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História geral e do Brasil - Vol 2 Claudio Vicentino-15

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72	 europa,	o	centro	do	mundo
A realidade religiosa de hoje em dia na América Latina demonstra à evidência o caráter superficial 
da cristianização autoritária conduzida outrora pelo poder colonial. No Brasil, especialmente, cultos 
clandestinos subsistiram – e agora afloram novamente – entre os índios e sobretudo entre os negros 
trazidos da África. Os escritores e os viajantes dos séculos XVI-XVIII não puderam deixar de assinalá-
-los. Ao lê-los, percebe-se que o dia pertencia aos brancos e a noite, aos escravos. Posto o sol, os 
caminhos do Brasil se fechavam aos brancos que se trancafiavam em suas vastas moradas por temor 
dos escravos. E estes aproveitavam a escuridão para reencontrar e exprimir uma sociabilidade que não 
podia moldar-se à forma do sistema colonial. Contudo, para praticar com a maior liberdade possível 
essas liturgias pagãs, os escravos recorreram aos símbolos católicos que exteriormente significavam 
a sua integração à sociedade escravagista. E porque as palavras da língua portuguesa eram suspeitas 
a seus olhos e veículos de uma dominação que recusavam, utilizavam poucas palavras em seus cultos, 
mas um gestual rico de significação. A dança, a música e uma intensa efervescência religiosa aliena-
vam seu apego aos ritos de seus ancestrais e sua vontade de não deixar destruir seu universo cultural. 
No Brasil, os senhores acabaram por não mais tentar suprimir essas manifestações religiosas. Tendo 
um viajante do século XVIII parado uma noite na morada de um grande proprietário, este perguntou 
na manhã seguinte: “Como passastes a noite?”. “Bem quanto à acomodação”, respondeu o convidado. 
“Mas não preguei o olho.” Explicou por que: o alarido de cantos, de castanholas, de tamborins e outros 
instrumentos o mantivera constantemente desperto, e “gritos tão horríveis que lhe evocavam a confu-
são do inferno”. Ao que o proprietário retrucou: “Para mim, não há nada melhor do que esse barulho 
para dormir despreocupado”. Reconhecimento de um vasto fracasso.
DELUMEAU,	Jean.	História do medo no Ocidente.	São	Paulo:	Companhia	das	Letras,	1989.	p.	266-267.
3 analisando práticas culturais
	 Para	responder	às	próximas	questões,	leia	o	texto	do	historiador	francês	Jean	Delumeau.
a)	 A	historiografia	recente	aponta	que	em	diferentes	práticas	coloniais	e	atuações	metropolitanas	é	possí-
vel	perceber	um	abismo	entre	aquilo	que	se	desejava	e	idealizava	instituir	e	as	práticas	reais,	cotidianas,	
efetivas.	Partindo	do	contexto	da	realidade	religiosa	na	America	Latina	retratado	por	Jean	Delumeau,	
procure	explicar	essa	afirmação.
b)	No	seu	entendimento,	por	que	a	sociabilidade	dos	escravos	africanos	“não	podia	moldar-se	à	forma	do	
sistema	colonial”?
c)	 A	situação	descrita	por	Jean	Delumeau	pode	ser	identificada	como	exemplo	de	sincretismo	religioso?	
Justifique.
∏	 Escravos africanos dan-
çando ao som de tam-
bores e instrumentos 
de corda.	 Gravura	 de	
Zacharias	 Wagener	 de	
cerca	de	1630.
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	73
o caminho das 
monarquias europeias6
CaPítulo
p	 pintura	 de	 claude-Guy	 Hallé,	 de	
1685.	 nela	 ressaltam	 os	 sinais	 de	
riqueza	 da	 nobreza	 e	 a	 reverência	
prestada	a	Luis	XIV	(à	direita,	a	ca-
beça	 que	 se	 destaca	 entre	 os	 de-
mais).
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Política e moral
No processo de formação e consolidação dos Estados centralizados 
europeus, no século XVII, certos governantes sempre estavam dispostos 
a fazer prevalecer a “razão de Estado”, ou seja, a agir em benefício do seu 
fortalecimento, restringindo liberdades individuais, praticando o auto-
ritarismo e até a violência. Nem por isso esse poder, tradicionalmente 
chamado de absolutista, era ilimitado. Entre outros exemplos, ressalte-
-se que o poder real não chegava a dispor das propriedades e dos súditos 
como bem quisesse.
Quanto aos teóricos políticos do período, pode-se observar que se-
paravam (como fez Maquiavel) política e moral em dois campos distin-
tos, que não se comunicam necessariamente. Estão aí duas esferas impor-
tantes nas refl exões sobre a história das sociedades humanas.
E hoje? O poder político constituído inclui considerações de ordem 
moral em seu processo de tomada de decisões? Qual a importância des-
sas considerações? Quais são as limitações do poder político?
PARA PeNsAR HIstORICAMeNte
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74	 europa,	o	centro	do	mundo
Pensadores do estado Moderno
O processo de formação das monarquias centrali-
zadas no final da Idade Média ocorreu em grande parte 
pela aproximação entre monarcas e burguesia, na bus-
ca da superação dos entraves políticos e econômicos 
derivados de antigas estruturas feudais. Entretanto, 
extraindo força econômica da burguesia, o monarca, 
uma vez no poder, também compunha com a nobreza, 
garantindo-lhe privilégios em troca de apoio político.
No conhecimento histórico sobre as monarquias 
europeias modernas, alguns historiadores destacam 
que os resquícios sociais, políticos, econômicos e co-
tidianos do feudalismo perduraram, de formas distin-
tas e em diferentes partes da Europa, até as vésperas 
do século XX.
Um aspecto importante é que alguns historia-
dores apontam as soberanias reais modernas como 
sendo decorrentes da ligação que tinham com suas 
burguesias e com a diminuição do poder da nobreza. 
Outros historiadores, ao contrário, viam na monarquia 
absolutista uma associação com a própria nobreza. De 
forma diferente, alguns historiadores preferiram expli-
car tais governos como resultado da fragilização da 
burguesia/nobreza em virtude de seus continuados 
confrontos, resultando em reis fortalecidos. A historia-
dora Claudia Cristina Azeredo Atallah, no texto abai-
xo, destaca dados distintos nos casos francês e inglês:
na	França	a	crise	feudal	colocou	a	nobreza	numa	
posição	de	dependência	econômica	em	relação	ao	rei	e,	
portanto,	os	nobres	seriam	submetidos	a	uma	monar-
quia	que	oferecia	proteção	em	troca	de	fidelidade.	por	
outro	lado,	essa	atitude	da	coroa,	ao	invés	de	provocar	
um	processo	de	efetiva	centralização	política,	propor-
cionou	a	formação	de	redes	que	interligavam	o	centro,	
a	monarquia,	às	diversas	periferias	que	atuaram	como	
agentes	do	poder	do	centro	por	todo	território	francês,	
fortalecendo	ainda	mais	a	corte	como	centro	político.	
no	caso	inglês,	não	houve	a	necessidade	de	militariza-
ção,	posto	que	os	nobres	mantivessem	desde	cedo	um	
estreito	vínculo	com	o	comércio	e	com	a	agricultura,	
isso	a	partir	da	crise	feudal,	situação	que	os	colocaria	
em	 uma	 posição	 mais	 independente	 com	 relação	 ao	
monarca	e	que	explicaria	a	importância	do	parlamento	
como	força	reguladora	da	política	do	reino.
ataLLaH,	claudia	cristina	azeredo.	neotomismo	e	antigo	regime	
em	portugal:	uma	discussão	sobre	a	atuação	da	justiça.	anais	do	
II	encontro	Internacional	de	História	colonial.	Mneme – Revista de 
Humanidades.	uFrn.	caicó	(rn),	v.	9.	n.	24,	set/out.	2008.		
disponível	em:	‹www.cerescaico.ufrn.br/mneme/anais/st_trab_
pdf/pdf_6/claudia_st6.pdf›.	acesso	em:	4	set.	2012.
Certamente, como regra geral, desde o momen-
to da formação dos Estados centralizados, os reis im-
primiram um caráter autoritário aos seus governos, 
sempre buscando construir a fidelidade à Coroa. Cada 
vez mais o poder real buscou a subordinação aos seus 
interesses e, no auge desse processo, ocorreu um afas-
tamento maior em relação à burguesia. Antes disso, 
desde o início da Idade Moderna, diversos teóricos de 
então clamavam pela necessidade de Estados fortes, 
chefiados por reis cujo poder central, incontestável, 
estaria livre das amarras limitadoras, inclusive da 
Igreja.
Um dos primeiros grandes pensadores a justifi-
car o poder centralizado dos reis foi Nicolau Maquia-
vel(1469-1527), que defendia a unidade italiana, criti-
cando a fragmentação política vigente e a rivalidade 
entre as diversas repúblicas. Em sua principal obra, 
O príncipe, propõe a separação entre moral e política, 
vistas como duas esferas inconciliáveis (pelo menos 
no que se refere à forma como a Igreja concebia o po-
der político, isto é, atrelado a princípios cristãos).
Para Maquiavel, as razões do Estado deveriam 
ser superiores a tudo, e, em prol do Estado, justificava-
-se a utilização de artimanhas, ardis políticos e até a 
força e a violência, pois, nas suas palavras, “a força é 
justa, quando necessária”.
Maquiavel é autor da conhecida máxima “os fins 
justificam os meios”, segundo a qual ao Estado era au-
torizado o uso de qualquer método para atingir seus 
objetivos na busca da supremacia 
do príncipe e da indiscutível au-
toridade do Estado.
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maquiavel	retratado	por	Santi	
di	 tito	 (século	 XVI).	 maquia-
vel	escreveu:	“É	necessário	a	
um	príncipe,	para	se	manter,	
que	aprenda	a	poder	ser	mau	
e	 que	 se	 valha	 ou	 deixe	 de	
valer-se	 disso	 segundo	 sua	
necessidade”.
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	 o	camInHo	daS	monarquIaS	europeIaS	 75
Diz-se que um Estado foi instituído quando uma multidão de homens concordam e 
pactuam, cada um com cada um dos outros, que a qualquer homem ou assembleia de 
homens a quem seja atribuído pela maioria o direito de representar a pessoa de todos 
eles (ou seja, de ser seu representante), todos sem exceção, tanto os que votaram a favor 
dele como os que votaram contra ele, deverão autorizar todos os atos e decisões desse 
homem ou assembleia de homens, tal como se fossem seus próprios atos e decisões, 
a fim de viverem em paz uns com os outros e serem protegidos dos restantes homens.
É desta instituição do Estado que derivam todos os direitos e faculdades daque-
le ou daqueles a quem o poder soberano é conferido mediante o consentimento do 
povo reunido.
Em primeiro lugar, na medida em que pactuam, deve entender-se que não se 
encontram obrigados por um pacto anterior a qualquer coisa que contradiga o atual. 
Consequentemente, aqueles que já instituíram um Estado, dado que são obrigados 
pelo pacto a reconhecer como seus os atos e decisões de alguém, não podem legiti-
mamente celebrar entre si um novo pacto no sentido de obedecer a outrem, seja no 
que for, sem sua licença.
Portanto, aqueles que estão submetidos a um monarca não podem sem licença 
deste renunciar à monarquia, voltando à confusão de uma multidão desunida, nem 
transferir sua pessoa daquele que dela é portador para outro homem, ou outra assem-
bleia de homens. Pois são obrigados, cada homem perante cada homem, a reconhecer 
e a ser considerados autores de tudo quanto aquele que já é seu soberano fizer e con-
siderar bom fazer. Assim, a dissensão de alguém levaria todos os restantes a romper o 
pacto feito com esse alguém, o que constitui injustiça.
Já Tomas Hobbes (1588-1679), na obra Leviatã, 
articulou um sistema lógico e coerente para explicar a 
necessidade de um governo absolutista, sendo consi-
derado por muitos o principal teórico do período. Para 
Hobbes, o Estado absoluto representa a superação do 
“estado de natureza”. Por causa do egoísmo intrínseco 
ao homem (daí sua maldade), a sociedade humana ti-
nha uma tendência ao caos ou à desarticulação, pois 
seus membros estavam dispostos a destruir uns aos 
outros para satisfazer seus interesses. Tratava-se da 
guerra de todos contra todos; afinal, “o homem era o 
lobo do homem”, como afirmava Hobbes.
Dotados de razão, os seres humanos tentavam 
superar esse caótico “estado de natureza” original, 
formando a sociedade civil e estabelecendo um con-
trato, segundo o qual os homens cederiam seus direi-
tos a um soberano. Renunciar-se-ia à liberdade em 
nome da própria sobrevivência da sociedade.
O bispo francês Jacques-Bénigne Bossuet (1627- 
-1704) foi o autor de Política retirada da Sagrada Escri-
tura, segundo a qual o poder real está próximo de Deus. 
Essa proximidade faz com que as decisões reais sejam 
infalíveis, graças à inspiração divina. De Deus emana a 
autoridade do rei, e o maior delito dentro de um Estado 
absolutista é o de 
lesa-majestade, 
considerado cri-
me contra Deus.
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p	 Fac-símile	da	primeira	edição	da	obra	Levia-
tã,	de	thomas	Hobbes,	de	1651.
o leviatã
crime de lesa-majestade:	 crime	 co-
metido	contra	o	rei	ou	contra	o	poder	
real,	como	traição,	atentados,	etc.
Questões INteRDIsCIPLINARes
1.	 	thomas	Hobbes	foi	o	primeiro	filósofo	moderno	a	desenvolver	uma	teoria	contratualista.	transcreva	um	trecho	
do	texto	acima	no	qual	fica	evidente	a	defesa	que	thomas	Hobbes	faz	do	contratualismo.	
2.	 	de	acordo	com	thomas	Hobbes,	é	legítima	a	rebelião	dos	governados	contra	o	governante?	por	quê?	
3.	 	na	obra	A política segundo a Sagrada Escritura,	Jacques-Bénigne	Bossuet	escreve	que	"deus	protege	todos	os	
governos	 legítimos,	 qualquer	 que	 seja	 a	 forma	 em	 que	 estão	 estabelecidos:	 quem	 tentar	 derrubá-los	 não	 é	
apenas	um	inimigo	público,	mas	também	um	inimigo	de	deus".	Identifique	os	pontos	dessa	ideia	que	estão	em	
desacordo	com	a	concepção	de	governo	de	thomas	Hobbes	e	aqueles	que	estão	em	acordo.
RIBEIRO, Renato Janine. Hobbes: o medo e a esperança. Disponível em: <www.cefetsp.br/edu/eso/valerio/hobbesjanine.html>. Acesso em: 7 dez. 2012.
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76	 europa,	o	centro	do	mundo
Para Bossuet, portanto, o direito 
di vino é o fundamento e legitimação 
do poder real. Na opinião de alguns 
historiadores, o caso mais exemplar 
de governante que se serviu das ideias 
de Bossuet foi o do soberano francês 
Luís XIV, chamado “Rei Sol”, que chegou 
a ser adorado e tido como dotado de po-
deres divinos. Outros historiadores, con-
tudo, destacam o caráter sagrado atri-
buído aos monarcas e à realeza desde 
a formação das monarquias medievais, 
incluindo o poder de cura pelo simples 
toque do rei. Luís XIV, assim, teria conti-
nuado tradições já existentes, utilizando 
a seu favor e reforçando as ideias do sé-
culo XVII sobre o direito divino dos reis.
a Monarquia francesa
Os reis taumaturgos é o título da obra do historiador francês Marc Bloch, pu-
blicada em 1924. Taumaturgo é aquele que faz milagres. Bloch investigou a cren-
ça no poder de cura dos reis franceses e ingleses desde o período medieval (entre 
os séculos XI e XII) até a Idade Moderna: acreditava-se na capacidade de cura das 
escrófulas, uma doença das glândulas linfáticas associada à tuberculose, com o 
toque das mãos reais. Nessa obra, o autor destaca a paulatina modificação das 
estruturas políticas e da mentalidade popular em torno do poder divino dos reis e, 
em termos mais gerais, do próprio significado do sagrado na vida cotidiana. Leia 
a seguir um trecho:
[...] na história das doutrinas políticas (como em todas as outras espécies 
de história) convém não levar muito a sério o corte tradicional que, obedecendo 
aos humanistas, costumamos fazer do passado da Europa nas proximidades de 
1500. O caráter sagrado dos reis, tantas vezes afirmado pelos escritores medie-
vais, permanece nos tempos modernos uma verdade que se mostra sem cessar.
BLOCH, Marc. Os reis taumaturgos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 233.
os reis taumaturgos
A França foi o país onde o centralismo monár-
quico da Idade Moderna se desenvolveu de maneira 
mais marcante. A crise sucessória capetíngia de 1328 
que levou à ocupação do trono francês pela família 
Valois resultou em disputas e em confrontação com 
a Inglaterra. O processo centralizador acabou inter-
rompido pela Guerra dos Cem Anos, sendo retomado 
no século XVI, em um contexto marcado por disputas 
religiosas.Esses conflitos envolveram a burguesia, a nobre-
za e populares e estavam ligados à fragmentação de 
poder e à definição dos limites do poder real. No go-
verno de Carlos IX (1560-1574), intensificaram-se as 
lutas, envolvendo basicamente a burguesia calvinista 
(chamada de huguenote, na França) e a nobreza cató-
lica. O ponto máximo foi a Noite de São Bartolomeu, 
que já vimos no capítulo anterior.
Durante o governo seguinte, de Henrique III, 
prosseguiram os conflitos que culminaram na vitória 
dos partidários protestantes, apoiados pela burgue-
sia calvinista, que assim garantiu o acesso ao trono e 
inaugurou a dinastia Bourbon.
Com Henrique IV, houve a pacificação do país 
após converter-se ao catolicismo e ter decretado a li-
berdade de culto aos protestantes por meio do Edito 
de Nantes. Dessa forma, não apenas se limitavam os 
conflitos religiosos no país, como se retomava a alian-
ça entre o rei e a burguesia.
Seu sucessor foi Luís XIII, em cujo governo o po-
der foi delegado a um ministro todo-poderoso, o car-
deal Richelieu, que procurou transformar a França 
em uma potência continental na Europa.
Richelieu envolveu o país em violenta guerra 
contra a dinastia Habsburgo. Os membros dessa fa-
mília, seguidores do catolicismo romano e opositores 
dos reformistas religiosos, controlavam a Áustria e a 
Espanha. Atacaram os protestantes dos Países Bai-
xos, da Boêmia, Suécia e Dinamarca, visando trans-
formarem-se na família hegemônica da Europa. A 
França saiu em defesa dos protestantes e enfrentou 
p	 reprodução	da	primeira	página	do	edito	
de	nantes,	século	XVI.	o	edito	de	nantes	
decretou	anistia	a	todos	os	que	es-
tavam	em	guerra	e	liberdade	
de	culto	aos	protestantes.
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