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Universidade Federal Rural do Semi-Árido Departamento de Ciências Ambientais e Tecnológicas Curso de Ecologia Disciplina: Cartografia Ambiental Francisco de Assis de Oliveira Fotogrametria e Fotointerpretação INTRODUÇÃO O planejamento de qualquer atividade que de alguma forma se relaciona com o espaço físico que habitamos requer, inicialmente, o conhecimento deste espaço. Neste contexto, torna-se necessária alguma forma de visualização da porção da superfície física do planeta, onde desejamos desenvolver nossas atividades. Para alcançar este objetivo, lançamos mão de um processo de representação da superfície terrestre, superfície irregular, sobre uma superfície plana, folha de papel ou monitor de vídeo. Fotogrametria: • ... ciência e tecnologia de obter informações confiáveis através de processos de registro, interpretação e mensuração de imagens (ANDRADE, 1998). • ... arte, ciência e tecnologia de se obter informações confiáveis de objetos físicos e do meio ambiente através de fotografias, por medidas e interpretação de imagens e objetos (WOLF, 1983). • A Fotogrametria é a técnica que permite o estudo e a definição das formas, das dimensões e da posição de objetos no espaço, utilizando-se de medições obtidas a partir de fotografias ou imagens raster. A Fotogrametria pode ser dividida em duas áreas (ROCHA, 2000): • Fotogrametria Métrica: envolve medidas precisas e computacionais para determinar a forma e as dimensões dos objetos. Aplicada na elaboração de mapas planimétricos e topográficos. Ou... • Fotogrametria interpretativa: ocupa-se com o reconhecimento e identificação dos objetos. Existe uma gama enorme de aplicações através da utilização da fotogrametria, dentre elas destaca-se a elaboração de mapas em colaboração com outras ciências como a Geodésia e a Cartografia. Podemos citar com exemplo a elaboração de mapeamentos como: • Rede de drenagem • Cobertura vegetal • Culturas vegetais • Rede viária • Feições geológicas • Tipos de solos • Uso ocupação do solo De acordo com a posição da câmera podemos definir também dois tipos de fotografias. A Fotogrametria Terrestre, que consiste nas atividades de captação de dados gráficos por meio da Fotogrametria utilizando como sensor uma câmara métrica terrestre (Figura 1). Figura 1. Exemplo de fotografia terrestre A Aerofotogrametria é uma técnica que tem como objetivo elaborar mapas mediante fotografias aéreas tomadas com câmaras aero-transportadas, com o eixo ótico posicionado na vertical ou diagonal, utilizando-se aparelhos e métodos para se obter produtos estereoscópicos (Figura 2). Figura 15: Exemplo de fotogrametria aérea. TIPOS DE FOTOGRAFIAS AÉREAS As fotografias aéreas são classificadas segundo diversos critérios. Para os objetivos aqui propostos, só será utilizada a classificação quanto à geometria, ou seja, orientação do eixo da câmera. Nesta classificação apontam-se as fotografias verticais e oblíquas. Fotos aéreas verticais Nesta fotografia, o eixo ótico da câmera coincide com a vertical do lugar fotografado, no momento da tomada da foto. As fotografias verticais são largamente usadas na confecção de bases de dados digitais para Geoprocessamento (Figura 3). Figura 3. Representação da tomada de uma fotografia aérea vertical Suas vantagens sobre as fotos obliquas são a obtenção de medidas facilmente através das relações geométricas e a detecção e o reconhecimento de objetos facilitados pelo fato de a forma da imagem estar mais próxima do real. A desvantagem é que as fotos não apresentam uma perspectiva ortogonal, como no caso das cartas topográficas. Fotografias aéreas oblíquas São aquelas feitas com o eixo da câmera intencionalmente direcionado entre a horizontal e a vertical. O ângulo normalmente oscila entre 90º e 270º para as fotografias aéreas, podendo ser maior nas fotografias ou imagens tomadas por satélites. As fotografias oblíquas admitem uma subclassificação em oblíqua alta e oblíqua baixa. Observa-se que os termos alta (Figura 4) e baixa (Figura 5) não se referem à elevação do avião sobre o terreno, mas apenas ao ângulo de inclinação do eixo ótico da câmera com relação à vertical. Figura 4. Representação da tomada de uma fotografia aérea oblíqua alta. Figura 5. Representação da tomada de uma fotografia aérea oblíqua baixa. TOMADA DAS FOTOGRAFIAS A tomada de fotografias requer um planejamento bem elaborado a fim de que os objetivos sejam alcançados. É importante estabelecer informações sobre: • A Câmera; • Aeronave e sua autonomia de vôo; • Altura e altitude de vôo, de acordo com a escala; • Número de aerofotos em cada faixa; • Número de faixas; • Quantidade e tipo de filme; • Tempo de exposição; • Abertura do diafragma; • Filtros; • Intervalo de tempo entre duas fotos; • Elementos para a navegação; ALTURA E ALTITUDE DE VÔO Este tema esbarra em áreas como: a escala das aerofotos, o limite de precisão e a ordem econômica, ou seja, custos. Para fins cartográficos, a relação entre a escala do mapa e a escala das fotografias deve equilibrar os requisitos econômicos com os de precisão. A partir da precisão necessária é possível calcular a escala das aerofotos. Vejamos um exemplo. Se as aerofotos se destinam ao traçado de curvas de nível com eqüidistância de 1m, a precisão do aerolevantamento deverá ser a metade deste valor, ou seja, 50cm de equidistância e o cálculo da escala será baseado não na altitude do terreno e sim no desvio padrão das altitudes do terreno a ser fotografado. O que seria mais interessante para nós geógrafos no momento? Seria a tomada de aerofotos com finalidade específica de fotointerpretação de um tema particular. Neste caso a escala deverá obedecer outros critérios. Vejamos! Uma vez definida a escala necessária das aerofotos, a altura do vôo poderá ser calculada através da seguinte equação (Figura 6). Figura 6. Esquema representado a fórmula de cálculo da escala de vôo Onde: • E – escala; • d – tamanho da fotografia; • D – extensão fotografada; • c – distância focal da câmera; • H – altura do vôo (profundidade de campo). Lembrando que este valor de altura será calculado a partir da média entre a menor e a maior altitude do terreno a ser fotografado. No caso de levantamentos para fins de fotointerpretação é claro. Vamos ver na prática. Se temos uma câmera com 150mm de distância focal e precisamos de fotografias com escala de 1:10.000, qual a altura do vôo necessário? E quando se tem as fotografias e precisa-se calcular a escala? Se tivermos um vôo realizado com câmera de distância focal de 150mm a uma altura de 6.000m, qual seria a escala da fotografia? RECOBRIMENTO E INTERVALO DE TEMPO ENTRE DUAS EXPOSIÇÕES As fotografias aéreas devem ser tomadas sempre com elevação do sol superior a 30º, em dias claros, nos quais as condições climáticas sejam tais que permitam fazerem-se negativos fotográficos claros e bem nítidos, isto é, bem contrastados. O recobrimento é feito em exposições sucessivas ao longo de uma direção de vôo. Essa sucessão é feita em intervalos de tempo tal que, entre duas fotografias haja uma superposição longitudinal e outra transversal. Vejamos (Figura 7). Figura 7. Esquema representativo das faixas de sobreposição lateral e longitudinal durante o sobrevôo. As fotografias são tomadas em faixas que se superpõem em cerca de 30% - recobrimento ou superposição lateral (Figura 8). Figura 8. Representação do recobrimento lateral durante o sobrevôo. Entre as fotografias da mesma faixa a superposição deve ser em torno de 60% de recobrimento (ou superposição longitudinal) (Figura 9). Figura 9. Representação do recobrimento longitudinal durante o sobrevôo. Observa-se que a superposição longitudinal das aerofotos é necessário para garantir o exameestereoscópico. Como se calcula isso tudo? O cálculo do número de faixas ou linhas de vôo a fim de recobrir toda a área de estudo é necessário e é feito através de um número de faixas com um número exato de fotografias por faixa. Vejamos como calcular o número de faixas e a quantidade de fotos requeridas para cobrir uma área de 20km de largura, no sentido leste-oeste, por 33km de comprimento, no sentido norte-sul? Note que: • a escala das fotos serão de 1:30.000; • o formato das fotos serão de 23 x 23cm; • o recobrimento lateral será de 30%; • o recobrimento longitudinal será de 60%; • a linha de vôo será no sentido leste-oeste. Bom, a área abrangida por cada foto com 23 x 23cm, na escala de 1:30.000, calculada através da regra de três é: • 1cm (na foto) = 30.000cm (no terreno) • 23cm (na foto) = x cm (no terreno) • X = 690.000cm = 6.900m = 6,9km Portanto, cada foto de 23 x 23cm abrangerá 6,9 x 6,9km no terreno. Para se calcular a quantidade de faixas a serem percorridas pelo avião, considera-se que cada foto dentro de uma faixa de vôo deverá ser recoberta pela adjacente, da outra faixa, em 30%. Restará então 70% de cada foto de 6,9 x 6,9km. Desta forma, se o recobrimento de 100% é de 6,9km, o recobrimento dos 70% restantes será 4,83km. Considerando uma distância de 33km no sentido norte-sul e que o vôo será realizado no sentido lesteoeste, tem-se que o número de faixas ou linhas de vôo será dado pelo quociente 33km / 4,83km. Então, o número de fotos será 6,83 e por medida de segurança arredonda-se para 7 e acrescenta-se uma faixa em cada extremidade para que as faixas extremas tenham garantia de recobrimento, ou seja, mais 4 faixas, totalizando 11 faixas. E o número de fotografias por faixa longitudinal? Para se calcular o número de fotos por faixa de 20km de extensão, no sentido leste-oeste, e levando-se em consideração uma sobreposição, para efeito de estereoscopia, de 60% entre cada foto, conclui-se que restará somente 40% efetivo por foto a ser avaliado. Assim sendo, tem-se: • Recobrimento de 100% = 6,9km • Recobrimento de 40% = xkm • x = 2,76km realmente cobertos pela foto. Desta forma, o número de fotos será dado através do quociente entre a distância total da faixa no sentido leste-oeste pela área efetiva recoberta pela foto: • 20km / 2,76km = 7,24 fotos por faixa. • Arredonda-se para 8 fotos por faixa. Porém, por medida de segurança, acrescenta-se, ainda mais uma foto por faixa (8+1=9 fotos) tendo em vista que a primeira não é recoberta por nenhuma outra. Isto ocorre em função da necessidade de haver sobreposição para que possibilite a realização da estereoscopia na primeira fotografia de cada faixa também. Observa-se que o total de fotos para cobrir uma área de 20km por 33km será o número de faixas vezes o número de fotos, ou seja, 11 faixas x 9 fotos por faixa = 99 fotos. Contudo, não podemos deixar de considerar que o recobrimento longitudinal depende também do intervalo de tempo de cada disparo da máquina fotográfica. De uma maneira simplificada para se medir este tempo, adota-se a equação Onde: • ΔT é o intervalo de tempo; • B é a distância percorrida pela aeronave entre a tomada de duas fotos; • V é a velocidade da aeronave. ARRASTAMENTO DA IMAGEM Outra característica importante a ser considerada é o Arrastamento da Imagem. O efeito de arrastamento na fotografia decorre do movimento da aeronave durante o tempo de exposição do filme. É claro que nos dias de hoje com a modernização dos equipamentos, já existem dispositivos que tentam equilibrar o máximo possível o equipamento para que este efeito seja minimizado ao máximo. Alguns outros fatores também influenciarão neste arrastamento, como: • A altura da aeronave sobre o ponto considerado no terreno; • Terrenos com alterações agudas de altitude sempre ocorrerá arrastamento das porções mais altas da imagem; • Condições de turbulência aérea também ocasionarão arrastamento da imagem. Observa-se que sempre ocorrerá arrastamento, mesmo que mínimo. O que interessa é que este arrastamento não fuja ao padrão aceitável pelas normas cartográficas. CONDIÇÕES ATMOSFÉRICAS O planejamento para um levantamento fotogramétrico completo de uma área, deve levar em consideração diversos fatores a fim de que se possa realmente cobrir a totalidade do terreno sem perdas nem grandes sombras. Para isso, também torna-se necessário algumas informações referentes à localização e às características geográficas da área a ser levantada. Deve-se observar as condições meteorológicas e climatológicas a fim de evitar nebulosidade. Geralmente o número de dias impróprios se agrupam numa determinada parte do ano. Se possível lançar mão do uso de Cartas Meteorológicas locais. Nos dias ensolarados, sem nuvens, é importante a hora para a obtenção de boas fotos. Observar também o horário para a tomada das fotos, em geral entre 9h e 15h para que sejam evitados efeitos desagradáveis de sombreamento. A presença de sombras compridas pode obscurecer muito algumas feições. Por outro lado, pequenas sombras podem gerar efeitos desejáveis aumentando a quantidade de informações na imagem. Observa-se que fora das regiões tropicais sempre haverá sombras. Porém, nas regiões tropicais poderá haver reflexão da luz solar nas camadas atmosféricas diminuindo o contraste das fotografias. Este fenômeno será diretamente proporcional à quantidade de umidade suspensa no ar, limitando o horário de vôo aos que o Sol não esteja em posição zenital. Em regiões de baixa umidade este horário poderá ser ampliado, desde que se respeite a altitude das montanhas para não se gerar sombras muito extensas e também, dependendo da altura do avião, a geração da sombra da própria aeronave. O PROCESSO DE FOTOINTERPRETAÇÃO Fases da fotointerpretação O Processo de fotointerpretação é integrado aos objetivos do trabalho e depende de diversos fatores como: • o fotointérprete; • o propósito, objetivo ou finalidade da fotointerpretação; • as fotografias disponíveis; • o instrumental utilizado; • a escala e prescrições do mapa; • A correlação terrestre ou outros levantamentos existentes (bibliografia, mapas ou sensores remotos). Ou seja, qualquer processo interpretativo pode ser desenvolvido através de fases comuns, que são adaptadas a cada tipo de trabalho. Trabalhos preliminares: Realizar a caracterização da área do conhecimento que se destina o trabalho, como Geologia, Geomorfologia, Uso e Ocupação, Planejamento, etc. e delineação bem clara dos objetivos. Coleta de material: Definição da área de trabalho, coleta das fotografias de cobertura da região e de outras informações de apoio como mapas, imagens, fotos, bibliografia, seguida da definição do equipamento de trabalho e avaliação dos dados coletados. Processo de interpretação propriamente: O processo de interpretação envolve 6 etapas distintas. • detecção; • reconhecimento e identificação; • delimitação; • análise; • classificação; • conclusão. Detecção: Está diretamente relacionada com a visibilidade dos objetos na fotografia, além do tipo de objeto, objetivos da interpretação, escala da foto, qualidade da fotografia (resolução, nitidez, contraste, etc) e do conhecimento do assunto por parte do fotointérprete. Em seguida realiza-se o exame geral da região, onde é feita a seleção dos objetos ou elementos de acordo com a prioridade ou importância estabelecida para o trabalho de fotointerpretação, seguida pelo reconhecimento e a identificação, sendo que estes três elementos devem inclusive ser avaliados em conjunto. A separação da detecção é relevante, por estar intimamente ligada à qualidade da imagem observada. Vejamos um exemplo através da figura 10. Figura 10. Detecção de entidades diferenciadas na fotografia Figura 11. Exemplo de Reconhecimento e Identificaçãode elementos na fotografia aérea. Figura 12. Exemplo de delimitação de grupos homogêneos detectados na fotografia. Figura 13: Representação da separação de conjuntos de áreas homegêneas. Figura 14. Representação do processo de classificação dos conjuntos de áreas homogêneas. Figura 15. Exemplo de mapeamento resultado de processo de fotointerpretação RECONHECIMENTO E IDENTIFICAÇÃO São considerados em conjunto, por não terem fronteiras definidas. Após a avaliação dos fatores que permitem reconhecer e concluir o reconhecimento faz-se a identificação. É um processo similar à leitura de uma frase: resumem- se os elementos necessários para o sentido e a compreensão do seu significado. Observa-se que a leitura de fotos não se constitui no processo de identificação. É definida como sendo o reconhecimento de um objeto ou elemento diretamente visível por meio de conhecimento específico do local, ou com auxílio ou não de meios complementares, como a estereoscopia ou visita de campo. Estabelece-se com o reconhecimento e a identificação a resposta à pergunta: “O que é” o objeto ou elemento (Figura 11). DELIMITAÇÃO Nesta fase, agrega-se os elementos e objetos em conjuntos, que poderão fornecer dados concretos para a análise. Todos os indícios são importantes para que sejam classificados segundo graus de confiabilidade. É importante não classificar os grupos detectados ainda e após estabelecida a individualidade do grupo, deixa-se a identidade para a classificação (Figura 12). ANÁLISE É um processo dedutivo. Fundamenta-se na convergência de fatores, derivada pela observação dos elementos diretamente e os indícios verificados no estágio anterior. Nesta etapa em que se diferencia ou separa grupos de objetos, como também agrupa-los. Todo processo dedutivo, fundamenta-se mais nas evidências do que na observação direta, ou seja, é a fase em que se permite a conclusão da classificação. É importante se atentar que o processo dedutivo (análise) somente termina após estudo de todos os indícios e evidências (Figura 13). CLASSIFICAÇÃO Esta fase subdivide-se em 3 fases: • descrição da área; • organização da área numa estrutura adequada às investigações de campo; • codificação em convenções para a expressão das informações. Neste momento se estabelece a identidade dos elementos contidos na área e delineados pela delimitação e pela análise como a natureza dos objetos, como casas, rios, estradas, classes geomorfológicas, tipos de vegetação, óbvio que no caso de serem visíveis. No caso de elementos não muito visíveis, como solos, aspectos humanos, etc., efetua-se em termos dos elementos e sistemas visíveis. Uma classificação segura só pode ser executada com o auxílio de trabalhos de campo (verdade terrestre), sendo que a correta interpretação em escritório pode diminuir as idas a campo, mas não evitá-la. Quando utilizadas, as codificações em convenções devem seguir as normas cartográficas que existam (topografia, geologia, pedologia, etc). No caso de estudos que não possuam convenções associadas, deve-se agrupar os elementos e desenvolver uma tabela de convenções para serem aplicadas de forma sistemática e padronizada. Deve ser evitada uma convenção para cada trabalho relativo à mesma área de conhecimento, procurando adotar convenções já existentes (Figura 14). CONCLUSÃO É o coroamento do trabalho, ou seja, é o relatório final seguido do mapeamento da região (Figura 15).