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AULA 6 GESTÃO DO CONHECIMENTO E APRENDIZAGEM ORGANIZACIONAL TEMA 1 – GESTÃO DE CONHECIMENTO: UM DESAFIO DO TAMANHO DE SUA COMPETITIVIDADE Ao longo dos conteúdos, falamos muitas vezes a respeito do aprimoramento do capital intelectual de uma organização. Afirmamos que ele precisa ser gerenciado, conservado, registrado, armazenado, tornado recuperável, atualizado e disseminado, tudo isso para assegurar que seja um elemento forte na composição do esforço da organização para se manter competitiva. Gestão do conhecimento é organizar o conjunto de conhecimentos disponíveis na organização, formalizá-lo, armazená-lo e, mais do que tudo, criar meios que tornem fácil sua utilização. O colaborador e a organização precisam contar com ferramentas e métodos de pesquisa que permitam acessar esses conhecimentos sempre que necessário. A utilização inteligente do conhecimento gera valor para a organização, aumenta seu desempenho e engrandece sua imagem no mercado. Para suporte à gestão do conhecimento e à sua efetiva utilização, a organização deve criar um ambiente de aprendizado que promova o florescimento de ideias inovadoras, deve estabelecer uma universidade corporativa, assunto que abordaremos mais tarde, e deve aplicar a tecnologia para facilitar todo esse processo. Longo (S.d.) corrobora nosso raciocínio: O processo de construção coletiva de conhecimento organizacional só é possível em um ambiente de aprendizagem que favoreça o compartilhamento de experiências e de informações entre os indivíduos. A organização que aprende é aquela que dispõe de processos sistematizados em que este conhecimento é compartilhado de maneira significativa entre seus colaboradores, e isso pode contribuir para o crescimento da empresa. O aprendizado organizacional é fonte sustentável de vantagem competitiva, pois acredita que o verdadeiro diferencial entre as organizações são as pessoas que a constituem. As pessoas são únicas, com seus paradigmas, objetivos, habilidades, formas de enxergar, pensar, falar e agir. Estas características influenciam suas ações que repercutem diretamente na sociedade. Para que se possa aliar a gestão do conhecimento ao aumento da competitividade, precisamos implementá-la. De acordo com Silva (2016), essa implementação pode se dar em etapas bem definidas: a) Análise do ambiente econômico – identificação de oportunidades, ameaças, forças e fraquezas advindas da conjuntura econômica, que possam interferir na atuação da organização e na capacidade de atingimento de suas metas. 2 • b) Análise estratégica – ao lado da estratégia do negócio, a organização deve analisar seu capital intelectual, considerando os conhecimentos tácitos e explícitos que possui, e planejar a implementação do registro desses conhecimentos priorizando-os por ordem de importância. • c) Identificação de áreas relevantes para a gestão do conhecimento na organização – o esforço de implementar uma metodologia de gestão do conhecimento precisa contar com uma matriz que identifique o conhecimento e a que área ou áreas pertence, de modo a facilitar e garantir uma catalogação e recuperação eficientes. Conceitualmente, todas as áreas da organização são relevantes, mas para uma implementação desse tipo é fundamental ter uma identificação precisa. As áreas solucionarão problemas, auxiliarão a tomada de decisões e alavancarão a aprendizagem organizacional. • d) Identificação das ações necessárias e formulação da estratégia para a gestão do conhecimento – seguidos os passos anteriores, deve-se partir para a implementação de uma metodologia de suporte que se adeque às necessidades da organização. Essa metodologia, ou alguma ferramenta- satélite, deve dar suporte ao trabalho de identificar o passo a passo necessário para a implementação efetiva da ferramenta de gestão. Em paralelo, a organização deve planejar a estratégia de comunicação para divulgar a iniciativa. Uma vez implementada, quais os benefícios que podemos esperar advindos da gestão do conhecimento? • a) Fortalecimento do capital intelectual – ter uma fonte de conhecimentos organizada, acessível e à qual a organização incentive o acesso faz com que as pessoas se habituem a acessar esse repositório e enriqueçam seus conhecimentos. • b) Contribuição para os processos internos – a cultura de gestão do conhecimento melhora o fluxo de processos produtivos e administrativos da organização, o que permitirá aumentar e eficiência e reduzir os custos. • c) Tomadas de decisões embasadas – conhecimentos organizados e acessíveis permitem tomar decisões de forma ágil e baseadas em informações concretas. 3 Alves et al. (2004) esquematiza as principais atividades realizadas no processo de gestão do conhecimento, como podemos ver na Figura 1. Figura 1 - Principais atividades realizadas por meio da gestão do conhecimento Fonte: Alves et al., 2004. A Inteligência Empresarial ou Competitiva é a coleta e análise de informações de mercado de várias naturezas, vindas da área tecnológica, da concorrência, informações sobre tendências, fatos políticos ou sociais que possam vir a se relacionar com assuntos da organização ou que apenas sejam de interesse geral. A Memória Organizacional é a representação explícita do conhecimento adquirido, catalogado e mantido acessível pela organização. A Gestão de Competências é o elemento de desenvolvimento humano, para atrair e reter talentos que contribuam para o crescimento da cultura organizacional e Gestão do Conhecimento 4 da própria organização. A Tecnologia da Informação tem a função de ser o ferramental que possibilita a organização, armazenamento e acesso ao conhecimento da organização, assim como ser vetor de transferência de conhecimento. A Gestão do Capital Intelectual promove condições para que as ideias fluam com liberdade em ambientes físicos e virtuais, favorecendo seu compartilhamento entre indivíduos, grupos e organização. A Educação Corporativa assume o papel de plano de educação estruturado para organizar e garantir o acesso das pessoas ao conhecimento, assim como assegurar servir de guia para que esses conhecimentos afetem favoravelmente os resultados dos negócios. É possível, portanto, durante o processo de implementar e utilizar uma metodologia de gestão do conhecimento, identificar as principais áreas de ataque, alocar os recursos para a empreitada, investir em treinamento e conduzir a documentação da organização a um patamar de excelência. Retrabalhos podem ser evitados e tempo e recursos podem ser otimizados. Respostas ágeis, decisões embasadas, suporte aos fluxos operacionais e aos programas de treinamento, tudo isso faz parte do pacote de benefícios de uma metodologia de gestão do conhecimento bem implementada. TEMA 2 – DESIGN THINKING Conceitualmente, design thinking é um direcionamento de mentalidade, mindset em inglês, uma forma de agir, com o objetivo de entender as necessidades do público-alvo da organização, influenciando seu comportamento atual e suas necessidades futuras. Entendemos que o conceito é um tanto etéreo, mas o objetivo de ficar cada vez mais íntimo do seu público-alvo direciona a organização na criação e inovação de seus produtos e serviços. 5 Figura 2 - Mouse da Apple criado pela empresa IDEO Créditos: Nor Gal/ Shutterstock. A empresa de design californiana IDEO criou o primeiro mouse para a Apple. Dois de seus executivos, David Kelley, que também é um de seus fundadores, e Tim Brown, são reconhecidos como os pais do Design Thinking, no início dos anos 1990. Após a Revolução Industrial, os produtos que eram adquiridos pelos consumidores tinham função, mas não primavam pela forma. Os liquidificadores eram quadradões e feios, as geladeiras idem. As cores, 6 quando eram aplicadas, não seguiam tendências ou padrões. Aos poucos, especialmente a partir dos anos 1970, a produção industrialevoluiu, e os consumidores passaram a dar preferência para utensílios que, ao mesmo tempo, cumprissem sua função, mas possuíssem cores, formas e curvas agradáveis ao olhar. Nascia aí o conceito de design. Brown (2020) estrutura o design thinking em três pilares, facilitando a tarefa de colocá-lo em prática: a)Empatia – pré-julgamentos, preconceitos e convicções pessoais precisam ser deixados de lado. O contexto do produto ou serviço ou de qualquer necessidade a ser atendida precisa ser enxergado pelos olhos de quem as vivencia diariamente. Por meio dessa imersão com o público- alvo é possível trazer valor para a realidade dele, e não para o que se acreditava ser melhor para ele. b) Colaboração – não basta um único olhar para alcançar a inovação. Uma mesma ocorrência gera impressões e interpretações diferentes. Design thinking demanda profissionais e pensamentos multidisciplinares. Várias perspectivas enriquecem e aprofundam a criação. c) Experimentação – a primeira coisa que um candidato a chef de cozinha aprende é que não deve servir nada sem experimentar primeiro. No design thinking ocorre a mesma coisa. Não basta criar e conceber o produto. É preciso testar o produto junto ao consumidor em versões MPV (Mínimo Produto Viável) ou de teste, para que se verifique a viabilidade do produto e para que sejam mitigados os erros advindos de verdades “absolutas” e ideias apaixonadas. Deve-se errar, portanto, o mais cedo possível, ainda antes do lançamento, para que a rota seja corrigida e os prejuízos sejam evitados. Brown explora ainda a forma pela qual ocorre o processo de design thinking. Esta, obviamente, não é a única maneira, e o processo pode e deve ser adaptado. Esta concepção inicial, no entanto, é um ótimo guia em quatro fases, que vão da identificação do desafio até a solução do problema: a) Imersão – o problema do cliente é colocado sob um holofote. Suas necessidades, seu perfil e seu potencial de negócios são analisados profundamente, para que sejam identificadas preferências e especificações que permitam a criação de um produto sob medida para 7 atendê-las, gerando aceitação e engajamento. Nessa fase também se identificam os pontos de melhoria e aqueles que já estão estáveis, e, portanto, devem ser deixados como estão. b) Análise e síntese – a fase de imersão gera muito material, mas uma boa parte desse conhecimento pode não ser apropriado para aquele projeto. As ideias devem ser agrupadas, categorizadas e catalogadas, e após essa organização racional e lógica, devem ser filtradas. c) Ideação – nessa fase deve-se pensar em soluções para os problemas identificados. Uma solução não basta, é preciso explorar a fundo e pensar “fora da caixa” para encontrar a melhor alternativa. Os insights podem vir de várias fontes como pesquisa de mercado, big data e brainstorming com os profissionais envolvidos, incluindo aqueles a serviço do cliente. As informações colhidas precisam ser transformadas em direcionamentos para que o produto alcance viabilidade, escalabilidade e relevância nas fases seguintes. d) Prototipação – o resultado de uma boa ideia precisa ser conferido na prática. Por isso é importante que sejam desenvolvidos os protótipos, que devem simular, tanto quanto possível, a vivência proporcionada pelo produto definitivo, trazendo mais segurança para a produção em escala. O protótipo pode ser produzido muito semelhante ao produto final, ou pode, de início, adotar o conceito de MPV (Mínimo Produto Viável), ou seja, reunir as características mínimas para que possa ser testado. É mais um momento para verificar o que funciona e o que precisa ser corrigido. e) Realização – uma vez realizados os testes, é hora de colocar o produto no mercado. Plano de comunicação, planejamento de distribuição e aproximação do público-alvo são algumas das ações que devem ser realizadas. Se esse esforço final não for bem- sucedido, todo o processo de design thinking terá sido em vão, já que o objetivo de toda essa ação é atender a uma necessidade específica por meio de um produto. Por fim, vamos falar um pouco sobre ferramentas que são aplicadas durante a realização de um processo de design thinking. Reunimos ocorrências mais frequentes na literatura, mas novas ferramentas sempre podem ser acrescentadas. A metodologia para aplicação de todas essas ferramentas pode ser comprada por meio de consultorias ou desenvolvida na própria organização após pesquisas a literatura e sites sobre o assunto. O Mapa de Empatia é uma 8 ferramenta na qual se registra o que o cliente pensa, fala, escuta, sente, deseja e expressa, e esses registros não devem ser perdidos de vista durante todo o processo. O Mapa Mental é uma ferramenta visual, no qual se desenha uma ideia central e a partir dela vão se desenhando as ramificações possíveis ou, pelo menos, aquelas que o grupo consiga enxergar. A cocriação é o processo no qual se integra o cliente ao processo de desenvolvimento da solução, obtendo dele insights diretos que podem agregar muito ao projeto. E o storyboard é um quadro (literalmente) que serve para representar a solução de forma gráfica, sendo composto por textos, fotos e ilustrações. TEMA 3 – EMPREENDEDORISMO CORPORATIVO: O SEU NEGÓCIO É TAMBÉM O MEU NEGÓCIO O conceito de empreendedorismo corporativo não é complicado: trata-se de empreender na organização na qual você trabalha, mas que não é de sua propriedade. Mesmo não sendo sua, você se posiciona na organização como empreendedor, provocando e gerando oportunidades de crescimento e inovação, trazendo progresso para ela e para você. O empreendedor corporativo tem o espírito inquieto e está sempre incomodado com a situação atual. Organizações mais modernas, inclusive, incentivam e recompensam esse comportamento de seus funcionários, como é o caso do Google e da Meta – Facebook. O blog Contabilizei (2021) compilou uma lista das características que o perfil de um empreendedor corporativo deve reunir: a) Visão sistêmica – é a capacidade de enxergar a organização como um sistema, como um todo. O empreendedor corporativo não pode enxergar somente o seu setor, mas todos aqueles que tenham atividades que possam impactar no resultado do negócio. b) Espírito inovador e ousadia – é a coragem de enxergar fora da caixa, pensar além do curto prazo e ignorar a palavra impossível. c) Foco – as ideias precisam ir além da fase da concepção. O profissional empreendedor precisa ser capaz de manter o projeto vivo até a sua execução. d) Criatividade – é a capacidade de encontrar novas soluções para velhos problemas. 9 e) Comunicação – é a capacidade de transmitir o que pensa e convencer às outras pessoas da importância da ideia colocada em pauta. A ideia mal comunicada tende a morrer. f) Habilidade no relacionamento interpessoal – o empreendedor corporativo precisa atuar além de seu departamento. Precisa, portanto, relacionar-se bem com outras pessoas, para conhecer a dinâmica dos outros setores e poder, também, exercer influência sobre as pessoas no sentido de convencê-las da importância da mudança. g) Flexibilidade – é preciso cultivar a capacidade de lidar com o inesperado, com o indesejado, com a rejeição. A ideia proposta pode ser recusada, modificada ou adiada. O empreendedor corporativo precisa ser flexível e lidar com essas mudanças, sem perder sua motivação ou sua capacidade empreendedora. h) Liderança – o fato de transitar por outras áreas da organização, comunicar-se com outras pessoas, trabalhar em equipe e exercer influência tem muito mais efetividade quando o empreendedor tem a habilidade da liderança entre seus skills. Com todas essas habilidades, o empreendedor corporativo não pode, entretanto, transformar-se de um alento para um risco na organização. Assim, é importante que seu perfil contenha, além das qualidades relacionadas a arrojo, alguns limites como, apesar de ter espírito inquieto, respeitar a hierarquiae as regras da organização, calcular os riscos dos projetos de empreendedorismo corporativo pelos quais é responsável e consultar seus superiores antes de tomar decisões arriscadas fora do limite de sua alçada. Empreender corporativamente não significa somente criar novos negócios. Aperfeiçoar processos cotidianos e questionar velhas práticas também são práticas empreendedoristas. O empreendedorismo corporativo pode, em algumas ocasiões, ser uma atividade solitária. Entretanto, dentro de uma organização, há grandes chances de que os processos sejam mais bem sucedidos se contarem com a colaboração multifuncional, ou seja, trabalho em equipe. Embora o espírito empreendedor seja único, o empreendedorismo não tem um tipo único. Batista (2005), citado por Eliana Pessoa, refletiu a respeito. O autor converteu essa reflexão na tabela a seguir, que compra 10 empreendedorismo corporativo, empreendedorismo de start-up e empreendedorismo social. Figura 3 - Comparação entre tipos de empreendedorismo Fonte: Meirelles, 2022, baseado em Batista, 2005. Entendemos que essa reflexão nos leva a pensar que o empreendedorismo, independentemente de sua natureza, primeiro está relacionado com o fato de o indivíduo possuir habilidades específicas para empreender. Depois, com o fato de encontrar motivação, aliada à paixão por uma ideia ou por um conceito. E esse perfil, claro, pode ser aperfeiçoado por meio da aquisição de conhecimentos técnicos e voltados para relações interpessoais. O empreendedor corporativo, exatamente por exercitar essa “visão de dono” dentro da organização, mesmo que não seja seu proprietário, deve ser valorizado pela direção. A organização só terá a se beneficiar por manter em seu quadro um profissional criativo, inovador, ousado, organizado, resiliente e dono de visão sistêmica e de uma inteligência emocional amadurecida. 11 TEMA 4 – UNIVERSIDADE CORPORATIVA Universidade corporativa (UC) é uma instituição de educação pública ou privada, vinculada a uma organização ou a uma entidade que represente um grupo delas, criada com objetivo de capacitar colaboradores da organização ou do setor, buscando reduzir custos e obter rapidez e qualidade na formação de mão de obra estratégica. As primeiras UCs conhecidas globalmente tiveram origem nos anos 1950, nos Estados Unidos, como a Coca-Cola. No Brasil, começaram nos anos 1990, como a Natura. Temos ainda Ambev, Chevrolet, Banco do Brasil e Petrobrás conduzindo suas UCs. A criação de uma universidade corporativa demanda estratégia e planejamento, pois demanda tempo, dedicação de capital intelectual e dinheiro da organização. Também não basta formatar um conteúdo. É preciso desenvolver cada um de seus tópicos com a devida qualidade e relevância e, também, é preciso disponibilizá- los por meio de uma plataforma tecnológica adequada. Tornam-se cada vez mais raros os casos em que livros, apostilas e cadernos são material didático para o aprendizado, embora, evidentemente, ainda tenham valor. Esse esforço também precisa levar em consideração que o conteúdo não deve ser genérico. Ele deve refletir o “DNA” da organização. Não falamos aqui de simples propaganda corporativa, mas de alinhar o conteúdo oferecido com a missão, os valores e a visão da organização. Nem toda organização precisa de uma UC. As organizações menores podem recorrer a treinamentos internos ou externos, que exigem estruturas menores, e os franqueados muitas vezes contam com uma UC mantida pelo franqueador. Entretanto, se a organização decidir lançar-se nesse projeto, deve seguir algumas etapas importantes. a) Avaliar a real necessidade da UC – a organização deve considerar os custos e o trabalho envolvidos. Precisa decidir objetiva e estrategicamente, deixando de lado a paixão pela ideia. b)Planejar – é sempre interessante buscar expertise para planejar a implementação. Pode ser uma agência, um profissional freelancer experiente ou mesmo um talento interno conhecedor do assunto que, nesse caso, deve poder se dedicar inteiramente ao projeto. 12 c) Montar uma equipe multidisciplinar – deve ser nomeado um líder de projeto, e devem ser escolhidos colaboradores com diferentes habilidades para colaborarem com suas inteligências e com seu esforço, já que uma implementação desse tipo demanda muito trabalho. d) Adotar uma plataforma de suporte – é preciso formatar uma robusta plataforma on-line para hospedar e disponibilizar o material didático. Pode ser desenvolvida na própria organização ou adquirida no mercado. e) Elaborar o conteúdo on-line e off-line – se todos os passos anteriores foram importantes, essa é a joia da coroa. O conteúdo entregue vai definir o interesse dos treinandos pela continuidade do desenvolvimento in company, e vai aumentar a identificação de quem passar pelas cadeiras da UC com a organização. Os cursos precisam ter definição de conteúdo, objetivo, duração e, sempre que possível, avaliação dos participantes. f) Definir objetivos e metas para a UC – a UC deve começar a funcionar conhecendo seus custos, prazos, padrões de qualidade e objetivos. O esforço é realmente grande, mas as organizações que resolvem empregá-lo tendem a colher muitos benefícios importantes. Eles variarão de organização para organização, especialmente considerando seu ramo de atividade, mas podemos falar sobre os principais. a) Alinhamento estratégico – o conteúdo bem-elaborado e alinhado com o “DNA” da empresa agrega valor ao negócio, provoca engajamento dos colaboradores com os valores, missão e visão da empresa e harmoniza o wto (way to operate – forma de operar) de todas as filiais da organização. b)Visibilidade de marca empregadora – o profissional que cogita encontrar uma nova posição certamente olhará para uma organização que oferece uma UC como um de seus diferenciais para atrair talentos. c) Vivência do colaborador – o colaborador que experimenta a UC, por ter recebido esse benefício, tende a permanecer mais tempo na organização, uma vez que se enxerga como parte importante do todo. d) Alavancagem da liderança – a UC pode ser o caminho preferencial da organização para o desenvolvimento interno de seus líderes. e) Reforço à cultura organizacional – quando o conteúdo de ensino oferecido pela UC é identificado com o “DNA” da organização, a cultura corporativa é fortalecida sempre que um colaborador o acessa. 13 f) Inovação e desenvolvimento – UCs devem ser formatadas de modo a constituir um terreno fértil para novos pensamentos e ideias, estimulando discussões e colaborações entre os indivíduos da organização. Ideias e pensamentos livres, ainda que no ambiente da organização, contribuem para o desenvolvimento e para a inovação de serviços e produtos. Além das que já citamos, a Accor, o Santander e o McDonald ́s mantêm suas UCs. Vamos explorar um pouquinho mais o exemplo do McDonald ́s, a Universidade do Hamburguer. Sallit (2019) realizou reportagem enfocando essa iniciativa da multinacional e sua filial no Brasil. O McDonald ́s está presente em mais de cento e vinte países no mundo. A Hamburguer University (HU) tem campi em oito países, na América, Ásia, Europa e Oceania. Foi fundada em 1961 em Chicago, no estado de Illinois, nos Estados Unidos. Há unidades em Londres, Munique, Moscou, Tóquio, Xangai e Sydney. O campus da América Latina foi inaugurado em 1997 no bairro de Alphaville, na cidade de São Paulo. Até 2019, mais de cento e vinte mil estudantes de todo o continente já haviam passado pela HU. Forma mil e cem alunos presenciais e noventa mil alunos em EAD por ano. Os cursos são voltados aos níveis gerenciais e de liderança, tanto nos escritórios corporativos quanto nos restaurantes, e visa levar a todos noções de administração e negócios. A UH é dividida em quatro escolas de formação: Escola de Excelência Operacional, Escola de Liderança, Escola de Negócios e Escola de Desenvolvimento e Inovação. O alunorecebe o treinamento e aprofunda seus conhecimentos nos padrões operacionais da empresa para crescer profissionalmente na organização. Entretanto, a fundamentação dos cursos na teoria da administração lhes traz a vantagem de carregar esse treinamento para suas vidas pessoais. A Arcos Dourados é a maior franquia do McDonald ́s do mundo. Seu CEO, Marcelo Rabach, seu COO, Luis Raganat e dois presidentes divisionais, Rogerio Barreira e Alejandro Yapur, passaram pelos bancos da HU. No Brasil são 70 professores e 30 alunos por turma, em média. A missão da HU é transmitir os pilares que fazem da marca um sucesso. Além disso, oferecer aos alunos um processo contínuo de Educação, capaz de transformar conhecimento em resultados para o negócio e desenvolvimento pessoa. Isso é o que afirma à reportagem Rozália Del Gaudio, diretora de Comunicação Corporativa do McDonald's Brasil. O conteúdo oferecido pela HU é robusto. 14 Começa pela integração institucional dos novos funcionários, passa pelos cursos obrigatórios para o exercício de certas funções e pelos programas de aprimoramento. Complementarmente, a HU oferece, em regime de parceria, MBAs na área de negócios com a Fundação Instituto de Administração (FIA - USP), Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Senac. E, curiosamente, apesar do nome, a HU não oferece cursos na área de culinária. No campus de Alphaville existe um Centro de Nutrição. Segundo Rozália informou à reportagem, tem o objetivo de centralizar e embasar todas as informações nutricionais sobre os produtos da rede, formar uma rede de nutricionistas, dar respaldo ao desenvolvimento de produtos e guias de nutrição e tabelas nutricionais, educar os públicos interno e externo sobre os alimentos e refeições oferecidos pela empresa e manter um canal direto de comunicação com mães, médicos e especialistas em nutrição. Mensalmente a HU oferece o Open Day, que apresenta a estrutura da universidade ao público externo. Oferece também um ciclo de palestras com temas alinhados às quatro escolas e aos objetivos da organização, com convidados selecionados de acordo com o tema abordado. TEMA 5 – AMBIENTES COLABORATIVOS DE APRENDIZAGEM E MULTIPLICAÇÃO DE CONHECIMENTOS O conceito de aprendizagem colaborativa é recente, mas se alinha com a interatividade tão bem vista em praticamente todas as atividades atuais relacionadas a educação e entretenimento. A aprendizagem colaborativa está associada, contemporaneamente, ao ambiente virtual de aprendizagem (AVA), que é como se chama o suporte tecnológico à aprendizagem corporativa on-line. A aprendizagem colaborativa difere do modelo tradicional professor/ aluno, pois ao invés da transmissão do conhecimento, valoriza sua aquisição por meio da colaboração. Esse viés incentiva à busca pela autonomia, fomenta o desejo pelo autoconhecimento e pelo autodidatismo e transforma o aluno em protagonista no aprendizado. É uma linguagem complementar, não substituindo, portanto, o método tradicional, e favorece à comunicação e à disseminação do conhecimento, além de estimular à criatividade. Adotar uma estratégia de aprendizagem colaborativa pode trazer alguns benefícios sensíveis: 15 a) Fomento do trabalho em equipe – aprendizagem coletiva é sinônimo de trabalho em conjunto. O indivíduo transporta para sua vida profissional valores como praticar liderança, o compartilhamento de pensamentos e ideias, abdicar de crenças individuais em prol do time e aceitar desafios. b) Interação nivelada – a dinâmica da aprendizagem colaborativa permeia o time. Um coordenador, ou professor, quando cabível, auxilia na compreensão dos conceitos que estejam sendo discutidos, na leitura analítica do material e nas atividades complementares. c)Aplicação do aprendizado – a aprendizagem colaborativa é um processo prático e ativo, complementar ao processo teórico. O debate e a troca de experiências traz ao indivíduo uma melhor compreensão sobre a aplicação prática dos conceitos aprendido no mundo real. d)Prazer por compartilhar o saber – compartilhar conhecimento é multiplicá-lo. A troca de experiências provoca o surgimento de novas ideias, além de favorecer a análise crítica daquilo se ouve e compartilha. e)Aumento da autoestima, da automotivação e do hábito do autodidatismo – saber que seus conhecimentos e opiniões são importantes e válidos no grupo de aprendizagem motiva e eleva a autoestima. Esse sentimento tende a ser uma referência para o indivíduo em futuras atividades. Além disso, estar preparado para as interações motiva a conhecer melhor os assuntos em pauta, o que o estimula a pesquisar e aprender por conta própria. f) Desenvolvimento da capacidade analítica e do pensamento lógico – o debate típico da aprendizagem colaborativa provoca nos indivíduos, para que possam participar produtivamente, a necessidade de raciocinar mais profundamente sobre os temas, buscando argumentos para valorizar a interação. A capacidade analítica e o pensamento lógico têm seu desenvolvimento favorecido nesse processo, e tendem a acompanhar o indivíduo em toda sua vida profissional. Uma outra questão que se faz presente nesse tema é que os alunos de hoje são diferentes dos alunos de ontem. As crianças são muito conectadas à tecnologia, o que lhes proporciona aprender não apenas passivamente, mas ativamente. Aprendizagem colaborativa e AVA são, portanto, realidades em suas vidas. O ambiente clássico de uma grande sala com cadeiras e mesas dispostas a favorecer que os alunos enxerguem uns aos outros de frente e realizem a 16 atividade interativa com suportes como quadro branco, flip-chart e outras mídias sem dúvida nenhuma continua válido e eficiente. A necessidade de colaborar com pessoas em locais distantes, bem como o “novo normal” trazido pela pandemia de covid-19, reforçou a necessidade de alternar esse ambiente físico com ambientes virtuais de aprendizagem. A aprendizagem colaborativa, quando é virtual, precisa ser suportada por um ambiente tecnológico que favoreça a interação entre seus membros e o armazenamento e acesso aos conhecimentos gerados pelos conceitos debatidos e elaborados em colaboração. Quando se fala em colaboração, um primeiro ponto importante e comum na literatura consultada é que o processo de interação precisa ser conduzido. Significa que deixar os alunos sozinhos numa plataforma, por conta própria, pode não trazer os resultados desejados. A atividade deve contar com um coordenador que conduza as atividades e conversas. Barros et al. (2013), compilando visões de vários autores, conceitua que o AVA deve suportar as atividades de colaboração e cooperação, entendendo que colaboração é um processo de interação contínua, em que o grupo constrói um resultado coletivamente, e cooperação é um trabalho conjunto no qual cada integrante do grupo realiza uma parte da tarefa, e o resultado final é a compilação dessas atividades realizadas individualmente. Para nossa finalidade, portanto, o foco permanece em colaboração. Elaboram, também, uma figura que ilustra os elementos básicos para uma postura colaborativa. 17 Figura 4 - Elementos da postura colaborativa Negociação Ações Conjuntas Convivência com diferentes / tolerância Consciência Social Postura Colaborativa Conhecimento Compartilhado Autoridade Compartilhada Interação Fonte: Barros et al., 2013. Interatividade Exercitar as habilidades de negociação e interação, exercitar a autoridade compartilhada, a interatividade, a convivência com diferentes e a tolerância, praticar consciência social, ações conjuntas nesse time e favorecer o conhecimento compartilhado são fatores de sucesso para o processo de aprendizagem colaborativa. A estrutura do AVA deve contar com recursos tecnológicos como chat, editor de textos coletivo (também chamado de wiki), videoconferência, blog (quando aplicável), e- mail, glossário colaborativo e fórum, e seus curadores devem estaratentos às novidades de mercado, que surgem a todo momento. 18 Figura 5 - Resumo dos recursos tecnológicos que devem compor o AVA Fonte: Meirelles, 2022, baseado em Barros et al., 2013. No AVA, a comunicação assume duas características temporais: relações síncronas, que ocorrem quando os participantes estão conectados simultaneamente, e relações assíncronas, que ocorrem para cada participante em um momento diferente, mesmo que estejam todos conectados. Uma relação síncrona seria, por exemplo, uma conversa entre seis pessoas numa sala de bate- papo aberta para aquele assunto específico. Uma relação assíncrona seria vários participantes acessarem um treinamento gravado em um mesmo dia, em horários diferentes. Essas relações também têm direcionamentos característicos: entre as pessoas do grupo, de pessoa para pessoa ou de pessoa para o grupo. 19 REFERÊNCIAS ALVES, G. F. et al. Learning Organizations: a importância da gestão do conhecimento. Anais KM Brasil - Congresso Anual da Sociedade Brasileira de Gestão do Conhecimento. São Paulo, 22 a 24 de novembro de 2004. BARROS, R. S. et al. Potencialidades de uso de ambientes colaborativos de aprendizagem na educação. XI Congresso Nacional de Educação (Educere). Curitiba, 23 a 26 de setembro de 2013. BATISTA, M. Tipos de empreendedorismo: semelhanças e diferenças. Administradores.com, 2005. Disponível em: <https:// administradores.com.br/artigos/tipos-de-empreendedorismo- semelhancas-e-diferencas>. Acesso em: 13 mar. 2022. BROWN, T. Design Thinking: uma metodologia poderosa para decretar o fim das velhas ideias. Edição Comemorativa de 10 anos. Rio de Janeiro: Alta Books, 2020. EMPREENDEDORISMO corporativo: o que é? Quais as principais competências e como se aplica? Contabilizei [blog], 2021. Disponível em: <https://www.contabilizei.com.br/contabilidade- online/empreendedorismo- corporativo/ #:~:text=Empreendedorismo%20corporativo%20consiste%20em%2 0empreender,voc%C3%AA%20e%20para%20a%20empresa>. Acesso em: 11 mar. 2022 LONGO, R. M. J. Gestão do conhecimento: uma questão de competitividade empresarial. Observatório IPEA de Gestão do Conhecimento, [S.d.]. Disponível em <http:// www.mestradoprofissional.gov.br/observatorio/palavra-de- espcialista/99-rose-mary-juliano-longo/124-gestao-do- conhecimento-uma- questao-de-competitividade-empresarial>. Acesso em: 18 fev. 2022. SALLIT, M. Universidade do Hambúrguer: Conheça o Centro de Capacitação do McDonald's. Revista Quero, 2019. Disponível em: <https://querobolsa.com.br/revista/universidade-do-hamburguer-do- mcdonald- s>. Acesso em: 14 mar. 2022. SILVA, M. R. da. Gestão do conhecimento: estratégia para competitividade nas organizações. In: Congresso Nacional de Excelência em Gestão. Rio de Janeiro, 2016. 20