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História geral e do Brasil - Vol 2 Claudio Vicentino-37

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182	 Para	entender	nosso	temPo:	o	século	XIX
dos intelectuais e profissionais liberais, empolgando 
parte da população de Salvador.
Para incitar a população a se rebelar, em 12 de 
agosto de 1798 apareceram em lugares públicos de 
Salvador panfletos (pasquins) pregando o levante 
geral do povo. Mas o movimento acabou descoberto 
pelas autoridades portuguesas, e o então governador 
do Bahia, dom Fernando José de Portugal e Castro, 
reagiu com uma violenta repressão. Muitos dos 
envolvidos no movimento foram presos.
Segundo indícios obtidos da análise da devassa 
que as autoridades re-
alizaram e outros do-
cumentos apreendidos, 
nos encontros secretos 
eram discutidos princí-
pios revolucionários e a 
a conjuração baiana – 1798
A Conjuração Baiana é conhecida como a mais 
popular das rebeliões coloniais, tendo contado com 
a participação de homens livres pobres, inclusive 
alfaiates, motivo pelo qual ficou também conhecida 
como Rebelião dos Alfaiates.
A transferência da capital da colônia para o Rio 
de Janeiro, em 1763, acarretou dificuldades econô-
micas para a ex-capital, a cidade de Salvador, onde 
vivia uma população miserável, sobrecarregada de 
tributos, que frequentemente contestava a explo-
ração exercida pela metrópole. O sucesso da inde-
pendência dos Estados Unidos, as realizações da 
Revolução Francesa e a rebelião escrava na Ilha de 
São Domingos propagaram na Bahia os ideais de 
liberdade, igualdade e fraternidade, por intermédio 
2 VALIM, Patrícia. Da sedição dos mulatos à Conjuração Baiana de 1798: a construção de uma memória histórica. São Paulo, 2007. Disponível em: <www.teses.usp.br/teses/
disponiveis/8/8138/tde-12022008-111026>. Acesso em: 15 nov. 2012.
conjuração baIana e suas aproprIações
A história da Conjuração Baiana tem sido um longo processo de 
disputas, controvérsias e apropriações. A começar pelos nomes que 
recebeu, demonstrando uma constante disputa por sua interpretação, 
como aponta a historiadora Patrícia Valim2.
Desde sua origem até hoje, o que as autoridades metropoli-
tanas denominaram de Sedição dos Mulatos ganhou diversas ou-
tras denominações ao longo dos séculos XVIII ao XX: sublevação; 
insistente sublevação; sublevação intentada; revolução e movimen-
to; conjuração de João de Deus; conspiração republicana; primeira 
revolução social brasileira; articulação revolucionária; movimento 
revolucionário baiano; sedição de 1798; movimento democrático 
baiano; ensaio de sedição; inconfidência baiana; revolução dos al-
faiates; conjuração baiana de 1798.
Cada leitura, filha de seu tempo, deu sua versão. As autori-
dades do Tribunal da Relação da Bahia, órgão responsável pelas 
devassas do movimento, consideraram o episódio ocorrido no final 
do século XVIII em Salvador um levante político protagonizado por 
homens livres, pobres, milicianos e soldados, que contou com o co-
nhecimento de outras pessoas, entre elas alguns cativos. O possível 
envolvimento de membros da administração ou das elites e seus 
respectivos cativos, estes entregues às autoridades para serem 
presos e livrarem seus senhores de algumas acusações, foi uma 
questão desconsiderada pelo poder local e metropolitano da época. 
Porém, a participação popular no levante, tratada de forma negativa 
e pejorativa pelas autoridades metropolitanas e pelos intelectuais 
do século XIX, constituiu-se, ao contrário, de forma positiva no eixo 
das análises históricas do século XX. Essa inversão dos polos das 
análises sobre a Conjuração Baiana serviu de enfoque para histo-
riadores e autoridades políticas do presente, a exemplo do discurso 
a seguir, de 2003, do então 
ministro da Cultura, Gilber-
to Gil, abrindo um encontro 
em que tratou da “questão 
de gênero e raça”:
“[...] nesta cidade de 
Salvador da Bahia, em 1798 – 
 e lá se vai muito tempo! –, 
homens pardos, pretos, 
mestiços todos, levantaram-
-se pela transformação 
da Bahia em uma terra da 
liberdade. Postulavam os 
princípios contemporâneos 
da Revolução Francesa: 
a liberdade e a igualdade. 
Aqueles soldados e alfaiates 
do povo conceituaram muito 
precisamente a liberdade que propugnavam. Diziam eles, em um de 
seus panfletos revolucionários, que a liberdade era o ‘estado feliz do não 
abatimento’. Entendiam que nada deveria abater, rebaixar, humilhar o ci-
dadão perante seu semelhante nem perante o Estado. Compreendia-se 
o abatimento econômico, o rebaixamento social, a humilhação racial, a 
exclusão política, o abatimento moral. A felicidade como materialização 
da liberdade só teria sentido pela realização radical da igualdade. Ainda 
hoje este ideal está vivo!”
Apud VALIM, Patrícia. Da sedição dos mulatos à Conjuração Baiana de 1798: a 
construção de uma memória histórica. São Paulo, 2007. Disponível em: <www.teses.
usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-12022008-111026>. Acesso em: 15 nov. 2012.
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p	 acima,	 reprodução	 de	 retrato	
de	cipriano	José	Barata	de	al-
meida,	médico	e	ativo	partici-
pante	da	conjuração	Baiana.
devassa:	 averiguação,	 in-
quérito.	os	Autos da Devassa	
são	 os	 inquéritos	 judiciais	
abertos	 pelas	 autoridades	
coloniais	 e	 imperiais	 para	
apurar	 responsabilidades	
em	rebeliões.
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	 BrasIl:	surGe	um	País	 183
possibilidade de conspiração contra as autoridades lu-
sas, contando com a participação de alguns membros 
da pequena elite baiana e, principalmente, das cama-
das pobres da população de Salvador. Os conspiradores 
pregavam a proclamação de um governo republicano, 
democrático e livre de Portugal. Reivindicavam liber-
dade de comércio e aumento dos soldos dos soldados. 
Nos pasquins, afixados em diversos pontos da cidade 
de Salvador, destacavam-se questões variadas, como a 
isonomia dos critérios de ascensão social e a liberdade 
de comerciar com outras nações. Além disso, denota-
vam a influência dos ideais revolucionários franceses, 
propondo a fundação de uma “República Bahiense”.
Um dos panfletos espalhados por Salvador du-
rante a Conjuração Baiana dizia:
animai-vos	povo	bahiense	que	está	para	chegar	
o	 tempo	 feliz	da	nossa	liberdade:	o	 tempo	em	que	
todos	seremos	irmãos:	o	tempo	em	que	todos	sere-
mos	iguais.
ruY,	affonso.	A primeira revolução social brasileira (1798).	
	são	Paulo:	companhia	editora	nacional,	1978.	p.	68.
Entre os participantes mais pobres, muitos fo-
ram condenados às penas mais duras: alguns rece-
beram castigos corporais e outros foram enforcados 
e esquartejados, como os alfaiates João de Deus Nas-
cimento, Manuel Faustino dos Santos Lira e os solda-
dos Lucas Dantas e Luís Gonzaga das Virgens e Veiga. 
Entre vários outros envolvidos, alguns foram inocen-
tados e tiveram suas penas revogadas.
a revolução pernambucana – 1817
Em 1817, teve início na capitania de Pernam-
buco outra rebelião. A região já havia passado por 
momentos de confronto de interesses, a exemplo da 
Insurreição Pernambucana (1645-1654), contra os 
holandeses, e da Guerra dos Mascates (1709), que 
opôs os senhores de engenho de Olinda e os comer-
ciantes do Recife. Com ideias de liberdade e inde-
pendência, a população se revoltava agora contra o 
aumento dos impostos determinado após a chegada 
da Corte ao Brasil, em 1808.
A elevação de tributos para custear as despe-
sas da Corte ocorreu em meio a uma difícil situação 
financeira, decorrente da baixa dos preços de produ-
tos produzidos na capitania, como algodão e açúcar, 
aumentando o descontentamento dos colonos. Gru-
pos populares e a camada média da população – que 
reunia padres, militares, comerciantes e intelectuais 
– desejavam mais autonomia e a instalação de um 
regime republicano sediado em Recife.
Os revoltosos derrubaram o governador e decre-
taram a extinção de alguns impostos, aumento dos 
soldos aos militares, instituíram a liberdade de im-
prensa e de religiãoe a igualdade entre os cidadãos.
Pretendendo abolir alguns costumes considera-
dos servis, os revoltosos também decidiram substituir 
o tratamento de “vossa mercê” por “vós” e de “senhor” 
por “patriota”3. A Lei Orgânica, publicada pelo go-
verno republicano à maneira de uma Constituição, 
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a	 revolução	 Pernambu-
cana	foi	uma	das	últimas	
rebeliões	 que	 precede-
ram	a	independência.	no	
detalhe	de	Os mártires de 
1817,	 de	 antônio	 Parrei-
ras	 (século	 XIX),	 a	 exe-
cução	 do	 padre	 migueli-
nho	 (miguel	 Joaquim	 de	
almeida	castro),	 fuzilado	
no	 largo	 do	 campo	 da	
Pólvora,	em	salvador,	em	
12	de	junho	de	1817,	e	ou-
tro	 revoltoso	 preso	 com	
correntes.
P
3 NEVES, Guilherme Pereira das. In: VAINFAS, Ronaldo (Org.). Dicionário do Brasil imperial (1822-1889). Rio de Janeiro: Objetiva, 2002. p. 651.
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184	 Para	entender	nosso	temPo:	o	século	XIX
garantia a igualdade de direitos e de propriedade pri-
vada, incluindo o direito de possuir escravos, o que 
tranquilizava a elite local, mas desagradava alguns de 
seus líderes, defensores do fim da escravidão.
O movimento conquistou adeptos em Alagoas, 
na Paraíba e no Rio Grande do Norte, entretanto, aca-
bou derrotado por divergências internas e pela violen-
ta repressão das tropas portuguesas vindas da Bahia 
e do Rio de Janeiro. Seus participantes foram presos 
e alguns, executados sem julgamento. A revolução, 
que começara em 6 de março de 1817, foi dominada 
em 19 de maio do mesmo ano. O fracasso da rebelião, 
no entanto, deixou profundas raízes na sociedade de 
Pernambuco e também em Portugal, como é possível 
observar neste trecho de um artigo do jornal O con-
ciliador lusitano, que era favorável ao rei e contrário 
ao movimento liberal que ocorria na metrópole já às 
vésperas de setembro de 1822:
Quando	em	1817	se	arvorou	o	estandarte	re-
publicano,	 não	 foi	 para	 aclamar	 um	 rei,	 foi	 para	
não	 terem	 rei.	 esta	 semente	 perversa	 está	 es-
palhada	no	Brasil,	 e	alguma	veio	para	cá.	alguns	
há	 que	 tendo	 parte	 naquele	 partido	 republicano	
gritam	agora	em	lisboa,	com	direitos	do	Brasil,	e	
com	união	para	com	a	mãe	Pátria:	porém	devemos	
acreditar	em	semelhantes	monstros?	os	Indepen-
dentes	do	rio	tem	a	sua	origem	em	Pernambuco,	
e	se	aqueles	não	queriam	rei,	 também	estes	não	
o	querem.	[...]
Por	estas	causas,	e	motivos,	dizemos	muito	aber-
tamente,	que	deve	vir	tropa,	e	tropa	suficiente	para	re-
bater	o	colo	orgulhoso	de	semelhantes	 indivíduos,	e	
fazê-los	obedecer	à	Voz	da	Pátria	mãe,	quando	lhe	fala	
pelo	órgão	da	lei,	e	da	autoridade	pública,	a	que	estão	
sujeitos.	deve	vir	tropa	para	se	mostrar	ao	Brasil,	que	
o	lobo	não	teme	o	coice	da	ovelha,	que	Portugal	não	
teme	o	Brasil,	que	a	américa	é	súdita	de	Portugal,	de	
quem	deve	ouvir	as	leis,	e	receber	as	ordens.
[...]	Para	evitar	estas	desordens	iminentes,	para	
segurar	as	vidas,	e	as	propriedades	dos	cidadãos	pa-
cíficos,	que	têm	direito	à	proteção	do	Governo,	para	
salvar	um	príncipe	dos	laços	da	traição,	e	para	con-
servar	intacta,	e	indivisível,	a	monarquia	Portuguesa,	
é	de	necessidade	absoluta	mandar	 tropa	ao	Brasil;	
não	como	tropa	hostil,	mas	como	tropa	de	segurança	
para	conter	os	facciosos.
O conciliador lusitano,	v.	1,	n.	1,	10	jun.	1822,	p.	45.		
(ortografia	atualizada).
o período joanino e a independênCia
Embora derrotadas, as rebeliões separatistas 
mostravam a insatisfação provocada pela explora-
ção da metrópole sobre a colônia e a impossibili-
dade de manter o sistema colonial no Brasil. Além 
disso, o processo de consolidação do capitalismo 
promovia o fortalecimento dos interesses comuns 
entre setores coloniais e as grandes potências in-
dustriais, exigindo uma economia livre do controle 
mercantilista.
O processo pela independência brasileira está 
relacionado com a era das revoluções, entre o fim do 
século XVIII e início do século XIX, seja por se ser-
vir dos ideais e das transformações do período, seja 
por acarretar maior integração do Brasil aos princi-
pais centros econômicos, livre do controle metro-
politano. A burguesia derrubava as últimas antigas 
barreiras ao seu desenvolvimento, como aconteceu 
na independência norte-americana e na Revolução 
Francesa. Os desdobramentos da Revolução France-
sa e das guerras napoleônicas, com a consequente 
transferência da Corte e da família real para o Brasil, 
aceleraram o processo de independência da colônia 
portuguesa na América.
Como você viu, dom João transformara o Rio de 
Janeiro em sede do Império Luso. Isso implicou mui-
tas mudanças, entre as quais a reestruturação urba-
na e administrativa, com a ampliação do poderoso 
aparelho burocrático, criando empregos para as elites 
portuguesas ( funcionários graduados, aristocracia, 
comerciantes, oficiais, diplomatas, destacados nego-
ciantes e proprietários). A vida pública e a atuação 
política na Corte também atraíam as elites coloniais 
(latifundiários e grandes negociantes), que passavam 
a vivenciar novos comportamentos e convenções típi-
cos das Cortes monárquicas.
Por lei de dezembro de 1815, assinada por dom 
João, o Brasil foi elevado à categoria de Reino Unido 
de Portugal e Algarves, legitimando a permanência do 
rei no território americano e permitindo a participa-
ção portuguesa no Congresso de Viena, que estava re-
definindo as fronteiras europeias depois da queda de 
Napoleão Bonaparte. Com essa medida, de um lado 
atendiam-se às aspirações e aos interesses dos súdi-
tos do novo reino, mas de outro se desagradavam os 
súditos em Portugal, que se viam ameaçados ao se-
rem igualados aos ex-colonos.
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Desde que o Rio é Rio de Janeiro, ou melhor desde 1763, quan-
do desbancou Salvador e tornou-se capital – e o grande centro ad-
ministrativo colonial e depois imperial –, duas faces pretensamente 
distintas convivem, se suportam. De um lado, a Cidade Maravilhosa, 
cuja natureza deixou estupefatos tantos e mais tantos estrangeiros. 
Aí está o paraíso edenizado, descrito por suas colinas e baías, com 
seus golfinhos pulando nas águas e o sol a dourar tudo e todos. 
Do outro lado, reside o espetáculo da população mestiça, dada a 
hábitos estranhos, como diziam e reclamavam os viajantes. Os rela-
tos mencionam a existência de “africanos por toda parte”, com seus 
dorsos nus, danças lascivas, vozerio alto e festas barulhentas, des-
controladas. Tal qual Janus, o deus grego de duas faces, o Rio de 
Janeiro mais lembrava uma cidade dividida: uma face representava 
a civilização e a corte, que pretendia se assemelhar aos Bourbons, 
Habsburgos e também Braganças; a outra reproduzia o mundo es-
cravo, com costumes e práticas considerados “odiosos”. E esse tipo 
de dicotomia tomou as descrições e a imaginação dos cientistas, 
naturalistas, ou meros curiosos, que foram se acumulando com o 
passar dos anos. Na mesma medida em que tentavam compreender 
essa exótica corte tropical dos portugueses, estranhavam as ambi-
guidades de todos os tipos que por aqui grassavam.
O viajante inglês Luccock dizia que todo cuidado era pouco 
quando se caminhava pelas ruas. O andarilho desavisado, que pre-
tendia apenas tomar “uma fresca”, podia facilmente levar um balde 
de excrementos na cabeça. Abriam-se janelas e gelosias e, do alto 
do segundo pavimento das casas, um líquido escuro era arremessa-
do, sendo antecipado por um breve aviso: “Lá vai carga!”. Dispositi-
vos foram criados com o objetivo de impedir tal prática, assim como 
se tentou disciplinar o cheiro pestilento das ruas, recorrendo-se aos 
tigres. Tigres, ou tigrados, eram escravos cuja atividade resumia-se 
a recolher os detritos que se acumulavam nas ruas e nas calçadas. 
O apelido era, por sua vez, resultado da naturalização da vexatória 
profissão:de tanto lidarem com as fezes, ficavam como que camu-
flados; tigrados. Nada de esgotos, banheiros públicos ou privados; 
a prática implicava, simplesmente, deixar as amostras ao ar livre.
Não é de hoje, portanto, o problema que assola nossos gover-
nantes cariocas.
SCHWARCZ, Lília Moritz. De tigres a mijões. O Estado de S. Paulo. 21 fev. 2010. p. J-8. 
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as duas faces do rIo de janeIro
p	 acima,	Os refrescos do Largo do Palácio.	Gravura	de	Jean-Baptiste	debret,	publicada	em	sua	obra	Viagem pitoresca 
e histórica ao Brasil,	no	século	XIX.
Em 1818, com a morte da rainha dona Maria 
I, o príncipe regente foi coroado rei, com o título 
de dom João VI, numa cerimônia no Rio de Janeiro, 
sede do Império.
Enquanto isso, em Portugal, graças ao apoio in-
glês, a população havia vencido as tropas invasoras 
napoleônicas, mas se defrontava com crescentes di-
ficuldades econômicas e a intervenção militar ingle-
sa, representada pelo governo do comandante militar 
Lorde Beresford, desde que a família real se ausentara. 
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186	 Para	entender	nosso	temPo:	o	século	XIX
a regência de dom pedro e a 
proclamação da independência
Na colônia, sentindo-se ameaçados em sua auto-
nomia, alguns indivíduos favoráveis à independência 
e contrários ao retorno das medidas controladoras 
por parte de Portugal formaram o Partido Brasileiro. 
Apesar do nome, a organização não tinha as caracte-
rísticas de um partido político de nossos tempos – era 
apenas um agrupamento de pessoas que lutavam em 
defesa de interesses comuns. Esse grupo representava 
basicamente os interesses de aristocratas rurais e de 
burocratas e comerciantes, alguns nascidos na colô-
nia e outros portugueses que tinham vínculos econô-
micos com o Brasil.
O Partido Brasileiro, em sua oposição às medi-
das lusas, buscou o apoio de dom Pedro. Entregou-
-lhe um documento com cerca de 8 mil assinaturas, 
no qual pedia ao regente que permanecesse, alegan-
do que, caso retornasse a Portugal, como desejavam 
as Cortes, o Brasil perderia a autonomia administra-
tiva conquistada.
Ao receber o documento, o príncipe concordou 
em permanecer no Brasil. Esse dia, 9 de janeiro de 
1822, ficou conhecido como o Dia do Fico e signi-
ficou mais um avanço em direção ao rompimento 
com Portugal.
As reações à decisão de dom Pedro se sucederam 
rapidamente. As tropas portuguesas que permanece-
ram no Rio de Janeiro manifestaram sua contrariedade, 
Essa situação, em meio à difusão intensa dos ideais 
iluministas, determinou a eclosão, em 1820, da Revo-
lução Liberal na cidade do Porto.
Seus líderes decidiram redigir uma Constitui-
ção para Portugal que pusesse limites aos poderes 
reais e, para isso, convocaram as Cortes portuguesas. 
Ao mesmo tempo, exigiram o afastamento do Lorde 
Beresford e o imediato regresso de dom João VI, a 
quem impunham o juramento de obediência à nova 
Constituição. Receoso de perder a Coroa, o monar-
ca português voltou para Portugal em abril de 1821, 
com a família e a Corte, deixando seu filho dom Pedro 
como príncipe regente no Brasil.
Se, por um lado, os líderes do movimento defen-
diam o liberalismo em Portugal, reformulando a es-
trutura política do reino segundo princípios europeus, 
por outro, as cortes procuravam, para fazer frente às 
dificuldades econômicas que enfrentavam, assegurar 
a hegemonia de Portugal no Império Luso-Brasileiro. 
Propunham a restauração de predomínios portugue-
ses e a anulação da autonomia administrativa repre-
sentada pelos diversos órgãos criados por dom João 
durante sua perma-
nência no Rio de Janei-
ro e pela regência do 
príncipe dom Pedro. 
Do regente exigiu-se 
o imediato regresso a 
Portugal, sob pretexto 
de completar sua for-
mação cultural.
∏	 a	 rebelião	 do	 Porto	
obrigou	a	família	real	
portuguesa	 a	 retor-
nar	 a	 Portugal	 em	
1821.	ao	lado,	Partida 
da rainha para Por-
tugal,	 registrada	 por	
Jean-Baptiste	debret	
em	cerca	de	1830.
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cortes portuguesas:	 cor-
tes	 Gerais	 extraordinárias	 e	
constituintes	da	nação	Por-
tuguesa,	 assembleia	 criada	
durante	a	revolução	do	Por-
to.	era	 formada	por	deputa-
dos	eleitos	em	todo	o	Império	
luso	 especificamente	 para	
redigir	 uma	 constituição	
para	Portugal.
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