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História geral e do Brasil - Vol 2 Claudio Vicentino-7

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32	 europa,	o	centro	do	mundo
p	 entre	os	castigos	mais	comuns	aplicados	aos	escravos	esta-
va	o	açoite	com	o	“bacalhau”	(chicote	de	couro	cru)	e	a	pri-
são	no	“viramundo”	(algemas	de	ferro	que	prendiam	mãos	e	
pés).	também	não	era	rara	a	prática	hedionda	de	cortar	as	
orelhas	e	o	nariz	e	marcar	com	ferro	em	brasa	o	corpo	e	o	
rosto	de	escravos.	na	figura,	litografia	Castigos públicos,	de	
1835,	do	artista	alemão	Johann	moritz	rugendas.
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p	 Uma senhora em seu lar,	de	Jean-Baptiste	debret,	1830.	o	
artista	compõe	uma	cena	cotidiana	no	interior	de	uma	casa	
senhorial.	 a	 senhora	 branca	 é	 retratada	 fazendo	 serviços	
domésticos	com	sua	filha	e	escravos.
As unidades açucareiras, conhecidas como enge-
nhos, eram instaladas em propriedades de terra obti-
das por doação (as sesmarias). Com seu predominante 
sentido exportador, muitas vezes acabou refletindo na 
falta de produtos para o abastecimento da população. 
Em tal quadro, na busca de superação de tais dificulda-
des crescia a diversificação de atividades, com o desen-
volvimento do tropeirismo, de lavouras voltadas para o 
consumo e de outras diferentes atividades econômicas.
Um grande engenho chegava a ter cerca de 5 mil 
moradores. Era constituído de áreas florestais, for-
necedoras de madeira; plantações de cana; a casa-
-grande: residência do proprietário, de sua família, 
dos agregados e sede da administração; a capela; e a 
senzala, alojamento dos escravos. Uma área era desti-
nada à lavoura de subsistência, com mandioca, milho, 
etc. A moenda, a casa das caldeiras e a casa de purgar 
formavam a fábrica do açúcar, o engenho propriamen-
te dito. O produto era enviado para Portugal e depois 
para Flandres, onde era refinado e comercializado.
No topo da sociedade açucareira estavam os 
senhores de engenho, proprietários das unidades 
agroexportadoras. Abaixo deles estavam os “senhores 
obrigados” ou lavradores de cana, fazendeiros que não 
possuíam instalações de fabricação de açúcar. Moíam 
a cana em um engenho próximo, pagando, em geral, 
com metade do açúcar obtido. Uns e outros eram ge-
ralmente homens brancos, de ascendência lusitana, 
que tinham algum capital e haviam recebido as terras 
como recompensa por serviços prestados à Coroa, o 
que lhes garantia prestígio social e influência política.
O poder dessa aristocracia expandia-se pelas vi-
las, dominando as câmaras municipais e muito da 
vida colonial. Refletia-se também no âmbito privado, 
já que os senhores eram obedecidos e temidos como 
chefes. As mulheres administravam a casa, onde 
deveriam permanecer recolhidas, e controlavam o 
trabalho dos escravos domésticos. Esse caráter tipi-
camente patriarcal, predominante entre as elites co-
loniais, nem sempre vigorou. Entre as mulheres dessa 
elite, muitas comandaram engenhos (especialmente 
as viúvas), outras estiveram à frente de atividades co-
merciais e não era raro a reação à dominação mascu-
lina com pedidos de divórcio.
Como toda América portuguesa não se resumia 
apenas aos grandes engenhos e seus senhores, tal pre-
domínio masculino e sujeição feminina era menos 
efetivo em outros grupos sociais, com a existência de 
diferentes tipos de famílias. Havia a família dos africa-
nos escravizados, dos indígenas, das concubinas que 
sustentavam seus filhos sozinhas, dos padres com 
tropeirismo:	relativo	aos	tropeiros,	indivíduos	que	se	encar-
regavam	de	diversas	ocupações	ligadas	ao	transporte	terres-
tre	de	mercadorias	para	o	comércio	interno	ou	à	condução	de	
tropas	de	mulas	e	bovinos.
(sociedade) patriarcal:	sociedade	em	que	o	chefe	da	famí-
lia,	senhor	rural,	proprietário	de	terras	e	de	engenhos	(no	
caso	da	colônia	portuguesa	da	américa)	controlava	e	domi-
nava	a	organização	familiar.	no	contexto	colonial,	 trata-se	
de	uma	organização	ampliada,	que	não	se	restringe	ao	nú-
cleo	básico	de	pais	e	filhos,	incluindo	os	chamados	agrega-
dos:	parentes,	criados	e	escravos.
suas amasiadas e filhos, etc. Enfim, para além da orga-
nização familiar típica dos senhores de engenho, exis-
tia um mosaico variado de modelo familiar no con-
junto da população colonial, cabendo às mulheres di-
ferentes atuações, muitas vezes ocupando o comando 
de unidades econômicas produtivas.
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	 a	coLônIa	portugueSa	na	amérIca	 33
Na sociedade dos senhores de engenho preva-
lecia a rígida divisão social, com senhores e cativos. 
A mobilidade social não era proibida, mas era pouco 
provável. As pessoas livres, como feitores, capatazes, 
padres, militares, comerciantes e artesãos, dedica-
vam-se a atividades complementares no engenho e 
nos poucos núcleos urbanos dessa época. Os africa-
nos escravizados formavam a base econômica da 
sociedade açucareira e eram responsáveis por quase 
todo o trabalho da colônia, desde os serviços domés-
ticos na casa-grande até a lavoura e a produção de 
açúcar. Em tudo eram vigiados por um feitor, que lhes 
aplicava castigos físicos constantemente.
∏	 Engenho de Pernambuco	(deta-
lhe),	tela	pintada	no	século	XVII	
pelo	holandês	Frans	post.	em	
primeiro	 plano,	 observam-se	
as	 instalações	 de	 produção,	 o	
engenho	propriamente	dito.
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Até a década de 1970, prevaleceu na construção do conheci-
mento histórico sobre a colonização da América portuguesa o en-
foque que privilegiava as relações metrópole-colônia. Sob tal pers-
pectiva, o traço fundamental da economia colonial era fundamentado 
pela produção e pelo trabalho com vistas ao mercado externo e ao 
atendimento dos interesses da metrópole. Segundo Cláudia Chaves: 
“O grande problema que decorre dessa análise é a pouca importância 
dada à economia interna”. A autora destaca que os novos enfoques 
privilegiaram a análise da produção interna, permitindo “perceber o 
curso do desenvolvimento das estruturas coloniais”. Assim:
No final da década de 1970 e início da década de 1980, vá-
rios trabalhos foram publicados abordando a temática do mercado 
interno. Trabalhos esses, de base empírica, que se encarregaram 
de demonstrar a forte presença de relações de troca e a sua sig-
nificação para o desenvolvimento interno da colônia. Trata-se ago-
ra de avaliar as especificidades do mercado interno brasileiro, as 
diversas modalidades em cada região e a sua integração com a 
sociedade local.
CHAVES, Cláudia Maria das Graças. Mercadores das minas setecentistas. 
Annablume, 1999. p. 27, 31 e 32. 
nOVOs OlHaRes sOBRe a ÉPOca cOlOnial
A relação econômica entre a metrópole e a colô-
nia se caracterizou pela exportação da produção (ini-
cialmente o açúcar) e importação de artigos de luxo, 
para sustentar a opulência dos senhores de engenho 
do Nordeste. Os senhores mandavam vir roupas, ali-
mentos e até objetos decorativos da Europa. Com o 
desenvolvimento da economia açucareira e o aumen-
to da população nos engenhos e nos núcleos urba-
nos, a necessidade de alimentos, roupas e outros pro-
dutos também aumentou. Pouco a pouco, homens e 
mulheres assumiram o exercício de diversas outras 
atividades, ativando de forma gradual um nascente 
mercado comercial interno de outras mercadorias.
açúcar: da supremacia à crise
Durante o século XVI e início do século XVII, o 
Brasil tornou-se o maior produtor de açúcar do mun-
do; ele foi o responsável pela riqueza dos senhores de 
engenho, da Coroa e de comerciantes portugueses. 
Mas foram sobretudo os holandeses que mais se be-
neficiaram com a atividade açucareira. Responsáveis 
pelas etapas de refinação e comercialização, eles fica-
vam com um terço do valor do açúcar vendido. Uma 
vez refinado em Flandres, o açúcar era comercializa-
do na Europa por holandeses e portugueses.
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34	 europa,	o	centro	do	mundo
flandRes, Países BaixOs, HOlanda: 
equíVOcOs e anacROnismOs
[...] Segundo Celso Furtado, “a contribuição dos flamengos – par-
ticularmente dos holandeses – para a grande expansão do mercado 
do açúcar na segunda metade do século XVI constitui um fator funda-
mental do êxito da colonização do Brasil.
Especializados no comércio intraeuropeu, grande parte do qual fi-
nanciavam, os holandeses eram nessa época o único povo que dispunha 
de suficiente organização comercial para criar um mercado de grandes 
dimensões para um produto praticamente novo, como era o açúcar”.
Destarte, o mercado internacional do açúcar e a implantação 
do sistema açucareiro no Nordeste teriam sido criação de capitais 
holandeses.
Tal afirmação resulta de um equívoco e de um anacronismo. O 
equívoco consiste em confundir o papel de Antuérpia ao longo do sé-
culo XVI com o que será desempenhado por Amsterdã ao longo do XVII. 
O anacronismo reside em retroceder para o século XVI o que só veio a 
ocorrer no seguinte, isto é, a participação de capitais da República das 
Províncias Unidas dos Países Baixos na comercialização do produto, 
os quais eram, na realidade, capitais de flamengos e brabantinos e de 
cristãos-novos de origem portuguesa, ambos grupos refugiados em 
Amsterdã a partir do derradeiro decênio do século XVI. Para começar, 
existe um problema de palavras e essas são vitais nesse contexto. Cel-
so Furtado utilizou a palavra “flamengos”, que designa os naturais de 
Flandres, região da atual Bélgica, para designar também os “holande-
ses”, então os naturais da Holanda, que originalmente não correspondia 
ao conjunto dos Países Baixos, como ocorre atualmente, mas apenas 
à principal província dos Países Baixos do norte. A identificação ainda 
podia ser válida para a primeira metade do século XVI, mas não o era 
para a segunda, devido à revolta dos Países Baixos do norte, a Holanda 
atual, contra a Espanha. Ora, foi nessa segunda metade, não na pri-
meira, que o sistema açucareiro do Nordeste verdadeiramente des-
lanchou. É verdade que, até o século XVII, portugueses e espanhóis 
tinham o costume de designar também como “flamengos” todos os 
naturais dos Países Baixos do norte, mas é óbvio que, se queremos 
destrinçar o tema da fundação da agroindústria açucareira no Brasil, 
a primeira providência consiste em distingui-los cuidadosamente, de 
vez que eles eram súditos de diferentes entidades estatais, os holan-
deses, das Províncias Unidas dos Países Baixos; os flamengos, dos 
chamados Países Baixos espanhóis ou “províncias obedientes”.
MELLO, Evaldo Cabral de. Uma questão de nuança. Disponível em: 
<www1.folha.uol.com.br/fol/brasil500/dc_4_2.htm>. Acesso em: 2 set. 2012.
Por razões dinásticas, entre 1580 e 1640 o mo-
narca espanhol Filipe II dominou vastas extensões 
na Europa. Nesse período – conhecido como União 
Ibérica –, Portugal e suas colônias também estive-
ram subordinados ao controle espanhol.
Uma das medidas do governo espanhol foi ex-
cluir do negócio açucareiro do Brasil os Paí ses Bai-
xos, que também eram dominados pela Espanha e 
estavam em guerra por sua inde pendência. Como já 
conheciam as técnicas de refino e comercialização 
do açúcar, os Países Baixos passaram a produzi-lo 
em suas colônias, como as Antilhas, concorrendo 
em melhores condições com o produto brasileiro. 
Em consequência, entre 1650 e 1688 o preço do açú-
car produzido na América portuguesa caiu para um 
terço de seu valor. Essa crise da produção açucarei-
ra trouxe prejuízos para a economia portuguesa e 
para a colonial.
Diante da crise da produção colonial de açúcar, 
o rei de Portugal, dom Pedro II (1683-1706), por meio 
de seu ministro, o conde de Ericeira, baixou as leis 
“pragmáticas”. Essas leis proibiam o uso de certos 
produtos estrangeiros, a fim de reduzir as impor-
tações e equilibrar a balança comercial lusa. Além 
disso, com a ajuda de técnicos estrangeiros, a metró-
pole procurou reorientar as atividades produtivas no 
reino e nas colônias.
Estimulou-se na América portuguesa a produ-
ção do tabaco e de produtos alimentares destinados 
à exportação e intensificou-se a busca das drogas 
do sertão. Juntamente com a tentativa de revitaliza-
ção da produção açucareira, essas medidas surtiram 
efeitos positivos um pouco mais tarde, já no início 
do século XVIII, coincidindo com o princípio da eco-
nomia mineradora. Mesmo perdendo a supremacia 
no conjunto da economia colonial, o açúcar, que 
nessa fase propiciava ganhos bem menores que em 
séculos anteriores e concorria num mercado bastan-
te competitivo, continuou a ser o principal produto 
exportado.
Em Portugal, porém, a política de desenvol-
vimento econômico praticada por Ericeira foi logo 
abandonada. O Tratado de Methuen (1703), resul-
tado de pressões inglesas sobre Portugal, estabelecia 
que o reino português importaria da Inglaterra caros 
artigos manufaturados e exportaria vinho. Essas re-
lações comerciais implicavam forte desigualdade de 
valor e de consumo, pois consumiam-se muito mais 
tecidos e produtos manufaturados do que vinhos. 
Isso contribuiu para as crescentes dificuldades eco-
nômicas de Portugal.
p	 refinaria	de	açúcar,	ilustração	do	livro	História das Anti-
lhas,	de	Jean-Batiste	Labat,	século	XVIII.
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	 a	coLônIa	portugueSa	na	amérIca	 35
As cApitAniAs hereditáriAs e os governos-gerAis
O primeiro passo no sentido de viabilizar a em-
presa açucareira e, portanto, a colonização na Amé-
rica portuguesa foi a adoção do sistema de capitanias 
hereditárias, já utilizado por Portugal em suas colô-
nias das ilhas do Atlântico (Açores, Cabo Verde e Ma-
deira). Tratava-se da doação de largas faixas de terra 
aos capitães-donatários, regulamentada pelas Cartas 
de Doação e forais.
O donatário deveria colonizar a capitania, fun-
dando vilas, e proteger a terra e seus colonos contra 
os ataques dos nativos e de estrangeiros. Deveria ain-
da fazer cumprir o monopólio real do pau-brasil (de-
nominado estanco) e do comércio colonial. A Carta 
de Doação também estabelecia que caberia à Coroa 
um quinto dos metais preciosos que fossem encon-
trados. Apesar de seus amplos poderes administrati-
vos, o donatário era um mandatário do rei, e não um 
senhor com autonomia total.
Ao todo foram criadas 15 capitanias, doadas a 
particulares entre 1534 e 1536, e posteriormente mais 
duas insulares, nas ilhas de Trindade e de Itaparica. As 
capitanias que mais prosperaram foram as de São Vi-
cente e, sobretudo, Pernambuco. As condições climá-
ticas favoráveis ao cultivo da cana-de-açúcar, a maior 
proximidade da Metrópole e a política de povoa- 
mento de seu donatário, Duarte Coelho, beneficiaram 
o desenvolvimento da capitania pernambucana.
O sistema de capitanias, utilizado como incentivo 
ao processo colonizador, acabou por fracassar. Mesmo 
sendo assistido pelo sistema de governos-gerais, uma 
forma que a Coroa encontrou de centralizar a adminis-
tração colonial, o sistema não vingou especialmente 
devido à falta de recursos e de interesse dos donatários. 
O Regimento de 1548, que criou o sistema de governos-
-gerais, reafirmava a autoridade e soberania da Coroa e 
fortalecia os instrumentos colonizadores.
O governador-geral tinha muitos poderes, mas 
também muitas obrigações: deveria neutralizar a 
ameaça constante dos indígenas, combatendo-os ou 
aliando-se a eles; reprimir os corsários; fundar povoa-
ções; construir navios e fortes; garantir o monopólio 
real sobre o pau-brasil; incentivar o plantio de cana-
-de-açúcar; procurar metais preciosos; e defender os 
colonos. Seus auxiliares, encarregados das finanças, 
da defesa do local e da justiça eram, respectivamen-
te, o provedor-mor, o capitão-mor e o ouvidor-mor. 
O primeiro governador-geral, instaladoem Salvador 
em 1549, foi Tomé de Sousa, tendo como sucessores 
Duarte da Costa e Mem de Sá.
O quarto governador-geral, nomeado em 1570, 
não chegou a desembarcar na colônia, pois foi ataca-
do por piratas franceses em alto-mar. Mem de Sá per-
maneceu no cargo por mais dois anos, até falecer, em 
1572, aos 74 anos. A metrópole decidiu então dividir 
a administração da colônia entre dois governadores: 
dom Luís de Brito, em Salvador, e dom Antônio Sale-
ma, no Rio de Janeiro.
p	 as	capitanias	destacadas	no	mapa	acima	tinham	uma	lar-
gura	que	variava	de	200	a	quase	700	quilômetros	e	iam	do	
litoral	à	Linha	de	tordesilhas.
MARANHÃO
MARANHÃO
CEARÁ
RIO GRANDE
ITAMARACÁ
PERNAMBUCO
ILHÉUS
PORTO SEGURO
ESPÍRITO SANTO
SÃO TOMÉ
SÃO VICENTE
SANTANA
SÃO VICENTE
Rio de Janeiro
Salvador
Fernando de
Noronha
SANTO AMARO
BAÍA DE TODOS-OS-SANTOS
DOMÍNIO
ESPANHOL
0º
0 375
km
750
Adaptado de: CAMPOS, Flavio de; DOLHNIKOFF, Miriam. Atlas história do Brasil. São Paulo: Scipione, 2002. p. 7.
a divisão do território colonial brasileiro em capitanias
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A união ibéricA e A AméricA coloniAl (1580-1640)
Com a morte do rei dom João III, em 1557, subiu ao trono seu neto, o 
menino dom Sebastião. Até sua maioridade, em 1568, foi substituído por 
dois regentes: sua avó, dona Catarina, e seu tio-avô, o cardeal dom Henri-
que. Após ter governado Portugal durante dez anos, dom Sebastião morreu 
lutando contra os mouros na Batalha de Alcácer-Quibir, no norte da África.
Batalha de alcácer-quibir:	 ocorrida	
em	 1578;	 nessa	 batalha,	 dom	 Se-
bastião	aliou-se	ao	sultão	 local,	que	
lutava	 contra	 o	 exército	 marroquino	
comandado	pelo	seu	tio,	considerado	
por	ele	um	usurpador	do	trono.
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36	 europa,	o	centro	do	mundo
A morte de dom Sebastião em Alcácer-Quibir, e de mais de 
10 mil soldados no mesmo combate, deixou marcas profundas 
na população portuguesa. “A 
esse contexto de derrota e 
tristeza juntou-se, ainda no 
calor dos acontecimentos, a 
demora das notícias sobre o 
rei e seu exército logo após a 
batalha. A expectativa da volta 
do rei e as inúmeras histórias 
que contavam sobre a sua 
prisão ou fuga conjugaram-
-se às histórias pessoais de 
mulheres que esperavam seus 
filhos, pais, irmãos e maridos, 
pois, segundo crônica da épo-
ca, não havia família no reino 
que não tivesse um parente ou 
conhecido no exército derro-
tado no Marrocos.”3 Em meio 
às incertezas da dominação 
espanhola, difundiu-se rapi-
damente a crença na volta do 
rei, que, ressuscitado, reorga-
nizaria o reino e salvaria os portugueses das dificuldades que os 
assolavam.
O sebastianismo deitou 
raízes profundas no imaginário 
popular português e atravessou 
o oceano, espalhando-se entre 
os colonos. Mais de três sécu-
los depois, no sertão baiano, 
esse mito reuniu milhares de 
fiéis em torno do líder Antonio 
Conselheiro na formação do 
Arraial de Canudos. Exemplos 
de sebastianismo – a crença na 
volta de um rei bom que trará 
uma vida melhor ao povo sofri-
do – encontram-se ainda hoje 
na literatura de cordel, popular 
no Nordeste brasileiro.
O envolvimento da Espanha em diversos confli-
tos militares na Europa, porém, colocou seus inimi-
gos contra a colônia portuguesa. Inglaterra, França e 
Países Baixos invadiram várias vezes o território da 
colônia. Isso enfraqueceu a economia lusitana e acar-
retou um movimento pela restauração da autonomia, 
liderado pelo duque de Bragança. O domínio espanhol 
só terminou em 1640, quando o duque foi coroado rei 
de Portugal com o título de dom João IV, inaugurando 
o governo da dinastia de Bragança.
Para combater as dificuldades econômicas her-
dadas do período anterior, o novo monarca intensifi-
cou a exploração e reforçou a administração colonial, 
criando o Conselho Ultramarino. Com a ampliação 
de seus poderes, os governos-gerais subordinaram 
colonos e donatários e, progressivamente, foram reto-
mando as capitanias particulares.
A fiscalização da metrópole tornou-se mais ati-
va, e os choques entre a Coroa e os interesses locais 
semearam várias manifestações contra a autoridade 
metropolitana.
Por falta de descendentes diretos do rei, a Co-
roa voltou às mãos do cardeal dom Henrique. E 
quando o cardeal morreu, em 1580, novamente não 
havia herdeiros diretos. O rei da Espanha, Filipe II, 
neto de dom Manuel, o Venturoso ( foi em seu reina-
do que ocorreram as principais descobertas maríti-
mas, entre elas a do caminho das Índias e do Brasil), 
invadiu Portugal com suas tropas e assumiu o trono 
lusitano, unindo Portugal e Espanha e dando início 
à União Ibérica.
A promessa de Filipe II de garantir uma relativa 
autonomia a Portugal e de não submeter suas colô-
nias diretamente à Espanha resultou em poucas mu-
danças políticas na colônia portuguesa da América. 
Mudou apenas a metrópole que exercia o monopólio 
comercial e o controle administrativo.
Na prática, o domínio espanhol aboliu as deter-
minações do Tratado de Tordesilhas, o que favoreceu 
o avanço dos colonos portugueses em direção ao inte-
rior. O território expandiu-se, sobretudo na busca por 
metais preciosos.
O seBastianismO
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3 HERMANN, Jacqueline. Sebastianismo. In: VAINFAS, Ronaldo (Dir.). Dicionário do Brasil colonial (1500-1808). Rio de Janeiro: Objetiva, 2000. p. 524.
∏	 dom	 Sebastião	 retratado	
antes	 de	 sua	 maioridade.	
tela	 do	 pintor	 português	
cristóvão	 de	 morais,	 de	
1565.
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