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Aula 5 - Ciencia Politica

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Aula 5 - Ciência Política
a) Erasmo de Roterdà (1469-1536):
monge holandês, adversário da filosofia
aristotélico-escolástica. Dedica-se aos
problemas metafísicos, físicos e
dialéticos. Responde às ilusões das
filosofias profanas por um apelo à releitura
dos Evangelhos. Defende a vida
humana de um ponto de vista moral. Para
ele, a filosofia é o conhecer-se a si
mesmo ao modo de Sócrates e dos
antigos; é conhecimento sapiencial de
vida e, sobretudo, é sabedoria e prática
de vida cristã. A sabedoria cristã pode ser
alcançada através dos evangelhos e das
epístolas de Paulo, sem necessidade de
recorrer a complicados silogismos. Em
sua obra "Elogio da Loucura" (1509),
questiona o racionalismo estéril da
escolástica aristotélica, defendendo um
saber intuitivo e natural. Erasmo identifica
da escolástica aristotélica, defendendo
um saber intuitivo e natural. Erasmo
identifica e define a loucura que manifesta
a pior parte do homem e, por outro lado, a
loucura da cruz, apresentando diferentes
graus de loucura. Às vezes, ele a
condena e outras vezes ele a exalta. Ele
quer arrancar as máscaras que encobrem
a loucura, levando-nos a ver a comédia
da vida e a face dos que se escondem
atrás de máscaras mas, ao mesmo
tempo, ele quer que todos aceitem as
coisas como elas são. A loucura é assim
reveladora de verdade. O ponto
culminante da loucura é a fé e o cume dos
cumes é a felicidade celeste. Em sua
filosofia, denuncia as paixões humanas
como a vaidade, a crueldade, a mentira, o
gosto pelo luxo, a ambição e as honras,
criticando os tiranos cuja alma foi
corrompida e todos que se deixaram
corromper: tiranos, militares, nobres,
cortesãos, monges, pregadores, teólogos,
cardeais, bispos e até o papa bem
como o povo em geral. Propõe uma
reflexão sobre o poder secular,
contrapondo-se às ideias de Maquiavel,
pois, ao contrário deste, não é a
necessidade que dita as regras da
política, mas as virtudes cristãs do
príncipe. Os príncipes devem encarnar o
ideal de bondade, humildade e sacrifício,
sendo fonte de inspiração para o povo.
Erasmo une a sabedoria antiga aos textos
cristãos. Critica os monarcas de seu
tempo que fizeram da guerra uma
necessidade, condenando as hipocrisias
da diplomacia e desvela as verdadeiras
razões da guerra que, para ele, nascem
das fraquezas humanas dos reis como o
desejo de glória, a cólera e a cobiça.
b) Lutero (1483-1546). Monge
agostiniano que estudou teologia em
Wittenberg. Critica a corrupção da Igreja
de Roma e propõe uma Reforma.
Condenado por Roma, é protegido pelo
Imperador Frederico da Alemanha.
Iniciador do mundo moderno. Desconfia
das possibilidades de a natureza humana
salvar-se por si só, sem a graça divina.
Por isso, ele despreza a investigação
racional que queira examinar os
problemas do homem com base no logos,
na pura razão. Em seu livro, De Servo
Arbitrio (1525), nega a liberdade
individual, fazendo com que outros
reformistas, inclusive Erasmo, se afastem
dele. Condenado pelo Imperador Carlos V
que o condena na Dieta de Worms, mas
muitos nobres alemães aderem à
Reforma, por motivos politicos como o de
preservar sua autonomia política, evitando
a influência da Igreja. Alguns o acham
mais próximo da teologia medieval
agostiniana do que da modernidade.
Defende que a fé é suficiente para que o
individuo compreenda a mensagem divina
dos textos sagrados, não necessitando da
intermediação da Igreja, dos teólogos
nem da doutrina dos concilios. Assim,
defende o individualismo contra a
autoridade externa, contra o saber
adquirido, contra as instituições
tradicionais, todos colocados por ele sob
suspeita. Combate a visão
aristotélico-tomista, as provas da
existência de Deus, o racionalismo.
Baseia-se na doutrina de Santo Agostinho
da luz natural que cada individuo possui
em si e que lhe permite entender e aceitar
a Revelação. Inspira-se também em São
Paulo: "o justo viverá pela fé" (Rm1,17). O
critério de validade da interpretação das
escrituras é assim a regra da fé. Recusa a
autoridade institucional da Igreja (Papa e
concilios) e valoriza a consciência
individual como dotada de autonomia e
autoridade, no lugar da Igreja e da
Tradição. Da grande ênfase à consciência
individual.
Suas relações com o movimento
humanista se podem perceber na
renovação religiosa que ele empreende
na Reforma Protestante e em sua
insistência no retorno às origens, às
fontes e aos princípios, o que os
humanistas vão realizar através do
retorno aos clássicos. Com isso, ele
acaba por eliminar o valor da tradição e
rompe com a tradição cultural humanista,
dado que a razão humana é nada diante
de Deus. A salvação depende da fé, é um
dom de Deus e só é possível pela graça
divina. Rejeita assim a doutrina ética
aristotélica de que a virtude é adquirida. O
esforço humano não desempenha
nenhum papel na salvação que é ação
gratuita de Deus. Contradição com o
espírito critico do homem de fé como leitor
da bíblia e seu intérprete por suas
próprias luzes.
A teologia de Lutero
1. Doutrina da Justificação: a doutrina
tradicional da Igreja ensina que os
homens se salvam pela fé e pelas obras.
Estas últimas são dispensáveis para a
salvação. Para Lutero, o homem, por si
só, não pode fazer nada. Tudo nele é
concupiscência. Por isso, sua salvação
depende do amor divino que é gratuito. A
fé não precisa de obras para se justificar.
Nesse ponto, ele ataca as indulgências
pela base.
Ainda, para Lutero, só as Escrituras
constituem a autoridade infalível de que
necessitamos. Descarta assim a tradição,
o Papa e os concílios. Não há
necessidade de um intermediário especial
entre o homem e Deus, entre o homem e
a palavra de Deus. Os fatos e a prática
pregada por Lutero nos estados
protestantes vão contrariar a liberdade de
fé que ele havia
inicialmente pregado.
c) Ulrich Zuinglio (1484-1531). Discípulo
de Erasmo. Era ativo defensor das teses
de Lutero. Discordava de algumas idéias
teológicas (os sacramentos para ele
possuem um valor somente simbólico) e
possui cultura humanista com fortes
elementos de racionalismo além de um
claro nacionalismo helvético
(Zurique/Suíça).
Elementos humanistas: noção de pecado
cuja raiz é o egoísmo e a conversão como
iluminação da mente. Para ele, os eleitos
são os que têm fé e estes podem ser
claramente reconhecidos. Os fiéis são
todos iguais e a comunidade dos fieis é
também uma comunidade politica
(concepção teocrática com todas as
ambigüidades). Zuinglio morre em 1531,
combatendo as
tropas católicas.
d) Calvino (1509, França-1564,
Genebra).
Realizou um governo teocrático inspirado
na Reforma, em Genebra. Para ele, a
doutrina da eleição liberta o homem de
todas as angústias e preocupações para
que ele se coloque inteiramente ao
serviço de Deus. Insiste mais que Lutero
na predestinação e amplia o sentido da
onipotência do querer divino,
subordinando a Deus a vontade e as
decisões do homem.
Max Weber: da posição protestante,
deriva o espirito do capitalismo. Os
protestantes viram na
produção de riquezas e no sucesso a ela
ligado quase que um sinal tangível da
predestinação
e, assim, um incentivo ao empenho
profissional.
A Reforma Católica: reacão da Igreja
Católica à Reforma Protestante com a
condenação dos erros do protestantismo
e a formulação positiva do dogma
católico. Instituição da Inquisição romana
(1542) e compilação do índex dos livros
proibidos.
Concílio de Trento/Fundação dos
Jesuitas:
- toma uma posição clara acerca das
teses protestantes.
- promove a renovação da disciplina da
Igreja (formação do clero).
- retomada do pensamento escolástico,
com a colocação da Suma Teológica de
Santo Tomás
ao lado da Bíblia como pilares do
pensamento católico.
A política renascentista
a) Nicolau Maquiavel (1469-1527):
Pensador político mais original e influente
dessa época. Tenta responder aos
problemas politicos dos principados
italianos, procurando meios de
restabelecer a estabilidade e a
independência das cidades da Península,
ensinando como os monarcas podem
governar e se manter no feder. Autor de
"O Príncipe" (1513, publicado em 1532,
antes sob o pseudônimo Sant'Andrea) em
que aconselhaLorenzo de Médici na arte
de governar e manter o poder politico.
Situa-se no contexto social após a
república teocrática do monge Savonarola
que governou Florença. Rompe
radicalmente com o pensamento cristão
que subordinava a politica à moral.
Analisa historicamente as situações em
que os governantes tomaram e perderam
o poder, ao longo da história, para extrair
lições válidas para os principes. Sua
maior contribuição foi a separação entre a
política e a moral. É necessário se ater à
"verdade efetiva das coisas", sem se
perder na busca de como as coisas
deveriam ser (rejeição da subordinação à
metafísica). Opera, em sua obra, a
separação entre ser e dever-ser. "Um
príncipe desejoso de conservar-se no
poder tem de aprender os meios de não
ser bom e a fazer uso ou não deles,
conforme as necessidades". Tolera a
aplicação de métodos cruéis e
desumanos, em casos extremos.
O governante deve ser implacável em seu
objetivo de exercer e manter o poder. Sua
qualidade principal é a virtú que nada tem
em comum com as virtudes cristãs da
piedade e da humildade, mas pressupõe
coragem, habilidade e persistência.
Analisa o poder como fato politico,
levando em conta seu critério decisivo que
é a eficácia. A única justificação para o
poder é o fato de ele ter de se manter e,
nesse caso, o fim justifica os meios.
Possui uma concepção muito pessimista
da natureza humana, pois os homens são
maus e não se pode mudá-los. Todos os
homens são maus e estão dispostos a
usar sua perversidade todas as vezes que
tiverem ocasião livre". A natureza dotou
os homens de egoísmo, inveja, perfídia,
desconfiança, ambições, violência,
corrupção, etc. A politica então é
dominada pela força e pela paixão. O que
a domina é a astúcia, a corrupção e o
desejo de conquista. Dada essa tendência
humana ao mal, o político, constatado
esse aspecto negativo do homem, deve
agir em consequência dele, tomando as
medidas necessárias para tornar-se
temido. A virtude (vigor e saúde, astúcia e
energia, capacidade de prever, planejar e
constranger) impõe regra ao caos e
constrói a ordem num mundo que desaba.
Para Maquiavel, a metade das coisas
humanas depende da sorte ou da fortuna
e a outra metade da virtude e da
liberdade. O principe deve saber agir
contra a fé, contra a caridade, a
humanidade e a religião. Deve ainda
saber mudar, segundo os ventos da
Fortuna e as variações das coisas
exigirem. Não tem de se afastar do bem,
mas saber estar no mal, se preciso for.
Defende somente uma ética da eficácia,
pois, em política, é o resultado que
permite apreciar a justeza da ação. Daí o
príncipe dever buscar a maneira mais
eficaz de exercer o poder e utilizar todos
os meios para atingir seus fins, mesmo os
que forem condenáveis moralmente.
As qualidades do principe são:
1) a virtú (conjunto de qualidades que o
príncipe deve ter para conquistar o poder,
consolidá-lo, garantir sua estabilidade e
preservação). E partilhada pelos que têm
a coragem, a determinação e a habilidade
calculadora para manter-se no poder.
Exige audácia, moderação e energia para
tomar decisões. A boa politica supõe
determinação. A virtú exige ainda
maleabilidade e habilidade para o principe
adaptar sua ação às circunstâncias do
momento.
2) O príncipe deve ainda utilizar a
coerção, sabendo que os homens são
pérfidos e cruéis. Há duas maneiras de
combater: uma com as leis e outra com a
força, isto é, o príncipe deve saber usar a
besta e o homem. É a necessitas que dita
a política e não a moralidade. Deve ainda
governar com o povo, sem negligenciar
sua força. O príncipe deve recorrer à força
com a
astúcia de manter as aparências,
alternando a força bruta e a inteligência
astuta. Deve saber ser cruel, sem
mostrá-lo em excesso, pois não pode ser
odiado pelo povo. Pode andar no vício,
mas encarnar a retidão.
Ao rejeitar os pressupostos do
pensamento medieval, Maquiavel se torna
precursor do pensamento moderno ao
rejeitar a dimensão metafísica do poder
político. Trata-se de observar os fatos e
descrevê-los cientificamente. Por isso,
estuda as ações dos grandes homens da
história e extrai deles lições para o
presente e o futuro. Inspira-se em César
Bórgia que usou de crueldade para
governar. Assim, funda a ciência política
moderna!
b) Thomas Morus e a Utopia
(1478-1535). Amigo e discípulo de
Erasmo. Membro do
parlamento inglês, embaixador de
Henrique VIll e chanceler do reino. Fiel ao
catolicismo, recusa-se a reconhecer
Henrique VIII como chefe da Igreja então
separada de Roma, e é por isso
condenado à morte, sendo decapitado,
em 1535. Estava convencido (otimismo
humanista) de que bastaria seguir a sã
razão e as mais elementares leis da
natureza que estão numa harmonia
perfeita com a razão e assim se
acabariam os males da sociedade. Sua
obra "Utopia"(1516), certamente inspirada
em Platão e em sua cidade ideal,
apresenta os principios de um programa
social a ser realizado dentro de uma
república igualitária nara impedir as
desigualdades de riqueza e a miséria
humana. Nessa cidade utópica, os
homens viveriam na perfeita igualdade
social e politica, numa existência feliz.
Prega uma politica guiada pela tolerância
e pela prudência. Defende a tolerância
religiosa, criticando o autoritatismo dos
reis e da Igreja, favorecendo a razão e as
virtudes naturais. Rejeita a tradição
escolástica, o saber adquirido, a
autoridade imposta pelos costumes e pela
hierarquia, em favor da recuperação do
que há de virtuoso e espontâneo na
natureza humana individual. Essa visão
do homem e da sociedade, da moral e da
política se tornará a base da discussão
filosófica da modernidade e reaparecerá
em Rousseau e Montaigne, em Hobbes e
nos iluministas. Propõe a ausência de
propriedade privada e a comunhão de
bens. Não há, na Utopia, diferenças entre
os cidadãos nem na renda nem no status
social. O trabalho dura seis horas diárias
apenas para deixar espaço para o lazer e
outras atividades. Todos trabalhariam para
a comunidade. Os magistrados seriam
todos eleitos, o rei seria designado por
toda a vida, etc. Só haveria uma
aristocracia do mérito, formados pelos
sábios, aberta a todos e controlada que
ajudaria o governo da cidade.
O procedimento de Morus é totalmente
moderno pelo realismo de sua descrição,
com valores de paz e tolerância muito
próximos de Erasmo. Alguns veem aí um
antecipação da sociedade "comunista",
outros destacam sua inspiração cristã.
c) Michel de Montaigne (1533-1595).
Filósofo francês, autor dos Essais, grande
estilista da língua francesa e criador do
estilo literário dos ensaios. Representa o
humanismo de orientação não religiosa,
enquanto individualista: o homem culto,
sensato, que reflete criticamente sobre o
mundo que o cerca, em que seu
pensamento é fruto de sua própria
experiência, sem pretensão sistemática
ou teórica. Valoriza a experiência interior,
numa reflexão profana. Tornou-se prefeito
de Bordeaux, em 1571, revelando-se hábil
negociador entre católicos e protestantes,
então em guerra civil, na França. Em seus
Ensaios, reflete desde
as lutas religiosas até a descoberta da
América, contêm desde críticas à
Escolástica até um
ponto de vista filosófico pessoal,
influenciado pelo ceticismo antigo, pelo
estoicismo e pelo
epicurismo.
Inaugura uma reflexão centrada em si
mesmo, introspectiva, relatando suas
experiências
pessoais. Os elementos humanistas, em
sua obra, são: a exploração de sua
prôpria
consciência, forjada pela experiência do
mundo que é, para ele, o caminho
privilegiado da realização de si. O
elemento cético é a dúvida constante
sobre as coisas, suas definições e
imagens. A razão e a ciência falham em
captar os principios eternos e imutáveis,
num mundo instável, relativo, aberto e,
por isso, a atitude mais correta é a do
ceticismo. É o ceticismo que permite ao
homem conservar a independência de
seu espírito e dominar as paixões. Para
ele, só o conhecimento de si é acessível à
consciência e é por ela que o homem
pode descobrir-se a si mesmo e abrir-se
ao mundo. A verdade reside na
experiência de si e esta deve ser a
medida para julgar todas as opiniões e
doutrinas.
O ceticismopermite afastar todas as
evidências e falsas aparências que
enganam o julgamento. O ser verdadeiro
se descobre na exploração da
subjetividade, quando todas as máscaras
caem e se revela a si mesmo
Assim, a renascença descobre a
consciência, ora em sua dimensão
religiosa da fé, ora numa perspectiva
existencial (ela é um conhecimento
natural de si e do mundo forjado na
experiência individual). O indivíduo vai
sendo, pouco a pouco, reconhecido como
um ser
subjetivo cuja existência tem um valor
próprio, dotado de capacidade de
julgamento, instrumento de sua liberdade.
Isso será a "razão moderna"
Descartes, iniciador da modernidade: a
descoberta da Subjetividade.
Há quem sustente ser Descarte o último
dos escolásticos, mas, por outro lado,
também há quem o veja como o primeiro
dos modernos. Descartes procura uma
nova via de acesso ao conhecimento
verdadeiro e a encontra na geometria
analítica. Convencido de que a tradição
errou (sobretudo a Aristotélica), cria um
novo sistema filosófico proposto em
Discurso do Método (1637), aprofundado
depois em Meditações Metafísicas (1641)
e nos Princípios da Filosofia (1644).
Formado pelos jesuitas na tradição
escolástica, pensa que ela não responde
às suas dúvidas e procura um novo
método que o coloque no caminho da
verdade. Descobre que a verdade é a
conclusão de todo um caminho percorrido
com método e não o ponto de chegada.
Logo, a dúvida se torna o método cujo
exercício conduz à verdade. Seu método
se aproxima das evidências das
matemáticas. Extrai todas as regras de
seu método da geometria.
Descartes opera uma virada decisiva no
pensamento ocidental. Ele articula a
concepção de racionalidade com o
conceito de subjetividade. Com ele,
subjetividade passa ser sinônimo de
conceitos como eu, consciência,
consciência de si. É possível chegar à
subjetividade por meio de uma
auto-certificação de cunho intelectual e
espiritual. À consciência se apresenta
como algo que é meu, que é interior.
Como pensar, querer e sentir são atos de
minha consciência, eu posso tomar
consciência de meu próprio ser
consciente E esta consciência não pode
ser separada da consciência de si. Pela
consciência de si, eu me aproprio de
minha vida consciente. Através de um ato
de reflexão puramente formal, eu posso
apossar-me de mim mesmo.
Descartes convida a um ato de
introspecção pelo qual eu me examino a
mim mesmo intelectualmente e esse é o
caminho ou a maneira de saber e ter
consciência de si mesmo. A razão ou o
intelecto é a luz que ilumina ou vê o
interior cujo acesso não pode se dar por
via da sensibilidade ou de suas
dimensões,
A dúvida metódica tem como ponto de
partida ou como fundamento ou começo
absoluto o pensamento que parte de si è
só em si encontra apoio. É em si mesmo
que Descartes busca algo de verdadeiro.
O exercicio da dúvida metódica conduz a
uma certeza absoluta sobre si a partir do
pensar. Seria contraditório achar que o
que pensa não existe. Dai este
conhecimento "eu penso, eu sou" ser o
primeiro e o mais certo de todos que se
oferece a todos que pensam de modo
ordenado. Se há uma certeza indubitável
ela é o puro saber de si, do seu próprio
ser. No "eu penso" está o meu ser.
Trata-se de uma intuição intelectual que
não é deduzida de nenhum silogismo,
pois não se trata de concluir sua
existência do seu pensamento, mas como
uma coisa conhecida por si, algo que se
vê pela simples inspeção do espírito.
Caso pudesse extrair essa verdade por
meio do silogismo, deveria deduzi-la de
uma premissa maior como a que segue:
"tudo o que pensa é ou existe". Mas isso é
impossível visto não ser facultado ao
sujeito se dar que ele pense, caso não
exista.
Descartes propõe assim a unidade do
pensar e do ser. Há uma dependência
entre o pensar e o ser ou existir. O
pensamento afirma a existência de um
sujeito pensante.
Assim, é pelo pensamento e graças a ele
que eu me descubro como sujeito.
Reduz-se assim a subjetividade a algo
meramente inteligível ou acessível
exclusivamente pela via intelectual. Daí a
subjetividade possuir o caráter essencial
do pensamento, isto é, a universalidade.
Só no universal se encontra o ser, neste
ato de consciência que afirma sua
existência. Não é necessário aqui
representar o ser de algum conteúdo
concreto, mas o ser é a simples
imediaticidade, identidade consigo
mesmo, a imediaticidade do pensar.
O racionalismo cartesiano se funda ainda
na noção de Deus como garantia da
evidência da verdade em nosso
conhecimento. A certeza de uma ideia
clara e evidente se ampara em Deus
como seu autor e assim elas não podem
nos iludir porque Deus não pode nos
enganar. Deus é então o criador das
coisas extensas, isto é, finitas. Como os
seres finitos são criaturas, não
podem ser tão perfeitos quanto sua
causa. Como seres imperfeitos, eles não
têm em si mesmos sua causa e
necessitam de Deus para a conservação
de seu ser, sem o qual seriam nada.
Na Segunda Meditação, o sujeito da
dúvida se descobre a partir de uma dupla
constatação: primeiro a de que a
inexistência do mundo material não
implica sua própria inexistência e,
segundo, a constatação de que sua
existência está subentendida no próprio
ato de pensar. No fundo, trata-se de uma
única e mesma descoberta já que a
primeira constatação só se cometa na
segunda: "a inexistência da mundo
material não implica a inexistência do
sujeito que duvida do mundo material na
medida mesma em que sua existência
está subentendida no próprio ato de
duvidar do mundo material, isto é, no
próprio ato de pensar do qual a dúvida é
uma expressão". Não se trata, portanto,
de duas etapas autônomas já que
nenhuma existência pode ser afirmada
independentemente do pensamento. A
dúvida generalizada sobre a existência
material não pode duvidar do próprio
pensamento que duvida. Existo mesmo
quando penso que não existe nenhum
mundo material porque é necessário que
eu exista no momento mesmo em que
penso.
É, portanto, impossível colocar em dúvida
a existência do sujeito da dúvida mesmo
quando tudo que se refere à existência do
mundo material pode ser colocado em
dúvida. Ou aquilo que escapa à dúvida
generalizada não pode ser ele mesmo
uma existência de ordem material.
Se a existência não pode ser afirmada em
relação ao mundo material porque ele é
objeto de dúvida, ela só pode então ser
afirmada em relação ao sujeito da dúvida.
Nem mesmo o espírito enganador que se
dedica a enganar-me constantemente, por
exemplo, quando penso ter um corpo,
existir num mundo material, ele não
poderá fazer com que eu não exista
enquanto penso, pois para pensar é
preciso existir. No meio de todas as
dúvidas, há uma certeza: a de que eu
duvido.
A proposição "Eu sou, eu existo" é
condicionada por sua autopercepção,
funda-se nela. Tal
proposição, independente da
autopercepção, desaparece bem como
desaparece sua
autopercepção. Formulada sem a
autopercepção, ela não tem garantia de
verdade, pois se
tornaria uma proposicão artificial. Não
poderiamos saber se uma tal proposicão
corresponde ou não à percepção de que
se pretende a expressão. A expressão "eu
sou, eu existo" perde a garantia de
verdade assim que o pensamento deixar
de se autoperceber existindo.
Descartes revela então uma diferença
entre as opiniões ou nossa percepção da
realidade e a realidade em si mesma.
Assim, nossas opiniões não se fundam na
realidade em si mesma, mas em nossa
percepção da realidade. A
correspondência depende assim de uma
relação entre a percepção da realidade e
a realidade mesma. Para Descartes, não
se trata mais de garantir a nossa
percepção da realidade a partir da
realidade em si mesma, mas, ao contrário,
de garantir a realidade em si mesma a
partir de nossa percepção dela.
Eis o que se denominou descoberta da
subjetividade. Descartes não aborda
questões políticas como poder, ordem,
liberdade ou igualdade. Não discute o
Estado ou sua constituição. No entanto,
seu pensamento tem repercussão em
toda a Europa. Sua doutrina da razão e
sua concepção de homem influenciam as
discussões da filosofia politica. Ele foi
determinante para a transformação das
categorias do pensamento e paraa
destruição do sistema aristotélico. Fez
do homem um ser dotado de autonomia
moral e de vontade, o que abriu caminho
para o pensamento moderno. Fez a
filosofia se tornar uma antropologia e
deixar as reflexões sobre o
universo.

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