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MULHERES EM SITUAÇÃO DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

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Prévia do material em texto

UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE 
INSTITUTO DE COMPUTAÇÃO 
BACHARELADO EM SISTEMAS DE INFORMAÇÃO 
 
 
 
 
 
 
SAMANTHA DE ALMEIDA PEREIRA COSTA 
 
 
 
 
 
 
MULHERES EM SITUAÇÃO DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA – 
A CONTRIBUIÇÃO DAS MÍDIAS DIGITAIS 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Niterói 
2021 
 
 
SAMANTHA DE ALMEIDA PEREIRA COSTA 
 
 
 
 
 
 
MULHERES EM SITUAÇÃO DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA – 
A CONTRIBUIÇÃO DAS MÍDIAS DIGITAIS 
 
 
 
 
 
 
Trabalho de conclusão de 
curso apresentado ao curso de 
Bacharelado em Sistemas de 
Informação, como requisito parcial 
para conclusão do curso. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Orientadora: 
Prof.a Dra. Isabel Cafezeiro. 
 
 
. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Niterói 
2021 
 
 
C837m Costa, Samantha de Almeida Pereira 
Mulheres em situação de violência doméstica : A 
contribuição das mídias digitais / Samantha de Almeida 
Pereira Costa ; Isabel Cafezeiro, orientadora. Niterói, 
2021. 
91 f. 
 
Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Sistemas de 
Informação)-Universidade Federal Fluminense, Instituto de 
Computação, Niterói, 2021. 
1. Violência Doméstica. 2. Informática como ferramenta. 
3. Feminicídio. 4. Produção intelectual. I. Cafezeiro, 
Isabel, orientadora. II. Universidade Federal Fluminense. 
Instituto de Computação. III. Título. 
CDD - 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Ficha catalográfica automática - SDC/BEE 
Gerada com informações fornecidas pelo autor 
Bibliotecário responsável: Debora do Nascimento - CRB7/6368 
 
 
 
SAMANTHA DE ALMEIDA PEREIRA COSTA 
 
 
 
 
 
MULHERES EM SITUAÇÃO DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA – 
A CONTRIBUIÇÃO DAS MÍDIAS DIGITAIS 
 
 
 
Trabalho de conclusão de 
curso apresentado ao curso de 
Bacharelado em Sistemas de 
Informação, como requisito parcial 
para conclusão do curso. 
 
 
 
Aprovada em 20 de setembro de 2021. 
 
 
BANCA EXAMINADORA 
 
 
 
_____________________________________________ 
Prof.a Dra. Isabel Cafezeiro (Orientadora) - UFF 
 
 
 
_____________________________________________ 
Prof. a Dra. Karina Mochetti - UFF 
 
 
 
_____________________________________________ 
Prof.ª Dra. Luciana Salgado - UFF 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Niterói 
2021 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
À todas as mulheres, sejam cis ou trans. 
 
À todas as mulheres, inclusive as que não foram – e espero que nunca sejam 
– vítimas de violência doméstica. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
AGRADECIMENTOS 
 
 
Agradeço ao meu povo, que sempre cuidou de mim e me guiou para os 
caminhos mais iluminados. Agradeço aos meus pais, que me apoiaram desde o 
início para cursar Sistemas de Informação. Sem dúvidas, isso fez toda a diferença 
para que eu realizasse essa faculdade com mais leveza e tranquilidade. A educação 
que recebi deles e o suporte durante toda a minha graduação – e antes dela – foi 
essencial para que eu chegasse aqui, com um tema tão importante e necessário. 
Obrigada por me ouvirem empolgada falando sobre o TCC e por também me 
ouvirem falando triste e decepcionada sobre os assuntos que preciso abordar neste 
documento. 
Agradeço à UFF por todos os momentos maravilhosos que passei nela – e 
até os graças a ela também, que envolveram Cantareira, acolhimentos estudantis e 
eventos fora da faculdade. Tive a sorte de ter, por muitas vezes, ótimos professores 
e colegas junto a mim. Sou grata, principalmente, por toda a família que ganhei nela: 
amigos que estão presentes em dois grupos que são muito especiais para mim, que 
me ajudaram não só nos estudos, mas também para ser alguém melhor como 
indivíduo. 
Não posso colocar o nome de todos aqui pois o espaço é pequeno e a família 
é grande, mas em especial, agradeço ao JJ, Luisa e Rogerinho, que estiveram 
comigo durante todos os meus períodos cursados. Obrigada por lidarem com 
minhas crises devido a vida acadêmica, que muitas vezes nos tirava do sério, 
principalmente por conta de prazos em trabalhos enormes. Obrigada por me 
ouvirem, por me ensinarem – não só nos estudos, mas para a vida – e por estarem 
presentes por todo esse tempo. A vida com vocês é extremamente mais fácil. 
Agradeço também ao Fabin, que apresentou a Vitória Basile, que fez um TCC 
com tema tão importante similar ao meu. Obrigada pelos dois conversarem tanto 
comigo sobre o assunto, me darem tantas dicas e apoio. Obrigada Vitória por todos 
os envios de materiais riquíssimos que me ajudaram a compor esse documento. 
Outro presente que ganhei devido à UFF e sou absurdamente grata é o 
Maurício, meu namorado. Obrigada por todo o carinho que teve por mim, de lidar 
com as minhas ansiedades, ouvir os meus planejamentos loucos por conta do 
 
 
período remoto estar com o tempo apertado e de até trocar o nome do despertador 
que o lembrava de bater o ponto do trabalho para me lembrar de escrever o TCC. 
Agradeço também aos meus amigos que estão presentes na minha vida 
quase que desde 2013, tudo por conta de eu ser fã da saga Jogos Vorazes – ainda 
sou fã. Obrigada Alessandro, Arroz, Bruna, Carol, Duda, Emilly, Eulalia, Eva, Gabe, 
Hugo, Karen e Madu, por suportarem tantos surtos meus e por toda essa parceria de 
anos, que envolve inspiração, respeito e muito amor. 
Agradeço também aqueles que me ajudaram durante todo o percurso da 
minha graduação – e até antes dela. Obrigada Caio, Caius, Stael e Thiago, por 
continuarmos próximos mesmo com o fim do terceiro ano. Obrigada Livia, por ser a 
minha melhor amiga e por ser essa criaturinha tão especial que alegrou minhas 
manhãs por tantos anos e que faz uma falta danada na minha rotina. Obrigada 
Leandro e Renan, por estarem há 8 anos próximos de mim, e por serem os irmãos 
que tenho graças ao destino. 
Obrigada Luciana e Karina por serem professoras – e mulheres – que 
inspiram tanto e buscam sempre trazer mais de nós para esse ambiente tão 
machista. É muito gratificante ter vocês, mulheres que admiro desde o início da 
faculdade, na minha banca avaliadora. 
Obrigada Bebel por ter me encantado logo no meu primeiro período na 
faculdade, na minha primeira aula que tive em plena sexta-feira das 18h às 22h. 
Obrigada por ter topado engatar nessa jornada comigo com um tema tão complexo e 
por tanta inspiração, que já existia bem antes desse contato de 
orientador/orientanda – até porque o meu sonho, desde o início do curso, era te ter 
como orientadora. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A vida começa quando a violência acaba. 
 
Maria da Penha 
 
 
 
 
 
RESUMO 
 
 
O ambiente doméstico deveria ser um local de acolhimento e confortável para seus 
residentes, porém, muitos lares se transformam em um local violento e cruel, 
trazendo medo e insegurança. É necessário discutir sobre violência doméstica pelo 
fato do Brasil ser um dos países mais violentos para quem se identifica como mulher 
e por esta violência ser um dos fatores que mais causa doenças e mortes femininas 
em diversos países. Neste texto, são discutidos os principais fatores que explicam a 
ocorrência da violência doméstica que envolve a sociedade patriarcal em que 
vivemos. São explicadas suas definições conforme a legislação brasileira – através 
da Lei Maria da Penha – e os contextos antes e após a implementação da lei, 
trazendo exemplos de histórias de mulheres que sofreram este tipo de violência. 
Pela pandemia ter impactado diretamente a violência contra a mulher, a ponto de 
ocorrer um crescimento exponencial de denúncias e subnotificações, esse contexto 
também é abordado. Para fomentar o argumento de que é possível utilizar as 
tecnologias da informação a favor do enfrentamento da violência doméstica, são 
apresentadas algumas iniciativas através de propagandas de conscientização, 
aplicativos e sites provenientes de órgãos do Estado,empresas privadas, de 
coletivos e até da própria população. Ao final, é realizada uma compilação das 
informações e críticas sobre a atuação do Estado em prevenir e proteger essas 
mulheres, que mesmo após 15 anos da sanção da Lei Maria da Penha, seguem 
sofrendo nas mãos não só de seus agressores, mas também de quem deveria lhes 
defender. 
 
Palavras-chave: Violência Doméstica. Informática. Tecnologia da Informação. TI. 
Lei Maria da Penha. 
 
 
 
 
ABSTRACT 
 
 
The domestic environment should be a welcoming and comfortable place for its 
residents; however, many homes turn into violent and cruel places, bringing fear and 
insecurity. It's necessary to discuss domestic violence since Brazil is one of the most 
violent countries for those who identify themselves as women and because this 
violence is one of the factors that most causes female illnesses and deaths in several 
countries. In this text, the main factors that explain the occurrence of domestic 
violence involving the patriarchal society in which we live are discussed. Its 
definitions are explained according to Brazilian legislation - through Maria da Penha’s 
Law - and the contexts before and after the law's implementation, bringing examples 
of stories of women who suffered this type of violence. Because the pandemic has 
directly impacted violence against women, to the point of exponential growth in 
complaints and underreporting, this context is also addressed. To promote the 
argument that it is possible to use information technologies in favor of combating 
domestic violence, some initiatives are presented through awareness 
advertisements, applications, and websites from state agencies, private companies, 
collectives and even the population itself. In the end, there is a compilation of 
information and criticisms about the State's actions in preventing and protecting 
these women, who, even 15 years after the enactment of the Maria da Penha’s Law, 
continue to suffer at the hand not only of their aggressors, but also of those who 
should defend them. 
 
Keywords: Domestic Violence. Information Technology. IT. Maria da Penha’s Law. 
 
 
 
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS 
 
 
CLADEM/BR Comitê Latino-americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos 
da Mulher 
FBSP Fórum Brasileiro de Segurança Pública 
MMFDH Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos 
OMS Organização Mundial de Saúde 
PNAD Contínua 
TIC 
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – 
Tecnologia da Informação e Comunicação 
SNPM Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres 
UFRJ Universidade Federal do Rio de Janeiro 
 
 
 
LISTA DE ILUSTRAÇÕES 
 
 
Figura 1 – Ciclo da Violência Doméstica.......................................................... 15 
Figura 2 – Maria da Penha............................................................................... 18 
Figura 3 – Ângela Diniz.................................................................................... 25 
Figura 4 – Maria do Rosário............................................................................. 28 
Figura 5 – Lidiane Pereira................................................................................ 35 
Figura 6 – Bhrunna Rubby................................................................................ 37 
Figura 7 – Campanha “Ei Mermã”.................................................................... 43 
Figura 8 – Covid-19: confinamento sem violência............................................ 44 
Figura 9 – Campanha Sinal Vermelho.............................................................. 45 
Figura 10 – Para algumas famílias, o isolamento está sendo mais difícil.......... 48 
Figura 11 – #NãoÉAmorQuando......................................................................... 48 
Figura 12 – Campanha de Violência Contra a Mulher........................................ 49 
Figura 13 – Violência contra a mulher não tem explicação, tem lei 50 
Figura 14 – #ElaNãoPediu.................................................................................. 52 
Figura 15 – Campanha de conscientização do Fortaleza Futebol Clube........... 54 
Figura 16 – Cartilha Informativa do Juntas e Seguras........................................ 55 
Figura 17 – Cartilha Informativa da Polícia Civil de SP...................................... 58 
Figura 18 – Aplicativo SOS Mulher..................................................................... 59 
Figura 19 – Aplicativo MG Mulher....................................................................... 60 
Figura 20 – Perguntas e respostas frequentes da campanha “Violência 
doméstica – não se cale” ................................................................ 
62 
Figura 21 – Aplicativo Direitos Humanos............................................................ 63 
Figura 22 – Aplicativo Mete a Colher.................................................................. 65 
Figura 23 – Aplicativo Magalu com botão de “Violência contra a mulher”.......... 66 
Figura 24 – Aplicativo PenhaS............................................................................ 67 
Figura 25 – Uso do ISA.bot no Messenger e Google Assistente........................ 68 
 
 
 
 
SUMÁRIO 
 
1 – INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 14 
2 – O QUE É A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA ................................................................................... 18 
2.1 – Quem é Maria da Penha Maia Fernandes? ................................................................ 19 
2.1.1 – A vida do agressor da Maria da Penha ................................................................. 20 
2.2 – Lei Maria da Penha ..................................................................................................... 21 
2.2.1 – Mudanças na lei com o tempo ............................................................................. 23 
2.3 – Antes da sanção da lei ................................................................................................ 24 
2.4 – Após a sanção da lei .................................................................................................... 29 
2.5 – Tipos de violência........................................................................................................ 35 
3 – VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E PANDEMIA ............................................................................... 39 
3.1 – Dados ........................................................................................................................... 40 
3.2 – Iniciativas .................................................................................................................... 41 
3.2.1 – São Paulo .............................................................................................................. 42 
3.3.2 – Piauí ...................................................................................................................... 42 
3.3.3 – Rio de Janeiro ....................................................................................................... 44 
4 – PROPAGANDAS DE CONSCIENTIZAÇÃO ATRAVÉS DAS MÍDIAS SOCIAIS ......................... 46 
4.1 – Campanhas realizadas por prefeituras, estados e governo federal .......................... 47 
4.1.1 – Governo Federal ................................................................................................... 47 
4.1.2 – Prefeitura de São José dos Campos ...................................................................... 49 
4.1.3 – Prefeitura de Natal ............................................................................................... 50 
4.1.4 – Campanha Sinal Vermelho ................................................................................... 51 
4.2 – Campanhas realizadas por empresas privadas ..........................................................51 
4.2.1 – Catraca Livre ......................................................................................................... 51 
4.2.2 – Instituto Avon ....................................................................................................... 53 
4.2.3 – Mete a Colher ....................................................................................................... 53 
4.2.4 – Fortaleza Esporte Clube ........................................................................................ 53 
4.3 – Conscientização através da própria população ......................................................... 55 
4.3.1 – Juntas e Seguras ................................................................................................... 55 
4.3.2 – Coletivo Brazilinas ................................................................................................ 56 
4.3.3 – Agora É Que São Elas ............................................................................................ 56 
5 – USO DE SITES E APLICATIVOS PARA BUSCAR AJUDA E REALIZAR DENÚNCIAS ............... 57 
5.1 – Sites e aplicativos do Estado ...................................................................................... 57 
5.1.1 – Polícia Civil de São Paulo ...................................................................................... 57 
 
 
5.1.2 – Governo do Estado de São Paulo ......................................................................... 59 
5.1.3 – Polícia Civil de Minas Gerais ................................................................................. 59 
5.1.4 – Governo Estadual de Minas Gerais ...................................................................... 60 
5.1.5 – Polícia Civil do Paraná ........................................................................................... 61 
5.1.6 – Polícia Civil do Rio de Janeiro ............................................................................... 61 
5.1.7 – Ministério Público de Santa Catarina ................................................................... 61 
5.1.8 – Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos ............................................. 62 
5.1.9 – Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos ............................................................ 64 
5.1.10 – Gov.br ................................................................................................................. 64 
5.2 – Sites e aplicativos de empresas privadas ................................................................... 64 
5.2.1 – Mete a Colher ....................................................................................................... 65 
5.2.2 – Magazine Luiza ..................................................................................................... 66 
5.2.3 – Rappi ..................................................................................................................... 66 
5.3 – Sites e aplicativos de coletivos ................................................................................... 67 
5.3.1 – PenhaS .................................................................................................................. 67 
5.3.2 – ISA.bot .................................................................................................................. 68 
5.3.3 – Maria da Penha Virtual ......................................................................................... 69 
6 – CONCLUSÃO ....................................................................................................................... 70 
REFERÊNCIAS ............................................................................................................................ 73 
 
14 
 
1 – INTRODUÇÃO 
 
 
A Declaração e Programa de Ação de Viena (CONFERÊNCIA MUNDIAL 
SOBRE DIREITOS HUMANOS, 1993) reconhece como forma de violência toda 
forma de assédio e exploração sexual, em particular as derivadas de preconceitos 
culturais. Esse documento afirma que todos os direitos humanos não possuem 
hierarquia, portanto, direitos da mulher e da menina são integrantes dos Direitos 
Universais. Porém, segundo a OMS (OPAS, [21--]), em diversos países, incluindo o 
Brasil, a violência contra a mulher é um dos fatores que mais causa doenças e 
mortes femininas. 
O ambiente doméstico deve ser um local onde os seus residentes se sentem 
acolhidos, confortáveis, bem tratados. Infelizmente, muitos lares se transformam em 
um local violento e cruel, trazendo medo e insegurança. Mulheres vítimas de 
violência doméstica lidam com esse ambiente hostil muitas vezes por um ciclo 
praticamente infinito – muitas vezes, a agressão física é o fim da violência, e não o 
seu início. 
O ciclo espiral ascendente de violência no contexto conjugal foi percebido 
pela psicóloga Lenore Walker (PICCINI; ARAÚJO, 2020). Ela constatou que existe 
um processo que é constantemente repetido por mulheres, sem que essas 
percebam sua nocividade. Ele é composto por três fases: na primeira, a tensão entre 
o casal aumenta pela maior irritabilidade do agressor – que fica mais estressado, 
agressivo, culpabiliza a vítima e a deixa amedrontada –, sendo mais observado 
nesse contexto as violências psicológicas e moral; na segunda, o agressor explode e 
ocorre o ápice da violência – por algumas vezes, a denúncia ocorre nessa fase –; na 
terceira e última, o agressor se arrepende e apresenta comportamentos de 
reconciliação com a vítima. A Figura 1, arte do Grupo ND ([21--]), é um exemplo de 
como funciona esse ciclo de violência doméstica. 
15 
 
Figura 1 - Ciclo da Violência Doméstica 
 
Fonte: Site do Grupo ND 
 
Segundo Rosana Schwartz (2015), professora de sociologia da Universidade 
Presbiteriana Mackenzie, a violência contra a mulher tem caráter estrutural, e por 
isso, a expressão “combate à violência” vem de uma concepção somente teórica 
que supõe que a violência é produto de uma “patologia social”. Nesse texto, 
concordamos com ela ao dizer que a violência contra a mulher está atrelada à 
sociedade patriarcal em que vivemos, com mulheres sendo inferiorizadas e o 
agressor tendo a sensação de posse, soberania e poder com a vítima. Isso não se 
diferencia da violência doméstica contra a mulher, que pode ter o agressor como um 
16 
 
parceiro, pais ou qualquer outra pessoa que possua relação de familiaridade ou 
afetividade. 
O Brasil é um dos países mais violentos do mundo para quem se identifica 
como mulher: segundo pesquisa do 15º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, a 
cada minuto, a polícia recebe uma ligação por violência doméstica no país (PEREZ, 
2021). A Lei Maria da Penha (BRASIL, 2006) foi sancionada em 2006 pelo ex-
presidente Luiz Inácio Lula da Silva e tem como objetivo punir e coibir atos de 
violência doméstica contra a mulher. Porém, mesmo estando em vigor há quase 
quinze anos no país, o problema ainda persiste e não se resolve por completo. 
Segundo Alice Bianchini (2019), a violência doméstica e familiar contra a 
mulher deriva da desigualdade, não só econômica, mas também social baseado nos 
papéis de gênero. Essa injusta condição mantem as vítimas em situação de 
inferioridade. Por ser um fenômeno estrutural, seu tratamento não pode ocorrer 
exclusivamente na parte punitiva: para combater de fato esta violência, é necessário 
analisar principalmente a forma que a mulher enxerga a si própria e como elas são 
vistas, para que a população seja devidamente conscientizada, possibilitando novos 
pensamentos e comportamentos na sociedade. 
O presente trabalho visa analisar como a informática pode auxiliar no 
combate à violência doméstica. Para isso, é necessário entender o contexto digital 
em que o país se encontra. Segundo a PNAD Contínua TIC de 2019, realizada pelo 
IBGE, 82,7% dos domicílios nacionais possuem acesso à internet, sendo 
dispositivos móveis a principal ferramenta utilizada (GOV.BR,2021). Uma outra 
pesquisa, TIC Domicílios 2019, desenvolvida pelo Centro Regional para o 
Desenvolvimento de Estudos sobre a Sociedade da Informação, informou que o 
acesso tem índices semelhantes independente do gênero, sendo 74% entre 
mulheres e 73% entre homens, e 90% relataram utilizar a internet todos os dias 
(VALENTE, 2020). Pode-se concluir que no Brasil, pelo menos dois terços da 
população, sem discriminação de gênero, possuem acesso à internet principalmente 
pelos dispositivos móveis, que estão constantemente ao nosso lado. 
Com o início da pandemia que atingiu o Brasil e o mundo em março de 2020, 
é de se esperar que os números de acesso à internet tenham aumentado por uma 
necessidade da população em ficar, obrigatoriamente por muitos meses, em 
isolamento social. Infelizmente, os índices de violência doméstica também 
17 
 
aumentaram – subindo 40% em abril de 2020 quando comparada ao mesmo mês de 
2019 (ISTO É DINHEIRO, 2020). 
Apesar do maior volume de denúncias, o aumento da violência doméstica não 
entrou para as estatísticas dos órgãos de segurança pública, pois muitas vezes a 
vítima ficou refém do agressor e impedida de realizar um boletim de ocorrência na 
delegacia. Nas próximas seções serão apresentadas iniciativas de campanhas 
digitais de combate à violência doméstica implementadas pelo Estado, empresas 
privadas e pela própria população. 
A internet é a mídia mais poderosa da atualidade, já que permite que qualquer 
informação seja compartilhada de forma extremamente rápida por todo o mundo, e 
como foi dito, é acessada por mais de dois terços da população brasileira. É, 
portanto, necessário combater a violência doméstica contra a mulher também pelos 
meios digitais. As tecnologias digitais tornam possível alertar de maneira fácil sobre 
a violência doméstica, informando seu significado, tipos, dados, e principalmente 
como proceder para realizar uma denúncia – tanto presencial quanto virtual. 
 
 
18 
 
2 – O QUE É A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA 
 
 
De acordo com o artigo 5º da Lei Maria da Penha (BRASIL, 2006), violência 
doméstica contra a mulher é “qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe 
causa morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou 
patrimonial”. Ela pode ocorrer no conceito de unidade doméstica – um espaço de 
convívio permanente de pessoas, com ou sem vínculo familiar, inclusive as 
esporadicamente agregadas –, da família – formada por indivíduos que são ou se 
consideram aparentados, unidos por laços naturais ou por afinidade – ou em 
qualquer relação íntima onde o agressor conviva ou tenha convivido com a vítima. 
Com base na biografia disponibilizada pelo Instituto Maria da Penha 
(INSTITUTO MARIA DA PENHA, 2018), este capítulo contará a história de Maria da 
Penha Maia Fernandes e explicará sobre a lei anteriormente citada, o contexto 
brasileiro antes da criação da lei e o contexto atual – 15 anos após ela ser 
sancionada – e quais são os tipos de violência doméstica. 
 
 
Figura 2 - Maria da Penha 
Fonte: BRITO, 2021 
19 
 
2.1 – Quem é Maria da Penha Maia Fernandes? 
 
 
Maria da Penha Maia Fernandes, nasceu em 1945 em Fortaleza e é uma 
farmacêutica bioquímica formada pela Faculdade de Farmácia e Bioquímica da 
Universidade Federal do Ceará. Em 1974, enquanto cursava o seu mestrado na 
Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo, ela conheceu 
um colombiano chamado Marco Antonio Heredia Viveros, que na época fazia seus 
estudos de pós-graduação em Economia na mesma instituição. 
Eles iniciaram um namoro no mesmo ano em que se conheceram, e casaram 
dois anos depois, em 1976. Marco Antonio demonstrava ser muito amável, educado 
e solidário com todos ao seu redor, inclusive com Maria da Penha, entretanto, a 
história mudou logo após eles se mudarem para Fortaleza – fato que só ocorreu 
após o nascimento da primeira filha do casal e da finalização do mestrado de Maria 
da Penha. 
As agressões começaram a acontecer quando ele conseguiu a cidadania 
brasileira e se estabilizou profissional e economicamente, passando a se exaltar 
com facilidade, agir com intolerância e ter comportamentos explosivos com sua 
esposa e duas filhas. Formou-se então o ciclo da violência: aumento da tensão, ato 
da violência, arrependimento e comportamento carinhoso. Foi nessa última fase, 
onde ocorre o comportamento carinhoso, que, na esperança de uma mudança real 
por parte do ex-marido, Maria da Penha teve a sua terceira filha. 
Em 1983 Maria da Penha sofreu dupla tentativa de feminicídio1 por parte de 
Marco Antonio Heredia Viveros. Na primeira, ele deu um tiro em suas costas 
enquanto ela dormia. Tal agressão deixou Maria da Penha paraplégica, após passar 
por duas cirurgias, além de várias internações e tratamentos. Marco Antonio 
declarou à polícia que houve uma tentativa de assalto, porém, a perícia desmentiu 
essa versão posteriormente. Após quatro meses do ocorrido, depois sua alta do 
hospital, ele a manteve em cárcere privado durante 15 dias e tentou eletrocutá-la 
durante o banho. 
 
1 A Lei do Feminicídio (BRASIL, 2015) trata do assassinato que envolve violência doméstica e familiar, 
menosprezo ou discriminação à condição de mulher. 
20 
 
Após juntar as peças do quebra-cabeça montado pelo agressor, Maria da 
Penha compreendeu os diversos movimentos realizados pelo ex-marido: ele insistiu 
para que a investigação sobre o suposto assalto não fosse adiante, fez com que ela 
assinasse uma procuração que o autorizava a agir em seu nome e tinha várias 
cópias de seus documentos autenticados. Sua família e amigos conseguiram lhe dar 
apoio jurídico e providenciaram a sua saída de casa sem que isso fosse configurado 
como abandono de lar, de maneira que ela não tivesse risco de perder as guardas 
de suas três filhas. 
Começou então a luta por justiça, porém, o Poder Judiciário foi o próximo 
agressor de Maria da Penha. O primeiro julgamento do seu ex-marido ocorreu 
somente em 1991, ou seja, 8 anos após os crimes de tentativa de feminicídio. Ele foi 
sentenciado a 15 anos de prisão, mas por conta de recursos solicitados pela defesa, 
saiu do fórum em liberdade. Ela continuou na luta por justiça e teve um segundo 
julgamento realizado em 1996. Neste julgamento, ele foi condenado a 10 anos e 
meio de prisão, porém, sob a alegação de irregularidades processuais por parte dos 
advogados de defesa, a sentença não foi cumprida. 
Em 1998, Maria da Penha, o Centro pela Justiça e o Direito Internacional 
(CEJIL), o Comitê Latino-americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da 
Mulher (CLADEM/BR) e o Observatório da Mulher e Rede Mulher e Mídia 
denunciaram o caso para a Comissão interamericana de Direitos Humanos da 
Organização dos Estados Americanos, permitindo que o caso ganhasse 
repercussão internacional. O Estado brasileiro permaneceu omisso e não se 
pronunciou durante o processo mesmo diante de um litígio internacional. 
Em 2001, após receber quatro ofícios da Comissão Interamericana de Direitos 
Humanos, o Estado foi responsabilizado por negligência, omissão e tolerância em 
relação à violência doméstica praticada contra as mulheres brasileiras. Em outubro 
de 2002, com o crime prestes a prescrever, Marco Antonio foi preso. 
 
 
2.1.1 – A vida do agressor da Maria da Penha 
 
 
21 
 
Solange Azevedo (2011) foi a responsável por entrevistar Marco Antonio, que 
argumenta até os dias atuais que é completamente inocente e acusa Maria da 
Penha de ter destruído a sua vida. Ele decidiu se mudar para o Rio Grande do Norte 
em meados da década de 80, quando o cotidiano na capital cearense ficou 
insustentável, já que era apontado como o criminoso que deixou sua mulher 
paraplégica ao atirar nela. Não teve dificuldades em casar-se novamente – teve 
outros dois casamentos após Maria da Penha – e nem em encontrar oportunidades 
de trabalho. Antes de ser preso, chegoua ganhar R$10 mil reais por mês, como 
professor universitário e consultor de empresas, tendo um apartamento confortável, 
carro importado, crédito para viajar, círculo razoável de amizades e podia andar 
livremente pela capital do estado, já que não era reconhecido. 
Ele foi preso em sala de aula e levado para uma prisão do Ceará e quando 
conquistou o direito ao regime semiaberto, foi transferido para um presídio de Natal, 
voltando a lecionar logo em seguida. No entanto, seu novo emprego durou apenas 
um ano – foi demitido ao descobrirem sobre ele – e seu terceiro casamento acabou. 
Inclusive, em janeiro de 2001 foi realizado um boletim de ocorrência acusando-o de 
espancar a então mulher. 
Marco Antonio cumpriu somente 16 meses em regime fechado, ganhando a 
liberdade condicional 4 anos e meio após sua prisão. Maria da Penha Maia 
Fernandes precisou lutar durante 19 anos e 6 meses para punir seu agressor. A sua 
história não significa um caso isolado, sendo um exemplo do que acontecia, e ainda 
acontece, no Brasil, sistematicamente, sem que os agressores sejam punidos. 
 
 
2.2 – Lei Maria da Penha 
 
 
Era preciso tratar o caso de Maria da Penha como uma violência contra a 
mulher em razão do seu gênero, já que o fato dela ser mulher reforça não só o 
padrão recorrente da violência doméstica como também acentua a impunidade dos 
agressores. Portanto, em 2002, foi formado um Consórcio de ONGs Feministas para 
a elaboração de uma lei de enfrentamento à violência doméstica e familiar contra a 
mulher, com principal objetivo de permitir o acesso à justiça, proteção e garantia de 
22 
 
direitos humanos a vítimas de maneira legal e com ações efetivas. Esse Consórcio 
de ONGs Feministas contava com o CLADEM/BR, Centro Feminista de Estudos e 
Assessoria (CFEMEA), Advocacia Cidadã pelos Direitos Humanos (ADVOCACI), 
Ações em Gênero, Cidadania e Desenvolvimento (AGENDE), Cidadania, Estudo, 
Pesquisa, Informação e Ação (CEPIA) e Assessoria Jurídica e Estudos de Gênero 
(THEMIS), além de feministas e juristas com especialidade no tema. 
Considerada pela ONU como uma das três melhores legislações do mundo 
no enfrentamento à violência contra as mulheres, e no Brasil a principal ferramenta 
legislativa na luta contra a violência doméstica, a lei foi sancionada em 7 de agosto 
de 2006 pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva após passar por vários debates 
com o Legislativo, o Executivo e a sociedade, sendo aprovada por unanimidade 
tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado Federal (INSTITUTO 
BRASILEIRO DE DIREITO DE FAMÍLIA, 2009). Ela foi batizada como lei Maria da 
Penha em reconhecimento à luta de Maria da Penha Maia Fernandes contra as 
violações dos direitos humanos das mulheres. 
Tem como objetivo criar mecanismos para coibir e prevenir a violência 
doméstica e familiar contra a mulher e estabelecer medidas de assistência e 
proteção às vítimas em situação de violência doméstica e familiar. Uma das suas 
maiores inovações são as medidas protetivas de urgência, com o propósito de 
assegurar a integridade das vítimas e fazer cessar de imediato a situação de 
violência para que ela não se agrave. 
A lei frisa que toda mulher, independente de classe, raça, etnia, orientação 
sexual, renda, cultura, nível educacional, idade e religião possui os direitos 
fundamentais inerentes à pessoa humana, portanto, deve-lhe ser assegurado uma 
vida sem violência física ou mental; direito à vida, segurança, saúde alimentação, 
educação, cultura, moradia, justiça, esporte, lazer, trabalho, cidadania, liberdade, 
dignidade, respeito e a convivência familiar e comunitária. 
A lei tipifica e define a violência doméstica e familiar contra a mulher, 
estabelece as formas de violência em que ela pode ocorrer – física, psicológica, 
sexual, patrimonial e moral – e proíbe as penas pecuniárias – as que envolvem 
pagamento de multas ou cestas básicas. Em questões do processo judicial, a lei 
determinou que o juiz poderá decretar prisão preventiva quando houver riscos à 
integridade física e psicológica da mulher, determinar o comparecimento obrigatório 
23 
 
do agressor a programas de recuperação e reeducação, e permite que ele conceda, 
em até 48h, medidas protetivas de urgência – como suspensão do porte de armas 
do agressor, seu afastamento do lar ou distanciamento da vítima. Nas primeiras 
versões da lei, a vítima podia desistir da denúncia ainda na delegacia, porém, 
atualmente ela só pode desistir perante o juiz. 
No que tange a autoridade policial, a lei possui um capítulo específico para o 
atendimento nos casos de violência doméstica e permite que a polícia prenda o 
agressor em flagrante sempre que ocorrer qualquer uma das formas de violência. 
Cabe a eles registrarem o boletim de ocorrência e instaurar o inquérito policial, 
remeter o inquérito ao Ministério Público, requerer ao juiz, em 48h, que sejam 
concedidas diversas medidas protetivas de urgência para a vítima e o poder de 
solicitar ao juiz a decretação da prisão preventiva. 
Antes da sanção da Lei Maria da Penha, os casos de violência doméstica 
eram julgados em juizados especiais criminais, responsáveis pelo julgamento de 
crimes considerados de menor potencial ofensivo, o que acarretava o massivo 
arquivamento de processos de violência doméstica. Sem os instrumentos efetivos 
para denúncia e apuração desses crimes, a maioria das mulheres tinha medo de 
denunciar seus agressores, principalmente porque as chances de ele sair impune 
eram altas. Após sua sanção, foi determinado que os responsáveis pelos casos são 
os novos juizados especializados em violência doméstica e familiar contra a mulher. 
Isso permitiu que eles fossem mais abrangentes em sua atuação, cuidando também 
de questões cíveis – como divórcio, pensão e guarda dos filhos – o que era diferente 
no passado: as três situações anteriormente citadas eram tratadas separadamente 
na Vara da Família. 
 
 
2.2.1 – Mudanças na lei com o tempo 
 
 
Nos últimos três anos houve alguns acréscimos para garantir um melhor 
atendimento às vítimas, como a Lei 13.505/17 (BRASIL, 2017), que traz a 
preferência no atendimento por policiais e outros especialistas do gênero feminino. 
Aconteceu também a caracterização do descumprimento de medidas protetivas 
24 
 
como crime pela Lei 13.641/18 (BRASIL, 2018), com pena que pode variar entre 3 
meses e 2 anos de prisão, e a criminalização do registro de conteúdo não autorizado 
– seja nudez ou ato sexual com caráter íntimo e privado – com a edição da Lei 
13.772/18 (BRASIL, 2018). Mulheres com deficiência ganharam destaque pois, a 
partir da Lei 13.836/19 (BRASIL, 2019), existe a obrigação de informar se a mulher 
agredida possui alguma deficiência ou não, podendo aumentar a pena em um terço. 
Mas a Lei Maria da Penha também passou por algumas modificações. Em 
2019, a lei permitiu a apreensão imediata de arma de fogo e posse do agressor 
(CRISTALDO, 2019) e o atual presidente, Jair Bolsonaro, sancionou uma medida 
que permite que o agressor seja imediatamente afastado do domínio sem a 
determinação de um juiz (EXAME, 2019). 
 
 
2.3 – Antes da sanção da lei 
 
 
Segundo Monalisa Ceolin (2015), assessora de conteúdo do Politize! e 
graduanda de Relações Internacionais na Universidade Federal de Santa Catarina 
(UFSC), antes da lei, os agressores só eram presos nos casos de homicídio contra a 
vítima, porém, pelas brechas na constituição, não ficavam mais do que um ano na 
cadeia. Maria da Penha não foi uma exceção, pelo contrário, deixou claro para o 
Brasil e para o mundo o problema grave da justiça brasileira: a falta de instrumentos 
legais que possibilitavam a rápida apuração, prevenção e punição dos crimes de 
violência doméstica contra a mulher, além de não existirem mecanismos de proteção 
imediata às vítimas. 
Um dos casos mais famosos de feminicídio do Brasil ocorreu com Ângela 
Maria Fernandes Diniz, umasocialite brasileira que nasceu em 1944 e teve sua vida 
podada com somente 32 anos, em uma casa na Praia dos Ossos, em Armação de 
Búzios, no estado do Rio de Janeiro (LOBO, 2020). Seu companheiro na época, 
Raul Fernando do Amaral Street conhecido como Doca Street, a assassinou com 
quatro tiros quando a vítima se recusou a reatar o namoro. O julgamento foi bastante 
divulgado pela mídia com foco na desqualificação moral da vítima e defesa da honra 
do acusador. Após ser condenado apenas a dois anos de prisão com sursis – 
25 
 
suspensão condicional da pena – e logo ser solto, passou a ocorrer alguns protestos 
feministas, nascendo o movimento “Quem ama não mata”. Os protestos fizeram com 
que Doca Street fosse novamente julgado e então, condenado a quinze anos de 
prisão. 
 
 
Figura 3 - Ângela Diniz 
Fonte: WERNECK, 2020 
 
Ângela, segundo Lana Weruska Silva (2020), autora do site Canal Ciências 
Criminais, “[e]ra, de fato, uma mulher além de sua época, era independente, bonita, 
não aceitava submissões e não se importava com opiniões alheias.”. Ela casou-se 
aos 17 anos e seu relacionamento durou 9 anos, tendo três filhos. Mesmo vivendo 
em uma época em que não existia o divórcio e o desquite era malvisto pela 
sociedade, ela não teve receios em se desquitar assim que percebeu que estava em 
um casamento infeliz. 
Ao longo da sua vida, envolveu-se três vezes em notícias que mencionavam 
condutas ilícitas. A primeira, foi ao confessar o assassinato de seu empregado, 
alegando legítima defesa, porém, foi o seu namorado o responsável pelo crime – ela 
mentiu para proteger a reputação dele, que na época, era casado. A segunda vez foi 
ao tentar ter convívio com sua filha e a sequestrar da casa da avó, levando-a de 
Minas Gerais para o Rio de Janeiro – por conta do desquite, perdeu a guarda dos 
filhos. A terceira e última notícia foi ao ser pega com maconha pela polícia, alegando 
26 
 
que havia se tornado viciada desde o episódio em que presenciou a morte do seu 
empregado. 
O relacionamento entre Ângela e Doca durou apenas quatro meses, porém, 
esse tempo foi marcado por ciúmes e violência doméstica. A briga que acarretou o 
assassinato começou na praia, durante a véspera de ano novo. Ela havia bebido 
muitos coquetéis de vodca e estava mais desinibida, o que estava irritando Doca 
Street. A gota d’água foi quando uma alemã ofereceu os artesanatos que 
confeccionava e vendia na praia, e a socialite acabou tentando seduzi-la. Doca 
sentiu-se humilhado e retornaram para casa. Entretanto, em casa a briga continuou 
tanto pelo ocorrido, quanto pelas falas que ouviu do companheiro. Acostumada a ser 
independente e não tolerar nenhum tipo de submissão, Ângela chegou a se 
descontrolar a quebrar toda a mobília do banheiro. 
Quando ficou mais calma, após a confusão, ela decidiu que não queria mais 
aquele relacionamento abusivo, e mesmo com os argumentos dele de que o amor 
era muito intenso e por isso era tão ciumento, ela permaneceu com sua escolha. Ele 
pegou seus pertences e foi embora, porém, quando já estava há uns quilômetros de 
distância, voltou para tentar novamente reatar o namoro. Ela lhe disse que caso ele 
quisesse continuar, teria que suportar um relacionamento aberto, em que ele teria 
que dividi-la com outros homens e mulheres. Movido pelo ódio ao ouvir a resposta 
dela, disse a seguinte frase “Se você não vai ser minha, não será de ninguém”, 
atirou 4 vezes em Ângela e deixou a arma de fogo ao lado do corpo da vítima. 
Por conta da sua vida agitada, do envolvimento em condutas ilícitas e do 
pensamento machista que era muito mais presente nos anos 70, os advogados de 
Doca Street se aproveitaram para arquitetar uma defesa capaz de transformar o 
assassino em herói. Sua defesa recomendou que ele não deveria se entregar à 
polícia, mas sim à imprensa. Ele foi encontrado embriagado com três garotas de 
programa, dando uma versão de crime passional, praticado em legítima defesa da 
honra com excesso culposo. 
O crime aconteceu em 30 de dezembro de 1976 e seu primeiro julgamento foi 
em 18 de outubro de 1979. Para a tese defensiva, seu advogado, Evandro Lins e 
Silva – que teve uma memorável carreira como procurador-geral da República, 
ministro do Supremo Tribunal Federal e membro do Conselho da Organização dos 
27 
 
Advogados do Brasil (OAB) – detalhou a vida da vítima, apresentando-a como uma 
pessoa promíscua, culpada e merecedora de sua morte. 
Evandro Lins e Silva fez um trabalho impecável. Segundo Matheus Pichonelli 
(2020), repórter da Uol Tab, 
 
[f]oi ele quem se prestou ao trabalho de preservar a biografia do cliente 
enquanto a vítima era descrita como neurótica, lasciva, mãe irresponsável, 
dependente de tóxicos e medicamentos – a própria Eva a levar o homem 
bom ao pecado. Uma Eva que provocou a sua própria morte porque, 
segundo o advogado/acusador, queria morrer e obteve, do seu amante, seu 
suicídio assistido. 
 
 A defesa do advogado foi tão exemplar que ele transformou o assassino na 
verdadeira vítima. A boate Click, de Cabo Frio, chegou a lançar um drink com o 
nome do assassino, em homenagem a ele e havia faixas na entrada do tribunal 
escrito “Doca, Cabo Frio está com você”. Doca foi aplaudido pelos jurados e 
condenado a pena de dois anos com direito a suspensão condicional. 
Os movimentos feministas da época ganharam voz e lutaram em memória de 
Ângela em defesa de um ser humano que tem direito à vida e a fazer suas próprias 
escolhas. Surgiu então, o movimento “Quem ama não mata”, um grupo de ativistas 
que lutam pela igualdade de direitos e leis mais rígidas para punir autores de 
feminicídio. Segundo o site “Não Se Cale”, ferramenta de combate à violência contra 
as mulheres do Mato Grosso do Sul, até o poeta Carlos Drummond de Andrade se 
manifestou em condolências à Ângela, escrevendo o trecho “[a]quela moça continua 
sendo assassinada todos os dias e de diferentes maneiras” (NÃO SE CALE, [21--]). 
Graças aos protestos feministas, ocorreu um novo julgamento, em 1981, onde 
o júri entendeu que ocorreu homicídio doloso qualificado, condenando Doca a 
quinze anos de prisão. Desde então, a tese de legítima defesa da honra não é mais 
aceita pelo fato de legítima defesa não ser compatível com o conceito de honra. 
O caso de Ângela, entretanto, ainda pode ser considerado um caso em que a 
justiça foi feita. Infelizmente, a história de várias outras mulheres pelo país não tem 
um fim tão justo. A Gazeta publicou uma matéria em 2019 sobre o caso de Maria do 
Rosário Souza Gomes Vieira, que com aproximadamente 15 dias de resguardo após 
dar à luz a filha mais velha, foi agredida pela primeira vez pelo seu marido, com 
quem compartilhava a vida de casados há pouco mais de um ano (MEDEIROS, 
2019). Ao correr para a casa da mãe na tentativa de buscar ajuda, ouviu as 
28 
 
seguintes palavras: “[v]olta para sua casa, casou tem que ficar”. Vivenciando o início 
dos anos 70, sem ter para onde ir e com uma filha recém-nascida, ela voltou para 
uma rotina de maus-tratos, agressões e medo que durariam 13 anos. 
 
 
Figura 4 - Maria do Rosário 
Fonte: MEDEIROS, 2019 
 
Naquela época seu conhecimento era mais limitado, não tinha local para fugir, 
e era dependente de seu agressor – inclusive, ele na época informava que a polícia 
não iria prendê-lo. Apesar disso, ela afirmou que com certeza teria o denunciado se 
tivesse sido agredida após a criação da Lei Maria da Penha. Seu agressor, 
infelizmente, só lhe deu paz quando morreu. Mesmo quando ela perdeu o medo, 
passou a trabalhar, se mudou e levou seus filhos – já maiores – consigo, ele não 
deixava de aparecer e de tentar agredi-la. Ela informou que caso ele não tivesse 
morrido, acreditava que estaria sofrendo até hoje – ou sequer estaria viva para 
contar a sua história. 
Segundo a Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso do Sul, a 
Fundação Perseu Abramo divulgou em 2001, queantes da criação da Lei Maria da 
Penha, uma mulher era espancada a cada quinze minutos (JUSBRASIL, 2013). O 
professor de Direito Penal e advogado, Ricardo Souza Pereira, informou durante 
palestra na Assembleia Legislativa na audiência pública sobre a Aplicabilidade e 
29 
 
Eficácia da Lei Maria da Penha, que em 2001, com uma população de 61,5 milhões 
de mulheres, 11%, o que correspondia a quase 7 milhões, já haviam sido 
espancadas, com 31% destas sofrendo alguma agressão nos últimos 12 meses. 
Sem os instrumentos necessários para o afastamento imediato da vítima ao 
convívio do agressor, muitas mulheres que denunciavam seus companheiros por 
agressões ficavam à mercê de novas ameaças e agressões de seus maridos. Não 
tendo esperanças de que a denúncia faria algum efeito ao violentador – visto que as 
autoridades policiais muitas vezes ainda eram coniventes com o crime – e, em 
alguns casos, sem a assistência devida para ser independente financeiramente e ter 
um local estável para ficar, poucas mulheres iam a frente com quaisquer 
pensamentos de denúncia. 
 
 
2.4 – Após a sanção da lei 
 
 
Em 3 de junho de 2020, Cláudia Núbia Garcia Vianna de Freitas foi salva pela 
Lei Maria da Penha, quase 14 anos após a sua sanção (CARVALHO, 2020). Ela foi 
alertada por vizinhos que seu ex-marido, e agressor, estava observando sua rotina – 
passava toda a madrugada próxima ao seu portão, atrás de um poste. Quando foi à 
Delegacia da Mulher denunciar que ele não estava comprimindo a medida protetiva 
– conquistada no início do segundo semestre de 2019 – seu vizinho ligou contando 
que o agressor passou a madrugada escondido, esperando por ela. 
Ele também informou que pela manhã, o agressor havia desistido e entrado 
em um comércio da região, contando que naquela madrugada estava pronto para 
matar sua ex-esposa com uma faca, mas não havia conseguido. A policial ouviu o 
relato, e junto da delegada, realizou uma operação na casa do familiar onde ele 
estava hospedado e realizou sua prisão. Ele ficou preso por cerca de 20 dias e 
nunca mais a procurou. Finalmente, ela havia conquistado a paz. 
Infelizmente, nem todas as vítimas de violência doméstica possuem uma 
história como a de Cláudia. Apesar da lei apresentar um conjunto de medidas para 
responsabilização dos autores de violência, o Brasil ocupa o 5º lugar como país no 
ranking mundial de feminicídio, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas 
30 
 
para os Direitos Humanos (ACNUDH) (CUNHA, [21--]). Em comparação com países 
desenvolvidos, aqui se mata 48 vezes mais mulheres que o Reino Unido, 24 vezes 
mais que a Dinamarca e 16 vezes mais que o Japão ou Escócia. 
Segundo um estudo sobre “A efetividade da Lei Maria da Penha no 
Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher” por Karita Coêlho 
Noleto e Igor de Andrade Barbosa (2019), a criação e aplicação da Lei Maria da 
Penha e Lei do Feminicídio caracterizam uma conquista no enfrentamento da 
violência contra a mulher no Brasil. Essa legislação específica significa a promoção 
da igualdade de gênero no seio familiar, no âmbito público e nas esferas de poder 
institucionais, além de conceber ao país uma evolução na história da impunidade. 
Embora tenha sido recepcionada de maneira positiva por boa parte da 
sociedade brasileira, a aplicação da lei na prática ocorre com resistência. Em 
concordância com os autores anteriormente citados, isso ocorre pois a “aceitação da 
violência doméstica e familiar mascaram as relações de dominação do sistema 
patriarcal”, nas quais o homem é visto como o “ganha-pão”. Pelo homem ainda ser 
considerado proprietário do corpo e vontade da mulher e filhos, a sociedade segue 
ainda protegendo a agressividade masculina, além de sua virilidade, auxiliando a 
perpetuar a crença de superioridade. Isso também é refletido no comportamento das 
vítimas, que podem se sentir total ou parcialmente culpadas pela violência sofrida. 
A consultora em políticas públicas, Aparecida Gonçalves, disse que a Lei 
Maria da Penha trouxe mudanças de comportamentos na sociedade, trazendo 
visibilidade ao problema em que ela combate e confrontando os antigos ditados 
populares como “[e]m briga de marido e mulher, ninguém mete a colher.” (JUNIOR, 
2020). Infelizmente, alguns pontos ainda precisam caminhar – como nem todas as 
cidades brasileiras contarem com as promotorias, defensorias, juizados e delegacias 
especializadas para investigar e punir os crimes. 
De acordo com Aparecida, as Delegacias da Mulher estão presentes em 
menos de 10% dos municípios do país e o maior número de ligações do disque 180 
– quando ela trabalhou no local – eram de cidades com menos de 20 mil habitantes. 
Conforme a consultora, a lei quebra paradigmas, mas o mais importante é dar 
confiança às vítimas para que elas se sintam seguras em denunciar seus 
agressores. Porém, será mesmo que levar esperanças e expectativas de justiça às 
31 
 
vítimas, sem os órgãos competentes seguindo corretamente à lei, é o melhor 
caminho a se seguir? 
Bianca Gomes (2021) foi a jornalista responsável pela matéria do jornal O 
Globo, em que mulheres denunciavam a técnica adotada pela Justiça que estava 
reabrindo feridas nelas: a Constelação Familiar. 
A Constelação Familiar é um método pseudocientífico não comprovado de 
medicina alternativa, sendo descrito por físicos como charlatanismo quântico 
(COHEN, 2006). Foi criada pelo alemão Bert Hellinger e é uma metodologia 
rejeitada pela Sociedade Alemã de Terapia Sistêmica, Aconselhamento e Terapia 
Familiar. No Brasil, não é reconhecida pelo Conselho Federal de Psicologia do Brasil 
e nem pelo Conselho Federal de Medicina: tanto o Conselho Federal de Medicina 
quanto membros de ONGs de direitos das mulheres se posicionaram contra a 
terapia. Para eles, não há estudos científicos que compravam sua eficácia e não 
deveriam ser utilizados na saúde pública e no Judiciário. 
O método consiste em uma sessão em grupo, com um paciente, um 
“constelador” e representantes, que assumem papel de parentes, vivos ou mortos. 
Segundo Hellinger, as pessoas que representam os parentes do paciente passam a 
ter pensamentos, sentimentos e sensações físicas muito próximas aos dos originais 
(ORSI, 2019). 
A técnica passou a ser adotada em tribunais em 2012, com aval de resolução 
do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Apesar de a aplicação ocorrer 
majoritariamente em processos de guarda ou pensão alimentícia, os casos que têm 
gerado reclamações são de mulheres que estão processando seus ex-maridos por 
violência doméstica e estão sendo violentadas também pelos mediadores. 
 Em entrevista, uma universitária, que não quis se identificar, de 22 anos, foi 
obrigada a relembrar das agressões sofridas no relacionamento com o ex-marido. O 
medidor, inclusive, a coagiu para pedir desculpas ao agressor, que a violentou ainda 
grávida, e depois, com o filho pequeno. 
Infelizmente, o relato dela não foi o único, e ele vêm se repetido no país nos 
últimos meses: tribunais têm usado essa técnica em processos da Vara da Família 
que envolvem denúncias de violência, o que constrange as vítimas. Em algumas 
declarações à reportagem, há casos em que o mediador convida a vítima para se 
colocar no lugar do agressor e refletir sobre o que causou a violência. Ocorre até 
32 
 
uma dramatização do conflito em um auditório com mais de 50 pessoas 
desconhecidas, onde elas são convidadas a interpretar os envolvidos no processo. 
A advogada Mariana Tripode, fundadora da Escola Brasileira de Direitos das 
Mulheres, atendeu clientes submetidas à esta abordagem em Mato Grosso do Sul, 
Minas Gerais, Brasília e São Paulo. Um dos casos envolvia uma menor de idade 
estuprada pelo próprio pai, onde a mediadora do caso pediu à mãe da vítima para 
acolher o ex-marido, e não o excluir da família e desonrar sua posição como pai. 
Caso fizesse isso, estaria violando a “lei da hierarquia”.A advogada contou que a 
prática pode ser eficaz fora da Justiça, mas dentro coloca a mulher em uma situação 
de “revitimização”. 
Em 2016, o G1 – portal de notícias da Globo – publicou 10 histórias para 
abordar os 10 anos da Lei Maria da Penha. A jornalista Flavia Mantovani (2016) 
contou a história de Rafaela Martins, que buscou ajuda após sofrer do marido vários 
socos na cabeça. Ele lhe agrediu após ela contestar uma cotovelada que levou ao 
encostar nele. Não ligou para a polícia por medo, mas ligou para a cunhada – que 
ao chegar na residência dos dois, encontrou ele agiu normalmente. Depois, ele saiu 
de casa para levar a irmã embora. 
Aproveitando que ele saiu, Rafaela também saiu e levou consigo a filha dos 
dois, que tinha sete meses e tinha sofrido agressões do pai naquele dia. Ao chegar 
no pronto-socorro, foi transferida de ambulância para outro hospital por não parar de 
vomitar devido a quantidade de socos – felizmente, não teve sequelas alguma. Ela 
ficou seis dias em um abrigo de apoio a vítimas de violência doméstica – não lhe 
faltou roupa, calçado e alimento, além de todos no ambiente se esforçarem para 
distrair as vítimas com conversas, orações e até pinturas. 
Foi encaminhada pelo abrigo para o IML e para a DEAMS, onde lhe deram 
uma medida protetiva – informando que seu agressor deveria sair de casa em 24 
horas. Infelizmente, não foi a primeira vez que ela pisou na Delegacia da Mulher. 
Durante a gravidez ele bateu com uma faca no rosto dela e deu um tapa em sua 
barriga, porém, ao tentar denunciar, lhe trataram extremamente mal e segundo a 
vítima informaram que “[a] medida protetiva não vai te proteger de nada, se ele 
quiser te matar ele te mata”. 
Ao tentar retornar para casa após dois dias do prazo, ele ainda estava na 
residência – pediu perdão, mas, ela continuou decidida a sair desse relacionamento 
33 
 
abusivo. Ao ligar para a delegacia e informar que ele não havia saído, informaram 
que ela deveria imediatamente fazer outro boletim de ocorrência que ele seria 
detido. Porém, ao chegar lá, disseram que ele não seria preso. Um dia, ela chegou 
ao limite e trocou os cadeados do portão – já que ele continuou na mesma casa com 
o passar do tempo. Ela pediu para o vizinho ligar para a polícia caso ele chegasse, 
porém, antes de o policial chegar ao local, ele já havia conseguido abrir o pino do 
portão, despedaçar a porta do quarto – no qual ela ficou trancada – e a ameaçou de 
morte e de levar a filha. Quando o policial chegou no local, informou, na frente do 
agressor, que se a Rafaela havia deixado ele entrar em casa, a medida protetiva não 
valia nada. No mesmo dia, o dono da casa lhe pediu o imóvel já que ela estava 
desempregada e sem pagar o aluguel – precisou encaixotar algumas coisas e voltar 
para o abrigo, ficando dessa vez, um mês e meio no local. 
Chegou a morar de favor na casa de duas pessoas, mas com a venda do 
carro, conseguiu alugar uma casa. Na época da entrevista, sua filha estava com um 
ano e três meses – passados oito meses desde a medida protetiva – porém, ele 
continuava a lhe escrever mensagens diariamente. Ela seguiu o conselho da 
advogada do abrigo e manteve um relacionamento amigável com ele, já que era 
menos perigoso que brigar: “Eu só respondo, não o procuro para nada. Fico 
pensando se o perdoo. Acho que sim, mas não esqueço. E não daria outra chance 
jamais”. Com o caso de Rafaela, fica claro a improficiência dos órgãos em ajudar as 
vítimas de violência doméstica, mesmo após 10 anos desde a sanção da Lei Maria 
da Penha. 
A jornalista Clara Velasco (2016) também participou do projeto do G1 
anteriormente citado e publicou sobre a Maria Domitila Prado Manssur, juíza da 16ª 
Vara Criminal do Fórum da Barra Funda e integrante da Coordenadoria da Mulher 
em Situação de Violência Doméstica e Familiar do Poder Judiciário do Estado de 
São Paulo (Comesp). A juíza pegou o começo da Lei Maria da Penha em que a 
consideravam inconstitucional e o tribunal questionava a necessidade de instalar 
uma vara. Segundo Maria Domitila, muitas mulheres têm vergonha e sentimento de 
culpa – acreditam que são as responsáveis pela violência que sofrem, seja por 
queimar o arroz, pelo filho estar indo mal na escola, por não estar tão bela ou até 
mesmo pois o marido não teve tranquilidade durante o trabalho. Cabe ao Fórum não 
34 
 
julgar as vítimas e agir – mostrando para elas que existem saídas possíveis, 
principalmente com a Lei Maria da Penha. 
A lei trouxe alterações conceituais importantes na forma como o Brasil 
enfrentava esse tipo de agressão, sendo inovadora por entender que a violência 
doméstica contra a mulher não é um problema isolado e íntimo, mas sim, de uma 
questão social e que necessita de uma rede de apoio e proteção – permitindo a 
criação dos chamados Juizados Especializados de Violência Doméstica contra a 
Mulher e as DEAMS. Essa rede de atendimento deve garantir o acompanhamento 
às vítimas e desempenhar um papel importante na prevenção da violência contra a 
mulher. 
Segundo Marcela Lagarde, uma feminista e deputada federal mexicana, o 
feminicídio acontece devido à ausência de medidas eficazes por parte do Estado no 
respeito à realidade vivida pelas mulheres em nosso país, já que existe uma forte 
resistência quando se deseja denunciar e dificuldades no acesso à justiça 
(LAGARD, 2004, p.5, apud Pasinato, 2011). 
 
Para que se dê o feminicídio concorrem de maneira criminal o silêncio, a 
omissão, a negligência e a conveniência de autoridades encarregadas de 
prevenir e erradicar esses crimes. Há feminicídio quando o Estado não dá 
garantias para as mulheres e não cria condições de segurança para suas 
vidas na comunidade, em suas casas, nos espaços de trabalho e de lazer. 
Mais ainda quando as autoridades não realizam com eficiência suas 
funções. Por isso o feminicídio é um crime de Estado. 
 
Segundo Mariana Freitas e Souza, escritora e bacharela em Serviço Social 
pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), diversos problemas 
percorrem o sistema de Justiça criminal brasileiro, principalmente os de cumprimento 
das medidas pelos agressores e a lentidão nos processos judiciais. A lei ainda 
precisa de melhoras, especialmente no que tange às ações de prevenção, como as 
voltadas para educação, e à concretização de um suporte adequado às vítimas de 
violência. Nesse texto concordamos com o seguinte trecho, presente no estudo 
mencionado no início dessa sessão: “[s]ó é possível prosperar na desconstrução da 
cultura de discriminação e violência contra a mulher, após um despertar da 
sociedade para os problemas sociais que essa conduta provoca”. 
 
 
35 
 
2.5 – Tipos de violência 
 
 
Se derrubasse o copo d’água, ele lhe agredia. Se ela fosse tomar banho, era 
violentada. Por muito tempo Lidiane Pereira teve relacionamentos quase iguais aos 
de seus pais. Entretanto, seu maior agressor, foi seu pai (MANTOVANI, 2016). 
Quanto tinha por volta de 11 anos, ele começou a colocar vídeos pornográficos para 
assistirem juntos, lhe espionava no banho e se deitava nu na cama dela. Ela só tem 
alguns flashes pois ele era enfermeiro e dava remédios para deixá-la dopada. 
As brigas dentro de casa eram constantes, e Lidiane não foi a única vítima: 
ele também violentava sua mãe e irmão. Chegaram a chamar a polícia, mas como 
na época não existia a lei Maria da Penha, o policial acreditou quando o agressor 
disse que a sua mulher era louca. 
 
 
Figura 5 - Lidiane Pereira 
Fonte: MANTOVANI, 2016 
 
Quando fez 12 anos ela não aguentou mais e fugiu para a casa de um 
namorado. Sua mãe ficou desesperada e contatou a polícia, que ficou sabendo das 
agressões que Lidiane passava. Contou do estupro, da tortura sexual e mental. 
36 
 
Realizaram exame e constataram que ela não era mais virgem, porém, mesmo 
saindo até no jornal da época, não aconteceu nada com ele. 
Depois de uma briga feia em queele ameaçou matar a filha e seu irmão 
chegar a pegar uma faca para ameaçá-lo, a mãe saiu de casa e construiu um 
cômodo para eles em outro terreno – ela tinha na época por volta de 14 anos. Só 
então, tiveram paz. O caso de Lidiane é um exemplo de que a violência doméstica 
não ocorre somente entre companheiros. Seu pai lhe abusou de várias formas. 
A Lei Maria da Penha tipificou as diferentes formas de abuso, os dividindo em 
cinco categorias: 
• Violência física: qualquer conduta que ofenda a integridade ou saúde corporal 
da mulher – como apertar seus braços, sacudir, atirar objetos, impedir de 
obter medicação ou tratamento médico, espancar, queimar ou torturar. 
• Violência psicológica: qualquer conduta que cause danos emocionais e/ou 
diminuição da autoestima, prejudique e perturbe o desenvolvimento da 
mulher, vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e 
decisões – como ameaçar ou magoar os filhos e/ou animais de estimação, 
manipular, constranger, chantagear, ridicularizar, insultar, isolar, tirar a 
liberdade de crença e gaslighting2. 
• Violência sexual: qualquer conduta que constranja a presenciar, manter ou 
participar de relação sexual não desejada mediante intimidação, ameaça, 
coação ou uso da força – como obrigar um aborto, mutilação de genitália, 
forçar matrimônio, gravidez, prostituição, manter relações com outras 
pessoas, manter relações sexuais desprotegidas, impedir o uso de métodos 
contraceptivos. 
• Violência patrimonial: qualquer conduta que configure retenção, subtração, 
destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, 
documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, 
incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades – como controle do 
 
2 Segundo Laura Reif, gaslighting é o tipo de abuso que atinge as mulheres de forma sutil, em que a 
vítima é manipulada psicologicamente para ter controle sobre ela, a ponto de anulá-la, gerar inseguranças, 
dúvidas e medos (REOF, 2019). 
37 
 
dinheiro, furto, deixar de pagar pensão alimentícia, destruição de documentos 
pessoais, estelionato e privação de bens. 
• Violência moral: qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria 
– como acusar a mulher de traição, fazer críticas mentirosas, desvalorizar 
pela forma de se vestir ou expor a vida íntima. 
A violência doméstica pode incluir abusos físicos, verbais, emocionais, 
econômicos, religiosos, reprodutivos e sexuais, podendo ocorrer de forma mais sutil 
– com falas menosprezando o outro – até violentos – como espancamento, 
mutilação e sufocação. E ao contrário dos que muitos podem pensar, ela não é 
apenas para mulheres cis. 
Bhrunna Rubby Rodrigues é uma mulher trans que teve seu caso de violência 
doméstica enquadrado na Maria da Penha (MANTOVANI, 2016). Ela tentou se 
separar do namorado, que estava morando junto há seis meses, ao descobrir que 
ele estava mentindo para ela – porém, ele não aceitou. Ele a trancou dentro do 
apartamento e lhe deu vários tapas e socos, tentando também a enforcar. Nenhum 
vizinho se intrometeu pois ele estava muito violento – mesmo com suas tentativas de 
gritos de socorros. Ela não se lembra ao certo, mas acredita que as agressões 
duraram 40 minutos. 
 
 
Figura 6 - Bhrunna Rubby 
Fonte: MANTOVANI, 2016 
 
38 
 
Quando conseguiu sair do quarto, ele começou a bater nela com um cabo de 
vassoura de madeira, e ao bater na sua cabeça, ela caiu e desmaiou por alguns 
segundos. Só parou e foi embora ao perceber que ela estava sangrando muito. Por 
algumas vezes ele chegou a ser agressivo – dava empurrões, e uma vez lhe deu um 
tapa no rosto – mas por pedir desculpas logo em seguida, Bhrunna deixava passar. 
A polícia chegou e ela foi para o hospital de ambulância. Lá se referiam a ela 
pelo gênero masculino, e mesmo explicando que era transexual e pedindo que se 
referisse a ela pelo gênero feminino, o enfermeiro que lhe deu 8 pontos na cabeça 
informou que não estava acostumado com isso e iria lhe tratar da mesma forma. 
Pelo menos, o médico que lhe atendeu em seguida foi mais sensível, mas ao 
procurar seu prontuário e não encontrar, descobriu que seu nome de registro estava 
na ficha – e não o social, que já era usado há 12 anos. 
Como a sociedade ainda acredita que transexuais são usuários de drogas ou 
ligados a prostituição, na DEAMS, lhe perguntaram se fazia o uso de drogas ou se 
estavam usando juntos no momento da agressão. Além da violência doméstica 
sofrida pelo namorado, sofreu transfobia nos locais que precisava de ajuda. 
Inicialmente registraram apenas como agressão – e iam marcar uma audiência 
que talvez demorasse de 30 a 60 dias. Enquanto isso, ela corria risco, já que ele lhe 
ligou para ameaçar que caso fosse preso, iria a matar. Ao pedir ajuda no Facebook, 
um advogado entrou em contato e falou que seu caso se enquadrava como violência 
doméstica, e existia uma lei para sua criminalização – a Lei Maria da Penha. Graças 
a isso, ela conseguiu medidas protetivas para que ele não se aproximasse dela, o 
que fez com que seu caso não terminasse como mais um caso de feminicídio. 
39 
 
3 – VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E PANDEMIA 
 
 
31 de dezembro de 2019. Os primeiros casos suspeitos do vírus COVID-19 
foram notificados na cidade de Wuhan – China (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 
2020) – sendo os primeiros sintomas aparecendo algumas semanas antes, no início 
do mês. A OMS classificou o surto como Emergência de Saúde Pública de Âmbito 
Internacional no dia 20 de janeiro de 2020 (OPAS, 2020), e em 11 de março de 
2020, como uma pandemia (GOV.BR, 2020). 
A causa da pandemia é uma doença respiratória, causada pela infeção com o 
coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (SARS-CoV-2) (SANTOS, 
2020), tendo reações nos humanos desde simples constipações até a síndroma 
respiratória do Oriente Médio. Ele se espalha principalmente pelo ar quando as 
pessoas estão próximas, podendo também alastrar através de superfícies 
contaminadas. Uma pessoa pode ser infectada quando respira, tosse, espirra ou fala 
– o vírus entra pela boca, nariz ou olhos. Estando contaminada, permanece com o 
vírus por até duas semanas e pode contagiar outras pessoas mesmo estando 
assintomática (CDC, [202-]). 
As medidas preventivas recomendadas incluem distanciamento social, uso de 
máscaras faciais em público, ventilação e filtragem de ar, lavagem das mãos, 
cobertura da boca ao espirrar ou tossir, desinfecção de superfícies e monitoramento 
e isolamento de pessoas expostas ou sintomáticas. Autoridades em todo o mundo 
responderam implementando restrições a viagens, lockdowns, controles de locais de 
trabalho e fechamento de instalações. 
O primeiro caso ocorrido no Brasil foi em 26 de fevereiro de 2020 (AGÊNCIA 
BRASIL, 2021). No Rio de Janeiro, a primeira morte por covid foi de uma mulher: 
empregada doméstica, que pegou a doença dos patrões que voltaram da Europa e 
não avisaram que estavam contaminados (CARINO, 2020). Levando em conta que o 
trabalho das mulheres cobre 93% do trabalho doméstico, essa cena mostra mais um 
tipo de violência contra a mulher que a lei Maria da Penha ainda não alcança. 
O Distrito Federal foi a primeira unidade do país a estabelecer medidas de 
distanciamento social, suspendendo as aulas na rede pública e privada por cinco 
dias, no dia 11 de março de 2020. Alguns dias depois foram suspensas também 
40 
 
atividades de atendimento ao público em comércios, incluindo restaurantes, bares, 
lojas, salões de beleza, entre outros. Os estados de São Paulo e Rio de Janeiro 
adotaram medidas similares nos dias 16 de março e 17 de março, respectivamente 
(G1, 2020). Mesmo com o presidente regente, Jair Bolsonaro, criticando o 
isolamento social, 25 dos 27 governadores afirmaram que manteriam as iniciativas 
de quarentena e foram contra o seu pronunciamento. 
Segundo os redatores Ana Piccini e Tiago Araújo, a necessidadeda prática 
do isolamento social decorrente da pandemia trouxe muitos reflexos para a vida de 
todos. A perda e diminuição da renda familiar em razão do desemprego, suspensão 
das atividades laborais, sobrecarga das tarefas domésticas – incluindo o cuidado 
dos filhos que não estão nas escolas –, aumento do consumo de bebidas alcóolicas, 
afastamento da vítima de seus amigos e familiares, permitiram que ocorresse o 
aumento da tensão nas relações domésticas. Consequentemente, o aumento da 
violência doméstica e familiar cresceu de maneira exponencial, e infelizmente, esse 
aumento não ocorreu só no Brasil – mas também em outros países afetados pela 
pandemia (UN WOMEN, 2020). 
 
 
3.1 – Dados 
 
 
A justiça do Rio de Janeiro registrou, no dia 23 de março de 2020, um 
aumento de 50% nos casos de violência doméstica durante o período de 
confinamento (BASSAN, 2020). A primeira atualização de um relatório produzido 
pelo FBSP informou que os casos de feminicídio cresceram 22,2%, entre março e 
abril do primeiro ano de isolamento social, em 12 estados do país – comparado ao 
ano anterior, 2019 (BOND, 2020). 
Samira Bueno, diretora executiva da organização FBSP, disse que os casos 
pioraram com a pandemia. Segundo Samira, alguns fatores agravaram a situação: 
queda da renda e aumento no desemprego – que atrapalham a vítima ao cogitar sair 
de casa – e convivência mais próxima dos agressores – facilitando o agressor a 
impedir que ela vá a uma delegacia. 
41 
 
O relatório do FBSP informou sobre o aumento em 17,9% de denúncias feitas 
por telefone, quando comparado entre março de 2019 e 2020. Em abril, quando a 
quarentena já estava implementada em todos os estados, a procura pelo serviço 
cresceu em 37,6%. 
Segundo o MMFDH, foram registradas 105.821 denúncias de violência contra 
a mulher no ano de 2020 – primeiro ano de pandemia e isolamento social (GOV.BR, 
2021). Desse número, 75.700 denúncias (72%) são referentes a violência 
doméstica. A ministra do MMFDH, Damares Alves, informou que prevendo o 
aumento de casos de violência contra a mulher, o governo ampliou os canais de 
atendimento – além do Ligue 180 e Disque 100, que já existiam, o ministério 
ofereceu contato por WhatsApp e por um aplicativo próprio, Direitos Humanos Brasil 
(MARTELLO, 2021). 
Esse aumento não ocorreu somente no Brasil: na Itália, segundo o 
Departamento de Igualdades e Oportunidades, houve um aumento de 161% de 
ligações e contatos para relatar episódios de violência doméstica no período de 1º a 
18 de abril de 2020 (DIPARTIMENTO PER LE PARI OPPORTUNITÀ PRESIDENZA 
DEL CONSIGLIO DEI MINISTRI, 2020). Ele também ocorreu em outros contextos de 
isolamento social: durante a crise de Ebola na República Democrática do Congo, um 
relatório do Comitê Internacional de Resgate informou ampliação da violência 
doméstica (INTERNATIONAL RESCUE COMMITTEEPER LE PARI OPPORTUNITÀ 
PRESIDENZA DEL CONSIGLIO DEI MINISTRI, 2019) – o mesmo ocorreu no Brasil 
durante o surto de Zika Vírus, em 2016 (QUINTANA-DOMEQUE; CARVALHO; 
OLIVEIRA, 2018). 
 
 
3.2 – Iniciativas 
 
 
As denúncias podem ser realizadas através do número 180 – Central de 
Atendimento à Mulher do Governo Federal –, 190 – de emergências da Polícia 
Militar –, pelo 100 – violação de direitos humanos –, pelo 0800 773 4340 da 
Defensoria Pública e nas Delegacias de Defesa da Mulher do Estado. 
42 
 
A SNPM liberou o maior orçamento dos últimos cinco anos destinados a 
políticas públicas para mulheres: R$123 milhões em ações para o enfretamento à 
violência e capacitação de mulheres – como as que estão em situação de 
vulnerabilidade social (GOV.BR, 2021). Dentre as políticas públicas, segundo 
Cristiane Britto, secretária da SNPM, ocorrerá também a ampliação do orçamento, 
capacitação, incentivo ao empreendedorismo, enfrentamento às violências, combate 
ao feminicídio, acolhimento e ampliação de canais de denúncia – como o Ligue 180 
– e manutenção e construção de Casas da Mulher Brasileira (CMBs). 
 
 
3.2.1 – São Paulo 
 
 
A lei 17.260/20 (SÃO PAULO, 2020), aprovada em abril de 2021, previu a 
criação do programa Patrulha Maria da Penha, uma ronda de policiais militares do 
estado de São Paulo voltada às vítimas de violência doméstica. O atendimento, que 
deverá ter dois policiais, sendo um deles sempre mulher, visa fornecer serviços de 
assistência social, psicólogo e encaminhamento a centros de referência da mulher 
(BOHRER, 2021). Além das denúncias feitas à Polícia Militar pelo Disque 190, as 
vítimas com medidas protetivas contra agressores receberão visitas periódicas 
agendadas e serão orientadas a baixar o aplicativo SOS Mulher, que será 
mencionado no tópico voltado para sites e aplicativos. 
O projeto de lei 81/2020 (SÃO PAULO, 2020) está tramitando na Assembleia 
Legislativa do Estado para colocar o programa em todas as esferas do país, 
englobando o poder judiciário, polícia civil e militar, além do sistema de saúde – já 
que, segundo a promotora do Ministério Público de São Paulo, Celeste dos Santos, 
muitas vezes vítimas recorrem ao hospital para pedir ajuda (BARROS, 2021). 
 
 
3.3.2 – Piauí 
 
 
43 
 
O número de denúncias de violência domésticas feitas pelo aplicativo Salve 
Maria, da Secretaria de Segurança do Piauí, cresceu 45% entre março e julho de 
2020 – enquanto isso, houve redução no número de denúncias feitas 
presencialmente (G1, 2020). Apesar da queda de 20%, quando comparada ao ano 
de 2019, as denúncias presenciais seguiram sendo o principal mecanismo de ajuda 
das vítimas: durante os meses de janeiro e julho foram realizadas 2567 denúncias. 
Apesar da redução, a delegada Bruna Fontenele, coordenadora do 
Departamento de Proteção à Mulher, informou que menos vítimas estão 
conseguindo denunciar nos canais formais e que a informação está chegando de 
forma reduzida. 
O Centro de Referência Francisca Trindade (PORTAL PIAUÍ, 2020), 
localizado em Teresina, é um local de orientação psicológica, social e jurídica a 
mulheres vítimas de violência e fortalece o enfrentamento da violência do Estado do 
Piauí. Ele recebe denúncias através do WhatsApp – pelo número (86) 99433-0808 – 
e iniciou a campanha “Ei Mermã!” (PORTAL PIAUÍ, 2021), para sensibilizar mulheres 
a não silenciarem agressões e estimular elas a acolher e ajudar as vítimas em 
situação de violência. 
 
 
Figura 7 - Campanha "Ei Mermã!" 
Fonte: PORTAL PIAUÍ, 2021 
44 
 
3.3.3 – Rio de Janeiro 
 
 
No início das medidas de isolamento social, a Coordenadoria Estadual da 
Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Coem) realizou reuniões 
internas e com a rede de enfrentamento à violência contra a mulher para manter o 
constante engajamento das instituições, garantindo o acesso à Justiça e a proteção 
às vítimas (TJRJ, 2021). Algumas das ações envolveram regime especial de rodízio 
no atendimento às vítimas nos juizados e registros de ocorrência para pedidos de 
medidas protetivas realizados de maneira on-line. 
A Escola de Magistratura do Estado do Rio de Janeiro (Emerj) criou a cartilha 
“Covid-19: confinamento sem violência”, que contêm informações para ajudar a 
vítima a se proteger e buscar ajuda em casos de violência de gênero, destacando os 
tipos de violência doméstica e a função dos juizados de violência doméstica e 
familiar contra a mulher (ESCOLA DA MAGISTRATURA DO ESTADO DO RIO DE 
JANEIRO, [202-]). 
 
 
Figura 8 - Covid-19: confinamento sem violência 
Fonte: ESCOLA DE MAGISTRATURA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, [202-] 
 
45 
 
A Patrulha Maria da Penha, parceria entre o Tribunal de Justiça do Rio de 
Janeiro (TJRJ) e a Polícia Militar – similar à de São Paulo – também realizou a 
divulgação da campanha em locais públicos e de grande circulação de pessoas – 
como farmácias, supermercados e igrejas. Seu objetivo era esclarecer e estimular as 
vítimas a não se intimidarem durante o período de isolamento social

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