Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.
left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

Prévia do material em texto

245
a solução para o seu concurso!
Editora
REALIDADE BRASILEIRA
FORMAÇÃO DO BRASIL CONTEMPORÂNEO: DA INDEPEN-
DÊNCIA À REPÚBLICA
— A Chegada da Família Real ao Brasil
Em 1806, Portugal foi afetado pelo Bloqueio Continental da 
França contra a Inglaterra, que ocorreu graças à impossibilidade 
das tropas de Napoleão de anexar a Inglaterra por meios militares. 
Caso não aderisse ao Bloqueio, as tropas de Napoleão invadiriam o 
território português. Entretanto, Portugal decidiu não seguir esse 
caminho porque tinha fortes ligações comerciais com a Inglaterra1. 
Em novembro de 1807, dom João, príncipe regente de Portugal 
desde 1799 - a rainha dona Maria, sua mãe, sofria de distúrbios 
mentais -, diante da ameaça de invasão, decidiu transferir a família 
real e a Corte lusa para a colônia na América, deixando os súditos 
expostos ao ataque francês. 
Os ingleses garantiram a proteção da mudança da monarquia 
para o Brasil. Nobres da Corte e familiares do príncipe recolheram 
às pressas tudo o que podiam carregar - joias, obras de arte, milha-
res de livros, móveis, roupas, baixelas de prata, animais domésticos, 
alimentos, etc. - e zarparam em 29 de novembro rumo ao Rio de 
Janeiro. 
Além da família real e dos nobres, viajaram altos funcionários, 
magistrados, sacerdotes, militares de alta patente, etc. Estima-se 
que nos 36 navios viajaram entre 4,5 mil e 15 mil pessoas. Parte 
da esquadra, incluindo o navio ocupado por dom João, atracou em 
Salvador no dia 22 de janeiro de 1808, seguindo semanas depois 
para o Rio de Janeiro, onde já se encontrava o restante da frota, e lá 
chegando em 8 de março de 1808.
— Sede do Governo Português
Agora que boa parte da elite lusa encontrava-se em terras 
brasileiras, o desenvolvimento da colônia não poderia continuar 
cerceado. Como afirma a historiadora Maria Odila Silva Dias, pela 
primeira vez iria se configurar “nos trópicos portugueses preocupa-
ções de uma colônia de povoamento e não apenas de exploração 
ou de feitoria comercial”. Assim, seis dias depois de desembarcar 
em Salvador, o príncipe regente dom João decretou a abertura dos 
portos brasileiros às nações amigas, ou seja, às nações com as 
quais Portugal mantinha relações diplomáticas amigáveis.
O Governo de D. João no Brasil
Dom João — cuja gestão é conhecida como governo joanino 
- adotou medidas que afetaram diretamente a vida econômica, po-
lítica, administrativa e cultural do Brasil. No plano administrativo, 
dom João procurou reproduzir na colônia a estrutura burocrática do 
reino. Foram criados órgãos públicos, como o Conselho de Estado 
1 Azevedo, Gislane. História: passado e presente / Gislane Azevedo, 
Reinaldo Seriacopi. 1ª ed. São Paulo. Ática.
e o Erário Régio (que depois se tornou Ministério da Fazenda), que 
garantiam o funcionamento burocrático do Estado e proporciona-
vam emprego para muitos portugueses. 
Ainda em 1808, foram criados o Banco do Brasil, o Real Hos-
pital Militar e o Jardim Botânico. Dom João autorizou também o 
funcionamento de tipografias e a publicação de jornais. Com os li-
vros da Biblioteca Real trazidos de Lisboa foi organizada a Biblioteca 
Nacional do Rio de Janeiro.
Para interligar a capital com as demais regiões da colônia e po-
voar o interior, o governo doou sesmarias e autorizou o Banco do 
Brasil a oferecer créditos aos colonos para que pudessem plantar 
e criar gado. Essa política de povoamento estimulou a imigração. 
Em 1815, um grupo de 45 colonos oriundo de Macau e Cantão, na 
China, estabeleceu-se na cidade do Rio de Janeiro. 
Em 1818, cerca de dois mil suíços fundaram Nova Friburgo, na 
província do Rio de Janeiro (as capitanias passaram a se chamar 
províncias a partir de 1815). Na política externa, o governo joanino 
adotou uma linha de ação franca- mente expansionista, ocupando a 
Guiana Francesa, em 1809, e anexando a Banda Oriental (atual Uru-
guai), em 1816. Em 1818, dois anos após a morte da rainha dona 
Maria, o príncipe regente foi coroado rei com o título de dom João 
Vl.
— A Promoção à Reino Unido
Para gerar recursos para a administração, o governo joanino 
teve de aumentar a carga tributária. O dinheiro dos impostos foi 
utilizado para cobrir os gastos da Corte, custear as obras de urbani-
zação do Rio de Janeiro e financiar intervenções militares. Essa si-
tuação, somada à carestia e ao aumento dos preços, gerou enorme 
insatisfação da população, que começou a questionar os privilégios 
concedidos aos portugueses, detentores dos principais cargos buro-
cráticos e dos mais altos postos da Academia Real Militar. 
Começaram a ocorrer agitações de rua que culminavam em 
ações violentas da polícia principalmente (mas não exclusivamente) 
no Rio de Janeiro. A situação em Portugal também era de descon-
tentamento popular. Com a queda de Napoleão em 1815, os portu-
gueses passaram a exigir o retorno imediato de dom João a Portu-
gal. Ele, entretanto, assinou um decreto criando o Reino Unido de 
Portugal, Brasil e Algarves. Com isso, o Brasil deixava de ser colônia 
e ganhava o mesmo status político de Portugal. 
E o Reino passava a ter dois centros políticos: Lisboa, em Por-
tugal, e Rio de Janeiro, no Brasil, onde dom João exercia o governo. 
Para muitos historiadores, a elevação do Brasil a Reino Unido foi o 
marco inicial do processo de emancipação política e administrativa 
do Brasil.
— Revolução Pernambucana 
Na província de Pernambuco, no início de 1817, o debate de 
ideias emancipacionistas e republicanas deu origem a um movi-
mento conspiratório, que ficou conhecido como Insurreição Per-
nambucana ou Revolução de 1817. 
REALIDADE BRASILEIRA
246246
a solução para o seu concurso!
Editora
Inspirados na Revolução Francesa, os líderes redigiram o esbo-
ço de uma Constituição que garantia a igualdade de direitos entre 
os indivíduos, a liberdade de imprensa e a tolerância religiosa. No 
entanto, o movimento enfraqueceu-se com as divergências entre 
os proprietários de escravos e os rebeldes abolicionistas. Em maio, 
tropas enviadas da Bahia e do Rio de Janeiro cercaram o Recife. 
Alguns líderes foram executados e muitos outros, encarcera- dos 
em Salvador.
— Revolução do Porto 
Por volta de 1818, alguns monarquistas liberais da cidade do 
Porto defendiam a ideia de que o monarca deveria governar obe-
decendo a uma Constituição. Em agosto de 1820 uma guarnição do 
Exército do Porto se rebelou e deu início a uma revolução liberal e 
anti-absolutista conhecida como Revolução do Porto. Rapidamen-
te, o movimento se espalhou pelas demais cidades portuguesas. 
Em Lisboa, uma junta provisória assumiu o poder e convocou 
as Cortes, que não se reuniam desde 1689, para elaborar uma Cons-
tituição. A junta exigia também o retorno da família real e da Corte 
a Portugal e a restauração do monopólio comercial com o Brasil. 
A volta da família real a Portugal 
Nesse período irromperam no Pará, na Bahia e em Pernambu-
co várias revoltas apoiando o movimento constitucional de Portu-
gal. Em fevereiro de 1821, o rei dom João VI concordou em jurar 
fidelidade à Constituição que estava ainda para ser elaborada e em 
convocar eleições para a escolha dos deputados que iriam repre-
sentar o Brasil nas Cortes de Lisboa. 
Temendo perder o trono, dom João VI anunciou também seu 
retorno a Portugal. No dia 26 de abril, a família real e mais quatro 
mil pessoas (nobres e funcionários) zarparam rumo a Portugal. Em 
seu lugar, o rei deixou o filho, dom Pedro, que assumiu o poder no 
Brasil como príncipe regente.
As Cortes de Lisboa 
Após o embarque de dom João VI, foram realizadas eleições 
para a escolha dos 71 representantes do Brasil nas Cortes de Lisboa. 
Embora a maior parte dos eleitos fosse a favor da independência do 
Brasil, apenas 56 viajaram para Lisboa, onde começaram a chegar 
em agosto de 1821, oito meses depois do início dos trabalhos. 
Eles enfrentaram uma forte oposição dos parlamentares lusos, 
que já tinham adotado diversas medidas desfavoráveis ao Brasil 
com a intenção de reduzir o Brasil à sua antiga condiçãode colônia. 
Para os parlamentares lusos, Brasil e Portugal deveriam se subme-
ter a uma mesma autoridade: as Cortes de Lisboa. Ao final de 1821, 
as Cortes ordenaram que Dom Pedro, príncipe regente do Brasil, 
retornasse a Portugal.
— A Independência do Brasil
Enquanto a determinação das Cortes de Lisboa não chegava, 
dom Pedro era apoiado, no Brasil, por pessoas da elite político-e-
conômica, com experiência administrativa, como José Bonifácio 
de Andrada e Silva (1763-1838). Na opinião de José Bonifácio e de 
outros políticos do período, o Brasil deveria manter-se unido a Por-
tugal, mas com um governo próprio e autônomo. Havia também 
quem defendesse o rompimento completo com Portugal.
Ambas as correntes, contudo, concordavam que dom Pedro de-
veria resistir às pressões das Cortes de Lisboa e recursar-se a voltar 
a Portugal. No final de 1821, José Bonifácio organizou um abaixo-
-assinado subscrito por oito mil assinaturas, que foi entregue a Dom 
Pedro, no qual era pedido que o príncipe permanecesse no Brasil. 
Em 9 de janeiro de 1822, o príncipe anunciou sua decisão de ficar 
no Brasil. O episódio, conhecido como Dia do Fico, foi o primeiro 
de uma série de atos que levariam à ruptura definitiva entre Brasil 
e Portugal. 
Em maio de 1822, o príncipe regente determinou que todos 
os decretos vindos das Cortes de Lisboa deveriam passar por sua 
aprovação. Em junho, dom Pedro aprovou a convocação de uma 
Assembleia Constituinte no Brasil. No começo de setembro, des-
pachos vindos de Lisboa desautorizavam a convocação da Assem-
bleia Constituinte e ordenavam o imediato retorno de dom Pedro 
a Portugal. José Bonifácio enviou os despachos ao príncipe, que se 
encontrava em São Paulo, aconselhando-o a romper com Portugal, 
pois já não considerava mais possível uma conciliação. 
No dia 7 de setembro, o mensageiro alcançou dom Pedro nas 
proximidades do riacho do Ipiranga. Ao receber os decretos, o prín-
cipe proclamou a independência do Brasil, declarando a ruptura 
dos laços com Portugal. No dia 12 de outubro, já de volta ao Rio de 
Janeiro, foi aclamado com grande pompa imperador constitucional 
com o título de dom Pedro I.
Guerras de Independência
Proclamada a independência, teve início a luta por sua conso-
lidação, que envolveria conflitos e derramamento de sangue em 
diversas regiões do novo país. 
Em fevereiro de 1822, ainda antes da declaração de indepen-
dência, houve na Bahia um longo conflito armado entre as forças 
brasileiras que lutavam pela independência e queriam manter um 
brasileiro no cargo de governador - no lugar de um general portu-
guês. A guerra entre as duas facções se prolongaria até 2 de julho 
de 1823, com destaque para a figura de Maria Quitéria de Jesus 
Medeiros, que se alistou ao lado das tropas brasileiras. 
No Maranhão, no Ceará, no Pará, na Província Cisplatina e no 
Piauí houve revoltas de portugueses, que viviam nessas regiões, 
contra a independência. Para derrotar os revoltosos, dom Pedro 
recrutou mercenários estrangeiros. A vitória das tropas brasileiras 
nessas regiões, além da obtida na Bahia, impediu a fragmentação 
do Brasil em diversas províncias autônomas e garantiu a unidade 
territorial da jovem nação.
PRIMEIRA REPÚBLICA: ELITE AGRÁRIA E A POLÍTICA DA 
ECONOMIA CAFEEIRA
— Consolidação da República
Em 15 de novembro de 1889, o marechal Deodoro da Fonseca 
proclamou a República. Apesar das divergências que existiam sobre 
o tipo de república a ser construída no país, as elites que domina-
vam a política em São Paulo, Minas Gerais e no Rio Grande do Sul 
defendiam o federalismo, em oposição à centralização imperial2. 
Paulistas e mineiros defendiam propostas inspiradas no libe-
ralismo e tinham, sobretudo os paulistas, o modelo estadunidense 
como referência, em relação à autonomia dos estados e às liberda-
des individuais. 
2 História. Ensino Médio. Ronaldo Vainfas [et al.] 3ª edição. São Paulo. 
Saraiva. 
REALIDADE BRASILEIRA
247
a solução para o seu concurso!
Editora
No Rio Grande do Sul, havia um importante grupo de políticos 
liderado por Júlio de Castilhos. Esse grupo defendia, com base nos 
ideais positivistas, a instauração de uma ditadura republicana que, 
ao garantir a ordem, levaria o país ao progresso. Já no Rio de Janei-
ro, a capital da República, existia um grupo de republicanos radicais, 
chamados de jacobinos. Eram civis e militares, alguns deles positi-
vistas, que defendiam de maneira exaltada o regime republicano e 
opunham-se de maneira contundente à volta da monarquia. 
Havia também os monarquistas, que desejavam o retorno do 
antigo sistema. Entre os militares, predominavam os republicanos. 
E, mesmo entre estes, havia divergências: enquanto alguns oficiais 
seguiam a liderança de Deodoro, outros preferiam a de Floriano 
Peixoto. Mas havia também os positivistas, que tinham Benjamin 
Constant como líder, e alguns monarquistas, sobretudo na Marinha, 
que tinham fortes ligações com o Império. 
Nesse emaranhado de projetos políticos, no início de 1890 o 
Governo Provisório convocou uma Assembleia Nacional Constituin-
te para institucionalizar o novo regime e elaborar o conjunto de leis 
que o regeriam. 
Assim, em 24 de fevereiro de 1891, foi promulgada a primeira 
Constituição republicana do país, a Constituição dos Estados Uni-
dos do Brasil. Inspirada no modelo vigente nos Estados Unidos, ela 
era liberal e federativa, concedendo aos estados prerrogativas de 
constituir forças militares e estabelecer impostos. 
Além disso, ela instaurou o presidencialismo como regime po-
lítico, com a separação dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciá-
rio, e oficializou a separação entre Estado e Igreja. Os deputados 
constituintes também elegeram o marechal Deodoro da Fonseca 
para a presidência e o marechal Floriano Peixoto para a vice-pre-
sidência da República. Mas o novo regime republicano enfrentaria 
crises muito sérias até se consolidar definitivamente. 
— República de Espadas
Na área econômica, comandada por Rui Barbosa, então minis-
tro da Fazenda, a República começou com grande euforia. Com o 
objetivo de estimular o crescimento econômico e a industrialização 
do país, o governo autorizou que os bancos concedessem crédito a 
qualquer cidadão que desejasse abrir uma empresa. E, para cobrir 
esses empréstimos, permitiu a impressão de uma imensa quantida-
de de papel-moeda. 
Como a moeda brasileira tinha como referência a libra inglesa, 
as emissões de dinheiro sem lastro (sem garantia em ouro) provo-
caram o aumento acelerado da inflação. Muitos dos empréstimos 
concedidos foram usados para abrir empresas que existiam apenas 
no papel, mas cujas ações, ainda assim, eram negociadas na Bolsa 
de Valores. Como resultado, muitos investidores perderam seu di-
nheiro e a inflação aumentou, atingindo toda a sociedade brasileira. 
Essa medida, que visava estimular a economia, mas resultou em 
desvalorização da moeda e especulação financeira, recebeu o nome 
de Encilhamento. 
Na área política, assistia-se a graves conflitos envolvendo o 
presidente e os militares que o apoiavam, de um lado, e políticos 
liberais e a imprensa, do outro. Oito meses após ser eleito, em no-
vembro de 1891, Deodoro da Fonseca determinou o fechamento do 
Congresso Nacional e decretou estado de sítio no país. Os oficiais 
que seguiam a liderança de Floriano Peixoto não apoiaram o golpe 
de Estado; assim como a Marinha, que considerou autoritária a ati-
tude do presidente, e diversas lideranças civis. Sem apoio político, o 
presidente renunciou no dia 23. 
Nesse mesmo dia, Floriano Peixoto, seu vice, assumiu a presi-
dência da República. 
A posse do novo presidente foi muito questionada. De acordo 
com a Constituição, o vice assumiria somente se o presidente hou-
vesse cumprido metade de seu mandato, ou seja, dois anos. Caso 
contrário, ela previa a realização de uma nova eleição. Mas Floriano 
estava decidido a permanecer no poder, com o apoio dos florianis-
tas, que alegavam que o dispositivo constitucional só valeria para o 
próximomandato presidencial.
Treze generais do Exército contestaram sua posse e, por meio 
de um manifesto, exigiram eleições presidenciais. Floriano ignorou 
o protesto e mandou prender os generais. Receosas com a instabi-
lidade da República, as elites políticas de São Paulo, representadas 
pelo Partido Republicano Paulista (PRP), apoiaram o novo presiden-
te. Floriano, por sua vez, percebeu que o suporte do PRP era fun-
damental. 
Ele também contou com o apoio de importantes setores do 
Exército e da população do Rio de Janeiro. Oficiais da Marinha de 
Guerra (Armada) tornaram-se a sua principal oposição. Em 6 de 
setembro de 1893, posicionaram os navios de guerra na baía de 
Guanabara, apontaram os canhões para o Rio de Janeiro e Niterói e 
dispararam tiros contra as duas cidades - era o início da Revolta da 
Armada. Em março do ano seguinte a situação tornou-se insusten-
tável nos navios - não havia munição, alimentos, água nem o apoio 
da população. Parte dos revoltosos pediu asilo político a Portugal, 
a outra foi para o Rio Grande do Sul participar de um conflito que 
eclodira um ano antes: a Revolução Federalista. 
— Revolução Federalista
A instalação da República alterou a política do Rio Grande do 
Sul. Com ela, o Partido Republicano Rio-Grandense alcançara o po-
der. Apoiada por Floriano Peixoto e liderada por Júlio de Castilhos, 
a agremiação de orientação positivista tornou-se dominante no es-
tado em que passou a governar de maneira autoritária. 
A principal força de oposição ao Partido Republicano era o Par-
tido Federalista, liderado por Gaspar Silveira Martins, que defendia 
o parlamentarismo e a predominância da União Federativa sobre 
o poder estadual - enquanto os republicanos pregavam o sistema 
presidencialista e a autonomia dos estados. 
Diante da violência e das fraudes eleitorais, os federalistas uni-
ram-se a outras forças de oposição, dando origem a uma sangren-
ta guerra civil, que ficou conhecida como Revolução Federalista 
(1893-1895). Os conflitos não se limitaram ao estado do Rio Grande 
do Sul, estendendo-se aos de Santa Catarina e do Paraná, e só ter-
minaram em junho de 1895 com a vitória dos republicanos sobre os 
federalistas. A Revolução Federalista causou muito sofrimento ao 
sul do país. Somente no Rio Grande do Sul, que contava com cerca 
de 900 mil habitantes, morreram de 10 a 12 mil pessoas, muitas 
delas degoladas. 
Passados cinco anos da proclamação da República, chegava ao 
fim o governo de Floriano Peixoto. No dia 15 de novembro de 1894, 
o marechal passou a faixa presidencial ao paulista Prudente de Mo-
rais, conferindo novos ares à República. Pela primeira vez, um civil 
ligado às elites agrárias, em especial aos cafeicultores, assumia o 
poder. Com a eleição de Prudente de Morais, encerrava-se o perío-
do conhecido como República da Espada. 
REALIDADE BRASILEIRA
248248
a solução para o seu concurso!
Editora
— Modelo Político
A Constituição de 1891 estabeleceu eleições diretas para todos 
os cargos dos poderes Legislativo e Executivo. Também determinou 
que, excetuando os mendigos, os analfabetos, os praças de pré, os 
religiosos, as mulheres e os menores de 21 anos, todos os cidadãos 
brasileiros eram eleitores e elegíveis. 
Apesar de suprimir a exigência de renda mínima constante da 
Constituição imperial, a primeira Constituição da República tam-
bém excluía a maioria da população brasileira do direito de votar. O 
voto foi decretado aberto, mas, como não havia Justiça Eleitoral, na 
prática as eleições eram caracterizadas pela fraude. A organização 
da eleição dos municípios, bem como a redação da ata da seção 
eleitoral, ficava a cargo dos chefes políticos locais, os chamados co-
ronéis. 
Isso lhes permitia registrar o que bem quisessem nas atas - daí 
o nome “eleições a bico de pena” - e também controlar as escolhas 
dos eleitores, por meio da violência ou do suborno. Era comum, por 
exemplo, que nas atas das seções eleitorais constassem votos de 
eleitores já mortos para o candidato dos coronéis. 
Ou então que os coronéis reunissem os eleitores em um de-
terminado lugar para receber as cédulas eleitorais já preenchidas. 
Esses locais eram chamados de “curral eleitoral”. De modo geral, os 
eleitores votavam no candidato do coronel por vários motivos: obe-
diência, lealdade ou gratidão, ou em busca de algum favor, como 
dinheiro, serviços médicos e até mesmo proteção. Afinal, sem a ga-
rantia dos direitos civis e políticos, grande parte da população rural 
- vale lembrar que a imensa maioria dos brasileiros então vivia no 
campo - buscava a proteção de um coronel e acabava se inserindo 
em uma rede de favores e proteção pessoal. 
— O Poder dos Coronéis
Também conhecida como coronelismo, a chamada “República 
dos coronéis” era um sistema político que resultou da Constituição 
de 1891 e marcou a Primeira República. Se no Império os presiden-
tes de estado (hoje denominados governadores) eram nomeados 
pelo poder central, com a República eles passaram a ser eleitos pe-
los coronéis. Nos municípios, eram os coronéis que, por meio da 
violência e da fraude eleitoral, controlavam os votos que elegiam o 
presidente de estado, e também os deputados estaduais e federais, 
os senadores e até mesmo o presidente da República. 
Por outro lado, eles dependiam do governante estadual para 
nomear parentes e protegidos a cargos públicos ou liberar verbas 
para obras nos municípios. Assim, criava-se uma ampla rede de 
alianças e favores, em que coronéis, presidentes de estado, parla-
mentares e o próprio presidente da República estavam atados por 
fortes laços de interesses. Esse esquema se consolidou na presi-
dência de Campos Sanes (1898-1902), idealizador do que veio a ser 
chamado de política dos governadores Ou dos esta- dos. 
Nela, o governo federal apoiava as oligarquias dominantes nos 
estados, que em troca sustentavam politicamente o presidente da 
República no Congresso Nacional, controlando a eleição de senado-
res e deputados federais - e evitando, dessa forma, que os candida-
tos da oposição se elegessem. Ainda assim, caso isso acontecesse, a 
Comissão de Verificação de Poderes da Câmara Federal, responsá-
vel por aprovar e confirmar a vitória dos candidatos eleitos, impug-
nava a posse, sob a alegação de fraude. 
Apesar das fraudes eleitorais, as eleições periódicas foram 
importantes para a configuração do sistema político brasileiro. Pri-
meiro, porque exigiam o mínimo de competição no jogo eleitoral, 
permitindo a renovação das elites dirigentes. Segundo, porque, 
mesmo com o controle do voto, havia alguma mobilização do elei-
torado - com o qual as elites, mesmo dispondo de grande poder 
político, precisavam manter alguma interlocução.
Política do Café com Leite
A política dos governadores inaugurada por Campos Salles fun-
damentou a chamada República Oligárquica. Ela reforçou os pode-
res das oligarquias - sobretudo as dos estados de São Paulo e Minas 
Gerais. Como o número de representantes por estado no Congresso 
era proporcional à sua população, São Paulo e Minas Gerais, que 
eram os estados mais populosos e ricos - da federação, elegiam as 
maiores bancadas na Câmara dos Deputados. 
Vale lembrar que, à época, os partidos políticos eram estaduais 
e proliferavam siglas como Partido Republicano Mineiro, Partido 
Republicano Paulista, Partido Republicano Rio-Grandense etc. Ex-
pressão simbólica da aliança entre o Partido Republicano Paulista e 
o Partido Republicano Mineiro foi a chamada política do café com 
leite, que funcionava no momento da escolha do sucessor presi-
dencial. 
As oligarquias dos dois estados escolhiam um nome comum 
para presidente, ora filiado ao partido paulista, ora ao mineiro. A 
cada sucessão presidencial, a aliança entre Minas Gerais e São Pau-
lo precisava ser renovada, muitas vezes com conflitos e interesses 
divergentes. Por serem fortes em termos políticos e econômicos, 
formaram-se duas oligarquias dominantes no país: a de São Paulo e 
a de Minas Gerais. Embora em posição inferior à aliançaentre pau-
listas e mineiros, destacavam-se também a do Rio Grande do Sul, a 
da Bahia e a do estado do Rio de Janeiro. 
Houve eleições em que os vitoriosos não estavam comprometi-
dos com a política do café com leite, caso de Hermes da Fonseca em 
1910 e de Epitácio Pessoa em 1919. O importante é considerar que 
as oligarquias dos estados que se encontravam fora da política do 
café com leite passaram a questionar o sistema político na década 
de 1920. 
— Aspectos Econômicos
Por volta de 1830, o café tornou-se o principal produto de ex-
portação do Brasil, superando o açúcar. Com a expansão das lavou-
ras cafeeiras para o Oeste Paulista, a partir da década de 1870, a 
cafeicultura estimulou a economia do país, cujo dinamismo atraiu 
investidores estrangeiros, sobretudo britânicos. 
Ela propiciou a construção e o reaparelhamento de ferrovias, 
estradas, portos e o surgimento de bancos, casas de câmbio e de 
exportação. Também foram criados estaleiros, empresas de nave-
gação e moinhos. O café mudou o país, inclusive incentivando a sua 
industrialização. Surgiram, por exemplo, fábricas de tecidos, cha-
péus, calçados, velas, alimentos, utensílios domésticos etc. Trata-
va-se de um tipo de indústria, a de bens de consumo não duráveis, 
que não exigia grande tecnologia ou altos investimentos de capital, 
mas que empregava grande quantidade de mão de obra. 
A riqueza gerada pelas exportações de café possibilitou, ainda, 
o aumento das importações e a expansão das cidades, com a ins-
talação de serviços públicos (como iluminação a gás e sistema de 
transporte urbano), novas práticas de diversão e até mesmo maior 
circulação de jornais e livros. A cidade que mais cresceu foi a de São 
Paulo, principalmente a partir de 1886, com a chegada de milhares 
de imigrantes. 
REALIDADE BRASILEIRA
249
a solução para o seu concurso!
Editora
Crise do Café
Na década de 1920, o café, que era então responsável por mais 
da metade das exportações brasileiras, sustentava a economia do 
país. Por consequência, a oligarquia paulista tornara-se dominante 
na política brasileira - dos 12 presidentes eleitos entre 1894 e 1930, 
seis eram filiados ao Partido Republicano Paulista. 
A crescente produção cafeeira, contudo, acabou provocando 
graves problemas. O consumo do café brasileiro, que nesse período 
atendia a 70% da demanda mundial, estabilizou-se, mas os fazen-
deiros continuaram expandindo suas plantações. Com uma produ-
ção maior do que a capacidade de consumo, os preços internacio-
nais caíram, causando prejuízos e gerando dívidas. 
A primeira crise de superprodução ocorreu em 1893. Ao as-
sumir a presidência em 1894, Prudente de Morais teve de lidar 
com grave crise econômica. Campos Salles, que o sucedeu na pre-
sidência em 1898, fez um acordo com os credores internacionais 
conhecido como funding loan. Pelo acordo, que transformou todas 
as dívidas brasileiras em uma única, cujo credor era a casa bancária 
britânica dos Rothschild, o Brasil recebeu como empréstimo 10 mi-
lhões de libras esterlinas. Além de oferecer as rendas da alfândega 
do Rio de Janeiro como garantia, o governo se comprometeu a rea-
lizar uma política económica deflacionária, retirando papel-moeda 
do mercado, o que gerou recessão, falências e desemprego e não 
resolveu os problemas da superprodução de café e da queda dos 
preços no mercado internacional. 
Para evitar maiores prejuízos, representantes das oligarquias 
cafeeiras dos estados de São Paulo, Minas Gerais e do Rio de Janeiro 
reuniram-se na cidade paulista de Taubaté e elaboraram, em 1906, 
um plano para a defesa do produto, que, a princípio, não contou 
com o apoio do governo federal. 
Pelo Convénio de Taubaté - como ficou conhecido esse encon-
tro - estabeleceu-se a política de valorização do café, pela qual os 
governos dos estados conveniados recorreriam a empréstimos ex-
ternos para comprar e estocar o excedente da produção de café, até 
que seu preço se estabilizasse no mercado internacional, de modo 
a garantir o lucro dos cafeicultores. Para o pagamento dos juros da 
dívida, seria cobrado um imposto sobre as exportações de café. 
Dois anos depois, na presidência de Afonso Pena, o governo 
federal deu garantias aos empréstimos. A política de valorização do 
café foi benéfica apenas para os cafeicultores, em especial os pau-
listas, em detrimento dos produtores de açúcar, algodão, charque, 
cacau etc. Além de acentuar as desigualdades regionais, grande 
parte dos custos dessa política acabou recaindo sobre a sociedade 
brasileira, que teve de arcar com os prejuízos. 
Economia da Borracha
No começo da República, outro importante produto de exporta-
ção era a borracha da Amazônia, que alcançou seu auge entre 1890 e 
1910. Em meados do século XIX, desenvolveu-se o processo de vulcani-
zação da borracha, por meio do qual ela se tornava endurecida, porém 
flexível, perfeita para ser usada em instrumentos cirúrgicos e de labo-
ratório. O sucesso do produto aconteceu mesmo ao ser empregado na 
fabricação de pneus tanto de bicicletas como de automóveis. Em 1852, 
o Brasil exportava 1 600 toneladas de borracha (2,3% das exportações 
nacionais). Em 1900, já ultrapassava os 24 milhões de toneladas, o que 
equivalia a quase 30% das exportações. 
Além de empregar cerca de 1 10 mil pessoas que trabalhavam 
nos seringais, a extração do látex na região Norte fez com que as 
cidades de Belém e Manaus passassem por grandes transforma-
ções: expansão urbana, instalação de serviços (iluminação pública, 
bondes elétricos, serviços de telefonia e de distribuição de água). 
A partir de 1910, contudo, a entrada da borracha de origem asiá-
tica no mercado internacional provocou um drástico declínio na 
produção amazónica. Extraída em colônias inglesas e holandesas, 
a borracha asiática tinha maior produtividade, melhor qualidade e 
menor preço. 
— Disputas por Território
Os primeiros governos republicanos enfrentaram problemas de 
disputas territoriais com os vizinhos latino-americanos. 
O primeiro deles foi sobre a região oeste dos atuais estados 
de Santa Catarina e Paraná. que era reclamada pelos argentinos. 
A questão foi resolvida pela arbitragem internacional dos EUA em 
1895, confirmando a posse brasileira. 
Outra pendência foi com a França, sobre a demarcação das 
fronteiras do Brasil com a Guiana Francesa. Com arbitragem in-
ternacional do governo suíço, o Brasil venceu a disputa em 1900, 
impondo sua soberania sobre as terras que hoje integram o estado 
do Amapá. 
No ano seguinte, o Brasil entrou em disputa com a Grã-Breta-
nha sobre os limites territoriais entre a Guiana Britânica (ou Inglesa) 
e o norte do então estado do Amazonas - que hoje corresponde ao 
estado de Roraima. 
O rei da Itália. Vítor Emanuel II, foi convocado como árbitro 
internacional, e em 1904 ele decidiu a favor dos britânicos. Desse 
modo, o Brasil perdeu parte do território conhecido como Pirara, e 
a Grã-Bretanha obteve acesso à bacia Amazônica por meio de al-
guns de seus afluentes.
Outra disputa, bem mais complexa. foi travada em torno da 
região onde hoje se localiza o Acre. que então pertencia à Bolívia 
e ao Peru. Muitos nordestinos, em particular cearenses, que so-
friam com a seca. haviam se estabelecido ali para explorar o látex, 
gerando conflitos armados com tropas bolivianas. Os brasileiros 
chegaram a declarar a independência política do Acre. Em 1903, a 
diplomacia brasileira conseguiu uma vitória com o Tratado de Pe-
trópolis, que incorporava o Acre ao território brasileiro em troca de 
indenizações à Bolívia e ao Peru. 
Cabe destacar a relevante atuação de José Maria da Silva Para-
nhos Júnior, o barão do Rio Branco. responsável pelas relações in-
ternacionais do Brasil entre 1902 e 1912. Ele não só esteve à frente 
das negociações que envolviam disputas territoriais do país como 
fez do Ministério das Relações Exteriores uma instituição profissio-
nalizada e aproximou o Brasil dos EUA. 
— Movimentos e Revoltas
Revolta da Vacina
Além de modernizar a cidade, era necessárioerradicar as 
doenças epidêmicas da capital da República. Com base nas então 
recentes descobertas sobre os microrganismos e a capacidade de 
mosquitos, moscas e pulgas transmitirem doenças, o médico sani-
tarista Oswaldo Cruz, a quem coube essa tarefa, estava decidido a 
erradicar a febre amarela, com o combate aos mosquitos, a varíola, 
com a vacinação, e a peste bubónica, com a caça aos ratos, cujas 
pulgas transmitiam a doença. 
Em junho de 1904, Rodrigues Alves enviou um projeto de lei ao 
Congresso que propunha a obrigatoriedade da vacinação contra a 
varíola. Havia grande insatisfação popular contra as reformas urba-
nas do prefeito Pereira Passos. Mas a obrigatoriedade de introduzir 
REALIDADE BRASILEIRA
250250
a solução para o seu concurso!
Editora
líquidos desconhecidos no corpo, imposta de maneira autoritária 
pelo governo e sem esclarecimentos à população, que à época des-
conhecia os benefícios da vacinação, gerou forte resistência. 
Havia também razões morais contra a vacinação obrigatória. À 
época, os homens não admitiam que, em sua ausência, suas resi-
dências fossem invadidas por estranhos que tocassem no corpo de 
suas esposas e filhas para aplicar vacinas. Como a maioria das mu-
lheres partilhava desses mesmos valores, quando a lei da vacinação 
obrigatória foi publicada nos jornais, estourou uma revolta no Rio 
de Janeiro. 
Inicialmente, militares tentaram depor Rodrigues Alves, mas 
logo foram dominados por tropas fiéis ao governo. A maior reação, 
entretanto, ficou por conta da população mais pobre. Entre os dias 
10 e 13 de novembro de 1904, a cidade foi tomada por manifes-
tantes populares: as estreitas ruas do centro foram bloqueadas por 
barricadas e os policiais, atacados com pedradas.
A repressão policial foi violenta. Qualquer suspeito de haver 
participado da revolta foi jogado em porões de navios e manda-
do para o Acre. A vacinação obrigatória acabou sendo suspensa, e, 
quatro anos depois, uma epidemia de varíola matou mais de 6 mil 
pessoas no Rio de Janeiro. Foram necessários muitos anos para que 
os governantes reconhecessem que nada conseguiam com Imposi-
ções e práticas autoritárias sobre a população. Nos anos 1960, com 
campanhas de esclarecimento, a vacinação em massa tornou-se co-
mum no país. Em 1971, ocorreu o último caso de varíola no Brasil. 
Revolta da Chibata
Os marujos da Marinha de Guerra brasileira viviam sob péssi-
mas condições de trabalho: soldos miseráveis, má alimentação, tra-
balhos excessivos e opressão da oficialidade. Mas os castigos físicos 
aos quais eram submetidos, principalmente com o uso da chibata, 
eram ainda mais graves. 
Em 22 de novembro de 1910, marinheiros do encouraçado 
Minas Gerais se revoltaram contra a punição de um colega conde-
nado a receber 250 chibatadas. Liderados por João Cândido, eles 
tomaram a embarcação, prenderam e mataram alguns oficiais e 
apontaram os canhões para a cidade do Rio de Janeiro. Os marujos 
do encouraçado São Paulo e de outras seis embarcações, também 
ancoradas na baía de Guanabara, aderiram à revolta. Os revoltosos 
exigiam melhores condições de trabalho e o fim dos castigos cor-
porais. 
O Congresso negociou com os revoltosos e, somente após sua 
rendição, concedeu-lhes anistia. Mas o ambiente na Armada con-
tinuou tenso. Em 4 de dezembro, diante de novas punições, outra 
revolta eclodiu na ilha das Cobras. Os oficiais reagiram de maneira 
dura e bombardearam a ilha. 
Depois, prenderam 600 marinheiros, inclusive os que participa-
ram da primeira revolta, entre eles João Cândido, apelidado de “al-
mirante negro”. Jogados em prisões solitárias por vários dias, mui-
tos deles morreram. Os demais foram detidos em porões de navios 
e mandados para a Amazónia - ou executados durante a viagem. 
Revolta em Juazeiro do Norte
Em 1889, no povoado de Juazeiro do Norte, no sul do estado 
do Ceará, durante uma missa celebrada pelo padre Cícero Romão 
Batista, uma beata teria sangrado pela boca logo após receber a 
hóstia. A notícia do suposto milagre - da hóstia que teria se transfor-
mado em sangue - espalhou-se, aumentando o prestígio do padre, 
que passou a ser idolatrado na região. Além das funções de padre, 
ele desempenhava as de juiz e conselheiro, ensinava práticas de hi-
giene, acolhia doentes e criminosos arrependidos. 
Seu prestígio era tamanho que a alta hierarquia da Igreja che-
gou a ficar incomodada e temerosa de que essa veneração estimu-
lasse práticas religiosas fora de seu controle - o que, de fato, aconte-
ceu. Em 1892, o padre foi impedido de pregar e ouvir em confissão. 
Dois anos depois, a Congregação para a Doutrina da Fé decretou a 
falsidade do milagre em Juazeiro do Norte, provocando a reação da 
população. Movimentos de solidariedade se formaram e irmanda-
des se mobilizaram a favor do padre Cícero. Imensas romarias pas-
saram a se dirigir à cidade. Beatas diziam ter visões que anunciavam 
a proximidade do fim do mundo e o retorno de Cristo. Surgia um 
movimento que desafiava as autoridades eclesiásticas da região.
Em 1911, inserido na política oligárquica local, padre Cícero foi 
eleito prefeito de Juazeiro do Norte e se tornou o principal articula-
dor de um pacto entre os coronéis da região do vale do Cariri. Padre 
Cícero lutou em vão até o ano de sua morte, 1934, para provar que 
o milagre em Juazeiro do Norte havia ocorrido. Apenas em 2016, a 
Igreja Católica se reconciliou com o padre, suspendendo todas as 
punições que havia lhe imposto. 
Guerra de Canudos
Antônio Vicente Mendes Maciel andava pelos sertões nordes-
tinos pregando a fé católica. Tornou-se um beato conhecido como 
Antônio Conselheiro e passou a ser seguido por muitas pessoas. 
Em 1877, fixou-se com centenas delas no arraial de Canudos, um 
lugarejo abandonado no interior da Bahia, às margens do rio Vaza-
-Barris, ao qual renomearam Belo Monte. A comunidade cresceu 
rapidamente. Famílias, que fugiam da exploração dos latifundiários 
da região ou abandonavam suas terras de origem devido à seca, 
foram para Canudos. 
Também foi o caso de jagunços, que serviam aos coronéis, mas 
haviam caído em desgraça. Estima-se que em poucos anos o arraial 
recebeu entre 20 e 30 mil pessoas pobres, em sua grande maioria, 
mas que em Canudos tinham ao menos uma casa para morar e ter-
ra para plantar. 
Canudos tinha uma rígida organização social. No comando es-
tava António Conselheiro, também chamado de chefe, pastor ou 
pai. Doze homens, denominados apóstolos, assumiram as chefias 
dos setores de guerra, economia, vida civil, vida religiosa etc. O 
arraial contava com uma guarda especial formada pelos jagunços, 
chamada Companhia do Bom Jesus ou Guarda Católica. Havia tam-
bém comerciantes. 
Em 1896, um incidente alterou a paz do arraial. Comerciantes 
de Juazeiro não entregaram madeiras compradas por Conselheiro 
para a construção de uma nova igreja. Os jagunços se vingaram sa-
queando a cidade. Em resposta, o governador baiano enviou duas 
expedições punitivas a Canudos, ambas derrotadas pelos conselhei-
ristas. 
Denúncias de que Canudos e António Conselheiro faziam parte 
de um amplo movimento que visava restaurar a monarquia no país 
chegavam nas capitais dos estados. A imprensa do Rio de Janeiro e 
de São Paulo, sobretudo, insistia na existência de um complô mo-
narquista. Na capital da República, estudantes, militares, escritores, 
jornalistas, entre outros grupos sociais, responsabilizavam o presi-
dente Prudente de Morais por não reprimir Canudos. 
Nesse contexto foi então organizada uma terceira expedição, 
chefiada pelo coronel Moreira César, veterano na luta contra os 
federalistas gaúchos. Formada por 1.300 homens do Exército bra-
REALIDADE BRASILEIRA
251
a solução para o seu concurso!
Editora
sileiro e seis canhões, ela foi derrotada pelos conselheiristas, que 
mataram o coronel. O fato tomou proporções nacionais, e Canudos 
passou a ser visto como uma real ameaça à República. Formou-se, 
assim, uma quarta expedição, que contava com 10 mil homens. Em 
outubro de 1897, o arraialfoi destruído e sua população, massacra-
da - mesmo aqueles que se renderam foram degolados. 
Guerra do Contestado
Em 1911, um pregador itinerante de nome José Maria apa-
receu na região central de Santa Catarina. Ele afirmava que tinha 
sido enviado pelo monge João Maria, morto alguns anos antes. 
Na região Sul do país, monge tinha o mesmo significado que bea-
to no Nordeste. João Maria, quando vivo, fora contra a instaura-
ção da República e acreditava que somente a lei da monarquia era 
verdadeira. Apresentando-se como um continuador de suas ideias, 
José Maria organizou uma comunidade formada por milhares de 
homens e mulheres em Taquaruçu, nas proximidades do município 
catarinense de Curitibanos. Armados e sob a liderança de José Ma-
ria, eles criticavam a República. 
Muitos homens e mulheres que participavam desse movimen-
to conhecido como Contestado, por ter ocorrido em uma área dis-
putada entre os estados do Paraná e de Santa Catarina, eram pe-
quenos proprietários expulsos de suas terras devido à construção 
de uma ferrovia, a Brazil Railway Company, que ligaria os estados 
de São Paulo e do Rio Grande do Sul. A empresa pertencia a um dos 
homens mais ricos do mundo, o estadunidense Percival Farquhar. 
Como parte do pagamento à empresa construtora, o governo 
estadual doou 15 quilômetros de terras de cada lado da linha, pre-
judicando os camponeses que ali viviam. A situação era agravada 
pela presença de madeireiras. Atacados pela polícia, em 1912, des-
locaram-se para Palmas, no Paraná. 
O governo do estado, que considerou se tratar de uma inva-
são dos catarinenses, atacou a comunidade e matou José Maria, 
dispersando a multidão de homens e mulheres que o seguia. Um 
ano depois, cerca de 12 mil fiéis se reagruparam em Taquaruçu. A 
liderança do movimento ficou a cargo de um conselho de chefes, 
que difundiu a crença de que José Maria regressaria à frente de 
um exército encantado para vencer as forças do mal e implantar o 
paraíso na Terra. Em fins de 1916, forças do Exército e das polícias 
estaduais, com o apoio de aviões, reprimiram o movimento, matan-
do milhares de rebeldes. 
— O Modernismo
No Brasil, como em grande parte do mundo ocidental, a vida 
cultural era fortemente influenciada pelos europeus. No vestuário, 
na culinária, na literatura, na pintura, no teatro e em outras mani-
festações artístico-culturais, adorava-se, sobretudo, o padrão fran-
cês como modelo. 
Com o fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918, isso começou 
a mudar. A guerra resultou no declínio econômico e político dos 
países envolvidos no conflito e suscitou, ao menos nas Américas, a 
dúvida quanto à superioridade da cultura europeia. Nos anos 1920, 
em diversas cidades do Brasil, principalmente em São Paulo e no 
Rio de Janeiro, surgiram jornais, revistas e manifestos publicados 
por artistas e intelectuais que, preocupados com a modernização 
do país, discutiam o que era ser brasileiro. Recusavam-se a copiar 
padrões europeus e propunham uma nova maneira de pensar e de-
finir o Brasil, valorizando a memória nacional e a pesquisa das raízes 
culturais dos brasileiros. 
Era o movimento modernista, que se manifestou com grande 
impacto em São Paulo. Entre os dias 11 e 18 de fevereiro de 1922, o 
Teatro Municipal de São Paulo abrigou a Semana de Arte Moderna. 
Em três noites de apresentação, artistas e intelectuais exibiram suas 
obras: houve música, poesia, pintura, escultura, palestras e debates. 
Nas artes plásticas, destacaram-se Anita Malfatti, Di Cavalcanti 
- responsável pela arte da capa do catálogo da exposição - e Lasar 
Segall (pintura); Vitor Brecheret (escultura); e Oswaldo Goeldi (gra-
vura). Oswald de Andrade apresentou as revistas Papel e Tinta e 
Pirralho, leu textos e poemas. 
Mário de Andrade, Ronald de Carvalho e Graça Aranha tam-
bém leram seus trabalhos. O maestro Villa-Lobos impressionou o 
público quando, na orquestra que regia, incluiu instrumentos de 
congada, tambores e uma folha de zinco. O público vaiou. 
 Acostumada ao padrão europeu de música, a audiência rejei-
tava os instrumentos musicais das culturas africanas e indígenas. 
Para os modernistas, era preciso mostrar às elites que essas cultu-
ras também eram formadoras da cultura nacional. 
— O Tenentismo
Enquanto isso, setores da média oficialidade do Exército - como 
tenentes e capitães - atacavam o governo com armas, em um movi-
mento conhecido como tenentismo. Alguns criticavam o liberalismo 
e defendiam um Estado forte e centralizado, expressando um nacio-
nalismo não muito bem definido. Exigiam a moralização da política 
e das eleições e defendiam a adoção do voto secreto. Muitos se 
mostravam ressentidos com os políticos, pelo papel secundário do 
Exército na política nacional. A primeira revolta tenentista ocorreu 
no Rio de Janeiro, em 1922. Após os rebelados tomarem o Forte de 
Copacabana, canhões foram disparados contra alvos considerados 
estratégicos. O objetivo era impedir posse do presidente eleito Ar-
thur Bernardes e, no limite, derrubar o governo. 
O presidente Epitácio Pessoa, com o apoio do Exército e da 
Marinha, ordenou o bombardeamento do forte. Muitos desistiram 
da luta, mas 17 deles decidiram resistir. Com fuzis nas mãos, mar-
charam pela avenida Atlântica. Um civil se juntou a eles. Ao final, 
sobraram apenas os militares Siqueira Campos e Eduardo Gomes. 
A rebelião ficou conhecida como a Revolta dos 18 do Forte. 
Em 1924, eclodiu outra revolta tenentista, dessa vez em São 
Paulo. Os revoltosos tomaram o poder na capital paulista. O objeti-
vo era incentivar revoltas todo o país até a derrubada do presiden-
te Arthur Bernardes. A reação do governo federal foi bombardear 
a cidade. Acuados, os revoltosos resolveram marchar para Foz do 
Iguaçu.
A Coluna Prestes
Enquanto isso, no Rio Grande do Sul, o jovem capitão Luís 
Carlos Prestes liderava uma coluna militar que, partindo de Santo 
Ângelo, marchava ao encontro dos rebelados paulistas em Foz do 
Iguaçu. Quando se encontraram, em abril de 1925, formaram a 
Coluna Prestes-Miguel Costa e partiram em direção ao interior do 
país, para mobilizar a população contra o governo e as oligarquias. 
Com cerca de 1500 homens, atravessaram 13 estados. Perse-
guido pelo Exército, Prestes, com táticas militares inteligentes, im-
pôs várias derrotas às tropas governistas - que nunca o derrotaram. 
Após marcharem 25 mil quilômetros, cansados e sem perspectivas, 
em 1927 os soldados da coluna entraram no território boliviano, 
onde conseguiram asilo político. Por sua luta e capacidade de co-
mando, Luís Carlos Prestes passou a ser considerado um herói e 
conhecido como “Cavaleiro da Esperança “.
REALIDADE BRASILEIRA
252252
a solução para o seu concurso!
Editora
— A Revolução de 1930
No início da década de 1920, o sistema político da Primeira Re-
pública começava a apresentar sinais de esgotamento. A realização 
da Semana de Arte Moderna, a fundação do Partido Comunista do 
Brasil e a eclosão da Revolta dos 18 do Forte eram indícios desse 
esgotamento. A própria sucessão presidencial, também no ano de 
1922, foi marcada por uma forte disputa entre os grupos políticos 
estaduais. 
Paulistas e mineiros haviam concordado em apoiar o mineiro 
Arthur Bernardes. Mas as lideranças políticas do Rio de Janeiro, do 
Rio Grande do Sul, da Bahia e de Pernambuco optaram por lançar 
Nilo Peçanha como candidato. O movimento, conhecido como Rea-
ção Republicana, não propunha romper com o sistema oligárquico, 
mas abrir espaço para os grupos dominantes de outros estados, de-
safiando o domínio de paulistas e mineiros. No entanto, os resulta-
dos das eleições eram previsíveis e Arthur Bernardes saiu vitorioso. 
Os líderes da Reação Republicana não aceitaram a derrota e 
apelaram para os militares - o que fez eclodir a revolta tenentista 
no Forte de Copacabana, em 5 de julho de 1922. Arthur Bernardes 
governou sob estado de sítio, perseguiu o movimento operário e 
atuou de maneira bastante impopular nas cidades. Em 1926, dissi-
dentes do PRP fundaram oPartido Democrático (PD), em São Paulo. 
O novo partido defendia a adoção do voto secreto e obrigatório, a 
criação da Justiça Eleitoral e a independência dos três pode 
O sucessor de Arthur Bernardes, Washington Luís, suspendeu o 
estado de sítio e as perseguições ao movimento sindical. No entan-
to, não concedeu a anistia política aos tenentes, como exigiam as 
oposições. Em 1929, começaram as articulações para a nova suces-
são presidencial. O presidente Washington Luís, do Partido Repu-
blicano Paulista, indicou para sucedê-lo o presidente do estado de 
São Paulo, Júlio Prestes. Inconformadas, as oligarquias mineiras se 
aliaram aos gaúchos e aos paraibanos, lançando o nome do gaúcho 
Getúlio Vargas para a presidência e do paraibano João Pessoa para 
a vice-presidência. 
O Partido Democrático, de São Paulo, apoiou a candidatura de 
Vargas. Os dissidentes então formaram a Aliança Liberal, cuja pla-
taforma política defendia o voto secreto, a criação de uma Justiça 
Eleitoral, a moralização da prática política, a anistia para os militares 
revoltosos dos anos 1920 e o estabelecimento de leis trabalhistas. 
Nas eleições ocorridas em março de 1930, Júlio Prestes venceu, 
mas os políticos da Aliança Liberal não aceitaram a derrota, alegan-
do fraudes eleitorais. Mineiros e gaúchos conseguiram o apoio dos 
tenentes na luta contra o governo. No exilio argentino, Luís Carlos 
Prestes tinha aderido ao comunismo e recusou-se a participar das 
conversações. A crise eclodiu com o assassinato de João Pessoa, 
em julho de 1930. Apesar de se tratar de um crime que misturava 
razões políticas locais e passionais, os políticos da Aliança Liberal 
transformaram o episódio em questão nacional e deflagraram uma 
revolução. 
Iniciada em 3 de outubro de 1930, em Minas Gerais e no Rio 
Grande do Sul, ela se alastrou rapidamente pelo Nordeste. Diante 
da possibilidade de uma guerra civil, altos oficiais do Exército e da 
Marinha depuseram o presidente Washington Luís e formaram uma 
Junta Militar. Com a chegada das tropas rebeldes ao Rio de Janeiro, 
entregaram o poder a Getúlio Vargas. O movimento político-militar 
conhecido como Revolução de 1930 saía vitorioso. Era o início da 
Era Vargas. 
O ESTADO GETULISTA
— Governo Provisório
Ao assumir a chefia do governo provisório em 1930, apoiado 
pelos militares, Getúlio Vargas aboliu a Constituição de 1891, dis-
solveu o Congresso Nacional, as Assembleias Legislativas estaduais 
e as Câmaras municipais e instituiu um regime de emergência. Com 
exceção do governador Olegário Maciel, de Minas Gerais, todos os 
demais (na época, chamados de presidentes de estado) foram subs-
tituídos por interventores, pessoas da confiança do presidente, es-
colhidos por ele entre os egressos do movimento tenentista3. 
Em São Paulo, a nomeação do tenentista pernambucano João 
Alberto Lins de Barros para interventor provocou descontentamen-
to entre as elites, que passaram a exigir um interventor civil e pau-
lista. Os desdobramentos do descontentamento da população em 
relação a Vargas levaram à deflagração da Revolução Constituciona-
lista, em julho de 1932. 
Devido à debilidade de suas convicções ideológicas, o tenentis-
mo perdeu muito de sua influência junto ao governo Vargas. Vários 
de seus representantes voltaram para os quartéis, outros se aliaram 
ao comunismo ou a grupos simpatizantes do fascismo. Os que con-
tinuaram no governo permaneceram subordinados ao presidente. 
— Legislação Trabalhista
A obra pela qual o governo de Getúlio Vargas é mais lembra-
do é a legislação trabalhista, iniciada com a criação do Ministério 
do Trabalho, Indústria e Comércio, em novembro de 1930. As leis 
de proteção ao trabalhador regularam o trabalho de mulheres e 
crianças, estabeleceram jornada máxima de oito horas diárias de 
trabalho, criaram o descanso semanal remunerado e garantiram o 
direito a férias (já concedido anteriormente, em 1923, porém nunca 
colocado em prática) e à aposentadoria, entre outras novidades. 
Esse conjunto de leis seria sistematizado em 1943, com a Con-
solidação das Leis do Trabalho (CLT). Ao mesmo tempo, em 1931 
0 governo aprovou a Lei de Sindicalização, que estabelecia o con-
trole do Ministério do Trabalho sobre a ação sindical. Os sindica-
tos passaram a ser órgãos consultivos do poder público; só podiam 
funcionar com autorização do Ministério do Trabalho, que, por sua 
vez, tinha poderes de intervenção tão importantes nas atividades 
sindicais que podia até afastar diretores. 
Assim, anarquistas e comunistas foram afastados do movimen-
to sindical pelo governo e reagiram à lei, considerada autoritária, 
por meio de greves e manifestações. Aos poucos, porém, diversos 
setores sindicais passaram a acatá-la. 
A legislação trabalhista - apresentada à população como uma 
“dádiva do governo” - e a aproximação em relação aos sindicatos 
faziam parte de um tipo de política que seria caracterizado como 
populista, anos mais tarde. Apresentado como autor magnânimo 
das leis trabalhistas, Getúlio era chamado de “pai dos pobres”, uma 
espécie de protetor da classe trabalhadora, desconsiderando as 
conquistas como resultado das lutas dos trabalhadores. 
3 Azevedo, Gislane. História: passado e presente / Gislane Azevedo, 
Reinaldo Seriacopi. 1ª ed. São Paulo. Ática.
REALIDADE BRASILEIRA
253
a solução para o seu concurso!
Editora
— A Constituição de 1934
Em 1932, Getúlio Vargas ainda governava sob um regime de 
exceção. Em fevereiro do mesmo ano, o governo aprovou um novo 
Código Eleitoral que trazia algumas novidades: 
– criava a Justiça Eleitoral, para coibir as fraudes eleitorais; 
– instituía o voto secreto, principalmente para minar a influên-
cia dos coronéis sobre os eleitores (releia o Capítulo 3); 
– reduzia de 21 anos para 18 a idade mínima do eleitor; 
– garantia o direito de voto às mulheres, antiga reivindicação 
dos grupos feministas, que tinham entre suas principais militantes a 
enfermeira Bertha Lutz (1894-1976). 
Pressionado por diversos setores da sociedade, juntamente 
com a divulgação do novo Código Eleitoral, o governo convocou 
eleições para maio de 1933, visando à formação de uma Assembleia 
Constituinte. Entre os 254 constituintes eleitos encontrava-se a mé-
dica Carlota Pereira de Queirós, candidata por São Paulo e primeira 
deputada do Brasil. 
Promulgada em julho de 1934, a nova Constituição incorporou 
a legislação trabalhista em vigor, acrescentando a ela a instituição 
do salário mínimo (que seria criado somente em 1940) e criou o 
Tribunal do Trabalho. Pela nova Carta, analfabetos e soldados conti-
nuavam proibidos de votar. 
Ainda em julho de 1934 os constituintes elegeram Getúlio Var-
gas para a Presidência da República, pondo fim ao governo provisó-
rio. De acordo com a Constituição, o mandato presidencial se esten-
deria até 1938, quando um novo presidente escolhido por voto livre 
e direto assumiria o cargo. 
— Governo Constitucional de Vargas
Os anos 1930 foram marcados por uma forte polarização po-
lítica, com o surgimento de dois movimentos antagônicos: a Ação 
Integralista Brasileira (AIB), de direita, e a Aliança Nacional Liber-
tadora (ANL), de esquerda. 
A exemplo do que acontecia na Europa, onde a população geral 
estava desacreditada da democracia liberal - o que favorecia o sur-
gimento de regimes totalitários em diversos países -, surgiram no 
Brasil grupos que reivindicavam a implantação de uma ditadura de 
direita, semelhante à de Mussolini na Itália. 
Em 1932, foi formada a Ação Integralista Brasileira, de inspi-
ração fascista, liderada pelo escritor Plínio Salgado e composta de 
intelectuais, religiosos, alguns ex-tenentistas e setores das classes 
médias e da burguesia. Tendo como lema “Deus, Pátria e Família”, o 
integralismo era um movimento de caráter nacionalista, antiliberal, 
anticomunista e contrário ao capitalismo financeiro internacional. 
Os integralistas defendiam o controle do Estado sobre a eco-
nomia e o fim de instrumentos democráticos, como a pluralidade 
partidária e a democraciarepresentativa. Nas eleições municipais 
de 1936, os integralistas elegeram vereadores em diversos municí-
pios brasileiros e conquistaram várias prefeituras, entre elas as de 
Blumenau (SC) e Presidente Prudente (SP). 
A Aliança Nacional Libertadora surgiu em março de 1935, e 
tinha como presidente de honra o líder comunista Luís Carlos Pres-
tes. O Partido Comunista do Brasil (PC do B) tinha grande ascendên-
cia sobre a ANL, mas o movimento reunia em suas fileiras grupos 
de variadas tendências: socialistas, liberais, anti-integralistas, inte-
lectuais independentes, estudantes e ex-tenentistas descontentes 
com o autoritarismo do governo Vargas. Seu programa político era 
nacionalista e anti-imperialista. Entre suas principais bandeiras es-
tavam a suspensão do pagamento da dívida externa, a nacionaliza-
ção de empresas estrangeiras e a reforma agrária. 
A ANL cresceu rapidamente, chegando a reunir entre 70 mil e 
100 mil filiados, segundo estimativas do historiador Robert Levine. 
Quatro meses depois de fundada, foi declarada ilegal pelo presi-
dente Vargas. 
A partir de então, seus militantes passaram a agir na clandes-
tinidade. Em novembro de 1935, setores da ANL ligados ao PC do 
B lideraram, sob orientação da Internacional Comunista, insurrei-
ções mi- litares nas cidades de Natal, Recife e Rio de Janeiro, com 
o intuito de tomar o poder e implantar o comunismo no Brasil. Mal 
articulados, os levantes fracassaram e a Intentona Comunista, como 
ficou conhecido o episódio, levou o presidente a decretar estado de 
sítio e determinar a prisão de mais de 6 mil pessoas - entre as quais 
um senador e quatro deputados. 
Entre os detidos encontravam-se Luís Carlos Prestes (posterior-
mente condenado a dezesseis anos de reclusão) e sua mulher, a 
judia alemã Olga Benário. Ela, grávida de sete meses, foi deportada 
para a Alemanha nazista em setembro de 1936, onde morreu em 
um campo de concentração em 1942. 
— Eleições Canceladas
Em meio a esse clima de repressão à esquerda, teve início, em 
1937, a campanha eleitoral para a escolha do sucessor de Getúlio 
Vargas. O presidente, contudo, articulava sua permanência no po-
der junto às Forças Arma das e aos governadores. No final de 1937, 
o capitão integralista Olímpio Mourão Filho elaborou um plano de 
uma conspiração comunista para a tomada do poder e o entregou à 
cúpula das Forças Armadas. 
Era o Plano Cohen, nome de seu suposto autor. O documen-
to era falso, mas serviu de pretexto para um golpe de Estado. No 
dia 10 de novembro de 1937, o presidente ordenou o fechamento 
do Congresso por tropas do Exército. Pelo rádio, Vargas declarou 
canceladas as eleições presidenciais e anunciou a instauração do 
Estado Novo, que ele definiu como “um regime forte, de paz, justiça 
e trabalho”. 
A seguir, foi outorgada uma nova Constituição, que logo pas-
saria a ser chamada de Polaca, em alusão a suas semelhanças com 
a Constituição polonesa, de inspiração fascista. As garantias indivi-
duais foram suspensas e o direito de reunião, abolido. A população 
ficou proibida de se organizar, reivindicar seus direitos e de ma-
nifestar livremente suas opiniões. Sem reação popular, começava 
uma nova fase do governo getulista: a de uma ditadura declarada, 
centralizada em torno da figura de Getúlio Vargas. 
— O Estado Novo
Vargas passou a governar por meio de decretos-lei. Todos os 
partidos políticos foram extintos, incluindo a Ação Integralista, que 
apoiara o golpe. A ideologia do Estado Novo enfatizava principal-
mente a ideia de reconstrução da nação - pautada na ordem, na 
obediência à autoridade e na aceitação das desigualdades sociais 
- e a de tutela do Estado sobre a nacionalidade brasileira. 
Departamento de Imprensa e Propaganda
Em 1939, foi criado o Departamento de Imprensa e Propagan-
da (DIP), inspirado no serviço de comunicação da Alemanha nazista. 
Os agentes do DIP controlavam os meios de comunicação por meio 
da censura a jornais, revistas, livros, rádio e cinema. Eles também 
REALIDADE BRASILEIRA
254254
a solução para o seu concurso!
Editora
elaboravam a propaganda oficial do Estado Novo, produzindo peças 
publicitárias que mostravam o presidente como uma figura pater-
nal, bondosa, severa e exigente a fim de agradar à opinião pública. 
O DIP elaborava também cine documentários, como o Cine-
jornal Brasileiro - exibido obrigatoriamente em todos os cinemas, 
antes do início dos filmes -, livros e cartilhas escolares enaltecendo 
a figura de Vargas e transmitindo noções de patriotismo e civismo. 
Em meio ao ambiente de controle e repressão, a Polícia Espe-
cial de Getúlio Vargas ganhou força. Comandada pelo ex-tenentista 
Filinto Müller, ela ficou conhecida por suas prisões arbitrárias e pela 
prática de tortura contra os presos.
— O Brasil e a Segunda Guerra Mundial
Em 1940, Vargas fez um discurso elogiando o sucesso das tropas 
nazistas na Europa. Entretanto, embora se aproximasse dos países 
do Eixo por suas posturas autoritárias, o governo de Getúlio Vargas 
manteve uma postura ambígua sobre a Segunda Guerra Mundial, 
pois mantinha relações econômicas com os Estados Unidos. 
Para impedir a influência europeia sobre o Brasil, o governo 
estadunidense pôs em prática a política de boa vizinhança, que se 
manifestou por meio do fim do intervencionismo político e da cola-
boração econômica e militar. O rompimento definitivo com o bloco 
nazifascista ocorreu em 1942, quando navios mercantes brasileiros 
foram afundados por submarinos alemães. 
Em agosto daquele ano, após manifestações populares e es-
tudantis exigindo que o governo entrasse no conflito ao lado das 
democracias, Getúlio declarou guerra aos países do Eixo. Em julho 
de 1944, aproximadamente 25 mil soldados, integrantes da Força 
Expedicionária Brasileira (FEB) desembarcaram na Itália. 
— O Fim do Estado Novo
Em 1942, as manifestações estudantis e populares lideradas 
pela União Nacional dos Estudantes (UNE), a favor da participação 
do Brasil na guerra contra o nazifascismo, deram início a um lento 
processo de distensão no clima sufocante do Estado Novo. Outras 
manifestações ocorreram, agora pelo fim do Estado Novo e pela 
volta da democracia. 
Em 1943, houve o Manifesto dos Mineiros, de um grupo de po-
líticos e intelectuais de Minas Gerais durante um congresso da Or-
dem dos Advogados do Brasil (OAB). No início de 1945, foi a vez dos 
participantes do Primeiro Congresso Brasileiro de Escritores. Ainda 
em 1945, Getúlio pôs fim à censura da imprensa, anistiou presos 
políticos - entre eles, Luís Carlos Prestes - e convocou eleições para 
uma Assembleia Constituinte. 
Surgiram então diversos partidos políticos, entre os quais a 
União Democrática Nacional (UDN), formada por setores das clas-
ses médias e altas, o Partido Social Democrático (PSD), composto de 
antigos coronéis e interventores nos estados e o Partido Trabalhista 
Brasileiro (PTB), constituído por líderes sindicais ligados ao Ministé-
rio do Trabalho, além do Partido Comunista do Brasil (PC do B), que 
voltou a ser legalizado. 
Durante a campanha eleitoral, líderes do PTB e de alguns sin-
dicatos, com o apoio do Partido Comunista e com o aval do presi-
dente, passaram a defender a permanência de Getúlio Vargas na 
Presidência. A expressão “Queremos Getúlio!”, repetida em coro 
pelos partidários desse grupo, deu nome ao movimento: queremis-
mo. Para evitar a permanência de Vargas no poder, os generais Góis 
Monteiro e Eurico Gaspar Dutra exigiram sua renúncia. 
Com o afastamento de Getúlio em Outubro de 1945, o Estado 
Novo chegava ao fim. 
DEMOCRACIA E RUPTURAS DEMOCRÁTICAS NA SEGUNDA 
METADE DO SÉCULO XX
— A Experiência Democrática no Brasil
Eurico Gaspar Dutra assumiu a presidência em janeiro de 1946. 
O início de seu governo foi marcado pela posse da Assembleia Na-
cional Constituinte, encarrega da de elaborar uma nova Constitui-
ção para o Brasil. Promulgada ainda em 1946, a Carta restabelecia 
a democracia, a organização do Estado em três poderes (Executivo, 
Legislativo e Judiciário)e a autonomia dos estados e municípios, co-
locando fim ao centralismo político que caracterizou a Era Vargas4. 
No entanto, a nova Constituição manteve a exclusão do direito 
de voto aos analfabetos (mais da metade da população), inúmeras 
restrições ao direito de greve e a não incorporação dos trabalhado-
res do campo à legislação trabalhista. 
Na área econômica, Dutra deu uma orientação liberal ao seu 
governo, afastando-se da política nacionalista adotada por Getúlio 
Vargas. Com a abertura do mercado aos produtos importados, as 
reservas nacionais em moedas estrangeiras acumuladas durante a 
Segunda Guerra esgotaram-se. 
Em 1948, foi anunciado o Plano Salte, abreviatura de Saúde, 
Alimentação, Transporte e Energia, considerados setores prioritá-
rios. O plano só foi aprovado pelo Congresso em 1950, no final do 
governo Dutra, e abandonado pelo governo seguinte. Assim, foi 
implementado apenas em parte, como a pavimentação da rodovia 
Rio-São Paulo (atual Via Dutra), a abertura da rodovia Rio-Bahia e o 
início das obras da Hidrelétrica do São Francisco. Aderindo ao clima 
da Guerra Fria, o governo Dutra estreitou relações com os Estados 
Unidos e, em 1947, rompeu relações diplomáticas com a União So-
viética. Esse posicionamento acabou provocando um recuo na frágil 
e recente democracia brasileira: o governo decretou a ilegalidade 
do Partido Comunista Brasileiro (PCB), cassando o mandato de de-
putados, senadores e vereadores do partido que foram eleitos em 
1945. 
Além disso, o governo também ordenou a intervenção estatal 
em mais de 400 sindicatos. 
— O Retorno de Getúlio Vargas
Getúlio Vargas foi vitorioso nas eleições para a sucessão de Du-
tra em outubro de 1950. Ele candidatou-se pelo Partido Trabalhista 
Brasileiro (PT B), com o apoio do Partido Social Democrático (PSD). 
Assim, o pai dos pobres, como ficou conhecido, reassumia a 
Presidência do Brasil em janeiro de 1951, mas, desta vez, democra-
ticamente. Sua atuação política junto às camadas mais carentes do 
país, no estilo populista, foi decisiva para sua vitória. Meses depois 
da eleição de Getúlio, a marchinha mais cantada no Carnaval de 
1951 era Retrato do velho, de Haroldo Lobo e Marino Pinto, gravada 
em outubro de 1950 por Francisco Alves, para comemorar o resul-
tado das eleições. 
Com a volta de Getúlio Vargas, o governo passou a seguir a cor-
rente nacionalista, com o Estado atuando de maneira intervencio-
nista e paternalista.
4 Vicentino, Cláudio. Olhares da História Brasil e Mundo. Cláudio 
Vicentino. José Bruno Vicentino. Savério Lavorato Júnior. 1ª ed. São 
Paulo. Scipione.
REALIDADE BRASILEIRA
255
a solução para o seu concurso!
Editora
As importações foram restringidas e os investimentos estran-
geiros foram limitados, dificultando as remessas de lucros de em-
presas transnacionais para seus países de origem. Para incentivar a 
indústria nacional, em 1952, foi criado o Banco Nacional de Desen-
volvimento Econômico (BNDE) e, no ano seguinte, a Petrobras, em-
presa estatal com o monopólio da exploração e refino do petróleo 
no Brasil. Foi proposta também a criação da Eletrobrás, uma em-
presa para controlar a geração e a distribuição de energia elétrica. 
Vargas nomeou João Goulart (1919-1976) para ministro do 
Trabalho, em 1953, para enfrentar as rei- vindicações e a onda de 
greves. Sob a orientação do presidente, o novo ministro propôs, em 
janeiro de 1954, dobrar o valor do salário mínimo, que recuperou 
seu valor em relação à crescente inflação. 
Em fevereiro, 42 coronéis e 39 tenentes-coronéis emitiram um 
manifesto - o Manifesto dos Coronéis - criticando o governo, o aumen-
to do salário mínimo e as desordens que corriam pelo país. Entre eles 
estava o coronel Golbery do Couto e Silva e vários outros militares que, 
mais tarde, foram protagonistas da ditadura iniciada em 1964. 
Diante do manifesto, Getúlio demitiu o ministro da Guerra, o 
general Espírito Santo Cardoso, e acordou com Goulart a sua de-
missão, acalmando os ânimos. Contudo, no feriado de 19 de maio 
de 1954, Vargas anunciou o aumento de 100% do salário mínimo, 
conquistando ainda mais apoio dos trabalhadores. 
A política populista de Vargas atraiu a oposição de liberais, 
como os membros da UDN (União Democrática Nacional, partido 
político de orientação liberal), oficiais das Forças Armadas e empre-
sários, especialmente os ligados aos interesses estrangeiros. 
Em 5 de agosto de 1954, o jornalista Carlos Lacerda (1914-
1977), um dos principais oponentes de Vargas, dono do jornal Tri-
buna da Imprensa, sofreu um atentado no qual morreu seu segu-
rança, o major da Aeronáutica Rubens Vaz (1922-1954). O episódio 
ficou conhecido como o atentado da rua Toneleros. 
As investigações apontaram a participação de Gregório Fortu-
nato (1900-1962), chefe da guarda pessoal de Getúlio. Isso acirrou 
os ânimos dos oposicionistas, desdobrando-se numa grande cam-
panha pela renúncia de Vargas. 
A campanha contou com os meios de comunicação, que ali-
mentavam e impulsionavam o aprofundamento da crise. Pressiona-
do, Vargas suicidou-se em 24 de agosto de 1954. A notícia da morte 
e a divulgação de sua carta-testamento estimularam manifestações 
populares por todo o país. Jornais de oposição foram invadidos e 
depredados, assim como os diretórios da UDN e a embaixada dos 
Estados Unidos no Rio de Janeiro. 
Com o suicídio de Getúlio, o vice-presidente Café Filho (1899-
1970) assumiu o poder. Inconformados com o resultado das elei-
ções, a UDN de Lacerda e setores militares tramavam um golpe, 
com apoio discreto de Café Filho e outros ministros, mas esbarra-
ram no legalista ministro da Guerra, o general Henrique Teixeira 
Lott (1894-1984). 
A saída de Café Filho da presidência por problema de saúde oca-
sionou a transferência do cargo ao presidente da Câmara dos Deputa-
dos, Carlos Luz (1894-1961), aliado da UDN. Este, mais favorável aos 
golpistas, tentou se livrar do legalista Lott, que reagiu e o depôs. 
O cargo foi entregue então ao presidente do Senado, Nereu Ra-
mos (1888-1958), que governou como presidente da República até 
a posse de Juscelino Kubitschek, em janeiro de 1956.
Nas eleições de outubro de 1955, Juscelino Kubitschek de Oli-
veira (1902-1976), ex-governador de Minas Gerais, teve uma vitó-
ria apertada, de 36%, contra 30% dos votos dados a Juarez Távora, 
candidato da UDN.
JK, como era popularmente conhecido, foi o candidato da coli-
gação PSD-PTB. Como na época os eleitores votavam separadamen-
te para presidente e para vice-presidente, João Goulart, o Jango, 
ex-ministro do Trabalho de Vargas, venceu a eleição para Vice-presi-
dência, com mais votos (3 591.409) do que o próprio JK (3 077.411).
— De Jk a João Goulart
O governo de Juscelino Kubitschek foi marcado pelo desen-
volvimentismo. Apoiando-se no Plano de Metas, divulgado sob o 
slogan “50 anos em 5”, Juscelino prometia desenvolver o país em 
tempo recorde. O programa priorizava investimentos em setores de 
energia, indústria, educação, transporte e alimentos. 
Para alcançar as metas, o governo favoreceu a entrada de capi-
tais estrangeiros e a presença de empresas transnacionais no país. 
Esse modelo abandonava o nacionalismo do período Vargas e ade-
ria ao capitalismo internacional. Como resultado dessa política, fá-
bricas de caminhões, tratores, automóveis, produtos farmacêuticos 
e cigarros foram instaladas no Brasil. 
Destacam-se também a construção das usinas hidrelétricas de 
Furnas e Três Marias; e a pavimentação de milhares de quilômetros 
de estradas. Grandes mudanças ocorriam em diversos setores. No 
dia a dia de muitas cidades e regiões.
Na música, foi a época em que surgiu a bossa Nova, um novo 
estilo de tocar e cantar samba com influência do jazz, juntando-se 
aos tangos, boleros, valsas e sambas de então. No futebol, 1958 
foi o ano da conquista do primeiro campeonato mundial. Passaram 
a fazer parte dos hábitos dos brasileiros o consumo de produtos 
industriais, como eletrodomésticos (máquina de lavar roupas, rádio 
de pilha, etc.) 
Noentanto, esse desenvolvimentismo era basicamente diri-
gido a partes do mundo urbano moderno. O enorme fosso social, 
pleno de desigualdades e carências (saneamento básico, escolas, 
saúde), e um mundo rural que ainda reunia a maioria da população 
brasileira sem a proteção de uma legislação trabalhista continua-
vam a existir. 
A maior obra do governo JK, entretanto, foi a construção de 
Brasília, a nova capital federal, planejada pelo urbanista Lúcio Costa 
e pelo arquiteto Oscar Niemeyer. 
A cidade foi inaugurada em 21 de abril de 1960. Localizada no 
Planalto Central, estava bem distante das cidades do Rio de Janeiro 
e de São Paulo, os principais centros de pressão popular da época. 
A abertura da economia brasileira ao capital estrangeiro e os vários 
empréstimos contraídos junto às instituições estrangeiras deixaram 
o país numa séria crise financeira, com a inflação chegando, em 
1960, ao índice de 25% ao ano. 
Nas eleições de 1960, a coligação PSD-PTB indicou o marechal 
Henrique Teixeira Lott para concorrer à Presidência e João Goulart 
à Vice-presidência. Na oposição, a UDN e outros partidos meno-
res apoiaram a candidatura do ex-governador de São Paulo, Jânio 
Quadros (1917-1992). Seu candidato à Vice-presidência era Mílton 
Campos, ex-governador de Minas Gerais. Jânio pregava uma limpe-
za na vida política nacional com o combate à corrupção. Para sim-
bolizar a ideia, usava uma vassoura na campanha eleitoral. Como 
votava-se separadamente para presidente e para vice-presidente, 
REALIDADE BRASILEIRA
256256
a solução para o seu concurso!
Editora
Jânio Quadros se tornou presidente com 5,6 milhões de votos. João 
Goulart foi eleito vice-presidente com 4,5 milhões de votos. Era for-
mada a dupla “Jan-Jan”. 
Jânio Quadros no Poder
Como presidente, Jânio Quadros primou pela ambiguidade. Na 
economia atuava deforma mais próxima aos conservadores liberais: 
cortou gastos e congelou salários em meio à contínua elevação dos 
preços dos produtos. Por outro lado, sua política externa aproxi-
mava-se da esquerda, ao reatar relações diplomáticas com países 
socialistas a fim de ampliar mercados. 
Um episódio reforçou essa política de independência em rela-
ção ao bloco capitalista. Em 1961, o argentino Ernesto Che Guevara, 
então ministro da Economia em Cuba, foi condecorado por Jânio 
Quadros com a Ordem do Cruzeiro do Sul. 
Essa atitude provocou reações contrárias, inclusive do próprio 
partido do presidente. Em agosto de 1961, após sete meses de go-
verno, Jânio surpreendeu a todos ao renunciar ao cargo, numa ma-
nobra política fracassada. A renúncia fazia parte de um plano que 
contava com o temor de setores da sociedade diante da possibilida-
de de João Goulart assumir a Presidência para fortalecer seu poder. 
O vice, que se encontrava na China Popular, em missão de go-
verno, era considerado comprometido com as causas trabalhistas 
- e até acusado de ser um comunista - por vários militares e políti-
cos. Ao que parece, a expectativa de Jânio era que a população se 
mobilizasse contra seu pedido de renúncia e o Congresso Nacional 
o rejeitasse, o que o levaria a exigir plenos poderes para continuar 
na Presidência. 
A renúncia, porém, foi aceita imediatamente e nenhum gru-
po movimentou-se para convencer Jânio Quadros a permanecer 
no poder. O presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzil-
li (1910-1975), assumiu a Presidência da República até a posse de 
Jango. 
— A Crise Política no Governo Jango
A renúncia de Jânio Quadros em 25 de agosto de 1961 amplifi-
cou as divergências entre as forças políticas. Alguns ministros mili-
tares e políticos da UON, contrariando a Constituição, tentaram im-
pedir a posse de João Goulart. O novo presidente era visto como um 
herdeiro de Getúlio Vargas e acusado de simpatizante da esquerda. 
Em defesa de Jango, Leonel Brizola (1922-2004), então gover-
nador do Rio Grande do Sul, lançou a Campanha da Legalidade, 
conquistando o apoio de boa parte da população brasileira. A posse 
de Jango ocorreu somente após debates e negociações que levaram 
à alteração da Constituição. Com uma emenda, em 2 de setembro 
de 1961, foi implantado o parlamentarismo no país. Era o acordo 
para se evitar uma guerra civil: Jango assumiria a presidência, mas o 
governo de fato ficaria a cargo do primeiro-ministro, escolhido pelo 
Congresso Nacional. Definiu-se também que, após algum tempo, o 
parlamentarismo deveria ser ratificado ou não por um plebiscito.
Em janeiro de 1963, o plebiscito sobre o parlamentarismo mo-
bilizou o país. O sistema político estava em vigência há pouco mais 
de um ano e era muito criticado e impopular. Com intensa cam-
panha pelo seu fim, os brasileiros decidiram pela restauração do 
regime presidencialista. Enquanto o presidencialismo era restabe-
lecido, a situação econômica do país deteriorava-se. 
A inflação, que em 1962 atingira 52%, chegou aos 80% em 1963 
e afetou gravemente o poder aquisitivo dos trabalhadores. Para en-
frentar a crise, o governo lançou o Plano Trienal, no final de 1962. 
Seu objetivo era conter a inflação e promover o desenvolvimento 
do país. No entanto, os efeitos do plano foram mínimos, principal- 
mente quanto ao custo de vida. As pressões populares cresceram, 
levando Jango a defender amplas reformas nos setores agrário, ad-
ministrativo, fiscal e bancário. Conhecidas como reformas de base, 
essas medidas foram vistas pelos seus opositores como uma amea-
ça à ordem liberal vigente. 
Três dessas medidas ajudam a entender os interesses que es-
tavam ameaçados. Contra a inflação, foi criada a Superintendência 
Nacional do Abastecimento (Sunab), ligada ao governo e encarre-
gada de controlar os preços dos produtos, interferindo, portanto, 
nos lucros dos produtores e comerciantes. 
Para oferecer melhores condições de vida a milhões de traba-
lhadores rurais e ampliar a oferta de alimentos, uma proposta de 
reforma agrária nos latifúndios improdutivos foi apresentada ao 
Congresso. Os latifundiários, porém, não concordavam com os me-
canismos de cálculos para se chegar aos valores das indenizações 
a serem pagas pelas terras, alegando grandes perdas caso fossem 
efetivamente aplicados. 
Outra questão polémica foi a restrição da remessa de lucros das 
empresas estrangeiras para o exterior; a proposta teve oposição de 
grupos ligados ao capital internacional. Diante de tantos embates, 
João Goulart aproximou-se de setores populares organizados por 
operários, camponeses, estudantes e militantes de esquerda, como 
o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), a União Nacional dos 
Estudantes (UNE), a União Brasileira de Estudantes Secundaristas 
(UBES), a Confederação dos Trabalhadores Agrícolas (CONTAC) e as 
Ligas Camponesas. 
No lado oposto, contra Jango, os conservadores juntavam or-
ganizações sociais e políticas. Entre eles, destacava-se o Instituto 
de Pesquisas Econômicas e Sociais (PES), que reunia diretores de 
empresas multinacionais, jornalistas, intelectuais, militares e a nata 
do empresariado nacional. 
Entre outros opositores a João Goulart estavam o Instituto Bra-
sileiro de Ação Democrática (Ibad), a Confederação Nacional das 
Indústrias (CNI) e a Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp). 
Num comício realizado em 13 de marco de 1964, no Rio de Janeiro, 
o presidente prometeu o aprofundamento das reformas para diver-
sas entidades de trabalhadores e estudantes. 
Em resposta, os conservadores organizaram uma grande pas-
seata em São Paulo, chamada Marcha da Família com Deus pela 
Liberdade. Os participantes da passeata declaravam estar se posi-
cionando contra o que era visto como ameaça da transformação do 
país numa república comunista, representada pelo presidente, suas 
propostas e seu grupo de apoio. Setores da Igreja e do empresaria-
do participaram da manifestação. 
A REDEMOCRATIZAÇÃO E A BUSCA PELA ESTABILIDADE 
ECONÔMICA
Definição
“Abertura Política” é a denominação de uma sequência de ati-
vidades cuja finalidade era promover uma lenta, gradual e segura 
transição do regimemilitar que para o regime democracia nos últi-
mos dois mandatos da ditadura. 
REALIDADE BRASILEIRA
257
a solução para o seu concurso!
Editora
• “Lenta, gradual e segura”: o lema que definiu o início da 
abertura política foi criado no governo do general Ernesto Geisel 
indicava o modo como o líder pretendia conduzir o processo de res-
tauração da democracia. 
– Lenta: devido a não haver conformidade nas Forças Armadas 
com relação à abertura política. Enquanto uns não concordavam 
com a adoção de medidas mais radicais e extremistas, outros de-
fendiam (e empreendiam) tentados terroristas contra instituições. 
– Gradual: conforme o Pacote de Abril (nome atribuído pela 
a um conjunto de medidas impostas por Ernesto Geisel, abril de 
1977), ainda não era o momento ideal para que os militantes abris-
sem mão das eleições majoritárias indiretas. 
– Segura: tinha o objetivo de assegurar o controle da ascen-
são da esquerda ao poder, para que o processo democratização não 
eclodisse em uma revolução semelhante às que ocorreram na China 
e em Cuba. Ainda, por meio da Lei Falcão, conseguiu-se dificultar a 
divulgação das propostas dos candidatos oponentes.
• Lei da Anistia: promulgada no Governo de João Figueiredo, 
essa lei isentou os militares de seus crimes cometidos no decorrer 
da ditadura, além de dispensar, também, aqueles que tinham sido 
condenados por crimes políticos e os militares e agentes que atua-
ram ilegalmente durante o regime.
• “Diretas Já»: o impulso que avançou o movimento também 
recuperou o pluripartidarismo. Mesmo que sua aprovação tenha 
ocorrido em função de fragmentar a esquerda, o pluripartidarismo 
permite representação política aos mais diversos grupos, sendo, 
assim, um fator essencial em um regime democrático. O retorno 
pelo à democracia somente seria possível por meio da eleição dire-
ta para presidente da República, assim, o movimento “Diretas Já”, 
em contrapartida à divisão provocada pelo pluripartidarismo, gerou 
o engajamento político desses grupos em busca de desse ideal co-
mum.
• Revogação do AI-5: outra medida indispensável na luta pela 
democracia, decretada no Governo de Ernesto Geisel. 
• Eleição de Tancredo Neves: o marco da transição de regimes 
aconteceu em 1985, de forma indireta, e o candidato eleito contava 
com aprovação de boa parte da bancada governamental, ou seja, 
agradou os militares. E, mesmo que Neves não tenha assumido o 
cargo, o governo que se seguiu reafirmou o êxito dos militares, já 
que a esquerda só chegaria à Presidência da República quase vinte 
anos depois. 
HISTÓRIA DOS NEGROS NO BRASIL: LUTA ANTIRRACISTA, 
CONQUISTAS LEGAIS E DESAFIOS ATUAIS
A formação da cultura afro-brasileira remonta ao período co-
lonial, quando milhares de africanos vieram para o Brasil através 
do trafico negreiro. O grande número de negros vindo no período 
colonial acabou por formar a maior população de origem africana 
fora da África. A cultura afro-brasileira foi marcada pelas referências 
culturais europeia e indígena.
É importante ressaltar que essa manifestação cultural não se 
deu de forma homogênea, já que os africanos que vieram ao Bra-
sil tinham distintas origens, forçando a apropriação e a adaptação 
para que suas práticas culturais sobrevivessem. Os rituais e costu-
mes africano apenas deixaram de ser proibidos em 1930, durante o 
governo de Getúlio Vargas. 
Assim, com o fim da perseguição, a cultura africana começou a 
ser mais valorizada, até que, em 2003, é promulgada a lei nº 10.639 
(Lei de Diretrizes e Bases da Educação), exigindo as escolas brasilei-
ras de ensino fundamental e médio que abarquem em seus currícu-
los o ensino da história e cultura afro-brasileira.
Devido à quantidade de escravos recebidos e também pela mi-
gração interna destes, os estados de Maranhão, Pernambuco, Ala-
goas, Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo 
e Rio Grande do Sul foram os mais influenciados. A maioria dos po-
vos veio trazido da Angola, Congo e Moçambique, eles formavam 
os Bantos. Já os Sudaneses, vieram da África ocidental, Sudão e da 
Costa da Guiné. 
 I. Aspectos da Cultura Afro-Brasileira
Podemos dizer que a cultura afro-brasileira compõe os costu-
mes, as tradições, a mitologia, o folclore, a língua, a culinária, a mú-
sica, a dança, a religião, enfim, o imaginário cultural brasileiro.
Um exemplo de como a cultura africana esta presente na nossa 
sociedade estão nas festividades, como o Carnaval, a maior festa 
popular brasileira, a festa de São Benedito, principal festa do Con-
gado (expressão da cultura afro-brasileira), comemorada no final de 
semana após a Páscoa; e a festa de Iemanjá, realizada no dia 2 de 
fevereiro. 
Na música influência afro-brasileira está patente em expres-
sões como Samba, Jongo, Carimbo, Maxixe, Maculelê, Maracatu e 
utilizam instrumentos variados, com destaque para Afoxé, Ataba-
que, Berimbau e Tambor. Por conseguinte, não podemos perder de 
vista que estas expressões musicais são também corporais, uma vez 
que refletem formas de dançar, como no caso do Maculelê, uma 
dança folclórica brasileira, e do samba de roda, uma variação mu-
sical do samba. Podemos ressaltar outras expressões de música e 
dança como as danças rituais, o Tambor de Crioula, e os estilos mais 
contemporâneos como o samba-reggae e o axé baiano. Finalmente, 
merecendo um destaque especial a Capoeira, uma mistura de dan-
ça, música e artes marciais proibida no Brasil durante muitos anos 
e declarada Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2014.
A culinária é outro elemento típico da cultura afro-brasileira. 
Ela introduziu as panelas de barro, o leite de coco, o feijão preto, 
o quiabo, dentre muitos outros. Entretanto, os alimentos mais co-
nhecidos são aqueles da culinária baiana, preparados com azeite 
dendê e pimentas, como Abará, Vatapá e o Acarajé, bem como o 
Quibebe nordestino, preparado com carne-de-sol ou charque; além 
dos doces de pamonha e cocada. Por fim, o prato brasileiro mais 
conhecido de todos é a Feijoada, criada pelos escravos como uma 
apropriação da feijoada portuguesa e produzida a partir dos restos 
de carne que os senhores de engenho não consumiam.
A religião afro-brasileira se caracterizou pelo sincretismo com o 
catolicismo, união de aspectos do cristianismo às suas tradições re-
ligiosas para que pudessem realizar as práticas religiosas africanas 
secretamente. Assim, nasceram do sincretismo o Batuque, o Xam-
bá, a Macumba e a Umbanda, enquanto se preservaram algumas 
variações africanas da Quimbanda, Cabula e o Candomblé.
REALIDADE BRASILEIRA
258258
a solução para o seu concurso!
Editora
Influência Africana no Brasil5
A influência africana no processo de formação da cultura afro-
-brasileira começou a ser delineada a partir do tráfico negreiro. 
Quando milhões africanos “deixaram” forçadamente o continente 
africano e despontarem no Brasil para exercer o trabalho compul-
sório.
O escravo africano era um elemento de suma importância no 
campo econômico do período colonial sendo considerado “as mãos 
e os pés dos senhores de engenho porque sem eles no Brasil não 
é possível fazer, conservar e aumentar fazenda, nem ter engenho 
corrente” (ANTONIL, 1982, p.89). Contudo, a contribuição africana 
no período colonial foi muito além do campo econômico, uma vez 
que, os escravos souberem reviver suas culturas de origem e recria-
rem novas práticas culturais através do contato com outras culturas.
É importante salientar que não houve uma homogeneidade 
cultural praticada pelos negros africanos, visto que imperava uma 
heterogeneidade favorecida pelas origens distintas dos africanos, 
que apesar de oriundos do continente africano, geralmente os 
escravos apresentava uma prática cultural diferenciada em alguns 
aspectos devido à região que pertencia, pois a África caracteriza-
se em um continente dividido em países com línguas e culturas 
diversas.
Além da prática cultural diferenciada ressaltada, os africanos, 
ainda, incorporaram algumas práticas europeias e indígenas,além 
de, influenciá-los culturalmente. O intercâmbio cultural entre os 
elementos citados contribuiu para uma formação cultural afro - bra-
sileira híbrida e bastante peculiar.
Ao longo do período colonial e monárquico brasileiro foi gran-
de o contingente de escravos africanos no Brasil, visto que, cons-
tituía a maior mão - de - obra do período. A contribuição desses 
escravos foi além da participação econômica, uma vez que, foram 
inserindo suas práticas, seus costumes e seus rituais religiosos na 
sociedade Brasileira contribuindo, dessa forma para uma formação 
cultural peculiar no Brasil.
Importante, ressaltar que as práticas desses escravos africanos 
eram diferenciadas, pois eles eram oriundos de pontos diferentes 
do continente africano. De acordo com VAINFAS (2001 p.66), du-
rante o período colonial, quase nada se sabia sobre a origem étnica 
dos africanos traficados para o Brasil. Porém, ao longo do período 
passou-se a designá-los a partir da região ou porto de embarque, 
ou seja, das áreas de procedência.
Apesar da origem diversa dos escravos africanos, dois grupos 
se destacaram no Brasil: os Bantos e os Sudaneses. Os bantos foram 
assim, classificados devido à relativa unidade linguística dos africa-
nos oriundos de Angola, Congo e Moçambique.
Vainfas (2001, p. 67) destaca que:
Os povos bantos predominaram entre os escravos traficados 
para o Brasil desde o século XVII, concentrando-se na região su-
deste, mas espalhados por toda a parte, inclusive na Bahia. (...) Os 
Bantos oriundos do Congo eram chamados de congo, muxicongo, 
loango, cabina, monjolo, ao passo que os de Angola o eram de mas-
sangana, cassange, loanda, rebolo, cabundá, quissamã, embaca, 
benguela.
Essa diversidade fez com os Bantos apresentassem uma es-
pecificidade cultural, notadamente na lingüística, nos costumes e, 
principalmente, no campo religioso, que mesclou aspectos do cris-
tianismo com suas tradições religiosas.
5 http://www.acordacultura.org.br/artigos/29082013/a-influencia-africana-no-pro-
cesso-de-formacao-da-cultura-afro-brasileira
De acordo com Kavinajé (2009, p. 3):
Os bantos, depois de um primeiro período de autonomia reli-
giosa, que se conhece através de documentos históricos, assistiram 
à transformação de seus cultos. Por um lado, esses deram lugar 
á macumba; por outro, amoldaram-se às regras dos condomblés 
nagôs, não se distinguindo deles senão por uma maior tolerância. 
Os cultos bantos em gradativo declínio acolheram os espíritos dos 
índios, o que iria levar ao surgimento de um “condomblé de cablo-
cos”, e adotaram cantos em língua portuguesa, ao passo que os 
condomblés nagôs só usam cantos em língua africana.
Já os sudaneses provenientes da África ocidental, Sudão e da 
Costa da Guiné, contribuíram culturalmente para a formação de 
uma identidade afro-brasileira, visto que muito de suas práticas 
culturais imperam atualmente como, por exemplo, o candomblé, 
prática religiosa dos escravos sudaneses.
No Brasil estes grupos: bantos e sudaneses misturaram-se re-
sultando em cruzamentos biológicos, culturais e religiosos.
De acordo com Paiva (2001, p.36):
Misturavam-se informações, assim como etnias, tradições e 
práticas culturais. Novas cores eram forjadas pela sociedade colo-
nial e por ela apropriadas para designar grupos diferentes de pes-
soas, para indicar hierarquização das relações sociais, para impor a 
diferença dentro de um mundo cada vez mais mestiço. Da cor da 
pele à dos panos que a escondia ou a valorizava até a pluralidade 
multicor das ruas coloniais, reflexo de conhecimentos migrantes, 
aplicados à matéria vegetal, mineral, animal e cultural.
Nota-se que o cruzamento cultural entre estes povos africanos 
propiciou a construção de uma identidade cultural brasileira, ou 
cultura afro-brasileira. Uma vez que, eles não temeram em “inven-
tar códigos de comportamentos e de recriarem práticas de socia-
bilidade e culturais” (Paiva 2001, p.23). Assim, este cruzamento foi 
resultado de um longo processo que propiciou uma riqueza cultural 
peculiar ao Brasil.
De acordo com Paiva (2001, p.27), pode-se caracterizar este 
cruzamento cultural como resultante de uma aproximação entre 
universos geograficamente afastados, em hibridismos e em imper-
meabilidades, em (re) apropriações, em adaptações e em sobrepo-
sição de representações e de práticas culturais.
Assim, a influência africana foi se tornando visível em vários 
seguimentos da sociedade colonial, tais como culinária, práticas re-
ligiosas, danças, dentre outros valores culturais que foram incorpo-
rados pela população brasileira.
Sobre a influência africana Freire (2001, p. 343) destaca que:
Quantas “mães-pretas”, amas de leite, negras cozinheiras e qui-
tandeiras influenciaram crianças e adultos brancos (negros e mes-
tiços também), no campo e nas áreas urbanas, com suas histórias, 
com suas memórias, com suas práticas religiosas, seus hábitos e 
seus conhecimentos técnicos? Medos, verdades, cuidados, forma 
de organização social e sentimentos, senso do que é certo e do que 
é errado, valores culturais, escolhas gastronômicas, indumentárias 
e linguagem, tudo isso conformou-se no contato cotidiano desen-
volvido entre brancos, negros, indígenas e mestiços na Colônia.
Ainda de acordo com Freyre (2001, p. 346), a nossa herança 
cultural africana é visível no jeito de andar e no falar do brasileiro, 
pois:
Na ternura, na mímica excessiva, no catolicismo em que se de-
liciam nossos sentidos, na música, no andar, na fala, no canto de 
ninar menino pequeno, em tudo que é expressão sincera de vida, 
trazemos quase todos a marca da influência negra. Da escrava ou 
sinhama que nos embalou. Que nos deu de mamar. Que nos deu de 
REALIDADE BRASILEIRA
259
a solução para o seu concurso!
Editora
comer, ela própria amolegando na mão o bolão de comida. Da ne-
gra velha que nos contou as primeiras histórias de bicho e de mal-
-assombrado. Da mulata que nos tirou o primeiro bicho- de- pé de 
uma coceira tão boa. De que nos iniciou no amor físico e nos trans-
mitiu, ao ranger da cama- de- vento, a primeira sensação completa 
de homem. Do muleque que foi o nosso primeiro companheiro de 
brinquedo. (Freyre (2001, p. 348)
Observa-se que de acordo com a citação acima a influência afri-
cana foi além cozinha e da mesa, chegando até a cama, pois era co-
mum a iniciação sexual do “senhorzinho” branco ocorrer com uma 
escrava.Comum também era a prática de feitiços sexuais e afrodi-
síacos pelos escravos, pois foi na “perícia e no preparo de feitiços 
sexuais e afrodisíacos que deu tanto prestigio a escravos macum-
beiros juntos a senhores brancos já velhos e gastos.” Freyre (2001, 
p. 343),
A influência do escravo negro na vida sexual da família brasilei-
ra é destacada por, Freyre (2001, p. 381), assim:
(...) O grosso das crenças e práticas da magia sexual que se de-
senvolveram no Brasil foram coloridas pelo intenso misticismo do 
negro; algumas trazidas por ele da África, outras africanas apenas 
na técnica, servindo-se de bichos e ervas indígenas. Nenhuma mais 
característica que a feitiçaria do sapo para apressar a realização de 
casamentos demorados. O sapo tornou-se também, na magia se-
xual afro-brasileira, o protetor da mulher infiel que, para enganar 
o marido, basta tomar uma agulha enfiada em retrós verde, fazer 
com ela uma cruz no rosto do indivíduo adormecido e coser depois 
os olhos do sapo.
Além da influência na vida sexual destacado no clássico Casa 
Grande e Senzala, merecem ênfase as canções que foram modifica-
das pelas negras.
Também as canções de berço portuguesas, modificou-se a boca 
da ama negra, alterando nelas palavras; adaptando-as às condições 
regionais; ligando-as às crenças dos índios e às suas. Assim a velha 
canção “escuta, escuta menino” aqui amoleceu-se em “durma, dur-
ma, meu filhinho”, passando Belém de “fonte” portuguesa, a “ria-
cho” brasileiro. Freyre (2001, p. 380)
Observa-se que as amas apropriaram-se das canções de origem 
portuguesa e as recriaram, dando um toque especial,o toque afri-
cano. Isso é perceptível na “infantilização” das palavras das canções.
“A linguagem infantil também aqui se amoleceu ao contato da 
criança com a ama negra. Algumas palavras, ainda hoje duras ou 
acres quando pronunciadas pelos portugueses, se amaciaram no 
Brasil por influência da boca africana. Da boca africana aliada ao 
clima - outro corruptor das línguas europeias, na fervura por que 
passaram na América tropical e subtropical. Freyre (2001, p. 382)
Deste modo, foi se delineando a língua falada no Brasil, a língua 
portuguesa que foi amplamente influenciada pelo modo de falar 
dos escravos africanos.
A ama negra fez muitas vezes com as palavras o mesmo que 
com a comida: machucou-as, tirou-lhes as espinhas, os ossos, as du-
rezas, só deixando para a boca do menino branco as sílabas moles. 
Daí esse português de menino que no norte do Brasil, principalmen-
te, é uma das falas mais doces deste mundo. Sem rr nem ss; as síla-
bas finas moles; palavras que só faltam desmanchar-se na boca da 
gente. A linguagem infantil brasileira, e mesmo a portuguesa, tem 
um sabor quase africano: cacá, bumbum, tentén, nenén, tatá, papá, 
papapo, lili, mimi (...) Amolecimento que se deu em grande parte 
pela ação da ama negra junto à criança; do escravo preto junto ao 
filho do senhor branco. Os nomes próprios foram dos que mais se 
amaciaram, perdendo a solenidade, dissolvendo-se deliciosamente 
na boca dos escravos. Freyre (2001, p. 382)
Nota-se que o intercâmbio cultural entre os negros africanos, 
indígenas e portugueses foram intensos, notadamente na língua, 
costumes, modos, comidas, forma de pensar e práticas religiosas. 
De acordo com Paiva (2001, p. 185) As trocas culturais e os contatos 
entre povos de origem muito diversa é algo que, então, fazia parte 
do dia - a – dia colonial, desde a chegada dos portugueses. Isto, 
porque, era ampla a vivência cultural da população negra no Brasil 
colonial, refletindo amplamente na sociedade do período.
Deste intercâmbio cultural formou-se a cultura afro-brasileira, 
sendo visível à influência africana em todos os aspectos da socieda-
de brasileira, não sendo possível desvincular a cultura brasileira da 
africana, da indígena ou da europeia.
 Para Paiva (2001, p.39) a formação cultural não se deu de 
forma linear, uniforme e harmônica. Muitos foram os conflitos, as 
adaptações e os arranjos ao longo do período.
É evidente que não estou sugerindo uma formação linear desse 
universo cultural, nem estou emprestando-lhe uma harmonia, que, 
de fato, pouco existiu. Tanto seu processo de formação quanto 
a convivência no interior dele se deram (e se dão) de maneira 
conflituosa na maioria das vezes, embora haja, também, adaptações 
constantes, arranjos e acordos que visam a sua preservação. Paiva 
(2001, p. 41)
A preservação dessas práticas culturais ocorreu através de 
aproximações e afastamentos conforme ideia defendida por Paiva 
(2001, p.40):
A conformação e a preservação do universo cultural dão-se, en-
tão, através das aproximações e afastamentos, das interseções, da 
intervenção de espaços individuais e coletivos, privados e comuns, 
que envolvem dimensões do viver tão diversas quanto à do mate-
rial, da utensilagem e das técnicas; dos costumes e tradições, das 
práticas e das representações culturais; da mitologia e da religião; 
do físico e concreto, do psicológico e imaginário; da linguagem e 
das escritas; da dominação, da resistência e do transito entre elas: 
da temporalidade e da espacialidade; das continuidades e das des-
continuidades; da memória e da história. Tudo implicado com os 
campos da política e do econômico, provocando mutuamente con-
tínuas reordenações e construções sociais.
Desse modo, observa-se a formação e a preservação de uma 
identidade cultural, bastante plural devido às influências: europeia, 
africana e indígena, favorecendo uma riqueza cultural bastante pe-
culiar. Estas peculiaridades multiculturais manifestaram-se, princi-
palmente, na língua, culinária, música, dança, religião, dentre ou-
tros.
Resistência
Onde quer que tenha existido escravidão, houve resistência 
escrava. No Brasil os escravizados criaram diversas maneiras de re-
sistência ao sistema escravista durante os quase quatro séculos em 
que a escravidão existiu entre nós. A resistência poderia assumir 
diversos aspectos: fazendo “corpo mole” na realização das tarefas, 
sabotagens, roubos, sarcasmos, suicídios, abortos, fugas e forma-
ção de quilombos. Qualquer tipo de afronta à propriedade senho-
rial por parte do escravizado deve ser considerada como uma forma 
de resistência ao sistema escravista.
Perdigão Malheiro, que foi um importante jurista do século XIX, 
entendia a fuga como parte essencial do sistema escravista. Existe 
uma concordância geral entre os estudiosos da escravidão com a 
REALIDADE BRASILEIRA
260260
a solução para o seu concurso!
Editora
opinião de Malheiro, de que a fuga foi um aspecto típico do escra-
vismo. Onde quer que tenha existido escravidão, foram comuns as 
fugas, os anúncios nos jornais buscando fugitivos e também a figura 
do capitão-do-mato. Após a fuga, o escravizado poderia tentar se 
esconder nas matas, onde frequentemente formavam quilombos, 
ou ainda tentar se misturar na densa população africana e afrodes-
cendente que habitava os núcleos urbanos, tentando se passar por 
livre ou por liberto. Tendo fugido um escravizado, o seu senhor acio-
nava toda uma rede de informantes para descobrir o seu paradeiro. 
Anunciava a fuga nos jornais locais, oferecendo recompensas àque-
le que desse notícias precisas sobre o esconderijo ou localização do 
fugitivo e, frequentemente, pagava um capitão-do-mato para trazer 
o escravizado de volta.
A fuga representou um modo significativo no processo de re-
sistência ao cativeiro e de autoafirmação da condição humana do 
escravizado em oposição ao sistema escravista. Em primeiro plano 
provocava um abalo do ponto de vista econômico, tanto de posse 
quanto de produção, por vários motivos: porque o escravizado dei-
xava de trabalhar enquanto estava fugido, deixando, portanto, de 
gerar lucro para o seu senhor; também por não haver garantia de 
que o escravizado fosse ser apreendido e, caso não fosse, o senhor 
perdia o capital nele investido; e, por último, porque pagar as diá-
rias de um Capitão-do-Mato não era barato. Em segundo plano, a 
fuga não era apenas um simples ato de rebeldia, significava a ten-
tativa de usufruir de um espaço de liberdade, ainda que, na maior 
parte das vezes, fosse passageira. Sendo uma afronta direta ao po-
der senhorial, os escravizados fugitivos, quando apreendidos, rece-
biam um castigo exemplar. As punições aos escravizados apreendi-
dos após uma fuga eram extremamente severas, podendo, às vezes, 
o castigo exemplar recebido resultar em sua morte.
As motivações que levavam um escravizado a fugir eram varia-
das e nem todas as fugas tinham por objetivo se livrar do domínio 
senhorial. Existiam as fugas reivindicatórias, como aquelas que fi-
zeram os escravos do engenho Santana de Ilhéus, nas quais os es-
cravizados buscaram mudanças no exercício da escravidão dentro 
do engenho, ou quando o escravizado fugia após ser vendido para 
um outro senhor. Fazendo isto, o escravizado pressionava o seu 
comprador para devolvê-lo ao seu antigo senhor, pois sabia que ne-
nhum senhor gostaria de ter entre os seus escravizados um fugitivo 
contumaz. De forma contrária, às vezes, o escravizado fugia à pro-
cura de um outro senhor que o comprasse; caso o seu senhor não 
aceitasse a negociação, ele poderia continuar fugindo e, portanto, 
dando prejuízos e maus exemplos, até que seu senhor resolvesse 
vendê-lo.
Existiam também as fugas temporárias. Era comum a fuga por 
alguns dias, quando em geral o escravizado ficava nas imediações 
da moradia de seu senhor, às vezes para cumprir obrigações reli-
giosas, outras para visitar parentes separados pela venda, outras, 
ainda, para fazer algum “bico” e, com o dinheiro, completar o valor 
da alforria.Os Quilombos
Os quilombos ou mocambos existiram desde a época colonial 
até os últimos anos do sistema escravista e, assim como as fugas, 
foram comuns em todos os lugares em que existiu escravidão. A for-
mação de quilombos pressupõe um tipo específico de fuga, a fuga 
rompimento, cujo objetivo maior era a liberdade. Essa não era uma 
alternativa fácil a ser seguida, pois significava viver sendo persegui-
do não apenas como um escravo fugido, mas como criminoso.
O quilombo mais conhecido no Brasil foi Palmares. Palmares 
foi um quilombo formado no século XVII, na Serra da Barriga, região 
entre os estados de Alagoas e Pernambuco. Localizado numa área 
de difícil acesso, os aquilombados conseguiram formar um Estado 
com estrutura política, militar, econômica e sociocultural, que tinha 
por modelo a organização social de antigos reinos africanos. Cal-
cula-se que Palmares chegou a possuir uma população de 30 mil 
pessoas.
Depois da abolição definitiva da escravidão no Brasil, em 1888, 
as comunidades negras deram outro sentido ao termo “Quilom-
bo”, não sendo mais utilizado como forma de luta e resistência ao 
cativeiro, mas sim como morada e sobrevivência da família negra 
em pequenas comunidades, onde seus valores culturais eram pre-
servados. Tais comunidades receberam diferentes nomeações: re-
manescentes de quilombos, quilombos, mocambos, terra de preto, 
comunidades negras rurais, ou ainda comunidades de terreiro.
Religião e Cultura
Religiosidade Negra As diferentes origens dos africanos trazi-
dos para o Brasil fizeram com que aqui se desenvolvessem diferen-
tes tradições religiosas, que variaram de acordo com as localidades 
para as quais eles foram levados. No Sudeste brasileiro, por exem-
plo, a maior parte da população escrava anterior ao fim do tráfico, 
em 1850, era composta de africanos oriundos da região centro-o-
cidental, vindos principalmente do Congo e de Angola. Daí ter se 
desenvolvido uma religiosidade de matriz africana que cultuava os 
ancestrais e os inquices (como eram chamados genericamente as 
entidades dos cultos congo-angolanos no Brasil). Já o Maranhão e 
a Bahia, receberam muitos africanos da região do reino do Daomé, 
chamados de jejes na Bahia e de minas no Maranhão. Estes grupos 
cultuavam deuses chamados de voduns. Para a Bahia vieram tam-
bém grupos que falavam a língua iorubá, que cultuavam deuses de-
nominados orixás. A fusão de elementos das tradições jejes e nagôs 
deu origem ao candomblé baiano.
As irmandades religiosas constituíam outro aspecto da religio-
sidade negra do Brasil escravista. Alguns africanos vindos de regiões 
da África, onde o catolicismo já havia penetrado, como o Congo e 
Angola, já chegaram ao Brasil como católicos. Outros se convertiam 
no Brasil quando, por imposição da cultura senhorial, padres católi-
cos eram contratados pelos senhores para iniciarem os escravizados 
no cristianismo.
Possuidores de suas próprias crenças, os escravizados se deixa-
vam converter de forma superficial, e quando adotavam o catolicis-
mo, o faziam através de seu próprio repertório religioso e cultural. 
O que fez com que o catolicismo praticado pelos africanos e des-
cendentes possuísse muitas características das religiões de matriz 
africana, como as músicas e danças, as oferendas, as promessas e 
as festas. Além do que, para a maior parte dos escravizados, adotar 
o catolicismo não significava abandonar as religiões africanas, pra-
ticava-se o catolicismo na frente do senhor e as religiões africanas 
pelas costas.
O exercício da prática católica pelos negros foi feito através das 
irmandades religiosas. Estas organizavam festas em homenagem 
aos padroeiros, os mais comuns eram Nossa Senhora do Rosário 
e São Benedito. Além das festas e obrigações religiosas as irman-
dades juntavam dinheiro para compra de alforria e se constituíam 
em importantes espaços de fortalecimento de laços de união entre 
escravos e libertos.
REALIDADE BRASILEIRA
261
a solução para o seu concurso!
Editora
Entre as contribuições mais expressivas da cultura africana es-
tão o samba, o carnaval, o futebol, a capoeira e o candomblé (este 
mais diretamente associado à cultura baiana). À exceção do fute-
bol, todos fazem parte do repertório cultural afro-brasileiro. Porém, 
o marcante estilo do futebol brasileiro, com seu molejo e criativida-
de, também é inseparável da influência afro. Sambas, batucadas, 
candomblés e o exercício da capoeira foram práticas duramente 
reprimidas pelo Estado brasileiro em épocas anteriores à década 
de 1930. A partir da década de 1920, começou a ganhar corpo en-
tre a intelectualidade brasileira a ideia da miscigenação como algo 
positivo.
Essas ideias da intelectualidade brasileira ganhariam uma fei-
ção prática com a chegada de Getúlio Vargas ao poder e os ideais 
nacionalistas do Estado Novo. Ao longo dos quinze anos do governo 
Vargas (1930-1945), várias medidas foram tomadas no sentido de 
valorização de uma cultura nacional. Dentre essas medidas devem 
ser citadas a valorização do samba e a descriminalização da capoei-
ra e do candomblé.
HISTÓRIA DOS POVOS INDÍGENAS DO BRASIL: LUTA POR 
DIREITOS E DESAFIOS ATUAIS
• Indígena: em 1492, quando chegou à América, Colombo 
achou que tinha desembarcado nas Índias e chamou de índios os 
habitantes da região. O nome resultou de um erro e contém a falsa 
visão de que todos os habitantes da América nesse período eram 
iguais, com a mesma cultura. Portanto hoje se prefere empregar o 
termo indígena.
História dos Povos Indígenas e a Formação Sociocultural Bra-
sileira6
Segundo o censo do IBGE de 20107, o Brasil conta com uma 
população de 896.917 pessoas que consideram-se indígenas. Des-
tes, 324.834 vivem em cidades e 572.083 em áreas rurais, o que 
corresponde aproximadamente a 0,47% da população total do país.
A maior parte dessa população distribui-se por milhares de al-
deias, situadas no interior de 700 Terras Indígenas, de norte a sul do 
território nacional.
Esses números representam os sobreviventes da colonização 
do território brasileiro ao longo de 500 anos de exploração. Ao pon-
to que estima-se que, na época da chegada dos europeus, fossem 
mais de 1.000 povos, somando entre 2 e 4 milhões de pessoas. 
Sendo que, nos dias hoje, encontramos no território brasileiro 246 
povos falantes de mais de 150 línguas diferentes.
Contudo para tratar o assunto na atualidade, é necessário ter 
em mente seis pontos:
Ocupação: populações humanas já habitavam a terra hoje de-
nominada Brasil antes da chegada dos europeus, com ocupações 
que variam entre 40.000 e 2.000 anos antes do presente, e que ain-
da se mantinham por volta de 1.500. Essas populações habitavam 
territórios que interagiam com seu modo de vida e seus costumes.
6 http://pib.socioambiental.org/
7 https://indigenas.ibge.gov.br/graficos-e-tabelas-2.html
Origem: não existe um consenso sobre a origem das 
populações indígenas. Pesquisas apontam migrações vindas do 
norte da América, da Polinésia e de outras áreas do planeta. 
Essas populações foram chamadas de nativas ou originárias por já 
habitarem o lugar antes da chegada dos europeus.
Permanência: muitos dos grupos que habitam o território bra-
sileiro possuem vínculos com os primeiros povos aqui estabeleci-
dos.
História: o ser humano surgiu na África, aproximadamen-
te 3 milhões de anos atrás. A partir de então vem adaptando-se 
ao ambiente, até resultar no Homo sapiens sapiens, que data de 
40.000 anos. Durante todo esse período, chamado de pré-história, 
ocorreram migrações para diversas partes do mundo, até chegar à 
América. As fontes de informação sobre esse período são de origem 
arqueológica, visto que as populações que habitavam o Brasil eram 
ágrafas (não possuíam sistema de escrita). A partir de 1500 esses 
grupos que haviam se separado pelos fluxos migratórios entram em 
contato novamente, com a chegada dos portugueses. 
Cultura: como qualquer outro grupo humano, os povos indíge-
nas possuem culturas resultantes da história e das relações entre 
os homense o ambiente que os cerca. Essa cultura sofreu diversas 
transformações por conta dos contatos realizados nos últimos 500 
anos, de maneira nem sempre pacífica.
Limites Geográficos: os limites entre países, estados ou muni-
cípios muitas vezes são criados a partir de referências que não coin-
cidem com os limites de habitação dos povos indígenas. Em muitos 
casos, os povos que hoje vivem em uma região de fronteiras inter-
nacionais já ocupavam essa área antes da criação das divisões entre 
os países; é por isso que faz mais sentido dizer povos indígenas no 
Brasil do que do Brasil.
Discussões
Sobre os povos indígenas, pela visão dos portugueses “eles 
eram selvagens e muito cruéis”. Essa visão, construída com base 
nos valores europeus da época marcou o processo de colonização.
Alguns arqueólogos afirmam que a ocupação da América 
ocorreu há cerca de 15.000 anos. Outros, porém, dizem que isso 
ocorreu antes, por volta de 50.000 anos atrás.
Seja como for, o fato é que boa parte do território hoje conheci-
do como Brasil já era ocupado por grupos humanos há 10.000 anos. 
A cultura e as formas de organização social desses grupos eram di-
ferentes umas das outras. 
Alguns desses grupos são chamados atualmente de povos de 
tradição Humsitá. Eles ocupavam o que é hoje a região Sul do Brasil 
e eram habilidosos fabricantes de instrumentos de pedra.
Haviam os sambaquis que habitavam principalmente o litoral. 
Viviam, sobretudo, da pesca e da coleta de moluscos, como o ca-
ranguejo.
Outros grupos eram os que habitavam a atual região amazô-
nica e produziam objetos de cerâmica. O grupo dos Itararé, que 
ocupavam as regiões Sul e Sudeste do Brasil atual e faziam suas ha-
bitações abaixo do solo, além de diversos outros grupos com carac-
terísticas próprias.
A relação entre os povos indígenas e os europeus sempre foi 
bastante agitada. Durante os primeiros anos do contato foram esta-
belecidas relações de comércio, principalmente do Pau-Brasil, com 
REALIDADE BRASILEIRA
262262
a solução para o seu concurso!
Editora
portugueses e franceses. Percebendo a concorrência, esses países 
buscaram aliados nos grupos que habitavam o litoral e que já pos-
suíam histórico de rivalidade com outras tribos. 
Com a decisão de Portugal de ocupar e colonizar efetivamente 
o Brasil, muitos índios acabaram aprisionados e escravizados, utili-
zados como mão-de-obra principalmente nas plantações de cana-
-de-açúcar. 
Como havia a necessidade de cada vez mais terras para o cul-
tivo da cana, os portugueses adentravam cada vez mais para o in-
terior, o que gerava sempre novos conflitos ao tentar expulsar os 
índios de suas terras. A busca por ouro e pedras preciosas empreen-
dida pelas bandeiras de exploração também resultou na captura de 
muitos indígenas. 
A situação amenizou-se com a chegada dos padres da Compa-
nhia de Jesus ao Brasil, que condenavam o trabalho forçado dos 
índios. Os padres construíram colégios e reduções, onde buscavam 
converter os índios para a fé católica. Muito mais do que um local 
para a conversão, os índios enxergavam nessas construções formas 
de fugir da exploração do trabalho forçado e de seus inimigos. 
Com a expansão para o interior do Brasil, principalmente du-
rante os séculos XIX e XX, a situação indígena piorava cada vez mais. 
Aqueles que não eram mortos durante os conflitos por terras aca-
bavam confinados em aldeamentos e reservas, que representavam 
uma pequena parte do território que habitavam e de onde tiravam 
seu sustento.
Muitos índios acabaram também sendo expulsos dessas re-
servas, obrigados a migrarem para as cidades ou sendo realocados 
em reservas com povos totalmente diferentes, em alguns casos até 
mesmo povos em que existia uma relação de conflito.
Os Indígenas em 1500
Por volta de 1500, quando os portugueses aqui chegaram, al-
guns desses povos ainda existiam; outros já tinham desaparecido 
havia algum tempo. Estudos atuais revelam que por essa época, vi-
viam no atual território brasileiro mais de 1.000 povos diferentes, 
com crenças, hábitos, costumes e formas de organização específi-
cas.
Esses povos falavam cerca de 1.300 línguas distintas, agrupadas 
em dois troncos linguísticos: o Tupi e o Macro-Jê. Mas havia muitas 
outras famílias linguísticas, como a dos Aruaque e a dos Caraíba, da 
atual região amazônica. 
De modo geral, os povos do tronco linguístico Tupi viviam no 
litoral. Estre eles estavam povos como os Guarani, os Tupinambá e 
os Tabajara.
Já os povos do tronco Macro-Jê – como os Bororó, os Carajá, 
os Tarairu, os Cariri – viviam, em grande parte, mais para o interior 
do território, ou no sertão, como os portugueses diziam na época.
- Povos do tronco Jê
Xavantes: autodenominados Akwén, entraram em contato 
com mineradores na província de Goiás, no início do século XVIII. 
Atualmente habitam o estado do Mato Grosso. 
Apinayé: entram em contato com jesuítas no Tocantins em 
1633, sendo contrários à ideia de pacificação. Estiveram em conflito 
com portugueses e com o governo brasileiro ao longo de vários sé-
culos. Atualmente habitam o estado de Tocantins.
Kaingang: São um dos grupos indígenas mais numerosos do 
Brasil, com uma população estimada em aproximadamente 30 mil 
pessoas. Habitam os estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e 
Rio Grande do Sul. Desde o século XVI possuem contato com euro-
peus, quando eram denominados Guaianazes. 
Eram também conhecidos por coroados, devido ao corte de ca-
belo que utilizavam, semelhante a uma coroa. Sua relação com os 
colonizadores e funcionários do governo sempre adquiriram caráter 
hostil, até que em meados do século XIX seus líderes resolveram 
aliar-se aos não índios, auxiliando na pacificação dos diversos gru-
pos espalhados pelo interior dos estados que ainda habitam.
Kayapó: habitantes da região da floresta amazônica. Atualmen-
te vivem nos estados de Mato Grosso e Pará.
Timbira: entram em contato com os não índios a partir do início 
do século XVIII, na capitania do Piauí. Atualmente habitam os esta-
dos de Tocantins, Pará e Maranhão.
Xokleng: habitantes do sul do Brasil, os primeiros registros de 
contatos datam do século XVIII. Vivem atualmente no estado de 
Santa Catarina.
- Povos do tronco Tupi
Caetés: ficaram conhecidos pelo episódio em que teriam su-
postamente feito um banquete com a tripulação que naufragou 
juntamente com Pero Fernandes Sardinha, primeiro bispo portu-
guês a chegar no Brasil. Habitavam a região dos estados de Alagoas 
e Pernambuco.
Potiguaras: povo que tinha no caráter guerreiro seu valor fun-
damental. Praticavam a antropofagia (ato de comer partes de um 
ser humano) ritual. Foram inimigos dos portugueses durante o pro-
cesso de conquista do território, formando alianças com franceses. 
Viviam do litoral do atual estado da Paraíba ao estado do Ceará. 
Eram inimigos dos Tabajaras.
Tabajaras: viviam no litoral dos estados de Alagoas e Sergipe, 
migrando para a Paraíba, território de domínio Potiguara, o que ge-
rou grandes conflitos entre os povos. Os Tabajaras acabaram alian-
do-se aos portugueses após os primeiros contatos.
Tamoios: também eram praticantes da antropofagia. Habita-
vam o litoral norte de São Paulo e o Vale do Paraíba, sendo inimigos 
dos portugueses. 
Tupinambás: habitaram porções de terra no norte da Bahia, 
Sergipe e também do litoral norte do Rio de Janeiro até São Sebas-
tião em São Paulo. Foram inimigos dos Tupiniquim e também dos 
portugueses.
Tupiniquins: viviam na região do atual estado da Bahia e pos-
suíam uma grande concentração de pessoas no território do atual 
estado de São Paulo. Foram aliados dos portugueses.
Influências na Formação da Sociedade Brasileira 
Muitas das práticas sociais e culturais do Brasil atual têm ori-
gem nas sociedades indígenas, a começar pela alimentação. Ao 
chegarem ao Brasil em 1500, os portugueses saborearam os ali-
mentos nativos da América, conhecidos e cultivados há muito tem-
po pelos indígenas. 
Assim, iniciou-se o consumo pelos portugueses da mandioca, 
do milho, da batata-doce,do amendoim, da abóbora, do abacaxi, 
do caju, da pimenta, do mamão, entre outros. O hábito de assar os 
alimentos, o hábito de dormir em redes, tão difundido, sobretudo 
no Nordeste, o consumo de bebidas preparadas a partir de guaraná 
e mate também tem origem nos costumes indígenas.
REALIDADE BRASILEIRA
263
a solução para o seu concurso!
Editora
Técnicas como a pesca utilizando tarrafa (rede), a coivara (quei-
mada dos campos para limpeza) e o mutirão, originado da práti-
ca tupi de realização coletiva de determinada atividade necessária 
para a manutenção da organização da tribo, foram também incor-
poradas.
A medicina também utilizou-se da sabedoria indígena para au-
xiliar na cura dos homens. A quinina, empregada para a malária, 
ainda hoje é utilizada como medicamento básico. A copaíba, que 
os tupis utilizavam para curar feridas, igualmente continua a ser uti-
lizada. Podemos citar, ainda, o curare, usado como anestésico, e a 
pajelança (invocação dos espíritos para efetivar a cura de doenças), 
praticada mediante a intermediação dos pajés.
Também o folclore foi e ainda é marcado por influências indí-
genas. Destacamos o curupira, que protegia a caça e a natureza, 
garantindo um permanente equilíbrio entre as necessidades do 
homem e a preservação do ambiente natural; o boto-tucuxi, que, 
no folclore amazônico, era o responsável pela gravidez de jovens 
virgens e de mulheres cujos maridos costumavam ausentar-se por 
longos períodos.
Nosso vocabulário teve uma grande contribuição de diversas 
etnias em sua formação. Até hoje muitos nomes de lugares, pes-
soas, objetos e práticas do dia tem sua origem em palavras indíge-
nas. 
Organização dos Índios
Relações Familiares
Os documentos produzidos pelos portugueses e outras evidên-
cias históricas revelam que boa parte dos povos indígenas viviam 
em pequenas aldeias. Cada aldeia era formada por um conjunto de 
quatro a sete malocas (tipo de cabana comunitária).
Essas aldeias eram circulares, em forma de ferradura ou linea-
res, como por exemplo, duas fileiras de casas, formatos ainda hoje 
utilizados pelos indígenas. As malocas eram feitas de galhos de ár-
vores e cobertas com palha.
Uma característica comum às aldeias é a existência de um es-
paço central entre as habitações onde se organizam cerimônias re-
ligiosas e festas, e onde as crianças brincam. Em tupi, esse espaço 
é chamado de ocara.
Crenças e Costumes
As crenças religiosas dos povos indígenas estavam estreita-
mente relacionadas com a natureza. Para eles, a chuva ou a seca, 
uma boa caçada ou uma pescaria bem-sucedida deviam-se à ação 
de várias entidades e espíritos ligados à natureza.
O boitatá, por exemplo, protegia o campo dos incêndios, repre-
sentado por uma serpente de fogo; o curupira, descrito como um 
indígena de cabelos vermelhos com os pés virados para trás, era o 
protetor da fauna e da flora.
A figura central dos ritos religiosos era o pajé, mediador entre 
o mundo terreno e o espiritual. Ele entrava em contato com os espí-
ritos da floresta para curar as doenças e era um grande conhecedor 
dos remédios naturais extraídos das plantas.
Na época da chegada dos portugueses à América, os indígenas 
conheciam mais de 3 mil diferentes espécies de ervas, que usavam 
para combater os mais variados problemas de saúde. Na Europa, o 
número de remédios não passava de cem.
Para os indígenas, a terra, a floresta, a água e os animais eram 
de todos, não havia propriedade privada. Para resolver situações 
importantes – como decidir uma guerra -, formava-se um conse-
lho composto dos chefes das grandes famílias e as decisões eram 
tomadas coletivamente. O morubixaba – líder da aldeia – era o 
conselheiro encarregado de ajudar as pessoas a resolver pequenos 
conflitos.
Podemos dizer, portanto, que nas sociedades indígenas não ha-
via privilégios nem desigualdades sociais.
A educação das crianças era tarefa de toda a comunidade, 
e não só da família. As crianças eram muito bem tratadas e não 
havia castigos físicos. Da mesma forma, os idosos eram respeitados 
como guardiões da história e do saber de seu povo. Eram eles que 
transmitiam aos mais jovens os valores e as crenças do grupo.
Os indígenas que viviam nas terras que hoje formam o Brasil 
desconheciam a escrita. Assim, o conhecimento e os saberes acu-
mulados pelos grupos eram transmitidos de geração em geração 
por meio de histórias narradas oralmente.
Além da arte de contar histórias, muitos grupos desenvolve-
ram habilidades como produtores de arte plumária, que consiste na 
criação de enfeites e adornos de penas coloridas em combinações 
de grande beleza. Também na cerâmica, nos traçados e nas pinturas 
corporais alguns desses povos produziram obras belíssimas.
As tarefas que garantiam a sobrevivência do grupo eram fei-
tas por todos. Assim também era dividido o resultado do trabalho 
coletivo. Derrubar árvores, caçar, pescar, preparar a terra para o 
plantio, construir malocas, armas e canoas, em geral, era trabalho 
dos homens. As mulheres, além de cuidar das crianças pequenas e 
cozinhar, trabalhavam na coleta de frutos, na plantação de roças e 
na colheita.
Os alimentos variavam conforme a disponibilidade dos recur-
sos naturais e as características de cada povo indígena. Grupos que 
moravam próximo a rios e mares tinham na pesca sua principal fon-
te de alimento. Já os que viviam no interior do território, além da 
caça, se dedicavam muitas vezes à prática da agricultura. Plantavam 
principalmente milho, mandioca, abóbora, inhame e batata-doce.
Com o grande conhecimento que tinham da natureza, alguns 
povos indígenas aprenderam a extrair o veneno de certas varieda-
des de mandiocas. Feita a extração do veneno, transformavam a 
raiz em farinha seca, tapioca, beiju e outros produtos. Vários ali-
mentos que consumimos hoje no Brasil são uma herança direta das 
culturas indígenas.
Antropofagia na Cultura Indígena
A antropofagia praticada pelos povos indígenas fazia parte de 
sua cultura, e é sob esse prisma que precisamos compreender o 
fenômeno. Os indígenas não comiam outros seres humanos por es-
tarem com fome ou por não terem comida.
 Para algumas etnias, comer o corpo de um ente querido cons-
tituía um ato de amor: mães e pais, por exemplo, poderiam comer 
restos mortais de seus filhos.
Outra forma de antropofagia era aquela em que grupos ou 
povos comiam o corpo de um guerreiro aprisionado. Esse costu-
me fazia parte de um ritual mais amplo: o prisioneiro poderia viver 
muito tempo junto ao grupo que o aprisionou, era bem alimentado 
e chegava mesmo a se casar com uma mulher da aldeia. No dia da 
execução, aldeias vizinhas eram convidadas para a festa. Por meio 
dessa morte e da ingestão do corpo do guerreiro, a aldeia vingava 
simbolicamente os parentes mortos pela aldeia inimiga. Em outros 
casos, julgavam adquirir a força e a coragem do inimigo ao ingerir 
partes do corpo do prisioneiro morto.
REALIDADE BRASILEIRA
264264
a solução para o seu concurso!
Editora
Papel dos Jesuítas
Muitos padres da Companhia de Jesus, conhecidos por Jesuítas 
condenavam as ações praticadas pelos colonos portugueses em re-
lação aos escravos indígenas, já que a rotina de trabalho nos cana-
viais era árdua e durava longas horas diárias. 
Por pressão dos Jesuítas, a Coroa portuguesa estabeleceu 
que os escravos fossem liberados de suas atividades durante os 
domingos para praticar a fé cristã e frequentar a missa. Apesar da 
determinação real, a medida não era seguida por muitos senhores 
de engenhos e quando era praticada, muitos indígenas acabavam 
usando o dia para descansar ou praticar outras atividades que lhes 
rendessem uma alimentação complementar, deixando de lado as 
obrigações religiosas.
Os Jesuítas criaram aldeamentos com o objetivo de batizar os 
índios na fé católica. Com a ideia de que poderiam alcançar o paraí-
so e praticar a fé cristã, os índios eram catequizados. Para conseguir 
uma aproximação e conquistar os interesses indígenas, os Jesuítas 
aprenderam sua linguagem e seus costumes,para pouco a pouco 
incorporar elementos religiosos em sua cultura e finalmente torná-
-los completamente cristãos.
O abandono das antigas crenças e aceitação da fé cristã, mes-
mo quando imposta, era considerada pelos jesuítas, como a forma 
mais eficiente para torná-los mais pacíficos, além de facilitar a vida 
dos colonos pois auxiliariam em guerras contra tribos consideradas 
perigosas e hostis, além dos invasores franceses e holandeses que 
possuíam grande interesse pelo território brasileiro. 
É importante notar o ponto de vista indígena, muitas vezes 
atraídos para os aldeamentos com o objetivo de fugir da escravidão 
imposta pelos colonos e das guerras praticadas por seus rivais.
Aldeamentos Indígenas
Os aldeamentos foram os locais de trabalho dos missionários, 
que buscavam catequizar as populações indígenas. Utilizados como 
forma de atração, os aldeamentos normalmente estavam localiza-
dos próximos às povoações coloniais, para incentivar o contato com 
os portugueses.
Entre os vários exemplos de estudo da língua indígena para a 
utilização como ferramenta de conversão é possível citar os padres 
José de Anchieta e António Ruiz de Montoya.
O primeiro dicionário conhecido da língua Tupi foi escrito pelo 
padre José de Anchieta e publicado em 1595, com o nome de “Arte 
de Gramática da Língua Mais Falada na Costa do Brasil”.
Anchieta, que missionou no Brasil desde 1553, notava (como 
seus contemporâneos) a grande semelhança da língua falada pelos 
indígenas do litoral: os tupis. Em uma carta de 1584, ele observa 
que todos os povos do litoral “têm uma mesma língua que é de 
grandíssimo bem para a sua conversão”. 
Seriam assim povos cuja identidade estaria associada à língua 
geral, como os jesuítas chamavam o “tupi universal” que inventa-
ram. Ao lado da inegável semelhança de todos os dialetos tupis, o 
agrupamento das diversas “castas” resolveu-se na necessidade ho-
mogeneizadora que os primeiros missionários viam para lidar com 
os grupos nativos. 
Tratava-se de entender para transformar, compreender as cul-
turas indígenas para substituí-las pelo Evangelho. Os jesuítas, desde 
cedo, determinaram que a catequese, ou a conquista das almas, 
seria mais facilmente realizada se usassem da língua dos naturais. 
Assim, a Gramática da língua mais usada na costa do Brasil surge 
com um instrumento da conversão do indígena.
O primeiro dicionário da língua Guarani foi escrito no ano de 
1639 pelo padre António Ruiz Montoya. Publicado em Madrid, no 
dicionário de 814 páginas traz cerca de 8.100 palavras. Não por aca-
so a publicação que traduz para o castelhano recebeu o nome “Te-
souro da Língua Guarani”.
Sobre a relação dos indígenas com os aldeamentos, como 
bem destacam Mota e Chagas8, ao tratar das reduções jesuíticas 
na região do Guairá (atual Paraná), os índios guarani, por seu lado, 
fizeram alianças, acordos e guerras, no sentido de garantir sua li-
berdade. 
É preciso lembrar que, quando fizeram aliança com os jesuítas, 
eles buscaram uma forma de não ser submetidos, por exemplo, à 
servidão (encomiendas). Para entender a história da ocupação dos 
territórios do Guairá, é preciso considerar as relações entre os di-
versos grupos: conquistadores e seus interesses, os Guarani, os 
Kaingang (inimigos).
Com expedições denominadas de descimentos, os missioná-
rios convenciam os índios através da retórica a descerem de suas 
aldeias para se juntarem a novos aldeamentos. Pela legislação, o 
aldeamento garantia a liberdade indígena, no entanto, nesse am-
biente, os indígenas foram forçados a adaptar-se a novos elementos 
culturais, sofrendo interferência religiosa e moral. Eram obrigados a 
trabalhar e por lei deveriam receber pagamento, uma nova realida-
de completamente diferente da sua tradição.
Os jesuítas nunca foram contrários ao trabalho indígena e, mui-
to menos, à sua inserção no mundo colonial. O que eles não sus-
tentavam era a servidão natural dos mesmos e a sua escravização, 
salvo por motivo de “guerra justa”.
Para os jesuítas, o objetivo final da catequização e conversão 
começava a mostrar seu sucesso a partir da destruição e da perda 
dos costumes dos povos indígenas. 
O modelo, tal como inaugurado pelos jesuítas, perdurou ao lon-
go de todo o período colonial, embora tenha sofrido significativas 
alterações com a política indigenista pombalina, inaugurada com o 
Diretório dos Índios (1757-1758), que já apostava na secularização 
das aldeias, e reforçada após a expulsão dos jesuítas em 1759-60. 
Diretoria-Geral e Diretorias Parciais dos Índios.9
A criação das Diretorias Gerais e Parciais dos Índios por todo 
o território brasileiro foi originada por meio do Regulamento das 
Missões de Catequese e Civilização dos Índios criado pelo Decreto 
n° 426 de 24 de julho de 1845.
As Diretorias dos Índios tinham como responsabilidade as me-
diações entre os índios e os Governos Imperial e Provincial.
Segundo o Regulamento, cada Província teria um Diretor Geral 
de Índios, nomeado pelo Imperador que deveria interagir com o 
respectivo Presidente da Província para algumas questões, como 
por exemplo, requisitar os objetos que o Governo Imperial enviasse 
para os índios, a fim de distribuí-los pelos Diretores das Aldeias e 
pelos Missionários.
Com relação à Assembleia Provincial, deveria propor “a criação 
de Escolas de primeiras Letras para os lugares, onde não baste o 
Missionário para este ensino”. As Aldeias eram controladas por um 
Diretor, nomeado pelo Diretor Geral.
8 Chagas, Nádia Moreira; Mota, Lúcio Tadeu. O Guairá nos Séculos XVI e XVII 
– As Relações Interculturais http://projetos.unioeste.br/projetos/cidadania/images/
stories/ArquivosPDF/biblioteca/O_Guair_nos_sec._XVI_e_XVII_.pdf
9 http://www.ambienteterra.com.br/paginas/indio/seusdireitos.html
REALIDADE BRASILEIRA
265
a solução para o seu concurso!
Editora
Tanto o Governo Imperial e quanto o Governo Provincial se-
riam juridicamente responsáveis pela Diretoria. Essa divisão de res-
ponsabilidade apenas aconteceu a partir do Ato Adicional de 12 de 
agosto de 1834, que alterou a constituição e, dentre outros, criou 
as Assembleias Legislativas Provinciais, delegando-lhes competên-
cias legislativas e materiais, ou seja, competência de editar leis e de 
colocá-las em prática, incluindo a de elaborar as leis orçamentárias 
e a de “promover, cumulativamente com a assembleia e o governo 
geral, a organização da estatística da província, a catequese, a civili-
zação dos indígenas e o estabelecimento de colônias”.
Na Província de São Paulo, o Diretor Geral dos Índios nomeado 
pelo Imperador foi o Brigadeiro José Joaquim Machado de Oliveira, 
que, por sua vez, deveria nomear diretores leigos para cada aldeia 
indígena da província.
Machado de Oliveira se posicionava a favor da vertente que via 
a catequese e civilização como saída do estado de barbárie, con-
trariando aqueles que não acreditavam ser possível qualquer mu-
dança. Mesmo que o Regulamento das Missões fosse um passo a 
favor dessa vertente, ainda assim, era composto por ideias bastante 
diversificadas. 
O aldeamento de Itariri-SP chama atenção, por ser um dos 
poucos que Machado de Oliveira considerava ter dado certo. Ele foi 
criado em 21 de janeiro de 1847, no município de Iguape, porque, 
segundo o diretor geral, existiram famílias de indígenas Guarani 
Nhandeva, que deixaram as matas, em 1837 e ali se asilaram, viven-
do do trabalho braçal onde era este exigido, e talvez sob a condição 
de escravos.
Criação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI)10
O Serviço de Proteção aos Índios (SPI), instituição criada pelo 
decreto nº 8.072, de 20 de junho de 1910 com o nome de Serviço 
de Proteção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais 
(SPILTN). Tinha por tarefa a pacificação e proteção dos grupos in-
dígenas, bem como o estabelecimento de núcleos de colonização 
com base na mão de obra sertaneja. 
As duas instituições foram separadas em 6 de janeiro de 1918 
pelo decreto Lei nº 3.454, e a instituição passou a ser denominada 
SPI,que foi extinta em 1967 quando da criação da Fundação Nacio-
nal do Índio (FUNAI).
A origem do SPI estava nas redes sociais que ligavam os inte-
grantes do Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio (MAIC), 
Apostolado Positivista no Brasil e Museu Nacional, pois o MAIC pre-
viu desde a sua criação a instituição de uma agência de civilização 
dos índios.
10 BRASIL. Legislação indigenista. Brasília: Senado Federal/Subsecretaria de 
Edições Técnicas, 1993.
Ministério da Agricultura. Serviço de Proteção aos Índios. SPI/1953. Relatório 
das atividades do Serviço de Proteção aos Índios durante o ano de 1953. Rio de 
Janeiro: Serviço de Proteção aos Índios, 1953.
Ministério da Agricultura. Serviço de Proteção aos Índios. SPI/1954. Relatório 
das atividades do Serviço de Proteção aos Índios durante o ano de 1954. Rio de 
Janeiro: Serviço de Proteção aos Índios, 1954.
FREIRE, Carlos Augusto da Rocha. Saudades do Brasil: Práticas e representa-
ções do campo indigenista no século XX. Tese (Doutorado em Antropologia Social) 
– PPGAS/MN, UFRJ, Rio de Janeiro, 2005.
LIMA, Antonio Carlos de Souza. Sobre indigenismo, autoritarismo e nacionalidade: 
considerações sobre a constituição do discurso e da prática da “proteção fraternal” 
no Brasil. In: OLIVEIRA, João Pacheco de (Org.). Sociedades indígenas e indige-
nismo no Brasil. Rio de Janeiro: Marco Zero: Ed. UFRJ, 1987.
As atividades das Comissões de Linhas Telegráficas em Mato 
Grosso deram notoriedade a Cândido Mariano da Silva Rondon. 
Ele e outros militares positivistas que integravam redes de relações 
políticas regionais e nacionais, vinculadas a instituições civis e apa-
relhos governamentais, sediados na Capital Federal, se envolveram 
numa polêmica pública relativa à “capacidade ou não de evolução 
dos povos indígenas”.
A partir de 1908, Rondon propôs que fosse criada uma agência 
indigenista do Estado brasileiro tendo por finalidades: 
a) estabelecer de uma convivência pacífica com os índios; 
b) garantir a sobrevivência física dos povos indígenas; 
c) estimular os índios a adotarem gradualmente hábitos “civi-
lizados”; 
d) influir “amistosamente” na vida indígena; 
e) fixar o índio à terra; 
f) contribuir para o povoamento do interior do Brasil; 
g) possibilitar o acesso e a produção de bens econômicos nas 
terras dos índios; 
h) empregar a força de trabalho indígena no aumento da pro-
dutividade agrícola; 
i) fortalecer as iniciativas cívicas e o sentimento indígena de 
pertencer à nação brasileira.
As iniciativas do SPI envolviam a intervenção na vida indíge-
na através de um ensino informal, a partir das necessidades cria-
das, evitando-se influenciar a organização familiar. O objetivo era 
impedir conflitos entre diferentes povos enquanto o SPI introduzia 
inovações culturais, prevendo possíveis mudanças nos locais de ha-
bitação dos índios. 
Foram estimuladas mudanças no trabalho indígena com a di-
fusão de novas tecnologias agrícolas e o ensino da pecuária, além 
da arregimentação de índios para os trabalhos de conservação das 
linhas telegráficas.
A experiência de Rondon no trato com povos indígenas e suas 
ideias positivistas sobre os índios, convergentes com os projetos de 
colonização e povoamento definidos na criação do MAIC, origina-
ram o convite que o tornou primeiro diretor do SPI. Dessa forma, 
foi instaurado um novo poder estatizado que assegurava o controle 
legal das ações incidentes sobre os povos indígenas. Esse poder foi 
formalizado na malha administrativa do SPI, a partir de um código 
legal (regimentos, decretos, código civil, etc.).
Para a administração da vida indígena foi formalizada uma de-
finição legal de índio, através do Código Civil de 1916 e do Decreto 
nº 5.484, de 1928. Os indígenas tornaram-se tutelados do Estado 
brasileiro, um direito que implicava num aparelho administrativo 
único, mediando as relações índios/Estado/sociedade nacional. 
A terra, a representação política e o ritmo de vida foram admi-
nistrados por funcionários estatais, com os índios adotando uma 
indianidade genérica.
Os indigenistas do SPI trabalharam em diferentes tipos de pos-
tos indígenas (de atração, de criação, de nacionalização, etc.), assim 
como em povoações e centros agrícolas. Dependendo de recursos 
financeiros e políticos, o SPI adotou um quadro funcional heterogê-
neo, envolvendo desde militares positivistas a trabalhadores rurais 
sem qualquer formação. A pedagogia nacionalista empregada por 
esses agentes controlava as demandas indígenas, mas podia resul-
tar em situações de fome, doenças e de população, contrárias aos 
objetivos do Serviço.
REALIDADE BRASILEIRA
266266
a solução para o seu concurso!
Editora
A ação do SPI foi marcada por contradições identificadas como 
“paradoxos indigenistas”, pois tinha por objetivo respeitar as terras 
e a cultura indígena, mas agia transferindo índios e liberando ter-
ritórios indígenas para colonização, impondo uma pedagogia que 
alterava todo o sistema produtivo indígena.
De 1910 a 1930, o SPI fez parte do então Ministério da Agricul-
tura, Indústria e Comércio; de 1930 a 1934, esteve ligado ao Minis-
tério do Trabalho; de 1934 a 1939, foi integrado ao Ministério da 
Guerra, como parte da Inspetoria de Fronteiras; em 1940 voltou ao 
Ministério da Agricultura e, mais tarde, passou para o Ministério 
do Interior. Em 1939, foi criado o Conselho Nacional de Proteção 
aos Índios (CNPI) com o objetivo de atuar como órgão formulador e 
consultor da política indigenista brasileira. 
A ideia seria a de que o SPI daí por diante teria somente atri-
buições executivas, o que não ocorreu. A atuação do SPI se concen-
trou na pacificação de grupos indígenas em áreas de colonização 
recente. Em São Paulo, Paraná, Espírito Santo, Mato Grosso e outras 
regiões foram instalados postos indígenas. 
Após a consolidação da pacificação eram feitas negociações 
com os governos estaduais para a criação de reservas de terras para 
a sobrevivência física dos índios. Progressivamente eram introduzi-
das atividades educacionais voltadas para a produção econômica e 
ações destinadas a atender as condições sanitárias dos índios. 
O SPI buscou garantir a posse de terras aos índios através da 
concessão de terras devolutas. Inúmeras propostas foram feitas 
pelo SPI de criação de terras indígenas e que foram negadas pelos 
governos estaduais. 
Nos postos indígenas eram instaladas oficinas mecânicas, en-
genhos de cana-de-açúcar e casas de farinha, e os índios treinados 
em diversos ofícios. As crianças eram enviadas as escolas dos pos-
tos, sendo que estas também recebiam filhos de colonos de empre-
gados dos postos e crianças da população vizinha, o que permitia 
um processo de integração da população. 
O SPI enfrentou durante toda a sua existência problemas de 
carência de recursos e dificuldades de qualificação de seu pessoal. 
A atuação do órgão acabou por gerar resultados opostos a sua pro-
posta. Eram frequentes as denúncias de casos de fome, doenças, 
assassinatos e escravização. No início da década de 1960, sob a acu-
sação de genocídio, corrupção e ineficiência o SPI foi investigado 
por uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). 
O processo levou à demissão ou suspensão de mais de cem 
funcionários de todos os escalões. Em 1967, durante o regime mili-
tar, o SPI e o CNI (Confederação Nacional da Industria) foram extin-
tos e substituídos pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI).
Assistência Sanitária
A disseminação de doenças e a ocorrência de epidemias para 
as quais os povos em guerra ou dominados tinham baixa imunidade 
contribuiu para a conquista dos povos indígenas do Brasil na época 
colonial. O contágio da varíola, gripe, tuberculose, pneumonia, co-
queluche, sarampo e outras viroses levaram à dizimação de inúme-
ros povos indígenas, à mortandade de milhares de índios. 
Nas primeiras décadas do século XX, essa realidade não foi alte-
rada: nos grupos recém-contatados pelo SPI, aldeias inteiras foram 
destruídas por doenças pulmonares. Ao causar altamortalidade, o 
pós-contato iniciava o desequilíbrio das condições de sobrevivência 
de um povo que já enfrentava doenças endêmicas como vermino-
ses e malárias, passando a conviver com a desnutrição, a dificulda-
de de produção de alimentos e a falta de cuidados sanitários.
O SPI dificilmente conseguia controlar, estabilizar e melhorar 
a condição sanitária de povos indígenas que enfrentavam surtos 
epidêmicos. Em campo, no início dos anos 50, o antropólogo Dar-
cy Ribeiro foi testemunha da morte de dezenas de índios Urubu 
Kaapor dizimados por sarampo e coqueluche. Os postos indígenas 
possuíam alguns medicamentos, mas a maioria de seus encarrega-
dos eram leigos em assistência sanitária.
Assistência Educacional
Dos antigos aldeamentos missionários aos postos indígenas do 
SPI, a alfabetização de crianças e adultos indígenas visava consoli-
dar a sedentarização de um povo. Esse processo pedagógico envol-
via cultos cívicos, aprendizado de trabalhos manuais, técnicas da 
pecuária e novas práticas agrícolas. Pressupunha também novos 
cuidados corporais, como o uso de vestimentas e o ensino de prá-
ticas higiênicas.
Os postos indígenas instalavam oficinas mecânicas, engenhos 
de cana e casas de farinha, treinando os índios em diversos ofícios, 
além de investir na educação para transformar os índios em traba-
lhadores nacionais. Desde o século XIX, crianças indígenas eram en-
viadas para as escolas de artífices existentes nas capitais estaduais 
como ocorreu em Manaus na gestão do SPI.
A política de “nacionalização” dos índios esteve presente em 
quase todos os postos, onde a professora das crianças indígenas 
era quase sempre a esposa do encarregado, orientando essas crian-
ças para a integração à população regional à medida que aceitavam 
também como alunos os filhos de colonos, dos empregados do pos-
to e de fazendas vizinhas. Essas escolas não se diferenciavam das 
escolas rurais, do método de ensino precário à falta de formação 
do professor, predominando a formação de índios como produtores 
rurais voltados para o mercado regional.
Assimilacionismo Cultural
No dicionário a palavra assimilacionismo recebe a seguinte de-
finição: “corrente que preconiza a assimilação de culturas periféri-
cas pelas culturas dominantes”11.
Por assimilacionismo entendemos que um determinado grupo 
cultural minoritário num processo de “deculturação” esquecem os 
traços da sua cultura de origem e, simultaneamente, adquirem os 
da cultura dominante. 
Tem como base uma perspectiva ideológica que considera uma 
cultura superior à outra e supõe um papel passivo das culturas mais 
fracas: muitas vezes, ao grupo mais fraco exige-se mesmo que adote 
os traços do grupo dominante. Neste caso, uma das culturas elimina 
efetivamente a outra (ajustamento por eliminação). Na prática, no 
entanto, verifica-se que só alguns aspectos da cultura subordinada 
são eliminados em favor da cultura dominante.
Em termos de comunidades migrantes, culturalmente diferen-
tes e minoritárias, portanto mais fracas, a forma de reação a esta 
situação parece depender de duas condições: 
- primeiro, que haja uma opção clara e vigorosa dos indivíduos 
candidatos à integração, de se inserirem na sociedade de acolhi-
mento; 
- segundo, que haja uma opção coletiva suficientemente clara e 
explícita da sociedade de acolhimento para reconhecer a identidade 
cultural própria e um estatuto de igualdade aos novos integrados.
11 https://bit.ly/2v73uqH
REALIDADE BRASILEIRA
267
a solução para o seu concurso!
Editora
Museu do Índio (anos 1950)12
O Museu do Índio foi criado, em 1953, no Serviço de Proteção 
aos Índios – SPI, agência do Governo encarregada de dar assistência 
aos índios no Brasil.
No início da década de 60, o Museu foi transferido para o Con-
selho Nacional de Proteção aos Índios – CNPI, órgão responsável 
pelo assessoramento e formulação da política indigenista oficial da 
época. Em 1967, o Governo militar resolveu reunir o SPI, o CNPI e o 
Museu em um único órgão, a Fundação Nacional do Índio - FUNAI, 
onde a instituição está inserida até hoje.
Atualmente, o Museu do Índio é uma importante instituição 
de pesquisa sobre línguas e culturas indígenas. Tem sob sua guar-
da documentos relativos à maioria das sociedades indígenas con-
temporâneas, constituídos de 15.840 peças etnográficas e 15.121 
publicações nacionais e estrangeiras, especializadas em etnologia e 
áreas afins. Seus diversos Serviços são responsáveis pelo tratamen-
to técnico de 76.821 registros audiovisuais e 833.221 documentos 
textuais de valor histórico e contemporâneo.
Sob a direção do antropólogo Darcy Ribeiro, o Museu do Índio 
foi inaugurado no dia 19 de abril de 1953, no Rio de Janeiro. 
O prédio já foi residência oficial na época do império e abrigou, 
entre outras figuras políticas, o marechal Rondon, pioneiro na polí-
tica indigenista no País. Em 1865 o imóvel foi doado para abrigar um 
órgão de pesquisas sobre as culturas indígenas brasileiras. Em 1910, 
se tornou sede do Serviço de Proteção ao Índio (SPI) e, entre 1953 e 
1978, foi sede do Museu do Índio. Em 1978, o museu foi transferido 
para o bairro de Botafogo, na zona sul.
A abertura do Museu do Índio não representou apenas um 
novo espaço para divulgação da cultura indígena. Ele exibia a te-
mática indígena conjugada a um novo estilo museográfico, carac-
terizado pela elaboração de um projeto prévio, onde tanto o tema 
quanto os equipamentos expositivos foram pensados de modo que 
o resultado agradasse ao usuário. 
Para tanto o prédio passou por uma reforma, assinada por um 
arquiteto de renome que criou um novo sistema de iluminação, 
projetou as vitrines, distribuiu os espaços inserindo nele objetos e 
fotografias concatenados com o tema. O Museu do Índio abre suas 
portas atraindo o público devido ao grande apelo visual, abrigando 
em sua dependência arquivo textual, audiovisual e espaços para di-
nâmicas educativas. 
Provido de uma infraestrutura que conjugava conforto e con-
teúdo documental, o Museu do Índio, representado por Ribeiro, se 
lança como um novo fórum de debates para as políticas indigenis-
tas até centrada no Museu Nacional marcadamente pela atuação 
de Heloisa Alberto Torres. Ribeiro não apenas assina a Certidão de 
Nascimento do Museu do Índio como é também responsável pelas 
primeiras coleções etnográficas autorais daquela instituição. 
O casarão que abriga, atualmente, o Museu do Índio/FUNAI foi 
tombado como patrimônio de preservação cultural do país em 22 
de fevereiro de 1967. Vinte anos depois, a construção também pas-
sou a ser considerada patrimônio do município do Rio de Janeiro, 
pelo decreto 6.934, de 9 de setembro de 1987.
12 LEFEBVRE, H. O direito à cidade. São Paulo: Centauro, 2001.
MOREIRA, Ruy. A Nova Divisão Territorial do Trabalho e as Tendências de 
Configuração do Espaço Brasileiro. In: LIMONAD, Ester; HAESBAERT, Rogério & 
MOREIRA, Ruy (org.) Brasil Século XXI, por uma nova regionalização. São Paulo: 
Max Limonad, 2004.
A história e trajetória do Museu do Índio é peculiar, por ter sur-
gido de um órgão voltado à proteção das populações indígenas, que 
desenvolveu uma seção de estudos, que não tinha como finalidade 
a pesquisa acadêmica; e sim pesquisas para dar um respaldo ao SPI. 
Essas pesquisas acabaram construindo um acervo, que gerou um 
processo museológico. Desde sua existência o museu esteve vin-
culado às pesquisas, salvo alguns momentos em que mudanças na 
estrutura impediram essa aproximação. 
Parque Nacional do Xingu (anos 1960)
A criação do Parque do Xingu resultou de um longo processo de 
luta entre instituições do Estado brasileiro e setores da sociedade 
civil envolvendo o controle territorial e/ou privatização de terras. 
Sua superfície corresponde a uma pequena parcela da vasta região 
onde se encontrava presente, já no início do século XX, uma varie-
dade significativa de etnias indígenas localizadas na bacia do alto rio 
Xingu no estado brasileiro de Mato Grosso.
A partir dos anos 40 foi sendo sistematizado ocontato entre 
setores da sociedade nacional, mais precisamente indigenistas com 
os grupos indígenas. Um posto de assistência do órgão oficial en-
carregado da tutela aos grupos indígenas no Brasil - o Serviço de 
Proteção aos Índios (SPI) foi criado e instalado no Alto Xingu. 
Em 1952 foi apresentado ao Congresso Nacional um Antepro-
jeto para a criação de um parque nacional na referida região. Neste 
projeto estava previsto um perímetro bem maior que o atual, in-
cluindo uma zona tampão de amortecimento do contato com as 
frentes de expansão, de proteção às nascentes da bacia hidrográfica 
e da preservação do meio ambiente imediatamente circunvizinho à 
região ocupada pela população indígena. 
Em 1961 foi criado pelo governo federal no alto Xingu o Parque 
Nacional do Xingu. Em 1973 é, por força do Estatuto do Índio, alte-
rado na sua condição jurídica para parque indígena. A lei 6.001 de 
1973 em seu artigo 28 define: 
Parque Indígena é a área contida em terra para posse dos ín-
dios, cujo grau de integração permita assistência econômica, edu-
cacional e sanitária dos órgãos da União, em que se preservem as 
reservas de flora e fauna e as belezas naturais da região.
O novo status remeteu o Parque do Xingu à subordinação da 
FUNAI – Fundação Nacional do Índio e, portanto, não mais subor-
dinado ao IBAMA - Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos 
Recursos Naturais Renováveis, caso permanecesse como parque 
nacional. 
Segundo a legislação ambiental brasileira parques nacionais 
correspondem a áreas geográficas extensas e delimitadas, dotadas 
de atributos naturais excepcionais, objeto de preservação perma-
nente, submetidas à condição de inalienabilidade e indisponibilida-
de de seu todo.
Considerando-se a configuração do PIX (Parque Indígena do 
Xingu) em relação ao território mato-grossense constata-se que 
este se encontra “ilhado”. Isto porque o Parque do Xingu sofre pres-
sões constantes sobre sua geografia e população, ao situar-se em 
meio à ocupação do seu entorno, por grandes fazendas do agro-
negócio, pela mobilidade dos trabalhadores rurais e pelas novas 
cidades. 
REALIDADE BRASILEIRA
268268
a solução para o seu concurso!
Editora
Ao longo desses últimos 60 anos, a consolidação do espaço ru-
ral e urbano do estado de Mato Grosso resultou na expansão espa-
cial da economia para o interior do Brasil, resultando em impactos 
socioambientais, especialmente para o conjunto de etnias localiza-
das no Parque Indígena do Xingu.
A ampliação do PIX é atualmente uma das principais reivindi-
cações de líderes indígenas endereçadas a FUNAI - Fundação Na-
cional do Índio. O parque tem quase 30 mil quilômetros quadra-
dos, embora seu território atualmente seja muito menor do que o 
inicialmente previsto. Nas quatro décadas seguintes a sua criação, 
incorporou algumas pequenas áreas, porém não suficiente para in-
cluir as nascentes da bacia hidrográfica e evitar a pressão do desma-
tamento e da progressiva influência do complexo do agronegócio.
A leitura do atual mapa de uso e ocupação do Mato Grosso 
revela a vulnerabilidade do Parque do Xingu e de seus habitantes 
sobre o entorno ligado ao uso das terras pelo agronegócio. Esta pes-
quisa está se iniciando e apresenta uma primeira leitura da análise 
geográfica sobre o Parque Indígena do Xingu nos tempos atuais.
Recentemente uma série de fatos e eventos circunscritos à 
área de localização e influência da terra indígena está relacionada 
aos equipamentos do território e à mobilidade da força de traba-
lho, fatos estes que se inserem no grande projeto da Infraestrutura 
Regional Sul-Americana (IRSA). Consolidando-se como liderança 
regional, o Brasil passa a investir e coordenar um programa de inte-
gração da infraestrutura regional (IRSA) com apoio das instituições 
multilaterais: BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), 
BIRD (Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento), 
CAF (Bando de Desenvolvimento da América Latina) e agências de 
desenvolvimento europeias, japonesas etc. 
Tal processo é mutuamente reforçado pelo aumento da inte-
gração econômica regional, comercial, financeira e produtiva. E o 
Parque do Xingu está bem no âmago e no centro destas territoriali-
dades. O efeito mais imediato conforme dados que serão apresen-
tados é o da urbanização do território. 
Assim, argumenta-se com base nos dados referentes aos im-
pactos socioambientais presentes na atualidade do território indí-
gena sobre três condições: 
- a geografia do território oficial do parque do Xingu;
- o significado da transformação de parque nacional em parque 
indígena; e 
- os efeitos do processo de urbanização extensiva e da consoli-
dação do agronegócio sobre as etnias e seus descendentes localiza-
dos no referido território indígena. 
A ideia de criação do Parque tomou forma numa mesa-redon-
da convocada pela Vice-Presidência da República em 1952, da qual 
resultou um anteprojeto de um Parque muito maior do que o que 
veio finalmente a se concretizar. A despeito dos poderes legislativo 
e executivo do Mato Grosso estarem representados nessa mesa-re-
donda, inclusive por seu governador, o estado começou a conceder, 
dentro desse perímetro, terras a companhias colonizadoras. 
Por isso, quando foi finalmente criado o Parque Nacional do 
Xingu, pelo Decreto nº 50.455, de 14/04/1961, assinado pelo pre-
sidente Jânio Quadros, sua área correspondia a apenas um quarto 
da superfície inicialmente proposta. O Parque foi regulamentado 
pelo Decreto nº 51.084, de 31/07/1961; ajustes foram feitos pe-
los Decretos nº 63.082, de 6/08/1968, e nº 68.909, de 13/07/1971, 
tendo sido finalmente feita a demarcação de seu perímetro atual 
em 1978.
Tendo em vista os povos que lá habitam, pode-se dividir o Par-
que Indígena do Xingu em três partes:
- uma ao norte (conhecida como Baixo Xingu);
- uma na região central (o chamado Médio Xingu); e 
- outra ao sul (o Alto Xingu). 
Na parte sul ficam os formadores do rio Xingu; a região cen-
tral vai do Morená (convergência dos rios Ronuro, Batovi e Kulue-
ne, identificada pelos povos do Alto Xingu como local de criação do 
mundo e início do Rio Xingu) à Ilha Grande; seguindo o curso do Rio 
Xingu, encontra-se a parte norte do Parque.
Na década de 80, tiveram início as primeiras invasões de pes-
cadores e caçadores no território do PIX. Ao final dos anos 90, as 
queimadas em fazendas pecuárias localizadas a nordeste do Parque 
ameaçavam atingi-lo e o avanço das madeireiras instaladas a oeste 
começou a chegar perto dos limites físicos definidos pela demar-
cação. 
Ademais, a ocupação do entorno começava a poluir as nascen-
tes dos rios que abastecem o Parque e que ficaram fora da área 
demarcada. Nesse processo, fortaleceu-se entre os moradores do 
PIX a percepção de que está a caminho um incômodo: o Parque 
vem sendo cercado pelo processo de ocupação de seu entorno e 
já se evidencia como uma “ilha” de florestas em meio ao pasto e a 
monocultura na região do Xingu. 
A questão da fiscalização do território é presença certa na 
agenda dos assuntos políticos do Parque, sendo discutida tanto 
em encontros de lideranças e assembleias da ATIX (Associação Ter-
ra Indígena Xingu) como na interlocução com a FUNAI e os órgãos 
ambientais federal (IBAMA) e estadual (Fundação Estadual do Meio 
Ambiente - FEAM).
Para tanto, foi montada uma infraestrutura dos citados onze 
postos de vigilância para proteger as áreas que propiciam um aces-
so direto ao Parque, como a intersecção dos principais rios com os 
limites do PIX e o ponto em que a BR-080 margeia esses limites.
No entanto, o sistema de postos, por si só, não é suficiente 
para enfrentar as situações criadas pelo entorno e vem sendo com-
plementado por outras ações, desenvolvidas no âmbito do Projeto 
Fronteiras, uma parceria da ATIX com o ISA (Instituto Socioambien-
tal). 
O projeto compreende o mapeamento da dinâmica de desma-
tamentos, através de fotos de satélite, e da identificação in loco de 
novos vetores de ocupação no entorno do PIX. Também incluium 
trabalho de capacitação dos Chefes de Postos, a restauração e ma-
nutenção dos marcos que estabelecem os limites físicos do territó-
rio e um banco de dados georreferenciados de todos os fazendeiros 
cujas propriedades fazem fronteira com o PIX.
 Dessa maneira, torna-se possível que os índios acompanhem 
de perto o que acontece nas fronteiras do Parque e mobiliza as co-
munidades acerca das ameaças externas, tanto em discussões in-
ter-aldeias, como junto aos órgãos públicos responsáveis (FUNAI, 
IBAMA e o Governo Estadual).
O Indigenismo no Regime Militar (anos 1960 a 1980)13
Após o golpe civil-militar de 1964, um novo período econômi-
co se iniciou no Brasil. Construções de grandes obras (hidrelétricas, 
estradas e desmatamento de áreas para a criação de grandes lati-
fúndios para pecuária) se espalharam por todas as regiões do país, 
13 Adaptado de http://memoriasdaditadura.org.br/indigenas/ e http://pib.socioam-
biental.org/pt/c/politicas-indigenistas/orgao-indigenista-oficial/funai
REALIDADE BRASILEIRA
269
a solução para o seu concurso!
Editora
e no caminho desses projetos inúmeros povos com suas terras, re-
conhecidas ou não, passaram a ser tratados como obstáculos para 
o desenvolvimento.
Nas regiões de fronteira agrícola, como a Amazônia e o Centro-
-Oeste, as terras indígenas eram invadidas por criadores de gado, 
madeireiros ou garimpeiros. O Estado tinha pouco controle nessas 
regiões, e as violências contra os indígenas tinham, frequentemen-
te, a conivência das autoridades locais.
As políticas indigenistas foram integralmente subordinadas aos 
planos de defesa nacional, construção de estradas e hidrelétricas, 
expansão de fazendas e extração de minérios. Sua atuação foi man-
tida em plena afinidade com os aparelhos responsáveis por imple-
mentar essas políticas: Conselho de Segurança Nacional (CSN), Pla-
no de Integração Nacional (PIN), Instituto Nacional de Colonização 
e Reforma Agrária (INCRA) e Departamento Nacional de Produção 
Mineral (DNPM).
A ação da FUNAI durante a ditadura foi fortemente marcada 
pela perspectiva assimilacionista. O Estatuto do Índio (Lei nº 6.001) 
aprovado em 1973, e ainda vigente, reafirmou as premissas de inte-
gração que permearam a história do SPI.
Com recursos escassos e mal contabilizados, a FUNAI conti-
nuou a operar, assim como o SPI, com profissionais pouco qualifi-
cados. Não se concretizou a proposta de se realizar planejamentos 
antropologicamente orientados, conduzidos por profissionais de 
formação sólida, bem pagos e comprometidos com o futuro dos po-
vos indígenas. O órgão foi permeado, em todos os níveis, por redes 
de relações pessoais, clientelistas e corporativas, que remetem ao 
paternalismo e ao voluntarismo que dominaram o velho SPI.
Projetos como a construção das hidrelétricas de Itaipu e de Tu-
curuí, no Rio Tocantins, e a criação do maior latifúndio do mundo 
no norte do Mato Grosso, em terra indígena Xavante, expulsaram 
centenas de comunidades e provocaram milhares de mortes nas 
aldeias. A abertura da rodovia Transamazônica BR- 230, planejada 
para cortar o Brasil transversalmente, da fronteira com o Peru até 
João Pessoa na Paraíba, afetou de maneira trágica 29 grupos indí-
genas, dentre eles, 11 etnias que viviam completamente isoladas.
Documentos e relatos colhidos durante as investigações recen-
tes da Comissão Nacional da Verdade (CNV) apontam que cerca de 
8 mil indígenas foram mortos, em conflitos, crises de abastecimen-
to ou epidemias trazidas pelos trabalhadores, em consequência da 
construção de quatro rodovias: 
- a Transamazônica; 
- a BR-174, que liga Manaus a Boa Vista; 
- a BR-210, conhecida com Perimetral Norte; e 
- a BR 163, que liga Cuiabá a Santarém. 
Essas estradas faziam parte do Plano de Integração Nacional 
(PIN), instituído em 1970, pelo presidente Emílio Garrastazu Médici. 
O PIN previa que 100 quilômetros em cada lado das estradas a se-
rem construídas deveriam ser destinados à colonização. A intenção 
do governo era assentar cerca de 500 mil pessoas em agrovilas que 
seriam fundadas nesses locais.
O processo civilizatório imposto pela ditadura civil-militar in-
cluía perseguição, criminalização, prisão e tortura de lideranças in-
dígenas que lutavam por seus territórios ou que tivessem compor-
tamento considerado inadequado pela FUNAI. 
Durante a ditadura, as comunidades indígenas encontraram 
entre os antropólogos, sertanistas e missionários ligados ao Conse-
lho Indigenista Missionário (CIMI) seus principais apoiadores para 
resistir às violências e às ameaças cometidas pelo regime, pelos do-
nos de terras e pelos colonos e trabalhadores do garimpo.
Os Índios e a Tecnologia14
A população indígena é formada por diferentes povos com 
hábitos, costumes e línguas distintas. Atualmente o rápido avanço 
tecnológico tem permitido a aproximação entre os índios que ainda 
vivem em reservas e o restante da população. O contato com os 
meios de comunicação, especialmente a televisão, o telefone e a 
internet, colabora na busca pela adoção de um novo estilo de vida 
e na perda de antigos valores. 
Há cerca de quatro anos, foi destaque na imprensa nacional e 
estrangeira a história de índios suruís que vivem na reserva indíge-
na Sete de Setembro, na divisa entre os Estados de Rondônia e Acre, 
fazendo uso das novas tecnologias para defender a terra na qual 
eles vivem do desmatamento. Com a ajuda de GPS, eles passaram a 
monitorar a posição de madeireiros ilegais. 
Os dados são enviados para autoridades competentes, como 
Polícia Federal e Fundação Nacional do Índio (FUNAI), para que as 
providências cabíveis sejam tomadas. Foi quando os arcos e flechas 
deixaram de ser as únicas ferramentas de defesa do território, e as 
novas tecnologias passaram a fazer parte do dia a dia de muitas 
tribos indígenas. 
A proximidade das comunidades indígenas aos centros urba-
nos faz com que os índios acessem os instrumentos disponíveis das 
tecnologias de informação e comunicação, trazendo esses recursos 
e os incluindo no seu dia a dia e nas suas relações de sociabilidade. 
Essas mídias são adaptadas não levando em conta o fazer dessa co-
munidade, ou seja, a formação do povo. 
Muitas crianças e jovens são expostas desde cedo à televisão e 
à internet, o que pode ser considerado natural para quem vive nas 
fronteiras culturais. O problema é que grande parte destas crianças 
só tem acesso às produções culturais do ocidente. O conhecimento 
produzido pelos povos indígenas, nestes espaços que se constituem 
com as novas tecnologias, fica do lado de fora. 
Por outro lado, essas mídias têm servido para dar visibilidade 
e ‘guardar’ a história e a memória da comunidade indígena, dentro 
de recursos tecnológicos que atraem o olhar do índio e também 
que fazem com que os mesmos sintam-se incluídos no mundo, pois 
a cultura deles também é difundida para a sociedade.
Guardadas as devidas proporções, assim como nas outras re-
giões do mundo, do Brasil e da Amazônia, as tecnologias invadiram 
o dia a dia das pessoas, seja pela mera cópia de um CD pirata, seja 
pelos aparelhos sofisticados que passaram a fazer parte da vida 
pessoal e profissional dos indivíduos na contemporaneidade. Da 
mesma maneira, os índios foram atraídos pelos encantos desses 
aparatos tecnológicos, levado pela proximidade de suas aldeias, as-
sim como sua inserção no convívio com as cidades urbanas. 
14 CANCLINI, Nestor Garcia. Culturas Híbridas: estratégias para entrar e sair da 
Modernidade.3ª. Edição. São Paulo: Edusp, 2000.
COSTA, Alda Cristina. O embate entre o visível e o invisível: a construção social 
da violência no jornalismo e na política. 2010. Universidade Federal do Pará, 
Belém.
http://www.videonasaldeias.org.br/2009/.
REALIDADE BRASILEIRA
270270
a solução para o seu concurso!
Editora
Esse contato com as mídias foi incorporado à cultura indígena. 
Hoje é comum encontrar nas comunidades Indígenas aparelhos de 
TV, filmadoras, DVDs, rádios, telefones celulares, câmeras e compu-
tadores. Algumas populaçõesindígenas passaram a utilizar e consu-
mir produtos dessa sociedade informacional. 
Não que isso seja um crime, pelo contrário, pode representar 
uma oportunidade de “capturar” as informações, os relatos e socia-
lizá-los de vez aos conhecimentos e a cultura indígena não somente 
para os índios mais jovens, mas com toda a sociedade que desco-
nhecem a riqueza dos primeiros habitantes do Brasil. 
O jovem/adolescente Suruí transita por outros espaços e se 
constitui também em outras identidades, já que ele pode ser um 
eleitor, um estudante, pode receber uma bolsa assistencial do go-
verno, ter um número de celular, conviver com jovens da sociedade 
envolvente. Portanto, se essa tecnologia é uma realidade e aden-
trou a vida dos índios Suruí, é preciso conciliar sua utilização com 
as tradições do povo, do mesmo modo que deve ser aplicada como 
recurso didático na educação, levando em conta a memória e histó-
ria do povo indígena.
Nem sequer pode-se atribuir aos meios eletrônicos a origem da 
massificação das culturas populares. Esse equívoco foi apropriado 
pelos primeiros estudos sobre a comunicação, segundo os quais a 
cultura massiva substituiria o culto e o popular tradicionais. 
É interessante destacar que a noção de popular é reforçada nas 
mídias ainda levando em conta uma lógica de mercado, ou seja, a 
mídia tem um papel central já que as pessoas necessitam do seu 
discurso para que possam construir o sentido social da realidade. 
E não é diferente com a comunidade indígena Suruí que passa 
compreender como importante ter sua história e tradições serem 
narradas pelos diversos meios de comunicação. A mídia, neste sen-
tido, não é apenas um suporte tecnológico, mas uma instituição 
responsável por criar uma lógica de mundo, muitas vezes, não mui-
ta clara, mas que exerce sentido na vida humana, pois influencia as 
relações sociais ou até cria novas formas de sociabilidade.
Hoje, a imagem midiática começa na primeira idade das crian-
ças e vai até o fim da sua vida, ditando as intenções daqueles que 
trabalham para construir esses sentidos, sejam produtores anôni-
mos ou ocultos: no despertar pedagógico da criança, nas escolhas 
econômicas e profissionais do adolescente, nas escolhas tipológicas 
(a aparência) de cada pessoa, até nos usos e costumes públicos ou 
privados, às vezes como “informação”, às vezes velando a ideologia 
de uma escolha ou persuadindo os comportamentos. As crianças 
começam a desenvolver algumas lógicas de pensamento a partir de 
uma programação televisiva.
Muitas crianças indígenas, mesmo vivendo com suas famílias, 
bem cedo são expostas à escola ocidental, à televisão e até mesmo 
à internet, o que é natural para quem vive nas fronteiras culturais. 
O problema é que grande parte destas crianças só tem acesso às 
produções culturais do ocidente. O conhecimento produzido pelos 
povos indígenas, nestes espaços que se constituem com as novas 
tecnologias, fica do lado de fora. Ainda que existam sociedades iso-
ladas dentro da Amazônia, no Brasil, lembra a antrópologa Ivânia 
Neves, a maioria dos povos indígenas mantém relações efetivas 
com a sociedade envolvente. 
Já estabelecem, portanto, uma fronteira cultural com as insti-
tuições ocidentais (igreja, escola, televisão, rádio, secretarias públi-
cas, ONGs, entre outras). Nascidas dentro deste cenário, a grande 
maioria das crianças indígenas vive hoje nestas fronteiras. Histori-
camente, o início do contato entre as sociedades indígenas e as ins-
tituições ocidentais, além de terem resultado na morte de milhares 
de índios, quer seja por processos de violência, quer seja por ques-
tões de saúde, representa quase sempre uma grande desestrutura-
ção política e cultural para estas sociedades. 
Este contato, no entanto, uma vez realizado estabelece uma 
nova e irreversível ordem para as sociedades indígenas. Se as ge-
rações mais velhas não dominavam a língua portuguesa, hoje, na 
realidade de muitas sociedades, o que se observa é o fato de que as 
crianças falam apenas a língua portuguesa. Não podemos perder de 
vista que existem grupos indígenas que não falam mais uma língua 
tradicional.
Ao se trabalhar a questão da tecnologia deve-se levar em conta 
que seus avanços produzem transformações na experiência cotidia-
na, estabelecendo novas relações de sociabilidade.
É interessante destacar que algumas experiências já vêm sen-
do realizadas com resultados positivos com relação a inserção dos 
índios no mundo digital. Desde 1987 vem sendo realizado o projeto 
denominado Vídeo nas Aldeias, na área de produção audiovisual in-
dígena no Brasil, com o objetivo de apoiar as lutas dos povos indíge-
nas para fortalecer suas identidades e seus patrimônios territoriais 
e culturais, por meio de recursos audiovisuais. 
O uso do vídeo permite que as comunidades indígenas selecio-
nem e fortaleçam manifestações culturais que elas desejam tanto 
conservar para as futuras gerações quanto apresentar como parte 
de sua identidade. Ele é um instrumento adaptado a formas tra-
dicionais de produção e transmissão cultural apoiado na força da 
palavra e na memória oral. 
O Vídeo nas Aldeias surgiu como proposta das atividades da 
ONG Centro de Trabalho Indigenista, como um experimento reali-
zado por Vincent Carelli entre os índios Nambiquara, depois abran-
gendo outras aldeias brasileiras. Hoje o projeto criou um importan-
te acervo com mais de 70 filmes sobre os povos indígenas no Brasil.
A utilização das mídias também passa na concepção dos índios 
como instituições importantes de divulgação de identidades e de 
visibilidades. É interessante destacar que os indivíduos e as formas 
de relação entre eles são alimentados pela mídia porque a maior 
parte dos conhecimentos acerca do mundo, dos modelos de papel, 
dos valores e dos estilos de comportamento chega à mente humana 
não pela experiência direta do mundo físico e das relações com os 
outros, mas cada vez mais pela mediação dos meios de comunica-
ção. E diversas questões passam a habitar a mente humana, a partir 
da discussão por esses meios. Esses meios se tornam fundamentais 
como suportes de inclusão e exclusão sociais e de controle das coi-
sas que acontecem no mundo.
Com o surgimento da Internet e seus adventos, o homem se 
deparou com um espaço que antes era difícil de imaginar: um lu-
gar onde pudesse exprimir suas ideias, pensamentos, opiniões, sua 
vida cotidiana, e ao mesmo tempo, um lugar onde tudo isso poderia 
ser visto.
Dessa maneira, uma perspectiva onde a cultura ocidental ainda 
se sobrepõe sobre a indígena, é possível hoje utilizar os recursos 
tecnológicos em benefício da comunidade, pois eles abrem novas 
possibilidades, principalmente no sentido de que podem servir 
também para atrair e seduzir o mundo indígena, ou seja, contando 
a história e memória do povo nos artefatos. Não é possível excluir 
esses recursos, mas é possível adaptá-los para que sejam utilizados 
como instrumentos para comunidade, já que eles podem produzir o 
mundo deles e divulgá-los para sociedade como um todo.
REALIDADE BRASILEIRA
271
a solução para o seu concurso!
Editora
DINÂMICA SOCIAL NO BRASIL: ESTRATIFICAÇÃO, DESI-
GUALDADE E EXCLUSÃO SOCIAL
Todos sabemos, pela própria experiência do dia-a-dia, que nos-
sa sociedade apresenta contradições: e desigualdades. Nas grandes 
cidades por exemplo, ao lado de mansões luxuosas encontramos 
favelas e pessoas morando embaixo de viadutos. 
Vivemos, portanto, em uma sociedade profundamente desi-
gual. Se quisermos fazer uma descrição desse tipo de sociedade, 
podemos trabalhar com o conceito de estratificação social. Mas se 
nosso objetivo for analisar historicamente os conflitos entre os di-
versos grupos que a compõem, devemos recorrer ao conceito de 
classes sociais. 
Seja qual for o método escolhido, é preciso levar em conta tam-
bém que alguns indivíduos ou mesmo grupos de pessoas podem 
mudar de posição social. Para estudar esses casos utilizamos o con-
ceito de mobilidade Social 
Estratificação social
A expressão estratificaçãoderiva de estrato, que quer dizer ca-
mada. Por estratificação social entende-se a distribuição de indiví-
duos e grupos em camadas hierarquicamente superpostas dentro 
de uma sociedade. Essa distribuição se dá pela posição social dos 
indivíduos, das atividades que eles exercem e dos papéis que de-
sempenham na estrutura social.
 Na sociedade capitalista contemporânea, as posições sociais 
são determinadas basicamente pela situação dos indivíduos no de-
sempenho de suas atividades produtivas (capitalistas X proletários).
Contudo, nessa mesma sociedade os indivíduos podem de-
sempenhar outros papéis e alcançar novas posições sociais como 
na religião que praticam, o partido político em que militam, as fun-
ções sociais que desempenham, a profissão que exercem (médico 
x pedreiro).
Principais tipos de Estratificação Social
1. Estratificação política. Estabelecida pela posição de mando 
na sociedade (grupos que têm poder e grupos que não têm).
2. Estratificação profissional. Baseada nos diferentes graus de 
importância atribuídos a cada profissional pela sociedade. P.E., em 
nossa sociedade a profissão de médico é muito mais valorizada que 
a de pedreiro, motorista.
3. Estratificação econômica. É definida pela posse de bens ma-
teriais, cuja distribuição pouco equitativa faz com que haja pessoas 
ricas, pobres e em situação intermediária.
Estratificação Econômica de uma Sociedade Capitalista
Dependendo do tipo de sociedade, esses estratos podem ser 
organizados em:
• Castas
• Estamentos
• Classes sociais.
Tipos de Sociedades Estratificadas 
Castas Sociais: 
Existem sociedades em que os indivíduos nascem numa cama-
da social mais baixa e podem alcançar, com o decorrer do tempo, 
uma posição social mais elevada. Esse fenômeno conhecido como 
mobilidade social. 
Em contrapartida, existem sociedades em que, mesmo usando 
toda a sua capacidade e empregando todos os esforços, o indivíduo 
não consegue alcançar uma posição social mais elevada. Nesses ca-
sos, a posição social lhe atribuída por ocasião do nascimento, inde-
pendentemente de sua vontade. Ele carrega consigo, pelo resto da 
vida, a posição social herdada. 
A sociedade indiana é estratificada dessa maneira. Há séculos, 
a população da Índia está distribuída em um sistema de estratifica-
ção social rígido e fechado, que não oferece a menor possibilidade 
de mobilidade social. É o sistema de castas 
Enquanto nas sociedades ocidentais pessoas de níveis sociais 
diferentes podem se casar - o que não raro possibilita a ascensão 
social de um dos cônjuges -, na Índia o casamento só é permitido 
entre pessoas da mesma casta. 
As castas são grupos sociais fechados, cujos membros seguem 
rigorosamente as tradições familiares. Um indivíduo nascido em 
determinada casta deve permanecer nela pelo resto da vida. Sua 
posição social é definida ao nascer. Além de direitos e deveres es-
pecíficos, as pessoas não podem ascender socialmente mediante 
qualidades pessoais, mérito ou realizações profissionais. 
Pode-se esquematizar a estratificação social indiana por meio 
da seguinte pirâmide de castas: 
No topo da pirâmide estão os brâmanes, que são os sacerdotes 
e os mestres da erudição sacra. Segundo sua crença, a eles compete 
preservar a ordem social, estabelecida por orientação divina. 
A seguir, distribuídos pela segunda casta, vem os Xátrias guer-
reiros que formam a aristocracia militar. 
A terceira grande casta – a dos vaixas - é formada pelos comer-
ciantes, artesãos e camponeses. 
Os sudras, por sua vez, executam os trabalhos manuais e di-
versas tarefas servis. São uma casta depreciada, tendo o dever de 
servir as três castas superiores. 
Na base da pirâmide social ficam os parias, grupo de miserá-
veis, desprovidos de direitos e sem profissão definida. Totalmente 
desprezados pelas demais castas, vivem da caridade alheia. Os pa-
rias não podem banhar-se nas águas sagradas do rio Ganges (o que 
é permitido as outras castas), nem ler os Vedas, que são os livros 
sagrados dos hindus. 
Embora o sistema de castas tenha sido abolido oficialmente em 
1947, quando a Índia conquistou a independência sob a liderança 
de Mahatma Gandhi, basta percorrer o pais para constatar que, na 
prática, o antigo regime sobrevive. Os indianos das castas superio-
res não aceitam perder seus privilégios, e os membros das castas 
inferiores e os “sem castas” continuam sendo excluídos, rejeitados, 
privados de educação formal e de outras oportunidades. 
Cabem a eles as piores tarefas, como limpar fossas e lavar ca-
dáveres. 
Na segunda metade do século XX, reformas sociais e mudanças 
na economia da Índia, impulsionadas pela industrialização, começa-
ram a romper o sistema de divisão em castas. 
REALIDADE BRASILEIRA
272272
a solução para o seu concurso!
Editora
Assim, nos grandes centros urbanos do pais, como Nova Delhi, 
Bombaim e Calcutá, a abolição do sistema vem ocorrendo grada-
tivamente. Entretanto, ele ainda perdura na maior parte da Índia 
rural. 
Estamentos ou Estados 
Um exemplo típico de sociedade estratificada em estamentos 
pode ser encontrado na Europa ocidental durante a Idade Média 
(476-1453), sob a vigência do modo de produção feudal. 
Estamento ou estado e uma camada social semelhante a casta, 
porém um pouco mais aberta. Na sociedade estamental, a mobili-
dade social é difícil mas não impossível, como na sociedade estra-
tificada em castas. 
Na sociedade feudal, a ascensão era possível nos raros casos 
em que a Igreja recrutava seus membros entre os mais pobres; 
quando os servos eram emancipados por seus senhores; no caso 
de o rei conferir um título de nobreza a um homem do povo; ou, 
ainda, se a filha de um rico comerciante se casasse com um nobre, 
tornando-se, assim, membro da aristocracia. 
A pirâmide social da sociedade estamental durante o feudalis-
mo europeu apresentava-se da seguinte maneira: 
No vértice da pirâmide encontravam-se nobreza e no alto clero. 
Eram os donos da terra da qual obtinham renda explorando o traba-
lho dos servos. Os nobres dedicavam-se à guerra à caca, cuidavam 
da administração do feudo e exerciam o poder judiciário em seus 
feudos.
O alto clero (cardeais, arcebispos, bispos, abades) era uma elite 
eclesiástica e intelectual.
Seus membros vinham da nobreza. Constituíam também a úni-
ca camada letrada na primeira a fase do período medieval, desem-
penhando importantes funções administrativas. 
Abaixo da camada dos nobres, encontravam-se os comercian-
tes. Embora ricos, muitas vezes eles não tinham os mesmos privilé-
gios da nobreza. Além disso, suas atividades sofriam uma série de 
restrições legais. Tais restrições foram desaparecendo à medida que 
o feudalismo entrou em declínio. 
Mais abaixo estavam os artesãos, os camponeses livres e o 
baixo clero. Os artesãos viviam nas cidades, reunidos em associa-
ções profissionais, as corporações de ofício; os camponeses livres 
trabalhavam a terra e vendiam seus produtos agrícolas nas vilas e 
cidades; o baixo clero, originário da população pobre, convivia com 
os pobres, com o povo, prestando-lhe assistência religiosa
Abaixo de todos estavam os servos, que trabalhavam a terra 
para si e para seus senhores, vivendo em condições precárias; esta-
vam ligados à terra, passando a ter novo se quando a terra mudava 
de dono. 
A divisão da estrutura social em estamentos - tipo intermediá-
rio entre a casta e a classe – era encontrada na Europa até fins do 
século XVIII.
Classe Social 
Desenvolvido pelo pensador alemão Karl Marx, o conceito de 
classe social parte de premissas próprias, segue critérios específicos 
e sua aplicação leva a conclusões totalmente diferentes das que po-
dem ser encontradas nos estudos que analisam a sociedade segun-
do o modelo descritivo da estratificação social. 
Para Marx, a história da humanidade é “a história da luta de 
classes”. Segundo ele, portanto, a classe social é acima de tudo uma 
categoria histórica. Quando Marx se refere as duas grandes clas-
ses do capitalismo - a burguesia e o proletariado -,está designando 
duas forças motrizes e concretas do modo de produção capitalista, 
um sistema econ6mico historicamente determinado. 
O próprio Marx, no entanto, não reivindicava a descoberta das 
classes sociais nem da luta de classes, mas sim a “demonstração de 
que a existência das classes só se liga a determinadas fases histó-
ricas de desenvolvimento da produção”. Marx atribula uma impor-
tância particular aos conflitos entre as classes. Para ele, são esses 
conflitos que constituem o principal fator de mudança social. Esses 
movimentos, portanto, imprimiriam movimento e dinamismo à so-
ciedade.
Por outro lado, as classes sociais mudam ao longo do tempo, 
conforme as circunstâncias econômicas, políticas e sociais. As con-
tradições que mantêm entre si forjam e estruturam a própria socie-
dade. Quando os conflitos chegam a um ponto insuportável, ocorre 
uma revolução que transforma a sociedade, modificando o modo 
de produção. 
Foi o que aconteceu, com o feudalismo: uma nova classe (a 
burguesia) derrubou um velho estamento (a nobreza), gerando a 
sociedade capitalista. A Revolução Francesa de 1789 foi uma das 
expressões dessa transformação. 
Mas a nova sociedade capitalista, na concepção de Marx, já co-
meçou dividida em duas grandes classes conflitantes: a burguesia 
(proprietária dos meios de produção) e o proletariado, ou classe 
operária, que só tem de seu a torça de trabalho. 
Essa divisão baseada no regime de propriedade faz com que 
uma classe seja dominante, e a outra, dominada, numa relação sis-
temática de dominação e exploração. 
Assim, a teoria das classes não se limita a descrever as divisões 
da sociedade em camadas, como faz o modelo da estratificação so-
cial, mas procura explicar como e por que elas ocorrem historica-
mente. As classes sociais só existem a partir da relação que estabe-
lecem entre si. Nesse sentido, as classes são, além de antagônicas, 
necessariamente complementares. A burguesia, por exemplo, não 
pode existir sem o proletariado. 
Complementares, porque são elas que fazem funcionar o sis-
tema. Antagônicas, porque uma delas (a burguesia) se apropria do 
trabalho da outra (o proletariado), o que gera o conflito permanen-
te. 
As classes médias 
Entre a burguesia e o proletariado existem outros grupos que 
se movem entre as duas classes fundamentais, oscilando de uma 
para a outra. Alguns desses grupos são denominados genericamen-
te de classes medias, ou pequena burguesia. 
A pequena burguesia constitui um setor muito numeroso, que 
abrange desde a dona de um pequeno armazém até os pequenos e 
médios proprietários de terra, passando por todos os assalariados 
que trabalham em escritórios, funcionários públicos e profissionais 
liberais. 
Ao contrário da burguesia e do proletariado, que atuam dire-
tamente na produção social entre as classes médias misturam-se 
múltiplos papeis. Não se trata, portanto, de uma classe política e 
socialmente homogênea. 
Segundo Karl Marx, essa heterogeneidade das classes médias 
explica por que, nos conflitos sociais e políticos, elas oscilam tanto, 
ora apoiando os interesses da grande burguesia, ora apoiando os 
interesses dos trabalhadores.
REALIDADE BRASILEIRA
273
a solução para o seu concurso!
Editora
Mobilidade Social 
Em maio de 1953, Lourenço Carvalho de Oliveira, nascido na 
pequena aldeia de Vigia, no norte de Portugal, desembarcou no 
porto de 
Santos, no litoral de São Paulo, depois de onze dias de viagem 
na terceira classe do transatlântico Vera Cruz. Em sua terra, deixara 
a mulher e três filhos pequenos vivendo graças à solidariedade de 
parentes e vizinhos. 
Foi morar de favor na casa de um primo e arrumou emprego 
como ajudante num bar. Economizou muito, mandou buscar a famí-
lia e conseguiu, depois de anos de trabalho e privações, abrir uma 
pequena venda em sociedade com um amigo. 
O negócio foi crescendo: primeiro uma mercearia, depois um 
mercado, a seguir um supermercado. Em 1988, 35 anos depois de 
chegar ao Brasil, o Sr. Lourenço era dono de uma grande rede de 
supermercados, tendo se tornado um dos mais influentes membros 
da Associação Comercial de São Paulo. Seus filhos têm curso supe-
rior e um deles é professor na Universidade de São Paulo. 
Essa história de vida mostra que os indivíduos, numa sociedade 
capitalista, podem chegar a ocupar diferentes posições sociais - ou 
estratos - durante a vida. É possível que alguns deles, que integram 
o estrato de baixa renda (camada C), passem a integrar o de renda 
média (camada B) ou mesmo o de renda alta (camada A). 
Por outro lado, alguns indivíduos da camada A podem ter sua 
renda diminuída, passando a integrar as camadas B ou C. Do ponto 
de vista sociológico, os dois fenômenos são caracterizados como 
manifestações de mobilidade social. 
Mobilidade social é a mudança de posição social de uma pes-
soa (ou grupo de pessoas) num determinado sistema de estratifi-
cação social. 
Tipos de Mobilidade Social
Quando as mudanças de posição social ocorrem no sentido as-
cendente ou descendente na hierarquia social, dizemos que a mo-
bilidade social é vertical. Quando a mudança de uma posição social 
a outra se opera dentro da mesma camada social, diz-se que houve 
mobilidade social horizontal.
Mobilidade Social Vertical 
A mobilidade social vertical pode ser: 
- ascendente ou de ascensão social - quando a pessoa melhora 
sua posição no sistema de estratificação social, passando a integrar 
um grupo economicamente superior a seu grupo anterior; 
- descendente ou de queda social- quando a pessoa piora de 
posição no sistema de estratificação, passando a integrar um grupo 
economicamente inferior. 
O filho de um operário que, por meio do estudo, passa a fazer 
parte da classe média é um exemplo de ascensão social. A falência 
e o consequente empobrecimento de um comerciante, em contra-
partida, é um exemplo de queda social. 
Assim, tanto a subida quanto a descida na hierarquia social são 
manifestações de mobilidade social vertical. 
Em uma sociedade aberta e democrática, é comum pessoas de 
um grupo social passarem para outro grupo, mais ou menos eleva-
do na escala social. 
A esse fenômeno, que tanto pode ser ascendente como des-
cendente, dá-se o nome de mobilidade social. 
No Brasil, a chegada do ex-metalurgico Luiz lnácio Lula da Silva 
à Presidência da República, em janeiro de 2003, é expressão dessa 
mobilidade. Com ele, passaram a integrar o governo diversas pes-
soas provenientes das camadas mais baixas da sociedade. É o caso, 
por exemplo, de Marina Silva, ministra do Meio Ambiente, que foi 
seringueira no Acre e só pode estudar a partir dos 17 anos. 
Mobilidade Social Horizontal
Uma pessoa se muda do interior para a capital. No interior, ela 
defendia ideias políticas conservadoras; agora, na capital, sob novas 
influências, passa a defender as ideias de um partido progressis-
ta. Seu nível de renda, porém, não se alterou substancialmente. A 
situação mostra uma pessoa que experimentou alguma mudança 
de posição social mas que, apesar disso, permaneceu no mesmo 
estrato social. 
Assim, a mudança de uma posição social dentro da mesma ca-
mada social caracteriza-se como mobilidade social horizontal. 
Democracia e Mobilidade Social
O fenômeno da mobilidade social varia de uma sociedade para 
outra. Em algumas sociedades ela ocorre mais facilmente; em ou-
tras, praticamente inexiste no sentido vertical ascendente. É mais 
fácil ascender socialmente nos Estados Unidos, por exemplo, do 
que no interior da índia, ainda dominado pela estratificação social 
em castas. 
A mobilidade social ascendente é mais frequente numa socie-
dade democrática aberta, que enaltece a escalada rumo ao topo de 
indivíduos de origem humilde - como nos Estados Unidos -, do que 
numa sociedade de tradição aristocrática, como a Inglaterra. 
Entretanto, é bom esclarecer que, mesmo numa sociedade 
capitalista mais aberta, a mobilidade social vertical não se dá de 
maneira igual para todos os indivíduos. A ascensão social depende 
muito da origemde classe de cada indivíduo. 
Alguém que nasce e vive numa camada social elevada tem mais 
oportunidades e condições de se manter nesse nível, ascender ain-
da mais e se sair melhor do que os originários das classes inferiores. 
Isso pode ser facilmente verificado no caso dos jovens que pre-
tendem fazer o curso superior. Aqueles que, desde o início de sua 
vida escolar, frequentaram boas escolas e, além disso, estudaram 
em cursinhos preparatórios de boa qualidade, têm mais possibili-
dades de aprovação nos vestibulares das universidades públicas e 
privadas do que os jovens provenientes das classes de baixa renda.
Mobilidade Social no Brasil
A chance de uma criança de baixa renda de ter um futuro me-
lhor que a realidade em que nasceu está, em maior ou menor grau, 
relacionada à escolaridade e ao nível de renda de seus pais. Nos 
países ricos, o “elevador social” anda mais rápido. Nos emergentes, 
mais devagar - no Brasil, ainda mais lentamente.
O país ocupa a segunda pior posição em um estudo sobre mo-
bilidade social feito pela OCDE (Organização para a Cooperação e 
Desenvolvimento Econômico) com dados de 30 países15.
De acordo com o estudo o elevador social está quebrado. Para 
promover mobilidade social, seriam necessárias nove gerações para 
que os descendentes de um brasileiro entre os 10% mais pobres 
15 Camila Veras Mota. Brasil é o segundo pior em mobilidade social em ranking 
de 30 países. Instituto Humanitas Unisinos. http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/
579960-brasil-e-o-segundo-pior-em-mobilidade-social-em-ranking-de-30-paises. 
REALIDADE BRASILEIRA
274274
a solução para o seu concurso!
Editora
atingissem o nível médio de rendimento do país. A estimativa é a 
mesma para a África do Sul e só perde para a Colômbia, onde o 
período de ascensão levaria 11 gerações.
O indicador da OCDE foi construído levando em consideração a 
“elasticidade intergeracional de renda”. Ou seja, quanto o nível de 
rendimento dos filhos é determinado pelo dos pais. A instituição 
ressalta no estudo que a simulação tem finalidade ilustrativa - para 
dar dimensão da dificuldade de ascensão social - e que não deve ser 
interpretada como o tempo preciso para que um domicílio de baixa 
renda atinja a renda média.
Na média entre os países membros da OCDE, a chamada “per-
sistência” da renda intergeracional é de 40%. Isso significa que, se 
uma família tem rendimento duas vezes maior o que de outra, o 
filho terá, em média, renda 40% mais alta que a da criança que veio 
da família de menor renda.
Nos países nórdicos, a persistência é de 20%. No Brasil, de 70%, 
conforme a pesquisa.
Mais de um terço daqueles que nascem entre os 20% mais po-
bres no Brasil permanece na base da pirâmide, enquanto apenas 
7% consegue chegar aos 20% mais ricos. Na média da OCDE, 31% 
dos filhos que crescem entre 20% mais pobres permanecem nesse 
grupo e 17% ascendem ao topo da pirâmide.
Pai Pobre, Filho Pobre
Isso é o que o estudo chama de “chão pegajoso” (sticky floor): a 
dificuldade das famílias de baixa renda de sair da pobreza.
Filhos de pais na base da pirâmide têm dificuldade de acesso à 
saúde e maior probabilidade de frequentar uma escola com ensino 
de baixa qualidade.
A educação precária, em geral, limita as opções para esses 
jovens no mercado de trabalho. Sobram-lhes empregos de baixa 
remuneração, em que a possibilidade de crescimento salarial para 
quem tem pouca qualificação é pequena - e a chance de perpetua-
ção do ciclo de pobreza, grande.
Nesse sentido, a desigualdade social e de renda, destaca o le-
vantamento, é definidora do acesso às oportunidades que podem 
fazer com que alguém consiga ascender socialmente.
“Além do chão pegajoso, países como o Brasil têm também te-
tos pegajosos (sticky ceilings)”, acrescenta Stefano Scarpetta, dire-
tor de emprego, trabalho e assuntos sociais da OCDE, referindo-se 
às famílias de alta renda.
O nível elevado de desigualdade também se manifesta sobre a 
mobilidade no topo da pirâmide. Aqui, é pequena a probabilidade 
de que as crianças mais abastadas eventualmente se tornem adul-
tos de classes sociais mais baixas que a dos pais.
Scarpetta pondera que, ao contrário da tendência global de 
aumento da desigualdade, o Brasil conseguiu reduzir suas dispari-
dades na última década, até o início da recessão. O país fez pouco, 
entretanto, para corrigir os problemas estruturais que mantêm em 
movimento o ciclo da pobreza - a qualidade precária da educação e 
da saúde e a falta de treinamento para os milhões de trabalhadores 
de baixa qualificação.
“O Brasil fez um bom trabalho tirando milhões de famílias da 
extrema pobreza, com o Bolsa Família, por exemplo. Falta agora 
fazer a ‘segunda geração’ de políticas”, disse o economista à BBC 
News Brasil.
Classe Média
Quando se analisa a mobilidade apenas do indivíduo, e não de 
uma geração a outra, o estudo da OCDE verifica que, de forma geral, 
a classe média é o estamento com maior flexibilidade - para cima 
e para baixo.
No Brasil, a mobilidade da base da pirâmide para a classe mé-
dia é maior do que em vários emergentes. Essa ascensão, contudo, 
é frágil.
A estrutura do mercado de trabalho, com uma participação ele-
vada do emprego informal, intensifica os efeitos negativos das cri-
ses sobre a população mais vulnerável. Como aconteceu com parte 
da “nova classe média” durante a última recessão, o desemprego 
pode ser um caminho de retorno à pobreza.
Mobilidade Social e Crescimento Econômico
O nível baixo de mobilidade social tem implicações negativas 
sobre o crescimento da economia como um todo, diz o estudo da 
OCDE. Talentos em potencial podem ser perdidos ou subaprovei-
tados, com menos iniciativas na área de negócios e menos inves-
timentos.
“Isso debilita a produtividade e crescimento econômico poten-
cial em nível nacional”, ressalta o texto.
Um elevador social “quebrado” também se manifesta sobre o 
bem-estar social.
A percepção de que a oportunidade de ascensão depende de 
fatores que estão fora do alcance - como a renda dos pais ou o aces-
so a educação - gera desesperança e sentimento de exclusão. Isso 
aumenta a probabilidade de conflitos sociais, diz a pesquisa.
Tendência Global
O problema não é exclusivo dos países emergentes. Mesmo 
países ricos, com desempenho expressivamente superiores ao do 
Brasil nos indicadores de educação - França, Alemanha - estão aci-
ma da média da OCDE entre as estimativas do número de gerações 
necessário para que os 10% mais pobres atinjam a renda média.
“Por mais que esses países tenham bom desempenho no PISA 
(avaliação global do desempenho escolar), esses índices são uma 
média. Países como a França, por exemplo, são bastante heterogê-
neos”, ressalta Scarpetta.
MANIFESTAÇÕES CULTURAIS, MOVIMENTOS SOCIAIS E 
GARANTIA DE DIRETOS DAS MINORIAS
— Contracultura
Nos Estados Unidos e nos países da Europa Ocidental, entre as 
décadas de 1950 e 1960, muitos jovens passaram a criticar os mo-
dos de vida tradicionais e a criar novos estilos de vida e de relações 
sociais. Esse conjunto de contestações da juventude daquela época 
ficou conhecido como contracultura16. 
O movimento da contracultura começou nos EUA, quando uma 
geração de intelectuais e poetas dos anos 1950 - a beat generation 
- passou a criticar os valores conservadores da sociedade estaduni-
dense. Eles negavam o individualismo e o consumismo do chamado 
american way ofl ife. Allen Ginsberg, William Burroughs e Jack Ke-
rouac são os nomes mais conhecidos desse movimento. 
16 História. Ensino Médio. Ronaldo Vainfas [et al.] 3ª edição. São 
Paulo. Saraiva. 
REALIDADE BRASILEIRA
275
a solução para o seu concurso!
Editora
O último escreveu um livro bastante divulgado, On the road, 
de 1957 - que no Brasil foi lançado como Pé na estrada. Na década 
de 1960, a contracultura continuou a expressar a rebeldia de jo-
vens das classes médias contra o consumismo, a cultura de massa, 
a sociedade industrial e a padronização dos comportamentos. Eles 
também se mostravam insatisfeitos com oautoritarismo de seus 
pais e dos governantes. 
Estudantes e intelectuais passaram a incorporar reivindicações 
de grupos considerados minoritários, como os negros, os homos-
sexuais e as mulheres - todos em busca de seus direitos. Grande 
número de jovens se engajou no movimento hippie. Usando roupas 
largas e coloridas e cabelos compridos e sem corte, os hippies recu-
savam a sociedade industrial, massificante e de consumo. 
Eles valorizavam o indivíduo, as ideias de paz, amor e liberda-
de e a vida comunitária. “Paz e amor” era o lema deles. Pacifistas, 
eram contra a guerra e a violência e protestavam distribuindo flo-
res. Em geral, defendiam o amor livre, rejeitando o casamento mo-
nogâmico tradicional. 
Muitos não estudavam nem tinham emprego, viviam em co-
munidades onde comiam o que plantavam e produziam artesanato 
para vender. Alguns se aproximaram das religiões orientais. 
— 1968 
O auge do movimento da contracultura foi em 1968. Protes-
tos de jovens e trabalhadores ocorreram nos Estados Unidos, na 
Europa e na América Latina. Muitos estavam entusiasmados com 
a Revolução Cubana (1959), a Independência da Argélia (1962) e a 
Revolução Cultural na China (1966). 
Com o desejo de mudar o mundo, jovens de vários países pas-
saram a recusar o consumismo capitalista e o modelo de socialismo 
soviético. Nos EUA, milhões de jovens protestaram contra a Guerra 
do Vietnã. Nas universidades, os estudantes organizaram protestos; 
fora delas, os hippies também defendiam o fim do conflito. 
Na Europa, o movimento de rebeldia mais conhecido foi o que 
aconteceu na França e ficou conhecido como Maio de 1968. Em 22 
de março, estudantes ocuparam a Universidade de Nanterre para 
protestar contra a prisão de alguns colegas. Depois, tomaram o 
Quartier Latin, famoso bairro universitário em Paris, erigindo bar-
ricadas. Em 13 de maio, as centrais sindicais comunista e socialista 
declararam greve. 
Trabalhadores e estudantes uniram-se a elas, organizando um 
comando operário-estudantil. Em 20 de maio, 10 milhões de traba-
lhadores estavam em greve. Para contornar a situação, o governo 
Charles de Gaulle convocou eleições, nas quais os chamados gaul-
listas saíram vitoriosos. De Gaulle acionou a polícia para recuperar 
fábricas e universidades que haviam sido tomadas pelos revoltosos, 
perseguiu e prendeu líderes estudantis. 
A partir daí, o movimento de Maio de 1968 recuou. Os protes-
tos estudantis e operários de 1968 também ocorreram no Brasil, no 
México, na Polônia, na Iugoslávia e na Tchecoslováquia. A repressão 
pôs fim à mobilização em toda parte. 
— Conquista dos Direitos Civis
Até meados dos anos 1950, vigorou a segregação racial contra 
os negros nos estados do sul dos EUA. Havia escolas para brancos e 
escolas para negros, restaurantes e bares para brancos e restauran-
tes e bares para negros, banheiros públicos para brancos e banhei-
ros públicos para negros. Nos ônibus e nas praças públicas, havia 
assentos reservados para os brancos e para os negros. 
Em alguns estados sulistas, os negros encontravam dificulda-
des para exercer seus direitos políticos. Em 1954, a Suprema Corte 
dos EUA reconheceu que as escolas públicas para brancos recebiam 
mais recursos dos governos estaduais, e ofereciam um ensino de 
melhor qualidade do que as escolas para negros. Os juízes, então, 
declararam a inconstitucionalidade da segregação racial nas esco-
las: todas as crianças, brancas ou negras, podiam frequentar qual-
quer escola. 
Naquele ano, o negro Martin Luther King foi nomeado pastor 
de uma igreja batista em Montgomery, no estado do Alabama. Em 
seu curso de pós-graduação, ele defendera uma tese sobre o mo-
vimento de resistência pacífica liderado por Mahatma Gandhi, na 
Índia. Ele já tinha se tornado o maior defensor dos direitos da po-
pulação negra quando, em 1955, uma mulher negra, Rosa Parks, foi 
presa em um ônibus. Rosa estava sentada e, pelas leis segregacio-
nistas, deveria ceder seu lugar a um passageiro branco. 
Ela se negou a fazê-lo e acabou detida pela polícia. Luther King, 
em represália, organizou um boicote da população negra aos trans-
portes urbanos em Montgomery. Foi preso e sua casa, atacada. A 
Suprema Corte declarou, então, a inconstitucionalidade da segre-
gação racial nos transportes públicos de todo o país. Foi um avanço 
na luta contra a discriminação. 
Em resposta à resistência da população negra, a organização 
racista Ku Klux Klan empregou táticas de terror. Mas o movimento 
contra a discriminação prosseguiu firme. Recorrendo à resistência 
pacífica, no início de 1963, Luther King liderou grandes protestos 
dos negros por seus direitos civis. Em 1964, Luther King foi vence-
dor do Prêmio Nobel da Paz. Em abril de 1968, ele foi assassinado 
a tiros. 
A luta dos negros estadunidenses continuou e resultou no re-
conhecimento de seus direitos civis e na abolição da discriminação 
em todos os estados do país. 
— Malcolm X e os panteras negras 
Apesar de bem-sucedido na sua estratégia de luta, a lideran-
ça de King começou a ser contestada por setores mais radicais do 
movimento negro, sobretudo sua proposta de integração e convívio 
pacífico com os brancos. Outras lideranças surgiram, como Malcolm 
X. Filho de família pobre, tornou-se líder de um templo muçulmano 
em Detroit e passou a pregar a dignidade dos negros. Era contra a 
estratégia da resistência pacífica. Em fevereiro de 1965, foi assas-
sinado. 
Na segunda metade dos anos 1960, setores do movimento ne-
gro aderiram a propostas ainda mais radicais. Entre elas estava a do 
Partido Pantera Negra para Autodefesa, fundado no final de 1966 
em Oakland, na Califórnia. Sua maneira de luta era muito diferente 
da liderada por Luther King ou Malcolm X. 
Os panteras negras não se amparavam na religião. Declaravam-
-se marxistas e maoistas e recorriam à violência em confrontos ar-
mados com a polícia. Foram duramente reprimidos e a maioria de 
seus líderes, presa. O movimento desapareceu nos anos 1980. 
— O Movimento Feminista
Nos anos 1960, não eram apenas os negros estadunidenses 
que lutavam por direitos civis. As mulheres também reivindicavam 
igualdade perante os homens. Em 1963, elas constituíam 51% da 
população e um terço da força de trabalho. Mas ganhavam menos, 
inclusive quando exerciam um trabalho igual ou ocupavam o mes-
mo cargo que um homem. 
REALIDADE BRASILEIRA
276276
a solução para o seu concurso!
Editora
Algumas funções pareciam impossíveis de serem ocupadas por 
uma mulher, em particular cargos de gerência e direção. As mulhe-
res, além disso, eram minoria nos cursos superiores de graduação 
e pós-graduação. Apesar das conquistas no campo político, em es-
pecial o direito de voto, obtido em 1918, o movimento feminista 
perdeu o ímpeto a partir da década de 1920. 
O renascimento ocorreu nos anos 1960. Em 1963, a ativista 
Betty Friedan publicou o livro The feminine mystique (A mística 
feminina), em que atacava as ideias que reservavam para a mu-
lher apenas o papel de dona de casa e mãe. As feministas foram 
hostilizadas, insultadas e ridicularizadas. Muitos alegavam que a 
igualdade entre os sexos destruiria a instituição do casamento e da 
família. Mas o movimento feminista enfrentou todos os obstáculos 
com sucesso. 
Em 1964, a legislação federal proibiu qualquer discriminação 
no trabalho por motivo de raça e também de sexo. Nos anos seguin-
tes, uma série de leis garantiu às mulheres direitos civis e a igual-
dade perante os homens, a exemplo da criminalização do assédio 
sexual no trabalho e da abertura da carreira militar para elas. 
O movimento se expandiu por diversas partes do mundo, resul-
tando em campanhas e leis específicas contra a violência doméstica 
e a favor da equiparação das mulheres aos homens no tocante aos 
direitos civis. 
Características
• Política fundamentada na profunda centralização de poder e 
no autoritarismo 
• Controle da nação por meio dos Atos Institucionais, dispositi-
vos contrários à Constituição Federal 
• Intervenção estatal na economia,com desenvolvimento eco-
nômico nos padrões capitalista e tecnoburocrático, com dependên-
cia monetária internacional 
• Princípios da Escola Monetarista (Industrialização Excluden-
te) 
• Modernização da infraestrutura (transporte, comunicação, 
energia e saneamento) 
• Ampliação da linha de crédito para classes média e média-
-alta 
Movimentos sociais 
• Movimento Sindical: ressurgiu a partir de 1974, confrontan-
do a ditadura de forma mais direta e caracterizando o fim dos anos 
1970 como uma intensa onda de greves, que sofreram fortes re-
pressões. 
• Vanguarda Popular Revolucionária (VPR): movimento de 
guerrilha formado por militares dissidentes, criado em 1966, con-
trário à postura do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e à sua inope-
rância diante ao Golpe de 1964.
• Movimentos das comunidades eclesiais de base: articulados 
pela Igreja Católica, especialmente pelos adeptos à Teologia da Li-
bertação, esses grupos denunciavam episódios de prisões políticas 
e torturas, reivindicando direitos humanos mínimos. 
• Associações de moradores: esses grupos se multiplicavam no 
período do regime militar, com o objetivo de lutar por melhores 
condições de vida, principalmente em relação à saúde, educação e 
saneamento. 
• Movimento sanitarista: naquele sistema, a saúde pública es-
tava limitada a poucos e respaldada no Instituto Nacional de Assis-
tência Médica da Previdência Social (INAMPS), fundado em 1974, 
para dar assistência apenas aos trabalhadores das zonas urbanas e 
que possuíam registro em carteira, ou seja, previdenciários. 
• Movimento estudantil: Impulsionados pela Reforma Univer-
sitária de 1968 e pelo Decreto no 477, que suspendeu quaisquer 
manifestações estudantis, e, ainda pelo Ato Institucional n. 5 (AI5), 
os estudantes se encarregaram da principal atuação no enfrenta-
mento à ditadura. A União dos Estudantes (UNE) teve papel funda-
mental nesse movimento. 
DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO, CONCENTRAÇÃO DA 
RENDA E RIQUEZA
O Estado na década de 197017
A década de 1970 foi marcada por uma intensa participação 
do Estado na economia em todo o mundo, especialmente no Bra-
sil. Isso se deu, em grande parte, em virtude de empresas públicas 
oferecerem infraestrutura para o setor privado. O Estado brasileiro 
durante 50 anos (1930–1970) criou e absorveu empresas do setor 
privado por vários motivos, como nacionalismo econômico, socor-
ro a empresas privadas, recursos insuficientes por parte do setor 
privado em setores estratégicos da economia nacional e riscos ele-
vados em investimentos de infraestrutura com grandes períodos de 
maturação.
Martins (1985) aponta que a participação do Estado brasileiro 
na economia durante a década de 1970 foi caracterizada por um 
movimento de forças centrípetas – de concentração de recursos 
no governo federal – e de forças centrífugas – de disseminação de 
agências e empresas independentes e relativamente autônomas 
para a alocação dos recursos supramencionados. Conforme o autor, 
somente de 1971 a 1976 foram criadas 131 empresas estatais, sen-
do 67 pela União, 59 pelos estados e 5 pelos municípios.
Havia cerca de 300 empresas estatais, somente no âmbito fe-
deral, em 1979. Essas empresas variavam desde bancos até siderúr-
gicas, empresas de petróleo, hotéis e outros setores. Segundo Pêgo 
Filho et al. (1999), entre 1970 e 1981, a poupança bruta do setor 
produtivo estatal federal correspondeu a 3,68% do PIB, em média, 
representando 18,68% de toda a poupança bruta do setor privado.
Além disso, a década de 1970 caracterizou-se como um perío-
do de déficit público elevado para o equilíbrio macroeconômico e 
de níveis de inflação acima do que seria desejado. Ademais, o ex-
pansionismo estatal levou a grandes projetos de infraestrutura sob 
a responsabilidade do Estado, o que exigiu montantes de capital 
para sua implementação.
A partir da primeira e, principalmente, da segunda crise do pe-
tróleo em 1973 e 1978, respectivamente, houve uma deterioração 
das contas públicas da maioria dos países, gerando graves desequilí-
brios macroeconômicos. Nesse contexto, o Estado brasileiro perdeu 
praticamente toda sua capacidade de investimento, o que adveio 
do progressivo endividamento público. No âmbito microeconômi-
17 ARAÚJO, Wagner Frederico Gomes de. As estatais e as parcerias público-
privadas: o Project Finance como estratégia de garantia de investimentos em 
infraestrutura e seu papel na reforma do estado brasileiro. in: PRÊMIO DEST MO-
NOGRAFIAS: EMPRESAS ESTATAIS. Embrapa Informação Tecnológica, Brasília, 
DF.2009 - Adaptado
REALIDADE BRASILEIRA
277
a solução para o seu concurso!
Editora
co, ocorreu uma forte contração dos empréstimos e financiamentos 
externos a empresas nacionais, tanto estatais quanto privadas. As 
empresas estatais, portanto, não possuíam mais recursos disponí-
veis para grandes empreendimentos de infraestrutura. Essa redu-
ção de despesas implicou uma deterioração do estoque de capital 
em infraestrutura e, consequentemente, gerou estrangulamentos 
em setores importantes para a retomada do desenvolvimento eco-
nômico.
Em vários países, a reação às crises da década de 1970 foi se-
guida por processos de reforma do Estado, com a diminuição de 
seu papel como provedor de infraestrutura, gerando uma onda de 
privatizações e concessões ao setor privado. Na Grã-Bretanha, o 
lema tornou-se o rolling back the State durante o governo That-
cher quando, além das privatizações, foram disseminados contratos 
de desempenho para os prestadores de serviços de infraestrutura 
ou de utilidade pública (MACEDO; ALVES, 1997). Na Nova Zelândia, 
considerado um dos países com reformas mais radicais, foram im-
plementadas grandes mudanças macroeconômicas, com um agres-
sivo programa de privatizações, além da terceirização de várias ati-
vidades estatais (CARVALHO, 1997).
A estratégia das privatizações surgiu como tentativa de ajus-
te nas contas públicas, por meio da venda de ativos produtivos do 
Estado, seja para redução do estoque da dívida pública, seja para 
redução da demanda de recursos fiscais para gastos em infraestru-
tura. Dessa forma, uma das principais justificativas para a privatiza-
ção, no âmbito macroeconômico, foi o ajuste fiscal. Mais empresas 
privadas significavam, igualmente, maior arrecadação tributária 
para o governo, o que também poderia contribuir para a melho-
ra das contas públicas. No plano microeconômico, as privatizações 
foram justificadas pelos ganhos de eficiência das empresas sob o 
controle privado e sua maior capacidade de investir. Giambiagi e 
Além (2000) apontam que não se pode garantir maior eficiência 
apenas pela transferência ao setor privado, não havendo diferenças 
significativas entre ambos, sendo que o principal contraste é que 
as empresas estatais também têm um papel importante na política 
econômica do governo.
No Brasil, pode-se identificar três fases da privatização (PINHEI-
RO; GIAMBIAGI,1997):
a) Década de 1980 – A primeira fase se deu por um processo de 
reprivatizações, com o objetivo de sanear a carteira do BNDES5, o 
que ocorreu sem a privatização de grandes empresas estatais. Essa 
fase permitiu ao BNDES adquirir know-how para se tornar o princi-
pal agente de privatizações posteriormente.
b) De 1990 a 1995 – Em 1990, foi lançado o Plano Nacional 
de Desestatização (PND). Nessa fase ocorreu a venda de empresas 
tradicionalmente estatais, além da privatização de setores inteiros. 
A privatização significava ainda uma peça importante na estratégia 
do governo de ajuste macroeconômico. Grandes empresas, como a 
Usiminas, escolhida para inaugurar o processo, foram privatizadas.
c) A partir de 1995 – Em 1995 foi aprovada a Lei de Concessões, 
estabelecendo regras para a exploração de serviços públicos pelo 
setor privado, abrindo caminho para um processo de maciça pri-
vatização, principalmente nos setores de infraestrutura e serviços 
públicos, como telecomunicações e energia elétrica.
Com a privatização dos serviços públicos, a partir de 1995, foi 
necessário umesquema de regulação das empresas privadas que 
atendiam aos cidadãos, pois, a despeito de ser de iniciativa privada, 
os serviços públicos têm que ser garantidos pelo Estado. O Estado 
simplesmente delega os serviços públicos ao setor privado sob con-
dições e prazos acordados, tendo o setor privado a obrigação de 
investimentos previamente definidos (MOREIRA; CARNEIRO, 1994).
As estatais remanescentes tiveram seu papel estratégico exal-
tado, assumindo um papel seletivo, mas importante na economia 
brasileira, como é o caso da Embraer ou da Petrobras. Ademais, sua 
gestão foi profissionalizada, uma vez que se trata instituições de di-
reito privado.
Dessa forma, a interação entre o setor público e o setor priva-
do, inclusive as estatais, tem que ser contínua, pois a partir dessa 
interação será consolidada a posição do setor privado em infraes-
trutura. O fato de o Estado brasileiro ainda ocupar um papel fun-
damental na economia nacional e a melhora do cenário macroe-
conômico na década de 1990 criam condição para que se efetive a 
parceria público-privada nos setores de infraestrutura.
O Plano Metas e Bases Para a Ação do Governo (1970-1973)18
O plano Metas e Bases para a Ação do Governo (MBAG), foi 
adotado pelo governo federal durante o período em que Médici es-
tava na presidência, divulgado em outubro de 1970. O governo não 
pretendia criar um novo plano imediatamente e, assim, o MBAG 
complementou-se com outros dois documentos: o Orçamento 
Plurianual de Investimentos de 1971 a 1973 e o I Plano Nacional de 
Desenvolvimento Econômico e Social (1972 a 1974). Neste plano 
ficaria estabelecida a sistemática segundo a qual cada governo exe-
cutaria o último ano do Plano Nacional de Desenvolvimento, com as 
correções que julgasse necessárias.
O MBAG estabeleceu como prioridades nacionais para o perío-
do de 1970 a 1973 (auge do Milagre Econômico) as seguintes: in-
vestimentos em educação, saúde, saneamento, agricultura e abas-
tecimento e o avanço no desenvolvimento científico e tecnológico.
O documento identificava como objetivo síntese o ingresso do 
Brasil no mundo desenvolvido até o final do século (Brasil, 1970). 
Este objetivo síntese incorporava os seguintes objetivos básicos:
- crescimento econômico com elevação da taxa de crescimento 
do produto real para no mínimo 7 a 9% a.a., evoluindo para 10% 
a.a.;
- expansão do emprego para a ordem de 3,3% a.a.;
- controle da taxa de inflação;
- expansão das receitas de exportação;
- progresso social e melhoria na distribuição de renda;
- correção gradual de desequilíbrios regionais e setoriais;
- estabilidade política e segurança nacional.
O Plano Trienal (1963-1964)19
Em 1961 o presidente Jânio Quadros criou a Comissão Nacio-
nal de Planejamento (COPLAN) que coexistiu por algum tempo com 
o Conselho de Desenvolvimento. Posteriormente, Celso Furtado, 
como Ministro Extraordinário para o Planejamento, preparou o Pla-
no Trienal de Desenvolvimento Econômico e Social para o período 
de 1963 a 1965, já durante o regime parlamentarista do governo de 
João Goulart. O plano foi criado com os objetivos básicos de promo-
ver um desenvolvimento econômico rápido e estabilizar o nível de 
preços. Foram propostas as seguintes metas:
18 MATOS, Patrícia de Oliveira. Análise dos planos de desenvolvimento elabora-
dos no Brasil após o II PND. Dissertação (mestrado) Escola Superior de Agricultu-
ra Luiz de Queiroz, 2002. Adaptado
19 Idem
REALIDADE BRASILEIRA
278278
a solução para o seu concurso!
Editora
- crescimento de 7% do PNB que deveria ser repassado aos sa-
lários reais com o objetivo de distribuir melhor a renda;
- promoção das Reformas de Base (principalmente a Reforma 
Agrária);
- refinanciamento da dívida externa do país;
- redução progressiva da pressão inflacionária, de modo que 
em 1965 a elevação do nível de preços não fosse superior a 10%;
- redução das desigualdades regionais dos níveis de vida;
- melhoria da qualidade do ensino.
Para o governo da época, a realização destas metas só seria 
possível mediante o controle do processo inflacionário, que se tor-
nou o objetivo prioritário do plano. A origem da inflação foi asso-
ciada ao período de crescimento econômico de 1957 a 1961 com o 
aumento da participação do setor público na economia e também 
devido aos problemas estruturais do setor externo vinculados ao 
processo de substituição de importações.
O plano continha as seguintes metas para o controle inflacio-
nário:
- redução do dispêndio público programado;
- captação de recursos do setor privado no mercado de capitais;
- política fiscal com aumentos progressivos da carga tributária.
O Plano Trienal possuía uma maior abrangência, programa e 
metodologia e modificou as concepções a respeito da política e 
programação econômica no Brasil. Este plano é considerado um 
marco histórico uma vez que foi além da concepção plurissetorial, 
determinando linhas de ação com projeções globais da economia e 
tendo como objetivo amplas modificações estruturais como: a dis-
tribuição de renda, melhoria de recursos humanos, correção das 
disparidades regionais, organização do setor governamental e eli-
minação de entraves institucionais. Os tipos de investimento prio-
rizados no Plano Trienal incluíam a ampliação da base de recursos 
naturais economicamente utilizáveis, o aperfeiçoamento do fator 
humano, investimentos sociais, estes da alçada do setor público, e 
investimentos estruturais e infraestruturas como indicativos para o 
setor privado.
O Plano Trienal caracterizou-se ainda pelo seu caráter globa-
lista e pelo fato de ter se ajustado ao quadro das motivações que 
levam o Estado a participar diretamente do processo de formação 
de capital em suplementação ao setor privado. Alinhou-se também 
às motivações decorrentes do processo de coordenação geral da 
economia, formulando diretrizes básicas para a orientação do cres-
cimento econômico.
Contudo, Singer (1977) considera que o Plano Trienal não era 
um plano de desenvolvimento econômico e social do país, mas ape-
nas uma plataforma de ação do governo federal.
Para Bresser Pereira (1998), o Plano Trienal não teve condições 
políticas para ser aplicado, dada a crise que o país atravessava no 
início dos anos 60 e que acabou culminando com o golpe militar 
em 1964. O Plano Trienal conseguiu sobreviver apenas até meados 
de 1963, quando todo o ministério de João Goulart foi substituído.
Segundo Sandroni (2000), com relação aos planos anteriores, o 
Plano Trienal apresentou a vantagem de partir de uma visão global 
da economia, mas a sua parte setorial não obedeceu a um esquema 
uniforme de apresentação e muitos dos seus objetivos não foram 
definidos quantitativamente, sendo apresentados sob a forma de 
diretrizes gerais.
Segundo Rossetti (1991), o Plano Trienal não descuidou da cor-
reção de desajustamentos, ao estabelecer objetivos para o controle 
progressivo da pressão inflacionária, para a atenuação dos custos 
sociais do crescimento econômico e para a redução das desigualda-
des regionais de níveis de vida.
Contudo, o Plano Trienal não logrou êxito, como o Plano de 
Metas, devido principalmente às pressões exercidas por grupos po-
pulistas que impediam a implantação de medidas mais rigorosas de 
controle da inflação e às pressões exercidas por classes economi-
camente dominantes que tentavam impedir as Reformas de Base.
Mesmo assim, o Plano Trienal contribuiu significativamente 
para o aprimoramento dos instrumentos de política econômica.
O Plano de Ação Econômica do Governo (1964-1967)
O Plano de Ação Econômica do Governo (PAEG) teve a sua im-
plantação a partir do início do regime militar em 1964. Ele surgiu 
como uma reação das classes conservadoras contra as posições re-
formistas contidas no Plano Trienal, porém atingiu níveis de agrega-
ção tão amplos quanto este. O plano procurava dar consistência às 
estratégias de reformas econômicas do primeiro governo militar, o 
governo do general Castelo Branco.
O PAEG assumiu uma posição menos reformista, com traçospredominantemente liberais e propostas de caráter ortodoxo, mas 
sem abandonar a interferência governamental na economia, justi-
ficando a ação estatal contida no plano a partir das deficiências do 
sistema de preços. As deficiências apontadas pelo plano foram as 
seguintes: o livre jogo das forças de mercado não garante neces-
sariamente a formação de um volume desejável de poupança, o 
sistema de preços nem sempre incentiva investimentos em setores 
essenciais como por exemplo, educação, transportes; e o sistema 
de preços não leva necessariamente a uma distribuição de renda 
razoável entre pessoas e regiões.
Apesar disso, segundo o PAEG, o Estado não elimina o papel 
da livre empresa e do mecanismo de preços, ele age apenas como 
regulamentador e tem um caráter meramente indicativo.
O PAEG foi elaborado pelos ministros Roberto Campos e Otávio 
Gouvêa de Bulhões com base na ortodoxia e no arrocho salarial, 
mas conseguiu realizar reformas importantes que os outros gover-
nos não puderam implantar, tais como: a reforma bancária, com 
a criação do Banco Central; a reforma do mercado de capitais; a 
criação do FGTS e do BNH e a instituição da correção monetária.
O fato mais relevante a ser comentado sobre o PAEG é o de que 
este marca um período de transição na vida política e econômica 
do país. Contudo, o PAEG não teve a pretensão de apresentar-se 
como um plano global de desenvolvimento, mas apenas como um 
programa de ação coordenada do governo no campo econômico. 
Estes traços liberais no entanto não correspondem às medidas im-
plementadas no período de 1964 a 1966. Nesta época, o número 
de empresas estatais aumentou muito (em 1966 35% das estatais 
existentes haviam sido criadas sob a vigência do PAEG).
As principais medidas do PAEG referem-se às destinadas ao 
controle da inflação que vinha aumentando muito desde 1959, che-
gando a atingir 90% em 1963. Estas medidas englobam a reforma 
tributária, com elevação da tributação para reduzir a renda disponí-
vel, a redução das emissões monetárias, o estímulo às exportações 
REALIDADE BRASILEIRA
279
a solução para o seu concurso!
Editora
e redução das importações e um severo controle dos salários e dos juros. O diagnóstico da economia brasileira como uma economia 
inflacionária também gerou a criação das Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional (ORTN) que permitiu ao governo a captação de 
recursos por via não inflacionária.
A inflação durante o período de vigência do PAEG foi diagnosticada como tendo componentes de demanda e de custos e, segundo 
Sandroni (1999), a inflação de custos foi localizada no processo de substituição de importações, incentivado por barreiras alfandegárias. 
Para este autor, o protecionismo permitia um aumento espiral nos custos dos setores substitutivos.
O PAEG atingiu seus objetivos no que se refere à redução da inflação, melhoria do saldo das contas públicas e recuperação das expor-
tações agrícolas, não conseguiu porém, evitar a recessão e o aumento do desemprego.
Segundo Tavares (1972), durante o período de 1964 a 1967 foram modificadas em profundidade as regras do jogo institucional. Não 
só do setor público, como no que se refere aos mecanismos de acumulação interna das empresas e aos esquemas de seu financiamento 
externo. Assim, a economia brasileira pôde voltar a crescer em novas condições de financiamento, mantendo aparentemente, o mesmo 
padrão estrutural de crescimento, apenas mais acentuadamente desequilibrado e concentrador. A natureza do problema central da acu-
mulação naquele período de transição consistia na necessidade de transferir excedentes dos setores atrasados ou pouco dinâmicos para 
os de maior potencial de expansão.
O Plano previa uma taxa anual de investimento bruto de 17% do produto, que, associada a taxas anuais de depreciação de 5%, cresci-
mento populacional de 3,5% e a uma relação incremental capital-produto de 2:1, permitiria uma elevação da renda per capita de 2,5 % a.a.
Neste período também foi realizada a Reforma Administrativa, na qual foram introduzidas modificações de largo alcance na estrutura 
do planejamento do país. Um dos objetivos da Reforma foi a institucionalização do planejamento governamental, firmando a norma de 
que a ação do governo obedeceria a programas gerais e setoriais de duração plurianual, elaborados através dos órgãos de planejamento, 
sob a orientação e coordenação geral do presidente da república. A Reforma estabeleceu que o planejamento constituiria um dos princí-
pios fundamentais da administração federal, compreendendo a elaboração e atualização dos seguintes instrumentos básicos:
- plano geral do governo;
- programas setoriais e regionais de duração plurianual;
- orçamento programa anual;
- programação financeira de desembolso.
A Constituição de 24/01/67 estabeleceu a competência do Congresso Nacional para dispor sobre os “planos e programas nacionais, 
regionais e orçamento plurianuais” estipulando também que “as despesas de capital obedecerão ainda a orçamentos plurianuais de in-
vestimento, na forma prevista em lei complementar” e que “o orçamento consignará dotações plurianuais para a execução dos planos de 
valorização das regiões menos desenvolvidas do país.”
Alguns dos resultados macroeconômicos durante o período de vigência do PAEG podem ser analisados na tabela:
Tabela. Brasil - variáveis macroeconômicas nos anos 60.
Fonte: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) (2002)
PIB*- Taxa de crescimento;
Taxa de Investimento* - Formação Bruta de Capital Fixo/PIB;
Inflação* - variação do IGP- DI;
Déficit Público* - Gov. Federal e Banco Central (títulos). Em R$ Milhões (deflator:
IGP-DI).
O primeiro Plano Nacional de Desenvolvimento (1972-1974)
Em 15 de setembro de 1971 foi encaminhada ao Congresso, juntamente com o segundo Orçamento Plurianual de Investimentos, a 
proposta do I Plano Nacional de Desenvolvimento (I PND). O I PND definiu os seguintes objetivos nacionais:
- colocar o Brasil, no espaço de uma geração, na categoria de nação desenvolvida;
- duplicar, até 1980, a renda per capita do país (em comparação com 1969)
- expandir o PIB de Cr$ 222,8 bilhões em 1972 para Cr$ 314,5 bilhões em 1974 (a preços de 1972);
REALIDADE BRASILEIRA
280280
a solução para o seu concurso!
Editora
- investimentos nas áreas de siderurgia, petroquímica, trans-
porte, construção naval, energia elétrica e mineração;
- prioridades sociais: agricultura, programas de saúde, educa-
ção, saneamento básico e incremento à pesquisa técnico- científica;
- ampliação do mercado consumidor e da poupança interna 
com os recursos do PIS e do PASEP;
- aumento da taxa de investimento bruto de 17% em 1970 para 
19% em 1974;
Para isto, pressupunha a manutenção de taxas anuais de cres-
cimento do PIB de 8 a 10%; taxa de expansão do nível de emprego 
de 3,2%, redução da taxa de inflação até o nível de 10%; dissemi-
nação dos resultados do progresso econômico em termos sociais e 
regionais; estabilidade política e segurança interna e externa (Bra-
sil, 1971).
O I PND foi elaborado durante a gestão do ministro do plane-
jamento Reis Velloso, ainda no governo Médici, e coincidiu com a 
expansão cíclica do período do Milagre Econômico. Segundo Fur-
tado (1981), o extraordinário crescimento da produção manufa-
tureira brasileira, no período em que se convencionou chamar de 
“milagre”, ocorreu sem que operassem modificações significativas 
na estrutura do sistema, ou sem que este alcançasse níveis altos de 
capacidade de autotransformação.
O I PND foi baseado no binômio político ideológico de segu-
rança e desenvolvimento e representou uma ampla formulação do 
“modelo brasileiro de organizar o Estado e moldar as instituições”. 
Os projetos de desenvolvimento do I PND seriam completados com 
o PIN (Programa de Integração Nacional), cujos objetivos eram a 
construção da Rodovia Transamazônica e colonização das regiões 
por ela cortadas; ampliar para 40 mil hectares a área irrigada do 
Nordeste e distribuir 70 mil títulos de propriedades rurais a possei-ros e agricultores sem-terra.
Segundo Sandroni (2000), ao final do triênio 72/74, confir-
mou-se o elevado grau de execução do I PND, sobretudo na área 
econômica. Contudo, alguns projetos sociais tiveram um grau de 
execução bem abaixo do previsto. Dos 40 mil hectares estipulados 
para a irrigação no Nordeste foram irrigados apenas 5674 hectares. 
No saneamento básico, a rede de esgoto assegurou o atendimen-
to a 500 mil pessoas em lugar dos 5 milhões constantes do I PND. 
No campo industrial o maior crescimento ocorreu no setor de bens 
de consumo duráveis o que acabou gerando um aumento nas im-
portações de meios de produção. A inflação prevista para 10% a.a. 
Atingiu os 35%.
Para a avaliação dos resultados dos planos de desenvolvimento, 
foi implementado, em 1972, o Programa de Acompanhamento dos 
Planos Nacionais de Desenvolvimento que constituía a atividade 
permanente dos órgãos que integravam o sistema de planejamento 
e tinha por objetivo a avaliação da execução, revisão, complemen-
tação e aperfeiçoamento dos Planos Nacionais de Desenvolvimento 
e os respectivos instrumentos de controle e implementação.
Este trabalho era realizado por meio de:
- análise do desempenho total da economia e do comporta-
mento de seus setores prioritários;
- avaliação do progresso alcançado na execução dos programas 
e projetos;
- identificação dos pontos de estrangulamento e obstáculos 
institucionais que dificultam a consecução das metas e a execução 
de programas e projetos.
Segundo Holanda (1983), pretendia-se fazer com que esse pro-
grama viesse a contribuir para a efetiva institucionalização de um 
sistema integrado de planejamento. Com base no programa, o rela-
tório de acompanhamento do I PND relativo ao exercício de 1972, 
mostrou que das 34 metas setoriais mais importantes, 19 haviam se 
enquadrado na faixa de execução de 90 a 99% e apenas 6 apresen-
tavam um índice de execução de menos de 80%.
O I PND, concedeu maior ênfase à indústria de bens de consu-
mo duráveis, liderada pela indústria automobilística. Mas, apesar 
de haver um intenso crescimento econômico neste período, o plano 
acabou intensificando as distorções distributivas do país.
Tavares (1972) considera que o desenvolvimento do período 
se fez com graves pressões inflacionárias e com o aumento do de-
sequilíbrio externo e das desigualdades regionais, embora não seja 
menos significativo, o fato de que o Brasil foi um dos poucos países 
da América Latina que conseguiu manter um ritmo de crescimento 
elevado na época e em que o processo de substituição de importa-
ções avançou até níveis de integração industrial maiores.
Tem-se assim, um grande avanço no processo de substituição 
de importações neste período. No entanto, em fins de 1973, a ma-
nutenção do ciclo expansionista dependeria cada vez mais de uma 
situação externa favorável. O Choque do Petróleo no final deste 
ano, veio tornar esta situação mais adversa e elevar a taxa de in-
flação interna. Diante da condição externa desfavorável e da dimi-
nuição da capacidade de financiamento do setor público, o modelo 
de crescimento do Milagre se esgotou e o governo se viu obrigado 
a optar entre uma política de ajustamento ou de financiamento.
A política de ajustamento causaria a contenção da demanda 
interna e evitaria que o choque do setor externo se transformasse 
em inflação permanente. A política de financiamento manteria o 
crescimento em níveis elevados, fazendo ajustes graduais de preços 
relativos, enquanto houvesse financiamento externo abundante. 
Inicialmente o governo da época escolheu o ajustamento, mas não 
conseguiu atingir os efeitos desejados. O governo então optou pela 
continuidade do processo de desenvolvimento lançando, em fins 
de 1974, o II PND.
O segundo Plano Nacional de Desenvolvimento (1975-1979)
O segundo Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND), do 
período de 1975 a 1979, constituiu a mais ampla e articulada expe-
riência de planejamento no Brasil após o Plano de Metas. Foi elabo-
rado durante o governo Geisel, pelo ministro do planejamento Reis 
Velloso, permanecendo em vigor até o primeiro ano do governo 
Figueiredo.
O II PND mudou a ênfase do desenvolvimento para a indústria 
de bens de capital, mas foi considerado um fracasso pois coinci-
diu com a fase de retração cíclica da economia. O plano buscava a 
preservação do modelo de desenvolvimento, admitindo que a con-
tinuidade do crescimento exigiria uma “reconstrução estrutural” 
com um esforço bem maior de acumulação por unidade adicional 
de produto. Assim, o II PND foi lançado apesar de o governo reco-
nhecer as dificuldades para manter taxas de crescimento da ordem 
de 10%, face à crise externa. Mesmo assim, optava pelo crescimen-
to acelerado como “política básica”.
O plano realizou alterações nas prioridades de industrialização 
brasileira: do setor de bens de consumo duráveis para o setor pro-
dutor de meios de produção, principalmente a indústria siderúrgi-
ca, máquinas, equipamentos e fertilizantes, sendo as empresas es-
tatais o agente central destas transformações. O plano enfatizou a 
REALIDADE BRASILEIRA
281
a solução para o seu concurso!
Editora
abertura na política externa, o mercado interno e a empresa privada nacional, o combate à inflação, a exploração do potencial hidrelétrico 
e a continuação do processo de substituição de importações. A principal meta do II PND era a manutenção da taxa de crescimento econô-
mico em torno de 10% ao ano, com crescimento industrial em torno de 12%.
Segundo Sandroni (2000), o II PND propunha transformar o Brasil em uma “potência emergente” deslocando-o do Terceiro Mundo 
para o espaço dos países altamente industrializados. Para isto propunha substituir importações, elevar as exportações e ampliar o merca-
do interno consumidor. O investimento total seria de 1 trilhão e 750 bilhões de cruzeiros, para assim atingir um PIB da ordem de US$120 
bilhões e uma renda per capita de US$ 1000,00. O nível de crescimento industrial deveria situar-se em torno de 12% a.a., as exportações 
deveriam crescer a 20% a.a. e a agricultura a 7%. Quanto à ampliação do mercado consumidor, as diretrizes do II PND, não eram claras. 
Isto decorria da política salarial que reduzia o poder de compra dos assalariados. Assim, o crescimento do mercado interno estaria mais 
relacionado ao aumento populacional e à expansão do emprego.
Para Furtado (1981), os objetivos estratégicos do II PND podem ser sintetizados em 2 pontos: ampliar a base do sistema industrial e 
aumentar o grau de inserção da economia no sistema de divisão internacional do trabalho. Estes objetivos refletiam a percepção da neces-
sidade de reestruturação do sistema produtivo, que requeria a elevação da taxa de investimento e, com intensidade ainda maior, da taxa 
de poupança. No entanto, os resultados da execução do plano ficaram bem aquém do esperado. De 1975 a 1979 a produção manufatureira 
cresceu a 6,8% ao ano, a produção de bens de capital a 7% e a de bens de consumo duráveis a 7,4% ao ano.
O Conselho de Desenvolvimento Econômico (CDE) foi o principal órgão de implementação do plano, visando dar garantias de de-
manda e incentivos ao setor privado. Já a sustentação política do plano assentou-se no capital financeiro nacional, nas empreiteiras e nas 
oligarquias arcaicas. Desta forma, o governo buscava dar suporte ao plano, restando para isso equacionar a questão do financiamento.
Assim, as empresas estatais foram forçadas ao endividamento externo para cobrir o hiato de divisas. Além disso, houve uma estatiza-
ção da dívida externa e ampliação da mesma devido, entre outros aspectos, à facilidade de obtenção de recursos no exterior. Esta facilida-
de decorria da ampla liquidez no mercado internacional.
Para realizar o II PND, o Estado foi assumindo um passivo para manter o crescimento econômico e o funcionamento da economia (Vas-
concellos et al., 1999). O endividamento do governo nesta época teve como consequência a deterioração da capacidade de financiamento 
do setor público na décadade 80, uma vez que socializaram-se todos os custos do II PND (aumento nos gastos sem criar mecanismos ade-
quados de financiamento). O endividamento direto externo foi estimulado paralelamente ao aumento da dívida interna, impossibilitando 
progressivamente os grandes projetos governamentais. Este fato exigiu constantes revisões nas metas do II PND.
Segundo Sandroni (2000), durante a vigência do plano ocorreu uma variável não prevista: a necessidade de desaquecimento da eco-
nomia. Este autor fez o seguinte balanço do plano: significativos avanços na geração de bens de capital, de energia, prospecção de petróleo 
e produção de álcool, mas o alcance dos objetivos estaria muito aquém do que foi traçado para o aumento do PIB, da renda per capita, das 
exportações e da ampliação do mercado consumidor.
A crise mundial está entre as causas da desaceleração do II PND, além dos limites estruturais do próprio plano. Segundo Lessa (1981), 
o II PND era impossível de ser implementado, em função do seu gigantismo e da crise econômica mundial, uma vez que se tratava de um 
verdadeiro projeto de Nação-Potência, não apoiado pelas bases de sustentação do regime militar. Já Castro (1985), considerava que os 
grandes projetos do II PND, pela sua complexidade e longo prazo de maturação teriam começado a produzir resultados visíveis somente 
a partir de 1983 e 1984, e as dificuldades acima mencionadas teriam apenas levado à diminuição do ritmo de investimentos a partir de 
1976, mas não à sua paralisação total.
Para Bresser Pereira (1998), o plano não reconheceu que o Brasil (e o mundo) entravam naquele momento em uma fase de declínio ou 
desaceleração cíclica que tornavam inviáveis a maioria de suas metas. No entanto, este foi importante para estimular de forma definitiva 
a implantação da indústria de bens de capital no Brasil.
Tabela. Resultados macroeconômicos durante o II PND.
Fonte: IPEA (2002)
PIB* - Taxa de Crescimento;
Indústria* - Taxa de Crescimento;
Formação Bruta de Capital Fixo/ Produto Interno Bruto* - (Taxa de Investimento);
Inflação* - Variação do IGP-DI;
Dívida Externa* - US$ (Bilhões).
REALIDADE BRASILEIRA
282282
a solução para o seu concurso!
Editora
O terceiro Plano Nacional de Desenvolvimento (1980 - 1985) e 
a nova realidade econômica
O terceiro Plano Nacional de Desenvolvimento foi elaborado 
em 1979, em plena crise econômica, durante o governo do presi-
dente Figueiredo, pelo ministro Delfim Neto que, paradoxalmente, 
era considerado um descrente do planejamento econômico.
O plano foi projetado para o período de 1980 a 1985, embora 
tenha sido interrompido já no segundo semestre de 1980. Neste 
período, já não existia o clima de “euforia desenvolvimentista” que 
marcou os PND’s anteriores. Segundo Giacomoni (1996), o país co-
meçava a sofrer as consequências da crise econômica internacional 
e o governo federal, alegando que a instabilidade impedia qualquer 
programação de mais longo prazo, passou a governar com medidas 
de curto e curtíssimo prazo.
O III PND reconheceu como setores prioritários da economia 
brasileira a agricultura e o desenvolvimento de novas fontes de 
energia. Quanto aos seus objetivos, o III PND pouco se diferenciava 
dos planos anteriores mantendo como objetivo síntese a constru-
ção de uma sociedade desenvolvida, livre, equilibrada e estável, em 
benefício de todos os brasileiros, no menor prazo possível. Segundo 
o documento oficial do III PND, foram considerados os seguintes 
objetivos prioritários:
- acelerado crescimento da renda e do emprego;
- melhoria da distribuição da renda, com redução dos níveis de 
pobreza absoluta e elevação dos padrões de bem-estar das classes 
de menor poder aquisitivo;
- redução das disparidades regionais;
- contenção da inflação;
- equilíbrio do Balanço de Pagamentos e controle do endivida-
mento externo;
- desenvolvimento do setor energético;
- aperfeiçoamento das instituições políticas.
No entanto, estes objetivos não foram alcançados, até porque 
não houve qualquer implementação do plano.
Na realidade, o III PND não pode ser considerado como um 
plano de desenvolvimento, mas como uma simples declaração de 
intenções pelo governo. Segundo Lopes (1990), o plano foi prepa-
rado apenas para o cumprimento de uma determinação legal, sob a 
égide de um ministério cujo comandante não via qualquer utilidade 
prática no processo de planejamento e, sendo assim, o III PND viu-
-se logo relegado ao esquecimento.
Para Bresser Pereira (1998), o III PND refletiu não apenas a crise 
econômica como também a própria crise do governo, incapaz de 
formular um plano de ação coerente.
Holanda (1983), considera que o III PND foi influenciado pelo 
impacto do choque do petróleo e dos juros internacionais que tor-
naram precárias quaisquer projeções econômicas. Para este autor, 
o plano se caracterizava como um documento basicamente quali-
tativo, definindo diretrizes, critérios e instrumentos de ação. E, em 
função das incertezas e das restrições decorrentes da crise energé-
tica, da dívida externa e das pressões inflacionárias não apresentou 
metas quantitativas.
Assim, o III PND marca o fim do processo de planejamento 
como efetivo instrumento de controle da política econômica do 
país. Foram apontados os seguintes motivos para o fim do processo:
- a saída do ministro Reis Velloso da SEPLAN (Secretaria de Pla-
nejamento) e a ascensão de Delfim Neto, representando uma mu-
dança de mentalidade, uma vez que Velloso sempre foi um grande 
defensor do planejamento, enquanto Delfim Neto não depositava o 
mesmo crédito no processo;
- a distância entre os números previstos no II PND e os realiza-
dos, gerando uma reação contra o planejamento; 
- as dificuldades enfrentadas pelo segundo choque do petróleo 
e pela alta das taxas de juros internacionais limitando as funções 
do III PND.
Segundo Lopes (1990), o III PND foi preparado, aprovado e pu-
blicado apenas devido à imposição legal e, à época em que o plano 
deveria estar sendo implementado, a convicção geral era de se tra-
tar de um documento de reduzida utilidade em face dos desafios 
enfrentados pela economia brasileira.
O primeiro Plano Nacional de Desenvolvimento da Nova Re-
pública (1986 - 1989)
A Nova República encontrou, em 1985, apesar da grave situa-
ção de endividamento, uma posição de relativo ajuste após as crises 
de 1981 a 1983, graças aos pesados investimentos em energia e à 
recuperação dos superávits na balança comercial. A recuperação do 
crescimento, no entanto, associou-se à explosão das taxas de infla-
ção ocasionando o Plano Cruzado em 1986.
O Plano Cruzado gerou uma economia com preços congelados 
por tempo excessivo, provocando desabastecimento geral e dese-
quilíbrio dos fatores de produção, que levaram ao abandono do pla-
no e a um novo surto inflacionário em 1987. Segundo Lopes (1990), 
este conturbado cenário deflagrou a decadência do processo de 
planejamento que o Brasil vinha desenvolvendo há décadas. Neste 
sentido, o lançamento do I Plano Nacional de Desenvolvimento da 
Nova República (I PND-NR) acentuou a crise do planejamento para 
o desenvolvimento no Brasil, presente desde o III PND.
Este primeiro plano de desenvolvimento do governo de José 
Sarney foi publicado pela SEPLAN, com metas para o período de 
1986 a 1989 e elaborado sob a coordenação do ministro João Sayad.
O I PND-NR se concentrou nos seguintes aspectos:
- crescimento econômico;
- combate à pobreza, às desigualdades e ao desemprego;
- educação, alimentação, saúde, saneamento, habitação, previ-
dência e assistência social;
- justiça e segurança pública.
Quanto à parte econômica o I PND-NR evitou quantificações 
que pudessem representar compromissos mensuráveis. Enfatizou, 
principalmente, a mudança no padrão de negociação da dívida ex-
terna e a necessidade de reduzir as transferências de recursos ao 
exterior. Quanto ao setor público, priorizou a reestruturação do 
aparelho estatal por meio de medidas que iam desde a privatização 
seletiva de empresas estatais à reforma administrativa.Segundo Lopes (1990), o I PND-NR representou um inútil exer-
cício, da mesma forma que seu antecessor, e não foi sequer consi-
derado como instrumento de suporte ou indicador de tendências 
seja pelo governo, seja pelo setor privado.
REALIDADE BRASILEIRA
283
a solução para o seu concurso!
Editora
No entanto, a argumentação dos mentores do plano era a de 
que este se diferia dos anteriores, assim como as condições da eco-
nomia brasileira nos anos 80 se diferiam das condições da década 
anterior. Esta diferença apresentava-se na própria concepção do 
plano:
“Em virtude da circunstância em que vivemos no campo econô-
mico-social e devido à nova orientação do governo sobre as funções 
do setor público, associada ao decisivo estímulo para que o setor 
privado assuma o papel de liderança no processo de crescimento, 
este não é um plano de investimentos públicos, nem uma proposta 
acabada e compulsória de direcionamento dos investimentos em-
presariais” (Brasil, 1985b).
Segundo Giacomoni (1996), em função das dificuldades de 
reorientar a questão financeira no âmbito do setor público e dos 
problemas de administração da dívida externa e interna, o país, ao 
longo desse período, conviveu com inúmeras crises que se refleti-
ram na substituição de ministros da área econômica e na adoção 
de medidas de curtíssimo prazo. Estes fatos dificultaram o planeja-
mento de médio e longo prazo no país e, portanto, a implementa-
ção do I PND-NR.
A dívida pública interna após 1986 e as mudanças institucio-
nais20 
As dificuldades fiscais existentes em meados da década de 
1980 acarretaram a necessidade de mudanças na estrutura institu-
cional da área fiscal. O ano de 1986 representou um marco funda-
mental no aspecto institucional da administração da dívida pública 
brasileira, com a adoção de medidas profundas visando a um maior 
controle fiscal, como a extinção da Conta Movimento – utilizada 
para o suprimento dos desequilíbrios de fundos do Banco do Brasil 
pelo Banco Central. Decidiu-se ainda pela criação da Secretaria do 
Tesouro Nacional, por meio do Decreto nº 92.452, de 10/08/1986, 
visando a centralizar o controle dos gastos públicos e, especialmen-
te, a viabilizar seu controle mais efetivo. A maior preocupação com 
a necessidade de controle e monitoramento da dívida interna, a 
qual vinha apresentando elevado crescimento nos anos anteriores 
em virtude da precária situação fiscal, aliada à percepção de que se 
fazia necessária uma distinção institucional entre as políticas mone-
tária e de dívida acarretaram a transferência da administração da 
dívida pública do Banco Central para o Ministério da Fazenda.
O Decreto nº 94.443, de 12/06/1987 determinou a transferên-
cia das atividades relativas à colocação e ao resgate da dívida públi-
ca para o Ministério da Fazenda, onde essa função ficou a cargo da 
Secretaria do Tesouro Nacional. Entre as funções dessa secretaria, 
regulamentadas pela Portaria MF nº 430, de 22/12/1987, estava 
explicitamente:
[...] efetuar o controle físico/financeiro da dívida emitida [...] 
determinar os títulos e os volumes das Ofertas Públicas, inclusive 
elaborando e publicando os editais, em estreito relacionamento 
com o Banco Central do Brasil [...] e [...] administrar o limite de co-
locação dos títulos [...]
Nesse contexto, e visando a separar ainda mais as atribuições 
de autoridade monetária e fiscal, foi elaborado o Decreto-Lei nº 
2.376, de 25/11/1987, que estabelecia medidas de controle sobre 
a dívida pública, a qual só poderia ser elevada para cobrir déficit 
no Orçamento Geral da União (OGU), mediante autorização legisla-
20 PEDRAS, Guilherme Binato Villela. História da dívida pública no Brasil: de 
1964 até os dias atuais
tiva, e para atender à parcela do serviço da dívida não incluída no 
referido OGU. A despeito da separação de funções e da criação da 
Secretaria do Tesouro Nacional, este mesmo Decreto-Lei nº 2.376 
estabeleceu que: “[...] se o Tesouro Nacional não fizer colocação de 
títulos junto ao público, em valor equivalente ao montante dos que 
forem resgatados, o Banco Central do Brasil poderá subscrever a 
parcela não colocada”. Em outras palavras, embora fosse um avan-
ço institucional em relação à prática anterior, qualquer que fosse a 
necessidade de rolagem, esta seria passível de financiamento via 
Banco Central, bastando para isso que o mercado se recusasse a 
dar o financiamento.
O insucesso das políticas levadas a cabo pelo governo até en-
tão para o combate à inflação conduziu o governo a tentativas mais 
“heterodoxas”, que acabaram por influenciar as estratégias de ad-
ministração da dívida nos anos seguintes. Logo no início de 1986, o 
país viveu a primeira experiência heterodoxa de combate à inflação. 
No início daquele ano, a elevação das taxas de inflação e do endi-
vidamento público eram motivo de preocupação para o governo, 
levando-o a adotar, em 28 de fevereiro, o Plano Cruzado, o qual 
congelou preços, decretou o fim da correção monetária e reduziu 
as taxas reais de juros. Essas medidas, aliadas à necessidade de re-
duzir os déficits fiscais, levaram o Banco Central, e não o mercado, 
a absorver as novas emissões da dívida, conforme permitido pela 
legislação em vigor, antes descrita.
Tendo em vista a dificuldade na colocação de LTNs e a impos-
sibilidade de colocação de ORTNs (agora denominadas OTNs) em 
mercado, dada a desindexação da economia por conta da extinção 
da correção monetária, o Banco Central optou por criar um título 
de sua responsabilidade. Assim, em maio de 1986, a falta de opções 
de instrumento levou o Conselho Monetário Nacional a autorizar 
a autoridade monetária a emitir títulos próprios para fins de polí-
tica monetária. Foi então criada a Letra do Banco Central (LBC), a 
qual tinha como característica ímpar o fato de ser remunerada pela 
taxa Selic, com indexação diária. A ideia era limitar as emissões de 
LBCs ao volume de títulos de responsabilidade do Tesouro Nacional 
existente na carteira do Banco Central. Naturalmente, dadas as ca-
racterísticas do novo título e a conjuntura econômica da época, sua 
aceitação pelo mercado foi enorme.
Considerando o sucesso na colocação das LBCs, aliado à referi-
da falta de opção de instrumentos de financiamento, e consideran-
do a nova diretriz de separação das atividades fiscais e monetárias, 
o governo aproveitou a edição do já citado Decreto-Lei nº 2.376/87 
e criou as Letras Financeiras do Tesouro (LFTs). Tais títulos possuíam 
características idênticas às da LBC, sendo de responsabilidade do 
Tesouro Nacional e destinados especificamente para financiamento 
dos déficits orçamentários.
É importante avaliar sob uma perspectiva histórica o impacto 
da iniciativa de emitir títulos atrelados à taxa de juros diária. Como 
será mencionado adiante, esses títulos passariam a representar 
parcela considerável da DPFi, funcionando como um importante 
instrumento do governo na manutenção de sua capacidade de fi-
nanciamento.
Com o insucesso do Plano Cruzado, o ano de 1987 marca o iní-
cio de dificuldades ainda maiores na condução da política econô-
mica, com o déficit público saindo do controle, além de problemas 
na área externa. De fato, a moratória da dívida externa ocorrida em 
fevereiro daquele ano gerou maior necessidade de financiamento 
via dívida interna.
REALIDADE BRASILEIRA
284284
a solução para o seu concurso!
Editora
Com a promulgação da Constituição em 1988, o Banco Cen-
tral, que naquele momento estava proibido de emitir títulos, ficou 
também impedido de financiar o governo. Pela nova sistemática, o 
Banco Central só poderia adquirir títulos diretamente do Tesouro 
Nacional em montante equivalente ao principal vencendo em sua 
carteira. Tinha-se chegado assim à clássica forma de relacionamen-
to entre autoridade monetária e autoridade fiscal. Posteriormente, 
em 2000, a Lei de Responsabilidade Fiscal tornou ainda mais rígida 
a legislação, ao estabelecer que as colocações para a carteira do 
Banco Central só poderiam ser efetuadas à taxamédia do leilão rea-
lizado, no dia, em mercado, regra esta que permanece até os dias 
atuais.
A despeito dos sucessivos choques heterodoxos introduzidos 
na economia desde 1986, as taxas de inflação permaneciam em ní-
veis bastante elevados, assim como a incerteza em relação ao futu-
ro próximo. Dessa maneira, em 1988 e 1989 praticamente não hou-
ve colocação de LTNs nem mesmo para a carteira do Banco Central, 
ilustrando o difícil momento pelo qual passava o país. Por sua vez, 
o financiamento público começou a ser efetuado com emissão de 
LFTs, sendo tal título durante esses dois anos praticamente a única 
forma de arrecadação de recursos, via emissão de títulos, para o go-
verno. Nesse período, é interessante notar que esse instrumento de 
origem heterodoxa passava a ser fundamental para a solvência do 
país. Sua inexistência implicaria a necessidade de emissão de LTNs 
em prazos cada vez menores, o que levaria a aumento considerável 
no risco de refinanciamento da dívida.
A criação das LBCs, primeiramente, e a seguir das LFTs mostra 
que a busca por soluções não tradicionais para os problemas eco-
nômicos foi usada também na administração da dívida pública. A 
despeito disso, o prazo da dívida não foi alterado com a emissão 
desse instrumento de repactuação diária, de forma que, ao final da 
década, o prazo médio da dívida continuou reduzido, enquanto o 
percentual desta sobre o PIB representava o maior valor registrado 
até aquela data, indicando o crescente grau de vulnerabilidade do 
país ante as necessidades de refinanciamento.
Ao se iniciar o novo governo, em 1990, a situação do endivi-
damento público era crítica, com o estoque de títulos em mercado 
representando 15% do PIB, recorde histórico, sendo a dívida com-
posta praticamente por LFTs e com prazo médio de apenas cinco 
meses. Além disso, a inflação encontrava-se em níveis superiores 
a 1.000% ao ano, e o déficit primário havia atingido 1% do PIB no 
ano anterior.
Tendo em vista esse pano de fundo, o governo do presidente 
Collor iniciou-se com o objetivo explícito de dar fim ao processo 
inflacionário e ao descontrole fiscal vivido pelo país nos últimos 
anos. O desgaste da política econômica mencionado anteriormen-
te e a crítica situação da dívida pública daí decorrente conduziram 
às drásticas medidas representadas pelo Plano Collor em 1990, o 
qual, entre outras, determinou o congelamento de 80% dos ativos 
financeiros do país, representando, para a dívida pública, impacto 
sem precedentes.
Com esse artifício, o governo promoveu a troca compulsória 
da dívida em poder do mercado por outra, retida por 18 meses no 
Banco Central, rendendo BTN + 6% a.a. Ou seja, o estoque, antes 
remunerado pela taxa Selic, passou a ser remunerado a uma taxa 
muito inferior, gerando ganhos consideráveis para o governo. Além 
disso, a medida causou uma profunda redução na liquidez da eco-
nomia, de forma que o Banco Central se viu forçado a recomprar 
as LFTs ainda em mercado. Esses dois fatos, aliados ao superávit 
primário obtido no primeiro ano do novo governo (mais de 4% do 
PIB), acabaram por conduzir a uma queda histórica no estoque da 
dívida em poder do público, de 82,5% em 1990.
Em 1991, com a inflação ascendente e dificuldade para emis-
são de LTNs, dada a credibilidade perdida pelo governo por conta 
do congelamento de ativos representado pelo Plano Collor, o Banco 
Central optou por criar um instrumento com características idênti-
cas para fins de política monetária, o Bônus do Banco Central (BBC), 
instituído pela Resolução nº 1.780, de 21/12/1990. Nos primeiros 
meses de 1991, apenas esse título era ofertado ao público.
A partir de setembro de 1991, os valores referentes aos ativos 
congelados começaram a ser devolvidos, e, a partir de outubro, os 
recursos para pagá-los eram obtidos com novas emissões de títulos. 
Ao final do ano de 1991 foi criado um novo instrumento, regula-
mentado pelo Decreto nº 317, de 30/10/1991 e denominado Notas 
do Tesouro Nacional (NTNs), com diversas séries, a depender do 
indexador utilizado. Dentre os mais comuns destacam-se o dólar 
(NTN-D), o IGP-M (NTN-C) e a TR (NTN-H). Buscava-se diversificar 
os instrumentos para tentar ampliar a base de investidores, tentan-
do garantir os recursos para pagamento das BTN-Es vincendas. A 
criação dessa diversidade de instrumentos reflete não apenas as 
turbulências passadas pela economia doméstica ao longo dos anos 
1980 e início dos anos 1990, mas também a heterodoxia então do-
minante no plano macroeconômico.
Buscando dar mais um passo na direção da separação entre as 
atividades fiscais e monetárias iniciada na década anterior, em 1993 
foram propostas algumas medidas, conhecidas como “Operação 
Caixa-Preta”. Tais medidas buscavam propiciar maior transparên-
cia no relacionamento entre o Tesouro Nacional e o Banco Central, 
efetuando, entre outras mudanças, a reestruturação da carteira de 
títulos de responsabilidade do Tesouro Nacional no Banco Central, 
dotando a autoridade monetária de instrumentos mais adequados 
à condução da política monetária. Outra medida foi o resgate ante-
cipado de títulos do Tesouro Nacional na carteira do Banco Central, 
com recursos obtidos via emissão de títulos do Tesouro em merca-
do, sendo um dos fatores responsáveis pela queda de 24% no esto-
que da carteira de títulos em poder do Banco Central naquele ano.
Ao longo desses anos da década de 1990, o governo continuava 
tentando debelar a inflação, que, naquele momento, já superava 
a casa dos 1.000% ao ano. Enquanto isso, as taxas de crescimento 
da economia continuavam muito baixas, com o país apresentando 
crescimento médio real negativo de 1,3% de 1990 a 1993. Buscan-
do dar um fim a essa situação, em 1994 era lançado mais um pla-
no heterodoxo, conhecido como Plano Real. Este partia do mesmo 
princípio dos planos anteriores, isto é, que existia um componente 
inercial na inflação brasileira, mas dessa vez buscava-se conciliar a 
esse aspecto alguns componentes da cartilha ortodoxa, como a ma-
nutenção de elevadas taxas reais de juros. Dessa vez a receita foi 
bem-sucedida e o país pôde, após muitos anos, viver momentos de 
inflação em níveis razoáveis e cadentes. A partir de 1995, a previsi-
bilidade começava a voltar a fazer parte do cotidiano dos agentes 
econômicos. Certamente, esse aspecto iria impactar, de alguma for-
ma, a estrutura da dívida pública interna.
Entretanto, a despeito do relativo sucesso na estabilização da 
inflação, a partir daquele ano a dívida começou a apresentar traje-
tória forte de elevação, o que pode ser explicado pela conjugação 
de alguns fatores, dentre eles: (I) a rígida política monetária da épo-
ca, a qual acarretou uma taxa real de juros média no período extre-
mamente elevada; (II) o reduzido superávit primário, que se apre-
sentava até negativo para alguns entes de governo; e (III) a política 
REALIDADE BRASILEIRA
285
a solução para o seu concurso!
Editora
de propiciar maior transparência às contas públicas, reconhecendo 
vários passivos que antes se encontravam disfarçados, como, por 
exemplo, o programa de saneamento das finanças estaduais e mu-
nicipais e a capitalização de alguns bancos federais. De fato, nessa 
segunda metade da década de1990, a DPMFi em mercado cresceu 
em média, em termos reais, à taxa de 24,8% a.a.
Na segunda metade da década de 1990, o reduzido prazo mé-
dio da dívida, aliado à política de maior transparência fiscal (con-
tabilização dos “esqueletos” no estoque da dívida), fazia com que 
o alongamento passasse a ser parte fundamental na estratégia de 
endividamento. Por essa razão, em que pese o sucesso na estabili-
zação econômica, as mudanças na estratégia de endividamento ao 
longo dos anos seguintes foram reflexo preponderantemente das 
turbulências por que passou a economia internacional no período.
Nos primeiros anos após o Plano Real, o governo logrou melho-
rar substancialmente a composição da dívida. Com a estabilidade 
econômica, ele elevou os volumes emitidos de LTNs, assimcomo 
paulatinamente buscou aumentar seus prazos ofertados em leilão, 
que passaram de um mês para dois e três meses de prazo. Em 1996, 
apenas LTNs de seis meses de prazo passaram a ser ofertadas em 
mercado. Os prazos desses títulos continuaram a ser elevados até 
que, ao final de 1997, o Tesouro Nacional conseguiu colocar em 
mercado títulos prefixados com dois anos de prazo. Após a eclo-
são da crise da Ásia, a opção imediata foi pela redução nos prazos, 
quando voltaram a ser ofertadas LTNs de três meses. Até esse mo-
mento, o governo tinha resistido a recorrer às LFTs. Apenas após 
a crise da Rússia o Tesouro Nacional decidiu voltar a emitir esse 
instrumento, interrompendo, momentaneamente, a emissão de tí-
tulos prefixados.
Ao longo desse período, a participação das LTNs, que se encon-
trava em menos de 1% ao final de 1994, passou para 27% em 1996, 
enquanto o estoque das LFTs chegou a desaparecer nesse mesmo 
ano. Entretanto, já a partir de 1997, com a eclosão da crise asiática 
e a despeito do sucesso na manutenção da estabilidade econômica, 
os avanços obtidos foram sendo revertidos, de forma que, ao final 
de 1998, o estoque de prefixados chegaria a apenas 2% do estoque 
total, enquanto as LFTs voltavam a representar quase metade desse 
estoque total.
Um dos motivos que explicam a não recuperação dos papéis 
prefixados na participação da dívida é, como esta cresceu muito, o 
aumento da percepção de risco de refinanciamento, de forma que 
o prazo médio desta teve de ser aumentado para não prejudicar a 
percepção do mercado quanto à sustentabilidade da dívida pública. 
Dessa forma, evitou-se colocar títulos prefixados com prazos infe-
riores a seis meses, privilegiando instrumentos pós-fixados (em es-
pecial as LFTs) mais longos. Tal processo foi ajudado com a mudança 
no regime cambial em 1999, que, ao reduzir a volatilidade das taxas 
de juros, fez com que o risco de mercado da dívida pública, sob a 
ótica do governo, fosse também reduzido. De fato, a partir de 1999, 
o prazo das LFTs ofertadas em leilão foi aumentado para dois anos, 
enquanto as LTNs voltaram a ser emitidas com prazos de três e seis 
meses.
O ponto a destacar quanto a esse período é que, apesar do 
grande avanço representado pela estabilização da economia, seus 
efeitos sobre a dívida pública em termos de composição dos instru-
mentos não se fizeram sentir tão fortemente como seria esperado. 
As expressivas emissões diretas representadas pelo reconhecimen-
to dos passivos contingentes (fundamental para um saneamento 
definitivo das contas públicas), aliadas às altas taxas de juros neces-
sárias à consolidação da estabilidade, fizeram com que o estoque da 
dívida pública crescesse brutalmente no período. Esse fato gerou a 
necessidade de que seu prazo médio fosse elevado para evitar que 
o risco de refinanciamento a cada período ficasse muito grande.
Também a partir de 1999 o governo voltou a emitir títulos in-
dexados a índices de preços (IGP-M). O objetivo era reforçar o pro-
cesso de alongamento da dívida pública, aproveitando uma elevada 
demanda potencial representada pelos fundos de pensão. Desde 
então, tem-se observado um esforço no sentido de obter contínua 
melhoria no perfil da dívida federal interna, seja em termos de au-
mento do prazo, seja de uma maior qualidade na composição desta, 
buscando-se a redução na participação de títulos indexados à taxa 
de câmbio e à taxa Selic, o que vem acontecendo com sucesso des-
de 2003.
Consenso de Washington
Em novembro de 1989, reuniram-se na capital dos Estados 
Unidos funcionários do governo norte-americano e dos organismos 
financeiros internacionais ali sediados - FMI, Banco Mundial e BID 
- especializados em assuntos latino-americanos. O objetivo do en-
contro, convocado pelo Institute for International Economics, sob o 
título “Latin American Adjustment: How Much Has Happened?”, era 
proceder a uma avaliação das reformas econômicas empreendidas 
nos países da região. Para relatara experiência de seus países tam-
bém estiveram presentes diversos economistas latino-americanos. 
Às conclusões dessa reunião é que se daria, subsequentemente, a 
denominação informal de “Consenso de Washington”.
A mensagem neoliberal que o Consenso de Washington regis-
traria vinha sendo transmitida, vigorosamente, a partir do come-
ço da Administração Reagan nos Estados Unidos, com muita com-
petência e fartos recursos, humanos e financeiros, por meio de 
agências internacionais e do governo norte-americano. Acabaria 
cabalmente absolvida por substancial parcela das elites políticas, 
empresariais e intelectuais da região, como sinônimo de moderni-
dade, passando seu receituário a fazer parte do discurso e da ação 
dessas elites, como se de sua iniciativa e de seu interesse fosse. 
Exemplo desse processo de cooptação intelectual é o documento 
publicado em agosto de 1990 pela Fiesp, sob o título “Livre para 
crescer - Proposta para um Brasil moderno”, hoje na sua 5ª edição, 
no qual a entidade sugere a adoção de agenda de reformas virtual-
mente idêntica à consolidada em Washington.
A proposta da Fiesp inclui, entretanto, algo que o Consenso 
de Washington não explicita mas que está claro em documento 
do Banco Mundial de 1989, intitulado “Trade Policy in Brazil: the 
Case for Reform”. Aí se recomendava que a inserção internacional 
de nosso país fosse feita pela revalorização da agricultura de ex-
portação. Vale dizer, o órgão máximo da indústria paulista endossa, 
sem ressalvas, uma sugestão de volta ao passado, de inversão do 
processo nacional de industrialização, como se a vocação do Bra-
sil, às vésperas do século XXI, pudesse voltar a ser a de exportador 
de produtos primários, como o foi até 1950. Uma área em que os 
preços são cadentes - são hoje, em termos reais, 40% em média 
inferiores aos de 1970 - em virtude do notável volume de subsídios 
concedidos a seus produtores agrícolas pelos países desenvolvidos, 
da ordem de US$ 150 bilhões de dólares por ano, e da revolução no 
setor de materiais que vem reduzindo substancialmente o uso de 
matérias-primas naturais por unidade de produto obtido.
Ao final da década de 1980, dada a precária situação fiscal do 
país, o governo federal possuía dívidas contratuais vencidas com 
diversos credores. O processo de saneamento das contas públicas 
implicava encontrar uma solução para essa situação. No início dos 
REALIDADE BRASILEIRA
286286
a solução para o seu concurso!
Editora
anos 1990, o governo deu início a um processo de reestruturação 
dessas dívidas por meio de sua securitização. Nesse processo, dé-
bitos oriundos da assunção de dívidas de estados e de empresas 
estatais foram repactuados e transformados em títulos públicos 
emitidos para os credores originais. Enquanto representou um be-
nefício para o governo, na medida em que permitiu a adaptação dos 
fluxos de pagamentos à sua capacidade de pagamento, contribuiu 
para o resgate da credibilidade do setor público como devedor. Para 
o credor, representou transformar uma dívida contratual, portanto 
sem liquidez, em instrumento passível de negociação em mercado 
secundário. O Tesouro Nacional registrou os títulos emitidos para 
refinanciamento da dívida dos estados no Sistema Especial de Li-
quidação e de Custódia, do Banco Central (Selic) e os referentes à 
assunção da dívida das empresas estatais, denominados Créditos 
Securitizados, na Central de Custódia e de Liquidação Financeira de 
Títulos (Cetip), onde estão custodiados, sendo livremente negocia-
dos em mercado secundário. Ainda nos anos 1990, os Créditos Se-
curitizados foram, em conjunto com outros títulos da dívida pública, 
utilizados como moeda de pagamento no programa de privatização 
das empresas estatais, sendo, portanto, parte daquele conjunto de 
instrumentos que ficou conhecido como “moedas de privatização”. 
Em 1999, e dentro do processo de padronização dos instrumentos 
de dívida pública, o Tesouro Nacional passou a aceitar tais títulos 
como meio de pagamento na segunda etapa dos leilõesde NTN-C e, 
mais recentemente, nos leilões de NTN-B. Não obstante essa possi-
bilidade, o estoque dos Créditos Securitizados tem aumentado, em 
virtude, principalmente, da emissão regular de CVS, título que tem 
como origem a securitização de dívidas decorrentes do Fundo para 
Compensação das Variações Salariais (FCVS).
O Brasil e o Consenso de Washington21
Os princípios neoliberais consolidados no Consenso de Washin-
gton batem de frente com alguns dos pressupostos do modelo de 
desenvolvimento brasileiro e da política econômica externa que lhe 
dava apoio. Em particular com a liberdade de ação que o Brasil de-
sejava manter para prosseguir em seu processo de industrialização, 
mediante reserva de mercado para indústrias de capital nacional no 
campo da informática assim como pela exclusão do patenteamen-
to na área químico-farmacêutica. O Brasil tampouco se dispunha a 
aceitar restrições ao pleno desenvolvimento tecnológico no setor 
nuclear e aeroespacial.
Golpeado pela crise da dívida externa e pela forma como esta 
foi tratada, o Brasil, graças a sua base industrial e ao esforço feito 
pela Petrobrás para aumentar substancialmente a produção nacio-
nal de petróleo, conseguiria acumular substanciais saldos de ba-
lanço comercial, criando condições para honrar o serviço daquela 
dívida. Em consequência, só lograria fazê-lo à custa do equilíbrio 
das contas públicas. Sucessivas cartas de intenção ao FMI foram as-
sinadas sem que o país pudesse cumprir as metas acordadas em 
matéria fiscal e monetária. Para dominar a inflação resultante desse 
descontrole, gerado em sua maior parte pelo serviço da dívida ex-
terna e interna, sucessivos planos, heterodoxos e ortodoxos, foram 
tentados sem êxito, produzindo um sentimento generalizado de 
frustração que abalaria a confiança na ação do Estado.
A despeito da vulnerabilidade resultante do endividamento ex-
terno e dos percalços na luta contra a inflação, o Brasil não parou. 
Teria, por isso mesmo, condições para resistir às pressões do gover-
21 Batista, Paulo Nogueira. O CONSENSO DE WASHINGTON: A visão neolibe-
ral dos problemas latino-americanos. 1994
no americano e dos organismos multilaterais de crédito. Resistiria, 
inclusive, às pretensões americanas no GATT, em matéria de servi-
ços e de propriedade intelectual, posição que só começaria a ser 
erodida ao final do governo Sarney.
Com Collor é que se produziria a adesão do Brasil aos postula-
dos neoliberais recém-consolidados no Consenso de Washington. 
Comprometido na campanha e no discurso de posse com uma pla-
taforma essencialmente neoliberal e de alinhamento aos Estados 
Unidos, o ex-presidente se disporia a negociar bilateralmente com 
aquele país uma revisão, a fundo, da legislação brasileira tanto 
sobre informática quanto sobre propriedade industrial, enviando 
subsequentemente ao Congresso projeto de lei que encampava as 
principais reivindicações americanas. Com base em recomendações 
do Banco Mundial, procederia a uma profunda liberalização do regi-
me de importações, dando execução por atos administrativos a um 
programa de abertura unilateral do mercado brasileiro. Concluiria, 
ainda, negociações com a Argentina a respeito de um mecanismo 
de salvaguardas das respectivas instalações nucleares, mediante o 
qual nosso país, sem aderir ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear, 
aceitaria de fato o regime de salvaguardas abrangentes que nele se 
prevê.
Plano Collor22
 A inflação em um ano de março de 1989 a março de 1990 che-
gou a 4.853%, e no governo anterior teve vários planos fracassados 
de conter a inflação. Depois de sua posse, Collor anuncia um pa-
cote econômico no dia 15 de março de 1990, o Plano Brasil Novo. 
Esse plano tinha como objetivo por fim a crise, ajustar a economia 
e elevar o país do terceiro para o Primeiro Mundo. O cruzado novo 
é substituído pelo “cruzeiro”, bloqueia por 18 meses os saldos das 
contas correntes, cadernetas de poupança e demais investimentos 
superiores a Cr$ 50.000,00. Os preços foram tabelados e depois li-
berados gradualmente. Os salários foram pré-fixados e depois ne-
gociados entre patrões e empregados. Os impostos e tarifas aumen-
taram e foram criados outros tributos, são suspensos os incentivos 
fiscais não garantidos pela Constituição. É Anunciado corte nos gas-
tos públicos, também se reduz a máquina do Estado com a demis-
são de funcionários e privatização de empresas estatais. O plano 
também prevê a abertura do mercado interno, com a redução gra-
dativa das alíquotas de importação. As empresas foram surpreendi-
das com o plano econômico e sem liquidez pressionam o governo. 
A ministra da economia Zélia Cardoso de Mello, faz a liberação gra-
dativa do dinheiro retido, denominado de “operação torneirinha”, 
para pagamento de taxas, impostos municipais e estaduais, folhas 
de pagamento e contribuições previdenciárias. O governo libera os 
investimentos dos grandes empresários, e deixa retido somente o 
dinheiro dos poupadores individuais. 
Recessão - No início do Plano Collor a inflação foi reduzida por-
que o plano era ousado e radical, tirava o dinheiro de circulação, 
porem com a redução da inflação iniciava-se a maior recessão da 
história no Brasil, houve aumento de desemprego, muitas empre-
sas fecharam as portas e a produção diminui consideravelmente, 
tem uma queda de 26% em abril de 1990, em relação a abril de 
1989. As empresas são obrigadas a reduzirem a produção, jornada 
de trabalho e salários, ou demitir funcionários. Só em São Paulo nos 
primeiros seis meses de 1990, 170 mil postos de trabalho deixaram 
de existir, foi o pior resultado, desde a crise do início da década de 
22 LENARDUZZI, Cristiano, Et al. PLANO COLLOR. Adaptado
REALIDADE BRASILEIRA
287
a solução para o seu concurso!
Editora
80. O Produto Interno Bruto diminui de US$ 453 bilhões em 1989 
para US$ 433 bilhões em 1990. Collor parecia alheio a sua política 
econômica desastrosa, procurava passar uma imagem de super-
-homem, sempre aparecendo na mídia se exibindo, pilotando uma 
aeronave, fazendo caminhadas, praticando esportes etc. Mostrava 
uma personalidade forte, vaidoso, arrojado, combativo e moderno. 
Privatizações - Em 16 de agosto de 1990 o Programa Nacio-
nal de Desestatização que estava previsto no Plano Collor é regula-
mentado e a Usiminas é a primeira estatal a ser privatizada, através 
de um leilão em outubro de 1991. Depois mais 25 estatais foram 
privatizadas até o final de 1993, quando Itamar Franco já estava à 
frente do governo brasileiro, com grandes transferências patrimo-
niais do setor público para o setor privado. Sendo que o processo 
de privatização dos setores petroquímico e siderúrgico já está prati-
camente concluído. Então se inicia a negociação do setor de teleco-
municações e elétrico, há uma tentativa de limitar as privatizações 
à construção de grandes obras e à abertura do capital das estatais, 
mantendo o controle acionário pelo Estado. 
Plano Collor II 
A inflação entra em cena novamente com um índice mensal 
de 19,39% em dezembro de 1990 e o acumulado do ano chega 
a 1.198%, o governo se vê obrigado a tomar algumas medidas. É 
decretado o Plano Collor II em 31 de janeiro de 1991. Tinha como 
objetivo controlar a ciranda financeira, extingue as operações de 
overnight e cria o Fundo de Aplicações Financeiras (FAF) onde cen-
traliza todas as operações de curto prazo, acaba com o Bônus do 
Tesouro Nacional fiscal (BTNf), o qual era usado pelo mercado para 
indexar preços, passa a utilizar a Taxa Referencial Diária (TRD) com 
juros prefixados e aumenta o Imposto sobre Operações Financeiras 
(IOF). Pratica uma política de juros altos, e faz um grande esforço 
para desindexar a economia e tenta mais um congelamento de pre-
ços e salários. Um deflator é adotado para os contratos com venci-
mento após 1º de fevereiro. O governo acreditava que aumentando 
a concorrência no setor industrial conseguiria segurar a inflação, 
então se cria um cronograma de redução das tarifas de importa-
ção, reduzindo a inflaçãode 1991 para 481%. A recuperação da 
economia iniciou-se no final de 1992, após um grande processo de 
reestruturação interna das industrias. Foi fundamental a abertura 
do mercado brasileiro para produtos importados, a qual obrigou a 
indústria nacional a investir alto na modernização do processo pro-
dutivo, qualidade e lançamento de novos produtos no mercado. As 
empresas que queriam permanecer no mercado tiveram que rever 
seus métodos administrativos, bem como da organização, reduzin-
do os custos de gerenciamento, as atividades foram centralizadas, 
muitos setores terceirizados. As empresas são obrigadas a investir 
pesado na automação, reduz a hierarquia interna nas industrias, en-
tão cresce a produtividade. Toda essa modernidade era necessária 
para as empresas se tornarem mais competitiva, tanto no mercado 
interno quanto no mercado externo. O aumento de produtividade 
foi fundamental para a sobrevivência das empresas, porem para os 
trabalhadores, significava perdas de postos de trabalho, quer di-
zer com menos funcionários se produziam mais, então aumenta o 
desemprego dos brasileiros, que em 1993 só na Grande São Paulo 
chega a um milhão e duzentos mil trabalhadores desempregados.
Plano Real23 
O Plano Real teve como base teórica: o Consenso de Washin-
gton, que deu as direções que deveriam ser tomadas e o Plano 
Cruzado e as discussões relativas à sua criação, tomados como um 
exemplo dos erros que não deveriam ser repetidos.
Em novembro de 1989, em congresso convocado pelo Instituto 
de Economia Internacional, reuniram-se em Washington funcioná-
rios do governo dos EUA, FMI, BIRD, BID e economistas latino-a-
mericanos para debater o seguinte tema: “Ajustamento latino-a-
mericano, o que tem ocorrido?”. O congresso afirmou a excelência 
das medidas neoliberais que vinham sendo adotadas pelos países 
latino-americanos até então, com exceção do Brasil e do Peru. A 
conferência apontou a importância do combate à inflação através 
da dolarização da economia, valorização das moedas nacionais, 
ajuste fiscal, aceleração das privatizações, mudanças na seguridade 
social, desregulamentação dos mercados e liberalização comercial 
e financeira.
A segunda referência importante, a experiência do Plano Cru-
zado, forneceu um aporte teórico relacionado ao debate entre as 
propostas de uma “moeda indexada” e um “choque heterodoxo”.
Devido à inoperância do Plano Cruzado, que foi identificado 
como um “choque heterodoxo”, a outra sugestão ganhou força no 
desenvolvimento do Plano Real. A ideia de uma “moeda indexada” 
ao dólar e a outra moeda nacional paralela, ganhou força durante 
o desenvolvimento do Plano Cruzado e influenciou fortemente o 
Plano Real.
Brasil, Argentina e México enfrentaram vários desafios comuns 
no final da década de 1980 e início da década de 1990, os principais 
deles sendo a inflação que implicava em sérios problemas sociais, 
necessidade de reorganização das economias e alinhamento às mu-
danças internacionais nestes países que ainda estavam vinculados 
aos programas de desenvolvimentos fortemente estatais que, no 
Brasil, foram implementados pelo governo militar a partir de 1964 
e ganhando força na década de 1970.
O processo de desenvolvimento da uma economia liberal no 
México, entre 1988 e 1994, assim como no Brasil, teve como ob-
jetivo diminuir a participação do Estado na economia e avançar na 
liberalização do comércio externo, com destaque para as relações 
comerciais com os Estados Unidos e o Canadá que foram favore-
cidas com a entrada do país no Nafta (North American Free Trade 
Agreement). O processo de reformas no início da década de 90 con-
tribui para o crescimento da economia baseado nas exportações e 
apoiado por uma política de desvalorização do Peso. No entanto, o 
crescimento foi quebrado por uma crise cambial motivada pela des-
confiança do capital internacional, provocando uma instabilidade 
que se refletiu na saída maciça de capital e na queda abrupta das 
reservas do país.
Na Argentina, durante o governo do presidente Carlos Menem, 
o Ministro da Economia Domingo Cavallo apresentou seu plano 
para combater a inflação, que se reverteu na Lei da Convertibilida-
de, que tinha como uma de suas bases o câmbio fixo, atrelado ao 
dólar, o que restringia a emissão de moeda ao aumento do Tesouro 
Nacional. Em um primeiro momento, a medida proporcionou uma 
estabilidade econômica sem inflação significativa que favoreceu o 
ingresso de capitais estrangeiros produzindo um forte crescimento 
do PIB. No entanto, uma recessão que teve início em 1998 e chegou 
ao seu auge em 2001, em parte relacionada às crises internacio-
23 IPOLITO, Danilo Bueno. História do Plano Real. Universidade de São Paulo, 
Jornalismo.
REALIDADE BRASILEIRA
288288
a solução para o seu concurso!
Editora
nais e, em parte resultado da política de câmbio fixo, terminou por 
provocar o fim da Lei de Convertibilidade com altas sequelas para o 
país, nos níveis político, social e econômico.
A economia brasileira repetiria a trajetória mexicana e argen-
tina em alguns pontos importantes, combinando sucesso inicial no 
combate à inflação com elevados déficits externos e forte depen-
dência de fluxos voláteis de capital internacional.
Algumas diferenças entre os três planos são claras: o Plano Real 
era mais flexível e cauteloso com relação ao câmbio do que a lei de 
conversibilidade argentina; o plano mexicano recorreu intensamen-
te a políticas de preços e salários, que dependeu de negociações 
com os representantes das classes trabalhistas, diferente do que 
aconteceu com os planos argentino e brasileiro. No caso do Plano 
Real, a criação da URV (Unidade Real de Valor), que funcionou por 
quatro meses, foi uma medida original para evitar medidas de cho-
que como confiscos e congelamentos, possibilitando a estabilização 
da moeda.
No entanto, as diferenças não superam as convergências entre 
os três planos que buscavam a estabilização da economia e sua in-
serção nos padrões internacionais do neoliberalismo, que passava a 
ditar as novas normas do capitalismo mundial.
Nas semelhanças entre os planos estão: o uso da taxa de câm-
bio como instrumento de combate à inflação, de acordo com o con-
ceito de monetary standard approach que considera a importân-
cia da harmonização das políticas monetárias como uma forma de 
combate à inflação; a abertura da economia às importações, por 
meio da drástica redução das barreiras tarifárias e não-tarifárias; a 
abertura financeira externa, com o estímulo à entrada de capitais 
de curto prazo e medidas de desindexação da economia.
Implantação do Plano Real
O Plano de Fernando Henrique Cardoso, que era ministro da 
Fazenda do governo de Itamar Franco, consistia em três fases: o 
ajuste fiscal, o estabelecimento da URV (Unidade de Referência de 
Valor) e a instituição de uma nova moeda, o Real. De acordo com os 
autores do plano, as reformas liberais do Estado, que estavam em 
andamento naquele período seriam fundamentais para efetividade 
do plano.
A primeira fase, o “ajuste fiscal” procurava criar condições fis-
cais adequadas para diminuir o desequilíbrio orçamentário do Es-
tado, principalmente sua fragilidade com financiamento, que seria 
um dos principais problemas relacionados à inflação. A criação do 
FSE (Fundo Social de Emergência), que tinha por finalidade diminuir 
os custos sociais derivados da execução do plano e dos cortes de 
impostos, foi uma das principais iniciativas do governo.
A URV, o embrião da nova moeda, que terminou quando o 
Real começou a funcionar em 1º de julho de 1994, era um índice 
de inflação formado por outros três índices: O IGP-M, da Fundação 
Getúlio Vargas, o IPCA do IBGE e o IPC da FIPE/USP. O objetivo do 
governo era amarrar o URV ao dólar, preparando o caminho para 
a “âncora cambial” da moeda e também evitar o caráter abrupto 
dos outros planos, com esta ferramenta transitória. Dessa forma, 
ao contrário da proposta de “moeda indexada” e da criação de duas 
moedas, apenas separaram-se duas funçõesda mesma moeda, pois 
o URV servia como uma “unidade de conta”.
A terceira fase do plano consistiu na implementação da nova 
moeda, que substituiria o Cruzeiro de acordo com a cotação da URV 
que, naquele momento, valia CR$ 2.750,00. O governo instituiu que 
este valor corresponderia a R$ 1,00 que, por sua vez, foi fixada pelo 
Banco Central em US$ 1,00, com a garantia das reservas em dólar 
acumuladas desde 1993.
No entanto, apesar de amarrar a moeda ao dólar, o Governo 
não garantiu a conversibilidade das duas moedas, como ocorreu 
na Argentina. Dessa forma, o Real conseguiu corresponder de uma 
forma mais adequada às turbulências desencadeadas pela crise do 
México, que começou a se intensificar no final de 1994.
A política de juros altos, que promoveu a entrada de capitais de 
curto prazo, e a abertura do país aos produtos estrangeiros, com a 
queda do Imposto de Importação, foram fundamentais para com-
plementar a introdução da nova moeda e para combater a inflação 
e elevar os níveis de emprego.
Reformas do Estado 
Considerada uma quarta fase da reforma econômica proposta 
pelo Plano Real, as reformas no Estado propiciaram o habitat ideal 
para a moeda criada em sintonia com o conceito de neoliberalismo, 
ao contrário do Estado que, como visto anteriormente, ainda carre-
gava fortes resquícios do modelo pré-crise do petróleo, caracteriza-
do pela regulamentação do mercado, a instituição de monopólios 
estatais e o forte investimento em infraestrutura.
Desta forma, os defensores do Plano Real insistiram na neces-
sidade das reformas das áreas econômicas como a quebra dos mo-
nopólios estatais, tratamento igualitário entre empresas nacionais 
e estrangeiras e desregulamentação das atividades e mercados con-
siderados até então estratégicos ou de segurança nacional. Além 
disso, foram empreendidas reformas tributárias, administrativas e 
previdenciárias.
A importância destas reformas para a estabilização do país e a 
inserção internacional brasileira era ressaltada e abrandada nos pe-
ríodos mais estáveis da economia nacional. As mudanças de ordem 
econômica foram aprovadas com relativa facilidade no Congresso 
Nacional, sendo extintos o monopólio estatal na área de prospec-
ção, exploração e refino de petróleo e na distribuição, transmissão 
e geração de energia.
As reformulações nas estruturas do Estado foram mais com-
plicadas. A reforma fiscal só começou a ser discutida no Congresso 
com a crise cambial em janeiro de 1999. Na reforma administrativa, 
aprovou-se a possibilidade de demissão de funcionários públicos 
por excesso de quadros (quando os salários ultrapassarem 60% das 
receitas), e por ineficiência. As privatizações, que já estavam enca-
minhadas desde o governo Collor, com o PND (Programa Nacional 
de Desestatização), foram ampliadas e aceleradas.
Nesse sentido, pode-se perceber a importância do Plano Real 
para a implementação do projeto liberal no Brasil e como, de fato, 
não foi apenas um plano solitário de estabilização monetária e sim 
um conjunto de medidas para impulsionar a internacionalização da 
economia brasileira.
A Euforia do Consumo - A queda da inflação de 46,60% em 
junho para 3,34% em agosto e a manutenção desta abaixo desse va-
lor nos meses seguintes provocou um aumento imediato no poder 
aquisitivo da população de mais baixa renda, conduzindo uma ex-
plosão dos níveis de consumo que resultou em um crescimento de 
5,4% no PIB de 1994. Colaborou para isso o aumento das compras 
a prazo e a baixa remuneração nominal das aplicações financeiras 
com a realocação dos recursos para o consumo.
REALIDADE BRASILEIRA
289
a solução para o seu concurso!
Editora
As crises Mexicana, Asiática e Russa
A partir de dezembro de 1994 eclodiu a crise cambial mexicana, 
e a saída de capital especulativo relacionada à queda da cotação do 
dólar nos mercados internacionais começou a colocar em xeque a 
estabilização da economia nacional e o Plano Real, que dependia 
em grande parte do capital estrangeiro. A crise mostrou que a po-
lítica de contenção da inflação com a valorização das moedas na-
cionais frente ao dólar não poderia ser sustentável no longo prazo. 
Negando sempre à similaridade entre o Brasil e o México e a 
Argentina, o governo passou a desacelerar a atividade econômica 
e a frear a abertura internacional com a elevação da taxa de juros, 
aumento das restrições às importações e com estímulos à expor-
tação. Com a necessidade de opor a situação econômica brasileira 
à mexicana, como um sinal ao capital especulativo, o governo quis 
mostrar que corrigiria a trajetória de sua balança comercial, atingin-
do saldo positivo.
Após retomada do crescimento entre abril de 1996 e junho de 
1997, a crise dos “Tigres Asiáticos”, que começou com a desvalori-
zação da moeda da Tailândia, se alastrou para Indonésia, Malásia, 
Filipinas e Hong Kong e acabou por atingir Nova York e os mercados 
financeiros mundiais.
A crise obrigou o governo a elevar novamente as taxas de juros 
e decretar um novo ajuste fiscal. Novamente a fuga de capitais vol-
tou a assolar a economia brasileira e o Plano Real.
A consequência foi a demissão de 33 mil funcionários públicos 
não estáveis da União, suspensão do reajuste salarial do funciona-
lismo público, redução em 15% dos gastos em atividades e corte de 
6% no valor dos projetos de investimento para 1998, o que resultou 
em uma diminuição de 0,12% do PIB naquele ano.
A crise se intensificou em agosto com o aumento da instabilida-
de financeira na Rússia, com a desvalorização do rublo e a decreta-
ção da moratória por parte do governo.
A resposta brasileira foi a mesma de sempre, a elevação da taxa 
de juros básica para até 49% e um novo pacote fiscal para o período 
1999/2001. No entanto, diferentemente das outras duas crises, o 
governo recorreu ao FMI em dezembro de 1998, com quem obteve 
cerca de US$ 41,5 bilhões, comprometendo-se a manter o mesmo 
regime cambial, desvalorizando gradativamente o Real, acelerar as 
privatizações e as reformas liberais, realizar o pacote fiscal e assu-
mir metas com relação ao superávit primário.
O fim da âncora cambial
Nos primeiros dias do segundo governo de Fernando Henrique 
Cardoso, em janeiro de 1999, a repercussão da crise cambial russa 
chegou ao seu limite no Brasil. As elevadas taxas de juros começa-
vam a perder força como ferramenta de manutenção do capital ex-
terno na economia brasileira e um novo déficit recorde na conta de 
transações correntes obrigou o governo a mudar a banda cambial, 
que foi ampliada para R$ 1,32.
Logo no primeiro dia, o Real atingiu o limite máximo da ban-
da, sendo desvalorizado em 8,2%, o que influenciou na queda do 
valor dos títulos brasileiros no exterior e das bolsas de valores do 
mundo todo. O Banco Central tentou defender o valor da moeda, 
vendendo dólares, mas a saída de capitais continuou ameaçando 
se aproximar do limite de 20 bilhões, que foi acordado com o FMI 
no ano anterior. Nesse momento, o governo não teve outra escolha 
senão deixar o câmbio flutuar livremente, alcançando a cotação de 
R$ 1,98 em 13 dias.
Os Ciclos Diferenciados e o Desafio da Política Monetária Pró-
-Cíclica24
A crise financeira internacional de 2008 provocou uma queda 
consistente da inflação nas economias desenvolvidas, mas nos paí-
ses emergentes foram registradas divergências acentuadas no ci-
clo inflacionário, que tem prevalecido nos anos recentes. O Chile 
e o México iniciaram um ciclo de flexibilização monetária em 2012 
e 2013, respectivamente, com a desaceleração do ritmo de cres-
cimento econômico, enquanto o Brasil elevou sua taxa básica de 
juros em 375 pontos base entre abril de 2013 e abril de 2014 de 
7,25% para 11,0%, a despeito da redução no ritmo da expansão da 
atividade industrial e do consumo privado.
O estabelecimento do regime de metas de inflação em 1999 
marcou o início de um novo arcabouço institucional da política mo-
netária no Brasil. Com a combinação do regime de câmbio flutuan-
te, as expectativas inflacionárias assumiram um papelrelevante 
na convergência da inflação para a meta central, que passou ser 
o principal objetivo do Banco Central e a taxa de juros, o principal 
instrumento.
Entretanto, para a boa consecução do regime de metas de in-
flação é crucial a convergência e a coordenação das políticas fiscal e 
monetária. Após registrar superávits primários consolidados na mé-
dia de 1,93% do PIB entre 1999-2002 e de 2,42% entre 2003-2008, a 
política fiscal brasileira tem sido posta em cheque nos últimos anos 
quanto à sua neutralidade na inflação e a sua influência nas ações 
da política monetária. Os desvios consistentes da inflação à meta 
central nos últimos anos e sobretudo, o timming e a intensidade 
do ajuste da taxa de juros levantaram questionamentos entre os 
analistas em relação ao ciclo da política monetária, que estaria mais 
associado a um padrão pró-cíclico.
As economias em desenvolvimento tradicionalmente imple-
mentaram políticas fiscais pró-cíclicas, com expansão de gastos 
públicos em períodos de elevação das taxas de crescimento eco-
nômico e ajustes contracionistas nas contas públicas nos períodos 
recessivos ou de desaceleração, reforçando a deterioração dos 
ciclos de negócios. O comportamento pró-cíclico da política fiscal 
estaria associado às dificuldades de acesso ao financiamento do 
mercado internacional de capitais e também às pressões políticas 
por aumento de gastos em períodos do ciclo de alta do crescimento 
econômico.
Entretanto, nos últimos anos, aumentou o número de econo-
mias emergentes que tem acionado políticas fiscais anticíclicas, ou 
seja, tem priorizado a recuperação da poupança fiscal em anos de 
bom crescimento para utilizar essa poupança de forma anticíclica 
nos períodos de contração ou desaceleração econômica, via am-
pliação dos gastos fiscais e crédito público subsidiado. Esse movi-
mento estaria associado à qualidade institucional e regulatória e ao 
aprofundamento das reformas econômicas estruturais, reforçando 
a credibilidade do cumprimento das metas de superávit primário.
No caso da economia brasileira, os números apontam caracte-
rísticas de uma política fiscal anticíclica (em alguns períodos, o go-
verno não formalizou a política anticíclica como objetivo, sobretudo 
antes de 2012) após a crise financeira internacional, considerando 
o indicador de superávit primário consolidado do setor público es-
trutural acumulado em quatro trimestres como proporção do PIB. 
Para citar um exemplo, esse superávit recuou de 3,4% no primeiro 
24 VELHO, Eduardo. Os Ciclos Diferenciados e o Desafio da Política Monetária 
Pró-Cíclica. Disponível em: http://agriforum.agr.br/os-ciclos-diferenciados-e-o-de-
safio-da-politica-monetaria-pro-ciclica/
REALIDADE BRASILEIRA
290290
a solução para o seu concurso!
Editora
trimestre de 2008 para 2,2% no terceiro trimestre de 2009, quando 
a taxa real de crescimento acumulada em quatro trimestres recuou 
de 6,37% para uma variação negativa de -1,4% na mesma compara-
ção. Entre 2010 e 2013, também ocorreu a deterioração do superá-
vit primário durante o ciclo de desaceleração do PIB.
Entretanto, a recuperação da poupança fiscal na economia 
brasileira em períodos de expansão econômica tem sido puxada de 
forma preponderante pelo aumento das receitas tributárias e não 
por corte e/ou maior eficiência dos gastos. Nesse panorama, a po-
lítica fiscal pressiona a inflação de custos e no último triênio 2011-
2013, apresentou novo impulso fiscal de demanda, o que também 
demandou a necessidade de retomada de um novo ciclo de aperto 
monetário em 2013.
No passado, em diversas economias emergentes que apre-
sentavam déficits elevados de transações correntes no balanço de 
pagamentos e pressão de desvalorização de suas moedas, como o 
Brasil nas décadas de 80 e 90, os governos acionavam o aumento 
das taxas internas de juros para atenuar esse movimento, mas que 
por outro lado, limitava ou mesmo impedia a adoção de política 
monetárias anticíclicas.
Nos últimos cinquenta anos, cerca de 40% dos países em de-
senvolvimento sancionaram políticas monetárias pró-cíclicas, en-
quanto países industrializados praticaram políticas monetárias 
anticíclicas no mesmo período. Ao comparar os ciclos da política 
monetária, através da taxa básica de juros e da taxa real de cresci-
mento econômico medida pelo PIB (para uma amostra de 69 eco-
nomias entre os anos de 1960 a 2009), constatou-se que todas as 
economias consideradas industrializadas adotaram taxas de juros 
mais elevadas em períodos de maior crescimento.
Crescimento econômico25
A economia internacional registrou uma aceleração do cres-
cimento a partir de 2002. A exemplo do que havia ocorrido entre 
1982 e 2001. As regiões que mais se destacaram foram a Ásia Oci-
dental e Pacífico e a China. Nesse último país, a média anual do 
período foi de quase 10%. A economia da Rússia, que conseguiu sair 
da recessão pós-socialista graças ao aumento dos preços do petró-
leo, se expandiu a 6,4% ao ano. 
Os países da União Europeia e o Japão tiveram comportamento 
inverso. Suas economias reduziram o crescimento a níveis inferiores 
a 2%. A América Latina apresentou uma recuperação, chegando a 
quase 4% ao ano a despeito de o Brasil ter mantido sua trajetória 
anual de 2,4%. Os EUA também mantiveram seu crescimento em 
torno de 3%. 
A economia brasileira, apesar do crescimento relativamente 
lento, apresentou, nesse período, uma mudança em relação às duas 
décadas anteriores. Houve uma substancial redução da fragilidade 
externa da economia, graças à acumulação de elevados superávits 
comerciais – US$ 32 bilhões, em média, entre 2001 e 2006, dos pelo 
aumento das exportações. O resultado foram os sucessivos saldos 
positivos nas transações correntes, da ordem de 1,5% do PIB
Esses elevados superávits externos se refletiram muito positi-
vamente nos indicadores de dívida e de reservas externas. A dívida 
externa líquida até setembro de 2006 havia sido reduzida para US$ 
70,8 bilhões, o equivalente a 35% do valor máximo alcançado em 
1999, US$ 205,1 bilhões. Já a dívida externa bruta registrou uma 
redução de US$ 84,8 bilhões nesse mesmo período, enquanto as 
25 CRUZ, Adriana inhudes Gonçalves, Et al. A Economia Brasileira: Conquistas 
dos Últimos dez anos e perspectivas para o futuro. Adaptado
reservas internacionais atingiram US$ US$ 62,7 bilhões, aumentan-
do em praticamente US$ 30 bilhões desde o nível mínimo atingido 
em 2000. Como se pode ver no Anexo 1, essa melhoria no quadro 
externo pode ser percebida em todos os demais indicadores de 
solvência externa da economia brasileira. A redução da vulnerabili-
dade externa foi acompanhada pelo fortalecimento financeiro das 
empresas brasileiras.
A partir de 2002, a dívida bruta das companhias abertas, a pre-
ços de dezembro de 2005 [Nascimento (2006)], caiu de R$ 366,8 
bilhões para R$ 286,5 bilhões: uma redução de aproximadamente 
R$ 80 bilhões. Com isso, ao final daquele último ano, a dívida total 
era 21,9% menor do que em 2002, ano em que atingiu seu valor 
máximo.
Do ponto de vista do endividamento líquido, a queda foi ainda 
maior. O saldo de R$ 253 bilhões a preços de 2005, registrado ao fi-
nal de 2002, se viu reduzido, no final de 2005, a R$ 130,7 bilhões, ou 
seja, quase a metade. Além da redução da dívida bruta, colaborou 
para esse resultado o aumento das disponibilidades e aplicações 
líquidas dessas empresas, que passaram de R$ 132 bilhões para R$ 
156 bilhões nesse período.
Com relação ao equilíbrio entre receitas e obrigações em moe-
da estrangeira, também se observou uma redução importante na 
fragilidade das empresas. A participação do endividamento em 
moeda estrangeira no endividamento total das empresas analisa-
das começou a declinar ainda em 2001 quando atingiu o máximo de 
46%. Desde então, a redução das dívidas em moeda estrangeira se 
acentuou, fazendo com que sua participação declinasse para 30% 
em 2005. Foi uma queda de 12 pontos percentuais em apenas três 
anos.
Esses resultados sinalizam um cenário de fortalecimentofi-
nanceiro das empresas, tanto em termos de menor endividamento 
líquido quanto de maior equilíbrio entre suas receitas e seus paga-
mentos em moeda estrangeira. Esse comportamento corresponde, 
no plano microeconômico, à redução da vulnerabilidade externa da 
economia como um todo.
Crescimento do mercado interno26
No ano 2000, o Brasil voltou a apresentar uma aceleração do 
crescimento, o PIB cresceu 4,3%. O aquecimento da economia es-
tava relacionado com a diminuição das taxas de juros, imposta rigi-
damente para ficar no patamar de 15% no ano anterior, o grande 
período em que o Real manteve-se estabilizado nos anos anteriores 
e com a recuperação da confiança, consequência do comprimento 
do acordo com FMI.
O ano de 2001 foi marcado por uma desaceleração econômica, 
a taxa de crescimento do PIB foi de apenas 1,3%. Isso aconteceu 
devido à crise energética vivenciada pelo país e pela insegurança 
nos mercados externos, provocados pela crise da Argentina e pelos 
atentados terroristas contra os Estados Unidos.
Com isso, o mercado de câmbio passou por algumas oscilações, 
na qual o Real sofreu uma depreciação média de 28,3% ao ano e a 
taxa cambial variou de R$1,95/US$, em Janeiro para R$2,36/US$ 
em Dezembro. 
Apesar disso, o impacto da desvalorização cambial sobre os 
preços não foi tão acentuado, o IPCA cresceu 6,8% no ano, justifica-
do pela diminuição da demanda do consumidor e pela paralisação 
do mercado de trabalho, em relação a novas contratações e a ren-
26 Ribeiro, Francielle Camila Santos, Et al. A EVOLUÇÃO DO PRODUTO 
INTERNO BRUTO BRASILEIRO ENTRE 1993 E 2009
REALIDADE BRASILEIRA
291
a solução para o seu concurso!
Editora
tabilidade real. Além disso, a crise energética também impactaria o 
nível de preços, e assim, o país operou com uma política monetária 
retrativa, através do aumento da taxa básica de juros e dos depó-
sitos compulsórios, para permanecer dentro da meta inflacionária.
O colapso energético ocorrido no Brasil neste período compro-
meteu o fornecimento e distribuição de energia elétrica do país. 
Esta crise interna, que obrigou os brasileiros a racionar energia, 
aconteceu por dois principais motivos: a pequena quantidade de 
chuva, que deixou inúmeras represas vazias, e pela carência de pla-
nejamento e de investimento, tanto na geração como na distribui-
ção da energia elétrica.
Em 2001, a economia da Argentina, que estava atrelada ao 
câmbio fixo, no qual um peso era equivalente a um dólar, tentou 
negociar suas dívidas, porém só aprofundou ainda mais a crise. Em 
dezembro, o país declarou a moratória de sua dívida, neste mês, 
o Presidente Fernando de La Rua renunciou, e em seguida, outros 
quatro presidentes assumiram o cargo e renunciaram em 12 dias.
A taxa de crescimento em 2002 foi de 2,7%, ocasionada devi-
do a vitória nas eleições presidenciais do país pelo candidato de 
oposição, Luiz Inácio Lula da Silva, que trouxe incerteza quanto à 
sustentação da política econômica, o chamado risco-Lula, nome 
que faz alusão ao risco-país. O risco-país tenta medir a instabilidade 
econômica em um país e assim o risco que você assume ao investir 
nele, quanto maior, menores serão as chances de atrair investidores 
estrangeiros.
Esse fator, aliado à degradação da economia e da política da 
Argentina, resultou na queda do fluxo de capitais e aumentou risco 
dos países emergentes, pelo provável ataque ao Iraque pelos EUA, 
que provocou instabilidade nos preços internacionais do petróleo e 
afetou os preços internos de seus derivados.
Em consequência desses fatores, o aumento da taxa cambial 
não só continuou como passou a influenciar os preços internos e 
elevar a dívida pública, pois parte dela estava acoplada à moeda 
estrangeira, terminando o ano com a cotação de R$3,63/US$ e com 
uma depreciação de 52% do Real. Mesmo com a moeda deprecia-
da e com o aumento da inflação, o Banco Central decidiu reduzir 
para 18% a taxa Selic em julho, agosto e setembro, porém no em 
outubro teve início um aumento sucessivo da taxa, concluindo o 
ano em 25%.
Em 2002, o que aumentou o nível desta taxa foi o risco-Lula, 
que trouxe insegurança quanto à política econômica que iria em-
pregar.
Em 2003 o governo adotou política fiscal e monetária contra-
cionista, fazendo com que a taxa de crescimento do PIB voltasse a 
desacelerar e alcançasse a marca de 1,1%. A insegurança do perío-
do foi caracterizada pelo aumento do risco-país, pela depreciação 
da taxa de câmbio, pela saída de capitais e pela queda do crédito 
internacional.
Com o objetivo de controlar a inflação, o governo optou por 
aumentar a taxa Selic para 26,5% ao ano em fevereiro, mantendo-a 
assim até junho. Esta política econômica resultou em maior con-
fiança dos mercados e na baixa do câmbio, que passou de R$3,59/
US$ em fevereiro para R$2,93/US$ ao final do ano. Com a aprecia-
ção do câmbio e com ferramentas monetárias restritivas, o governo 
conseguiu obter certo controle sobre a inflação e assim voltou a 
diminuir a taxa básica de juros. Mesmo assim, a inflação acumulada 
do período alcançou 9,3% (IPCA).
O ano de 2004 foi marcado pela retomada do crescimento do 
PIB brasileiro, alcançando a taxa de 5,7%. Com um ambiente exter-
no favorável e o contínuo aumento do saldo da balança comercial, 
a taxa de câmbio voltou a valorizar-se. Além disso, a queda da in-
flação, a partir da metade do ano de 2003, fez com que o Banco 
Central reduzisse a meta da taxa Selic em 10 pontos percentuais, 
atingindo, em janeiro de 2004, 16,5% a.a.
De janeiro a abril, o Comitê de Política Monetária (COPOM) de-
cidiu diminuir a taxa Selic em meio ponto percentual para prorrogar 
o crescimento econômico e o pequeno nível da inflação. Porém, no 
segundo semestre, o aumento da pressão inflacionária acarretou 
um aumento desta taxa, que passou para 17,5% ao ano.
Em 2005, o país apresentou crescimento de 3,2%, desempe-
nho menor que o verificado em 2004, devido à desaceleração dos 
investimentos, da indústria de transformação e da agropecuária. 
Segundo Rebeca Palis, gerente de Contas Nacionais do IBGE, este 
resultado foi puxado pelo consumo das famílias, influenciado prin-
cipalmente pelo aumento do crédito e dos salários reais, da ordem 
de 3,1%, enquanto que o gasto do governo cresceu 1,6% em relação 
ao ano anterior.
De acordo com o IBGE, a participação dos componentes da 
demanda, no resultado do PIB deste ano, foi de 55,5% consumo 
das famílias, 20,6% investimento, 19,5% consumo do governo e ex-
portações líquidas de 4,4%, sendo que as exportações contribuíram 
com 16,8%, contra 18,0% de 2004, queda justificada pela aprecia-
ção do Real frente ao dólar, enquanto as importações alcançaram 
12,4%, contra 13,4% em 2004.
Os investimentos registraram alta de apenas 1,6%, em relação 
a 2004, pois a crise de confiança, motivada pelas incertezas quanto 
às políticas do governo, fez com que empresários e consumidores 
adiassem projetos para 2006. A taxa de juros mais elevadas e o 
câmbio contribuíram com esse resultado.
A participação setorial no valor adicionado foi da ordem de 
R$ 145,8 bilhões para a agropecuária, redução na participação de 
1,70% em relação a 2004, totalizando 8,4% do PIB 2005. A indús-
tria e os serviços apresentaram desempenhos positivos, 40% e 
57%, respectivamente. O PIB per capita a preços correntes, definido 
como a divisão do total do PIB a preços correntes pela população 
residente atingiu R$ 10.520,00 em 2005.
Para o ano de 2006, o crescimento registrado foi de 4,0%, pe-
quena recuperação frente a 2005. O PIB per capita apresentou cres-
cimento real de 1,4% e o consumo das famílias 3,8% ante 2005.
Com base em dados do IBGE, o setor agropecuário cresceu 
3,2% em 2006, a indústria brasileira avançou 3%, puxada pela in-
dústria extrativa mineral (5,6%) e pela construção civil (4,5%). O 
ano foi marcado pelos reflexos da crise do agronegócio iniciada em 
2005, determinada pela ausência de investimentos e de incentivos 
por parte dos governos e, pela preocupação mundial com a gripe 
do frango,febre aftosa, transgenia, que comprometeram as expor-
tações brasileiras do setor.
O resultado de 2007 mostra crescimento de 5,7%, conquistado 
pela recuperação do setor do agronegócio, atividade que apresen-
tou o maior crescimento no ano com 5,3%, baseado no bom desem-
penho da lavoura de trigo, algodão herbáceo, milho em grão, cana e 
soja. O bom desempenho da economia também foi motivado pelo 
volume de investimentos (16,0%).
A indústria cresceu 4,9%, com destaque para a indústria de 
transformação com participação de 5,1%, e da construção civil 
5,0%, enquanto o setor de serviços apresentou alta de 4,7% em 
relação a 2006, desempenho determinado pelo subsetor de inter-
mediações financeiras e seguros (13,0%), seguido por serviços de 
informações (8,0%) e comércio (7,6%).
REALIDADE BRASILEIRA
292292
a solução para o seu concurso!
Editora
O PIB cresceu 5,1% em 2008, enquanto o PIB per capita cresceu 
4,0% em relação a 2007. A taxa de investimento de 2008 chegou a 
18,5% - a mais alta da série iniciada em 2000. Comparando o quarto 
trimestre de 2008 com o terceiro, o PIB apresentou queda de 3,6%, 
se comparado ao mesmo período de 2007 a economia brasileira 
registrou expansão de 1,3%
Os modestos resultados do último trimestre do ano foram mo-
tivados pela precipitação da crise mundial, iniciada nos Estados Uni-
dos, que foi negligenciada pelo governo brasileiro, que se limitou a 
reduzir os depósitos compulsórios e preferiu não alterar a taxa Se-
lic. A indústria foi o setor que mais padeceu, registrando queda de 
7,4%, enquanto a agropecuária e serviços apresentaram resultados 
de – 0,5% e – 0,4%, respectivamente no período.
Em 2009, a variação do PIB ficou em - 0,2%, totalizando R$ 
3.143 bilhões. Os resultados setoriais também apresentaram que-
da, sendo o pior desempenho da indústria - 5,5%, no qual todos 
os subsetores apresentaram queda, com destaque para a indústria 
e transformação (- 7,0%) e construção civil (-6,3%). O agronegócio 
recuou – 5,2%, devido à redução da produção de trigo, milho, café 
e soja. O setor de serviços apresentou alta de 2,6%.
Os componentes da demanda interna agregada apresentaram 
valores positivos para consumo das famílias (4,1%) e gastos do go-
verno (3,7%), enquanto que a formação bruta de capital fixo recuou 
9,9%.
A renda per capita caiu em 1,2%, ficando em R$ 16.414,00, re-
sultado maior que em 2008, devido à baixa taxa de crescimento da 
população (0,99%) e não ao desempenho da economia.
A taxa de investimento recuou para 16,7%, resultado direta-
mente relacionado à crise de confiança, que rondava a economia 
mundial no primeiro semestre de 2009, “recessão pronunciada, 
acontecida no 1º semestre do ano, reflexo da penetração da crise 
internacional no front doméstico, que atingiu de forma profunda os 
ramos mais articulados ao comércio externo, pela via perversa da 
diminuição da demanda, dos preços e do crédito”.
No segundo semestre, a economia se recuperou, em função 
do bom desempenho do mercado interno aquecido pelas reduções 
do Imposto sobre Produto Industrializado (IPI) para automóveis, 
eletrodomésticos da linha branca e materiais de construção, e da 
pequena melhora apresentada pelo comércio internacional.
O PIB do primeiro semestre, se comparado ao mesmo período 
de 2008, recuou 1,9% e, no segundo período de 2009, apresentou 
alta de 1,5%, seguindo a mesma base comparativa.
As medidas para mitigação dos efeitos da crise foram intensi-
ficadas entre 2008 até meados de 2009, período no qual a política 
monetária promoveu uma diminuição gradativa na taxa Selic de 
13,75% a.a. em dezembro/2008 para 8,75 a.a. em julho/2009. Por-
tanto, a recuperação demonstra que as medidas adotadas pelo go-
verno promoveram a reação econômica, fazendo com que o Produ-
to Interno Bruto crescesse nos últimos seis meses do ano anterior.
A Evolução do Salário Mínimo27
O primeiro mandato do governo Lula, marcado pelo começo 
de uma nova fase da inserção internacional da economia brasileira, 
a partir da melhora da demanda do mercado externo, determinan-
do grande parte das condições favoráveis ao bom desempenho do 
crescimento do PIB, o qual foi realimentado pela subsequente am-
pliação do investimento e consumo - resultando, entre os anos de 
27 SOUEN, Jacqueline Aslan. A Política de Valorização do Salário Mínimo e seus 
Determinantes no Contexto da Retomada Econômica, 2003 – 2010. Adaptado
2003 e 2006, numa média de variação anual do produto da ordem 
de 4,2% -, inaugurou um período de considerável estruturação no 
mercado de trabalho brasileiro, o que também contribuiu para a 
criação de um contexto favorável à implementação de uma política 
do salário mínimo.
A maior liquidez internacional no pós 2003, devido, em gran-
de medida, à política americana de juros baixos, ampliação do gas-
to público e do déficit comercial, juntamente à forte demanda da 
economia chinesa, contribuiu para um movimento mais favorável 
do comércio mundial, se traduzindo em melhoras crescentes das 
nossas exportações – via aumento de preços e quantidades, prin-
cipalmente em commodities, mas também em manufaturados –, 
mais competitivas devido ao câmbio desvalorizado, significando ex-
pressivos aumentos dos saldos anuais da balança comercial e em 
conta corrente. O aumento das exportações, por sua vez, rebateu 
positivamente na atividade econômica e, consequentemente, na 
dinâmica da demanda doméstica, reforçada, posteriormente, pelo 
aumento do crédito às empresas e ao consumidor pelas transfe-
rências de renda do programa Bolsa Família, e pelo movimento de 
recuperação do salário mínimo acima da inflação, o qual foi bene-
ficiado pela gradual ativação da economia, bem como um contexto 
político mais favorável.
Embora com a continuidade de um arranjo restritivo de política 
econômica, marcada pelos juros elevados - priorizando o contro-
le inflacionário -, câmbio flutuante e a busca dos recorrentes su-
perávits primários - para pagar o custo da dívida pública e reduzir 
a relação dívida/PIB -, com o aquecimento da economia os níveis 
absolutos e relativos de desemprego pararam de subir no mesmo 
ritmo anterior e, a partir de 2004, com o PIB crescendo em média 
3,5% ao ano, entre 2004-2006, houve um gradativo aumento da 
elasticidade do emprego em relação ao produto, com as ocupações 
aumentando cerca de 2% ao ano – ver tabela 2. A informalidade e 
o grau de desproteção previdenciária arrefeceram, e a massa dos 
rendimentos do trabalho, captada pela PNAD, cresceu considera-
velmente entre 2004-2006, mas, sobretudo entre 2005-2006, tanto 
pelo aumento das ocupações formais, como devido ao crescimento 
da renda média do trabalho – ver tabela 4 -, a qual se encontrava 
em níveis bastante baixos em 2004. Sendo assim, tal cenário aca-
bou significando melhores condições para a continuidade do pro-
cesso de recuperação do valor real do salário mínimo.
Com a recuperação da atividade econômica ocorreu um maior 
estímulo às contratações formais, sobretudo em razão do aumento 
de capacidade produtiva nas médias e grandes empresas - domi-
nantes no setor exportador – revertendo a tendência de pequena 
elasticidade emprego-renda dos anos 90. Dessa forma, inaugu-
rou-se um período de aumento das ocupações, principalmente o 
emprego assalariado formal. Esse quadro de aumento do emprego 
e formalização foi sendo realimentado pela continuidade do bom 
desempenho do produto, reforçado pelo aumento dos gastos das 
famílias e empresas, devido à ampliação do crédito de mais longo 
prazo. Outra fonte de ampliação dos empregos formais se deu a 
partir do setor público, devido aos avanços das políticas sociais, so-
bretudo em saúde, educação, previdência e assistência social, sen-
do que esses dois últimos setores passaram a contratar mais, como 
reflexo do maior dinamismo da atividade econômica. Portanto, a 
dinâmica econômica e do mercado de trabalho, no pós 2003, foram 
fundamentais para a ampliação do emprego formal. Contudo, tam-
bém é necessário sublinhar que uma fonte de estímulo damelhora 
do nível de formalização está relacionada ao maior empenho do go-
verno no sentido de aumentar a fiscalização nos estabelecimentos 
REALIDADE BRASILEIRA
293
a solução para o seu concurso!
Editora
e contratos de trabalho. Tal postura do poder público, através do 
Ministério do Trabalho e Emprego, Ministério Público do Trabalho 
e Justiça do Trabalho, tinha como principal objetivo a elevação da 
arrecadação de impostos e contribuições sociais, para contrabalan-
çar os crescentes gastos sociais, e as necessidades de ajuste fiscal, 
decorrentes da política macroeconômica conservadora, iniciada em 
1999.
Sendo assim, tais mudanças significativas na economia e no 
mercado de trabalho brasileiro, como reflexo de um ciclo virtuoso 
inaugurado em 2003 - com a forte demanda do mercado interna-
cional, num ambiente de relativo controle inflacionário e redução 
da vulnerabilidade externa e tendência à queda nas taxas de juros 
-, foram primordiais à trajetória ascendente do valor do salário mí-
nimo, que acumulou crescimento real de 27,87%, entre 2002-2006.
A ampliação do número de pessoas ocupadas com rendimento, 
aumento da formalização, crescimento da massa salarial - sobretu-
do entre 2005 e 2006 -, em virtude do aumento das ocupações, mas 
também pela elevação da renda média do trabalho, relacionada, 
por sua vez, com a recuperação do piso mínimo, foram fundamen-
tais para realimentar o ciclo virtuoso e, portanto, a continuidade 
do processo de recomposição do salário mínimo. Na medida em 
que o ritmo de crescimento da economia e do emprego se man-
teve, foram nítidos os efeitos positivos sobre as contas públicas e 
da previdência, realimentando o quadro favorável para a sequência 
de reajustes do mínimo, rebatendo nos aumentos do salário médio 
real que, somados aos ajustes dos pisos das categorias - como resul-
tado das negociações coletivas -, e à ampliação dos empregos for-
mais, implicou em substancial crescimento da massa salarial real, 
conforme dados da PNAD e assim sucessivamente, reproduzindo as 
condições para o contexto positivo.
Ampliação de credito28
Dentro do contexto econômico, pode-se dizer que o crédito 
oportuniza a realização de investimentos e conquistas, sendo ob-
tido por meio de uma relação de confiança entre duas ou mais 
partes, com as devidas garantias de operação, cujo propósito é a 
compra e venda de produtos ou serviços.
O acesso das populações carentes ao crédito é resultado das 
políticas públicas contra a pobreza, impactando a economia local. 
Pode-se dizer que o crédito é a chave que abre a porta para o cres-
cimento dos negócios em todos os setores da economia.
O sistema financeiro do Brasil tem como características certo 
conservadorismo, apoiando-se numa visão de curto prazo e privile-
giando a ideia de que capital atrai mais capital, às vezes, numa razão 
direta de seu tamanho e inversa com relação às suas necessidades.
A oferta de crédito tem uma elevada importância no desenvol-
vimento econômico do país, uma vez que possibilita o investimento 
na aquisição de produtos, máquinas, equipamentos, bem como na 
contratação de mão-de-obra, impulsionando a economia nacional. 
Com a oferta de crédito a médio e longo prazo, tanto as pessoas 
físicas como empresas participam de forma mais direta da econo-
mia, participação observada pelo aumento do consumo, aplicações 
em maquinários e abertura de novos estabelecimentos comerciais.
O crédito tem um importante papel no desenvolvimento local 
e este irá se refletir no desenvolvimento de uma forma mais ampla, 
ou seja, reflete-se na sociedade como um todo e faz com que os 
28 BURIN, Roberto. AS CONSEQUÊNCIAS DAS POLÍTICAS PÚBLICAS PARA 
AMPLIAÇÃO DO CRÉDITO COMO ESTRATÉGIA PARA O DESENVOLVIMENTO 
ECONÔMICO. Adaptado
governos se voltem para atender as necessidades da população. O 
desenvolvimento do país deve envolver a participação da sociedade 
civil, do poder público e das instituições financeiras, enquanto orga-
nismos liberadores de crédito.
Sempre que o poder público oportuniza a liberação do crédi-
to, o reflexo é o aumento do consumo. Saliente-se que pode haver 
maior inserção econômica e social, através da geração de emprego 
e renda.
É importante ressaltar que a concessão do crédito através das 
instituições financeiras baseia-se na análise de fatores operacionais 
e financeiros da empresa, no caso de pessoa jurídica, bem como 
nas garantias pessoais, no caso de liberação de crédito à pessoa 
física, ligado principalmente ao salário. O volume de crédito é 
diretamente proporcional à política econômica implantada pelo 
poder público, isto é, numa economia equilibrada, pode-se liberar 
o crédito sem maiores riscos. Salientando-se que quanto maior 
o endividamento, maiores são os riscos de inadimplência, assim 
como provoca a elevação das taxas de juros.
No entender de Securato (2002), toda operação de crédito se 
caracteriza por ser uma forma de obtenção de empréstimo, cujo 
custo está representado na forma de juros. Já Schrickel (2000, p. 
25) apresenta uma definição de operação de crédito como sendo 
“[...] todo ato de vontade ou disposição de alguém destacar ou ce-
der temporariamente parte de seu patrimônio a um terceiro, com 
a expectativa de que esta parcela volte à sua posse integralmente 
após decorrer o tempo estipulado”. No momento da liberação do 
crédito, ocorre o que Santos (2003, p.15) determina como sendo “a 
troca de um valor presente por uma promessa de reembolso futuro, 
não necessariamente certa em razão do fator risco”.
As operações de crédito têm sua classificação de acordo com 
a origem dos recursos, dividindo-se em: operações de crédito com 
recursos direcionados, aquelas que apresentam taxas e recursos 
previamente estabelecidos pelas normas governamentais e desti-
nadas fundamentalmente a setores como o rural, habitacional e de 
infra-estrutura; assim como as operações de crédito com recursos 
livres, as que têm sua formalização por meio de taxas de juros de-
finidas entre os tomadores e os estabelecimentos financeiros (OR-
TOLANI, 2000).
Entre as principais operações de crédito com recursos livres, 
pode-se destacar:
- Capital de giro: modalidade de empréstimo cujo objetivo é 
atender as necessidades de capital de giro das empresas. O emprés-
timo tem sua vinculação por meio de um contrato específico em 
que fica estabelecido o prazo, taxas, valores e as garantias necessá-
rias. Comumente, a garantia se realiza por meio de duplicatas, e os 
prazos giram em torno de 180 dias.
- Conta garantida: caracteriza-se por se tratar de uma conta de 
crédito aberta com valor limite pré-estabelecido e o movimento 
ocorre a partir dos cheques emitidos pelo cliente, se não houver 
saldo na conta corrente de movimentação. Havendo saldo disponí-
vel na conta movimento, há a transferência dos valores para a conta 
garantida, cobrindo o saldo devedor da mesma.
- Desconto de títulos (notas promissórias e duplicatas): o banco 
libera aos clientes, de forma imediata, recursos que serão recebi-
dos quando do vencimento das promissórias e duplicatas entregues 
à instituição financeira. O cliente recebe os valores, antecipa seu 
fluxo de caixa e transfere ao banco os documentos que seriam re-
cebidos no futuro.
REALIDADE BRASILEIRA
294294
a solução para o seu concurso!
Editora
- Aquisição de bens: operação que se destina a possibilitar a 
aquisição de bens, tanto a pessoas físicas como jurídicas, ficando 
o bem adquirido como garantia da operação de crédito realizada.
- Financiamento imobiliário: caracteriza-se por não estar inte-
grado ao Sistema Financeiro de Habitação e seu objetivo é o finan-
ciamento para adquirir, construir ou reformar imóveis.
- Cheque especial: tipo de crédito em que há a vinculação de 
um determinado limite à conta bancária da pessoa física. O saldo 
desse limite é abatido sempre que houver saldo na conta bancária 
do devedor.
- Crédito pessoal: tradicional operação de crédito destinada às 
pessoas físicas, mas ressalta-se que a concessão não se caracterizapela vinculação de um bem ou de algum serviço.
- Cartão de crédito: modalidade de crédito que disponibiliza, 
entre outros, serviços como pagamentos à vista entre consumidor 
e empresa, bem como permite a liberação de dinheiro de forma 
direta ao consumidor por meio de uma operação de saque.
- Crédito consignado: representa uma modalidade de crédito 
muito utilizada atualmente. Trata-se de um empréstimo em que os 
débitos das parcelas serão realizados diretamente no salário do to-
mador do empréstimo, ou seja, diretamente em seu contracheque. 
No entanto, essa modalidade deve obedecer aos limites de endivi-
damento do trabalhador, conforme o valor de seu salário (FORTU-
NA, 1999; BACEN, 2007).
A liberação de crédito através da utilização das políticas pú-
blicas, especificamente no período de 2002 a 2009, possibilitou o 
acesso ao crédito das chamadas populações de baixa renda, urba-
nas e rurais; bem como a elevação do consumo e a consequente 
geração de emprego e renda. Conforme Torres Filho (2006), a partir 
do ano 2000, evidencia-se um crescimento do crédito para a pessoa 
física em razão da consolidação do sistema financeiro no que diz 
respeito ao enfrentamento das constantes crises financeiras e da 
capacidade de manter a economia nacional num patamar de estabi-
lidade e segurança, a partir de alguns ajustes e redirecionamentos.
Conforme Slomp (2012), percebe-se, no país, a instalação da 
chamada cultura do endividamento, em face do aumento no nú-
mero de pessoas endividadas junto às instituições financeiras, bem 
como pela elevação do crédito direto ao consumidor em lojas e 
departamentos; fazendo com que o endividamento se caracterize 
como um reflexo da sociedade. Assim sendo, a dívida é parte inte-
grante do contexto econômico e está diretamente relacionada às 
atuações internacionais, nacionais, regionais e até familiares, em 
face disso, o governo e os órgãos de controle devem estar atentos 
para que o endividamento não se torne um problema de irreversí-
vel solução.
Transferência de Renda29
No Brasil, país de grande dimensão continental, a acumulação 
ocorre de forma heterogênea. Em algumas áreas estão concen-
trados setores dinâmicos da economia, que promovem cada vez 
mais a expansão produtiva daquele espaço, enquanto em outras 
ocorrem fragilidades econômicas. Buscar a integração do processo 
produtivo entre as regiões do Brasil para promover o acúmulo de 
excedentes e a redução das desigualdades sociais rumo a um pos-
terior desenvolvimento, deveria estar entre os principais objetivos 
das ações governamentais. 
29 SILVA. Audileia Rodrigues. PROGRAMAS DE TRANSFERÊNCIAS DE REN-
DA E DESENVOLVIMENTO: UMA ANÁLISE DO PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA 
NO MUNICÍPIO DE PLANALTO – BA, NO PERÍODO DE 2004 A 2010. Adaptado
As discussões em torno das causas do crescimento e desen-
volvimento de uma nação são das mais diversas. Enquanto alguns 
economistas compartilham a ideia de que crescimento e desen-
volvimento são sinônimos, outra corrente de teóricos diferenciam 
ambos, propondo ser o crescimento condição indispensável, mas 
não suficiente ao desenvolvimento. Há também uma nova proposta 
de desenvolvimento sustentada no princípio da justiça social, com 
a equalização das oportunidades, contrapondo-se ao modelo con-
vencional de desenvolvimento econômico predominante.
Daí a importância de não se confundir crescimento com de-
senvolvimento, fazendo-se necessário a compreensão de ambos 
os processos, pois em algumas situações associado ao crescimen-
to ocorrem queda dos indicadores sociais. O crescimento estaria 
relacionado ao aumento da renda per capita, enquanto que, o 
desenvolvimento contemplaria o aumento da produção nacional 
acompanhado de melhorias no nível de vida da população e de 
transformações sociais e econômicas ocorridas na sociedade, o que 
evidencia a complexidade da relação existente entre crescimento e 
desenvolvimento.
As análises mais completas acerca das questões do desenvolvi-
mento, além avaliarem as variações quantitativas do produto e as 
melhorias em educação, saúde, nível de bem estar, entre outros, 
consideram a questão ambiental, pois “Com o tempo, o crescimen-
to econômico tende a esgotar os recursos produtivos escassos, atra-
vés de sua utilização indiscriminada.”
Daí a relevância do gasto social e das rendas monetárias para as 
pequenas economias, pois em muitos casos, eles são direcionados 
aqueles que não possuem renda, implicando na ampliação do con-
sumo destes beneficiários, e em ganhos econômicos. O gasto social 
teria efeitos sobre o produto e a renda da economia, o que pode ser 
atribuído ao princípio da demanda efetiva. Outro efeito concentra-
-se na promoção autônoma da redistribuição da renda que o gasto 
pode promover aos beneficiários. No Brasil, o avanço em gasto so-
cial começa a ocorrer a partir da Constituição de 1988, momento de 
grandes demandas sociopolíticas em todo o país.
O programa Bolsa Família é uma representação bastante plau-
sível nesta proposta de desenvolvimento equitativo, haja vista que, 
além de atender parcela significativa da população brasileira em 
situação de pobreza e extrema pobreza, o programa conta com 
condicionalidades nas áreas de saúde e educação, o que acaba por 
contribuir com igualdade, e com a oportunidade de inclusão.
As políticas sociais se definem como a intervenção do Estado 
nas questões sociais do país, com vista a melhorar as condições de 
vida de seus habitantes, e oferecer direitos, como educação, saú-
de e assistência social. Dentre os objetivos das políticas, a redução 
das desigualdades, pode ser considerada como um dos mais impor-
tantes, se constituindo em uma forma de ampliar o bem estar da 
sociedade.
A crise econômica 2008 - Abalos na economia mundial
A crise que mais abalou a economia mundial desde a crise de 
1929 foi a que eclodiu nos EUA a partir de uma bolha (uma situação 
de super demanda que estimula a especulação financeira) no setor 
imobiliário e se alastrou para todos os outros setores econômicos 
e países do mundo. Ocorreram várias outras crises econômicas en-
tre 29 e 2008, mas foram menos violentas. Como outras crises que 
ocorreram neste intervalo podemos citar as crises do petróleo, na 
década de 70 (1973 e 1979). A crise atingiu os setores financeiros 
(de créditos financiamentos e negociações na bolsa de valores) e 
REALIDADE BRASILEIRA
295
a solução para o seu concurso!
Editora
produtivos (retração na produção das indústrias, desemprego e di-
minuição no consumo de bens e serviços.). Se alastrou rapidamente 
e de forma notável atingiu com mais profundidade os países mais 
desenvolvidos. EUA, UE, e Japão foram os mais impactados. Uma 
razão para isso é que devemos nos lembrar que na Globalização 
todas as grandes economias do mundo são muito interligadas e in-
terdependentes, podendo gerar um efeito dominó. 
Ainda nos dias de hoje, idos de 2015, alguns países europeus 
estão passando por uma forte crise econômica e a união europeia 
corre risco de se desmantelar e o Euro de se enfraquecer. Há vá-
rias propostas nos PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda/Eire, Grécia e 
Espanha), os mais atingidos pela crise europeia, de abandonar a 
moeda e a UE. Nos mais industrializados também há convicções de 
abandonar a organização. Foi marcado no Reino Unido um plebis-
cito para decidir se ficam ou não na EU. A crise atingiu também os 
Emergentes. Como dependem do capital das economias centrais e 
exportam matérias primas para lá, foram atingidos e tiveram um 
crescimento econômico menor. Lembre-se que países desenvolvi-
dos param de produzir e de comprar commodities (matérias pri-
mas negociadas nas bolsas internacionais. Fique ligado, pois quem 
determina o preço é o mercado e não os produtores.) e no caso 
do Brasil, exportamos menos minérios e produtos agrícolas. Como 
tudo isso começou?
A crise estourou nos EUA e é importante lembrarmos uma de 
suas características: Seu banco central o FED (federal reserve) tem 
total autonomia para mexer nas taxas de juros. E comonão há inter-
venção estatal, quando um consumidor adquire um financiamento, 
os valores das parcelas podem oscilar de acordo com a oscilação 
dos juros. Em 2001 ocorre o atentado do 11/09 que estimula a 
política de Guerra ao Terror do então presidente George Bush de 
invadir o Afeganistão em 2001 e o Iraque e os gastos militares au-
mentam muito.
Nos anos de 2001 o FED diminuiu a taxa básica de juros que 
ficou em torno de 1,75% a 1%. O objetivo desta medida é estimu-
lar a economia através do consumo. Os financiamentos ficam mais 
baratos e vendem mais mercadorias. O valor do financiamento de 
casas caiu e impulsionou a construção civil e o mercado imobiliário, 
que passa a oferecer créditos a muitas pessoas. No linguajar corpo-
rativo americano denominava-se como “Sub prime” os setores tra-
balhadores mais frágeis da economia (trabalhadores assalariados e 
pequenos empreendedores), que por possuírem uma baixa renda, 
há um risco maior de calote no caso de aumento das prestações). 
Multiplicam-se os empréstimos imobiliários e a emissão de títulos 
na bolsa de valores, dando como garantia as prestações a serem pa-
gas, ou seja, em caso de inadimplência perde o imóvel. Com a super 
demanda forma-se uma bolha especulativa, e aumentam os valores 
dos imóveis e aplicações financeiras na construção civil. 
Devidos aos altos gastos militares e políticas neoliberais em 
que o governo retirou os impostos das rendas mais altas ocorre au-
mento da inflação (aumento no preço dos produtos) no país. Para 
tentar conter a inflação o FED aumentou a taxa básica de juros e 
tentar incentivar a procura internacional por dólares. A principal 
consequência é o aumento do valor dos financiamentos e presta-
ções. As taxas foram aumentadas até 5,25%, cinco vezes maior que 
2001. Como as prestações multiplicaram seu valor, aquele grupo 
mais frágil da economia designado “sub prime” pelos bancos não 
conseguiram pagar suas dívidas e ocorreram vários calotes.
Lembra-se que o próprio imóvel era dado como garantia da 
dívida? Então. Ocorre uma grande onda de despejos e muitas pes-
soas foram parar nas ruas. Com o aumento da oferta de imóveis 
(oferta maior que a demanda) os preços desabam. Como as dividas 
foram transformadas em títulos os bancos comercializaram estes 
títulos nas bolsas de valores. Estes títulos na bolsa (com base nos 
empréstimos dados como garantia) despencou causando prejuízos 
à bancos e a empresas imobiliárias. O resultado: Efeito dominó. Mi-
lhares de pessoas perdem a moradia, bancos quebram e o setor de 
construção civil entrou em paralisia.
Consequências da crise
- Adoção de medidas Keynesianas, ou seja, os Estados passam a 
intervir na economia. Os bancos no mundo todo injetam em torno 
de 400 bilhões nos mercados financeiros através de empréstimos 
de curto prazo para os bancos manterem as transações financeiras. 
O dinheiro emprestado é público. O governo norte americano inje-
tou muito dinheiro para salvar bancos e estimular fusões entre eles. 
Os bancos que não receberam ajuda estatal quebraram e levaram 
junto outros bancos e fundos de pensão.
- Os investidores (por segurança param de investir em títulos 
imobiliários) e migram seus investimentos para as commodities o 
que provocou aumento na cotação internacional dos grãos. Mais 
de 20 nações pobres passaram por uma crise alimentar no primeiro 
semestre de 2008, causando protestos populares.
- As medidas Keynesianas são adotadas pelas potências 
industriais para evitar uma maré de empresas quebradas. Investem 
trilhões de dólares nas instituições bancárias e grandes empresas. 
As eficácias das medidas neoliberais passam a ser questionadas. Os 
governos estatizam empresas e garantem os depósitos bancários 
de investidores
- Recessão (retração da economia)
- Desemprego
- Diminuição do crescimento econômico mundial
 DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E MEIO AMBIENTE. 
A relação entre meio ambiente e desenvolvimento sustentável 
é um dos temas mais prementes da atualidade, refletindo a necessi-
dade urgente de reavaliar as práticas econômicas e sociais à luz dos 
impactos ambientais. O conceito de desenvolvimento sustentável 
surge como uma resposta à crescente consciência de que o mode-
lo de desenvolvimento econômico vigente, muitas vezes baseado 
na exploração excessiva de recursos naturais, não é viável a longo 
prazo. Assim, busca-se um equilíbrio entre crescimento econômico, 
conservação ambiental e equidade social.
A Crise Ambiental Global
Atualmente, enfrentamos uma série de crises ambientais, in-
cluindo as mudanças climáticas, a perda de biodiversidade, a polui-
ção e a degradação dos solos e dos recursos hídricos. As mudanças 
climáticas, impulsionadas principalmente pelas emissões de gases 
de efeito estufa resultantes de atividades humanas, como a quei-
ma de combustíveis fósseis, representam uma ameaça significativa 
para ecossistemas, economias e comunidades em todo o mundo. 
A perda de biodiversidade, por sua vez, resulta da destruição de 
habitats, poluição, práticas agrícolas insustentáveis e mudanças 
climáticas, comprometendo os serviços ecossistêmicos dos quais 
dependemos.
REALIDADE BRASILEIRA
296296
a solução para o seu concurso!
Editora
Desenvolvimento Sustentável como Solução
O desenvolvimento sustentável propõe um modelo em que o 
crescimento econômico é alcançado sem esgotar os recursos natu-
rais e prejudicar o meio ambiente. Essa abordagem enfatiza a im-
portância de atender às necessidades do presente sem comprome-
ter a capacidade das gerações futuras de atender às suas próprias 
necessidades. Isso envolve a integração de políticas ambientais, 
econômicas e sociais, a promoção de tecnologias limpas e renová-
veis, e a adoção de práticas de consumo e produção responsáveis.
Economia Verde e Energias Renováveis
Uma parte crucial do desenvolvimento sustentável é a tran-
sição para uma economia verde, caracterizada por ser inclusiva e 
geradora de baixas emissões de carbono. Isso inclui investimentos 
em energias renováveis, como solar, eólica e hidrelétrica, que são 
fundamentais para reduzir a dependência de combustíveis fósseis. 
Além disso, a economia verde envolve a criação de empregos “ver-
des” que contribuem para preservar ou restaurar o meio ambiente, 
seja na agricultura, indústria, serviços ou administração pública.
Sustentabilidade Social e Equidade
O desenvolvimento sustentável também aborda questões de 
equidade social e sustentabilidade. Isso envolve garantir que todos 
tenham acesso aos recursos básicos, educação e saúde, e que as 
comunidades tenham voz nas decisões que afetam seus ambientes 
e seus meios de subsistência. A promoção da igualdade de gêne-
ro, a proteção dos direitos dos povos indígenas e das comunidades 
locais, e a garantia de práticas comerciais justas são fundamentais 
para alcançar a sustentabilidade em todas as suas dimensões.
Desafios e Caminhos a Seguir
A implementação efetiva do desenvolvimento sustentável re-
quer ação coletiva global, envolvendo governos, empresas e socie-
dade civil. Acordos internacionais, como o Acordo de Paris sobre 
mudanças climáticas e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentá-
vel das Nações Unidas, são passos importantes nessa direção. No 
entanto, ainda há desafios significativos, incluindo a necessidade de 
financiamento adequado, o desenvolvimento de políticas eficazes 
e a promoção de mudanças comportamentais em nível individual 
e coletivo.
O caminho para o desenvolvimento sustentável não é simples 
nem fácil, mas é essencial para garantir um futuro onde o progres-
so econômico, a conservação ambiental e o bem-estar social cami-
nhem lado a lado. Assim, cada ação que tomamos hoje para apoiar 
este objetivo é um passo em direção a um mundo mais equitativo, 
saudável e sustentável para todos.
 BIOMAS BRASILEIROS: USO RACIONAL, CONSERVAÇÃO E 
RECUPERAÇÃO
As formações vegetais são tipos de vegetação facilmente iden-
tificáveis na paisagem e que ocupam extensas áreas. É o elemento 
mais evidente na classificação dos biomas. Estes,por sua vez, são 
sistemas em que solo, clima, relevo, fauna e demais elementos da 
natureza interagem entre si formando tipos semelhantes de cober-
tura vegetal, como as Florestas Tropicais, as Florestas Temperadas, 
as Pradarias, os Desertos e as Tundras. Em escala planetária, os 
biomas são unidades que evidenciam grande homogeneidade nas 
características de seus elementos.
Assim, há Florestas Tropicais na América, África, Ásia e Ocea-
nia que, embora semelhantes, possuem comunidades ecológicas 
com exemplares distintos. Alguns desses exemplares são chama-
dos de endêmicos, ou seja, não ocorrem em nenhuma outra área 
do mundo. Entre outros fatores, isso se explica pela separação dos 
continentes: o afastamento físico fez com que as espécies vivessem 
evoluções paralelas, apesar de distintas, processo que é chamado 
especiação.
As plantas e os animais de um mesmo bioma não estão presen-
tes, necessariamente, em diferentes regiões do planeta. Exemplo: o 
chimpanzé é encontrado na Floresta Tropical de Uganda, mas não 
compõe a fauna das Florestas Tropicais sul-americanas. Por outro 
lado, várias espécies endêmicas de nosso continente não são en-
contradas nas florestas africanas, como é o caso do mico-leão-dou-
rado, originário da Mata Atlântica brasileira.
Principais Características das Formações Vegetais
A formação vegetal é o elemento mais evidente na classifica-
ção dos ecossistemas e biomas, por isso, e dependendo da escala 
utilizada em sua representação, são feitas grandes generalizações.
Os elementos climáticos, em especial a temperatura e a umida-
de, são determinantes para o tipo de vegetação de uma área. Eles 
definem diversas características das plantas, necessárias à adapta-
ção aos diferentes climas. Com base nessas características é possí-
vel classificar as plantas em:
Perenes (do latim perene, “perpétuo, imperecível”): plantas 
que apresentam folhas durante o ano todo;
Caducifólias, decíduas (do latim deciduus, “que cai, caduco”) 
ou estacionais: plantas que perdem as folhas em épocas muito frias 
ou secas do ano;
Esclerófilas (do grego sklerós, “duro, seco, difícil”): plantas com 
folhas duras, que têm consistência de couro (coriáceas);
Xerófilas (do grego xêrós, “seco, descarnado, magro”): plantas 
adaptadas à aridez;
Higrófilas (do grego hygrós, “úmido, molhado”): plantas, geral-
mente perenes, adaptadas a muita umidade;
Tropófilas (do grego tropos, “volta, giro”): plantas adaptadas a 
uma estação seca e outra úmida;
Aciculifoliadas (do latim acicula, “alfinete, agulhinha”): pos-
suem folhas em forma de agulhas, como os pinheiros. Quanto me-
nor a superfície das folhas, menos intensa é a transpiração e maior 
é a retenção de água pela planta;
Latifoliadas (do latim lato, “lrgo, amplo”): plantas de folhas lar-
gas, que permitem intensa transpiração; são geralmente nativas de 
regiões muito úmidas.
Os índices termopluviométricos, associados a outros fatores 
de variação espacial menor e que também influem no tipo de ve-
getação, como maior ou menor proximidade de curso de água, os 
diferentes tipos de solo, a topografia e as variações de altitude, 
determinam a existência de diferentes ecossistemas não contem-
plados nos mapas-múndi. Todas as formações vegetais têm grande 
importância para a preservação dos variados biomas e ecossiste-
mas da Terra.
REALIDADE BRASILEIRA
297
a solução para o seu concurso!
Editora
Cobertura Vegetal Original
Tundra
Vegetação rasteira, de ciclo vegetativo extremamente curto. 
Por encontrar-se em regiões subpolares, desenvolve-se apenas du-
rante os três meses de verão, nos locais onde ocorre o degelo. Um 
exemplo disso é o rio na Groelândia que se forma nessa estação, 
com o derretimento da neve. As espécies típicas são os musgos, 
nas baixadas úmidas, e os líquens, nas porções mais elevadas do 
terreno, onde o solo é mais seco, aparecendo raramente pequenos 
arbustos.
Floresta Boreal (Taiga)
Formação florestal típica da Zona temperada. Ocorre nas altas 
latitudes do hemisfério norte, em regiões de climas temperados 
continentais, como Canadá, Suécia, Finlândia e Rússia. Neste últi-
mo país, cobre mais da metade do território e é conhecida como 
Taiga. É uma formação bastante homogênea, na qual predominam 
coníferas do tipo pinheiro. As coníferas são espécies adaptadas à 
ocorrência de neve no inverno; são aciculifoliadas e com árvores 
em forma de cone, o que facilita o deslizamento da neve por suas 
copas. Essa formação florestal foi largamente explorada para 
ser usada como lenha e para a fabricação de papel e móveis. 
Atualmente, a madeira é obtida de árvores cultivadas (silvicultura).
Floresta Subtropical e Temperada
Esta formação florestal caducifólia, típica dos climas tempe-
rados e subtropicais, é encontrada em latitudes mais baixas e sob 
maior influência da maritimidade. Estendia-se por grandes porções 
da Europa centro-ocidental, mas por causa de atividades agrope-
cuárias, atualmente subsiste na Ásia, na América do Norte e em 
pequenas extensões da América do Sul e da Oceania. Na Europa, 
restam apenas pequenas extensões, com a floresta Negra, na Ale-
manha, e a floresta de Sherwood, na Inglaterra.
Floresta Equatorial e Tropical
Nas regiões tropicais quentes e úmidas, encontramos florestas 
que se desenvolvem graças aos elevados índices pluviométricos. 
São, por isso, formações higrófilas e latifoliadas, extremamente 
heterogêneas, que se localizam em baixas latitudes na América, 
na África e na Ásia. Nessas regiões predominam climas tropicais e 
equatoriais e espécies vegetais de grande e médio portes, como o 
mogno, o jacarandá, a castanheira, o cedro, a imbuia e a peroba, 
além de palmáceas, arbustos, briófitas e bromélias. As Florestas 
Tropicais possuem a maior biodiversidade do planeta, com muitas 
espécies ainda desconhecidas.
Mediterrânea
Desenvolve-se em regiões de clima mediterrâneo, que apre-
sentam verões quentes e secos e invernos amenos e chuvosos. É 
encontrada em pequenas porções da Califórnia (Estados Unidos, 
onde é conhecida como Chaparral), do Chile, da África do Sul e da 
Austrália. As maiores ocorrências estão no sul da Europa, onde foi 
largamente desmatada para o cultivo de oliveiras (espécie nativa 
dessa formação vegetal) e videiras (nativas da Ásia), e norte da Áfri-
ca.
Pradarias
Compostas basicamente de gramíneas, são encontradas prin-
cipalmente em regiões de clima temperado continental. Desen-
volvem-se na Rússia e Ásia central, nas Grandes Planícies norte-a-
mericanas, nos Pampas argentinos, no Uruguai, na região Sul do 
Brasil e na Grande Bacia Artesiana (Austrália). Muito usada como 
pastagem, essa formação é importante por enriquecer o solo com 
matéria orgânica.
Estepes
Nessas formações a vegetação é herbácea, como nas Pradarias, 
porém mais esparsa e ressecada. As Estepes desenvolvem-se em 
uma faixa de transição entre climas tropicais e desérticos, como na 
região do Sahel, na África, e entre climas temperados e desérticos, 
como na Ásia central. Essa vegetação foi muito degradada por ativi-
dades econômicas, como o pastoreio.
Deserto
Bioma cujas espécies vegetais estão adaptadas à escassez de 
água em regiões de índice pluviométrico inferior a 250 mm anuais, 
como nos desertos da América, África, Ásia e Oceania. Apresenta 
espécies vegetais xerófilas, destacando-se as cactáceas. Algumas 
dessas plantas são suculentas (armazenam água no caule) e não 
possuem folhas ou evoluíram para espinhos, reduzindo a perda de 
água pela evapotranspiração. No Saara, em lugares em que a água 
aflora à superfície, surgem os oásis.
Savana
Em regiões onde o índice de chuvas é elevado, porém concen-
trado em poucos meses do ano, podem desenvolver-se as Savanas, 
formação vegetal complexa que apresenta estratos arbóreo, arbus-
tivo e herbáceo. As Savanas são encontradas em grandes extensões 
da África, na América do Sul (no Brasil, corresponde ao domínio 
dos Cerrados) e em menores porções na Austrália e na Índia. Sua 
área de abrangência tem sido muito utilizada para a agriculturae 
a pecuária, o que acentuou sua devastação, como tem ocorrido no 
Brasil central. No continente africano, esse bioma abriga animais 
de grande porte, como leões, elefantes, girafas, zebras, antílopes 
e búfalos.
Vegetação de Altitude
Em regiões montanhosas há uma grande variação altitudinal da 
vegetação. À medida que aumenta a altitude e diminui a tempera-
tura, os solos ficam mais rasos e a vegetação, mais esparsa. Nessas 
condições, surgem as florestas nas áreas mais baixas e, nas mais 
altas, os campos de altitude.
A Vegetação e os Impactos do Desmatamento
Impacto ambiental é um desequilíbrio provocado pela ação dos 
seres humanos sobre o meio ambiente ou por acidentes naturais, 
como a erupção de um vulcão (que pode provocar poluição atmos-
férica), o choque de um meteoro (destruição de espécies animais e 
vegetais), um raio (incêndio numa floresta), etc.
Quando os ecossistemas sofrem impactos ambientais, geral-
mente a vegetação é o primeiro elemento a ser atingido, pois é re-
flexo das condições naturais de solo, relevo e clima do lugar em que 
ocorre.
REALIDADE BRASILEIRA
298298
a solução para o seu concurso!
Editora
Atualmente, todas as formações vegetais, em maior ou menor grau, encontram-se modificadas. Em muitos casos, sobraram apenas 
alguns redutos em que a vegetação original é encontrada, nos quais, embora com pequenas alterações, ainda preserva suas características 
principais. Essa devastação deve-se basicamente a interesses econômicos.
A primeira consequência do desmatamento é o comprometimento da biodiversidade, por causa da diminuição ou, muitas vezes, da 
extinção de espécies vegetais e animais, muitas delas ainda nem descobertas e estudadas.
Na Floresta Amazônica, há uma grande quantidade de espécies endêmicas. Parte desse patrimônio genético é conhecida pelas várias 
etnias indígenas que ali habitam. No entanto, a maioria dessas comunidades nativas está sofrendo um processo de integração à sociedade 
urbano-industrial que tem levado à perda do patrimônio cultural desses povos, dificultando a preservação dos seus conhecimentos. Outro 
ponto importante que afeta os interesses nacionais dos países onde há florestas tropicais, incluindo o Brasil, é a biopirataria, por meio da 
qual muitas empresas assumem práticas ilegais para garantir o direito de explorar, futuramente, uma possível matéria-prima para a indús-
tria farmacêutica e de cosméticos, entre outras.
No Brasil, os incêndios ou queimadas de florestas, que consomem uma quantidade incalculável de biomassa30 todos os anos, são pro-
vocados para o desenvolvimento de atividades agropecuárias, muitas vezes em grandes projetos que recebem incentivos governamentais 
e, portanto, sob o amparo da lei. Podem também ser resultado de práticas criminosas ou ainda de acidentes, incluindo naturais.
As consequências socioambientais das interferências humanas em regiões de florestas são várias. Uma das principais é o aumento do 
processo erosivo, o que leva a um empobrecimento dos solos, podendo ampliar ou formar áreas desertificadas em regiões de clima árido, 
semiárido e subúmido.
Biomas e Formações Vegetais do Brasil
Nosso país apresenta grande variedade de ecossistemas. Essa variedade relaciona-se à grande diversidade da fauna e da flora brasi-
leiras, das quais muitas espécies são nativas do Brasil, como a jabuticaba, o amendoim, o abacaxi e a castanha-do-pará. No entanto, esses 
ecossistemas já sofreram grandes impactos negativos desde o início da colonização, com o desenvolvimento das atividades econômicas e 
a consequente ocupação do território, como se pode constatar ao comparar os dois mapas abaixo.
Brasil: vegetação nativa
http://www.inf.furb.br/sisga/educacao/ensino/mapaVegetacao.php
30 Biomassa é a quantidade total de matéria viva de um ecossistema, geralmente expressa em massa por unidade de área ou de volume.
REALIDADE BRASILEIRA
299
a solução para o seu concurso!
Editora
Brasil: retratação da vegetação e da cobertura atual31
https://www.nerdprofessor.com.br/mapa-vegetacao-do-brasil/
Características das Formações Vegetais Brasileiras
As principais formações vegetais no território brasileiro são:
Floresta Amazônica (floresta pluvial equatorial): é a maior floresta tropical do mundo, totalizando cerca de 40% das florestas pluviais 
tropicais do planeta. No Brasil, ela se estende por 3,7 milhões de km² e 10% dessa área constitui unidades de conservação. Cerca de 15% 
da vegetação da Floresta Amazônica foi desmatada, sobretudo a partir da década de 1970 com a construção de rodovias e a instalação de 
atividades mineradoras, garimpeiras, agrícolas e de exploração madeireira. Em razão do predomínio das planícies e dos planaltos de baixa 
altitude, a topografia não provoca modificações profundas na fisionomia da floresta, que apresenta três estratos de vegetação:
→ Caaigapó (do tupi-guarani, “mata molhada”) ou igapó: desenvolveu-se ao longo dos rios, numa área permanentemente alagada. 
Em comparação com os outros estratos da floresta é o que possui menos quantidade de espécies e é constituído por árvores de menor 
porte, incluindo palmeias e plantas aquáticas, destacando-se a vitória-régia;
→ Várzea: área sujeita a inundações periódicas, com a vegetação de médio porte raramente ultrapassando os 20 m de altura, como o 
pau-mulato e a seringueira. Como se situa entre a matas de igapó e de terra firme, possui características de ambas;
→ Caaetê (do tupi-guarani, “mata seca”) ou terra firme: área que nunca inunda, na qual se encontra vegetação de grande porte, com 
árvores chegando aos 60 m de altura, como a castanheiro-do-pará e o cedro. O entrelaçamento das copas das árvores forma um dossel 
que dificulta a penetração da luz, propiciando um ambiente não exposto ao sol e úmido no interior da floresta.
31 Em geografia e ecologia, a antropização é a conversão de espaços abertos, paisagens e ambientes naturais pela ação humana.
REALIDADE BRASILEIRA
300300
a solução para o seu concurso!
Editora
Mata Atlântica (floresta pluvial tropical): originalmente cobria 
uma área de 1 milhão de km², estendendo-se ao longo do litoral 
desde o Rio Grande do Norte até o Rio Grande do Sul e alargando-
-se para o interior em Minas Gerais e São Paulo. É um dos biomas 
mais importantes para a preservação da biodiversidade brasileira 
e mundial, mas é também o mais ameaçado. Restam apenas 7%de 
sua área original e, desses remanescentes, quatro quintos estão lo-
calizados em propriedades privadas. As unidades de conservação 
abrangendo esse bioma constituem apenas 2%.
Mata de Araucárias ou Mata dos Pinhais (floresta pluvial 
subtropical): nativa do Brasil, é uma floresta na qual predomina a 
araucária (Araucaria angustifolia), também conhecida como pinhei-
ro-do-paraná ou pinheiro brasileiro, espécie adaptada a climas de 
temperaturas moderadas a baixas no inverno, solos férteis e índice 
pluviométrico superior a 1000 mm anuais. Nesse bioma é comum a 
ocorrência de erva-mate, além de grande variedade de espécies va-
lorizadas pela indústria madeireira, como os ipês. Originariamente, 
essa floresta dominava vastas extensões dos planaltos da região Sul 
e pontos altos da serra da Mantiqueira nos estados de São Paulo, 
Rio de Janeiro e Minas Gerais. Foi desmatada, sobretudo, para a 
retirada de madeira utilizada na fabricação de móveis.
Mata dos Cocais: esta formação vegetal se localiza no estado 
do Maranhão, encravada entre a Floresta Amazônica, o Cerrado e 
a Caatinga, caracterizando-se como mata de transição entre forma-
ções bastante distintas. É constituída por palmeiras, com grande 
predominância do babaçu e ocorrência esporádica de carnaúba; 
desde o período colonial, a região é explorada economicamente 
pelo extrativismo de óleo de babaçu e cera de carnaúba. Atualmen-
te, porém, vem sendo desmatada para o cultivo de grãos destina-
dos à exportação, com destaque para a soja.
Caatinga: vegetação xerófila, adaptada ao clima semiárido do 
Sertão nordestino, na qual predominam arbustos caducifólios e es-
pinhosos;ocorreram também cactáceas, como o xique-xique e o 
mandacaru. A palavra “caatinga” significa, em tupi-guarani, “mata 
branca”, cor predominante da vegetação durante a estação seca. 
No verão, em razão da ocorrência de chuvas, brotam folhas verdes 
e flores. Sua área original era de 740 mil km², mas já teve 50% de 
sua área devastada e menos de 1% faz parte de unidades de con-
servação.
Cerrado: originalmente cobria cerca de 2 milhões de km² do 
território brasileiro, mas cerca de 40% de sua área foi desmatada. 
É constituído por vegetação caducifólia, predominantemente ar-
bustiva, de raízes profundas, galhos retorcidos e casca grossa (que 
dificulta a perda de água). Duas das espécies mais conhecidas são 
o pequizeiro e o buriti. A vegetação próxima ao solo é composta de 
gramíneas, que secam no período de estiagem. É uma formação 
adaptada ao clima tropical típico, com chuvas abundantes no ve-
rão e inverno seco, desenvolvendo-se, sobretudo, no Centro-Oeste 
brasileiro e em porções significativas do estado de Roraima. Nas re-
giões Sudeste e Nordeste do país aparecem em manchas isoladas, 
cercadas por outro tipo de vegetação. Em regiões mais úmidas, essa 
formação se torna mais densa e com árvores maiores, caracterizan-
do o chamado “cerradão”.
Pantanal: estende-se, em território brasileiro, por 140 mil km² 
dos estados de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, em planícies 
sujeitas a inundações. No Pantanal há vegetação rasteira, floresta 
tropical e até mesmo vegetação típica do Cerrado nas regiões de 
maior altitude. Por isso caracteriza-se não como uma formação ve-
getal, mas como um complexo que agrupa várias formações, com 
fauna muito rica. Esse bioma vem sofrendo diversos problemas 
ambientais, decorrentes principalmente da ocupação em regiões 
mais altas, onde nasce a maioria dos rios. A agricultura e a pecuária 
provocam erosão dos solos, assoreamento e contaminação dos rios 
por agrotóxicos.
Campos Naturais: formações rasteiras ou herbáceas constituí-
das por gramíneas que atingem até 60 cm de altura. Sua origem 
pode estar associada a solos rasos ou temperaturas baixas em re-
giões de altitude elevada, áreas sujeitas à inundação periódica ou 
ainda solos arenosos. Os campos mais expressivos do Brasil loca-
lizam-se no Rio Grande do Sul, na chamada Campanha Gaúcha, 
apropriados inicialmente como pastagem natural, atualmente são 
amplamente cultivados tanto dessa forma quanto para a produção 
agrícola mecanizada. Destacam-se, ainda, os campos inundáveis da 
ilha de Marajó (PA) e do Pantanal (MT e MS), utilizados, respectiva-
mente, para criação de gado bubalino e bovino, além de manchas 
isoladas na Amazônia, com destaque ao estado de Roraima, e nas 
regiões serranas do Sudeste.
Vegetação Litorânea: a restinga e os manguezais são conside-
radas formações vegetais litorâneas. A restinga se desenvolve no 
cordão arenoso formado junto à costa, com predominância da ve-
getação rasteira, chamada de pioneira por possibilitar a fixação do 
solo e permitir a ocupação posterior de arbustos e algumas árvores. 
Os manguezais são nichos ecológicos responsáveis pela reprodução 
de grande número de espécies de peixes, moluscos e crustáceos. 
Desenvolvem-se nos estuários, e a vegetação, arbustiva e arbórea, 
é halófila (adaptada ao sal da água do mar), podendo apresentar 
raízes que, durante a maré baixa, ficam expostas. As principais 
ameaças à preservação dessas formações vegetais são o avanço da 
urbanização, a pesca predatória, a poluição dos estuários e o turis-
mo desordenado, incentivando a instalação de aterros.
Matas de Galeria (Ciliar) e Capão
Podemos encontrar pequenas formações florestais em meio a 
outros tipos de vegetação, tai como:
Mata de Galeria ou Mata Ciliar: tipo de formação vegetal que 
acompanha o curso de rios do Cerrado, onde é muito frequente, 
e da Caatinga. Nas áreas próximas às margens dos rios perenes, o 
solo é permanentemente úmido, criando condições para o desen-
volvimento dessa mata, mais densa do que o bioma onde está en-
cravada.
Capão: em locais que correspondem a pequenas depressões, 
com baixos índices de chuvas, o nível hidrostático (ou lençol freáti-
co) aflora ou chega muito próximo à superfície. Aí se desenvolvem 
os capões, formações arbóreas geralmente arredondadas em meio 
à vegetação mais rala ou rasteira.
REALIDADE BRASILEIRA
301
a solução para o seu concurso!
Editora
Domínios Morfoclimáticos
Brasil: Domínios Morfoclimáticos
http://educacao.globo.com/geografia/assunto/geografia-fisica/domi-
nios-morfoclimaticos.html
Em 1965, o geógrafo Aziz Ab’Sáber (1924-2012) estabeleceu 
uma classificação dos domínios morfoclimáticos brasileiros, na qual 
cada domínio corresponde a uma diferente associação das condi-
ções de relevo, clima e vegetação. Assim, por exemplo, o domínio 
equatorial amazônico é formado por terras baixas (relevo), floresta-
das (vegetação) e equatoriais (clima).
Legislação Ambiental e Unidades de Conservação
A expressão “meio ambiente” envolve todas as dimensões que 
tornam a vida das pessoas mais saudáveis e equilibrada, como a 
qualidade do ar e o conforto acústico. Essa expressão, portanto, en-
globa tanto o meio ambiente natural quanto o cultural.
A legislação brasileira relativa ao meio ambiente é ampla e 
bem elaborada. Os problemas ambientais que observamos com fre-
quência, amplamente divulgados pelos meios de comunicação, não 
resultam da limitação da legislação, mas da ineficiência de ações 
educativas e de fiscalização.
Histórico das Leis Ambientais Brasileiras
Ao longo dos períodos colonial e imperial de nossa história, 
foram elaboradas algumas leis voltadas à proteção do meio am-
biente, mas elas tinham abrangência restrita, como a proteção ao 
pau-brasil e a algumas espécies animais. Já no período republicano, 
em 1911, foi criada a primeira reserva florestal do país, onde atual-
mente se encontra o estado do Acre; em 1921 foi criado o Serviço 
Florestal do Brasil, que hoje é o Instituto do Meio Ambiente e dos 
Recursos Naturais Renováveis (Ibama); e em 1934 foi aprovada a 
primeira versão do Código Florestal.
Durante o período da ditadura militar (1964-1985), foram cria-
dos projetos de ocupação humana e econômica das regiões Nor-
te e Centro-Oeste que provocaram grandes impactos negativos ao 
meio ambiente. Esses projetos previam a expansão da agricultura e 
a criação de gado em áreas de floresta e a prática de garimpo, mine-
ração e extração de madeira, instituída com a abertura das rodovias 
de integração.
Como os impactos, principalmente na Floresta Amazônica, 
trouxeram repercussão negativa em escala mundial, em 1974 o 
governo brasileiro promoveu mudanças de estratégia, implantan-
do ações de proteção ambiental: combate à erosão, criação das 
Estações Ecológicas e Áreas de Proteção Ambiental, metas para o 
zoneamento industrial e criação da Secretaria Especial do Meio Am-
biente.
Em 1979, foi criado o Conselho Nacional do Meio Ambiente 
(Conama), que instituiu, em 1981, a Política Nacional do Meio Am-
biente (PNMA, Lei nº 6.938). Essa lei promoveu um grande avanço 
ao apresentar as bases para a proteção ambiental e conceituar ex-
pressões como “meio ambiente”, “poluidor”, “poluição” e “recursos 
naturais”. A PNMA busca a preservação e a recuperação das áreas 
ambientalmente degradadas, visando garantir condições de desen-
volvimento social e econômico, e segurança nacional e a proteção 
da dignidade da vida humana. A partir de sua publicação se instituiu 
que o meio ambiente é um bem público a ser resguardado e prote-
gido, em prol da coletividade.
Em 1986, o Conama publicou uma resolução sobre o tema, em 
que se destaca a exigência de elaboração do Estudo de Impacto Am-
biental (EIA), de caráter técnico e detalhista, e do seu respectivo Re-
latório de Impacto Ambiental (Rima), menos detalhado e acessível 
aos que não são especialistas na área. Esses dois documentos são 
necessários para o licenciamento e a autorização expedidos pelo 
Ibama para a realização de qualquer obra ou atividade que provo-que impactos ambientais.
Outro grande destaque na evolução do Direito Ambiental Bra-
sileiro foi atingido com a Constituição Federal de 1988, a primeira 
de nossa história a dedicar um capítulo ao esse tema e a incorporar 
o conceito de desenvolvimento sustentável. Ela estabelece, no arti-
go 225, que “Todos tem direito ao meio ambiente ecologicamente 
equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia quali-
dade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever 
de defende-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”. 
O parágrafo terceiro desse mesmo artigo estipula que: “As condu-
tas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão 
aos infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e admi-
nistrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos 
causados”.
A previsão de sanções penais significa a criminalização das ati-
vidades prejudiciais ao meio ambiente, o que foi regulamentado 
somente dez anos depois, em 1998, com a Lei nº 9.605. Conhecida 
como a Lei dos Crimes Ambientais, ela define os crimes contra a 
fauna e aflora, além dos relacionados à poluição, ao ordenamento 
urbano, ao patrimônio cultural e outros. Quem comete agressões 
ambientais como desmatamento, poluição do ar ou de águas, ou 
falsificação de Relatório de Impacto Ambiental, é punido com mul-
ta, proibição de exercício de certas atividades e até mesmo prisão.
Código Florestal
O Código Florestal foi criado em 1934 e reformulado duas ve-
zes: em 1965 e em 2012 (Lei nº 12.561/12). Neste ano houve mui-
tos embates entre ambientalistas, que queriam ampliar as áreas de 
REALIDADE BRASILEIRA
302302
a solução para o seu concurso!
Editora
preservação e a obrigação de recompor o que foi desmatado irregularmente, e grandes proprietários, que queriam autorização para 
ampliar as áreas de agricultura e pecuária sem recompor os biomas. Esta é uma das mais importantes leis ambientais do país e estabelece 
a normas de ocupação e uso do solo em todos os biomas brasileiros. Os incisos II e III do artigo 1º, parágrafo 2º, merecem destaque, pois 
definem as áreas de preservação e as reservas legais:
Áreas de Preservação Permanente (APPs): só podem ser desmatadas com autorização do Poder Executivo Federal e em caso de uso 
para utilidade pública ou interesse social, como a construção de uma rodovia, por exemplo. São a margens de rios, lagos ou nascentes, 
várzeas, encostas íngremes, mangues e outros ambientes. A principal função das APPs é preservar a disponibilidade de água, a paisagem, 
o solo e a biodiversidade.
Reservas Legais: em cada um dos sete biomas brasileiros, os proprietários de terras são obrigados a preservar uma parte da vegeta-
ção nativa. Na Amazônia, são obrigados a manter 80% da propriedade com floresta nativa, índice que cai para 35% no Cerrado localizado 
dentro da Amazônia a 20% em todas as demais regiões e biomas do país. É importante notar que o Código Florestal rege apenas as pro-
priedades que podem ser utilizadas para atividades agrícolas, e não se aplica, portanto, no interior das unidades de conservação, como os 
parques e as reservas ecológicas.
As Unidades de Conservação
As unidades de conservação são doze áreas de preservação agrupadas conforme a restrição ao uso. As unidades classificadas como 
de restrição total são denominadas Unidades de Proteção Integral, como o Parque Nacional da Serra dos Órgãos, em Teresópolis, Rio de 
Janeiro, por exemplo. Aquelas cujo nível de restrição é menor e têm uso voltado ao desenvolvimento cultural, educacional e recreacional 
são denominadas Unidades de Uso Sustentável.
Unidades de Conservação conforme a Restrição ao Uso
Unidades de Proteção Integral Unidades de Uso Sustentável
Estação Ecológica Área de Proteção Ambiental
Reserva Biológica Área de Relevante Interesse Ecológico
Parque Nacional Floresta Nacional
Monumento Natural Reserva Extrativista
Refúgio de Vida Silvestre Reserva de Fauna
Reserva de Desenvolvimento Sustentável
Reserva Particular do Patrimônio Natural
Existem unidades de conservação definidas pela Ibama em todos os biomas brasileiros, inclusive nos biomas marinhos. Há também 
unidades de conservação mantidas por estados e até por municípios, criadas por leis estaduais e municipais.
É importante destacar que a criação de leis, decretos e normas voltados à questão ambiental ao longo da história brasileira é conse-
quência do aumento da importância do tema no mundo e no Brasil. Essa evolução deu-se de forma lenta, mas contínua. Esse processo foi 
influenciado pelas conquistas obtidas em âmbito internacional nas diversas conferências mundiais voltadas ao meio ambiente, e parte da 
sociedade civil brasileira cumpriu um importante papel ao pressionar os governos legisladores em aprovar leis eficazes e incluir o tema na 
própria Constituição do país.
Objetivos das Unidades de Conservação
O Código Florestal, como várias outras leis que se seguiram, serviu de base para a criação do Sistema Nacional de Unidades de Con-
servação da Natureza, que têm como propósitos:
Contribuir para a manutenção da diversidade biológica e dos recursos genéticos no território nacional e nas águas jurisdicionais;
Proteger as espécies ameaçadas de extinção no âmbito regional e nacional;
Contribuir para a preservação e a restauração da diversidade de ecossistemas naturais;
Promover o desenvolvimento sustentável a partir dos recursos naturais;
Promover a utilização dos princípios e práticas de conservação da natureza no processo de desenvolvimento;
Proteger paisagens naturais e pouco alteradas de notável beleza cênica;
Proteger as características relevantes de natureza geológica, geomorfológica, espeleológica, arqueológica, paleontológica e cultural;
Proteger e recuperar recursos hídricos e edáficos;
Recuperar ou restaurar ecossistemas degradados;
Proporcionar meios e incentivos para atividades de pesquisa científica, estudos e monitoramento ambiental;
Valorizar econômica e socialmente a diversidade biológica;
Favorecer condições e promover a educação e interpretação ambiental, a recreação em contato com a natureza e o turismo ecológico;
Proteger os recursos naturais necessários à subsistência de populações tradicionais, respeitando e valorizando seu conhecimento e 
sua cultura e promovendo-as social e economicamente.
REALIDADE BRASILEIRA
303
a solução para o seu concurso!
Editora
MATRIZ ENERGÉTICA: FONTES RENOVÁVEIS E NÃO RENOVÁVEIS
As fontes de energia são de grande importância para o desenvolvimento de um país. No Brasil, as principais fontes de energia são a 
energia hidrelétrica, petróleo, biocombustíveis e carvão mineral.
• Hidrelétrica: utiliza usinas hidrelétricas para a produção de eletricidade.
• Petróleo: utilizado para produzir combustíveis como a gasolina e óleo diesel e abastecer usinas termelétricas. 
• Carvão Mineral: utilizado para produzir energia termelétrica e é a matéria prima para as indústrias siderúrgicas. 
• Biocombustíveis: são combustíveis alternativos originados de produtos vegetais e renováveis. 
— Fontes de Energia Renováveis e não renováveis
As fontes de energia não renováveis são aquelas que podem se esgotar do planeta, por não terem regeneração. As renováveis podem 
se regenerar e portanto, não agridem tanto o meio ambiente.
• Fontes de Energia não Renováveis: petróleo, carvão mineral, energia nuclear e gás natural.
• Fontes de Energia Renováveis: energia solar, energia eólica, biocombustíveis, energia hidráulica e energia geotérmica. 
MUDANÇA CLIMÁTICA
Efeito Estufa
REALIDADE BRASILEIRA
304304
a solução para o seu concurso!
Editora
Sempre ouvimos falar que o efeito estufa é o grande vilão do 
aquecimento global, que não deixa de ser verdade. Mas uma coisa 
precisa ficar clara: é graças a ele que existe vida em nosso planeta. 
O efeito estufa é um fenômeno natural que faz com que a tempe-
ratura média do globo se conserve nos limites necessários para a 
manutenção da vida, em torno de 14,5 graus Celsius.
Ele ocorre em razão da existência de gases,como o carbono, 
que estão naturalmente na atmosfera e impedem a dissipação para 
o espaço de parte da radiação vinda do Sol, que é absorvida e re-
fletida pela Terra32
O problema é que, por causa da ação do homem, esse bené-
fico “cobertor” atmosférico está se transformando num forno. O 
intenso uso de combustíveis fósseis, especialmente carvão e petró-
leo, e a utilização predatória da terra (desmatamento, queimadas, 
depósitos de lixo) liberam na atmosfera uma imensa quantidade de 
gases que retêm calor, como dióxido de carbono, metano e óxidos 
de nitrogênio, intensificando o efeito estufa.
O IPCC defende a tese de que essas atividades teriam causado 
um aumento de 0,7 grau no século XX.
Aumento das emissões
Desde a Revolução Industrial, há mais de 200 anos, nossas 
atividades econômicas são baseadas na queima de combustíveis 
fósseis. A energia que consumimos para gerar eletricidade e aque-
cimento, para nos locomovermos em viagens de carro, avião ou na-
vios e para mover a atividade manufatureira contribui com cerca de 
metade das emissões dos gases de efeito estufa.
Outras atividades, como a agricultura, a derrubada de flores-
tas e a manutenção de aterros sanitários, também despejam no ar 
enorme quantidade de gás carbônico, metano e óxido nitroso.
Todas essas atividades são realizadas mais intensamente nos 
países desenvolvidos. Estados Unidos, Japão e muitas nações eu-
ropeias apresentam elevada produção de gases estufa per capita, 
principalmente por causa do uso de automóveis e da elevada in-
dustrialização. Contudo, países em desenvolvimento, como China 
e Brasil, vêm aumentando significativamente as emissões desses 
gases nos últimos anos.
Os chineses já ultrapassaram os norte-americanos como os 
maiores poluidores do planeta, sendo responsáveis por um quarto 
das emissões mundiais. No Brasil, 61% das emissões de gases-estu-
fa estão ligadas ao desmatamento.
Em busca de uma economia verde
Apesar de parecer um palavrão, a sustentabilidade está pre-
sente no cotidiano de todos nós. Separar o lixo em casa, economi-
zar água, desligar as luzes quando desnecessário, não jogar lixo no 
chão, escolher eletrodomésticos que economizem energia, cuidar 
de plantas e animais. Essas ações nos parecem muitas vezes natu-
rais, mas nem sempre foi assim.
Faz apenas algumas décadas que os primeiros ambientalistas, 
cientistas e pesquisadores passaram a defender a preservação dos 
mananciais e dos biomas, a redução no consumo de energia, a de-
posição adequada do lixo e a reciclagem de materiais.
A diferença, agora, é que essa visão ambientalista contamina a 
economia globalizada, levando empresas e governos a reconsiderar 
seu modelo econômico. Isso faz com que sejam promovidas cam-
panhas de conscientização que atingem largamente a população.
32 http://www.mundoedu.com.br/uploads/pdf/554aaa4b0e16e.pdf
O meio ambiente transforma-se numa questão estratégica 
para a vida econômica, social e cultural, e o desenvolvimento tem 
de ser sustentável, ou seja, deve incluir em seus pressupostos a ma-
nutenção de recursos naturais e o bem-estar dos cidadãos.
No início dos anos 90, durante a Conferência Eco 92, realizada 
no Rio de Janeiro, os temas da sustentabilidade e da preservação 
ambiental ganharam mais força e o reconhecimento de diversos 
países. Em 2012, vários líderes mundiais voltaram a se reunir na 
Rio+ 20, com o objetivo de fazer um balanço do que foi feito e dis-
cutir novas formas de equilibrar as atividades econômicas com a 
preservação do meio ambiente.
Para boa parte dos governos do mundo e dos cientistas reu-
nidos por eles, organizados no Painel Intergovernamental sobre 
Mudanças Climáticas (IPCC), o clima da Terra está passando por 
um aquecimento global, que estaria sendo provocado pela ação 
humana, com a liberação de poluentes na atmosfera que acen-
tuam o efeito estufa. Também estava na pauta a preservação da 
biodiversidade do planeta, que implica equilíbrio e estabilidade de 
ecossistemas e seu aproveitamento pela humanidade de forma a 
preservá-las.
O uso descontrolado de matérias-primas, o crescimento caóti-
co das cidades e o desmatamento são temas que integraram toda 
essa discussão.
Mais difícil do que apontar os erros em relação à forma de tra-
tar o meio ambiente era achar soluções possíveis dentro de realida-
des tão diversas. Na hora de aplicar medidas concretas, esbarra-se 
em diferentes interesses de cada país ou grupo social, e a grande 
questão de quem arca com o ônus das políticas de preservação.
No plano mundial, os países mais desenvolvidos alegavam que 
a crise econômica impedia a implementação de medidas em larga 
escala, pois afetariam ainda mais sua economia, já fragilizada. Por 
sua vez, as nações em desenvolvimento, que apresentavam cresci-
mento, não queriam prejudicar sua economia, em expansão.
Como tudo começou
Há quatro décadas discutem-se as questões ambientais em 
âmbito global. Em 1972, na Conferência Mundial de Estocolmo, 
abordou-se pela primeira vez a produção (principalmente indus-
trial) dos países ricos como causa importante da degradação da na-
tureza. Essa perspectiva marcou uma nova etapa da preocupação 
ambiental.
Depois, em 1987, o Relatório Nosso Futuro Comum, da Co-
missão Mundial de Meio Ambiente e Desenvolvimento, retomou a 
questão, lançando o conceito de desenvolvimento sustentável, cuja 
proposta visava a compatibilizar o crescimento econômico com o 
equilíbrio ambiental, de maneira a garantir a satisfação das neces-
sidades das gerações presentes e futuras.
Outro marco foi a Eco 92, a conferência mundial sobre meio 
ambiente realizada no Rio de Janeiro, em 1992. O encontro apro-
vou o documento Convenção sobre a Mudança do Clima, que trata 
do aquecimento global, e a Convenção sobre a Diversidade Biológi-
ca, que trata da preservação dos ecossistemas e hábitats.
O documento mais abrangente elaborado pelo encontro foi a 
Agenda 21, um plano que estabelece estratégias globais, nacionais 
e locais para promover o desenvolvimento sustentável no mundo.
A Agenda 21 traduz os compromissos com o desenvolvimento 
sustentável em 27 princípios, calcados em três premissas:
→ os países desenvolvidos devem mudar seu padrão de produ-
ção e consumo e, portanto, seu modelo econômico;
REALIDADE BRASILEIRA
305
a solução para o seu concurso!
Editora
→ os países em desenvolvimento devem manter as metas de 
crescimento, mas adotar métodos e sistemas de produção susten-
táveis;
→ as nações desenvolvidas devem apoiar o crescimento das 
mais pobres, com recursos financeiros, transferência de tecnologia 
e reformas nas relações comerciais e financeiras internacionais.
A partir de então, cada país signatário é considerado parte des-
sa convenção e indica representantes para as discussões, realizadas 
uma vez por ano, numa Conferência Geral das Partes (cuja sigla é 
COP).
Amais importante delas, até hoje, foi a terceira conferência (a 
COP-3), que ocorreu em 1977, em Kyoto, no Japão. Criado no en-
contro, o Protocolo de Kyoto é um importante documento por ter 
sido o primeiro acordo oficial com metas e prazos para reduzir as 
emissões de gases do efeito estufa.
O documento estabeleceu diferenças entre os países ricos, que 
tinham metas percentuais de redução por ser os principais respon-
sáveis pelos gases emitidos nos últimos dois séculos, e aqueles em 
desenvolvimento e industrialização recentes, entre os quais Brasil, 
China e Índia, que se comprometiam a adotar medidas sem metas 
pré-estabelecidas.
O protocolo, porém, demorou para entrar em vigor, pois de-
veria ter a adesão de um número de países que representasse pelo 
menos 55% das emissões globais (relativas a 1990). Isso só aconte-
ceu em 2005, quando superou esse patamar com a adesão da Rús-
sia, valendo a princípio para o período de 2008 até o fim de 2012.
No entanto, qualquer redução significativa continuou depen-
dendo dos grandes emissores, e nem todos ratificaram o acordo. 
A principal ausência foi dos Estados Unidos, que se recusam a assi-
nar o protocolo senão houver metas de redução obrigatórias para 
todos os países em desenvolvimento. Eles alegaram, ainda, que a 
economia do país seria bastante afetada.
Mais tarde, com a não participação norte-americana, outras 
nações também abandonaram os compromissos firmados no pro-
tocolo.
Os governos de Canadá, Japão, Austrália e Rússia passaram a 
fazer coro com os Estados Unidos na reclamação contra as econo-
mias emergentes, que passaram a ter grande peso no balanço de 
emissões.
Países como China, Índia e Brasil não são considerados ricos e, 
portanto, não têm metas obrigatórias. No entanto, o crescimento 
econômico dessas nações nos últimos anos, principalmente das su-
perpopulosas China e Índia, aumentou muito a emissão de carbono 
global, sem que eles tenham que cumprir metas.
Novas perspectivas
Havia expectativa de que um novo acordo fosse acertado na 
COP-15, que aconteceu em 2009, em Copenhague (Dinamarca), 
mas ela fracassou. Na conferência seguinte, a COP-16, realizada em 
2010, em Cancún (México), os participantes priorizaram a regula-
mentação de medidas já discutidas para enfrentar ou amenizar as 
consequências do aquecimento global.
A principal delas foi a criação de um Fundo Verde, no qual os 
países ricos se comprometeram a depositar 30 bilhões de dólares, 
até o fim de 2012, para ajudar os países pobres a adotar medidas 
na área ambiental.
Também foi aprovada a criação do mecanismo de Redução 
de Emissões e Degradação Florestal (Redd, sigla em inglês), que 
permitirá a países como o Brasil receber compensações financeiras 
para preservar suas florestas.
A primeira etapa do Protocolo de Kyoto venceu em 2012 sem 
alcançar seus objetivos. Ainda se tentava chegar a uma nova fase 
do acordo, na COP-17, realizada em Durban, na África do Sul, em 
dezembro de 2011. Apesar da recusa das nações desenvolvidas em 
assinar qualquer compromisso, chegou-se a um consenso: o prazo 
de validade da primeira etapa do protocolo teve seu final prorroga-
do por mais cinco anos, até 2017.
Com esse acordo, as nações assinaram um documento que de-
via servir de base para um futuro novo protocolo. Esse documen-
to-base, chamado Plataforma Durban, fixou uma agenda que cul-
minou na criação, em 2015, de um novo acordo, que obriga todas 
as nações, e não apenas aquelas listadas no Protocolo de Kyoto, a 
cumprir metas de redução nas emissões a partir de 2020.
Na prática, a plataforma foi só uma promessa. Mas, no mundo 
das políticas globais, significou um avanço na luta contra as mudan-
ças climáticas, ainda mais levando em conta que os dois maiores 
poluidores do mundo, China e Estados Unidos, concordaram em 
integrar esse pré-acordo.
Aqui no Brasil, a lei que institui a Política Nacional de Mudan-
ças Climáticas, sancionada pelo então presidente da época, Lula, no 
início de 2010, estabeleceu a meta brasileira de redução nas emis-
sões de CO² entre 36% e 39% até 2020, usando como parâmetro as 
emissões projetadas para esse período se nada fosse feito.
Como o desmatamento é responsável por cerca de 75% das 
emissões brasileiras, essa meta implicava diminuir o índice do país.
Ao organizar a Rio+20, a intenção das Nações Unidas era deba-
ter também como a crise econômica mundial poderia ser uma boa 
oportunidade para rever o modelo econômico atual. As mudanças 
propostas deveriam se apoiar sobre três pilares: sociedade, econo-
mia e meio ambiente.
Assim, à lista de questões ambientais, a ONU acrescentou o 
combate à pobreza e à fome e a crise econômica mundial. Por isso, 
o documento final da conferência abordava formas de promover 
uma “economia verde”, que não prejudicasse o meio ambiente, 
promovendo a eficiência no uso dos recursos naturais e, ao mesmo 
tempo, promovendo a erradicação da pobreza e da fome.
Há quem critique o documento por apresentar uma pauta am-
pla demais, que pode não resultar em avanços concretos. Segundo 
os críticos, seria melhor tratar apenas das questões do meio am-
biente, que já são suficientemente complexas.
Para evitar que a questão se mantenha no terreno do debate 
teórico, seria preciso estabelecer metas específicas para cada ação, 
com valores claros a ser alcançados dentro de prazos determina-
dos.
Mas as propostas das conferências exigem políticas de governo 
para que saiam do papel e sejam postas em prática, o que não é 
tarefa fácil. Esse desafio é o que chamamos de Governança Glo-
bal, ou seja, como os países se organizarão, em termos de metas, 
acordos, protocolos e instituições, para colocar a economia verde 
em prática.
REALIDADE BRASILEIRA
306306
a solução para o seu concurso!
Editora
As nações desenvolvidas deixaram a desejar quanto a promover a igualdade de oportunidades. A transferência de tecnologia ficou 
aquém do esperado. A ajuda financeira prometida às nações pobres pelos 22 países mais ricos do planeta também está longe de atingir o 
compromisso assumido, em parte devido à crise econômica global.
Camada de Ozônio
Diversas mudanças climáticas bruscas já ocorreram no mundo, como as ondas de calor nos anos 1980, considerada a década mais 
quente do século XX. Embora as ondas de calor possam estar relacionadas a processos naturais, não há dúvida de que os gases produzidos 
pela atividade humana e lançados na atmosfera contribuem para o aumento da temperatura média da Terra.
O gás ozônio, presente naturalmente na estratosfera, desempenha uma função de extrema importância: ele filtra cerca de 70% a 90% 
dos raios ultravioletas emitidos pelo Sol.
Não fosse a presença da camada de ozônio, os raios ultravioletas atingiriam diretamente a Terra e, em consequência, teríamos uma 
elevação de temperatura tão violenta que destruiria qualquer forma de vida aqui existente.
No entanto, é preciso lembrar que, no nível do solo, o ozônio é uma forma perigosa de poluição, exercendo ação tóxica sobre vegetais 
e seres humanos.
Atualmente, muito se discute o problema da destruição da camada de ozônio. A diminuição desta camada ameaça a saúde humana, 
podendo provocar doenças, como câncer de pele, queimaduras, envelhecimento precoce, catarata ocular e imunodeficiência. Mas ela 
também afeta a flora e a fauna, além de influir no clima do planeta.
REALIDADE BRASILEIRA
307
a solução para o seu concurso!
Editora
Desde 1974, estudos associam a destruição do ozônio estratosférico ao maciço e descontrolado uso dos CFCs, um grupo de gases 
utilizados principalmente nos sistemas de refrigeração e na produção de aerossóis (sprays), solventes, isopor etc.
Uma vez presentes na atmosfera e submetidos a reações químicas (liberação de íons de cloreto na estratosfera) e a reações com 
outros gases, os CFCs - compostos de cloro (Cl), adquirem a propriedade de destruir o ozônio.
Estudos recentes comprovaram uma diminuição de 3% a 4% da camada de ozônio na Antártida, originando o chamado buraco na 
camada de ozônio. A quase totalidade dos CFCs presentes na atmosfera dessa região provém dos países industrializados e é transportada 
pela circulação atmosférica (massas de ar).
Em 1987, no Protocolo de Montreal (Canadá), 24 países desenvolvidos assinaram um compromisso de redução da produção de CFC, 
substituindo-o por gases menos nocivos. De fato, o uso desses gases tem se reduzido e o buraco na camada de ozônio pode diminuir ou 
mesmo desaparecer se forem mantidas as providências estabelecidas também em outras convenções mundiais (Estocolmo, na Suécia, 
1972; Rio de Janeiro, 1992; Kyoto, no Japão, 1997 etc.).
O buraco na camada de ozônio é detectável por meio de imagens de satélites, como podemos observar na figura.
Imagem de setembro de 2004, feita por satélite de monitoramento da NASA que mostra o buraco na camada de ozônio sobre a Antártida. Este 
buraco é consequência da emissão de gases ao longo de anos, em todo o planeta.
Chuva Ácida
Trata-se de chuva, neve ou neblina com alta concentração de ácidos em sua composição. Com a denominação genérica de chuva 
ácida, sua origem são os óxidos de nitrogênio (NOx) e o dióxido de enxofre (SO²) liberados na atmosfera pelaqueima de combustíveis 
fósseis (principalmente o carvão mineral).
Esses compostos reagem com o vapor de água presente na atmosfera, formando o ácido nítrico (HNO³) e o ácido sulfúrico (H²SO4), 
que, mais tarde, se precipitam e alteram as características do solo e da água, prejudicando lavouras, florestas e a vida aquática. Também 
danificam edifícios e monumentos históricos.
REALIDADE BRASILEIRA
308308
a solução para o seu concurso!
Editora
Inversão Térmica
Os grandes centros urbanos, principalmente os localizados em áreas de serras ou montanhas são as regiões comumente mais afeta-
das pela inversão térmica. Essa inversão acontece quando o ar frio e mais denso não consegue circular por uma camada de ar mais quente 
e menos densa. Sem essa circulação ocorrem alterações significativas na temperatura do local33.
Um dos agravantes dessa situação é que com a impossibilidade de circulação, o ar mais denso (frio) fica retido nas regiões mais pró-
ximas da superfície retendo junto a ele uma grande quantidade de gases poluentes. Essa camada de ar denso é facilmente verificada ao 
apresentar uma cor acinzentada decorrente da alta concentração de gases emitidos pelas indústrias e pelos automóveis, principalmente.
TRANSIÇÃO ENERGÉTICA
Você sabe o que é a “transição energética”? Essa palavra está cada vez mais em evidência com a mudança climática em todo o mundo. 
A necessidade de ações mais focadas na redução de emissão de gases do efeito estufa (GEE), como na utilização de geração energia com 
fontes renováveis, é essencial para o planeta.
Desde os primórdios da civilização humana passamos por algum tipo de transição energética. Seja ela humana, animal ou até mesmo 
aquela vinda da queima dos combustíveis fósseis, como o petróleo e o carvão. A evolução de uma comunidade ou região pode ser anali-
sada com base na forma de controlar e consumir energia.
33 https://querobolsa.com.br/enem/biologia/problemas-ambientais
REALIDADE BRASILEIRA
309
a solução para o seu concurso!
Editora
Atualmente, quando falamos de transição energética, estamos destacando a mudança de uma fonte de energia para outra de forma 
mais sustentável, ou seja, uma matriz que reduza as emissões de gases de efeito estufa.
Além disso, a transição energética tem sido apontada como um dos grandes pilares para o crescimento econômico e social dos países, 
de forma justa e inclusiva.
REALIDADE BRASILEIRA
310310
a solução para o seu concurso!
Editora
Transição energética consiste em passar de uma matriz de fonte de energia que utiliza combustíveis fósseis, como Petróleo, gás natu-
ral e carvão, que são grandes emissores de Carbono (CO2) na atmosfera, para fontes renováveis, como sol, água, vento e biomassa, que 
emitem menos gases de efeito estufa.
O Ministério de Minas Energia (MME) é um dos protagonistas mundiais deste tema e é o principal responsável pela Política Nacional 
de Transição Energética, que poderá levar o Brasil para outro nível mundial em fontes renováveis de energia. Hoje, o país já utiliza 48% de 
energia renovável, acima da média mundial que é de 15%. Contudo, ainda tem grande potencial de recursos hídricos, solar e eólico para 
ser explorado de forma estável e eficiente para o sistema.
A transição energética é um conjunto de políticas fundamentais para o setor energético e para o desenvolvimento socioeconômico do 
país. O grande desafio é conciliar geração de emprego, renda, inclusão social, combate às desigualdades, melhoria da qualidade de vida 
do brasileiro, reindustrialização, preservação da biodiversidade e da qualidade ambiental, entre outros.
INDÚSTRIA E TRANSPORTE
Os setores da indústria e de transportes tiveram um papel importante na trajetória dos últimos 50 anos no consumo de energia no 
Brasil. Cerca de dois terços de toda energia consumida pelo brasileiro *se deu* nesses segmentos.
Na questão do consumo, 18% da energia foi na forma de eletricidade e 82% a partir da queima de combustíveis, sejam em biocom-
bustíveis ou combustíveis fósseis.
Portanto, a política de transição no Brasil busca a eletricidade renovável e ampliar essa participação para ajudar os setores industriais 
e de transportes a reduzir a pegada de carbono. Além de serem competitivos, ao mesmo tempo em que também usa os combustíveis de 
Baixo Carbono para cobrir o restante dessa oferta.
Fonte: https://www.gov.br/mme/pt-br/assuntos/noticias/transicao-energetica-a-mudanca-de-energia-que-o-planeta-precisa
POPULAÇÃO: ESTRUTURA, COMPOSIÇÃO E DINÂMICA. 
O crescimento da população brasileira, nas últimas décadas, está ligado principalmente ao crescimento vegetativo (ou natural). A 
queda nesse crescimento apresenta outras justificativas que merecem atenção.
• Maior custo para criar filhos;
• Acesso a métodos anticoncepcionais;
• Trabalho feminino extradomiciliar;
• Acesso a tratamento médico;
• Saneamento básico.
REALIDADE BRASILEIRA
311
a solução para o seu concurso!
Editora
Para conhecer a população de um país, devemos, primeiramente, definir dois conceitos demográficos básicos:
– População absoluta: corresponde ao número total de pessoas de uma área. No Brasil, por exemplo, a população absoluta era de 
190.755.799 pessoas, pelo censo de 2010. 
– População relativa: é também chamada de densidade demográfica e é dada pelo número de habitantes por quilômetro quadrado 
de uma determinada região. 
O declínio da mortalidade deve-se, em grande parte, à diminuição da mortalidade infantil, isto é, dos óbitos de crianças com menos de 
um ano de idade. Em 1970, a taxa era de cem mortes em cada mil nascimentos vivos; em 1980, caiu para setenta por mil; em 1991, para 
45 por mil; e no ano de 2000, para 35 por mil.
Em relação aos países desenvolvidos, este índice ainda é elevado. Por isso, programas de combate à mortalidade vêm sendo imple-
mentados tanto pelo governo quanto por entidades privadas
A taxa de mortalidade infantil no Brasil está baixando, conforme indicadores. A queda da mortalidade infantil indica aumento no per-
centual de adultos e melhorias na expectativa de vida, que em 1950 era de mais ou menos 46 anos e, em 2018, chegou a 76 anos (IBGE).
Migrações populacionais
As migrações populacionais remontam aos tempos pré-históricos. O homem parece estar constantemente à procura de novos ho-
rizontes. As razões que justificam as migrações são inúmeras (político-ideológicas, étnico-raciais, profissionais, econômicas, catástrofes 
naturais, entre outras), ainda que as razões econômicas sejam predominantes.
A grande maioria das pessoas migra em busca de melhores condições de vida. Todo ato migratório apresenta causas repulsivas (o 
indivíduo é forçado a migrar) e/ou atrativas (o indivíduo é atraído por determinado lugar ou país).
Considera-se emigração como a saída de uma área para outra; imigração é a entrada de pessoas em uma área. As migrações podem 
ser internas, quando ocorrem dentro do país, e externas, quando ocorrem de um país para outro. Ainda podem ser permanentes ou tem-
porárias.
Movimentos migratórios no Brasil
Externos
Até 1934, foi liberada a entrada de estrangeiros no Brasil. A partir dessa data, ficou estabelecido que só poderiam imigrar 2% de cada 
nacionalidade dos estrangeiros que haviam migrado entre 1884 e 1934.
Os fatores que mais favoreceram a entrada de imigrantes no Brasil foram:
– A dificuldade de encontrar escravos após a extinção do tráfico, depois de 1850;
– O ciclo do café, que exigia mão de obra numerosa;
– Abundância de terras.
Para a maior parte dos imigrantes, a adaptação foi muito difícil, pois além das diferenças climáticas, da língua e dos costumes, não 
havia no país uma política firme que assegurasse garantias as pessoas que aqui chegavam. As regiões sul e sudeste foram as que receberam 
maior contingente de imigrantes, principalmente por causa do ciclo do café e povoamento da região sul.
Internos
Em nossa história, os principais movimentos migratórios foram:
– Migração de nordestinos da Zona da Mata para o sertão, séculos XVI e XVII (gado);
– Migração de nordestinos

Mais conteúdos dessa disciplina