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Filosofia-10

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VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 
 
 
 
 
 
 
2 
 
CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) 
 para o tornar mais forte. Por exemplo, ao falar sobre os povos 
revoltados, Maquiavel não apresenta um argumento ético, mas 
cirúrgico: «os povos revoltados devem ser amputados antes que 
infectem o estado inteiro.» 
 O único valor claro na obra de Maquiavel é a virtú (virtus em 
Latim), que é relacionado normalmente com «virtude». Mas de 
fato, Maquiavel utiliza-a mais no sentido latino de «viril», já que os 
indivíduos com virtú são definidos fundamentalmente pela sua 
capacidade de impor a sua vontade em situações difíceis. Fazem 
isto numa combinação de caráter, força, e cálculo. Numa das 
passagens mais famosas do Príncipe, Maquiavel descreve qual é 
a maneira mais apropriada para responder a volatilidade do 
mundo, ou à Fortuna, comparando-a a uma mulher: «la fortuna é 
donna». Maquiavel refere-se à tradição do amor cortesão, onde a 
mulher que constitui o objecto do desejo é abordada, cortejada e 
implorada. O príncipe ideal para Maquiavel não corteja nem 
implora a Fortuna, mas ao abordá-la agarra-a virilmente e faz dela 
o que quer. Esta passagem, já escandalosa na época, representa 
uma tradução clara da ideia renascentista do potencial humano 
aplicado à política. É que, de acordo com Pico della Mirandola, se 
um ser humano podia transformar-se no que quisesse, então 
devia ser possível a um indivíduo de caráter forte pôr ordem no 
caos da vida política. 
 
Thomas Hobbes 
 Thomas Hobbes foi um filósofo que nasceu (em Wesport 
5/4/1588) e faleceu na Inglaterra (em Hardwick Hall, 4/12/1679). 
Hobbes ficou sob os cuidados do seu tio, visto que seu pai, um 
vigário, teve de ir embora depois de participar de uma briga na 
porta da igreja onde trabalhava. Estudou em Magdalen Hall de 
Oxford e, em 1608, foi trabalhar com a família Cavendish como 
mentor de um de seus filhos, a quem acompanhou pelas suas 
viagens pela França e Itália entre 1608 e 1610. Quando seu aluno 
morreu, em 1628, voltou à França, desta vez para se tutor do filho 
de Gervase Clifton. 
 Permaneceu na França até 1631, quando os Cavendish o 
solicitaram novamente para ser mentor de outro dos seus filhos. 
Em 1634, acompanhado de seu novo aluno, realizou outra viagem 
ao continente, ocasião que aproveitou para conversar com Galileu 
Galilei e outros pensadores e cientistas da época. Em 1637, 
voltou à Inglaterra, mas a situação política, que anunciava a 
guerra civil, o levou a abandonar seu país e a estabelecer-se em 
Paris em 1640. 
 Pouco tempo antes, Hobbes tinha feito circular entre seus 
amigos um exemplar manuscrito de sua obra: Elementos da lei 
natural e política, apresentados em dois tratados distintos, foram 
editados em 1650. Em 1651, abandonou a França e voltou à 
Inglaterra, levando consigo o manuscrito do Leviatã, sua obra 
mais conhecida e que seria editada em Londres, naquele ano. 
 Os contatos que Hobbes teve com cientistas de sua época, 
que foram decisivos para a formação de suas ideias filosóficas, o 
levaram a fundir sua preocupação com problemas sociais e 
políticos com seu interesse pela geometria e o pensamento dos 
filósofos mecanicistas. Seu pensamento político pretende ser uma 
aplicação das leis da mecânica aos campos da moral e da 
política. As leis que regem o comportamento humano, segundo 
Hobbes, são as mesmas que regem o universo e são de origem 
divina. De acordo com elas, o homem em estado natural é 
antissocial por natureza e só se move por desejo ou medo. Sua 
primeira lei natural, que é a autoconservação, o induz a impor-se 
sobre os demais, de onde vem uma situação de constante 
conflito: a guerra de todos contra todos, na qual o homem é um 
lobo para o homem. 
 Para poder construir uma sociedade é necessário, portanto, 
que cada indivíduo renuncie a uma parte de seus desejos e 
chegue a um acordo mútuo de não aniquilação com os outros. 
Trata-se de estabelecer um contrato social, de transferir os 
direitos que o homem possui naturalmente sobre todas as coisas 
em favor de um soberano dono de direitos ilimitados. Este 
monarca absoluto, cuja soberania não reside no direito divino, 
mas nos direitos transferidos, seria o único capaz de fazer 
respeitar o contrato social e garantir, desta forma, a ordem e a 
paz, exercendo o monopólio da violência que, assim, 
desapareceria da relação entre indivíduos. 
 Hobbes não se contentou em rejeitar o direito divino do 
soberanos, fez tábua rasa de todo o edifício moral e político da 
Idade Média. A soberania era em Hobbes a projeção no plano 
político de um individualismo filosófico ligado ao nominalismo, que 
conferia um valor absoluto à vontade individual. A conclusão das 
deduções rigorosas do pensador inglês era o gigante Leviatã, 
dominando sem concorrência a infinidade de indivíduos, de que 
tinha feito parte inicialmente, e que tinham substituído as suas 
vontades individuais à dele, para que, pagando o preço da sua 
dominação, obtivessem uma proteção eficaz. Indivíduos que 
estavam completamente entregues a si mesmos nas suas 
atividades normais do dia-a-dia. 
 Infinidade de indivíduos, porque não se encontra em Hobbes 
qualquer referência nem à célula familiar, nem à família alargada, 
nem tão pouco aos corpos intermédios existentes entre o estado e 
o indivíduo, velhos resquícios da Idade Média. Hobbes refere-se a 
estas corporações no Leviatã, mas para as criticar considerando-
as «pequenas repúblicas nos intestinos de uma maior, como 
vermes nas entranhas de um homem natural». Os conceitos de 
«densidade social» e de «interioridade» da vida religiosa ou 
espiritual, as noções de sociabilidade natural do homem, do seu 
instinto comunitário e solidário, da sua necessidade de 
participação, são completamente estranhos a Hobbes. 
 É aqui que Hobbes se aproxima de Maquiavel e do seu 
empirismo radical, ao partir de um método de pensar 
rigorosamente dedutivo. A humanidade no estado puro ou natural 
era uma selva. A humanidade no estado social, constituído por 
sociedades civis ou políticas distintas, por estados soberanos, não 
tinha que recear um regresso à selva no relacionamento entre 
indivíduos, a partir do momento em que os benefícios consentidos 
do poder absoluto, em princípio ilimitado, permitiam ao homem 
deixar de ser um lobo para os outros homens. Aperfeiçoando a 
tese de Maquiavel, Hobbes defende que o poder não é um 
simples fenômeno de força, mas uma força institucionalizada 
canalizada para o direito (positivo), - «a razão em acto» de R. 
Polin - construindo assim a primeira teoria moderna do Estado. 
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CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) 
 Deste Estado, sua criação, os indivíduos não esperam a 
felicidade mas a Paz, condição necessária ao prosseguimento da 
felicidade. Paz que está subordinada a um aumento considerável 
da autoridade - a do Soberano, a da lei que emana dele. 
Mas, mesmo parecendo insaciável, esta invenção humana com o 
nome de um monstro bíblico, não reclama o homem todo. De fato, 
em vários aspectos o absolutismo político de Hobbes aparece 
como uma espécie de liberalismo moral. Hobbes mostra-se 
favorável ao desenvolvimento, sob a autoridade ameaçadora da 
lei positiva, das iniciativas individuais guiadas unicamente por um 
interesse individual bem calculado, e por um instinto racional 
aquisitivo. 
 
Jean Bodin 
 Jean Bodin nasceu em Angers, França 1530, e faleceu 
em Laon, também na França em 1596, foi um jurista francês, 
membro doParlamento de Paris e professor de Direito em 
Toulouse. Também adepto da teoria do direito divino dos reis, 
Jean Bodin tornou se conhecido como o Procurador Geral do 
Diabo devido a sua incansávelperseguição a feiticeiras e hereges 
Ele é considerado por muitos o pai da Ciência Política devido a 
sua teoria sobre soberania. Baseou-se nesta mesma teoria para 
afirmar que a legitimação do poder do homem sobre a mulher e 
da monarquia sobre a gerontocracia. 
 Além de preocupar-se com questões de ordem política, Bodin 
também era um famoso perseguidor das manifestações heréticas 
de sua época. Sua ação contra valores religiosos considerados 
anticristãos acabou deixando-o conhecido como “procurador do 
Diabo”. Entre suas principais obras damos destaque espacial à 
“República”. 
 Convivendo com os intensos conflitos religiosos que 
tomaram conta da França do século XVI, Bodin vai dedicar boa 
parte de sua reflexão política à questão da soberania. Nesse 
sentido, um dos mais marcantes valores pregados pelo seu 
pensamento consiste em defender a indivisibilidade da soberania. 
Segundo o autor, um sistema político em que a delegação de 
poderes se institui enquanto prática comum promove a diluição da 
soberania necessária a um governo estável. 
 Além disso, Bodin acredita que a idéia de um governo misto 
gera uma falsa impressão de que não há a ação de um setor 
politicamente soberano. Para confirmar essa idéia ele toma como 
exemplo as práticas políticas instituídas no interior da República 
romana. De acordo com sua interpretação, o fato da população 
romana ter o direito de indicar quais pessoas ocupariam os cargos 
de magistratura, não limita os diversos poderes concedidos a 
esses mesmos representantes políticos. 
 Dessa maneira, Jean Bodin não aceita a possibilidade de 
uma forma de governo pautada na ausência de soberania. Caso 
não haja um setor politicamente soberano, seja minoritário ou 
majoritário, qualquer governo acaba se transformando em um 
verdadeiro regime de natureza anárquica. Por isso esse pensador 
francês vai pensar no “estado” que a soberania assume em 
diferentes contextos políticos, para assim, julgar qual a 
classificação mais adequada ao seu tipo de governo. 
 No momento em que a hegemonia é assumida pela figura do 
príncipe, temos a instalação de uma monarquia. Em experiências 
onde a soberania é assumida pela grande maioria da população, 
acredita o pensador que o estado é popular. Por fim, caso haja 
um grupo minoritário controlando as instituições políticas, haveria 
a formação de um regime aristocrático. Além disso, Bodin também 
vai admitir que cada tipo de estado assuma diferentes formas de 
governo. 
 Em uma monarquia, por exemplo, ele pode admitir que o rei 
tenha uma forma de governo democrática ao permitir que 
diferentes grupos sociais participem da administração pública. Ao 
mesmo tempo, quando a monarquia restringe a participação 
popular ou concentra as decisões nas mãos do rei, o governo 
passa a ganhar traços claramente despóticos. Dessa maneira, 
Bodin oferece meios para analisar de forma diversa os mais 
diferentes estados. 
 
 Por fim, sua obra se sustenta veementemente na idéia de 
que seria impossível conceber um governo pautado em grupos 
igualitariamente favorecidos. Ao naturalizar as desigualdades, 
Bodin começa a levantar argumentos onde indica que a 
desigualdade e a presença de um indivíduo soberano não se 
tratam de um costume socialmente constituído, mas uma forma 
claramente perceptível em diferentes manifestações de 
ordenação da natureza. 
 Dessa forma, Jean Bodin também utiliza uma argumentação 
de traço fortemente religioso para defender o regime monárquico. 
Segundo o próprio autor, “todas as leis da natureza nos guiam 
para a monarquia; seja observando esse pequeno mundo que é 
nosso corpo, seja observando esse grande mundo, que tem um 
soberano Deus; seja observando o céu, que tem um só Sol”. Por 
isso, esse teórico absolutista será considerado um dos defensores 
do “direito divino dos reis”. 
 
Jacque Bossuet 
 Jacques Bossuet foi um Orador francês, nascido em 1627 e 
falecido em 1704, considerado uma das personalidades mais 
influentes em assuntos religiosos, políticos e culturais da França 
da segunda metade do século XVII. Oriundo de uma família de 
magistrados, formou-se em Teologia, permanecendo como 
cônego em Metz até 1669. Com uma extraordinária vocação para 
a oratória, ganhou fama com os seus sermões. 
 Bossuet concebeu o príncipe como um agente envolvido por 
uma auréola de sacralidade e de mistério. A soberania 
verticalizada do monarca, que estaria em comunhão com a 
vontade mantenedora do mundo, faria da realeza um instrumento 
de intervenção divina. Isso ocorreria para orientar a sociedade 
política, sempre no sentido da realização do bem público. Como 
afirmou Mircea Eliade, em O sagrado e o profano, nenhum mundo 
é possível sem a verticalidade, e essa dimensão por si só evoca a 
transcendência. Bossuet enxergava a solução dos problemas 
políticos que afligiam a sociedade na ação do soberano. 
Na Política extraída das Sagradas Escrituras, tanto quanto no 
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CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) 
 Discursos sobre a história universal, há uma grande esperança 
colocada sobre a figura protetora do príncipe. 
 O príncipe virtuoso nos preceitos da fé cristã seria a chave 
de toda a ação política, que não somente estimularia e 
asseguraria a paz entre os homens, como também levaria ao 
império absoluto da religião do Deus verdadeiro. Nesse sentido, 
os textos de Bossuet formam sempre um denso catálogo dos 
valores morais que o soberano deveria perseguir, do mesmo 
modo que encerram o elenco dos vícios, em relação aos quais o 
monarca deveria estabelecer uma prudente distância. Não é 
demais lembrar que a ordem do mundo repousava sobre seus 
ombros, segundo a crença do escritor. Do príncipe, Deus exigiria 
uma prestação de contas mais severa. Assim, a temática do rei-
artífice da salvação pública é a chave para se compreender a 
função da realeza no pensamento político de Bossuet. A presença 
da realeza sagrada estimularia a ordem e a estabilidade no reino, 
inibindo os impulsos destrutivos provocados pela inveja e pela 
tendência natural dos homens para a violência. Como vemos, o 
piedoso Bossuet não está tão distante do ímpio Hobbes, ao 
menos em matéria referente à concepção da natureza humana. 
Essas infiltrações hobbesianas são muito comuns na Politique. No 
entanto, a favor de Aristóteles – e, portanto, contra Hobbes –, ele 
acreditava que a sociabilidade era um impulso natural entre os 
homens. Mas a sua visão cristã da história levava-o a considerar 
que os homens foram desnaturados pelo pecado. Daí a 
necessidade de um poder soberano aos quais tinham de se 
submeter. Então, na ausência mesmo que temporária da realeza, 
liberar-se-ia o velho espírito desagregador entre os homens, que 
levaria muito depressa às idolatrias e ao caos. Isso fez Bossuet 
refletir que, na época do bezerro de ouro, “Tudo era Deus, exceto 
Deus mesmo”. O medo da desagregação do corpo político e o 
problema da insegurança induzem os povos a cercarem seus reis 
de cuidado. Como ele afirmou na Política extraída das Sagradas 
Escrituras, o príncipe é um bem público e cada um deve estar 
muito preocupado em conservá-lo. A vida do príncipe é vista 
como a salvação de todo o povo. É uma infelicidade a um Estado 
ser privado dos conselhos e da sabedoria de um príncipe 
experimentado e ser submetido a novos senhores que, 
frequentemente, aprendem a ser sábios à custa do povo. 
 
Absoluto não é Arbitrário 
 O bispo teve o cuidado de separar o que ele denominou 
de gouvernement absolu (governo absoluto), no qual os súditos 
gozam de eficaz proteção de uma autoridade ligada às tradições e 
pelo que é ditado da razão, do outro, o gouvernement arbitraire (o 
governo arbitrário ou tirânico), no qual todo ossúditos são 
escravos sacrificados a um déspota que não se orienta pela lei e 
pelos costumes, mas sim pelo capricho e pelo ato discricionário. 
 Ao fundir a teologia com a política, Bossuet foi considerado 
pelos tratadistas como um pensador superado no seu próprio 
século, mas isto não impediu que sua influência se projetasse por 
muito tempo, estendendo-se inclusive para o século XIX adentro 
servindo como alimento ideológico aos tradicionalistas 
reacionários da Espanha (primeiro com D.Fernando VII e depois 
com D.Carlos) e Portugal (o príncipe D. Miguel, apoiado por 
D.Carlota Joaquina). 
 Em contraposição ao ‘Leviatã’ de Hobbes, o entendimento da 
Monarquia Absoluta de Bossuet está longe de aceitar a existência 
aterradora de um estado-gigante exercendo seu poder uniforme 
sobre uma massa de indivíduos isolados. O Monarca Absoluto 
dele é um sol, mais ilumina e atrai do que oprime. É a estrela-
maior de uma constelação formada por uma hierarquia de 
vassalos e súditos ligados pelo respeito comum aos antigos 
costumes e às instituições estabelecidas, da mesma forma como 
as leis gravitacionais de Newton explicavam a conformidade do 
Cosmo num todo equilibrado e harmônico. 
 Interessa ainda ressaltar a famosa passagem de advertência 
que Bossuet faz aos príncipes, alertando-os para a sua 
mortalidade: ‘Vocês são filhos do Todo-Poderoso’, escreveu 
ele, ‘é ele quem estabelece vosso poder pelo bem do governo 
humano. Mas ó deuses de lama e pó, vocês morrem como 
homens’. 
 Assim, depois da monarquia francesa ter afastado os 
ingleses do continente, de ter neutralizado e depois banidos para 
sempre os huguenotes e conseguido domesticar e enquadrar a 
nobreza feudal, ela estava pronta para assumir ares divinos, 
encontrando na pessoa de Luis XIV a sua melhor personificação. 
 
A nobre linhagem da monarquia francesa 
 Bossuet fez mais ainda. Num ensaio anterior ao Politique, 
intitulado Discours sur l´Histoire Universelle (Discurso sobre a 
História Universal, 1678-1681) discorre sobre as várias etapas 
vencidas pela história desde os tempos de Adão até Carlos 
Magno, associando o reino de Luis XIV a uma linhagem de 
eventos extraordinários que marcaram a humanidade desde a 
Criação. 
 É um enorme afresco que partindo do primeiro homem passa 
por Noé e o dilúvio, por Abraão, Moisés, pela queda de Tróia, pela 
fundação do Templo por Salomão, pela fundação de Roma por 
Rômulo, por Ciro e a reconstrução do Templo de Jerusalém, pela 
vitória definitiva de Cipião sobre Cartago, pelo nascimento de 
Jesus Cristo, pela adesão de Constantino ao cristianismo e, por 
último, culmina no estabelecimento de um novo império por parte 
de Carlos Magno. 
 A monarquia francesa dos Bourbon é, por conseguinte, a 
herdeira legitima e estágio derradeiro desta gigantesca epopéia 
que remonta aos primeiros momentos da humanidade e aos 
patriarcas fundadores da sociedade, sendo que a França - 
produto direto de patrocinadores eméritos e daquele grande 
conquistador, tendo igual valor aos da antiguidade - tem como 
missão ‘superá-los a todos em piedade, em sabedoria e na 
justiça’. (*) 
 (*) Certamente foi esta identificação de Luis XIV com os 
feitos épicos dos príncipes do passado, exaltada por Bossuet, 
quem inspirou o pintor Charles Le Brun a compor os magníficos 
painéis de Versalhes que explicitamente fazem a associação das 
campanhas militares do Rei-Sol com as façanhas dos 
conquistadores antigos. 
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CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) 
 
O Rei-Máquina 
 Para abastecer as 50 fontes, os canais e mais de 600 
chafarizes espalhados pelos jardins de Versalhes, foi preciso 
conceber um sistema especial de irrigação e abastecimento de 
água. O projeto do Marly-la-machine foi então levado a efeito por 
obra do arquiteto Jules Hardouin Mansart (que continuou 
conduzindo Versalhes depois da morte do arquiteto Le Vau) e do 
pintor Charles le Brun que, entre 1682 e 1687, construíram um 
engenhoso aparelho de sucção de água colocado à beira do Rio 
Sena. Dali ele bombeava o necessário colina acima para um 
conjunto de reservatórios de onde a água, aproveitando-se das 
leis gravitacionais, tomava o caminho dos jardins. 
 Inspirando-se naquele perfeito maquinismo é que Jean-Marie 
Apostolidès, professor em Harvard, escreveu o ensaio Le roi-
machine (O rei-máquina,1993) analisando a estruturação do 
poder estatal de Luis XIV. Do mesmo modo que o engenho de 
Marly-la-machine regava as árvores e as plantas e fazia jorrar 
tudo em Versalhes, assim os ideólogos do Direito Divino 
entendiam a função do monarca. Dele era a força que provia o 
reino, inundando-o com a prosperidade e o bem estar geral. 
 Esta simetria do Estado Monárquico com uma máquina 
perfeita e com a racionalidade em geral, por igual foi decorrente 
de um século que se deixou fascinar pelos novos engenhos que 
brotavam em todas as partes. Não foi sem motivos que os dois 
maiores pensadores da França dedicaram-se à matemática 
(Descartes) e até ao invento da máquina de calcular (Pascal): era 
o espírito do tempo. 
Fonte: 
http://educaterra.terra.com.br/voltaire/politica/2009/05/15/000.htm 
 
 As estruturas monárquicas ganharam força e com o tempo 
declinaram, as amarras postas aos burguesas que garantiam 
certa tranquilidade aos reis foram gradativamente sendo minadas 
e a política passou a ser discutida como elemento de propriedade 
das massas, ora na Inglaterra do século XVII e ou na França do 
século XVIII, os centros de debates ou mesmo as escolas 
norteavam uma nova forma de pensar. A liberdade era a bola da 
vez. 
 Laissez-faire, laissez-passer, le monde fait peur lui même. 
 
Fonte: http://histria-cma-
canoas.blogspot.com.br/2011/07/iluminismo-revolucao-no-campo-
das.html 
 
 Os pensadores Iluministas se seguravam no desejo pela 
liberdade e nos desmandos do Rei e da Igreja para garantir que 
todas as pessoas pudessem sair do jugo e da opressão do Estado 
e poder compor as estruturas políticas da Nação. 
Essa corrente filosófica surgida na Europa do século XVII, vinha 
para abalar a Igreja e o poder Absoluto do Rei, o maior problema 
era a resistência do próprio povo, acostumado a ser guiado pelo 
poder absoluto, manteve as amarras por décadas. 
 Vejamos os principais pensadores: 
 - John Locke (1632-1704), ele acreditava que o homem 
adquiria conhecimento com o passar do tempo através 
do empirismo; 
 Considerado um dos mais importantes pensadores da 
doutrina liberal, John Locke nasceu em 1632, na cidade de 
Wrington, Somerset, região sudoeste da Inglaterra. Era filho de 
um pequeno proprietário de terras que serviu como capitão da 
cavalaria do Exército Parlamentar. Mesmo tendo origem humilde, 
seus pais tiveram a preocupação de dar ao jovem Locke uma rica 
formação educacional que o levou ao ingresso na academia 
científica da Sociedade Real de Londres. 
 Antes desse período de estudos na Sociedade Real, Locke 
já havia feito vários cursos e frequentado matérias que o 
colocaram em contato com diversas áreas ligadas às Ciências 
Humanas. Refletindo a possibilidade de integração dos saberes, o 
jovem inglês nutriu durante toda a sua vida um árduo interesse 
por áreas distintas do conhecimento humano. Apesar de todo 
esse perfil delineado, não podemos sugerir que Locke sempre 
teve tendências de faceta liberal. 
 Quando começou a se interessar por assuntos políticos, 
Locke inicialmente defendeu a necessidade de uma estrutura de 
governo centralizada que impedisse a desordem no interior da 
sociedade. Sua visão conservadora e autoritária se estendia 
também ao campo da religiosidade, no momento em que ele 
acreditava que o monarca deveria interferirnas opções religiosas 
de seus súditos. Contudo, seu interesse pelo campo da filosofia 
modificou paulatinamente suas opiniões. 
Um dos pontos fundamentais de seu pensamento político se 
transformou sensivelmente quando o intelectual passou a 
questionar a legitimidade do direito divino dos reis. A obra que 
essencialmente trata desse assunto é intitulada “Dois Tratados 
sobre o Governo” e foi publicada nos finais do século XVII. Em 
suas concepções, Locke defendia o estabelecimento de práticas 
políticas que não fossem contra as leis naturais do mundo. 
 Além disso, esse proeminente pensador observou muitos de 
seus interesses no campo político serem tematizados no interior 
de seu país quando presenciou importantes acontecimentos 
referentes à Revolução Inglesa. Em sua visão, um poder que não 
garantisse o direito à propriedade e à proteção da vida não 
poderia ter meios de legitimar o seu exercício. Ainda sob tal 
aspecto, afirmou claramente que um governo que não respeitasse 
esses direitos deveria ser legitimamente deposto pela população. 
 No que se refere à propriedade, Locke se utiliza de 
argumentos de ordem teológica para defender a sua própria 
existência. Segundo ele, o mundo e o homem são frutos do 
trabalho divino e, por isso, devem ser vistos como sua 
propriedade. Da mesma forma, toda riqueza que o homem fosse 
capaz de obter por meio de seu esforço individual deveriam ser, 
naturalmente, de sua propriedade. 
 Interessado em refletir sobre o processo de obtenção do 
conhecimento e a importância da educação para o indivíduo, 
Locke foi claro defensor do poder transformador das instituições 
de ensino. De acordo com seus ensaios, o homem nascia sem 
dominar nenhuma forma de conhecimento e, somente com o 
passar dos anos, teria a capacidade de acumulá-lo. A partir dessa 
premissa é que o autor britânico acreditava que as mazelas eram 
socialmente produzidas e poderiam ser superadas pelo homem. 
 O reconhecimento do legado de Locke ocorreu quando ele 
ainda era vivo. Durante a vida, teve a oportunidade de ocupar 
importantes cargos administrativos e exerceu funções de caráter 
diplomático. Na Inglaterra, chegou a ocupar o cargo de membro 
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CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) 
 do Parlamento e defendeu o direito dessa instituição indicar os 
ministros que viessem a compor o Estado. Respeitado por vários 
outros representantes do pensamento liberal, John Locke faleceu 
em 1704, na cidade de Oates, Inglaterra. 
 - Voltaire (1694-1778), ele defendia a liberdade de 
pensamento e não poupava crítica a intolerância religiosa; 
 Voltaire é um dos grandes nomes do Iluminismo e seus 
escritos se caracterizam pela ironia, vivacidade e polêmica, 
especialmente contra as injustiças e a superstição. É um filósofo 
deísta, ou seja, admite a existência de Deus, mas nega a 
qualquer igreja o direito de ser o seu representante. Defende o 
que ele chama de religião natural e vê Deus como um ser distante 
do mundo, responsável somente pela sua criação e que não 
interfere na história dos homens. Além disso, é considerado como 
cético, laico e anticlerical. 
 Em seu pensamento político Voltaire não acreditava que as 
nações de sua época estivessem prontas para se tornarem 
democráticas e também não defendia a república, pois pensava 
que o povo não estava pronto para assumir esses dois modos de 
governo. Não via com bons olhos a oligarquia e defendia uma 
monarquia absoluta esclarecida. 
 Em algumas de suas obras defende a liberdade política e 
critica a intolerância religiosa, tendo por mote a igualdade, justiça 
e tolerância. 
 Foi contra a tortura, a pena de morte, a vivisseção e a 
crueldade imposta aos animais de criação, tinha ainda simpatia 
pelo vegetarianismo. 
 Os homens selvagens são livres e os civilizados tem que ser 
tratados com igualdade pela lei, pois muitas vezes são escravos 
da guerra e da injustiça. 
 Economicamente defende os primórdios do pensamento 
liberal. 
 Em suas viagens pela Holanda e Inglaterra ficou admirado 
com a tolerância religiosa, a liberdade de expressão de novas 
ideias políticas, científicas e filosóficas difundida nesses países. 
Se impressiona também com as novas descobertas científicas de 
Newton e o empirismo de Locke. Desses dois autores ele tira sua 
defesa da pesquisa científica baseada na experimentação e na 
busca de leis comuns que explicassem os mais diversos 
fenômenos naturais. Seguidor do empirismo, Voltaire defende a 
pesquisa científica sem a obediência e a dependência das 
verdades religiosas. 
 Voltaire acredita na existência de Deus e diz que se existe 
um relógio é porque existe também um relojoeiro, ou seja, a prova 
da existência de Deus está na organização e na disposição do 
universo, se existe uma obra é porque existe o artesão, o 
idealizador e construtor dessa obra, esse artesão é Deus, criador 
desse universo. Segundo ele, se Deus não existisse teríamos que 
inventá-lo, pois toda natureza grita que ele existe. O Deus de 
Voltaire é o grande arquiteto dessa máquina de funcionamento 
perfeito que é o universo. O Deus de Voltaire não divide as 
pessoas nem é a causa da intolerância, é um Deus universal, da 
mesma forma que a razão é comum a todos os homens. Crer em 
Deus é acreditar em algo evidente, mas a evidência da existência 
de Deus é possibilitada pela razão e não pela fé. Deus fez o 
universo, mas não intervêm mais nele, e, portanto o homem é um 
ser livre. 
 O filósofo critica os textos bíblicos e coloca em dúvida a sua 
fundamentação histórica e a legitimidade moral de boa parte 
deles. 
 Foram grandes as críticas de Voltaire à Igreja Católica que 
ele considera infame, supersticiosa, ridícula, absurda, suja de 
sangue e responsável pelo fanatismo e pela intolerância religiosa. 
Em substituição à Igreja Católica ele defende uma religião natural 
baseada em uma moral natural, tolerante e que busca unir os 
homens espiritualmente respeitando as diferenças culturais. 
 Por outro lado Voltaire é também contrário ao materialismo, 
ao espiritualismo e ao ateísmo. Considera esse último destruidor 
das virtudes humanas, diz que para uma sociedade é melhor ter 
uma religião falsa do que não ter nenhuma. Critica ainda o Islã, 
também pelo seu fanatismo. 
 Para ele a filosofia é o espírito crítico que vai contrapor a 
tradição para poder diferenciar o que verdadeiro do que é falso. 
 - Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), ele defendia a ideia 
de um estado democrático sob os princípios da Vontade Geral 
(maioria); 
 Rousseau era antes de tudo um filósofo especulativo, que 
criou um sistema contraditório, e tentou ser uma perversão do 
dogma católico do pecado original. Para ele, o homem nasce 
naturalmente bom, no mesmo estado de graça do casal original 
da Bíblia, mas se a Bíblia afirma que a curiosidade do homem em 
provar do fruto da árvore do bem e do mal foi a causa da sua 
queda, Rousseau atribui a tendência do homem para o mal à vida 
em sociedade. Rousseau não apresenta provas da sua tese, e 
suas teorias perigosas começam aí. 
 Rousseau identifica o mal com a necessidade que o homem 
tem de criar novas necessidades, que são fontes de outras 
privações; com a desigualdade, que é fruto da propriedade 
privada; e com a escravatura, mesmo no sentido do rei absoluto. 
 Rousseau inverte a filosofia Tomista que havia declarado 
que a natureza humana é boa no sentido metafísico, mas não no 
sentido histórico. O homem para São Tomás não é bom no seu 
começo. Rousseau confunde natureza metafísica com o sentido 
histórico, dizendo que o homem é bom em sua origem histórica, e 
que a pureza foi concedida a ele por Deus, sendo necessária a 
sua volta. 
 Na teologiacatólica, o homem nasce livre em sua razão, mas 
sua ação fica limitada pela vida em sociedade; já em Rousseau, a 
liberdade é um ato puro e perfeição pura de humanidade. Na 
filosofia católica, os homens em sua natureza individual não são 
iguais de maneira alguma. A cada um Deus concedeu dons 
variados de inteligência e na ordem da Graça. Quanto à justiça, 
os homens são iguais perante à lei, mas a cada um cabe um tipo 
de pena adequado à seu crime, nesse ponto a justiça deve ser 
desigual. Na filosofia de Rousseau, a igualdade deve ser imposta 
pelo Estado de uma maneira absoluta para compensar as 
desigualdades sociais.

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