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245 a solução para o seu concurso! Editora REALIDADE BRASILEIRA FORMAÇÃO DO BRASIL CONTEMPORÂNEO: DA INDEPEN- DÊNCIA À REPÚBLICA — A Chegada da Família Real ao Brasil Em 1806, Portugal foi afetado pelo Bloqueio Continental da França contra a Inglaterra, que ocorreu graças à impossibilidade das tropas de Napoleão de anexar a Inglaterra por meios militares. Caso não aderisse ao Bloqueio, as tropas de Napoleão invadiriam o território português. Entretanto, Portugal decidiu não seguir esse caminho porque tinha fortes ligações comerciais com a Inglaterra1. Em novembro de 1807, dom João, príncipe regente de Portugal desde 1799 - a rainha dona Maria, sua mãe, sofria de distúrbios mentais -, diante da ameaça de invasão, decidiu transferir a família real e a Corte lusa para a colônia na América, deixando os súditos expostos ao ataque francês. Os ingleses garantiram a proteção da mudança da monarquia para o Brasil. Nobres da Corte e familiares do príncipe recolheram às pressas tudo o que podiam carregar - joias, obras de arte, milha- res de livros, móveis, roupas, baixelas de prata, animais domésticos, alimentos, etc. - e zarparam em 29 de novembro rumo ao Rio de Janeiro. Além da família real e dos nobres, viajaram altos funcionários, magistrados, sacerdotes, militares de alta patente, etc. Estima-se que nos 36 navios viajaram entre 4,5 mil e 15 mil pessoas. Parte da esquadra, incluindo o navio ocupado por dom João, atracou em Salvador no dia 22 de janeiro de 1808, seguindo semanas depois para o Rio de Janeiro, onde já se encontrava o restante da frota, e lá chegando em 8 de março de 1808. — Sede do Governo Português Agora que boa parte da elite lusa encontrava-se em terras brasileiras, o desenvolvimento da colônia não poderia continuar cerceado. Como afirma a historiadora Maria Odila Silva Dias, pela primeira vez iria se configurar “nos trópicos portugueses preocupa- ções de uma colônia de povoamento e não apenas de exploração ou de feitoria comercial”. Assim, seis dias depois de desembarcar em Salvador, o príncipe regente dom João decretou a abertura dos portos brasileiros às nações amigas, ou seja, às nações com as quais Portugal mantinha relações diplomáticas amigáveis. O Governo de D. João no Brasil Dom João — cuja gestão é conhecida como governo joanino - adotou medidas que afetaram diretamente a vida econômica, po- lítica, administrativa e cultural do Brasil. No plano administrativo, dom João procurou reproduzir na colônia a estrutura burocrática do reino. Foram criados órgãos públicos, como o Conselho de Estado 1 Azevedo, Gislane. História: passado e presente / Gislane Azevedo, Reinaldo Seriacopi. 1ª ed. São Paulo. Ática. e o Erário Régio (que depois se tornou Ministério da Fazenda), que garantiam o funcionamento burocrático do Estado e proporciona- vam emprego para muitos portugueses. Ainda em 1808, foram criados o Banco do Brasil, o Real Hos- pital Militar e o Jardim Botânico. Dom João autorizou também o funcionamento de tipografias e a publicação de jornais. Com os li- vros da Biblioteca Real trazidos de Lisboa foi organizada a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Para interligar a capital com as demais regiões da colônia e po- voar o interior, o governo doou sesmarias e autorizou o Banco do Brasil a oferecer créditos aos colonos para que pudessem plantar e criar gado. Essa política de povoamento estimulou a imigração. Em 1815, um grupo de 45 colonos oriundo de Macau e Cantão, na China, estabeleceu-se na cidade do Rio de Janeiro. Em 1818, cerca de dois mil suíços fundaram Nova Friburgo, na província do Rio de Janeiro (as capitanias passaram a se chamar províncias a partir de 1815). Na política externa, o governo joanino adotou uma linha de ação franca- mente expansionista, ocupando a Guiana Francesa, em 1809, e anexando a Banda Oriental (atual Uru- guai), em 1816. Em 1818, dois anos após a morte da rainha dona Maria, o príncipe regente foi coroado rei com o título de dom João Vl. — A Promoção à Reino Unido Para gerar recursos para a administração, o governo joanino teve de aumentar a carga tributária. O dinheiro dos impostos foi utilizado para cobrir os gastos da Corte, custear as obras de urbani- zação do Rio de Janeiro e financiar intervenções militares. Essa si- tuação, somada à carestia e ao aumento dos preços, gerou enorme insatisfação da população, que começou a questionar os privilégios concedidos aos portugueses, detentores dos principais cargos buro- cráticos e dos mais altos postos da Academia Real Militar. Começaram a ocorrer agitações de rua que culminavam em ações violentas da polícia principalmente (mas não exclusivamente) no Rio de Janeiro. A situação em Portugal também era de descon- tentamento popular. Com a queda de Napoleão em 1815, os portu- gueses passaram a exigir o retorno imediato de dom João a Portu- gal. Ele, entretanto, assinou um decreto criando o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Com isso, o Brasil deixava de ser colônia e ganhava o mesmo status político de Portugal. E o Reino passava a ter dois centros políticos: Lisboa, em Por- tugal, e Rio de Janeiro, no Brasil, onde dom João exercia o governo. Para muitos historiadores, a elevação do Brasil a Reino Unido foi o marco inicial do processo de emancipação política e administrativa do Brasil. — Revolução Pernambucana Na província de Pernambuco, no início de 1817, o debate de ideias emancipacionistas e republicanas deu origem a um movi- mento conspiratório, que ficou conhecido como Insurreição Per- nambucana ou Revolução de 1817. REALIDADE BRASILEIRA 246246 a solução para o seu concurso! Editora Inspirados na Revolução Francesa, os líderes redigiram o esbo- ço de uma Constituição que garantia a igualdade de direitos entre os indivíduos, a liberdade de imprensa e a tolerância religiosa. No entanto, o movimento enfraqueceu-se com as divergências entre os proprietários de escravos e os rebeldes abolicionistas. Em maio, tropas enviadas da Bahia e do Rio de Janeiro cercaram o Recife. Alguns líderes foram executados e muitos outros, encarcera- dos em Salvador. — Revolução do Porto Por volta de 1818, alguns monarquistas liberais da cidade do Porto defendiam a ideia de que o monarca deveria governar obe- decendo a uma Constituição. Em agosto de 1820 uma guarnição do Exército do Porto se rebelou e deu início a uma revolução liberal e anti-absolutista conhecida como Revolução do Porto. Rapidamen- te, o movimento se espalhou pelas demais cidades portuguesas. Em Lisboa, uma junta provisória assumiu o poder e convocou as Cortes, que não se reuniam desde 1689, para elaborar uma Cons- tituição. A junta exigia também o retorno da família real e da Corte a Portugal e a restauração do monopólio comercial com o Brasil. A volta da família real a Portugal Nesse período irromperam no Pará, na Bahia e em Pernambu- co várias revoltas apoiando o movimento constitucional de Portu- gal. Em fevereiro de 1821, o rei dom João VI concordou em jurar fidelidade à Constituição que estava ainda para ser elaborada e em convocar eleições para a escolha dos deputados que iriam repre- sentar o Brasil nas Cortes de Lisboa. Temendo perder o trono, dom João VI anunciou também seu retorno a Portugal. No dia 26 de abril, a família real e mais quatro mil pessoas (nobres e funcionários) zarparam rumo a Portugal. Em seu lugar, o rei deixou o filho, dom Pedro, que assumiu o poder no Brasil como príncipe regente. As Cortes de Lisboa Após o embarque de dom João VI, foram realizadas eleições para a escolha dos 71 representantes do Brasil nas Cortes de Lisboa. Embora a maior parte dos eleitos fosse a favor da independência do Brasil, apenas 56 viajaram para Lisboa, onde começaram a chegar em agosto de 1821, oito meses depois do início dos trabalhos. Eles enfrentaram uma forte oposição dos parlamentares lusos, que já tinham adotado diversas medidas desfavoráveis ao Brasil com a intenção de reduzir o Brasil à sua antiga condiçãode colônia. Para os parlamentares lusos, Brasil e Portugal deveriam se subme- ter a uma mesma autoridade: as Cortes de Lisboa. Ao final de 1821, as Cortes ordenaram que Dom Pedro, príncipe regente do Brasil, retornasse a Portugal. — A Independência do Brasil Enquanto a determinação das Cortes de Lisboa não chegava, dom Pedro era apoiado, no Brasil, por pessoas da elite político-e- conômica, com experiência administrativa, como José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838). Na opinião de José Bonifácio e de outros políticos do período, o Brasil deveria manter-se unido a Por- tugal, mas com um governo próprio e autônomo. Havia também quem defendesse o rompimento completo com Portugal. Ambas as correntes, contudo, concordavam que dom Pedro de- veria resistir às pressões das Cortes de Lisboa e recursar-se a voltar a Portugal. No final de 1821, José Bonifácio organizou um abaixo- -assinado subscrito por oito mil assinaturas, que foi entregue a Dom Pedro, no qual era pedido que o príncipe permanecesse no Brasil. Em 9 de janeiro de 1822, o príncipe anunciou sua decisão de ficar no Brasil. O episódio, conhecido como Dia do Fico, foi o primeiro de uma série de atos que levariam à ruptura definitiva entre Brasil e Portugal. Em maio de 1822, o príncipe regente determinou que todos os decretos vindos das Cortes de Lisboa deveriam passar por sua aprovação. Em junho, dom Pedro aprovou a convocação de uma Assembleia Constituinte no Brasil. No começo de setembro, des- pachos vindos de Lisboa desautorizavam a convocação da Assem- bleia Constituinte e ordenavam o imediato retorno de dom Pedro a Portugal. José Bonifácio enviou os despachos ao príncipe, que se encontrava em São Paulo, aconselhando-o a romper com Portugal, pois já não considerava mais possível uma conciliação. No dia 7 de setembro, o mensageiro alcançou dom Pedro nas proximidades do riacho do Ipiranga. Ao receber os decretos, o prín- cipe proclamou a independência do Brasil, declarando a ruptura dos laços com Portugal. No dia 12 de outubro, já de volta ao Rio de Janeiro, foi aclamado com grande pompa imperador constitucional com o título de dom Pedro I. Guerras de Independência Proclamada a independência, teve início a luta por sua conso- lidação, que envolveria conflitos e derramamento de sangue em diversas regiões do novo país. Em fevereiro de 1822, ainda antes da declaração de indepen- dência, houve na Bahia um longo conflito armado entre as forças brasileiras que lutavam pela independência e queriam manter um brasileiro no cargo de governador - no lugar de um general portu- guês. A guerra entre as duas facções se prolongaria até 2 de julho de 1823, com destaque para a figura de Maria Quitéria de Jesus Medeiros, que se alistou ao lado das tropas brasileiras. No Maranhão, no Ceará, no Pará, na Província Cisplatina e no Piauí houve revoltas de portugueses, que viviam nessas regiões, contra a independência. Para derrotar os revoltosos, dom Pedro recrutou mercenários estrangeiros. A vitória das tropas brasileiras nessas regiões, além da obtida na Bahia, impediu a fragmentação do Brasil em diversas províncias autônomas e garantiu a unidade territorial da jovem nação. PRIMEIRA REPÚBLICA: ELITE AGRÁRIA E A POLÍTICA DA ECONOMIA CAFEEIRA — Consolidação da República Em 15 de novembro de 1889, o marechal Deodoro da Fonseca proclamou a República. Apesar das divergências que existiam sobre o tipo de república a ser construída no país, as elites que domina- vam a política em São Paulo, Minas Gerais e no Rio Grande do Sul defendiam o federalismo, em oposição à centralização imperial2. Paulistas e mineiros defendiam propostas inspiradas no libe- ralismo e tinham, sobretudo os paulistas, o modelo estadunidense como referência, em relação à autonomia dos estados e às liberda- des individuais. 2 História. Ensino Médio. Ronaldo Vainfas [et al.] 3ª edição. São Paulo. Saraiva. REALIDADE BRASILEIRA 247 a solução para o seu concurso! Editora No Rio Grande do Sul, havia um importante grupo de políticos liderado por Júlio de Castilhos. Esse grupo defendia, com base nos ideais positivistas, a instauração de uma ditadura republicana que, ao garantir a ordem, levaria o país ao progresso. Já no Rio de Janei- ro, a capital da República, existia um grupo de republicanos radicais, chamados de jacobinos. Eram civis e militares, alguns deles positi- vistas, que defendiam de maneira exaltada o regime republicano e opunham-se de maneira contundente à volta da monarquia. Havia também os monarquistas, que desejavam o retorno do antigo sistema. Entre os militares, predominavam os republicanos. E, mesmo entre estes, havia divergências: enquanto alguns oficiais seguiam a liderança de Deodoro, outros preferiam a de Floriano Peixoto. Mas havia também os positivistas, que tinham Benjamin Constant como líder, e alguns monarquistas, sobretudo na Marinha, que tinham fortes ligações com o Império. Nesse emaranhado de projetos políticos, no início de 1890 o Governo Provisório convocou uma Assembleia Nacional Constituin- te para institucionalizar o novo regime e elaborar o conjunto de leis que o regeriam. Assim, em 24 de fevereiro de 1891, foi promulgada a primeira Constituição republicana do país, a Constituição dos Estados Uni- dos do Brasil. Inspirada no modelo vigente nos Estados Unidos, ela era liberal e federativa, concedendo aos estados prerrogativas de constituir forças militares e estabelecer impostos. Além disso, ela instaurou o presidencialismo como regime po- lítico, com a separação dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciá- rio, e oficializou a separação entre Estado e Igreja. Os deputados constituintes também elegeram o marechal Deodoro da Fonseca para a presidência e o marechal Floriano Peixoto para a vice-pre- sidência da República. Mas o novo regime republicano enfrentaria crises muito sérias até se consolidar definitivamente. — República de Espadas Na área econômica, comandada por Rui Barbosa, então minis- tro da Fazenda, a República começou com grande euforia. Com o objetivo de estimular o crescimento econômico e a industrialização do país, o governo autorizou que os bancos concedessem crédito a qualquer cidadão que desejasse abrir uma empresa. E, para cobrir esses empréstimos, permitiu a impressão de uma imensa quantida- de de papel-moeda. Como a moeda brasileira tinha como referência a libra inglesa, as emissões de dinheiro sem lastro (sem garantia em ouro) provo- caram o aumento acelerado da inflação. Muitos dos empréstimos concedidos foram usados para abrir empresas que existiam apenas no papel, mas cujas ações, ainda assim, eram negociadas na Bolsa de Valores. Como resultado, muitos investidores perderam seu di- nheiro e a inflação aumentou, atingindo toda a sociedade brasileira. Essa medida, que visava estimular a economia, mas resultou em desvalorização da moeda e especulação financeira, recebeu o nome de Encilhamento. Na área política, assistia-se a graves conflitos envolvendo o presidente e os militares que o apoiavam, de um lado, e políticos liberais e a imprensa, do outro. Oito meses após ser eleito, em no- vembro de 1891, Deodoro da Fonseca determinou o fechamento do Congresso Nacional e decretou estado de sítio no país. Os oficiais que seguiam a liderança de Floriano Peixoto não apoiaram o golpe de Estado; assim como a Marinha, que considerou autoritária a ati- tude do presidente, e diversas lideranças civis. Sem apoio político, o presidente renunciou no dia 23. Nesse mesmo dia, Floriano Peixoto, seu vice, assumiu a presi- dência da República. A posse do novo presidente foi muito questionada. De acordo com a Constituição, o vice assumiria somente se o presidente hou- vesse cumprido metade de seu mandato, ou seja, dois anos. Caso contrário, ela previa a realização de uma nova eleição. Mas Floriano estava decidido a permanecer no poder, com o apoio dos florianis- tas, que alegavam que o dispositivo constitucional só valeria para o próximomandato presidencial. Treze generais do Exército contestaram sua posse e, por meio de um manifesto, exigiram eleições presidenciais. Floriano ignorou o protesto e mandou prender os generais. Receosas com a instabi- lidade da República, as elites políticas de São Paulo, representadas pelo Partido Republicano Paulista (PRP), apoiaram o novo presiden- te. Floriano, por sua vez, percebeu que o suporte do PRP era fun- damental. Ele também contou com o apoio de importantes setores do Exército e da população do Rio de Janeiro. Oficiais da Marinha de Guerra (Armada) tornaram-se a sua principal oposição. Em 6 de setembro de 1893, posicionaram os navios de guerra na baía de Guanabara, apontaram os canhões para o Rio de Janeiro e Niterói e dispararam tiros contra as duas cidades - era o início da Revolta da Armada. Em março do ano seguinte a situação tornou-se insusten- tável nos navios - não havia munição, alimentos, água nem o apoio da população. Parte dos revoltosos pediu asilo político a Portugal, a outra foi para o Rio Grande do Sul participar de um conflito que eclodira um ano antes: a Revolução Federalista. — Revolução Federalista A instalação da República alterou a política do Rio Grande do Sul. Com ela, o Partido Republicano Rio-Grandense alcançara o po- der. Apoiada por Floriano Peixoto e liderada por Júlio de Castilhos, a agremiação de orientação positivista tornou-se dominante no es- tado em que passou a governar de maneira autoritária. A principal força de oposição ao Partido Republicano era o Par- tido Federalista, liderado por Gaspar Silveira Martins, que defendia o parlamentarismo e a predominância da União Federativa sobre o poder estadual - enquanto os republicanos pregavam o sistema presidencialista e a autonomia dos estados. Diante da violência e das fraudes eleitorais, os federalistas uni- ram-se a outras forças de oposição, dando origem a uma sangren- ta guerra civil, que ficou conhecida como Revolução Federalista (1893-1895). Os conflitos não se limitaram ao estado do Rio Grande do Sul, estendendo-se aos de Santa Catarina e do Paraná, e só ter- minaram em junho de 1895 com a vitória dos republicanos sobre os federalistas. A Revolução Federalista causou muito sofrimento ao sul do país. Somente no Rio Grande do Sul, que contava com cerca de 900 mil habitantes, morreram de 10 a 12 mil pessoas, muitas delas degoladas. Passados cinco anos da proclamação da República, chegava ao fim o governo de Floriano Peixoto. No dia 15 de novembro de 1894, o marechal passou a faixa presidencial ao paulista Prudente de Mo- rais, conferindo novos ares à República. Pela primeira vez, um civil ligado às elites agrárias, em especial aos cafeicultores, assumia o poder. Com a eleição de Prudente de Morais, encerrava-se o perío- do conhecido como República da Espada. REALIDADE BRASILEIRA 248248 a solução para o seu concurso! Editora — Modelo Político A Constituição de 1891 estabeleceu eleições diretas para todos os cargos dos poderes Legislativo e Executivo. Também determinou que, excetuando os mendigos, os analfabetos, os praças de pré, os religiosos, as mulheres e os menores de 21 anos, todos os cidadãos brasileiros eram eleitores e elegíveis. Apesar de suprimir a exigência de renda mínima constante da Constituição imperial, a primeira Constituição da República tam- bém excluía a maioria da população brasileira do direito de votar. O voto foi decretado aberto, mas, como não havia Justiça Eleitoral, na prática as eleições eram caracterizadas pela fraude. A organização da eleição dos municípios, bem como a redação da ata da seção eleitoral, ficava a cargo dos chefes políticos locais, os chamados co- ronéis. Isso lhes permitia registrar o que bem quisessem nas atas - daí o nome “eleições a bico de pena” - e também controlar as escolhas dos eleitores, por meio da violência ou do suborno. Era comum, por exemplo, que nas atas das seções eleitorais constassem votos de eleitores já mortos para o candidato dos coronéis. Ou então que os coronéis reunissem os eleitores em um de- terminado lugar para receber as cédulas eleitorais já preenchidas. Esses locais eram chamados de “curral eleitoral”. De modo geral, os eleitores votavam no candidato do coronel por vários motivos: obe- diência, lealdade ou gratidão, ou em busca de algum favor, como dinheiro, serviços médicos e até mesmo proteção. Afinal, sem a ga- rantia dos direitos civis e políticos, grande parte da população rural - vale lembrar que a imensa maioria dos brasileiros então vivia no campo - buscava a proteção de um coronel e acabava se inserindo em uma rede de favores e proteção pessoal. — O Poder dos Coronéis Também conhecida como coronelismo, a chamada “República dos coronéis” era um sistema político que resultou da Constituição de 1891 e marcou a Primeira República. Se no Império os presiden- tes de estado (hoje denominados governadores) eram nomeados pelo poder central, com a República eles passaram a ser eleitos pe- los coronéis. Nos municípios, eram os coronéis que, por meio da violência e da fraude eleitoral, controlavam os votos que elegiam o presidente de estado, e também os deputados estaduais e federais, os senadores e até mesmo o presidente da República. Por outro lado, eles dependiam do governante estadual para nomear parentes e protegidos a cargos públicos ou liberar verbas para obras nos municípios. Assim, criava-se uma ampla rede de alianças e favores, em que coronéis, presidentes de estado, parla- mentares e o próprio presidente da República estavam atados por fortes laços de interesses. Esse esquema se consolidou na presi- dência de Campos Sanes (1898-1902), idealizador do que veio a ser chamado de política dos governadores Ou dos esta- dos. Nela, o governo federal apoiava as oligarquias dominantes nos estados, que em troca sustentavam politicamente o presidente da República no Congresso Nacional, controlando a eleição de senado- res e deputados federais - e evitando, dessa forma, que os candida- tos da oposição se elegessem. Ainda assim, caso isso acontecesse, a Comissão de Verificação de Poderes da Câmara Federal, responsá- vel por aprovar e confirmar a vitória dos candidatos eleitos, impug- nava a posse, sob a alegação de fraude. Apesar das fraudes eleitorais, as eleições periódicas foram importantes para a configuração do sistema político brasileiro. Pri- meiro, porque exigiam o mínimo de competição no jogo eleitoral, permitindo a renovação das elites dirigentes. Segundo, porque, mesmo com o controle do voto, havia alguma mobilização do elei- torado - com o qual as elites, mesmo dispondo de grande poder político, precisavam manter alguma interlocução. Política do Café com Leite A política dos governadores inaugurada por Campos Salles fun- damentou a chamada República Oligárquica. Ela reforçou os pode- res das oligarquias - sobretudo as dos estados de São Paulo e Minas Gerais. Como o número de representantes por estado no Congresso era proporcional à sua população, São Paulo e Minas Gerais, que eram os estados mais populosos e ricos - da federação, elegiam as maiores bancadas na Câmara dos Deputados. Vale lembrar que, à época, os partidos políticos eram estaduais e proliferavam siglas como Partido Republicano Mineiro, Partido Republicano Paulista, Partido Republicano Rio-Grandense etc. Ex- pressão simbólica da aliança entre o Partido Republicano Paulista e o Partido Republicano Mineiro foi a chamada política do café com leite, que funcionava no momento da escolha do sucessor presi- dencial. As oligarquias dos dois estados escolhiam um nome comum para presidente, ora filiado ao partido paulista, ora ao mineiro. A cada sucessão presidencial, a aliança entre Minas Gerais e São Pau- lo precisava ser renovada, muitas vezes com conflitos e interesses divergentes. Por serem fortes em termos políticos e econômicos, formaram-se duas oligarquias dominantes no país: a de São Paulo e a de Minas Gerais. Embora em posição inferior à aliançaentre pau- listas e mineiros, destacavam-se também a do Rio Grande do Sul, a da Bahia e a do estado do Rio de Janeiro. Houve eleições em que os vitoriosos não estavam comprometi- dos com a política do café com leite, caso de Hermes da Fonseca em 1910 e de Epitácio Pessoa em 1919. O importante é considerar que as oligarquias dos estados que se encontravam fora da política do café com leite passaram a questionar o sistema político na década de 1920. — Aspectos Econômicos Por volta de 1830, o café tornou-se o principal produto de ex- portação do Brasil, superando o açúcar. Com a expansão das lavou- ras cafeeiras para o Oeste Paulista, a partir da década de 1870, a cafeicultura estimulou a economia do país, cujo dinamismo atraiu investidores estrangeiros, sobretudo britânicos. Ela propiciou a construção e o reaparelhamento de ferrovias, estradas, portos e o surgimento de bancos, casas de câmbio e de exportação. Também foram criados estaleiros, empresas de nave- gação e moinhos. O café mudou o país, inclusive incentivando a sua industrialização. Surgiram, por exemplo, fábricas de tecidos, cha- péus, calçados, velas, alimentos, utensílios domésticos etc. Trata- va-se de um tipo de indústria, a de bens de consumo não duráveis, que não exigia grande tecnologia ou altos investimentos de capital, mas que empregava grande quantidade de mão de obra. A riqueza gerada pelas exportações de café possibilitou, ainda, o aumento das importações e a expansão das cidades, com a ins- talação de serviços públicos (como iluminação a gás e sistema de transporte urbano), novas práticas de diversão e até mesmo maior circulação de jornais e livros. A cidade que mais cresceu foi a de São Paulo, principalmente a partir de 1886, com a chegada de milhares de imigrantes. REALIDADE BRASILEIRA 249 a solução para o seu concurso! Editora Crise do Café Na década de 1920, o café, que era então responsável por mais da metade das exportações brasileiras, sustentava a economia do país. Por consequência, a oligarquia paulista tornara-se dominante na política brasileira - dos 12 presidentes eleitos entre 1894 e 1930, seis eram filiados ao Partido Republicano Paulista. A crescente produção cafeeira, contudo, acabou provocando graves problemas. O consumo do café brasileiro, que nesse período atendia a 70% da demanda mundial, estabilizou-se, mas os fazen- deiros continuaram expandindo suas plantações. Com uma produ- ção maior do que a capacidade de consumo, os preços internacio- nais caíram, causando prejuízos e gerando dívidas. A primeira crise de superprodução ocorreu em 1893. Ao as- sumir a presidência em 1894, Prudente de Morais teve de lidar com grave crise econômica. Campos Salles, que o sucedeu na pre- sidência em 1898, fez um acordo com os credores internacionais conhecido como funding loan. Pelo acordo, que transformou todas as dívidas brasileiras em uma única, cujo credor era a casa bancária britânica dos Rothschild, o Brasil recebeu como empréstimo 10 mi- lhões de libras esterlinas. Além de oferecer as rendas da alfândega do Rio de Janeiro como garantia, o governo se comprometeu a rea- lizar uma política económica deflacionária, retirando papel-moeda do mercado, o que gerou recessão, falências e desemprego e não resolveu os problemas da superprodução de café e da queda dos preços no mercado internacional. Para evitar maiores prejuízos, representantes das oligarquias cafeeiras dos estados de São Paulo, Minas Gerais e do Rio de Janeiro reuniram-se na cidade paulista de Taubaté e elaboraram, em 1906, um plano para a defesa do produto, que, a princípio, não contou com o apoio do governo federal. Pelo Convénio de Taubaté - como ficou conhecido esse encon- tro - estabeleceu-se a política de valorização do café, pela qual os governos dos estados conveniados recorreriam a empréstimos ex- ternos para comprar e estocar o excedente da produção de café, até que seu preço se estabilizasse no mercado internacional, de modo a garantir o lucro dos cafeicultores. Para o pagamento dos juros da dívida, seria cobrado um imposto sobre as exportações de café. Dois anos depois, na presidência de Afonso Pena, o governo federal deu garantias aos empréstimos. A política de valorização do café foi benéfica apenas para os cafeicultores, em especial os pau- listas, em detrimento dos produtores de açúcar, algodão, charque, cacau etc. Além de acentuar as desigualdades regionais, grande parte dos custos dessa política acabou recaindo sobre a sociedade brasileira, que teve de arcar com os prejuízos. Economia da Borracha No começo da República, outro importante produto de exporta- ção era a borracha da Amazônia, que alcançou seu auge entre 1890 e 1910. Em meados do século XIX, desenvolveu-se o processo de vulcani- zação da borracha, por meio do qual ela se tornava endurecida, porém flexível, perfeita para ser usada em instrumentos cirúrgicos e de labo- ratório. O sucesso do produto aconteceu mesmo ao ser empregado na fabricação de pneus tanto de bicicletas como de automóveis. Em 1852, o Brasil exportava 1 600 toneladas de borracha (2,3% das exportações nacionais). Em 1900, já ultrapassava os 24 milhões de toneladas, o que equivalia a quase 30% das exportações. Além de empregar cerca de 1 10 mil pessoas que trabalhavam nos seringais, a extração do látex na região Norte fez com que as cidades de Belém e Manaus passassem por grandes transforma- ções: expansão urbana, instalação de serviços (iluminação pública, bondes elétricos, serviços de telefonia e de distribuição de água). A partir de 1910, contudo, a entrada da borracha de origem asiá- tica no mercado internacional provocou um drástico declínio na produção amazónica. Extraída em colônias inglesas e holandesas, a borracha asiática tinha maior produtividade, melhor qualidade e menor preço. — Disputas por Território Os primeiros governos republicanos enfrentaram problemas de disputas territoriais com os vizinhos latino-americanos. O primeiro deles foi sobre a região oeste dos atuais estados de Santa Catarina e Paraná. que era reclamada pelos argentinos. A questão foi resolvida pela arbitragem internacional dos EUA em 1895, confirmando a posse brasileira. Outra pendência foi com a França, sobre a demarcação das fronteiras do Brasil com a Guiana Francesa. Com arbitragem in- ternacional do governo suíço, o Brasil venceu a disputa em 1900, impondo sua soberania sobre as terras que hoje integram o estado do Amapá. No ano seguinte, o Brasil entrou em disputa com a Grã-Breta- nha sobre os limites territoriais entre a Guiana Britânica (ou Inglesa) e o norte do então estado do Amazonas - que hoje corresponde ao estado de Roraima. O rei da Itália. Vítor Emanuel II, foi convocado como árbitro internacional, e em 1904 ele decidiu a favor dos britânicos. Desse modo, o Brasil perdeu parte do território conhecido como Pirara, e a Grã-Bretanha obteve acesso à bacia Amazônica por meio de al- guns de seus afluentes. Outra disputa, bem mais complexa. foi travada em torno da região onde hoje se localiza o Acre. que então pertencia à Bolívia e ao Peru. Muitos nordestinos, em particular cearenses, que so- friam com a seca. haviam se estabelecido ali para explorar o látex, gerando conflitos armados com tropas bolivianas. Os brasileiros chegaram a declarar a independência política do Acre. Em 1903, a diplomacia brasileira conseguiu uma vitória com o Tratado de Pe- trópolis, que incorporava o Acre ao território brasileiro em troca de indenizações à Bolívia e ao Peru. Cabe destacar a relevante atuação de José Maria da Silva Para- nhos Júnior, o barão do Rio Branco. responsável pelas relações in- ternacionais do Brasil entre 1902 e 1912. Ele não só esteve à frente das negociações que envolviam disputas territoriais do país como fez do Ministério das Relações Exteriores uma instituição profissio- nalizada e aproximou o Brasil dos EUA. — Movimentos e Revoltas Revolta da Vacina Além de modernizar a cidade, era necessárioerradicar as doenças epidêmicas da capital da República. Com base nas então recentes descobertas sobre os microrganismos e a capacidade de mosquitos, moscas e pulgas transmitirem doenças, o médico sani- tarista Oswaldo Cruz, a quem coube essa tarefa, estava decidido a erradicar a febre amarela, com o combate aos mosquitos, a varíola, com a vacinação, e a peste bubónica, com a caça aos ratos, cujas pulgas transmitiam a doença. Em junho de 1904, Rodrigues Alves enviou um projeto de lei ao Congresso que propunha a obrigatoriedade da vacinação contra a varíola. Havia grande insatisfação popular contra as reformas urba- nas do prefeito Pereira Passos. Mas a obrigatoriedade de introduzir REALIDADE BRASILEIRA 250250 a solução para o seu concurso! Editora líquidos desconhecidos no corpo, imposta de maneira autoritária pelo governo e sem esclarecimentos à população, que à época des- conhecia os benefícios da vacinação, gerou forte resistência. Havia também razões morais contra a vacinação obrigatória. À época, os homens não admitiam que, em sua ausência, suas resi- dências fossem invadidas por estranhos que tocassem no corpo de suas esposas e filhas para aplicar vacinas. Como a maioria das mu- lheres partilhava desses mesmos valores, quando a lei da vacinação obrigatória foi publicada nos jornais, estourou uma revolta no Rio de Janeiro. Inicialmente, militares tentaram depor Rodrigues Alves, mas logo foram dominados por tropas fiéis ao governo. A maior reação, entretanto, ficou por conta da população mais pobre. Entre os dias 10 e 13 de novembro de 1904, a cidade foi tomada por manifes- tantes populares: as estreitas ruas do centro foram bloqueadas por barricadas e os policiais, atacados com pedradas. A repressão policial foi violenta. Qualquer suspeito de haver participado da revolta foi jogado em porões de navios e manda- do para o Acre. A vacinação obrigatória acabou sendo suspensa, e, quatro anos depois, uma epidemia de varíola matou mais de 6 mil pessoas no Rio de Janeiro. Foram necessários muitos anos para que os governantes reconhecessem que nada conseguiam com Imposi- ções e práticas autoritárias sobre a população. Nos anos 1960, com campanhas de esclarecimento, a vacinação em massa tornou-se co- mum no país. Em 1971, ocorreu o último caso de varíola no Brasil. Revolta da Chibata Os marujos da Marinha de Guerra brasileira viviam sob péssi- mas condições de trabalho: soldos miseráveis, má alimentação, tra- balhos excessivos e opressão da oficialidade. Mas os castigos físicos aos quais eram submetidos, principalmente com o uso da chibata, eram ainda mais graves. Em 22 de novembro de 1910, marinheiros do encouraçado Minas Gerais se revoltaram contra a punição de um colega conde- nado a receber 250 chibatadas. Liderados por João Cândido, eles tomaram a embarcação, prenderam e mataram alguns oficiais e apontaram os canhões para a cidade do Rio de Janeiro. Os marujos do encouraçado São Paulo e de outras seis embarcações, também ancoradas na baía de Guanabara, aderiram à revolta. Os revoltosos exigiam melhores condições de trabalho e o fim dos castigos cor- porais. O Congresso negociou com os revoltosos e, somente após sua rendição, concedeu-lhes anistia. Mas o ambiente na Armada con- tinuou tenso. Em 4 de dezembro, diante de novas punições, outra revolta eclodiu na ilha das Cobras. Os oficiais reagiram de maneira dura e bombardearam a ilha. Depois, prenderam 600 marinheiros, inclusive os que participa- ram da primeira revolta, entre eles João Cândido, apelidado de “al- mirante negro”. Jogados em prisões solitárias por vários dias, mui- tos deles morreram. Os demais foram detidos em porões de navios e mandados para a Amazónia - ou executados durante a viagem. Revolta em Juazeiro do Norte Em 1889, no povoado de Juazeiro do Norte, no sul do estado do Ceará, durante uma missa celebrada pelo padre Cícero Romão Batista, uma beata teria sangrado pela boca logo após receber a hóstia. A notícia do suposto milagre - da hóstia que teria se transfor- mado em sangue - espalhou-se, aumentando o prestígio do padre, que passou a ser idolatrado na região. Além das funções de padre, ele desempenhava as de juiz e conselheiro, ensinava práticas de hi- giene, acolhia doentes e criminosos arrependidos. Seu prestígio era tamanho que a alta hierarquia da Igreja che- gou a ficar incomodada e temerosa de que essa veneração estimu- lasse práticas religiosas fora de seu controle - o que, de fato, aconte- ceu. Em 1892, o padre foi impedido de pregar e ouvir em confissão. Dois anos depois, a Congregação para a Doutrina da Fé decretou a falsidade do milagre em Juazeiro do Norte, provocando a reação da população. Movimentos de solidariedade se formaram e irmanda- des se mobilizaram a favor do padre Cícero. Imensas romarias pas- saram a se dirigir à cidade. Beatas diziam ter visões que anunciavam a proximidade do fim do mundo e o retorno de Cristo. Surgia um movimento que desafiava as autoridades eclesiásticas da região. Em 1911, inserido na política oligárquica local, padre Cícero foi eleito prefeito de Juazeiro do Norte e se tornou o principal articula- dor de um pacto entre os coronéis da região do vale do Cariri. Padre Cícero lutou em vão até o ano de sua morte, 1934, para provar que o milagre em Juazeiro do Norte havia ocorrido. Apenas em 2016, a Igreja Católica se reconciliou com o padre, suspendendo todas as punições que havia lhe imposto. Guerra de Canudos Antônio Vicente Mendes Maciel andava pelos sertões nordes- tinos pregando a fé católica. Tornou-se um beato conhecido como Antônio Conselheiro e passou a ser seguido por muitas pessoas. Em 1877, fixou-se com centenas delas no arraial de Canudos, um lugarejo abandonado no interior da Bahia, às margens do rio Vaza- -Barris, ao qual renomearam Belo Monte. A comunidade cresceu rapidamente. Famílias, que fugiam da exploração dos latifundiários da região ou abandonavam suas terras de origem devido à seca, foram para Canudos. Também foi o caso de jagunços, que serviam aos coronéis, mas haviam caído em desgraça. Estima-se que em poucos anos o arraial recebeu entre 20 e 30 mil pessoas pobres, em sua grande maioria, mas que em Canudos tinham ao menos uma casa para morar e ter- ra para plantar. Canudos tinha uma rígida organização social. No comando es- tava António Conselheiro, também chamado de chefe, pastor ou pai. Doze homens, denominados apóstolos, assumiram as chefias dos setores de guerra, economia, vida civil, vida religiosa etc. O arraial contava com uma guarda especial formada pelos jagunços, chamada Companhia do Bom Jesus ou Guarda Católica. Havia tam- bém comerciantes. Em 1896, um incidente alterou a paz do arraial. Comerciantes de Juazeiro não entregaram madeiras compradas por Conselheiro para a construção de uma nova igreja. Os jagunços se vingaram sa- queando a cidade. Em resposta, o governador baiano enviou duas expedições punitivas a Canudos, ambas derrotadas pelos conselhei- ristas. Denúncias de que Canudos e António Conselheiro faziam parte de um amplo movimento que visava restaurar a monarquia no país chegavam nas capitais dos estados. A imprensa do Rio de Janeiro e de São Paulo, sobretudo, insistia na existência de um complô mo- narquista. Na capital da República, estudantes, militares, escritores, jornalistas, entre outros grupos sociais, responsabilizavam o presi- dente Prudente de Morais por não reprimir Canudos. Nesse contexto foi então organizada uma terceira expedição, chefiada pelo coronel Moreira César, veterano na luta contra os federalistas gaúchos. Formada por 1.300 homens do Exército bra- REALIDADE BRASILEIRA 251 a solução para o seu concurso! Editora sileiro e seis canhões, ela foi derrotada pelos conselheiristas, que mataram o coronel. O fato tomou proporções nacionais, e Canudos passou a ser visto como uma real ameaça à República. Formou-se, assim, uma quarta expedição, que contava com 10 mil homens. Em outubro de 1897, o arraialfoi destruído e sua população, massacra- da - mesmo aqueles que se renderam foram degolados. Guerra do Contestado Em 1911, um pregador itinerante de nome José Maria apa- receu na região central de Santa Catarina. Ele afirmava que tinha sido enviado pelo monge João Maria, morto alguns anos antes. Na região Sul do país, monge tinha o mesmo significado que bea- to no Nordeste. João Maria, quando vivo, fora contra a instaura- ção da República e acreditava que somente a lei da monarquia era verdadeira. Apresentando-se como um continuador de suas ideias, José Maria organizou uma comunidade formada por milhares de homens e mulheres em Taquaruçu, nas proximidades do município catarinense de Curitibanos. Armados e sob a liderança de José Ma- ria, eles criticavam a República. Muitos homens e mulheres que participavam desse movimen- to conhecido como Contestado, por ter ocorrido em uma área dis- putada entre os estados do Paraná e de Santa Catarina, eram pe- quenos proprietários expulsos de suas terras devido à construção de uma ferrovia, a Brazil Railway Company, que ligaria os estados de São Paulo e do Rio Grande do Sul. A empresa pertencia a um dos homens mais ricos do mundo, o estadunidense Percival Farquhar. Como parte do pagamento à empresa construtora, o governo estadual doou 15 quilômetros de terras de cada lado da linha, pre- judicando os camponeses que ali viviam. A situação era agravada pela presença de madeireiras. Atacados pela polícia, em 1912, des- locaram-se para Palmas, no Paraná. O governo do estado, que considerou se tratar de uma inva- são dos catarinenses, atacou a comunidade e matou José Maria, dispersando a multidão de homens e mulheres que o seguia. Um ano depois, cerca de 12 mil fiéis se reagruparam em Taquaruçu. A liderança do movimento ficou a cargo de um conselho de chefes, que difundiu a crença de que José Maria regressaria à frente de um exército encantado para vencer as forças do mal e implantar o paraíso na Terra. Em fins de 1916, forças do Exército e das polícias estaduais, com o apoio de aviões, reprimiram o movimento, matan- do milhares de rebeldes. — O Modernismo No Brasil, como em grande parte do mundo ocidental, a vida cultural era fortemente influenciada pelos europeus. No vestuário, na culinária, na literatura, na pintura, no teatro e em outras mani- festações artístico-culturais, adorava-se, sobretudo, o padrão fran- cês como modelo. Com o fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918, isso começou a mudar. A guerra resultou no declínio econômico e político dos países envolvidos no conflito e suscitou, ao menos nas Américas, a dúvida quanto à superioridade da cultura europeia. Nos anos 1920, em diversas cidades do Brasil, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, surgiram jornais, revistas e manifestos publicados por artistas e intelectuais que, preocupados com a modernização do país, discutiam o que era ser brasileiro. Recusavam-se a copiar padrões europeus e propunham uma nova maneira de pensar e de- finir o Brasil, valorizando a memória nacional e a pesquisa das raízes culturais dos brasileiros. Era o movimento modernista, que se manifestou com grande impacto em São Paulo. Entre os dias 11 e 18 de fevereiro de 1922, o Teatro Municipal de São Paulo abrigou a Semana de Arte Moderna. Em três noites de apresentação, artistas e intelectuais exibiram suas obras: houve música, poesia, pintura, escultura, palestras e debates. Nas artes plásticas, destacaram-se Anita Malfatti, Di Cavalcanti - responsável pela arte da capa do catálogo da exposição - e Lasar Segall (pintura); Vitor Brecheret (escultura); e Oswaldo Goeldi (gra- vura). Oswald de Andrade apresentou as revistas Papel e Tinta e Pirralho, leu textos e poemas. Mário de Andrade, Ronald de Carvalho e Graça Aranha tam- bém leram seus trabalhos. O maestro Villa-Lobos impressionou o público quando, na orquestra que regia, incluiu instrumentos de congada, tambores e uma folha de zinco. O público vaiou. Acostumada ao padrão europeu de música, a audiência rejei- tava os instrumentos musicais das culturas africanas e indígenas. Para os modernistas, era preciso mostrar às elites que essas cultu- ras também eram formadoras da cultura nacional. — O Tenentismo Enquanto isso, setores da média oficialidade do Exército - como tenentes e capitães - atacavam o governo com armas, em um movi- mento conhecido como tenentismo. Alguns criticavam o liberalismo e defendiam um Estado forte e centralizado, expressando um nacio- nalismo não muito bem definido. Exigiam a moralização da política e das eleições e defendiam a adoção do voto secreto. Muitos se mostravam ressentidos com os políticos, pelo papel secundário do Exército na política nacional. A primeira revolta tenentista ocorreu no Rio de Janeiro, em 1922. Após os rebelados tomarem o Forte de Copacabana, canhões foram disparados contra alvos considerados estratégicos. O objetivo era impedir posse do presidente eleito Ar- thur Bernardes e, no limite, derrubar o governo. O presidente Epitácio Pessoa, com o apoio do Exército e da Marinha, ordenou o bombardeamento do forte. Muitos desistiram da luta, mas 17 deles decidiram resistir. Com fuzis nas mãos, mar- charam pela avenida Atlântica. Um civil se juntou a eles. Ao final, sobraram apenas os militares Siqueira Campos e Eduardo Gomes. A rebelião ficou conhecida como a Revolta dos 18 do Forte. Em 1924, eclodiu outra revolta tenentista, dessa vez em São Paulo. Os revoltosos tomaram o poder na capital paulista. O objeti- vo era incentivar revoltas todo o país até a derrubada do presiden- te Arthur Bernardes. A reação do governo federal foi bombardear a cidade. Acuados, os revoltosos resolveram marchar para Foz do Iguaçu. A Coluna Prestes Enquanto isso, no Rio Grande do Sul, o jovem capitão Luís Carlos Prestes liderava uma coluna militar que, partindo de Santo Ângelo, marchava ao encontro dos rebelados paulistas em Foz do Iguaçu. Quando se encontraram, em abril de 1925, formaram a Coluna Prestes-Miguel Costa e partiram em direção ao interior do país, para mobilizar a população contra o governo e as oligarquias. Com cerca de 1500 homens, atravessaram 13 estados. Perse- guido pelo Exército, Prestes, com táticas militares inteligentes, im- pôs várias derrotas às tropas governistas - que nunca o derrotaram. Após marcharem 25 mil quilômetros, cansados e sem perspectivas, em 1927 os soldados da coluna entraram no território boliviano, onde conseguiram asilo político. Por sua luta e capacidade de co- mando, Luís Carlos Prestes passou a ser considerado um herói e conhecido como “Cavaleiro da Esperança “. REALIDADE BRASILEIRA 252252 a solução para o seu concurso! Editora — A Revolução de 1930 No início da década de 1920, o sistema político da Primeira Re- pública começava a apresentar sinais de esgotamento. A realização da Semana de Arte Moderna, a fundação do Partido Comunista do Brasil e a eclosão da Revolta dos 18 do Forte eram indícios desse esgotamento. A própria sucessão presidencial, também no ano de 1922, foi marcada por uma forte disputa entre os grupos políticos estaduais. Paulistas e mineiros haviam concordado em apoiar o mineiro Arthur Bernardes. Mas as lideranças políticas do Rio de Janeiro, do Rio Grande do Sul, da Bahia e de Pernambuco optaram por lançar Nilo Peçanha como candidato. O movimento, conhecido como Rea- ção Republicana, não propunha romper com o sistema oligárquico, mas abrir espaço para os grupos dominantes de outros estados, de- safiando o domínio de paulistas e mineiros. No entanto, os resulta- dos das eleições eram previsíveis e Arthur Bernardes saiu vitorioso. Os líderes da Reação Republicana não aceitaram a derrota e apelaram para os militares - o que fez eclodir a revolta tenentista no Forte de Copacabana, em 5 de julho de 1922. Arthur Bernardes governou sob estado de sítio, perseguiu o movimento operário e atuou de maneira bastante impopular nas cidades. Em 1926, dissi- dentes do PRP fundaram oPartido Democrático (PD), em São Paulo. O novo partido defendia a adoção do voto secreto e obrigatório, a criação da Justiça Eleitoral e a independência dos três pode O sucessor de Arthur Bernardes, Washington Luís, suspendeu o estado de sítio e as perseguições ao movimento sindical. No entan- to, não concedeu a anistia política aos tenentes, como exigiam as oposições. Em 1929, começaram as articulações para a nova suces- são presidencial. O presidente Washington Luís, do Partido Repu- blicano Paulista, indicou para sucedê-lo o presidente do estado de São Paulo, Júlio Prestes. Inconformadas, as oligarquias mineiras se aliaram aos gaúchos e aos paraibanos, lançando o nome do gaúcho Getúlio Vargas para a presidência e do paraibano João Pessoa para a vice-presidência. O Partido Democrático, de São Paulo, apoiou a candidatura de Vargas. Os dissidentes então formaram a Aliança Liberal, cuja pla- taforma política defendia o voto secreto, a criação de uma Justiça Eleitoral, a moralização da prática política, a anistia para os militares revoltosos dos anos 1920 e o estabelecimento de leis trabalhistas. Nas eleições ocorridas em março de 1930, Júlio Prestes venceu, mas os políticos da Aliança Liberal não aceitaram a derrota, alegan- do fraudes eleitorais. Mineiros e gaúchos conseguiram o apoio dos tenentes na luta contra o governo. No exilio argentino, Luís Carlos Prestes tinha aderido ao comunismo e recusou-se a participar das conversações. A crise eclodiu com o assassinato de João Pessoa, em julho de 1930. Apesar de se tratar de um crime que misturava razões políticas locais e passionais, os políticos da Aliança Liberal transformaram o episódio em questão nacional e deflagraram uma revolução. Iniciada em 3 de outubro de 1930, em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul, ela se alastrou rapidamente pelo Nordeste. Diante da possibilidade de uma guerra civil, altos oficiais do Exército e da Marinha depuseram o presidente Washington Luís e formaram uma Junta Militar. Com a chegada das tropas rebeldes ao Rio de Janeiro, entregaram o poder a Getúlio Vargas. O movimento político-militar conhecido como Revolução de 1930 saía vitorioso. Era o início da Era Vargas. O ESTADO GETULISTA — Governo Provisório Ao assumir a chefia do governo provisório em 1930, apoiado pelos militares, Getúlio Vargas aboliu a Constituição de 1891, dis- solveu o Congresso Nacional, as Assembleias Legislativas estaduais e as Câmaras municipais e instituiu um regime de emergência. Com exceção do governador Olegário Maciel, de Minas Gerais, todos os demais (na época, chamados de presidentes de estado) foram subs- tituídos por interventores, pessoas da confiança do presidente, es- colhidos por ele entre os egressos do movimento tenentista3. Em São Paulo, a nomeação do tenentista pernambucano João Alberto Lins de Barros para interventor provocou descontentamen- to entre as elites, que passaram a exigir um interventor civil e pau- lista. Os desdobramentos do descontentamento da população em relação a Vargas levaram à deflagração da Revolução Constituciona- lista, em julho de 1932. Devido à debilidade de suas convicções ideológicas, o tenentis- mo perdeu muito de sua influência junto ao governo Vargas. Vários de seus representantes voltaram para os quartéis, outros se aliaram ao comunismo ou a grupos simpatizantes do fascismo. Os que con- tinuaram no governo permaneceram subordinados ao presidente. — Legislação Trabalhista A obra pela qual o governo de Getúlio Vargas é mais lembra- do é a legislação trabalhista, iniciada com a criação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, em novembro de 1930. As leis de proteção ao trabalhador regularam o trabalho de mulheres e crianças, estabeleceram jornada máxima de oito horas diárias de trabalho, criaram o descanso semanal remunerado e garantiram o direito a férias (já concedido anteriormente, em 1923, porém nunca colocado em prática) e à aposentadoria, entre outras novidades. Esse conjunto de leis seria sistematizado em 1943, com a Con- solidação das Leis do Trabalho (CLT). Ao mesmo tempo, em 1931 0 governo aprovou a Lei de Sindicalização, que estabelecia o con- trole do Ministério do Trabalho sobre a ação sindical. Os sindica- tos passaram a ser órgãos consultivos do poder público; só podiam funcionar com autorização do Ministério do Trabalho, que, por sua vez, tinha poderes de intervenção tão importantes nas atividades sindicais que podia até afastar diretores. Assim, anarquistas e comunistas foram afastados do movimen- to sindical pelo governo e reagiram à lei, considerada autoritária, por meio de greves e manifestações. Aos poucos, porém, diversos setores sindicais passaram a acatá-la. A legislação trabalhista - apresentada à população como uma “dádiva do governo” - e a aproximação em relação aos sindicatos faziam parte de um tipo de política que seria caracterizado como populista, anos mais tarde. Apresentado como autor magnânimo das leis trabalhistas, Getúlio era chamado de “pai dos pobres”, uma espécie de protetor da classe trabalhadora, desconsiderando as conquistas como resultado das lutas dos trabalhadores. 3 Azevedo, Gislane. História: passado e presente / Gislane Azevedo, Reinaldo Seriacopi. 1ª ed. São Paulo. Ática. REALIDADE BRASILEIRA 253 a solução para o seu concurso! Editora — A Constituição de 1934 Em 1932, Getúlio Vargas ainda governava sob um regime de exceção. Em fevereiro do mesmo ano, o governo aprovou um novo Código Eleitoral que trazia algumas novidades: – criava a Justiça Eleitoral, para coibir as fraudes eleitorais; – instituía o voto secreto, principalmente para minar a influên- cia dos coronéis sobre os eleitores (releia o Capítulo 3); – reduzia de 21 anos para 18 a idade mínima do eleitor; – garantia o direito de voto às mulheres, antiga reivindicação dos grupos feministas, que tinham entre suas principais militantes a enfermeira Bertha Lutz (1894-1976). Pressionado por diversos setores da sociedade, juntamente com a divulgação do novo Código Eleitoral, o governo convocou eleições para maio de 1933, visando à formação de uma Assembleia Constituinte. Entre os 254 constituintes eleitos encontrava-se a mé- dica Carlota Pereira de Queirós, candidata por São Paulo e primeira deputada do Brasil. Promulgada em julho de 1934, a nova Constituição incorporou a legislação trabalhista em vigor, acrescentando a ela a instituição do salário mínimo (que seria criado somente em 1940) e criou o Tribunal do Trabalho. Pela nova Carta, analfabetos e soldados conti- nuavam proibidos de votar. Ainda em julho de 1934 os constituintes elegeram Getúlio Var- gas para a Presidência da República, pondo fim ao governo provisó- rio. De acordo com a Constituição, o mandato presidencial se esten- deria até 1938, quando um novo presidente escolhido por voto livre e direto assumiria o cargo. — Governo Constitucional de Vargas Os anos 1930 foram marcados por uma forte polarização po- lítica, com o surgimento de dois movimentos antagônicos: a Ação Integralista Brasileira (AIB), de direita, e a Aliança Nacional Liber- tadora (ANL), de esquerda. A exemplo do que acontecia na Europa, onde a população geral estava desacreditada da democracia liberal - o que favorecia o sur- gimento de regimes totalitários em diversos países -, surgiram no Brasil grupos que reivindicavam a implantação de uma ditadura de direita, semelhante à de Mussolini na Itália. Em 1932, foi formada a Ação Integralista Brasileira, de inspi- ração fascista, liderada pelo escritor Plínio Salgado e composta de intelectuais, religiosos, alguns ex-tenentistas e setores das classes médias e da burguesia. Tendo como lema “Deus, Pátria e Família”, o integralismo era um movimento de caráter nacionalista, antiliberal, anticomunista e contrário ao capitalismo financeiro internacional. Os integralistas defendiam o controle do Estado sobre a eco- nomia e o fim de instrumentos democráticos, como a pluralidade partidária e a democraciarepresentativa. Nas eleições municipais de 1936, os integralistas elegeram vereadores em diversos municí- pios brasileiros e conquistaram várias prefeituras, entre elas as de Blumenau (SC) e Presidente Prudente (SP). A Aliança Nacional Libertadora surgiu em março de 1935, e tinha como presidente de honra o líder comunista Luís Carlos Pres- tes. O Partido Comunista do Brasil (PC do B) tinha grande ascendên- cia sobre a ANL, mas o movimento reunia em suas fileiras grupos de variadas tendências: socialistas, liberais, anti-integralistas, inte- lectuais independentes, estudantes e ex-tenentistas descontentes com o autoritarismo do governo Vargas. Seu programa político era nacionalista e anti-imperialista. Entre suas principais bandeiras es- tavam a suspensão do pagamento da dívida externa, a nacionaliza- ção de empresas estrangeiras e a reforma agrária. A ANL cresceu rapidamente, chegando a reunir entre 70 mil e 100 mil filiados, segundo estimativas do historiador Robert Levine. Quatro meses depois de fundada, foi declarada ilegal pelo presi- dente Vargas. A partir de então, seus militantes passaram a agir na clandes- tinidade. Em novembro de 1935, setores da ANL ligados ao PC do B lideraram, sob orientação da Internacional Comunista, insurrei- ções mi- litares nas cidades de Natal, Recife e Rio de Janeiro, com o intuito de tomar o poder e implantar o comunismo no Brasil. Mal articulados, os levantes fracassaram e a Intentona Comunista, como ficou conhecido o episódio, levou o presidente a decretar estado de sítio e determinar a prisão de mais de 6 mil pessoas - entre as quais um senador e quatro deputados. Entre os detidos encontravam-se Luís Carlos Prestes (posterior- mente condenado a dezesseis anos de reclusão) e sua mulher, a judia alemã Olga Benário. Ela, grávida de sete meses, foi deportada para a Alemanha nazista em setembro de 1936, onde morreu em um campo de concentração em 1942. — Eleições Canceladas Em meio a esse clima de repressão à esquerda, teve início, em 1937, a campanha eleitoral para a escolha do sucessor de Getúlio Vargas. O presidente, contudo, articulava sua permanência no po- der junto às Forças Arma das e aos governadores. No final de 1937, o capitão integralista Olímpio Mourão Filho elaborou um plano de uma conspiração comunista para a tomada do poder e o entregou à cúpula das Forças Armadas. Era o Plano Cohen, nome de seu suposto autor. O documen- to era falso, mas serviu de pretexto para um golpe de Estado. No dia 10 de novembro de 1937, o presidente ordenou o fechamento do Congresso por tropas do Exército. Pelo rádio, Vargas declarou canceladas as eleições presidenciais e anunciou a instauração do Estado Novo, que ele definiu como “um regime forte, de paz, justiça e trabalho”. A seguir, foi outorgada uma nova Constituição, que logo pas- saria a ser chamada de Polaca, em alusão a suas semelhanças com a Constituição polonesa, de inspiração fascista. As garantias indivi- duais foram suspensas e o direito de reunião, abolido. A população ficou proibida de se organizar, reivindicar seus direitos e de ma- nifestar livremente suas opiniões. Sem reação popular, começava uma nova fase do governo getulista: a de uma ditadura declarada, centralizada em torno da figura de Getúlio Vargas. — O Estado Novo Vargas passou a governar por meio de decretos-lei. Todos os partidos políticos foram extintos, incluindo a Ação Integralista, que apoiara o golpe. A ideologia do Estado Novo enfatizava principal- mente a ideia de reconstrução da nação - pautada na ordem, na obediência à autoridade e na aceitação das desigualdades sociais - e a de tutela do Estado sobre a nacionalidade brasileira. Departamento de Imprensa e Propaganda Em 1939, foi criado o Departamento de Imprensa e Propagan- da (DIP), inspirado no serviço de comunicação da Alemanha nazista. Os agentes do DIP controlavam os meios de comunicação por meio da censura a jornais, revistas, livros, rádio e cinema. Eles também REALIDADE BRASILEIRA 254254 a solução para o seu concurso! Editora elaboravam a propaganda oficial do Estado Novo, produzindo peças publicitárias que mostravam o presidente como uma figura pater- nal, bondosa, severa e exigente a fim de agradar à opinião pública. O DIP elaborava também cine documentários, como o Cine- jornal Brasileiro - exibido obrigatoriamente em todos os cinemas, antes do início dos filmes -, livros e cartilhas escolares enaltecendo a figura de Vargas e transmitindo noções de patriotismo e civismo. Em meio ao ambiente de controle e repressão, a Polícia Espe- cial de Getúlio Vargas ganhou força. Comandada pelo ex-tenentista Filinto Müller, ela ficou conhecida por suas prisões arbitrárias e pela prática de tortura contra os presos. — O Brasil e a Segunda Guerra Mundial Em 1940, Vargas fez um discurso elogiando o sucesso das tropas nazistas na Europa. Entretanto, embora se aproximasse dos países do Eixo por suas posturas autoritárias, o governo de Getúlio Vargas manteve uma postura ambígua sobre a Segunda Guerra Mundial, pois mantinha relações econômicas com os Estados Unidos. Para impedir a influência europeia sobre o Brasil, o governo estadunidense pôs em prática a política de boa vizinhança, que se manifestou por meio do fim do intervencionismo político e da cola- boração econômica e militar. O rompimento definitivo com o bloco nazifascista ocorreu em 1942, quando navios mercantes brasileiros foram afundados por submarinos alemães. Em agosto daquele ano, após manifestações populares e es- tudantis exigindo que o governo entrasse no conflito ao lado das democracias, Getúlio declarou guerra aos países do Eixo. Em julho de 1944, aproximadamente 25 mil soldados, integrantes da Força Expedicionária Brasileira (FEB) desembarcaram na Itália. — O Fim do Estado Novo Em 1942, as manifestações estudantis e populares lideradas pela União Nacional dos Estudantes (UNE), a favor da participação do Brasil na guerra contra o nazifascismo, deram início a um lento processo de distensão no clima sufocante do Estado Novo. Outras manifestações ocorreram, agora pelo fim do Estado Novo e pela volta da democracia. Em 1943, houve o Manifesto dos Mineiros, de um grupo de po- líticos e intelectuais de Minas Gerais durante um congresso da Or- dem dos Advogados do Brasil (OAB). No início de 1945, foi a vez dos participantes do Primeiro Congresso Brasileiro de Escritores. Ainda em 1945, Getúlio pôs fim à censura da imprensa, anistiou presos políticos - entre eles, Luís Carlos Prestes - e convocou eleições para uma Assembleia Constituinte. Surgiram então diversos partidos políticos, entre os quais a União Democrática Nacional (UDN), formada por setores das clas- ses médias e altas, o Partido Social Democrático (PSD), composto de antigos coronéis e interventores nos estados e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), constituído por líderes sindicais ligados ao Ministé- rio do Trabalho, além do Partido Comunista do Brasil (PC do B), que voltou a ser legalizado. Durante a campanha eleitoral, líderes do PTB e de alguns sin- dicatos, com o apoio do Partido Comunista e com o aval do presi- dente, passaram a defender a permanência de Getúlio Vargas na Presidência. A expressão “Queremos Getúlio!”, repetida em coro pelos partidários desse grupo, deu nome ao movimento: queremis- mo. Para evitar a permanência de Vargas no poder, os generais Góis Monteiro e Eurico Gaspar Dutra exigiram sua renúncia. Com o afastamento de Getúlio em Outubro de 1945, o Estado Novo chegava ao fim. DEMOCRACIA E RUPTURAS DEMOCRÁTICAS NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XX — A Experiência Democrática no Brasil Eurico Gaspar Dutra assumiu a presidência em janeiro de 1946. O início de seu governo foi marcado pela posse da Assembleia Na- cional Constituinte, encarrega da de elaborar uma nova Constitui- ção para o Brasil. Promulgada ainda em 1946, a Carta restabelecia a democracia, a organização do Estado em três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário)e a autonomia dos estados e municípios, co- locando fim ao centralismo político que caracterizou a Era Vargas4. No entanto, a nova Constituição manteve a exclusão do direito de voto aos analfabetos (mais da metade da população), inúmeras restrições ao direito de greve e a não incorporação dos trabalhado- res do campo à legislação trabalhista. Na área econômica, Dutra deu uma orientação liberal ao seu governo, afastando-se da política nacionalista adotada por Getúlio Vargas. Com a abertura do mercado aos produtos importados, as reservas nacionais em moedas estrangeiras acumuladas durante a Segunda Guerra esgotaram-se. Em 1948, foi anunciado o Plano Salte, abreviatura de Saúde, Alimentação, Transporte e Energia, considerados setores prioritá- rios. O plano só foi aprovado pelo Congresso em 1950, no final do governo Dutra, e abandonado pelo governo seguinte. Assim, foi implementado apenas em parte, como a pavimentação da rodovia Rio-São Paulo (atual Via Dutra), a abertura da rodovia Rio-Bahia e o início das obras da Hidrelétrica do São Francisco. Aderindo ao clima da Guerra Fria, o governo Dutra estreitou relações com os Estados Unidos e, em 1947, rompeu relações diplomáticas com a União So- viética. Esse posicionamento acabou provocando um recuo na frágil e recente democracia brasileira: o governo decretou a ilegalidade do Partido Comunista Brasileiro (PCB), cassando o mandato de de- putados, senadores e vereadores do partido que foram eleitos em 1945. Além disso, o governo também ordenou a intervenção estatal em mais de 400 sindicatos. — O Retorno de Getúlio Vargas Getúlio Vargas foi vitorioso nas eleições para a sucessão de Du- tra em outubro de 1950. Ele candidatou-se pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PT B), com o apoio do Partido Social Democrático (PSD). Assim, o pai dos pobres, como ficou conhecido, reassumia a Presidência do Brasil em janeiro de 1951, mas, desta vez, democra- ticamente. Sua atuação política junto às camadas mais carentes do país, no estilo populista, foi decisiva para sua vitória. Meses depois da eleição de Getúlio, a marchinha mais cantada no Carnaval de 1951 era Retrato do velho, de Haroldo Lobo e Marino Pinto, gravada em outubro de 1950 por Francisco Alves, para comemorar o resul- tado das eleições. Com a volta de Getúlio Vargas, o governo passou a seguir a cor- rente nacionalista, com o Estado atuando de maneira intervencio- nista e paternalista. 4 Vicentino, Cláudio. Olhares da História Brasil e Mundo. Cláudio Vicentino. José Bruno Vicentino. Savério Lavorato Júnior. 1ª ed. São Paulo. Scipione. REALIDADE BRASILEIRA 255 a solução para o seu concurso! Editora As importações foram restringidas e os investimentos estran- geiros foram limitados, dificultando as remessas de lucros de em- presas transnacionais para seus países de origem. Para incentivar a indústria nacional, em 1952, foi criado o Banco Nacional de Desen- volvimento Econômico (BNDE) e, no ano seguinte, a Petrobras, em- presa estatal com o monopólio da exploração e refino do petróleo no Brasil. Foi proposta também a criação da Eletrobrás, uma em- presa para controlar a geração e a distribuição de energia elétrica. Vargas nomeou João Goulart (1919-1976) para ministro do Trabalho, em 1953, para enfrentar as rei- vindicações e a onda de greves. Sob a orientação do presidente, o novo ministro propôs, em janeiro de 1954, dobrar o valor do salário mínimo, que recuperou seu valor em relação à crescente inflação. Em fevereiro, 42 coronéis e 39 tenentes-coronéis emitiram um manifesto - o Manifesto dos Coronéis - criticando o governo, o aumen- to do salário mínimo e as desordens que corriam pelo país. Entre eles estava o coronel Golbery do Couto e Silva e vários outros militares que, mais tarde, foram protagonistas da ditadura iniciada em 1964. Diante do manifesto, Getúlio demitiu o ministro da Guerra, o general Espírito Santo Cardoso, e acordou com Goulart a sua de- missão, acalmando os ânimos. Contudo, no feriado de 19 de maio de 1954, Vargas anunciou o aumento de 100% do salário mínimo, conquistando ainda mais apoio dos trabalhadores. A política populista de Vargas atraiu a oposição de liberais, como os membros da UDN (União Democrática Nacional, partido político de orientação liberal), oficiais das Forças Armadas e empre- sários, especialmente os ligados aos interesses estrangeiros. Em 5 de agosto de 1954, o jornalista Carlos Lacerda (1914- 1977), um dos principais oponentes de Vargas, dono do jornal Tri- buna da Imprensa, sofreu um atentado no qual morreu seu segu- rança, o major da Aeronáutica Rubens Vaz (1922-1954). O episódio ficou conhecido como o atentado da rua Toneleros. As investigações apontaram a participação de Gregório Fortu- nato (1900-1962), chefe da guarda pessoal de Getúlio. Isso acirrou os ânimos dos oposicionistas, desdobrando-se numa grande cam- panha pela renúncia de Vargas. A campanha contou com os meios de comunicação, que ali- mentavam e impulsionavam o aprofundamento da crise. Pressiona- do, Vargas suicidou-se em 24 de agosto de 1954. A notícia da morte e a divulgação de sua carta-testamento estimularam manifestações populares por todo o país. Jornais de oposição foram invadidos e depredados, assim como os diretórios da UDN e a embaixada dos Estados Unidos no Rio de Janeiro. Com o suicídio de Getúlio, o vice-presidente Café Filho (1899- 1970) assumiu o poder. Inconformados com o resultado das elei- ções, a UDN de Lacerda e setores militares tramavam um golpe, com apoio discreto de Café Filho e outros ministros, mas esbarra- ram no legalista ministro da Guerra, o general Henrique Teixeira Lott (1894-1984). A saída de Café Filho da presidência por problema de saúde oca- sionou a transferência do cargo ao presidente da Câmara dos Deputa- dos, Carlos Luz (1894-1961), aliado da UDN. Este, mais favorável aos golpistas, tentou se livrar do legalista Lott, que reagiu e o depôs. O cargo foi entregue então ao presidente do Senado, Nereu Ra- mos (1888-1958), que governou como presidente da República até a posse de Juscelino Kubitschek, em janeiro de 1956. Nas eleições de outubro de 1955, Juscelino Kubitschek de Oli- veira (1902-1976), ex-governador de Minas Gerais, teve uma vitó- ria apertada, de 36%, contra 30% dos votos dados a Juarez Távora, candidato da UDN. JK, como era popularmente conhecido, foi o candidato da coli- gação PSD-PTB. Como na época os eleitores votavam separadamen- te para presidente e para vice-presidente, João Goulart, o Jango, ex-ministro do Trabalho de Vargas, venceu a eleição para Vice-presi- dência, com mais votos (3 591.409) do que o próprio JK (3 077.411). — De Jk a João Goulart O governo de Juscelino Kubitschek foi marcado pelo desen- volvimentismo. Apoiando-se no Plano de Metas, divulgado sob o slogan “50 anos em 5”, Juscelino prometia desenvolver o país em tempo recorde. O programa priorizava investimentos em setores de energia, indústria, educação, transporte e alimentos. Para alcançar as metas, o governo favoreceu a entrada de capi- tais estrangeiros e a presença de empresas transnacionais no país. Esse modelo abandonava o nacionalismo do período Vargas e ade- ria ao capitalismo internacional. Como resultado dessa política, fá- bricas de caminhões, tratores, automóveis, produtos farmacêuticos e cigarros foram instaladas no Brasil. Destacam-se também a construção das usinas hidrelétricas de Furnas e Três Marias; e a pavimentação de milhares de quilômetros de estradas. Grandes mudanças ocorriam em diversos setores. No dia a dia de muitas cidades e regiões. Na música, foi a época em que surgiu a bossa Nova, um novo estilo de tocar e cantar samba com influência do jazz, juntando-se aos tangos, boleros, valsas e sambas de então. No futebol, 1958 foi o ano da conquista do primeiro campeonato mundial. Passaram a fazer parte dos hábitos dos brasileiros o consumo de produtos industriais, como eletrodomésticos (máquina de lavar roupas, rádio de pilha, etc.) Noentanto, esse desenvolvimentismo era basicamente diri- gido a partes do mundo urbano moderno. O enorme fosso social, pleno de desigualdades e carências (saneamento básico, escolas, saúde), e um mundo rural que ainda reunia a maioria da população brasileira sem a proteção de uma legislação trabalhista continua- vam a existir. A maior obra do governo JK, entretanto, foi a construção de Brasília, a nova capital federal, planejada pelo urbanista Lúcio Costa e pelo arquiteto Oscar Niemeyer. A cidade foi inaugurada em 21 de abril de 1960. Localizada no Planalto Central, estava bem distante das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, os principais centros de pressão popular da época. A abertura da economia brasileira ao capital estrangeiro e os vários empréstimos contraídos junto às instituições estrangeiras deixaram o país numa séria crise financeira, com a inflação chegando, em 1960, ao índice de 25% ao ano. Nas eleições de 1960, a coligação PSD-PTB indicou o marechal Henrique Teixeira Lott para concorrer à Presidência e João Goulart à Vice-presidência. Na oposição, a UDN e outros partidos meno- res apoiaram a candidatura do ex-governador de São Paulo, Jânio Quadros (1917-1992). Seu candidato à Vice-presidência era Mílton Campos, ex-governador de Minas Gerais. Jânio pregava uma limpe- za na vida política nacional com o combate à corrupção. Para sim- bolizar a ideia, usava uma vassoura na campanha eleitoral. Como votava-se separadamente para presidente e para vice-presidente, REALIDADE BRASILEIRA 256256 a solução para o seu concurso! Editora Jânio Quadros se tornou presidente com 5,6 milhões de votos. João Goulart foi eleito vice-presidente com 4,5 milhões de votos. Era for- mada a dupla “Jan-Jan”. Jânio Quadros no Poder Como presidente, Jânio Quadros primou pela ambiguidade. Na economia atuava deforma mais próxima aos conservadores liberais: cortou gastos e congelou salários em meio à contínua elevação dos preços dos produtos. Por outro lado, sua política externa aproxi- mava-se da esquerda, ao reatar relações diplomáticas com países socialistas a fim de ampliar mercados. Um episódio reforçou essa política de independência em rela- ção ao bloco capitalista. Em 1961, o argentino Ernesto Che Guevara, então ministro da Economia em Cuba, foi condecorado por Jânio Quadros com a Ordem do Cruzeiro do Sul. Essa atitude provocou reações contrárias, inclusive do próprio partido do presidente. Em agosto de 1961, após sete meses de go- verno, Jânio surpreendeu a todos ao renunciar ao cargo, numa ma- nobra política fracassada. A renúncia fazia parte de um plano que contava com o temor de setores da sociedade diante da possibilida- de de João Goulart assumir a Presidência para fortalecer seu poder. O vice, que se encontrava na China Popular, em missão de go- verno, era considerado comprometido com as causas trabalhistas - e até acusado de ser um comunista - por vários militares e políti- cos. Ao que parece, a expectativa de Jânio era que a população se mobilizasse contra seu pedido de renúncia e o Congresso Nacional o rejeitasse, o que o levaria a exigir plenos poderes para continuar na Presidência. A renúncia, porém, foi aceita imediatamente e nenhum gru- po movimentou-se para convencer Jânio Quadros a permanecer no poder. O presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzil- li (1910-1975), assumiu a Presidência da República até a posse de Jango. — A Crise Política no Governo Jango A renúncia de Jânio Quadros em 25 de agosto de 1961 amplifi- cou as divergências entre as forças políticas. Alguns ministros mili- tares e políticos da UON, contrariando a Constituição, tentaram im- pedir a posse de João Goulart. O novo presidente era visto como um herdeiro de Getúlio Vargas e acusado de simpatizante da esquerda. Em defesa de Jango, Leonel Brizola (1922-2004), então gover- nador do Rio Grande do Sul, lançou a Campanha da Legalidade, conquistando o apoio de boa parte da população brasileira. A posse de Jango ocorreu somente após debates e negociações que levaram à alteração da Constituição. Com uma emenda, em 2 de setembro de 1961, foi implantado o parlamentarismo no país. Era o acordo para se evitar uma guerra civil: Jango assumiria a presidência, mas o governo de fato ficaria a cargo do primeiro-ministro, escolhido pelo Congresso Nacional. Definiu-se também que, após algum tempo, o parlamentarismo deveria ser ratificado ou não por um plebiscito. Em janeiro de 1963, o plebiscito sobre o parlamentarismo mo- bilizou o país. O sistema político estava em vigência há pouco mais de um ano e era muito criticado e impopular. Com intensa cam- panha pelo seu fim, os brasileiros decidiram pela restauração do regime presidencialista. Enquanto o presidencialismo era restabe- lecido, a situação econômica do país deteriorava-se. A inflação, que em 1962 atingira 52%, chegou aos 80% em 1963 e afetou gravemente o poder aquisitivo dos trabalhadores. Para en- frentar a crise, o governo lançou o Plano Trienal, no final de 1962. Seu objetivo era conter a inflação e promover o desenvolvimento do país. No entanto, os efeitos do plano foram mínimos, principal- mente quanto ao custo de vida. As pressões populares cresceram, levando Jango a defender amplas reformas nos setores agrário, ad- ministrativo, fiscal e bancário. Conhecidas como reformas de base, essas medidas foram vistas pelos seus opositores como uma amea- ça à ordem liberal vigente. Três dessas medidas ajudam a entender os interesses que es- tavam ameaçados. Contra a inflação, foi criada a Superintendência Nacional do Abastecimento (Sunab), ligada ao governo e encarre- gada de controlar os preços dos produtos, interferindo, portanto, nos lucros dos produtores e comerciantes. Para oferecer melhores condições de vida a milhões de traba- lhadores rurais e ampliar a oferta de alimentos, uma proposta de reforma agrária nos latifúndios improdutivos foi apresentada ao Congresso. Os latifundiários, porém, não concordavam com os me- canismos de cálculos para se chegar aos valores das indenizações a serem pagas pelas terras, alegando grandes perdas caso fossem efetivamente aplicados. Outra questão polémica foi a restrição da remessa de lucros das empresas estrangeiras para o exterior; a proposta teve oposição de grupos ligados ao capital internacional. Diante de tantos embates, João Goulart aproximou-se de setores populares organizados por operários, camponeses, estudantes e militantes de esquerda, como o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), a União Nacional dos Estudantes (UNE), a União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES), a Confederação dos Trabalhadores Agrícolas (CONTAC) e as Ligas Camponesas. No lado oposto, contra Jango, os conservadores juntavam or- ganizações sociais e políticas. Entre eles, destacava-se o Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais (PES), que reunia diretores de empresas multinacionais, jornalistas, intelectuais, militares e a nata do empresariado nacional. Entre outros opositores a João Goulart estavam o Instituto Bra- sileiro de Ação Democrática (Ibad), a Confederação Nacional das Indústrias (CNI) e a Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp). Num comício realizado em 13 de marco de 1964, no Rio de Janeiro, o presidente prometeu o aprofundamento das reformas para diver- sas entidades de trabalhadores e estudantes. Em resposta, os conservadores organizaram uma grande pas- seata em São Paulo, chamada Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Os participantes da passeata declaravam estar se posi- cionando contra o que era visto como ameaça da transformação do país numa república comunista, representada pelo presidente, suas propostas e seu grupo de apoio. Setores da Igreja e do empresaria- do participaram da manifestação. A REDEMOCRATIZAÇÃO E A BUSCA PELA ESTABILIDADE ECONÔMICA Definição “Abertura Política” é a denominação de uma sequência de ati- vidades cuja finalidade era promover uma lenta, gradual e segura transição do regimemilitar que para o regime democracia nos últi- mos dois mandatos da ditadura. REALIDADE BRASILEIRA 257 a solução para o seu concurso! Editora • “Lenta, gradual e segura”: o lema que definiu o início da abertura política foi criado no governo do general Ernesto Geisel indicava o modo como o líder pretendia conduzir o processo de res- tauração da democracia. – Lenta: devido a não haver conformidade nas Forças Armadas com relação à abertura política. Enquanto uns não concordavam com a adoção de medidas mais radicais e extremistas, outros de- fendiam (e empreendiam) tentados terroristas contra instituições. – Gradual: conforme o Pacote de Abril (nome atribuído pela a um conjunto de medidas impostas por Ernesto Geisel, abril de 1977), ainda não era o momento ideal para que os militantes abris- sem mão das eleições majoritárias indiretas. – Segura: tinha o objetivo de assegurar o controle da ascen- são da esquerda ao poder, para que o processo democratização não eclodisse em uma revolução semelhante às que ocorreram na China e em Cuba. Ainda, por meio da Lei Falcão, conseguiu-se dificultar a divulgação das propostas dos candidatos oponentes. • Lei da Anistia: promulgada no Governo de João Figueiredo, essa lei isentou os militares de seus crimes cometidos no decorrer da ditadura, além de dispensar, também, aqueles que tinham sido condenados por crimes políticos e os militares e agentes que atua- ram ilegalmente durante o regime. • “Diretas Já»: o impulso que avançou o movimento também recuperou o pluripartidarismo. Mesmo que sua aprovação tenha ocorrido em função de fragmentar a esquerda, o pluripartidarismo permite representação política aos mais diversos grupos, sendo, assim, um fator essencial em um regime democrático. O retorno pelo à democracia somente seria possível por meio da eleição dire- ta para presidente da República, assim, o movimento “Diretas Já”, em contrapartida à divisão provocada pelo pluripartidarismo, gerou o engajamento político desses grupos em busca de desse ideal co- mum. • Revogação do AI-5: outra medida indispensável na luta pela democracia, decretada no Governo de Ernesto Geisel. • Eleição de Tancredo Neves: o marco da transição de regimes aconteceu em 1985, de forma indireta, e o candidato eleito contava com aprovação de boa parte da bancada governamental, ou seja, agradou os militares. E, mesmo que Neves não tenha assumido o cargo, o governo que se seguiu reafirmou o êxito dos militares, já que a esquerda só chegaria à Presidência da República quase vinte anos depois. HISTÓRIA DOS NEGROS NO BRASIL: LUTA ANTIRRACISTA, CONQUISTAS LEGAIS E DESAFIOS ATUAIS A formação da cultura afro-brasileira remonta ao período co- lonial, quando milhares de africanos vieram para o Brasil através do trafico negreiro. O grande número de negros vindo no período colonial acabou por formar a maior população de origem africana fora da África. A cultura afro-brasileira foi marcada pelas referências culturais europeia e indígena. É importante ressaltar que essa manifestação cultural não se deu de forma homogênea, já que os africanos que vieram ao Bra- sil tinham distintas origens, forçando a apropriação e a adaptação para que suas práticas culturais sobrevivessem. Os rituais e costu- mes africano apenas deixaram de ser proibidos em 1930, durante o governo de Getúlio Vargas. Assim, com o fim da perseguição, a cultura africana começou a ser mais valorizada, até que, em 2003, é promulgada a lei nº 10.639 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação), exigindo as escolas brasilei- ras de ensino fundamental e médio que abarquem em seus currícu- los o ensino da história e cultura afro-brasileira. Devido à quantidade de escravos recebidos e também pela mi- gração interna destes, os estados de Maranhão, Pernambuco, Ala- goas, Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul foram os mais influenciados. A maioria dos po- vos veio trazido da Angola, Congo e Moçambique, eles formavam os Bantos. Já os Sudaneses, vieram da África ocidental, Sudão e da Costa da Guiné. I. Aspectos da Cultura Afro-Brasileira Podemos dizer que a cultura afro-brasileira compõe os costu- mes, as tradições, a mitologia, o folclore, a língua, a culinária, a mú- sica, a dança, a religião, enfim, o imaginário cultural brasileiro. Um exemplo de como a cultura africana esta presente na nossa sociedade estão nas festividades, como o Carnaval, a maior festa popular brasileira, a festa de São Benedito, principal festa do Con- gado (expressão da cultura afro-brasileira), comemorada no final de semana após a Páscoa; e a festa de Iemanjá, realizada no dia 2 de fevereiro. Na música influência afro-brasileira está patente em expres- sões como Samba, Jongo, Carimbo, Maxixe, Maculelê, Maracatu e utilizam instrumentos variados, com destaque para Afoxé, Ataba- que, Berimbau e Tambor. Por conseguinte, não podemos perder de vista que estas expressões musicais são também corporais, uma vez que refletem formas de dançar, como no caso do Maculelê, uma dança folclórica brasileira, e do samba de roda, uma variação mu- sical do samba. Podemos ressaltar outras expressões de música e dança como as danças rituais, o Tambor de Crioula, e os estilos mais contemporâneos como o samba-reggae e o axé baiano. Finalmente, merecendo um destaque especial a Capoeira, uma mistura de dan- ça, música e artes marciais proibida no Brasil durante muitos anos e declarada Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2014. A culinária é outro elemento típico da cultura afro-brasileira. Ela introduziu as panelas de barro, o leite de coco, o feijão preto, o quiabo, dentre muitos outros. Entretanto, os alimentos mais co- nhecidos são aqueles da culinária baiana, preparados com azeite dendê e pimentas, como Abará, Vatapá e o Acarajé, bem como o Quibebe nordestino, preparado com carne-de-sol ou charque; além dos doces de pamonha e cocada. Por fim, o prato brasileiro mais conhecido de todos é a Feijoada, criada pelos escravos como uma apropriação da feijoada portuguesa e produzida a partir dos restos de carne que os senhores de engenho não consumiam. A religião afro-brasileira se caracterizou pelo sincretismo com o catolicismo, união de aspectos do cristianismo às suas tradições re- ligiosas para que pudessem realizar as práticas religiosas africanas secretamente. Assim, nasceram do sincretismo o Batuque, o Xam- bá, a Macumba e a Umbanda, enquanto se preservaram algumas variações africanas da Quimbanda, Cabula e o Candomblé. REALIDADE BRASILEIRA 258258 a solução para o seu concurso! Editora Influência Africana no Brasil5 A influência africana no processo de formação da cultura afro- -brasileira começou a ser delineada a partir do tráfico negreiro. Quando milhões africanos “deixaram” forçadamente o continente africano e despontarem no Brasil para exercer o trabalho compul- sório. O escravo africano era um elemento de suma importância no campo econômico do período colonial sendo considerado “as mãos e os pés dos senhores de engenho porque sem eles no Brasil não é possível fazer, conservar e aumentar fazenda, nem ter engenho corrente” (ANTONIL, 1982, p.89). Contudo, a contribuição africana no período colonial foi muito além do campo econômico, uma vez que, os escravos souberem reviver suas culturas de origem e recria- rem novas práticas culturais através do contato com outras culturas. É importante salientar que não houve uma homogeneidade cultural praticada pelos negros africanos, visto que imperava uma heterogeneidade favorecida pelas origens distintas dos africanos, que apesar de oriundos do continente africano, geralmente os escravos apresentava uma prática cultural diferenciada em alguns aspectos devido à região que pertencia, pois a África caracteriza- se em um continente dividido em países com línguas e culturas diversas. Além da prática cultural diferenciada ressaltada, os africanos, ainda, incorporaram algumas práticas europeias e indígenas,além de, influenciá-los culturalmente. O intercâmbio cultural entre os elementos citados contribuiu para uma formação cultural afro - bra- sileira híbrida e bastante peculiar. Ao longo do período colonial e monárquico brasileiro foi gran- de o contingente de escravos africanos no Brasil, visto que, cons- tituía a maior mão - de - obra do período. A contribuição desses escravos foi além da participação econômica, uma vez que, foram inserindo suas práticas, seus costumes e seus rituais religiosos na sociedade Brasileira contribuindo, dessa forma para uma formação cultural peculiar no Brasil. Importante, ressaltar que as práticas desses escravos africanos eram diferenciadas, pois eles eram oriundos de pontos diferentes do continente africano. De acordo com VAINFAS (2001 p.66), du- rante o período colonial, quase nada se sabia sobre a origem étnica dos africanos traficados para o Brasil. Porém, ao longo do período passou-se a designá-los a partir da região ou porto de embarque, ou seja, das áreas de procedência. Apesar da origem diversa dos escravos africanos, dois grupos se destacaram no Brasil: os Bantos e os Sudaneses. Os bantos foram assim, classificados devido à relativa unidade linguística dos africa- nos oriundos de Angola, Congo e Moçambique. Vainfas (2001, p. 67) destaca que: Os povos bantos predominaram entre os escravos traficados para o Brasil desde o século XVII, concentrando-se na região su- deste, mas espalhados por toda a parte, inclusive na Bahia. (...) Os Bantos oriundos do Congo eram chamados de congo, muxicongo, loango, cabina, monjolo, ao passo que os de Angola o eram de mas- sangana, cassange, loanda, rebolo, cabundá, quissamã, embaca, benguela. Essa diversidade fez com os Bantos apresentassem uma es- pecificidade cultural, notadamente na lingüística, nos costumes e, principalmente, no campo religioso, que mesclou aspectos do cris- tianismo com suas tradições religiosas. 5 http://www.acordacultura.org.br/artigos/29082013/a-influencia-africana-no-pro- cesso-de-formacao-da-cultura-afro-brasileira De acordo com Kavinajé (2009, p. 3): Os bantos, depois de um primeiro período de autonomia reli- giosa, que se conhece através de documentos históricos, assistiram à transformação de seus cultos. Por um lado, esses deram lugar á macumba; por outro, amoldaram-se às regras dos condomblés nagôs, não se distinguindo deles senão por uma maior tolerância. Os cultos bantos em gradativo declínio acolheram os espíritos dos índios, o que iria levar ao surgimento de um “condomblé de cablo- cos”, e adotaram cantos em língua portuguesa, ao passo que os condomblés nagôs só usam cantos em língua africana. Já os sudaneses provenientes da África ocidental, Sudão e da Costa da Guiné, contribuíram culturalmente para a formação de uma identidade afro-brasileira, visto que muito de suas práticas culturais imperam atualmente como, por exemplo, o candomblé, prática religiosa dos escravos sudaneses. No Brasil estes grupos: bantos e sudaneses misturaram-se re- sultando em cruzamentos biológicos, culturais e religiosos. De acordo com Paiva (2001, p.36): Misturavam-se informações, assim como etnias, tradições e práticas culturais. Novas cores eram forjadas pela sociedade colo- nial e por ela apropriadas para designar grupos diferentes de pes- soas, para indicar hierarquização das relações sociais, para impor a diferença dentro de um mundo cada vez mais mestiço. Da cor da pele à dos panos que a escondia ou a valorizava até a pluralidade multicor das ruas coloniais, reflexo de conhecimentos migrantes, aplicados à matéria vegetal, mineral, animal e cultural. Nota-se que o cruzamento cultural entre estes povos africanos propiciou a construção de uma identidade cultural brasileira, ou cultura afro-brasileira. Uma vez que, eles não temeram em “inven- tar códigos de comportamentos e de recriarem práticas de socia- bilidade e culturais” (Paiva 2001, p.23). Assim, este cruzamento foi resultado de um longo processo que propiciou uma riqueza cultural peculiar ao Brasil. De acordo com Paiva (2001, p.27), pode-se caracterizar este cruzamento cultural como resultante de uma aproximação entre universos geograficamente afastados, em hibridismos e em imper- meabilidades, em (re) apropriações, em adaptações e em sobrepo- sição de representações e de práticas culturais. Assim, a influência africana foi se tornando visível em vários seguimentos da sociedade colonial, tais como culinária, práticas re- ligiosas, danças, dentre outros valores culturais que foram incorpo- rados pela população brasileira. Sobre a influência africana Freire (2001, p. 343) destaca que: Quantas “mães-pretas”, amas de leite, negras cozinheiras e qui- tandeiras influenciaram crianças e adultos brancos (negros e mes- tiços também), no campo e nas áreas urbanas, com suas histórias, com suas memórias, com suas práticas religiosas, seus hábitos e seus conhecimentos técnicos? Medos, verdades, cuidados, forma de organização social e sentimentos, senso do que é certo e do que é errado, valores culturais, escolhas gastronômicas, indumentárias e linguagem, tudo isso conformou-se no contato cotidiano desen- volvido entre brancos, negros, indígenas e mestiços na Colônia. Ainda de acordo com Freyre (2001, p. 346), a nossa herança cultural africana é visível no jeito de andar e no falar do brasileiro, pois: Na ternura, na mímica excessiva, no catolicismo em que se de- liciam nossos sentidos, na música, no andar, na fala, no canto de ninar menino pequeno, em tudo que é expressão sincera de vida, trazemos quase todos a marca da influência negra. Da escrava ou sinhama que nos embalou. Que nos deu de mamar. Que nos deu de REALIDADE BRASILEIRA 259 a solução para o seu concurso! Editora comer, ela própria amolegando na mão o bolão de comida. Da ne- gra velha que nos contou as primeiras histórias de bicho e de mal- -assombrado. Da mulata que nos tirou o primeiro bicho- de- pé de uma coceira tão boa. De que nos iniciou no amor físico e nos trans- mitiu, ao ranger da cama- de- vento, a primeira sensação completa de homem. Do muleque que foi o nosso primeiro companheiro de brinquedo. (Freyre (2001, p. 348) Observa-se que de acordo com a citação acima a influência afri- cana foi além cozinha e da mesa, chegando até a cama, pois era co- mum a iniciação sexual do “senhorzinho” branco ocorrer com uma escrava.Comum também era a prática de feitiços sexuais e afrodi- síacos pelos escravos, pois foi na “perícia e no preparo de feitiços sexuais e afrodisíacos que deu tanto prestigio a escravos macum- beiros juntos a senhores brancos já velhos e gastos.” Freyre (2001, p. 343), A influência do escravo negro na vida sexual da família brasilei- ra é destacada por, Freyre (2001, p. 381), assim: (...) O grosso das crenças e práticas da magia sexual que se de- senvolveram no Brasil foram coloridas pelo intenso misticismo do negro; algumas trazidas por ele da África, outras africanas apenas na técnica, servindo-se de bichos e ervas indígenas. Nenhuma mais característica que a feitiçaria do sapo para apressar a realização de casamentos demorados. O sapo tornou-se também, na magia se- xual afro-brasileira, o protetor da mulher infiel que, para enganar o marido, basta tomar uma agulha enfiada em retrós verde, fazer com ela uma cruz no rosto do indivíduo adormecido e coser depois os olhos do sapo. Além da influência na vida sexual destacado no clássico Casa Grande e Senzala, merecem ênfase as canções que foram modifica- das pelas negras. Também as canções de berço portuguesas, modificou-se a boca da ama negra, alterando nelas palavras; adaptando-as às condições regionais; ligando-as às crenças dos índios e às suas. Assim a velha canção “escuta, escuta menino” aqui amoleceu-se em “durma, dur- ma, meu filhinho”, passando Belém de “fonte” portuguesa, a “ria- cho” brasileiro. Freyre (2001, p. 380) Observa-se que as amas apropriaram-se das canções de origem portuguesa e as recriaram, dando um toque especial,o toque afri- cano. Isso é perceptível na “infantilização” das palavras das canções. “A linguagem infantil também aqui se amoleceu ao contato da criança com a ama negra. Algumas palavras, ainda hoje duras ou acres quando pronunciadas pelos portugueses, se amaciaram no Brasil por influência da boca africana. Da boca africana aliada ao clima - outro corruptor das línguas europeias, na fervura por que passaram na América tropical e subtropical. Freyre (2001, p. 382) Deste modo, foi se delineando a língua falada no Brasil, a língua portuguesa que foi amplamente influenciada pelo modo de falar dos escravos africanos. A ama negra fez muitas vezes com as palavras o mesmo que com a comida: machucou-as, tirou-lhes as espinhas, os ossos, as du- rezas, só deixando para a boca do menino branco as sílabas moles. Daí esse português de menino que no norte do Brasil, principalmen- te, é uma das falas mais doces deste mundo. Sem rr nem ss; as síla- bas finas moles; palavras que só faltam desmanchar-se na boca da gente. A linguagem infantil brasileira, e mesmo a portuguesa, tem um sabor quase africano: cacá, bumbum, tentén, nenén, tatá, papá, papapo, lili, mimi (...) Amolecimento que se deu em grande parte pela ação da ama negra junto à criança; do escravo preto junto ao filho do senhor branco. Os nomes próprios foram dos que mais se amaciaram, perdendo a solenidade, dissolvendo-se deliciosamente na boca dos escravos. Freyre (2001, p. 382) Nota-se que o intercâmbio cultural entre os negros africanos, indígenas e portugueses foram intensos, notadamente na língua, costumes, modos, comidas, forma de pensar e práticas religiosas. De acordo com Paiva (2001, p. 185) As trocas culturais e os contatos entre povos de origem muito diversa é algo que, então, fazia parte do dia - a – dia colonial, desde a chegada dos portugueses. Isto, porque, era ampla a vivência cultural da população negra no Brasil colonial, refletindo amplamente na sociedade do período. Deste intercâmbio cultural formou-se a cultura afro-brasileira, sendo visível à influência africana em todos os aspectos da socieda- de brasileira, não sendo possível desvincular a cultura brasileira da africana, da indígena ou da europeia. Para Paiva (2001, p.39) a formação cultural não se deu de forma linear, uniforme e harmônica. Muitos foram os conflitos, as adaptações e os arranjos ao longo do período. É evidente que não estou sugerindo uma formação linear desse universo cultural, nem estou emprestando-lhe uma harmonia, que, de fato, pouco existiu. Tanto seu processo de formação quanto a convivência no interior dele se deram (e se dão) de maneira conflituosa na maioria das vezes, embora haja, também, adaptações constantes, arranjos e acordos que visam a sua preservação. Paiva (2001, p. 41) A preservação dessas práticas culturais ocorreu através de aproximações e afastamentos conforme ideia defendida por Paiva (2001, p.40): A conformação e a preservação do universo cultural dão-se, en- tão, através das aproximações e afastamentos, das interseções, da intervenção de espaços individuais e coletivos, privados e comuns, que envolvem dimensões do viver tão diversas quanto à do mate- rial, da utensilagem e das técnicas; dos costumes e tradições, das práticas e das representações culturais; da mitologia e da religião; do físico e concreto, do psicológico e imaginário; da linguagem e das escritas; da dominação, da resistência e do transito entre elas: da temporalidade e da espacialidade; das continuidades e das des- continuidades; da memória e da história. Tudo implicado com os campos da política e do econômico, provocando mutuamente con- tínuas reordenações e construções sociais. Desse modo, observa-se a formação e a preservação de uma identidade cultural, bastante plural devido às influências: europeia, africana e indígena, favorecendo uma riqueza cultural bastante pe- culiar. Estas peculiaridades multiculturais manifestaram-se, princi- palmente, na língua, culinária, música, dança, religião, dentre ou- tros. Resistência Onde quer que tenha existido escravidão, houve resistência escrava. No Brasil os escravizados criaram diversas maneiras de re- sistência ao sistema escravista durante os quase quatro séculos em que a escravidão existiu entre nós. A resistência poderia assumir diversos aspectos: fazendo “corpo mole” na realização das tarefas, sabotagens, roubos, sarcasmos, suicídios, abortos, fugas e forma- ção de quilombos. Qualquer tipo de afronta à propriedade senho- rial por parte do escravizado deve ser considerada como uma forma de resistência ao sistema escravista. Perdigão Malheiro, que foi um importante jurista do século XIX, entendia a fuga como parte essencial do sistema escravista. Existe uma concordância geral entre os estudiosos da escravidão com a REALIDADE BRASILEIRA 260260 a solução para o seu concurso! Editora opinião de Malheiro, de que a fuga foi um aspecto típico do escra- vismo. Onde quer que tenha existido escravidão, foram comuns as fugas, os anúncios nos jornais buscando fugitivos e também a figura do capitão-do-mato. Após a fuga, o escravizado poderia tentar se esconder nas matas, onde frequentemente formavam quilombos, ou ainda tentar se misturar na densa população africana e afrodes- cendente que habitava os núcleos urbanos, tentando se passar por livre ou por liberto. Tendo fugido um escravizado, o seu senhor acio- nava toda uma rede de informantes para descobrir o seu paradeiro. Anunciava a fuga nos jornais locais, oferecendo recompensas àque- le que desse notícias precisas sobre o esconderijo ou localização do fugitivo e, frequentemente, pagava um capitão-do-mato para trazer o escravizado de volta. A fuga representou um modo significativo no processo de re- sistência ao cativeiro e de autoafirmação da condição humana do escravizado em oposição ao sistema escravista. Em primeiro plano provocava um abalo do ponto de vista econômico, tanto de posse quanto de produção, por vários motivos: porque o escravizado dei- xava de trabalhar enquanto estava fugido, deixando, portanto, de gerar lucro para o seu senhor; também por não haver garantia de que o escravizado fosse ser apreendido e, caso não fosse, o senhor perdia o capital nele investido; e, por último, porque pagar as diá- rias de um Capitão-do-Mato não era barato. Em segundo plano, a fuga não era apenas um simples ato de rebeldia, significava a ten- tativa de usufruir de um espaço de liberdade, ainda que, na maior parte das vezes, fosse passageira. Sendo uma afronta direta ao po- der senhorial, os escravizados fugitivos, quando apreendidos, rece- biam um castigo exemplar. As punições aos escravizados apreendi- dos após uma fuga eram extremamente severas, podendo, às vezes, o castigo exemplar recebido resultar em sua morte. As motivações que levavam um escravizado a fugir eram varia- das e nem todas as fugas tinham por objetivo se livrar do domínio senhorial. Existiam as fugas reivindicatórias, como aquelas que fi- zeram os escravos do engenho Santana de Ilhéus, nas quais os es- cravizados buscaram mudanças no exercício da escravidão dentro do engenho, ou quando o escravizado fugia após ser vendido para um outro senhor. Fazendo isto, o escravizado pressionava o seu comprador para devolvê-lo ao seu antigo senhor, pois sabia que ne- nhum senhor gostaria de ter entre os seus escravizados um fugitivo contumaz. De forma contrária, às vezes, o escravizado fugia à pro- cura de um outro senhor que o comprasse; caso o seu senhor não aceitasse a negociação, ele poderia continuar fugindo e, portanto, dando prejuízos e maus exemplos, até que seu senhor resolvesse vendê-lo. Existiam também as fugas temporárias. Era comum a fuga por alguns dias, quando em geral o escravizado ficava nas imediações da moradia de seu senhor, às vezes para cumprir obrigações reli- giosas, outras para visitar parentes separados pela venda, outras, ainda, para fazer algum “bico” e, com o dinheiro, completar o valor da alforria.Os Quilombos Os quilombos ou mocambos existiram desde a época colonial até os últimos anos do sistema escravista e, assim como as fugas, foram comuns em todos os lugares em que existiu escravidão. A for- mação de quilombos pressupõe um tipo específico de fuga, a fuga rompimento, cujo objetivo maior era a liberdade. Essa não era uma alternativa fácil a ser seguida, pois significava viver sendo persegui- do não apenas como um escravo fugido, mas como criminoso. O quilombo mais conhecido no Brasil foi Palmares. Palmares foi um quilombo formado no século XVII, na Serra da Barriga, região entre os estados de Alagoas e Pernambuco. Localizado numa área de difícil acesso, os aquilombados conseguiram formar um Estado com estrutura política, militar, econômica e sociocultural, que tinha por modelo a organização social de antigos reinos africanos. Cal- cula-se que Palmares chegou a possuir uma população de 30 mil pessoas. Depois da abolição definitiva da escravidão no Brasil, em 1888, as comunidades negras deram outro sentido ao termo “Quilom- bo”, não sendo mais utilizado como forma de luta e resistência ao cativeiro, mas sim como morada e sobrevivência da família negra em pequenas comunidades, onde seus valores culturais eram pre- servados. Tais comunidades receberam diferentes nomeações: re- manescentes de quilombos, quilombos, mocambos, terra de preto, comunidades negras rurais, ou ainda comunidades de terreiro. Religião e Cultura Religiosidade Negra As diferentes origens dos africanos trazi- dos para o Brasil fizeram com que aqui se desenvolvessem diferen- tes tradições religiosas, que variaram de acordo com as localidades para as quais eles foram levados. No Sudeste brasileiro, por exem- plo, a maior parte da população escrava anterior ao fim do tráfico, em 1850, era composta de africanos oriundos da região centro-o- cidental, vindos principalmente do Congo e de Angola. Daí ter se desenvolvido uma religiosidade de matriz africana que cultuava os ancestrais e os inquices (como eram chamados genericamente as entidades dos cultos congo-angolanos no Brasil). Já o Maranhão e a Bahia, receberam muitos africanos da região do reino do Daomé, chamados de jejes na Bahia e de minas no Maranhão. Estes grupos cultuavam deuses chamados de voduns. Para a Bahia vieram tam- bém grupos que falavam a língua iorubá, que cultuavam deuses de- nominados orixás. A fusão de elementos das tradições jejes e nagôs deu origem ao candomblé baiano. As irmandades religiosas constituíam outro aspecto da religio- sidade negra do Brasil escravista. Alguns africanos vindos de regiões da África, onde o catolicismo já havia penetrado, como o Congo e Angola, já chegaram ao Brasil como católicos. Outros se convertiam no Brasil quando, por imposição da cultura senhorial, padres católi- cos eram contratados pelos senhores para iniciarem os escravizados no cristianismo. Possuidores de suas próprias crenças, os escravizados se deixa- vam converter de forma superficial, e quando adotavam o catolicis- mo, o faziam através de seu próprio repertório religioso e cultural. O que fez com que o catolicismo praticado pelos africanos e des- cendentes possuísse muitas características das religiões de matriz africana, como as músicas e danças, as oferendas, as promessas e as festas. Além do que, para a maior parte dos escravizados, adotar o catolicismo não significava abandonar as religiões africanas, pra- ticava-se o catolicismo na frente do senhor e as religiões africanas pelas costas. O exercício da prática católica pelos negros foi feito através das irmandades religiosas. Estas organizavam festas em homenagem aos padroeiros, os mais comuns eram Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Além das festas e obrigações religiosas as irman- dades juntavam dinheiro para compra de alforria e se constituíam em importantes espaços de fortalecimento de laços de união entre escravos e libertos. REALIDADE BRASILEIRA 261 a solução para o seu concurso! Editora Entre as contribuições mais expressivas da cultura africana es- tão o samba, o carnaval, o futebol, a capoeira e o candomblé (este mais diretamente associado à cultura baiana). À exceção do fute- bol, todos fazem parte do repertório cultural afro-brasileiro. Porém, o marcante estilo do futebol brasileiro, com seu molejo e criativida- de, também é inseparável da influência afro. Sambas, batucadas, candomblés e o exercício da capoeira foram práticas duramente reprimidas pelo Estado brasileiro em épocas anteriores à década de 1930. A partir da década de 1920, começou a ganhar corpo en- tre a intelectualidade brasileira a ideia da miscigenação como algo positivo. Essas ideias da intelectualidade brasileira ganhariam uma fei- ção prática com a chegada de Getúlio Vargas ao poder e os ideais nacionalistas do Estado Novo. Ao longo dos quinze anos do governo Vargas (1930-1945), várias medidas foram tomadas no sentido de valorização de uma cultura nacional. Dentre essas medidas devem ser citadas a valorização do samba e a descriminalização da capoei- ra e do candomblé. HISTÓRIA DOS POVOS INDÍGENAS DO BRASIL: LUTA POR DIREITOS E DESAFIOS ATUAIS • Indígena: em 1492, quando chegou à América, Colombo achou que tinha desembarcado nas Índias e chamou de índios os habitantes da região. O nome resultou de um erro e contém a falsa visão de que todos os habitantes da América nesse período eram iguais, com a mesma cultura. Portanto hoje se prefere empregar o termo indígena. História dos Povos Indígenas e a Formação Sociocultural Bra- sileira6 Segundo o censo do IBGE de 20107, o Brasil conta com uma população de 896.917 pessoas que consideram-se indígenas. Des- tes, 324.834 vivem em cidades e 572.083 em áreas rurais, o que corresponde aproximadamente a 0,47% da população total do país. A maior parte dessa população distribui-se por milhares de al- deias, situadas no interior de 700 Terras Indígenas, de norte a sul do território nacional. Esses números representam os sobreviventes da colonização do território brasileiro ao longo de 500 anos de exploração. Ao pon- to que estima-se que, na época da chegada dos europeus, fossem mais de 1.000 povos, somando entre 2 e 4 milhões de pessoas. Sendo que, nos dias hoje, encontramos no território brasileiro 246 povos falantes de mais de 150 línguas diferentes. Contudo para tratar o assunto na atualidade, é necessário ter em mente seis pontos: Ocupação: populações humanas já habitavam a terra hoje de- nominada Brasil antes da chegada dos europeus, com ocupações que variam entre 40.000 e 2.000 anos antes do presente, e que ain- da se mantinham por volta de 1.500. Essas populações habitavam territórios que interagiam com seu modo de vida e seus costumes. 6 http://pib.socioambiental.org/ 7 https://indigenas.ibge.gov.br/graficos-e-tabelas-2.html Origem: não existe um consenso sobre a origem das populações indígenas. Pesquisas apontam migrações vindas do norte da América, da Polinésia e de outras áreas do planeta. Essas populações foram chamadas de nativas ou originárias por já habitarem o lugar antes da chegada dos europeus. Permanência: muitos dos grupos que habitam o território bra- sileiro possuem vínculos com os primeiros povos aqui estabeleci- dos. História: o ser humano surgiu na África, aproximadamen- te 3 milhões de anos atrás. A partir de então vem adaptando-se ao ambiente, até resultar no Homo sapiens sapiens, que data de 40.000 anos. Durante todo esse período, chamado de pré-história, ocorreram migrações para diversas partes do mundo, até chegar à América. As fontes de informação sobre esse período são de origem arqueológica, visto que as populações que habitavam o Brasil eram ágrafas (não possuíam sistema de escrita). A partir de 1500 esses grupos que haviam se separado pelos fluxos migratórios entram em contato novamente, com a chegada dos portugueses. Cultura: como qualquer outro grupo humano, os povos indíge- nas possuem culturas resultantes da história e das relações entre os homense o ambiente que os cerca. Essa cultura sofreu diversas transformações por conta dos contatos realizados nos últimos 500 anos, de maneira nem sempre pacífica. Limites Geográficos: os limites entre países, estados ou muni- cípios muitas vezes são criados a partir de referências que não coin- cidem com os limites de habitação dos povos indígenas. Em muitos casos, os povos que hoje vivem em uma região de fronteiras inter- nacionais já ocupavam essa área antes da criação das divisões entre os países; é por isso que faz mais sentido dizer povos indígenas no Brasil do que do Brasil. Discussões Sobre os povos indígenas, pela visão dos portugueses “eles eram selvagens e muito cruéis”. Essa visão, construída com base nos valores europeus da época marcou o processo de colonização. Alguns arqueólogos afirmam que a ocupação da América ocorreu há cerca de 15.000 anos. Outros, porém, dizem que isso ocorreu antes, por volta de 50.000 anos atrás. Seja como for, o fato é que boa parte do território hoje conheci- do como Brasil já era ocupado por grupos humanos há 10.000 anos. A cultura e as formas de organização social desses grupos eram di- ferentes umas das outras. Alguns desses grupos são chamados atualmente de povos de tradição Humsitá. Eles ocupavam o que é hoje a região Sul do Brasil e eram habilidosos fabricantes de instrumentos de pedra. Haviam os sambaquis que habitavam principalmente o litoral. Viviam, sobretudo, da pesca e da coleta de moluscos, como o ca- ranguejo. Outros grupos eram os que habitavam a atual região amazô- nica e produziam objetos de cerâmica. O grupo dos Itararé, que ocupavam as regiões Sul e Sudeste do Brasil atual e faziam suas ha- bitações abaixo do solo, além de diversos outros grupos com carac- terísticas próprias. A relação entre os povos indígenas e os europeus sempre foi bastante agitada. Durante os primeiros anos do contato foram esta- belecidas relações de comércio, principalmente do Pau-Brasil, com REALIDADE BRASILEIRA 262262 a solução para o seu concurso! Editora portugueses e franceses. Percebendo a concorrência, esses países buscaram aliados nos grupos que habitavam o litoral e que já pos- suíam histórico de rivalidade com outras tribos. Com a decisão de Portugal de ocupar e colonizar efetivamente o Brasil, muitos índios acabaram aprisionados e escravizados, utili- zados como mão-de-obra principalmente nas plantações de cana- -de-açúcar. Como havia a necessidade de cada vez mais terras para o cul- tivo da cana, os portugueses adentravam cada vez mais para o in- terior, o que gerava sempre novos conflitos ao tentar expulsar os índios de suas terras. A busca por ouro e pedras preciosas empreen- dida pelas bandeiras de exploração também resultou na captura de muitos indígenas. A situação amenizou-se com a chegada dos padres da Compa- nhia de Jesus ao Brasil, que condenavam o trabalho forçado dos índios. Os padres construíram colégios e reduções, onde buscavam converter os índios para a fé católica. Muito mais do que um local para a conversão, os índios enxergavam nessas construções formas de fugir da exploração do trabalho forçado e de seus inimigos. Com a expansão para o interior do Brasil, principalmente du- rante os séculos XIX e XX, a situação indígena piorava cada vez mais. Aqueles que não eram mortos durante os conflitos por terras aca- bavam confinados em aldeamentos e reservas, que representavam uma pequena parte do território que habitavam e de onde tiravam seu sustento. Muitos índios acabaram também sendo expulsos dessas re- servas, obrigados a migrarem para as cidades ou sendo realocados em reservas com povos totalmente diferentes, em alguns casos até mesmo povos em que existia uma relação de conflito. Os Indígenas em 1500 Por volta de 1500, quando os portugueses aqui chegaram, al- guns desses povos ainda existiam; outros já tinham desaparecido havia algum tempo. Estudos atuais revelam que por essa época, vi- viam no atual território brasileiro mais de 1.000 povos diferentes, com crenças, hábitos, costumes e formas de organização específi- cas. Esses povos falavam cerca de 1.300 línguas distintas, agrupadas em dois troncos linguísticos: o Tupi e o Macro-Jê. Mas havia muitas outras famílias linguísticas, como a dos Aruaque e a dos Caraíba, da atual região amazônica. De modo geral, os povos do tronco linguístico Tupi viviam no litoral. Estre eles estavam povos como os Guarani, os Tupinambá e os Tabajara. Já os povos do tronco Macro-Jê – como os Bororó, os Carajá, os Tarairu, os Cariri – viviam, em grande parte, mais para o interior do território, ou no sertão, como os portugueses diziam na época. - Povos do tronco Jê Xavantes: autodenominados Akwén, entraram em contato com mineradores na província de Goiás, no início do século XVIII. Atualmente habitam o estado do Mato Grosso. Apinayé: entram em contato com jesuítas no Tocantins em 1633, sendo contrários à ideia de pacificação. Estiveram em conflito com portugueses e com o governo brasileiro ao longo de vários sé- culos. Atualmente habitam o estado de Tocantins. Kaingang: São um dos grupos indígenas mais numerosos do Brasil, com uma população estimada em aproximadamente 30 mil pessoas. Habitam os estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Desde o século XVI possuem contato com euro- peus, quando eram denominados Guaianazes. Eram também conhecidos por coroados, devido ao corte de ca- belo que utilizavam, semelhante a uma coroa. Sua relação com os colonizadores e funcionários do governo sempre adquiriram caráter hostil, até que em meados do século XIX seus líderes resolveram aliar-se aos não índios, auxiliando na pacificação dos diversos gru- pos espalhados pelo interior dos estados que ainda habitam. Kayapó: habitantes da região da floresta amazônica. Atualmen- te vivem nos estados de Mato Grosso e Pará. Timbira: entram em contato com os não índios a partir do início do século XVIII, na capitania do Piauí. Atualmente habitam os esta- dos de Tocantins, Pará e Maranhão. Xokleng: habitantes do sul do Brasil, os primeiros registros de contatos datam do século XVIII. Vivem atualmente no estado de Santa Catarina. - Povos do tronco Tupi Caetés: ficaram conhecidos pelo episódio em que teriam su- postamente feito um banquete com a tripulação que naufragou juntamente com Pero Fernandes Sardinha, primeiro bispo portu- guês a chegar no Brasil. Habitavam a região dos estados de Alagoas e Pernambuco. Potiguaras: povo que tinha no caráter guerreiro seu valor fun- damental. Praticavam a antropofagia (ato de comer partes de um ser humano) ritual. Foram inimigos dos portugueses durante o pro- cesso de conquista do território, formando alianças com franceses. Viviam do litoral do atual estado da Paraíba ao estado do Ceará. Eram inimigos dos Tabajaras. Tabajaras: viviam no litoral dos estados de Alagoas e Sergipe, migrando para a Paraíba, território de domínio Potiguara, o que ge- rou grandes conflitos entre os povos. Os Tabajaras acabaram alian- do-se aos portugueses após os primeiros contatos. Tamoios: também eram praticantes da antropofagia. Habita- vam o litoral norte de São Paulo e o Vale do Paraíba, sendo inimigos dos portugueses. Tupinambás: habitaram porções de terra no norte da Bahia, Sergipe e também do litoral norte do Rio de Janeiro até São Sebas- tião em São Paulo. Foram inimigos dos Tupiniquim e também dos portugueses. Tupiniquins: viviam na região do atual estado da Bahia e pos- suíam uma grande concentração de pessoas no território do atual estado de São Paulo. Foram aliados dos portugueses. Influências na Formação da Sociedade Brasileira Muitas das práticas sociais e culturais do Brasil atual têm ori- gem nas sociedades indígenas, a começar pela alimentação. Ao chegarem ao Brasil em 1500, os portugueses saborearam os ali- mentos nativos da América, conhecidos e cultivados há muito tem- po pelos indígenas. Assim, iniciou-se o consumo pelos portugueses da mandioca, do milho, da batata-doce,do amendoim, da abóbora, do abacaxi, do caju, da pimenta, do mamão, entre outros. O hábito de assar os alimentos, o hábito de dormir em redes, tão difundido, sobretudo no Nordeste, o consumo de bebidas preparadas a partir de guaraná e mate também tem origem nos costumes indígenas. REALIDADE BRASILEIRA 263 a solução para o seu concurso! Editora Técnicas como a pesca utilizando tarrafa (rede), a coivara (quei- mada dos campos para limpeza) e o mutirão, originado da práti- ca tupi de realização coletiva de determinada atividade necessária para a manutenção da organização da tribo, foram também incor- poradas. A medicina também utilizou-se da sabedoria indígena para au- xiliar na cura dos homens. A quinina, empregada para a malária, ainda hoje é utilizada como medicamento básico. A copaíba, que os tupis utilizavam para curar feridas, igualmente continua a ser uti- lizada. Podemos citar, ainda, o curare, usado como anestésico, e a pajelança (invocação dos espíritos para efetivar a cura de doenças), praticada mediante a intermediação dos pajés. Também o folclore foi e ainda é marcado por influências indí- genas. Destacamos o curupira, que protegia a caça e a natureza, garantindo um permanente equilíbrio entre as necessidades do homem e a preservação do ambiente natural; o boto-tucuxi, que, no folclore amazônico, era o responsável pela gravidez de jovens virgens e de mulheres cujos maridos costumavam ausentar-se por longos períodos. Nosso vocabulário teve uma grande contribuição de diversas etnias em sua formação. Até hoje muitos nomes de lugares, pes- soas, objetos e práticas do dia tem sua origem em palavras indíge- nas. Organização dos Índios Relações Familiares Os documentos produzidos pelos portugueses e outras evidên- cias históricas revelam que boa parte dos povos indígenas viviam em pequenas aldeias. Cada aldeia era formada por um conjunto de quatro a sete malocas (tipo de cabana comunitária). Essas aldeias eram circulares, em forma de ferradura ou linea- res, como por exemplo, duas fileiras de casas, formatos ainda hoje utilizados pelos indígenas. As malocas eram feitas de galhos de ár- vores e cobertas com palha. Uma característica comum às aldeias é a existência de um es- paço central entre as habitações onde se organizam cerimônias re- ligiosas e festas, e onde as crianças brincam. Em tupi, esse espaço é chamado de ocara. Crenças e Costumes As crenças religiosas dos povos indígenas estavam estreita- mente relacionadas com a natureza. Para eles, a chuva ou a seca, uma boa caçada ou uma pescaria bem-sucedida deviam-se à ação de várias entidades e espíritos ligados à natureza. O boitatá, por exemplo, protegia o campo dos incêndios, repre- sentado por uma serpente de fogo; o curupira, descrito como um indígena de cabelos vermelhos com os pés virados para trás, era o protetor da fauna e da flora. A figura central dos ritos religiosos era o pajé, mediador entre o mundo terreno e o espiritual. Ele entrava em contato com os espí- ritos da floresta para curar as doenças e era um grande conhecedor dos remédios naturais extraídos das plantas. Na época da chegada dos portugueses à América, os indígenas conheciam mais de 3 mil diferentes espécies de ervas, que usavam para combater os mais variados problemas de saúde. Na Europa, o número de remédios não passava de cem. Para os indígenas, a terra, a floresta, a água e os animais eram de todos, não havia propriedade privada. Para resolver situações importantes – como decidir uma guerra -, formava-se um conse- lho composto dos chefes das grandes famílias e as decisões eram tomadas coletivamente. O morubixaba – líder da aldeia – era o conselheiro encarregado de ajudar as pessoas a resolver pequenos conflitos. Podemos dizer, portanto, que nas sociedades indígenas não ha- via privilégios nem desigualdades sociais. A educação das crianças era tarefa de toda a comunidade, e não só da família. As crianças eram muito bem tratadas e não havia castigos físicos. Da mesma forma, os idosos eram respeitados como guardiões da história e do saber de seu povo. Eram eles que transmitiam aos mais jovens os valores e as crenças do grupo. Os indígenas que viviam nas terras que hoje formam o Brasil desconheciam a escrita. Assim, o conhecimento e os saberes acu- mulados pelos grupos eram transmitidos de geração em geração por meio de histórias narradas oralmente. Além da arte de contar histórias, muitos grupos desenvolve- ram habilidades como produtores de arte plumária, que consiste na criação de enfeites e adornos de penas coloridas em combinações de grande beleza. Também na cerâmica, nos traçados e nas pinturas corporais alguns desses povos produziram obras belíssimas. As tarefas que garantiam a sobrevivência do grupo eram fei- tas por todos. Assim também era dividido o resultado do trabalho coletivo. Derrubar árvores, caçar, pescar, preparar a terra para o plantio, construir malocas, armas e canoas, em geral, era trabalho dos homens. As mulheres, além de cuidar das crianças pequenas e cozinhar, trabalhavam na coleta de frutos, na plantação de roças e na colheita. Os alimentos variavam conforme a disponibilidade dos recur- sos naturais e as características de cada povo indígena. Grupos que moravam próximo a rios e mares tinham na pesca sua principal fon- te de alimento. Já os que viviam no interior do território, além da caça, se dedicavam muitas vezes à prática da agricultura. Plantavam principalmente milho, mandioca, abóbora, inhame e batata-doce. Com o grande conhecimento que tinham da natureza, alguns povos indígenas aprenderam a extrair o veneno de certas varieda- des de mandiocas. Feita a extração do veneno, transformavam a raiz em farinha seca, tapioca, beiju e outros produtos. Vários ali- mentos que consumimos hoje no Brasil são uma herança direta das culturas indígenas. Antropofagia na Cultura Indígena A antropofagia praticada pelos povos indígenas fazia parte de sua cultura, e é sob esse prisma que precisamos compreender o fenômeno. Os indígenas não comiam outros seres humanos por es- tarem com fome ou por não terem comida. Para algumas etnias, comer o corpo de um ente querido cons- tituía um ato de amor: mães e pais, por exemplo, poderiam comer restos mortais de seus filhos. Outra forma de antropofagia era aquela em que grupos ou povos comiam o corpo de um guerreiro aprisionado. Esse costu- me fazia parte de um ritual mais amplo: o prisioneiro poderia viver muito tempo junto ao grupo que o aprisionou, era bem alimentado e chegava mesmo a se casar com uma mulher da aldeia. No dia da execução, aldeias vizinhas eram convidadas para a festa. Por meio dessa morte e da ingestão do corpo do guerreiro, a aldeia vingava simbolicamente os parentes mortos pela aldeia inimiga. Em outros casos, julgavam adquirir a força e a coragem do inimigo ao ingerir partes do corpo do prisioneiro morto. REALIDADE BRASILEIRA 264264 a solução para o seu concurso! Editora Papel dos Jesuítas Muitos padres da Companhia de Jesus, conhecidos por Jesuítas condenavam as ações praticadas pelos colonos portugueses em re- lação aos escravos indígenas, já que a rotina de trabalho nos cana- viais era árdua e durava longas horas diárias. Por pressão dos Jesuítas, a Coroa portuguesa estabeleceu que os escravos fossem liberados de suas atividades durante os domingos para praticar a fé cristã e frequentar a missa. Apesar da determinação real, a medida não era seguida por muitos senhores de engenhos e quando era praticada, muitos indígenas acabavam usando o dia para descansar ou praticar outras atividades que lhes rendessem uma alimentação complementar, deixando de lado as obrigações religiosas. Os Jesuítas criaram aldeamentos com o objetivo de batizar os índios na fé católica. Com a ideia de que poderiam alcançar o paraí- so e praticar a fé cristã, os índios eram catequizados. Para conseguir uma aproximação e conquistar os interesses indígenas, os Jesuítas aprenderam sua linguagem e seus costumes,para pouco a pouco incorporar elementos religiosos em sua cultura e finalmente torná- -los completamente cristãos. O abandono das antigas crenças e aceitação da fé cristã, mes- mo quando imposta, era considerada pelos jesuítas, como a forma mais eficiente para torná-los mais pacíficos, além de facilitar a vida dos colonos pois auxiliariam em guerras contra tribos consideradas perigosas e hostis, além dos invasores franceses e holandeses que possuíam grande interesse pelo território brasileiro. É importante notar o ponto de vista indígena, muitas vezes atraídos para os aldeamentos com o objetivo de fugir da escravidão imposta pelos colonos e das guerras praticadas por seus rivais. Aldeamentos Indígenas Os aldeamentos foram os locais de trabalho dos missionários, que buscavam catequizar as populações indígenas. Utilizados como forma de atração, os aldeamentos normalmente estavam localiza- dos próximos às povoações coloniais, para incentivar o contato com os portugueses. Entre os vários exemplos de estudo da língua indígena para a utilização como ferramenta de conversão é possível citar os padres José de Anchieta e António Ruiz de Montoya. O primeiro dicionário conhecido da língua Tupi foi escrito pelo padre José de Anchieta e publicado em 1595, com o nome de “Arte de Gramática da Língua Mais Falada na Costa do Brasil”. Anchieta, que missionou no Brasil desde 1553, notava (como seus contemporâneos) a grande semelhança da língua falada pelos indígenas do litoral: os tupis. Em uma carta de 1584, ele observa que todos os povos do litoral “têm uma mesma língua que é de grandíssimo bem para a sua conversão”. Seriam assim povos cuja identidade estaria associada à língua geral, como os jesuítas chamavam o “tupi universal” que inventa- ram. Ao lado da inegável semelhança de todos os dialetos tupis, o agrupamento das diversas “castas” resolveu-se na necessidade ho- mogeneizadora que os primeiros missionários viam para lidar com os grupos nativos. Tratava-se de entender para transformar, compreender as cul- turas indígenas para substituí-las pelo Evangelho. Os jesuítas, desde cedo, determinaram que a catequese, ou a conquista das almas, seria mais facilmente realizada se usassem da língua dos naturais. Assim, a Gramática da língua mais usada na costa do Brasil surge com um instrumento da conversão do indígena. O primeiro dicionário da língua Guarani foi escrito no ano de 1639 pelo padre António Ruiz Montoya. Publicado em Madrid, no dicionário de 814 páginas traz cerca de 8.100 palavras. Não por aca- so a publicação que traduz para o castelhano recebeu o nome “Te- souro da Língua Guarani”. Sobre a relação dos indígenas com os aldeamentos, como bem destacam Mota e Chagas8, ao tratar das reduções jesuíticas na região do Guairá (atual Paraná), os índios guarani, por seu lado, fizeram alianças, acordos e guerras, no sentido de garantir sua li- berdade. É preciso lembrar que, quando fizeram aliança com os jesuítas, eles buscaram uma forma de não ser submetidos, por exemplo, à servidão (encomiendas). Para entender a história da ocupação dos territórios do Guairá, é preciso considerar as relações entre os di- versos grupos: conquistadores e seus interesses, os Guarani, os Kaingang (inimigos). Com expedições denominadas de descimentos, os missioná- rios convenciam os índios através da retórica a descerem de suas aldeias para se juntarem a novos aldeamentos. Pela legislação, o aldeamento garantia a liberdade indígena, no entanto, nesse am- biente, os indígenas foram forçados a adaptar-se a novos elementos culturais, sofrendo interferência religiosa e moral. Eram obrigados a trabalhar e por lei deveriam receber pagamento, uma nova realida- de completamente diferente da sua tradição. Os jesuítas nunca foram contrários ao trabalho indígena e, mui- to menos, à sua inserção no mundo colonial. O que eles não sus- tentavam era a servidão natural dos mesmos e a sua escravização, salvo por motivo de “guerra justa”. Para os jesuítas, o objetivo final da catequização e conversão começava a mostrar seu sucesso a partir da destruição e da perda dos costumes dos povos indígenas. O modelo, tal como inaugurado pelos jesuítas, perdurou ao lon- go de todo o período colonial, embora tenha sofrido significativas alterações com a política indigenista pombalina, inaugurada com o Diretório dos Índios (1757-1758), que já apostava na secularização das aldeias, e reforçada após a expulsão dos jesuítas em 1759-60. Diretoria-Geral e Diretorias Parciais dos Índios.9 A criação das Diretorias Gerais e Parciais dos Índios por todo o território brasileiro foi originada por meio do Regulamento das Missões de Catequese e Civilização dos Índios criado pelo Decreto n° 426 de 24 de julho de 1845. As Diretorias dos Índios tinham como responsabilidade as me- diações entre os índios e os Governos Imperial e Provincial. Segundo o Regulamento, cada Província teria um Diretor Geral de Índios, nomeado pelo Imperador que deveria interagir com o respectivo Presidente da Província para algumas questões, como por exemplo, requisitar os objetos que o Governo Imperial enviasse para os índios, a fim de distribuí-los pelos Diretores das Aldeias e pelos Missionários. Com relação à Assembleia Provincial, deveria propor “a criação de Escolas de primeiras Letras para os lugares, onde não baste o Missionário para este ensino”. As Aldeias eram controladas por um Diretor, nomeado pelo Diretor Geral. 8 Chagas, Nádia Moreira; Mota, Lúcio Tadeu. O Guairá nos Séculos XVI e XVII – As Relações Interculturais http://projetos.unioeste.br/projetos/cidadania/images/ stories/ArquivosPDF/biblioteca/O_Guair_nos_sec._XVI_e_XVII_.pdf 9 http://www.ambienteterra.com.br/paginas/indio/seusdireitos.html REALIDADE BRASILEIRA 265 a solução para o seu concurso! Editora Tanto o Governo Imperial e quanto o Governo Provincial se- riam juridicamente responsáveis pela Diretoria. Essa divisão de res- ponsabilidade apenas aconteceu a partir do Ato Adicional de 12 de agosto de 1834, que alterou a constituição e, dentre outros, criou as Assembleias Legislativas Provinciais, delegando-lhes competên- cias legislativas e materiais, ou seja, competência de editar leis e de colocá-las em prática, incluindo a de elaborar as leis orçamentárias e a de “promover, cumulativamente com a assembleia e o governo geral, a organização da estatística da província, a catequese, a civili- zação dos indígenas e o estabelecimento de colônias”. Na Província de São Paulo, o Diretor Geral dos Índios nomeado pelo Imperador foi o Brigadeiro José Joaquim Machado de Oliveira, que, por sua vez, deveria nomear diretores leigos para cada aldeia indígena da província. Machado de Oliveira se posicionava a favor da vertente que via a catequese e civilização como saída do estado de barbárie, con- trariando aqueles que não acreditavam ser possível qualquer mu- dança. Mesmo que o Regulamento das Missões fosse um passo a favor dessa vertente, ainda assim, era composto por ideias bastante diversificadas. O aldeamento de Itariri-SP chama atenção, por ser um dos poucos que Machado de Oliveira considerava ter dado certo. Ele foi criado em 21 de janeiro de 1847, no município de Iguape, porque, segundo o diretor geral, existiram famílias de indígenas Guarani Nhandeva, que deixaram as matas, em 1837 e ali se asilaram, viven- do do trabalho braçal onde era este exigido, e talvez sob a condição de escravos. Criação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI)10 O Serviço de Proteção aos Índios (SPI), instituição criada pelo decreto nº 8.072, de 20 de junho de 1910 com o nome de Serviço de Proteção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais (SPILTN). Tinha por tarefa a pacificação e proteção dos grupos in- dígenas, bem como o estabelecimento de núcleos de colonização com base na mão de obra sertaneja. As duas instituições foram separadas em 6 de janeiro de 1918 pelo decreto Lei nº 3.454, e a instituição passou a ser denominada SPI,que foi extinta em 1967 quando da criação da Fundação Nacio- nal do Índio (FUNAI). A origem do SPI estava nas redes sociais que ligavam os inte- grantes do Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio (MAIC), Apostolado Positivista no Brasil e Museu Nacional, pois o MAIC pre- viu desde a sua criação a instituição de uma agência de civilização dos índios. 10 BRASIL. Legislação indigenista. Brasília: Senado Federal/Subsecretaria de Edições Técnicas, 1993. Ministério da Agricultura. Serviço de Proteção aos Índios. SPI/1953. Relatório das atividades do Serviço de Proteção aos Índios durante o ano de 1953. Rio de Janeiro: Serviço de Proteção aos Índios, 1953. Ministério da Agricultura. Serviço de Proteção aos Índios. SPI/1954. Relatório das atividades do Serviço de Proteção aos Índios durante o ano de 1954. Rio de Janeiro: Serviço de Proteção aos Índios, 1954. FREIRE, Carlos Augusto da Rocha. Saudades do Brasil: Práticas e representa- ções do campo indigenista no século XX. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – PPGAS/MN, UFRJ, Rio de Janeiro, 2005. LIMA, Antonio Carlos de Souza. Sobre indigenismo, autoritarismo e nacionalidade: considerações sobre a constituição do discurso e da prática da “proteção fraternal” no Brasil. In: OLIVEIRA, João Pacheco de (Org.). Sociedades indígenas e indige- nismo no Brasil. Rio de Janeiro: Marco Zero: Ed. UFRJ, 1987. As atividades das Comissões de Linhas Telegráficas em Mato Grosso deram notoriedade a Cândido Mariano da Silva Rondon. Ele e outros militares positivistas que integravam redes de relações políticas regionais e nacionais, vinculadas a instituições civis e apa- relhos governamentais, sediados na Capital Federal, se envolveram numa polêmica pública relativa à “capacidade ou não de evolução dos povos indígenas”. A partir de 1908, Rondon propôs que fosse criada uma agência indigenista do Estado brasileiro tendo por finalidades: a) estabelecer de uma convivência pacífica com os índios; b) garantir a sobrevivência física dos povos indígenas; c) estimular os índios a adotarem gradualmente hábitos “civi- lizados”; d) influir “amistosamente” na vida indígena; e) fixar o índio à terra; f) contribuir para o povoamento do interior do Brasil; g) possibilitar o acesso e a produção de bens econômicos nas terras dos índios; h) empregar a força de trabalho indígena no aumento da pro- dutividade agrícola; i) fortalecer as iniciativas cívicas e o sentimento indígena de pertencer à nação brasileira. As iniciativas do SPI envolviam a intervenção na vida indíge- na através de um ensino informal, a partir das necessidades cria- das, evitando-se influenciar a organização familiar. O objetivo era impedir conflitos entre diferentes povos enquanto o SPI introduzia inovações culturais, prevendo possíveis mudanças nos locais de ha- bitação dos índios. Foram estimuladas mudanças no trabalho indígena com a di- fusão de novas tecnologias agrícolas e o ensino da pecuária, além da arregimentação de índios para os trabalhos de conservação das linhas telegráficas. A experiência de Rondon no trato com povos indígenas e suas ideias positivistas sobre os índios, convergentes com os projetos de colonização e povoamento definidos na criação do MAIC, origina- ram o convite que o tornou primeiro diretor do SPI. Dessa forma, foi instaurado um novo poder estatizado que assegurava o controle legal das ações incidentes sobre os povos indígenas. Esse poder foi formalizado na malha administrativa do SPI, a partir de um código legal (regimentos, decretos, código civil, etc.). Para a administração da vida indígena foi formalizada uma de- finição legal de índio, através do Código Civil de 1916 e do Decreto nº 5.484, de 1928. Os indígenas tornaram-se tutelados do Estado brasileiro, um direito que implicava num aparelho administrativo único, mediando as relações índios/Estado/sociedade nacional. A terra, a representação política e o ritmo de vida foram admi- nistrados por funcionários estatais, com os índios adotando uma indianidade genérica. Os indigenistas do SPI trabalharam em diferentes tipos de pos- tos indígenas (de atração, de criação, de nacionalização, etc.), assim como em povoações e centros agrícolas. Dependendo de recursos financeiros e políticos, o SPI adotou um quadro funcional heterogê- neo, envolvendo desde militares positivistas a trabalhadores rurais sem qualquer formação. A pedagogia nacionalista empregada por esses agentes controlava as demandas indígenas, mas podia resul- tar em situações de fome, doenças e de população, contrárias aos objetivos do Serviço. REALIDADE BRASILEIRA 266266 a solução para o seu concurso! Editora A ação do SPI foi marcada por contradições identificadas como “paradoxos indigenistas”, pois tinha por objetivo respeitar as terras e a cultura indígena, mas agia transferindo índios e liberando ter- ritórios indígenas para colonização, impondo uma pedagogia que alterava todo o sistema produtivo indígena. De 1910 a 1930, o SPI fez parte do então Ministério da Agricul- tura, Indústria e Comércio; de 1930 a 1934, esteve ligado ao Minis- tério do Trabalho; de 1934 a 1939, foi integrado ao Ministério da Guerra, como parte da Inspetoria de Fronteiras; em 1940 voltou ao Ministério da Agricultura e, mais tarde, passou para o Ministério do Interior. Em 1939, foi criado o Conselho Nacional de Proteção aos Índios (CNPI) com o objetivo de atuar como órgão formulador e consultor da política indigenista brasileira. A ideia seria a de que o SPI daí por diante teria somente atri- buições executivas, o que não ocorreu. A atuação do SPI se concen- trou na pacificação de grupos indígenas em áreas de colonização recente. Em São Paulo, Paraná, Espírito Santo, Mato Grosso e outras regiões foram instalados postos indígenas. Após a consolidação da pacificação eram feitas negociações com os governos estaduais para a criação de reservas de terras para a sobrevivência física dos índios. Progressivamente eram introduzi- das atividades educacionais voltadas para a produção econômica e ações destinadas a atender as condições sanitárias dos índios. O SPI buscou garantir a posse de terras aos índios através da concessão de terras devolutas. Inúmeras propostas foram feitas pelo SPI de criação de terras indígenas e que foram negadas pelos governos estaduais. Nos postos indígenas eram instaladas oficinas mecânicas, en- genhos de cana-de-açúcar e casas de farinha, e os índios treinados em diversos ofícios. As crianças eram enviadas as escolas dos pos- tos, sendo que estas também recebiam filhos de colonos de empre- gados dos postos e crianças da população vizinha, o que permitia um processo de integração da população. O SPI enfrentou durante toda a sua existência problemas de carência de recursos e dificuldades de qualificação de seu pessoal. A atuação do órgão acabou por gerar resultados opostos a sua pro- posta. Eram frequentes as denúncias de casos de fome, doenças, assassinatos e escravização. No início da década de 1960, sob a acu- sação de genocídio, corrupção e ineficiência o SPI foi investigado por uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). O processo levou à demissão ou suspensão de mais de cem funcionários de todos os escalões. Em 1967, durante o regime mili- tar, o SPI e o CNI (Confederação Nacional da Industria) foram extin- tos e substituídos pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI). Assistência Sanitária A disseminação de doenças e a ocorrência de epidemias para as quais os povos em guerra ou dominados tinham baixa imunidade contribuiu para a conquista dos povos indígenas do Brasil na época colonial. O contágio da varíola, gripe, tuberculose, pneumonia, co- queluche, sarampo e outras viroses levaram à dizimação de inúme- ros povos indígenas, à mortandade de milhares de índios. Nas primeiras décadas do século XX, essa realidade não foi alte- rada: nos grupos recém-contatados pelo SPI, aldeias inteiras foram destruídas por doenças pulmonares. Ao causar altamortalidade, o pós-contato iniciava o desequilíbrio das condições de sobrevivência de um povo que já enfrentava doenças endêmicas como vermino- ses e malárias, passando a conviver com a desnutrição, a dificulda- de de produção de alimentos e a falta de cuidados sanitários. O SPI dificilmente conseguia controlar, estabilizar e melhorar a condição sanitária de povos indígenas que enfrentavam surtos epidêmicos. Em campo, no início dos anos 50, o antropólogo Dar- cy Ribeiro foi testemunha da morte de dezenas de índios Urubu Kaapor dizimados por sarampo e coqueluche. Os postos indígenas possuíam alguns medicamentos, mas a maioria de seus encarrega- dos eram leigos em assistência sanitária. Assistência Educacional Dos antigos aldeamentos missionários aos postos indígenas do SPI, a alfabetização de crianças e adultos indígenas visava consoli- dar a sedentarização de um povo. Esse processo pedagógico envol- via cultos cívicos, aprendizado de trabalhos manuais, técnicas da pecuária e novas práticas agrícolas. Pressupunha também novos cuidados corporais, como o uso de vestimentas e o ensino de prá- ticas higiênicas. Os postos indígenas instalavam oficinas mecânicas, engenhos de cana e casas de farinha, treinando os índios em diversos ofícios, além de investir na educação para transformar os índios em traba- lhadores nacionais. Desde o século XIX, crianças indígenas eram en- viadas para as escolas de artífices existentes nas capitais estaduais como ocorreu em Manaus na gestão do SPI. A política de “nacionalização” dos índios esteve presente em quase todos os postos, onde a professora das crianças indígenas era quase sempre a esposa do encarregado, orientando essas crian- ças para a integração à população regional à medida que aceitavam também como alunos os filhos de colonos, dos empregados do pos- to e de fazendas vizinhas. Essas escolas não se diferenciavam das escolas rurais, do método de ensino precário à falta de formação do professor, predominando a formação de índios como produtores rurais voltados para o mercado regional. Assimilacionismo Cultural No dicionário a palavra assimilacionismo recebe a seguinte de- finição: “corrente que preconiza a assimilação de culturas periféri- cas pelas culturas dominantes”11. Por assimilacionismo entendemos que um determinado grupo cultural minoritário num processo de “deculturação” esquecem os traços da sua cultura de origem e, simultaneamente, adquirem os da cultura dominante. Tem como base uma perspectiva ideológica que considera uma cultura superior à outra e supõe um papel passivo das culturas mais fracas: muitas vezes, ao grupo mais fraco exige-se mesmo que adote os traços do grupo dominante. Neste caso, uma das culturas elimina efetivamente a outra (ajustamento por eliminação). Na prática, no entanto, verifica-se que só alguns aspectos da cultura subordinada são eliminados em favor da cultura dominante. Em termos de comunidades migrantes, culturalmente diferen- tes e minoritárias, portanto mais fracas, a forma de reação a esta situação parece depender de duas condições: - primeiro, que haja uma opção clara e vigorosa dos indivíduos candidatos à integração, de se inserirem na sociedade de acolhi- mento; - segundo, que haja uma opção coletiva suficientemente clara e explícita da sociedade de acolhimento para reconhecer a identidade cultural própria e um estatuto de igualdade aos novos integrados. 11 https://bit.ly/2v73uqH REALIDADE BRASILEIRA 267 a solução para o seu concurso! Editora Museu do Índio (anos 1950)12 O Museu do Índio foi criado, em 1953, no Serviço de Proteção aos Índios – SPI, agência do Governo encarregada de dar assistência aos índios no Brasil. No início da década de 60, o Museu foi transferido para o Con- selho Nacional de Proteção aos Índios – CNPI, órgão responsável pelo assessoramento e formulação da política indigenista oficial da época. Em 1967, o Governo militar resolveu reunir o SPI, o CNPI e o Museu em um único órgão, a Fundação Nacional do Índio - FUNAI, onde a instituição está inserida até hoje. Atualmente, o Museu do Índio é uma importante instituição de pesquisa sobre línguas e culturas indígenas. Tem sob sua guar- da documentos relativos à maioria das sociedades indígenas con- temporâneas, constituídos de 15.840 peças etnográficas e 15.121 publicações nacionais e estrangeiras, especializadas em etnologia e áreas afins. Seus diversos Serviços são responsáveis pelo tratamen- to técnico de 76.821 registros audiovisuais e 833.221 documentos textuais de valor histórico e contemporâneo. Sob a direção do antropólogo Darcy Ribeiro, o Museu do Índio foi inaugurado no dia 19 de abril de 1953, no Rio de Janeiro. O prédio já foi residência oficial na época do império e abrigou, entre outras figuras políticas, o marechal Rondon, pioneiro na polí- tica indigenista no País. Em 1865 o imóvel foi doado para abrigar um órgão de pesquisas sobre as culturas indígenas brasileiras. Em 1910, se tornou sede do Serviço de Proteção ao Índio (SPI) e, entre 1953 e 1978, foi sede do Museu do Índio. Em 1978, o museu foi transferido para o bairro de Botafogo, na zona sul. A abertura do Museu do Índio não representou apenas um novo espaço para divulgação da cultura indígena. Ele exibia a te- mática indígena conjugada a um novo estilo museográfico, carac- terizado pela elaboração de um projeto prévio, onde tanto o tema quanto os equipamentos expositivos foram pensados de modo que o resultado agradasse ao usuário. Para tanto o prédio passou por uma reforma, assinada por um arquiteto de renome que criou um novo sistema de iluminação, projetou as vitrines, distribuiu os espaços inserindo nele objetos e fotografias concatenados com o tema. O Museu do Índio abre suas portas atraindo o público devido ao grande apelo visual, abrigando em sua dependência arquivo textual, audiovisual e espaços para di- nâmicas educativas. Provido de uma infraestrutura que conjugava conforto e con- teúdo documental, o Museu do Índio, representado por Ribeiro, se lança como um novo fórum de debates para as políticas indigenis- tas até centrada no Museu Nacional marcadamente pela atuação de Heloisa Alberto Torres. Ribeiro não apenas assina a Certidão de Nascimento do Museu do Índio como é também responsável pelas primeiras coleções etnográficas autorais daquela instituição. O casarão que abriga, atualmente, o Museu do Índio/FUNAI foi tombado como patrimônio de preservação cultural do país em 22 de fevereiro de 1967. Vinte anos depois, a construção também pas- sou a ser considerada patrimônio do município do Rio de Janeiro, pelo decreto 6.934, de 9 de setembro de 1987. 12 LEFEBVRE, H. O direito à cidade. São Paulo: Centauro, 2001. MOREIRA, Ruy. A Nova Divisão Territorial do Trabalho e as Tendências de Configuração do Espaço Brasileiro. In: LIMONAD, Ester; HAESBAERT, Rogério & MOREIRA, Ruy (org.) Brasil Século XXI, por uma nova regionalização. São Paulo: Max Limonad, 2004. A história e trajetória do Museu do Índio é peculiar, por ter sur- gido de um órgão voltado à proteção das populações indígenas, que desenvolveu uma seção de estudos, que não tinha como finalidade a pesquisa acadêmica; e sim pesquisas para dar um respaldo ao SPI. Essas pesquisas acabaram construindo um acervo, que gerou um processo museológico. Desde sua existência o museu esteve vin- culado às pesquisas, salvo alguns momentos em que mudanças na estrutura impediram essa aproximação. Parque Nacional do Xingu (anos 1960) A criação do Parque do Xingu resultou de um longo processo de luta entre instituições do Estado brasileiro e setores da sociedade civil envolvendo o controle territorial e/ou privatização de terras. Sua superfície corresponde a uma pequena parcela da vasta região onde se encontrava presente, já no início do século XX, uma varie- dade significativa de etnias indígenas localizadas na bacia do alto rio Xingu no estado brasileiro de Mato Grosso. A partir dos anos 40 foi sendo sistematizado ocontato entre setores da sociedade nacional, mais precisamente indigenistas com os grupos indígenas. Um posto de assistência do órgão oficial en- carregado da tutela aos grupos indígenas no Brasil - o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) foi criado e instalado no Alto Xingu. Em 1952 foi apresentado ao Congresso Nacional um Antepro- jeto para a criação de um parque nacional na referida região. Neste projeto estava previsto um perímetro bem maior que o atual, in- cluindo uma zona tampão de amortecimento do contato com as frentes de expansão, de proteção às nascentes da bacia hidrográfica e da preservação do meio ambiente imediatamente circunvizinho à região ocupada pela população indígena. Em 1961 foi criado pelo governo federal no alto Xingu o Parque Nacional do Xingu. Em 1973 é, por força do Estatuto do Índio, alte- rado na sua condição jurídica para parque indígena. A lei 6.001 de 1973 em seu artigo 28 define: Parque Indígena é a área contida em terra para posse dos ín- dios, cujo grau de integração permita assistência econômica, edu- cacional e sanitária dos órgãos da União, em que se preservem as reservas de flora e fauna e as belezas naturais da região. O novo status remeteu o Parque do Xingu à subordinação da FUNAI – Fundação Nacional do Índio e, portanto, não mais subor- dinado ao IBAMA - Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, caso permanecesse como parque nacional. Segundo a legislação ambiental brasileira parques nacionais correspondem a áreas geográficas extensas e delimitadas, dotadas de atributos naturais excepcionais, objeto de preservação perma- nente, submetidas à condição de inalienabilidade e indisponibilida- de de seu todo. Considerando-se a configuração do PIX (Parque Indígena do Xingu) em relação ao território mato-grossense constata-se que este se encontra “ilhado”. Isto porque o Parque do Xingu sofre pres- sões constantes sobre sua geografia e população, ao situar-se em meio à ocupação do seu entorno, por grandes fazendas do agro- negócio, pela mobilidade dos trabalhadores rurais e pelas novas cidades. REALIDADE BRASILEIRA 268268 a solução para o seu concurso! Editora Ao longo desses últimos 60 anos, a consolidação do espaço ru- ral e urbano do estado de Mato Grosso resultou na expansão espa- cial da economia para o interior do Brasil, resultando em impactos socioambientais, especialmente para o conjunto de etnias localiza- das no Parque Indígena do Xingu. A ampliação do PIX é atualmente uma das principais reivindi- cações de líderes indígenas endereçadas a FUNAI - Fundação Na- cional do Índio. O parque tem quase 30 mil quilômetros quadra- dos, embora seu território atualmente seja muito menor do que o inicialmente previsto. Nas quatro décadas seguintes a sua criação, incorporou algumas pequenas áreas, porém não suficiente para in- cluir as nascentes da bacia hidrográfica e evitar a pressão do desma- tamento e da progressiva influência do complexo do agronegócio. A leitura do atual mapa de uso e ocupação do Mato Grosso revela a vulnerabilidade do Parque do Xingu e de seus habitantes sobre o entorno ligado ao uso das terras pelo agronegócio. Esta pes- quisa está se iniciando e apresenta uma primeira leitura da análise geográfica sobre o Parque Indígena do Xingu nos tempos atuais. Recentemente uma série de fatos e eventos circunscritos à área de localização e influência da terra indígena está relacionada aos equipamentos do território e à mobilidade da força de traba- lho, fatos estes que se inserem no grande projeto da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IRSA). Consolidando-se como liderança regional, o Brasil passa a investir e coordenar um programa de inte- gração da infraestrutura regional (IRSA) com apoio das instituições multilaterais: BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), BIRD (Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento), CAF (Bando de Desenvolvimento da América Latina) e agências de desenvolvimento europeias, japonesas etc. Tal processo é mutuamente reforçado pelo aumento da inte- gração econômica regional, comercial, financeira e produtiva. E o Parque do Xingu está bem no âmago e no centro destas territoriali- dades. O efeito mais imediato conforme dados que serão apresen- tados é o da urbanização do território. Assim, argumenta-se com base nos dados referentes aos im- pactos socioambientais presentes na atualidade do território indí- gena sobre três condições: - a geografia do território oficial do parque do Xingu; - o significado da transformação de parque nacional em parque indígena; e - os efeitos do processo de urbanização extensiva e da consoli- dação do agronegócio sobre as etnias e seus descendentes localiza- dos no referido território indígena. A ideia de criação do Parque tomou forma numa mesa-redon- da convocada pela Vice-Presidência da República em 1952, da qual resultou um anteprojeto de um Parque muito maior do que o que veio finalmente a se concretizar. A despeito dos poderes legislativo e executivo do Mato Grosso estarem representados nessa mesa-re- donda, inclusive por seu governador, o estado começou a conceder, dentro desse perímetro, terras a companhias colonizadoras. Por isso, quando foi finalmente criado o Parque Nacional do Xingu, pelo Decreto nº 50.455, de 14/04/1961, assinado pelo pre- sidente Jânio Quadros, sua área correspondia a apenas um quarto da superfície inicialmente proposta. O Parque foi regulamentado pelo Decreto nº 51.084, de 31/07/1961; ajustes foram feitos pe- los Decretos nº 63.082, de 6/08/1968, e nº 68.909, de 13/07/1971, tendo sido finalmente feita a demarcação de seu perímetro atual em 1978. Tendo em vista os povos que lá habitam, pode-se dividir o Par- que Indígena do Xingu em três partes: - uma ao norte (conhecida como Baixo Xingu); - uma na região central (o chamado Médio Xingu); e - outra ao sul (o Alto Xingu). Na parte sul ficam os formadores do rio Xingu; a região cen- tral vai do Morená (convergência dos rios Ronuro, Batovi e Kulue- ne, identificada pelos povos do Alto Xingu como local de criação do mundo e início do Rio Xingu) à Ilha Grande; seguindo o curso do Rio Xingu, encontra-se a parte norte do Parque. Na década de 80, tiveram início as primeiras invasões de pes- cadores e caçadores no território do PIX. Ao final dos anos 90, as queimadas em fazendas pecuárias localizadas a nordeste do Parque ameaçavam atingi-lo e o avanço das madeireiras instaladas a oeste começou a chegar perto dos limites físicos definidos pela demar- cação. Ademais, a ocupação do entorno começava a poluir as nascen- tes dos rios que abastecem o Parque e que ficaram fora da área demarcada. Nesse processo, fortaleceu-se entre os moradores do PIX a percepção de que está a caminho um incômodo: o Parque vem sendo cercado pelo processo de ocupação de seu entorno e já se evidencia como uma “ilha” de florestas em meio ao pasto e a monocultura na região do Xingu. A questão da fiscalização do território é presença certa na agenda dos assuntos políticos do Parque, sendo discutida tanto em encontros de lideranças e assembleias da ATIX (Associação Ter- ra Indígena Xingu) como na interlocução com a FUNAI e os órgãos ambientais federal (IBAMA) e estadual (Fundação Estadual do Meio Ambiente - FEAM). Para tanto, foi montada uma infraestrutura dos citados onze postos de vigilância para proteger as áreas que propiciam um aces- so direto ao Parque, como a intersecção dos principais rios com os limites do PIX e o ponto em que a BR-080 margeia esses limites. No entanto, o sistema de postos, por si só, não é suficiente para enfrentar as situações criadas pelo entorno e vem sendo com- plementado por outras ações, desenvolvidas no âmbito do Projeto Fronteiras, uma parceria da ATIX com o ISA (Instituto Socioambien- tal). O projeto compreende o mapeamento da dinâmica de desma- tamentos, através de fotos de satélite, e da identificação in loco de novos vetores de ocupação no entorno do PIX. Também incluium trabalho de capacitação dos Chefes de Postos, a restauração e ma- nutenção dos marcos que estabelecem os limites físicos do territó- rio e um banco de dados georreferenciados de todos os fazendeiros cujas propriedades fazem fronteira com o PIX. Dessa maneira, torna-se possível que os índios acompanhem de perto o que acontece nas fronteiras do Parque e mobiliza as co- munidades acerca das ameaças externas, tanto em discussões in- ter-aldeias, como junto aos órgãos públicos responsáveis (FUNAI, IBAMA e o Governo Estadual). O Indigenismo no Regime Militar (anos 1960 a 1980)13 Após o golpe civil-militar de 1964, um novo período econômi- co se iniciou no Brasil. Construções de grandes obras (hidrelétricas, estradas e desmatamento de áreas para a criação de grandes lati- fúndios para pecuária) se espalharam por todas as regiões do país, 13 Adaptado de http://memoriasdaditadura.org.br/indigenas/ e http://pib.socioam- biental.org/pt/c/politicas-indigenistas/orgao-indigenista-oficial/funai REALIDADE BRASILEIRA 269 a solução para o seu concurso! Editora e no caminho desses projetos inúmeros povos com suas terras, re- conhecidas ou não, passaram a ser tratados como obstáculos para o desenvolvimento. Nas regiões de fronteira agrícola, como a Amazônia e o Centro- -Oeste, as terras indígenas eram invadidas por criadores de gado, madeireiros ou garimpeiros. O Estado tinha pouco controle nessas regiões, e as violências contra os indígenas tinham, frequentemen- te, a conivência das autoridades locais. As políticas indigenistas foram integralmente subordinadas aos planos de defesa nacional, construção de estradas e hidrelétricas, expansão de fazendas e extração de minérios. Sua atuação foi man- tida em plena afinidade com os aparelhos responsáveis por imple- mentar essas políticas: Conselho de Segurança Nacional (CSN), Pla- no de Integração Nacional (PIN), Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM). A ação da FUNAI durante a ditadura foi fortemente marcada pela perspectiva assimilacionista. O Estatuto do Índio (Lei nº 6.001) aprovado em 1973, e ainda vigente, reafirmou as premissas de inte- gração que permearam a história do SPI. Com recursos escassos e mal contabilizados, a FUNAI conti- nuou a operar, assim como o SPI, com profissionais pouco qualifi- cados. Não se concretizou a proposta de se realizar planejamentos antropologicamente orientados, conduzidos por profissionais de formação sólida, bem pagos e comprometidos com o futuro dos po- vos indígenas. O órgão foi permeado, em todos os níveis, por redes de relações pessoais, clientelistas e corporativas, que remetem ao paternalismo e ao voluntarismo que dominaram o velho SPI. Projetos como a construção das hidrelétricas de Itaipu e de Tu- curuí, no Rio Tocantins, e a criação do maior latifúndio do mundo no norte do Mato Grosso, em terra indígena Xavante, expulsaram centenas de comunidades e provocaram milhares de mortes nas aldeias. A abertura da rodovia Transamazônica BR- 230, planejada para cortar o Brasil transversalmente, da fronteira com o Peru até João Pessoa na Paraíba, afetou de maneira trágica 29 grupos indí- genas, dentre eles, 11 etnias que viviam completamente isoladas. Documentos e relatos colhidos durante as investigações recen- tes da Comissão Nacional da Verdade (CNV) apontam que cerca de 8 mil indígenas foram mortos, em conflitos, crises de abastecimen- to ou epidemias trazidas pelos trabalhadores, em consequência da construção de quatro rodovias: - a Transamazônica; - a BR-174, que liga Manaus a Boa Vista; - a BR-210, conhecida com Perimetral Norte; e - a BR 163, que liga Cuiabá a Santarém. Essas estradas faziam parte do Plano de Integração Nacional (PIN), instituído em 1970, pelo presidente Emílio Garrastazu Médici. O PIN previa que 100 quilômetros em cada lado das estradas a se- rem construídas deveriam ser destinados à colonização. A intenção do governo era assentar cerca de 500 mil pessoas em agrovilas que seriam fundadas nesses locais. O processo civilizatório imposto pela ditadura civil-militar in- cluía perseguição, criminalização, prisão e tortura de lideranças in- dígenas que lutavam por seus territórios ou que tivessem compor- tamento considerado inadequado pela FUNAI. Durante a ditadura, as comunidades indígenas encontraram entre os antropólogos, sertanistas e missionários ligados ao Conse- lho Indigenista Missionário (CIMI) seus principais apoiadores para resistir às violências e às ameaças cometidas pelo regime, pelos do- nos de terras e pelos colonos e trabalhadores do garimpo. Os Índios e a Tecnologia14 A população indígena é formada por diferentes povos com hábitos, costumes e línguas distintas. Atualmente o rápido avanço tecnológico tem permitido a aproximação entre os índios que ainda vivem em reservas e o restante da população. O contato com os meios de comunicação, especialmente a televisão, o telefone e a internet, colabora na busca pela adoção de um novo estilo de vida e na perda de antigos valores. Há cerca de quatro anos, foi destaque na imprensa nacional e estrangeira a história de índios suruís que vivem na reserva indíge- na Sete de Setembro, na divisa entre os Estados de Rondônia e Acre, fazendo uso das novas tecnologias para defender a terra na qual eles vivem do desmatamento. Com a ajuda de GPS, eles passaram a monitorar a posição de madeireiros ilegais. Os dados são enviados para autoridades competentes, como Polícia Federal e Fundação Nacional do Índio (FUNAI), para que as providências cabíveis sejam tomadas. Foi quando os arcos e flechas deixaram de ser as únicas ferramentas de defesa do território, e as novas tecnologias passaram a fazer parte do dia a dia de muitas tribos indígenas. A proximidade das comunidades indígenas aos centros urba- nos faz com que os índios acessem os instrumentos disponíveis das tecnologias de informação e comunicação, trazendo esses recursos e os incluindo no seu dia a dia e nas suas relações de sociabilidade. Essas mídias são adaptadas não levando em conta o fazer dessa co- munidade, ou seja, a formação do povo. Muitas crianças e jovens são expostas desde cedo à televisão e à internet, o que pode ser considerado natural para quem vive nas fronteiras culturais. O problema é que grande parte destas crianças só tem acesso às produções culturais do ocidente. O conhecimento produzido pelos povos indígenas, nestes espaços que se constituem com as novas tecnologias, fica do lado de fora. Por outro lado, essas mídias têm servido para dar visibilidade e ‘guardar’ a história e a memória da comunidade indígena, dentro de recursos tecnológicos que atraem o olhar do índio e também que fazem com que os mesmos sintam-se incluídos no mundo, pois a cultura deles também é difundida para a sociedade. Guardadas as devidas proporções, assim como nas outras re- giões do mundo, do Brasil e da Amazônia, as tecnologias invadiram o dia a dia das pessoas, seja pela mera cópia de um CD pirata, seja pelos aparelhos sofisticados que passaram a fazer parte da vida pessoal e profissional dos indivíduos na contemporaneidade. Da mesma maneira, os índios foram atraídos pelos encantos desses aparatos tecnológicos, levado pela proximidade de suas aldeias, as- sim como sua inserção no convívio com as cidades urbanas. 14 CANCLINI, Nestor Garcia. Culturas Híbridas: estratégias para entrar e sair da Modernidade.3ª. Edição. São Paulo: Edusp, 2000. COSTA, Alda Cristina. O embate entre o visível e o invisível: a construção social da violência no jornalismo e na política. 2010. Universidade Federal do Pará, Belém. http://www.videonasaldeias.org.br/2009/. REALIDADE BRASILEIRA 270270 a solução para o seu concurso! Editora Esse contato com as mídias foi incorporado à cultura indígena. Hoje é comum encontrar nas comunidades Indígenas aparelhos de TV, filmadoras, DVDs, rádios, telefones celulares, câmeras e compu- tadores. Algumas populaçõesindígenas passaram a utilizar e consu- mir produtos dessa sociedade informacional. Não que isso seja um crime, pelo contrário, pode representar uma oportunidade de “capturar” as informações, os relatos e socia- lizá-los de vez aos conhecimentos e a cultura indígena não somente para os índios mais jovens, mas com toda a sociedade que desco- nhecem a riqueza dos primeiros habitantes do Brasil. O jovem/adolescente Suruí transita por outros espaços e se constitui também em outras identidades, já que ele pode ser um eleitor, um estudante, pode receber uma bolsa assistencial do go- verno, ter um número de celular, conviver com jovens da sociedade envolvente. Portanto, se essa tecnologia é uma realidade e aden- trou a vida dos índios Suruí, é preciso conciliar sua utilização com as tradições do povo, do mesmo modo que deve ser aplicada como recurso didático na educação, levando em conta a memória e histó- ria do povo indígena. Nem sequer pode-se atribuir aos meios eletrônicos a origem da massificação das culturas populares. Esse equívoco foi apropriado pelos primeiros estudos sobre a comunicação, segundo os quais a cultura massiva substituiria o culto e o popular tradicionais. É interessante destacar que a noção de popular é reforçada nas mídias ainda levando em conta uma lógica de mercado, ou seja, a mídia tem um papel central já que as pessoas necessitam do seu discurso para que possam construir o sentido social da realidade. E não é diferente com a comunidade indígena Suruí que passa compreender como importante ter sua história e tradições serem narradas pelos diversos meios de comunicação. A mídia, neste sen- tido, não é apenas um suporte tecnológico, mas uma instituição responsável por criar uma lógica de mundo, muitas vezes, não mui- ta clara, mas que exerce sentido na vida humana, pois influencia as relações sociais ou até cria novas formas de sociabilidade. Hoje, a imagem midiática começa na primeira idade das crian- ças e vai até o fim da sua vida, ditando as intenções daqueles que trabalham para construir esses sentidos, sejam produtores anôni- mos ou ocultos: no despertar pedagógico da criança, nas escolhas econômicas e profissionais do adolescente, nas escolhas tipológicas (a aparência) de cada pessoa, até nos usos e costumes públicos ou privados, às vezes como “informação”, às vezes velando a ideologia de uma escolha ou persuadindo os comportamentos. As crianças começam a desenvolver algumas lógicas de pensamento a partir de uma programação televisiva. Muitas crianças indígenas, mesmo vivendo com suas famílias, bem cedo são expostas à escola ocidental, à televisão e até mesmo à internet, o que é natural para quem vive nas fronteiras culturais. O problema é que grande parte destas crianças só tem acesso às produções culturais do ocidente. O conhecimento produzido pelos povos indígenas, nestes espaços que se constituem com as novas tecnologias, fica do lado de fora. Ainda que existam sociedades iso- ladas dentro da Amazônia, no Brasil, lembra a antrópologa Ivânia Neves, a maioria dos povos indígenas mantém relações efetivas com a sociedade envolvente. Já estabelecem, portanto, uma fronteira cultural com as insti- tuições ocidentais (igreja, escola, televisão, rádio, secretarias públi- cas, ONGs, entre outras). Nascidas dentro deste cenário, a grande maioria das crianças indígenas vive hoje nestas fronteiras. Histori- camente, o início do contato entre as sociedades indígenas e as ins- tituições ocidentais, além de terem resultado na morte de milhares de índios, quer seja por processos de violência, quer seja por ques- tões de saúde, representa quase sempre uma grande desestrutura- ção política e cultural para estas sociedades. Este contato, no entanto, uma vez realizado estabelece uma nova e irreversível ordem para as sociedades indígenas. Se as ge- rações mais velhas não dominavam a língua portuguesa, hoje, na realidade de muitas sociedades, o que se observa é o fato de que as crianças falam apenas a língua portuguesa. Não podemos perder de vista que existem grupos indígenas que não falam mais uma língua tradicional. Ao se trabalhar a questão da tecnologia deve-se levar em conta que seus avanços produzem transformações na experiência cotidia- na, estabelecendo novas relações de sociabilidade. É interessante destacar que algumas experiências já vêm sen- do realizadas com resultados positivos com relação a inserção dos índios no mundo digital. Desde 1987 vem sendo realizado o projeto denominado Vídeo nas Aldeias, na área de produção audiovisual in- dígena no Brasil, com o objetivo de apoiar as lutas dos povos indíge- nas para fortalecer suas identidades e seus patrimônios territoriais e culturais, por meio de recursos audiovisuais. O uso do vídeo permite que as comunidades indígenas selecio- nem e fortaleçam manifestações culturais que elas desejam tanto conservar para as futuras gerações quanto apresentar como parte de sua identidade. Ele é um instrumento adaptado a formas tra- dicionais de produção e transmissão cultural apoiado na força da palavra e na memória oral. O Vídeo nas Aldeias surgiu como proposta das atividades da ONG Centro de Trabalho Indigenista, como um experimento reali- zado por Vincent Carelli entre os índios Nambiquara, depois abran- gendo outras aldeias brasileiras. Hoje o projeto criou um importan- te acervo com mais de 70 filmes sobre os povos indígenas no Brasil. A utilização das mídias também passa na concepção dos índios como instituições importantes de divulgação de identidades e de visibilidades. É interessante destacar que os indivíduos e as formas de relação entre eles são alimentados pela mídia porque a maior parte dos conhecimentos acerca do mundo, dos modelos de papel, dos valores e dos estilos de comportamento chega à mente humana não pela experiência direta do mundo físico e das relações com os outros, mas cada vez mais pela mediação dos meios de comunica- ção. E diversas questões passam a habitar a mente humana, a partir da discussão por esses meios. Esses meios se tornam fundamentais como suportes de inclusão e exclusão sociais e de controle das coi- sas que acontecem no mundo. Com o surgimento da Internet e seus adventos, o homem se deparou com um espaço que antes era difícil de imaginar: um lu- gar onde pudesse exprimir suas ideias, pensamentos, opiniões, sua vida cotidiana, e ao mesmo tempo, um lugar onde tudo isso poderia ser visto. Dessa maneira, uma perspectiva onde a cultura ocidental ainda se sobrepõe sobre a indígena, é possível hoje utilizar os recursos tecnológicos em benefício da comunidade, pois eles abrem novas possibilidades, principalmente no sentido de que podem servir também para atrair e seduzir o mundo indígena, ou seja, contando a história e memória do povo nos artefatos. Não é possível excluir esses recursos, mas é possível adaptá-los para que sejam utilizados como instrumentos para comunidade, já que eles podem produzir o mundo deles e divulgá-los para sociedade como um todo. REALIDADE BRASILEIRA 271 a solução para o seu concurso! Editora DINÂMICA SOCIAL NO BRASIL: ESTRATIFICAÇÃO, DESI- GUALDADE E EXCLUSÃO SOCIAL Todos sabemos, pela própria experiência do dia-a-dia, que nos- sa sociedade apresenta contradições: e desigualdades. Nas grandes cidades por exemplo, ao lado de mansões luxuosas encontramos favelas e pessoas morando embaixo de viadutos. Vivemos, portanto, em uma sociedade profundamente desi- gual. Se quisermos fazer uma descrição desse tipo de sociedade, podemos trabalhar com o conceito de estratificação social. Mas se nosso objetivo for analisar historicamente os conflitos entre os di- versos grupos que a compõem, devemos recorrer ao conceito de classes sociais. Seja qual for o método escolhido, é preciso levar em conta tam- bém que alguns indivíduos ou mesmo grupos de pessoas podem mudar de posição social. Para estudar esses casos utilizamos o con- ceito de mobilidade Social Estratificação social A expressão estratificaçãoderiva de estrato, que quer dizer ca- mada. Por estratificação social entende-se a distribuição de indiví- duos e grupos em camadas hierarquicamente superpostas dentro de uma sociedade. Essa distribuição se dá pela posição social dos indivíduos, das atividades que eles exercem e dos papéis que de- sempenham na estrutura social. Na sociedade capitalista contemporânea, as posições sociais são determinadas basicamente pela situação dos indivíduos no de- sempenho de suas atividades produtivas (capitalistas X proletários). Contudo, nessa mesma sociedade os indivíduos podem de- sempenhar outros papéis e alcançar novas posições sociais como na religião que praticam, o partido político em que militam, as fun- ções sociais que desempenham, a profissão que exercem (médico x pedreiro). Principais tipos de Estratificação Social 1. Estratificação política. Estabelecida pela posição de mando na sociedade (grupos que têm poder e grupos que não têm). 2. Estratificação profissional. Baseada nos diferentes graus de importância atribuídos a cada profissional pela sociedade. P.E., em nossa sociedade a profissão de médico é muito mais valorizada que a de pedreiro, motorista. 3. Estratificação econômica. É definida pela posse de bens ma- teriais, cuja distribuição pouco equitativa faz com que haja pessoas ricas, pobres e em situação intermediária. Estratificação Econômica de uma Sociedade Capitalista Dependendo do tipo de sociedade, esses estratos podem ser organizados em: • Castas • Estamentos • Classes sociais. Tipos de Sociedades Estratificadas Castas Sociais: Existem sociedades em que os indivíduos nascem numa cama- da social mais baixa e podem alcançar, com o decorrer do tempo, uma posição social mais elevada. Esse fenômeno conhecido como mobilidade social. Em contrapartida, existem sociedades em que, mesmo usando toda a sua capacidade e empregando todos os esforços, o indivíduo não consegue alcançar uma posição social mais elevada. Nesses ca- sos, a posição social lhe atribuída por ocasião do nascimento, inde- pendentemente de sua vontade. Ele carrega consigo, pelo resto da vida, a posição social herdada. A sociedade indiana é estratificada dessa maneira. Há séculos, a população da Índia está distribuída em um sistema de estratifica- ção social rígido e fechado, que não oferece a menor possibilidade de mobilidade social. É o sistema de castas Enquanto nas sociedades ocidentais pessoas de níveis sociais diferentes podem se casar - o que não raro possibilita a ascensão social de um dos cônjuges -, na Índia o casamento só é permitido entre pessoas da mesma casta. As castas são grupos sociais fechados, cujos membros seguem rigorosamente as tradições familiares. Um indivíduo nascido em determinada casta deve permanecer nela pelo resto da vida. Sua posição social é definida ao nascer. Além de direitos e deveres es- pecíficos, as pessoas não podem ascender socialmente mediante qualidades pessoais, mérito ou realizações profissionais. Pode-se esquematizar a estratificação social indiana por meio da seguinte pirâmide de castas: No topo da pirâmide estão os brâmanes, que são os sacerdotes e os mestres da erudição sacra. Segundo sua crença, a eles compete preservar a ordem social, estabelecida por orientação divina. A seguir, distribuídos pela segunda casta, vem os Xátrias guer- reiros que formam a aristocracia militar. A terceira grande casta – a dos vaixas - é formada pelos comer- ciantes, artesãos e camponeses. Os sudras, por sua vez, executam os trabalhos manuais e di- versas tarefas servis. São uma casta depreciada, tendo o dever de servir as três castas superiores. Na base da pirâmide social ficam os parias, grupo de miserá- veis, desprovidos de direitos e sem profissão definida. Totalmente desprezados pelas demais castas, vivem da caridade alheia. Os pa- rias não podem banhar-se nas águas sagradas do rio Ganges (o que é permitido as outras castas), nem ler os Vedas, que são os livros sagrados dos hindus. Embora o sistema de castas tenha sido abolido oficialmente em 1947, quando a Índia conquistou a independência sob a liderança de Mahatma Gandhi, basta percorrer o pais para constatar que, na prática, o antigo regime sobrevive. Os indianos das castas superio- res não aceitam perder seus privilégios, e os membros das castas inferiores e os “sem castas” continuam sendo excluídos, rejeitados, privados de educação formal e de outras oportunidades. Cabem a eles as piores tarefas, como limpar fossas e lavar ca- dáveres. Na segunda metade do século XX, reformas sociais e mudanças na economia da Índia, impulsionadas pela industrialização, começa- ram a romper o sistema de divisão em castas. REALIDADE BRASILEIRA 272272 a solução para o seu concurso! Editora Assim, nos grandes centros urbanos do pais, como Nova Delhi, Bombaim e Calcutá, a abolição do sistema vem ocorrendo grada- tivamente. Entretanto, ele ainda perdura na maior parte da Índia rural. Estamentos ou Estados Um exemplo típico de sociedade estratificada em estamentos pode ser encontrado na Europa ocidental durante a Idade Média (476-1453), sob a vigência do modo de produção feudal. Estamento ou estado e uma camada social semelhante a casta, porém um pouco mais aberta. Na sociedade estamental, a mobili- dade social é difícil mas não impossível, como na sociedade estra- tificada em castas. Na sociedade feudal, a ascensão era possível nos raros casos em que a Igreja recrutava seus membros entre os mais pobres; quando os servos eram emancipados por seus senhores; no caso de o rei conferir um título de nobreza a um homem do povo; ou, ainda, se a filha de um rico comerciante se casasse com um nobre, tornando-se, assim, membro da aristocracia. A pirâmide social da sociedade estamental durante o feudalis- mo europeu apresentava-se da seguinte maneira: No vértice da pirâmide encontravam-se nobreza e no alto clero. Eram os donos da terra da qual obtinham renda explorando o traba- lho dos servos. Os nobres dedicavam-se à guerra à caca, cuidavam da administração do feudo e exerciam o poder judiciário em seus feudos. O alto clero (cardeais, arcebispos, bispos, abades) era uma elite eclesiástica e intelectual. Seus membros vinham da nobreza. Constituíam também a úni- ca camada letrada na primeira a fase do período medieval, desem- penhando importantes funções administrativas. Abaixo da camada dos nobres, encontravam-se os comercian- tes. Embora ricos, muitas vezes eles não tinham os mesmos privilé- gios da nobreza. Além disso, suas atividades sofriam uma série de restrições legais. Tais restrições foram desaparecendo à medida que o feudalismo entrou em declínio. Mais abaixo estavam os artesãos, os camponeses livres e o baixo clero. Os artesãos viviam nas cidades, reunidos em associa- ções profissionais, as corporações de ofício; os camponeses livres trabalhavam a terra e vendiam seus produtos agrícolas nas vilas e cidades; o baixo clero, originário da população pobre, convivia com os pobres, com o povo, prestando-lhe assistência religiosa Abaixo de todos estavam os servos, que trabalhavam a terra para si e para seus senhores, vivendo em condições precárias; esta- vam ligados à terra, passando a ter novo se quando a terra mudava de dono. A divisão da estrutura social em estamentos - tipo intermediá- rio entre a casta e a classe – era encontrada na Europa até fins do século XVIII. Classe Social Desenvolvido pelo pensador alemão Karl Marx, o conceito de classe social parte de premissas próprias, segue critérios específicos e sua aplicação leva a conclusões totalmente diferentes das que po- dem ser encontradas nos estudos que analisam a sociedade segun- do o modelo descritivo da estratificação social. Para Marx, a história da humanidade é “a história da luta de classes”. Segundo ele, portanto, a classe social é acima de tudo uma categoria histórica. Quando Marx se refere as duas grandes clas- ses do capitalismo - a burguesia e o proletariado -,está designando duas forças motrizes e concretas do modo de produção capitalista, um sistema econ6mico historicamente determinado. O próprio Marx, no entanto, não reivindicava a descoberta das classes sociais nem da luta de classes, mas sim a “demonstração de que a existência das classes só se liga a determinadas fases histó- ricas de desenvolvimento da produção”. Marx atribula uma impor- tância particular aos conflitos entre as classes. Para ele, são esses conflitos que constituem o principal fator de mudança social. Esses movimentos, portanto, imprimiriam movimento e dinamismo à so- ciedade. Por outro lado, as classes sociais mudam ao longo do tempo, conforme as circunstâncias econômicas, políticas e sociais. As con- tradições que mantêm entre si forjam e estruturam a própria socie- dade. Quando os conflitos chegam a um ponto insuportável, ocorre uma revolução que transforma a sociedade, modificando o modo de produção. Foi o que aconteceu, com o feudalismo: uma nova classe (a burguesia) derrubou um velho estamento (a nobreza), gerando a sociedade capitalista. A Revolução Francesa de 1789 foi uma das expressões dessa transformação. Mas a nova sociedade capitalista, na concepção de Marx, já co- meçou dividida em duas grandes classes conflitantes: a burguesia (proprietária dos meios de produção) e o proletariado, ou classe operária, que só tem de seu a torça de trabalho. Essa divisão baseada no regime de propriedade faz com que uma classe seja dominante, e a outra, dominada, numa relação sis- temática de dominação e exploração. Assim, a teoria das classes não se limita a descrever as divisões da sociedade em camadas, como faz o modelo da estratificação so- cial, mas procura explicar como e por que elas ocorrem historica- mente. As classes sociais só existem a partir da relação que estabe- lecem entre si. Nesse sentido, as classes são, além de antagônicas, necessariamente complementares. A burguesia, por exemplo, não pode existir sem o proletariado. Complementares, porque são elas que fazem funcionar o sis- tema. Antagônicas, porque uma delas (a burguesia) se apropria do trabalho da outra (o proletariado), o que gera o conflito permanen- te. As classes médias Entre a burguesia e o proletariado existem outros grupos que se movem entre as duas classes fundamentais, oscilando de uma para a outra. Alguns desses grupos são denominados genericamen- te de classes medias, ou pequena burguesia. A pequena burguesia constitui um setor muito numeroso, que abrange desde a dona de um pequeno armazém até os pequenos e médios proprietários de terra, passando por todos os assalariados que trabalham em escritórios, funcionários públicos e profissionais liberais. Ao contrário da burguesia e do proletariado, que atuam dire- tamente na produção social entre as classes médias misturam-se múltiplos papeis. Não se trata, portanto, de uma classe política e socialmente homogênea. Segundo Karl Marx, essa heterogeneidade das classes médias explica por que, nos conflitos sociais e políticos, elas oscilam tanto, ora apoiando os interesses da grande burguesia, ora apoiando os interesses dos trabalhadores. REALIDADE BRASILEIRA 273 a solução para o seu concurso! Editora Mobilidade Social Em maio de 1953, Lourenço Carvalho de Oliveira, nascido na pequena aldeia de Vigia, no norte de Portugal, desembarcou no porto de Santos, no litoral de São Paulo, depois de onze dias de viagem na terceira classe do transatlântico Vera Cruz. Em sua terra, deixara a mulher e três filhos pequenos vivendo graças à solidariedade de parentes e vizinhos. Foi morar de favor na casa de um primo e arrumou emprego como ajudante num bar. Economizou muito, mandou buscar a famí- lia e conseguiu, depois de anos de trabalho e privações, abrir uma pequena venda em sociedade com um amigo. O negócio foi crescendo: primeiro uma mercearia, depois um mercado, a seguir um supermercado. Em 1988, 35 anos depois de chegar ao Brasil, o Sr. Lourenço era dono de uma grande rede de supermercados, tendo se tornado um dos mais influentes membros da Associação Comercial de São Paulo. Seus filhos têm curso supe- rior e um deles é professor na Universidade de São Paulo. Essa história de vida mostra que os indivíduos, numa sociedade capitalista, podem chegar a ocupar diferentes posições sociais - ou estratos - durante a vida. É possível que alguns deles, que integram o estrato de baixa renda (camada C), passem a integrar o de renda média (camada B) ou mesmo o de renda alta (camada A). Por outro lado, alguns indivíduos da camada A podem ter sua renda diminuída, passando a integrar as camadas B ou C. Do ponto de vista sociológico, os dois fenômenos são caracterizados como manifestações de mobilidade social. Mobilidade social é a mudança de posição social de uma pes- soa (ou grupo de pessoas) num determinado sistema de estratifi- cação social. Tipos de Mobilidade Social Quando as mudanças de posição social ocorrem no sentido as- cendente ou descendente na hierarquia social, dizemos que a mo- bilidade social é vertical. Quando a mudança de uma posição social a outra se opera dentro da mesma camada social, diz-se que houve mobilidade social horizontal. Mobilidade Social Vertical A mobilidade social vertical pode ser: - ascendente ou de ascensão social - quando a pessoa melhora sua posição no sistema de estratificação social, passando a integrar um grupo economicamente superior a seu grupo anterior; - descendente ou de queda social- quando a pessoa piora de posição no sistema de estratificação, passando a integrar um grupo economicamente inferior. O filho de um operário que, por meio do estudo, passa a fazer parte da classe média é um exemplo de ascensão social. A falência e o consequente empobrecimento de um comerciante, em contra- partida, é um exemplo de queda social. Assim, tanto a subida quanto a descida na hierarquia social são manifestações de mobilidade social vertical. Em uma sociedade aberta e democrática, é comum pessoas de um grupo social passarem para outro grupo, mais ou menos eleva- do na escala social. A esse fenômeno, que tanto pode ser ascendente como des- cendente, dá-se o nome de mobilidade social. No Brasil, a chegada do ex-metalurgico Luiz lnácio Lula da Silva à Presidência da República, em janeiro de 2003, é expressão dessa mobilidade. Com ele, passaram a integrar o governo diversas pes- soas provenientes das camadas mais baixas da sociedade. É o caso, por exemplo, de Marina Silva, ministra do Meio Ambiente, que foi seringueira no Acre e só pode estudar a partir dos 17 anos. Mobilidade Social Horizontal Uma pessoa se muda do interior para a capital. No interior, ela defendia ideias políticas conservadoras; agora, na capital, sob novas influências, passa a defender as ideias de um partido progressis- ta. Seu nível de renda, porém, não se alterou substancialmente. A situação mostra uma pessoa que experimentou alguma mudança de posição social mas que, apesar disso, permaneceu no mesmo estrato social. Assim, a mudança de uma posição social dentro da mesma ca- mada social caracteriza-se como mobilidade social horizontal. Democracia e Mobilidade Social O fenômeno da mobilidade social varia de uma sociedade para outra. Em algumas sociedades ela ocorre mais facilmente; em ou- tras, praticamente inexiste no sentido vertical ascendente. É mais fácil ascender socialmente nos Estados Unidos, por exemplo, do que no interior da índia, ainda dominado pela estratificação social em castas. A mobilidade social ascendente é mais frequente numa socie- dade democrática aberta, que enaltece a escalada rumo ao topo de indivíduos de origem humilde - como nos Estados Unidos -, do que numa sociedade de tradição aristocrática, como a Inglaterra. Entretanto, é bom esclarecer que, mesmo numa sociedade capitalista mais aberta, a mobilidade social vertical não se dá de maneira igual para todos os indivíduos. A ascensão social depende muito da origemde classe de cada indivíduo. Alguém que nasce e vive numa camada social elevada tem mais oportunidades e condições de se manter nesse nível, ascender ain- da mais e se sair melhor do que os originários das classes inferiores. Isso pode ser facilmente verificado no caso dos jovens que pre- tendem fazer o curso superior. Aqueles que, desde o início de sua vida escolar, frequentaram boas escolas e, além disso, estudaram em cursinhos preparatórios de boa qualidade, têm mais possibili- dades de aprovação nos vestibulares das universidades públicas e privadas do que os jovens provenientes das classes de baixa renda. Mobilidade Social no Brasil A chance de uma criança de baixa renda de ter um futuro me- lhor que a realidade em que nasceu está, em maior ou menor grau, relacionada à escolaridade e ao nível de renda de seus pais. Nos países ricos, o “elevador social” anda mais rápido. Nos emergentes, mais devagar - no Brasil, ainda mais lentamente. O país ocupa a segunda pior posição em um estudo sobre mo- bilidade social feito pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) com dados de 30 países15. De acordo com o estudo o elevador social está quebrado. Para promover mobilidade social, seriam necessárias nove gerações para que os descendentes de um brasileiro entre os 10% mais pobres 15 Camila Veras Mota. Brasil é o segundo pior em mobilidade social em ranking de 30 países. Instituto Humanitas Unisinos. http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/ 579960-brasil-e-o-segundo-pior-em-mobilidade-social-em-ranking-de-30-paises. REALIDADE BRASILEIRA 274274 a solução para o seu concurso! Editora atingissem o nível médio de rendimento do país. A estimativa é a mesma para a África do Sul e só perde para a Colômbia, onde o período de ascensão levaria 11 gerações. O indicador da OCDE foi construído levando em consideração a “elasticidade intergeracional de renda”. Ou seja, quanto o nível de rendimento dos filhos é determinado pelo dos pais. A instituição ressalta no estudo que a simulação tem finalidade ilustrativa - para dar dimensão da dificuldade de ascensão social - e que não deve ser interpretada como o tempo preciso para que um domicílio de baixa renda atinja a renda média. Na média entre os países membros da OCDE, a chamada “per- sistência” da renda intergeracional é de 40%. Isso significa que, se uma família tem rendimento duas vezes maior o que de outra, o filho terá, em média, renda 40% mais alta que a da criança que veio da família de menor renda. Nos países nórdicos, a persistência é de 20%. No Brasil, de 70%, conforme a pesquisa. Mais de um terço daqueles que nascem entre os 20% mais po- bres no Brasil permanece na base da pirâmide, enquanto apenas 7% consegue chegar aos 20% mais ricos. Na média da OCDE, 31% dos filhos que crescem entre 20% mais pobres permanecem nesse grupo e 17% ascendem ao topo da pirâmide. Pai Pobre, Filho Pobre Isso é o que o estudo chama de “chão pegajoso” (sticky floor): a dificuldade das famílias de baixa renda de sair da pobreza. Filhos de pais na base da pirâmide têm dificuldade de acesso à saúde e maior probabilidade de frequentar uma escola com ensino de baixa qualidade. A educação precária, em geral, limita as opções para esses jovens no mercado de trabalho. Sobram-lhes empregos de baixa remuneração, em que a possibilidade de crescimento salarial para quem tem pouca qualificação é pequena - e a chance de perpetua- ção do ciclo de pobreza, grande. Nesse sentido, a desigualdade social e de renda, destaca o le- vantamento, é definidora do acesso às oportunidades que podem fazer com que alguém consiga ascender socialmente. “Além do chão pegajoso, países como o Brasil têm também te- tos pegajosos (sticky ceilings)”, acrescenta Stefano Scarpetta, dire- tor de emprego, trabalho e assuntos sociais da OCDE, referindo-se às famílias de alta renda. O nível elevado de desigualdade também se manifesta sobre a mobilidade no topo da pirâmide. Aqui, é pequena a probabilidade de que as crianças mais abastadas eventualmente se tornem adul- tos de classes sociais mais baixas que a dos pais. Scarpetta pondera que, ao contrário da tendência global de aumento da desigualdade, o Brasil conseguiu reduzir suas dispari- dades na última década, até o início da recessão. O país fez pouco, entretanto, para corrigir os problemas estruturais que mantêm em movimento o ciclo da pobreza - a qualidade precária da educação e da saúde e a falta de treinamento para os milhões de trabalhadores de baixa qualificação. “O Brasil fez um bom trabalho tirando milhões de famílias da extrema pobreza, com o Bolsa Família, por exemplo. Falta agora fazer a ‘segunda geração’ de políticas”, disse o economista à BBC News Brasil. Classe Média Quando se analisa a mobilidade apenas do indivíduo, e não de uma geração a outra, o estudo da OCDE verifica que, de forma geral, a classe média é o estamento com maior flexibilidade - para cima e para baixo. No Brasil, a mobilidade da base da pirâmide para a classe mé- dia é maior do que em vários emergentes. Essa ascensão, contudo, é frágil. A estrutura do mercado de trabalho, com uma participação ele- vada do emprego informal, intensifica os efeitos negativos das cri- ses sobre a população mais vulnerável. Como aconteceu com parte da “nova classe média” durante a última recessão, o desemprego pode ser um caminho de retorno à pobreza. Mobilidade Social e Crescimento Econômico O nível baixo de mobilidade social tem implicações negativas sobre o crescimento da economia como um todo, diz o estudo da OCDE. Talentos em potencial podem ser perdidos ou subaprovei- tados, com menos iniciativas na área de negócios e menos inves- timentos. “Isso debilita a produtividade e crescimento econômico poten- cial em nível nacional”, ressalta o texto. Um elevador social “quebrado” também se manifesta sobre o bem-estar social. A percepção de que a oportunidade de ascensão depende de fatores que estão fora do alcance - como a renda dos pais ou o aces- so a educação - gera desesperança e sentimento de exclusão. Isso aumenta a probabilidade de conflitos sociais, diz a pesquisa. Tendência Global O problema não é exclusivo dos países emergentes. Mesmo países ricos, com desempenho expressivamente superiores ao do Brasil nos indicadores de educação - França, Alemanha - estão aci- ma da média da OCDE entre as estimativas do número de gerações necessário para que os 10% mais pobres atinjam a renda média. “Por mais que esses países tenham bom desempenho no PISA (avaliação global do desempenho escolar), esses índices são uma média. Países como a França, por exemplo, são bastante heterogê- neos”, ressalta Scarpetta. MANIFESTAÇÕES CULTURAIS, MOVIMENTOS SOCIAIS E GARANTIA DE DIRETOS DAS MINORIAS — Contracultura Nos Estados Unidos e nos países da Europa Ocidental, entre as décadas de 1950 e 1960, muitos jovens passaram a criticar os mo- dos de vida tradicionais e a criar novos estilos de vida e de relações sociais. Esse conjunto de contestações da juventude daquela época ficou conhecido como contracultura16. O movimento da contracultura começou nos EUA, quando uma geração de intelectuais e poetas dos anos 1950 - a beat generation - passou a criticar os valores conservadores da sociedade estaduni- dense. Eles negavam o individualismo e o consumismo do chamado american way ofl ife. Allen Ginsberg, William Burroughs e Jack Ke- rouac são os nomes mais conhecidos desse movimento. 16 História. Ensino Médio. Ronaldo Vainfas [et al.] 3ª edição. São Paulo. Saraiva. REALIDADE BRASILEIRA 275 a solução para o seu concurso! Editora O último escreveu um livro bastante divulgado, On the road, de 1957 - que no Brasil foi lançado como Pé na estrada. Na década de 1960, a contracultura continuou a expressar a rebeldia de jo- vens das classes médias contra o consumismo, a cultura de massa, a sociedade industrial e a padronização dos comportamentos. Eles também se mostravam insatisfeitos com oautoritarismo de seus pais e dos governantes. Estudantes e intelectuais passaram a incorporar reivindicações de grupos considerados minoritários, como os negros, os homos- sexuais e as mulheres - todos em busca de seus direitos. Grande número de jovens se engajou no movimento hippie. Usando roupas largas e coloridas e cabelos compridos e sem corte, os hippies recu- savam a sociedade industrial, massificante e de consumo. Eles valorizavam o indivíduo, as ideias de paz, amor e liberda- de e a vida comunitária. “Paz e amor” era o lema deles. Pacifistas, eram contra a guerra e a violência e protestavam distribuindo flo- res. Em geral, defendiam o amor livre, rejeitando o casamento mo- nogâmico tradicional. Muitos não estudavam nem tinham emprego, viviam em co- munidades onde comiam o que plantavam e produziam artesanato para vender. Alguns se aproximaram das religiões orientais. — 1968 O auge do movimento da contracultura foi em 1968. Protes- tos de jovens e trabalhadores ocorreram nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina. Muitos estavam entusiasmados com a Revolução Cubana (1959), a Independência da Argélia (1962) e a Revolução Cultural na China (1966). Com o desejo de mudar o mundo, jovens de vários países pas- saram a recusar o consumismo capitalista e o modelo de socialismo soviético. Nos EUA, milhões de jovens protestaram contra a Guerra do Vietnã. Nas universidades, os estudantes organizaram protestos; fora delas, os hippies também defendiam o fim do conflito. Na Europa, o movimento de rebeldia mais conhecido foi o que aconteceu na França e ficou conhecido como Maio de 1968. Em 22 de março, estudantes ocuparam a Universidade de Nanterre para protestar contra a prisão de alguns colegas. Depois, tomaram o Quartier Latin, famoso bairro universitário em Paris, erigindo bar- ricadas. Em 13 de maio, as centrais sindicais comunista e socialista declararam greve. Trabalhadores e estudantes uniram-se a elas, organizando um comando operário-estudantil. Em 20 de maio, 10 milhões de traba- lhadores estavam em greve. Para contornar a situação, o governo Charles de Gaulle convocou eleições, nas quais os chamados gaul- listas saíram vitoriosos. De Gaulle acionou a polícia para recuperar fábricas e universidades que haviam sido tomadas pelos revoltosos, perseguiu e prendeu líderes estudantis. A partir daí, o movimento de Maio de 1968 recuou. Os protes- tos estudantis e operários de 1968 também ocorreram no Brasil, no México, na Polônia, na Iugoslávia e na Tchecoslováquia. A repressão pôs fim à mobilização em toda parte. — Conquista dos Direitos Civis Até meados dos anos 1950, vigorou a segregação racial contra os negros nos estados do sul dos EUA. Havia escolas para brancos e escolas para negros, restaurantes e bares para brancos e restauran- tes e bares para negros, banheiros públicos para brancos e banhei- ros públicos para negros. Nos ônibus e nas praças públicas, havia assentos reservados para os brancos e para os negros. Em alguns estados sulistas, os negros encontravam dificulda- des para exercer seus direitos políticos. Em 1954, a Suprema Corte dos EUA reconheceu que as escolas públicas para brancos recebiam mais recursos dos governos estaduais, e ofereciam um ensino de melhor qualidade do que as escolas para negros. Os juízes, então, declararam a inconstitucionalidade da segregação racial nas esco- las: todas as crianças, brancas ou negras, podiam frequentar qual- quer escola. Naquele ano, o negro Martin Luther King foi nomeado pastor de uma igreja batista em Montgomery, no estado do Alabama. Em seu curso de pós-graduação, ele defendera uma tese sobre o mo- vimento de resistência pacífica liderado por Mahatma Gandhi, na Índia. Ele já tinha se tornado o maior defensor dos direitos da po- pulação negra quando, em 1955, uma mulher negra, Rosa Parks, foi presa em um ônibus. Rosa estava sentada e, pelas leis segregacio- nistas, deveria ceder seu lugar a um passageiro branco. Ela se negou a fazê-lo e acabou detida pela polícia. Luther King, em represália, organizou um boicote da população negra aos trans- portes urbanos em Montgomery. Foi preso e sua casa, atacada. A Suprema Corte declarou, então, a inconstitucionalidade da segre- gação racial nos transportes públicos de todo o país. Foi um avanço na luta contra a discriminação. Em resposta à resistência da população negra, a organização racista Ku Klux Klan empregou táticas de terror. Mas o movimento contra a discriminação prosseguiu firme. Recorrendo à resistência pacífica, no início de 1963, Luther King liderou grandes protestos dos negros por seus direitos civis. Em 1964, Luther King foi vence- dor do Prêmio Nobel da Paz. Em abril de 1968, ele foi assassinado a tiros. A luta dos negros estadunidenses continuou e resultou no re- conhecimento de seus direitos civis e na abolição da discriminação em todos os estados do país. — Malcolm X e os panteras negras Apesar de bem-sucedido na sua estratégia de luta, a lideran- ça de King começou a ser contestada por setores mais radicais do movimento negro, sobretudo sua proposta de integração e convívio pacífico com os brancos. Outras lideranças surgiram, como Malcolm X. Filho de família pobre, tornou-se líder de um templo muçulmano em Detroit e passou a pregar a dignidade dos negros. Era contra a estratégia da resistência pacífica. Em fevereiro de 1965, foi assas- sinado. Na segunda metade dos anos 1960, setores do movimento ne- gro aderiram a propostas ainda mais radicais. Entre elas estava a do Partido Pantera Negra para Autodefesa, fundado no final de 1966 em Oakland, na Califórnia. Sua maneira de luta era muito diferente da liderada por Luther King ou Malcolm X. Os panteras negras não se amparavam na religião. Declaravam- -se marxistas e maoistas e recorriam à violência em confrontos ar- mados com a polícia. Foram duramente reprimidos e a maioria de seus líderes, presa. O movimento desapareceu nos anos 1980. — O Movimento Feminista Nos anos 1960, não eram apenas os negros estadunidenses que lutavam por direitos civis. As mulheres também reivindicavam igualdade perante os homens. Em 1963, elas constituíam 51% da população e um terço da força de trabalho. Mas ganhavam menos, inclusive quando exerciam um trabalho igual ou ocupavam o mes- mo cargo que um homem. REALIDADE BRASILEIRA 276276 a solução para o seu concurso! Editora Algumas funções pareciam impossíveis de serem ocupadas por uma mulher, em particular cargos de gerência e direção. As mulhe- res, além disso, eram minoria nos cursos superiores de graduação e pós-graduação. Apesar das conquistas no campo político, em es- pecial o direito de voto, obtido em 1918, o movimento feminista perdeu o ímpeto a partir da década de 1920. O renascimento ocorreu nos anos 1960. Em 1963, a ativista Betty Friedan publicou o livro The feminine mystique (A mística feminina), em que atacava as ideias que reservavam para a mu- lher apenas o papel de dona de casa e mãe. As feministas foram hostilizadas, insultadas e ridicularizadas. Muitos alegavam que a igualdade entre os sexos destruiria a instituição do casamento e da família. Mas o movimento feminista enfrentou todos os obstáculos com sucesso. Em 1964, a legislação federal proibiu qualquer discriminação no trabalho por motivo de raça e também de sexo. Nos anos seguin- tes, uma série de leis garantiu às mulheres direitos civis e a igual- dade perante os homens, a exemplo da criminalização do assédio sexual no trabalho e da abertura da carreira militar para elas. O movimento se expandiu por diversas partes do mundo, resul- tando em campanhas e leis específicas contra a violência doméstica e a favor da equiparação das mulheres aos homens no tocante aos direitos civis. Características • Política fundamentada na profunda centralização de poder e no autoritarismo • Controle da nação por meio dos Atos Institucionais, dispositi- vos contrários à Constituição Federal • Intervenção estatal na economia,com desenvolvimento eco- nômico nos padrões capitalista e tecnoburocrático, com dependên- cia monetária internacional • Princípios da Escola Monetarista (Industrialização Excluden- te) • Modernização da infraestrutura (transporte, comunicação, energia e saneamento) • Ampliação da linha de crédito para classes média e média- -alta Movimentos sociais • Movimento Sindical: ressurgiu a partir de 1974, confrontan- do a ditadura de forma mais direta e caracterizando o fim dos anos 1970 como uma intensa onda de greves, que sofreram fortes re- pressões. • Vanguarda Popular Revolucionária (VPR): movimento de guerrilha formado por militares dissidentes, criado em 1966, con- trário à postura do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e à sua inope- rância diante ao Golpe de 1964. • Movimentos das comunidades eclesiais de base: articulados pela Igreja Católica, especialmente pelos adeptos à Teologia da Li- bertação, esses grupos denunciavam episódios de prisões políticas e torturas, reivindicando direitos humanos mínimos. • Associações de moradores: esses grupos se multiplicavam no período do regime militar, com o objetivo de lutar por melhores condições de vida, principalmente em relação à saúde, educação e saneamento. • Movimento sanitarista: naquele sistema, a saúde pública es- tava limitada a poucos e respaldada no Instituto Nacional de Assis- tência Médica da Previdência Social (INAMPS), fundado em 1974, para dar assistência apenas aos trabalhadores das zonas urbanas e que possuíam registro em carteira, ou seja, previdenciários. • Movimento estudantil: Impulsionados pela Reforma Univer- sitária de 1968 e pelo Decreto no 477, que suspendeu quaisquer manifestações estudantis, e, ainda pelo Ato Institucional n. 5 (AI5), os estudantes se encarregaram da principal atuação no enfrenta- mento à ditadura. A União dos Estudantes (UNE) teve papel funda- mental nesse movimento. DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO, CONCENTRAÇÃO DA RENDA E RIQUEZA O Estado na década de 197017 A década de 1970 foi marcada por uma intensa participação do Estado na economia em todo o mundo, especialmente no Bra- sil. Isso se deu, em grande parte, em virtude de empresas públicas oferecerem infraestrutura para o setor privado. O Estado brasileiro durante 50 anos (1930–1970) criou e absorveu empresas do setor privado por vários motivos, como nacionalismo econômico, socor- ro a empresas privadas, recursos insuficientes por parte do setor privado em setores estratégicos da economia nacional e riscos ele- vados em investimentos de infraestrutura com grandes períodos de maturação. Martins (1985) aponta que a participação do Estado brasileiro na economia durante a década de 1970 foi caracterizada por um movimento de forças centrípetas – de concentração de recursos no governo federal – e de forças centrífugas – de disseminação de agências e empresas independentes e relativamente autônomas para a alocação dos recursos supramencionados. Conforme o autor, somente de 1971 a 1976 foram criadas 131 empresas estatais, sen- do 67 pela União, 59 pelos estados e 5 pelos municípios. Havia cerca de 300 empresas estatais, somente no âmbito fe- deral, em 1979. Essas empresas variavam desde bancos até siderúr- gicas, empresas de petróleo, hotéis e outros setores. Segundo Pêgo Filho et al. (1999), entre 1970 e 1981, a poupança bruta do setor produtivo estatal federal correspondeu a 3,68% do PIB, em média, representando 18,68% de toda a poupança bruta do setor privado. Além disso, a década de 1970 caracterizou-se como um perío- do de déficit público elevado para o equilíbrio macroeconômico e de níveis de inflação acima do que seria desejado. Ademais, o ex- pansionismo estatal levou a grandes projetos de infraestrutura sob a responsabilidade do Estado, o que exigiu montantes de capital para sua implementação. A partir da primeira e, principalmente, da segunda crise do pe- tróleo em 1973 e 1978, respectivamente, houve uma deterioração das contas públicas da maioria dos países, gerando graves desequilí- brios macroeconômicos. Nesse contexto, o Estado brasileiro perdeu praticamente toda sua capacidade de investimento, o que adveio do progressivo endividamento público. No âmbito microeconômi- 17 ARAÚJO, Wagner Frederico Gomes de. As estatais e as parcerias público- privadas: o Project Finance como estratégia de garantia de investimentos em infraestrutura e seu papel na reforma do estado brasileiro. in: PRÊMIO DEST MO- NOGRAFIAS: EMPRESAS ESTATAIS. Embrapa Informação Tecnológica, Brasília, DF.2009 - Adaptado REALIDADE BRASILEIRA 277 a solução para o seu concurso! Editora co, ocorreu uma forte contração dos empréstimos e financiamentos externos a empresas nacionais, tanto estatais quanto privadas. As empresas estatais, portanto, não possuíam mais recursos disponí- veis para grandes empreendimentos de infraestrutura. Essa redu- ção de despesas implicou uma deterioração do estoque de capital em infraestrutura e, consequentemente, gerou estrangulamentos em setores importantes para a retomada do desenvolvimento eco- nômico. Em vários países, a reação às crises da década de 1970 foi se- guida por processos de reforma do Estado, com a diminuição de seu papel como provedor de infraestrutura, gerando uma onda de privatizações e concessões ao setor privado. Na Grã-Bretanha, o lema tornou-se o rolling back the State durante o governo That- cher quando, além das privatizações, foram disseminados contratos de desempenho para os prestadores de serviços de infraestrutura ou de utilidade pública (MACEDO; ALVES, 1997). Na Nova Zelândia, considerado um dos países com reformas mais radicais, foram im- plementadas grandes mudanças macroeconômicas, com um agres- sivo programa de privatizações, além da terceirização de várias ati- vidades estatais (CARVALHO, 1997). A estratégia das privatizações surgiu como tentativa de ajus- te nas contas públicas, por meio da venda de ativos produtivos do Estado, seja para redução do estoque da dívida pública, seja para redução da demanda de recursos fiscais para gastos em infraestru- tura. Dessa forma, uma das principais justificativas para a privatiza- ção, no âmbito macroeconômico, foi o ajuste fiscal. Mais empresas privadas significavam, igualmente, maior arrecadação tributária para o governo, o que também poderia contribuir para a melho- ra das contas públicas. No plano microeconômico, as privatizações foram justificadas pelos ganhos de eficiência das empresas sob o controle privado e sua maior capacidade de investir. Giambiagi e Além (2000) apontam que não se pode garantir maior eficiência apenas pela transferência ao setor privado, não havendo diferenças significativas entre ambos, sendo que o principal contraste é que as empresas estatais também têm um papel importante na política econômica do governo. No Brasil, pode-se identificar três fases da privatização (PINHEI- RO; GIAMBIAGI,1997): a) Década de 1980 – A primeira fase se deu por um processo de reprivatizações, com o objetivo de sanear a carteira do BNDES5, o que ocorreu sem a privatização de grandes empresas estatais. Essa fase permitiu ao BNDES adquirir know-how para se tornar o princi- pal agente de privatizações posteriormente. b) De 1990 a 1995 – Em 1990, foi lançado o Plano Nacional de Desestatização (PND). Nessa fase ocorreu a venda de empresas tradicionalmente estatais, além da privatização de setores inteiros. A privatização significava ainda uma peça importante na estratégia do governo de ajuste macroeconômico. Grandes empresas, como a Usiminas, escolhida para inaugurar o processo, foram privatizadas. c) A partir de 1995 – Em 1995 foi aprovada a Lei de Concessões, estabelecendo regras para a exploração de serviços públicos pelo setor privado, abrindo caminho para um processo de maciça pri- vatização, principalmente nos setores de infraestrutura e serviços públicos, como telecomunicações e energia elétrica. Com a privatização dos serviços públicos, a partir de 1995, foi necessário umesquema de regulação das empresas privadas que atendiam aos cidadãos, pois, a despeito de ser de iniciativa privada, os serviços públicos têm que ser garantidos pelo Estado. O Estado simplesmente delega os serviços públicos ao setor privado sob con- dições e prazos acordados, tendo o setor privado a obrigação de investimentos previamente definidos (MOREIRA; CARNEIRO, 1994). As estatais remanescentes tiveram seu papel estratégico exal- tado, assumindo um papel seletivo, mas importante na economia brasileira, como é o caso da Embraer ou da Petrobras. Ademais, sua gestão foi profissionalizada, uma vez que se trata instituições de di- reito privado. Dessa forma, a interação entre o setor público e o setor priva- do, inclusive as estatais, tem que ser contínua, pois a partir dessa interação será consolidada a posição do setor privado em infraes- trutura. O fato de o Estado brasileiro ainda ocupar um papel fun- damental na economia nacional e a melhora do cenário macroe- conômico na década de 1990 criam condição para que se efetive a parceria público-privada nos setores de infraestrutura. O Plano Metas e Bases Para a Ação do Governo (1970-1973)18 O plano Metas e Bases para a Ação do Governo (MBAG), foi adotado pelo governo federal durante o período em que Médici es- tava na presidência, divulgado em outubro de 1970. O governo não pretendia criar um novo plano imediatamente e, assim, o MBAG complementou-se com outros dois documentos: o Orçamento Plurianual de Investimentos de 1971 a 1973 e o I Plano Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (1972 a 1974). Neste plano ficaria estabelecida a sistemática segundo a qual cada governo exe- cutaria o último ano do Plano Nacional de Desenvolvimento, com as correções que julgasse necessárias. O MBAG estabeleceu como prioridades nacionais para o perío- do de 1970 a 1973 (auge do Milagre Econômico) as seguintes: in- vestimentos em educação, saúde, saneamento, agricultura e abas- tecimento e o avanço no desenvolvimento científico e tecnológico. O documento identificava como objetivo síntese o ingresso do Brasil no mundo desenvolvido até o final do século (Brasil, 1970). Este objetivo síntese incorporava os seguintes objetivos básicos: - crescimento econômico com elevação da taxa de crescimento do produto real para no mínimo 7 a 9% a.a., evoluindo para 10% a.a.; - expansão do emprego para a ordem de 3,3% a.a.; - controle da taxa de inflação; - expansão das receitas de exportação; - progresso social e melhoria na distribuição de renda; - correção gradual de desequilíbrios regionais e setoriais; - estabilidade política e segurança nacional. O Plano Trienal (1963-1964)19 Em 1961 o presidente Jânio Quadros criou a Comissão Nacio- nal de Planejamento (COPLAN) que coexistiu por algum tempo com o Conselho de Desenvolvimento. Posteriormente, Celso Furtado, como Ministro Extraordinário para o Planejamento, preparou o Pla- no Trienal de Desenvolvimento Econômico e Social para o período de 1963 a 1965, já durante o regime parlamentarista do governo de João Goulart. O plano foi criado com os objetivos básicos de promo- ver um desenvolvimento econômico rápido e estabilizar o nível de preços. Foram propostas as seguintes metas: 18 MATOS, Patrícia de Oliveira. Análise dos planos de desenvolvimento elabora- dos no Brasil após o II PND. Dissertação (mestrado) Escola Superior de Agricultu- ra Luiz de Queiroz, 2002. Adaptado 19 Idem REALIDADE BRASILEIRA 278278 a solução para o seu concurso! Editora - crescimento de 7% do PNB que deveria ser repassado aos sa- lários reais com o objetivo de distribuir melhor a renda; - promoção das Reformas de Base (principalmente a Reforma Agrária); - refinanciamento da dívida externa do país; - redução progressiva da pressão inflacionária, de modo que em 1965 a elevação do nível de preços não fosse superior a 10%; - redução das desigualdades regionais dos níveis de vida; - melhoria da qualidade do ensino. Para o governo da época, a realização destas metas só seria possível mediante o controle do processo inflacionário, que se tor- nou o objetivo prioritário do plano. A origem da inflação foi asso- ciada ao período de crescimento econômico de 1957 a 1961 com o aumento da participação do setor público na economia e também devido aos problemas estruturais do setor externo vinculados ao processo de substituição de importações. O plano continha as seguintes metas para o controle inflacio- nário: - redução do dispêndio público programado; - captação de recursos do setor privado no mercado de capitais; - política fiscal com aumentos progressivos da carga tributária. O Plano Trienal possuía uma maior abrangência, programa e metodologia e modificou as concepções a respeito da política e programação econômica no Brasil. Este plano é considerado um marco histórico uma vez que foi além da concepção plurissetorial, determinando linhas de ação com projeções globais da economia e tendo como objetivo amplas modificações estruturais como: a dis- tribuição de renda, melhoria de recursos humanos, correção das disparidades regionais, organização do setor governamental e eli- minação de entraves institucionais. Os tipos de investimento prio- rizados no Plano Trienal incluíam a ampliação da base de recursos naturais economicamente utilizáveis, o aperfeiçoamento do fator humano, investimentos sociais, estes da alçada do setor público, e investimentos estruturais e infraestruturas como indicativos para o setor privado. O Plano Trienal caracterizou-se ainda pelo seu caráter globa- lista e pelo fato de ter se ajustado ao quadro das motivações que levam o Estado a participar diretamente do processo de formação de capital em suplementação ao setor privado. Alinhou-se também às motivações decorrentes do processo de coordenação geral da economia, formulando diretrizes básicas para a orientação do cres- cimento econômico. Contudo, Singer (1977) considera que o Plano Trienal não era um plano de desenvolvimento econômico e social do país, mas ape- nas uma plataforma de ação do governo federal. Para Bresser Pereira (1998), o Plano Trienal não teve condições políticas para ser aplicado, dada a crise que o país atravessava no início dos anos 60 e que acabou culminando com o golpe militar em 1964. O Plano Trienal conseguiu sobreviver apenas até meados de 1963, quando todo o ministério de João Goulart foi substituído. Segundo Sandroni (2000), com relação aos planos anteriores, o Plano Trienal apresentou a vantagem de partir de uma visão global da economia, mas a sua parte setorial não obedeceu a um esquema uniforme de apresentação e muitos dos seus objetivos não foram definidos quantitativamente, sendo apresentados sob a forma de diretrizes gerais. Segundo Rossetti (1991), o Plano Trienal não descuidou da cor- reção de desajustamentos, ao estabelecer objetivos para o controle progressivo da pressão inflacionária, para a atenuação dos custos sociais do crescimento econômico e para a redução das desigualda- des regionais de níveis de vida. Contudo, o Plano Trienal não logrou êxito, como o Plano de Metas, devido principalmente às pressões exercidas por grupos po- pulistas que impediam a implantação de medidas mais rigorosas de controle da inflação e às pressões exercidas por classes economi- camente dominantes que tentavam impedir as Reformas de Base. Mesmo assim, o Plano Trienal contribuiu significativamente para o aprimoramento dos instrumentos de política econômica. O Plano de Ação Econômica do Governo (1964-1967) O Plano de Ação Econômica do Governo (PAEG) teve a sua im- plantação a partir do início do regime militar em 1964. Ele surgiu como uma reação das classes conservadoras contra as posições re- formistas contidas no Plano Trienal, porém atingiu níveis de agrega- ção tão amplos quanto este. O plano procurava dar consistência às estratégias de reformas econômicas do primeiro governo militar, o governo do general Castelo Branco. O PAEG assumiu uma posição menos reformista, com traçospredominantemente liberais e propostas de caráter ortodoxo, mas sem abandonar a interferência governamental na economia, justi- ficando a ação estatal contida no plano a partir das deficiências do sistema de preços. As deficiências apontadas pelo plano foram as seguintes: o livre jogo das forças de mercado não garante neces- sariamente a formação de um volume desejável de poupança, o sistema de preços nem sempre incentiva investimentos em setores essenciais como por exemplo, educação, transportes; e o sistema de preços não leva necessariamente a uma distribuição de renda razoável entre pessoas e regiões. Apesar disso, segundo o PAEG, o Estado não elimina o papel da livre empresa e do mecanismo de preços, ele age apenas como regulamentador e tem um caráter meramente indicativo. O PAEG foi elaborado pelos ministros Roberto Campos e Otávio Gouvêa de Bulhões com base na ortodoxia e no arrocho salarial, mas conseguiu realizar reformas importantes que os outros gover- nos não puderam implantar, tais como: a reforma bancária, com a criação do Banco Central; a reforma do mercado de capitais; a criação do FGTS e do BNH e a instituição da correção monetária. O fato mais relevante a ser comentado sobre o PAEG é o de que este marca um período de transição na vida política e econômica do país. Contudo, o PAEG não teve a pretensão de apresentar-se como um plano global de desenvolvimento, mas apenas como um programa de ação coordenada do governo no campo econômico. Estes traços liberais no entanto não correspondem às medidas im- plementadas no período de 1964 a 1966. Nesta época, o número de empresas estatais aumentou muito (em 1966 35% das estatais existentes haviam sido criadas sob a vigência do PAEG). As principais medidas do PAEG referem-se às destinadas ao controle da inflação que vinha aumentando muito desde 1959, che- gando a atingir 90% em 1963. Estas medidas englobam a reforma tributária, com elevação da tributação para reduzir a renda disponí- vel, a redução das emissões monetárias, o estímulo às exportações REALIDADE BRASILEIRA 279 a solução para o seu concurso! Editora e redução das importações e um severo controle dos salários e dos juros. O diagnóstico da economia brasileira como uma economia inflacionária também gerou a criação das Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional (ORTN) que permitiu ao governo a captação de recursos por via não inflacionária. A inflação durante o período de vigência do PAEG foi diagnosticada como tendo componentes de demanda e de custos e, segundo Sandroni (1999), a inflação de custos foi localizada no processo de substituição de importações, incentivado por barreiras alfandegárias. Para este autor, o protecionismo permitia um aumento espiral nos custos dos setores substitutivos. O PAEG atingiu seus objetivos no que se refere à redução da inflação, melhoria do saldo das contas públicas e recuperação das expor- tações agrícolas, não conseguiu porém, evitar a recessão e o aumento do desemprego. Segundo Tavares (1972), durante o período de 1964 a 1967 foram modificadas em profundidade as regras do jogo institucional. Não só do setor público, como no que se refere aos mecanismos de acumulação interna das empresas e aos esquemas de seu financiamento externo. Assim, a economia brasileira pôde voltar a crescer em novas condições de financiamento, mantendo aparentemente, o mesmo padrão estrutural de crescimento, apenas mais acentuadamente desequilibrado e concentrador. A natureza do problema central da acu- mulação naquele período de transição consistia na necessidade de transferir excedentes dos setores atrasados ou pouco dinâmicos para os de maior potencial de expansão. O Plano previa uma taxa anual de investimento bruto de 17% do produto, que, associada a taxas anuais de depreciação de 5%, cresci- mento populacional de 3,5% e a uma relação incremental capital-produto de 2:1, permitiria uma elevação da renda per capita de 2,5 % a.a. Neste período também foi realizada a Reforma Administrativa, na qual foram introduzidas modificações de largo alcance na estrutura do planejamento do país. Um dos objetivos da Reforma foi a institucionalização do planejamento governamental, firmando a norma de que a ação do governo obedeceria a programas gerais e setoriais de duração plurianual, elaborados através dos órgãos de planejamento, sob a orientação e coordenação geral do presidente da república. A Reforma estabeleceu que o planejamento constituiria um dos princí- pios fundamentais da administração federal, compreendendo a elaboração e atualização dos seguintes instrumentos básicos: - plano geral do governo; - programas setoriais e regionais de duração plurianual; - orçamento programa anual; - programação financeira de desembolso. A Constituição de 24/01/67 estabeleceu a competência do Congresso Nacional para dispor sobre os “planos e programas nacionais, regionais e orçamento plurianuais” estipulando também que “as despesas de capital obedecerão ainda a orçamentos plurianuais de in- vestimento, na forma prevista em lei complementar” e que “o orçamento consignará dotações plurianuais para a execução dos planos de valorização das regiões menos desenvolvidas do país.” Alguns dos resultados macroeconômicos durante o período de vigência do PAEG podem ser analisados na tabela: Tabela. Brasil - variáveis macroeconômicas nos anos 60. Fonte: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) (2002) PIB*- Taxa de crescimento; Taxa de Investimento* - Formação Bruta de Capital Fixo/PIB; Inflação* - variação do IGP- DI; Déficit Público* - Gov. Federal e Banco Central (títulos). Em R$ Milhões (deflator: IGP-DI). O primeiro Plano Nacional de Desenvolvimento (1972-1974) Em 15 de setembro de 1971 foi encaminhada ao Congresso, juntamente com o segundo Orçamento Plurianual de Investimentos, a proposta do I Plano Nacional de Desenvolvimento (I PND). O I PND definiu os seguintes objetivos nacionais: - colocar o Brasil, no espaço de uma geração, na categoria de nação desenvolvida; - duplicar, até 1980, a renda per capita do país (em comparação com 1969) - expandir o PIB de Cr$ 222,8 bilhões em 1972 para Cr$ 314,5 bilhões em 1974 (a preços de 1972); REALIDADE BRASILEIRA 280280 a solução para o seu concurso! Editora - investimentos nas áreas de siderurgia, petroquímica, trans- porte, construção naval, energia elétrica e mineração; - prioridades sociais: agricultura, programas de saúde, educa- ção, saneamento básico e incremento à pesquisa técnico- científica; - ampliação do mercado consumidor e da poupança interna com os recursos do PIS e do PASEP; - aumento da taxa de investimento bruto de 17% em 1970 para 19% em 1974; Para isto, pressupunha a manutenção de taxas anuais de cres- cimento do PIB de 8 a 10%; taxa de expansão do nível de emprego de 3,2%, redução da taxa de inflação até o nível de 10%; dissemi- nação dos resultados do progresso econômico em termos sociais e regionais; estabilidade política e segurança interna e externa (Bra- sil, 1971). O I PND foi elaborado durante a gestão do ministro do plane- jamento Reis Velloso, ainda no governo Médici, e coincidiu com a expansão cíclica do período do Milagre Econômico. Segundo Fur- tado (1981), o extraordinário crescimento da produção manufa- tureira brasileira, no período em que se convencionou chamar de “milagre”, ocorreu sem que operassem modificações significativas na estrutura do sistema, ou sem que este alcançasse níveis altos de capacidade de autotransformação. O I PND foi baseado no binômio político ideológico de segu- rança e desenvolvimento e representou uma ampla formulação do “modelo brasileiro de organizar o Estado e moldar as instituições”. Os projetos de desenvolvimento do I PND seriam completados com o PIN (Programa de Integração Nacional), cujos objetivos eram a construção da Rodovia Transamazônica e colonização das regiões por ela cortadas; ampliar para 40 mil hectares a área irrigada do Nordeste e distribuir 70 mil títulos de propriedades rurais a possei-ros e agricultores sem-terra. Segundo Sandroni (2000), ao final do triênio 72/74, confir- mou-se o elevado grau de execução do I PND, sobretudo na área econômica. Contudo, alguns projetos sociais tiveram um grau de execução bem abaixo do previsto. Dos 40 mil hectares estipulados para a irrigação no Nordeste foram irrigados apenas 5674 hectares. No saneamento básico, a rede de esgoto assegurou o atendimen- to a 500 mil pessoas em lugar dos 5 milhões constantes do I PND. No campo industrial o maior crescimento ocorreu no setor de bens de consumo duráveis o que acabou gerando um aumento nas im- portações de meios de produção. A inflação prevista para 10% a.a. Atingiu os 35%. Para a avaliação dos resultados dos planos de desenvolvimento, foi implementado, em 1972, o Programa de Acompanhamento dos Planos Nacionais de Desenvolvimento que constituía a atividade permanente dos órgãos que integravam o sistema de planejamento e tinha por objetivo a avaliação da execução, revisão, complemen- tação e aperfeiçoamento dos Planos Nacionais de Desenvolvimento e os respectivos instrumentos de controle e implementação. Este trabalho era realizado por meio de: - análise do desempenho total da economia e do comporta- mento de seus setores prioritários; - avaliação do progresso alcançado na execução dos programas e projetos; - identificação dos pontos de estrangulamento e obstáculos institucionais que dificultam a consecução das metas e a execução de programas e projetos. Segundo Holanda (1983), pretendia-se fazer com que esse pro- grama viesse a contribuir para a efetiva institucionalização de um sistema integrado de planejamento. Com base no programa, o rela- tório de acompanhamento do I PND relativo ao exercício de 1972, mostrou que das 34 metas setoriais mais importantes, 19 haviam se enquadrado na faixa de execução de 90 a 99% e apenas 6 apresen- tavam um índice de execução de menos de 80%. O I PND, concedeu maior ênfase à indústria de bens de consu- mo duráveis, liderada pela indústria automobilística. Mas, apesar de haver um intenso crescimento econômico neste período, o plano acabou intensificando as distorções distributivas do país. Tavares (1972) considera que o desenvolvimento do período se fez com graves pressões inflacionárias e com o aumento do de- sequilíbrio externo e das desigualdades regionais, embora não seja menos significativo, o fato de que o Brasil foi um dos poucos países da América Latina que conseguiu manter um ritmo de crescimento elevado na época e em que o processo de substituição de importa- ções avançou até níveis de integração industrial maiores. Tem-se assim, um grande avanço no processo de substituição de importações neste período. No entanto, em fins de 1973, a ma- nutenção do ciclo expansionista dependeria cada vez mais de uma situação externa favorável. O Choque do Petróleo no final deste ano, veio tornar esta situação mais adversa e elevar a taxa de in- flação interna. Diante da condição externa desfavorável e da dimi- nuição da capacidade de financiamento do setor público, o modelo de crescimento do Milagre se esgotou e o governo se viu obrigado a optar entre uma política de ajustamento ou de financiamento. A política de ajustamento causaria a contenção da demanda interna e evitaria que o choque do setor externo se transformasse em inflação permanente. A política de financiamento manteria o crescimento em níveis elevados, fazendo ajustes graduais de preços relativos, enquanto houvesse financiamento externo abundante. Inicialmente o governo da época escolheu o ajustamento, mas não conseguiu atingir os efeitos desejados. O governo então optou pela continuidade do processo de desenvolvimento lançando, em fins de 1974, o II PND. O segundo Plano Nacional de Desenvolvimento (1975-1979) O segundo Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND), do período de 1975 a 1979, constituiu a mais ampla e articulada expe- riência de planejamento no Brasil após o Plano de Metas. Foi elabo- rado durante o governo Geisel, pelo ministro do planejamento Reis Velloso, permanecendo em vigor até o primeiro ano do governo Figueiredo. O II PND mudou a ênfase do desenvolvimento para a indústria de bens de capital, mas foi considerado um fracasso pois coinci- diu com a fase de retração cíclica da economia. O plano buscava a preservação do modelo de desenvolvimento, admitindo que a con- tinuidade do crescimento exigiria uma “reconstrução estrutural” com um esforço bem maior de acumulação por unidade adicional de produto. Assim, o II PND foi lançado apesar de o governo reco- nhecer as dificuldades para manter taxas de crescimento da ordem de 10%, face à crise externa. Mesmo assim, optava pelo crescimen- to acelerado como “política básica”. O plano realizou alterações nas prioridades de industrialização brasileira: do setor de bens de consumo duráveis para o setor pro- dutor de meios de produção, principalmente a indústria siderúrgi- ca, máquinas, equipamentos e fertilizantes, sendo as empresas es- tatais o agente central destas transformações. O plano enfatizou a REALIDADE BRASILEIRA 281 a solução para o seu concurso! Editora abertura na política externa, o mercado interno e a empresa privada nacional, o combate à inflação, a exploração do potencial hidrelétrico e a continuação do processo de substituição de importações. A principal meta do II PND era a manutenção da taxa de crescimento econô- mico em torno de 10% ao ano, com crescimento industrial em torno de 12%. Segundo Sandroni (2000), o II PND propunha transformar o Brasil em uma “potência emergente” deslocando-o do Terceiro Mundo para o espaço dos países altamente industrializados. Para isto propunha substituir importações, elevar as exportações e ampliar o merca- do interno consumidor. O investimento total seria de 1 trilhão e 750 bilhões de cruzeiros, para assim atingir um PIB da ordem de US$120 bilhões e uma renda per capita de US$ 1000,00. O nível de crescimento industrial deveria situar-se em torno de 12% a.a., as exportações deveriam crescer a 20% a.a. e a agricultura a 7%. Quanto à ampliação do mercado consumidor, as diretrizes do II PND, não eram claras. Isto decorria da política salarial que reduzia o poder de compra dos assalariados. Assim, o crescimento do mercado interno estaria mais relacionado ao aumento populacional e à expansão do emprego. Para Furtado (1981), os objetivos estratégicos do II PND podem ser sintetizados em 2 pontos: ampliar a base do sistema industrial e aumentar o grau de inserção da economia no sistema de divisão internacional do trabalho. Estes objetivos refletiam a percepção da neces- sidade de reestruturação do sistema produtivo, que requeria a elevação da taxa de investimento e, com intensidade ainda maior, da taxa de poupança. No entanto, os resultados da execução do plano ficaram bem aquém do esperado. De 1975 a 1979 a produção manufatureira cresceu a 6,8% ao ano, a produção de bens de capital a 7% e a de bens de consumo duráveis a 7,4% ao ano. O Conselho de Desenvolvimento Econômico (CDE) foi o principal órgão de implementação do plano, visando dar garantias de de- manda e incentivos ao setor privado. Já a sustentação política do plano assentou-se no capital financeiro nacional, nas empreiteiras e nas oligarquias arcaicas. Desta forma, o governo buscava dar suporte ao plano, restando para isso equacionar a questão do financiamento. Assim, as empresas estatais foram forçadas ao endividamento externo para cobrir o hiato de divisas. Além disso, houve uma estatiza- ção da dívida externa e ampliação da mesma devido, entre outros aspectos, à facilidade de obtenção de recursos no exterior. Esta facilida- de decorria da ampla liquidez no mercado internacional. Para realizar o II PND, o Estado foi assumindo um passivo para manter o crescimento econômico e o funcionamento da economia (Vas- concellos et al., 1999). O endividamento do governo nesta época teve como consequência a deterioração da capacidade de financiamento do setor público na décadade 80, uma vez que socializaram-se todos os custos do II PND (aumento nos gastos sem criar mecanismos ade- quados de financiamento). O endividamento direto externo foi estimulado paralelamente ao aumento da dívida interna, impossibilitando progressivamente os grandes projetos governamentais. Este fato exigiu constantes revisões nas metas do II PND. Segundo Sandroni (2000), durante a vigência do plano ocorreu uma variável não prevista: a necessidade de desaquecimento da eco- nomia. Este autor fez o seguinte balanço do plano: significativos avanços na geração de bens de capital, de energia, prospecção de petróleo e produção de álcool, mas o alcance dos objetivos estaria muito aquém do que foi traçado para o aumento do PIB, da renda per capita, das exportações e da ampliação do mercado consumidor. A crise mundial está entre as causas da desaceleração do II PND, além dos limites estruturais do próprio plano. Segundo Lessa (1981), o II PND era impossível de ser implementado, em função do seu gigantismo e da crise econômica mundial, uma vez que se tratava de um verdadeiro projeto de Nação-Potência, não apoiado pelas bases de sustentação do regime militar. Já Castro (1985), considerava que os grandes projetos do II PND, pela sua complexidade e longo prazo de maturação teriam começado a produzir resultados visíveis somente a partir de 1983 e 1984, e as dificuldades acima mencionadas teriam apenas levado à diminuição do ritmo de investimentos a partir de 1976, mas não à sua paralisação total. Para Bresser Pereira (1998), o plano não reconheceu que o Brasil (e o mundo) entravam naquele momento em uma fase de declínio ou desaceleração cíclica que tornavam inviáveis a maioria de suas metas. No entanto, este foi importante para estimular de forma definitiva a implantação da indústria de bens de capital no Brasil. Tabela. Resultados macroeconômicos durante o II PND. Fonte: IPEA (2002) PIB* - Taxa de Crescimento; Indústria* - Taxa de Crescimento; Formação Bruta de Capital Fixo/ Produto Interno Bruto* - (Taxa de Investimento); Inflação* - Variação do IGP-DI; Dívida Externa* - US$ (Bilhões). REALIDADE BRASILEIRA 282282 a solução para o seu concurso! Editora O terceiro Plano Nacional de Desenvolvimento (1980 - 1985) e a nova realidade econômica O terceiro Plano Nacional de Desenvolvimento foi elaborado em 1979, em plena crise econômica, durante o governo do presi- dente Figueiredo, pelo ministro Delfim Neto que, paradoxalmente, era considerado um descrente do planejamento econômico. O plano foi projetado para o período de 1980 a 1985, embora tenha sido interrompido já no segundo semestre de 1980. Neste período, já não existia o clima de “euforia desenvolvimentista” que marcou os PND’s anteriores. Segundo Giacomoni (1996), o país co- meçava a sofrer as consequências da crise econômica internacional e o governo federal, alegando que a instabilidade impedia qualquer programação de mais longo prazo, passou a governar com medidas de curto e curtíssimo prazo. O III PND reconheceu como setores prioritários da economia brasileira a agricultura e o desenvolvimento de novas fontes de energia. Quanto aos seus objetivos, o III PND pouco se diferenciava dos planos anteriores mantendo como objetivo síntese a constru- ção de uma sociedade desenvolvida, livre, equilibrada e estável, em benefício de todos os brasileiros, no menor prazo possível. Segundo o documento oficial do III PND, foram considerados os seguintes objetivos prioritários: - acelerado crescimento da renda e do emprego; - melhoria da distribuição da renda, com redução dos níveis de pobreza absoluta e elevação dos padrões de bem-estar das classes de menor poder aquisitivo; - redução das disparidades regionais; - contenção da inflação; - equilíbrio do Balanço de Pagamentos e controle do endivida- mento externo; - desenvolvimento do setor energético; - aperfeiçoamento das instituições políticas. No entanto, estes objetivos não foram alcançados, até porque não houve qualquer implementação do plano. Na realidade, o III PND não pode ser considerado como um plano de desenvolvimento, mas como uma simples declaração de intenções pelo governo. Segundo Lopes (1990), o plano foi prepa- rado apenas para o cumprimento de uma determinação legal, sob a égide de um ministério cujo comandante não via qualquer utilidade prática no processo de planejamento e, sendo assim, o III PND viu- -se logo relegado ao esquecimento. Para Bresser Pereira (1998), o III PND refletiu não apenas a crise econômica como também a própria crise do governo, incapaz de formular um plano de ação coerente. Holanda (1983), considera que o III PND foi influenciado pelo impacto do choque do petróleo e dos juros internacionais que tor- naram precárias quaisquer projeções econômicas. Para este autor, o plano se caracterizava como um documento basicamente quali- tativo, definindo diretrizes, critérios e instrumentos de ação. E, em função das incertezas e das restrições decorrentes da crise energé- tica, da dívida externa e das pressões inflacionárias não apresentou metas quantitativas. Assim, o III PND marca o fim do processo de planejamento como efetivo instrumento de controle da política econômica do país. Foram apontados os seguintes motivos para o fim do processo: - a saída do ministro Reis Velloso da SEPLAN (Secretaria de Pla- nejamento) e a ascensão de Delfim Neto, representando uma mu- dança de mentalidade, uma vez que Velloso sempre foi um grande defensor do planejamento, enquanto Delfim Neto não depositava o mesmo crédito no processo; - a distância entre os números previstos no II PND e os realiza- dos, gerando uma reação contra o planejamento; - as dificuldades enfrentadas pelo segundo choque do petróleo e pela alta das taxas de juros internacionais limitando as funções do III PND. Segundo Lopes (1990), o III PND foi preparado, aprovado e pu- blicado apenas devido à imposição legal e, à época em que o plano deveria estar sendo implementado, a convicção geral era de se tra- tar de um documento de reduzida utilidade em face dos desafios enfrentados pela economia brasileira. O primeiro Plano Nacional de Desenvolvimento da Nova Re- pública (1986 - 1989) A Nova República encontrou, em 1985, apesar da grave situa- ção de endividamento, uma posição de relativo ajuste após as crises de 1981 a 1983, graças aos pesados investimentos em energia e à recuperação dos superávits na balança comercial. A recuperação do crescimento, no entanto, associou-se à explosão das taxas de infla- ção ocasionando o Plano Cruzado em 1986. O Plano Cruzado gerou uma economia com preços congelados por tempo excessivo, provocando desabastecimento geral e dese- quilíbrio dos fatores de produção, que levaram ao abandono do pla- no e a um novo surto inflacionário em 1987. Segundo Lopes (1990), este conturbado cenário deflagrou a decadência do processo de planejamento que o Brasil vinha desenvolvendo há décadas. Neste sentido, o lançamento do I Plano Nacional de Desenvolvimento da Nova República (I PND-NR) acentuou a crise do planejamento para o desenvolvimento no Brasil, presente desde o III PND. Este primeiro plano de desenvolvimento do governo de José Sarney foi publicado pela SEPLAN, com metas para o período de 1986 a 1989 e elaborado sob a coordenação do ministro João Sayad. O I PND-NR se concentrou nos seguintes aspectos: - crescimento econômico; - combate à pobreza, às desigualdades e ao desemprego; - educação, alimentação, saúde, saneamento, habitação, previ- dência e assistência social; - justiça e segurança pública. Quanto à parte econômica o I PND-NR evitou quantificações que pudessem representar compromissos mensuráveis. Enfatizou, principalmente, a mudança no padrão de negociação da dívida ex- terna e a necessidade de reduzir as transferências de recursos ao exterior. Quanto ao setor público, priorizou a reestruturação do aparelho estatal por meio de medidas que iam desde a privatização seletiva de empresas estatais à reforma administrativa.Segundo Lopes (1990), o I PND-NR representou um inútil exer- cício, da mesma forma que seu antecessor, e não foi sequer consi- derado como instrumento de suporte ou indicador de tendências seja pelo governo, seja pelo setor privado. REALIDADE BRASILEIRA 283 a solução para o seu concurso! Editora No entanto, a argumentação dos mentores do plano era a de que este se diferia dos anteriores, assim como as condições da eco- nomia brasileira nos anos 80 se diferiam das condições da década anterior. Esta diferença apresentava-se na própria concepção do plano: “Em virtude da circunstância em que vivemos no campo econô- mico-social e devido à nova orientação do governo sobre as funções do setor público, associada ao decisivo estímulo para que o setor privado assuma o papel de liderança no processo de crescimento, este não é um plano de investimentos públicos, nem uma proposta acabada e compulsória de direcionamento dos investimentos em- presariais” (Brasil, 1985b). Segundo Giacomoni (1996), em função das dificuldades de reorientar a questão financeira no âmbito do setor público e dos problemas de administração da dívida externa e interna, o país, ao longo desse período, conviveu com inúmeras crises que se refleti- ram na substituição de ministros da área econômica e na adoção de medidas de curtíssimo prazo. Estes fatos dificultaram o planeja- mento de médio e longo prazo no país e, portanto, a implementa- ção do I PND-NR. A dívida pública interna após 1986 e as mudanças institucio- nais20 As dificuldades fiscais existentes em meados da década de 1980 acarretaram a necessidade de mudanças na estrutura institu- cional da área fiscal. O ano de 1986 representou um marco funda- mental no aspecto institucional da administração da dívida pública brasileira, com a adoção de medidas profundas visando a um maior controle fiscal, como a extinção da Conta Movimento – utilizada para o suprimento dos desequilíbrios de fundos do Banco do Brasil pelo Banco Central. Decidiu-se ainda pela criação da Secretaria do Tesouro Nacional, por meio do Decreto nº 92.452, de 10/08/1986, visando a centralizar o controle dos gastos públicos e, especialmen- te, a viabilizar seu controle mais efetivo. A maior preocupação com a necessidade de controle e monitoramento da dívida interna, a qual vinha apresentando elevado crescimento nos anos anteriores em virtude da precária situação fiscal, aliada à percepção de que se fazia necessária uma distinção institucional entre as políticas mone- tária e de dívida acarretaram a transferência da administração da dívida pública do Banco Central para o Ministério da Fazenda. O Decreto nº 94.443, de 12/06/1987 determinou a transferên- cia das atividades relativas à colocação e ao resgate da dívida públi- ca para o Ministério da Fazenda, onde essa função ficou a cargo da Secretaria do Tesouro Nacional. Entre as funções dessa secretaria, regulamentadas pela Portaria MF nº 430, de 22/12/1987, estava explicitamente: [...] efetuar o controle físico/financeiro da dívida emitida [...] determinar os títulos e os volumes das Ofertas Públicas, inclusive elaborando e publicando os editais, em estreito relacionamento com o Banco Central do Brasil [...] e [...] administrar o limite de co- locação dos títulos [...] Nesse contexto, e visando a separar ainda mais as atribuições de autoridade monetária e fiscal, foi elaborado o Decreto-Lei nº 2.376, de 25/11/1987, que estabelecia medidas de controle sobre a dívida pública, a qual só poderia ser elevada para cobrir déficit no Orçamento Geral da União (OGU), mediante autorização legisla- 20 PEDRAS, Guilherme Binato Villela. História da dívida pública no Brasil: de 1964 até os dias atuais tiva, e para atender à parcela do serviço da dívida não incluída no referido OGU. A despeito da separação de funções e da criação da Secretaria do Tesouro Nacional, este mesmo Decreto-Lei nº 2.376 estabeleceu que: “[...] se o Tesouro Nacional não fizer colocação de títulos junto ao público, em valor equivalente ao montante dos que forem resgatados, o Banco Central do Brasil poderá subscrever a parcela não colocada”. Em outras palavras, embora fosse um avan- ço institucional em relação à prática anterior, qualquer que fosse a necessidade de rolagem, esta seria passível de financiamento via Banco Central, bastando para isso que o mercado se recusasse a dar o financiamento. O insucesso das políticas levadas a cabo pelo governo até en- tão para o combate à inflação conduziu o governo a tentativas mais “heterodoxas”, que acabaram por influenciar as estratégias de ad- ministração da dívida nos anos seguintes. Logo no início de 1986, o país viveu a primeira experiência heterodoxa de combate à inflação. No início daquele ano, a elevação das taxas de inflação e do endi- vidamento público eram motivo de preocupação para o governo, levando-o a adotar, em 28 de fevereiro, o Plano Cruzado, o qual congelou preços, decretou o fim da correção monetária e reduziu as taxas reais de juros. Essas medidas, aliadas à necessidade de re- duzir os déficits fiscais, levaram o Banco Central, e não o mercado, a absorver as novas emissões da dívida, conforme permitido pela legislação em vigor, antes descrita. Tendo em vista a dificuldade na colocação de LTNs e a impos- sibilidade de colocação de ORTNs (agora denominadas OTNs) em mercado, dada a desindexação da economia por conta da extinção da correção monetária, o Banco Central optou por criar um título de sua responsabilidade. Assim, em maio de 1986, a falta de opções de instrumento levou o Conselho Monetário Nacional a autorizar a autoridade monetária a emitir títulos próprios para fins de polí- tica monetária. Foi então criada a Letra do Banco Central (LBC), a qual tinha como característica ímpar o fato de ser remunerada pela taxa Selic, com indexação diária. A ideia era limitar as emissões de LBCs ao volume de títulos de responsabilidade do Tesouro Nacional existente na carteira do Banco Central. Naturalmente, dadas as ca- racterísticas do novo título e a conjuntura econômica da época, sua aceitação pelo mercado foi enorme. Considerando o sucesso na colocação das LBCs, aliado à referi- da falta de opção de instrumentos de financiamento, e consideran- do a nova diretriz de separação das atividades fiscais e monetárias, o governo aproveitou a edição do já citado Decreto-Lei nº 2.376/87 e criou as Letras Financeiras do Tesouro (LFTs). Tais títulos possuíam características idênticas às da LBC, sendo de responsabilidade do Tesouro Nacional e destinados especificamente para financiamento dos déficits orçamentários. É importante avaliar sob uma perspectiva histórica o impacto da iniciativa de emitir títulos atrelados à taxa de juros diária. Como será mencionado adiante, esses títulos passariam a representar parcela considerável da DPFi, funcionando como um importante instrumento do governo na manutenção de sua capacidade de fi- nanciamento. Com o insucesso do Plano Cruzado, o ano de 1987 marca o iní- cio de dificuldades ainda maiores na condução da política econô- mica, com o déficit público saindo do controle, além de problemas na área externa. De fato, a moratória da dívida externa ocorrida em fevereiro daquele ano gerou maior necessidade de financiamento via dívida interna. REALIDADE BRASILEIRA 284284 a solução para o seu concurso! Editora Com a promulgação da Constituição em 1988, o Banco Cen- tral, que naquele momento estava proibido de emitir títulos, ficou também impedido de financiar o governo. Pela nova sistemática, o Banco Central só poderia adquirir títulos diretamente do Tesouro Nacional em montante equivalente ao principal vencendo em sua carteira. Tinha-se chegado assim à clássica forma de relacionamen- to entre autoridade monetária e autoridade fiscal. Posteriormente, em 2000, a Lei de Responsabilidade Fiscal tornou ainda mais rígida a legislação, ao estabelecer que as colocações para a carteira do Banco Central só poderiam ser efetuadas à taxamédia do leilão rea- lizado, no dia, em mercado, regra esta que permanece até os dias atuais. A despeito dos sucessivos choques heterodoxos introduzidos na economia desde 1986, as taxas de inflação permaneciam em ní- veis bastante elevados, assim como a incerteza em relação ao futu- ro próximo. Dessa maneira, em 1988 e 1989 praticamente não hou- ve colocação de LTNs nem mesmo para a carteira do Banco Central, ilustrando o difícil momento pelo qual passava o país. Por sua vez, o financiamento público começou a ser efetuado com emissão de LFTs, sendo tal título durante esses dois anos praticamente a única forma de arrecadação de recursos, via emissão de títulos, para o go- verno. Nesse período, é interessante notar que esse instrumento de origem heterodoxa passava a ser fundamental para a solvência do país. Sua inexistência implicaria a necessidade de emissão de LTNs em prazos cada vez menores, o que levaria a aumento considerável no risco de refinanciamento da dívida. A criação das LBCs, primeiramente, e a seguir das LFTs mostra que a busca por soluções não tradicionais para os problemas eco- nômicos foi usada também na administração da dívida pública. A despeito disso, o prazo da dívida não foi alterado com a emissão desse instrumento de repactuação diária, de forma que, ao final da década, o prazo médio da dívida continuou reduzido, enquanto o percentual desta sobre o PIB representava o maior valor registrado até aquela data, indicando o crescente grau de vulnerabilidade do país ante as necessidades de refinanciamento. Ao se iniciar o novo governo, em 1990, a situação do endivi- damento público era crítica, com o estoque de títulos em mercado representando 15% do PIB, recorde histórico, sendo a dívida com- posta praticamente por LFTs e com prazo médio de apenas cinco meses. Além disso, a inflação encontrava-se em níveis superiores a 1.000% ao ano, e o déficit primário havia atingido 1% do PIB no ano anterior. Tendo em vista esse pano de fundo, o governo do presidente Collor iniciou-se com o objetivo explícito de dar fim ao processo inflacionário e ao descontrole fiscal vivido pelo país nos últimos anos. O desgaste da política econômica mencionado anteriormen- te e a crítica situação da dívida pública daí decorrente conduziram às drásticas medidas representadas pelo Plano Collor em 1990, o qual, entre outras, determinou o congelamento de 80% dos ativos financeiros do país, representando, para a dívida pública, impacto sem precedentes. Com esse artifício, o governo promoveu a troca compulsória da dívida em poder do mercado por outra, retida por 18 meses no Banco Central, rendendo BTN + 6% a.a. Ou seja, o estoque, antes remunerado pela taxa Selic, passou a ser remunerado a uma taxa muito inferior, gerando ganhos consideráveis para o governo. Além disso, a medida causou uma profunda redução na liquidez da eco- nomia, de forma que o Banco Central se viu forçado a recomprar as LFTs ainda em mercado. Esses dois fatos, aliados ao superávit primário obtido no primeiro ano do novo governo (mais de 4% do PIB), acabaram por conduzir a uma queda histórica no estoque da dívida em poder do público, de 82,5% em 1990. Em 1991, com a inflação ascendente e dificuldade para emis- são de LTNs, dada a credibilidade perdida pelo governo por conta do congelamento de ativos representado pelo Plano Collor, o Banco Central optou por criar um instrumento com características idênti- cas para fins de política monetária, o Bônus do Banco Central (BBC), instituído pela Resolução nº 1.780, de 21/12/1990. Nos primeiros meses de 1991, apenas esse título era ofertado ao público. A partir de setembro de 1991, os valores referentes aos ativos congelados começaram a ser devolvidos, e, a partir de outubro, os recursos para pagá-los eram obtidos com novas emissões de títulos. Ao final do ano de 1991 foi criado um novo instrumento, regula- mentado pelo Decreto nº 317, de 30/10/1991 e denominado Notas do Tesouro Nacional (NTNs), com diversas séries, a depender do indexador utilizado. Dentre os mais comuns destacam-se o dólar (NTN-D), o IGP-M (NTN-C) e a TR (NTN-H). Buscava-se diversificar os instrumentos para tentar ampliar a base de investidores, tentan- do garantir os recursos para pagamento das BTN-Es vincendas. A criação dessa diversidade de instrumentos reflete não apenas as turbulências passadas pela economia doméstica ao longo dos anos 1980 e início dos anos 1990, mas também a heterodoxia então do- minante no plano macroeconômico. Buscando dar mais um passo na direção da separação entre as atividades fiscais e monetárias iniciada na década anterior, em 1993 foram propostas algumas medidas, conhecidas como “Operação Caixa-Preta”. Tais medidas buscavam propiciar maior transparên- cia no relacionamento entre o Tesouro Nacional e o Banco Central, efetuando, entre outras mudanças, a reestruturação da carteira de títulos de responsabilidade do Tesouro Nacional no Banco Central, dotando a autoridade monetária de instrumentos mais adequados à condução da política monetária. Outra medida foi o resgate ante- cipado de títulos do Tesouro Nacional na carteira do Banco Central, com recursos obtidos via emissão de títulos do Tesouro em merca- do, sendo um dos fatores responsáveis pela queda de 24% no esto- que da carteira de títulos em poder do Banco Central naquele ano. Ao longo desses anos da década de 1990, o governo continuava tentando debelar a inflação, que, naquele momento, já superava a casa dos 1.000% ao ano. Enquanto isso, as taxas de crescimento da economia continuavam muito baixas, com o país apresentando crescimento médio real negativo de 1,3% de 1990 a 1993. Buscan- do dar um fim a essa situação, em 1994 era lançado mais um pla- no heterodoxo, conhecido como Plano Real. Este partia do mesmo princípio dos planos anteriores, isto é, que existia um componente inercial na inflação brasileira, mas dessa vez buscava-se conciliar a esse aspecto alguns componentes da cartilha ortodoxa, como a ma- nutenção de elevadas taxas reais de juros. Dessa vez a receita foi bem-sucedida e o país pôde, após muitos anos, viver momentos de inflação em níveis razoáveis e cadentes. A partir de 1995, a previsi- bilidade começava a voltar a fazer parte do cotidiano dos agentes econômicos. Certamente, esse aspecto iria impactar, de alguma for- ma, a estrutura da dívida pública interna. Entretanto, a despeito do relativo sucesso na estabilização da inflação, a partir daquele ano a dívida começou a apresentar traje- tória forte de elevação, o que pode ser explicado pela conjugação de alguns fatores, dentre eles: (I) a rígida política monetária da épo- ca, a qual acarretou uma taxa real de juros média no período extre- mamente elevada; (II) o reduzido superávit primário, que se apre- sentava até negativo para alguns entes de governo; e (III) a política REALIDADE BRASILEIRA 285 a solução para o seu concurso! Editora de propiciar maior transparência às contas públicas, reconhecendo vários passivos que antes se encontravam disfarçados, como, por exemplo, o programa de saneamento das finanças estaduais e mu- nicipais e a capitalização de alguns bancos federais. De fato, nessa segunda metade da década de1990, a DPMFi em mercado cresceu em média, em termos reais, à taxa de 24,8% a.a. Na segunda metade da década de 1990, o reduzido prazo mé- dio da dívida, aliado à política de maior transparência fiscal (con- tabilização dos “esqueletos” no estoque da dívida), fazia com que o alongamento passasse a ser parte fundamental na estratégia de endividamento. Por essa razão, em que pese o sucesso na estabili- zação econômica, as mudanças na estratégia de endividamento ao longo dos anos seguintes foram reflexo preponderantemente das turbulências por que passou a economia internacional no período. Nos primeiros anos após o Plano Real, o governo logrou melho- rar substancialmente a composição da dívida. Com a estabilidade econômica, ele elevou os volumes emitidos de LTNs, assimcomo paulatinamente buscou aumentar seus prazos ofertados em leilão, que passaram de um mês para dois e três meses de prazo. Em 1996, apenas LTNs de seis meses de prazo passaram a ser ofertadas em mercado. Os prazos desses títulos continuaram a ser elevados até que, ao final de 1997, o Tesouro Nacional conseguiu colocar em mercado títulos prefixados com dois anos de prazo. Após a eclo- são da crise da Ásia, a opção imediata foi pela redução nos prazos, quando voltaram a ser ofertadas LTNs de três meses. Até esse mo- mento, o governo tinha resistido a recorrer às LFTs. Apenas após a crise da Rússia o Tesouro Nacional decidiu voltar a emitir esse instrumento, interrompendo, momentaneamente, a emissão de tí- tulos prefixados. Ao longo desse período, a participação das LTNs, que se encon- trava em menos de 1% ao final de 1994, passou para 27% em 1996, enquanto o estoque das LFTs chegou a desaparecer nesse mesmo ano. Entretanto, já a partir de 1997, com a eclosão da crise asiática e a despeito do sucesso na manutenção da estabilidade econômica, os avanços obtidos foram sendo revertidos, de forma que, ao final de 1998, o estoque de prefixados chegaria a apenas 2% do estoque total, enquanto as LFTs voltavam a representar quase metade desse estoque total. Um dos motivos que explicam a não recuperação dos papéis prefixados na participação da dívida é, como esta cresceu muito, o aumento da percepção de risco de refinanciamento, de forma que o prazo médio desta teve de ser aumentado para não prejudicar a percepção do mercado quanto à sustentabilidade da dívida pública. Dessa forma, evitou-se colocar títulos prefixados com prazos infe- riores a seis meses, privilegiando instrumentos pós-fixados (em es- pecial as LFTs) mais longos. Tal processo foi ajudado com a mudança no regime cambial em 1999, que, ao reduzir a volatilidade das taxas de juros, fez com que o risco de mercado da dívida pública, sob a ótica do governo, fosse também reduzido. De fato, a partir de 1999, o prazo das LFTs ofertadas em leilão foi aumentado para dois anos, enquanto as LTNs voltaram a ser emitidas com prazos de três e seis meses. O ponto a destacar quanto a esse período é que, apesar do grande avanço representado pela estabilização da economia, seus efeitos sobre a dívida pública em termos de composição dos instru- mentos não se fizeram sentir tão fortemente como seria esperado. As expressivas emissões diretas representadas pelo reconhecimen- to dos passivos contingentes (fundamental para um saneamento definitivo das contas públicas), aliadas às altas taxas de juros neces- sárias à consolidação da estabilidade, fizeram com que o estoque da dívida pública crescesse brutalmente no período. Esse fato gerou a necessidade de que seu prazo médio fosse elevado para evitar que o risco de refinanciamento a cada período ficasse muito grande. Também a partir de 1999 o governo voltou a emitir títulos in- dexados a índices de preços (IGP-M). O objetivo era reforçar o pro- cesso de alongamento da dívida pública, aproveitando uma elevada demanda potencial representada pelos fundos de pensão. Desde então, tem-se observado um esforço no sentido de obter contínua melhoria no perfil da dívida federal interna, seja em termos de au- mento do prazo, seja de uma maior qualidade na composição desta, buscando-se a redução na participação de títulos indexados à taxa de câmbio e à taxa Selic, o que vem acontecendo com sucesso des- de 2003. Consenso de Washington Em novembro de 1989, reuniram-se na capital dos Estados Unidos funcionários do governo norte-americano e dos organismos financeiros internacionais ali sediados - FMI, Banco Mundial e BID - especializados em assuntos latino-americanos. O objetivo do en- contro, convocado pelo Institute for International Economics, sob o título “Latin American Adjustment: How Much Has Happened?”, era proceder a uma avaliação das reformas econômicas empreendidas nos países da região. Para relatara experiência de seus países tam- bém estiveram presentes diversos economistas latino-americanos. Às conclusões dessa reunião é que se daria, subsequentemente, a denominação informal de “Consenso de Washington”. A mensagem neoliberal que o Consenso de Washington regis- traria vinha sendo transmitida, vigorosamente, a partir do come- ço da Administração Reagan nos Estados Unidos, com muita com- petência e fartos recursos, humanos e financeiros, por meio de agências internacionais e do governo norte-americano. Acabaria cabalmente absolvida por substancial parcela das elites políticas, empresariais e intelectuais da região, como sinônimo de moderni- dade, passando seu receituário a fazer parte do discurso e da ação dessas elites, como se de sua iniciativa e de seu interesse fosse. Exemplo desse processo de cooptação intelectual é o documento publicado em agosto de 1990 pela Fiesp, sob o título “Livre para crescer - Proposta para um Brasil moderno”, hoje na sua 5ª edição, no qual a entidade sugere a adoção de agenda de reformas virtual- mente idêntica à consolidada em Washington. A proposta da Fiesp inclui, entretanto, algo que o Consenso de Washington não explicita mas que está claro em documento do Banco Mundial de 1989, intitulado “Trade Policy in Brazil: the Case for Reform”. Aí se recomendava que a inserção internacional de nosso país fosse feita pela revalorização da agricultura de ex- portação. Vale dizer, o órgão máximo da indústria paulista endossa, sem ressalvas, uma sugestão de volta ao passado, de inversão do processo nacional de industrialização, como se a vocação do Bra- sil, às vésperas do século XXI, pudesse voltar a ser a de exportador de produtos primários, como o foi até 1950. Uma área em que os preços são cadentes - são hoje, em termos reais, 40% em média inferiores aos de 1970 - em virtude do notável volume de subsídios concedidos a seus produtores agrícolas pelos países desenvolvidos, da ordem de US$ 150 bilhões de dólares por ano, e da revolução no setor de materiais que vem reduzindo substancialmente o uso de matérias-primas naturais por unidade de produto obtido. Ao final da década de 1980, dada a precária situação fiscal do país, o governo federal possuía dívidas contratuais vencidas com diversos credores. O processo de saneamento das contas públicas implicava encontrar uma solução para essa situação. No início dos REALIDADE BRASILEIRA 286286 a solução para o seu concurso! Editora anos 1990, o governo deu início a um processo de reestruturação dessas dívidas por meio de sua securitização. Nesse processo, dé- bitos oriundos da assunção de dívidas de estados e de empresas estatais foram repactuados e transformados em títulos públicos emitidos para os credores originais. Enquanto representou um be- nefício para o governo, na medida em que permitiu a adaptação dos fluxos de pagamentos à sua capacidade de pagamento, contribuiu para o resgate da credibilidade do setor público como devedor. Para o credor, representou transformar uma dívida contratual, portanto sem liquidez, em instrumento passível de negociação em mercado secundário. O Tesouro Nacional registrou os títulos emitidos para refinanciamento da dívida dos estados no Sistema Especial de Li- quidação e de Custódia, do Banco Central (Selic) e os referentes à assunção da dívida das empresas estatais, denominados Créditos Securitizados, na Central de Custódia e de Liquidação Financeira de Títulos (Cetip), onde estão custodiados, sendo livremente negocia- dos em mercado secundário. Ainda nos anos 1990, os Créditos Se- curitizados foram, em conjunto com outros títulos da dívida pública, utilizados como moeda de pagamento no programa de privatização das empresas estatais, sendo, portanto, parte daquele conjunto de instrumentos que ficou conhecido como “moedas de privatização”. Em 1999, e dentro do processo de padronização dos instrumentos de dívida pública, o Tesouro Nacional passou a aceitar tais títulos como meio de pagamento na segunda etapa dos leilõesde NTN-C e, mais recentemente, nos leilões de NTN-B. Não obstante essa possi- bilidade, o estoque dos Créditos Securitizados tem aumentado, em virtude, principalmente, da emissão regular de CVS, título que tem como origem a securitização de dívidas decorrentes do Fundo para Compensação das Variações Salariais (FCVS). O Brasil e o Consenso de Washington21 Os princípios neoliberais consolidados no Consenso de Washin- gton batem de frente com alguns dos pressupostos do modelo de desenvolvimento brasileiro e da política econômica externa que lhe dava apoio. Em particular com a liberdade de ação que o Brasil de- sejava manter para prosseguir em seu processo de industrialização, mediante reserva de mercado para indústrias de capital nacional no campo da informática assim como pela exclusão do patenteamen- to na área químico-farmacêutica. O Brasil tampouco se dispunha a aceitar restrições ao pleno desenvolvimento tecnológico no setor nuclear e aeroespacial. Golpeado pela crise da dívida externa e pela forma como esta foi tratada, o Brasil, graças a sua base industrial e ao esforço feito pela Petrobrás para aumentar substancialmente a produção nacio- nal de petróleo, conseguiria acumular substanciais saldos de ba- lanço comercial, criando condições para honrar o serviço daquela dívida. Em consequência, só lograria fazê-lo à custa do equilíbrio das contas públicas. Sucessivas cartas de intenção ao FMI foram as- sinadas sem que o país pudesse cumprir as metas acordadas em matéria fiscal e monetária. Para dominar a inflação resultante desse descontrole, gerado em sua maior parte pelo serviço da dívida ex- terna e interna, sucessivos planos, heterodoxos e ortodoxos, foram tentados sem êxito, produzindo um sentimento generalizado de frustração que abalaria a confiança na ação do Estado. A despeito da vulnerabilidade resultante do endividamento ex- terno e dos percalços na luta contra a inflação, o Brasil não parou. Teria, por isso mesmo, condições para resistir às pressões do gover- 21 Batista, Paulo Nogueira. O CONSENSO DE WASHINGTON: A visão neolibe- ral dos problemas latino-americanos. 1994 no americano e dos organismos multilaterais de crédito. Resistiria, inclusive, às pretensões americanas no GATT, em matéria de servi- ços e de propriedade intelectual, posição que só começaria a ser erodida ao final do governo Sarney. Com Collor é que se produziria a adesão do Brasil aos postula- dos neoliberais recém-consolidados no Consenso de Washington. Comprometido na campanha e no discurso de posse com uma pla- taforma essencialmente neoliberal e de alinhamento aos Estados Unidos, o ex-presidente se disporia a negociar bilateralmente com aquele país uma revisão, a fundo, da legislação brasileira tanto sobre informática quanto sobre propriedade industrial, enviando subsequentemente ao Congresso projeto de lei que encampava as principais reivindicações americanas. Com base em recomendações do Banco Mundial, procederia a uma profunda liberalização do regi- me de importações, dando execução por atos administrativos a um programa de abertura unilateral do mercado brasileiro. Concluiria, ainda, negociações com a Argentina a respeito de um mecanismo de salvaguardas das respectivas instalações nucleares, mediante o qual nosso país, sem aderir ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear, aceitaria de fato o regime de salvaguardas abrangentes que nele se prevê. Plano Collor22 A inflação em um ano de março de 1989 a março de 1990 che- gou a 4.853%, e no governo anterior teve vários planos fracassados de conter a inflação. Depois de sua posse, Collor anuncia um pa- cote econômico no dia 15 de março de 1990, o Plano Brasil Novo. Esse plano tinha como objetivo por fim a crise, ajustar a economia e elevar o país do terceiro para o Primeiro Mundo. O cruzado novo é substituído pelo “cruzeiro”, bloqueia por 18 meses os saldos das contas correntes, cadernetas de poupança e demais investimentos superiores a Cr$ 50.000,00. Os preços foram tabelados e depois li- berados gradualmente. Os salários foram pré-fixados e depois ne- gociados entre patrões e empregados. Os impostos e tarifas aumen- taram e foram criados outros tributos, são suspensos os incentivos fiscais não garantidos pela Constituição. É Anunciado corte nos gas- tos públicos, também se reduz a máquina do Estado com a demis- são de funcionários e privatização de empresas estatais. O plano também prevê a abertura do mercado interno, com a redução gra- dativa das alíquotas de importação. As empresas foram surpreendi- das com o plano econômico e sem liquidez pressionam o governo. A ministra da economia Zélia Cardoso de Mello, faz a liberação gra- dativa do dinheiro retido, denominado de “operação torneirinha”, para pagamento de taxas, impostos municipais e estaduais, folhas de pagamento e contribuições previdenciárias. O governo libera os investimentos dos grandes empresários, e deixa retido somente o dinheiro dos poupadores individuais. Recessão - No início do Plano Collor a inflação foi reduzida por- que o plano era ousado e radical, tirava o dinheiro de circulação, porem com a redução da inflação iniciava-se a maior recessão da história no Brasil, houve aumento de desemprego, muitas empre- sas fecharam as portas e a produção diminui consideravelmente, tem uma queda de 26% em abril de 1990, em relação a abril de 1989. As empresas são obrigadas a reduzirem a produção, jornada de trabalho e salários, ou demitir funcionários. Só em São Paulo nos primeiros seis meses de 1990, 170 mil postos de trabalho deixaram de existir, foi o pior resultado, desde a crise do início da década de 22 LENARDUZZI, Cristiano, Et al. PLANO COLLOR. Adaptado REALIDADE BRASILEIRA 287 a solução para o seu concurso! Editora 80. O Produto Interno Bruto diminui de US$ 453 bilhões em 1989 para US$ 433 bilhões em 1990. Collor parecia alheio a sua política econômica desastrosa, procurava passar uma imagem de super- -homem, sempre aparecendo na mídia se exibindo, pilotando uma aeronave, fazendo caminhadas, praticando esportes etc. Mostrava uma personalidade forte, vaidoso, arrojado, combativo e moderno. Privatizações - Em 16 de agosto de 1990 o Programa Nacio- nal de Desestatização que estava previsto no Plano Collor é regula- mentado e a Usiminas é a primeira estatal a ser privatizada, através de um leilão em outubro de 1991. Depois mais 25 estatais foram privatizadas até o final de 1993, quando Itamar Franco já estava à frente do governo brasileiro, com grandes transferências patrimo- niais do setor público para o setor privado. Sendo que o processo de privatização dos setores petroquímico e siderúrgico já está prati- camente concluído. Então se inicia a negociação do setor de teleco- municações e elétrico, há uma tentativa de limitar as privatizações à construção de grandes obras e à abertura do capital das estatais, mantendo o controle acionário pelo Estado. Plano Collor II A inflação entra em cena novamente com um índice mensal de 19,39% em dezembro de 1990 e o acumulado do ano chega a 1.198%, o governo se vê obrigado a tomar algumas medidas. É decretado o Plano Collor II em 31 de janeiro de 1991. Tinha como objetivo controlar a ciranda financeira, extingue as operações de overnight e cria o Fundo de Aplicações Financeiras (FAF) onde cen- traliza todas as operações de curto prazo, acaba com o Bônus do Tesouro Nacional fiscal (BTNf), o qual era usado pelo mercado para indexar preços, passa a utilizar a Taxa Referencial Diária (TRD) com juros prefixados e aumenta o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Pratica uma política de juros altos, e faz um grande esforço para desindexar a economia e tenta mais um congelamento de pre- ços e salários. Um deflator é adotado para os contratos com venci- mento após 1º de fevereiro. O governo acreditava que aumentando a concorrência no setor industrial conseguiria segurar a inflação, então se cria um cronograma de redução das tarifas de importa- ção, reduzindo a inflaçãode 1991 para 481%. A recuperação da economia iniciou-se no final de 1992, após um grande processo de reestruturação interna das industrias. Foi fundamental a abertura do mercado brasileiro para produtos importados, a qual obrigou a indústria nacional a investir alto na modernização do processo pro- dutivo, qualidade e lançamento de novos produtos no mercado. As empresas que queriam permanecer no mercado tiveram que rever seus métodos administrativos, bem como da organização, reduzin- do os custos de gerenciamento, as atividades foram centralizadas, muitos setores terceirizados. As empresas são obrigadas a investir pesado na automação, reduz a hierarquia interna nas industrias, en- tão cresce a produtividade. Toda essa modernidade era necessária para as empresas se tornarem mais competitiva, tanto no mercado interno quanto no mercado externo. O aumento de produtividade foi fundamental para a sobrevivência das empresas, porem para os trabalhadores, significava perdas de postos de trabalho, quer di- zer com menos funcionários se produziam mais, então aumenta o desemprego dos brasileiros, que em 1993 só na Grande São Paulo chega a um milhão e duzentos mil trabalhadores desempregados. Plano Real23 O Plano Real teve como base teórica: o Consenso de Washin- gton, que deu as direções que deveriam ser tomadas e o Plano Cruzado e as discussões relativas à sua criação, tomados como um exemplo dos erros que não deveriam ser repetidos. Em novembro de 1989, em congresso convocado pelo Instituto de Economia Internacional, reuniram-se em Washington funcioná- rios do governo dos EUA, FMI, BIRD, BID e economistas latino-a- mericanos para debater o seguinte tema: “Ajustamento latino-a- mericano, o que tem ocorrido?”. O congresso afirmou a excelência das medidas neoliberais que vinham sendo adotadas pelos países latino-americanos até então, com exceção do Brasil e do Peru. A conferência apontou a importância do combate à inflação através da dolarização da economia, valorização das moedas nacionais, ajuste fiscal, aceleração das privatizações, mudanças na seguridade social, desregulamentação dos mercados e liberalização comercial e financeira. A segunda referência importante, a experiência do Plano Cru- zado, forneceu um aporte teórico relacionado ao debate entre as propostas de uma “moeda indexada” e um “choque heterodoxo”. Devido à inoperância do Plano Cruzado, que foi identificado como um “choque heterodoxo”, a outra sugestão ganhou força no desenvolvimento do Plano Real. A ideia de uma “moeda indexada” ao dólar e a outra moeda nacional paralela, ganhou força durante o desenvolvimento do Plano Cruzado e influenciou fortemente o Plano Real. Brasil, Argentina e México enfrentaram vários desafios comuns no final da década de 1980 e início da década de 1990, os principais deles sendo a inflação que implicava em sérios problemas sociais, necessidade de reorganização das economias e alinhamento às mu- danças internacionais nestes países que ainda estavam vinculados aos programas de desenvolvimentos fortemente estatais que, no Brasil, foram implementados pelo governo militar a partir de 1964 e ganhando força na década de 1970. O processo de desenvolvimento da uma economia liberal no México, entre 1988 e 1994, assim como no Brasil, teve como ob- jetivo diminuir a participação do Estado na economia e avançar na liberalização do comércio externo, com destaque para as relações comerciais com os Estados Unidos e o Canadá que foram favore- cidas com a entrada do país no Nafta (North American Free Trade Agreement). O processo de reformas no início da década de 90 con- tribui para o crescimento da economia baseado nas exportações e apoiado por uma política de desvalorização do Peso. No entanto, o crescimento foi quebrado por uma crise cambial motivada pela des- confiança do capital internacional, provocando uma instabilidade que se refletiu na saída maciça de capital e na queda abrupta das reservas do país. Na Argentina, durante o governo do presidente Carlos Menem, o Ministro da Economia Domingo Cavallo apresentou seu plano para combater a inflação, que se reverteu na Lei da Convertibilida- de, que tinha como uma de suas bases o câmbio fixo, atrelado ao dólar, o que restringia a emissão de moeda ao aumento do Tesouro Nacional. Em um primeiro momento, a medida proporcionou uma estabilidade econômica sem inflação significativa que favoreceu o ingresso de capitais estrangeiros produzindo um forte crescimento do PIB. No entanto, uma recessão que teve início em 1998 e chegou ao seu auge em 2001, em parte relacionada às crises internacio- 23 IPOLITO, Danilo Bueno. História do Plano Real. Universidade de São Paulo, Jornalismo. REALIDADE BRASILEIRA 288288 a solução para o seu concurso! Editora nais e, em parte resultado da política de câmbio fixo, terminou por provocar o fim da Lei de Convertibilidade com altas sequelas para o país, nos níveis político, social e econômico. A economia brasileira repetiria a trajetória mexicana e argen- tina em alguns pontos importantes, combinando sucesso inicial no combate à inflação com elevados déficits externos e forte depen- dência de fluxos voláteis de capital internacional. Algumas diferenças entre os três planos são claras: o Plano Real era mais flexível e cauteloso com relação ao câmbio do que a lei de conversibilidade argentina; o plano mexicano recorreu intensamen- te a políticas de preços e salários, que dependeu de negociações com os representantes das classes trabalhistas, diferente do que aconteceu com os planos argentino e brasileiro. No caso do Plano Real, a criação da URV (Unidade Real de Valor), que funcionou por quatro meses, foi uma medida original para evitar medidas de cho- que como confiscos e congelamentos, possibilitando a estabilização da moeda. No entanto, as diferenças não superam as convergências entre os três planos que buscavam a estabilização da economia e sua in- serção nos padrões internacionais do neoliberalismo, que passava a ditar as novas normas do capitalismo mundial. Nas semelhanças entre os planos estão: o uso da taxa de câm- bio como instrumento de combate à inflação, de acordo com o con- ceito de monetary standard approach que considera a importân- cia da harmonização das políticas monetárias como uma forma de combate à inflação; a abertura da economia às importações, por meio da drástica redução das barreiras tarifárias e não-tarifárias; a abertura financeira externa, com o estímulo à entrada de capitais de curto prazo e medidas de desindexação da economia. Implantação do Plano Real O Plano de Fernando Henrique Cardoso, que era ministro da Fazenda do governo de Itamar Franco, consistia em três fases: o ajuste fiscal, o estabelecimento da URV (Unidade de Referência de Valor) e a instituição de uma nova moeda, o Real. De acordo com os autores do plano, as reformas liberais do Estado, que estavam em andamento naquele período seriam fundamentais para efetividade do plano. A primeira fase, o “ajuste fiscal” procurava criar condições fis- cais adequadas para diminuir o desequilíbrio orçamentário do Es- tado, principalmente sua fragilidade com financiamento, que seria um dos principais problemas relacionados à inflação. A criação do FSE (Fundo Social de Emergência), que tinha por finalidade diminuir os custos sociais derivados da execução do plano e dos cortes de impostos, foi uma das principais iniciativas do governo. A URV, o embrião da nova moeda, que terminou quando o Real começou a funcionar em 1º de julho de 1994, era um índice de inflação formado por outros três índices: O IGP-M, da Fundação Getúlio Vargas, o IPCA do IBGE e o IPC da FIPE/USP. O objetivo do governo era amarrar o URV ao dólar, preparando o caminho para a “âncora cambial” da moeda e também evitar o caráter abrupto dos outros planos, com esta ferramenta transitória. Dessa forma, ao contrário da proposta de “moeda indexada” e da criação de duas moedas, apenas separaram-se duas funçõesda mesma moeda, pois o URV servia como uma “unidade de conta”. A terceira fase do plano consistiu na implementação da nova moeda, que substituiria o Cruzeiro de acordo com a cotação da URV que, naquele momento, valia CR$ 2.750,00. O governo instituiu que este valor corresponderia a R$ 1,00 que, por sua vez, foi fixada pelo Banco Central em US$ 1,00, com a garantia das reservas em dólar acumuladas desde 1993. No entanto, apesar de amarrar a moeda ao dólar, o Governo não garantiu a conversibilidade das duas moedas, como ocorreu na Argentina. Dessa forma, o Real conseguiu corresponder de uma forma mais adequada às turbulências desencadeadas pela crise do México, que começou a se intensificar no final de 1994. A política de juros altos, que promoveu a entrada de capitais de curto prazo, e a abertura do país aos produtos estrangeiros, com a queda do Imposto de Importação, foram fundamentais para com- plementar a introdução da nova moeda e para combater a inflação e elevar os níveis de emprego. Reformas do Estado Considerada uma quarta fase da reforma econômica proposta pelo Plano Real, as reformas no Estado propiciaram o habitat ideal para a moeda criada em sintonia com o conceito de neoliberalismo, ao contrário do Estado que, como visto anteriormente, ainda carre- gava fortes resquícios do modelo pré-crise do petróleo, caracteriza- do pela regulamentação do mercado, a instituição de monopólios estatais e o forte investimento em infraestrutura. Desta forma, os defensores do Plano Real insistiram na neces- sidade das reformas das áreas econômicas como a quebra dos mo- nopólios estatais, tratamento igualitário entre empresas nacionais e estrangeiras e desregulamentação das atividades e mercados con- siderados até então estratégicos ou de segurança nacional. Além disso, foram empreendidas reformas tributárias, administrativas e previdenciárias. A importância destas reformas para a estabilização do país e a inserção internacional brasileira era ressaltada e abrandada nos pe- ríodos mais estáveis da economia nacional. As mudanças de ordem econômica foram aprovadas com relativa facilidade no Congresso Nacional, sendo extintos o monopólio estatal na área de prospec- ção, exploração e refino de petróleo e na distribuição, transmissão e geração de energia. As reformulações nas estruturas do Estado foram mais com- plicadas. A reforma fiscal só começou a ser discutida no Congresso com a crise cambial em janeiro de 1999. Na reforma administrativa, aprovou-se a possibilidade de demissão de funcionários públicos por excesso de quadros (quando os salários ultrapassarem 60% das receitas), e por ineficiência. As privatizações, que já estavam enca- minhadas desde o governo Collor, com o PND (Programa Nacional de Desestatização), foram ampliadas e aceleradas. Nesse sentido, pode-se perceber a importância do Plano Real para a implementação do projeto liberal no Brasil e como, de fato, não foi apenas um plano solitário de estabilização monetária e sim um conjunto de medidas para impulsionar a internacionalização da economia brasileira. A Euforia do Consumo - A queda da inflação de 46,60% em junho para 3,34% em agosto e a manutenção desta abaixo desse va- lor nos meses seguintes provocou um aumento imediato no poder aquisitivo da população de mais baixa renda, conduzindo uma ex- plosão dos níveis de consumo que resultou em um crescimento de 5,4% no PIB de 1994. Colaborou para isso o aumento das compras a prazo e a baixa remuneração nominal das aplicações financeiras com a realocação dos recursos para o consumo. REALIDADE BRASILEIRA 289 a solução para o seu concurso! Editora As crises Mexicana, Asiática e Russa A partir de dezembro de 1994 eclodiu a crise cambial mexicana, e a saída de capital especulativo relacionada à queda da cotação do dólar nos mercados internacionais começou a colocar em xeque a estabilização da economia nacional e o Plano Real, que dependia em grande parte do capital estrangeiro. A crise mostrou que a po- lítica de contenção da inflação com a valorização das moedas na- cionais frente ao dólar não poderia ser sustentável no longo prazo. Negando sempre à similaridade entre o Brasil e o México e a Argentina, o governo passou a desacelerar a atividade econômica e a frear a abertura internacional com a elevação da taxa de juros, aumento das restrições às importações e com estímulos à expor- tação. Com a necessidade de opor a situação econômica brasileira à mexicana, como um sinal ao capital especulativo, o governo quis mostrar que corrigiria a trajetória de sua balança comercial, atingin- do saldo positivo. Após retomada do crescimento entre abril de 1996 e junho de 1997, a crise dos “Tigres Asiáticos”, que começou com a desvalori- zação da moeda da Tailândia, se alastrou para Indonésia, Malásia, Filipinas e Hong Kong e acabou por atingir Nova York e os mercados financeiros mundiais. A crise obrigou o governo a elevar novamente as taxas de juros e decretar um novo ajuste fiscal. Novamente a fuga de capitais vol- tou a assolar a economia brasileira e o Plano Real. A consequência foi a demissão de 33 mil funcionários públicos não estáveis da União, suspensão do reajuste salarial do funciona- lismo público, redução em 15% dos gastos em atividades e corte de 6% no valor dos projetos de investimento para 1998, o que resultou em uma diminuição de 0,12% do PIB naquele ano. A crise se intensificou em agosto com o aumento da instabilida- de financeira na Rússia, com a desvalorização do rublo e a decreta- ção da moratória por parte do governo. A resposta brasileira foi a mesma de sempre, a elevação da taxa de juros básica para até 49% e um novo pacote fiscal para o período 1999/2001. No entanto, diferentemente das outras duas crises, o governo recorreu ao FMI em dezembro de 1998, com quem obteve cerca de US$ 41,5 bilhões, comprometendo-se a manter o mesmo regime cambial, desvalorizando gradativamente o Real, acelerar as privatizações e as reformas liberais, realizar o pacote fiscal e assu- mir metas com relação ao superávit primário. O fim da âncora cambial Nos primeiros dias do segundo governo de Fernando Henrique Cardoso, em janeiro de 1999, a repercussão da crise cambial russa chegou ao seu limite no Brasil. As elevadas taxas de juros começa- vam a perder força como ferramenta de manutenção do capital ex- terno na economia brasileira e um novo déficit recorde na conta de transações correntes obrigou o governo a mudar a banda cambial, que foi ampliada para R$ 1,32. Logo no primeiro dia, o Real atingiu o limite máximo da ban- da, sendo desvalorizado em 8,2%, o que influenciou na queda do valor dos títulos brasileiros no exterior e das bolsas de valores do mundo todo. O Banco Central tentou defender o valor da moeda, vendendo dólares, mas a saída de capitais continuou ameaçando se aproximar do limite de 20 bilhões, que foi acordado com o FMI no ano anterior. Nesse momento, o governo não teve outra escolha senão deixar o câmbio flutuar livremente, alcançando a cotação de R$ 1,98 em 13 dias. Os Ciclos Diferenciados e o Desafio da Política Monetária Pró- -Cíclica24 A crise financeira internacional de 2008 provocou uma queda consistente da inflação nas economias desenvolvidas, mas nos paí- ses emergentes foram registradas divergências acentuadas no ci- clo inflacionário, que tem prevalecido nos anos recentes. O Chile e o México iniciaram um ciclo de flexibilização monetária em 2012 e 2013, respectivamente, com a desaceleração do ritmo de cres- cimento econômico, enquanto o Brasil elevou sua taxa básica de juros em 375 pontos base entre abril de 2013 e abril de 2014 de 7,25% para 11,0%, a despeito da redução no ritmo da expansão da atividade industrial e do consumo privado. O estabelecimento do regime de metas de inflação em 1999 marcou o início de um novo arcabouço institucional da política mo- netária no Brasil. Com a combinação do regime de câmbio flutuan- te, as expectativas inflacionárias assumiram um papelrelevante na convergência da inflação para a meta central, que passou ser o principal objetivo do Banco Central e a taxa de juros, o principal instrumento. Entretanto, para a boa consecução do regime de metas de in- flação é crucial a convergência e a coordenação das políticas fiscal e monetária. Após registrar superávits primários consolidados na mé- dia de 1,93% do PIB entre 1999-2002 e de 2,42% entre 2003-2008, a política fiscal brasileira tem sido posta em cheque nos últimos anos quanto à sua neutralidade na inflação e a sua influência nas ações da política monetária. Os desvios consistentes da inflação à meta central nos últimos anos e sobretudo, o timming e a intensidade do ajuste da taxa de juros levantaram questionamentos entre os analistas em relação ao ciclo da política monetária, que estaria mais associado a um padrão pró-cíclico. As economias em desenvolvimento tradicionalmente imple- mentaram políticas fiscais pró-cíclicas, com expansão de gastos públicos em períodos de elevação das taxas de crescimento eco- nômico e ajustes contracionistas nas contas públicas nos períodos recessivos ou de desaceleração, reforçando a deterioração dos ciclos de negócios. O comportamento pró-cíclico da política fiscal estaria associado às dificuldades de acesso ao financiamento do mercado internacional de capitais e também às pressões políticas por aumento de gastos em períodos do ciclo de alta do crescimento econômico. Entretanto, nos últimos anos, aumentou o número de econo- mias emergentes que tem acionado políticas fiscais anticíclicas, ou seja, tem priorizado a recuperação da poupança fiscal em anos de bom crescimento para utilizar essa poupança de forma anticíclica nos períodos de contração ou desaceleração econômica, via am- pliação dos gastos fiscais e crédito público subsidiado. Esse movi- mento estaria associado à qualidade institucional e regulatória e ao aprofundamento das reformas econômicas estruturais, reforçando a credibilidade do cumprimento das metas de superávit primário. No caso da economia brasileira, os números apontam caracte- rísticas de uma política fiscal anticíclica (em alguns períodos, o go- verno não formalizou a política anticíclica como objetivo, sobretudo antes de 2012) após a crise financeira internacional, considerando o indicador de superávit primário consolidado do setor público es- trutural acumulado em quatro trimestres como proporção do PIB. Para citar um exemplo, esse superávit recuou de 3,4% no primeiro 24 VELHO, Eduardo. Os Ciclos Diferenciados e o Desafio da Política Monetária Pró-Cíclica. Disponível em: http://agriforum.agr.br/os-ciclos-diferenciados-e-o-de- safio-da-politica-monetaria-pro-ciclica/ REALIDADE BRASILEIRA 290290 a solução para o seu concurso! Editora trimestre de 2008 para 2,2% no terceiro trimestre de 2009, quando a taxa real de crescimento acumulada em quatro trimestres recuou de 6,37% para uma variação negativa de -1,4% na mesma compara- ção. Entre 2010 e 2013, também ocorreu a deterioração do superá- vit primário durante o ciclo de desaceleração do PIB. Entretanto, a recuperação da poupança fiscal na economia brasileira em períodos de expansão econômica tem sido puxada de forma preponderante pelo aumento das receitas tributárias e não por corte e/ou maior eficiência dos gastos. Nesse panorama, a po- lítica fiscal pressiona a inflação de custos e no último triênio 2011- 2013, apresentou novo impulso fiscal de demanda, o que também demandou a necessidade de retomada de um novo ciclo de aperto monetário em 2013. No passado, em diversas economias emergentes que apre- sentavam déficits elevados de transações correntes no balanço de pagamentos e pressão de desvalorização de suas moedas, como o Brasil nas décadas de 80 e 90, os governos acionavam o aumento das taxas internas de juros para atenuar esse movimento, mas que por outro lado, limitava ou mesmo impedia a adoção de política monetárias anticíclicas. Nos últimos cinquenta anos, cerca de 40% dos países em de- senvolvimento sancionaram políticas monetárias pró-cíclicas, en- quanto países industrializados praticaram políticas monetárias anticíclicas no mesmo período. Ao comparar os ciclos da política monetária, através da taxa básica de juros e da taxa real de cresci- mento econômico medida pelo PIB (para uma amostra de 69 eco- nomias entre os anos de 1960 a 2009), constatou-se que todas as economias consideradas industrializadas adotaram taxas de juros mais elevadas em períodos de maior crescimento. Crescimento econômico25 A economia internacional registrou uma aceleração do cres- cimento a partir de 2002. A exemplo do que havia ocorrido entre 1982 e 2001. As regiões que mais se destacaram foram a Ásia Oci- dental e Pacífico e a China. Nesse último país, a média anual do período foi de quase 10%. A economia da Rússia, que conseguiu sair da recessão pós-socialista graças ao aumento dos preços do petró- leo, se expandiu a 6,4% ao ano. Os países da União Europeia e o Japão tiveram comportamento inverso. Suas economias reduziram o crescimento a níveis inferiores a 2%. A América Latina apresentou uma recuperação, chegando a quase 4% ao ano a despeito de o Brasil ter mantido sua trajetória anual de 2,4%. Os EUA também mantiveram seu crescimento em torno de 3%. A economia brasileira, apesar do crescimento relativamente lento, apresentou, nesse período, uma mudança em relação às duas décadas anteriores. Houve uma substancial redução da fragilidade externa da economia, graças à acumulação de elevados superávits comerciais – US$ 32 bilhões, em média, entre 2001 e 2006, dos pelo aumento das exportações. O resultado foram os sucessivos saldos positivos nas transações correntes, da ordem de 1,5% do PIB Esses elevados superávits externos se refletiram muito positi- vamente nos indicadores de dívida e de reservas externas. A dívida externa líquida até setembro de 2006 havia sido reduzida para US$ 70,8 bilhões, o equivalente a 35% do valor máximo alcançado em 1999, US$ 205,1 bilhões. Já a dívida externa bruta registrou uma redução de US$ 84,8 bilhões nesse mesmo período, enquanto as 25 CRUZ, Adriana inhudes Gonçalves, Et al. A Economia Brasileira: Conquistas dos Últimos dez anos e perspectivas para o futuro. Adaptado reservas internacionais atingiram US$ US$ 62,7 bilhões, aumentan- do em praticamente US$ 30 bilhões desde o nível mínimo atingido em 2000. Como se pode ver no Anexo 1, essa melhoria no quadro externo pode ser percebida em todos os demais indicadores de solvência externa da economia brasileira. A redução da vulnerabili- dade externa foi acompanhada pelo fortalecimento financeiro das empresas brasileiras. A partir de 2002, a dívida bruta das companhias abertas, a pre- ços de dezembro de 2005 [Nascimento (2006)], caiu de R$ 366,8 bilhões para R$ 286,5 bilhões: uma redução de aproximadamente R$ 80 bilhões. Com isso, ao final daquele último ano, a dívida total era 21,9% menor do que em 2002, ano em que atingiu seu valor máximo. Do ponto de vista do endividamento líquido, a queda foi ainda maior. O saldo de R$ 253 bilhões a preços de 2005, registrado ao fi- nal de 2002, se viu reduzido, no final de 2005, a R$ 130,7 bilhões, ou seja, quase a metade. Além da redução da dívida bruta, colaborou para esse resultado o aumento das disponibilidades e aplicações líquidas dessas empresas, que passaram de R$ 132 bilhões para R$ 156 bilhões nesse período. Com relação ao equilíbrio entre receitas e obrigações em moe- da estrangeira, também se observou uma redução importante na fragilidade das empresas. A participação do endividamento em moeda estrangeira no endividamento total das empresas analisa- das começou a declinar ainda em 2001 quando atingiu o máximo de 46%. Desde então, a redução das dívidas em moeda estrangeira se acentuou, fazendo com que sua participação declinasse para 30% em 2005. Foi uma queda de 12 pontos percentuais em apenas três anos. Esses resultados sinalizam um cenário de fortalecimentofi- nanceiro das empresas, tanto em termos de menor endividamento líquido quanto de maior equilíbrio entre suas receitas e seus paga- mentos em moeda estrangeira. Esse comportamento corresponde, no plano microeconômico, à redução da vulnerabilidade externa da economia como um todo. Crescimento do mercado interno26 No ano 2000, o Brasil voltou a apresentar uma aceleração do crescimento, o PIB cresceu 4,3%. O aquecimento da economia es- tava relacionado com a diminuição das taxas de juros, imposta rigi- damente para ficar no patamar de 15% no ano anterior, o grande período em que o Real manteve-se estabilizado nos anos anteriores e com a recuperação da confiança, consequência do comprimento do acordo com FMI. O ano de 2001 foi marcado por uma desaceleração econômica, a taxa de crescimento do PIB foi de apenas 1,3%. Isso aconteceu devido à crise energética vivenciada pelo país e pela insegurança nos mercados externos, provocados pela crise da Argentina e pelos atentados terroristas contra os Estados Unidos. Com isso, o mercado de câmbio passou por algumas oscilações, na qual o Real sofreu uma depreciação média de 28,3% ao ano e a taxa cambial variou de R$1,95/US$, em Janeiro para R$2,36/US$ em Dezembro. Apesar disso, o impacto da desvalorização cambial sobre os preços não foi tão acentuado, o IPCA cresceu 6,8% no ano, justifica- do pela diminuição da demanda do consumidor e pela paralisação do mercado de trabalho, em relação a novas contratações e a ren- 26 Ribeiro, Francielle Camila Santos, Et al. A EVOLUÇÃO DO PRODUTO INTERNO BRUTO BRASILEIRO ENTRE 1993 E 2009 REALIDADE BRASILEIRA 291 a solução para o seu concurso! Editora tabilidade real. Além disso, a crise energética também impactaria o nível de preços, e assim, o país operou com uma política monetária retrativa, através do aumento da taxa básica de juros e dos depó- sitos compulsórios, para permanecer dentro da meta inflacionária. O colapso energético ocorrido no Brasil neste período compro- meteu o fornecimento e distribuição de energia elétrica do país. Esta crise interna, que obrigou os brasileiros a racionar energia, aconteceu por dois principais motivos: a pequena quantidade de chuva, que deixou inúmeras represas vazias, e pela carência de pla- nejamento e de investimento, tanto na geração como na distribui- ção da energia elétrica. Em 2001, a economia da Argentina, que estava atrelada ao câmbio fixo, no qual um peso era equivalente a um dólar, tentou negociar suas dívidas, porém só aprofundou ainda mais a crise. Em dezembro, o país declarou a moratória de sua dívida, neste mês, o Presidente Fernando de La Rua renunciou, e em seguida, outros quatro presidentes assumiram o cargo e renunciaram em 12 dias. A taxa de crescimento em 2002 foi de 2,7%, ocasionada devi- do a vitória nas eleições presidenciais do país pelo candidato de oposição, Luiz Inácio Lula da Silva, que trouxe incerteza quanto à sustentação da política econômica, o chamado risco-Lula, nome que faz alusão ao risco-país. O risco-país tenta medir a instabilidade econômica em um país e assim o risco que você assume ao investir nele, quanto maior, menores serão as chances de atrair investidores estrangeiros. Esse fator, aliado à degradação da economia e da política da Argentina, resultou na queda do fluxo de capitais e aumentou risco dos países emergentes, pelo provável ataque ao Iraque pelos EUA, que provocou instabilidade nos preços internacionais do petróleo e afetou os preços internos de seus derivados. Em consequência desses fatores, o aumento da taxa cambial não só continuou como passou a influenciar os preços internos e elevar a dívida pública, pois parte dela estava acoplada à moeda estrangeira, terminando o ano com a cotação de R$3,63/US$ e com uma depreciação de 52% do Real. Mesmo com a moeda deprecia- da e com o aumento da inflação, o Banco Central decidiu reduzir para 18% a taxa Selic em julho, agosto e setembro, porém no em outubro teve início um aumento sucessivo da taxa, concluindo o ano em 25%. Em 2002, o que aumentou o nível desta taxa foi o risco-Lula, que trouxe insegurança quanto à política econômica que iria em- pregar. Em 2003 o governo adotou política fiscal e monetária contra- cionista, fazendo com que a taxa de crescimento do PIB voltasse a desacelerar e alcançasse a marca de 1,1%. A insegurança do perío- do foi caracterizada pelo aumento do risco-país, pela depreciação da taxa de câmbio, pela saída de capitais e pela queda do crédito internacional. Com o objetivo de controlar a inflação, o governo optou por aumentar a taxa Selic para 26,5% ao ano em fevereiro, mantendo-a assim até junho. Esta política econômica resultou em maior con- fiança dos mercados e na baixa do câmbio, que passou de R$3,59/ US$ em fevereiro para R$2,93/US$ ao final do ano. Com a aprecia- ção do câmbio e com ferramentas monetárias restritivas, o governo conseguiu obter certo controle sobre a inflação e assim voltou a diminuir a taxa básica de juros. Mesmo assim, a inflação acumulada do período alcançou 9,3% (IPCA). O ano de 2004 foi marcado pela retomada do crescimento do PIB brasileiro, alcançando a taxa de 5,7%. Com um ambiente exter- no favorável e o contínuo aumento do saldo da balança comercial, a taxa de câmbio voltou a valorizar-se. Além disso, a queda da in- flação, a partir da metade do ano de 2003, fez com que o Banco Central reduzisse a meta da taxa Selic em 10 pontos percentuais, atingindo, em janeiro de 2004, 16,5% a.a. De janeiro a abril, o Comitê de Política Monetária (COPOM) de- cidiu diminuir a taxa Selic em meio ponto percentual para prorrogar o crescimento econômico e o pequeno nível da inflação. Porém, no segundo semestre, o aumento da pressão inflacionária acarretou um aumento desta taxa, que passou para 17,5% ao ano. Em 2005, o país apresentou crescimento de 3,2%, desempe- nho menor que o verificado em 2004, devido à desaceleração dos investimentos, da indústria de transformação e da agropecuária. Segundo Rebeca Palis, gerente de Contas Nacionais do IBGE, este resultado foi puxado pelo consumo das famílias, influenciado prin- cipalmente pelo aumento do crédito e dos salários reais, da ordem de 3,1%, enquanto que o gasto do governo cresceu 1,6% em relação ao ano anterior. De acordo com o IBGE, a participação dos componentes da demanda, no resultado do PIB deste ano, foi de 55,5% consumo das famílias, 20,6% investimento, 19,5% consumo do governo e ex- portações líquidas de 4,4%, sendo que as exportações contribuíram com 16,8%, contra 18,0% de 2004, queda justificada pela aprecia- ção do Real frente ao dólar, enquanto as importações alcançaram 12,4%, contra 13,4% em 2004. Os investimentos registraram alta de apenas 1,6%, em relação a 2004, pois a crise de confiança, motivada pelas incertezas quanto às políticas do governo, fez com que empresários e consumidores adiassem projetos para 2006. A taxa de juros mais elevadas e o câmbio contribuíram com esse resultado. A participação setorial no valor adicionado foi da ordem de R$ 145,8 bilhões para a agropecuária, redução na participação de 1,70% em relação a 2004, totalizando 8,4% do PIB 2005. A indús- tria e os serviços apresentaram desempenhos positivos, 40% e 57%, respectivamente. O PIB per capita a preços correntes, definido como a divisão do total do PIB a preços correntes pela população residente atingiu R$ 10.520,00 em 2005. Para o ano de 2006, o crescimento registrado foi de 4,0%, pe- quena recuperação frente a 2005. O PIB per capita apresentou cres- cimento real de 1,4% e o consumo das famílias 3,8% ante 2005. Com base em dados do IBGE, o setor agropecuário cresceu 3,2% em 2006, a indústria brasileira avançou 3%, puxada pela in- dústria extrativa mineral (5,6%) e pela construção civil (4,5%). O ano foi marcado pelos reflexos da crise do agronegócio iniciada em 2005, determinada pela ausência de investimentos e de incentivos por parte dos governos e, pela preocupação mundial com a gripe do frango,febre aftosa, transgenia, que comprometeram as expor- tações brasileiras do setor. O resultado de 2007 mostra crescimento de 5,7%, conquistado pela recuperação do setor do agronegócio, atividade que apresen- tou o maior crescimento no ano com 5,3%, baseado no bom desem- penho da lavoura de trigo, algodão herbáceo, milho em grão, cana e soja. O bom desempenho da economia também foi motivado pelo volume de investimentos (16,0%). A indústria cresceu 4,9%, com destaque para a indústria de transformação com participação de 5,1%, e da construção civil 5,0%, enquanto o setor de serviços apresentou alta de 4,7% em relação a 2006, desempenho determinado pelo subsetor de inter- mediações financeiras e seguros (13,0%), seguido por serviços de informações (8,0%) e comércio (7,6%). REALIDADE BRASILEIRA 292292 a solução para o seu concurso! Editora O PIB cresceu 5,1% em 2008, enquanto o PIB per capita cresceu 4,0% em relação a 2007. A taxa de investimento de 2008 chegou a 18,5% - a mais alta da série iniciada em 2000. Comparando o quarto trimestre de 2008 com o terceiro, o PIB apresentou queda de 3,6%, se comparado ao mesmo período de 2007 a economia brasileira registrou expansão de 1,3% Os modestos resultados do último trimestre do ano foram mo- tivados pela precipitação da crise mundial, iniciada nos Estados Uni- dos, que foi negligenciada pelo governo brasileiro, que se limitou a reduzir os depósitos compulsórios e preferiu não alterar a taxa Se- lic. A indústria foi o setor que mais padeceu, registrando queda de 7,4%, enquanto a agropecuária e serviços apresentaram resultados de – 0,5% e – 0,4%, respectivamente no período. Em 2009, a variação do PIB ficou em - 0,2%, totalizando R$ 3.143 bilhões. Os resultados setoriais também apresentaram que- da, sendo o pior desempenho da indústria - 5,5%, no qual todos os subsetores apresentaram queda, com destaque para a indústria e transformação (- 7,0%) e construção civil (-6,3%). O agronegócio recuou – 5,2%, devido à redução da produção de trigo, milho, café e soja. O setor de serviços apresentou alta de 2,6%. Os componentes da demanda interna agregada apresentaram valores positivos para consumo das famílias (4,1%) e gastos do go- verno (3,7%), enquanto que a formação bruta de capital fixo recuou 9,9%. A renda per capita caiu em 1,2%, ficando em R$ 16.414,00, re- sultado maior que em 2008, devido à baixa taxa de crescimento da população (0,99%) e não ao desempenho da economia. A taxa de investimento recuou para 16,7%, resultado direta- mente relacionado à crise de confiança, que rondava a economia mundial no primeiro semestre de 2009, “recessão pronunciada, acontecida no 1º semestre do ano, reflexo da penetração da crise internacional no front doméstico, que atingiu de forma profunda os ramos mais articulados ao comércio externo, pela via perversa da diminuição da demanda, dos preços e do crédito”. No segundo semestre, a economia se recuperou, em função do bom desempenho do mercado interno aquecido pelas reduções do Imposto sobre Produto Industrializado (IPI) para automóveis, eletrodomésticos da linha branca e materiais de construção, e da pequena melhora apresentada pelo comércio internacional. O PIB do primeiro semestre, se comparado ao mesmo período de 2008, recuou 1,9% e, no segundo período de 2009, apresentou alta de 1,5%, seguindo a mesma base comparativa. As medidas para mitigação dos efeitos da crise foram intensi- ficadas entre 2008 até meados de 2009, período no qual a política monetária promoveu uma diminuição gradativa na taxa Selic de 13,75% a.a. em dezembro/2008 para 8,75 a.a. em julho/2009. Por- tanto, a recuperação demonstra que as medidas adotadas pelo go- verno promoveram a reação econômica, fazendo com que o Produ- to Interno Bruto crescesse nos últimos seis meses do ano anterior. A Evolução do Salário Mínimo27 O primeiro mandato do governo Lula, marcado pelo começo de uma nova fase da inserção internacional da economia brasileira, a partir da melhora da demanda do mercado externo, determinan- do grande parte das condições favoráveis ao bom desempenho do crescimento do PIB, o qual foi realimentado pela subsequente am- pliação do investimento e consumo - resultando, entre os anos de 27 SOUEN, Jacqueline Aslan. A Política de Valorização do Salário Mínimo e seus Determinantes no Contexto da Retomada Econômica, 2003 – 2010. Adaptado 2003 e 2006, numa média de variação anual do produto da ordem de 4,2% -, inaugurou um período de considerável estruturação no mercado de trabalho brasileiro, o que também contribuiu para a criação de um contexto favorável à implementação de uma política do salário mínimo. A maior liquidez internacional no pós 2003, devido, em gran- de medida, à política americana de juros baixos, ampliação do gas- to público e do déficit comercial, juntamente à forte demanda da economia chinesa, contribuiu para um movimento mais favorável do comércio mundial, se traduzindo em melhoras crescentes das nossas exportações – via aumento de preços e quantidades, prin- cipalmente em commodities, mas também em manufaturados –, mais competitivas devido ao câmbio desvalorizado, significando ex- pressivos aumentos dos saldos anuais da balança comercial e em conta corrente. O aumento das exportações, por sua vez, rebateu positivamente na atividade econômica e, consequentemente, na dinâmica da demanda doméstica, reforçada, posteriormente, pelo aumento do crédito às empresas e ao consumidor pelas transfe- rências de renda do programa Bolsa Família, e pelo movimento de recuperação do salário mínimo acima da inflação, o qual foi bene- ficiado pela gradual ativação da economia, bem como um contexto político mais favorável. Embora com a continuidade de um arranjo restritivo de política econômica, marcada pelos juros elevados - priorizando o contro- le inflacionário -, câmbio flutuante e a busca dos recorrentes su- perávits primários - para pagar o custo da dívida pública e reduzir a relação dívida/PIB -, com o aquecimento da economia os níveis absolutos e relativos de desemprego pararam de subir no mesmo ritmo anterior e, a partir de 2004, com o PIB crescendo em média 3,5% ao ano, entre 2004-2006, houve um gradativo aumento da elasticidade do emprego em relação ao produto, com as ocupações aumentando cerca de 2% ao ano – ver tabela 2. A informalidade e o grau de desproteção previdenciária arrefeceram, e a massa dos rendimentos do trabalho, captada pela PNAD, cresceu considera- velmente entre 2004-2006, mas, sobretudo entre 2005-2006, tanto pelo aumento das ocupações formais, como devido ao crescimento da renda média do trabalho – ver tabela 4 -, a qual se encontrava em níveis bastante baixos em 2004. Sendo assim, tal cenário aca- bou significando melhores condições para a continuidade do pro- cesso de recuperação do valor real do salário mínimo. Com a recuperação da atividade econômica ocorreu um maior estímulo às contratações formais, sobretudo em razão do aumento de capacidade produtiva nas médias e grandes empresas - domi- nantes no setor exportador – revertendo a tendência de pequena elasticidade emprego-renda dos anos 90. Dessa forma, inaugu- rou-se um período de aumento das ocupações, principalmente o emprego assalariado formal. Esse quadro de aumento do emprego e formalização foi sendo realimentado pela continuidade do bom desempenho do produto, reforçado pelo aumento dos gastos das famílias e empresas, devido à ampliação do crédito de mais longo prazo. Outra fonte de ampliação dos empregos formais se deu a partir do setor público, devido aos avanços das políticas sociais, so- bretudo em saúde, educação, previdência e assistência social, sen- do que esses dois últimos setores passaram a contratar mais, como reflexo do maior dinamismo da atividade econômica. Portanto, a dinâmica econômica e do mercado de trabalho, no pós 2003, foram fundamentais para a ampliação do emprego formal. Contudo, tam- bém é necessário sublinhar que uma fonte de estímulo damelhora do nível de formalização está relacionada ao maior empenho do go- verno no sentido de aumentar a fiscalização nos estabelecimentos REALIDADE BRASILEIRA 293 a solução para o seu concurso! Editora e contratos de trabalho. Tal postura do poder público, através do Ministério do Trabalho e Emprego, Ministério Público do Trabalho e Justiça do Trabalho, tinha como principal objetivo a elevação da arrecadação de impostos e contribuições sociais, para contrabalan- çar os crescentes gastos sociais, e as necessidades de ajuste fiscal, decorrentes da política macroeconômica conservadora, iniciada em 1999. Sendo assim, tais mudanças significativas na economia e no mercado de trabalho brasileiro, como reflexo de um ciclo virtuoso inaugurado em 2003 - com a forte demanda do mercado interna- cional, num ambiente de relativo controle inflacionário e redução da vulnerabilidade externa e tendência à queda nas taxas de juros -, foram primordiais à trajetória ascendente do valor do salário mí- nimo, que acumulou crescimento real de 27,87%, entre 2002-2006. A ampliação do número de pessoas ocupadas com rendimento, aumento da formalização, crescimento da massa salarial - sobretu- do entre 2005 e 2006 -, em virtude do aumento das ocupações, mas também pela elevação da renda média do trabalho, relacionada, por sua vez, com a recuperação do piso mínimo, foram fundamen- tais para realimentar o ciclo virtuoso e, portanto, a continuidade do processo de recomposição do salário mínimo. Na medida em que o ritmo de crescimento da economia e do emprego se man- teve, foram nítidos os efeitos positivos sobre as contas públicas e da previdência, realimentando o quadro favorável para a sequência de reajustes do mínimo, rebatendo nos aumentos do salário médio real que, somados aos ajustes dos pisos das categorias - como resul- tado das negociações coletivas -, e à ampliação dos empregos for- mais, implicou em substancial crescimento da massa salarial real, conforme dados da PNAD e assim sucessivamente, reproduzindo as condições para o contexto positivo. Ampliação de credito28 Dentro do contexto econômico, pode-se dizer que o crédito oportuniza a realização de investimentos e conquistas, sendo ob- tido por meio de uma relação de confiança entre duas ou mais partes, com as devidas garantias de operação, cujo propósito é a compra e venda de produtos ou serviços. O acesso das populações carentes ao crédito é resultado das políticas públicas contra a pobreza, impactando a economia local. Pode-se dizer que o crédito é a chave que abre a porta para o cres- cimento dos negócios em todos os setores da economia. O sistema financeiro do Brasil tem como características certo conservadorismo, apoiando-se numa visão de curto prazo e privile- giando a ideia de que capital atrai mais capital, às vezes, numa razão direta de seu tamanho e inversa com relação às suas necessidades. A oferta de crédito tem uma elevada importância no desenvol- vimento econômico do país, uma vez que possibilita o investimento na aquisição de produtos, máquinas, equipamentos, bem como na contratação de mão-de-obra, impulsionando a economia nacional. Com a oferta de crédito a médio e longo prazo, tanto as pessoas físicas como empresas participam de forma mais direta da econo- mia, participação observada pelo aumento do consumo, aplicações em maquinários e abertura de novos estabelecimentos comerciais. O crédito tem um importante papel no desenvolvimento local e este irá se refletir no desenvolvimento de uma forma mais ampla, ou seja, reflete-se na sociedade como um todo e faz com que os 28 BURIN, Roberto. AS CONSEQUÊNCIAS DAS POLÍTICAS PÚBLICAS PARA AMPLIAÇÃO DO CRÉDITO COMO ESTRATÉGIA PARA O DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO. Adaptado governos se voltem para atender as necessidades da população. O desenvolvimento do país deve envolver a participação da sociedade civil, do poder público e das instituições financeiras, enquanto orga- nismos liberadores de crédito. Sempre que o poder público oportuniza a liberação do crédi- to, o reflexo é o aumento do consumo. Saliente-se que pode haver maior inserção econômica e social, através da geração de emprego e renda. É importante ressaltar que a concessão do crédito através das instituições financeiras baseia-se na análise de fatores operacionais e financeiros da empresa, no caso de pessoa jurídica, bem como nas garantias pessoais, no caso de liberação de crédito à pessoa física, ligado principalmente ao salário. O volume de crédito é diretamente proporcional à política econômica implantada pelo poder público, isto é, numa economia equilibrada, pode-se liberar o crédito sem maiores riscos. Salientando-se que quanto maior o endividamento, maiores são os riscos de inadimplência, assim como provoca a elevação das taxas de juros. No entender de Securato (2002), toda operação de crédito se caracteriza por ser uma forma de obtenção de empréstimo, cujo custo está representado na forma de juros. Já Schrickel (2000, p. 25) apresenta uma definição de operação de crédito como sendo “[...] todo ato de vontade ou disposição de alguém destacar ou ce- der temporariamente parte de seu patrimônio a um terceiro, com a expectativa de que esta parcela volte à sua posse integralmente após decorrer o tempo estipulado”. No momento da liberação do crédito, ocorre o que Santos (2003, p.15) determina como sendo “a troca de um valor presente por uma promessa de reembolso futuro, não necessariamente certa em razão do fator risco”. As operações de crédito têm sua classificação de acordo com a origem dos recursos, dividindo-se em: operações de crédito com recursos direcionados, aquelas que apresentam taxas e recursos previamente estabelecidos pelas normas governamentais e desti- nadas fundamentalmente a setores como o rural, habitacional e de infra-estrutura; assim como as operações de crédito com recursos livres, as que têm sua formalização por meio de taxas de juros de- finidas entre os tomadores e os estabelecimentos financeiros (OR- TOLANI, 2000). Entre as principais operações de crédito com recursos livres, pode-se destacar: - Capital de giro: modalidade de empréstimo cujo objetivo é atender as necessidades de capital de giro das empresas. O emprés- timo tem sua vinculação por meio de um contrato específico em que fica estabelecido o prazo, taxas, valores e as garantias necessá- rias. Comumente, a garantia se realiza por meio de duplicatas, e os prazos giram em torno de 180 dias. - Conta garantida: caracteriza-se por se tratar de uma conta de crédito aberta com valor limite pré-estabelecido e o movimento ocorre a partir dos cheques emitidos pelo cliente, se não houver saldo na conta corrente de movimentação. Havendo saldo disponí- vel na conta movimento, há a transferência dos valores para a conta garantida, cobrindo o saldo devedor da mesma. - Desconto de títulos (notas promissórias e duplicatas): o banco libera aos clientes, de forma imediata, recursos que serão recebi- dos quando do vencimento das promissórias e duplicatas entregues à instituição financeira. O cliente recebe os valores, antecipa seu fluxo de caixa e transfere ao banco os documentos que seriam re- cebidos no futuro. REALIDADE BRASILEIRA 294294 a solução para o seu concurso! Editora - Aquisição de bens: operação que se destina a possibilitar a aquisição de bens, tanto a pessoas físicas como jurídicas, ficando o bem adquirido como garantia da operação de crédito realizada. - Financiamento imobiliário: caracteriza-se por não estar inte- grado ao Sistema Financeiro de Habitação e seu objetivo é o finan- ciamento para adquirir, construir ou reformar imóveis. - Cheque especial: tipo de crédito em que há a vinculação de um determinado limite à conta bancária da pessoa física. O saldo desse limite é abatido sempre que houver saldo na conta bancária do devedor. - Crédito pessoal: tradicional operação de crédito destinada às pessoas físicas, mas ressalta-se que a concessão não se caracterizapela vinculação de um bem ou de algum serviço. - Cartão de crédito: modalidade de crédito que disponibiliza, entre outros, serviços como pagamentos à vista entre consumidor e empresa, bem como permite a liberação de dinheiro de forma direta ao consumidor por meio de uma operação de saque. - Crédito consignado: representa uma modalidade de crédito muito utilizada atualmente. Trata-se de um empréstimo em que os débitos das parcelas serão realizados diretamente no salário do to- mador do empréstimo, ou seja, diretamente em seu contracheque. No entanto, essa modalidade deve obedecer aos limites de endivi- damento do trabalhador, conforme o valor de seu salário (FORTU- NA, 1999; BACEN, 2007). A liberação de crédito através da utilização das políticas pú- blicas, especificamente no período de 2002 a 2009, possibilitou o acesso ao crédito das chamadas populações de baixa renda, urba- nas e rurais; bem como a elevação do consumo e a consequente geração de emprego e renda. Conforme Torres Filho (2006), a partir do ano 2000, evidencia-se um crescimento do crédito para a pessoa física em razão da consolidação do sistema financeiro no que diz respeito ao enfrentamento das constantes crises financeiras e da capacidade de manter a economia nacional num patamar de estabi- lidade e segurança, a partir de alguns ajustes e redirecionamentos. Conforme Slomp (2012), percebe-se, no país, a instalação da chamada cultura do endividamento, em face do aumento no nú- mero de pessoas endividadas junto às instituições financeiras, bem como pela elevação do crédito direto ao consumidor em lojas e departamentos; fazendo com que o endividamento se caracterize como um reflexo da sociedade. Assim sendo, a dívida é parte inte- grante do contexto econômico e está diretamente relacionada às atuações internacionais, nacionais, regionais e até familiares, em face disso, o governo e os órgãos de controle devem estar atentos para que o endividamento não se torne um problema de irreversí- vel solução. Transferência de Renda29 No Brasil, país de grande dimensão continental, a acumulação ocorre de forma heterogênea. Em algumas áreas estão concen- trados setores dinâmicos da economia, que promovem cada vez mais a expansão produtiva daquele espaço, enquanto em outras ocorrem fragilidades econômicas. Buscar a integração do processo produtivo entre as regiões do Brasil para promover o acúmulo de excedentes e a redução das desigualdades sociais rumo a um pos- terior desenvolvimento, deveria estar entre os principais objetivos das ações governamentais. 29 SILVA. Audileia Rodrigues. PROGRAMAS DE TRANSFERÊNCIAS DE REN- DA E DESENVOLVIMENTO: UMA ANÁLISE DO PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA NO MUNICÍPIO DE PLANALTO – BA, NO PERÍODO DE 2004 A 2010. Adaptado As discussões em torno das causas do crescimento e desen- volvimento de uma nação são das mais diversas. Enquanto alguns economistas compartilham a ideia de que crescimento e desen- volvimento são sinônimos, outra corrente de teóricos diferenciam ambos, propondo ser o crescimento condição indispensável, mas não suficiente ao desenvolvimento. Há também uma nova proposta de desenvolvimento sustentada no princípio da justiça social, com a equalização das oportunidades, contrapondo-se ao modelo con- vencional de desenvolvimento econômico predominante. Daí a importância de não se confundir crescimento com de- senvolvimento, fazendo-se necessário a compreensão de ambos os processos, pois em algumas situações associado ao crescimen- to ocorrem queda dos indicadores sociais. O crescimento estaria relacionado ao aumento da renda per capita, enquanto que, o desenvolvimento contemplaria o aumento da produção nacional acompanhado de melhorias no nível de vida da população e de transformações sociais e econômicas ocorridas na sociedade, o que evidencia a complexidade da relação existente entre crescimento e desenvolvimento. As análises mais completas acerca das questões do desenvolvi- mento, além avaliarem as variações quantitativas do produto e as melhorias em educação, saúde, nível de bem estar, entre outros, consideram a questão ambiental, pois “Com o tempo, o crescimen- to econômico tende a esgotar os recursos produtivos escassos, atra- vés de sua utilização indiscriminada.” Daí a relevância do gasto social e das rendas monetárias para as pequenas economias, pois em muitos casos, eles são direcionados aqueles que não possuem renda, implicando na ampliação do con- sumo destes beneficiários, e em ganhos econômicos. O gasto social teria efeitos sobre o produto e a renda da economia, o que pode ser atribuído ao princípio da demanda efetiva. Outro efeito concentra- -se na promoção autônoma da redistribuição da renda que o gasto pode promover aos beneficiários. No Brasil, o avanço em gasto so- cial começa a ocorrer a partir da Constituição de 1988, momento de grandes demandas sociopolíticas em todo o país. O programa Bolsa Família é uma representação bastante plau- sível nesta proposta de desenvolvimento equitativo, haja vista que, além de atender parcela significativa da população brasileira em situação de pobreza e extrema pobreza, o programa conta com condicionalidades nas áreas de saúde e educação, o que acaba por contribuir com igualdade, e com a oportunidade de inclusão. As políticas sociais se definem como a intervenção do Estado nas questões sociais do país, com vista a melhorar as condições de vida de seus habitantes, e oferecer direitos, como educação, saú- de e assistência social. Dentre os objetivos das políticas, a redução das desigualdades, pode ser considerada como um dos mais impor- tantes, se constituindo em uma forma de ampliar o bem estar da sociedade. A crise econômica 2008 - Abalos na economia mundial A crise que mais abalou a economia mundial desde a crise de 1929 foi a que eclodiu nos EUA a partir de uma bolha (uma situação de super demanda que estimula a especulação financeira) no setor imobiliário e se alastrou para todos os outros setores econômicos e países do mundo. Ocorreram várias outras crises econômicas en- tre 29 e 2008, mas foram menos violentas. Como outras crises que ocorreram neste intervalo podemos citar as crises do petróleo, na década de 70 (1973 e 1979). A crise atingiu os setores financeiros (de créditos financiamentos e negociações na bolsa de valores) e REALIDADE BRASILEIRA 295 a solução para o seu concurso! Editora produtivos (retração na produção das indústrias, desemprego e di- minuição no consumo de bens e serviços.). Se alastrou rapidamente e de forma notável atingiu com mais profundidade os países mais desenvolvidos. EUA, UE, e Japão foram os mais impactados. Uma razão para isso é que devemos nos lembrar que na Globalização todas as grandes economias do mundo são muito interligadas e in- terdependentes, podendo gerar um efeito dominó. Ainda nos dias de hoje, idos de 2015, alguns países europeus estão passando por uma forte crise econômica e a união europeia corre risco de se desmantelar e o Euro de se enfraquecer. Há vá- rias propostas nos PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda/Eire, Grécia e Espanha), os mais atingidos pela crise europeia, de abandonar a moeda e a UE. Nos mais industrializados também há convicções de abandonar a organização. Foi marcado no Reino Unido um plebis- cito para decidir se ficam ou não na EU. A crise atingiu também os Emergentes. Como dependem do capital das economias centrais e exportam matérias primas para lá, foram atingidos e tiveram um crescimento econômico menor. Lembre-se que países desenvolvi- dos param de produzir e de comprar commodities (matérias pri- mas negociadas nas bolsas internacionais. Fique ligado, pois quem determina o preço é o mercado e não os produtores.) e no caso do Brasil, exportamos menos minérios e produtos agrícolas. Como tudo isso começou? A crise estourou nos EUA e é importante lembrarmos uma de suas características: Seu banco central o FED (federal reserve) tem total autonomia para mexer nas taxas de juros. E comonão há inter- venção estatal, quando um consumidor adquire um financiamento, os valores das parcelas podem oscilar de acordo com a oscilação dos juros. Em 2001 ocorre o atentado do 11/09 que estimula a política de Guerra ao Terror do então presidente George Bush de invadir o Afeganistão em 2001 e o Iraque e os gastos militares au- mentam muito. Nos anos de 2001 o FED diminuiu a taxa básica de juros que ficou em torno de 1,75% a 1%. O objetivo desta medida é estimu- lar a economia através do consumo. Os financiamentos ficam mais baratos e vendem mais mercadorias. O valor do financiamento de casas caiu e impulsionou a construção civil e o mercado imobiliário, que passa a oferecer créditos a muitas pessoas. No linguajar corpo- rativo americano denominava-se como “Sub prime” os setores tra- balhadores mais frágeis da economia (trabalhadores assalariados e pequenos empreendedores), que por possuírem uma baixa renda, há um risco maior de calote no caso de aumento das prestações). Multiplicam-se os empréstimos imobiliários e a emissão de títulos na bolsa de valores, dando como garantia as prestações a serem pa- gas, ou seja, em caso de inadimplência perde o imóvel. Com a super demanda forma-se uma bolha especulativa, e aumentam os valores dos imóveis e aplicações financeiras na construção civil. Devidos aos altos gastos militares e políticas neoliberais em que o governo retirou os impostos das rendas mais altas ocorre au- mento da inflação (aumento no preço dos produtos) no país. Para tentar conter a inflação o FED aumentou a taxa básica de juros e tentar incentivar a procura internacional por dólares. A principal consequência é o aumento do valor dos financiamentos e presta- ções. As taxas foram aumentadas até 5,25%, cinco vezes maior que 2001. Como as prestações multiplicaram seu valor, aquele grupo mais frágil da economia designado “sub prime” pelos bancos não conseguiram pagar suas dívidas e ocorreram vários calotes. Lembra-se que o próprio imóvel era dado como garantia da dívida? Então. Ocorre uma grande onda de despejos e muitas pes- soas foram parar nas ruas. Com o aumento da oferta de imóveis (oferta maior que a demanda) os preços desabam. Como as dividas foram transformadas em títulos os bancos comercializaram estes títulos nas bolsas de valores. Estes títulos na bolsa (com base nos empréstimos dados como garantia) despencou causando prejuízos à bancos e a empresas imobiliárias. O resultado: Efeito dominó. Mi- lhares de pessoas perdem a moradia, bancos quebram e o setor de construção civil entrou em paralisia. Consequências da crise - Adoção de medidas Keynesianas, ou seja, os Estados passam a intervir na economia. Os bancos no mundo todo injetam em torno de 400 bilhões nos mercados financeiros através de empréstimos de curto prazo para os bancos manterem as transações financeiras. O dinheiro emprestado é público. O governo norte americano inje- tou muito dinheiro para salvar bancos e estimular fusões entre eles. Os bancos que não receberam ajuda estatal quebraram e levaram junto outros bancos e fundos de pensão. - Os investidores (por segurança param de investir em títulos imobiliários) e migram seus investimentos para as commodities o que provocou aumento na cotação internacional dos grãos. Mais de 20 nações pobres passaram por uma crise alimentar no primeiro semestre de 2008, causando protestos populares. - As medidas Keynesianas são adotadas pelas potências industriais para evitar uma maré de empresas quebradas. Investem trilhões de dólares nas instituições bancárias e grandes empresas. As eficácias das medidas neoliberais passam a ser questionadas. Os governos estatizam empresas e garantem os depósitos bancários de investidores - Recessão (retração da economia) - Desemprego - Diminuição do crescimento econômico mundial DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E MEIO AMBIENTE. A relação entre meio ambiente e desenvolvimento sustentável é um dos temas mais prementes da atualidade, refletindo a necessi- dade urgente de reavaliar as práticas econômicas e sociais à luz dos impactos ambientais. O conceito de desenvolvimento sustentável surge como uma resposta à crescente consciência de que o mode- lo de desenvolvimento econômico vigente, muitas vezes baseado na exploração excessiva de recursos naturais, não é viável a longo prazo. Assim, busca-se um equilíbrio entre crescimento econômico, conservação ambiental e equidade social. A Crise Ambiental Global Atualmente, enfrentamos uma série de crises ambientais, in- cluindo as mudanças climáticas, a perda de biodiversidade, a polui- ção e a degradação dos solos e dos recursos hídricos. As mudanças climáticas, impulsionadas principalmente pelas emissões de gases de efeito estufa resultantes de atividades humanas, como a quei- ma de combustíveis fósseis, representam uma ameaça significativa para ecossistemas, economias e comunidades em todo o mundo. A perda de biodiversidade, por sua vez, resulta da destruição de habitats, poluição, práticas agrícolas insustentáveis e mudanças climáticas, comprometendo os serviços ecossistêmicos dos quais dependemos. REALIDADE BRASILEIRA 296296 a solução para o seu concurso! Editora Desenvolvimento Sustentável como Solução O desenvolvimento sustentável propõe um modelo em que o crescimento econômico é alcançado sem esgotar os recursos natu- rais e prejudicar o meio ambiente. Essa abordagem enfatiza a im- portância de atender às necessidades do presente sem comprome- ter a capacidade das gerações futuras de atender às suas próprias necessidades. Isso envolve a integração de políticas ambientais, econômicas e sociais, a promoção de tecnologias limpas e renová- veis, e a adoção de práticas de consumo e produção responsáveis. Economia Verde e Energias Renováveis Uma parte crucial do desenvolvimento sustentável é a tran- sição para uma economia verde, caracterizada por ser inclusiva e geradora de baixas emissões de carbono. Isso inclui investimentos em energias renováveis, como solar, eólica e hidrelétrica, que são fundamentais para reduzir a dependência de combustíveis fósseis. Além disso, a economia verde envolve a criação de empregos “ver- des” que contribuem para preservar ou restaurar o meio ambiente, seja na agricultura, indústria, serviços ou administração pública. Sustentabilidade Social e Equidade O desenvolvimento sustentável também aborda questões de equidade social e sustentabilidade. Isso envolve garantir que todos tenham acesso aos recursos básicos, educação e saúde, e que as comunidades tenham voz nas decisões que afetam seus ambientes e seus meios de subsistência. A promoção da igualdade de gêne- ro, a proteção dos direitos dos povos indígenas e das comunidades locais, e a garantia de práticas comerciais justas são fundamentais para alcançar a sustentabilidade em todas as suas dimensões. Desafios e Caminhos a Seguir A implementação efetiva do desenvolvimento sustentável re- quer ação coletiva global, envolvendo governos, empresas e socie- dade civil. Acordos internacionais, como o Acordo de Paris sobre mudanças climáticas e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentá- vel das Nações Unidas, são passos importantes nessa direção. No entanto, ainda há desafios significativos, incluindo a necessidade de financiamento adequado, o desenvolvimento de políticas eficazes e a promoção de mudanças comportamentais em nível individual e coletivo. O caminho para o desenvolvimento sustentável não é simples nem fácil, mas é essencial para garantir um futuro onde o progres- so econômico, a conservação ambiental e o bem-estar social cami- nhem lado a lado. Assim, cada ação que tomamos hoje para apoiar este objetivo é um passo em direção a um mundo mais equitativo, saudável e sustentável para todos. BIOMAS BRASILEIROS: USO RACIONAL, CONSERVAÇÃO E RECUPERAÇÃO As formações vegetais são tipos de vegetação facilmente iden- tificáveis na paisagem e que ocupam extensas áreas. É o elemento mais evidente na classificação dos biomas. Estes,por sua vez, são sistemas em que solo, clima, relevo, fauna e demais elementos da natureza interagem entre si formando tipos semelhantes de cober- tura vegetal, como as Florestas Tropicais, as Florestas Temperadas, as Pradarias, os Desertos e as Tundras. Em escala planetária, os biomas são unidades que evidenciam grande homogeneidade nas características de seus elementos. Assim, há Florestas Tropicais na América, África, Ásia e Ocea- nia que, embora semelhantes, possuem comunidades ecológicas com exemplares distintos. Alguns desses exemplares são chama- dos de endêmicos, ou seja, não ocorrem em nenhuma outra área do mundo. Entre outros fatores, isso se explica pela separação dos continentes: o afastamento físico fez com que as espécies vivessem evoluções paralelas, apesar de distintas, processo que é chamado especiação. As plantas e os animais de um mesmo bioma não estão presen- tes, necessariamente, em diferentes regiões do planeta. Exemplo: o chimpanzé é encontrado na Floresta Tropical de Uganda, mas não compõe a fauna das Florestas Tropicais sul-americanas. Por outro lado, várias espécies endêmicas de nosso continente não são en- contradas nas florestas africanas, como é o caso do mico-leão-dou- rado, originário da Mata Atlântica brasileira. Principais Características das Formações Vegetais A formação vegetal é o elemento mais evidente na classifica- ção dos ecossistemas e biomas, por isso, e dependendo da escala utilizada em sua representação, são feitas grandes generalizações. Os elementos climáticos, em especial a temperatura e a umida- de, são determinantes para o tipo de vegetação de uma área. Eles definem diversas características das plantas, necessárias à adapta- ção aos diferentes climas. Com base nessas características é possí- vel classificar as plantas em: Perenes (do latim perene, “perpétuo, imperecível”): plantas que apresentam folhas durante o ano todo; Caducifólias, decíduas (do latim deciduus, “que cai, caduco”) ou estacionais: plantas que perdem as folhas em épocas muito frias ou secas do ano; Esclerófilas (do grego sklerós, “duro, seco, difícil”): plantas com folhas duras, que têm consistência de couro (coriáceas); Xerófilas (do grego xêrós, “seco, descarnado, magro”): plantas adaptadas à aridez; Higrófilas (do grego hygrós, “úmido, molhado”): plantas, geral- mente perenes, adaptadas a muita umidade; Tropófilas (do grego tropos, “volta, giro”): plantas adaptadas a uma estação seca e outra úmida; Aciculifoliadas (do latim acicula, “alfinete, agulhinha”): pos- suem folhas em forma de agulhas, como os pinheiros. Quanto me- nor a superfície das folhas, menos intensa é a transpiração e maior é a retenção de água pela planta; Latifoliadas (do latim lato, “lrgo, amplo”): plantas de folhas lar- gas, que permitem intensa transpiração; são geralmente nativas de regiões muito úmidas. Os índices termopluviométricos, associados a outros fatores de variação espacial menor e que também influem no tipo de ve- getação, como maior ou menor proximidade de curso de água, os diferentes tipos de solo, a topografia e as variações de altitude, determinam a existência de diferentes ecossistemas não contem- plados nos mapas-múndi. Todas as formações vegetais têm grande importância para a preservação dos variados biomas e ecossiste- mas da Terra. REALIDADE BRASILEIRA 297 a solução para o seu concurso! Editora Cobertura Vegetal Original Tundra Vegetação rasteira, de ciclo vegetativo extremamente curto. Por encontrar-se em regiões subpolares, desenvolve-se apenas du- rante os três meses de verão, nos locais onde ocorre o degelo. Um exemplo disso é o rio na Groelândia que se forma nessa estação, com o derretimento da neve. As espécies típicas são os musgos, nas baixadas úmidas, e os líquens, nas porções mais elevadas do terreno, onde o solo é mais seco, aparecendo raramente pequenos arbustos. Floresta Boreal (Taiga) Formação florestal típica da Zona temperada. Ocorre nas altas latitudes do hemisfério norte, em regiões de climas temperados continentais, como Canadá, Suécia, Finlândia e Rússia. Neste últi- mo país, cobre mais da metade do território e é conhecida como Taiga. É uma formação bastante homogênea, na qual predominam coníferas do tipo pinheiro. As coníferas são espécies adaptadas à ocorrência de neve no inverno; são aciculifoliadas e com árvores em forma de cone, o que facilita o deslizamento da neve por suas copas. Essa formação florestal foi largamente explorada para ser usada como lenha e para a fabricação de papel e móveis. Atualmente, a madeira é obtida de árvores cultivadas (silvicultura). Floresta Subtropical e Temperada Esta formação florestal caducifólia, típica dos climas tempe- rados e subtropicais, é encontrada em latitudes mais baixas e sob maior influência da maritimidade. Estendia-se por grandes porções da Europa centro-ocidental, mas por causa de atividades agrope- cuárias, atualmente subsiste na Ásia, na América do Norte e em pequenas extensões da América do Sul e da Oceania. Na Europa, restam apenas pequenas extensões, com a floresta Negra, na Ale- manha, e a floresta de Sherwood, na Inglaterra. Floresta Equatorial e Tropical Nas regiões tropicais quentes e úmidas, encontramos florestas que se desenvolvem graças aos elevados índices pluviométricos. São, por isso, formações higrófilas e latifoliadas, extremamente heterogêneas, que se localizam em baixas latitudes na América, na África e na Ásia. Nessas regiões predominam climas tropicais e equatoriais e espécies vegetais de grande e médio portes, como o mogno, o jacarandá, a castanheira, o cedro, a imbuia e a peroba, além de palmáceas, arbustos, briófitas e bromélias. As Florestas Tropicais possuem a maior biodiversidade do planeta, com muitas espécies ainda desconhecidas. Mediterrânea Desenvolve-se em regiões de clima mediterrâneo, que apre- sentam verões quentes e secos e invernos amenos e chuvosos. É encontrada em pequenas porções da Califórnia (Estados Unidos, onde é conhecida como Chaparral), do Chile, da África do Sul e da Austrália. As maiores ocorrências estão no sul da Europa, onde foi largamente desmatada para o cultivo de oliveiras (espécie nativa dessa formação vegetal) e videiras (nativas da Ásia), e norte da Áfri- ca. Pradarias Compostas basicamente de gramíneas, são encontradas prin- cipalmente em regiões de clima temperado continental. Desen- volvem-se na Rússia e Ásia central, nas Grandes Planícies norte-a- mericanas, nos Pampas argentinos, no Uruguai, na região Sul do Brasil e na Grande Bacia Artesiana (Austrália). Muito usada como pastagem, essa formação é importante por enriquecer o solo com matéria orgânica. Estepes Nessas formações a vegetação é herbácea, como nas Pradarias, porém mais esparsa e ressecada. As Estepes desenvolvem-se em uma faixa de transição entre climas tropicais e desérticos, como na região do Sahel, na África, e entre climas temperados e desérticos, como na Ásia central. Essa vegetação foi muito degradada por ativi- dades econômicas, como o pastoreio. Deserto Bioma cujas espécies vegetais estão adaptadas à escassez de água em regiões de índice pluviométrico inferior a 250 mm anuais, como nos desertos da América, África, Ásia e Oceania. Apresenta espécies vegetais xerófilas, destacando-se as cactáceas. Algumas dessas plantas são suculentas (armazenam água no caule) e não possuem folhas ou evoluíram para espinhos, reduzindo a perda de água pela evapotranspiração. No Saara, em lugares em que a água aflora à superfície, surgem os oásis. Savana Em regiões onde o índice de chuvas é elevado, porém concen- trado em poucos meses do ano, podem desenvolver-se as Savanas, formação vegetal complexa que apresenta estratos arbóreo, arbus- tivo e herbáceo. As Savanas são encontradas em grandes extensões da África, na América do Sul (no Brasil, corresponde ao domínio dos Cerrados) e em menores porções na Austrália e na Índia. Sua área de abrangência tem sido muito utilizada para a agriculturae a pecuária, o que acentuou sua devastação, como tem ocorrido no Brasil central. No continente africano, esse bioma abriga animais de grande porte, como leões, elefantes, girafas, zebras, antílopes e búfalos. Vegetação de Altitude Em regiões montanhosas há uma grande variação altitudinal da vegetação. À medida que aumenta a altitude e diminui a tempera- tura, os solos ficam mais rasos e a vegetação, mais esparsa. Nessas condições, surgem as florestas nas áreas mais baixas e, nas mais altas, os campos de altitude. A Vegetação e os Impactos do Desmatamento Impacto ambiental é um desequilíbrio provocado pela ação dos seres humanos sobre o meio ambiente ou por acidentes naturais, como a erupção de um vulcão (que pode provocar poluição atmos- férica), o choque de um meteoro (destruição de espécies animais e vegetais), um raio (incêndio numa floresta), etc. Quando os ecossistemas sofrem impactos ambientais, geral- mente a vegetação é o primeiro elemento a ser atingido, pois é re- flexo das condições naturais de solo, relevo e clima do lugar em que ocorre. REALIDADE BRASILEIRA 298298 a solução para o seu concurso! Editora Atualmente, todas as formações vegetais, em maior ou menor grau, encontram-se modificadas. Em muitos casos, sobraram apenas alguns redutos em que a vegetação original é encontrada, nos quais, embora com pequenas alterações, ainda preserva suas características principais. Essa devastação deve-se basicamente a interesses econômicos. A primeira consequência do desmatamento é o comprometimento da biodiversidade, por causa da diminuição ou, muitas vezes, da extinção de espécies vegetais e animais, muitas delas ainda nem descobertas e estudadas. Na Floresta Amazônica, há uma grande quantidade de espécies endêmicas. Parte desse patrimônio genético é conhecida pelas várias etnias indígenas que ali habitam. No entanto, a maioria dessas comunidades nativas está sofrendo um processo de integração à sociedade urbano-industrial que tem levado à perda do patrimônio cultural desses povos, dificultando a preservação dos seus conhecimentos. Outro ponto importante que afeta os interesses nacionais dos países onde há florestas tropicais, incluindo o Brasil, é a biopirataria, por meio da qual muitas empresas assumem práticas ilegais para garantir o direito de explorar, futuramente, uma possível matéria-prima para a indús- tria farmacêutica e de cosméticos, entre outras. No Brasil, os incêndios ou queimadas de florestas, que consomem uma quantidade incalculável de biomassa30 todos os anos, são pro- vocados para o desenvolvimento de atividades agropecuárias, muitas vezes em grandes projetos que recebem incentivos governamentais e, portanto, sob o amparo da lei. Podem também ser resultado de práticas criminosas ou ainda de acidentes, incluindo naturais. As consequências socioambientais das interferências humanas em regiões de florestas são várias. Uma das principais é o aumento do processo erosivo, o que leva a um empobrecimento dos solos, podendo ampliar ou formar áreas desertificadas em regiões de clima árido, semiárido e subúmido. Biomas e Formações Vegetais do Brasil Nosso país apresenta grande variedade de ecossistemas. Essa variedade relaciona-se à grande diversidade da fauna e da flora brasi- leiras, das quais muitas espécies são nativas do Brasil, como a jabuticaba, o amendoim, o abacaxi e a castanha-do-pará. No entanto, esses ecossistemas já sofreram grandes impactos negativos desde o início da colonização, com o desenvolvimento das atividades econômicas e a consequente ocupação do território, como se pode constatar ao comparar os dois mapas abaixo. Brasil: vegetação nativa http://www.inf.furb.br/sisga/educacao/ensino/mapaVegetacao.php 30 Biomassa é a quantidade total de matéria viva de um ecossistema, geralmente expressa em massa por unidade de área ou de volume. REALIDADE BRASILEIRA 299 a solução para o seu concurso! Editora Brasil: retratação da vegetação e da cobertura atual31 https://www.nerdprofessor.com.br/mapa-vegetacao-do-brasil/ Características das Formações Vegetais Brasileiras As principais formações vegetais no território brasileiro são: Floresta Amazônica (floresta pluvial equatorial): é a maior floresta tropical do mundo, totalizando cerca de 40% das florestas pluviais tropicais do planeta. No Brasil, ela se estende por 3,7 milhões de km² e 10% dessa área constitui unidades de conservação. Cerca de 15% da vegetação da Floresta Amazônica foi desmatada, sobretudo a partir da década de 1970 com a construção de rodovias e a instalação de atividades mineradoras, garimpeiras, agrícolas e de exploração madeireira. Em razão do predomínio das planícies e dos planaltos de baixa altitude, a topografia não provoca modificações profundas na fisionomia da floresta, que apresenta três estratos de vegetação: → Caaigapó (do tupi-guarani, “mata molhada”) ou igapó: desenvolveu-se ao longo dos rios, numa área permanentemente alagada. Em comparação com os outros estratos da floresta é o que possui menos quantidade de espécies e é constituído por árvores de menor porte, incluindo palmeias e plantas aquáticas, destacando-se a vitória-régia; → Várzea: área sujeita a inundações periódicas, com a vegetação de médio porte raramente ultrapassando os 20 m de altura, como o pau-mulato e a seringueira. Como se situa entre a matas de igapó e de terra firme, possui características de ambas; → Caaetê (do tupi-guarani, “mata seca”) ou terra firme: área que nunca inunda, na qual se encontra vegetação de grande porte, com árvores chegando aos 60 m de altura, como a castanheiro-do-pará e o cedro. O entrelaçamento das copas das árvores forma um dossel que dificulta a penetração da luz, propiciando um ambiente não exposto ao sol e úmido no interior da floresta. 31 Em geografia e ecologia, a antropização é a conversão de espaços abertos, paisagens e ambientes naturais pela ação humana. REALIDADE BRASILEIRA 300300 a solução para o seu concurso! Editora Mata Atlântica (floresta pluvial tropical): originalmente cobria uma área de 1 milhão de km², estendendo-se ao longo do litoral desde o Rio Grande do Norte até o Rio Grande do Sul e alargando- -se para o interior em Minas Gerais e São Paulo. É um dos biomas mais importantes para a preservação da biodiversidade brasileira e mundial, mas é também o mais ameaçado. Restam apenas 7%de sua área original e, desses remanescentes, quatro quintos estão lo- calizados em propriedades privadas. As unidades de conservação abrangendo esse bioma constituem apenas 2%. Mata de Araucárias ou Mata dos Pinhais (floresta pluvial subtropical): nativa do Brasil, é uma floresta na qual predomina a araucária (Araucaria angustifolia), também conhecida como pinhei- ro-do-paraná ou pinheiro brasileiro, espécie adaptada a climas de temperaturas moderadas a baixas no inverno, solos férteis e índice pluviométrico superior a 1000 mm anuais. Nesse bioma é comum a ocorrência de erva-mate, além de grande variedade de espécies va- lorizadas pela indústria madeireira, como os ipês. Originariamente, essa floresta dominava vastas extensões dos planaltos da região Sul e pontos altos da serra da Mantiqueira nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Foi desmatada, sobretudo, para a retirada de madeira utilizada na fabricação de móveis. Mata dos Cocais: esta formação vegetal se localiza no estado do Maranhão, encravada entre a Floresta Amazônica, o Cerrado e a Caatinga, caracterizando-se como mata de transição entre forma- ções bastante distintas. É constituída por palmeiras, com grande predominância do babaçu e ocorrência esporádica de carnaúba; desde o período colonial, a região é explorada economicamente pelo extrativismo de óleo de babaçu e cera de carnaúba. Atualmen- te, porém, vem sendo desmatada para o cultivo de grãos destina- dos à exportação, com destaque para a soja. Caatinga: vegetação xerófila, adaptada ao clima semiárido do Sertão nordestino, na qual predominam arbustos caducifólios e es- pinhosos;ocorreram também cactáceas, como o xique-xique e o mandacaru. A palavra “caatinga” significa, em tupi-guarani, “mata branca”, cor predominante da vegetação durante a estação seca. No verão, em razão da ocorrência de chuvas, brotam folhas verdes e flores. Sua área original era de 740 mil km², mas já teve 50% de sua área devastada e menos de 1% faz parte de unidades de con- servação. Cerrado: originalmente cobria cerca de 2 milhões de km² do território brasileiro, mas cerca de 40% de sua área foi desmatada. É constituído por vegetação caducifólia, predominantemente ar- bustiva, de raízes profundas, galhos retorcidos e casca grossa (que dificulta a perda de água). Duas das espécies mais conhecidas são o pequizeiro e o buriti. A vegetação próxima ao solo é composta de gramíneas, que secam no período de estiagem. É uma formação adaptada ao clima tropical típico, com chuvas abundantes no ve- rão e inverno seco, desenvolvendo-se, sobretudo, no Centro-Oeste brasileiro e em porções significativas do estado de Roraima. Nas re- giões Sudeste e Nordeste do país aparecem em manchas isoladas, cercadas por outro tipo de vegetação. Em regiões mais úmidas, essa formação se torna mais densa e com árvores maiores, caracterizan- do o chamado “cerradão”. Pantanal: estende-se, em território brasileiro, por 140 mil km² dos estados de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, em planícies sujeitas a inundações. No Pantanal há vegetação rasteira, floresta tropical e até mesmo vegetação típica do Cerrado nas regiões de maior altitude. Por isso caracteriza-se não como uma formação ve- getal, mas como um complexo que agrupa várias formações, com fauna muito rica. Esse bioma vem sofrendo diversos problemas ambientais, decorrentes principalmente da ocupação em regiões mais altas, onde nasce a maioria dos rios. A agricultura e a pecuária provocam erosão dos solos, assoreamento e contaminação dos rios por agrotóxicos. Campos Naturais: formações rasteiras ou herbáceas constituí- das por gramíneas que atingem até 60 cm de altura. Sua origem pode estar associada a solos rasos ou temperaturas baixas em re- giões de altitude elevada, áreas sujeitas à inundação periódica ou ainda solos arenosos. Os campos mais expressivos do Brasil loca- lizam-se no Rio Grande do Sul, na chamada Campanha Gaúcha, apropriados inicialmente como pastagem natural, atualmente são amplamente cultivados tanto dessa forma quanto para a produção agrícola mecanizada. Destacam-se, ainda, os campos inundáveis da ilha de Marajó (PA) e do Pantanal (MT e MS), utilizados, respectiva- mente, para criação de gado bubalino e bovino, além de manchas isoladas na Amazônia, com destaque ao estado de Roraima, e nas regiões serranas do Sudeste. Vegetação Litorânea: a restinga e os manguezais são conside- radas formações vegetais litorâneas. A restinga se desenvolve no cordão arenoso formado junto à costa, com predominância da ve- getação rasteira, chamada de pioneira por possibilitar a fixação do solo e permitir a ocupação posterior de arbustos e algumas árvores. Os manguezais são nichos ecológicos responsáveis pela reprodução de grande número de espécies de peixes, moluscos e crustáceos. Desenvolvem-se nos estuários, e a vegetação, arbustiva e arbórea, é halófila (adaptada ao sal da água do mar), podendo apresentar raízes que, durante a maré baixa, ficam expostas. As principais ameaças à preservação dessas formações vegetais são o avanço da urbanização, a pesca predatória, a poluição dos estuários e o turis- mo desordenado, incentivando a instalação de aterros. Matas de Galeria (Ciliar) e Capão Podemos encontrar pequenas formações florestais em meio a outros tipos de vegetação, tai como: Mata de Galeria ou Mata Ciliar: tipo de formação vegetal que acompanha o curso de rios do Cerrado, onde é muito frequente, e da Caatinga. Nas áreas próximas às margens dos rios perenes, o solo é permanentemente úmido, criando condições para o desen- volvimento dessa mata, mais densa do que o bioma onde está en- cravada. Capão: em locais que correspondem a pequenas depressões, com baixos índices de chuvas, o nível hidrostático (ou lençol freáti- co) aflora ou chega muito próximo à superfície. Aí se desenvolvem os capões, formações arbóreas geralmente arredondadas em meio à vegetação mais rala ou rasteira. REALIDADE BRASILEIRA 301 a solução para o seu concurso! Editora Domínios Morfoclimáticos Brasil: Domínios Morfoclimáticos http://educacao.globo.com/geografia/assunto/geografia-fisica/domi- nios-morfoclimaticos.html Em 1965, o geógrafo Aziz Ab’Sáber (1924-2012) estabeleceu uma classificação dos domínios morfoclimáticos brasileiros, na qual cada domínio corresponde a uma diferente associação das condi- ções de relevo, clima e vegetação. Assim, por exemplo, o domínio equatorial amazônico é formado por terras baixas (relevo), floresta- das (vegetação) e equatoriais (clima). Legislação Ambiental e Unidades de Conservação A expressão “meio ambiente” envolve todas as dimensões que tornam a vida das pessoas mais saudáveis e equilibrada, como a qualidade do ar e o conforto acústico. Essa expressão, portanto, en- globa tanto o meio ambiente natural quanto o cultural. A legislação brasileira relativa ao meio ambiente é ampla e bem elaborada. Os problemas ambientais que observamos com fre- quência, amplamente divulgados pelos meios de comunicação, não resultam da limitação da legislação, mas da ineficiência de ações educativas e de fiscalização. Histórico das Leis Ambientais Brasileiras Ao longo dos períodos colonial e imperial de nossa história, foram elaboradas algumas leis voltadas à proteção do meio am- biente, mas elas tinham abrangência restrita, como a proteção ao pau-brasil e a algumas espécies animais. Já no período republicano, em 1911, foi criada a primeira reserva florestal do país, onde atual- mente se encontra o estado do Acre; em 1921 foi criado o Serviço Florestal do Brasil, que hoje é o Instituto do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama); e em 1934 foi aprovada a primeira versão do Código Florestal. Durante o período da ditadura militar (1964-1985), foram cria- dos projetos de ocupação humana e econômica das regiões Nor- te e Centro-Oeste que provocaram grandes impactos negativos ao meio ambiente. Esses projetos previam a expansão da agricultura e a criação de gado em áreas de floresta e a prática de garimpo, mine- ração e extração de madeira, instituída com a abertura das rodovias de integração. Como os impactos, principalmente na Floresta Amazônica, trouxeram repercussão negativa em escala mundial, em 1974 o governo brasileiro promoveu mudanças de estratégia, implantan- do ações de proteção ambiental: combate à erosão, criação das Estações Ecológicas e Áreas de Proteção Ambiental, metas para o zoneamento industrial e criação da Secretaria Especial do Meio Am- biente. Em 1979, foi criado o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que instituiu, em 1981, a Política Nacional do Meio Am- biente (PNMA, Lei nº 6.938). Essa lei promoveu um grande avanço ao apresentar as bases para a proteção ambiental e conceituar ex- pressões como “meio ambiente”, “poluidor”, “poluição” e “recursos naturais”. A PNMA busca a preservação e a recuperação das áreas ambientalmente degradadas, visando garantir condições de desen- volvimento social e econômico, e segurança nacional e a proteção da dignidade da vida humana. A partir de sua publicação se instituiu que o meio ambiente é um bem público a ser resguardado e prote- gido, em prol da coletividade. Em 1986, o Conama publicou uma resolução sobre o tema, em que se destaca a exigência de elaboração do Estudo de Impacto Am- biental (EIA), de caráter técnico e detalhista, e do seu respectivo Re- latório de Impacto Ambiental (Rima), menos detalhado e acessível aos que não são especialistas na área. Esses dois documentos são necessários para o licenciamento e a autorização expedidos pelo Ibama para a realização de qualquer obra ou atividade que provo-que impactos ambientais. Outro grande destaque na evolução do Direito Ambiental Bra- sileiro foi atingido com a Constituição Federal de 1988, a primeira de nossa história a dedicar um capítulo ao esse tema e a incorporar o conceito de desenvolvimento sustentável. Ela estabelece, no arti- go 225, que “Todos tem direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia quali- dade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defende-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”. O parágrafo terceiro desse mesmo artigo estipula que: “As condu- tas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão aos infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e admi- nistrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos causados”. A previsão de sanções penais significa a criminalização das ati- vidades prejudiciais ao meio ambiente, o que foi regulamentado somente dez anos depois, em 1998, com a Lei nº 9.605. Conhecida como a Lei dos Crimes Ambientais, ela define os crimes contra a fauna e aflora, além dos relacionados à poluição, ao ordenamento urbano, ao patrimônio cultural e outros. Quem comete agressões ambientais como desmatamento, poluição do ar ou de águas, ou falsificação de Relatório de Impacto Ambiental, é punido com mul- ta, proibição de exercício de certas atividades e até mesmo prisão. Código Florestal O Código Florestal foi criado em 1934 e reformulado duas ve- zes: em 1965 e em 2012 (Lei nº 12.561/12). Neste ano houve mui- tos embates entre ambientalistas, que queriam ampliar as áreas de REALIDADE BRASILEIRA 302302 a solução para o seu concurso! Editora preservação e a obrigação de recompor o que foi desmatado irregularmente, e grandes proprietários, que queriam autorização para ampliar as áreas de agricultura e pecuária sem recompor os biomas. Esta é uma das mais importantes leis ambientais do país e estabelece a normas de ocupação e uso do solo em todos os biomas brasileiros. Os incisos II e III do artigo 1º, parágrafo 2º, merecem destaque, pois definem as áreas de preservação e as reservas legais: Áreas de Preservação Permanente (APPs): só podem ser desmatadas com autorização do Poder Executivo Federal e em caso de uso para utilidade pública ou interesse social, como a construção de uma rodovia, por exemplo. São a margens de rios, lagos ou nascentes, várzeas, encostas íngremes, mangues e outros ambientes. A principal função das APPs é preservar a disponibilidade de água, a paisagem, o solo e a biodiversidade. Reservas Legais: em cada um dos sete biomas brasileiros, os proprietários de terras são obrigados a preservar uma parte da vegeta- ção nativa. Na Amazônia, são obrigados a manter 80% da propriedade com floresta nativa, índice que cai para 35% no Cerrado localizado dentro da Amazônia a 20% em todas as demais regiões e biomas do país. É importante notar que o Código Florestal rege apenas as pro- priedades que podem ser utilizadas para atividades agrícolas, e não se aplica, portanto, no interior das unidades de conservação, como os parques e as reservas ecológicas. As Unidades de Conservação As unidades de conservação são doze áreas de preservação agrupadas conforme a restrição ao uso. As unidades classificadas como de restrição total são denominadas Unidades de Proteção Integral, como o Parque Nacional da Serra dos Órgãos, em Teresópolis, Rio de Janeiro, por exemplo. Aquelas cujo nível de restrição é menor e têm uso voltado ao desenvolvimento cultural, educacional e recreacional são denominadas Unidades de Uso Sustentável. Unidades de Conservação conforme a Restrição ao Uso Unidades de Proteção Integral Unidades de Uso Sustentável Estação Ecológica Área de Proteção Ambiental Reserva Biológica Área de Relevante Interesse Ecológico Parque Nacional Floresta Nacional Monumento Natural Reserva Extrativista Refúgio de Vida Silvestre Reserva de Fauna Reserva de Desenvolvimento Sustentável Reserva Particular do Patrimônio Natural Existem unidades de conservação definidas pela Ibama em todos os biomas brasileiros, inclusive nos biomas marinhos. Há também unidades de conservação mantidas por estados e até por municípios, criadas por leis estaduais e municipais. É importante destacar que a criação de leis, decretos e normas voltados à questão ambiental ao longo da história brasileira é conse- quência do aumento da importância do tema no mundo e no Brasil. Essa evolução deu-se de forma lenta, mas contínua. Esse processo foi influenciado pelas conquistas obtidas em âmbito internacional nas diversas conferências mundiais voltadas ao meio ambiente, e parte da sociedade civil brasileira cumpriu um importante papel ao pressionar os governos legisladores em aprovar leis eficazes e incluir o tema na própria Constituição do país. Objetivos das Unidades de Conservação O Código Florestal, como várias outras leis que se seguiram, serviu de base para a criação do Sistema Nacional de Unidades de Con- servação da Natureza, que têm como propósitos: Contribuir para a manutenção da diversidade biológica e dos recursos genéticos no território nacional e nas águas jurisdicionais; Proteger as espécies ameaçadas de extinção no âmbito regional e nacional; Contribuir para a preservação e a restauração da diversidade de ecossistemas naturais; Promover o desenvolvimento sustentável a partir dos recursos naturais; Promover a utilização dos princípios e práticas de conservação da natureza no processo de desenvolvimento; Proteger paisagens naturais e pouco alteradas de notável beleza cênica; Proteger as características relevantes de natureza geológica, geomorfológica, espeleológica, arqueológica, paleontológica e cultural; Proteger e recuperar recursos hídricos e edáficos; Recuperar ou restaurar ecossistemas degradados; Proporcionar meios e incentivos para atividades de pesquisa científica, estudos e monitoramento ambiental; Valorizar econômica e socialmente a diversidade biológica; Favorecer condições e promover a educação e interpretação ambiental, a recreação em contato com a natureza e o turismo ecológico; Proteger os recursos naturais necessários à subsistência de populações tradicionais, respeitando e valorizando seu conhecimento e sua cultura e promovendo-as social e economicamente. REALIDADE BRASILEIRA 303 a solução para o seu concurso! Editora MATRIZ ENERGÉTICA: FONTES RENOVÁVEIS E NÃO RENOVÁVEIS As fontes de energia são de grande importância para o desenvolvimento de um país. No Brasil, as principais fontes de energia são a energia hidrelétrica, petróleo, biocombustíveis e carvão mineral. • Hidrelétrica: utiliza usinas hidrelétricas para a produção de eletricidade. • Petróleo: utilizado para produzir combustíveis como a gasolina e óleo diesel e abastecer usinas termelétricas. • Carvão Mineral: utilizado para produzir energia termelétrica e é a matéria prima para as indústrias siderúrgicas. • Biocombustíveis: são combustíveis alternativos originados de produtos vegetais e renováveis. — Fontes de Energia Renováveis e não renováveis As fontes de energia não renováveis são aquelas que podem se esgotar do planeta, por não terem regeneração. As renováveis podem se regenerar e portanto, não agridem tanto o meio ambiente. • Fontes de Energia não Renováveis: petróleo, carvão mineral, energia nuclear e gás natural. • Fontes de Energia Renováveis: energia solar, energia eólica, biocombustíveis, energia hidráulica e energia geotérmica. MUDANÇA CLIMÁTICA Efeito Estufa REALIDADE BRASILEIRA 304304 a solução para o seu concurso! Editora Sempre ouvimos falar que o efeito estufa é o grande vilão do aquecimento global, que não deixa de ser verdade. Mas uma coisa precisa ficar clara: é graças a ele que existe vida em nosso planeta. O efeito estufa é um fenômeno natural que faz com que a tempe- ratura média do globo se conserve nos limites necessários para a manutenção da vida, em torno de 14,5 graus Celsius. Ele ocorre em razão da existência de gases,como o carbono, que estão naturalmente na atmosfera e impedem a dissipação para o espaço de parte da radiação vinda do Sol, que é absorvida e re- fletida pela Terra32 O problema é que, por causa da ação do homem, esse bené- fico “cobertor” atmosférico está se transformando num forno. O intenso uso de combustíveis fósseis, especialmente carvão e petró- leo, e a utilização predatória da terra (desmatamento, queimadas, depósitos de lixo) liberam na atmosfera uma imensa quantidade de gases que retêm calor, como dióxido de carbono, metano e óxidos de nitrogênio, intensificando o efeito estufa. O IPCC defende a tese de que essas atividades teriam causado um aumento de 0,7 grau no século XX. Aumento das emissões Desde a Revolução Industrial, há mais de 200 anos, nossas atividades econômicas são baseadas na queima de combustíveis fósseis. A energia que consumimos para gerar eletricidade e aque- cimento, para nos locomovermos em viagens de carro, avião ou na- vios e para mover a atividade manufatureira contribui com cerca de metade das emissões dos gases de efeito estufa. Outras atividades, como a agricultura, a derrubada de flores- tas e a manutenção de aterros sanitários, também despejam no ar enorme quantidade de gás carbônico, metano e óxido nitroso. Todas essas atividades são realizadas mais intensamente nos países desenvolvidos. Estados Unidos, Japão e muitas nações eu- ropeias apresentam elevada produção de gases estufa per capita, principalmente por causa do uso de automóveis e da elevada in- dustrialização. Contudo, países em desenvolvimento, como China e Brasil, vêm aumentando significativamente as emissões desses gases nos últimos anos. Os chineses já ultrapassaram os norte-americanos como os maiores poluidores do planeta, sendo responsáveis por um quarto das emissões mundiais. No Brasil, 61% das emissões de gases-estu- fa estão ligadas ao desmatamento. Em busca de uma economia verde Apesar de parecer um palavrão, a sustentabilidade está pre- sente no cotidiano de todos nós. Separar o lixo em casa, economi- zar água, desligar as luzes quando desnecessário, não jogar lixo no chão, escolher eletrodomésticos que economizem energia, cuidar de plantas e animais. Essas ações nos parecem muitas vezes natu- rais, mas nem sempre foi assim. Faz apenas algumas décadas que os primeiros ambientalistas, cientistas e pesquisadores passaram a defender a preservação dos mananciais e dos biomas, a redução no consumo de energia, a de- posição adequada do lixo e a reciclagem de materiais. A diferença, agora, é que essa visão ambientalista contamina a economia globalizada, levando empresas e governos a reconsiderar seu modelo econômico. Isso faz com que sejam promovidas cam- panhas de conscientização que atingem largamente a população. 32 http://www.mundoedu.com.br/uploads/pdf/554aaa4b0e16e.pdf O meio ambiente transforma-se numa questão estratégica para a vida econômica, social e cultural, e o desenvolvimento tem de ser sustentável, ou seja, deve incluir em seus pressupostos a ma- nutenção de recursos naturais e o bem-estar dos cidadãos. No início dos anos 90, durante a Conferência Eco 92, realizada no Rio de Janeiro, os temas da sustentabilidade e da preservação ambiental ganharam mais força e o reconhecimento de diversos países. Em 2012, vários líderes mundiais voltaram a se reunir na Rio+ 20, com o objetivo de fazer um balanço do que foi feito e dis- cutir novas formas de equilibrar as atividades econômicas com a preservação do meio ambiente. Para boa parte dos governos do mundo e dos cientistas reu- nidos por eles, organizados no Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o clima da Terra está passando por um aquecimento global, que estaria sendo provocado pela ação humana, com a liberação de poluentes na atmosfera que acen- tuam o efeito estufa. Também estava na pauta a preservação da biodiversidade do planeta, que implica equilíbrio e estabilidade de ecossistemas e seu aproveitamento pela humanidade de forma a preservá-las. O uso descontrolado de matérias-primas, o crescimento caóti- co das cidades e o desmatamento são temas que integraram toda essa discussão. Mais difícil do que apontar os erros em relação à forma de tra- tar o meio ambiente era achar soluções possíveis dentro de realida- des tão diversas. Na hora de aplicar medidas concretas, esbarra-se em diferentes interesses de cada país ou grupo social, e a grande questão de quem arca com o ônus das políticas de preservação. No plano mundial, os países mais desenvolvidos alegavam que a crise econômica impedia a implementação de medidas em larga escala, pois afetariam ainda mais sua economia, já fragilizada. Por sua vez, as nações em desenvolvimento, que apresentavam cresci- mento, não queriam prejudicar sua economia, em expansão. Como tudo começou Há quatro décadas discutem-se as questões ambientais em âmbito global. Em 1972, na Conferência Mundial de Estocolmo, abordou-se pela primeira vez a produção (principalmente indus- trial) dos países ricos como causa importante da degradação da na- tureza. Essa perspectiva marcou uma nova etapa da preocupação ambiental. Depois, em 1987, o Relatório Nosso Futuro Comum, da Co- missão Mundial de Meio Ambiente e Desenvolvimento, retomou a questão, lançando o conceito de desenvolvimento sustentável, cuja proposta visava a compatibilizar o crescimento econômico com o equilíbrio ambiental, de maneira a garantir a satisfação das neces- sidades das gerações presentes e futuras. Outro marco foi a Eco 92, a conferência mundial sobre meio ambiente realizada no Rio de Janeiro, em 1992. O encontro apro- vou o documento Convenção sobre a Mudança do Clima, que trata do aquecimento global, e a Convenção sobre a Diversidade Biológi- ca, que trata da preservação dos ecossistemas e hábitats. O documento mais abrangente elaborado pelo encontro foi a Agenda 21, um plano que estabelece estratégias globais, nacionais e locais para promover o desenvolvimento sustentável no mundo. A Agenda 21 traduz os compromissos com o desenvolvimento sustentável em 27 princípios, calcados em três premissas: → os países desenvolvidos devem mudar seu padrão de produ- ção e consumo e, portanto, seu modelo econômico; REALIDADE BRASILEIRA 305 a solução para o seu concurso! Editora → os países em desenvolvimento devem manter as metas de crescimento, mas adotar métodos e sistemas de produção susten- táveis; → as nações desenvolvidas devem apoiar o crescimento das mais pobres, com recursos financeiros, transferência de tecnologia e reformas nas relações comerciais e financeiras internacionais. A partir de então, cada país signatário é considerado parte des- sa convenção e indica representantes para as discussões, realizadas uma vez por ano, numa Conferência Geral das Partes (cuja sigla é COP). Amais importante delas, até hoje, foi a terceira conferência (a COP-3), que ocorreu em 1977, em Kyoto, no Japão. Criado no en- contro, o Protocolo de Kyoto é um importante documento por ter sido o primeiro acordo oficial com metas e prazos para reduzir as emissões de gases do efeito estufa. O documento estabeleceu diferenças entre os países ricos, que tinham metas percentuais de redução por ser os principais respon- sáveis pelos gases emitidos nos últimos dois séculos, e aqueles em desenvolvimento e industrialização recentes, entre os quais Brasil, China e Índia, que se comprometiam a adotar medidas sem metas pré-estabelecidas. O protocolo, porém, demorou para entrar em vigor, pois de- veria ter a adesão de um número de países que representasse pelo menos 55% das emissões globais (relativas a 1990). Isso só aconte- ceu em 2005, quando superou esse patamar com a adesão da Rús- sia, valendo a princípio para o período de 2008 até o fim de 2012. No entanto, qualquer redução significativa continuou depen- dendo dos grandes emissores, e nem todos ratificaram o acordo. A principal ausência foi dos Estados Unidos, que se recusam a assi- nar o protocolo senão houver metas de redução obrigatórias para todos os países em desenvolvimento. Eles alegaram, ainda, que a economia do país seria bastante afetada. Mais tarde, com a não participação norte-americana, outras nações também abandonaram os compromissos firmados no pro- tocolo. Os governos de Canadá, Japão, Austrália e Rússia passaram a fazer coro com os Estados Unidos na reclamação contra as econo- mias emergentes, que passaram a ter grande peso no balanço de emissões. Países como China, Índia e Brasil não são considerados ricos e, portanto, não têm metas obrigatórias. No entanto, o crescimento econômico dessas nações nos últimos anos, principalmente das su- perpopulosas China e Índia, aumentou muito a emissão de carbono global, sem que eles tenham que cumprir metas. Novas perspectivas Havia expectativa de que um novo acordo fosse acertado na COP-15, que aconteceu em 2009, em Copenhague (Dinamarca), mas ela fracassou. Na conferência seguinte, a COP-16, realizada em 2010, em Cancún (México), os participantes priorizaram a regula- mentação de medidas já discutidas para enfrentar ou amenizar as consequências do aquecimento global. A principal delas foi a criação de um Fundo Verde, no qual os países ricos se comprometeram a depositar 30 bilhões de dólares, até o fim de 2012, para ajudar os países pobres a adotar medidas na área ambiental. Também foi aprovada a criação do mecanismo de Redução de Emissões e Degradação Florestal (Redd, sigla em inglês), que permitirá a países como o Brasil receber compensações financeiras para preservar suas florestas. A primeira etapa do Protocolo de Kyoto venceu em 2012 sem alcançar seus objetivos. Ainda se tentava chegar a uma nova fase do acordo, na COP-17, realizada em Durban, na África do Sul, em dezembro de 2011. Apesar da recusa das nações desenvolvidas em assinar qualquer compromisso, chegou-se a um consenso: o prazo de validade da primeira etapa do protocolo teve seu final prorroga- do por mais cinco anos, até 2017. Com esse acordo, as nações assinaram um documento que de- via servir de base para um futuro novo protocolo. Esse documen- to-base, chamado Plataforma Durban, fixou uma agenda que cul- minou na criação, em 2015, de um novo acordo, que obriga todas as nações, e não apenas aquelas listadas no Protocolo de Kyoto, a cumprir metas de redução nas emissões a partir de 2020. Na prática, a plataforma foi só uma promessa. Mas, no mundo das políticas globais, significou um avanço na luta contra as mudan- ças climáticas, ainda mais levando em conta que os dois maiores poluidores do mundo, China e Estados Unidos, concordaram em integrar esse pré-acordo. Aqui no Brasil, a lei que institui a Política Nacional de Mudan- ças Climáticas, sancionada pelo então presidente da época, Lula, no início de 2010, estabeleceu a meta brasileira de redução nas emis- sões de CO² entre 36% e 39% até 2020, usando como parâmetro as emissões projetadas para esse período se nada fosse feito. Como o desmatamento é responsável por cerca de 75% das emissões brasileiras, essa meta implicava diminuir o índice do país. Ao organizar a Rio+20, a intenção das Nações Unidas era deba- ter também como a crise econômica mundial poderia ser uma boa oportunidade para rever o modelo econômico atual. As mudanças propostas deveriam se apoiar sobre três pilares: sociedade, econo- mia e meio ambiente. Assim, à lista de questões ambientais, a ONU acrescentou o combate à pobreza e à fome e a crise econômica mundial. Por isso, o documento final da conferência abordava formas de promover uma “economia verde”, que não prejudicasse o meio ambiente, promovendo a eficiência no uso dos recursos naturais e, ao mesmo tempo, promovendo a erradicação da pobreza e da fome. Há quem critique o documento por apresentar uma pauta am- pla demais, que pode não resultar em avanços concretos. Segundo os críticos, seria melhor tratar apenas das questões do meio am- biente, que já são suficientemente complexas. Para evitar que a questão se mantenha no terreno do debate teórico, seria preciso estabelecer metas específicas para cada ação, com valores claros a ser alcançados dentro de prazos determina- dos. Mas as propostas das conferências exigem políticas de governo para que saiam do papel e sejam postas em prática, o que não é tarefa fácil. Esse desafio é o que chamamos de Governança Glo- bal, ou seja, como os países se organizarão, em termos de metas, acordos, protocolos e instituições, para colocar a economia verde em prática. REALIDADE BRASILEIRA 306306 a solução para o seu concurso! Editora As nações desenvolvidas deixaram a desejar quanto a promover a igualdade de oportunidades. A transferência de tecnologia ficou aquém do esperado. A ajuda financeira prometida às nações pobres pelos 22 países mais ricos do planeta também está longe de atingir o compromisso assumido, em parte devido à crise econômica global. Camada de Ozônio Diversas mudanças climáticas bruscas já ocorreram no mundo, como as ondas de calor nos anos 1980, considerada a década mais quente do século XX. Embora as ondas de calor possam estar relacionadas a processos naturais, não há dúvida de que os gases produzidos pela atividade humana e lançados na atmosfera contribuem para o aumento da temperatura média da Terra. O gás ozônio, presente naturalmente na estratosfera, desempenha uma função de extrema importância: ele filtra cerca de 70% a 90% dos raios ultravioletas emitidos pelo Sol. Não fosse a presença da camada de ozônio, os raios ultravioletas atingiriam diretamente a Terra e, em consequência, teríamos uma elevação de temperatura tão violenta que destruiria qualquer forma de vida aqui existente. No entanto, é preciso lembrar que, no nível do solo, o ozônio é uma forma perigosa de poluição, exercendo ação tóxica sobre vegetais e seres humanos. Atualmente, muito se discute o problema da destruição da camada de ozônio. A diminuição desta camada ameaça a saúde humana, podendo provocar doenças, como câncer de pele, queimaduras, envelhecimento precoce, catarata ocular e imunodeficiência. Mas ela também afeta a flora e a fauna, além de influir no clima do planeta. REALIDADE BRASILEIRA 307 a solução para o seu concurso! Editora Desde 1974, estudos associam a destruição do ozônio estratosférico ao maciço e descontrolado uso dos CFCs, um grupo de gases utilizados principalmente nos sistemas de refrigeração e na produção de aerossóis (sprays), solventes, isopor etc. Uma vez presentes na atmosfera e submetidos a reações químicas (liberação de íons de cloreto na estratosfera) e a reações com outros gases, os CFCs - compostos de cloro (Cl), adquirem a propriedade de destruir o ozônio. Estudos recentes comprovaram uma diminuição de 3% a 4% da camada de ozônio na Antártida, originando o chamado buraco na camada de ozônio. A quase totalidade dos CFCs presentes na atmosfera dessa região provém dos países industrializados e é transportada pela circulação atmosférica (massas de ar). Em 1987, no Protocolo de Montreal (Canadá), 24 países desenvolvidos assinaram um compromisso de redução da produção de CFC, substituindo-o por gases menos nocivos. De fato, o uso desses gases tem se reduzido e o buraco na camada de ozônio pode diminuir ou mesmo desaparecer se forem mantidas as providências estabelecidas também em outras convenções mundiais (Estocolmo, na Suécia, 1972; Rio de Janeiro, 1992; Kyoto, no Japão, 1997 etc.). O buraco na camada de ozônio é detectável por meio de imagens de satélites, como podemos observar na figura. Imagem de setembro de 2004, feita por satélite de monitoramento da NASA que mostra o buraco na camada de ozônio sobre a Antártida. Este buraco é consequência da emissão de gases ao longo de anos, em todo o planeta. Chuva Ácida Trata-se de chuva, neve ou neblina com alta concentração de ácidos em sua composição. Com a denominação genérica de chuva ácida, sua origem são os óxidos de nitrogênio (NOx) e o dióxido de enxofre (SO²) liberados na atmosfera pelaqueima de combustíveis fósseis (principalmente o carvão mineral). Esses compostos reagem com o vapor de água presente na atmosfera, formando o ácido nítrico (HNO³) e o ácido sulfúrico (H²SO4), que, mais tarde, se precipitam e alteram as características do solo e da água, prejudicando lavouras, florestas e a vida aquática. Também danificam edifícios e monumentos históricos. REALIDADE BRASILEIRA 308308 a solução para o seu concurso! Editora Inversão Térmica Os grandes centros urbanos, principalmente os localizados em áreas de serras ou montanhas são as regiões comumente mais afeta- das pela inversão térmica. Essa inversão acontece quando o ar frio e mais denso não consegue circular por uma camada de ar mais quente e menos densa. Sem essa circulação ocorrem alterações significativas na temperatura do local33. Um dos agravantes dessa situação é que com a impossibilidade de circulação, o ar mais denso (frio) fica retido nas regiões mais pró- ximas da superfície retendo junto a ele uma grande quantidade de gases poluentes. Essa camada de ar denso é facilmente verificada ao apresentar uma cor acinzentada decorrente da alta concentração de gases emitidos pelas indústrias e pelos automóveis, principalmente. TRANSIÇÃO ENERGÉTICA Você sabe o que é a “transição energética”? Essa palavra está cada vez mais em evidência com a mudança climática em todo o mundo. A necessidade de ações mais focadas na redução de emissão de gases do efeito estufa (GEE), como na utilização de geração energia com fontes renováveis, é essencial para o planeta. Desde os primórdios da civilização humana passamos por algum tipo de transição energética. Seja ela humana, animal ou até mesmo aquela vinda da queima dos combustíveis fósseis, como o petróleo e o carvão. A evolução de uma comunidade ou região pode ser anali- sada com base na forma de controlar e consumir energia. 33 https://querobolsa.com.br/enem/biologia/problemas-ambientais REALIDADE BRASILEIRA 309 a solução para o seu concurso! Editora Atualmente, quando falamos de transição energética, estamos destacando a mudança de uma fonte de energia para outra de forma mais sustentável, ou seja, uma matriz que reduza as emissões de gases de efeito estufa. Além disso, a transição energética tem sido apontada como um dos grandes pilares para o crescimento econômico e social dos países, de forma justa e inclusiva. REALIDADE BRASILEIRA 310310 a solução para o seu concurso! Editora Transição energética consiste em passar de uma matriz de fonte de energia que utiliza combustíveis fósseis, como Petróleo, gás natu- ral e carvão, que são grandes emissores de Carbono (CO2) na atmosfera, para fontes renováveis, como sol, água, vento e biomassa, que emitem menos gases de efeito estufa. O Ministério de Minas Energia (MME) é um dos protagonistas mundiais deste tema e é o principal responsável pela Política Nacional de Transição Energética, que poderá levar o Brasil para outro nível mundial em fontes renováveis de energia. Hoje, o país já utiliza 48% de energia renovável, acima da média mundial que é de 15%. Contudo, ainda tem grande potencial de recursos hídricos, solar e eólico para ser explorado de forma estável e eficiente para o sistema. A transição energética é um conjunto de políticas fundamentais para o setor energético e para o desenvolvimento socioeconômico do país. O grande desafio é conciliar geração de emprego, renda, inclusão social, combate às desigualdades, melhoria da qualidade de vida do brasileiro, reindustrialização, preservação da biodiversidade e da qualidade ambiental, entre outros. INDÚSTRIA E TRANSPORTE Os setores da indústria e de transportes tiveram um papel importante na trajetória dos últimos 50 anos no consumo de energia no Brasil. Cerca de dois terços de toda energia consumida pelo brasileiro *se deu* nesses segmentos. Na questão do consumo, 18% da energia foi na forma de eletricidade e 82% a partir da queima de combustíveis, sejam em biocom- bustíveis ou combustíveis fósseis. Portanto, a política de transição no Brasil busca a eletricidade renovável e ampliar essa participação para ajudar os setores industriais e de transportes a reduzir a pegada de carbono. Além de serem competitivos, ao mesmo tempo em que também usa os combustíveis de Baixo Carbono para cobrir o restante dessa oferta. Fonte: https://www.gov.br/mme/pt-br/assuntos/noticias/transicao-energetica-a-mudanca-de-energia-que-o-planeta-precisa POPULAÇÃO: ESTRUTURA, COMPOSIÇÃO E DINÂMICA. O crescimento da população brasileira, nas últimas décadas, está ligado principalmente ao crescimento vegetativo (ou natural). A queda nesse crescimento apresenta outras justificativas que merecem atenção. • Maior custo para criar filhos; • Acesso a métodos anticoncepcionais; • Trabalho feminino extradomiciliar; • Acesso a tratamento médico; • Saneamento básico. REALIDADE BRASILEIRA 311 a solução para o seu concurso! Editora Para conhecer a população de um país, devemos, primeiramente, definir dois conceitos demográficos básicos: – População absoluta: corresponde ao número total de pessoas de uma área. No Brasil, por exemplo, a população absoluta era de 190.755.799 pessoas, pelo censo de 2010. – População relativa: é também chamada de densidade demográfica e é dada pelo número de habitantes por quilômetro quadrado de uma determinada região. O declínio da mortalidade deve-se, em grande parte, à diminuição da mortalidade infantil, isto é, dos óbitos de crianças com menos de um ano de idade. Em 1970, a taxa era de cem mortes em cada mil nascimentos vivos; em 1980, caiu para setenta por mil; em 1991, para 45 por mil; e no ano de 2000, para 35 por mil. Em relação aos países desenvolvidos, este índice ainda é elevado. Por isso, programas de combate à mortalidade vêm sendo imple- mentados tanto pelo governo quanto por entidades privadas A taxa de mortalidade infantil no Brasil está baixando, conforme indicadores. A queda da mortalidade infantil indica aumento no per- centual de adultos e melhorias na expectativa de vida, que em 1950 era de mais ou menos 46 anos e, em 2018, chegou a 76 anos (IBGE). Migrações populacionais As migrações populacionais remontam aos tempos pré-históricos. O homem parece estar constantemente à procura de novos ho- rizontes. As razões que justificam as migrações são inúmeras (político-ideológicas, étnico-raciais, profissionais, econômicas, catástrofes naturais, entre outras), ainda que as razões econômicas sejam predominantes. A grande maioria das pessoas migra em busca de melhores condições de vida. Todo ato migratório apresenta causas repulsivas (o indivíduo é forçado a migrar) e/ou atrativas (o indivíduo é atraído por determinado lugar ou país). Considera-se emigração como a saída de uma área para outra; imigração é a entrada de pessoas em uma área. As migrações podem ser internas, quando ocorrem dentro do país, e externas, quando ocorrem de um país para outro. Ainda podem ser permanentes ou tem- porárias. Movimentos migratórios no Brasil Externos Até 1934, foi liberada a entrada de estrangeiros no Brasil. A partir dessa data, ficou estabelecido que só poderiam imigrar 2% de cada nacionalidade dos estrangeiros que haviam migrado entre 1884 e 1934. Os fatores que mais favoreceram a entrada de imigrantes no Brasil foram: – A dificuldade de encontrar escravos após a extinção do tráfico, depois de 1850; – O ciclo do café, que exigia mão de obra numerosa; – Abundância de terras. Para a maior parte dos imigrantes, a adaptação foi muito difícil, pois além das diferenças climáticas, da língua e dos costumes, não havia no país uma política firme que assegurasse garantias as pessoas que aqui chegavam. As regiões sul e sudeste foram as que receberam maior contingente de imigrantes, principalmente por causa do ciclo do café e povoamento da região sul. Internos Em nossa história, os principais movimentos migratórios foram: – Migração de nordestinos da Zona da Mata para o sertão, séculos XVI e XVII (gado); – Migração de nordestinos