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A SEGREGAÇÃO E A ESTRUTURAÇÃO DO ESPAÇO INTRA-
URBANO; O CASO DO RECIFE
Flávio Villaça
1. A SEGREGAÇÃO E A ESTRUTURAÇÃO INTRA- URBANA
Desde meados do século XIX, nas metrópoles brasileiras - mais cedo em algumas, mais
tarde em outras - as classes acima da média vêm tendendo a se deslocar
territorialmente segundo uma única direção e tem havido uma crescente concentração
dessas classes em uma mesma região geral da cidade: Zona Sul, no Rio e Belo
Horizonte, quadrante sudoeste em São Paulo, nordeste, em Salvador, oeste e depois sul
no Recife, e leste em Porto Alegre.
Não dispomos de estatísticas para demonstrar que essa segregação é crescente. As
evidências, entretanto, são inúmeras. Vejamos, em São Paulo, os exmeplos dados pelo
bairro do Bixiga, como bairro de cantinas italianas e pela "decadência do Brás". Até
por volta de 1950 não havia cantinas italianas no Bixiga. No Brás estava a maior
concentração das cantinas italianas da capital paulista. Para as enormes e excelentes
cantinas do Brás se deslocavam as famílias das burguesias paulistanas quando queriam
comer boa comida italiana. Hoje sobrevivem no Brás apenas dois restaurantes italianos
dignos de nota ( o Castelões e o Giggio). Hoje, o bairro de maior concentração de
restaurantes italianos é o Bixiga. Por quê? O que houve que provocou essa
transformação? Até por volta da década de 50, como vimos, o Brás polarizava uma
Zona Leste onde havia grandes contingentes de classe média e mesmo algunss da alta
burguesia. O Brás era seu grande polo comercial e de serviços. A população da zona de
influência do Brás tinha então um nível sócioeconômico que, se não era suficiente para
equipara-lo ao centro principal, o era para transforma-lo no primeiro sub-centro do
Brasil e no maior da capital paulista. O porte do sub-centro do Brás refletia o nível
sócio-econômico das famílias de sua zona de influência, A partir de meados do século
dois processos simultâneos de empobrecimento se abatem sobre a população da zona de
influência do centro do Bras. O primeiro é geral, e não específico do Brás: o
empobrecimento geral das classes média e abaixo da média do Brasil. O segundo não; é
um processo sócio-espacial específico do Brás. O Brás e toda a Zona Leste começam a
ficar "fora de mão" para as famílias de classe média para cima. Quanto mais as
burguesias se concentravam no quandrante sudoeste, mais a Zona Lesle ficava "longe"
para as famílias dessa classe que alí moravam. Desde meados do século as burguesias
vem abandonando a Zona Leste. Se hoje há bairros de classe média na Zona Leste (
Alto da Moóca e Tatuapé) em 1957 eles já existiam como mostra a Pesquisa desse ano
de SAGMACS. Ali aparecem Alto da Moóca, Belenzinho e Parque São Jorge como
"ilhas de classe média" na Zona Leste. O adensamento desses bairros nos últimos
quarenta anos, mesmo com a inclusão do Tatuapé, foi proporcionalmente menor que o
crescimento demográfico da Zona Leste como um todo. A fuga das burguesias da Zona
Leste provoca "decadência" ( popularização) do centro do Brás. Os médicos que antes
tinham dois escritórios, um no centro e outro no Brás, não se reproduzem. As cantinas
também não se reproduzem mais no Brás, e começam a aparecer no Bixiga, que está no
Quadrante sudoeste. As burguesias paulistanas não precisam mais se deslocar até a
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Zona Leste para comer boa comida italiana. Outros exemplos são, a fuga da aristocracia
carioca que morava na Tijuca - reduzido a um bairro de classe média - e a queda da
Zona Oeste do Recife como região de concentração das burguesias.
Inicialmente a proximidade ao centro, combinada com atrativos do sítio natural foi a
causa determinante da ocupação das direções de expansão das burguesias. Em algumas
metrópoles, no início daquele caminhamento, houve uma mudança na sua direção. Isso
ocorreu no século passado no Rio e em São Paulo; no Recife está ocorrendo no
momento. Em Porto Alegre, Salvador e Belo Horizonte, nunca ocorreu. Portanto, em
todas as metrópoles, sem exceção, as burguesias apresentam a tendência a se segregar
numa única região geral e manter a mesma direção em seu deslocamento territorial,
mesmo quando - como ocorreu em São Paulo, no Jardim América, desapareçam os
atrativos do sitio natural. O que pode diferir - e de fato difere - entre as metrópoles é o
estágio no qual elas se encontram nessa tendência.
Nossas metrópoles foram se estruturando sob o impacto da força mais poderosa ( mas
não única) atuante sobre a estrutura urbana: as condições de deslocamento. Como parte
de uma interação de forças, de um movimento fruto de interação de forças, o centro
principal se deslocou e se transformou, os sub-centros se formaram em função da
inacessibilidade socio-econômica das camadas populares ao centro principal; certas
regiões das metrópoles se tornaram maciçamente populares, o centro principal "decaiu";
o sistema viário se aprimorou em determinada região,... enfim foi-se definindo o que era
"bom ponto" e o que era " fora de mão" em todo o espaço urbano. Com isso a
metrópole se estruturou de tal forma que, para as burguesias, tornou-se impossível
abandonar suas áreas de segregação e sua direção de crescimento, pois isso significava,
para elas, ocupar posições "fora de mão" ou "longe", quer o sítio fosse aprazível ou não.
Neste século, nas cidades litorâneas, as praias de alto mar tem sido o atrativo do sitio
natural que maior influência tem exercido sobre a localização territorial das classes de
mais alta renda . É a força que, no Recife, tende a derrotar as forças que orientaram a
localização tradicional dos bairros de alta renda: o setor oeste. O espaço urbano tende
então a produzir e a reproduzir a estrutura gerada pelos interesses das burguesias, pois
ela, para esse fim, controla o mercado, o estado e a ideologia. Quanto mais desigual a
estrutura socioeconômica de uma sociedade, mais desigual é seu poder político e mais
desigual é seu espaço intra-urbano
O Quadro no. 1 mostra um panorama quantificado da segregação nas metrópoles
brasileiras. Para as áreas de maior concentração das camadas de alta renda , mostra-se a
porcentagem de pessoas de dez anos ou mais ( para 1980) ou o número de chefes de
domicílios ( para 1991) sobre o total da área metropolitana e também a porcentagem de
pessoas de dez anos e mais ou de chefes de domicílios que ganham mais que 20 salários
mínimos.
Nem sempre é possível fazer comparações entre as metrópoles acima mencionadas ,
mas pelo menos uma conclusão é clara: O Rio de Janeiro e Belo Horizonte são as
mais segregadas das metrópoles brasileiras.
Os processos acima descritos parecem não ser exclusivos de nossas metrópoles.
Aparentemente eles tendem a ser tão mais acentuados, óbvios e visíveis, quanto mais
profunda a desigualdade social na metrópole. A desigualdade na sociedade se manifesta
assim numa desigualdade do espaço que vai além da oposição centr X periferia.
Entretanto, há registro de que, pelo menos há algumas décadas atrás, os mesmos
processos ocorriam nas metrópoles dos Estados Unidos.
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QUADRO nO. 1
SEGREGAÇÃO ESPACIAL NA METRÓPOLE BRASILEIRA
Área Metropolitana
Área de Grande Concentração das
Camadas de Alta Renda
% sobre o total
da AM
(*)
Pess. c/ 10 anos ou mais(80) ou
Chefes de Domicílio (91)Ganhando
mais que 20 SM mensais
1. São Paulo
- 1980** (1) 17,36 62,42
- 1991 (2) 13,72 54,03
2. Rio de Janeiro(3)
- 1980 ** 9,56 56,08
- 1991 8,86 52,80
3. Belo Horizonte
- 1991 (4) 8,49 52,21
4. Salvador (5)
- 1980 ** 18,90 75,09
- 1991 16,59 67,89
5. Recife - 1980**
- Setor oeste(6) 8,12 28,52
- Setor sul (7) 24,13 41,29
- Recife 1980 total 32,25 69,81
Recife - 1991
- Setor oeste(6) 5,86 28,04
- Setor sul (7) 15,59 44,47
Recife 1991Total 21,45 72,51
6. Pto Alegre (1986)(8) 10,19 35,96
Fontes: - Todos os dados referentes a 1980 e 1991: FIBGE, Censos.
- Para Porto Alegre, 1986, a fonte é a Pesquisa OD da METROPLAN
Notas
* Essa % é sobre o total ou de pessoas de dez anos ou mais, ou de chefes de domicílios ou a outra
unidade qualquer utilizada na pesquisa indicada.
(**) Em 1980, os dados do Censo - FIBGE, referem-se a "Pessoas de dez anos e mais com rendimentos
mensais maiores que 20SM. Para 1991 é Chefes de domicílio com rendimentos mensais maiores que 20
SM.
(***) Nas medições de áreas urbanizadas, por variações em bases cartográficas e diferenças de
metodologia de distintos pesquisadores, deve ser admitida uma variação da ordem de 5% para mais ou
para menos.
- Áreas de grande concentração de camadas de alta renda. Ver figuras
(1) Corresponde a 17 sub-distritos contíguos do quadrante sudoeste, inclusive Saúde e Ipranga e exclusive
Santo Amaro.
(2) Corresponde a 21 distritos contíguos todos do quadrante sudoeste. ( Ver fig...).
(3) Tanto para 1980 como para 1991, engloba as regiões Administrativas de Botafogo, Copacabana,
Lagoa e Barra da Tijuca que totalizavam 219,03 Km2 de Área Total segundo o Anuário Estatístico da
Cidade do Rio de Janeiro 92/93, Tabela 1.2.4.
(4) Somente o distrito Centro-Sul
(5 Apenas os Distritos de Amaralina e Vitória em ambos os anos.
(6)Em 1980 inculia os distritos de Boa Vista, Encruzilhada, Graças e Madalena. Em 1991 as RPAs 2, 6 e
7.
(7) Em 1980 incluía o Distrito de Boa Viagem e o município de Jaboatão dos Guararapes. Em 1991 inclui
a RPA 12 e apenas o distrito de Jaboatão dos Guararapes.
(8) Inclui 22 Zonas de Tráfego contíguas no setor leste
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As investigações de Homer Hoyt (1959, 503/506) chegaram a conclusões
surpreendentemente semelhantes à essas, embora não tenham apresentado explicações
para elas. Depois de ressaltar que os bairros residenciais das camadas de alta renda
"...em seu movimento, não pululam ao acaso ... mas ... seguem um caminhamento
definido em um ou mais setores da cidade..." esse autor chegou às seguintes conclusões
quanto àqueles bairros nas cidades americanas: "Em todas as cidades estudadas, as áreas
residenciais das camadas de alta renda tiveram seu ponto de origem próximo ao centro
varejista e de escritórios. É ali que os grupos de mais alta renda trabalham e esse ponto
é o mais afastado daquela parte da cidade onde estão as indústrias e os armazéns. Em
cada cidade a direção e o padrão de futuro crescimento tendem então a ser governados
por alguma combinação das seguintes consideraç es:
As áreas residenciais das camadas de alta renda tendem...
1. "...a prosseguir a partir de um dado ponto de origem ao longo de vias de
deslocamento estabelecidas, ou em direção a outro núcleo existente de edificações, ou
centros comerciais."
2. "...a progredir em direção a terrenos altos, livres de riscos de inundações e a se
espalharem ao longo das bordas dos lagos, baías, rios ou oceanos, nos locais onde tais
bordas não são ocupadas por indústrias."
3. "... a crescer em direção às áreas que apresentam uma região rural livre e aberta,
afastando-se dos "becos-sem-saída" bloqueados por barreiras naturais ou artificiais."
4. "...a crescer na direção dos líderes da comunidade."
5. "As tendências de movimento de escritórios, bancos e lojas, puxam os bairros
residenciais mais caros, na mesma direção geral da cidade."
6. "...a crescer ao longo das linhas mais rápidas de transportes."
7. " O crescimento das áreas residenciais de alta renda, permanece numa mesma
direção, por um longo período de tempo".
8. "as áreas de apartamentos de luxo tendem a se estabelecer próximo ao centro, em
antigas áreas residenciais."
9. "Promotores imobiliários podem desviar a diração de crescimento das áreas
residenciais de alta renda."(*)
Várias das verificações acima se aplicam às metrópoles aqui analisadas, como as de nos.
2, 7 e 8. Como nas cidades americanas a rede de rodovias é muito mais rica que nas
cidades brasileiras, e como a taxa de motorização das camadas de alta renda já era alta
nas décadas de 30 e 40, essas camadas optavam pelas vizinhanças aprazíveis servidas
por boas rodovias e que não tinham indústrias. Essas condições só começaram a ocorrer
entre nós no final da década de 70, em São Paulo ( rodovia Castelo Branco e Alfaville e
Tamboré) e em
________________________
(*) Trata-se de trecho da obra The structure and growth of residential
neighborhoods in American cities, de 1939, não localizada em São Paulo. Este trecho
acha-se reproduzido em MAYER e KOHN, 1959, 499-510
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Belo Horizonte. A pobreza do sistemas rodoviário dentro do espaço urbano das nossas
cidades até a década de 80, e o enorme desequilíbrio de poder político entre as classes
sociais no Brasil, fizeram com que, nas nossas cidades, fossem as burguesias que
"puxassem" as melhorias viárias ( vias urbanas, note-se) na direção de seus bairros, e
não ao contrário como aconteceu nos Estados Unidos. Como mostramos, no Brasil, as
melhorias viárias surgem depois de ocorrer o interesse imobiliário das camadas de mais
alta renda por determinada região das metrópoles. O sistema viário urbano que atende
essa região - e determinada direção - começa a passar por sucessivas melhorias que se
articulam, em bola de neve, com a concentração daquelas camadas. No Rio, foram as
elites que levaram o bonde para a Copacabana, Gávea e Alto da Boa Vista, e não ao
contrário. Foram as elites que levaram o plano inclinado para Santa Teresa, e não ao
contrário. Como vimos, foi a ocupação da zona sul carioca pelas elites, iniciada no
final do século XIX, que provocou a abertura das avenidas Rio Branco e Beira Mar,
assim como o Túnel para Copacabana e a partir daí uma enorme sucessão de
gigantescas e custosas obras viárias, como os aterros de Botafogo, Flamengo e de
Copacabana, além de túneis, elevados etc. Em São Paulo, não foi a av. Nove de Julho
nem seu túnel que levaram a burguesia para o Jardim América ( que já estava loteado e
em inicio de ocupação dez anos antes da abertura da avenida e do túnel), mas ao
contrário.
As camadas de mais alta renda podem ficar "indecisas" em suas opções quando suas
direções predominantes de crescimento mudam. Entretanto, nas décadas recentes, nos
casos em que se esboçaram duas direções distintas e as vezes opostas de crescimento,
uma tende a predominar. É o caso do Recife onde até meados deste século aquelas
camadas desprezaram a orla marítima crescendo na direção oeste. Essa direção
permaneceu durante cerca de um século e ainda vem oferecendo resistência à mudança
de direção para a orla marítima, representada por Boa Viagem. A predominância desta
última, entretanto está ficando clara. Casos houve nos quais "núcleos de resistência"
inclusive com significativa presença de classe alta, se desenvolveram em direção
diferente, como a Tijuca no Rio. Finalmente houve casos nos quais o mercado
imobiliário pretendeu reverter a direção predominante de crescimento, e não foi bem
sucedido, como no caso da Pampulha em Belo Horizonte . Finalmente há casos nos
quais pequenos núcleos de renda média ou média alta ( mas nunca de alta renda) se
desenvolveram fora da diração predominante como nos casos do Tatuapé-Jardim Anália
Franco ou da região do Tremembé e Cantareira , ou mesmo do ABC, em São Paulo.
Nestes casos, ou há um claro abandono do bairro pela alta renda ( como no caso da
Tijuca, no Rio) ou desenvolve-se uma segunda ( ou terceira) região de concentração de
camadas médias - mas nunca de alta renda. Mesmo no caso da classe média, sua
presença em tais núcleos é proporcionalmente muito pequena quando comparada com a
das áreas de grande concentração das camadas de mais alta renda.
A conclusão no. 5 - se for realmente correta para os Estados Unidos - suscita a seguinte
indagação: o que levaria então a fazer com que os bancos, escritórios e lojas tenhamse
deslocado na mesma direção das áreas residenciais, porém à frente delas. Sim, porquê as
primeiras crescem sempre na mesma direção. Por quê os escritórios e lojas também
crescessem nessa mesma direção que as áreas residenciais mas com antecedência?
Nossa conclusão mostra o contrário. Como veremos adiante, são os escritórios e lojas (
depois os shopping centers) que crescem na direção dos bairros residenciais de mais alta
renda e não ao contrário. Finalmente cabe indagar a respeito da conclusão no. 4. O que
faz com que os líderes da comunidade escolham um determinado local para suas casas,
e não outros? É preciso explicar a explicação. Exemplos aqui mencionados são os de
Antonio Elias, D. João VI e o Paço de São Cristóvão, ou a princesa Isabel, mudando-se
para as Laranjeiras. Embora não tenha sido feita nenhuma pesquisa específica sobre
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localizações dos líderes da comunidade, parece que nossas lideranças (pelo menos no
século XIX nossa burguesia era líder) e seus líderes, seguem sempre a mesma direção,
sem que estes precedam aquelas.Também com relação à conclusão no. 9, caberia
indagar: o que faz com que os promotores imobiliários optem por uma região da cidade
e não outra? As conclusões deste trabalho mostram que os promotores imobiliários não
escolhem as direções e sim as camadas de alta renda elas próprias. Os promotores são
meros agentes das opções dessas classes. São as classes sociais, não os grupos, os
agentes da história. As classes de mais alta renda escolhem a direção de crescimento,
inicialmente em função dos atrativos do sítio natural - como também concluiu Hoyt - e
depois - no caso brasileiro - em função da simbiose, da "amarração" que desenvolvem
com suas áreas de comércio serviços e emprego, ou seja, em função da estrutura
urbana que elas próprias produziram. Essa estruturação se deu pelo controle que
aquelas classes exercem sobre o mercado imobiliário e sobre o Estado, que para elas
abriu, por exemplo, o melhor sistema viário das cidades, construiu seus locais mais
aprazíveis, mais ajardinados e arborizados e controlou a ocupação do solo através de
uma legislação urbanística menos ineficaz. Quando a conclusão no. 2 faz a ressalva
"...quando tais bordas não são ocupadas por indústrias", cabe perguntar: por quê
algumas bordas ( na Baia da Guanabara, tanto no lado do Rio como no de Niterói, ou
na de Todos os Santos) são ocupadas por indústrias e outras não?
Os exemplos analisados mostram que as camadas de mais alta renda se apegam a uma
região geral da cidade e nela se concentram, não pelo "status" que estas possam
apresentar. Este, não existia antes dessas regiões serem ocupadas por tais classes; não
existia quando essas regiões eram vagas. O "status" é efeito e não causa da preferência
das classes de mais alta renda.
Analisando as relações entre essa tendência à crescente concentração das camadas de
alta renda e a estruturação do espaço intra urbano, vejamos como este é trabalhado por
essas camadas, abordando inicialmente o espaço urbano em geral, e depois
especificamente o centro da cidade.
Quando, no século XIX, tiveram início as primeiras manifestações do processo de
crescente concentração espacial das camadas de mais alta renda em nossas metrópoles,
teve inicio também a formação da estrutura interna que elas hoje apresentam.
Começaram a formar-se, simultaneamente, seus centros, seus bairros e o inicio da
segregação destes. Logo em seguida começaram a surgir as zonas industriais. Estas,
entretanto, durante muito tempo só foram significativas em São Paulo e Rio. Nas
demais, não havia inicialmente zonas industriais, embora houvesse várias indústrias.
Se, no inicio do século XIX para o Rio, e meados desse século para São Paulo, Porto
Alegre ou Salvador, nossas elites moravam no centro, em sobrados, ou na sua imediata
vizinhança, sua segregação crescente deu-se simultaneamente com a segregação que
também ocorria com o centro principal e pelo mesmo processo segregavam-se as
classes populares. Logo em seguida, também as indústrias começam a se concentrar ao
longo de algumas importantes vias de transportes.
A concentração industrial, como vimos, é determinada por forças espaiciais extra-
urbanas. Assim, se admitirmos que, do ponto de vista intra-urbano, a localização das
grandes zonas industriais - como também os portos - são uma localização "dada",
restará a localização das camadas de mais alta renda como o mais importante motor
estruturador das nossas estruturas espaciais metropolitanas.
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Vejamos inicialmente, o efeito da concentração espacial daquelas camadas sobre o
centro principal.
2. A SEGREGAÇÃO, O CENTRO PRINCIPAL E A ESTRUTURAÇÃO
URBANA
Inicialmente, as camadas de alta renda procuraram trazer para junto de si - ou a produzir
no seu próprio espaço - os equipamentos urbanos que podiam prescindir de uma
localização central, e mais tarde, também aqueles que por sua unicidade ou raridade e
significado metropolitano, deveriam logicamente permanecer no centro ( sedes de
governo). Os equipamentos que primeiro se instalam longe do centro, até mesmo na
periferia da região da alta renda são suas escolas, hospitais e profissionais liberais. No
Rio foram também seus hotéis ( em Santa Teresa ou Botafogo). Só mais tarde, na
década de 20, no Rio, no final da de 50 em São Paulo e no da de 60 e 70 nas demais
metrópoles, é que tem inicio um processo de formação de sub-centros de comércio e
serviços voltados para aquelas camadas. Antes, já havia a descentralização de alguns
equipamentos, como os cinemas, por exemplo, mas não havia a formação de núcleos
diversificados de comércio e serviços, que é o que chamamos de subcentro. Veremos
adiante, que, com exceção da Tijuca e depois Copacabana, todos os subcentros,
desenvolvidos em nossas metrópoles foram orientados para o atendimento de camadas
populares. Os voltados para as camadas de mais alta renda nasceram depois da década
de 60: Savassi, em Belo Horizonte, Independência em Porto Alegre e Rua Augusta em
São Paulo, Região do Iguatemí em Salvador e de Boa Viagem no Recife. Esses sub-
centros entretanto - com a notável excessão do de Salvador - são pouco diversificados
se comparados com o centro princip[al e com os sub-centros populares.
Talvez o processo mais notável de produção do espaço sob o comando das camadas de
mais alta renda seja o efeito que a localização de seus bairros residenciais provocou nos
centros principais. Estes têm, não só suas direções de crescimento, mas mesmo suas
estruturas internas determinadas pela localização da alta renda.
A partir da primeira metade do século XX os centros principais de nossas metrópoles
começaram a apresentar duas partes distintas: uma voltada para o atendimento das
camadas populares e outra para o das camadas de mais alta renda. Com isso, também o
centro da cidade passou a ter seu "lado de lá" e seu "lado de cá", sua "frente" e "fundos".
O centro de nossas cidades, há muitas décadas, começou a se deslocar em direção ao
mesmo eixo de deslocamento das camadas de mais alta renda de tal maneira que as
posições abandonadas passaram a se orientar para as camadas populares e as posições
novas, para as elites. Assim, no Rio, a Cinelândia e suas vizinhanças passaram a se
orientar para as camadas de mais alta renda, enquanto que a Praça Tiradentes e suas
vizinhanças tornaram-se populares. Em São Paulo, o lado além Anhangabaú ( Barão de
Itapetininga e vizinhanças) tornou-se das elites enquanto o Triângulo se popularizava, o
mesmo acontecendo com a Independência X Rua da Praia em Porto Alegre.
Já no final da primeira metade do século XX começava a se manifestar a articulação
entre as regiões de concentração da alta renda e o "seu" centro. A estruturação do
centro, entretanto, será objeto de estudo específico mais adiante. Desejamos destacar
aqui tão somente a inter-relação entre as direções de crescimento das elites e alguns
equipamentosou elementos importantes da estrutura urbana.
As manifestações espaciais das vinculações entre os bairros residenciais das camadas
de mais alta renda e a rede de comércio e serviços que as atendem, e na qual grande
parte delas também trabalha, constitui um processo que continuamente se auto-alimenta.
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Quanto mais aquelas camadas de concentram em determinada região da cidade, mais
elas procuram trazer para essa mesma região, importantes equipamentos urbanos.
Quanto mais o conseguem, mais vantajosa essa região se torna para aquelas camadas e
mais difícil se torna para elas, abandonarem essa direção de crescimento.
Como vimos, em algumas cidades, como o Rio de Janeiro e Recife, essa direção de
crescimento alterou-se ou vem se alterando e isso oferece oportunidade para uma
análise interessante da reviravolta que isso provoca no centro principal. Será investigado
o caso do Rio de Janeiro, que, por suas dimensões, melhor exibe os desdobramentos
daquela alteração.
Como foi visto, até o final do século XIX o principal eixo de desenvolvimento da
cidade e de concentração das camadas de mais alta renda do Rio de Janeiro orientava-se
para o norte. A partir do final daquele século as burguesias começaram a se transferir
para a chamada Zona Sul. Em conseqüência, muitos equipamentos da aristocracia
carioca localizaram-se inicialmente na chamada Zona Norte e, quando centrais, na
extremidade do centro orientada para a Zona Norte; a partir do final do século passado
esses equipamentos começam a se transferir para a Zona Sul ou para a extremidade sul
do centro. Vejamos.
Quando o Jockey Club ( mais tarde Jockey Clube Brasileiro) foi fundado no Rio em
1869, tinha seu prado de corridas em plena Zona Norte de então, em São Francisco
Xavier. Posteriormente transferiu-se para a Gávea onde está até hoje. O Derby Club,
fundado em 1885 e posteriormente fundido ao Jockey Club, também tinha seu
hipódromo na Zona Norte de então, mais precisamente no local onde foi construído o
estádio do Maracanã. Sua sede social localizava-se na Praça da Constituição (
Tiradentes) entre a Rua do Piolho ( da Carioca) e a Rua do Cano (Sete de Setembro)
(Maurício,s.d. 15); portanto, na extremidade norte do centro da cidade.
Simultaneamente com a transferência de instituições antigas, as novas já se instalavam
na Zona Sul. Em 1874, o antigo solar do Visconde de Souza Franco foi transformado
em Club Guanabarense. Ali, em 27/06/1907 foi fundado o Automóvel Club do Brasil.
Em 1918, Isabel Andrew instalou no prédio um colégio, hoje tradicional...sediado à
praia de Botafogo no. 374; o palacete pertenceu ao Baróo de Alegrete...Mais tarde, nele
funcionou o colégio Abílio...escolhido pelo romancista Raul Pompeia para palco de seu
livro "O Ateneu". Posteriormente ali se localizou o Colégio Anglo-Americano (Frota,
1971, 105). "Na mesma Rua São Clemente, instalou-se o Colégio Santo Inácio, dos
jesuítas, em 1903..." (Maurício, idem, 106). Vejamos agora algumas instituições de
saúde. A primeira casa de saúde da Zona Sul, a Dr. Peixoto, instalou-se em 1853 na Rua
Marquês de Olinda (Botafogo) transferida do Morro da Gamboa ( vizinhanças da
Estação D. Pedro II, extremidade norte do centro) para terrenos "...que por sua vez
tinham abrigado o primeiro balneário digno desse nome, do velho Rio, freqüentado pela
família imperial...e nos quais um palacete ainda existe...com o nome Olinda em seu
frontispício..."(Gerson, 1965, 382). Significativa também foi a transferência da parte do
centro que abrigava os equipamentos de diversão da burguesia. No século passado essas
casas eram principalmente os teatros e se concentravam na Praça Tiradentes e
vizinhanças, que era a extremidade norte do centro. A partir da primeira metade do
século XX essas casas passaram a ser os cinemas e se concentraram na Cinelância,
extremidade sul do centro. Logo após a chegada de D. João VI teve inicio a construção
do Real Teatro de São João, o principal teatro de ópera da cidade. Segundo Gastão
Cruls, foi sucessivamente Teatro Imperial de São Pedro e depois São Caetano, na Praça
Tiradentes. Sofreu vários incêndios, o último dos quais em 1928 fez com que os restos
do antigo edifício fossem arrasados e, em seu lugar, se erguesse o atual teatro. ( Cruls,
9
1965, vol. II, 546). "Outros teatros...aos poucos surgiriam, para que não tardasse a
concentrar-se nele ( no Rocio Grande, hoje Praça Tiradentes) a maior parte da vida
teatral do Rio." (Gerson, 1965, 160). Outro importante teatro que encenou muitas óperas
foi o "...Teatro Provisório (depois Lírico Fluminense) inaugurado em 1852 no Campo
de Santana perto da Rua do Hospício (Buenos Aires)" ( MAURÍCIO, s.d. 127) também
extremidade norte. Entretanto, já em 1871 é inaugurado o grande Teatro Lírico (então
com o nome de D. Pedro II) "...com 1.400 cadeiras na platéia na rua da Guarda Velha,
trecho desaparecido da atual 13 de Maio... ", (Augusto, idem, 139) já na extremidade sul
do centro, mesma região onde mais tarde seria construído o Teatro Municipal.
Não foi diferente o comportamento da localização dos aparelhos do Estado. Desde
1824, sob D. Pedro I, e por quase um século, o Senado funcionou no Campo de Santana,
até que se deslocou para a extremidade do centro voltada para os bairros das camadas de
alta renda: a Praça Floriano Peixoto. A Câmara Municipal, também funcionou no
Campo de Santana, entre a desaparecida Rua de São Pedro e a Av. Marechal Floriano.
Mais tarde a Câmara também transferiu-se para a mesma Praça Marechal Floriano. A
Prefeitura foi por tempos no Palácio Guanabara, nas Laranjeiras, antes de se instalar no
Paço da Cidade na Rua São Clemente, Botafogo.
Também o Governo Federal transferiu-se da Zona Norte para a Zona Sul. Proclamada a
República, o Governo Provisório instalou-se no Palácio do Itamarati ( até então
residência do Barão e Conde de Itamaraty) na Av. Marechal Floriano, na extremidade
norte do centro. Em seguida transferiu-se para o Palácio do Catete, Zona Sul de então.
Dir-se-á que a transferência de muitas dessas instituições para a região da Praça
Floriano Peixoto deveu-se aos amplos espaços ali conseguidos com as obras de
renovação urbana, com a abertura da Av. Rio Branco e demolição do Convento da
Ajuda. Sem dúvida. Aquelas transferências fizeram parte integrante de um dos maiores
projetos de renovação de área central jamais vistos numa metrópole brasileira. Mas é
precisamente isso que pretendemos mostrar. Por quê a extremidade renovada foi a sul e
não a norte? Por quê essas transformações todas não ocorreram na Praça Mauá? Por quê
o morro demolido foi o do Castelo ( carregado de história e por isso devia ser
preservado) e não o da Conceição? A "Cidade Nova" do inicio do século XX foi a
extremidade sul do centro, enquanto que no inicio do século XIX a renovação urbana
ocorreu na extremidade norte, que recebeu de fato e mantém até hoje o nome de
"Cidade Nova"; foi ali, na área que se estendia além da Rua da Vala ( Uruguaiana) em
Direção ao Rocio Grande ( Praça Tiradentes) e ao Campo de Santana, que se deu a
renovação urbana de então, que, com o aterro de mangues conseguiu amplos espaços
inclusive para edifícios importantes. Na década de 70 deste século, na vanguarda da
expansão da chamada Zona Sul carioca, localizar-se-ia o novo Centro Metropolitano -
felizmente não concretizado.
Em São Paulo não houve reversão do centro de maneira que é possível mostrar o
deslocamento de equipamentos e instituições, do centro para a região sudoeste, que é
aquela onde se concentram as camadas de mais alta renda da metrópole. Há entretanto,
exemplos de equipamentos não centrais - como o Jockey Club que saiu da Zona Leste (
Hipódromo da Moóca) e foi para o quadrante sudoeste, às margens do Rio Pinheeiros.
Já no século passado, o Colégio Coração de Jesus se instalara em Campos Elíseos e o
americano Mackenzie College em Higienópolis, ambos na periferia rica da cidade, bem
10
antes dessesbairros estarem completamente formados . Sem dúvida, o então loteamento
de Higienópolis já nascia destinado à alta burguesia paulista, não só pelo padrão do
loteamento como pelo tamanho dos lotes. Outra escola estrangeira da época que atendia
a burguesia foi o "...Hydecroft College, localizado no começo do século na atual
avenida Paulista e onde se matriculavam os meninos das principais famílias da capital e
do interior de São Paulo." (Bruno,1954, 1270). Também o Colégio São Luís instalou-se
na mesma avenida onde ainda está. desde o final do século passado essa região - a mais
alta da então cidade - vinha sendo ocupada por inúmeros hospitais que atendiam as
camadas de mais alta renda, inclusive os estrangeiros como o Sírio Libanês, o Humberto
I (depois hospital Matarazzo) e a Beneficência Portuguesa, o Santa catarina e o atual
Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
Um exemplo da teia de relações que une governantes, loteadores, proprietários de terras
e obras públicas ( no caso, o Viaduto do Chá) é dado pelo caminhamento territorial da
atual Universidade Mackenzie: "O Dr. João Theodoro Xavier acabou conseguindo
vencer a relutância de Chamberlain quanto à localização da escola ( Escola Americana
da Igreja Presbiteriana) no planalto do Chá. Convenceu os proprietários das principais
chácaras dessa região a promoverem um loteamento parcial...Além disso, afirma o
Presidente João Theodoro, autorizara Jules Martin a projetar e construir um viaduto
que...atravessasse o Vale do Anhangabaú...O projeto do antigo Viaduto do Chá ficou
concluído em 1877...A construção do Viaduto porém só foi iniciada em 1886... devido à
obstinação do Barão de Itapetininga que se recusava a permitir a demolição de seu velho
solar da rua de São José, onde deveria começar a ponte."(Garcez, 1970, 57). Änimado
pelas perspectivas do novo viaduto, pela promessa de remoção dos touros do Campo
dos Curros e com o início do loteamento das chácaras do Chá e do Arouche,
Chamberlain adquiriu...o terreno da rua de São João esquina com a rua do
Ipiranga...Nesse local esteve a Escola e a Igreja por muitos anos"( Garcez, idem, 58). "O
edifício da rua de São João...já era pequeno em 1879...Assim Chamberlain procurou
adquirir uma propriedade mais ampla...Lembrou-se ele então do velho conselho de João
Theodoro para que se voltasse para a "Cidade Nova" onde os títulos das propriedades
eram melhores. Daí nasceu a idéia de se adquirir uma propriedade no Alto de
Higienópolis...Dona Maria Antonia ( da Silva Ramos) da alta nobreza de São Paulo,
sabendo das dificuldades do Rev. Chamberlain em encontrar área... prontificou-se a
vender à Board de Nova York, uma área de terreno a ser desmembrada de sua
chácara...Essa área fica na esquina da rua Maria Antonia com a rua Itambé..."(Garcez,
idem, 79, 80).
Os colégios e hospitais da burguesia, continuaram, tal como no passado, a se instalar em
seus bairros, e - também tal como no passado - nas etapas iniciais da formação destes.
Colégios Vera Cruz e Santa Cruz (Alto de Pinheiros) ou o Santo Américo, Nossa
Senhora do Morumbí, Escola Graduada ( americana) o Visconde de Porto Seguro
(alemão) ou o Hospital Albert Einstein, todos no Morumbí e vizinhanças. O prado de
corrida de cavalos que no inicio do século se instalara na hoje proletária Moóca,
transferiu-se para a Cidade Jardim, onde ainda está.
Tal como no Rio, o crescimento do centro provocou sua cisão. O centro se divide
claramente em duas partes: uma , a nova, voltada para os bairros de mais alta renda, e a
outra, a que fica para traz, a posição abandonada, voltada para os bairros das camadas
populares. Na primeira instalou-se não só o comércio e os serviços de luxo como
também os edifícios públicos, como, a exemplo do Rio de Janeiro a Teatro Municipal e
a Biblioteca Municipal. A renovação urbana de Prestes Maia entre as décadas de 30 e
40, incidiu sobre essa parte do centro ( Av. Ipiranga, Rua São Luís, Praça D. José
Gaspar, Rua Vieira de Carvalho, Rua Marconi) mais do que qualquer outra. Também a
administração pública se transferiu para essa parte e para o quadrante sudoeste. Aliás,
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esta transferência, comum em todas as metrópoles, mostra não é apenas o mecanismo de
mercado ( no caso o imobiliário) que atua nessas localizações. Equipamentos - como os
aparelhos do Estado, os cemitários e as igrejas, cujas localizações supostamente não
deveriam estar sujeitos às leis do mercado, seguem as mesmas regras. A sede do
executivo estadual transferiu-se do Pátio do Colégio para Campos Elíseos e daí para o
Morumbí. A Prefeitura Municipal saiu da atual Praça João Mendes para o Vale do
Anhangabaú e daí para o Parque Ibirapuera. Num processo absolutamente inusitado
voltou para o centro - Parque D. Pedro II - na administração Luisa Erundina, onde
permaneceu apesar da posição contrária de seu sucessor, o Prefeito Paulo Maluf. A
Assembléia Legislativa Estadual saiu do Parque Pedro II e foi para o Parque Ibirapuera.
O Quartel General do II Exército saiu do centro ( Rua Conselheiro Crispiniano) e
também foi para o Ibirapuera. Cada vez mais os órgãos públicos - especialmente as
empresas públicas - instalam-se na região da Av. Paulista ou mesmo na região da Av.
Faria Lima e Marginal do Rio Pinheiros. Até um órgão federal como a agência do IBGE
em São Paulo, saiu do centro e foi para o bairro do Itaim.
Em Belo Horizonte, o Colégio Isabela Hendrix lançou sua pedra fundamental nos altos
da Rua Espírito Santo, junto ao Palácio da Liberdade e ao Minas Tenis Clube, em 1906,
quando a capital mineira tinha apenas nove anos de vida (Penna, 94). Como entender,
aliás, que já nesse ano, sem que a nova capital siquer tivesse completado dez anos, os
"pontos" já estivessem claros, no papel, na "fria" planta de Aarão Reis? Prestígio dado
pela vizinhança do palácio? Certamente. Mas por quê o Palácio se localizou alí e não
em outro local qualquer? Sem dúvida por ser local alto, saudável e descortinando belos
panoramas , aspectos do sítio valorizados pelas classes de alta renda. O conhecimeto do
mercado e do terreno, por parte dos construtores da nova capital eram mais atuantes
que a "fria" planta de Reis. Algumas décadas mais tarde, o Colégio Loyola se localizou
nas bordas de uma gleba que mais tarde seria o aristocrático bairro de Cidade Jardim.
Bem antes portanto dela ser ocupara pela alta burguesia mineira. Coincidência?
Em Porto Alegre, em 1907, instalou-se em Moinhos de Vento, a pista de corridas da
Protetora do Turf. Referindo-se a ela, diz Sanhudo: " Mais tarde nossos matungos
conheceriam o prado do Menino Deus, da Boa Vista, dos Navegantes, e finalmente, o
mais aristocrático de todos - Moinhos de Vento." (Sanhudo, 1961, 271) bairro esse que
"...pode ainda exibir a majestosa sede da tradicional Sociedade Leopoldina Juvenil e
ainda a cancha coberta ... do Grêmio Nautico União". (Sanhudo, idem, 227).
Em Salvador todo um centro governamental foi construído fora da cidade, na direção de
expansão dos bairros de mais alta renda da cidade.
Essa produção tão diferenciada de espaço urbano - a produção das localizações
convenientes e inconvenientes para as burguesias - se auto reforça crescentemente mas
já se faz clara desde o início do século. Assim forma-se uma verdadeira estrutura que a
todos captura. Ela fez, por exemplo com que a burguesia paulista não hesitasse em
prosseguir caminhando na direção que vinha trilhando, apesar de não mais existir o
determinante inicial dessa caminhada - o sítio natural alto e aprazível. Uma vez atingido
o alto da Av. Paulista, aquela classe, se quisesse continuar ocupando o sítio aprazível,
deveria continuar se instalando no espigão, ocupando-o nas direções de Vila Mariana,
de um lado, e do Sumaré, de outro. Mas não. Faze-lo significaria abandonar a direção
preferencial de crescimento da alta renda e caminhar para direções cada vez mais "fora
de mão". Por isso, aquela burguesia prefere abandonar o sítio aprazível e ocupa um
local planoe encharcado, sem qualquer atrativo, produzindo ali um de seus mais
aristocráticos e lendários bairros, digno sucessor de Campos Elíseos: o Jardim América.
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Ali, procurando compensar a falta de atrativos do sítio, promove a produção imediata
de um ambiente o mais agradável possível.
Por essa mesma razão as classes altas de Belo Horizonte tanto relutaram a ocupar
Pampulha, apesar de ser uma área para ela imediatamente produzida. Pampula fica "do
lado de lá" da região que aquelas classes produziram para si.
Além de imprimirem a essa região geral da cidade um padrão ambiental e estético
inexistente no restante do espaço urbano, através da aparência das ruas e edifícios, da
arborização, da presença maior de praças etc. aquelas camadas implantam nessa região
a melhor ( ou então com muita antecedência) infraestrutura da cidade, especialmente a
viária. Finalmente - um aspecto pouco avaliado - o espaço urbano é tecido de tal forma
que todo o dia a dia daquelas camadas, todo o seu quotidiano, ocorre
predominantemente nessa região. Cada vez mais, o próprio Estado para ela se transfere
e, ideologicamente essa região passa a se identificar com "a cidade" e o restante, passa a
ser encarado como subúrbio, periferia, passa a ser "longe". Na verdade torna-se longe
mesmo. Adiante veremos as implicações ideológicas e políticas desses processos e suas
conseqüências sobre a dominação social através do espaço urbano.
Um funcionário da repartição de águas do Rio de Janeiro na década de 20, falava da
fartura do abastecimento nas zonas ricas da cidade e da escassez que "...martyriza as
zonas suburbanas e pobres" ( Novaes, 1930, 24)
Em Belo Horizonte, nos anos 70, o órgão metropolitano de planejamento afirmava que
"... A distribuição de investimentos em infraestrutura urbana é desigual, sendo
beneficiados sistematicamente os bairros de maior padrão, que por vários motivos
conseguem atrair os investimentos públicos" (PLAMBEL, s.d. vol 1 19) . À pg. 61,
depois de ressaltar que os estratos sociais mais altos de Belo Horizonte concentram-se
ao sul da cidade, o mesmo relatório afirma: "Outro dado que merece destaque é a
ocorrência de serviços de infraestrutura representados pela pavimentação das vias. No
vetor sul da cidade, esse índice é bastante alto (53,39% das vias são pavimentadas)
apresentando grande defasagem com os outros eixos de crescimento da cidade, o que
reflete a distribuição distorcida dos investimentos públicos em infraestrutura urbana."
Finalmente uma análise mais recente de Kleiman, sobre distribuição espacial de
investimentos públicos no município do Rio de Janeiro entre 1938 e 1965 afirma: "
Comparando-se os investimentos de cada zona por período administrativo, podemos
identificar dois momentos diferenciados na produção da infraestrutura urbana; o
primeiro que estende-se de 1938 a 1954, ( correspondendo o período que vai do Estado
Novo ao 2o. Govêrno Vargas) onde observa-se certo equilíbrio entre Zona Sul e
Subúrbios, com o Centro em segundo plano; e um segundo momento que estende-se de
1954 a 1965 ( correspondendo ao período que vai do Govêrno JK ao Governo Lacerda)
onde esse equilíbrio será rompido, em certa medida, com a alocação de recursos que
privilegiam mais nitidamente a Zona Sul, ficando Subúrbios e Centro em segundo
plano. Ressalve-se sempre que tomando os investimentos per capita e em relação à
área urbanizável de cada zona, será mais beneficiada em todos os governos, a Zona
Sul. ( 1994, 384). Em 1960, a área que é a atual Zona Sul (atuais RA de Botafogo,
Copacabana, Lagoa e Barra da Tijuca) tinha apenas 19,17% da população do então
13
município do Rio de Janeiro ( Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro/ IPLANRIO,
1994, 132).
3. O Caso do Recife
Várias metrópoles brasileiras desenvolveram alguma relação simbólica ou material com
seus rios. São Paulo, com o Tietê, Porto Alegre, com o Guaíba, Manaus com o Negro.
Nenhuma entretanto, desenvolveu com seu rio, relações tão profundas e variadas -
econômicas, sociais e culturais - como as que Recife desenvolveu com o Capibaribe até
princípios deste século. Para Recife esse rio foi uma importantíssima via de transporte ,
local de intensa atividade de lazer e de tratamento de doenças, e finalmente fonte de
abastecimento de água, inicialmente vinda de Olinda e do Beberibe, e depois do
Capibaribe, no Monteiro (Souto Maior e Silva, 1992, 213). Nenhuma cidade
desenvolveu com seu rio tanta "unidade", e essa unidade só existe quando há amor pelo
rio. Como acontece com as ruas, como a do Ouvidor, no Rio, e a da Praia, em Porto
Alegre, as ruas mais amadas do Brasil. Chacon escreveu o livro O Capibaribe e o
Recife, segundo ele próprio, "...antes de mais nada por razões sentimentais."( 1959,10).
Nele diz que a obra "...constitui uma história social do Capibaribe e do Recife,
encarando-os como uma unidade geográfica, histórica, econômica, sociológica, poética
e sentimental."(Chacon, 1959, 9)
"Ëntre 1782 e 1850, a população recifense passou de 18.000 a 70.000
habitantes..."(Souto Maior e Silva, 1992, 195). Essa cifra é coerente com a mencionada
por Singer para 1823, ou seja, entre 36.000 e 40.000 pessoas ( 1968, 290). Recife era
então a terceira cidade do Brasil. Para que se tenha uma idéia dessa cifra, cabe lembrar
que naquele último ano, a cidade de São Paulo não tinha mais que 15.000 habitantes(*).
No final do século XVIII e na primeira metade do XIX, "...o Recife incorpora a
chamada "várzea do Capibaribe", isto é, toda a extensão que vai da Boa Vista e da
Madalena até Caxangá e a Várzea propriamente dita, subindo o rio e retalhando os
antigos engenhos...em sítios e chácaras, que por sua vez, sobretudo na década de 1840,
serão objeto de loteamento...O movimento pelo qual o velho burgo...expande-se pelo
continente e cria seus arrabaldes, tem inicialmente um caráter sazonal: trata-se de
abandonar a vila nos meses de verão para fugir às doenças ou para beneficiar-se das
virtudes curativas e dos deleites edênicos dos banhos de rio." (Souto Maior e Silva,
idem, 195/196).
O transporte hidroviário, utilizando-se da canoa movida a vara, desenvolveu-se muito
no Recife e o Capibaribe foi uma importante via. "Tanto quanto do cavalo, a expansão
do Recife dependeu do transporte fluvial e especialmente da canoa indígena. Desde o
século XVI ela assegurara as comunicações entre o Recife e Olinda, de um lado, e entre
o Recife e os engenhos da Várzea do Capibaribe, de outro... De canoa transportava-se
gente, água de beber, material de construção...Mas é o aparecimento dos arrabaldes que
vai dar-lhes um realce inusitado... O isolamento dos subúrbios, sua localização
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ribeirinha e a falta de caminhos fizeram da canoa, durante muito tempo, o recurso que,
sem ser o único era o mais cômodo ou o mais fácil." ( Souto Maior, Silva, 1992, 199).
____________________________________
(*). Em 1836, a cidade de São Paulo ( parte urbana das paróquias da Sé, Santa Efigênia e Brás) tinha no
máximo 9.301 habitantes e aquilo que é hoje o município de São Paulo, 12.286 (Marcílio,1968, 102)
A partir de meados do século XIX, com o desenvolvimento dos caminhos e do
transporte terrestre, o uso das canoas começou a declinar. "São as estradas de subúrbio
que desferem um duro golpe no tráfego das canoas de carreira, especialmente ao longo
do Capibaribe, ao possibilitar o uso mais intenso dos carros e coches." ( idem,ibid. 216).
Do ponto de vista da estruturação do espaço intra-urbano, a hidrovia é importante não
só como via de transpote, mas também pelos pontos de transposição e pelos portos que
desenvolve. " Alguns portos conseguiram sobreviver até meados do século XX como
"passagens" isto é, pontos ao longo do rio onde há serviço de travessia de uma margem
a outra. Muito tempo depois de ganhar uma ponte e de dispensar seu serviço de barcos,
a Madalena continuou a ser designada por "Passagem da Madalena"..."(idem, ibid.209).
Para se ter uma idéia da capacidade de sobrevivência desses importantes elementos de
estruturação urbana basta dizer que, ainda em 1959, entre a Torre e Caxangá, existiam
"... nada menos que seis passagens ainda em uso" ( idem, ibid. 209). Entretanto, "...ao
encerrar-se o segundo quartel do século XIX, a canoa já é uma espécie em extinção na
paisagem recifense." (Idem, ibid. 211).
Mas a importância do Capibaribe não se limitou a de uma via de transportes. Ele foi
também um importante e original elemento de lazer, higiene e saúde pública. Já na
segunda metade do século XVIII "...divulgavam-se informações sobre a importância
medicinal dos banhos do Capibaribe. Segundo uma notícia da fundação do povoado do
Poço da Panela, os médicos do Recife, por volta de 1758 "...concluíram que havia no
uso de banhos no Rio Capibaribe, grande vantagem para debelar certa febre epidêmica
que desde 1746 aparecera ...[na cidade]...Com essa descoberta... as grandes
propriedades marginais foram sofrendo as primeiras divisões e começaram a surgir os
sítios ou chácaras...sua maioria no século XVIII..."(Costa, 1981, 145). "Waterton, que
esteve em Pernambuco em fins de 1816, observou que do gosto pelo banho de rio
participava toda a população da cidade, "ricos e pobres, jovens e velhos, estrangeiros e
nativos " (Souto Maior e Silva, 1992, 197). Um diplomata inglês que esteve no Recife
entre 1819 e 1821 notou uma família inteira e respectiva mobília sendo transportada
pelo rio para sua residência de verão, "...e as senhoras, nos seus elegantes vestidos, com
chapéus franceses de plumas brancas...não parecem se importar com a transitoriedade
da liberdade que vão gozar, alimentando livremente seu exibicionismo, como em seus
banhos diários de rio, provavelmente dois ou três,... Elas são consideradas melhores
mergulhadoras e nadadoras que os homens...e não é raro ver-se algumas delas nadando
com muita desenvoltura, seus cabelos geralmente arrumados e presos." (Souto Maior e
Silva, 1992, 116). É realmente notável a força desse costume que chegou ao ponto de
introduzir um elemento democratizante na rígida aristocracia patriarcal pernambucana,
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libertando inclusive - embora dentro de limites - a mulher, da reclusão luzo-muçulmana
que ainda vigorava no Brasil na primeira metade do século XIX.
Em grande parte devido a seus ricos engenhos, pelos atrativos ambientais do vale do
Capibaribe e também pelo hábito de banho de rio em chácaras da periferia, Recife
desenvolveu uma extensa rede de povoados naquele vale, bastante afastados da cidade.
Os engenhos "... eram realmentente núcleos de população pois contavam cerca de 100 a
200 moradores cada um."( Costa, 1981,144). Como no Rio, muitos desses arrabaldes
tornaram-se local de residência permanente já em meados do século XIX. "...com a
abertura regular das estradas, as povoações, procuradas apenas no fim do ano, passaram
a constituir áreas de residência permanente. Disto decorreu o loteamento de grandes
sítios que ainda existiam no Recife. Alguns desses sítios, - tal qual os antigos engenhos,
que deram origem a tantos bairros recifenses, como o da Torre, Madalena, Cordeiro,
Monteiro, Apipucos etc. - depois de loteados, tão grandes eram, originaram outros
bairros ... o da Tamarineira, o do Espinheiro,, o de Sant'Ana, o das Jaqueiras, o do
Fundão, o dos Peixinhos e o da Capunga".( Costa, idem, 148). A maioria desses bairros
situa-se no eixo do Capibaribe e veio a consolidar o setor que, por mais de um século,
seria o de maior concentração de camadas de alta renda da metrópole.
Para se ter uma idéia do desenvolvimento dos arrabaldes de Recife, basta dizer que em
1855 já havia serviço regular de ônibus ( diligência de tração animal, puxada por quatro
cavalos, as vezes com dois andares) para Apipucos, a 8 km de distância do centro em
linha reta ! "Corria-se para o Monteiro, Manguinho, Casa Forte, Apipucos, partindo do
largo da matriz de Santo Antonio, em certa época "...Após o espetáculo do ator João
Caetano, em 1856, havia ônibus para os arrabaldes" (Sette, 1948, 89/90). Tal como no
Rio, a freqüência ao teatro mostra uma população de hábitos urbanos que, em meados
do século, tinha residência permanente fora da cidade, e não apenas casa de veraneio ou
fim de semana.
Três gerações de sistemas de transporte se sucederam naquele eixo, reforçando a
estrutura urbana herdada do sistema anterior: o hidroviário, os caminhos e as estradas
de ferro. Os bondes puxados por burros só vieram em 1870 (Sette, 1948,96/97). A
Planta da Cidade do Recife, de autoria do engenheiro José Tibúrcio Pereira de
Magalhães, editada em 1870 e reproduzida por Pereira da Costa em seu livro Arredores
do Recife, mostra clara, embora esquematicamente, o desenvolvimento urbano ao
longo do Capibaribe.
Quando, em meados do século XIX chega pioneiramente a estrada de ferro, Recife já
havia desenvolvido uma rede de arrabaldes com residências permanentes e hábitos de
vida mundana fora da cidade, não apresentados por nenhuma capital brasileira, com
exceção do Rio de Janeiro. Aliás, pode-se ter uma idéia do desenvolvimento da elite
local, pela pioneira inauguração, em 1850, do monumental Teatro Santa Isabel que
manteve, por décadas, intensa atividade artística. Em 1867, uma companhia francesa
anunciava no "...Théâtre Sainte Isabelle...Orphée aux Infers, opéra-bouffe, musique
d'Offenbach..."( Sette, 1948, 198).
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Pernambuco foi a segunda região brasileira a dispor de transporte ferroviário (Sette,
1948,139) e em nenhuma cidade brasileira as elites se utilizaram desse transporte - as
"maxambombas" - mais que em Recife. Ou melhor, é possível afirmar que Recife foi a
única capital brasileira onde as elites utilizaram sistematicamente o transporte
ferroviário como transporte urbano de passageiros.
Os "trens de horário" começaram a funcionar na Estrada de Ferro do Recife ao São
Francisco em fevereiro de 1858. "A princípio apenas se chegava ao Cabo...Hora e meia
de viagem... parava-se em Afogados, Prazeres, Pontezinha, Ilha...(Sette, 1948,140).
"Bem no centro do Largo de Ponte D'Uchoa, ainda está de pé a estação da
"Maxambomba" que era um trenzinho urbano que correu de 1867 a 1915, sempre
vagaroso e muito prestativo. Sucedem-se, nos dois lados da Avenida, { Rui Barbosa,
que aqui acompanha de perto o Capibaribe) nobres casarões imperiais, palacetes deste
século e modernas residências em estilo funcional" ( Rocha, 1959, 89).
Com a estrada de ferro, "...ir-se ao Cabo virou moda..." e o Grande Hotel do Cabo
anunciava aos "...admiradores do bom gosto, todas as comodidades precisas para bem
passar-se o tempo naquela amável vila, uma bela e grande casa com bastantes salas e
quartos, para grandes famílias, decentes e abundantes iguarias, belo banho, ótimo jardim
e uma banda de música militar... O vapor, nos domingos e dias santos, partirá desta
cidade às 7 horas em ponto e voltará às 5 da tarde... Um ano após a inauguração do
trem, visitam o Recife os imperadores D. Pedro II e Da. Teresa Cristina, pela primeira
vez. Em três ocasiões, os imperantes vão ao Cabo." ( Sette, 1948,140/41).
"... Evidência do desenvolvimento dos arrabaldes com essas comunicações cômodas,
rápidas e frequentes...eram os anúncios de excelentes casas próximas ao trem...Também
terrenos eram postos a venda frisando-se que em zona onde passava ou iria passar o
trem.... Em arrabaldes como Poço da Panela, e Monteiro, havia teatros... De Apipucos,
os trilhos estenderam-se até a Encanação..." e daí "... até Caxangá, subúrbio que veio a
gozar de um prestígio enorme. Vida social intensa, banhos maravilhosos, água
ferruginosa, hotéis...E não poucos. O Grande Hotel de Caxangá... o Hotel Francês
...Também a Jaqueira teve o seu hotel...E o que dizer do de Apipucos "...que anunciava
em francês: "On invite messieurs les étrangers à venir jusque là où ils rencontreront
bone table et à prix convenable" ( Sette, 1948, 110/111).Na década de 80 havia três
ramais de trem com transporte intra-urbano de passageiros partindo da Praça da
República: Várzea, Linha Principal ( Dois Irmãos) e Arraial (ramal de Aflitos, aberto
em 1871). ( Sette, idem ibid. 112)
A implantação esparsa do Recife, particularmente no eixo do Capibaribe, mantém sua
influência até o século XX, de maneira que o crescimento urbano que ocorre até
meados do presente século, em grande parte - como aconteceu na zona sul do Rio -
limitou-se a preencher os vazios existentes entre os vários núcleos.
Esse processo - juntamente com o do Rio de Janeiro - nos leva a refletir sobre a
complexa questão do efeito dos transportes sobre a implantação urbana, mais rarefeita
ou mais compacta.
17
No espaço urbano do Recife, as margens do Capibaribe firmaram-se então como uma
região privilegiada que combinava as vantagens de acessibilidade ao centro da cidade
um importante elemento do sitio natural. Evidentemente, ao longo do Capibaribe,
instalou-se a aristocracia recifense. Todos os cronistas e historiadores destacam o fato
de que, desde o século XVII as margens daquele rio foram a localização preferida para a
moradia - inicialmente de descanso, depois permanente - da aristocracia local. Um fato
bastante destacado é o de que, com o declínio do transporte fluvial, e o advento dos
caminhos, as mansões que antes eram construídas com frente para o rio, passam a sê-lo
com frente para os caminhos. "...em Apipucos...no Monteiro, em Caxangá, na Várzea,
na Madalena, em Caldeireiro...se encontram, ainda agora, algumas das boas residências
de feitio antigo do Recife, duas ou três ainda com frente para o rio...como a marcar o
que foi a velha fronteira urbana do Recife em face dos canaviais."(Freyre,1961, 74).
O vale do Capibaribe ( Setor Oeste da metrópole) manteve-se até a década de 60 como a
maior área de concentração das camadas de alta renda da Região Metropolitana. A partir
de então começou a ter essa posição ameaçada pelo Setor Sul - Boa Viagem que hoje o
supera nesse particular. Note-se aliás, que esse Setor Oeste não escapou à arguta
percepção de Tadeu Rocha, que em Roteiros do Recife, tem um capítulo dedicado a
um "Circuito no Quadrante Oeste"( 1959,73). O hábito do banho salgado começou no
Recife, na segunda metade do século passado. Cabral de Mello ( citado em Souto Maior
e Silva, 1992,198) diz que na segunda metade do século XIX "...o banho de mar tornou-
se crescentemente popular e os anúncios de casas de arrabaldes mais
próximos,...passaram a incluir a menção, até então silenciada, à conveniência dos
banhos salgados...". Tratava-se entretanto, de atividade esporádica e de reduzida parcela
da população. Esse hábito só começa realmente a se tornar rotina em meados do século
XX
Ao contrário do Rio de Janeiro e Santos, as metrópoles nordestinas não desenvolveram
rapidamente o setor de concentração da alta renda ao longo da orla oceânica. Em
Salvador, esse setor praticamente ainda não existe - neste final do século XX - de tão
fraco que é. Em Recife e Fortaleza, só a partir da década de 70 é que os setores
oceânicos começaram a se desenvolver como regiãs de concentração das camadas de
mais alta renda..
Pode-se atribuir essa resistência dos bairros aristocráticos interiores, fora da orla
marítima, em parte ao conservadorismo da aristocracia nordestina, em parte pelo fato de
que no Recife, e especialmente em Salvador, não ter havido praias próximas ao centro
e aos bairros mais centrais, tão belas como no Rio, e finalmente, também ao fato de que
o turismo - um poderoso indutor do desenvolvimento dos vetores oceânicos - ter
chegado a Fortaleza ou Recife, só recentemente, enquanto que em Santos e no Rio ele já
era intenso, nos hoteis de praia, por volta da década de 20.
Na década de 70 deste século, quase um século depois do Rio de Janeiro, a orla
oceânica recifense começa a se transformar em local de residência permanente das
camadas de alta renda. Hoje, a orla oceânica, de Boa Viagem a Jaboatão, supera o setor
oeste em termos de concentração dessas camadas, como mostram os dados do Quadro 2.
18
Extraindo-se os dados relativos da tabela acima tem-se que: o Setor Oeste abriga 4,37%
dos domicílios da Região Metropolitana e no entanto detém 25,34% daqueles cujos
chefes ganham 20 salários mínimos por mês ou mais. Por outro lado, o Setor Sul é bem
maior, tanto em números absolutos como relativos; abriga 12,9% dos domicílios e
42,62% daqueles cujos chefes percebem 20 salários mínimos ou mais. Os dois setores
somados abrigam 17,26% dos domicílios da Região Metropolitana, mas 68,36%
daqueles cujos chefes percebem 20 salários mínimos ou mais. Se ampliarmos o setor
oeste, de maneira a incluir os bairros de Casa Amarela, Cordeiro, Iputinga Torre e
Soledade, ele passará a apresentar 8,73% dos domicílios ( ao invés de 4,37%) e 32,28%
QUADRO 2
ÁREA METROPOLITANA DO RECIFE
CONCENTRAÇÃO DAS CAMADAS DE ALTA RENDA
1995
SETOR OESTE
Bairros
Domicílios
Total
Com chefes
ganhando 20 SM ou
mais
1. Aflitos 897 278
2. Boa Vista 6.043 494
3. Casa Forte 1.130 317
4. Derby 646 184
5. Encruzilhada 2.486 257
6. Espinheiro 2.379 552
7. Graças 4.251 1.177
8. Jaqueira 231 76
9. Madalena 5.109 495
10. Parnamirim 1.192 296
11. Poço 975 171
12. Rosarinho 631 99
13. Tamarineia 2.793 270
TOTAL 28.763 4.666
SETOR SUL
DOMICÍLIOS
BAIRROS, DISTRITO E REGIÃO
METROPOLITANA
Total
Com chefes
ganhando mais
que 20 SM
mensais
19
1. Boa Viagem 24.092 5.552
2. Pina 6.437 202
2. Jaboatão de Guararapes (*) 54.459 1.970
TOTAL 84.988 7.724
Região Metropolitana do Recife 658.940 18.125
(*) Trata-se apenas do Distrito e não do Município.
Fonte: IBGE e Prefeitura Municipal do Recife, Secretaria de Planejamento Urbano e Ambiental, DIP.
dos chefes que percebem 20 SM ou mais. Mesmo assim, não supera o Setor Sul . Nesta
alternativa, os Setores Oeste e Sul somados passariam a concentrar 21,63%
dosdomicílios da Região Metropolitana e 74,9% daqueles cujos chefes percebem 20
salários mínimos ou mais. Esses números exprimem um alto grau de segregação.
Embora esses dados sejam já suficientes para revelar a superioridade do Setor Sul (
novo) sobre o Oeste ( tradicional), foram feitas ainda pesquisas que indicam: de um
total de 5.143 anúncios de apartamentos com no mínimo três dormitórios, dos quais no
mínimo um era suite, pesquisados na imprensa local durante os anos de 1994 e 1995,
53,39% localizavam-se no Setor Sul( inclusive Imbiribeira), 41,71% no Oeste, (na
versão maior acima indicada) e o remanescente no restante da Região Metropolitana.
De um total de 102 anúncios (não pagos) de restaurantes, noticiados na imprensa local
48,04% localizavam-se no Setor Sul, 23,53% no Oeste, 9,80% em Olinda e os demais
no restante da Região Metropolitana. Apenas em número de agências bancárias o Setor
Oeste supera o Sul, como mostra o Quadro no. 2.
QUADRO 3
REGIÃO METROPOLITANA DO RECIFE
EVOLUÇÃO DA REDE BANCÁRIA SEGUNDO A LOCALIZAÇÃO
Ano
Centro
Setor Oeste
Setor Sul
Olinda
Outros
Total
1973 91 5 2 1 15 114
1983 92 23 23 5 32 175
1993 85 53 44 10 61 253
Fonte: Guia Bancário.
Esses dados são estranhos se lembrarmos que o Setor Sul tem hoje bem mais "ricos"
que o Oeste, e tem tido nos últimos anos um enorme desenvolvimento do comércio e
principalmente dos serviços voltados para a alta renda tanto local como turista ( Centros
Empresariais, hotéis, restaurantes, lojas etc.) . A explicação para a diferença acima
talvez esteja na densidade demográfica. Sendo o Setor Sul mais denso que o Oeste,
20
talvez ele tenha um menor número de agências grandes ( em termos de depósitos)
enquanto o Oeste teria um maior número de agências menores.
Aliás já pelo Censo de 1980 o Setor Sul superava o Oeste em termos de "Pessoas de 10
anos e mais percebendo 20salários mínimos ou mais". O primeiro, compreendendo os
Distritos de Boa Vista, Graças, Encruzilhada e Madalena, tinha 3.602 pessoas com dez
anos e mais naquela situação, enquanto que Boa Viagem e o Município de Jaboatão
tinham 5.214. Embora os indicadores sejam diferentes nos dois censos, e as áreas
territoriais também, essas diferenças não chegam a invalidar aquela conclusão.
A superioridade do Setor Sul em termos de concentração das camadas de alta renda é
clara. Não menos claro é o fato de que Recife é a única das metrópoles aqui estudadas
que apresenta duas áreas de concentração de alta renda tão equilibradas. Em São Paulo,
por exemplo, a segunda maior área de concentração das camadas de alta renda ( Zona
Norte, na região da Cantareira) detém 4,34% da população e apenas 5,94% das pessoas
com renda familiar média mensal igual ou superior e 30 salários mínimos ( Pesquisa
OD, 1987).
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Cultura de Pernambuco.
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SOUTO MAIOR, Mario e SILVA, Leonardo D. org. 1992, Recife: quatro séculos de
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Cidade do Recife.
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