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CURSO ANUAL DE LITERATURA Prof. Steller de Paula VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência AULA 20 - SIMBOLISMO INTRODUÇÃO Obra de Odilon Redon O berço do Simbolismo é o mesmo do Parnasianismo: a publicação do primeiro volume do Parnasse Contemporain, em 1866. O poeta francês Charles Baudelaire, porém, é considerado um precursor do simbolismo, com a obra As Flores do Mal, publicada em 1857, obra que já exibe traços do movimento. Mas é só em 1881 que o escritor francês Paul Bourget define o novo estilo, chamando-o de “decadentismo”. Apenas em 1886, o termo decadentismo é substituído por simbolismo em um manifesto publicado em 1886 no suplemento Figaro Littéraire. “O Simbolismo surge não apenas como uma estética oposta à literatura racional objetiva, plástica e descritiva realizada por Realismo, Naturalismo e Parnasianismo, mas como uma recusa a todos os valores ideológicos e existenciais da burguesia. Em vez da "belle époque" do capitalismo financeiro e industrial, do imperialismo que se ampliava por boa parte do mundo, temos o marginalismo de Verlaine, o amoralismo de Rimbaud e a destruição da linguagem por Mallarmé. O artista experimenta agora, à maneira dos românticos, um profundo mal-estar na cultura e na realidade. Mergulha então no irracional, fugindo ao mundo proposto pelo racionalismo burguês, e descobrindo neste mergulho um universo estranho de associações de ideias, lembranças sem um significado definido. Universo etéreo e brumoso, de sensações evanescentes que o poeta deve reproduzir através da palavra escrita, se é que existem palavras para exprimi-las. O Simbolismo define-se pelo anti-intelectualismo. Propõe a poesia pura, não racionalizada, que use imagens e não conceitos. É uma poesia difícil, hermética, misteriosa, que destrói a poética tradicional.” Elevação Por sobre os pantanais, os vales orvalhados, As montanhas, os bosques, as nuvens, os mares, Para além do ígneo sol e do éter que há nos ares, Para além dos confins dos tetos estrelados, Flutuas, meu espírito, ágil peregrino, E, como um nadador que nas águas afunda, Sulcas alegremente a imensidão profunda Com um lascivo e fluido gozo masculino. Vai mais, vai mais além do lodo repelente, Vai te purificar onde o ar se faz mais fino, E bebe, qual licor translúcido e divino, O puro fogo que enche o espaço transparente. Depois do tédio e dos desgostos e das penas Que gravam com seu peso a vida dolorosa, Feliz daquele a quem uma asa vigorosa Pode lançar às várzeas claras e serenas; Aquele que, ao pensar, qual pássaro veloz, De manhã rumo aos céus liberto se distende, Que paira sobre a vida e sem esforço entende A linguagem da flor e das coisas sem voz! Charles Baudelaire No poema acima, já encontramos algumas das características que serão marcas da estética Simbolista, como a busca por transcendência, o desejo de se integrar espiritualmente à natureza e um pessimismo que resulta numa dor existencial. Diante dessas características, assim como vimos que podemos estabelecer um paralelo entre Classicismo, Neoclassicismo (Arcadismo) e Parnasianismo, também podemos observar a relação que se estabelece entre Simbolismo e Romantismo. Veja o que diz a esse respeito Afrânio Coutinho: “O Simbolismo foi assim uma forma do espírito romântico, sob certos aspectos uma continuação, um Romantismo indireto e extremado, tanto quanto ele fugindo do mundo exterior por acreditar que só real aquilo que é refletido pela consciência individual. Destarte, para o Simbolismo o que importa são os estados de alma e destes somente os que podem ser conhecidos – os seus próprios. Daí sua religião do eu, a forte nota individualista, oposta à filosofia social – e a religião das sensações em lugar da filosofia da estética. E como decorrência natural desses dois princípios, as atitudes antirracionais e místicas, o tom idealista e religioso, a tendência ao isolamento, o respeito pela música, a teoria das correspondências sensoriais, a religião da beleza. A poesia foi separada da vida social, confundida com a música, explorando o inconsciente, à custa de símbolos e sugestões, preferindo o mundo invisível ao visível, querendo compreender a vida pela intuição e pelo irracional, explorando a realidade situada além do real e da razão. Sendo a vida misteriosa e inexplicável, como pensavam os simbolistas, era natural que fosse representada de maneira imprecisa, vaga, nebulosa, ininteligível e obscura.” Afrânio Coutinho, A Literatura no Brasil 200 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência Aula 20 - Simbolismo “O Simbolismo foi assim uma forma do espírito romântico, sob certos aspectos uma continuação, um Romantismo indireto e extremado, tanto quanto ele fugindo do mundo exterior por acreditar que só real aquilo que é refletido pela consciência individual. Destarte, para o Simbolismo o que importa são os estados de alma e destes somente os que podem ser conhecidos – os seus próprios. Daí sua religião do eu, a forte nota individualista, oposta à filosofia social – e a religião das sensações em lugar da filosofia da estética. E como decorrência natural desses dois princípios, as atitudes antirracionais e místicas, o tom idealista e religioso, a tendência ao isolamento, o respeito pela música, a teoria das correspondências sensoriais, a religião da beleza. A poesia foi separada da vida social, confundida com a música, explorando o inconsciente, à custa de símbolos e sugestões, preferindo o mundo invisível ao visível, querendo compreender a vida pela intuição e pelo irracional, explorando a realidade situada além do real e da razão.” Afrânio Coutinho, A Literatura no Brasil SIMBOLISMO NO BRASIL A literatura brasileira, no final do século XIX, estava dominada pelos ideais e pelas normas estéticas manifestadas a partir de 1870. Vigorava o propósito de retratar a realidade objetivamente, o que refletia o materialismo da época. No entanto, à medida que se aproximava o fim do século, ficava evidente que essas escolas aproximavam-se do esgotamento. Ressurge, então, a herança romântica, sob a forma do Simbolismo, e uma visão de mundo pautada pela subjetividade volta a se manifestar artisticamente. CRUZ E SOUSA Obras Principais: Poesia Broquéis (1893); Faróis (1900); Últimos Sonetos (1905); O livro Derradeiro (1961). Prosa poética Tropos e Fanfarras (1885), em conjunto com Virgílio Várzea; Missal (1893); Evocações (1898). A obra de Cruz e Sousa, segundo os críticos, alcança uma densidade lírica e dramática só comparável ao dos grandes simbolistas franceses, como Paul Verlaine, Arthur Rimbaud e Stéphane Mallarmé. Negro, filhos de escravos e pobre, encontramos em sua obra uma síntese entre as formas de expressão prestigiadas na Europa e o drama espiritual de um homem marginalizado socialmente e atormentado filosoficamente. Antonio Candido comenta que as maiores influências que o poeta sofreu, e que o marcaram para sempre, foram a de Baudelaire e a de Antero de Quental. ―Ao primeiro, deve não apenas o domínio do poema em prosa, mas certo satanismo, o senso dos contrastes e das correspondências, o gosto pela forma lapidar. Ao segundo deve o pendor pela poesia filosófica, o culto da noite, a tensão meditativa e a predileção pelo soneto. Temas básicos - A obsessão pela cor branca; - O erotismo e sua sublimação; - O sofrimento da condição negra; - A espiritualização, a busca pela transcendência. Cárcere das almas Ah! Toda a alma num cárcere anda presa, Soluçando nas trevas, entre as grades Do calabouço olhando imensidades, Mares, estrelas, tardes, natureza. Tudo se veste de uma igual grandeza Quando a alma entre grilhões as liberdades Sonha e, sonhando, as imortalidades Rasga no etéreo o Espaço da Pureza. Ó almas presas,mudas e fechadas Nas prisões colossais e abandonadas, Da Dor no calabouço, atroz, funéreo! Nesses silêncios solitários, graves, que chaveiro do Céu possui as chaves para abrir-vos as portas do Mistério?! Cruz e Sousa Incensos Dentre o chorar dos trêmulos violinos, Por entre os sons dos órgãos soluçantes Sobem nas catedrais os neblinantes Incensos vagos, que recordam hinos... Rolos d'incensos alvadios, finos E transparentes, fulgidos, radiantes, Que elevam-se aos espaços, ondulantes, Em Quimeras e Sonhos diamantinos. Relembrando turíbulos de prata Incensos aromáticos desata Teu corpo ebúrneo, de sedosos flancos. Claros incensos imortais que exalam, Que lânguidas e límpidas trescalam As luas virgens dos teus seios brancos. Cruz e Sousa Lubricidade Quisera ser a serpe venenosa Que dá-te medo e dá-te pesadelos Para envolverem, ó Flor maravilhosa, Nos flavos turbilhões dos teus cabelos. Quisera ser a serpe veludosa Para, enroscada em múltiplos novelos, Saltar-te aos seios de fluidez cheirosa E babujá-los e depois mordê-los... Talvez que o sangue impuro e flamejante Do teu lânguido corpo de bacante, Da langue ondulação de águas do Reno Estranhamente se purificasse... Pois que um veneno de áspide vorace Deve ser morto com igual veneno... Cruz e Sousa CURSO ANUAL DE LITERATURA – (Prof. Steller de Paula) 201 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência Tristeza do infinito Anda em mim, soturnamente, uma tristeza ociosa, sem objetivo, latente, vaga, indecisa, medrosa. Como ave torva e sem rumo, ondula, vagueia, oscila e sobe em nuvens de fumo e na minh'alma se asila. Uma tristeza que eu, mudo, fico nela meditando e meditando, por tudo e em toda a parte sonhando. Tristeza de não sei donde, de não sei quando nem como... flor mortal, que dentro esconde sementes de um mago pomo. Dessas tristezas incertas, esparsas, indefinidas... como almas vagas, desertas no rumo eterno das vidas. Tristeza sem causa forte, diversa de outras tristezas, nem da vida nem da morte gerada nas correntezas... Tristeza de outros espaços, de outros céus, de outras esferas, de outros límpidos abraços, de outras castas primaveras. Dessas tristezas que vagam com volúpias tão sombrias que as nossas almas alagam de estranhas melancolias. Dessas tristezas sem fundo, sem origens prolongadas, sem saudades deste mundo, sem noites, sem alvoradas. Que principiam no sonho e acabam na Realidade, através do mar tristonho desta absurda Imensidade. Certa tristeza indizível, abstrata, como se fosse a grande alma do Sensível magoada, mística, doce. Ah! tristeza imponderável, abismo, mistério, aflito, torturante, formidável... ah! tristeza do Infinito! Cruz e Sousa Antífona "Ó Formas , brancas, Formas claras De luares, de neves, de neblinas!... Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas... Incensos dos turíbulos das aras... Formas do Amor, constelarmente puras, De Virgens e de Santas vaporosas... Brilhos errantes, mádidas frescuras E dolências de lírios e de rosas... Indefiníveis músicas supremas, Harmonias da Cor e do Perfume. Horas do Ocaso, trêmulas, extremas, Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume. Cruz e Sousa Litania dos pobres Os miseráveis, os rotos São as flores dos esgotos São espectros implacáveis Os rotos, os miseráveis São prantos negros de furnas Caladas, mudas, soturnas (...) Faróis à noite apagados Por ventos desesperados(...) Bandeiras rotas, sem nome, Das barricadas da fome. Bandeiras estraçalhadas Das sangrentas barricadas. Cruz e Sousa O Emparedado Se caminhares para a direita baterás e esbarrarás ansioso, aflito, numa parede horrendamente incomensurável de Egoísmos e Preconceitos! Se caminhares para a esquerda, outra parede, de Ciências e Críticas, mais alta do que a primeira, te mergulhará profundamente no espanto! Se caminhares para a frente, ainda nova parede, feita de Despeitos e Impotências, tremenda, de granito, broncamente se elevará ao alto! Se caminhares, enfim, para trás, ah! Ainda, uma derradeira parede, fechando tudo, fechando tudo — horrível! — parede de Imbecilidade e Ignorância, te deixará num frio espasmo de terror absoluto [...]. E, mais pedras, mais pedras se sobreporão às pedras já acumuladas, mais pedras, mais pedras [...] Pedras destas ódios as, caricatas e fatigantes Civilizações e Sociedades [...] Mais pedras, mais pedras! E as estranhas paredes hão de subir, — longas, negras, terríficas! Hão de subir, subir, subir mudas, silenciosas, até às Estrelas, deixando-te para sempre perdidamente alucinado e emparedado dentro do teu Sonho. Cruz e Sousa ALPHONSUS DE GUIMARAENS Obras: Poesia Septenário das Dores de Nossa Senhora e Câmara Ardente (1899); Dona Mística (1899); Kyriale (1902), seu primeiro livro, publicado tardiamente; Pauvre Lyre (1921); Pastoral dos Crentes do Amor e da Morte (1923), A Escada de Jacó (1938); Pulvis (1938). Prosa: Os Mendigos (1920). 202 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência Aula 20 - Simbolismo Alphonsus de Guimaraens é apontado como um dos principais representantes do Simbolismo. Sua obra apresenta uma linguagem simples, repleta de lirismo, e um ritmo bem musical, carregado de aliterações e sinestesias. O poeta sofreu, quando jovem, a morte de uma prima de 17 anos a quem amava, Constança, e a presença da amada perdida será constante em sua poesia: a mulher é apresentada como uma deusa, perfeita e intocável, acessível apenas espiritualmente, através da morte. Sua obra apresentará, então, um profundo misticismo e uma frequente referência à morte. Ismália Quando Ismália enlouqueceu, Pôs-se na torre a sonhar... Viu uma lua no céu, Viu outra lua no mar. No sonho em que se perdeu, Banhou-se toda em luar... Queria subir ao céu, Queria descer ao mar... E, no desvario seu, Na torre pôs-se a cantar... Estava longe do céu... Estava longe do mar... E como um anjo pendeu As asas para voar. . . Queria a lua do céu, Queria a lua do mar... As asas que Deus lhe deu Ruflaram de par em par... Sua alma, subiu ao céu, Seu corpo desceu ao mar... Alphonsus de Guimaraens Eras a sombra do poente Eras a sombra do poente Em calmarias bem calmas; E no ermo agreste, silente, Palmeira cheia de palmas. Eras a canção de outrora, Por entre nuvens de prece; Palidez que ao longe cora E beijo que aos lábios desce. Eras a harmonia esparsa Em violas e violoncelos: E como um vôo de garça Em solitários castelos. Eras tudo, tudo quanto De suave esperança existe; Manto dos pobres e manto Com que as chagas me cobriste. Eras o Cordeiro, a Pomba, A crença que o amor renova... És agora a cruz que tomba À beira da tua cova. Alphonsus de Guimaraens EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM Questão 01 (UFV) Considere as alternativas abaixo, relativas ao Simbolismo: I - No plano temático, o Simbolismo foi marcado pelo mistério e pela inquietação mística com problemas transcendentais do homem. No plano formal, caracterizou-se pela musicalidade e certa quebra no ritmo do verso, precursora do verso livre do modernismo. II - O Simbolismo, surgido contemporaneamente ao materialismo cientificista, enquanto atitude de espírito, passou ao largo dos maiores problemas da vida nacional. Já a literatura realista-naturalista acompanhou fielmente os modos de pensar das gerações que fizeram e viveram a Primeira República. III - O Simbolismo, com Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens, nossos maiores poetas do período, legou-nos uma produção poética que se caracterizou pela busca da "arte em arte", isto é, uma preocupação com o verso artesanal, friamente moldado. Devido a essa tendência à objetividade na composição, o movimento também se denominou "decadentista". Assinalea alternativa CORRETA: a) II e III verdadeiras. b) I, II e III são verdadeiras. c) Apenas I é verdadeira. d) apenas I e II são verdadeiras. e) apenas II é verdadeira. Questão 02 (Espm 2006) O poeta francês Charles Baudelaire, citado por Ferreira Gullar, escreveu em "As Flores do Mal" os famosos versos (traduzidos): "Como longos ecos que ao longe se confundem Em uma tenebrosa e profunda unidade, Vasta como a noite e como a claridade, Os perfumes, as cores e os sons..." Esses versos traduzem algo de influência destacada na literatura brasileira nos fins do século XIX. Trata-se da: a) "torre-de-marfim", lugar isolado e distante dos problemas sociais e existenciais, para onde se refugiavam os parnasianos. b) "teoria do Humanitismo", princípio norteador das personagens machadianas, no qual prevalece a lei do mais forte. c) "teoria das correspondências", relação entre as diferentes esferas dos sentidos, ideário tão fundamental aos simbolistas. d) "poesia marianista", poemas de culto e exaltação a Virgem Maria (figura que se confunde com a amada do poeta). e) "poesia pau-brasil", poesia de exportação que resgata o primitivismo cultural. Questão 03 Texto I Com o capitalismo e a evolução da ciência e da tecnologia, o mundo volta seu olhar para os interesses materiais. Entretanto, a classe trabalhadora não obteve melhorias em suas condições de vida, principalmente por causa da exploração de mão de obra como meio de auferir grandes lucros pelos CURSO ANUAL DE LITERATURA – (Prof. Steller de Paula) 203 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência empreendedores capitalistas. Isso gerou insatisfação e frustração ao homem comum, que passa a buscar conforto no lado místico e espiritual do universo. Tal busca pelo subjetivismo revela-se na arte como um retorno ao Romantismo, em que o anseio pelo refúgio fora do mundo real era valorizado. Nesse sentido, o predomínio da emoção supera o cientificismo e o objetivismo do período anterior, mas uma emoção carregada de frustrações e tristezas em decorrência do momento vivido na época. Fonte: http://educacao.globo.com/literatura/assunto/movimentos- literarios/simbolismo.html Texto II Ânsia inocente Ai! Como bom para nós dois seria Se o bom Deus, dessas lendas milagrosas, Cheio de amor, nos concedesse um dia Dois brancos pares de asas vaporosas! Não sei mesmo, de alegre, o que eu faria! Deixando os lírios e deixando as rosas, feliz contigo às nuvens subiria para o noivado em flor das nebulosas... na carícia de pluma de uma Trova. Viveríamos nós, nós dois sozinhos, Lá nas terras fiéis da Lua-Nova... Morrer longe dos homens e das casas Se Deus nos desse, como aos passarinhos, Dois brancos pares de travessas asas! Maranhão Sobrinho, Papéis Velhos... Roídos pela Traça do Símbolo (Uema 2015) A voz poética do texto II, explorando possibilidades expressivas propostas no Simbolismo, insere-se no contexto histórico explicitado no texto I, pois revela a existência de a) saudade intensa da amada, o que faz o eu-lírico buscá-la nos sonhos, evidenciada nos versos da última estrofe. b) expressão de desejo de morrer, uma vez que o locutor vive distante da amada, anunciada, sobretudo, nos versos da segunda estrofe. c) diálogo entre o enunciador e um interlocutor imaginário em que aquele expressa o desejo de ambos transcenderem como dois anjos, sobretudo, nos versos da primeira estrofe. d) referência constante aos milagres da vida eterna, em que o enunciador busca o amor infinito, metaforizado pelas palavras do último verso da terceira estrofe. e) ideia expressa de sonho materializado, em que o locutor demonstra já ter vivenciado essas viagens nebulosas, sobretudo, nos versos da terceira estrofe. Violões que Choram... Ah! plangentes violões dormentes, mornos, soluços ao luar, choros ao vento... Tristes perfis, os mais vagos contornos, bocas murmurejantes de lamento. Noites de além, remotas, que eu recordo, noites de solidão, noites remotas que nos azuis da Fantasia bordo, vou constelando de visões ignotas. Sutis palpitações à luz da lua, anseio dos momentos mais saudosos, quando lá choram na deserta rua as cordas vivas dos violões chorosos. Cruz e Sousa Questão 04 (ITA 2013) O poema acima traz a seguinte característica da escola literária em que se insere: a) tendência à morbidez. b) lirismo sentimental e intimista. c) precisão vocabular e economia verbal. d) depuração formal e destaque para a sensualidade feminina. e) registro da realidade através da percepção sensorial do poeta. Questão 05 (Espcex (Aman) 2013) Leia a estrofe que segue e assinale a alternativa correta, quanto às suas características. “Visões, salmos e cânticos serenos Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes... Dormências de volúpicos venenos Sutis e suaves, mórbidos, radiantes...” a) valorização da forma como expressão do belo e a busca pela palavra mais rara – Parnasianismo. b) linguagem rebuscada, jogos de palavras e jogos de imagens, característica do cultismo – corrente do Barroco. c) incidência de sons consonantais (aliterações) explorando o caráter melódico da linguagem – Simbolismo. d) pessimismo da segunda geração romântica, marcada por vocábulos que aludem a uma existência mais depressiva – Romantismo. e) lírica amorosa marcada pela sensualidade explícita que substitui as virgens inacessíveis por mulheres reais, lascivas e sedutoras – Naturalismo. Questão 06 (Uem 2015) Assinale o que for correto sobre o poema abaixo e sobre seu autor, Cruz e Souza. Beleza morta De leve, louro e enlanguescido helianto Tens a flórea dolência contristada... Há no teu riso amargo certo encanto De antiga formosura destronada. No corpo, de um letárgico quebranto Corpo de essência fina, delicada, Sente-se ainda o harmonioso canto Da carne virginal, clara e rosada. Sente-se o errante, as harmonias Quase apagadas, vagas, fugidias E uns restos de clarão de Estrela acesa... Como que ainda os derradeiros haustos De opulências, de pompas e de faustos, As relíquias saudosas da beleza. SEMANA 20 - LITERATURA - Simbolismo - STELLER sem as respostas CRUZ E SOUSA Obras Principais: Poesia Broquéis (1893); Faróis (1900); Últimos Sonetos (1905); O livro Derradeiro (1961). Prosa poética Tropos e Fanfarras (1885), em conjunto com Virgílio Várzea; Missal (1893); Evocações (1898). A obra de Cruz e Sousa, segundo os críticos, alcança uma densidade lírica e dramática só comparável ao dos grandes simbolistas franceses, como Paul Verlaine, Arthur Rimbaud e Stéphane Mallarmé. Negro, filhos de escravos e pobre, encontramos em sua obr... Antonio Candido comenta que as maiores influências que o poeta sofreu, e que o marcaram para sempre, foram a de Baudelaire e a de Antero de Quental. ―Ao primeiro, deve não apenas o domínio do poema em prosa, mas certo satanismo, o senso dos contrastes... Temas básicos - A obsessão pela cor branca; - O erotismo e sua sublimação; - O sofrimento da condição negra; - A espiritualização, a busca pela transcendência. Cárcere das almas Ah! Toda a alma num cárcere anda presa, Soluçando nas trevas, entre as grades Do calabouço olhando imensidades, Mares, estrelas, tardes, natureza. Tudo se veste de uma igual grandeza Quando a alma entre grilhões as liberdades Sonha e, sonhando, as imortalidades Rasga no etéreo o Espaço da Pureza. Ó almas presas, mudas e fechadas Nas prisões colossais e abandonadas, Da Dor no calabouço, atroz, funéreo! Nesses silêncios solitários, graves, que chaveiro do Céu possui as chaves para abrir-vos as portas do Mistério?! Cruz e Sousa Incensos Dentre o chorar dos trêmulos violinos, Por entre os sons dos órgãos soluçantes Sobem nas catedrais os neblinantes Incensos vagos, que recordam hinos... Rolos d'incensos alvadios, finos E transparentes,fulgidos, radiantes, Que elevam-se aos espaços, ondulantes, Em Quimeras e Sonhos diamantinos. Relembrando turíbulos de prata Incensos aromáticos desata Teu corpo ebúrneo, de sedosos flancos. Claros incensos imortais que exalam, Que lânguidas e límpidas trescalam As luas virgens dos teus seios brancos. Cruz e Sousa Lubricidade Quisera ser a serpe venenosa Que dá-te medo e dá-te pesadelos Para envolverem, ó Flor maravilhosa, Nos flavos turbilhões dos teus cabelos. Quisera ser a serpe veludosa Para, enroscada em múltiplos novelos, Saltar-te aos seios de fluidez cheirosa E babujá-los e depois mordê-los... Talvez que o sangue impuro e flamejante Do teu lânguido corpo de bacante, Da langue ondulação de águas do Reno Estranhamente se purificasse... Pois que um veneno de áspide vorace Deve ser morto com igual veneno... Cruz e Sousa Tristeza do infinito Anda em mim, soturnamente, uma tristeza ociosa, sem objetivo, latente, vaga, indecisa, medrosa. Como ave torva e sem rumo, ondula, vagueia, oscila e sobe em nuvens de fumo e na minh'alma se asila. Uma tristeza que eu, mudo, fico nela meditando e meditando, por tudo e em toda a parte sonhando. Tristeza de não sei donde, de não sei quan... Dessas tristezas incertas, esparsas, indefinidas... como almas vagas, desertas no rumo eterno das vidas. Tristeza sem causa forte, diversa de outras tristezas, nem da vida nem da morte gerada nas correntezas... Tristeza de outros espaços, de outros céus, de outras esferas, de outros límpidos abraços, de outras castas primaveras. Dessas tristezas que vagam com volúpias tão sombrias que as nossas almas alagam de estranhas melancolias. Dessas tristezas sem fundo, sem origens prolongadas, sem saudades deste mundo, sem noites, sem alvoradas. Que principiam no sonho e ac... Certa tristeza indizível, abstrata, como se fosse a grande alma do Sensível magoada, mística, doce. Ah! tristeza imponderável, abismo, mistério, aflito, torturante, formidável... ah! tristeza do Infinito! Cruz e Sousa Antífona "Ó Formas , brancas, Formas claras De luares, de neves, de neblinas!... Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas... Incensos dos turíbulos das aras... Formas do Amor, constelarmente puras, De Virgens e de Santas vaporosas... Brilhos errantes, mádidas frescuras E dolências de lírios e de rosas... Indefiníveis músicas supremas, Harmonias da Cor e do Perfume. Horas do Ocaso, trêmulas, extremas, Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume. Cruz e Sousa Litania dos pobres Os miseráveis, os rotos São as flores dos esgotos São espectros implacáveis Os rotos, os miseráveis São prantos negros de furnas Caladas, mudas, soturnas (...) Faróis à noite apagados Por ventos desesperados(...) Bandeiras rotas, sem nome, Das barricadas da fome. Bandeiras estraçalhadas Das sangrentas barricadas. Cruz e Sousa O Emparedado Se caminhares para a direita baterás e esbarrarás ansioso, aflito, numa parede horrendamente incomensurável de Egoísmos e Preconceitos! Se caminhares para a esquerda, outra parede, de Ciências e Críticas, mais alta do que a primeira, te mergulhará pro... E, mais pedras, mais pedras se sobreporão às pedras já acumuladas, mais pedras, mais pedras [...] Pedras destas ódios as, caricatas e fatigantes Civilizações e Sociedades [...] Mais pedras, mais pedras! E as estranhas paredes hão de subir, — longas, n... Cruz e Sousa ALPHONSUS DE GUIMARAENS Obras: Poesia Septenário das Dores de Nossa Senhora e Câmara Ardente (1899); Dona Mística (1899); Kyriale (1902), seu primeiro livro, publicado tardiamente; Pauvre Lyre (1921); Pastoral dos Crentes do Amor e da Morte (1923), A Escada de Jacó (1938); Pulvis (1938). Prosa: Os Mendigos (1920). Alphonsus de Guimaraens é apontado como um dos principais representantes do Simbolismo. Sua obra apresenta uma linguagem simples, repleta de lirismo, e um ritmo bem musical, carregado de aliterações e sinestesias. O poeta sofreu, quando jovem, a morte de uma prima de 17 anos a quem amava, Constança, e a presença da amada perdida será constante em sua poesia: a mulher é apresentada como uma deusa, perfeita e intocável, acessível apenas espiritualmente, através d... Ismália Quando Ismália enlouqueceu, Pôs-se na torre a sonhar... Viu uma lua no céu, Viu outra lua no mar. No sonho em que se perdeu, Banhou-se toda em luar... Queria subir ao céu, Queria descer ao mar... E, no desvario seu, Na torre pôs-se a cantar.... E como um anjo pendeu As asas para voar. . . Queria a lua do céu, Queria a lua do mar... As asas que Deus lhe deu Ruflaram de par em par... Sua alma, subiu ao céu, Seu corpo desceu ao mar... Alphonsus de Guimaraens Eras a sombra do poente Eras a sombra do poente Em calmarias bem calmas; E no ermo agreste, silente, Palmeira cheia de palmas. Eras a canção de outrora, Por entre nuvens de prece; Palidez que ao longe cora E beijo que aos lábios desce. Eras a harmonia esparsa Em violas e violoncelos: E como um vôo de garça Em solitários castelos. Eras tudo, tudo quanto De suave esperança existe; Manto dos pobres e manto Com que as chagas me cobriste. Eras o Cordeiro, a Pomba, A crença que o amor renova... És agora a cruz que tomba À beira da tua cova. Alphonsus de Guimaraens