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Portanto, nossos escritores árcades foram, além de artistas, importantes personagens da história nacional. Diante desse contexto histórico, uma característica di- ferenciada do Arcadismo no Brasil foi a prática do gênero épico, já que os poetas tinham interesse, sobretudo, em abordar fatos do período colonial e traçar as características próprias do povo brasileiro. O poeta Cláudio Manuel da Costa, por exemplo, publicou o épico “Vila Rica” (1837), que tratava da fundação e trajetória de tal cidade, com especial destaque para a figura do bandeirante. Um fato curioso dessa epopeia é a recuperação da figura de Albuquerque, donatário da Capitania de Pernambuco e protagonista da “Prosopopeia” de Bento Teixeira. No poema árcade, é o pró- prio Albuquerque quem vai adentrando o interior do Brasil e descobrindo riquezas naturais enquanto se transforma em um bandeirante. Com isso, é traçado um fio narrativo lógico e coeso para a história do Brasil, cujo primeiro capítulo seria a epopeia de Bento Teixeira. Os dois poemas épicos mais importantes do Arcadismo brasileiro são O Uraguai, de Basílio da Gama, e Caramu- ru, de Santa Rita Durão. Neles, apresenta-se a figura do indígena como herói nacional, temática que foi mais bem explorada, posteriormente, pelos escritores românticos. O Uraguai Escrito em 1769 por Basílio da Gama (1741-1795), membro da arcádia romana, O Uraguai é uma epopeia composta de cinco cantos, nos moldes dos ideais pombalinos, e ataca a atuação dos jesuítas com relação aos indígenas brasilei- ros. A história é ambientada na Guerra Guaranítica, ocorrida na década de 1750 no Rio Grande do Sul. Em uma Missão administrada pelo padre espanhol Balda, vivia um casal de indígenas exemplares, Cacambo (homem forte e valente) e Lindoia (esposa bela e virtuosa). Para assumir o comando da comunidade, Balda, que pretendia casar seu filho bastardo, Baldeta, com Lindoia, manda Cacambo para a guerra. Depois de incendiar o acampamento das tropas inimigas, o indígena é atraído e envenenado pelo padre. Após a morte de seu amado, Lindoia é destinada a se casar com Baldeta, mas, durante os preparativos do casamento, foge para a mata com o intuito de morrer. Adormecida pelo cansaço, ela é morta por uma serpente que se enroscar em seu corpo. Esse incidente é um dos episódios mais dramáticos da epopeia árcade. J o s é M a ri a d e M e d e ir o s /W ik im e d ia C o m m o n s ( D o m ín io p ú b lic o ) Fig. 28 José Maria de Medeiros, Lindoia, 1882, óleo sobre tela, Coleção Cultura Inglesa, Rio de Janeiro, Brasil. [...] Revia-se em Baldeta o santo padre; E fazendo profunda reverência, Fora da grande porta, recebia O esperado Tedeu ativo e pronto, A quem acompanhava vagaroso Com as chaves no cinto o Irmão Patusca, De pesada, enormíssima barriga. Jamais a este o som da dura guerra Tinha tirado as horas do descanso. De indulgente moral e brando peito, Que penetrado da fraqueza humana Sofre em paz as delícias desta vida, Tais e quais no-las dão. Gosta das cousas, Porque gosta, e contenta-se do efeito, E nem sabe nem quer saber as causas. [...] Não faltava, Para se dar princípio à estranha festa, Mais que Lindoia. Há muito lhe preparam Todas de brancas penas revestidas Festões de flores as gentis donzelas. Cansados de esperar, ao seu retiro Vão muitos impacientes a buscá-la. Estes de crespa Tanajura aprendem Que entrara no jardim triste e chorosa, Sem consentir que alguém a acompanhasse. Um frio susto corre pelas veias De Caitutu, que deixa os seus no campo; E a irmã por entre as sombras do arvoredo Busca com a vista, e teme de encontrá-la. Entram enfim na mais remota e interna Parte de antigo bosque, escuro e negro, Onde ao pé de uma lapa cavernosa Cobre uma rouca fonte, que murmura, Curva latada de jasmins e rosas. Este lugar delicioso e triste, Cansada de viver, tinha escolhido Para morrer a mísera Lindoia. Lá reclinada, como que dormia, Na branda relva e nas mimosas flores, Tinha a face na mão, e a mão no tronco De um fúnebre cipreste, que espalhava Melancólica sombra. Mais de perto Descobrem que se enrola no seu corpo Verde serpente, e lhe passeia, e cinge Pescoço e braços, e lhe lambe o seio. Fogem de a ver assim, sobressaltados, E param cheios de temor ao longe; E nem se atrevem a chamá-la, e temem Que desperte assustada, e irrite o monstro, E fuja, e apresse no fugir a morte. Porém o destro Caitutu, que treme Do perigo da irmã, sem mais demora Dobrou as pontas do arco, e quis três vezes Soltar o tiro, e vacilou três vezes Entre a ira e o temor. Enfim sacode O arco e faz voar a aguda seta, Que toca o peito de Lindoia, e fere A serpente na testa, e a boca e os dentes F R E N T E 2 295 Deixou cravados no vizinho tronco. Açouta o campo com a ligeira cauda O irado monstro, e em tortuosos giros Se enrosca no cipreste, e verte envolto Em negro sangue o lívido veneno. Leva nos braços a infeliz Lindoia O desgraçado irmão, que ao despertá-la Conhece, com que dor! no frio rosto Os sinais do veneno, e vê ferido Pelo dente sutil o brando peito. Os olhos, em que Amor reinava, um dia, Cheios de morte; e muda aquela língua Que ao surdo vento e aos ecos tantas vezes Contou a larga história de seus males. Nos olhos Caitutu não sofre o pranto, E rompe em profundíssimos suspiros, Lendo na testa da fronteira gruta De sua mão já trêmula gravado O alheio crime e a voluntária morte. E por todas as partes repetido O suspirado nome de Cacambo. Inda conserva o pálido semblante Um não sei quê de magoado e triste, Que os corações mais duros enternece Tanto era bela no seu rosto a morte! [...] GAMA, Basílio da. “O Uraguai”. In: TEIXEIRA, Ivan (Org.). Obras poéticas de Basílio da Gama. São Paulo: Edusp, 1996. Caramuru Santa Rita Durão (1722-1784) foi uma figura completa- mente antipombalina. Padre agostiniano brasileiro, deixou sua atividade de bibliotecário em Roma após ser expulso de Portugal na época das reformas do marquês depois que D. Maria I ascendeu ao trono, retornando a Lisboa para se dedicar à produção literária. Em 1781, escreveu a obra Caramuru. A obra é uma epopeia aos moldes camonianos, di- vidida em dez cantos e de verso decassílabo rimado, e narra as aventuras lendárias de um navegador português, Diogo Álvares Correia, que naufragou na costa da Bahia no século XVI e viveu entre os tupinambás. Enquanto se acostumava ao modo de vida indígena, Diogo, o “cara- muru” – homem de fogo ou filho do trovão –, auxiliava os indígenas em várias batalhas, e seus atos heroicos eram recompensados com o oferecimento das filhas dos che- fes como suas pretendentes. Quando Diogo é finalmente resgatado por um navio francês, escolhe Paraguaçu como noiva e parte com ela. Moema, a mais bela das indígenas, mergulha no mar e segue o navio desesperadamente, vociferando queixas – sua morte é outra cena clássica da literatura colonial brasileira. A Gupeva entretanto, e Taparica Dava o último abraço, e à forte Esposa A intenção de levá-la significa, A ver de Europa a Região famosa: Suspensa entre alvoroço, e pena fica Paraguaçu contente, mas saudosa; E quando o pranto na sentida fuga Começava a saudade, amor lho enxuga. É fama então que a multidão formosa Das Damas, que Diogo pertendiam, Vendo avançar-se a nau na via undosa, E que a esperança de o alcançar perdiam: Entre as ondas com ânsia furiosa Nadando o Esposo pelo mar seguiam, E nem tanta água que flutua vaga O ardor que o peito tem, banhando apaga. Copiosa multidão da nau Francesa Corre a ver o espetáculo assombrada; E ignorando a ocasião da estranha empresa, Pasma da turba feminil, que nada: Uma, que às mais precede em gentileza, Não vinha menos bela, do que irada: Era Moema, que de inveja geme, E já vizinha à nau se apega ao leme. Bárbaro (a bela diz) Tigre, e não homem... Porém o Tigre por cruel que brame, Acha forças amor, que enfim o domem; Só a ti não domou, por mais que eu te ame: Fúrias, raios, coriscos, que o ar consomem, Como não consumis aquele infame?Mas pagar tanto amor com tédio, e asco... Ah que o corisco és tu... raio... penhasco. Bem puderas, cruel, ter sido esquivo, Quando eu a fé rendia ao teu engano; Nem me ofenderas a escutar-me altivo, Que é favor, dado a tempo, um desengano: Porém deixando o coração cativo Com fazer-te a meus rogos sempre humano, Fugiste-me, traidor, e desta sorte Paga meu fino amor tão crua morte? Tão dura ingratidão menos sentira, E esse fado cruel doce me fora, Se a meu despeito triunfar não vira Essa indigna, essa infame, essa traidora: Por serva, por escrava te seguira, Se não temera de chamar Senhora A vil Paraguaçu, que sem que o creia, Sobre ser-me inferior, é néscia, e feia. Enfim, tens coração de ver-me aflita, Flutuar moribunda entre estas ondas; Nem o passado amor teu peito incita A um ai somente, com que aos meus respondas: Bárbaro, se esta fé teu peito irrita, (Disse, vendo-o fugir) ah não te escondas; Dispara sobre mim teu cruel raio... E indo a dizer o mais, cai num desmaio. Perde o lume dos olhos, pasma, e treme, Pálida a cor, o aspecto moribundo, Com mão já sem vigor, soltando o leme, Entre as falsas escumas desce ao fundo: Mas na onda do mar, que irado freme, Tornando a aparecer desde o profundo; Ah Diogo cruel! disse com mágoa, E sem mais vista ser, sorveu-se n’água. LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 3 Literatura Colonial: Quinhentismo, Barroco e Arcadismo296 Choraram da Bahia as Ninfas belas, Que nadando a Moema acompanhavam; E vendo que sem dor navegam delas, À branca praia com furor tornavam: Nem pode o claro Herói sem pena vê-las, Com tantas provas, que de amor lhe davam; Nem mais lhe lembra o nome de Moema, Sem que ou amante a chore, ou grato gema. DURÃO, José de Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia. 2. ed. Lisboa: Imprensa Nacional, 1836. pp. 178-81. Fig. 29 Victor Meirelles, Moema, 1866, óleo sobre tela, Museu de Arte de São Paulo, São Paulo, Brasil. V ic to r M e ir e lle s /W ik m e d ia C o m m o n s ( D o m ín io p ú b lic o ) Leia o texto a seguir para responder às questões de 1 a 4. Terça-feira, depois de comer, fomos em terra, fazer lenha, e para lavar roupa. Estavam na praia, quando che- gamos, uns sessenta ou setenta, sem arcos e sem nada. Tanto que chegamos, vieram logo para nós, sem se es- quivarem. E depois acudiram muitos, que seriam bem duzentos, todos sem arcos. E misturaram-se todos tanto conosco que uns nos ajudavam a acarretar lenha e me- tê-las nos batéis. E lutavam com os nossos, e tomavam com prazer. E enquanto fazíamos a lenha, construíam dois carpinteiros uma grande cruz de um pau que se on- tem para isso cortara. Muitos deles vinham ali estar com os carpinteiros. E creio que o faziam mais para verem a ferramenta de ferro com que a faziam do que para verem a cruz, porque eles não têm coisa que de ferro seja, e cor- tam sua madeira e paus com pedras feitas como cunhas, metidas em um pau entre duas talas, mui bem atadas e por tal maneira que andam fortes, porque lhas viram lá. Era já a conversação deles conosco tanta que quase nos estorvavam no que havíamos de fazer. E o Capitão mandou a dois degredados e a Diogo Dias que fossem lá à aldeia e que de modo algum vies- sem a dormir às naus, ainda que os mandassem embora. E assim se foram. Enquanto andávamos nessa mata a cortar lenha, atra- vessavam alguns papagaios essas árvores; verdes uns, e pardos, outros, grandes e pequenos, de sorte que me pa- rece que haverá muitos nesta terra. Todavia os que vi não seriam mais que nove ou dez, quando muito. Outras aves não vimos então, a não ser algumas pombas-seixeiras, e pa- receram-me maiores bastante do que as de Portugal. Vários diziam que viram rolas, mas eu não as vi. Todavia segundo os arvoredos são mui muitos e grandes, e de infinitas es- pécies, não duvido que por esse sertão haja muitas aves! [...] Parece-me gente de tal inocência que, se nós enten- dêssemos a sua fala e eles a nossa, seriam logo cristãos, visto que não têm nem entendem crença alguma, segundo as aparências. E portanto se os degredados que aqui hão de ficar aprenderem bem a sua fala e os entenderem, não duvido que eles, segundo a santa tenção de Vossa Alteza, se farão cristãos e hão de crer na nossa santa fé, à qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque certamente esta gente é boa e de bela simplicidade. E imprimirse-á facilmente neles qualquer cunho que lhe quiserem dar, uma vez que Nosso Senhor lhes deu bons corpos e bons rostos, como a homens bons. E o Ele nos para aqui trazer creio que não foi sem causa. E portanto Vossa Alteza, pois tanto deseja acrescentar Atenção Revisando F R E N T E 2 297