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Exercícios propostos
1 Ufes 2015
Heroísmos
Eu temo muito o mar, o mar enorme,
Solene, enraivecido, turbulento,
Erguido em vagalhões, rugindo ao vento;
O mar sublime, o mar que nunca dorme.
Eu temo o largo mar rebelde, informe,
De vítimas famélico, sedento,
E creio ouvir em cada seu lamento
Os ruídos dum túmulo disforme.
Contudo, num barquinho transparente,
No seu dorso feroz vou blasonar,
Tufada a vela e n’água quase assente,
E ouvindo muito ao perto o seu bramar,
Eu rindo, sem cuidados, simplesmente,
Escarro, com desdém, no grande mar!
VERDE, Cesário. O livro de Cesário Verde. Disponível em: www.
dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000070.pdf.
Acesso em: 28 nov. 2017.
o mar mastiga a praia
 seus dentes, suas bocas
 seus lábios, suas línguas
o mar mastiga a praia
 com avidez de água viva
 faz barulho quando come
o mar mastiga a praia
 com seus segredos
 desinfeta pensamentos
 (essa lâmina oceano
 que assume rios e enseadas
 não carrega remorso
 de água parada)
 mar tem boca azul
 e línguas de ondas
 a lamber a areia
o mar mastiga a praia
 na maré mansa da manhã
 ele descansa
SALOMÃO, Douglas. Zero. Vitória: Secult, 2006. p. 57.
Os dois poemas citados, de Cesário Verde e de
Douglas Salomão, pertencem a contextos literários
distintos. Escolha um dos poemas, identique duas
marcas que lhe são próprias e justique sua resposta
com o próprio poema.
2 Uerj 2015
O primo Basílio
Ia encontrar Basílio no Paraíso pela primeira vez. E
estava muito nervosa: não pudera dominar, desde pela
manhã, um medo indefinido que lhe fizera pôr um véu
muito espesso, e bater o coração ao encontrar Sebastião.
Mas ao mesmo tempo uma curiosidade intensa, múltipla,
impelia-a, com um estremecimentozinho de prazer. − Ia,
enfim, ter ela própria aquela aventura que lera tantas vezes
nos romances amorosos! Era uma forma nova do amor que
ia experimentar, sensações excepcionais! Havia tudo − a
casinha misteriosa, o segredo ilegítimo, todas as palpitações
do perigo! Porque o aparato impressionava-a mais que o
sentimento; e a casa em si interessava-a, atraía-a mais que
Basílio! Como seria? [...] Desejaria antes que fosse no cam-
po, numa quinta, com arvoredos murmurosos e relvas fofas;
passeariam então, com as mãos enlaçadas, num silêncio
poético; e depois o som da água que cai nas bacias de pedra
daria um ritmo lânguido aos sonhos amorosos... Mas era
num terceiro andar − quem sabe como seria dentro? [...]
E ao descer o Chiado, sentia uma sensação deliciosa
em ser assim levada rapidamente para o seu amante, e
mesmo olhava com certo desdém os que passavam, no
movimento da vida trivial − enquanto ela ia para uma hora
tão romanesca da vida amorosa! [...] Imaginava Basílio
esperando-a estendido num divã de seda; e quase receava
que a sua simplicidade burguesa, pouco experiente, não
achasse palavras bastante finas ou carícias bastante exalta-
das. Ele devia ter conhecido mulheres tão belas, tão ricas,
tão educadas no amor! Desejava chegar num cupê seu,
com rendas de centos de mil-réis, e ditos tão espirituosos
como um livro...
A carruagem parou ao pé duma casa amarelada, com
uma portinha pequena. Logo à entrada um cheiro mole
e salobre enojou-a. A escada, de degraus gastos, subia
ingrememente, apertada entre paredes onde a cal caía, e
a umidade fizera nódoas. No patamar da sobreloja, uma
janela com um gradeadozinho de arame, parda do pó
acumulado, coberta de teias de aranha, coava a luz suja
do saguão. E por trás duma portinha, ao lado, sentia-se o
ranger dum berço, o chorar doloroso duma criança.
[...]
Luísa viu logo, ao fundo, uma cama de ferro com
uma colcha amarelada, feita de remendos juntos de chitas
diferentes; e os lençóis grossos, dum branco encardido e
mal lavado, estavam impudicamente entreabertos...
Queirós, Eça de. Obras de Eça de Queiroz. Porto: Lello & Irmão, s/d.
Quinta: pequena propriedade campestre;
Lânguido: sensual;
Chiado: bairro de Lisboa;
Cupê: antiga carruagem fechada;
Salobre: salgado;
Nódoas: manchas;
Impudicamente: sem pudor.
O texto apresenta o contraste entre o cenário
desejado pela personagem Luísa e aquele que ver-
dadeiramente encontrou. Transcreva duas frases da
narrativa: uma que expresse o desejo da personagem
e outra que indique a realidade encontrada.
3 Uerj 2019 O fragmento de texto apresentado nes-
ta prova foi retirado do romance O crime do padre
Amaro, de Eça de Queirós. (Lisboa: Imprensa Nacio-
nal-Casa da Moeda, 2000)
LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 7 Realismo: a desconstrução romântica214
Fragmento I
Ao outro dia, na cidade, falava-se da chegada do pá-
roco novo, e todos sabiam já que tinha trazido um baú de
lata, que era magro e alto, e que chamava padre-mestre
ao cónego Dias.
As amigas da S. Joaneira, − as íntimas – a D. Maria da
Assunção, as Gansosos, tinham ido logo pela manhã a casa
dela para se porem ao facto... Eram nove horas; Amaro saíra
com o cónego. A S. Joaneira, radiosa, importante, recebeu-
-as no alto da escada, de mangas arregaçadas, nos arranjos
da manhã; e imediatamente, com animação, contou a che-
gada do pároco, as suas boas maneiras, o que tinha dito...
Foi-lhes mostrar o quarto do padre, o baú de lata, uma
prateleira que lhe arranjara para os livros.(...)
A S. Joaneira ia mostrando as outras maravilhas do
pároco, − um crucifixo que estava ainda embrulhado num
jornal velho, o álbum de retratos, onde o primeiro cartão
era uma fotografia do Papa abençoando a cristandade.
Todas se extasiaram.
− É o mais que se pode, diziam, é o mais que se pode!
Ao sair, beijando muito a S. Joaneira, felicitaram-na
porque adquirira, hospedando o pároco, uma autoridade
quase eclesiástica.
(...)
Ao meio-dia veio o Libaninho, o beato mais activo
de Leiria; e subindo a correr os degraus, já gritava com a
sua voz fina:
− Ó S. Joaneira!
− Sobe, Libaninho, sobe, disse ela, que costurava à
janela.
− Então o senhor pároco veio, hem? perguntou o Li-
baninho, mostrando à porta da sala de jantar o seu rosto
gordinho cor de limão, a calva luzidia; e vindo para ela
com o passinho miúdo, um gingar de quadris:
− Então que tal, que tal? Tem bom feitio?
A S. Joaneira recomeçou a glorificação de Amaro:
a sua mocidade, o seu ar piedoso, a brancura dos seus
dentes...
− Coitadinho! Coitadinho! dizia o Libaninho, baban-
do-se de ternura devota. – Mas não se podia demorar, ia
para a repartição! – Adeus, filhinha, adeus! – E batia com
a sua mão papuda no ombro da S. Joaneira. – Estás cada
vez mais gordinha! Olha que rezei ontem a salve-rainha
que tu me pediste, ingrata!
A criada tinha entrado.
− Adeus, Ruça! Estás magrinha: pega-te com a Se-
nhora Mãe dos Homens. − E avistando Amélia pela porta
do quarto entreaberta: − Ai, que estás mesmo uma flor,
Melinha! Quem se salvava na tua graça bem eu sei!
E apressado, saracoteando-se, com um pigarrinho
agudo, desceu a escada rapidamente, ganindo:
− Adeusinho! Adeusinho, pequenas!
(CAPÍTULO IV)
Em O crime do padre Amaro, Eça de Queirós tece du-
ras críticas a alguns grupos da sociedade portuguesa
de ns de século XIX. Identique o grupo social que
é alvo da crítica do autor no fragmento I. Apresente,
também, um recurso expressivo empregado para
construir a crítica pretendida, ilustrando-o com um
exemplo extraído das falas do narrador.
4 FICSAE 2018 Jacinto, personagem de A Cidade e as
Serras, deixa Paris e vai para Tormes, em Portugal.
Lá vive em contato com o campo, em uma quinta
herdada de seus ancestrais. Sua presença desperta
curiosidade e suas ações contribuem para
A ser considerado a reencarnação de D. Sebastião,
que era aguardado por todos e que chegaria en-
volto em denso nevoeiro.
B ser chamado de “o pai dos pobres”, devido às re-
formas e às benfeitorias nas casas dos rendeiros e
ao atendimento dispensado à melhoria de condi-
ções de vida de seus empregados.
C revelá-lo como miguelista, da facção opressora do
povo português, e de esconder em sua casa a pes-
soa de D. Miguel, sob o disfarce de um criado.
D viver a experiência da natureza que tanto amava e
de adquirirconhecimento de agricultura no traba-
lho diuturno da terra.
5 Uepa 2012 A estética realista primou pela objetivação
e clareza na exposição dos fatos cotidianos. Esses
traços nortearam a intenção do autor de denunciar o
drama psicológico vivenciado pelo homem da época,
condicionado a viver em um mundo materialista, por
isso em Cesário Verde, poeta representativo desta
estética, é recorrente a referência ao mal-estar ante à
modernização da cidade. Analise os versos e identifi-
que a alternativa que comprove a afirmação.
A Milady, é perigoso contemplá-la,
Quando passa aromática e normal,
Com seu tipo tão nobre e tão de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.
B Quando eu via, invejoso, mas sem queixas,
Pousarem borboletas doidejantes
Nas tuas formosíssimas madeixas,
Daquela cor das messes lourejantes.
C Talvez já te não lembres com desgosto
Daquelas brancas noites de mistério,
Em que a Lua sorria no teu rosto
E nas lajes campais do cemitério.
D O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.
E Espreitam-te, por cima, as frestas dos celeiros;
O Sol abrasa as terras já ceifadas,
E alvejam-te, na sombra dos pinheiros,
Sobre os teus pés decentes, verdadeiros,
As saias curtas, frescas, engomadas.
6 Unifesp 2013 Leia os versos de Cesário Verde.
Duas igrejas, num saudoso largo,
Lançam a nódoa negra e fúnebre do Clero:
Nelas esfumo um ermo inquisidor severo,
Assim que pela história eu me aventuro e alargo.
Disponível em: <www.astormentas.com>. Acesso em: 28 nov. 2017.
F
R
E
N
T
E
 2
215
Em relação à Igreja, o eu lírico assume, nesses versos,
uma posição:
A anticlerical.
B submissa.
C evangelizadora.
D saudosista.
E ambígua.
7 PUC-RS 2014 Para responder à questão, leia o trecho
da obra de Eça de Queirós.
Daí a pouco as pessoas que estavam nas lojas vi-
ram atravessar a praça, entre a corpulência vagarosa do
cônego Dias e a figura esguia do coadjutor, um homem
um pouco curvado, com um capote de padre. Soube-se
que era o pároco novo; e disse-se logo na botica que era
uma “boa figura de homem”. [...] Eram quase nove horas,
a noite cerrara. Em redor da praça as casas estavam já
adormecidas: das lojas debaixo da arcada saía a luz triste
dos candeeiros de petróleo, entreviam-se dentro figuras
sonolentas, caturrando em cavaqueira, ao balcão. As ruas
que vinham dar à praça, tortuosas, tenebrosas, com um
lampião mortiço, pareciam desabitadas. E no silêncio o
sino da Sé dava vagarosamente o toque das almas.
Com base no trecho e em seu contexto, assinale a
única armativa incorreta.
A O trecho pertence à obra O crime do padre Ama-
ro, cujo enredo traz uma relação amorosa entre um
padre e uma mulher.
B Eça de Queirós, autor da obra Os Maias, pertenceu
à escola realista do século XIX e é considerado um
dos maiores escritores portugueses.
C O excerto apresenta uma característica do estilo
de Eça de Queirós: a capacidade descritiva, que
se evidencia quando o autor procura fotografar a
realidade.
D O trecho apresenta uma primeira repercussão da
chegada do novo pároco, já reforçando uma ima-
gem mais “carnal” do que “espiritual”.
E A obra à qual este trecho pertence apresenta um
olhar benevolente para a Igreja Católica.
8 UEL 2013 Sobre o romance O primo Basílio, de Eça de
Queirós, assinale a alternativa correta.
A A empregada Juliana desempenha papel secundá-
rio na trama, o que demonstra certo preconceito do
escritor para com as classes subalternas.
B A empregada Juliana desempenha papel de gran-
de relevância na narrativa, uma vez que é ela quem
desencadeia a crise central do romance.
C A empregada Juliana tem importância relativa na
história, pois vê tudo de perto, mas resolve não se
envolver, narrando apenas os fatos para o leitor.
D A amizade entre Luísa e Juliana dá continuidade
ao clichê romântico de que as empregadas contri-
buem para o adultério feminino.
E Os desentendimentos entre Luísa e Juliana ocor-
rem porque a protagonista se sente ameaçada
diante da beleza e do frescor da empregada.
9 Unesp 2012 Essa questão toma por base um fragmento
de uma crônica de Eça de Queirós (1845-1900) escrita
em junho de 1871.
Uma campanha alegre, IX
Há muitos anos que a política em Portugal apresenta
este singular estado:
Doze ou quinze homens, sempre os mesmos, alterna-
damente possuem o Poder, perdem o Poder, reconquistam
o Poder, trocam o Poder... O Poder não sai duns certos
grupos, como uma pela que quatro crianças, aos quatro
cantos de uma sala, atiram umas às outras, pelo ar, num
rumor de risos.
Quando quatro ou cinco daqueles homens estão no
Poder, esses homens são, segundo a opinião, e os dizeres
de todos os outros que lá não estão – os corruptos, os
esbanjadores da Fazenda, a ruína do país!
Os outros, os que não estão no Poder, são, segundo
a sua própria opinião e os seus jornais – os verdadeiros
liberais, os salvadores da causa pública, os amigos do
povo, e os interesses do país.
Mas, coisa notável! – os cinco que estão no Poder
fazem tudo o que podem para continuar a ser os esbanja-
dores da Fazenda e a ruína do país, durante o maior tempo
possível! E os que não estão no Poder movem-se, conspi-
ram, cansam-se, para deixar de ser o mais depressa que
puderem – os verdadeiros liberais, e os interesses do país!
Até que enfim caem os cinco do Poder, e os outros, os
verdadeiros liberais, entram triunfantemente na designação
herdada de esbanjadores da Fazenda e ruína do País; em
tanto que os que caíram do Poder se resignam, cheios
de fel e de tédio – a vir a ser os verdadeiros liberais e os
interesses do país.
Ora como todos os ministros são tirados deste grupo
de doze ou quinze indivíduos, não há nenhum deles que
não tenha sido por seu turno esbanjador da Fazenda e
ruína do País...
Não há nenhum que não tenha sido demitido, ou
obrigado a pedir a demissão, pelas acusações mais graves
e pelas votações mais hostis...
Não há nenhum que não tenha sido julgado incapaz
de dirigir as coisas públicas – pela imprensa, pela palavra
dos oradores, pelas incriminações da opinião, pela afir-
mativa constitucional do poder moderador...
E todavia serão estes doze ou quinze indivíduos os
que continuarão dirigindo o país, neste caminho em que
ele vai, feliz, abundante, rico, forte, coroado de rosas, e
num chouto tão triunfante!
QUEIRÓS, Eça de. Obras. Porto: Lello & Irmão-Editores, [s.d.].
Pela: bola;
Chouto: trote miúdo.
Considere as frases com relação ao que se arma na
crônica de Eça de Queirós:
I. Os que estão no poder não querem sair e os que
não estão querem entrar.
II. Quando um partido ético está no poder, tudo fica
melhor.
III. Os governantes são bons e éticos, mas vivem a
trocar acusações infundadas.
LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 7 Realismo: a desconstrução romântica216

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