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História geral e do Brasil - Vol 1 Claudio Vicentino-5

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Bastidores	da	história	 21
a	conquista	do	tempo	através	da	medida	
é	claramente	percebida	como	um	dos	impor-
tantes	aspectos	do	controle	do	universo	pelo	
homem.	de	um	modo	não	tão	geral,	observa-
-se	como	numa	sociedade	a	intervenção	dos	
detentores	do	poder	na	medida	do	tempo	é	um	
elemento	essencial	do	seu	poder:	o	calendário	
é	um	dos	grandes	emblemas	e	instrumentos	
do	poder;	por	outro	lado,	apenas	os	detento-
res	 carismáticos	 do	 poder	 são	 senhores	 do	
calendário:	reis,	padres,	revolucionários.
Le	GoFF,	Jacques.	História e memória.	Campinas:		
ed.	da	Unicamp,	1990.	p.	487.
Podemos dizer que o fato de utilizarmos o calendário cristão resulta 
de um processo que se originou na conquista da América pelos europeus. 
Subjugaram-se os povos nativos e suas culturas, diferentes povos africa-
nos foram trazidos para cá e escravizados, moldando novas sociedades 
marcadas por esses atos de violência e exploração. O poder passou a ser 
exercido, inicialmente, pelos descendentes de europeus sustentados por 
instituições e modelos europeus (políticos, jurídicos, policiais, educati-
vos, religiosos, etc.). Por isso podemos dizer que o tempo (o calendário, a 
periodização) que utilizamos também é, até hoje, uma expressão da cul-
tura do colonizador.
Nesse processo de colonização, herdamos ainda uma divisão da 
História de acordo com os grandes marcos ou eventos valorizados pela 
história cultural da Europa ocidental. Essa divisão foi ampliada ao final 
do século XIX, com a inclusão da Pré-História, formando assim a chama-
da periodização clássica (veja esquema ao lado).
Podemos questionar os critérios utilizados nos recortes adotados 
por essa divisão clássica. A queda do Império Romano do Ocidente, por 
exemplo, não é um evento marcante para os chineses ou para as civiliza-
ções da América pré-colombiana. É importante, por isso, ter em mente 
que as periodizações, embora nos ajudem a compreender a História, re-
fletem determinado poder político, econômico e cultural, que se expressa 
nas datas e nos temas escolhidos para serem estudados. Trata-se de uma 
visão centrada nos interesses europeus – o eurocentrismo.
O primeiro passo para superar 
o eurocentrismo na História é co-
nhecê-lo historicamente, torná-lo 
objeto de estudo, procurando saber 
como foram feitas as escolhas e de-
finidos os temas que constituíram a 
História que estudamos hoje. 
Não podemos dispensar a periodização, pois ela tem a função de 
facilitar o estudo da história, mas devemos a todo instante lembrar que 
ela reflete uma dada cultura (a do Ocidente europeu) e que não con-
segue abranger a variedade de povos, temas e culturas existentes. Em 
outros lugares do mundo, a História é escrita e ensinada de acordo com 
critérios diversos. Assim, ao longo desta obra, procuraremos destacar 
que a História é construção e reflete as opções dos historiadores em 
diferentes momentos.
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PERÍODOS HISTÓRICOS 
Idade Antiga
Da invenção da escrita, há 
aproximadamente 4000 a.C., 
até a desagregação do 
Império Romano do 
Ocidente, em 476 da Era 
Cristã
Idade Média
De 476 até a tomada 
de Constantinopla pelos
turcos otomanos, em 1453
Idade Moderna
De 1453 até 1789, data 
do início da Revolução 
Francesa
Idade Contemporânea
De 1789 até os dias 
de hoje
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4000 a.C. – invenção da escrita
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períOdOs históricOs 
eurocentrismo:	 visão	 de	 mundo	 que	
considera	 os	 valores,	 as	 referências,	
as	 línguas,	etc.	da	europa	como	ele-
mentos	 fundamentais	 de	 leitura	 e	
construção	 do	 passado	 e	 atribui	 a	
ideia	 de	 exotismo,	 inferioridade	 e	
atraso	às	culturas	não	europeias.
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p	 o	historiador	Jacques	Le	
Goff,	em	foto	de	2004.
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HGB_v1_PNLD2015_008a021_BASTIDORES.indd 21 3/8/13 9:35 AM
1
uNIdade
p	 Pintura	rupestre	do	Grande	salão	dos	touros,	nas	cavernas	de	Lascaux,	França,	datado	em	cerca	de	
17	mil	anos.	no	detalhe,	escultura	de	cabeça	de	23	mil	a.c.,	localizada	em	Dolni	Vestonice,	na	atual	
república	tcheca.
Pascal Goetgheluck/SPL/Latinstock
22	
HGB_v1_PNLD2015_022a041_U1_C1.indd 22 3/8/13 9:37 AM
os primeiros 
agrupamentos 
humanos
capÍtulO 1
em busca de nossos ancestrais 
capÍtulO 2 
a ocupação do continente em 
que vivemos
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23
HGB_v1_PNLD2015_022a041_U1_C1.indd 23 3/8/13 9:37 AM
Discutindo	a	história
24	 os	PrimEiros	aGruPamEntos	humanos
Homo sapiens:	 expressão	 em	 latim	
que	significa	‘homem	sábio’.	
Ia
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p	 Pinturas	rupestres	no	sítio	arqueoló-
gico	toca	do	Boqueirão	da	Pedra	Fu-
rada,	 localizado	 no	 Parque	 nacional	
serra	 da	 capivara,	 no	 Piauí.	 Essas	
pinturas	 foram	 feitas,	 aproximada-
mente,	há	12	ou	29	mil	anos.
Houve um momento em que os seres humanos se organizavam em 
pequenos grupos, com pouco ou nenhum contato entre si. Viviam da 
caça, da pesca e da coleta, deslocavam-se atrás desses recursos naturais 
e tinham poucos objetos. Se olhássemos todo o planeta em busca deles, 
veríamos que nenhum grupo era muito numeroso, porque seu modo de 
vida não permitia. Se sua população crescesse muito, faltariam recursos 
e os deslocamentos seriam difi cultados.
Essas primeiras formas de organização social, em pequenos clãs, 
dariam espaço para o processo de sedentarização e a ampliação de parte 
desses grupos, além do desenvolvimento de outras atividades, como a 
fabricação de instrumentos mais complexos, de cerâmicas utilitárias e 
cerimoniais, de gravuras e pinturas rochosas, as atividades agrícolas e a 
domesticação de animais. Práticas que não correspondem a todos os po-
vos e não ocorreram simultaneamente em todas as regiões. Assim, esses 
pequenos grupos que marcam o começo da vida humana se tornariam 
bem numerosos, chegando a reunir milhares de pessoas.
Se esse período tivesse, nesta coleção, um espaço equivalente ao 
tempo em que essa situação perdurou, quase todas as páginas seriam de-
dicadas a essa época, e restaria apenas uma meia dúzia de páginas para 
todos os períodos que se seguiram. Cidades, reinos, civilizações, impérios, 
tudo isso é muito recente na trajetória do Homo sapiens sobre a Terra.
A ideia de que antes da invenção da escrita o que existiu foi a Pré-
-História, e não a História, está ligada à noção de que a História não 
pode ser feita sem documentos escritos. Essa opinião se consolidou entre 
historiadores franceses e alemães, principalmente na segunda metade do 
século XIX, e constitui uma forma eurocêntrica de entender a história da 
humanidade, conforme vimos na seção Bastidores da História.
Recentemente, contudo, os especialistas foram levados a reconhe-
cer a importância dos registros ágrafos (não escritos), como as pinturas, 
as esculturas, os relatos orais e os vestígios materiais, como fontes histó-
ricas. Além disso, como a escrita não surgiu ao mesmo tempo em todos 
os lugares, e há alguns grupos que vivem no presente sem escrita, essa 
divisão fi cou ainda mais inconsistente.
O termo “Pré-História” refere-se ao maior período da humanidade, 
envolvendo milhares de anos – descreve os tempos dos primeiros seres 
humanos até a invenção da escrita –, enquanto o período posterior envol-
ve pouco mais de 6 mil anos; já a Pré-História na América refere-se ao pe-
ríodo anterior à ocupação europeia. O termocontinua sendo usado, mas 
devemos ter em mente todas as suas limitações. Considerar, por exemplo, 
que o primeiro registro sobre as populações indígenas do Brasil foi a carta 
de Pero Vaz de Caminha é desconsiderar como fontes históricas os gra-
fi smos, os objetos, etc. produzidos anteriormente e assumir uma visão 
eurocêntrica do conhecimento, como veremos adiante.
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	 DiscutinDo	a	história	 25
Progresso e atraso cultural
A ideia eurocêntrica de que existiria uma pré-história contempla 
também a noção de progresso histórico. A humanidade evoluiria de es-
tágios menos aperfeiçoados para situações melhores, conforme o tempo 
passa e as civilizações se sucedem. É como se existisse um roteiro, uma 
trajetória que devesse ser obrigatoriamente cumprida por todos os povos 
e sociedades, por toda a humanidade.
Assim, a Pré-História corresponderia a um período em que a hu-
manidade estaria ensaiando seus passos, em que ainda não se organiza-
va em civilizações e engatinhava no domínio de tecnologias essenciais, 
como o uso do fogo e dos metais.
Assumir que a História começa com a invenção da escrita, por volta 
de 4 mil anos antes de Cristo, entre os povos mesopotâmicos e egípcios, 
significaria acreditar, dentro da perspectiva evolucionista, que a parte da 
humanidade que havia elaborado sistemas de escrita já estava “desenvol-
vida”, enquanto os demais estariam “atrasados” e não possuiriam, assim, 
uma cultura histórica.
Com essa visão, as nações europeias, já no século 
XVI, consideraram-se superiores às demais sociedades 
humanas e puderam justificar a conquista de povos, 
nações, reinos e até de continentes inteiros. Geralmen-
te acompanhada de violência, exploração, extermínio 
físico e cultural e escravização, essa dominação foi, 
muitas vezes, apresentada como um “favor” aos povos 
submetidos e uma “missão” dos conquistadores, já que 
serviria para “melhorá-los”, para “civilizá-los”. A ideia 
de superioridade constituiu, além disso, uma base fal-
samente científica para a prática do racismo.
De forma mais radical, a exemplo do filósofo Frie-
drich Hegel (1770-1831), chegou-se mesmo a conceber 
que a África subsaariana, por exemplo, não tinha histó-
ria. Segundo Hegel, em afirmação de 1830:
a	 África	 não	 é	 uma	 parte	 histórica	 do	 mundo,	
não	 oferece	 qualquer	 movimento,	 desenvolvimento	
ou	 qualquer	 progresso	 histórico	 próprio.	 […]	 o	 que	
entendemos	propriamente	por	África	é	o	espírito	sem	
história,	 o	 espírito	 ainda	 não	 desenvolvido,	 envolto	
nas	condições	naturais.
hEGEL,	Wilhelm	Friedrich.	Introdução à história da Filosofia.	são	
Paulo:	abril	cultural,	1985.	p.	316-392.	(coleção	os	Pensadores).
Para Hegel, essa “África propriamente dita” cor-
respondia à região além do Egito e ao sul do Saara, separada, portanto, da 
África mediterrânea do norte. p	 representação	de	pássaro	em	relevo	africano	de	bronze,	de	cerca	de	1650.	
Benin,	nigéria.
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