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1 
 
 
PSICOSSOMÁTICA - PARADIGMAS E CONCEITOS 
1 
 
 
 
Sumário 
NOSSA HISTÓRIA .................................................................................. 2 
INTRODUÇÃO ......................................................................................... 3 
EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO CONCEITO DA PSICOSSOMÁTICA ....... 6 
PRECURSORES CONTRIBUIÇÕES DA PSICANÁLISE .................... 7 
ESCOLA PSICOSSOMÁTICA AMERICANA ....................................... 9 
ESCOLA PSICOSSOMÁTICA DE PARIS .......................................... 13 
ESCOLA DE BOSTON E CONCEITO DE ALEXITIMIA ..................... 15 
A EXPLICAÇÃO BIOLÓGICA E NEUROFISIOLÓGICA EM 
PSICOSSOMÁTICA ..................................................................................... 18 
OUTRAS CONCEPÇÕES E MODELOS EM PSICOSSOMÁTICA .... 20 
CLÍNICA PSICOSSOMÁTICA ............................................................... 23 
AS CONCEPÇÕES ACERCA DO CONCEITO DE SOMATIZAÇÃO . 26 
A FORMAÇÃO DE SINTOMAS NO SUJEITO BIOPSICOSSOCIAL . 29 
REFERÊNCIAS ..................................................................................... 35 
 
 
 
2 
 
 
 
NOSSA HISTÓRIA 
 
 
 
A NOSSA HISTÓRIA inicia com a realização do sonho de um grupo de 
empresários, em atender à crescente demanda de alunos para cursos de 
Graduação e Pós-Graduação. Com isso foi criado a INSTITUIÇÃO, como 
entidade oferecendo serviços educacionais em nível superior. 
A NOSSA INSTITUIÇÃO tem por objetivo formar diplomados nas 
diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em setores 
profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, 
e colaborar na sua formação contínua. Além de promover a divulgação de 
conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da 
humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicação ou outras 
normas de comunicação. 
A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma 
confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base 
profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições 
modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, 
excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. 
 
 
 
 
 
 
 
3 
 
 
 
INTRODUÇÃO 
 
A psicossomática é a ciência que estuda as doenças orgânicas com 
descarga no corpo, isto é, uma lesão de órgão ou sistema provocado por alguma 
disfunção do sistema nervoso. Na psicossomática, pensa-se a realidade na sua 
unidade, considerando os aspetos biológicos e psicológicos. Interessa-se pelos 
aspetos de interação causa e efeito, a pessoa como um todo na sua perspectiva 
biológica e relacional, isto é, pensar a realidade na sua totalidade: a entidade 
biológica e a entidade psicológica.’ 
As doenças psicossomáticas são difíceis de ser detectadas, pois causam 
sintomas físicos, porém sem causas orgânicas, se constituindo por causas 
emocionais, onde uma angustia (de base psíquica), por exemplo, geraria um mal 
estar tão grande que o corpo físico "falasse" para o psíquico "vamos dividir essa 
angustia". No entanto, muitos profissionais de saúde descartam a possibilidade 
de uma pessoa estar com uma doença psicossomática, pois acreditam somente 
em doenças que tenham causa orgânica, porém quando pedem para seus 
pacientes realizarem exames clínicos, seus resultados não apresentam 
nenhuma alteração orgânica de base para a patologia. 
O termo psicossomático, após séculos de estruturação, surgiu no século 
passado, através de Heinroth, com a criação das expressões psicossomática 
(1918) e somatopsíquica (1928). (Mello Filho, 1992). 
No entanto, o movimento consolidou-se somente em meados deste 
século, através das contribuições pioneiras de Franz Alexander e da Escola de 
Chicago. Contudo, as dúvidas referentes à relação mente corpo continuam 
expressas na própria denominação “psicossomática” e ainda continua a ser 
usada por muitos estudiosos destes fenômenos. 
Para Alexander, o termo psicossomático “deve ser usado apenas para 
indicar um método de abordagem, tanto em pesquisa quanto em terapia, ou seja, 
o uso simultâneo e coordenado de métodos e conceitos somáticos - de um lado 
e métodos e conceitos psicológicos por outro lado”. (Alexander, 1989, p.42). 
4 
 
 
A. Dias (1992, p.31), refletindo a relação entre sujeito e linguagem, 
começa por criticar o termo psicossomático. Afirma que é um termo gasto, pois 
entrou no domínio do psiquiátrico e da medicina com uma tal amplitude que, se 
bem que criando um novo espaço de investigação, também o diluiu noutros 
espaços afins”. Propõe ainda que, “a partir de algumas indicações deixadas por 
Bion”, há necessidade de se interrogar quanto à inespecificidade do termo 
psicossomático e sua pertinência. 
O termo psicossomático, na expressão mais comum, pode reportar-se 
tanto ao quesito da origem psicológica de determinadas doenças orgânicas, 
quanto às “repercussões afetivas do estado de doença física no indivíduo, como 
até confundir-se com simulação e hipocondria, onde toma um sentido negativo”. 
(Cardoso, 1995, p.5). 
 
No sentido mais preciso, o termo circunscreve áreas específicas, 
sobreponíveis ou não, quando se refere à medicina psicossomática, doenças 
psicossomáticas ou psicossomática. 
A denominação de medicina psicossomática, de acordo com seu campo 
epistemológico, “é um estudo das relações mente corpo com ênfase na 
explicação da patologia somática, uma proposta de assistência integral e uma 
transcrição para a linguagem psicológica dos sintomas corporais”. (Ekstermam, 
1992, p.77). 
Sami-Ali (1992, p.159) ao refletir sobre a ligação entre o orgânico e o 
relacional começa por distinguir medicina psicossomática e psicossomática. 
Assim, a medicina psicossomática é “uma maneira de introduzir variáveis 
psicológicas num domínio que se define como orgânico, adicionando variáveis 
psíquicas às variáveis orgânicas”. 
A Psicossomática proposta por ele, no entanto, é um modelo teórico e 
uma metodologia específica, onde o somático é percebido em sua complexidade 
e não na falha psíquica. Desta forma, Sami-Ali inspira-se na psicanálise, mas a 
utiliza somente como ponto de partida “para a elaboração de outros conceitos” 
(Sami-Ali, loc. cit.), afastando-se, desta forma, dos modelos freudianos. 
5 
 
 
O conceito de doença psicossomática, sua classificação e diagnóstico, é 
outra questão polêmica. Halliday (1943,1945,1946,1948, cit. Alexander, 1989, 
p.43) propõe que a úlcera péptica, a artrite reumatoide, a hipertensão, o 
hipertireoidismo essencial e outras estariam inclusos nas doenças 
psicossomáticas. O ponto de partida deste autor firma-se na hipótese de que o 
fator etiológico proeminente nestas doenças é o fator psicológico. 
No entanto, Alexander2 (1989) diz que, teoricamente, “cada doença é 
psicossomática, uma vez que fatores emocionais influenciam todos os processos 
do corpo, através das vias nervosas humorais e que os fenômenos somáticos e 
psicológicos ocorrem no mesmo organismo e são apenas dois aspectos do 
mesmo processo”. 
Portanto, a designação de psicossomática, devido a “seu esforço de 
delimitação e rigor no seu objeto e métodos”, foi distanciando-se cada vez mais 
da Medicina Psicossomática. No entanto, “isso não significa que se caminhe no 
sentido da síntese de um modelo psicossomático”, contudo situa-se numa 
perspectiva específica no modo de encarar os fenômenos de doença”. E 
tampouco significa que se tenha resolvido antigas questões do impasse das 
teorias monistas e dualistas da relação corpo-espírito (Cardoso, 1995, p.5). 
 
 
6 
 
 
EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO CONCEITO DA 
PSICOSSOMÁTICA 
 
Se partirmos do pressuposto da unidade funcional soma-psyche, na qual 
a psicossomática se funda, “ela constitui, mais uma vez, uma resposta à velha 
questão da relação corpo espírito”. (Weiss e English, 1952, cit.Cardoso, 1995, 
p.7), assunto provavelmente tão antigo quanto à própria humanidade, uma vez 
que a relação entre corpo e espírito foi e continua a ser assunto tão controvertido 
e fecundo. 
Ao fazer referência a insônia e a influência das paixões na tuberculose, 
epilepsia e cancro, J. C. Heinroth, psiquiatra alemão, utiliza pela primeira vez, 
em 1818, o termo psicossomática. A medicina psicossomática, a partir do século 
passado, como reação à tradição dualista cartesiana, surge com a proposta 
holística na maneira de olhar a doença. Somente no século posterior, o termo 
psicossomática é retomado, influenciado pelo desenvolvimento da psicanálise e 
do modelo freudiano, iniciando, desta forma, sua estruturação. 
A medicina, conhecedora “das descobertas e da teorização da 
psicanálise, das investigações no campo da reflexiologia por Pavlov (1976), da 
neurofisiologia por Cannon (1911) e da conceptualização da noção de stress por 
Selye (1956).” (Cardoso, 1995, op. cit.), utiliza destas valiosas contribuições para 
fazer uma nova leitura dos fenômenos. 
A história da psicossomática, poderia ser dividida em duas grandes 
correntes: de um lado, as correntes inspiradas “nas teorias psicanalíticas e com 
base no conceito de doença psicossomática”; de outro lado, a “inspiração 
biológica, alicerçada no conceito de stress”. (Dantzer, 1989 cit. Cardoso, 1995, 
op. cit.). 
Para Mello Filho (1992), a evolução da psicossomática ocorreu em fases. 
A primeira, denominada de fase inicial ou psicanalítica, sob a influência das 
teorias psicanalíticas, teve seu interesse voltado para os estudos da origem 
inconsciente das doenças, das teorias da regressão e dos ganhos secundários 
da doença. A segunda, também chamada de fase intermediária, influenciada 
7 
 
 
pelo modelo Behaviorista, valorizou as pesquisas tanto em homens como em 
animais, deixando assim grande legado aos estudos do stress. A terceira fase, 
denominada de atual ou multidisciplinar, valorizou o social, a interação e 
interconexão entre os profissionais das várias áreas da saúde. 
 
PRECURSORES CONTRIBUIÇÕES DA PSICANÁLISE 
 
A psicossomática e a psicanálise estão articuladas histórica e 
praticamente, mesmo que Freud, em momento algum, tenha se preocupado em 
criar uma teoria psicossomática. Devido ao fato de seus conceitos fomentarem 
grandes discussões e fundamentarem inúmeros modelos, ele é considerado um 
dos percursores mais influentes nesta área (Dejours et al.., 1980; Dejours, 1988, 
cit. Cardoso, 1995). 
Freud (1895), em seus estudos sobre a histeria, “aborda a componente 
somática do sintoma de um ponto de vista econômico e conceitualiza o 
fenômeno de conexão, a que atribui o sentido de expressão simbólica do 
conflito”. (A. Dias 1976 cit. Cardoso, 1995, op. cit.). 
Diferentemente de Janet que “afirmava um valor negativo, fosse para 
organização mental subjacente (subconsciente) ou para o sistema neurótico 
(astenia)”, Freud propõe um valor positivo à “descompensação neurótica, via o 
estudo do fenômeno histérico” (A. Dias, 1992, op. cit.), delimitando, assim, o 
pensamento psicanalítico do pensamento psicológico da época. 
A noção de complacência somática é introduzida por Freud, constituindo 
objeto de controvérsia, ainda hoje, por aqueles que defendem “o assimbolismo 
ou estupidez do sintoma e da escolha do órgão, contra os que acreditam no seu 
valor simbólico”. (Cardoso, 1995). Ao tentar “articular o somático e o psíquico”, 
Freud faz a distinção entre as psiconeuroses e as neuroses atuais, contribuindo 
sobremaneira a algumas teorias psicossomática (Sami-Ali, 1992, op. cit.). 
Freud introduziu a expressão complacência somática para se referir à 
“escolha da neurose histérica e a escolha do órgão ou do aparelho corporal sobre 
o qual se dá a conversão”. (Laplanche e Pontalis, 1995, p.69), onde o corpo ou 
8 
 
 
um órgão específico facilitaria a expressão simbólica do conflito inconsciente. Ao 
questionar a determinação do sintoma, no caso Dora, Freud (1905) levanta a 
polêmica questão referente à origem dos sintomas histéricos, ou seja, se seriam 
de origem psíquica ou somática. Para ele, no entanto, a questão da origem dos 
sintomas histéricos, não está em escolher entre a origem psíquica e a somática, 
uma vez que “todo sintoma histérico requer a participação de ambos. Não pode 
ocorrer sem a presença de uma certa complacência somática fornecida por 
algum processo normal ou patológico no interior de um órgão do corpo ou com 
ele relacionado”. (Freud, 1905, Vol. VII, p. 47-48). Portanto, para Freud, é esta 
complacência somática que “proporciona aos processos psíquicos inconscientes 
uma saída no corporal” (Freud, 1905, loc. cit.). 
 
Nas psiconeuroses os sintomas provêm do recalcado num processo de 
insucesso do recalcamento e de retorno do recalcado. Ou seja, o “conflito 
intrapsíquico e as tentativas para sua elaboração tomariam o lugar central, com 
existência de fantasma e neurose de transfert” (Cardoso, 1995, p.9). Enquanto 
que nas neuroses atuais (neurastenia, neurose de angustia e hipocondria) não 
há mediação psíquica e a patologia reflete, diretamente, uma economia sexual 
perturbada, consequência de um excesso ou insuficiência de descarga, “seria a 
realidade a tomar maior importância, ficando o conflito fora do acesso do sujeito” 
(Sami-Ali, cit. Cardoso, 1995, p.9). 
9 
 
 
Vemos que, os contributos da psicanálise para a teoria psicossomática 
são valiosos, uma vez que, “qualquer que seja o momento de sua elaboração, a 
teoria psicossomática permanece estreitamente ligada à psicopatologia e mais 
especialmente à noção de psiconeurose, o que continua sendo a norma mesmo 
quando dela nos afastamos deliberadamente” (Sami-Ali, 1993, p.86). 
 
ESCOLA PSICOSSOMÁTICA AMERICANA 
 
Na América, o interesse pela psicossomática surge por volta dos anos 30, 
consolidando-se em meados deste século com Alexander e Dunbar da Escola 
de Chicago. Estes autores consideram que os transtornos psicossomáticos 
seriam “consequência de estados de tensão crônica, relativa à expressão 
inadequada de determinadas vivências, que seriam derivadas para o corpo”. 
(Cardoso, 1995, p.10). Defendem ainda a questão da especificidade da doença 
psicossomática numa visão psicogenética. De acordo com a hipótese da 
especificidade, “as diferentes doenças psicossomáticas corresponderiam 
diferentes ‘fatores psicológicos’, que para Dunbar seriam os tipos de 
personalidade e para Alexander os conflitos ou ‘situações de vida significantes’” 
(Cardoso, 1995, loc. cit.) 
A. Dias (1992), criticando os dois grandes ramos da psicossomática 
(Escola Americana e Escola de Paris), diz que o modelo de Alexander e os que 
dele derivam é um modelo médico “que, entreabindo as portas à ‘neurose de 
órgão’, lhes fechara imediatamente pela imposição do anatômico que ‘exigia’ 
uma explicação do localisacional fisiológico”. ( A.Dias, 1992, p.39). Este autor 
ainda salienta que existe “insuficiência epistemológica crucial” no modelo de 
Alexander, quando este defende a questão da especificidade, ao tentar acoplar 
ao órgão e sua doença diferentes personalidades, onde a cada vivência 
emocional corresponderia uma síndrome específica de alterações físicas. 
Alexander (1989, p.37), analisando o conceito Freudiano de histeria 
conversiva em psicossomática faz uma distinção entre sintoma conversivo e 
neurose vegetativa. Para ele, o sintoma conversivo é “uma expressão simbólica 
de um conteúdo psicológico emocionalmente definido”, cuja finalidade é 
10 
 
 
“expressar e aliviar tensões emocionais”, através dos sistemas neuromuscular 
voluntário ou perceptivo. Enquanto a neurose vegetativa é uma resposta 
fisiológica dos órgãos vegetativos a estados que podem ser ou não constantes. 
Para este autor, apenas no campo das inervações voluntárias pode haver 
a expressão simbólica do conteúdo psicológico, enquanto que é pouco provável 
que nos órgãosinternos haja expressão simbólica. Para explicar este 
funcionamento, Alexander cria a noção de “neurose orgânica”, que abrange 
todos os “distúrbios funcionais” dos órgãos vegetativos, causados por impulsos 
nervosos, originados por processos emocionais “que ocorrem em algum lugar 
nas áreas cortical e subcortical do cérebro” (Alexander, 1989, p.37). 
Portanto, segundo este autor, a tensão emocional proveniente de conflitos 
vivenciados ou afetos específicos reprimidos estimulariam a função de órgãos 
específicos, verificando-se, a partir daí, “uma espécie de ‘estase anormal de 
energia’, pelo aumento ou persistência da produção dos concomitantes 
fisiológicos das emoções, perturbadora do seu funcionamento normal”, isto é, o 
que em um primeiro momento “se traduziria por uma alteração da função” 
posteriormente se constituiria em “uma transformação orgânica”, ou seja, 
“passaria de sintoma funcional a sintoma orgânico” (Cardoso, 1995, p.11). 
Do ponto de vista psicodinâmico, Alexander (1989, p.11), divide os 
distúrbios emocionais das funções vegetativas em duas categorias, sendo que 
correspondem a duas atitudes emocionais específicas. A primeira categoria se 
refere às atitudes emocionais de “preparação para luta ou fuga” e a segunda à 
“retirada da atividade” dirigida para o exterior. E, do ponto de vista fisiológico, as 
atitudes emocionais, da primeira categoria, estão sob o comando do sistema 
nervoso simpático; e, a segunda categoria, sob o sistema nervoso 
parassimpático. Partindo deste princípio, distingue as doenças relacionadas ao 
sistema nervoso simpático como respostas ativas, e as doenças relacionadas ao 
sistema nervoso parassimpático como respostas passivas. “O primeiro grupo 
incluiria doenças como a hipertensão arterial, a diabetes, a epilepsia, etc... 
enquanto do segundo grupo fariam parte afecções como asma, as colites, a 
úlcera duodenal, etc...” (Cardoso, 1995, p.11). 
11 
 
 
A teoria da especificidade norteia todos os pontos de vista de Alexander. 
Para ele, a especificidade orgânica seria responsável pela fragilidade de 
determinados órgãos. “Está aliada a constelações emocionais ou 
psicodinâmicas dos sujeitos e que a par de conflitos inconscientes específicos 
organizaria modos de defesa também específicas, poderia levar ao 
aparecimento de determinadas doenças, servindo a situação exterior de 
desencadeante” (Cardoso, 1995, loc. cit.). 
O conceito de que há uma predisposição para determinadas doenças 
conforme o tipo de personalidade é muito antigo e ainda presente no 
pensamento médico. Dunbar, a partir da aplicação de “métodos modernos de 
diagnóstico psicodinâmico”(Alexander, 1989, p.59) explora este campo fértil e 
“desenvolve a noção de perfil de personalidade, enquanto fator pré-mórbido 
determinante no aparecimento de certas doenças psicossomáticas” (Cardoso, 
1995, op. cit.). 
Em seu estudo de perfis, esta autora procura “associar a um perfil 
psicológico uma patologia orgânica precisa”(Sami-Ali, 1993, p.86), chegando, 
inclusive, a um impressionante perfil do paciente coronariano, dos pacientes 
fraturados e propensos a acidentes, dos pacientes diabéticos etc.... Nestes 
estudos de perfis, Dunbar (1943, cit. Alexander, 1989) descreve determinadas 
“correlações estatísticas entre a doença e o tipo de personalidade”. (Alexander, 
1989, p.59). O perfil do paciente coronariano parece ser o mais precioso de seus 
perfis. Para ela, este paciente demonstra ser uma pessoa constantemente 
batalhadora. Apresenta ter um elevado grau de controle e persistência e, 
também, uma aparência distinta, tendo como objetivo primordial o sucesso e a 
realização e, para atingir estes objetivos, o mesmo planeja a longo prazo. 
Outro perfil estudado por ela se refere ao paciente fraturado. Ao contrário 
dos pacientes coronarianos, estes “Tendem a agir sob impulso repentino e, 
frequentemente, manifestam hostilidade mal controlada contra pessoas em 
posição de autoridade; ao mesmo tempo, seu comportamento é motivado por 
sentimentos de culpa e mostra uma tendência a autopunição” (Alexander, 1989, 
p.59) 
12 
 
 
Através destes estudos de perfis, Dunbar, conclui que determinados tipos 
de personalidades tenderiam a assumir ou não ocupações de responsabilidade. 
Alvarez (1930, cit. Alexander, 1989), clínico e estudioso de perfis, tem 
aperfeiçoado o “conceito de personalidade própria do portador de úlcera péptica” 
(Alexander, 1989, p.58), concluindo que estas pessoas demonstram 
características do tipo empreendedor, enérgico e agressivo. No entanto, Draper 
(1924, cit. Alexander, 1989) diz que um grande número de pacientes com úlcera 
péptica demonstram que sob a aparência de empreendedor, enérgico e 
agressivo há característica de dependência e, “conforme ele as expressou, 
femininas” (Alexander, 1989, loc. cit.). 
As doenças endócrinas é outro terreno fecundo para a “correlação de 
traços de personalidades com quadros de doença” (Alexander, 1989, p.58). O 
paciente com hipertireoidismo demonstra ser “extremamente tenso, irritável e 
sensível”, (Alexander, 1989, op. cit.), enquanto que o paciente com 
hipotireoidismo demonstra ser uma pessoa “embotada, fleumática e lenta” 
(Alexander, 1989, op. cit.). 
Alexander, criticando estes perfis psicológicos de Dunbar, afirma que os 
mesmos “revelam, primariamente, a defesa do paciente e não os conflitos que 
podem estar relacionados especificamente à gênese da doença” (Alexander, 
1989, op. cit.) e que os estudos psicodinâmicos têm revelado que determinados 
“distúrbios das funções vegetativas podem ser correlacionadas diretamente com 
estados emocionais específicos e não com configurações de personalidades 
superficiais, como descritas nos perfis de personalidade” (Alexander, 1989, op. 
cit.). 
Na mesma perspectiva de Dunbar, Friedman e Rosenman, (1959, cit. 
Léon, 1993), na década de 50, ao investigarem seus pacientes com doenças 
coronarianas, concluem que determinados indivíduos que apresentam uma 
acentuada urgência de tempo associada a uma intensa hostilidade, grande 
fluência verbal, atividade psicomotora intensa, ambição e competição estariam 
mais suscetíveis às doenças coronarianas. A este tipo de padrão de conduta que 
predispõe o indivíduo a doenças coronarianas, estes autores denominaram de 
Padrão de Conduta tipo A, ou personalidade tipo A . 
13 
 
 
Apesar da aceitação e da popularidade desta teoria nos anos 70, alguns 
autores (Price, 1982; De Flores e Valdes, 1986; cit. Léon, 1993, op. cit.) 
questionam o peso destas características nas doenças coronarianas. “Parece 
que somente certas características da personalidade do tipo A, tais como a 
agressividade e a cólera, poderiam ser ligadas à aparição de doenças 
coronárias. Um outro problema ameaça a validade do tipo A, é o fato de ele não 
predizer os riscos coronários em mulheres” (Paulhan, et al. , 1994, p. 34, 
tradução nossa). 
 
ESCOLA PSICOSSOMÁTICA DE PARIS 
 
Em uma reversão de perspectiva das escolas americanas, no final dos 
anos 50, a França, a partir de nomes com o P. Marty, M de M’Uzan, M. Fain e C. 
David, inicia uma investigação em psicossomática. 
Para A. Dias (1992), esses autores, ao utilizarem uma “escuta analítica” 
destes sujeitos, ao invés de escutar “o sujeito via órgão”, diferenciaram-se 
substancialmente da escola psicossomática americana. Ao realizarem esta 
forma de escuta, “Marty e seus colegas” se surpreenderam, pois descobriram 
que estes sujeitos “não estavam falando de nada”. No entanto, este nada 
“possibilitou aos investigadores franceses a formulação de uma gigantesca 
negatividade simbólica, aonde o pensamento operatório, a precariedade onírica 
e a ausência de fantasia se impunham como esfinges aos decifradores do 
enigma psicossomático” (A Dias, 1992, p.40). 
Para estes autores, o termo “psicossomática” se refere à designação de 
uma “abordagem de pacientes, de uma técnica psicoterápica e de uma teoria”, 
(Rocha,1989, p.104) cujo interesse é a compreensão do que ocorre na mente 
dos sujeitos que respondem aos conflitos e aos acontecimentos somatizando. 
Esta forma peculiar de organização mental apresenta as seguintes 
características: “dificuldade de fantasiar livremente, pobreza de associações 
subjetivas, dificuldade de estabelecer uma transferência, pobreza de 
investimentos libidinais e ausência de reações afetivas diante de perdas e outros 
14 
 
 
acontecimentos traumáticos”, (Rocha, 1989, loc. cit.). A este grupo de 
características, nomearam de “relação branca”, “vida operatória”. 
Marty e M’Uzan (1983, cit. Silva e Caldeira, 1992, p.113),. a partir dos 
estudos realizados por Fain e David, sobre a vida onírica e aplicados à seus 
pacientes, perceberam que estes tinham uma forma peculiar de pensar e de lidar 
com suas emoções. A esta forma de pensamento, estes autores denominaram 
de “pensamento operatório”. Portanto, o conceito de “pensamento operatório” 
surgiu nos últimos anos como consequência do desenvolvimento da escola 
francesa e americana, para designar a forma de pensar e de lidar com emoções 
de pacientes definidos como psicossomáticos. 
Esta forma peculiar de pensamento seria para eles um pensamento 
consciente que se organizaria por causa da “falha do pré-consciente”, 
acarretando assim impossibilidade de comunicação entre o consciente e o 
inconsciente. Consequentemente , os sujeitos que apresentam esse estilo 
peculiar de pensamento teriam uma pobreza fantasmática e uma precária vida 
onírica. Portanto, a capacidade simbólica e o valor de sublimação seriam quase 
inexistentes acarretando um prejuízo considerável da capacidade de produção, 
quer científica quer artística, desses sujeitos. 
Essa estrutura de pensamento apresenta duas características 
fundamentais: a primeira se refere a um pensamento consciente que se 
manifesta sem vínculo algum com o orgânico e sem atividade fantasmática de 
considerável valor; e a segunda diz respeito ao fato do pensamento reproduzir 
simplesmente uma ação, ou seja, não há significado para o ato, mas apenas a 
palavra ilustrando a ação. Nesse sentido, a palavra seria apenas para 
descarregar uma tensão. Ela é vazia, desprovida de qualquer elaboração e sem 
nenhuma ligação “con una atividaded fantasmática situado en un grado 
apreciable5 ” (Martin y M’Uzan, 1963, p.715); é apenas uma reprodução do ato, 
não há distância do significante perante o significado. 
Do ponto de vista funcional, Marty e M’Uzan (1963) procuram relacionar 
a singularidade do pensamento operatório ao processo primário e secundário. 
O fato de se encontrar, nesse tipo de pensamento, orientação para a 
realidade sensível, preocupação com o lógico, com a continuidade e com a 
15 
 
 
casualidade nos remeteria a uma modalidade do processo secundário, no 
entanto a atividade deste estilo de pensamento se fixa, principalmente, às coisas 
e não às expressões simbólicas e à imaginação. Quanto à noção de cronologia, 
esta se utiliza do processo secundário, no entanto, ocorre, em uma unidade de 
tempo limitado. 
Para esses autores, em um primeiro momento parece que não há 
nenhuma relação entre o pensamento operatório e o processo primário. No 
entanto, determinadas manifestações verbais perversas ou agressivas, que 
surgem de repente desconectadas do contexto, denunciam uma certa ligação 
com o inconsciente. Apesar da existência dessa ligação, o contato estabelecido 
entre eles ocorre “en el nível mas boyo, el menos elaborado, mas acá de las 
primeiras elaboraciones integradoras de la vida pulsional6 ”. (Marty y M’Uzan, 
1963, p.719). 
 
ESCOLA DE BOSTON E CONCEITO DE ALEXITIMIA 
 
Jonhn Nemiah e Peter Sifneos, dois analistas americanos, nos anos 70, 
que se propuseram a realizar pesquisas sobre a forma peculiar de se comunicar 
dos pacientes psicossomáticos, constataram, por meio do estudo minucioso de 
entrevistas psiquiátricas, gravadas com pacientes que apresentavam alguma 
doença psicossomática clássica, que dezesseis desses pacientes demonstraram 
uma impressionante dificuldade de expressar ou descrever suas emoções 
através da palavra, assim como uma acentuada diminuição dos pensamentos 
fantasmáticos. 
Posteriormente, após repetidas observações, estes autores concluíram 
que os pacientes com doenças psicossomáticas clássicas, ao contrário dos 
pacientes psiconeuróticos, apresentavam frequentemente uma desordem 
específica nas suas funções afetivas e simbólicas, acarretando uma forma de se 
comunicar confusa e improdutiva (Taylor, 1990). 
A esta maneira peculiar de se comunicar desses pacientes, Sifneos(1972) 
denominou de alexitimia, sendo que a etimiologia da palavra alexitimia é de 
16 
 
 
origem grega (a = falta de, lexis = palavra, thymos = emoção), significando falta 
de palavras para as emoções (Taylor, 1990) 
A alexitimia, apesar de inicialmente ter sido relacionada a perturbações 
psicossomáticas clássicas, atualmente, pode ser encontrada em um grande 
número de sujeitos que padecem de diversas perturbações físicas e 
psicopatológicas, quer como um estilo peculiar do funcionamento mental, quer 
como resposta do sujeito às “situações vividas como ameaçadoras pela difícil 
contenção psíquica das emoções dolorosas” (Teixeira e col., p.381). 
Apesar desses estudos atuais demonstrarem que essa maneira peculiar 
de se comunicar não é específica dos pacientes com doenças psicossomáticas 
clássicas, a contribuição de Nemiah e Sifneos é de importância fundamental, 
pois chamaram a atenção para um aspecto do funcionamento psíquico relevante 
tanto para a medicina psicossomática quanto para a psicanálise. Apontaram, 
principalmente para a psicanálise atual, uma direção a tomar sobre a exploração 
da vida intra-psíquica via estudo da comunicação entre paciente e analista. 
Embora sejam várias as investigações no sentido de encontrar uma única 
explicação etiológica para a alexitimia, Nemiah (1977, cit. Taylor 1990) acredita 
na hipótese de que haja múltiplos fatores exercendo influências no 
desenvolvimento deste fenômeno tão complexo. Taylor (1988), concorda com 
esta hipótese e ressalta que a maneira de se comunicar é influenciada, não 
somente por fatores genéticos, neuropsicológicos e intra-psíquicos, mas também 
por fatores sócio-culturais, pelo nível intelectual e pelos modelos dos discursos 
familiares. 
De acordo com Mc Dougall (1974, cit. Taylor 1990), ao contrário do que 
acontece na histeria de conversão, onde o corpo se rende à dramatização 
simbólica do conflito intra-psíquico, no fenômeno alexitímico o corpo segrega 
seus próprios pensamentos. Sendo este corpo sentido como se pertencesse a 
alguém (mãe) ou a alguma coisa (mundo externo). Para essa autora, o fenômeno 
alexitímico acontece em decorrência de perturbações da relação mãe-filho, 
sendo esse fenômeno uma patologia pré-neurótica extremamente precoce 
dominada pelos mecanismos de defesa de clivagem e de identificação projetiva 
(Mc Dougall, 1980, 1982 cit. Taylor, 1990). Essas perturbações correspondem à 
17 
 
 
fase do desenvolvimento simbiótico, onde as representações de si e as 
representações do objeto não são nitidamente diferenciadas e também os 
símbolos não são utilizados de forma concreta. Portanto, do ponto de vista de 
Mc Dougall (1982), a alexitimia é uma “dèfense singulièrement forte contre la 
douleur psychique et les anxiétés psychotiques associées aux objtes internes 
archaiques7 ” (Taylor, 1990, p. 778). 
Krystal (1973, cit. Silva e Caldeira, 1992) realizou estudos em 
toxicômanos, vítimas de holocaustos e indivíduos psicossomáticos, e concluiu 
que a alexitimia é mais que uma defesa, como postulou Mc Dougall, é uma 
parada do desenvolvimento afetivo decorrente de um traumatismo infantil, ou 
uma regressão da “fonction affetictive-cognitive après un traumatisme 
catastrophique à l’agê adulte8 ”(Krystal, 1979,1982-1983 cit. Taylor, 1990, p. 
778). Portanto, aconcepção de alexitimia de Krystal se aproxima da noção de 
Bion (1977) de “d’une fonction alpha déficente9 ” e também da concepção 
Kleiniana de “fixation ou de régression par rapport à la position paranóide-
schizóide” (Taylor, 1990, p. 779). 
De acordo com o exposto anteriormente, a alexitimia é um constructo 
derivado da clínica baseado em observações e minuciosos estudos das 
entrevistas de consultas psiquiátricas em pacientes com doenças 
psicossomáticas clássicas. 
Nemiah e Sifneos (1970, cit. Taylor, 1990) perceberam, através desses 
estudos que havia uma nítida diferença na maneira como se queixavam os 
pacientes alexitímicos dos pacientes neuróticos. Enquanto os pacientes 
neuróticos se queixavam de sintomas emocionais e dificuldades psicológicas, os 
pacientes alexitímicos se queixavam de sintomas somáticos, onde na maioria 
das vezes não havia qualquer ligação entre os sintomas e qualquer doença física 
que pudessem ter. A maneira como esses pacientes se comunicavam se 
caracterizava por um pensamento simbólico em que as pulsões, os sentimentos 
e os desejos não apareciam. Sendo esse um pensamento vulgar, particular, 
preocupado com detalhes e acontecimentos externos, ou seja, voltado para o 
mundo exterior em detrimento do mundo interior. 
18 
 
 
Outra característica, apontada por esses autores, se refere a uma 
extraordinária dificuldade desses sujeitos em reconhecer e descrever seus 
próprios sentimentos, assim como, em diferenciar as sensações corporais dos 
estados emocionais. (Nemiah, Freyberger e Sifneos, 1976, cit. Taylor, 1990). 
Ainda, nessa concepção, esses sujeitos demonstraram ser hiperadaptados e 
com elevado grau de “conformismo social”, aparentando ser às vezes um 
neurótico com “une personnalité hystérique ou un caractére obsessionnel11 ” 
(Taylor, 1990, p. 771). No entanto, Nemiah (1973) faz uma distinção, dizendo 
que as personalidades alexitímicas apresentam uma ausência de pensamento 
fantasmático associados ao conflito psicológico (Taylor, 1990). 
 
A EXPLICAÇÃO BIOLÓGICA E NEUROFISIOLÓGICA EM 
PSICOSSOMÁTICA 
 
Chrousos e Gold (1993) definem estresse “como um estado de 
desarmonia ou de homeostase ameaçada”. (Chrousos e Gold, 1993, p. 479). 
Para estes autores, Heracleitus foi o primeiro a sugerir que um “estado estático, 
sem alteração, não era condição natural” (Chrousos e Gold, 1993, op. cit.) dos 
organismos vivos, mas sim a capacidade, de se submeterem a alterações 
constantes. Empédocles, logo após esta ideia, propõe que a condição 
necessária para a sobrevivência dos seres vivos consiste no equilíbrio e 
harmonia dos elementos em oposição dinâmica. 
Partindo desta concepção, Hipócrates, cem anos depois, define saúde 
como sendo um equilíbrio harmonioso dos “elementos e das qualidades de vida” 
(Chrousos e Gold, 1993, p.480) e doença como “desarmonia sistemática destes 
elementos”. (Chrousos e Gold, 1993, loc. cit.). Hipócrates sugere ainda que as 
forças que provocam a desarmonia - a doença - têm sua origem nas “fontes 
naturais e não de fontes sobrenaturais e que as forças de contra equilíbrio ou 
adaptativas eram também de origem natural” (Chrousos e Gold, 1993, loc. cit.). 
Thomas Sydenham, no período da Renascença, amplia o conceito de 
doença de Hipócrates quando a define como “uma desarmonia sistemática 
19 
 
 
trazida à tona devido às forças perturbadoras” (Chrousos e Gold, 1993, loc. cit.), 
sugerindo que uma resposta adaptativa a estas forças poderia acarretar 
alterações patológicas. 
No século XIX, ao tornar mais ampla a noção de harmonia ou de estado 
de estabilidade, Claude Bernard, introduz o conceito do “milieu interieu, ou o 
princípio de um equilíbrio fisiológico interno dinâmico” (Chrousos e Gold, 1993, 
loc. cit.). 
Posteriomente, Walter Cannon, fisiologista notável criou o termo 
homeostase, ampliando-o tanto a parâmetros emocionais quanto a físicos. 
Através de suas pesquisas com animais percebeu que, quando estes eram 
submetidos a estímulos desequilibradores de sua homeostase, se preparavam 
para “a luta ou fuga”, apresentando alterações somáticas12 e que estas 
alterações eram desencadeadas “por descargas adrenérgicas da medula da 
supra-renal e de noradrenalina em fibras pós-ganglionares” (Rodrigues e 
Gasparini, 1992, p.99). 
Partindo destas descobertas, Cannon “teorizou em 1934 a relação entre 
emoções e alterações fisiológicas e hormonais, enquanto função adaptativa do 
organismo às solicitações ou agressões externas” (Luban-Plozza, 1979, cit. 
Cardoso, 1995, p.15). 
Na década de 30, Hans Selye, endocrinologista, radicado no Canadá, 
“pegou emprestado o termo ‘estresse’ da física e o utilizou para significar as 
ações mútuas de forças que têm lugar através de qualquer seção do corpo”. 
(Chrousos e Gold, 1993, p.480). Através de seus estudos, demonstrou que um 
organismo, quando exposto a um esforço provocado por um estímulo que 
ameace sua homeostase, reage com o corpo todo e de “forma uniforme e 
inespecífica” (Rodrigues e Gasparini, 1992, loc. cit.). A esta forma de reagir, 
Selye denominou de Síndrome Geral de Adaptação, “chegando assim a noção 
de stress” (Cardoso, 1995, loc. cit.). Portanto, “stress”, para ele, é uma resposta 
inespecífica que o organismo “desenvolve ao ser submetido a uma situação que 
exige esforço para a adaptação” (Rodrigues e Gasparini, 1992, op. cit.). 
Esta síndrome, de acordo com este autor, consiste em três fases: a de 
alarme, a de resistência e a fase de exaustão, sucessivamente. No entanto, para 
20 
 
 
que haja o stress, não é necessário que a fase se desenvolva até o final e, se a 
“reação ao agressor for muito intensa ou se o agente do estresse for muito 
potente e/ou prolongado, poderá haver, como conseqüência, doença ou maior 
predisposição ao desenvolvimento da doença” (Rodrigues e Gasparini, 1992, 
p.99). 
Holmes et Rahe, (1967, cit. Cardoso, 1995), partindo da noção de stress 
e interessados em investigá-los, elaboraram um instrumento para medi-lo. 
Desenvolveram, desta forma, uma Escala onde os “life events” são pontuados 
em função do esforço adaptativo que exigem (Life Change Units ou LCU) 
(Cardoso, 1995, op. cit.), “onde haveria limites a partir dos quais se constituiriam 
níveis de risco para o aparecimento de doenças, dado que o esforço de 
adaptação em causa teria um efeito cumulativo nos sujeitos, em relação a sua 
capacidade de resposta. Daí que a pontuação obtida constituiria um bom 
indicador preditivo de um adoecer psicossomático” (Villemain, 1989, cit Cardoso, 
op. cit.). 
Convém acrescentar que o stress é uma resposta radicalmente 
inespecífica e apenas descreve o nível orgânico da coisa. Não ajuda 
compreender psicologicamente o adoecer psicossomático. 
 
 OUTRAS CONCEPÇÕES E MODELOS EM 
PSICOSSOMÁTICA 
 
Os princípios psicossomáticos, segundo Dejours (1988), teriam suas 
hipóteses alicerçadas na inter-relação entre o corpo fisiológico e o corpo erótico. 
Para ele, através da subversão libidinal, o corpo erótico surge do corpo biológico, 
mantendo constantemente uma relação de dependência, influenciando e 
intervindo “ao nível da relação orgão-junção” (Cardoso, 1995, p.22). 
Dejours (1988 cit Cardoso, 1995) utilizou esta designação “subversão 
libidinal” para se referir à aquisição de algo que, além de não ser definitivo, não 
se completaria jamais, acarretando assim um “confronto constante entre corpo 
erótico e corpo biológico” (Cardoso, 1995, op. cit.). De acordo com essa 
21 
 
 
concepção, não faz sentido algum separar doença orgânica e doença mental 
uma vez que as somatizações, nas duas, correspondem a uma somatização 
cerebral, designada “habitualmente por psicose”. Portanto, a escolha do órgão, 
nessa concepção, “dependeria das vicissitudes da subversão libidinal e da 
construção do corpo erótico, ancorado nas funções bio-endócrinas como nas 
motoras e cognitivas”(Cardoso, 1995, op. cit.). 
Sami-Ali (1987, op. cit.), atravésda investigação clínica e teórica, 
desenvolvida há 30 anos, enuncia, em seu livro “Pensar o somático”, um projeto 
paradoxal, uma vez que, segundo ele, “pensar o somático e o pensar psíquico 
são dois caminhos radicalmente diferentes”. 
Ao pensar o somático, Sami-Ali, partindo de uma análise crítica do modelo 
psicanalítico, propõe um modelo multidimensional em psicossomática. Para ele, 
o “ponto mais fraco da psicanálise de Freud e dos autores que se seguiram é a 
extensão, é a extrapolação teórica e especulativa, sem limites, dos modelos da 
psicopatologia aos fenômenos orgânicos, biológicos, históricos, sociais, etc...” 
(Sami-Ali, 1987, p.158). Diz ainda que é uma ilusão, pensar que seja possível 
chegar a uma compreensão de todos os “funcionamentos individuais, grupais, 
biológicos e históricos”, partindo de um só e único modelo - a patologia freudiana. 
E que para chegarmos a uma compreensão dos fenômenos psicossomáticos é 
necessário que nos livremos dessa ilusão. 
A patologia orgânica, conforme a perspectiva desse autor, “não pode ser 
integrada num modelo histórico, nem no modelo da neurose atual e nem no 
modelo da psicose”, uma vez que tudo é relacional, isto é, o problema da 
patologia orgânica deve ser visto “globalmente a um funcionamento regido em 
primeiro lugar pelos ritmos biológicos”, sendo que nesses ritmos há sempre 
“alternância entre dois estados fundamentais, o sonho e a vigília, que são regidos 
por qualquer coisa que se encontre além ou aquém do psíquico” (Sami-Ali, 1987, 
op. cit.). A partir dessa perspectiva Sami-Ali coloca que toda a questão 
psicossomática deve ser considerada na relação onde não haja “dum lado o 
psíquico e do outro do orgânico”. O que realmente existe é “qualquer coisa que 
reenvia a uma relação original, existente antes do nascimento e depois do 
nascimento. Está-se em relação desde a concepção” (Sami-Ali, 1987, op. cit.). 
22 
 
 
Desta forma, Sami-Ali contesta Fairbaim, quando este tenta assentar a 
relação precoce à procura do objeto, e também Anzieu ou Bowlby, quando estes 
procuram relacionar essa relação aos laços de vinculação, uma vez que, para 
ele, a vida psíquica começa muito antes da fase narcísica ou auto-erótica. 
Outro aspecto relevante à psicossomática, conforme esse autor, diz 
respeito à maneira como vê o sonho. Para ele, o sonho é uma criação da 
realidade e não uma realização do desejo como é visto por Freud, sendo que 
está ligado aos ritmos biológicos. Paralelamente a esses ritmos, Sami-Ali 
considera o espaço e o tempo como “duas dimensões fundamentais na 
compreensão da realidade humana” (Sami-Ali, 1987, op. cit.), pois a organização 
desse espaço e tempo é parâmetro para “a análise e para a compreensão dos 
fenômenos psicossomáticos” (Sami-Ali, 1987, op. cit.). 
Quando Sami-Ali articula a questão tempo e espaço, não a reduz a formas 
simbólicas. Fala de um tempo e espaço ideais e da transposição de “espaço em 
tempo e deste tempo em espaço de representação, em relação com a projeção” 
(Sami-Ali, 1987, op. cit.). É no sonho que ocorre a objetivação de um mundo e 
na criação de um mundo objetivo, que se torna subjetivo, uma vez que a 
“projeção é a alucinação, é o facto de criar um mundo que sou eu, e todos criam 
esse mundo” (Sami-Ali, 1987, op. cit.). 
Para ele, o esquecimento do sonho é específico da espécie humana e o 
que existe é a lembrança do sonho e não o sonho em si, sendo que o 
recalcamento ocorre na passagem do sonho à memória dos sonhos. Esse 
recalcamento ocorre de tal maneira que a atividade onírica, em certas pessoas, 
desaparece completamente. Quando ocorre o desaparecimento total da 
atividade onírica, é que Sami-Ali fala de uma possível ligação entre organização 
da atividade do sonho e a doença orgânica. A atividade onírica determina o 
funcionamento psíquico e, quando há ausência desse funcionamento, aparece 
a patologia da adaptação. Desta forma, o que estaria recalcado não são os 
conteúdos e sim toda uma função, “algo que apaga o traço das emoções, tanto 
na expressão onírica como na expressão do afeto” (Cardoso, 1995, p.25). 
Na concepção de A. Dias (1992), o termo psicossomática, devido a sua 
inespecificidade, deve ser substituído pela designação “somatopsicose”, 
23 
 
 
utilizada tanto por Bion (III volume de A memoir of the Future cit. A. Dias, 1992, 
p.31) quanto por Meltzer (Metapsicologia Ampliada, cit. A. Dias, 1992, p.31). O 
termo somatopsicose enuncia um contexto teórico claro, onde o “adoecer 
psicossomático é encarado na sua relação com fenômenos psíquicos 
determinados”. (Cardoso, 1995, p.35). 
A. Dias (1992), ao investigar sobre a somatopsicose, parte de 
pressupostos de Bion e coloca como paradigma somatopsicótico a mentira 
originária, sendo que o conceito de mentira originária, para ele, é muito mais 
amplo que o recalcamento originário de Klein e o falso self de Winnicott e mais 
até que a “questão da hipermaturação”. (A. Dias, 1992, p.34). Refere-se, 
portanto, a uma hiper-adaptação ao outro, ao meio humano, decorrente da 
afirmação omnipresente do outro, onde o sujeito se desanima, não havendo um 
único espaço para a identificação projetiva, mas somente “uma forma particular 
de identificação adesiva em que o sujeito se condena a uma reduplicação do 
outro e do pensamento do outro” (Cardoso, 1995, p.35). 
No decorrer deste estudo é perceptível que, apesar de toda a 
complexidade e diversidade das principais concepções, houve grandes avanços 
nas investigações referentes às doenças psicossomáticas. 
 
CLÍNICA PSICOSSOMÁTICA 
 
“A psicossomática caracteriza-se como uma atitude na promoção de 
saúde, postulando uma visão integrada, na sua unidade irredutível corpo-mente”, 
com essa definição, Campos e Rodrigues (2005, p. 299) apresentam uma visão 
atual em psicossomática e na maneira de se enxergar o ser humano, visto que 
corpo e mente representam um contínuo e são inseparáveis anatômica e 
funcionalmente. 
Ainda que realmente algumas doenças apresentem correlações com 
aspectos emocionais e situações de vida, as escolas psicossomaticistas não 
mais se referem às expressões “doenças psicossomáticas”, como eram 
encaradas a úlcera péptica, a retocolite ulcerativa, a asma brônquica, a 
24 
 
 
hipertensão arterial, entre outras (CAMPOS; RODRIGUES, 2005). Seja qual for 
o fator etiológico (de causa) preponderante na doença, ela acontece em um ser 
humano detentor de vida mental, social e biológica, portanto, passa a ser um 
fenômeno psicossomático, ou seja, segundo a compreensão atual na área, toda 
doença é psicossomática. Como apontam Campos e Rodrigues (2005, p. 301): 
 
 
 
 
 
A Escola de Psicossomática de Paris, que tem como principal autor Pierre 
Marty e tem como base a teoria psicanalítica, entende que os seres humanos se 
confrontam a todo momento com um afluxo de excitações, pensamentos, 
desejos, necessidades e conflitos e que temos a possibilidade de descarregá-los 
por três possíveis vias: a orgânica (somática), a ação (comportamento) e o 
pensamento (psiquismo, representações psíquicas, fantasias etc.) (VOLICH, 
2010). 
Uma pessoa que entra em conflito com outra por alguma desavença, por 
exemplo, pode conseguir lidar emocionalmente com a situação de briga, elaborar 
um diálogo conciliador ou explicar o motivo de estar raivosa (saída pelo 
pensamento), ou então agredir fisicamente o outro (ação), entretanto, a 
experiência de raiva pode propiciar um aumento momentâneo dos batimentos 
cardíacos, da pressão arterial, vermelhidão nas faces, tremor ou até mesmo uma 
dor de cabeça posteriormente (descarga pela via somática). 
A saída mais complexa e adaptada, pela via do pensamento, envolve o 
processo definido como mentalização, explicado por Volich (2010, p. 203) como 
um “conjunto de operações de representação e simbolização por meio das quais 
o aparelho psíquico busca regular as energias instintivas e pulsionais, libidinais 
e agressivas”.25 
 
 
Entretanto, falhas no desenvolvimento psíquico ou experiências 
perturbadoras (traumáticas) podem comprometer o funcionamento mais 
evoluído, temporária ou cronicamente, e essas descargas restam a ocorrer, 
então, pela via da ação ou por reações orgânicas, incluídas aqui desordens 
funcionais de órgãos, desorganizações psicossomáticas progressivas com 
adoecimentos recorrentes e potencialmente graves ou até mesmo o que se 
compreende pelas reações fisiológicas da ansiedade/pânico. Essa compreensão 
é similar à de McDougall, psicanalista estudiosa do fenômeno psicossomático e 
relações corpo-mente, que entende “a somatização como resposta, tanto aos 
conflitos internos como às catástrofes externas” (MCDOUGALL, 1991, p. 135 
apud CAMPOS; RODRIGUES, 2005). 
O foco da clínica psicossomática recai sobre esses momentos em que o 
sujeito “não encontra palavras” para descrever suas vivências. A não existência 
ou a impossibilidade momentânea de se trabalhar com palavras, componentes 
afetivos, metafóricos acerca do que se está vivendo acaba por comprometer 
esse funcionamento e deixa o sujeito à mercê de descargas pelo comportamento 
ou quadros de somatização. É função do psicólogo “fazer falar” (no sentido de 
propiciar a fala), estimular no individuo qualquer manifestação subjetiva de 
maneira a integrar na sua história – com palavras – o que pode facilmente ser 
vivido como traumático ou intolerável. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
26 
 
 
A psicossomática, como um campo de compreensão, busca um 
entendimento na relação mente-corpo e dos processos de adoecimento, 
partindo, principalmente, da observação dos distúrbios físicos nos quais 
processos emocionais desempenham um papel ou de situações observadas nas 
diversas clínicas (hospitalar, psicológica, médica etc.), nas quais uma 
perturbação psicológica (estresse, como comumente apontado) aumenta o risco 
de se desenvolver ou agravar doenças físicas (CAPITÃO; CARVALHO, 2006). 
 
AS CONCEPÇÕES ACERCA DO CONCEITO DE 
SOMATIZAÇÃO 
 
A somatização constitui-se não como o único, mas como um dos objetos 
de estudo da Psicossomática, pois as concepções atuais definem essa área de 
conhecimento como o campo de estudo que tem como objeto os mecanismos 
de integração entre as dimensões mental, corporal e social, ou seja, trata da 
integração biopsicossocial (RIECHELMANN, 2009). Nessa perspectiva, 
Rodrigues, Campos e Pardini (2010) afirmam que a Psicossomática diz respeito 
ao: 
 
 
 
A evolução da concepção desse campo deu-se em três fases: a inicial, ou 
psicanalítica, marcada pelos estudos sobre a gênese inconsciente das 
enfermidades, sobre as teorias da regressão e sobre os benefícios secundários 
do adoecer; a intermediária, ou behaviorista, fase em que predominou o estímulo 
à pesquisa em homens e animais, buscando enquadrar os achados aos 
parâmetros das ciências exatas, e dando um grande estímulo aos estudos sobre 
o estresse; a atual ou interdisciplinar, em que se põe em destaque a importância 
do social e da interdisciplinaridade (MELLO-FILHO, 2010). 
27 
 
 
A origem do termo somatização, segundo Fortes, Tófoli e Baptista (2010), 
remonta à primeira metade do século passado. Como atestam esses autores, o 
mencionado termo foi cunhado por Stekel e “[...] tem sido usado de forma muito 
variada e imprecisa, um dos principais motivos de existirem tantas formas 
diferentes de entender esse processo” (FORTES; TÓFOLI; BAPTISTA, 2010, p. 
546). 
Em determinados momentos históricos, verifica-se certa ausência de 
delimitação entre os conceitos de somatização e doenças psicossomáticas, já 
que estas eram associadas a sintomas físicos cuja gênese estaria nos fatores 
emocionais, coincidindo, assim, com a ideia que se tinha de somatização. 
Como afirmam Fortes, Tófoli e Baptista (2010, p. 547) “a somatização foi, 
originalmente, e para muitos ainda o é, considerada um mecanismo de 
interferência da mente sobre o corpo [...]”. Desse modo, os conceitos de 
“somatização” e “doenças psicossomáticas” se confundiam. Os atuais estudos 
concernentes aos fenômenos psicossomáticos, segundo Fortes, Tófoli e Baptista 
(2010), construíram um novo modelo de compreensão do processo saúde-
doençacuidado, superando as teorias etiológicas lineares, unicausais e 
cartesianas. 
Dessa forma, contribuíram para a redefinição do conceito de “doenças 
psicossomáticas” e, consequentemente, do conceito de “somatização”. De 
acordo com esse novo modelo: 
 
Desse modo, os mencionados autores entendem que toda doença é 
psicossomática. Essa visão contribuiu para que se instalassem os modelos 
multicausais e integrais, que imperam na fase atual dos estudos 
psicossomáticos. 
A partir dessa mudança de modelo, “[...] o termo somatização perde seu 
caráter genérico de ‘influência da mente sobre o corpo’, e adquire uma 
especificidade. Passamos então a falar de sintomas físicos onde não se 
28 
 
 
verificam mecanismos anatomopatológicos que os justifiquem adequadamente” 
(FORTES; TÓFOLI; BAPTISTA, 2010, p. 547), também chamados de “sintomas 
sem explicação médica (SEM)”. Entretanto, é importante pontuar que esse atual 
conceito de somatização causa controvérsias: 
 
 
 
 
Parafraseando Mello-Filho (2002), compactua-se com a ideia de que essa 
definição reflete a dificuldade do modelo biomédico em transitar entre o somático 
e o psíquico, buscando dar conta apenas dos aspectos anatomopatológicos, 
descartando do processo saúde-doençacuidado os aspectos psíquicos e sociais, 
que interagem contínua e simultaneamente com o corpo. 
Considere-se também que a expressão “sem explicação médica”(SEM) 
pode significar um exame mal feito, uma inadequada relação entre médico e 
paciente, ou, ainda, formas patológicas cuja evolução científica ainda não 
permitiu conhecê-las adequadamente (FORTES; TÓFOLI; BAPTISTA, 2010). 
Desse modo, entende-se que o conceito de somatização que tem como 
núcleo central “sintomas sem explicação médica” apenas nega a existência de 
alterações anatômicas que justifiquem adequadamente os sintomas 
apresentados, mas não põe em foco os aspectos psíquicos e sociais implicados 
no processo. Com a ratificação dos autores mencionados anteriormente (idem), 
considera-se que as representações e os significados que o paciente atribui a 
sua sintomatologia somática, bem como suas implicações nos aspectos 
funcionais e sociais deveriam ser reconhecidos como núcleo central do conceito 
de somatização. 
Nesse sentido, a somatização seria entendida como uma forma de illness, 
ou seja, como “[...] experiência subjetiva da doença e suas repercussões nas 
relações sociais” (ibidem, p. 548). Trata-se, pois, do sentir-se doente, do 
acreditar estar doente, aderindo excessivamente ao papel de doente, 
valorizando as sensações somáticas anormais e manifestando excessiva 
29 
 
 
preocupação com queixas físicas. Desse modo, os supracitados autores afirmam 
textualmente: 
 
A partir disso, entende-se que a ausência de alterações 
anatomopatológicas consiste numa evidência clínica importante para o 
diagnóstico diferencial da somatização, mas os demais aspectos inerentes a 
esse processo, tais como a excessiva preocupação com os sintomas físicos, a 
busca por cuidados médicos, o padrão de atribuição adotado pelo paciente, 
enfim, a sua experiência subjetiva frente às sensações somáticas são fatores 
fundamentais nesse contexto. 
Dessa forma, “[...] essas queixas somáticas [ditas] inexplicáveis estão 
muito mais relacionadas à forma como o paciente apresenta seu sofrimento para 
o profissional, do que se constituem como doença específica” (FORTES; 
TÓFOLI; BAPTISTA, 2010, p. 548). Assim, pode-se afirmar que o padrão 
explicativo que o paciente adota para apresentar seu sofrimento ao profissional 
é determinante na configuração do quadro de somatização. 
 
A FORMAÇÃO DE SINTOMAS NO SUJEITO 
BIOPSICOSSOCIAL 
 
A atual fase da Psicossomáticacompreende o processo de adoecer como 
um fenômeno contextualizado, que aponta para a realidade e o modo de ser e 
existir de cada sujeito. Nessa perspectiva, a formação de sintomas, sobretudo 
nos casos de somatização, é compreendida sob o viés da multicausalidade e 
integralidade, levando em consideração o contexto biopsicossocial em que o 
sujeito está inserido. 
30 
 
 
Rodrigues, Campos e Pardini (2010) apontam para a importância de 
visualizar o paciente em seu contexto, considerando que suas dificuldades em 
se ajustar às mudanças do ambiente interno e/ou externo, de modo que o 
adoecer não deve ser visto como um evento casual, mas como uma resposta do 
sujeito que é parte ativa de uma microestrutura familiar e de uma macroestrutura 
social e cultural. 
Desse modo, compreende-se que o ser humano está inserido numa rede 
muito complexa de relações, que envolve processos de subjetivação 
constituídos a partir da confluência de múltiplos fatores, tais como os filosóficos, 
políticos, teológicos, biológicos, psicológicos e relacionais como um todo. 
As inúmeras interações do sujeito nesse contexto são perpassadas, 
naturalmente, pelo conflito. Este é entendido não como um fenômeno de origem 
e curso exclusivos da vida psíquica, como se ela fosse algo isolado das outras 
dimensões humanas; compreende-se que as demandas orgânicas, sociais e 
psíquicas estão em constante e recíproca interação, de modo que, nesse 
processo, coexistem sentimentos antagônicos ou forças opostas tais como um 
determinado desejo e as prescrições morais que o coíbem. 
A esse respeito, Rodrigues, Campos e Pardini (2010) ressaltam que, 
quanto mais intoleráveis ou indesejáveis em função das interdições morais são 
os sentimentos e/ou desejos, tanto maior é o conflito e o estado de tensão dele 
decorrente. Entretanto, é possível ocorrer uma adequada canalização desses 
sentimentos e/ou desejos para outros objetos substitutivos, obtendo, assim, 
soluções conciliatórias ou de sublimação, conferindo, desse modo, um destino 
saudável ou mais adaptativo aos investimentos afetivos. 
 
 
 
 
 
 
31 
 
 
Homem como ser Biopsicossocial 
 
Porém, quando esses mecanismos ou recursos psicológicos estão 
ausentes ou são insuficientes, estão postas as condições para o acirramento do 
conflito e da tensão psicológica resultantes. Embora não faça uma clara distinção 
entre os conceitos “somatização” e “doença psicossomática”, é bastante 
significativo destacar as considerações de Galdi e Campos (2017). 
Esses autores fazem uma diferenciação entre a Escola francesa, ligada à 
perspectiva lacaniana, e a Escola Psicossomática de Chicago e autores 
franceses não lacanianos. Esta, relaciona a formação de sintomas 
psicossomáticos a conflitos inconscientes, que são simbolizados na doença, 
porém, de forma mais precária que na histeria. Por outro lado, a Escola francesa 
afirma que os sintomas psicossomáticos não se constituem em um 
deslocamento representacional, mas traduzem uma falha nos processos de 
simbolização. 
Os mesmos autores (idem) apontam como direção do tratamento, a 
definição de um sentido para o sintoma. Estudos evidenciam elevada relação 
32 
 
 
entre somatização e procura de cuidados médicos primários. Apontam também 
correlação entre somatização e traços de personalidade como a 
conscienciosidade, obsessão, sensibilidade, insegurança, ansiedade, alexitimia, 
baixa autoestima, vulnerabilidade ao estresse, hostilidade e supervalorização do 
tipo físico e da atividade (perfis atléticos). Indicam, ainda, o abuso sexual como 
um dos fatores de risco para o desenvolvimento de somatização, e a 
“necessidade de estar doente” como fator de manutenção do quadro somático 
(FERREIRA; MARTINS; MONTEIRO; PEREIRA, 2014). 
Depreende-se disso que os mecanismos de formação de sintomas 
somáticos no sujeito biopsicossocial perpassam todo o seu contexto existencial, 
revelando, assim, o caráter multifatorial da causalidade do processo de 
adoecimento, já atestada por Bécache (2006). Embora não enfatize o aspecto 
recíproco das influências entre os diversos fatores implicados no surgimento dos 
sintomas, o mencionado autor explica, sinteticamente: 
Nessa perspectiva, entende-se que a tensão psíquica tende a escoar por 
via emocional ou somática. Sabe-se que as queixas físicas recebem maior 
reconhecimento, sendo mais legitimadas tanto no contexto social quanto familiar; 
as queixas psicológicas não gozam do mesmo grau de aceitação (FORTES; 
TÓFOLI; BAPTISTA, 2010). 
Assim, já que, ao apresentar queixas somáticas, o sujeito tente a receber 
mais atenção, o comportamento somatizador passa a ser uma forte alternativa 
de comunicação do sofrimento e da reivindicação de cuidado. Considera-se que 
os sintomas corporais apontam para conflitos psíquicos, que permeiam a 
existência humana e que são inerentes às relações que o homem estabelece 
com o meio social, cultural, espiritual e com suas instâncias psíquicas. Cada 
indivíduo, de acordo com as representações que faz dessa experiência conflitual 
e conforme seus repertórios biológico, social e cultural, apresenta um modo 
específico de lidar com esses conflitos, elaborando diferentes soluções para os 
33 
 
 
mesmos. Esse modo particular de encarar a experiência conflitual determina o 
bem-estar ou o adoecer. 
O mesmo autor afirma que “é a partir dessa compreensão que podemos 
também entender as circunstâncias que culminam com a cristalização do 
sofrimento do sujeito em uma manifestação psíquica ou somática” (VOLICH, 
2000, p. 65). Essas considerações pressupõem que, não obstante as nuances 
ou a volubilidade da experiência humana, o indivíduo tende a repetir certos 
modos de representar e lidar com os conflitos, podendo ou não sedimentar um 
estado patológico de sofrimento. 
Contribuindo com essa discussão, Rodrigues, Campos e Pardini (2010) 
sinalizam que o conflito, a tensão e o estado emocional como um todo 
influenciam no surgimento de alterações fisiológicas, ao mesmo tempo em que 
são por elas influenciados. As alterações fisiológicas, por sua vez, podem 
resultar em tensões motoras e do sistema de irrigação, acarretando quebra da 
homeostase orgânica, desencadeando, possivelmente, sintomas somáticos. 
Dependendo da intensidade e da frequência desses processos, podem 
emergir patologias como as cardiopatias. Quanto à intensidade do conflito, da 
tensão e do estado emocional como um todo, está diretamente relacionada à 
constituição social e cultural do sujeito, e repercute na totalidade humana. 
Entende-se, pois, que o mal-estar ou o adoecer percorrem o homem como 
um todo. Uma vez que uma vivência conflituosa é capaz de desencadear 
emoções no ser humano, que, por sua vez, podem provocar transtornos 
funcionais e culminar com alterações orgânicas (resguardado o caráter recíproco 
desse processo), não se pode falar de adoecimento humano em uma dimensão 
isolada de sua vida. 
Assim, considera-se que o homem adoece por inteiro, em outras palavras, 
esse processo pressupõe alterações psicoemocionais, sociais, bioquímicas, 
endócrinas, neurológicas, imunológicas e somáticas. Assim, reafirma-se que: 
 
34 
 
 
 
 
A partir dessas considerações, depreende-se: uma vez que, não existindo 
o conflito, a emoção ou a tensão, não ocorreriam transtornos funcionais, 
alterações da vida celular e processo patológico, entende-se que aqueles fatores 
são parte essencial do processo de adoecimento, e, desse modo, tanto quanto 
a lesão anatomopatológica devem ser considerados objeto de cuidado. 
Considerando essa multiplicidade de fatores e a complexidade das 
relações que eles estabelecem entre si, das quais depende a configuração de 
diferentes formas clínicas, depreende-se que se faz necessário um olhar 
interdisciplinar sobre o processo saúde-doença-cuidado, a fim de que se possa 
prestar um atendimento mais adequado às demandas do sujeito, cujacomplexidade nenhuma teoria, isoladamente, comporta. 
35 
 
 
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