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1 PSICOSSOMÁTICA - PARADIGMAS E CONCEITOS 1 Sumário NOSSA HISTÓRIA .................................................................................. 2 INTRODUÇÃO ......................................................................................... 3 EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO CONCEITO DA PSICOSSOMÁTICA ....... 6 PRECURSORES CONTRIBUIÇÕES DA PSICANÁLISE .................... 7 ESCOLA PSICOSSOMÁTICA AMERICANA ....................................... 9 ESCOLA PSICOSSOMÁTICA DE PARIS .......................................... 13 ESCOLA DE BOSTON E CONCEITO DE ALEXITIMIA ..................... 15 A EXPLICAÇÃO BIOLÓGICA E NEUROFISIOLÓGICA EM PSICOSSOMÁTICA ..................................................................................... 18 OUTRAS CONCEPÇÕES E MODELOS EM PSICOSSOMÁTICA .... 20 CLÍNICA PSICOSSOMÁTICA ............................................................... 23 AS CONCEPÇÕES ACERCA DO CONCEITO DE SOMATIZAÇÃO . 26 A FORMAÇÃO DE SINTOMAS NO SUJEITO BIOPSICOSSOCIAL . 29 REFERÊNCIAS ..................................................................................... 35 2 NOSSA HISTÓRIA A NOSSA HISTÓRIA inicia com a realização do sonho de um grupo de empresários, em atender à crescente demanda de alunos para cursos de Graduação e Pós-Graduação. Com isso foi criado a INSTITUIÇÃO, como entidade oferecendo serviços educacionais em nível superior. A NOSSA INSTITUIÇÃO tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua. Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicação ou outras normas de comunicação. A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. 3 INTRODUÇÃO A psicossomática é a ciência que estuda as doenças orgânicas com descarga no corpo, isto é, uma lesão de órgão ou sistema provocado por alguma disfunção do sistema nervoso. Na psicossomática, pensa-se a realidade na sua unidade, considerando os aspetos biológicos e psicológicos. Interessa-se pelos aspetos de interação causa e efeito, a pessoa como um todo na sua perspectiva biológica e relacional, isto é, pensar a realidade na sua totalidade: a entidade biológica e a entidade psicológica.’ As doenças psicossomáticas são difíceis de ser detectadas, pois causam sintomas físicos, porém sem causas orgânicas, se constituindo por causas emocionais, onde uma angustia (de base psíquica), por exemplo, geraria um mal estar tão grande que o corpo físico "falasse" para o psíquico "vamos dividir essa angustia". No entanto, muitos profissionais de saúde descartam a possibilidade de uma pessoa estar com uma doença psicossomática, pois acreditam somente em doenças que tenham causa orgânica, porém quando pedem para seus pacientes realizarem exames clínicos, seus resultados não apresentam nenhuma alteração orgânica de base para a patologia. O termo psicossomático, após séculos de estruturação, surgiu no século passado, através de Heinroth, com a criação das expressões psicossomática (1918) e somatopsíquica (1928). (Mello Filho, 1992). No entanto, o movimento consolidou-se somente em meados deste século, através das contribuições pioneiras de Franz Alexander e da Escola de Chicago. Contudo, as dúvidas referentes à relação mente corpo continuam expressas na própria denominação “psicossomática” e ainda continua a ser usada por muitos estudiosos destes fenômenos. Para Alexander, o termo psicossomático “deve ser usado apenas para indicar um método de abordagem, tanto em pesquisa quanto em terapia, ou seja, o uso simultâneo e coordenado de métodos e conceitos somáticos - de um lado e métodos e conceitos psicológicos por outro lado”. (Alexander, 1989, p.42). 4 A. Dias (1992, p.31), refletindo a relação entre sujeito e linguagem, começa por criticar o termo psicossomático. Afirma que é um termo gasto, pois entrou no domínio do psiquiátrico e da medicina com uma tal amplitude que, se bem que criando um novo espaço de investigação, também o diluiu noutros espaços afins”. Propõe ainda que, “a partir de algumas indicações deixadas por Bion”, há necessidade de se interrogar quanto à inespecificidade do termo psicossomático e sua pertinência. O termo psicossomático, na expressão mais comum, pode reportar-se tanto ao quesito da origem psicológica de determinadas doenças orgânicas, quanto às “repercussões afetivas do estado de doença física no indivíduo, como até confundir-se com simulação e hipocondria, onde toma um sentido negativo”. (Cardoso, 1995, p.5). No sentido mais preciso, o termo circunscreve áreas específicas, sobreponíveis ou não, quando se refere à medicina psicossomática, doenças psicossomáticas ou psicossomática. A denominação de medicina psicossomática, de acordo com seu campo epistemológico, “é um estudo das relações mente corpo com ênfase na explicação da patologia somática, uma proposta de assistência integral e uma transcrição para a linguagem psicológica dos sintomas corporais”. (Ekstermam, 1992, p.77). Sami-Ali (1992, p.159) ao refletir sobre a ligação entre o orgânico e o relacional começa por distinguir medicina psicossomática e psicossomática. Assim, a medicina psicossomática é “uma maneira de introduzir variáveis psicológicas num domínio que se define como orgânico, adicionando variáveis psíquicas às variáveis orgânicas”. A Psicossomática proposta por ele, no entanto, é um modelo teórico e uma metodologia específica, onde o somático é percebido em sua complexidade e não na falha psíquica. Desta forma, Sami-Ali inspira-se na psicanálise, mas a utiliza somente como ponto de partida “para a elaboração de outros conceitos” (Sami-Ali, loc. cit.), afastando-se, desta forma, dos modelos freudianos. 5 O conceito de doença psicossomática, sua classificação e diagnóstico, é outra questão polêmica. Halliday (1943,1945,1946,1948, cit. Alexander, 1989, p.43) propõe que a úlcera péptica, a artrite reumatoide, a hipertensão, o hipertireoidismo essencial e outras estariam inclusos nas doenças psicossomáticas. O ponto de partida deste autor firma-se na hipótese de que o fator etiológico proeminente nestas doenças é o fator psicológico. No entanto, Alexander2 (1989) diz que, teoricamente, “cada doença é psicossomática, uma vez que fatores emocionais influenciam todos os processos do corpo, através das vias nervosas humorais e que os fenômenos somáticos e psicológicos ocorrem no mesmo organismo e são apenas dois aspectos do mesmo processo”. Portanto, a designação de psicossomática, devido a “seu esforço de delimitação e rigor no seu objeto e métodos”, foi distanciando-se cada vez mais da Medicina Psicossomática. No entanto, “isso não significa que se caminhe no sentido da síntese de um modelo psicossomático”, contudo situa-se numa perspectiva específica no modo de encarar os fenômenos de doença”. E tampouco significa que se tenha resolvido antigas questões do impasse das teorias monistas e dualistas da relação corpo-espírito (Cardoso, 1995, p.5). 6 EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO CONCEITO DA PSICOSSOMÁTICA Se partirmos do pressuposto da unidade funcional soma-psyche, na qual a psicossomática se funda, “ela constitui, mais uma vez, uma resposta à velha questão da relação corpo espírito”. (Weiss e English, 1952, cit.Cardoso, 1995, p.7), assunto provavelmente tão antigo quanto à própria humanidade, uma vez que a relação entre corpo e espírito foi e continua a ser assunto tão controvertido e fecundo. Ao fazer referência a insônia e a influência das paixões na tuberculose, epilepsia e cancro, J. C. Heinroth, psiquiatra alemão, utiliza pela primeira vez, em 1818, o termo psicossomática. A medicina psicossomática, a partir do século passado, como reação à tradição dualista cartesiana, surge com a proposta holística na maneira de olhar a doença. Somente no século posterior, o termo psicossomática é retomado, influenciado pelo desenvolvimento da psicanálise e do modelo freudiano, iniciando, desta forma, sua estruturação. A medicina, conhecedora “das descobertas e da teorização da psicanálise, das investigações no campo da reflexiologia por Pavlov (1976), da neurofisiologia por Cannon (1911) e da conceptualização da noção de stress por Selye (1956).” (Cardoso, 1995, op. cit.), utiliza destas valiosas contribuições para fazer uma nova leitura dos fenômenos. A história da psicossomática, poderia ser dividida em duas grandes correntes: de um lado, as correntes inspiradas “nas teorias psicanalíticas e com base no conceito de doença psicossomática”; de outro lado, a “inspiração biológica, alicerçada no conceito de stress”. (Dantzer, 1989 cit. Cardoso, 1995, op. cit.). Para Mello Filho (1992), a evolução da psicossomática ocorreu em fases. A primeira, denominada de fase inicial ou psicanalítica, sob a influência das teorias psicanalíticas, teve seu interesse voltado para os estudos da origem inconsciente das doenças, das teorias da regressão e dos ganhos secundários da doença. A segunda, também chamada de fase intermediária, influenciada 7 pelo modelo Behaviorista, valorizou as pesquisas tanto em homens como em animais, deixando assim grande legado aos estudos do stress. A terceira fase, denominada de atual ou multidisciplinar, valorizou o social, a interação e interconexão entre os profissionais das várias áreas da saúde. PRECURSORES CONTRIBUIÇÕES DA PSICANÁLISE A psicossomática e a psicanálise estão articuladas histórica e praticamente, mesmo que Freud, em momento algum, tenha se preocupado em criar uma teoria psicossomática. Devido ao fato de seus conceitos fomentarem grandes discussões e fundamentarem inúmeros modelos, ele é considerado um dos percursores mais influentes nesta área (Dejours et al.., 1980; Dejours, 1988, cit. Cardoso, 1995). Freud (1895), em seus estudos sobre a histeria, “aborda a componente somática do sintoma de um ponto de vista econômico e conceitualiza o fenômeno de conexão, a que atribui o sentido de expressão simbólica do conflito”. (A. Dias 1976 cit. Cardoso, 1995, op. cit.). Diferentemente de Janet que “afirmava um valor negativo, fosse para organização mental subjacente (subconsciente) ou para o sistema neurótico (astenia)”, Freud propõe um valor positivo à “descompensação neurótica, via o estudo do fenômeno histérico” (A. Dias, 1992, op. cit.), delimitando, assim, o pensamento psicanalítico do pensamento psicológico da época. A noção de complacência somática é introduzida por Freud, constituindo objeto de controvérsia, ainda hoje, por aqueles que defendem “o assimbolismo ou estupidez do sintoma e da escolha do órgão, contra os que acreditam no seu valor simbólico”. (Cardoso, 1995). Ao tentar “articular o somático e o psíquico”, Freud faz a distinção entre as psiconeuroses e as neuroses atuais, contribuindo sobremaneira a algumas teorias psicossomática (Sami-Ali, 1992, op. cit.). Freud introduziu a expressão complacência somática para se referir à “escolha da neurose histérica e a escolha do órgão ou do aparelho corporal sobre o qual se dá a conversão”. (Laplanche e Pontalis, 1995, p.69), onde o corpo ou 8 um órgão específico facilitaria a expressão simbólica do conflito inconsciente. Ao questionar a determinação do sintoma, no caso Dora, Freud (1905) levanta a polêmica questão referente à origem dos sintomas histéricos, ou seja, se seriam de origem psíquica ou somática. Para ele, no entanto, a questão da origem dos sintomas histéricos, não está em escolher entre a origem psíquica e a somática, uma vez que “todo sintoma histérico requer a participação de ambos. Não pode ocorrer sem a presença de uma certa complacência somática fornecida por algum processo normal ou patológico no interior de um órgão do corpo ou com ele relacionado”. (Freud, 1905, Vol. VII, p. 47-48). Portanto, para Freud, é esta complacência somática que “proporciona aos processos psíquicos inconscientes uma saída no corporal” (Freud, 1905, loc. cit.). Nas psiconeuroses os sintomas provêm do recalcado num processo de insucesso do recalcamento e de retorno do recalcado. Ou seja, o “conflito intrapsíquico e as tentativas para sua elaboração tomariam o lugar central, com existência de fantasma e neurose de transfert” (Cardoso, 1995, p.9). Enquanto que nas neuroses atuais (neurastenia, neurose de angustia e hipocondria) não há mediação psíquica e a patologia reflete, diretamente, uma economia sexual perturbada, consequência de um excesso ou insuficiência de descarga, “seria a realidade a tomar maior importância, ficando o conflito fora do acesso do sujeito” (Sami-Ali, cit. Cardoso, 1995, p.9). 9 Vemos que, os contributos da psicanálise para a teoria psicossomática são valiosos, uma vez que, “qualquer que seja o momento de sua elaboração, a teoria psicossomática permanece estreitamente ligada à psicopatologia e mais especialmente à noção de psiconeurose, o que continua sendo a norma mesmo quando dela nos afastamos deliberadamente” (Sami-Ali, 1993, p.86). ESCOLA PSICOSSOMÁTICA AMERICANA Na América, o interesse pela psicossomática surge por volta dos anos 30, consolidando-se em meados deste século com Alexander e Dunbar da Escola de Chicago. Estes autores consideram que os transtornos psicossomáticos seriam “consequência de estados de tensão crônica, relativa à expressão inadequada de determinadas vivências, que seriam derivadas para o corpo”. (Cardoso, 1995, p.10). Defendem ainda a questão da especificidade da doença psicossomática numa visão psicogenética. De acordo com a hipótese da especificidade, “as diferentes doenças psicossomáticas corresponderiam diferentes ‘fatores psicológicos’, que para Dunbar seriam os tipos de personalidade e para Alexander os conflitos ou ‘situações de vida significantes’” (Cardoso, 1995, loc. cit.) A. Dias (1992), criticando os dois grandes ramos da psicossomática (Escola Americana e Escola de Paris), diz que o modelo de Alexander e os que dele derivam é um modelo médico “que, entreabindo as portas à ‘neurose de órgão’, lhes fechara imediatamente pela imposição do anatômico que ‘exigia’ uma explicação do localisacional fisiológico”. ( A.Dias, 1992, p.39). Este autor ainda salienta que existe “insuficiência epistemológica crucial” no modelo de Alexander, quando este defende a questão da especificidade, ao tentar acoplar ao órgão e sua doença diferentes personalidades, onde a cada vivência emocional corresponderia uma síndrome específica de alterações físicas. Alexander (1989, p.37), analisando o conceito Freudiano de histeria conversiva em psicossomática faz uma distinção entre sintoma conversivo e neurose vegetativa. Para ele, o sintoma conversivo é “uma expressão simbólica de um conteúdo psicológico emocionalmente definido”, cuja finalidade é 10 “expressar e aliviar tensões emocionais”, através dos sistemas neuromuscular voluntário ou perceptivo. Enquanto a neurose vegetativa é uma resposta fisiológica dos órgãos vegetativos a estados que podem ser ou não constantes. Para este autor, apenas no campo das inervações voluntárias pode haver a expressão simbólica do conteúdo psicológico, enquanto que é pouco provável que nos órgãosinternos haja expressão simbólica. Para explicar este funcionamento, Alexander cria a noção de “neurose orgânica”, que abrange todos os “distúrbios funcionais” dos órgãos vegetativos, causados por impulsos nervosos, originados por processos emocionais “que ocorrem em algum lugar nas áreas cortical e subcortical do cérebro” (Alexander, 1989, p.37). Portanto, segundo este autor, a tensão emocional proveniente de conflitos vivenciados ou afetos específicos reprimidos estimulariam a função de órgãos específicos, verificando-se, a partir daí, “uma espécie de ‘estase anormal de energia’, pelo aumento ou persistência da produção dos concomitantes fisiológicos das emoções, perturbadora do seu funcionamento normal”, isto é, o que em um primeiro momento “se traduziria por uma alteração da função” posteriormente se constituiria em “uma transformação orgânica”, ou seja, “passaria de sintoma funcional a sintoma orgânico” (Cardoso, 1995, p.11). Do ponto de vista psicodinâmico, Alexander (1989, p.11), divide os distúrbios emocionais das funções vegetativas em duas categorias, sendo que correspondem a duas atitudes emocionais específicas. A primeira categoria se refere às atitudes emocionais de “preparação para luta ou fuga” e a segunda à “retirada da atividade” dirigida para o exterior. E, do ponto de vista fisiológico, as atitudes emocionais, da primeira categoria, estão sob o comando do sistema nervoso simpático; e, a segunda categoria, sob o sistema nervoso parassimpático. Partindo deste princípio, distingue as doenças relacionadas ao sistema nervoso simpático como respostas ativas, e as doenças relacionadas ao sistema nervoso parassimpático como respostas passivas. “O primeiro grupo incluiria doenças como a hipertensão arterial, a diabetes, a epilepsia, etc... enquanto do segundo grupo fariam parte afecções como asma, as colites, a úlcera duodenal, etc...” (Cardoso, 1995, p.11). 11 A teoria da especificidade norteia todos os pontos de vista de Alexander. Para ele, a especificidade orgânica seria responsável pela fragilidade de determinados órgãos. “Está aliada a constelações emocionais ou psicodinâmicas dos sujeitos e que a par de conflitos inconscientes específicos organizaria modos de defesa também específicas, poderia levar ao aparecimento de determinadas doenças, servindo a situação exterior de desencadeante” (Cardoso, 1995, loc. cit.). O conceito de que há uma predisposição para determinadas doenças conforme o tipo de personalidade é muito antigo e ainda presente no pensamento médico. Dunbar, a partir da aplicação de “métodos modernos de diagnóstico psicodinâmico”(Alexander, 1989, p.59) explora este campo fértil e “desenvolve a noção de perfil de personalidade, enquanto fator pré-mórbido determinante no aparecimento de certas doenças psicossomáticas” (Cardoso, 1995, op. cit.). Em seu estudo de perfis, esta autora procura “associar a um perfil psicológico uma patologia orgânica precisa”(Sami-Ali, 1993, p.86), chegando, inclusive, a um impressionante perfil do paciente coronariano, dos pacientes fraturados e propensos a acidentes, dos pacientes diabéticos etc.... Nestes estudos de perfis, Dunbar (1943, cit. Alexander, 1989) descreve determinadas “correlações estatísticas entre a doença e o tipo de personalidade”. (Alexander, 1989, p.59). O perfil do paciente coronariano parece ser o mais precioso de seus perfis. Para ela, este paciente demonstra ser uma pessoa constantemente batalhadora. Apresenta ter um elevado grau de controle e persistência e, também, uma aparência distinta, tendo como objetivo primordial o sucesso e a realização e, para atingir estes objetivos, o mesmo planeja a longo prazo. Outro perfil estudado por ela se refere ao paciente fraturado. Ao contrário dos pacientes coronarianos, estes “Tendem a agir sob impulso repentino e, frequentemente, manifestam hostilidade mal controlada contra pessoas em posição de autoridade; ao mesmo tempo, seu comportamento é motivado por sentimentos de culpa e mostra uma tendência a autopunição” (Alexander, 1989, p.59) 12 Através destes estudos de perfis, Dunbar, conclui que determinados tipos de personalidades tenderiam a assumir ou não ocupações de responsabilidade. Alvarez (1930, cit. Alexander, 1989), clínico e estudioso de perfis, tem aperfeiçoado o “conceito de personalidade própria do portador de úlcera péptica” (Alexander, 1989, p.58), concluindo que estas pessoas demonstram características do tipo empreendedor, enérgico e agressivo. No entanto, Draper (1924, cit. Alexander, 1989) diz que um grande número de pacientes com úlcera péptica demonstram que sob a aparência de empreendedor, enérgico e agressivo há característica de dependência e, “conforme ele as expressou, femininas” (Alexander, 1989, loc. cit.). As doenças endócrinas é outro terreno fecundo para a “correlação de traços de personalidades com quadros de doença” (Alexander, 1989, p.58). O paciente com hipertireoidismo demonstra ser “extremamente tenso, irritável e sensível”, (Alexander, 1989, op. cit.), enquanto que o paciente com hipotireoidismo demonstra ser uma pessoa “embotada, fleumática e lenta” (Alexander, 1989, op. cit.). Alexander, criticando estes perfis psicológicos de Dunbar, afirma que os mesmos “revelam, primariamente, a defesa do paciente e não os conflitos que podem estar relacionados especificamente à gênese da doença” (Alexander, 1989, op. cit.) e que os estudos psicodinâmicos têm revelado que determinados “distúrbios das funções vegetativas podem ser correlacionadas diretamente com estados emocionais específicos e não com configurações de personalidades superficiais, como descritas nos perfis de personalidade” (Alexander, 1989, op. cit.). Na mesma perspectiva de Dunbar, Friedman e Rosenman, (1959, cit. Léon, 1993), na década de 50, ao investigarem seus pacientes com doenças coronarianas, concluem que determinados indivíduos que apresentam uma acentuada urgência de tempo associada a uma intensa hostilidade, grande fluência verbal, atividade psicomotora intensa, ambição e competição estariam mais suscetíveis às doenças coronarianas. A este tipo de padrão de conduta que predispõe o indivíduo a doenças coronarianas, estes autores denominaram de Padrão de Conduta tipo A, ou personalidade tipo A . 13 Apesar da aceitação e da popularidade desta teoria nos anos 70, alguns autores (Price, 1982; De Flores e Valdes, 1986; cit. Léon, 1993, op. cit.) questionam o peso destas características nas doenças coronarianas. “Parece que somente certas características da personalidade do tipo A, tais como a agressividade e a cólera, poderiam ser ligadas à aparição de doenças coronárias. Um outro problema ameaça a validade do tipo A, é o fato de ele não predizer os riscos coronários em mulheres” (Paulhan, et al. , 1994, p. 34, tradução nossa). ESCOLA PSICOSSOMÁTICA DE PARIS Em uma reversão de perspectiva das escolas americanas, no final dos anos 50, a França, a partir de nomes com o P. Marty, M de M’Uzan, M. Fain e C. David, inicia uma investigação em psicossomática. Para A. Dias (1992), esses autores, ao utilizarem uma “escuta analítica” destes sujeitos, ao invés de escutar “o sujeito via órgão”, diferenciaram-se substancialmente da escola psicossomática americana. Ao realizarem esta forma de escuta, “Marty e seus colegas” se surpreenderam, pois descobriram que estes sujeitos “não estavam falando de nada”. No entanto, este nada “possibilitou aos investigadores franceses a formulação de uma gigantesca negatividade simbólica, aonde o pensamento operatório, a precariedade onírica e a ausência de fantasia se impunham como esfinges aos decifradores do enigma psicossomático” (A Dias, 1992, p.40). Para estes autores, o termo “psicossomática” se refere à designação de uma “abordagem de pacientes, de uma técnica psicoterápica e de uma teoria”, (Rocha,1989, p.104) cujo interesse é a compreensão do que ocorre na mente dos sujeitos que respondem aos conflitos e aos acontecimentos somatizando. Esta forma peculiar de organização mental apresenta as seguintes características: “dificuldade de fantasiar livremente, pobreza de associações subjetivas, dificuldade de estabelecer uma transferência, pobreza de investimentos libidinais e ausência de reações afetivas diante de perdas e outros 14 acontecimentos traumáticos”, (Rocha, 1989, loc. cit.). A este grupo de características, nomearam de “relação branca”, “vida operatória”. Marty e M’Uzan (1983, cit. Silva e Caldeira, 1992, p.113),. a partir dos estudos realizados por Fain e David, sobre a vida onírica e aplicados à seus pacientes, perceberam que estes tinham uma forma peculiar de pensar e de lidar com suas emoções. A esta forma de pensamento, estes autores denominaram de “pensamento operatório”. Portanto, o conceito de “pensamento operatório” surgiu nos últimos anos como consequência do desenvolvimento da escola francesa e americana, para designar a forma de pensar e de lidar com emoções de pacientes definidos como psicossomáticos. Esta forma peculiar de pensamento seria para eles um pensamento consciente que se organizaria por causa da “falha do pré-consciente”, acarretando assim impossibilidade de comunicação entre o consciente e o inconsciente. Consequentemente , os sujeitos que apresentam esse estilo peculiar de pensamento teriam uma pobreza fantasmática e uma precária vida onírica. Portanto, a capacidade simbólica e o valor de sublimação seriam quase inexistentes acarretando um prejuízo considerável da capacidade de produção, quer científica quer artística, desses sujeitos. Essa estrutura de pensamento apresenta duas características fundamentais: a primeira se refere a um pensamento consciente que se manifesta sem vínculo algum com o orgânico e sem atividade fantasmática de considerável valor; e a segunda diz respeito ao fato do pensamento reproduzir simplesmente uma ação, ou seja, não há significado para o ato, mas apenas a palavra ilustrando a ação. Nesse sentido, a palavra seria apenas para descarregar uma tensão. Ela é vazia, desprovida de qualquer elaboração e sem nenhuma ligação “con una atividaded fantasmática situado en un grado apreciable5 ” (Martin y M’Uzan, 1963, p.715); é apenas uma reprodução do ato, não há distância do significante perante o significado. Do ponto de vista funcional, Marty e M’Uzan (1963) procuram relacionar a singularidade do pensamento operatório ao processo primário e secundário. O fato de se encontrar, nesse tipo de pensamento, orientação para a realidade sensível, preocupação com o lógico, com a continuidade e com a 15 casualidade nos remeteria a uma modalidade do processo secundário, no entanto a atividade deste estilo de pensamento se fixa, principalmente, às coisas e não às expressões simbólicas e à imaginação. Quanto à noção de cronologia, esta se utiliza do processo secundário, no entanto, ocorre, em uma unidade de tempo limitado. Para esses autores, em um primeiro momento parece que não há nenhuma relação entre o pensamento operatório e o processo primário. No entanto, determinadas manifestações verbais perversas ou agressivas, que surgem de repente desconectadas do contexto, denunciam uma certa ligação com o inconsciente. Apesar da existência dessa ligação, o contato estabelecido entre eles ocorre “en el nível mas boyo, el menos elaborado, mas acá de las primeiras elaboraciones integradoras de la vida pulsional6 ”. (Marty y M’Uzan, 1963, p.719). ESCOLA DE BOSTON E CONCEITO DE ALEXITIMIA Jonhn Nemiah e Peter Sifneos, dois analistas americanos, nos anos 70, que se propuseram a realizar pesquisas sobre a forma peculiar de se comunicar dos pacientes psicossomáticos, constataram, por meio do estudo minucioso de entrevistas psiquiátricas, gravadas com pacientes que apresentavam alguma doença psicossomática clássica, que dezesseis desses pacientes demonstraram uma impressionante dificuldade de expressar ou descrever suas emoções através da palavra, assim como uma acentuada diminuição dos pensamentos fantasmáticos. Posteriormente, após repetidas observações, estes autores concluíram que os pacientes com doenças psicossomáticas clássicas, ao contrário dos pacientes psiconeuróticos, apresentavam frequentemente uma desordem específica nas suas funções afetivas e simbólicas, acarretando uma forma de se comunicar confusa e improdutiva (Taylor, 1990). A esta maneira peculiar de se comunicar desses pacientes, Sifneos(1972) denominou de alexitimia, sendo que a etimiologia da palavra alexitimia é de 16 origem grega (a = falta de, lexis = palavra, thymos = emoção), significando falta de palavras para as emoções (Taylor, 1990) A alexitimia, apesar de inicialmente ter sido relacionada a perturbações psicossomáticas clássicas, atualmente, pode ser encontrada em um grande número de sujeitos que padecem de diversas perturbações físicas e psicopatológicas, quer como um estilo peculiar do funcionamento mental, quer como resposta do sujeito às “situações vividas como ameaçadoras pela difícil contenção psíquica das emoções dolorosas” (Teixeira e col., p.381). Apesar desses estudos atuais demonstrarem que essa maneira peculiar de se comunicar não é específica dos pacientes com doenças psicossomáticas clássicas, a contribuição de Nemiah e Sifneos é de importância fundamental, pois chamaram a atenção para um aspecto do funcionamento psíquico relevante tanto para a medicina psicossomática quanto para a psicanálise. Apontaram, principalmente para a psicanálise atual, uma direção a tomar sobre a exploração da vida intra-psíquica via estudo da comunicação entre paciente e analista. Embora sejam várias as investigações no sentido de encontrar uma única explicação etiológica para a alexitimia, Nemiah (1977, cit. Taylor 1990) acredita na hipótese de que haja múltiplos fatores exercendo influências no desenvolvimento deste fenômeno tão complexo. Taylor (1988), concorda com esta hipótese e ressalta que a maneira de se comunicar é influenciada, não somente por fatores genéticos, neuropsicológicos e intra-psíquicos, mas também por fatores sócio-culturais, pelo nível intelectual e pelos modelos dos discursos familiares. De acordo com Mc Dougall (1974, cit. Taylor 1990), ao contrário do que acontece na histeria de conversão, onde o corpo se rende à dramatização simbólica do conflito intra-psíquico, no fenômeno alexitímico o corpo segrega seus próprios pensamentos. Sendo este corpo sentido como se pertencesse a alguém (mãe) ou a alguma coisa (mundo externo). Para essa autora, o fenômeno alexitímico acontece em decorrência de perturbações da relação mãe-filho, sendo esse fenômeno uma patologia pré-neurótica extremamente precoce dominada pelos mecanismos de defesa de clivagem e de identificação projetiva (Mc Dougall, 1980, 1982 cit. Taylor, 1990). Essas perturbações correspondem à 17 fase do desenvolvimento simbiótico, onde as representações de si e as representações do objeto não são nitidamente diferenciadas e também os símbolos não são utilizados de forma concreta. Portanto, do ponto de vista de Mc Dougall (1982), a alexitimia é uma “dèfense singulièrement forte contre la douleur psychique et les anxiétés psychotiques associées aux objtes internes archaiques7 ” (Taylor, 1990, p. 778). Krystal (1973, cit. Silva e Caldeira, 1992) realizou estudos em toxicômanos, vítimas de holocaustos e indivíduos psicossomáticos, e concluiu que a alexitimia é mais que uma defesa, como postulou Mc Dougall, é uma parada do desenvolvimento afetivo decorrente de um traumatismo infantil, ou uma regressão da “fonction affetictive-cognitive après un traumatisme catastrophique à l’agê adulte8 ”(Krystal, 1979,1982-1983 cit. Taylor, 1990, p. 778). Portanto, aconcepção de alexitimia de Krystal se aproxima da noção de Bion (1977) de “d’une fonction alpha déficente9 ” e também da concepção Kleiniana de “fixation ou de régression par rapport à la position paranóide- schizóide” (Taylor, 1990, p. 779). De acordo com o exposto anteriormente, a alexitimia é um constructo derivado da clínica baseado em observações e minuciosos estudos das entrevistas de consultas psiquiátricas em pacientes com doenças psicossomáticas clássicas. Nemiah e Sifneos (1970, cit. Taylor, 1990) perceberam, através desses estudos que havia uma nítida diferença na maneira como se queixavam os pacientes alexitímicos dos pacientes neuróticos. Enquanto os pacientes neuróticos se queixavam de sintomas emocionais e dificuldades psicológicas, os pacientes alexitímicos se queixavam de sintomas somáticos, onde na maioria das vezes não havia qualquer ligação entre os sintomas e qualquer doença física que pudessem ter. A maneira como esses pacientes se comunicavam se caracterizava por um pensamento simbólico em que as pulsões, os sentimentos e os desejos não apareciam. Sendo esse um pensamento vulgar, particular, preocupado com detalhes e acontecimentos externos, ou seja, voltado para o mundo exterior em detrimento do mundo interior. 18 Outra característica, apontada por esses autores, se refere a uma extraordinária dificuldade desses sujeitos em reconhecer e descrever seus próprios sentimentos, assim como, em diferenciar as sensações corporais dos estados emocionais. (Nemiah, Freyberger e Sifneos, 1976, cit. Taylor, 1990). Ainda, nessa concepção, esses sujeitos demonstraram ser hiperadaptados e com elevado grau de “conformismo social”, aparentando ser às vezes um neurótico com “une personnalité hystérique ou un caractére obsessionnel11 ” (Taylor, 1990, p. 771). No entanto, Nemiah (1973) faz uma distinção, dizendo que as personalidades alexitímicas apresentam uma ausência de pensamento fantasmático associados ao conflito psicológico (Taylor, 1990). A EXPLICAÇÃO BIOLÓGICA E NEUROFISIOLÓGICA EM PSICOSSOMÁTICA Chrousos e Gold (1993) definem estresse “como um estado de desarmonia ou de homeostase ameaçada”. (Chrousos e Gold, 1993, p. 479). Para estes autores, Heracleitus foi o primeiro a sugerir que um “estado estático, sem alteração, não era condição natural” (Chrousos e Gold, 1993, op. cit.) dos organismos vivos, mas sim a capacidade, de se submeterem a alterações constantes. Empédocles, logo após esta ideia, propõe que a condição necessária para a sobrevivência dos seres vivos consiste no equilíbrio e harmonia dos elementos em oposição dinâmica. Partindo desta concepção, Hipócrates, cem anos depois, define saúde como sendo um equilíbrio harmonioso dos “elementos e das qualidades de vida” (Chrousos e Gold, 1993, p.480) e doença como “desarmonia sistemática destes elementos”. (Chrousos e Gold, 1993, loc. cit.). Hipócrates sugere ainda que as forças que provocam a desarmonia - a doença - têm sua origem nas “fontes naturais e não de fontes sobrenaturais e que as forças de contra equilíbrio ou adaptativas eram também de origem natural” (Chrousos e Gold, 1993, loc. cit.). Thomas Sydenham, no período da Renascença, amplia o conceito de doença de Hipócrates quando a define como “uma desarmonia sistemática 19 trazida à tona devido às forças perturbadoras” (Chrousos e Gold, 1993, loc. cit.), sugerindo que uma resposta adaptativa a estas forças poderia acarretar alterações patológicas. No século XIX, ao tornar mais ampla a noção de harmonia ou de estado de estabilidade, Claude Bernard, introduz o conceito do “milieu interieu, ou o princípio de um equilíbrio fisiológico interno dinâmico” (Chrousos e Gold, 1993, loc. cit.). Posteriomente, Walter Cannon, fisiologista notável criou o termo homeostase, ampliando-o tanto a parâmetros emocionais quanto a físicos. Através de suas pesquisas com animais percebeu que, quando estes eram submetidos a estímulos desequilibradores de sua homeostase, se preparavam para “a luta ou fuga”, apresentando alterações somáticas12 e que estas alterações eram desencadeadas “por descargas adrenérgicas da medula da supra-renal e de noradrenalina em fibras pós-ganglionares” (Rodrigues e Gasparini, 1992, p.99). Partindo destas descobertas, Cannon “teorizou em 1934 a relação entre emoções e alterações fisiológicas e hormonais, enquanto função adaptativa do organismo às solicitações ou agressões externas” (Luban-Plozza, 1979, cit. Cardoso, 1995, p.15). Na década de 30, Hans Selye, endocrinologista, radicado no Canadá, “pegou emprestado o termo ‘estresse’ da física e o utilizou para significar as ações mútuas de forças que têm lugar através de qualquer seção do corpo”. (Chrousos e Gold, 1993, p.480). Através de seus estudos, demonstrou que um organismo, quando exposto a um esforço provocado por um estímulo que ameace sua homeostase, reage com o corpo todo e de “forma uniforme e inespecífica” (Rodrigues e Gasparini, 1992, loc. cit.). A esta forma de reagir, Selye denominou de Síndrome Geral de Adaptação, “chegando assim a noção de stress” (Cardoso, 1995, loc. cit.). Portanto, “stress”, para ele, é uma resposta inespecífica que o organismo “desenvolve ao ser submetido a uma situação que exige esforço para a adaptação” (Rodrigues e Gasparini, 1992, op. cit.). Esta síndrome, de acordo com este autor, consiste em três fases: a de alarme, a de resistência e a fase de exaustão, sucessivamente. No entanto, para 20 que haja o stress, não é necessário que a fase se desenvolva até o final e, se a “reação ao agressor for muito intensa ou se o agente do estresse for muito potente e/ou prolongado, poderá haver, como conseqüência, doença ou maior predisposição ao desenvolvimento da doença” (Rodrigues e Gasparini, 1992, p.99). Holmes et Rahe, (1967, cit. Cardoso, 1995), partindo da noção de stress e interessados em investigá-los, elaboraram um instrumento para medi-lo. Desenvolveram, desta forma, uma Escala onde os “life events” são pontuados em função do esforço adaptativo que exigem (Life Change Units ou LCU) (Cardoso, 1995, op. cit.), “onde haveria limites a partir dos quais se constituiriam níveis de risco para o aparecimento de doenças, dado que o esforço de adaptação em causa teria um efeito cumulativo nos sujeitos, em relação a sua capacidade de resposta. Daí que a pontuação obtida constituiria um bom indicador preditivo de um adoecer psicossomático” (Villemain, 1989, cit Cardoso, op. cit.). Convém acrescentar que o stress é uma resposta radicalmente inespecífica e apenas descreve o nível orgânico da coisa. Não ajuda compreender psicologicamente o adoecer psicossomático. OUTRAS CONCEPÇÕES E MODELOS EM PSICOSSOMÁTICA Os princípios psicossomáticos, segundo Dejours (1988), teriam suas hipóteses alicerçadas na inter-relação entre o corpo fisiológico e o corpo erótico. Para ele, através da subversão libidinal, o corpo erótico surge do corpo biológico, mantendo constantemente uma relação de dependência, influenciando e intervindo “ao nível da relação orgão-junção” (Cardoso, 1995, p.22). Dejours (1988 cit Cardoso, 1995) utilizou esta designação “subversão libidinal” para se referir à aquisição de algo que, além de não ser definitivo, não se completaria jamais, acarretando assim um “confronto constante entre corpo erótico e corpo biológico” (Cardoso, 1995, op. cit.). De acordo com essa 21 concepção, não faz sentido algum separar doença orgânica e doença mental uma vez que as somatizações, nas duas, correspondem a uma somatização cerebral, designada “habitualmente por psicose”. Portanto, a escolha do órgão, nessa concepção, “dependeria das vicissitudes da subversão libidinal e da construção do corpo erótico, ancorado nas funções bio-endócrinas como nas motoras e cognitivas”(Cardoso, 1995, op. cit.). Sami-Ali (1987, op. cit.), atravésda investigação clínica e teórica, desenvolvida há 30 anos, enuncia, em seu livro “Pensar o somático”, um projeto paradoxal, uma vez que, segundo ele, “pensar o somático e o pensar psíquico são dois caminhos radicalmente diferentes”. Ao pensar o somático, Sami-Ali, partindo de uma análise crítica do modelo psicanalítico, propõe um modelo multidimensional em psicossomática. Para ele, o “ponto mais fraco da psicanálise de Freud e dos autores que se seguiram é a extensão, é a extrapolação teórica e especulativa, sem limites, dos modelos da psicopatologia aos fenômenos orgânicos, biológicos, históricos, sociais, etc...” (Sami-Ali, 1987, p.158). Diz ainda que é uma ilusão, pensar que seja possível chegar a uma compreensão de todos os “funcionamentos individuais, grupais, biológicos e históricos”, partindo de um só e único modelo - a patologia freudiana. E que para chegarmos a uma compreensão dos fenômenos psicossomáticos é necessário que nos livremos dessa ilusão. A patologia orgânica, conforme a perspectiva desse autor, “não pode ser integrada num modelo histórico, nem no modelo da neurose atual e nem no modelo da psicose”, uma vez que tudo é relacional, isto é, o problema da patologia orgânica deve ser visto “globalmente a um funcionamento regido em primeiro lugar pelos ritmos biológicos”, sendo que nesses ritmos há sempre “alternância entre dois estados fundamentais, o sonho e a vigília, que são regidos por qualquer coisa que se encontre além ou aquém do psíquico” (Sami-Ali, 1987, op. cit.). A partir dessa perspectiva Sami-Ali coloca que toda a questão psicossomática deve ser considerada na relação onde não haja “dum lado o psíquico e do outro do orgânico”. O que realmente existe é “qualquer coisa que reenvia a uma relação original, existente antes do nascimento e depois do nascimento. Está-se em relação desde a concepção” (Sami-Ali, 1987, op. cit.). 22 Desta forma, Sami-Ali contesta Fairbaim, quando este tenta assentar a relação precoce à procura do objeto, e também Anzieu ou Bowlby, quando estes procuram relacionar essa relação aos laços de vinculação, uma vez que, para ele, a vida psíquica começa muito antes da fase narcísica ou auto-erótica. Outro aspecto relevante à psicossomática, conforme esse autor, diz respeito à maneira como vê o sonho. Para ele, o sonho é uma criação da realidade e não uma realização do desejo como é visto por Freud, sendo que está ligado aos ritmos biológicos. Paralelamente a esses ritmos, Sami-Ali considera o espaço e o tempo como “duas dimensões fundamentais na compreensão da realidade humana” (Sami-Ali, 1987, op. cit.), pois a organização desse espaço e tempo é parâmetro para “a análise e para a compreensão dos fenômenos psicossomáticos” (Sami-Ali, 1987, op. cit.). Quando Sami-Ali articula a questão tempo e espaço, não a reduz a formas simbólicas. Fala de um tempo e espaço ideais e da transposição de “espaço em tempo e deste tempo em espaço de representação, em relação com a projeção” (Sami-Ali, 1987, op. cit.). É no sonho que ocorre a objetivação de um mundo e na criação de um mundo objetivo, que se torna subjetivo, uma vez que a “projeção é a alucinação, é o facto de criar um mundo que sou eu, e todos criam esse mundo” (Sami-Ali, 1987, op. cit.). Para ele, o esquecimento do sonho é específico da espécie humana e o que existe é a lembrança do sonho e não o sonho em si, sendo que o recalcamento ocorre na passagem do sonho à memória dos sonhos. Esse recalcamento ocorre de tal maneira que a atividade onírica, em certas pessoas, desaparece completamente. Quando ocorre o desaparecimento total da atividade onírica, é que Sami-Ali fala de uma possível ligação entre organização da atividade do sonho e a doença orgânica. A atividade onírica determina o funcionamento psíquico e, quando há ausência desse funcionamento, aparece a patologia da adaptação. Desta forma, o que estaria recalcado não são os conteúdos e sim toda uma função, “algo que apaga o traço das emoções, tanto na expressão onírica como na expressão do afeto” (Cardoso, 1995, p.25). Na concepção de A. Dias (1992), o termo psicossomática, devido a sua inespecificidade, deve ser substituído pela designação “somatopsicose”, 23 utilizada tanto por Bion (III volume de A memoir of the Future cit. A. Dias, 1992, p.31) quanto por Meltzer (Metapsicologia Ampliada, cit. A. Dias, 1992, p.31). O termo somatopsicose enuncia um contexto teórico claro, onde o “adoecer psicossomático é encarado na sua relação com fenômenos psíquicos determinados”. (Cardoso, 1995, p.35). A. Dias (1992), ao investigar sobre a somatopsicose, parte de pressupostos de Bion e coloca como paradigma somatopsicótico a mentira originária, sendo que o conceito de mentira originária, para ele, é muito mais amplo que o recalcamento originário de Klein e o falso self de Winnicott e mais até que a “questão da hipermaturação”. (A. Dias, 1992, p.34). Refere-se, portanto, a uma hiper-adaptação ao outro, ao meio humano, decorrente da afirmação omnipresente do outro, onde o sujeito se desanima, não havendo um único espaço para a identificação projetiva, mas somente “uma forma particular de identificação adesiva em que o sujeito se condena a uma reduplicação do outro e do pensamento do outro” (Cardoso, 1995, p.35). No decorrer deste estudo é perceptível que, apesar de toda a complexidade e diversidade das principais concepções, houve grandes avanços nas investigações referentes às doenças psicossomáticas. CLÍNICA PSICOSSOMÁTICA “A psicossomática caracteriza-se como uma atitude na promoção de saúde, postulando uma visão integrada, na sua unidade irredutível corpo-mente”, com essa definição, Campos e Rodrigues (2005, p. 299) apresentam uma visão atual em psicossomática e na maneira de se enxergar o ser humano, visto que corpo e mente representam um contínuo e são inseparáveis anatômica e funcionalmente. Ainda que realmente algumas doenças apresentem correlações com aspectos emocionais e situações de vida, as escolas psicossomaticistas não mais se referem às expressões “doenças psicossomáticas”, como eram encaradas a úlcera péptica, a retocolite ulcerativa, a asma brônquica, a 24 hipertensão arterial, entre outras (CAMPOS; RODRIGUES, 2005). Seja qual for o fator etiológico (de causa) preponderante na doença, ela acontece em um ser humano detentor de vida mental, social e biológica, portanto, passa a ser um fenômeno psicossomático, ou seja, segundo a compreensão atual na área, toda doença é psicossomática. Como apontam Campos e Rodrigues (2005, p. 301): A Escola de Psicossomática de Paris, que tem como principal autor Pierre Marty e tem como base a teoria psicanalítica, entende que os seres humanos se confrontam a todo momento com um afluxo de excitações, pensamentos, desejos, necessidades e conflitos e que temos a possibilidade de descarregá-los por três possíveis vias: a orgânica (somática), a ação (comportamento) e o pensamento (psiquismo, representações psíquicas, fantasias etc.) (VOLICH, 2010). Uma pessoa que entra em conflito com outra por alguma desavença, por exemplo, pode conseguir lidar emocionalmente com a situação de briga, elaborar um diálogo conciliador ou explicar o motivo de estar raivosa (saída pelo pensamento), ou então agredir fisicamente o outro (ação), entretanto, a experiência de raiva pode propiciar um aumento momentâneo dos batimentos cardíacos, da pressão arterial, vermelhidão nas faces, tremor ou até mesmo uma dor de cabeça posteriormente (descarga pela via somática). A saída mais complexa e adaptada, pela via do pensamento, envolve o processo definido como mentalização, explicado por Volich (2010, p. 203) como um “conjunto de operações de representação e simbolização por meio das quais o aparelho psíquico busca regular as energias instintivas e pulsionais, libidinais e agressivas”.25 Entretanto, falhas no desenvolvimento psíquico ou experiências perturbadoras (traumáticas) podem comprometer o funcionamento mais evoluído, temporária ou cronicamente, e essas descargas restam a ocorrer, então, pela via da ação ou por reações orgânicas, incluídas aqui desordens funcionais de órgãos, desorganizações psicossomáticas progressivas com adoecimentos recorrentes e potencialmente graves ou até mesmo o que se compreende pelas reações fisiológicas da ansiedade/pânico. Essa compreensão é similar à de McDougall, psicanalista estudiosa do fenômeno psicossomático e relações corpo-mente, que entende “a somatização como resposta, tanto aos conflitos internos como às catástrofes externas” (MCDOUGALL, 1991, p. 135 apud CAMPOS; RODRIGUES, 2005). O foco da clínica psicossomática recai sobre esses momentos em que o sujeito “não encontra palavras” para descrever suas vivências. A não existência ou a impossibilidade momentânea de se trabalhar com palavras, componentes afetivos, metafóricos acerca do que se está vivendo acaba por comprometer esse funcionamento e deixa o sujeito à mercê de descargas pelo comportamento ou quadros de somatização. É função do psicólogo “fazer falar” (no sentido de propiciar a fala), estimular no individuo qualquer manifestação subjetiva de maneira a integrar na sua história – com palavras – o que pode facilmente ser vivido como traumático ou intolerável. 26 A psicossomática, como um campo de compreensão, busca um entendimento na relação mente-corpo e dos processos de adoecimento, partindo, principalmente, da observação dos distúrbios físicos nos quais processos emocionais desempenham um papel ou de situações observadas nas diversas clínicas (hospitalar, psicológica, médica etc.), nas quais uma perturbação psicológica (estresse, como comumente apontado) aumenta o risco de se desenvolver ou agravar doenças físicas (CAPITÃO; CARVALHO, 2006). AS CONCEPÇÕES ACERCA DO CONCEITO DE SOMATIZAÇÃO A somatização constitui-se não como o único, mas como um dos objetos de estudo da Psicossomática, pois as concepções atuais definem essa área de conhecimento como o campo de estudo que tem como objeto os mecanismos de integração entre as dimensões mental, corporal e social, ou seja, trata da integração biopsicossocial (RIECHELMANN, 2009). Nessa perspectiva, Rodrigues, Campos e Pardini (2010) afirmam que a Psicossomática diz respeito ao: A evolução da concepção desse campo deu-se em três fases: a inicial, ou psicanalítica, marcada pelos estudos sobre a gênese inconsciente das enfermidades, sobre as teorias da regressão e sobre os benefícios secundários do adoecer; a intermediária, ou behaviorista, fase em que predominou o estímulo à pesquisa em homens e animais, buscando enquadrar os achados aos parâmetros das ciências exatas, e dando um grande estímulo aos estudos sobre o estresse; a atual ou interdisciplinar, em que se põe em destaque a importância do social e da interdisciplinaridade (MELLO-FILHO, 2010). 27 A origem do termo somatização, segundo Fortes, Tófoli e Baptista (2010), remonta à primeira metade do século passado. Como atestam esses autores, o mencionado termo foi cunhado por Stekel e “[...] tem sido usado de forma muito variada e imprecisa, um dos principais motivos de existirem tantas formas diferentes de entender esse processo” (FORTES; TÓFOLI; BAPTISTA, 2010, p. 546). Em determinados momentos históricos, verifica-se certa ausência de delimitação entre os conceitos de somatização e doenças psicossomáticas, já que estas eram associadas a sintomas físicos cuja gênese estaria nos fatores emocionais, coincidindo, assim, com a ideia que se tinha de somatização. Como afirmam Fortes, Tófoli e Baptista (2010, p. 547) “a somatização foi, originalmente, e para muitos ainda o é, considerada um mecanismo de interferência da mente sobre o corpo [...]”. Desse modo, os conceitos de “somatização” e “doenças psicossomáticas” se confundiam. Os atuais estudos concernentes aos fenômenos psicossomáticos, segundo Fortes, Tófoli e Baptista (2010), construíram um novo modelo de compreensão do processo saúde- doençacuidado, superando as teorias etiológicas lineares, unicausais e cartesianas. Dessa forma, contribuíram para a redefinição do conceito de “doenças psicossomáticas” e, consequentemente, do conceito de “somatização”. De acordo com esse novo modelo: Desse modo, os mencionados autores entendem que toda doença é psicossomática. Essa visão contribuiu para que se instalassem os modelos multicausais e integrais, que imperam na fase atual dos estudos psicossomáticos. A partir dessa mudança de modelo, “[...] o termo somatização perde seu caráter genérico de ‘influência da mente sobre o corpo’, e adquire uma especificidade. Passamos então a falar de sintomas físicos onde não se 28 verificam mecanismos anatomopatológicos que os justifiquem adequadamente” (FORTES; TÓFOLI; BAPTISTA, 2010, p. 547), também chamados de “sintomas sem explicação médica (SEM)”. Entretanto, é importante pontuar que esse atual conceito de somatização causa controvérsias: Parafraseando Mello-Filho (2002), compactua-se com a ideia de que essa definição reflete a dificuldade do modelo biomédico em transitar entre o somático e o psíquico, buscando dar conta apenas dos aspectos anatomopatológicos, descartando do processo saúde-doençacuidado os aspectos psíquicos e sociais, que interagem contínua e simultaneamente com o corpo. Considere-se também que a expressão “sem explicação médica”(SEM) pode significar um exame mal feito, uma inadequada relação entre médico e paciente, ou, ainda, formas patológicas cuja evolução científica ainda não permitiu conhecê-las adequadamente (FORTES; TÓFOLI; BAPTISTA, 2010). Desse modo, entende-se que o conceito de somatização que tem como núcleo central “sintomas sem explicação médica” apenas nega a existência de alterações anatômicas que justifiquem adequadamente os sintomas apresentados, mas não põe em foco os aspectos psíquicos e sociais implicados no processo. Com a ratificação dos autores mencionados anteriormente (idem), considera-se que as representações e os significados que o paciente atribui a sua sintomatologia somática, bem como suas implicações nos aspectos funcionais e sociais deveriam ser reconhecidos como núcleo central do conceito de somatização. Nesse sentido, a somatização seria entendida como uma forma de illness, ou seja, como “[...] experiência subjetiva da doença e suas repercussões nas relações sociais” (ibidem, p. 548). Trata-se, pois, do sentir-se doente, do acreditar estar doente, aderindo excessivamente ao papel de doente, valorizando as sensações somáticas anormais e manifestando excessiva 29 preocupação com queixas físicas. Desse modo, os supracitados autores afirmam textualmente: A partir disso, entende-se que a ausência de alterações anatomopatológicas consiste numa evidência clínica importante para o diagnóstico diferencial da somatização, mas os demais aspectos inerentes a esse processo, tais como a excessiva preocupação com os sintomas físicos, a busca por cuidados médicos, o padrão de atribuição adotado pelo paciente, enfim, a sua experiência subjetiva frente às sensações somáticas são fatores fundamentais nesse contexto. Dessa forma, “[...] essas queixas somáticas [ditas] inexplicáveis estão muito mais relacionadas à forma como o paciente apresenta seu sofrimento para o profissional, do que se constituem como doença específica” (FORTES; TÓFOLI; BAPTISTA, 2010, p. 548). Assim, pode-se afirmar que o padrão explicativo que o paciente adota para apresentar seu sofrimento ao profissional é determinante na configuração do quadro de somatização. A FORMAÇÃO DE SINTOMAS NO SUJEITO BIOPSICOSSOCIAL A atual fase da Psicossomáticacompreende o processo de adoecer como um fenômeno contextualizado, que aponta para a realidade e o modo de ser e existir de cada sujeito. Nessa perspectiva, a formação de sintomas, sobretudo nos casos de somatização, é compreendida sob o viés da multicausalidade e integralidade, levando em consideração o contexto biopsicossocial em que o sujeito está inserido. 30 Rodrigues, Campos e Pardini (2010) apontam para a importância de visualizar o paciente em seu contexto, considerando que suas dificuldades em se ajustar às mudanças do ambiente interno e/ou externo, de modo que o adoecer não deve ser visto como um evento casual, mas como uma resposta do sujeito que é parte ativa de uma microestrutura familiar e de uma macroestrutura social e cultural. Desse modo, compreende-se que o ser humano está inserido numa rede muito complexa de relações, que envolve processos de subjetivação constituídos a partir da confluência de múltiplos fatores, tais como os filosóficos, políticos, teológicos, biológicos, psicológicos e relacionais como um todo. As inúmeras interações do sujeito nesse contexto são perpassadas, naturalmente, pelo conflito. Este é entendido não como um fenômeno de origem e curso exclusivos da vida psíquica, como se ela fosse algo isolado das outras dimensões humanas; compreende-se que as demandas orgânicas, sociais e psíquicas estão em constante e recíproca interação, de modo que, nesse processo, coexistem sentimentos antagônicos ou forças opostas tais como um determinado desejo e as prescrições morais que o coíbem. A esse respeito, Rodrigues, Campos e Pardini (2010) ressaltam que, quanto mais intoleráveis ou indesejáveis em função das interdições morais são os sentimentos e/ou desejos, tanto maior é o conflito e o estado de tensão dele decorrente. Entretanto, é possível ocorrer uma adequada canalização desses sentimentos e/ou desejos para outros objetos substitutivos, obtendo, assim, soluções conciliatórias ou de sublimação, conferindo, desse modo, um destino saudável ou mais adaptativo aos investimentos afetivos. 31 Homem como ser Biopsicossocial Porém, quando esses mecanismos ou recursos psicológicos estão ausentes ou são insuficientes, estão postas as condições para o acirramento do conflito e da tensão psicológica resultantes. Embora não faça uma clara distinção entre os conceitos “somatização” e “doença psicossomática”, é bastante significativo destacar as considerações de Galdi e Campos (2017). Esses autores fazem uma diferenciação entre a Escola francesa, ligada à perspectiva lacaniana, e a Escola Psicossomática de Chicago e autores franceses não lacanianos. Esta, relaciona a formação de sintomas psicossomáticos a conflitos inconscientes, que são simbolizados na doença, porém, de forma mais precária que na histeria. Por outro lado, a Escola francesa afirma que os sintomas psicossomáticos não se constituem em um deslocamento representacional, mas traduzem uma falha nos processos de simbolização. Os mesmos autores (idem) apontam como direção do tratamento, a definição de um sentido para o sintoma. Estudos evidenciam elevada relação 32 entre somatização e procura de cuidados médicos primários. Apontam também correlação entre somatização e traços de personalidade como a conscienciosidade, obsessão, sensibilidade, insegurança, ansiedade, alexitimia, baixa autoestima, vulnerabilidade ao estresse, hostilidade e supervalorização do tipo físico e da atividade (perfis atléticos). Indicam, ainda, o abuso sexual como um dos fatores de risco para o desenvolvimento de somatização, e a “necessidade de estar doente” como fator de manutenção do quadro somático (FERREIRA; MARTINS; MONTEIRO; PEREIRA, 2014). Depreende-se disso que os mecanismos de formação de sintomas somáticos no sujeito biopsicossocial perpassam todo o seu contexto existencial, revelando, assim, o caráter multifatorial da causalidade do processo de adoecimento, já atestada por Bécache (2006). Embora não enfatize o aspecto recíproco das influências entre os diversos fatores implicados no surgimento dos sintomas, o mencionado autor explica, sinteticamente: Nessa perspectiva, entende-se que a tensão psíquica tende a escoar por via emocional ou somática. Sabe-se que as queixas físicas recebem maior reconhecimento, sendo mais legitimadas tanto no contexto social quanto familiar; as queixas psicológicas não gozam do mesmo grau de aceitação (FORTES; TÓFOLI; BAPTISTA, 2010). Assim, já que, ao apresentar queixas somáticas, o sujeito tente a receber mais atenção, o comportamento somatizador passa a ser uma forte alternativa de comunicação do sofrimento e da reivindicação de cuidado. Considera-se que os sintomas corporais apontam para conflitos psíquicos, que permeiam a existência humana e que são inerentes às relações que o homem estabelece com o meio social, cultural, espiritual e com suas instâncias psíquicas. Cada indivíduo, de acordo com as representações que faz dessa experiência conflitual e conforme seus repertórios biológico, social e cultural, apresenta um modo específico de lidar com esses conflitos, elaborando diferentes soluções para os 33 mesmos. Esse modo particular de encarar a experiência conflitual determina o bem-estar ou o adoecer. O mesmo autor afirma que “é a partir dessa compreensão que podemos também entender as circunstâncias que culminam com a cristalização do sofrimento do sujeito em uma manifestação psíquica ou somática” (VOLICH, 2000, p. 65). Essas considerações pressupõem que, não obstante as nuances ou a volubilidade da experiência humana, o indivíduo tende a repetir certos modos de representar e lidar com os conflitos, podendo ou não sedimentar um estado patológico de sofrimento. Contribuindo com essa discussão, Rodrigues, Campos e Pardini (2010) sinalizam que o conflito, a tensão e o estado emocional como um todo influenciam no surgimento de alterações fisiológicas, ao mesmo tempo em que são por elas influenciados. As alterações fisiológicas, por sua vez, podem resultar em tensões motoras e do sistema de irrigação, acarretando quebra da homeostase orgânica, desencadeando, possivelmente, sintomas somáticos. Dependendo da intensidade e da frequência desses processos, podem emergir patologias como as cardiopatias. Quanto à intensidade do conflito, da tensão e do estado emocional como um todo, está diretamente relacionada à constituição social e cultural do sujeito, e repercute na totalidade humana. Entende-se, pois, que o mal-estar ou o adoecer percorrem o homem como um todo. Uma vez que uma vivência conflituosa é capaz de desencadear emoções no ser humano, que, por sua vez, podem provocar transtornos funcionais e culminar com alterações orgânicas (resguardado o caráter recíproco desse processo), não se pode falar de adoecimento humano em uma dimensão isolada de sua vida. Assim, considera-se que o homem adoece por inteiro, em outras palavras, esse processo pressupõe alterações psicoemocionais, sociais, bioquímicas, endócrinas, neurológicas, imunológicas e somáticas. Assim, reafirma-se que: 34 A partir dessas considerações, depreende-se: uma vez que, não existindo o conflito, a emoção ou a tensão, não ocorreriam transtornos funcionais, alterações da vida celular e processo patológico, entende-se que aqueles fatores são parte essencial do processo de adoecimento, e, desse modo, tanto quanto a lesão anatomopatológica devem ser considerados objeto de cuidado. Considerando essa multiplicidade de fatores e a complexidade das relações que eles estabelecem entre si, das quais depende a configuração de diferentes formas clínicas, depreende-se que se faz necessário um olhar interdisciplinar sobre o processo saúde-doença-cuidado, a fim de que se possa prestar um atendimento mais adequado às demandas do sujeito, cujacomplexidade nenhuma teoria, isoladamente, comporta. 35 REFERÊNCIAS Campos, E. M. P.; Rodrigues, A. L. Mecanismo De Formação Dos Sintomas Em Psicossomática. Mudanças: Psicologia Da Saúde, São Paulo, V. 13, N. 2, P. 290-308, 2005. Capitão, C. 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