Prévia do material em texto
F R E N T E 2 265 ) Além das faltas específicas desses personagens, há uma outra, comum a ambos e bastante pratica- da à época, que Gil Vicente condena. Identifique essa falta e indique de que modo ela aparece em cada um dos personagens. 28 Mackenzie Auto da Compadecida Chicó – Por que essa raiva dela? João Grilo – Ó homem sem vergonha! Você inda per- gunta? Está esquecido de que ela o deixou? Está esquecido da exploração que eles fazem conosco naquela padaria do inferno? Pensam que são o cão só porque enriqueceram, mas um dia hão de pagar. E a raiva que eu tenho é porque quando estava doente, me acabando em cima de uma cama, via passar o prato de comida que ela mandava para o cachorro. Até carne passada na manteiga tinha. Para mim nada, João Grilo que se danasse. Um dia eu me vingo. Chicó – João, deixe de ser vingativo que você se desgra- ça. Qualquer dia você inda se mete numa embrulhada séria. Ariano Suassuna. Auto da Compadecida. Considere as seguintes armações: I. O texto de Ariano Suassuna recupera aspectos da tradição dramática medieval, afastando-se, portan- to, da estética clássica de origem greco-romana. II. A palavra Auto, no título do texto, por si só sugere que se trata de peça teatral de tradição popular, aspecto confirmado pela caracterização das personagens. III. O teor crítico da fala da personagem, entre outros aspectos, remete ao teatro humanista de Gil Vi- cente, autor de vários autos, como, por exemplo, o Auto da barca do inferno. Assinale: A se todas estiverem corretas. b se apenas I e II estiverem corretas. se apenas II estiver correta. D se apenas II e III estiverem corretas. E se todas estiverem incorretas. 29 ESPM-SP 2014 Camões, grande Camões, quão semelhante Acho teu fado ao meu quando os cotejo! Igual causa nos fez perdendo o Tejo Arrostar co sacrílego gigante [...] Ludíbrio, como tu, da sorte dura, Meu fim demando ao Céu, pela certeza De que só terei paz na sepultura [...] BOCAGE. arrostar: encarar, afrontar. fado: destino. Assinale a armação correta sobre o poema. O eu lírico: A expressa inveja de Camões por não ter tido igual sepultura. b compara-se a Camões, fazendo um desabafo en- fático da amargura pela infelicidade ao longo de uma existência. segue o princípio clássico do relatar experiências humanas negativas aplicáveis a todos. D alterna versos alexandrinos (ou dodecassílabos) com versos decassílabos. E dirige-se ao “Céu” e ao “Tejo” com a intenção de aliar-se aos elementos da natureza. 30 PUC-RS 2013 Leia o poema a seguir, de Luís de Camões. Transforma-se o amador na cousa amada, por virtude do muito imaginar; não tenho, logo, mais que desejar, pois em mim tenho a parte desejada. Se nela está minha alma transformada, que mais deseja o corpo de alcançar? Em si somente pode descansar, pois consigo tal alma está liada. Mas esta linda e pura semideia, que, como o acidente em seu sujeito, assim coa alma minha se conforma, Está no pensamento como ideia; [e] o vivo e puro amor de que sou feito, como a matéria simples busca a forma. Com base no poema e em seu contexto, arma-se: I. Criado no século XVI, o poema apresenta um eu lírico que reflete sobre o amor e sobre os efeitos desse sentimento no ser apaixonado. II. Camões é também o criador de Os Lusíadas, a mais famosa epopeia produzida em língua portuguesa, que tem como grande herói o povo português, re- presentado por Vasco da Gama. III. Uma das características composicionais do poe- ma é a presença de inversões sintáticas. A(s) armativa(s) correta(s) é/são A I, apenas. b III, apenas. I e II, apenas. D II e III, apenas. E I, II e III. Leia o soneto do poeta Luís Vaz de Camões (1525?- 1580) para responder às questões de 31 a 33. Sete anos de pastor Jacob servia Labão, pai de Raquel, serrana bela; mas não servia ao pai, servia a ela, e a ela só por prêmio pretendia. Os dias, na esperança de um só dia, passava, contentando-se com vê-la; porém o pai, usando de cautela, em lugar de Raquel lhe dava Lia. Vendo o triste pastor que com enganos lhe fora assi negada a sua pastora, como se a não tivera merecida, começa de servir outros sete anos, dizendo: “Mais servira, se não fora para tão longo amor tão curta a vida”. Luís Vaz de Camões. Sonetos, 2001. LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 2 Trovadorismo, Humanismo e Classicismo: as origens da Literatura em Língua Portuguesa266 31 Unifesp 2016 De acordo com a história narrada pelo so- neto, A Labão engana Jacob, entregando-lhe a filha Lia, em vez de Raquel. b Labão aceita ceder Lia a Jacob, se este lhe entre- gar Raquel. Labão obriga Jacob a trabalhar mais sete anos para obter o amor de Lia. D Jacob descumpre o acordo feito com Labão, ne- gando-lhe a filha Raquel. E Jacob morre antes de completar os sete anos de trabalho, não obtendo o amor de Raquel. 32 Unifesp 2016 Uma das principais figuras exploradas por Camões em sua poesia é a antítese. Neste sone- to, tal figura ocorre no verso: A “mas não servia ao pai, servia a ela,” b “passava, contentando-se com vê-la;” “para tão longo amor tão curta a vida.” D “porém o pai, usando de cautela,” E “lhe fora assi negada a sua pastora,” 33 Unifesp 2016 Do ponto de vista formal, o tipo de verso e o esquema de rimas que caracterizam este soneto camoniano são, respectivamente, A dodecassílabo e ABAB ABAB ABC ABC. b decassílabo e ABAB ABAB CDC DCD. heptassílabo e ABBA ABBA CDE CDE. D decassílabo e ABBA ABBA CDE CDE. E dodecassílabo e ABBA ABBA CDE CDE. Texto para a questão 34. Partimo-nos assim do santo templo Que nas praias do mar está assentado, Que o nome tem da terra, para exemplo, Donde Deus foi em carne ao mundo dado. Certifico-te, ó Rei, que se contemplo Como fui destas praias apartado, Cheio dentro de dúvida e receio, Que a penas nos meus olhos ponho o freio. Camões, Os Lusíadas, “Canto 4º 87”. 34 UFSCar O trecho faz parte do poema épico Os Lusía- das, escrito por Luís Vaz de Camões, e narra a partida de Vasco da Gama para a viagem às Índias. a) Em que estilo de época ou época histórica se si- tua a obra de Camões? ) Para dizer que o nome do templo é Belém, Ca- mões faz uso de uma perífrase: “Que o nome tem da terra, para exemplo,/Donde Deus foi em carne ao mundo dado”. Em que outro trecho dessa es trofe Camões usa outra perífrase? 35 Unicamp 2017 Leia o soneto a seguir, de Luís de Camões. “Enquanto quis Fortuna que tivesse esperança de algum contentamento, o gosto de um suave pensamento me fez que seus efeitos escrevesse. Porém, temendo Amor que aviso desse minha escritura a algum juízo isento, escureceu-me o engenho com tormento, para que seus enganos não dissesse. Ó vós, que Amor obriga a ser sujeitos a diversas vontades! Quando lerdes num breve livro casos tão diversos, verdades puras são, e não defeitos... E sabei que, segundo o amor tiverdes, Tereis o entendimento de meus versos!” Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/ texto/bv000164.pdf>. Acesso em: 2 ago. 2016. a) Nos dois quartetos do soneto apresentado, duas divindades são contrapostas por exercerem um poder sobre o eu lírico. Identifique as duas di- vindades e explique o poder que elas exercem sobre a experiência amorosa do eu lírico. ) Um soneto é uma composição poética composta de 14 versos. Sua forma é fixa e seus últimos versos encerram o núcleo temático ou a ideia principal do poema. Qual é a ideia formulada nos dois últimos versos desse soneto de Camões, levando-se em consideração o conjunto do poema? Leia o soneto “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” do poeta português Luís Vaz de Camões (1525?-1580) para responder às questões de 36 a 39. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança; todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades. Continuamente vemos novidades, diferentes em tudo da esperança; do mal ficam as mágoas na lembrança, e do bem – se algum houve –, as saudades. O tempo cobre o chão de verde manto, que já coberto foi de neve fria, e enfim converte em choro o doce canto. E, afora este mudar-secada dia, outra mudança faz de mor espanto: que não se muda já como soía. Sonetos, 2001. esperança: esperado; mor: maior; soer: costumar (soía: costumava). 36 Unesp 2017 Considere as seguintes citações: 1. “Não podemos entrar duas vezes no mesmo rio: suas águas não são nunca as mesmas e nós não somos nunca os mesmos.” – Heráclito (550 a.C.-480 a.C.) 2. “A breve duração da vida não nos permite alimen- tar longas esperanças.” – Horácio (65 a.C.-8 a.C.) 3. “O melhor para o homem é viver com o máximo de alegria e o mínimo de tristeza, o que acontece quando não se procura o prazer em coisas pere- cíveis.” – Demócrito (460 a.C.-370 a.C.) F R E N T E 2 267 4. “Toda e qualquer coisa tem seu vaivém e se transforma no contrário ao capricho tirânico da fortuna.” – Sêneca (4 a.C.-65 d.C.) 5. “Uma vez que a vida é um tormento, a morte acaba sendo para o homem o refúgio mais dese- jável.” – Heródoto (484 a.C.-430 a.C.) Quais das citações aproximam-se tematicamente do soneto camoniano? Justique sua resposta. 37 Unesp 2017 Em um determinado trecho do soneto, o eu lírico assinala a passagem de uma estação do ano para outra. Transcreva os versos em que isso ocorre e identifique as estações a que eles fazem referên- cia. Para o eu lírico, tal passagem constitui um evento aprazível? Justifique sua resposta. 38 Unesp 2017 Elipse: figura de sintaxe pela qual se omite um termo da oração que o contexto permite subentender. Domingos Paschoal Cegalla. Dicionário de dificuldades da língua portuguesa, 2009. Adaptado. Transcreva o verso em que se verica a elipse do ver- bo. Identique o verbo omitido nesse verso. Para o eu lírico, qual das mudanças assinaladas ao longo do soneto lhe causa maior perplexidade? Justi- que sua resposta, com base no texto. 39 Unesp 2017 A sinestesia (do grego syn, que significa “reunião”, “junção”, “ao mesmo tempo”, e aisthesis, “sensação”, “percepção”) designa a transferência de per- cepção de um sentido para outro, isto é, a fusão, num só ato perceptivo, de dois sentidos ou mais. Massaud Moisés. Dicionário de termos literários, 2004. Adaptado. Transcreva o verso em que se verica a ocorrência de sinestesia. Justique sua resposta. Reescreva o verso da terceira estrofe, “que já coberto foi de neve fria”, adaptando-o para a ordem direta e substituindo o pronome “que” pelo seu referente. 40 UFRGS 2012 Leia os seguintes textos, o primeiro, um soneto de Luís de Camões, e o segundo, a letra da canção Me Acalmo, Me Desespero, de Cazuza. 1. Tanto de meu estado me acho incerto, Que em vivo ardor estou de frio; Sem causa, justamente, choro e rio; O mundo todo abarco e nada aperto. É tudo quanto sinto um desconcerto; Da alma um fogo me sai, da vista um rio; Agora espero, agora desconfio, Agora desvario, agora acerto. Estando em terra, chego ao céu voando; Numa hora acho mil anos; e é de jeito Que em mil anos não posso achar uma hora. Se me pergunta alguém porque assim ando, Respondo que não sei; porém suspeito Que só porque vos vi, minha Senhora. 2. O amor deflagra guerras No coração de quem ama Um bandido sórdido Uma menina linda O amor lança seu ferrão No desamparo dos amantes É um inseto louco em volta da luz Um lobo solitário uivando na escuridão Do amor pouco sei E quase tudo espero Amando eu me acalmo e me desespero O amor faz da minha voz Um gemido surdo De mim um escravo lanhado Um tigre encurralado O amor sombreia as trevas Clareia até cegar E um lar que não abriga O crime perfeito de dois assassinos Considere as seguintes armações sobre a forma como o amor é descrito no soneto e na letra da canção. I. O amor, por ser um sentimento de natureza con- traditória, leva o indivíduo a ver o mundo como um lugar instável e desconcertante. II. O amor é um sentimento imprevisível que é de- flagrado a partir da figura sedutora e angelical de certas mulheres. III. O amor provoca o intenso desejo daquele que ama, fazendo com que ele, o amante, mantenha um diálogo com a mulher amada. Quais dessas armações são compartilhadas por am- bos os eu líricos? A Apenas I. b Apenas II. Apenas I e III. D Apenas II e III. E I, II e III. 41 IFSP 2017 Leia o soneto abaixo, de Luís de Camões. Soneto Luís de Camões Tanto de meu estado me acho incerto, Que em vivo ardor tremendo estou de frio; Sem causa, juntamente choro e rio, O Mundo todo abarco e nada aperto. É tudo quanto sinto um desconcerto: Da alma um fogo me sai, da vista um rio; Agora espero, agora desconfio; Agora desvario, agora acerto. Estando em terra, chego ao Céu voando; Num’hora acho mil anos, e é de jeito Que em mil anos não posso achar um’hora. Se me pergunta alguém porque assim ando, Respondo que não sei, porém suspeito Que só porque vos vi, minha Senhora. CAMÕES, Luís de. Luís de Camões – Lírica. 5. ed. São Paulo: Cultrix,1976. p.117.