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Integrantes do movimento social Occupy se manifestam em praça em Washington, capital dos Estados Unidos, em formação que representa o lema do movimento (“Nós somos 99%”), em 2011. O grupo protesta contra os grandes conglomerados financeiros, os governos e os bancos envolvidos com a crise financeira mundial, iniciada em 2008. capítulo 26 A existência ética Muitas vezes tomamos conhecimento de movimentos contra a desigualdade social. Ficamos sabendo que, em outros países e no Brasil, milhões de pessoas estão desempregadas e foram prejudicadas pelas crises econômicas e pela concentração da riqueza nas mãos de poucos. Sentimo-nos enganados e, por isso, ficamos indignados. Outras vezes, movidos pela solidariedade, engajamo-nos em campanhas contra a desigualdade social, a pobreza e a corrupção. Esses sentimentos e as ações desencadeadas por eles exprimem a maneira como avaliamos nossa situação e a de nossos semelhantes. Mas como distinguimos o certo e o errado, o justo e o injusto? De onde se originam nossas ideias de bem e de mal, de vício e de virtude? unidade X A ética J o h n Q u ig le y /S p e c tr a l Q 254 INI.FILOSOFIA_FILOS_VU_PNLD15_254a261_U10_C26.indd 254 5/9/13 3:43 PM A existência ética ca pí t u lo 2 6 255 Senso moral Em muitas ocasiões, ficamos contentes e emociona- dos diante de uma pessoa cujas palavras e ações mani- festam honestidade, honradez, espírito de justiça, altruís mo. Sentimos que há grandeza e dignidade nessa pessoa. Sentimos admiração por ela e desejamos imitá- -la. Tais emoções e sentimentos exprimem nosso sen- so moral, isto é, a maneira como avaliamos a condu- ta e a ação de outras pessoas segundo ideias como as de mérito e grandeza de alma. Não raras vezes somos tomados pelo horror diante da violência: chacina de seres humanos e animais, lin- chamentos, assassinatos brutais, estupros, genocídio e torturas. Com frequência ficamos indignados ao saber que um inocente foi injustamente acusado e condena- do, enquanto o verdadeiro culpado permanece impu- ne. Esses sentimentos também manifestam nosso senso moral, ou a maneira como avaliamos as con- dutas alheias segundo as ideias de justiça e injustiça. Outras vezes convivemos com situações de extrema aflição e angústia. Por exemplo, uma pessoa querida, com uma doença terminal, está viva apenas porque seu corpo está ligado a máquinas. Inconsciente, geme no sofrimento. Não seria melhor que descansasse em paz? Podemos desligar os aparelhos? Ou não temos o direito de fazê-lo? Que fazer? Qual a ação correta? Uma jovem descobre que está grávida. Sente que seu corpo e seu espírito ainda não estão preparados para a gravidez. Sabe que seu parceiro, mesmo que de- seje apoiá-la, é tão jovem e despreparado quanto ela para enfrentar a gestação, o parto e a criação do filho. Ambos não sabem se poderão contar com o auxílio de suas famílias (se as tiverem). Se ela for apenas estudante, terá de deixar a escola para trabalhar, a fim de arcar com as despesas da criança. Sua vida e seu futuro mu- darão para sempre. Se trabalha, receia perder o empre- go, porque vive numa sociedade na qual muitas empre- sas e instituições comerciais discriminam as mulheres grávidas, sobretudo as solteiras. Ao mesmo tempo, po- rém, deseja a criança, embora tema dar-lhe uma vida de miséria. Pode fazer um aborto? Deve fazê-lo? Um pai de família desempregado, com vários filhos pequenos e a esposa doente, recebe uma oferta de em- prego que exige que seja desonesto e cometa irregulari- dades que beneficiem seu patrão. Sabe que o trabalho lhe permitirá sustentar os filhos e pagar o tratamento da esposa. Pode aceitar o emprego? Ou deve recusá-lo e ver os filhos com fome e a mulher morrendo? Uma pessoa vê, nas portas de uma escola, um jovem vendendo droga a um outro. Essa pessoa sabe que as ações tanto do jovem traficante como do jovem consu- midor são decorrentes da atividade do crime organiza- do, contra o qual as forças policiais parecem impoten- tes. Ela deve denunciar o jovem traficante, mesmo sabendo que com isso não atingirá as poderosas forças que sustentam o tráfico e que poderão voltar-se contra quem fez a denúncia? Ou deve falar com as autoridades escolares para que tomem alguma providência com re- lação ao jovem consumidor? De que adiantará voltar-se contra o consumo, se nada pode fazer contra a venda propriamente dita? No entanto, como poderá sentir-se em paz sabendo que há um jovem que talvez possa ser salvo de um vício que irá destruí-lo? Que fazer? O casal de extrativistas e ambientalistas José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva, assassinado em maio de 2011, em Nova Ipixuna, no Pará. As investigações da Polícia Federal apontam que o crime foi cometido a mando de fazendeiros. Foto de 2010. F e li p e M il a n e z /R e u te rs /L a ti n s to c k INI.FILOSOFIA_FILOS_VU_PNLD15_254a261_U10_C26.indd 255 5/9/13 3:43 PM A ética u n id a d e X 256 Consciência moral Situações como essas surgem a todo momento em nossa vida. Nossas dúvidas quanto à decisão a tomar não manifestam nosso senso moral, mas põem à pro- va nossa consciência moral, pois exigem que decida- mos, por nossa conta, o que fazer, que justifiquemos para nós mesmos e para os outros as razões de nos- sas decisões e que assumamos todas as consequên- cias delas. Em outras palavras, a consciência moral não se limita aos nossos sentimentos morais, mas se refere também a avaliações de conduta que nos levam a to- mar decisões por nós mesmos, a agir em conformidade com elas e a responder por elas perante os outros. Os exemplos mencionados indicam que o senso mo- ral e a consciência moral referem-se a valores (justiça, honradez, espírito de sacrifício, integridade, generosida- de), a sentimentos provocados pelos valores (admiração, vergonha, culpa, remorso, contentamento, cólera, amor, dúvida, medo) e a decisões que trazem consequências para nós e para os outros. Embora os conteúdos dos va- lores variem, podemos notar que se referem a um valor mais profundo, mesmo que apenas subentendido: o bom ou o bem. mesmos, seja por recebermos a aprovação dos outros. Além disso, os sentimentos e as ações morais têm como pressuposto fundamental a ideia de liberdade do agente. O senso moral e a consciência moral dizem respeito a valores, sentimentos, intenções, decisões e ações refe- ridos ao bem e ao mal, ao desejo de felicidade e ao exer- cício da liberdade. Dizem respeito às relações que man- temos com os outros e, portanto, nascem e existem como parte de nossa vida com outros agentes morais. O senso e a consciência morais são por isso constituti- vos de nossa existência intersubjetiva, isto é, de nossas relações com outros sujeitos morais. Juízo de fato e juízo de valor Se dissermos: “Está chovendo”, estaremos enuncian- do um acontecimento constatado por nós, e o juízo proferido é um juízo de fato. Se, porém, falarmos: “A chuva é boa para as plantas” ou “A chuva é bela”, estare- mos interpretando e avaliando o acontecimento. Nesse caso, proferimos um juízo de valor. Juízos de fato são aqueles que dizem o que as coi- sas são, como são e por que são. Em nossa vida coti- diana, mas também na metafísica e nas ciências, os juízos de fato estão presentes. Diferentemente deles, os juízos de valor são avaliações sobre coisas, pessoas, situações, e são proferidos na moral, nas artes, na po- lítica, na religião. Juízos de valor avaliam coisas, pessoas, ações, ex- periências, acontecimentos, sentimentos, estados de espírito, intenções e decisões como bons ou maus, desejáveis ou indesejáveis. Não se contentam em dizer como algo é, mas se referem a que algo deve ser. Dessa perspectiva, os juízos morais de valor são nor- mativos, isto é, enunciam normas que dizem como de- vem ser os bons sentimentos, as boas intençõese as boas ações, e como devem ser as decisões e ações livres. São normas que determinam o dever ser de nossos sen- timentos e de nossos atos. São por isso juízos que enun- ciam obrigações e avaliam intenções e ações segundo o critério do correto e do incorreto. Os juízos morais de valor nos dizem o que são o bem, o mal, a liberdade, a felicidade. Os juízos morais norma- tivos nos dizem que sentimentos, intenções, atos e comportamentos devemos ter ou fazer para agirmos livremente e para alcançarmos o bem e a felicidade. Enunciam também que atos, sentimentos, intenções e comportamentos são condenáveis ou incorretos do ponto de vista moral. Nina (2004), adaptação cinematográfica de Heitor Dhalia para o romance Crime e castigo, de Fiódor Dostoiévski. Sem dinheiro e sujeita a humilhações diárias por parte da mulher que lhe aluga um quarto, Nina se vê atormentada por questões morais. Os sentimentos e as ações, nascidos de uma opção entre o bom e o mau ou entre o bem e o mal, também se referem a algo mais profundo e subentendido: nosso desejo de afastar a dor e o sofrimento e de alcançar a felicidade, seja por ficarmos contentes conosco G u ll a n e /C o lu m b ia T r is ta r INI.FILOSOFIA_FILOS_VU_PNLD15_254a261_U10_C26.indd 256 5/9/13 3:43 PM A existência ética ca pí t u lo 2 6 257 Como se pode observar, senso moral e consciência moral são inseparáveis da vida cultural, uma vez que esta define para os membros de uma cultura os valores positivos e negativos que devem respeitar e desejar ou detestar e desprezar. Qual a origem da diferença entre juízos de fato e de valor? A diferença entre natureza e cultura. A primei- ra é constituída por estruturas e processos necessários, que existem em si e por si mesmos, independentemente de nós: a chuva, por exemplo, é um fenômeno meteoro- lógico cujas causas e efeitos necessários não dependem de nós e que apenas podemos constatar e explicar. Por sua vez, a cultura nasce da maneira como os se- res humanos interpretam a si mesmos e suas relações com a natureza, alterando-a por meio do trabalho e da técnica, dando-lhe significados simbólicos e valores. Dizer que a chuva é boa para as plantas pressupõe a relação cultural dos humanos com a natureza por Ponte Newton Navarro, em Natal, capital do Rio Grande do Norte, durante dia de chuva em 2011. A chuva, obra do artista plástico carioca Oswaldo Goeldi. R e p ro d u ç ã o /A rq u iv o d a e d it o ra F ra n k ie M a rc o n e /F u tu ra P re s s intermédio da agricultura. Considerar a chuva bela pressupõe uma relação valorativa dos humanos com a natureza. A chuva é natural; que seja boa ou bela é uma avaliação ou interpretação cultural. Frequentemente, não notamos a origem cultural dos valores morais, do senso moral e da consciência moral porque somos educados neles e para eles, como se fossem naturais, existentes em si e por si mesmos. Para garantir a manutenção dos padrões morais através do tempo e sua continuidade de geração a geração, as sociedades tendem a naturalizá-los. A naturalização da existência moral esconde, por- tanto, a essência da ética: o fato de ela ser criação histó- rico-cultural. Para reconhecermos isso, basta conside- rarmos a própria palavra moral: ela vem de uma palavra latina, mos, moris, que quer dizer ‘o costume’, portanto, os hábitos instituídos por uma sociedade em condições históricas determinadas. INI.FILOSOFIA_FILOS_VU_PNLD15_254a261_U10_C26.indd 257 5/9/13 3:43 PM A ética u n id a d e X 258 Ética e violência Quando acompanhamos a história das ideias éticas, desde a Antiguidade até nossos dias, podemos per- ceber que, em seu centro, encontra-se o problema da violência e dos meios para evitá-la e controlá-la. Dife- rentes formações sociais e culturais instituíram con- juntos de valores éticos como padrões de conduta, de relações intersubjetivas e interpessoais, de com- portamentos sociais que pudessem garantir a segu- rança física e psíquica de seus membros e a conser- vação do grupo social. Evidentemente as várias culturas e sociedades não definiram nem definem a violência da mesma maneira. No entanto, malgrado as diferenças, certos aspectos da violência são percebidos da mesma maneira nas várias culturas e sociedades, formando o fundo comum con- tra o qual os valores éticos são erguidos. Fundamentalmente, a violência é percebida como exercício da força física e da coação psíquica para obri- gar alguém a fazer alguma coisa contrária aos seus inte- resses e desejos, contrária ao seu corpo e à sua cons- ciência, causando-lhe danos profundos e irreparáveis como a morte, a loucura, a autoagressão ou a agressão aos outros. Quando uma cultura e uma sociedade definem o que entendem por mal, crime e vício, definem aquilo que jul- gam violência contra um indivíduo ou contra o grupo. Simultaneamente, erguem os valores positivos — o bem, o mérito e a virtude — como barreiras éticas contra a violência. Revista de passageiros em ônibus urbano no Rio de Janeiro, fotografia de João Noronha para o jornal O Estado de S. Paulo, em 1991. Ainda hoje, é alto o registro de casos de abuso de poder por parte de autoridades policiais no Brasil. Em nossa cultura, a violência é entendida como vio- lação da integridade física e psíquica, da dignidade hu- mana de alguém. Eis por que o assassinato, a tortura, a injustiça, a mentira, o estupro, a calúnia, a má-fé, o rou- bo são considerados violência, imoralidade e crime. Também consideramos violência a profanação das coi- sas sagradas e a discriminação social e política e a agressão de pessoas por causa de suas crenças, convic- ções ou orientação sexual. Nossa humanidade reside no fato de sermos racio- nais, dotados de vontade livre, de capacidade para a co- municação e para a vida em sociedade, para interagir com a natureza e com o tempo. Consequentemente, nossa cultura e sociedade nos definem como sujeitos do conhecimento e da ação, localizando a violência em tudo aquilo que reduz um sujeito à condição de objeto. Do ponto de vista ético, somos pessoas e não pode- mos ser tratados como coisas, como seres inertes, irra- cionais, destituídos de linguagem e de liberdade. Os valores éticos se oferecem, portanto, como expressão e garantia de nossa condição de seres humanos ou de sujeitos racionais e agentes livres, proibindo moral- mente a violência. Ao definir e afastar formas de violência, uma cultura e uma sociedade nos fazem perceber que a moral pres- supõe uma distinção fundamental: aquela entre o per- mitido e o proibido. A ética é normativa exatamente por isso: suas normas determinam permissões e proibi- ções e visam impor limites e controles ao risco perma- nente da violência. J o ã o N o ro n h a /A g ê n c ia E s ta d o INI.FILOSOFIA_FILOS_VU_PNLD15_254a261_U10_C26.indd 258 5/9/13 3:43 PM A existência ética ca pí t u lo 2 6 259 Os constituintes do campo ético Para que haja conduta ética é preciso que exista o agente consciente, isto é, aquele que conhece a diferença entre bem e mal, certo e errado, permitido e proibido, vir- tude e vício. A consciência moral não só conhece tais dife- renças mas também se reconhece como capaz de julgar o valor dos atos e das condutas e de agir em conformidade com os valores morais. Consciência e responsabilidade são condições indispensáveis da vida ética. A consciência moral manifesta-se, antes de tudo, na capacidade para deliberar diante de alternativas possí- veis. Tem a capacidade para avaliar e pesar as motivações pessoais, as exigências feitas pela situação, as consequên- cias para si e para os outros, a conformidade entre meios e fins, a obrigação de respeitar o estabelecido ou de transgredi-lo (se o estabelecido for imoral ou injusto). A vontade é esse poder deliberativo e decisório do agente moral. Paraque exerça esse poder sobre o sujei- to moral, a vontade deve ser livre, isto é, não pode estar submetida à vontade de outro nem pode estar subme- tida aos instintos e às paixões, mas, ao contrário, deve ter poder sobre eles. O campo ético é, assim, constituído pelos valores e pelas obrigações que formam o conteúdo das condutas morais, isto é, as virtudes. Estas são realizadas pelo sujei- to moral, principal constituinte da existência ética. O agente moral O sujeito ético ou moral – ou seja, a pessoa moral – só pode existir se for: E consciente de si e dos outros, isto é, capaz de refletir e de reconhecer a existência dos outros como sujeitos éticos iguais a si; paixão No dia a dia, falamos paixão p ara dizer ‘amor’. Eticamente, porém, o amor é uma entre muitas paixões, pois paixão significa todo desejo, emoção ou sentimento causado em nó s ou por uma força irracional interna ou pela forç a incontrolável de alguma coisa externa que nos domina. Alegria, tristeza, amor, ódio, medo, es perança, cólera, inveja, avareza, orgulho são paixões . W ILDE , Oscar. O retrato de Dorian Gray. São Paulo: Abril Cultural, 1972. p. 253-255. diálogos filosóficos Ser melhor — Que adianta você me dizer que resolveu agora ser bom? — exclamou Lorde Henry, molhando seus alvos dedos em uma vasilha de cobre vermelho, cheia de água de rosas. — Você já é perfeito. Não mude, por favor. Dorian Gray meneou a cabeça. — Não, Harry, durante minha vida, tenho praticado atos terríveis. Não pretendo vol- tar a isso. Comecei ontem minhas boas ações. — Onde estava você ontem? — No campo, Harry, sozinho em uma pequena estalagem. — Meu caro amigo — disse Lorde Henry, sorrindo —, todo mundo pode ser bon- doso no campo. Lá não há tentações. E esta é justamente a razão pela qual as pessoas que vivem fora da cidade não são absolutamente civilizadas. A civilização não é, de maneira nenhuma, uma coisa fácil de alcançar. Há apenas duas maneiras de chegar a ela. Uma é a cultura e a outra, a corrupção. Ora, a gente do campo não tem oportuni- dade de travar conhecimento com qualquer das duas maneiras; por isso, fica comple- tamente estagnada. — A cultura e a corrupção — repetiu Dorian Gray, como um eco. — Conheci um pouco de ambas. E agora horrorizo-me ao pensar que as duas possam estar lado a lado. Tenho um novo ideal, Harry. Vou mudar. Creio até que já mudei. [...] Não falemos mais nisso e não tente mais persuadir-me de que a primeira boa ação que pratico depois de muitos anos, que o primeiro sacrifício que faço, embora pequeno, seja na verdade uma espécie de pecado. Quero ser melhor do que sou. Hei de ser melhor. INI.FILOSOFIA_FILOS_VU_PNLD15_254a261_U10_C26.indd 259 5/9/13 3:43 PM A ética u n id a d e X 260 E dotado de vontade, isto é, de capacidade para con- trolar e orientar desejos, impulsos, tendências, senti- mentos e de capacidade para deliberar e decidir en- tre várias alternativas possíveis; E responsável, isto é, caso se reconheça como autor da ação e avalie os efeitos e as consequências dela sobre si e sobre os outros; E livre, isto é, capaz de oferecer-se como causa interna de seus sentimentos, atitudes e ações, por não estar submetido a poderes externos que o forcem e o constranjam a sentir, a querer e a fazer alguma coisa. Do ponto de vista do agente ou sujeito moral, a ética faz uma exigência essencial: a diferença en- tre passividade e atividade. Passivo é quem se dei- xa governar por seus impulsos, inclinações e pai- xões, pelas circunstâncias, pela boa ou má sorte, pela opinião alheia, pelo medo dos outros, não exer- cendo sua própria consciência, vontade, liberdade e responsabilidade. Ao contrário, é ativo ou virtuoso aquele que con- trola seus impulsos, suas inclinações e suas paixões, discute consigo e com os outros o sentido dos valores e dos fins estabelecidos, indaga se devem e como de- vem ser respeitados ou transgredidos por outros valo- res e fins superiores aos existentes, avalia sua capaci- dade para dar a si mesmo as regras de conduta, consulta sua razão e sua vontade antes de agir, consi- dera os outros sem subordinar-se nem submeter-se cegamente a eles, responde pelo que faz, julga suas próprias intenções e recusa a violência contra si e con- tra os outros. Em uma palavra, é autônomo. Os valores ou os fins éticos e os meios morais O campo ético é constituído por dois polos interna- mente relacionados: o agente ou o sujeito moral e os valores ou os fins éticos. Além disso, é constituído também por outro elemento, que vai de par com os fins, isto é, os meios morais. Do ponto de vista dos valores ou fins éticos, a ética exprime a maneira como uma cultura e uma socieda- de definem para si mesmas o que julgam ser o mal e o vício, a violência e o crime, e, como contrapartida, o que consideram ser o bem e a virtude, a brandura e o mérito. Independentemente do conteúdo e da for- ma que cada cultura dá à virtude, ela é sempre con- siderada algo que é o melhor como sentimento e como ação; a virtude é a excelência, a realização perfeita de um modo de ser, sentir e agir. Em con- trapartida, o vício é o que é o pior como sentimento e como ação; o vício é a baixeza dos sentimentos e das ações. Por realizar-se como relação intersubjetiva e social, a ética não é alheia ou indiferente às condições histó- ricas e políticas, econômicas e culturais da ação mo- ral. Consequentemente, embora toda ética seja uni- versal do ponto de vista da sociedade que a institui (porque seus valores são obrigatórios para todos os seus membros), está em relação com o tempo e a his- tória. Portanto, a ética transforma-se para responder a exigências novas da sociedade e da cultura, pois so- mos seres históricos e culturais e nossa ação se desen- rola no tempo. Quanto aos meios, muitos dizem que os valores ou fins os justificam, de modo que, para alcançar um fim legítimo, todos os meios disponíveis são válidos. No caso da ética, porém, a afirmação de que os fins justifi- cam os meios não é aceitável. Suponhamos uma sociedade que considere um va- lor e um fim moral a lealdade entre seus membros. Isso significa que a mentira, a inveja, a adulação, a má- -fé, a crueldade e o medo deverão estar excluídos da vida moral; por conseguinte, ações que os empre- guem como meios para alcançar o fim serão imorais. No entanto, para forçar uma pessoa à lealdade, seria possível pensar em fazê-la sentir medo da punição pela deslealdade, ou em mentir a ela de modo que não perdesse a confiança em certas pessoas e conti- nuasse leal a elas. Nesses casos, o fim (a lealdade) não justificaria os meios (uso do medo e da mentira)? A Após ter passado 27 anos preso por combater o apartheid (regime de segregação racial), Nelson Mandela se torna o primeiro presidente negro da África do Sul, em 1994. D a v id B ra u c h li /A s s o c ia te d P re s s /G lo w I m a g e s INI.FILOSOFIA_FILOS_VU_PNLD15_254a261_U10_C26.indd 260 5/9/13 3:43 PM A existência ética ca pí t u lo 2 6 261 atividades 1. Explique o que são o senso moral e a consciência moral. Dê alguns exemplos. 2. Qual é o principal pressuposto do senso moral e da consciência moral? Por quê? 3. O que é um juízo de fato e o que é um juízo de valor? Defina-os e dê novos exemplos. 4. Explique o que é a naturalização da vida moral. Por que ela acontece? 5. Apesar das diferenças culturais e históricas a respeito da violência, que definição de violência seria válida em to- das as culturas? 6. Ser passivo é não agir? Justifique sua resposta e explique a diferença entre passividade e atividade. 7. Apesar das diferenças culturais, o que todas as culturas consideram que seja a virtude? Javier Bardem interpreta Ramón Sampedro no filme Mar adentro, dirigido por Alejandro Amenábar. S o g e c in e /H im e n o p te ro /E y e s c re e n / A lb u m /L a ti n s to c k IndIcaçãode fIlme Mar adentro Direção de Alejandro Amenábar. Espanha, 2004. O que significa a dignidade? Vi- ver é um direito ou uma obriga- ção? Após viver 28 anos preso a uma cama em decorrência de um acidente que o tornou te- traplégico, Ramón Sampedro (Javier Bardem) luta pelo direi- to de praticar a eutanásia, isto é, de pôr fim à sua própria vida. As personagens Nina (D ébora Falabella) e Carminha (A driana Esteves) em cena da nov ela Avenida Brasil, de 2012. D iv u lg a ç ã o /R e d e G lo b o d e T e le v is ã o Esta atividade trabalha com conteúdos de Filoso- fia e Arte, além do tema transversal Ética. Nos últimos anos, no Brasil, um fato curioso vem se verificando na relação entre as telenovelas e o público que as assiste: em algumas tramas, parado- xalmente, as pessoas torcem pelo êxito do vilão da história, mesmo que eles pratiquem os atos mais sór- didos. e Com base neste capítulo, na noção de indústria cul- tural (Capítulo 25) e em seus conhecimentos de Arte, escreva um pequeno texto, respondendo às questões de modo justificado e exemplificado: a) Como você avalia a abordagem das novelas brasi- leiras com relação aos problemas morais e éticos? b) É possível apontar uma relação entre arte, ética e indústria cultural, com base nessas novelas? a filosofia nas e ntrelinhas resposta ética é não. Por quê? Porque esses meios des- respeitam a consciência e a liberdade da pessoa mo- ral, que agiria por coação externa e não por reconhe- cimento interior e verdadeiro do fim ético. No caso da ética, portanto, nem todos os meios são justificáveis, mas apenas aqueles que estão de acordo com os fins da própria ação. Em outras pala- vras, fins éticos exigem meios éticos. INI.FILOSOFIA_FILOS_VU_PNLD15_254a261_U10_C26.indd 261 5/9/13 3:43 PM