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A principal função renal é manter o equilíbrio
hidroeletrolítico e de solutos orgânicos. O rim normal
realiza essa função em uma ampla variedade de
flutuações de sódio, água e solutos. Essa tarefa é
realizada pela filtração contínua de sangue com alterações
na secreção e reabsorção desse líquido filtrado. O rim
recebe 20% do débito cardíaco, filtrando aproximadamente
1.600 L/dia de sangue e produzindo 180 litros de fluido
chamado ultrafiltrado. Por meio de processos ativos de
reabsorção de certos componentes e secreção de outros,
a composição desse ultrafiltrado é alterada em 1,5 L de
urina excretada em 1 dia em média.
Cada rim consiste em aproximadamente 1 milhão de
néfrons funcionando, consistindo em um glomérulo
conectado a uma série de túbulos. Os túbulos consistem
em diferentes segmentos: o túbulo contorcido proximal, a
alça de Henle, o túbulo distal e o ducto coletor.
Cada néfron funciona independentemente e contribui para
a urina final, embora todos estejam sob controle e
coordenação similares. Se um segmento de um néfron for
destruído, esse néfron na sua extensão completa não é
mais funcional.
O glomérulo é uma massa esférica de capilares
circundados por uma membrana, a cápsula de Bowman. O
glomérulo produz o ultrafiltrado, que é então modificado
pelos próximos segmentos do néfron. A produção de
ultrafiltrado é principalmente passiva e conta com a
pressão de perfusão gerada pelo coração e suprida pela
artéria renal.
Os túbulos reabsorvem a maioria dos componentes que
compõem o ultrafiltrado. Grande parte desse processo é
ativa e requer gasto considerável de energia na forma de
trifosfato de adenosina (ATP). O túbulo é uma estrutura
única; diferenças na permeabilidade entre os vários
segmentos e as respostas hormonais permitem que o
túbulo produza a urina final, que pode variar amplamente
em concentração de eletrólitos, osmolalidade, pH e
volume. Finalmente, essa urina é afunilada nos túbulos
coletores comuns e na pelve renal. Esta última estreita-se
em um único ureter por rim, e cada ureter leva urina para
dentro da bexiga, onde ela se acumula antes de ser
eliminada.
O rim possui capacidade quase limitada de regular a
homeostase de água. A possibilidade de formar grande
gradiente de concentração entre a sua medula interna e o
córtex externo permite ao rim excretar urina como um
diluído de 50 mOsm ou um concentrado de 1.200 mOsm.
Dada uma carga de soluto fixada diariamente de
aproximadamente 600 mOsm, o rim só pode se livrar de
500 mL de urina concentrada ou até 12 L de urina diluída.
A excreção de água é regulada pela vasopressina
(hormônio antidiurético [ADH]), um pequeno hormônio
peptídico secretado pela hipófise posterior.
O excesso de água corporal relativa, indicado por queda
na osmolalidade, leva ao encerramento imediato de toda a
secreção de vasopressina. De maneira similar, uma
pequena elevação na osmolalidade causa marcante
secreção de vasopressina e retenção de água. Contudo,
para se conservar sódio, torna-se necessário, algumas
vezes, alterar o controle homeostático da água para
compensar o volume.
INTERPRETAÇÃO DE EXAMES
PROVAS DE FUNÇÃO RENAL
Prof. José Aroldo Filho
goncalvesfilho@nutmed.com.br
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O volume urinário mínimo capaz de eliminar quantidade
relativamente fixa de 600 mOsm de soluto corresponde a
500 mL, supondo-se que o rim seja capaz de atingir a
concentração máxima. O volume urinário inferior a 500
mL/dia é denominado oligúria, de maneira que é
impossível, nesse caso, eliminar toda a excreção diária.
A maior parte da carga de solutos consiste em excreções
nitrogenadas oriundas principalmente dos produtos finais
do metabolismo das proteínas. A ureia predomina em
quantidades que dependem do conteúdo de proteína da
dieta.
O ácido úrico, a creatinina (Cr) e a amônia estão
presentes em pequenas quantidades. Caso esses
produtos normais de excreção não sejam eliminados de
maneira apropriada, eles reúnem-se em quantidades
anormais no sangue, uma condição denominada azotemia.
A capacidade de o rim eliminar adequadamente os
produtos de excreção nitrogenados é definida como função
renal. Portanto, insuficiência renal é a incapacidade de
eliminar a carga diária de excreções.
O rim também produz o hormônio eritropoetina (EPO), um
determinante fundamental da atividade eritroide na medula
óssea. A deficiência de EPO é a principal causa de anemia
grave presente na doença renal crônica.
A manutenção da homeostase de cálcio-fósforo envolve as
interações complexas de paratormônio (PTH); calcitonina;
vitamina D ativa; e três órgãos efetores: o intestino, o rim e
os ossos. O papel do rim inclui a produção da forma ativa
de vitamina D — 1,25- dihidroxicolecalciferol (1,25-
[OH]2D3) — assim como a eliminação de cálcio e fósforo.
A vitamina D ativa promove absorção eficiente de cálcio
pelo intestino e é uma das substâncias necessárias para o
remodelamento e a manutenção óssea.
A vitamina D ativa também suprime a produção de PTH,
que é responsável pela mobilização de cálcio do osso.
Em pacientes com doenças renais, os sinais e sintomas
podem ser inespecíficos ou ausentes até que a doença
torne-se grave, ou ambos. Os resultados podem ser locais
(p. ex., refletindo inflamação ou massa renal), resultantes
de efeitos sistêmicos da insuficiência renal, ou afetam a
micção (p. ex., alterações da própria urina ou da sua
produção).
Avaliação da função renal
A função renal é avaliada utilizando valor calculado a partir
de fórmulas baseadas em exames sanguíneos e urinários.
FGR
O ritmo de filtração glomerular, o volume de sangue filtrado
através do rim por minuto, é a melhor medida da função
renal; ele é expresso em mL/minuto. Como o RFG normal
aumenta com o tamanho corpóreo, utiliza-se geralmente
um fator de correção para a área de superfície corpórea.
Esta correção é necessária para comparar o RFG de um
paciente com o normal e para definir diferentes estágios de
doença renal crônica. Sendo a superfície corpórea normal
de 1,73 m2, o fator de correção é 1,73/superfície corpórea
do paciente; os resultados ajustados do RFG são, então,
expressos em mL/min/1,73 m2.
O RFG normal de adultos jovens e sadios é de cerca de
120 a 130 mL/min/1,73 m2 e diminui com a idade para
cerca de 75 mL/min/1,73 m2 aos 70 anos de idade. Define-
se doença renal crônica quando o RFG < 60 mL/min/1,73
m2 por > 3 meses. O padrão para a medição da RFG é a
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depuração de inulina. A inulina não é absorvida nem
secretada pelos túbulos renais e, portanto, é o marcador
ideal para a avaliação da função renal. Entretanto, sua
dosagem é incômoda e, portanto, é principalmente
utilizada em contextos de pesquisa.
Depuração de creatinina
A creatinina é produzida em uma taxa constante pelo
metabolismo tubular e é filtrada livremente pelos
glomérulos e também é secretada pelos túbulos renais.
Como a creatinina é secretada, a depuração de creatinina
(CrCl) superestima a taxa de filtração glomerular (RFG) em
cerca de 10 a 20% em pessoas com função renal normal e
em até 50% em pacientes com insuficiência renal
avançada; assim, o uso de CrCl para estimar RFG em
insuficiência renal crônica não é encorajado.
Utilizando uma amostra de urina colhida durante certo
tempo (geralmente 24 horas), o CrCl pode ser calculado
como
onde UCr é creatinina na urina em mg/mL, UVol é o
volume de urina em mL/min de coleta (1440 minutos para
uma coleta completa de 24 horas) e PCr é creatinina
plasmática em mg/mL.
Estimativa da depuração de creatinina
Como a própria creatinina sérica é inadequada para a
avaliação da função renal, diversas fórmulas foram
propostas para estimar o CrCl utilizando a creatinina sérica
e outros fatores.
A fórmula de Cockcroft-Gault pode ser utilizada para
estimar o CrCl. Ela usa a idade, peso corpóreo magro e o
nível sérico de creatinina. Baseia-se na premissade que a
produção diária de creatinina é de 28 mg/kg/dia com uma
diminuição de 0,2 mg/ano de idade.
Depuração da creatinina estimada pela equação de
Cockcroft-Gault (unidades SI):
Homens:
Ccr (mL/min) = {[140 – idade (anos)] x peso (kg)} / [(Cr
plasma (mg/dL) x 72)]
Mulheres: multiplica-se o resultado por 0,85.
A quantidade de creatinina depende da massa muscular, o
clearence deve ser corrigido pela superfície corporal.
Valor Normal: 80 – 120mL/min/1,73m2.
A fórmula de estudo modificação da dieta em doença renal
(MDRD) (atualmente, fórmula de 4 fatores) também pode
ser usada, embora exija uma calculadora ou computador:
A formula Chronic Kidney Disease Epidemiology
Collaboration (CKD-EPI) fornece uma sensibilidade mais
baixa, mas maior especificidade para detectar uma taxa de
filtração glomerular inferior a 60 mL/min por 1,73 m2, e
pode ser mais útil para avaliar pacientes com função renal
normal ou quase normal. Como ocorre com as equações
de Cockcroft-Gault e MDRD, ela também se baseia no
nível de creatinina sérica.
Exames de sangue
Os exames de sangue são úteis para avaliação das
doenças renais.
Os valores de creatinina sérica> 1,3 mg/dL (> 114
micromol/L) em homens e > 1 mg/dL (> 90 micromol/L) em
mulheres geralmente são normais. A creatinina sérica
depende da geração de creatinina, assim como da
excreção renal de creatinina. Como o turnover de
creatinina aumenta na presença de grandes massas
musculares, as pessoas musculosas apresentam níveis
mais elevados de creatinina sérica e os idosos e
desnutridos apresentam níveis inferiores.
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A creatinina sérica também pode estar aumentada nas
seguintes condições:
• Uso de inibidores da ECA e bloqueadores de
receptores de angiotensina II
• Consumo de grandes quantidades de carne.
• Uso de alguns fármacos (cimetidina, trimetoprima,
cefoxetina, flucitosina)
A relação ureia/creatinina é usada para distinguir a uremia
pré-renal da pós-renal (obstrutiva); um valor > 15 é
considerado anormal e pode ocorrer em uremia pré-renal e
pós-renal. Entretanto, o nível de ureia é afetado pela
ingestão de proteínas e por diversos processos não renais
(p. ex., trauma, infecção, sangramento gastrintestinal], uso
de corticoides) e, apesar de sugestivo, geralmente não é
conclusivo como evidência de disfunção renal.
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Exame de urina
Exame de urina completa inclui:
• Inspeção visual quanto à cor, à aparência e ao odor.
• Medida de pH, densidade, teor de proteínas, glicose,
eritrócitos, nitritos e esterase de leucócitos por meio
de reagentes químicos em tiras.
• Exame microscópico quanto à presença de cilindros,
cristais e células (sedimento urinário).
• A bilirrubina e o urobilinogênio, apesar de
padronizados em muitos testes de tiras reagentes,
não têm mais significado na avaliação das doenças
renais ou hepáticas.
Cor é o atributo mais óbvio da urina, e a observação da
cor é uma parte integrante da urinálise (ver tabela Causas
das alterações na cor da urina). A cor da urina pode
sugerir causas possíveis e auxiliar a utilização de testes
adicionais diretos.
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Odor, geralmente notado sem intenção durante a inspeção
visual, transmite informações úteis em ocasiões raras de
doenças herdadas do metabolismo de aminoácidos
quando a urina tem um cheiro distinto.
O pH normal varia de 5,0 a 6,0 (variação de 4,5 a 8,0).
Recomenda-se a medida do pH com eletrodos de vidro
quando forem necessários valores precisos para tomada
de decisões, como quando se diagnostica acidose tubular
renal; nesses casos, deve-se acrescentar à amostra de
urina uma camada de óleo mineral para prevenir a perda
de dióxido de carbono. O retardo no processamento da
amostra pode elevar o pH devido à liberação de amônia
pela quebra de ureia pelas bactérias. A infecção por
germes produtores de urease pode elevar de modo
significativo o pH.
A densidade fornece uma medida aproximada da
concentração urinária (osmolalidade). Os valores normais
situam-se entre 1.001 e 1.035; os valores podem ser mais
baixos em pessoas mais velhas ou em pacientes com
insuficiência renal, que são menos capazes de concentrar
a urina. Mede-se por hidrômetro ou refratômetro ou
estima-se por meio de reagente em tira. A precisão da tira
reagente é controversa, mas o resultado pode ser
suficiente para pacientes com cálculos e que são
aconselhados a autocontrolar a concentração urinária para
manter a urina diluída. A densidade medida pela tira
reagente pode estar falsamente elevada quando o pH da
urina for < 6 ou baixa quando o pH for > 7. As dosagens
por hidrômetro ou refratômetro podem estar elevadas em
razão de níveis altos de moléculas grandes presentes na
urina (p. ex., radiocontrastes, albumina, glicose,
carbenicilina).
Proteína, detectada por reagentes em tiras reflete
principalmente a concentração de albumina urinária,
classificada como negativa (< 10 mg/dL), traços (15 a 30
mg/dL), ou 1+ (30 a 100 mg/dL) até 4+ (> 500 mg/dL). A
microalbuminúria, um importante marcador de
complicações renais em pacientes com diabetes, não é
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detectada por tiras comuns, mas dispõe-se de tiras
específicas para microalbuminúria. Proteínas de cadeia
leve (p. ex., devido a micloma múltiplo) também não são
detectadas. O significado da proteinúria depende da
excreção total de proteínas, em vez da concentração de
proteínas estimada pelas tiras reagentes; deste modo, ao
detectar proteinúria nas tiras reagentes, deve-se realizar
medidas quantitativas de proteínas urinárias. Urina diluída
pode causar resultados falso-negativos. Resultados falso-
positivos podem surgir devido a qualquer um dos
seguintes itens:
1. pH alto (> 9)
2. Presença de células
3. Meios de contraste radiopacos
4. Urina concentrada
Outros exames de urina
- O QUE MUDOU NA AVALIAÇÃO DA FUNÇÃO
RENAL?
Outros exames são úteis em circunstâncias especiais.
A excreção de proteínas totais pode ser medida na urina
de 24 horas ou pode ser estimada pela relação
proteína/creatinina, a qual, em uma amostra aleatória de
urina, correlaciona-se bem com os valores em g/1,73 m2
área de superfície corporal de uma amostra de urina de 24
horas (p. ex., 400 mg/dL proteínas e 100 mg/dL de
creatinina em uma amostra aleatória equivalem a 4 g/1,73
m2 em uma amostra de 24 h). A relação
proteína/creatinina é menos precisa quando a excreção de
creatinina está significativamente aumentada (p. ex., em
atletas musculares) ou diminuída (p. ex., na caquexia).
A microalbuminúria representa a excreção persistente de
albumina entre 30 e 300 mg/dia (20 a 200 mcg/min);
valores menores são considerados dentro da variação
normal, e valores > 300 mg/dia (> 200 mcg/min) são
considerados proteinúria evidente. O uso da relação
albumina urinária/creatinina urinária é confiável e um
método de triagem mais conveniente, pois evita a coleta
de amostras de urina seriadas e correlaciona-se bem aos
valores de urina de 24 horas. Um valor > 30 mg/g (> 0,03
mg/mg) sugere microalbuminúria. A confiabilidade do teste
é melhor quando se utiliza uma amostra coletada pela
manhã porque exercícios vigorosos podem resultar em tira
reagente positiva para proteína, e não ocorre produção
incomum de creatinina (em pacientes caquéticos ou muito
musculosos). A microalbuminúria pode ocorrer nos
seguintes casos:
• Diabetes melito
• Hipertensão
• Disfunção de aloenxerto renal
• Pré-eclâmpsia
• Infecção do trato urinário
• Nefropatia crônica
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Microalbuminúria é um estágio precoce da doença renal
diabética no diabetes tipo 1 e 2; a progressão da doença
renal é mais previsível no tipo 1 do que na doença tipo 2. A
microalbuminúria é um fator de risco de doenças
cardiovasculares e mortalidade cardiovascular precoce,
independentemente da existência de diabetes ou
hipertensão.
Tiras reagentes para ácido sulfossalicílico (SSA,sulfosalicylic acid) podem ser usadas para detectar
proteínas outras que não a albumina (p. ex.,
imunoglobulinas em mieloma múltiplo) quando os testes de
tira reagentes são negativos; o sobrenadante de urina
misturado com SSA fica turvo na presença de proteínas. O
teste é semiquantitativo em uma escala de 0 (sem
turbidez) até 4+ (precipitados floculados). As leituras estão
falsamente elevadas na presença de meios de contraste
radiopacos.
A osmolalidade, o número total de partículas de soluto
por unidade de volume [mOsm/kg (mmol/kg)], pode ser
diretamente medida por um osmômetro. Normalmente, a
osmolalidade é de 50 a 1.200 mOsm/kg (ou 50 a 1200
mmol/kg). Sua dosagem é mais útil para avaliar
hipernatremia, hiponatremia, síndrome da secreção
inapropriada de hormônio antidiurético (SIAHD, syndrome
of inappropriate antidiuretic hormone secretion) e diabetes
insípido.
Cistatina C, um inibidor da serina proteinase que é
produzida por todas as células nucleadas e filtrada pelos
rins, também pode ser utilizada para avaliar a função renal.
Suas concentrações plasmáticas independem de sexo,
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idade e peso corpóreo. Nem sempre se dispõe do teste, e
os valores não estão padronizados entre os diferentes
laboratórios.
Cetonas são excretadas na urina em decorrência da
cetonemia, mas o uso de tiras reagentes para dosagem de
cetonas urinárias não é mais tão recomendado, porque
medem apenas o ácido acetoacético e a acetona, não
dosando o ácido beta-hidroxibutírico. Assim, é possível um
resultado falso-negativo mesmo na ausência de uma
causa exógena (p. ex., vitamina C, fenazopiridina, N-
acetilcisteína); a dosagem direta de cetonas séricas é mais
precisa. A cetonúria é causada por alterações endócrinas
e metabólicas e não reflete a disfunção renal.
A glicose geralmente surge na urina quando os níveis
séricos de glicose aumentam > 180 mg/dL (> 10,0 mmol/L)
e a função renal é normal. O limite de detecção das tiras
reagentes é de 50 mg/dL (2,8 mmol/L). Qualquer
quantidade é anormal. Resultados falsamente baixos ou
negativos podem surgir em qualquer um dos seguintes
casos:
• Ácido ascórbico
• Cetonas
• Ácido acetilsalicílico
• Levodopa
• Tetraciclina
• pH urinário muito alto
• Urina diluída
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Detecta-se hematúria quando há lise de eritrócitos na tira
reagente, liberando hemoglobina (Hb) e causando
alteração de cor. A variação vai desde negativa (0) até 4+.
Traços de sangue (3 a 5 eritrócitos/campo de grande
aumento) são normais sob algumas circunstâncias (p. ex.,
exercícios) em algumas pessoas. Como a tira reagente
reage com Hb, a hemoglobina livre (p. ex., em razão da
hemólise intravascular) ou a mioglobina (p. ex., em razão
da rabdomiólise), causam resultado positivo. Pode-se
distinguir hemoglobinúria e mioglobinúria da hematúria
pela ausência de eritrócitos no exame microscópico e pelo
padrão de alteração da cor na tira reagente. Os eritrócitos
criam um padrão pontilhado ou espiculado; a hemoglobina
livre e a mioglobina criam uma alteração uniforme da cor.
O iodo povidona causa resultados falso-positivos; o ácido
ascórbico causa resultados falso-negativos.
Os nitritos são produzidos quando as bactérias reduzem
os nitratos urinários derivados do metabolismo de
aminoácidos. Normalmente, não se observam nitritos e,
quando presentes, denotam bacteriúria. O teste é positivo
ou negativo. Podem ocorrer resultados falso-negativos em
qualquer uma das seguintes condições:
• Infecção por certos patógenos que não conseguem
converter nitrato em nitrito (p. ex., Enterococcus
faecalis, Neisseria gonorrhoeae, Mycobacterium
tuberculosis, Pseudomonas sp)
• Quando a urina não permaneceu tempo suficiente (< 4
horas) na bexiga
• Baixa excreção urinária de nitratos
• Enzimas (de certas bactérias) que reduzem nitratos a
nitrogênio
• Nível alto de urobilinogênio urinário
• Presença de ácido ascórbico
• pH urinário < 6,0
Os nitritos são usados principalmente nos testes de
esterases leucocitárias, para controlar pacientes com
infecções urinárias recidivantes, particularmente crianças
com refluxo vesicoureteral e, algumas vezes, para
confirmar o diagnóstico de (p. ex., proantocianidina), não
complicada em mulheres em idade gestacional.
A esterase de leucócitos é liberada pelos neutrófilos que
sofreram lise. Sua presença na urina reflete inflamação
aguda, mais comumente em decorrência de infecção
bacteriana, mas, algumas vezes, devido à nefrite
intersticial, nefrolitíase ou tuberculose renal. O limiar de
detecção é de aproximadamente 5 leucócitos/campo de
grande aumento, e os resultados do teste variam de
negativo a 4+. O teste não é muito sensível para detecção
de infecção. A contaminação da amostra de urina pela
flora vaginal é a causa mais comum de resultado falso-
positivo. Resultados falso-negativos podem advir de:
• Urina muito diluída
• Glicosúria
• Urobilinogênio
• Uso de fenazopiridina, nitrofurantoína, rifampicina ou
grandes quantidades de vitamina C
A esterase de leucócitos é utilizada principalmente com o
teste de nitrito para acompanhar pacientes com infecções
urinárias recidivantes e, algumas vezes, para diagnosticar
uma infecção do trato urinário não complicada em
mulheres em idade gestacional. Se ambos os testes forem
negativos, a chance de cultura positiva é pequena.
Análise microscópica da urina
A detecção de elementos sólidos (células, cilindros,
cristais) necessita de análise microscópica, idealmente
observada imediatamente após a micção e o teste de tira
reagente. A amostra (10 a 15 mL de urina) é centrifugada
a 1.500 a 2.500rpm durante 5 minutos. O sobrenadante é
totalmente decantado; uma pequena quantidade de urina
permanece com o resíduo no fundo do tubo da centrífuga.
O resíduo é novamente misturado por agitação delicada do
tubo, batendo-se em seu fundo. Uma única gota é
pipetada em uma lâmina e coberta com lamínula. Para a
análise microscópica de rotina, a coloração é opcional. A
amostra é examinada sob luz reduzida com objetiva de
baixa potência e sob luz intensa com objetiva de alta
potência; a última é tipicamente utilizada para estimativas
semiquantitativas [p. ex., 10 a 15 leucócitos/campo de alta
potência (HPF)]. A luz polarizada é usada para identificar
alguns cristais e lipídios na urina. O microscópio de
contraste de fase facilita a identificação de células e
cilindros.
Células epiteliais (renais tubulares, transicionais,
escamosas) surgem com frequência na urina; em sua
maioria, são células descamativas da porção terminal da
uretra e contaminantes da vagina. Somente a presença de
células tubulares renais tem importância diagnóstica;
entretanto, exceto quando encontradas em cilindros, são
difíceis de serem distinguidas de células transicionais.
Alguns cilindros de células tubulares renais surgem na
urina normal, mas um grande número sugere lesão tubular
(p. ex., necrose tubular aguda, nefrite tubulointersticial,
nefrotoxinas, síndrome nefrótica).
Eritrócitos< 3 por campo podem ser normais (< 5 pr
campo de grande aumento algumas vezes é normal, p.
ex., após exercício) e qualquer hematúria isolada deve ser
interpretada no contexto clínico. Na análise microscópica,
eritrócitos glomerulares são menores e dismórficos, com
espículas, bolhas e dobraduras; eritrócitos não
glomerulares mantêm sua forma e tamanho normais.
Leucócitos< 5/HPF podem ser normais; coloração
especial pode distinguir eosinófilos de neutrófilos (ver
Outros exames de urina). Define-se piúria como a
presença de > 5 leucócitos/campo de grande aumento no
sedimento centrifugado.
Lipidúria é mais característica na síndrome nefrótica; as
células tubulares renais absorvem lipídios filtrados, que se
parecem microscopicamente com corpúsculos ovais de
gordura, e colesterol, que produz um padrão de cruz de
Malta sob luz polarizada. Os lipídios e o colesterol também
podem estar boiando livremente ou estar incorporados em
cilindros.Cristais na urina são comuns e, em geral, não são
clinicamente significativos. A formação de cristais depende
dos seguintes itens:
• Concentração urinária dos constituintes do cristal
• pH
• Ausência de inibidores de cristalização
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• Fármacos são uma causa sub-reconhecida dos
cristais
Os cristais são feitos de glicoproteína de função
desconhecida (Tamm-Horsfall), secretada pela porção
ascendente espessa da alça de Henle. São cilíndricas e
possuem margens regulares. Sua presença indica origem
renal, que pode ser útil no diagnóstico. Os tipos de
cilindros diferem quanto aos constituintes e à aparência.
ANÁLISE LABORATORIAL
As dosagens de eletrólitos auxiliam o diagnóstico de
doenças específicas. O nível de sódio pode ajudar a
diferenciar se a depleção de volume [Na urinário < 10
mEq/L (10 mmol/L)] ou a necrose tubular aguda [Na
urinário > 40 mEq/L (40 mmol/L)] é a causa da
insuficiência renal aguda. A fração de excreção de Na
(FENa) é a porcentagem de Na filtrado que é excretada.
Ela é calculada como a relação de Na filtrado e excretado
e definida como:
em que UNa representa o sódio na urina; PNa, o sódio
plasmático; PCr, a creatinina plasmática; e UCr, a
creatinina urinária.
Esta relação é mais confiável do que a medida de UNa
isolada, pois os níveis de UNa entre 10 e 40 mEq/L (ou 10
e 40 mmol/L) são inespecíficos. FENa< 1% sugere causas
pré-renais, como depleção de volume; entretanto, a
glomerulonefrite aguda ou certos tipos de necrose tubular
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aguda (p. ex., rabdomiólise, insuficiência renal induzida por
radiocontraste) e obstrução parcial grave podem resultar
em FENa< 1%. Um valor > 1% sugere causas intrarrenais
como necrose tubular aguda ou nefrite intersticial aguda.
Outras medidas úteis incluem as seguintes:
• Fração de excreção de bicarbonato (HCO3) para
avaliação da acidose tubular renal
• Níveis de cloreto (Cl) para o diagnóstico de alcalose
metabólica
• Hiato aniônico urinário na avaliação da acidose
metabólica
• Níveis de potássio para determinação da causa de
hipopotassemia ou hiperpotassemia
• Níveis de sódio, cálcio, magnésio, ácido úrico, oxalato,
citrato e cistina para avaliação de cálculos
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Eosinófilos, células que se coram de vermelho brilhante
ou branco-róseo com as colorações de Wright ou Hansel,
mais comumente indicam um dos seguintes:
• Nefrite intersticial aguda
• Glomerulonefrite rapidamente progressiva
• Prostatite aguda
• Ateroembolismo renal
Eletrólitos séricos (p. ex., sódio [Na], potássio [K],
bicarbonato [HCO3]) podem estar alterados e o hiato
aniônico (Na – [Cl + HCO3]) pode aumentar na lesão renal
aguda e na doença renal crônica. Deve-se monitorar os
eletrólitos séricos periodicamente em pacientes com
doenças renais.
O contagem de hemácias pode detectar anemia na
insuficiência renal crônica ou, raramente, policitemia no
carcinoma de células renais ou doença policística dos rins.
A anemia geralmente é multifatorial (principalmente devido
à deficiência de eritropoetina e, algumas vezes, agravada
ou causada pela perda de sangue nos circuitos de diálise
ou no trato gastrintestinal); ela pode ser microcítica ou
normocítica.
A renina, uma enzima proteolítica, fica armazenada nas
células justaglomerulares dos rins. A secreção de renina é
estimulada pela redução do volume sanguíneo e pela
redução do fluxo renal, sendo inibida pela retenção de
sódio e água. A renina plasmática é dosada através da
medida da atividade de renina como a quantidade de
angiotensina I gerada por hora. As amostras devem ser
coletadas de pacientes bem hidratados, com repleção de
sódio e potássio. Renina plasmática, aldosterona, cortisol
e hormônio adrenocorticotrófico (ACTH,
adrenocorticotropic hormone) devem ser dosados na
avaliação de todas as seguintes condições:
• Insuficiência adrenal
• Hiperaldosteronismo
• Hipertensão refratária
A razão entre a aldosterona e a renina plasmática
calculada a partir das dosagens obtidas com o paciente na
posição ortostática é o melhor teste de rastreamento do
hiperaldosteronismo, desde que a atividade plasmática de
renina seja > 0,5 ng/mL/h (< 0,5 mcg/L/h) e aldosterona >
12 a 15 ng/dL (333 a 416 pmol/L).