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234 ciÊnciaS da natureZa e SuaS tecnologiaS Biologia I Anual – Volume 1 Os núcleos 2n do estágio diploide sofrem então meiose para dar origem a esporos sexuados, que germinarão para produzir novos micélios. Estrutura formadora de esporos (n) Reprodução assexuada Reprodução sexuada Plasmogamia (fusão do citoplasma) Esporos (n) Germinação Micélio (n) Germinação Esporos (n) Estrutura formadora de esporos (n) Meiose Estágio diploide (2n) Cariogamia (fusão dos núcleos) Estágio dicariótico (n+n) Reprodução assexuada (por esporos) e sexuada em fungos. Classifi cação dos fungos Os fungos são classificados em quatro filos, a saber: Chytridiomycota (citridiomiceto), Zygomycota (zigomiceto), Ascomycota (ascomiceto) e Basidiomycota (basidiomiceto). Os Zygomycotas, Ascomycotas e Basidiomycotas são considerados fungos teleomorfos, isto é, eles produzem esporos sexuais e assexuais. Alguns ascomicetos perderam a capacidade de se reproduzir sexuadamente. Esses fungos assexuais são chamados de anamorfos. O Penicillium e o Aspergillus são exemplos de fungos anamorfos que surgiram da mutação de um teleomorfo primitivo. Historicamente, os fungos cujo ciclo sexual ainda não havia sido observado eram colocados em uma “categoria de espera” denominada de Deuteromycota (deuteromiceto). Atualmente, os micologistas estão usando o sequenciamento do RNAr para reclassifi car esses organismos. Muitos dos que foram previamente classificados como deuteromicetos são fases anamórfi cas dos ascomicetos, e alguns são basidiomicetos. REINO FUNGI Filo Características principais Chytridiomycota Unicelulares ou fi lamentos (hifas cenocíticas). Apresentam fl agelos em algum estágio do ciclo de vida. Ex.: Allomyces arbuscula Zygomycota Hifas cenocíticas. Formam esporos sexuados chamados zigósporos. Sem corpo de frutifi cação. Ex.: Rhizopus nigricans, um bolor negro do pão. Ascomycota Hifas septadas. Formam esporos sexuados chamados ascósporos, em hifas especializadas chamadas ascos. Algumas espécies formam corpo de frutifi cação (ascocarpo ou ascoma). Ex.: Saccharomyces cerevisae (fermento-de- padaria ou levedo de cerveja). Basidiomycota Hifas septadas. Formam esporos sexuados chamados basidiósporos em hifas especializadas chamadas basídios. Algumas espécies formam um corpo de frutifi cação (basidiocarpo ou cogumelo). Ex.: Agaricus sp. (champignon). “Classifi cação dos fungos” (AMABIS e MARTHO. Biologia da célula. Volume 2. São Paulo: Moderna, 2007. Página 120). Zoósporos unif lagelados Chytr id iomycota Zygomycota Ascomycota Basidiomycota Zigósporo Ascocarpo Ascósporo Basidiocarpo Basidiósporo Corpo de frut i f icação Perda do f lagelo Reprodução por esporos Hifas Absorção de nutr ientes do meio Parede celular com quit ina Evolução dos fungos. Filo Chytridiomycota (quitridiomicetos) Os quitridiomicetos ou quitrídias são fungos terrestres e aquáticos, unicelulares e multicelulares, que em algum estágio do ciclo de vida apresentam células fl ageladas (esporos e/ou gametas). É o único fi lo do reino Fungi que possui representantes fl agelados, o que levou alguns autores a chamá-los de mastigomicetos (do grego mastix, fl agelo, e mycetos, fungo). Como os outros fungos, os quitridiomicetos apresentam quitina na parede celular e armazenam glicogênio. A maioria dos quitridiomicetos é sapróbia, entretanto, há espécies parasitas. Um exemplo de quitrídia parasita é Batrachochytrium dendrobatidis, que tem sido responsável pelo possível desaparecimento de anfíbios em vários continentes, incluindo a América do Sul. Filo Zygomycota (zigomicetos) O fi lo Zycomycota (do grego zygos, união) possui em torno de 1060 espécies, sendo cosmopolitas. Eles produzem esporos sexuais chamados zigósporos, que podem fi car dormentes por um determinado período. Podem ser unicelulares ou possuírem hifas cenocíticas, alcançando até o estágio de micélio. Alguns zigomicetos são utilizados na elaboração de produtos comercialmente importantes, como molho de soja, ácidos orgânicos, esteroides para drogas contraceptivas e anti-infl amatórias. Muitos desses fungos são decompositores, mas há espécies parasitas de plantas e animais. Um zigomiceto muito comum é o bolor preto do pão, Rhizopus stolonifer. Na reprodução assexuada dos zigomicetos ocorre a diferenciação no micélio de esporângios para a geração dos esporos assexuados. Isso ocorre quando as condições ambientais são favoráveis. Esporângio Esporo Hifas Ar (vento) Ambiente favorável Esporo em germinação Micélio Ciclo de reprodução assexuada do zigomiceto Rhizopus stolonifer. 235 ciÊnciaS da natureZa e SuaS tecnologiaSBiologia I Anual – Volume 1 Na reprodução sexuada, quando as hifas (+) e (–) se tocam, fundem-se, ocorrendo nesta área a formação dos gametângios com núcleos n (+) e (–) devido à fusão dos citoplasmas (plasmogamia), formando o estágio dicariótico (n + n). Em seguida, ocorre a fusão dos núcleos n (+) e (–) (cariogamia), formando o estágio diploide (2n) multinucleado. A parede celular dos gametângios fundidos se espessa e assume uma coloração negra, passando a estrutura a ser denominada zigoto. Este é altamente resistente e pode permanecer meses resistindo a condições adversas, até que o ambiente se torne propício para a germinação. Nessa etapa, o zigoto se abre e forma um único esporângio com todos os núcleos 2n, onde há a meiose para a produção e subsequente dispersão dos esporos. Cada esporo então origina um novo micélio. Esporangióforo Desenvolvimento do esporangióforo EsporângioEsporângio EsporângioEsporângio Esporos (n) Reprodução assexuada Micélio (n) Germinação do esporo Esporos (n) R!R! Detalhe da fusão de micélios sexualmente compatíveis MEIOSE Zigoto (zigosporângio) (2n) Fecundação Gametângios de sexos diferentes Ciclo de reprodução sexuada do zigomiceto Rhizopus stolonifer. Filo Ascomycota (ascomicetos) O fi lo Ascomycota (do grego askos, bolsa) constitui um grande grupo de mais ou menos 32.300 espécies descritas. Recebem também o nome de fungos de saco, pois seus esporos sexuais são produzidos em pequenos sacos chamados ascos. São representados por espécies possuidoras de micélios com hifas septadas como o Neurospora crassa e o Claviceps purpurea (esporão de centeio), produtor de ácido lisérgico precursor do alucinógeno LSD (dietilamida de ácido lisérgico) e de espécies unicelulares como o Saccharomyces cerevisiae, produtor de etanol por fermentação alcoólica. Os ascomicetos variam na complexidade, desde leveduras unicelulares, passando por mofos (bolores) multicelulares, chegando a fungos em forma de taça. Eles incluem a maioria dos bolores esverdeados, rosas e marrons que estragam os alimentos. Os ascomicetos desempenham um papel ecológico importante na decomposição de moléculas animais e vegetais resistentes como a celulose, lignina e o colágeno. Em certos ascomicetos (antes denominados de deuteromicetos) só há reprodução assexuada que origina esporos específicos chamados de conídias ou conídios ou conidiósporos. Estas são muito diversas na forma, tamanho e cor, nas diferentes espécies de ascomicetos. A cor desses esporos dá o aspecto preto, azul, verde, rosa ou outro, a muitos destes bolores. As conídias desprendem-se das extremidades de certas hifas conhecidas como conidióforos (estruturas que possuem os esporos). Durante a reprodução sexuada, forma-se um tipo particular de esporo denominado ascósporo, produzido em estruturas denominadas ascos, que são modifi cações das hifas. Neles, os dois núcleos n da célula se fundem, formando um núcleo 2n, que sofre uma meiose, originando quatro núcleos n. Em leveduras, esses quatro núcleos já são os ascósporos, mas na maior parte das espécies, ocorre posteriormente uma mitose, originando oito núcleos n que corresponderão nesse caso aos ascósporos. Os esporos são então dispersos pelo vento para dar origem a novos indivíduos. Núcleo (2n) Asco jovem Meiose Asco maduro com quatroascósporos Ascósporos (n) Formação de ascósporos em leveduras. Asco jovem Fusão (n) (n) dos núcleos Meiose Núcleo (2n) Núcleos (n) Ascósporos (n) Mitose Asco maduro, com oito ascósporos Formação de ascósporos em ascomicetos em geral. Corpos de frutificação (ascocarpo) Hifas estéreis Ascocarpo (perifécio) em corte Ascos com ascósporos Detalhe do corpo de frutifi cação do ascomiceto Sarcoscypha coccinea. Ciclo reprodutivo sexuadoCiclo reprodutivo sexuado Germinação e desenvolvimento Germinação e desenvolvimento Micélio primário (n) Micélio primário (n) Fusão de hifas (plasmogamia) Fusão de hifas (plasmogamia) Hifas dicarióticas Hifas dicarióticas Esporo (n) Esporo (n) Micélio primário (n) Micélio primário (n) Hifas monocarióticas Hifas monocarióticas Meiose (R!) Meiose (R!) Hifas férteis (2n) Hifas férteis (2n) Fusão dos núcleos (cariogamia) Fusão dos núcleos (cariogamia) Hifas dicarióticas Hifas dicarióticas Formação do corpo de frutificação Formação do corpo de frutificação Micélio secundário (n + n) Micélio secundário (n + n) AscoAsco AscósporoAscósporo Ciclo reprodutivo sexuado do ascomiceto Sarcoscypha coccinea. Vale ressaltar que os micélios primários possuem hifas monocarióticas, com a plasmogamia forma-se o micélio secundário com hifas dicarióticas. 236 ciÊnciaS da natureZa e SuaS tecnologiaS Biologia I Anual – Volume 1 Leveduras Bo b Bl ay lo ck /W ik im ed ia F ou nd at io n Saccharomyces cerevisiae As leveduras são fungos unicelulares, presentes em qualquer um dos fi los de fungos. Existem, aproximadamente, 850 espécies diferentes de leveduras, separadas em cerca de 78 gêneros. Um dos grupos mais importantes de leveduras, pertencem ao fi lo dos ascomicetos devido à sua importância econômica. Dentre estas, temos a espécie Saccharomyces cerevisiae, que através da fermentação de carboidratos para a obtenção de ATP, liberam etanol e gás carbônico. Este processo é de fundamental importância para a produção de pães e bebidas alcoólicas como a cerveja. Através dos anos, muitas linhagens diferentes de leveduras têm sido selecionadas para este processo. Outras leveduras apresentam importância médica, por causarem doenças como a criptococose, infecção que pode atacar os pulmões, e a candidíase, infecção que provoca lesões superfi ciais na mucosa bucal e genital. Filo Basidiomycota (Basidiomicetos) O fi lo Basidiomycota (do grego basis, base) tem mais de 25000 espécies, apresentando hifas septadas e corpos de frutifi cação, os basidiocarpos, em formato de guarda-chuva. São exemplos mais conhecidos os cogumelos do gênero Agaricus, apreciados como alimento pelos humanos, os orelhas-de-pau, os alucinógenos, como Psilocybe, os venenosos, como Amanita muscaria, além de importantes parasitas de plantas, como os fungos do carvão e da ferrugem. Durante a reprodução sexuada, forma-se um tipo particular de esporo denominado basidiósporo, produzido em estruturas denominadas de basídios, formados a partir de hifas modifi cadas. A formação desses esporos é bastante semelhante àquela descrita para os ascósporos, com a diferença que os basidiósporos encontram-se em evaginações do basídio, projetados para o meio externo, objetivando facilitar a exposição ao vento. Os esporos são, como no caso dos ascósporos, dispersos pelo vento para dar origem a novos indivíduos. Vale ressaltar que a diferença básica entre ascósporos e os basidiósporos deve-se ao fato de os primeiros estarem dentro do asco enquanto os segundos estão fora do basídio. Fusão nuclear (fecundação) MEIOSE Formação dos basidiósporos Basídio BasidiósporosNúcleos haploidesZigotoHifa dicariótica (n)(n)(2n) R! Formação de basidiósporos em basidiomicetos. Lamela (ampliação) MEIOSE ZIGÓTICA R!R! Fusão de núcleos (fecundação) Liberação dos basidiósporos Liberação dos basidiósporosBasidiósporos (n) Zigotos (2n) Hifas haploides (n) Germinaçãodos basidiósporos Hifas dicarióticas Micélio dicariótico Fusão de micélios compatíveis Corpo de frutificação (basidiocarpo) CICLO REPRODUTIVO SEXUADO DE UM FUNGO BASIDIOMICETO Ciclo reprodutivo sexuado do basidiomiceto Agaricus campestres. Importância ecológica Os fungos são muito importantes para os ecossistemas, principalmente, por suas ações decompositoras, como já citado anteriormente. Fungos são seres saprófi tas que se desenvolvem sobre matéria orgânica morta. Particularmente, em áreas úmidas, onde fungos crescem mais facilmente, sua ação de reciclagem da matéria mantém a nutrição de raízes de modo geral, que necessitam dos produtos inorgânicos de decomposição como os íons minerais. Dessa forma, fl orestas temperadas e tropicais apresentam abundantes populações de fungos no solo, devido à sua umidade. Contudo, nas regiões secas, fungos não proliferam com tanta facilidade, uma vez que não possuem estruturas para evitar a desidratação. Um abundante número de espécies de fungos realizam associações simbióticas mutualísticas, nas quais há mútuo benefício e obrigatoriedade de relação entre os seres associados. Duas dessas interações ecológicas se sobressaem, a saber, as micorrizas e os liquens. Liquens Representam uma associação ecológica harmônica interespecífi ca entre uma alga, ou uma cianobactéria, e um fungo. Este pertence geralmente ao fi lo dos ascomicetos, mas alguns são do fi lo dos basidiomicetos. As algas ou cianobactérias encontradas nos liquens também são encontradas de forma livre nos ecossistemas, contudo, o fungo encontra-se somente como parte do líquen. As algas fabricam matéria orgânica pela fotossíntese, usando a água e os íons minerais obtidos pelos fungos, enquanto estes dependem das algas quanto ao fornecimento de fotossinatos (produtos da fotossíntese). Além disto, certas espécies de cianobactérias que participam da formação de liquens são capazes de fi xar nitrogênio, importante elemento para a síntese de proteínas e ácidos nucleicos. 237 ciÊnciaS da natureZa e SuaS tecnologiaSBiologia I Anual – Volume 1 Os liquens possuem formas de reprodução bem particulares como uma simples fragmentação, ou pela produção de sorédios (propágulos vegetativos), ou por pequenas projeções do talo conhecidas como isídios. Fragmentos, sorédios e isídios contêm tanto hifas do fungo como algas ou cianobactérias; eles atuam como unidades de dispersão que têm a função de estabelecer o líquen em novos meios ecológicos. Há, aproximadamente, 20.000 espécies de liquens. Estes podem se instalar em lugares onde a alga e fungo isoladamente não sobreviveriam. Dessa forma, são encontrados em troncos de árvores, rochas lisas, muros e postes. Toleram variação térmica e de umidade, sendo sensíveis à poluição ambiental, por isso, são utilizados como bioindicadoras de poluição. Muitos liquens são utilizados como fontes de corantes e também como medicamentos, bases fi xadoras de perfumes ou fontes de alimento de menor importância. Os liquens são excelentes organismos pioneiros em processos de sucessão ecológica devido aos seus requisitos nutricionais mínimos: água, gás carbônico, compostos nitrogenados e alguns íons minerais (especialmente para aqueles com cianobactérias em sua estrutura, que podem fi xar o nitrogênio atmosférico). Trazidos pelo vento ou pela água, liquens podem aderir a rochas e a partir daí criar toda uma comunidade. Os ácidos liquênicos liberados para a digestão extracorpórea dos fungos podem degradar até mesmo rochas, pulverizando-a, gerando então solo. Água retida devido à ação do fungo e nutrientes acumulados a partir da ação da alga podem então se acumular nesse solo, abrindo caminho para que outros organismos possam se instalar nessa área, num processo ecologicamente conhecido como facilitação. Sorédios (estruturas reprodutivas) Células da alga Hifas do fungo Hifas do fungo Células da alga Liquens sobre uma rocha no início de uma sucessão ecológica e, abaixo, o detalhe de um sorédio, estrutura de propagação assexuadado líquen. Micorrizas A micorriza é uma associação benéfi ca entre um fungo e uma raiz de planta. Este termo é derivado do grego, signifi cando “raiz fúngica”. Estudos mostraram que as plantas benefi ciam-se com essa associação, principalmente se o solo for pobre em íons minerais de que elas necessitam. Em algumas situações, a relação é tão necessária que as plantas não germinam e não se desenvolvem caso não sejam infectadas pelos fungos, como no caso de certas orquídeas. As micorrizas ajudam na transferência direta do fósforo, zinco, cobre e outros nutrientes do solo para as raízes. Por outro lado, a planta fornece fotossinatos ao fungo simbionte. Os fi los de fungos da relação são geralmente os zigomicetos e os basidiomicetos. MICORRIZASMICORRIZAS Raízes HifasHifas Hifas do fungo Fungo (Boletus) Raízes do pinheiro (Pinus) Raízes do pinheiro (Pinus) Micorriza entre basidiomiceto e angiosperma. Importância alimentar Diversos alimentos consumidos por humanos são de origem fúngica, sendo fontes de importantes nutrientes. Os cogumelos como o champignon (Agaricus sp.), o shiitake (Lentinus edodes), o shimeji (Pleurotus sp.), bem como os ascomicetos Morchella esculenta e as trufas (Tuber sp.) são comestíveis e considerados iguarias gastronômicas em várias culturas. Os cogumelos são alimentos muito apreciados desde a idade antiga por se acreditar em seu elevado valor nutritivo e em seu potencial medicinal, além de serem classifi cados como uma especiaria nobre em pratos culinários. As propriedades dos cogumelos vão muito além do sabor exótico e das suas formas graciosas. Essas iguarias têm também funções terapêuticas, como prevenir doenças e aumentar a capacidade imunológica do organismo, por isso, são ditos alimentos funcionais. As trufas são corpos frutifi cantes subterrâneos de certas espécies de ascomicetos que crescem em associação com algumas árvores, entre as quais o carvalho e a faia, que são os parceiros mais comuns. O fungo proporciona certos nutrientes à árvore, a qual, por sua vez, fornece substâncias essenciais para o crescimento do fungo. As trufas consistem em uma massa de ascósporos e micélios, coberta com uma casca espessa e protuberante do micélio. Possuem odor, gosto e textura agradáveis, o que as tornam apreciáveis pelos gourmets. Já a leveduras são fungos unicelulares capazes de realizar fermentação alcoólica e, com isso, são fundamentais na produção de bebidas alcoólicas e pães. No processo de fermentação alcoólica, há a produção de etanol e gás carbônico. Os levedos de cerveja das espécies Saccharomyces cerevisae e Saccharomyces carlsbergensis são os mais conhecidos, sendo estes também componentes do fermento biológico. Vale ressaltar que há também uma específi ca levedura para a produção do vinho, sendo da espécie Saccharomyces ellipsoideus. Quando as leveduras fazem fermentação alcoólica e acumulam etanol no meio, elas morrem a partir de uma determinada concentração alcoólica, em torno de 12 a 14%. Dessa forma, a concentração de etanol conseguida com a fermentação é relativamente reduzida. Bebidas alcoólicas produzidas dessa maneira são ditas fermentadas, como a cerveja, o vinho, o champanhe e a sidra. Para se obter uma concentração alcoólica mais elevada, deve-se fazer um processo de destilação da mistura de água e etanol. Assim, poderemos obter bebidas como a cachaça (a partir da cana-de-açúcar), o rum (a partir de melaço de açúcar), o uísque (a partir de cereais envelhecidos e milho especial), a vodca (a partir de batata e trigo) entre outras. 238 ciÊnciaS da natureZa e SuaS tecnologiaS Biologia I Anual – Volume 1 O gás carbônico liberado na fermentação alcoólica é a base para o inchaço de pães e bolos. O fermento biológico é na verdade as próprias leveduras, que em contato com o substrato adequado, começam a realizar fermentação alcoólica. As minúsculas bolhas de gás carbônico se expandem dentro da massa, e devido ao glúten, substância elástica e pegajosa, promovem o inchaço da massa. A quantidade de etanol produzida nesse processo é muito reduzida, e, por isso, evapora no processo. Vale ressaltar que os fungos do fermento biológico demoram um pouco para degradar os carboidratos da massa e posteriormente fermentá-los, lembrando também que esses microrganismos são sensíveis ao calor do forno, morrendo em altas temperaturas. Assim, em receitas com fermentação biológica, como pães e pizzas, é necessário esperar a massa crescer antes de começar a assá-la. Já no fermento químico, o gás carbônico é obtido em reações do bicarbonato de sódio com algum ácido. Na produção do fermento em pó, o bicarbonato é mesclado a substâncias que se tornam ácidas ao entrar em contato com líquidos ou quando são aquecidas. O pó já começa a reagir na hora do preparo da massa do bolo e, na maioria das vezes, continua a fazê-lo enquanto o bolo está sendo assado no forno. Os queijos são produzidos a partir da ação de fermentação láctica realizada por bactérias como as Lactobacillus. Certos tipos de queijos, contudo, chamados de curados, por passarem pela cura, processo de maturação que transforma um queijo, dia após dia, em outro. O sabor forte do Camembert e do Roquefort, por exemplo, é produzido a partir de produtos do metabolismo dos fungos Penicillium camembertii e Penicillium roquefortii, respectivamente. Importância econômica O valor econômico baseia-se nos produtos formados por eles. Como já mencionado, fungos estão relacionados à produção de etanol, que além de ter sua importância alimentar é um importante combustível e uma interessante alternativa aos derivados de petróleo. O etanol é ainda um poderoso antisséptico, pois elimina certos tipos de micro-organismos presentes em superfícies. Os fungos são usados na produção de antibióticos, como a penicilina, produzida pelo bolor verde do pão das espécies Penicillium notatum e Penicillium chrysogenum. Os fungos da espécie Tolypocladium sp. produzem o imunossupressor ciclosporina que reduz os riscos de rejeição após o transplante de órgãos. Certos fungos parasitas de plantas causam problemas a lavouras diversas. Doenças como a ferrugem do cafeeiro, a necrose do amendoim e a vassoura-de-bruxa do cacau causam grandes perdas em cultivos a cada ano. Em destaque, temos a vassoura-de-bruxa do cacaueiro que representa uma doença causada pelo fungo basidiomiceto Moniliophtora perniciosa. É uma das doenças de maior impacto econômico em áreas produtoras de cacau da América do Sul (como a região sul da Bahia) e das ilhas do Caribe. A vassoura-de-bruxa ataca as regiões meristemáticas do cacaueiro, principalmente frutos, brotos e partes fl orais, ocasionando queda acentuada na produção, provocando o desenvolvimento anormal, seguido de morte, das partes infectadas. A seleção de variedades resistentes de cacau tem felizmente contido a disseminação da praga. Importância médica Os fungos apresentam relevância médica basicamente de duas maneiras, a saber: • Produzem substâncias tóxicas (venenos) que lesam tecidos e órgãos do nosso corpo; • Atuando como parasitas, proliferam diretamente sobre os tecidos e órgãos causando lesão sobre eles. Os fungos venenosos podem inclusive causar a morte de humanos, como no caso da espécie Amanita phalloides, das variedades vermelhas ou amarelas da espécie Amanita muscaria e do gênero Psilocybe. Estes fungos, ao serem ingeridos, provocam efeitos alucinógenos, alterando a atividade do sistema nervoso central. O Amanita também produz substâncias denominadas ciclopeptídeos que atuam inibindo a síntese de RNA em células animais, levando-as a óbito. A ingestão de um único cogumelo de Amanita phalloides pode causar a morte de um adulto humano. Através de técnicas laboratoriais produz-se a droga alucinógena LSD (dietilamida do ácido lisérgico) a partir do ácido lisérgico extraído de grãos de cereais, como o centeio, contaminados pelo fungo Claviceps purpurea (esporão-do- centeio). Outra substânciatambém produzida por esse fungo é a ergotina, alucinógeno tóxico que provoca uma doença denominada de ergotismo, típica da ingestão de grãos ou farinha infectados pelo fungo. Os fungos Aspergillus fl avus e Aspergillus parasiticus são espécies que crescem, em condições favoráveis de temperatura e umidade, em certos alimentos, como amendoim, nozes e outras sementes oleosas, e em rações para animais, resultando na produção de micotoxinas denominadas de afl atoxinas. Estas, mesmo em doses diminutas, provocam em diversas espécies de animais, efeitos cancerígenos sobre o fígado, além de provocar sobre este órgão necrose aguda e cirrose, caracterizando a afl atoxicose. Os fungos parasitas provocam diversas doenças em humanos. O fungo Candida albicans causa uma doença denominada candidíase ou monilíase, que se manifesta de diferentes modos em cada indivíduo. Este fungo se instala basicamente em indivíduos com defi ciência imunológica. Em crianças (cujo sistema imune está imaturo), a candidíase se manifesta como manchas brancas nos lábios e língua com o nome popular de sapinho. Em pacientes imundeprimidos, como os com Aids, a candidíase pode, além das manifestações orais e genitais, instalar-se em órgãos internos como os do sistema nervoso central (causando meningite), o coração e o sangue, sendo essa forma de manifestação bastante grave. A histoplasmose é uma micose que provoca lesões pulmonares, sendo causada pelo fungo Histoplasma capsulatum, que pode se desenvolver em fezes de pombos, de outras aves e de morcegos. Também conhecida como a “doença dos exploradores de cavernas” uma vez que a infecção se dá normalmente através da inalação de esporos do fungo a partir de fezes ressecadas de morcego. A prevenção deve ser feita evitando-se inalar o pó, usando máscara por exemplo, ao limpar locais abandonados e quando entrar em túneis e cavernas que possam ter fezes de animais transmissores. O fungo Paracoccidioides brasiliensis é muito semelhante ao Histoplasma capsulatum, causando lesões graves ulcerativas nas cavidades oral e nasal, sendo, por isso, denominado vulgarmente de “fungo bravo”, além de poder afetar os pulmões e o SNC. A transmissão dessa doença, denominada paracoccidiomicose ou blastomicose sul-americana, ocorre muitas vezes por via pulmonar através da aspiração de esporos, mas também de forma direta, como o contato com vegetação contaminada pelo fungo. O fungo Pneumocystys jirovecii é um fungo normalmente inócuo em pessoas com o sistema imunológico competente. Contudo é oportunista, pois em pacientes imunodeprimidos acaba causando uma forma grave de pneumonia que frequentemente causa a morte de pacientes com Aids. 239 ciÊnciaS da natureZa e SuaS tecnologiaSBiologia I Anual – Volume 1 Exercícios de Fixação 01. (UFRGS/2017) Sobre os fungos utilizados pela espécie humana, é correto afi rmar que A) a maioria apresenta fl agelos em algum estágio do ciclo de vida. B) o levedo de cerveja e o fermento de padaria formam esporos sexuais. C) o fermento de padaria é multicelular e apresenta hifas cenocíticas. D) os cogumelos e os parasitas de mucosas, como, por exemplo, a Candida albicans, são da mesma classe. E) a penicilina é obtida de um fungo que não apresenta corpo de frutifi cação. 02. (Fuvest/2011) O quadro a seguir lista características que diferenciam os reinos dos fungos, das plantas e dos animais, quanto ao tipo e ao número de células e quanto à forma de nutrição de seus integrantes. Característica I II III Tipo de célula Exclusivamente procarióticos Maioria eucarióticos Exclusivamente eucarióticos Número de células Exclusivamente unicelulares Unicelulares ou pluricelulares Exclusivamente pluricelulares Forma de nutrição Exclusivamente heterotrófi cos Autotrófi cos ou heterotrófi cos Exclusivamente autotrófi cos Com relação a essas características, os seres vivos que compõem o reino dos fungos estão indicados em: Tipo de célula Número de células Forma de nutrição A) I III II B) II III I C) III II I D) III I II E) II II III 03. (Fatec/2017) Uma estante de um escritório fi cou fechada durante meio ano. Quando foi reaberta, sentiu-se um odor desagradável dos livros, que tinham as capas com manchas escuras e aveludadas. Para evitar que outros livros apresentem o mesmo problema, recomenda-se que as demais estantes do escritório sejam A) umedecidas, dado que os germes que crescem em livros são típicos de ambientes secos. B) expostas a maior concentração de gás carbônico, já que musgos de livros são autótrofos. C) expostas a maior concentração de gás oxigênio, já que mofos de livros são autótrofos. D) arejadas, combatendo os ácaros que depositam ovos escuros nas capas dos livros. E) arejadas, difi cultando a deposição e a germinação de esporos de fungos nas capas dos livros. 04. (UCS/2016) Os fungos são seres uni ou multicelulares, eucarióticos e heterotrófi cos. Desempenham um papel importante como decompositores nas cadeias tróficas, permitindo que os elementos químicos constituintes da matéria orgânica morta possam ser reaproveitados por outros seres vivos. Considere a tabela a seguir com as características dos principais grupos de fungos. Filo Composição corporal Característica das hifas Corpo de frutifi cação Exemplo Zygomycota I Cenocíticas Ausente Bolor preto do pão Ascomycota Uni ou Multicelulares Septadas II Levedo de cerveja Basidiomycota Multicelulares Septadas Ausente ou Presente III Assinale a alternativa que preenche correta e respectivamente os espaços I, II e III da tabela apresentada. I II III A) Unicelulares Ausente Orelha-de-pau B) Uni ou multicelulares Presente Líquens C) Multicelulares Ausente ou presente Champignon D) Multicelulares Presente Shimeji E) Unicelulares Ausente ou presente Penicillium 05. (Fac. Santa Marcelina – Medicina/2016) Em um ambulatório médico, um paciente foi diagnosticado com pé de atleta, popularmente conhecido como frieira. Os sintomas apresentados eram fortes coceiras e bolhas entre os dedos dos pés. O médico indicou uma pomada específi ca, de uso tópico, para tratar esse problema. A) Considere três medicamentos: um antirretroviral, um fungicida e um antibiótico. Qual desses medicamentos atua diretamente no agente causador dessa infecção? Justifi que sua resposta. B) Mencione duas condições do ambiente parasitado que favorecem a instalação do causador do pé de atleta Exercícios Propostos 01. (Unesp/2016) Pesquisadores da Universidade de Harvard investigaram o efeito invasivo da planta Alliaria petiolata sobre o crescimento de mudas de árvores nativas que apresentam raízes em associação com fungos micorrizas. Eles sabiam que a Alliaria petiolata não se associa às micorrizas. Em um experimento, eles cultivaram mudas de três espécies de árvores: Acer saccharum, Acer rubrum e Faxinus americana em quatro tipos de solos diferentes, garantindo que as demais condições ambientais fossem as mesmas. Duas das amostras de solo foram coletadas de um local invadido por Alliaria petiolata, sendo que uma dessas amostras foi esterilizada. As outras duas amostras de solo foram recolhidas de um local não invadido por Alliaria petiolata, sendo uma delas esterilizada. Depois de quatro meses de crescimento, os pesquisadores colheram brotos e raízes de