela, por que usar o termo “revelação”? Mas esta alternativa não existe! Toda revelação nos é mediada por um ou vários meios de revela ção. Nenhum desses meios possui poder revelador em si mesmo. Mas, sob as condições da existência, esses meios reivindicam possuí-lo. Essa pretensão os torna ídolos, e a destruição dessa pretensão os priva de seu poder. O aspecto revelador não se perde se uma revelação chega a seu fim, mas seu aspecto idólatra é destruído. Aquilo que era revelador nela é preservado como um elemento em revelações mais abrangentes e purifi cadas, e tudo que é revelador está potencialmente presente na revelação final. Esta não pode ter fim, porque o portador dela não reivindica coisa alguma para si mesmo. 4. O conhecimento da revelação A revelação é a manifestação do mistério do ser para a função cognitiva da razão humana. Ela medeia um conhecimento. Tal conheci mento, no entanto, só pode ser recebido em uma situação revelatória, através do êxtase e do milagre. Esta correlação indica o caráter especial do “conhecimento da revelação”6. Como o conhecimento da revelação 6 Não se deveria falar de conhecimento revelado, porque este termo dá a impressão de que os conteúdos comuns do conhecimento são comunicados de forma extraordinária, separando assim o conhecimento revelado da situação revelatória. Este é o erro básico da maioria das interpretações populares e em numerosas interpretações teológicas da revelação e do co nhecimento mediado por ela. O termo “conhecimento da revelação” (ou conhecimento re velador) enfatiza a unidade inseparável de conhecimento e situação. não pode ser separado da situação de revelação, não podemos introduzi- lo no contexto do conhecimento comum como um acréscimo, indepen dentemente da maneira peculiar como foi obtido e recebido. O conheci mento da revelação não aumenta nosso conhecimento sobre as estrutu ras da natureza, da história e do ser humano. Sempre que se reivindica um conhecimento neste nível, este deve ser submetido aos testes experi mentais através dos quais se estabelece a verdade. Se tal reivindicação é feita em nome da revelação ou de qualquer outra autoridade, deve ser descartada, e devem se aplicar os métodos comuns de pesquisa e verifi cação. Para o físico, o conhecimento revelador da criação não acrescen ta nem diminui algo de sua descrição científica da estrutura natural das coisas. Para o historiador, a interpretação reveladora da história como história da revelação não confirma nem nega qualquer uma de suas afir mações sobre documentos, tradições e a interdependência de eventos históricos. Para o psicólogo, nenhuma verdade reveladora sobre o desti no do ser humano pode influenciar sua análise da dinâmica da alma humana. Se o conhecimento revelado interferisse no conhecimento co mum, destruiria a integridade científica e a humildade metodológica. Ele evidenciaria uma possessão demoníaca, não uma revelação divina. O conhecimento da revelação é um conhecimento sobre a revelação que nos é feita do mistério do ser, não uma informação sobre a natureza dos seres e suas relações mútuas. Portanto, o conhecimento da revelação só pode ser recebido na situação de revelação e só pode ser comunicado - em contraste com o conhecimento comum - àqueles que participam desta situação. Para as pessoas que estão fora desta situação, as mesmas pala vras soam de forma diferente. Um leitor do Novo Testamento, por exem plo um filólogo, para quem seus conteúdos não são objeto de preocupa ção última, pode ser capaz de interpretar o texto exata e corretamente, mas não perceberá o significado extático-revelador desuas palavras e frases. Ele pode falar com precisão científica sobre elas, como se fos sem relatos a respeito de uma pretensa revelação, mas não pode falar delas como testemunhas de uma revelação efetiva. Seu conhecimento dos documentos da revelação não é existencial. Como tal, pode contri buir muito para uma compreensão histórica e filosófica dos documen tos, mas não pode contribuir em nada ao conhecimento da revelação mediada através desses documentos. O conhecimento da revelação não pode interferir no conhecimen to comum. Tampouco o conhecimento comum pode interferir no conhe cimento da revelação. Nenhuma teoria científica é mais favorável à ver dade da revelação do que outra. E desastroso para a teologia quando os teólogos, por razões teológicas, preferem uma concepção científica a outras, e foi humilhante para a teologia quando os teólogos, por motivos teológicos, temeram novas teorias, tentaram resistir a elas tanto quanto possível e, finalmente, cederam quando toda resistência se mostrou invi ável. Esta resistência doentia dos teólogos, desde a época de Galileu até Darwin, foi uma das causas da cisão entre a religião e a cultura secular nestes últimos séculos. A mesma situação prevalece com respeito à pesquisa histórica. Os teólogos não devem temer qualquer conjetura histórica, pois a ver dade revelada está em uma dimensão onde não pode ser nem confirmada nem negada pela historiografia. Por isso, os teólogos não deveriam, por motivos teológicos, preferir alguns resultados da pesquisa histórica a ou tros e não deveriam oferecer resistência a resultados que, no final, terão que ser aceitos caso não se queira destruir a integridade científica, mesmo que estes resultados pareçam minar o conhecimento da revelação. Inves tigações históricas não deveriam nem confortar nem preocupar os teólo gos. O conhecimento da revelação, embora seja mediado primordialmen te através de eventos históricos, não implica afirmações factuais e, por conseguinte, não está exposto à análise crítica da pesquisa histórica. Sua verdade deve ser julgada por critérios que se encontram na dimensão do conhecimento revelador. A psicologia, incluindo a psicologia do profundo, a psicossomáti ca e a psicologia social, tampouco é capaz de interferir no conhecimento de revelação. Na revelação, há muitas percepções sobre a natureza hu mana. Mas todas elas se referem à relação do ser humano com aquilo que o preocupa incondicionalmente, o fundamento e o sentido de seu ser. Não há psicologia revelada, assim como não há historiografia reve lada ou física revelada. Não é tarefa da teologia proteger a verdade da revelação atacando, por razões teológicas, as doutrinas freudianas da libido, da repressão e da sublimação ou defendendo, em nome do co nhecimento revelador, uma doutrina jungiana do ser humano. Há, porém, um limite para a indiferença que o conhecimento da revelação sente por todas as formas de conhecimento comum, e este limite reside na presença de elementos reveladores nas afirmações do conhecimento comum. Se, sob a alegação de que se trata de conheci mento comum, se discutem questões de preocupação última, a teologia deve proteger a verdade da revelação contra os ataques de revelações dis torcidas, apresentem-se elas como autênticas religiões ou como idéias me- tafisicamente transformadas. Isto, contudo, representa uma luta religiosa na dimensão do conhecimento revelador e não um conflito entre o conhe cimento revelador e o conhecimento comum. A verdade da revelação não depende de critérios que não sejam eles mesmos reveladores. O conhecimento da revelação, como o conhe cimento comum, deve ser julgado por seus próprios critérios implícitos. E tarefa da doutrina da revelação final tomar estes critérios explícitos (ver as seções seguintes). O conhecimento da revelação é, direta ou indiretamente, conhe cimento de Deus e, portanto, é analógico ou simbólico. A natureza deste tipo de conhecimento depende da natureza da relação entre Deus e o mundo e só pode ser discutida no contexto da doutrina de Deus. Mas devem ser mencionados - e afastados - dois possíveis equívocos. Se o conhecimento da revelação é chamado de “analógico”, isto certamente se refere à doutrina clássica da analogia entis [“analogia em termos de ser “] entre o finito e o infinito. Sem essa analogia, nada poderia ser dito sobre Deus. Mas a analogia entis de forma alguma é capaz de criar uma teologia natural. Ela não é um método de descobrir a verdade sobre Deus, mas a forma como todo conhecimento da revelação deve ser ex presso. Neste sentido, analogia entis, como “símbolo religioso”, aponta para a necessidade de usar material tirado da realidade finita para dar conteúdo à função cognitiva na revelação. Esta necessidade, contudo, não diminui o valor cognitivo do conhecimento revelador. Dever-se-ia evitar a expressão “só um símbolo”, porque um conhecimento não-ana- lógico e não-simbólico de Deus apresenta menos verdade do que o co nhecimento analógico e simbólico. Já o uso de materiais finitos em seu sentido comum para o conhecimento da revelação destrói o sentido da revelação e priva Deus de sua divindade. B. A reve lação efetiva 5. Revelação efetiva e final Descrevemos o sentido da revelação à luz dos critérios do que o cristianismo considera ser revelação. Esta descrição do sentido de reve lação deveria abarcar todas as revelações possíveis e efetivas, mas o critério da revelação ainda não foi explicitado. Agora nos voltamos para a afirmação cristã, não mais indiretamente como nos capítulos anterio res, mas direta e dogmaticamente, no sentido genuíno de dogma como base doutrinal de uma escola filosófica ou comunidade religiosa especial. Do ponto de vista do círculo teológico, a revelação efetiva é ne cessariamente a revelação final, pois a pessoa tomada por uma experi ência revelatória crê que esta é a verdade com respeito ao mistério do ser e sua relação com ele. Se ela se abre para outras revelações originais, já deixou a situação revelatória e olha para ela de uma posição distanci ada. Seu ponto de referência deixou de ser a revelação original por meio da qual ela entrara numa correlação original ou, mais freqüentemente, em uma correlação dependente. Também é possível que uma pessoa creia que nenhuma revelação concreta a preocupa de forma última, que o ver dadeiramente último está além de toda concretude. No hinduísmo, a experiência extática do poder de Brahman é o último; no humanismo, é a sujeição heróica ao princípio moral. Em ambos os casos, uma revela ção concreta, por exemplo, uma manifestação de Vixnu no hinduísmo ou a figura de Jesus como ideal moral no protestantismo, não tem cará ter final. Para o hindu, a revelação final é a experiência mística. Para o humanista, não há nem revelação efetiva nem final, mas só a autonomia moral que se apóia na impressão causada pelo Jesus sinótico. O cristianismo reivindica estar baseado na revelação em Jesus como o Cristo como sendo a revelação final. Esta reivindicação estabe lece a igreja cristã, e onde ela estiver ausente, o cristianismo deixou de existir - pelo menos de um modo manifesto, embora nem sempre de um modo latente (veja Parte 4, Seção II). A palavra “final” na expressão “revelação final” significa mais do que último. O cristianismo muitas vezes afirmou, e deveria afirmá-lo sempre, que existe uma revelação contínua na história da igreja. Neste sentido, a revelação final não é a última. Só se última significa a última revelação genuína, revelação fi nal pode ser interpretada como a última revelação. Não pode haver re velação na história da Igreja cujo ponto de referência não seja Jesus como o Cristo. Se buscarmos ou aceitarmos outro ponto de referência, a Igreja cristã terá deixado seu fundamento. Mas revelação final significa mais do que a última revelação genuína. Significa a revelação decisiva, culminante, inexcedível, aquela que é o critério de todas as outras. Esta é a reivindicaçãocristã. E esta é a base da teologia cristã. Mas a questão é saber como podemos justificar essa reivindica ção e se na revelação em Jesus como o Cristo existem critérios que a tornem final. Tais critérios não podem ser derivados de nada que esteja fora da situação revelatória. Mas é possível descobri-los dentro desta situação, e é exatamente isto o que a teologia deve fazer. A primeira e fundamental resposta que a teologia deve dar à ques tão do caráter final da revelação em Jesus como o Cristo é a seguinte: uma revelação é final se tem o poder de negar-se a si mesma sem perder a si mesma. Este paradoxo está baseado no fato de que toda revelação é condicionada pelo meio no qual e através do qual se manifesta. A ques tão da revelação final é a questão de um meio de revelação que supere suas próprias condições finitas sacrificando a elas e a si mesmo com elas. Aquele que é o portador da revelação final deve entregar sua finitu- de - não só sua vida, mas também seu poder, seu conhecimento e sua perfeição finitos. Ao fazê-lo, ele afirma ser o portador da revelação final (o “Filho de Deus” em termos clássicos). Torna-se completamente trans parente ao mistério que revela. Mas, para poder abandonar-se a si mes mo completamente, ele deve possuir-se a si mesmo completamente. E só pode possuir-se (portanto, abandonar a si mesmo completamente) aquele que está unido ao fundamento de seu ser e sentido sem separação nem ruptura alguma. Na descrição de Jesus como o Cristo, temos a ima gem de um ser humano que possui essas qualidades; este ser humano, portanto, pode ser chamado o meio da revelação final. Nos registros bíblicos de Jesus como o Cristo (não existem outros registros além do Novo Testamento), Jesus se tornou o Cristo vencendo as forças demoníacas que pretendiam tomá-lo demoníaco, tentando-o a reivindicar a ultimidade para sua natureza finita. Estas forças, muitas vezes representadas por seus próprios discípulos, tentavam induzi-lo a evitar seu próprio sacrifício como meio de revelação. Elas queriam que ele evitasse a cruz (cf. Mt 16). Tentaram tomá-lo um objeto de idolatria. Idolatria é a perversão de uma revelação genuína; é a elevação do meio de revelação à dignidade da revelação em si. Os verdadeiros profetas em Israel lutaram continuamente contra esta idolatria, que era defendi da pelos falsos profetas e seus seguidores sacerdotais. Esta luta é o po der dinâmico na história da revelação. Seu documento clássico é o Anti go Testamento, e exatamente por isso o Antigo Testamento é uma parte inseparável da revelação de Jesus como o Cristo. Mas o Novo Testa mento e a história da igreja mostram o mesmo conflito. Na Reforma, o espírito profético atacou um sistema sacerdotal demoniacamente per vertido e produziu a cisão mais profunda que ocorreu no desenvolvi mento do cristianismo. Segundo Paulo, os poderes demoníaco-idólatras que regem o mun do e distorcem a religião foram vencidos na cruz de Cristo. Na sua cruz, Jesus sacrificou aquele meio de revelação que se manifestou a seus se guidores como messiânico em poder e significação. Para nós, isso signi fica que, ao segui-lo, somos libertados da autoridade de tudo o que nele é finito, de suas tradições especiais, de sua piedade individual, de sua visão de mundo bastante condicionada, de qualquer compreensão lega lista de sua ética. Só como o crucificado ele é “graça e verdade” e não lei. Só como aquele que sacrificou sua carne, isto é, sua existência histó rica, ele é Espírito ou Nova Criatura. Esses são os paradoxa nos quais se manifesta o critério da revelação final. Mesmo o Cristo só é Cristo por que não insistiu em sua igualdade com Deus, mas despojou-se dela en quanto posse pessoal (Fp 2). Só sobre esta base, a teologia cristã pode afirmar o caráter final da revelação em Jesus como o Cristo. A reivindi cação de qualquer coisa finita de ser final por si própria é demoníaca. Jesus rejeitou esta possibilidade como uma tentação demoníaca e, con forme as palavras do quarto evangelho, enfatizou que de si mesmo não tinha nada, mas recebera tudo de seu Pai. Ele permaneceu transparente ao mistério divino até a sua morte, que foi a manifestação final de sua transparência. Isso condena uma religião e uma teologia centradas em Jesus. Jesus é objeto religioso e teológico como o Cristo, e só como o Cristo. E ele é o Cristo como aquele que sacrifica o que nele é meramen te “Jesus”. A característica decisiva em sua imagem é a contínua auto- entrega do Jesus que é Jesus ao Jesus que é o Cristo. A revelação final é, pois, universal sem ser heterônoma. Nenhum ser finito impõe a si mesmo em nome de Deus aos outros seres finitos. A reivindicação incondicional e universal do cristianismo não se baseia em sua própria superioridade sobre as demais religiões. O cristianismo, sem ser final em si mesmo, testemunha a respeito da revelação final. O cristianismo como cristianismo não é nem final nem universal. Mas aquilo a respeito do qual testemunha é final e universal. Não se deve esquecer esta profunda dialética do cristianismo em favor de auto-afirmações ecle siásticas ou ortodoxas. Contra elas, a chamada teologia liberal está certa em negar que uma religião possa reivindicar caráter final ou mesmo superioridade. Um cristianismo que não afirme que Jesus de Nazaré é sacrificado a Jesus como o Cristo é simplesmente uma religião a mais entre muitas outras. É impossível justificar sua pretensão de ser final. 6. A revelação final em Jesus como o Cristo De acordo com o caráter circular da teologia sistemática, o crité rio da revelação final é derivado daquilo que o cristianismo considera ser a revelação final, a aparição de Jesus como o Cristo. Os teólogos não deveriam temer admitir este círculo. Não é um defeito; é antes a expressão necessária do caráter existencial da teologia. Ele nos oferece uma dupla maneira de descrever a revelação final. Primeiro, em termos de um princí pio abstrato, que é o critério de toda revelação pretensa ou real. Segundo, em termos de uma imagem concreta que espelha a ocorrência da revela ção final. No capítulo anterior, o princípio abstrato foi elaborado tendo em vista a imagem concreta; o presente capítulo descreve a efetivação do princípio abstrato no concreto. Todos as descrições e interpretações neotestamentárias de Jesus como o Cristo possuem duas características marcantes: a manutenção de sua unidade com Deus e o sacrifício de tudo que poderia ter ganho para si mesmo a partir desta unidade. A primeira característica está clara nos relatos dos evangelhos sobre a unidade inquebrantável de seu ser com o fundamento de todo ser, apesar de sua participação nas ambigüidades da vida humana. O ser de Jesus como o Cristo é determinado em todo momento por Deus. Em todas as suas manifestações, palavras, ações e sofrimentos, ele é trans parente àquilo que representa como o Cristo, o mistério divino. Enquan to os evangelhos sinóticos enfatizam a preservação ativa desta unidade contra ataques demoníacos, o Quarto Evangelho enfatiza a unidade bá sica entre Jesus e o “Pai”. Nas epístolas, a vitória da unidade sobre os poderes de separação é pressuposta, embora às vezes se indique o fardo e peso desta batalha. Mas jamais é uma qualidade moral, intelectual ou emocional que faz dele o portador da revelação final. Conforme o teste munho de todo o NT e, por antecipação, também de muitas passagens do AT, é a presença de Deus nele que faz de Jesus o Cristo. Suas pala vras, suas ações e seus sofrimentos são conseqüências desta presença; eles são expressões do Novo Ser que é seu ser. A preservação, por parte de Jesus, da unidade com Deus inclui a segunda ênfase dos escritores bíblicos: sua vitória sobre toda tentação de explorar esta unidade com Deus para obter alguma vantagem para si mesmo. Ele não cede à tentação à qual está exposto como o Messias designado, e cujo sucesso o teria privado de sua função messiânica. A aceitação da cruz, tanto durante