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DEMOCRACIA
REPRESENTATIVA
LIBERAL: PRINCÍPIOS E
PRESSUPOSTOS
Prof. Everton Rodrigo Santos
Atualizado por: Prof. Honor de Almeida Neto
Nesta unidade temática, você vai
aprender
O aluno deve ser capaz de:
■ entender a natureza humana e a natureza do poder;
■ compreender os princípios da Democracia Representativa Liberal;
■ entender a relação entre Democracia e os Direitos Humanos;
■ analisar o impacto da cultura e, mais especificamente, da cultura política
brasileira para a qualidade da democracia brasileira;
■ entender o padrão de relação entre a sociedade brasileira e o estado
patrimonial brasileiro;
■ problematizar o impacto das novas tecnologias de comunicação e
informação (NTIC) para crise de representatividade e confiança e a crise
da democracia representativa liberal;
■ compreender as caraterísticas associadas ao campo democrático e as
características comuns ao campo autoritário;
■ entender o papel do estado-rede e os novos polos de poder.
Introdução
A democracia é, sem dúvida, um consenso nacional. Não há pessoa, neste país,
que não se intitule um democrata nato ou seu defensor. Na política brasileira,
da direita à esquerda, todos são democratas, não é mesmo? Aliás,
curiosamente, todos os golpes militares na América Latina foram dados em
nome da democracia (ROUQUIEU, 1984). O golpe civil-militar de 1964 foi
eufemisticamente chamado de “Revolução de 64” e foi feito para “salvar” a
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democracia brasileira do autoritarismo dos comunistas/sindicalistas (SANTOS
2010). O presidente Fernando Collor, em 1992, sofreu impeachment em nome
da democracia e a presidente Dilma Rousseff, mais recentemente, em 2016,
também teve seu impeachment justificado pela defesa da democracia. A
verdade é que a democracia tornou-se uma palavra, um “significante vazio de
significado”, dito de outra forma, parece que a palavra “democracia” comporta
qualquer coisa.
Contudo, o mesmo fenômeno não ocorreu com os direitos humanos. Via de
regra, para o senso comum, a defesa dos direitos humanos é a defesa do direito
dos “bandidos” e dos “criminosos”. Apenas uma pequena parcela de militantes e
entusiastas utiliza o termo no sentido positivo de direito de “todos”,
normalmente, grupos mais identificados com partidos de esquerda e
movimentos sociais. A confusão hoje no país ficou mais ou menos assim: ou
você é pró bandidos ou você é pró Direitos Humanos. Convenhamos que se
trata de uma simplificação grosseira sobre o debate.
O objetivo deste tema, independentemente de posições políticas partidárias, é
apresentar os conceitos de democracia e introduzir a discussão em torno dos
direitos humanos, situando-os teórica e historicamente de maneira sucinta, mas
articulada. Nossa pretensão é fornecer ao leitor universitário referenciais para
uma reflexão mais “sofisticada” e menos “apaixonada” desses conceitos.
Queremos esclarecer os termos do debate nesses tempos de “pós-verdade” e de
“autoverdade” para que possamos saber o que de fato estamos discutindo no
âmbito acadêmico quando enunciamos as palavras democracia e direitos
humanos, principalmente porque uma está associada a outra.
Vamos começar com uma provocação? Muito provavelmente, você que nos lê
não é um democrata convicto, muito menos um defensor dos direitos humanos
- 3 -
e, veja só, nós não lhe conhecemos, como podemos fazer tal afirmação? É que
nós conhecemos o nosso país e a nossa cultura política. Nossa origem é
autoritária, nascemos, enquanto nação brasileira, sob a égide da escravidão e
do patriarcalismo machista. Nossos antepassados acreditavam na inferioridade
natural dos negros e índios, acreditavam na ira de Deus, acreditavam que,
diante de alguma pessoa com deficiência, estavam diante de uma pessoa
menor, pecaminosa. Vejam que esse “peso” herdado de nossa história complica
o debate aberto e esclarecido. Assim, a discussão aqui proposta não tem a
pretensão de fornecer informações para você, isso você já tem de sobra na
Internet e nas redes sociais, pois vivemos na sociedade da informação. O que
nós queremos trazer é formação acadêmica com base em conceitos e teorias
que ajudem o estudante universitário a compreender o fenômeno da
democracia no mundo e, particularmente, no Brasil. Os conceitos nos ajudam a
dar forma às informações que lemos nos jornais e nas redes, certo?
Assim, vamos definir conceitualmente o que é democracia, ressaltando sua
origem com os gregos lá na antiguidade, passando pelo mundo moderno, até
nossos dias e, particularmente, vamos analisar como essa “tecnologia
importada”, chamada democracia, chegou ao Brasil. Fique aqui por enquanto
com a ideia de democracia de Przeworski (1984), “amas a incerteza e serás
democrático”, ou com a de Voltaire (2008), “não concordo com nenhuma palavra
do que dizes, mas lutarei até a minha morte pelo direito que tens em dizê-las”.
Vamos também tangenciar conceitualmente os direitos humanos, bem como
situar esse debate em termos históricos, demonstrando sua importância
civilizadora. Mesmo que você não se torne um humanista até o final desta
disciplina, pelo menos você pode se transformar em um pragmático defensor
dos direitos humanos, pois a sua vida, acredite, vai depender deles e de sua
- 4 -
existência neste início de século XXI. Essas discussões serão colocadas sob o
quadro da sociedade do conhecimento, da informação e da comunicação, em
que as novas tecnologias “empoderaram” as pessoas como nunca antes foi
visto, principalmente em contextos de sociedades “materialistas” como as
latino-americanas, em que a sobrevivência no curto prazo está sempre na
ordem do dia. Essa contextualização tende a complexificar ainda mais a
situação. De simples receptores que ouviam passivamente ao rádio e assistiam à
TV, as pessoas passaram a emissoras de informação e opinião nas redes sociais,
Twitter, Facebook, Whatsapp. Essas novas tecnologias não somente conectaram
mais as pessoas, mas também tornaram o mundo muito mais visível, abrindo
uma crise crescente de confiança nas instituições políticas e na própria
democracia liberal, em um contexto agravado pela crise do capitalismo global.
Essa sinergia entre crise de confiança na democracia e crise do capitalismo
poderá estar levando o mundo e o nosso país a um retrocesso civilizatório nesse
estágio do desenvolvimento capitalista? A democracia e os direitos humanos
estão sob ameaça?
Democracia ontem e hoje
A democracia tem suas raízes ligadas ao continente europeu, mais precisamente
à cidade de Atenas na Grécia antiga, onde se desenvolveu por volta dos séculos
IV e V antes de Cristo. No seu sentido etimológico, democracia significa demos:
povo; e kratos: poder; ou seja, poder do povo. Certamente, você já ouviu falar
nessa definição de Google, de dicionário.
- 5 -
Figura 1: Democracia grega.
A primeira indagação que devemos fazer é por que o poder precisa pertencer ao
“povo”, por que não pode pertencer a alguém, a algum grupo de pessoas
bem-intencionado e esclarecido? Talvez isso vá desagradar você, mas nós
precisamos adverti-lo de que as pessoas, como argumentou o “fundador” da
Ciência Política, Nicolau Maquiavel, são egoístas e mesquinhas, e é da natureza
humana pensar nos interesses individuais em primeiro lugar. Assim, o excesso
de poder nas mãos de uma única pessoa ou grupo sempre leva à tirania, ao
abuso de poder; por essa razão, o controle do Estado pela “demos”, pelo povo, é
sempre prudente. A democracia como conceito visa distribuir o poder entre
todos e regular a competição política através de regras.
- 6 -
Figura 2: Um dos princípios da democracia é a distribuição do poder e a
regulação da disputa pelo poder através de regras democráticas. É uma
tecnologia que visa regular a relação entre inúmeros interesses diversos. Uma
forma de regular a relação entre diferentes de formas a evitar sua
autodestruição.
A verdade é que a política apareceu tarde em nossa vida, como argumentou
Robert Dahl (1971), nós sempre estivemos ocupados com o nosso “umbigo”.Todos precisam ser controlados, principalmente eu e você. A maneira mais
eficiente que a humanidade encontrou para conter os egoísmos até o presente
momento foi a democracia.
É fato que o conceito de democracia tem vários significados, é um termo
controverso e polissêmico, e mesmo para pensadores como Platão e Aristóteles,
na antiguidade, a democracia não era bem vista. Para o primeiro, ela era uma
das piores formas de governo e, para o segundo, era uma forma corrompida de
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governar. Fato curioso é que a democracia dos gregos, vista pelos olhos de hoje,
era bem restrita, pois somente os cidadãos podiam participar da vida política da
cidade-estado (da polis), isto é, nem escravos nem mulheres podiam participar,
pois não eram considerados cidadãos. Contudo, o primeiro aspecto importante
a reter é é que, pela primeira vez na história da humanidade, os gregos
pensaram em uma forma de governo que não se limitava à participação direta
dos cidadãos em assembleias e reuniões, mas em toda a administração da
cidade. Claro que essa democracia foi pensada de forma direta para proporções
pequenas como Atenas, que, na época de Péricles, tinha algo em torno de 45 mil
habitantes, mas esse fato já foi um enorme avanço para a época (DAHL,1992).
O segundo aspecto a reter é a perspectiva posta por Platão e Aristóteles para a
teoria democrática. Platão, em sua obra “O Estadista e as Leis”, vai fazer a
classificação sêxtupla das formas de governo corrompidas (tirania, oligarquia e
democracia extremada) e as virtuosas (monarquia, aristocracia e democracia
moderada) que depois será perenizada por Aristóteles na sua obra a “Política”
(FERRAZ, 2014). Atentem para o fato de que a “democracia moderada” de Platão
é o conceito que mais nos aproxima da ideia de democracia que temos hoje.
Aristóteles chamará a “democracia moderada” de Platão de “politeia”. A Politeia
significava o governo de muitos para o bem de todos, é a ideia da democracia
subordinada às leis, capaz de controlar o egoísmo e os interesses individuais em
prol do bem de todos (FERRAZ, 2014).
Veja então que a Ciência Política, esse ramo do conhecimento que tem como
objeto de estudo o Poder e o Estado, debruça-se a estudar não só a natureza do
poder (que é má/pois o poder é mau), como também as diversas formas que
foram sendo gestadas historicamente para conter o poder. Guarde essa ideia: o
princípio da democracia é tirar o poder das pessoas e colocar nas normas, nas
regras, nas leis.
- 8 -
Figura 3: Não há democracia sem leis, as regras (constituição) visam
salvaguardar o interesse comum/público em detrimento do interesse pessoal.
Esse por sinal é o papel da burocracia. Editais de concursos públicos têm essa
função, criar critérios gerais e impessoais que evitem o nepotismo e o
patrimonialismo.
Ainda que o conceito de democracia seja controverso, assistimos com os gregos
o nascimento de dois princípios básicos que atravessaram a história conceitual
da categoria democracia, segundo Ferraz (2014): a ideia de liberdade política e
igualdade política. Esses dois princípios estarão para sempre ligados aos direitos
fundamentais da pessoa humana, a ideia de que “eu sou livre e sou igual a
qualquer outra pessoa”. Dahl (1971) dirá, mais tarde, na sua obra a “Poliarquia”,
de outra forma, que todo regime democrático deve necessariamente estar
aberto à participação e à contestação para ser classificado enquanto tal.
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Na sequência histórica, a ideia de democracia vai submergir durante muitos
séculos depois da antiguidade para somente reaparecer séculos depois na
modernidade sob um novo desafio, o desafio da representação política que não
havia sido posto para os gregos que tinham apenas vivenciado a experiência da
democracia direta em Atenas. A democracia direta, portanto, não lança mão da
representação, ou seja o povo vota determinado tema sem eleger
representantes para tal. Trata-se de um tipo de democracia com limites quanto
ao número de votantes/população. O que temos hoje mais próximo de uma
democracia direta é o plebiscito.
A democracia moderna representativa
A democracia representativa tem sua origem na famosa Carta Magna de 1215,
na Inglaterra, que completou 800 anos em 2015. Nessa carta foram firmados,
ainda na Idade Média, os limites do poder real e a constituição de um embrião
do que viria a ser, mais tarde, o parlamento moderno. Entre outras coisas, a
carta estabelecia, por exemplo, o direito à liberdade religiosa, a limitação do
poder real à autorização dos barões, no que diz respeito ao valor dos
impostos, o direito de os homens recorrerem à justiça, liberdade para viajar
ao exterior (FERRAZ, 2014). Essa ideia de limitar o poder ou mesmo separá-lo
em diferentes instituições, como executivo, legislativo e judiciário começa a
aparecer em vários países nos séculos XVII e XVIII, como na Inglaterra, nos
Estados Unidos ou mesmo na França.
Na Inglaterra, teremos o “Bill of Rights”, de 1689, ou seja, uma declaração feita
pelo parlamento inglês não só de direitos e liberdades dos seus súditos, mas
também uma declaração que define a sucessão da coroa. Esse documento foi
- 10 -
imposto aos soberanos ingleses Guilherme III e Maria II. Nos EUA, teremos a
Declaração de Independência dos Estados Unidos, de 1776, com a
Constituição Americana delimitando e separando poderes. Em 1789, a
Revolução Francesa, com a famosa Declaração Universal dos Direitos do
Homem e do Cidadão. Vejam que se a democracia guarda desde a antiguidade
a preocupação com a distribuição e o controle do poder pela “demos”, é na
sua versão moderna que observaremos a cristalização dos direitos
fundamentais da pessoa contra o arbítrio estatal.
Figura 4: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Eventos históricos como a
Revolução Francesa marcaram a história da democracia, pois tratam de
conquistas da sociedade na relação com o poder estatal, neste caso contra a
nobreza.
Fonte: Wikimedia
- 11 -
https://en.wikipedia.org/wiki/Marianne#/media/File:Eug%C3%A8ne_Delacroix_-_La_libert%C3%A9_guidant_le_peuple.jpg
Guarde esta ideia: todo verdadeiro democrata é sempre um grande desconfiado
do poder do Estado, pois a democracia moderna liberal nasce contrapondo-se
ao arbítrio do poder absolutista (que legislava, executava e julgava sozinho).
Com Montesquieu (1991), na teoria dos três poderes, haverá uma separação
desse poder absoluto em três poderes independentes e interdependentes. Cada
um desses poderes deveria ser capaz de contrariar o outro poder, executando,
legislando ou julgando.
Assim, o próprio liberalismo, enquanto corrente teórica, nasce afirmando
direitos, contrapondo-se às arbitrariedades do Estado e de pessoas. A
democracia é uma invenção burguesa. O pensamento liberal-burguês prega a
liberdade do indivíduo na relação com o Estado, que concentra, por exemplo, o
monopólio da violência (exército, polícia, judiciário, Ministério Público).
Liberdade em todos os sentidos, não somente o econômico. Pense nisso, então:
a democracia é uma conquista das sociedades na relação com o Estado, é uma
tecnologia de distribuição de poder:
Figura 5: A relação Estado x sociedade.
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Os pais fundadores dos EUA, entre eles James Madison (1991), defendiam o
governo representativo como forma de evitar a irracionalidade das massas. O
inimigo de uma sociedade livre não é só um monarca, a tirania não é uma
questão numérica, a multidão pode ser tão tirânica como um rei absoluto
(COUTINHO, 2017). A política exige certa preparação do cidadão que não está
necessariamente ao alcance das massas; por essa razão, a ideia da
representação.
Figura 6: A Democracia representativa baseia-se na delegação do poder de
representar a população, centrado no parlamentar eleito. Que fala (ou deveria
falar) em nome dos seus eleitores.
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Nessa ordem das coisas é que a democracia representativa também vai
precisar do primado da lei! Por quê? Porque, como afirmava Rousseau (1991),
o homem vivia feliz no seu “estadode natureza”, pois dependia das “coisas”
(das chuvas, dos ventos, do clima) e não de “outro homem”; quando ele se
torna um ser social, advém toda a sua infelicidade, porque ele passa a
depender dos outros. A solução, segundo Rousseau (1991), seria depender
das “coisas” novamente, mas agora as “coisas” não são mais as chuvas, os
ventos, mas as leis, que nada mais são do que a materialização da vontade
geral dos cidadãos. Dessa forma, obedecer a elas é obedecer a si mesmo, é
ser livre!
Daí decorre outro processo importante para a democracia moderna, que é o
constitucionalismo (nos séculos XVII, XVIII, na Inglaterra, na França e nos EUA,
entre outros) a necessidade de estabelecer uma Constituição, em uma carta,
os direitos e deveres dos cidadãos. Junto à ideia da representação da
Constituição, temos acoplada a ela a soberania popular, ou seja, o direito de
eleger representantes no parlamento pelo voto, que se dará mais ou menos
nos séculos XVIII, XIX e XX na Europa e nos EUA. Então, quando falamos no
Estado Democrático de Direito, estamos falando do encontro entre três
processos políticos que ocorreram, grosso modo, ao longo de quatro séculos,
na Europa e nos EUA, entre os séculos XVII, XVIII, XIX e XX. Governo
representativo (parlamento), Constitucionalismo (Constituição) e o Sufrágio
Universal (Voto) (FERRAZ, 2014). Quando um desses pilares da democracia
moderna e liberal são atingidos, dizemos que a democracia está em perigo.
- 14 -
Quadro 1. Os três pilares da democracia
OS TRÊS PILARES DA DEMOCRACIA
Quando um destes três pilares não é
respeitado/valorizado, a democracia está em risco.
GOVERNO
REPRESENTATIVO
/PARLAMENTO
CONSTITUCIONALISMO/
JUDICIÁRIO
SUFRÁGIO UNIVERSAL/
VOTO
Não por acaso, quando se dá um golpe de Estado ou alguma ruptura
institucional, a primeira coisa que se fecha é o parlamento, a câmara dos
representantes, suprime-se o voto popular e se “amordaça” o judiciário. Vejam o
exemplo da Venezuela em 2017, que, seguindo a “cartilha autoritária”, esvaziou
o parlamento e, por consequência, o voto popular, convocando uma Assembleia
Constituinte dominada pelos apoiadores do executivo (Madurismo) e
expurgando juízes que não concordavam com o mandatário do executivo. Fato
semelhante ocorreu com a ditadura militar no Brasil, pois se trata de uma
cartilha comum a governos antidemocráticos.
- 15 -
A verdade é que esse “modelo democrático liberal” descrito aqui neste item foi
exportado para uma boa parte do mundo ocidental com suas virtudes e vícios,
inclusive para o Brasil.
A democracia em terras brasileiras
A democracia foi uma “tecnologia política” europeia de fato em seu início, mas
que não se limitou ao continente europeu; ela foi exportada para os outros
quatro continentes que irão processá-la de diferentes maneiras, dadas as
especificidades de cada localidade. Ela chega, por exemplo, na América, por
volta do século XVIII, mas vai ser absorvida de diferentes maneiras em
diferentes territórios da região.
Na América do Norte, por exemplo, que teve uma colonização inglesa, houve a
importação de instituições horizontais anglo-saxãs, constituindo uma sociedade
mais ativa, mais independente do Estado. Na América Latina, com a colonização
espanhola e portuguesa (sobretudo), tivemos a importação de instituições
verticais ibéricas, dentro de uma perspectiva de sociedades hasteadas, ou seja,
sociedades criadas de cima para baixo, com uma sociedade mais dependente
do Estado.
O Brasil, colonizado por portugueses, de forte tradição autoritária e católica,
terá uma relação bastante tortuosa com a importação do regime democrático
liberal de governo. Achávamos que, feita a independência do país, bastava
confeccionar uma constituição parecida com os modelos vigentes na Europa ou
nos Estados Unidos que assim teríamos, enfim, a democracia. Ledo engano. As
leis por si só não funcionam, elas precisam da adesão da sociedade para de fato
funcionarem. A lei que proíbe o fumo em lugares fechados demorou para ser
- 16 -
efetivada, pois, para funcionar, as pessoas precisaram se conscientizar dos
malefícios do fumo, bem como mudar hábitos, ou ao menos abrir mão do seu
desejo individual de fumar em nome da vontade geral, do bem comum, como
sugere Rousseau. Veja que a Vontade Geral, o bem comum não é uma soma das
vontades individuais, como se possa crer. O que é bom para o público (comum)
pode não ser bom para mim (indivíduo) ok?
Para os teóricos do institucionalismo, a democracia precisa de leis, regras e de
uma Constituição, ou seja, de um “esqueleto legal”, que dê norte, que balize a
sociedade; mas também vai precisar de “músculos”, como afirmam os
culturalistas, de uma “cultura política” congruente com esse sistema legal, em
outras palavras, com um conjunto de valores, opiniões e atitudes de seus
cidadãos que sejam aderentes ao regime democrático (ALMOND e VERBA 1970).
Para uma lei existir, ela precisa existir primeiro na cabeça das pessoas e depois
no papel. Aqui, no Brasil, ela existe primeiro no papel e só depois na cabeça das
pessoas; por essa razão, é comum ouvir no Brasil: “a lei não pegou”!
Quando falamos em regime democrático, grosso modo, estamos falando da
maneira pela qual o poder é distribuído entre o Estado e a Sociedade. Quanto
mais ele se concentra no polo do Estado mais autoritário, mais despótico ele é;
quanto mais ele se concentra no polo da sociedade, mais democrático ele tende
a ser. Os gregos, como vimos, foram os primeiros a impulsionarem o pêndulo do
poder para a “demos”, para a sociedade, para o povo. Depois, esse regime foi
aperfeiçoado pelos ingleses, franceses, americanos e demais países no mundo
que tentam até hoje aperfeiçoar instituições e a cultura política para que
moderem o poder. Poder aqui é a capacidade que eu tenho de impor as minhas
vontades a uma determinada relação, mesmo encontrando resistências (WEBER,
- 17 -
1999). Daí que, como vimos no Tema 1, as relações humanas e sociais são
relações de poder e dominação.
Figura 7: Quanto mais poder para o Estado, menos democrático e mais
autoritário e quanto mais poder para o povo, menos autoritário e mais
democrático.
Nesse sentido, a democracia precisa de cidadãos autônomos, independentes, de
uma sociedade econômica e educacionalmente potente para poder se
contrapor ao poder do Estado. Por essa razão, alguns estudiosos da democracia
dizem que quase todas as nações democráticas do mundo são ricas e as ricas
são democráticas, ao passo que as nações pobres quase todas são autoritárias e
as autoritárias são pobres (HUNTIGTON, 1994).
Uma sociedade só é democrática quando ninguém for tão
rico que possa comprar alguém e ninguém seja tão pobre
que tenha de se vender a alguém.
Jean-Jacques Rousseau
Figura 8: A democracia, de acordo com Jean-jacques Rousseau.
Há uma forte correlação entre riqueza e democracia. Veja um pequeno exemplo
no Quadro 1 a seguir:
- 18 -
Quadro 1: Índice de democracia da revista The Economist 2015. Veja a
posição do Brasil e entenda nossos limites culturais em lidar com a
democracia
Conforme o Quadro 1, Noruega, Estados Unidos e Reino Unido são países com
altos índices de desenvolvimento (SEN, 2000) e, consequentemente, são
democracias plenas. Argentina, Brasil e México, em posição intermediária, são
considerados países em desenvolvimento e apresentam democracias
imperfeitas. Zimbabwe, Síria e Coreia do Norte são países pobres e, portanto,
têm regimes autoritários.
Não é que a riqueza cria por si só a democracia, mas a sua permanência por
longos períodos pode favorecer a democracia. O cientista político Ronald
Inglehart (2001), um dos precursores da Pesquisa Mundial de Valores (WVS),
vai acrescentar um ingrediente a mais nessa explicação. Para ele, o
crescimento econômico não leva automaticamente à democracia, pois,
normalmente, nesse estágio do desenvolvimento capitalista (da
modernização), as pessoas têm valores “materialistas”, ou seja, estão
preocupadas ainda com sua sobrevivência,com suas condições materiais de
- 19 -
vida, ao passo que a democracia precisa mesmo é que as pessoas tenham
valores “pós-materialistas”, em outras palavras, valores ligados à
autoexpressão, à participação, esses sim valores que seriam compatíveis com
a democracia como regime de governo conforme Gráfico 1:
Gráfico 1: Pesquisa mundial de valores. Para saber mais clique aqui.
Fonte: World Values Survey (WVS).
Observe que quanto mais à direita do Gráfico 1 (acima) mais “pós-materialista” o
país é, por exemplo: na Suécia, lá na ponta (na Europa Protestante), as pessoas
estão preocupadas com a extinção do planeta, com o meio ambiente e são
menos religiosas. Na ponta esquerda oposta, está Marrocos (África Islâmica), lá
as pessoas estão preocupadas em comer, vestir; enfim, são mais “materialistas”
e mais religiosas. As chances da democracia estão mais no lado direito do
gráfico do que no esquerdo. Assim, como os fundamentalismos religiosos são
mais encontrados do lado esquerdo de nosso Gráfico 1 do que do lado direito,
- 20 -
http://www.ufrgs.br/nupesal/projetos/single/World_Values_Survey_Brasil_2000_-_Atual
http://www.worldvaluessurvey.org/WVSContents.jsp?CMSID=Findings
muito embora os ataques (o terrorismo, por exemplo) aconteçam com
frequência contra o lado direito.
O que está por trás dessa ideia é que a democracia precisa de um poder fora da
esfera do Estado para existir, precisa de resistência, precisa de uma classe
média, educada, participativa, com valores “pós-materialistas”, mas, sobretudo,
de oposição. Algo que não se instaura do dia para a noite, exige tempo para que
os valores sejam incorporados pelas pessoas, pela cultura, pela sociedade.
Estamos chamando de oposição as forças políticas que se contrapõem ao
governo e são necessárias para a existência da democracia, já as forças que
estão no comando do Estado chamamos de governo ou situação (forças de
plantão no Estado). Então, ora um partido ou uma coalisão de partidos pode
estar na situação, ora eles podem estar na oposição. Isto é saudável e dá
equilíbrio ao regime democrático.
Todavia, lembre-se de que esse fato de ser situação ou oposição nada tem a ver
com ser de esquerda ou direita na política. Essa terminologia vem desde a
revolução francesa no século XVIII e designava aqueles na assembleia francesa
que sentavam à esquerda, chamados de jacobinos (com sensibilidade para as
questões sociais) e os que sentavam à direita, os girondinos (com sensibilidade
para as questões econômicas).
- 21 -
Figura 9: Origem dos conceitos de esquerda e direita. Essa classificação
permanece atual e se constitui em um norte para a análise e a ação política de
uma forma ampla.
A discussão se dá também em torno do ESTADO e de suas atribuições, pois
nessa perspectiva “ser esquerda” é desejar um Estado mais voltado ao
desenvolvimento social, à distribuição de renda, a políticas sociais, portanto, à
ideia de mais Estado, ao passo que ser de direita é conceber como função um
Estado mais voltado à eficácia econômica, ao controle dos gastos públicos,
portanto, menos Estado.
Há portanto uma relação com a renda e com a dependência ou não do Estado.
Segundo o cientista político Alberto Carlos Almeida, em todo o mundo os mais
ricos votam mais na “direita”. Como demonstra o mapa eleitoral brasileiro das
últimas eleições de 2018 (primeiro turno). Este desenho é basicamente o mesmo
das últimas seis eleições presidenciais no Brasil. Veja que as regiões mais
- 22 -
carentes do país votam no PT, um partido mais identificado com valores de
esquerda e de centro-esquerda, sobretudo, e os mais ricos no PSDB (um partido
de centro-direita) e, agora, nas últimas eleições, o PSL, um partido de
extrema-direita que substituiu geograficamente a densidade eleitoral do PSDB.
Ou seja, sobretudo no norte e nordeste o PT e no sul e sudeste o PSL.
Clique aqui e veja o Mapa eleitoral do 1º turno das
eleições presidenciais 2018.
Mapa eleitoral do Brasil.
Quanto maior a densidade de votos, mais vermelho (mais vitórias do PT) ou
mais verde escuro (mais vitórias do PSL), e quanto menor a densidade eleitoral,
mais para a cor rosa ou para um verde claro, ok?
Veja então que, quanto maior a renda do indivíduo, via de regra menos ele
necessita do Estado, pois tem recursos suficientes para suprir suas
necessidades básicas ligadas, por exemplo, à saúde (plano de saúde privado),
educação (escola privada) e segurança (seguros, vigilância privada, etc.). Para
uma classe média e média alta o estado pode ser visto como uma espécie de
“sócio” que não dá o retorno em serviços de acordo com os impostos. Ao passo
que se para populações carentes, apenas o serviço público é acessível, é a única
alternativa possível a sua sobrevivência, daí uma maior dependência do Estado
e das políticas públicas. Claro que isso não impede que alguém mais abastado
economicamente não possa eleger partidos de esquerda por outras motivações
como a solidariedade, uma sensibilidade social maior etc, ou o contrário. Mas
- 23 -
http://especiais.g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/mapa-da-apuracao-no-brasil-presidente/1-turno/
não é esse o padrão de comportamento do eleitor, como demonstra Alberto
Carlos Almeida (2018). Lembre-se que os indivíduos agem de acordo com seus
interesses individuais em primeiro lugar, lembram?o grande número de
imigrantes nos Estados Unidos que elegeram um presidente declaradamente
avesso à imigração nos Estados Unidos, e cujo lema de campanha é “A América
para os americanos”. É Aliás, temos um caso exemplar disso, a malfadada
natureza humana (má, mesquinha, egoísta).
Enquanto houver desigualdade, haverá “esquerda”.
Já, o cientista político italiano Norberto Bobbio (1995) vai afirmar que o que
separa a esquerda da direita é a ideia da igualdade; para ele, as pessoas são ao
mesmo tempo iguais e diferentes. São iguais porque todos precisam viver, se
alimentar, se vestir, mas ao mesmo tempo são diferentes, pois vivem de modo
diferente, alimentam-se diferentemente e vestem-se também diferentemente
uns dos outros. Assim, ser de direita, segundo o autor, é achar que nós somos
muito mais diferentes do que iguais, o acento é naquilo que nos separa, ao
passo que os de esquerda acham que nós somos muito mais iguais do que
diferentes, o acento é no que nos aproxima.
Faça sua escolha, pois, como argumentava o jornalista Nelson Rodrigues, “toda a
unanimidade é burra”. As duas forças políticas são bem-vindas na sociedade
democrática, pois novamente equilibram o “jogo de poder”. O conflito é
importante na democracia, o problema são os extremos, tanto a extrema
esquerda, quanto a extrema direita, pois ambos são negadores da democracia e
não comungam de consensos básicos necessários para ela existir.
Na história da humanidade, o Stalinismo e o Nazismo foram exemplos claros
desses extremos, o primeiro à esquerda e o segundo à direita, os dois
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negadores da condição humana, dos indivíduos, dos direitos humanos e das
liberdades. Por isso que quem não concorda com eles está contra eles.
Figura 10: Não há diferenças entre os extremos. A democracia está sujeita a ser
atacada, golpeada, tanto pela extrema esquerda quanto pela extrema direita. A
democracia e o jogo democrático só são possíveis de serem jogados pelo centro
(centro-esquerda e centro-direita).
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A centro esquerda e a centro direita, conforme ilustra o INFOGRÁFICO, são as
forças políticas comprometidas com a democracia, com as regras do “jogo
político” e com as leis de uma forma geral (BOBBIO, 1995). O que une
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fortemente a extrema direita e a extrema esquerda é, sem dúvida, o forte
autoritarismo e a negação da democracia e das liberdades. Os extremos são
antiliberais e anticapitalistas e quase sempre favoráveis a mais Estado e menos
direitos humanos.
Algumas pessoas confundem e reduzem a compreensão do termo esquerda e
direita a ser defensor do capitalismo ou defensor do socialismo. Isso é um
engano. O fim do socialismo realno final da década de oitenta sepultou essa
dicotomia, mas não sepultou a desigualdade no mundo (PIKETTY, 2013). Dessa
forma, enquanto existirem desigualdades sociais existirá sempre alguém à
esquerda, mesmo que seja sob a égide do capitalismo.
Ser de esquerda ou de direita é uma questão relacional. O ex-presidente
americano Barack Obama, com a defesa da igualdade de negros e da
comunidade gay nos EUA, certamente situa-se mais à esquerda do sistema
americano do que à direita. O presidente americano Donald Trump, com a
defesa de um muro para separar os americanos dos mexicanos que imigram
ilegalmente, com a sua xenofobia aos imigrantes ilegais, situa-se à direita. Veja
que Trump vê mais as diferenças entre as pessoas do que suas semelhanças, ele
olha mais para aquilo que separa do que para aquilo que une as pessoas. Certo?
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Figura 11: Posso estar mais à direita de um partido ou mais à esquerda ou mais
ao centro. Ser esquerda ou ser direita é uma questão relacional.
Certamente, há jornalistas e pensadores que dizem que não há mais esquerda e
direita, que essas ideias e ideologias foram enfraquecidas em prol dos
interesses políticos partidários mais pragmáticos e imediatos. Ledo engano. Nós
não podemos decretar o fim de um termo que é usual, e ainda hoje a política
usa esses termos. Experimente chamar o Donald Trump e o Bolsonaro de
esquerda e o Barack Obama e o Lula de direita que aparecerá alguém na
multidão para dizer que você está enganado. Mas se esses termos não existem,
por que a reação?
Por fim, afinal de contas qual é mesmo a relação entre democracia e direitos
humanos? É o que aprofundaremos no próximo tema desta disciplina.
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Créditos
Coordenação e Revisão Pedagógica: Claudiane Ramos Furtado
Design Instruncional: Luiz Specht
Diagramação: Marcelo Ferreira
Ilustrações: Marcelo Germano
Revisão ortográfica: Ane Arduin
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