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R-Curso de Filosofia

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EDUARDO C. B. BITTAR 
Professor Associado do Departamento de Filosofia e Teoria Geral do 
Direito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo 
GUILHERME ASSIS DE ALMEIDA 
Doutor pelo Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito 
da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo e 
Pesquisador Sénior do Núcleo de Estudos da Violência (USP) 
Curso de 
Filosofia do 
Direito 
I - Panorama Histórico 
II - Tópicos Conceituais 
4- Edição 
SÃO PAULO 
EDITORA ATLAS S.A. -2005 
© 2001 by EDITORA ATLAS S.A. 
1. ed. 2001; 2. ed. 2002; 3. ed. 2004; 4. ed. 2005 
Cromo: Agência Keystone 
Composição: Formato Serviços de Editoração S/C Ltda. 
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) 
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) 
Bittar, Eduardo Carlos Bianca 
Curso de filosofia do direito / Eduardo C. B. Bittar, Guilherme Assis de Almeida. — 
4. ed. — São Paulo : Atlas, 2005. 
Conteúdo parcial: I. Panorama histórico - II. Tópicos conceituais. 
Bibliografia. 
ISBN 85-224-3953-2 
1. Direito - Filosofia 2. Direitos humanos 3. Filosofia - Brasil I. Título. 
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forma ou por qualquer meio. A violação dos direitos de autor (Lei n" 9.610/98) é crime 
estabelecido pelo artigo 184 do Código Penal. 
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01-0093 CDU-340.12 
índices para catálogo sistemático: 
1. Direito : Filosofia 
2. Filosofia do direito 
340.12 
340.12 
Impresso no Brasil/Prínted in Brazil 
Sofistas: Discurso e 
Relativismo da Justiça 
1.1 Contexto histórico-cultural 
Todo um precedente histórico, em que lendas, mitos e cultos religiosos cele-
brizam fundamentos metafísicos para a definição do justo e do injusto, antecede 
a formação da sofística.^ De fato, as noções fluídas, a mitologia, as intervenções 
dos deuses, a ira divina, os poderes naturais e sobrenaturais... imperaram enquanto 
o homem não se fez, por meio de um processo histórico, senhor de seu próprio 
destino. A esse período da história grega convencionou-se chamar pré-socrático 
(anterior ao século V a.C), no qual impera a preocupação do filósofo pela cos­
mologia (céu, éter, astros, fenómenos meteorológicos...), pela natureza (causas 
das ocorrências naturais...) e pela religiosidade (mística, culto, reverência, prati­
cas grupais, iniciação à sabedoria oculta...). Rompendo com toda essa herança \ 
cultural, com toda essa tradição pré-socrática, é que surge o movimento sofistico 1 
no século V a.C. —) 
1. Quanto ao surgimento da palavra sofistas, leia-se o estudo de Guthrie: "A pninvrn nophhtu, 'lO-
fistas', é nome do agente derivado do verbo. Como Diógenes Laércio notou {I, I lí), multo 
tempo antes de ter adquirido sentido pejorativo, sophos e sophistcs Umun iiiiiii vrz íiliirtiiliniis. 
Aparece isso especialmente em Heródoto, que aplica o nome 'sofista' :\ I\M r non 
fundadores do culto dionisíaco, e diz que todos os sofistas da Grécia visiiiiimn n i II|IIIMI IIIIIU IIP 
Creso, inclusive Sólon. Que os Sete Sábios eram chamados de sofl.stas MIIH-IIIH» ilr um IniKiiifiilo 
de Aristóteles e também de Isócrates, que se lhes deu este nome «xoni •* llilu cm (IrKimin 
entre vós'" (Gu±rie, Os sofistas, 1995, p. 32). 
56 PANORAMA HISTÓRICO 
O homem grego, ávido de independência em face dos fenómenos naturais e 
das crenças sobrenaturais, vê-se, historicamente, investido de condições de 
alforriar-se dessa tradição. É um dizer sofístico, de autoria de Protágoras, esse que 
diz: o homem é a medida de todas as coisas (pánton métron anthrwpos).^ Isso no 
sentido da libertação dos cânones homéricos e das legendárias tradições patriar­
cais e sacerdotais que dominavam o espírito grego. Somente no século V a.C. so-
lidificam-se condições que facultam que as atenções hiunanas estejam completa­
mente voltadas para as coisas humanas (comércio, problemas sociais, discussões 
políticas, guerras intracitadinas, expansão de território...). ~" 
Eis aí o mérito da sofística, qual seja: principiar a fase na qual o homem é 
colocado no centro das atenções, com todas as suas ambigiiidades e contraditó­
rias posturas (psicológicas, morais, sociais, políticas, jurídicas...Há quem não 
reconheça à sofística nenhuma importância filosófica, ou mesmo não lhe confira 
nenhuma expressividade no contexto em que veio à lume, visão esta que obscu­
rece a realidade dos fatos. 
/ E esse o contexto de florescimento do movimento sofístico, muito mais liga­
do que está, portanto, à discussão de interesses comunitários, a discursos e elocu­
ções públicas, à manifestação e à deliberação em audiências políticas, ao conven­
cimento dos pares, ao alcance da notoriedade no espaço da praça pública, à de­
monstração pelo raciocínio dos ardis do homem em interação social... A Grécia 
teve de aguardar momento político, económico, social e cultural em que esses 
caracteres pudessem encontrar o eco que suscitasse a formação de especialistas 
na arte do discurso. 
•j— No entanto, por mais estranha que pareça a afirmação, essa pesquisa requer 
I que se diga, desde o princípio, que não se pode afirmar com correção que existe 
uma escola dos sofistas.^ 
A afirmação de que os sofistas constituem uma escola é falsa. Isso porque as 
fontes de pesquisa revelam que os sofistas constituíram, no máximo, um conjun­
to de pensadores relativamente contemporâneos, que possuíam afinidades de 
ideias, conceitos e modos de vida. Nesse sentido, se se fosse explorar a fundo a 
temática, cada sofista teria de ser estudado com apuro e detalhe, uma vez que as 
diversificadas doutrinas induziriam ao estudo de detalhadas e diferenciadas ma-
1. Frg. 1, Diels (Hélade, p. 257). 
2. "O grande serviço dos sofistas foi voltar a filosofia para o estudo do homem, considerado, quer 
como ser individual, quer como ser social (donde o seu interesse pelas questões de justiça), 
alcançar os alicerces da educação sistemática dos jovens" (Pereira, Estudos de histórica da ail-
^tura clássica, 1993, p. 441). 
3. / "Os sofistas não chegaram a formar uma escola, pois não adotaram imia linha única de pensa­
mento, sendo-Ihes comum a divergência ou contradição de ideias, embora dirigissem seu estu­
do para idêntico alvo: o homem e seus problemas psicológicos, morais e sociais" (Nader, Filo­
sofia do direito, 1999, p. 104). 
SOFISTAS: DISCURSO E RELATIVISMO DA JUSTIÇA 
nifestações, pelo menos, dos seguintes sofistas: Protágoras, Górgliis. Piódlco, 
Hípias, Antífon, Trasímaco, Crítias, Antístenes, Alcidamas, Licófron.' 
Provenientes de diversas partes (Protágoras - Abdera; Góixias l.roiilliio.s; 
Trasímaco - Calcedônia; Pródico - Ceos; Hípias - Elide), e não sonicnic di- AU'-
nas (Antifonte e Critias), os sofistas notabilizaram-se por encontrar nas nuiliidocs 
e nos auditórios ávidos de conhecimentos retóricos seu público.^ Contuilo, dclcr-
se nas manifestações desses sofistas seria já tarefa para um estudo moiioy.ráfico, 
motivo pelo qual se declina desse compromisso para deter-se à analiso soiiicnie 
dos traços comuns a todos, ou à maioria dos sofistas. 
y o que de fato ocorre é que, desde Platão (427-347 a.C.) e Aristóteles (384-
I 322 a.C), passou-se a tratar a diversidade dos sofistas como um grande coiijuiiio 
indiferenciado de pensadores e técnicos da palavra. Até mesmo os contemporâ­
neos ao surgimento do próprio movimento manifestavam-se de modo semelhan­
te com relação aos sofistas, o que contribuiu nitidamente para o fortalecimento 
da ideia de unidade da escola sofística, que, efetivamente, nunca existiu. 
A difusão da expressão do movimento dos sofistas nos meios filosóficos, bem 
como a criação de uma espécie de menosprezo pelo modus essendi, pelo profissio­
nalismo do saber e pela forma do raciocínio dos sofistas, adveio, sobretudo, com 
a escola socrática.^ De fato, Sócrates destaca-se como declarado antagonista dos 
sofistas, e dedica boa parte de seu tempo a provar que nada sabem, apesar de se 
intitularem expertos em determinadosassuntos e cobrarem pelos ensinos que 
proferem. 
L_ Na sequência do pensamento socrático, Platão incorpora esse antagonismo 
intelectual e o transforma em compromisso fílõsóHcõ, e^lega para a posteridade 
uma visão dicotômica que opõe diretamente as pretensões da filosofia (essência, 
conhecimento, sabedoria...J as pretensões da soHstica (aparência, opinião, retó-
_rica...). Chega mesmo a conceber os sofistas como homens desconhecedores das 
coisas, pseudo-sábios, que têm em vista somente contraditar a tudo e a todos, criar 
disputas, fomentar debates inócuos e vazios de sentido; aí mora o desprestígio da 
1. A respeito de dados biográficos e doutrinas dos sofistas, consulte-se Guthrie, Os sofistas, 1995, 
p. 243-294. 
2. "Os Sofistas, pois, não gozavam de simpatia por razões diversas tanto entre filósofos como 
Sócrates e Platão como entre cidadãos como Anito. O ódio em que incorriam nos olhos do 
establishment era não só devido aos assuntos que professavam, mas taiiil>(''ni sen pinin u< •.t,iins 
estava contra eles. Não só pretendiam dar instrução no que em Atenas M- |I.II,.IV,I |.,n.i pes­
soas certas uma espécie de segunda natureza, mas eles mesmo não ci.un lld.i, .11, iih 11 ,r , iirlll 
mesmo cidadãos. Eram estrangeiros, provincianos cujo génio iilii.i|i.i'.s.iv.i u iim. ,1. .n.i'. 
cidades natais menores" (Guthrie, Os sofistas, 1995, p. 42). 
3. "A atitude do público ateniense era ambivalente, refletindo a situ:i(;:ii) ii.iiraini In iln vld.i MIIÍII! 
e intelectual ateniense. Os sofistas não tinham nenhuma (liiic uM.i.lr ,1' • n, niiliiii nlmiii>. 
pagar suas altas taxas, ou auditórios para suas conferênci;r. r cxil |HII.||I :r, In.lMvi.i. ;il 
guns dos mais velhos e conservadores desaprovavam foriciiiriiir .MII. I M.|, I|M. n.iinvln 
cula-se, como Platão mostra, com o seu profissionalismo" (Cluihi ic, i K ..i/i ,M I " ' . p -11) 
58 
PANORAMA HISTÓRICO 
arte retórica sofística. Aristóteles dá continuidade ao mesmo entendimento, sedi-
mentando-o no contexto do pensamento filosófico, de modo que se incorpora ao 
mundo ocidental a leitura socrático-platônica da sofi'stica.' Ademais, o que robus­
tece a facilidade de manutenção desta imagem que a filosofia formou dos sofistas 
é a carência de textos e manuscritos a seu respeito, bem como a sobrevivência dos 
textos platónicos e aristotélicos como textos de majoritária leitura no panorama 
filosófico ocidental. 
Na ausência de textos dos sofistas, salvo alguns fragmentos, e poucos textos 
de Antífonte,^ são principalmente os diálogos de Platão (República, Teeteto...) que 
fornecem elementos para a recomposição da doutrina de muitos sofistas, e assim 
mesmo numa leitura, sem dúvida alguma, valorativa e parcial, tendo em vista o 
confronto do pensamento destes com o pensamento de Sócrates. 
1.2 Importância do discurso 
/ Alguns motivos teriam induzido à formação dessa fase de pensamento na 
Grécia clássica (século V a.C.), e^não coincidentemente em plenoséculo de ouro 
da cjviliz_ação grega. o'chãmado Século dePéiiçles, momêntõdãliiifomgrega 
etn^ue arte (escultura, pintura, teatro...), mitologia, filosofia, literatura, histó­
ria, políticãTTTalcançaram o maior grau de excelência humana. " 
r
Os motivos mais próximos, não obstante serem muitos, podem ser aponta­
dos como: estruturação da democracia ateniense; esquematização da particim-
ção popular nos instrumentos de exercício do pocjer. sem necessidade de^provail-
riqueza, nobreza ou ascendência;^ sedimentação de umjongo processo de reor­
ganização SQciale política de Atenas"; expansãodas fronteiras gregas; acúmulo de 
ríguezas; intensificação do comércio; abertura das fronteiras para o contato (pa-
cífíco_pu Jiéliço) com outros povos; necessidade de domínio de conhecimentos 
geraisjara o uso ritórkõTnêcessidade^èdõnS^ da técnica de falar, para o uso 
assemblear; entre_outrõsr ' ' 
y Nesse momento, em que a voz passa a ecoar com maior importância, em que 
exsurge a necessidade de exercer a cidadania por meio do discurso, em que a téc­
nica oratória define o homem público..., estão plantadas as sementes para aque-
1. Há, porém, algo de comum emre os sofistas, Sócrates, Platão e Aristóteles: "Os sofistas, segui­
dos de Platão e Aristóteles, por seu turno, produzem aquela grande virada filosófica que põe 
no centro do debate a filosofia prática, a política e as leis" (Lopes, O direito na história, 2000 
p. 40). 
2. "No entanto, é dificil caracterizar com segurança estas figuras - tanto mais que só dispomos de 
fragmentos muito curtos das suas obras; a apenas de um deles, Antifonte, se recuperaram tex­
tos seguidos - e defini-las em conjunto" (Pereira, Estudos de história da cultura clássica, 1993, 
p. 437). 
3. Cf. Guthrie, Os sofistas, 1995, p. 141. 
SOFISTAS: DISCURSO E RELATIVISMO DA JUSTIÇA 
les que haveriam de ser conhecidos pela posteridade como sofistas.' Coiiliido, a 
palavra 50jista, no entanto, tem cunho pejorativo, depreciativo, inn.i vi / <|iir as 
sim se designa aquele que não é sábio, mas que pretende ser, ou vfis.nln cm uma 
técnica. 
ly Respondendo a uma necessidade da democracia grega é ([Uf n-. i,, n ve­
rgam seu aparecimento; o preparo dos jovens, a dinamização dos • 1111111.111, ,•,, o lor-
I necimento de técnica aos pretendentes de funções públicas noi;ívi i-., ,i lomecl-
mento de instrumentos oratórios e retóricos para o cuidado das próprias causas e 
dos próprios negócios ("o cuidado adequado de seus negócios pessoais, para po­
der administrar melhor sua própria casa e família, e também dos negócios do 
Estado, para se tornar poder real na cidade, quer como orador, quer como liomem 
de ação": Protágoras)...,^ tudo isso favoreceu a eclosão do movimento que se 
pulverizou por toda a Grécia. Por isso, são importantes os sofistas, sobretudo por 
ter relevado a técnica para a dominação do discurso assemblear e pela rediscussão 
da dimensão do homem como ponto de partida para as especulações humanas.^ 
L A emergência do discurso, a mercantilização da sociedade, inclusive da de-
1 manda por conhecimentos técnicos e enciclopédicos, favoreceram a proliferação 
/ de homens que, sem destino fixo, ensinavam de modo itinerante. Isso não há que 
/ se negar como dado comum a todos os sofistas: são eles homens dotados de do-
/ mínio da palavra, e que ensinam a seus auditórios (auditórios abertos ou círculos 
/ de iniciados)'* a arte da retórica, com vista no incremento da arte persuasiva 
/ (peitho). 
1.3 Retórica e prática judiciária 
As amplas disputas, discussões e debates que permearam todo o século V a.C, 
no plano da política, no plano das estratégias de guerra, no plano das delibera-
1. "É exagero dizer, como temos dito amiiíde, que os sofistas nada tinham em comum cxccio o 
fato de serem mestres profissionais, nenhum campo comum nos assuntos quo ensinavam ou 
na mentalidade que estes produziam. Um assunto pelo menos todos cios praiiciiv.iin <• inaii.i 
vam em comum: a retórica ou_a arte do logos. Em Atenas em meados do séciiln v i (M.iddr 
eficaz era a chave do poder. A palavra é déspota poderoso', coiim (Jr.M lium M-II;; 
discursos que se conservaram (Hd. 8, DK, II, 290); e com a arte dd vm.i lu.l rr/..iiHi 
para a carreira política de sucesso" (Op. cit. p. 46). 
2. Cf. Guthrie, Os sofistas, 1995, p. 24-25. 
3. Destaca-se a relevância do pensamento sofístico no contexto em que M IniWiU! 'A lU* «puriçlo 
vem preencher uma necessidade da democracia ateniense, onde O eipWtO di Compettçlo poli­
tica e judiciária exigia uma preparação intelectual cada vez mais ciiiiiiilr-i.i" (IVrelfH, Ettudim 
de história da cultura clássica, 1993, p. 436). 
4. "Os sofistas dava,m sua instrução quer a grupos pequcim.'. mi •.cmliiililiiN, (iiiirrin riMifriíncI»» 
públicas ou 'exibições' (epideixeis). Os primeiros píxinu i,i .i.l.i i.',ill/,itiliiN m um ilc (IÍIIMIIIO 
como Cálias, o homem mais rico de Atenas, de i|ii<'in s,- ,\r..r nutu iiml» iliiiliplin < niii o» 
sofistas do que qualquer outro (Platão, Apoí. 20a). Sua (.IN.I I- .i M HM IUI IIMIMIIVI im /'hi(il|ufai60 PANORAMA HISTÓRICO 
ções legislativas, no plano dos julgamentos nos tribunais populares..., inclusive 
em virtude da presença e do desenvolvimento das escolas de sofistas, colabora­
ram no processo de abertura dos horizontes do pensamento grego. 
A liberdade de expressão, matiz característico do século de Péricles, aliada 
ao amor pelo cultivo da oratória e da retórica, ensejou a possibilidade de ques­
tionamento da posição particular do homem perante a physis e como membro 
participante do corpo político. 
A praça pública (agora), povoada por homens dotados da técnica (techné) 
de utilização das palavras, funcionava como oficina da intelectualidade em sua 
expressão oralizada. Além da praça pública, a muitos interessava o domínio da 
linguagem (pense-se que os discursos forenses eram encomendados a homens que 
se incumbiam de escrevê-los para serem lidos perante os juízes - este é o traba­
lho dos logógraphoi) para estar diante da tribuna, perante os magistrados. 
~ As palavras tomaram-se o elemento primordial para a definição do justo e 
do injusto. A técnica (techné) argumentativa faculta ao orador, por mais difícil que 
seja sua causa jurídica, suplantar as barreiras dos preconceitos sobre o justo e o 
injusto e demonstrar aquilo que aos olhos vulgares não é imediatamente visível. 
As experiências jurídicas, nesse contexto, aproximam-se do casuísmo rela­
tivista que só pode definir a justiça ou a injustiça do caso diante da análise de sua 
situação concreta, de sua ocorrência efetiva, de sua apreciação imediata. Isso favo­
rece o desenvolvimento do discurso judiciário, pois, conquanto que bem articula­
do, pela força da expressão oral, e bem defendido perante os magistrados, o efeito 
a ser produzido pode favorecer aquele que deseja por ele ver-se beneficiado. 
1.4 Justiça a serviço dos interesses 
No plano do debate filosófico, o resultado dessa mudança de eixo da cultura 
grega, com relação à tradição anterior ao século V a.C. (Homero, Hesíodo...), não 
foi senão a relativização da justiça. Os sofistas foram mesmo radicais opositores 
da tradição, e grande parte dos esforços teóricos e epistemológicos dos sofistas 
recaiu exatamente sobre definições absolutas, sobre conceitos íixos e eternos, sobre 
tradições inabaláveis. 
No lugar desses, para os sofistas, surgia o relativo, o provável, o possível, o 
instável, o convencional. Um dos destaques na proliferação de ideias e pensamentos 
de Platão, e sua hospitalidade aos sofistas e seus admiradores parece tê-la convertido em lugar 
bastante não familiar Protágoras passa pelo átrio cheio de considerável multidão, incluindo 
atenienses e estrangeiros que ele atrai de toda cidade por que passa. No pórtico oposto, Hípias 
se exibe a outro grupo, e Pródico ocupa antigo armazém que Cálias teve que transformar em 
dormitório devido ao grande número dos que ficavam na casa. Também ele tinha seu próprio 
grupo de ouvintes em tomo de sua cama" CGuthrie, Os sofistas, 1995, p. 43). 
SOFISTAS: DISCURSO E RELATIVISMO DA JUSTIÇA 
acerca da relatividade das coisas foi Protágoras.^ A assunçiio d.',:,,! {K , ,I. ,HI di.inii' 
dos fatos e valores desencadeou, no plano da reflexão acerca do Jnsm !• ilu in|ii'. 
to, a relativização da justiça. 
Isso porque, no debate entre o prevalecimento da nature/.a d.is lils [fliysis) 
e o prevalecimento da arbitrariedade ãasMs^(nómqs)j os sofistas opiaiain, cm ge­
ral, pela segunda hipótese, sobretudo os partidários das teses histói icís .Km .i da 
evolução humana: alei (nomos) seria responsável pela libertação hmnaii.i di., l.i 
ços da barbárie.' Isso porque, coerentemente^com seus princípios, di/,i.im •,ci o IKI 
mem o princípio e a causa de si mesmo, e não a natureza7~Õni, dclilxiu idlnc 
qual será o conteúdo das leis é atividade preponderantemente humana, c nis;,í) 
não há nenhuma intervenção da natureza, como admitido pela tradição literária 
e filosófica grega. A natureza (physis) faria com que as leis fossem idênticas em 
todas as partes, tendo-se em vista que o fogo arde em todas as partes da mesma 
forma, como posteriormente dirá Aristóteles. No entanto, pelo contrário, o que se 
vê é que homens de culturas diferentes vivem legislações e valores jurídicos dife­
rentes, na medida em que se encontra em seu poder definir o que é o justo e o 
que é o injusto."* 
1. "O mais célebre advogado da relatividade de valores (embora, como inevitavelmente aconte­
ce, seu pensamento tenha sido amiúde distorcido ao ser filtrado por outras mentes menos do­
tadas) foi Protágoras, e seu desafio filosófico a normas tradicionalmente aceitas baseava-se por 
sua vez em teorias relativas e subjetivas de ontologia e epistemologia. Enquanto apHcada a 
valores, relatividade pode significar uma das duas coisas: (a) Não há nada a que se possam 
aplicar os epítetos bom, mau e semelhantes de maneira absoluta e sem qualificação, porque o 
efeito de tudo é diferente segundo o objeto sobre que ele se exerce, as circunstâncias dc sua 
aplicação e assim por diante. O que é bom para A pode ser mau para B, o que ó bom para A em 
certas circunstâncias pode ser mau para ele em outras, e assim por diante. A objetiviílade cio 
efeito bom não é negada, mas varia em casos individuais, (b) Quando um locutor di/, (|U(' bom 
e mau são apenas relativos, pode significar que não há nada bom ou mau, mas o pcns.iiueiito 
o toma tal. Toda investigação da antítese nomos-physis fornece numerosos exemplos ilisso: in­
cesto, abominável aos olhos dos gregos, é normal aos olhos dos egípcios, e assim por di.inle. 
Com valores estéticos, o caso ainda é mais óbvio" (Guthrie, Os sofistas. I9')ri. p. I '.d I r.7). 
2. Cf. Guthrie, Os sofistas, 1995, p. 64. 
3. "Levantam pela primeira vez o relativismo gnosiológico, expresso por PHHIVUI . rmnKiir 
que'o homem é a medida de todas as coisas'. Desponta novo pciisamniin im i.l iMludo na 
subjetívidade humana, passando do período cosmológico anlcrioi ao pnlodo innhipiil<']xiiii, 
criticando o fundamento da normatividade e dos cosinmcs" ((luim.ii.n";, ;ii/i'í(ii nudinr/ vl',;l() 
metafi'sica e antropológica, 1991, p. 23). 
4. "O sentido depíiysis emerge de um estudo dos présocrálicos. Pode 'ii' ii.ulii. n • iiiniicnlc 
por'natureza', embora, quando ocorre junto com nomos, ii paliivni 'rnillcliiilr'' l\i vr/i-i imn.iiii 
imediatamente mais claro contraste. Nomos para os IIOIIUMIS ÍUI; irinpoN iliUnlroK i* nlnnnin i 
que nomizetai, em que se crê, se pratica ou se susirnii i i m,., iiilHliiiilmriilr' niiimiin CHIMI 
que nemetai, é dividido, distribuído e dispensado. Qiiri ili,. pic/.iipiw nni milfllu ii)(>"n(i' i|iif 
crê, pratica ou divide -, uma mente que emana o mmw. I \"<r., n.iini.il i|iir< (iiivo» illffiniirs 
tenham diferentes nomoi, mas, enquanto a religião pcim.uKM IMI inn.i inii^n rlli«/, it inrnu» i|iir 
projeta poderia ser a dos deuses, podendo assim havei IIOIIKII qui' loinfiii upiirrtvrl» M liiild o 
género humano" (Guthrie, Os sofistas, 1995, p. 57). 
62 PANORAMA HISTÓRICO 
Muitos dos cultores do movimento sofístico, embasados em tal dicotomia, 
advogaram a ideia de que existiria uma oposição intrínseca entre a lei da nature­
za (jihysis), o que equivale a dizer a lei do mais forte sobre o mais fraco, e a lei 
convencionada pelo homem (.nomos), lei esta que seria artificial e que atentaria 
contra a ordem natural das coisas. Destarte, preconizavam que os homens deve­
riam submeter-se ao poder daquele que ascendesse ao controle da cidade por meio 
da força; a justiça é vantagem para aquele que domina e não para aquele que é 
dominado (Trasímaco).^ 
Com isso, a noção de justiça é relativizada, na medida em que seu conceito é 
igualado ao conceito de lei; o que é o justo senão o que está na lei? O que está na 
lei é o que está dito pelo legislador, e é esse o começo, o meio e o fim de toda jus­
tiça. Nesse sentido, se a lei é relativa, se se esvai com o tempo, se é modificada ou 
substituída por outra posterior, então com ela se encaminha também ajustiça. Em 
outras palavras,a mesma inconstância da legalidade (o que é lei hoje poderá não 
ser amanhã) passa a ser aplicada ajustiça (o que é justo hoje poderá não ser ama­
nhã). Nada do que se pode dizer absoluto (imutável, perene, eterno, incontestá­
vel...) é aceito pela sofística. Está aberto campo para o relativismo da justiça. 
Eis aí o início de um debate que haverá de se perpetuar na tradição filosófi­
ca grega pós-socrática, sobretudo evidenciada em Platão e Aristóteles, tendo-se 
em vista que deram azo à formação da questão: é a lei natural ou convencional?' 
Outro debate acendeu-se com o fomento dessa questão, a saber: são os gregos su­
periores aos bárbaros?^ 
Conclusões 
\ 
I Do exposto, pode-se apreender que a sofística, não obstante as nuances e os 
I matizes que caracterizam os pensamentos individuais de cada qual dos sofistas, 
consiste num movimento intelectual coincidente com determinado contexto his-
1. "Negando os sofistas a possibilidade de uma verdade objetiva, negam também que exista uma 
justiça absoluta; também o direito, para eles, é algo de relativo, opinião mutável, expressão do 
arbítrio e da força: justo é aquilo que favorece ao mais forte. Assim, Trasímaco pergunta se a 
justiça é um bem ou mal, e responde: Ajustiça é na realidade um bem de outrem; é uma van­
tagem para quem manda, é um dano para quem obedece'" (Del Vecchio, Lições de filosofia do 
direito, 1979, p. 35). 
2. "A eles se deve, por exemplo, a colocação rigorosa do problema de saber se a justiça tem um 
fundamento natural; se aquilo que é justo por lei - ou, como nós dizemos, o direito positivo -
é também justo por natureza (a antítese entre o nómw díkaion e o physei dxkaion). Ante este 
problema, assumiram geralmente atitude negativa, dizendo que, se existisse um justo natural, 
todas as leis seriam iguais" (Op. cit. p. 36). 
3. "Antifonte de Atenas formulou a antinomia entre a lei natural (physis) e a lei humana (nomos) 
e proclamou a igualdade entre bárbaros e helenos" (Pereira, Estudos de histórica da cultura clás­
sica, 1993, p. 443-444). 
SOFISTAS: DISCURSO E RELATIVISMO DA JUSTIÇA _ _ . mml 
tórico-cultural (século V a.C.) que o habilitou a uma serventia socliil, Jiii (dlcn v 
política muito grande. 
A emergência do discurso, a proliferação de escolas ác ensino df iilras 
retóricas, a construção de práticas políticas e jurídicas que ro(|iici i.ini .i •„i|iii'iu i.i 
de recursos persuasivos... ensejaram o nascimento, o fortalrciiiiciiin <• .i di\i 
ção do vento sofístico. Esmaecidas essas condições, no ocaso do MM iiln IV ,i t;,, 
deixaram de representar um dado prevalecente da cultura grega, c|iuiuili) :<v ini­
ciou a polémica com os pensamentos aristotéhco, estóico e cínico. 
No campo do direito e da justiça, a sofística mobilizou conccilos no sciil ido 
de afastar todo tipo de ontologia ou mesmo todo tipo de metafísica ou iiiisi ilii a 
ção em torno dos valores sociais. Nem as deusas da justiça, nem Théniis, nem 
Diké, dão origem às leis humanas, mas somente os homens podem fa/.cr icy.ias 
para o convívio social; as leis são atos humanos e racionais que se íorjani m > seio 
de necessidades sociais, o que só é possível por meio da discussão coimini, tia 
deliberação consensual, da comunicação participativa e do discurso. Ue lalo, o 
que há de comum entre os sofistas é o fato de, em sua generalidade, apontarem 
para a identidade entre os conceitos de legalidade e de justiça, de modo a favo­
recer o desenvolvimento de ideias que associavam à inconstância da lei a incons­
tância do justo. 
Confronto maior ainda se evidencia com a interlocução dos sofistas com 
Sócrates, que haverá de construir todo um conjunto de ideias claramente antagó­
nico ao dos sofistas. 
f i 
Sócrates: Ética, Educação, 
Virtude e Obediência 
2.1 Filosofia socrática e testemunho ético 
A respeito de Sócrates (469-399 a.C.) e de sua contribuição filosófica muito 
já se discutiu.' Sua vivência foi sua obra, e seu testemunho, grande contribuição 
ética e filosófica.' Sócrates conviveu com o povo ateniense do século V a.C. (sé­
culo de Péricles), em plena glória da civihzação grega na Antigiiidade, e nas pra­
ças públicas (agora) e no solo da cidade (polis) inscreveu seu método e suas preo­
cupações. É, sem dúvida alguma, divisor de águas para a filosofia antiga, sobre­
tudo pelo fato de situar seu campo de especulações não na cosmovisão das coisas 
e da natureza, mas na natureza humana e em suas implicações ético-sociais. É, 
de fato, interagindo e reagindo ao movimento dos sofistas que faz de seu pensa­
mento um marco na história da ética. Erigiu uma linha de pensamento autónoma 
e originária que se voltasse contra o despotismo das palavras que se havia instau­
rado nesse período da história grega, sobretudo por força da atuação dos sofis­
tas. 
Seu método maiêutico, baseado na ironia e no diálogo, possui como finali­
dade a parturição de ideias, e como inspiração a parturição da vida, uma vez que 
1. Para uma acabada noção da amplitude do problema socrático, consulte-se a obra de Vasco 
Magalhães-Vilhena, O problema de Sócrates: o Sócrates histórico e o Sócrates de Platão. Lis­
boa: Calouste Gulbeckian, 1984. 
2. Para maiores detalhes a respeito da vida de Sócrates e de suas perambulações, deve-se consul­
tar a obra de René Kraus, Sócrates. Rio de Janeiro: Vecchi, 1960. 
SÓCRATES: ÉTICA, EDUCAÇÃO, VIRTUDE E OBEDIÊNCIA 65 
Fenareta, sua mãe, era parteira. Isso porque todo erro é fruto da ixii<)irtn< ii, >• iniLi 
virtude é conhecimento; efetuar a parturição das ideias é tarefa piiinoidial do li-
lósofo, a fim de despertar nas almas o conhecimento. Daí a inipotiaiu la df icco-
nhecer que a maior luta humana deve ser pela educação (paidéia). <• <|iii' a uiaior 
das virtudes (areté) é a de saber que nada se sabe.' 
A abnegação pela causa da educação das almas, bem como pelo liem da ci­
dade,' representou, como testemunho de vida, senão o maior, ao IIU-IKIN um dos 
maiores exemplos históricos de autoconfiança e de certeza do cjuc di/i,i (.nidc-
nado a beber cicuta pelo tribunal ateniense, não se furtou à sentença c' c m v c .n se 
ante o desvario decisório dos homens de seu tempo. A acusação que p<iidi.i solite 
sua cabeça era a de que estaria corrompendo a juventude e cultuando oui 11 r. di nics 
e, não obstante ter-se dedicado a vida inteira a pregar o contrário disso, rc.iy.iu m se 
à injustiça de seus acusadores, em nome do respeito à lei que a lodus hy.i.i iiii 
Atenas. Isso porque a obediência à lei era para esse pensador o limite ciiiro a civi 
lização e a barbárie;^ onde residem as ideias de ordem e coesão, pode-se dizer 
garantida a existência e manutenção do corpo social. Isso haveria de inllueiiciar 
profundamente o pensamento de seu discípulo, Platão, em seu afastamento da 
política e em sua decepção com a justiça humana. 
Baseando-se nessas noções primordiais, pode-se discutir qual o significado 
da justiça e da ética para Sócrates. 
2.2 Ética socrática 
O pensamento socrático é profundamente ético. Reveste-se, em todas as suas 
latitudes, de preocupações ético-sociais, envolvendo-se em seu método maiêutico 
todo tipo de especulação temática impassível de solução (o quo é a jusiiç:!''; o iiue 
é o bem?; o que é a coragem?...), o que aparece retratado nos di.dciyn'. plu,mi­
cos, sobretudo na Apologia de Sócrates (Platão), uma das iinicas loiíu:. de iríe-
1. "De forma que eu, em nome do oráculo, indaguei a mim mesmo se devei i.i in.nirn-i i.il eniud 
era, nem sabedor de minha sabedoria nem ignorante de luiiilia ÍX.IMH nn i i MUI.I. ,r. 
coisas, como eles, e respondi a mime ao oráculo que convinha eoiiiiim.n I.II.|M,I|. M> i.i iri.n.m. 
Apologia de Sócrates, trad., 1999, p. 73). 
2. "El cuidado de si mismo es, indisolublemente, cuidado do In cludiid v lim ilrnirtn, eoiun In vr 
mos en el ejemplo dei propio Sócrates, cuya razón de vlvlr I-N nciiiimur' ilf lim dumAii" (I liidm. 
Que és la filosofia antigua?, 1998, p. 50). 
3. No Crifon, diálogo entre os primeiros de Platão, li.í uin.i liidlniçfld clw lMl|inil4nrliip|r i\à 
às leis como limite àbarbárie. Se os homen;: en.iiii .lo aplica IMN eomn fl/nmiil rum Ni'ieit(|pí( 
quando o condenaram-, nem por isso el.r: ileviin ::rr (piehindilN, ilildn n ptiiliM IIP tilinllíiiclti 
que têm e sua.validez para todos. A lei eMeii.lc ninnlo lx,unliiMd<i im lininflli mtlio elilti 
dãos, apesar de preservar a diferença enire el,-., d.- lal modo que. nu IHIIUM.III» e nu illtrirni,ii, 
possa transparecer um todo harmónico, logo jusio. poKiu.- pl I. I • "oAlliit /»imi 
vivência" (Anchade, Platão: o cosmo, o homem c a cidade. I p ' ' 
66 PANORAMA HISTÓRICO 
rência escrita a respeito da filosofia socrática, ao lado dos Ditos e feitos memorá­
veis de Sócrates (Xenofonte), da Apologia de Sócrates (Xenofonte) e da peça tea­
tral As nuvens (Xenocrates). O que se conhece de Sócrates é, portanto, mais fruto 
de leitura dos diálogos platónicos que de uma obra por ele escrita. Desses diálo­
gos, por vezes, extraem-se muito menos respostas e muito mais perguntas, e, as­
sim mesmo, seu valor é inestimável para a história da filosofia, sobretudo tendo-se 
em vista que com Sócrates a filosofia converteu-se num éthos. 
Isso porque a filosofia socrática possui um método, e esse método faz o filó­
sofo, como homem, radicar-se em meio aos homens, em meio à cidade (polis). É 
do convívio, da morahdade, dos hábitos e práticas coletivas, das atitudes do le­
gislador, da linguagem poética... que surgem os temas da filosofia socrática. Pode-se 
mesmo dizer que o modo de vida socrático e a filosofia socrática não se separam. 
Pelo contrário, a filosofia socrática reafirma-se pelo exemplo de vida de Sócrates; 
na mesma medida, a doutrina ética e o ensino ético de Sócrates retiram-se de seu 
testemunho de vida, corporificado que está em seus atos e palavras.' 
Sócrates, em verdade, pode ser dito o iniciador da filosofia moral e o inspi­
rador de toda uma corrente de pensamento. Em verdade, sua contribuição surge 
como uma forma de antagonismo: (a) aos sofistas, pensadores da verve vocabular 
e da doutrina do relativismo das coisas, que gozavam de alta reputação nos 
meios intelectuais atenienses, cobrando pagamento por seus ensinos daqueles que 
acorriam para suas palestras, e que, em função disso, eram chamados de prosti­
tuídos por Sócrates;' (b) à cosmologia filosófica dos pré-socráticos, que especu­
lavam a respeito da natureza, dos astros, das estrelas, da origem do universo, do 
quinto elemento, da constituição última das coisas.^ Assim, há que se dizer que 
Sócrates é referência primordial na filosofia grega (filosofia pré-socrática/filoso-
fia socrática/ filosofia pós-socrática), exatamente pela ruptura que provocou com 
a tradição precedente e com os ensinos predominantes de seu tempo. 
O conhecimento, para Sócrates, residg no próprio interior do homem. Conhe-
cendo-se a si mesmo, pode-se conhecer melhor o mundo (gnoúte autos, grego; nosce 
1. "Quanto à justiça, longe de ocultar sua opinião, manifestava-a por meio de atos: no particular 
de sua casa era todo retidão e afeto; como cidadão, todo obediência aos magistrados em tudo 
o que exige a lei, quer na cidade, quer nos exércitos, onde o guiava seu espírito de disciplina. 
Ao presidir, na qualidade de epístata, os congressos populares, impediu o povo de votar contra 
as leis e, nelas amparado, resistiu à fúria do populacho que nenhum outro teria coragem de 
enfrentar. Quando os Trinta lhe davam ordens contrárias às leis, não as acatava. Assim, ao lhe 
proibirem de palestrar com os jovens e o encarregarem, juntamente com outros cidadãos, de 
conduzir um homem que pretendiam assassinar, só ele se recusou a obedecer, porque tais or­
dens eram ilegais" (Xenofonte. Ditos e feitos memoráveis de Sócrates. In: Sócrates, livro II, cap. 
4, p. 243 [Os pensadores]). 
2. "O mesmo sucede em relação à sabedoria: os que com ela traficam com quem lha queira pagar 
se chamam sofistas ou prostituídos" (Xenofonte. Op. cit. p. 113). 
3. Por isso não se pode creditar fé na figura criada por Xenocrates em As nuvens para ilustrar 
Sócrates ensinando a seus discípulos de cima de um cesto suspenso no ar, qual se se tratasse de 
um pré-socrático, mais preocupado com as coisas do céu do que com as. coisas da terra. 
SÓCRATES: ÉTICA, EDUCAÇÃO, VIRTUDE E OBEDIÊNCIA 
te ipsum, latim). A isso se adiciona o fato de Sócrates ter vi.sluinlu.ido UM Ihiviiii 
gem um grande manancial de dúvidas que gerou o fulcro d,i iinv.Md.idc di' d.' 
puração lógico-semântica do que se diz, o que era exercitatlo .m pi.i, .i |n'ihiicn, 
com discípulos ou terceiros, por meio da parturição discursiva <l,r. i.l.i.r, ' 
Assim, é que, adotando essa metodologia de pensameiiio, y.i.mi, nniinc 
ros discípulos, assim como um sem-número de inimigos, qur in.n-. i.ndc li.ive-
riam de reunir forças para sustentar sua condenação popular. 1 h- i|ii.il(ni(i h ,i ma, 
porém, marcou sua presença nas ruas de Atenas pelo conteúdo de suas liç. .r,, Hi' 
grantemente opostas à ordem prevalecente de ideias nos meios inteieciuai.s de •;. u 
tempo. Isso porque, para Sócrates, o respeito às normas vigentes, a viiuii!;iç.u) do 
filósofo com a busca da verdade, o engajamento do cidadão nos interesses tia socie­
dade, entre outros ensinamentos, aparecem como postulados perenes de seu pen­
samento, que haveriam de golpear fatalmente o relativismo e lançar os gérmens 
de novos sistemas filosóficos, como o platónico, o aristotélico e o estóico.' 
Assim é que, em poucas palavras, o ensinamento ético de Sócrates reside no 
conhecimento e na felicidade. Em primeiro lugar, ética significa conhecimento, 
tendo-se em vista que, ao praticar o mal, crê-se praticar algo que leve à felicida­
de, e, normalmente, esse juízo é falseado por impressões e aparências puramente 
externas.^ Para saber julgar acerca do bem e do mal, é necessário conhecimento, 
este sim verdadeira sabedoria e discernimento. O conhece-te a ti mesmo é esse 
mandamento que inscreve como necessária a gnose interior para a construção de 
uma ética sólida. Em segundo lugar, a felicidade, a busca de toda a ética, para 
Sócrates, pouco tem a ver com a posse de bens materiais ou com o conforto e a 
boa situação entre os homens; tem ela a ver com a semelhança com o que é valo­
rizado pelos deuses, pois parecem estes ser os mais beatos dos seres.'' O cultivo 
da verdadeira virtude, consistente no controle efetivo das paixões e na condução 
das forças humanas para a realização do saber, é o que conduz o liomem :\-
dade.s 
1. Zeller, Edouard. La philosophie des grecs considérée dans son dévcllopcinciit, Pm IHH4. 
2. Tovar. Vida de Sócrates, 1953, p. 319. 
3. Hadot, Que és la filosofia antigua?, 1998, p. 46-47. 
4. Da discussão de Sócrates diante do sofista Antifão, relativa a suas possr-t r modil á» tttju-
se e conduzir, exti-ai-se que a felicidade não está nas posses mnirrliilN: "PurperN, AntIfRn, colo­
car a felicidade nas deUcias e na magnificência. De mim, priiso qnr t\r im\u in-crimlirt u divin­
dade. Que quanto menos necessidades se tenha, mais nos iiproxlmiimn» dfl« !( ennm ii divin­
dade é a própria perfeição, quem mais .se aproximar ila divindiidr niiiÍN ppilo ««ittiA iln |iprl'r|. 
ção" (Xenofonte, Op. cit. p. 113). 
5. "A verdadeira virtude é uma purificação de tod.is as pjiixíie.i. i) i ..ineiliiMr^iiHi, M |il«tli,'«, t\n 
e a própria sabedoria são purificações, e é iniiiio i-laio (|ue mpn^les ipie • > iL. I i.iiil d» ln'l 
elações místicas não eram personagens despiI'/IV<MS, IUM -ilm Kiiindt<í i , , i|i<iiilii oi( 
primórdios, desejaram nos fazer compreeiuliM .^(ili e-,..-, .ne.Mim.i que iii|iii>lr ipu' Im tm lindei 
sem ser iniciado e purificado será jogado l.mi.i. r qn, ,i.|iiile ipie i liii^«i N» 
purificado e iniciado, será recebido entre os deuses' (ri.u jn. /VdeM, iiiul , |ywtt, 
68 PANORAMA HISTÓRICO 
2.3 Primado da ética do coletivo sobre a ética do 
individual 
A ética socrática impõe respeito, seja por sua logicidade, seja por seu cará­
ter. E certo que, se Sócrates desejasse, poderia ter fugido à aplicaçãoda pena de 
morte que lhe havia sido imposta, e os discípulos a seu lado estavam para airxiliá-lo 
e acobertá-lo. No entanto, a ética do respeito às leis, e, portanto, à coletividade, 
não permitia que assim agisse. E também, se durante toda a sua vida distinguiu-
se por seguir os conselhos dos deuses, não seria no momento de sua morte que os 
desobedeceria, negando seu destino de união com a cidade (polis) e com a cons­
tituição (politeía). De fato, é o que afirma Xenocrates: 
"A ela renunciando demonstrou todo o vigor de sua alma, cobrindo-se 
de glória tanto pela verdade, desprendimento e justiça de sua defesa, quan­
to pela serenidade e coragem com que recebeu a sentença de morte" 
(Xenocrates, Ditos e feitos memoráveis de Sócrates. [Os pensadores] In: 
Sócrates, trad. Mirtes Coscodai, livro II, cap. 8, p. 265). 
Sócrates, de fato, dedicou-se a um valor absoluto, e por ele lutou até o pon­
to de renunciar à própria vida.' E isso porque a ética socrática não se aferra so­
mente à lei e ao respeito dos deveres humanos em si e por si. Transcende a isso 
tudo: inscreve-se como uma ética que se atrela ao porvir (post mortem). A filoso­
fia socrática, não se omita essa importante contribuição de seu pensamento, pre­
para para o bem viver após a morte. Isso significa dizer que nem toda virtude 
proclamada como tal perante os homens há de ser considerada virtude perante 
os deuses. Isso ainda significa dizer que a verdade, a virtude e ajustiça devem ser 
buscadas com vista em um fim maior, o bem viver post mortem. E não há outra 
razão pela qual se deseje filosofar senão a de preparar-se para a morte.' 
Para Sócrates, a morte representa apenas uma passagem, uma emigração, e 
a continuidade há de ensinar quais valores são acertados, quais são erróneos.^ Se 
1. "En efecto, podemos decir que un valor es absoluto para un hombre cuando esta dispuesto a 
morir por él. Tal es precisamente la actirud de Sócrates cunado se trata de 'lo que es mejor', es 
decir de la justicia, dei deber, de la pureza moral" (Hadot, Que es la filosofia antigua?, 1998, p. 
47). 
2. "Esquece-o - respondeu Sócrates. - É chegado o momento que eu exponha a vós, que sois meus 
juízes, as razões que me convencem de que um homem, que haja se dedicado ao longo de toda 
sua existência à filosofia, deve morrer tranquilo e com a esperança de que usufruíra, ao deixar 
esta vida, infinitos bens. Procurarei dar-vos provas disso, ó Simias e Cebes. Os homens não sabem 
que os verdadeiros filósofos trabalham durante toda sua vida na preparação de sua morte e para 
estar mortos; por ser assim, seria ridículo que, depois de ter perseguido este único fim, sem 
descanso, recuassem e tremessem diante da morte" (Platão, Fédon, trad., 1999, p. 124). 
:Í. "láiçainos mais esta reflexão: há grande esperança de que isto seja um bem. Morrer é uma des-
las diiii.s coisas: ou o morto é igual a nada, e não sente nenhuma sensação de coisa nenhuma; 
ou. PMlrti), COCHO SC costuma dizer, trata-se duma mudança, uma emigração da alma, do lugar 
SÓCRATES: ÉTICA, EDUCAÇÃO, VIRTUDE E OBEDIÊNCIA 69 
a vida é uma passagem, é porque a morte não interrompe o fluxo da-i aliniiH. qur 
preexistem e subsistem ao corpo.' Não é a efémera vida o coim-ço i- o hm dt- tudo, 
mas apenas parte de um trajeto.' Ao homem é lícito especulai .i n p, nu, purc^ni 
a certeza do que será somente os deuses possuem.^ Veja-se comi) se cxpic".',.!, a 
esse respeito, Fédon: 
"-Naquele dia, minhas impressões foram de fato estranhas, poi;;, cm vc/. 
de condoer-me da morte de um amigo a quem eu estimava tanto, livc .i im­
pressão de que seu destino fosse ditoso, porque eu me encontrava junio a um 
homem feliz, amigo Equécrates, feliz por seu comportamento, peias palavras 
que proferia e pela coragem e serenidade com que faleceu. Con.sogiiiu até 
mesmo convencer-me de que não iria para o Hades sem alguma ajuda divi­
na, mas que, lá embaixo, desfrutaria uma felicidade que nunca ninguém 
desfrutara. Por este motivo não senti pesar algum, como seria normal num 
semelhante, mas também não experimentei a satisfação que experimentava 
quando conversávamos sobre filosofia, já que o assunto daquela conversa­
ção tinha tal caráter. A consciência de que aquele homem estava para mor­
rer causava em mim uma extraordinária mistura de pesar e satisfação, e o 
mesmo ocorria com todos que ali se encontravam. Todos nós ríamos e cho­
rávamos, em especial modo um de nós, Apolodoro, que, com certeza, tu co­
nheces" (Platão, Fédon, trad., 1999, p. 118). 
A certeza socrática quanto ao porvir é a mesma que o movimentava para agir 
de acordo com a lei (nomos). Sócrates está plenamente cônscio de que a nomos é 
fruto do artifício humano, e não da natureza.'* E mesmo assim ensina a obediên­
cia irrestrita. 
deste mundo para outro lugar. Se não há nenhuma sensação, se é como um sono em que o 
adormecido nada vê nem sonha, que maravilhosa vantagem seria a mortel" (Plutílo, Apologia 
de Sócrates, trad., 1999, p. 95). 
1. "Renascer, se existe um regresso da morte à vida - disse Sócrates -, 6 realizar pssr rrxrrsso. Por 
este motivo nos persuadiremos de que os vivos nascem dos mortos, como psif i» ilaiinrlrs, pro­
va incontestável de que as almas dos mortos existem em algum luy,,n. <lc i|iic n-lcn n.nii i'i vida" 
(Platão, Fédon, trad., 1999, p. 134). 
2. "Então, preciso satisfazer-vos-respondeu Sócraic: c piocui.u l.i .ri cuni c|i .iil-i. < . i., 
mais eficiente entrenósdoqueofoiaquela na IVcni.'|iii.'.", Im i. i.l.ulr. SIml.i i-
se eu não cresse encontrar na outra vida CICUM", IH,M . ..iLh i. . IP u,. M IU.-IIH , .pi. , a.i 
qui, seria inconcebível não lamentar morrei. S.ilni. ni.inh.. iph . | iunlni im- n Imin, n . 
justos e deuses muito bons. Eis por que nao me .il!i|i> < IMU .i nimlui moni', moiinirl leiídn n 
esperança de que existe alguma coisa depois deM.i vid.i i|ni'. de m iiido niiii « rtnUKii liiidl 
ção, os bons serão mais bem tratados que os mair.' irl.ii.i... I •tluii, lind , IWJ, p l; I) 
3. "Bem, é chegada a hora de partimos, eu para a moiii-. VM-, p.n.i n vid^ (jiiiiMi «fKUc mrllinr 
destino, se eu, se vós, é segredo para todos, exceto p.na n illvliidml»" (IMNIRII, Ajtii(ii)(lii de 
Sócrates, trad., 1999, p. 97). 
4. Cf. Gudirie, Os sofistas, 1995, p. 74. 
70 
PANORAMA HISTÓRICO 
Isso porque Sócrates vislumbra nas leis um conjunto de preceitos de obe­
diência incontornável, não obstante possam estas serem justas ou injustas. O di­
reito, pois, aparece como um instrumento humano de coesão social, que visa à rea­
lização do Bem Comum, consistente no desenvolvimento integral de todas as 
potencialidades humanas, alcançável por meio do cultivo das virtudes. Em seu 
conceito, que nos foi transmitido pelos diálogos platónicos de primeira geração, 
as leis da cidade são inderrogáveis pelo arbítrio da vontade humana. 
E perceptível a transição do pensamento dos sofistas para o de Sócrates. 
Enquanto os primeiros relevaram a efemeridade e a contingência das leis variá­
veis no tempo e no espaço, Sócrates empenhou-se em restabelecer para a cidade 
o império do ideal cívico, liame indissociável entre indivíduo e sociedade. 
E, no entanto, foi justamente durante o governo de restauração democrática 
que foi condenado à morte. É exatamente nesse momento, em que se comemora­
va a vitória contra a oligarquia dos Trinta Tiranos de Esparta, após a Guerra do 
Peloponeso (431-404 a.C), que deveria primar pela liberdade e pela restauração 
de concepções mais democráticas de justiça, que Sócrates foi acusado e condena­
do. A acusação de seus antagonistas já era esperada; não se esperava o julgamen­
to favorável à demanda, condenatório de Sócrates. 
Sócrates sabia que, durante seus anos de lição, havia despertado a animosi­
dade em muitos daqueles que interpelara por meio da dialetica e da maiêutica, 
de modo que estava plenamente consciente desse fato quando de sua defesa pe­
rante o tribunal.' Elaborou sua defesa, em que contraditou os argumentos de seus 
adversários, mas ainda assim foi condenado a beber cicutapor negar as divinda­
des da cidade criando outras, além de corromper a juventude com seus ensina­
mentos.' 
1. "Em virtude desta pesquisa, fiz numerosas e perigosíssimas inimizades, e a partir destas ini­
mizades surgiram muitas calúnias, e entre as calúnias, a fama de sábio, porque, toda vez que 
participava de uma discussão, as pessoas julgavam que eu fosse sábio naqueles assuntos em que 
somente punha a descoberto a ignorância dos demais. A verdade, porém, é outra, ó atenien­
ses: quem sabe é apenas o deus, e ele quer dizer, por intermédio de seu oráculo, que muito pouco 
ou nada vale a sabedoria do homem, e, ao afirmar que Sócrates é sábio, não se refere propria­
mente a mim, Sócrates, mas só usa meu nome como exemplo, como se tivesse dito: 'Ó homens, 
é muito sábio entre vós aquele que, igualmente a Sócrates, tenha admitido que sua sabedoria 
não possui valor algum'. É por esta razão que ainda hoje procuro e investigo, de acordo com a 
palavra do deus, se existe alguém entre os atenienses ou estrangeiros que possa ser considera­
do sábio e, como acho que ninguém o seja, venho em ajuda ao deus provando que não há sábio 
algum. E tomado como estou por esta ânsia de pesquisa, não me restou mais tempo para reali­
zar alguma coisa de importante nem pela cidade nem pela minha casa, e levo uma existência 
miserável por conta deste meu serviço ao deus" (Platão, Apologia de Sócrates, trad., 1999, p. 73). 
2. Coloca-se a seu favor Xenofonte, no exame que faz da situação e da acusação que pendia sobre 
Sócrates: "O que da mesma forma me assombra é o haver penetrado em certos espíritos a ideia 
de que Sócrates corrompia os jovens, Sócrates que, à parte o que foi dito, era o mais moderado 
dos mortais a respeito dos prazeres dos sentidos como da mesa, o mais insensível ao frio, ao 
calor, às fadigas de todo tipo e tão sóbrio que lhe bastava seu minguado pecúho. Com tais qua-
SÓCRATES: ÉTICA, EDUCAÇÃO, VIRTUDE E OBEDlftNCIA 71 
Que duvidosa e incerta democracia vivia a Atenas do sóculo V IV ii.C,. t>"nd«í sr 
em -vista que foi a própria cidade (polis) que elegera como luy,,n dc fUNiiui qui-
condenou Sócrates à morte?' As leis que havia ensinado a obcdci ci, t-oiiiiii dc sc 
voltaram. Tal condenação só veio a demonstrar a relatividade tic iodo luly.inncu 
to humano não lastreado no verdadeiro senso de justiça, prova da ptópi la ÍMI|)CI 
feição das leis atenienses da época. 
Não obstante a injustiça do julgamento a que deram causa as acusações de 
Meleto, Anito e Licon, Sócrates submeteu-se serenamente à sentença condcnalória, 
deixando entrever a seus discípulos mais um importante e supremo cusinamcnio: 
o valor da lei como elemento de ordem do todo. Se em sua defesa iiodcri.i I<T 
aduzido fatos, discursos, palavras que mitigassem a ira dos juízes coniia M, iin 
vez de tentar conquistar a piedade e o favoritismo humanos, impugnou pela ver­
dade, e em momento algum renunciou à causa que já havia abraçado como mis­
são atribuída pelos deuses.' No entanto, apesar de não ter tentado seduzir o cor­
po de juízes que o julgavam, provou à sociedade que seus ensinamentos não cor­
rompiam a juventude e nem contrariavam o culto tradicional dos deuses.' 
No lugar de proteger-se com pala-vras emotivas, replicou aos que lhe que­
riam imputar crimes por ele não cometidos, certo de que não deveria proteger-se, 
pois sua vida havia sido o maior dos testemunhos de justiça, felicidade e retidão. 
Assim testemunha Xenofonte a seu respeito: 
lidades, como poderia ter desencaminhado os outros à crueldade, à libertinagem, ao ócio? Ao 
contrário, não afastou muitos homens desses vícios, tornando-os amantes da virtude e 
infundindo-lhes a esperança de, por meio da fiscalização de si mesmos, virem a ser um dia vir­
tuosos?" (Xenofonte, Op. cit. p. 85). 
1. A respeito do julgamento de Sócrates, consulte-se Stone. O julgamento de Sócrates, 1988. 
2. "Ao ouvir tais palavras os juízes murmuraram, uns de incredulidade, outros de inveja da predi-
leção que lhe dedicavam os deuses. Prosseguiu Sócrates: 'Ouvi mais isto, para qnc os (|ni' o 
desejam tenham mais um motivo para não acreditar no favor com que me homaram ,is divin­
dades. Um dia em que, em presença de numerosa assistência, Querefonir iiUi-i Miy,,iv;i ,i mm 
respeito o oráculo de Delfos, respondeu Apolo não haver homem mais sciii.am, uKl.pni.l. nH', 
justo e sábio do que eu.'Como era de esperar, a estas palavras os juízes lí/,ci.nn mivii Mniiinií-
rio maior ainda" (Xenofonte, Op. cit. p. 276). 
3. "Diante disso, como é possível que a alguns agrade estar coniijM) i.mici i.mi". • v.,' vr,i.-,, ó 
cidadãos, que eu disse toda a verdade: têm prazer de ouvir me c]iMn.l.. MII i,.., |IMIV.I .ii|iie-
les que pensam serem sábios e não o são. Com eleiíd, M.H.I ,1. ,i j hl i , I \.. tH/.fr IIINO, teplto-
vos, cumpro as ordens do deus, dadas por intcrniedio il. vm. m f por OUIMM mrl-
os de que se serve a providência divina para orden.n .m IIIUIMIM l.ien iilniunu riiUn, UrNlns 
coisas, ó atenienses, são verdadeiras e demonMi.iver; (ii.. eu KI npii ou |oVPllit, «r Já 
corrompi algum, seria ainda necessário que esie., .m r.urll,. , nem, IOMIIINKPIII ciiiKirK^neln de 
que quando eram jovens eu os aconselhei a piineji o mil, . .|M.' VIPÍUPIU A lillnuid puni 
acusar-me e para exigir minha punição, e, sc n;ii> ipn ,e-. ..-m l.i.. I,, dnpirtlliPntP, t|llp rnvlHS-
sem hoje para cá as pessoas de sua família, pais, irman:, em •., -.e im ipir II !• • " -1 «iil ri­
ram algum mal por mim causado, e que me fizessem [)ai',.ii pol l.'.Mi" (l'|(llíln,,\ .'IMIIM, 
trad., 1999, p. 86). 
72 
PANORAMA HISTÓRICO 
"Mas Hermógenes, filho de Hipônico e amigo de Sócrates, deu a esse 
respeito pormenores que mostram que o teor de sua Hnguagem coadunava 
perfeitamente com o de suas ideias. Relatava que, vendo-o discorrer a res­
peito de assuntos completamente alheios ao seu processo, dissera-lhe: 
- Não deverias, Sócrates, pensar em tua apologia? 
" Ao que lhe respondeu Sócrates: 
- Não te parece que lhe consagrei toda a minha vida? 
Ao ser indagado por Hermógenes de que maneira: 
- Vivendo sem cometer injustiça alguma, o que é, a meu aviso, a me­
lhor maneira de preparar uma defesa. 
Tomara Hermógenes: 
- Não vês que, melindrados com a defesa, fizeram os juízes de Atenas 
morrer muitos inocentes e absolveram muitos culpados cuja linguagem lhes 
despertara a piedade ou lhes lisonjeara os ouvidos? 
- Por duas vezes - dissera Sócrates - tentei preparar uma apologia; con­
tudo, a isso se opôs meu demónio. 
Estranhando-lhe a linguagem, respondera Sócrates: 
- Por que te assombras, se julgam os deuses mais vantajoso para mim 
deixar a vida desde já? Não sabes que, até o presente, homem algum viveu 
melhor e mais feliz que eu? Agrada-me haver sempre vivido na devoção e 
na justiça" (Xenofonte, Apologia de Sócrates. In: Sócrates, livro I, p. 271-272 
[Os Pensadores]). 
E ainda, às vésperas da execução da sentença, negando ao apelo de Críton, 
discípulo que viera ao cárcere propor-lhe a evasão da prisão, Sócrates pôde con-
soUdar sua doutrina e demonstrar a solidez de seu sistema filosófico. Antes ser 
condenado à morte por uma sentença injusta do que ser condenado à morte por 
uma sentença justa, afirma: 
"Acompanhava-o certo Apolodoro, alma simples e profundamente afei­
çoada a Sócrates, que lhe disse: 
- Não posso aguentar Sócrates ver-te morrer injustamente. 
Então, dizem que, passando-lhe de leve a mão pela cabeça, Sócrates res­
pondeu: 
- Meu caro Apolodoro, então preferias ver-me morrer justamente?" 
(Xenofonte, Apologia de Sócrates. In: Sócrates, livro III, p. 281 [Os Pensado­
res]). 
Dessa forma, não procurando revidar o injusto corporificado na sentença 
condenatórin com ouiio ato de injustiça para com a cidade, Sócrates consagrou 
valor<'s ^\\u• foram, posteriormente, absorvidos por Platão e por Aristóteles. O 
SÓCRATES: ÉTICA, EDUCAÇÃO, VIRTtTOE E OBEDIÊNCIA 73 
homem enquanto integrado ao modo político de vida deve zelar pelo rrupclto 
absoluto,mesmo em detrimento da própria vida, às leis comun.s ii lodoN. hs noi 
mas políticas inómos póíeos). O homem, assim radicado naliiialmcnir tu\a 
devida comunitária, tem como dever o cumprimento de seu papel como cldadui 
participativo, e, assim, integrado nos negócios piiblicos, deve inisi .n M maimicii 
ção da sacralidade e da validade das instituições convencionad.is (|iie constMiicm 
o desenvolvimento da harmonia comunitária. 
O ato de descumprimento da sentença imposta pela cidade reiHcscniava paia 
Sócrates a derrogação de um princípio básico do governo das leis: a oflciU-ia. A 
eficácia das leis comprometida, a desordem social haveria de reinai como pi jncí-
pio, uma vez que cada qual cumpriria ou descumpriria as regras sociais dc acor­
do com suas convicções próprias; mas, para Sócrates, o débito social 6 iiu-oii-
tomável.' Sua atitude serviria de exemplo para que outros também se esquivas­
sem do cumprimento de seus deveres legais perante a cidade, o que equivaleria a 
solapar as estruturas da cidade-estado, reerguida sob a égide do governo de Sólon 
que havia instituído a isonomia entre os cidadãos. 
A inderrogabilidade do valor das leis ganhou força de princípio dogmático, 
coercitivo e vinculativo para todo aquele que se pudesse considerar um bom ci­
dadão, um cidadão virtuoso. Ajustiça política, que se fazia viva por meio das leis 
positivas, representou entre os gregos, e mesmo entre outros povos da Antigiiida­
de, a orientação da vida do próprio indivíduo. 
Amplaniente restritivas da liberdade individual, as leis de algumas cidades 
intercediam profundamente na vida privada dos indivíduos. Em Esparta, por exem­
plo, o que ocorria é que, desde o nascimento até a morte do cidadão, o paternalismo 
das leis exprimia-se por um conjunto de disposições que norteavam a educação, a 
disciplina, a forma do convívio e outros valores sociais, no sentido de aperfei­
çoamento não só da parte, mas do todo à qual está indissociavelmente ligada.' 
Sócrates serviu-se de sua própria experiência para fazer com (iiic a vculade 
acerca do justo e do injusto viesse à tona.^ A lei interna que encoiitia guai itla IKJ 
1. "Vejamos se assim entendes melhor. Se no instante de nossa liiy.a, oii eoiiio ipieie'! denmnin.ir 
nossa saída, as leis da Repiiblica nos dissessem: 'Sóei.ites. o ipie vais l.i/.ei,' Hxei iil.n leii |>l,inn 
não significa aniquilar-nos completamente, sendo ipie <!'• ii a.|Mn.l.'iii .e, l.r. dn He|inli|leii e ,is 
de todo o Estado? Acreditas que um Estado pode Mil..r.Ill r. ur, mh n, r, \P^,\\,Í mld n>m 
poder e, o que é mais grave, se os indivíduos ;is ilc.pie/.nii e .iiiiquil.iiii '' i.nie u^upomlri lainn',, 
Críton, a essas e a outras acusações semellunitesí (.)ii.nii,e. mhm iirtu podeiIIUM IPI illiiei, nii' 
mesmo por um retórico, a respeito do aniquilaineiuo il."...i lei ,|iie exlue u eimipiliiieiiin ,l.ei 
sentenças emitidas? Porventura responderíamos (|iie .i H.pulili. .i iui liiliixln n iiiii |IIIK<>II HKII ' 
É isso que diríamos?" (Platão, Críton, trad., 1999, p m')| 
2. Ver Tovar, Vida de Sócrates, p. 321 e 322. Também, iie:.:.e •.eiiiido ••Itn/n llmlirt y rntnliMM (In 
leye), incluso en los assuntos más íntimos de la vida piivada y de l>i inniliii iii iiminl ilfl lUI 
ciudadanos" (Jaeger, Paidéia, v 1, p. 127). 
3. É o que diz a respeito Aloysio Ferraz Pereira, História i/<i/Í/O.VU/M do ./iirlíu, PJMI), p t ' 
74 PANORAMA HISTÓRICO 
interior de cada ser, lei moral por excelência, poderia julgar acerca da justiça ou 
da injustiça de uma lei positiva, e a respeito disso opinar, mas esse juízo não po­
deria ultrapassar os limites da crítica, a ponto de lesar a legislação política pelo 
descumprimento.' Em outras palavras, para Sócrates, com base num juízo moral, 
não se podem derrogar leis positivas.' O foro interior e individual deveria sub­
meter-se ao exterior e geral em benefício da coletividade.^ 
Assim, pode-se dizer que sua submissão à sentença condenatória represen­
tou não só a confirmação de seus ensinamentos, mas, também, a revitalização dos 
valores sócio-religiosos acordantes com os que foram a base da construção da 
própria cidade-estado grega, quando da transição de um estado gentílico ao polí­
tico. Obedecer aos deuses era o mesmo que obedecer à cidade, e vice-versa.'' 
Moralidade e legalidade caminham juntas para a realização do escopo social, 
dentro da ordem das leis divinas, as quais Sócrates insistia em sublinhar como 
parâmetro do correto julgamento do próprio ser.^ 
A atitude desprendida do filósofo relativamente a sua própria vida conferiu 
novo fôlego ao princípio do respeito às leis da cidade. Se essa decisão foi salutar. 
1. "... temos em Sócrates o exemplo clássico do conflito entre a ordem objetiva e legal por ele 
considerada como expressão da justiça, e o seu sentimento subjetivo de que estava sendo 
injustiçado ao ser condenado à morte" (Cláudio de Cicco, Ajustiça e o direito moderno. Revis­
ta Brasileira de Filosofia, 1991, p. 147). 
2. "'Possuímos', diriam, 'importantes provas de que nós e a República sempre te agradamos, por­
que permaneceste na cidade mais que qualquer outro ateniense e não houve espetáculo que te 
fizesse sair dela, salvo quando te dirigiste ao istmo de Corinto para assistir aos jogos. Nunca 
saíste exceto para expedições militares, e nunca fizeste viagem alguma como todos os cidadãos 
têm o hábito de fazê-lo, não tiveste a curiosidade de conhecer outras cidades e outras leis: nos 
amavas tanto e tão decidido estavas em viver a nossa maneira, que aqui tiveste teus filhos, tes­
temunhos vivos de quanto isto te agradava, e até ao longo do teu processo poderias haver-te 
condenado ao exílio se o quisesses, e então fazer, com a anuência da tua cidade, o que pensas 
fazer apesar dela. Tu, que te declaravas indiferente ante a morte e que dizias que era preferível 
ao exílio, sem envergonhar-te com essa linguagem, sem nos respeitar, a nós, leis, intentas 
aniquilar-nos, ages como agiria o mais reles escravo e procuras salvar-te transgredindo a con­
venção que te obriga a viver como bom cidadão. Responde-nos então: dizemos a verdade quando 
afirmamos que te submeteste a esta convenção, não por palavras, mas de fato e de forma 
irrestrita?' O que responderíamos a isto e o que nos seria possível fazer exceto admiti-lo?" (Platão, 
Críton, trad-, 1999, p. 111). 
3. Cf. Zeller, ia philosophie des grecs considérée dans son dévellopement, 1884, p. 38. 
4. 'Algum de vós talvez pudesse contestar-me: 'Em súêncio e quieto, ó Sócrates, não poderias vi­
ver após ter saído de Atenas?' Isso seria simplesmente impossível. Porque, se vos dissesse que 
significaria desobedecer ao deus e que, por conseguinte, não seria possível que eu vivesse em 
silêncio, não acreditaríeis e pensaríeis que estivesse sendo sarcástico. Se vos dissesse que esse 
é o maior liem para o homem, meditar todos os dias sobre a virtude e acerca dos outros assun­
tos que me ouvistes discutindo e analisando a meu respeito e dos demais, e que uma vida des­
provida dl- tais análises não é digna de ser vivida, se vos dissesse isto, acreditar-me-iam menos 
ainila" (1'liitilo, /\/)ii/i),i;((i de Sócrales, trad., 1999, p. 91). 
5. Plmflo, Críton, 4:) b. 
SÓCRATES: ÉTICA, EDUCAÇÃO, VIRTUDE E OBEDIÊNCIA 75 
do ponto de vista político e ético, não foram poucos os motivol qtM InilíiiinKin 
Sócrates em sua decisão, podendo-se enumerar, entre outros, os seguintei: 
a) o momento histórico decadencial-vivido pela mais célebre (uliide ("aíido 
grega após haver sucumbido às forças espartanas na Giieria do Pelopo 
neso, carecendo-se, portanto, de atitudes e posturas favorávci.s íi demo­
cracia e ao respeito às leis; 
b) a concatenação da lei moral com a legislação cívica; 
c) o respeito às normas e à religião que governavam a comunidade, no sen­
tido do sacrifício da parte pela subsistência do todo; 
d) a importância e imperatividade da lei em favor da coletividade e dn or­
dem do todo; 
e) a substituição do princípio da reciprocidade, segundo o qual se respon­
diaao injusto com injustiça, pelo princípio da anulação de tmi mal com 
seu contrário, assim, da injustiça com um ato de justiça;' 
f) o reconhecimento da sobrevivência da alma, para um julgamento defi­
nitivo pelos deuses, responsável pelo verdadeiro veredito dos atos huma­
nos. 
Conclusões 
A filosofia socrática traduz uma ética teleológica, e sua contribuição consis­
te em vislumbrar na felicidade o fim da ação. Essa ética tem por fito a preparação 
do homem para conhecer-se, uma vez que o conhecimento é a base do agir ético; 
só erra quem desconhece, de modo que a ignorância é o maior dos males. Coniie-
cer, porém, não é fiar-se nas aparências e nos enganos e desenganos luunaiios, e 
sim fiar-se no que há de verdadeiro e certo. Erradicar a ignorância, porianio, por 
meio da educação (paidéia) é tarefa do filósofo, que, na reiíe/.i ile... . pnneí 
pios, abdica até mesmo de sua vida para re-afirrnar sua liç.io e .ei iiptotni;.so 
com a divindade. A lição de vida da ética socrática é Já mn i liç.io de inMiça. 
Portanto, um misterioso conjunto de elementos éticos, sociae. • M li.m 
permearam os ensinamentos socráticos, que permaneceram como pini" ipee, p,-
renese modelares, apesar de não terem sido reduzidos a escuto,' maM|iic .. ti.m. 
1. A esse respeito, ibidem, 54 c. 
2. A esse respeito diz Hannah Arendt: "Depõe muito a favor de SÓC»tU O r<ilii dr »0 , rii-
tre todos os grandes pensadores - singular neste aspeao Como tm mulum iiiilioii , |NiiiniA •ii' 
tenha entregue ao trabalho de dar forma escrita a seus pensamentoi; poli i ólivlii ijiir, poi miiln 
que um pensador se preocupe com o eterno, no instante em que le dUpfl» « P«I ievr.| o» neiii 
pensamentosderxadeestarfundamentalmentepreocupadocomac-lriiildiidrn viili , 
çãoparaatarefadelegaraospósterosalgumvestígiodeles"CAcori(/iiil(i/iiiiMim(i, i 
76 
PANORAMA HISTÓRICO 
mitiram e se consubstanciaram principalmente no pensamento platónico, surtin­
do seus reflexos nas demais escolas que se firmaram na doutrina socrática. 
Ao contrário de fomentar a desordem, o caos, a insurreição, sua filosofia prima 
pela submissão, uma vez que a ética do coletivo está acima da ética do indivíduo. 
Seu testemunho de vida bem provou essa convicção no acerto da renúncia em prol 
da cidade-estado (polis). Onde está a virtude está a felicidade, e isso independen­
temente dos julgamentos humanos a respeito. 
A condenação de Sócrates, além de ter-lhe propiciado a oportunidade de 
questionar com sua vida a justiça citadina, também produziu sérios efeitos e dei­
xou profundas marcas na história da filosofia. Platão, incorporando esse dilema, 
haverá de legá-lo com toda força para a posteridade. 
3 
Platão: Idealismo, Virtude e 
Transcendência Ética 
3.1 Virtuosismo platónico e socratismo 
A principal parte do conjunto de premissas socráticas vem dcsenibocnr dire­
tamente no pensamento platónico. De fato, Platão (427-347 a.C), o discípulo mais 
notável de Sócrates e o fundador da Academia, por meio de seus diáiov.os lúuli» c 
República (livros IV e X), que especificamente abordam a questão, dcscnvi)lvc com 
acuidade os mesmos pressupostos elementares do pensamento síxrálico: a virtu­
de é conhecimento, e o vício existe em função da ignorância. Ao raciocínio socrático 
somam-se as influências egípcia, pitagórica e órfica, quo acabam por lom.í lo mn 
pensamento peculiar. De qualquer forma, em sua exposição do piolilcm.i elidi 
ressalta-se, sobretudo, o entrelaçamento das preocupaçoc yno:. (.In/i. ,r,, psico­
lógicas, metafi'sicas e éticas propriamente ditas.' 
Toda a preocupação filosófica platónica decorre nao de uma vivi^iu la diiela 
e efetiva em meio às coisas humanas. Todo o sistema filosófico plnlrtnico decor­
rência de pressupostos transcendentes, quais a alma. a IIICCHINIAnela da alm.i, a 
reminiscência das ideias, a subsistência da alma...- O (|Uf \u\ niir Pliiiao, dilc 
1. "A relação entre a psicologia e a ética é exposta em dols diálogoi: no llvici IV tl« «K/MI/I/ÍOI P nu 
Mito do Cocheiro, no Fedro" (Chaui, Introdução à história dafliMOftu, v I. |i UM) 
2. "E concordamos também que, quando o conhecimento chega de certn iimn»li«, * wm incnrdít 
ção. Ao dizer de certa maneira, quero dizer por exemplo, quo (iiinndo iiiii liiimBiii, v# iiii (iiivf 
alguma coisa, ou percebe-a por qualquer um de seus outros scnllilo», nau i niilimn it|i»i|i«ii n 
coisa que chama a sua atenção, mas, ao mesmo tempo, peiís.i em i.nlin i|n«i iiAit il*>|ioiiili< ile 
78 
PANORAMA HISTÓRICO 
rentemente da proposta de Sócrates, distancia-se da política e do seio das ativi-
dades prático-políticas. Se Sócrates ensinava nas ruas da cidade, Platão, decepcio­
nado com o governo dos Trinta Tiranos e com o golpe que a cidade desferiu con­
tra a filosofia, ensinara num lugar apartado, no recôndito onde o pensamento pode 
vagar com tranqiiilidade, e onde se pode desenvolver um modo de vida ao mes­
mo tempo que preocupado com a cidade, dela, de suas corrupções, torpezas e pro­
blemas, distante: a Academia.' 
Sócrates via na prudência (phrónesis) a virtude de caráter fundamental para 
o alcance da harmonia social. E a prudência estava incorporada a seu método de 
ensinar e ditar ideias, com vistas à realização de uma educação (paidéia) cidadã. 
Quando a condenação de Sócrates firmou a hostilidade da cidade ao filósofo, à 
qual era inerente a politicidade do convívio, iniciou-se um processo académico de 
distanciamento da cidadania participativa; esta era a derrocada do ideal de per­
feição democrática. ; , 
O que há é que a prudência (phrónesis) socrática converte-se em vida teóri­
ca (bios theoréticos). Esta, declarada como a melhor das formas de vida, entre as 
possíveis e desejáveis formas de vida humana (filósofo, cavaleiro, artesão), pas­
sou a servir de modelo de felicidade humana. Tudo isso com base na tripartição 
da alma da seguinte forma: alma logística, correspondendo à parte superior do 
corpo humano (cabeça), à qual se Uga a figura do filósofo; alma irascível, corres­
pondendo à parte mediana do corpo humano (peito), caracterizada pela coragem 
como virtude cavalheiresca; alma apetitiva, correspondendo à parte inferior do 
corpo humano (baixo ventre), à qual se ligam os artesãos, os comerciantes e o povo. 
Às potências da alma (psyché) humana vinculam-se, portanto, aos modos de 
vida, de maneira que: (a) a parte logística da alma passa a representar o que dife­
rencia o ser humano de outros seres; (b) a parte logística da alma passa a repre­
sentar a imortalidade do ser; (c) a parte logística da alma passa a representar o 
que há de mais excelente no homem que o faz assemelhar-se aos deuses; (d) a 
alma logística (logistikón) é hegemónica diante das outras partes da alma huma­
na; (e) a alma logística é capaz de reflexão (diánoia), de opinião (dóxa), e de ima­
ginação (phantasía); (e) a alma logística é capaz de razão (noús) e é esta razão 
sua maneira de conhecer, mas de uma diferente. Não afirmamos que esse homem lembra o que 
surgiu em sua imaginação" (Platão, Fédon, 1999, p. 136). 
1. Em tomo do século VI a.C, destacou-se a figura de Tales, de acordo com toda a tradição que se 
formou acerca de sua personalidade, alcançando grandes repercussões na posteridade por meio 
da anedota da escrava trácia, o que aparece consignado no Teeteto de Platão. Nessa passagem 
da obra do filósofo da Academia, sublinha-se que as preocupações filosóficas afastam o pensa­
dor da realidade, dicotomizando sua personalidade humana a sua personalidade astronômico-
científica. A importância da verdade e a prevalência da última personahdade sobre a primeira 
atestam o valor atribuído à especulação, coincidente com o início da reflexão humana pelas 
causas e princípios do universo, e aos iniciadores da atividade especulativa quando se firma­
ram as bases do paradigma teorético com a Academia de Platão. 
PLATÃO: IDEAUSMO, VIRTUDE E TRANSCENDÊNCIA ihlCA 
que permite ao homem acessar, por meio da contemplação, as lil/i.i. , pi. . .IIUMI 
te aos deuses são acessíveis.'A ciência só é possível do que é certo, eterno e imutável. .Sinnenir .r. nlei.is 
são, para Platão, certas, eternas e imutáveis, tendo-se em vista (|iie imlci o m.iis 
que se conhece é incerto, perecível e mutável. Do que sc disse .luiei Im menii', so­
mente a alma logística é capaz de ciência, e esta ciência (epistciiir\1 ,pi il iile 
re Platão, deriva da contemplação das ideias perfeitas e imuiávei;, |i( I,, hluMild.' 
3.2 Virtude e vício: ordem e desordem 
Cada parte da alma humana exerce uma função, e estas funções delimitadas, 
sincronizadas e direcionadas para seus fins são a causa da ordem e da eooidena-
ção das atívidades humanas. Assim, as diversas faculdades humanas esião dota­
das de aptidão para a virtude (areté), uma vez que a virtude é uma exeelên<i,i, ou 
seja, um aperfeiçoamento de uma capacidade ou faculdade humana siiseet ível de 
ser desenvolvida e aprimorada.^ 
O virtuosismo platónico tem a ver, portanto, com o domínio das leiulências 
irascíveis e concupiscíveis humanas, tudo com vistas à supremacia da alma racio­
nal. Então, virtude significa controle, ordem, equilíbrio, proporcionalitlatle..., sendo 
que as almas irascível e concupiscente submetem-se aos comandos da alma racio-
1. Aí não há movimento, não há discurso, não há pensamento: a ideia encontra-se absorvida cm 
sua pleiutude de inteligibilidade.. Assim. "(...) o noús intui e o logístico pensn c í.il.i ••"Uir o 
einai te kai tên ousian através do noús, assemelhando-se àquilo do que falae pensa I -.i .• iihs-
tância)" (Andrade, 1994, p. 137). Das sombras sensíveis ao imutável do intelly.lvi^l. indo iipo 
de recurso simbólico humano é eliminado, para que se vislumbre em smi pureza a loinia 
(morphé) sem qualquer interferência de elementos da r;i/ão muiid.iiia. 
2. Assim é que a opinião não é ciência, é algo entre o .ser e u nau MM {Hqmhlica -T/H d), uma ve/. 
que não se estabelece, por meio desta, as bases de mn . iiiilii^elmenio s('ili.l.. . n .i.in;'ivi'l, 
permanecendo-se na inconstância da aparência, na Ihiiile/, m::..lii.i du n^laiu... r ini, nl.n 
mesma forma como opinião não é ciência, opõcm-.se, lamliem, ... .ni. n... unh.. .1,. 
da epistéme, ou seja, ophilodoxos e ophilosophos, na peisp v.i ,1. .|ii. .. |.i im. n.. I.iii.,.i .n.is 
observações com base no conhecimento em|)irie.uii.'iii.-. .i|.i.i.l.i, . n.|ii, 'leunnilo eonsiiói 
o saber sobre a experiência contemplativa, que se h.ii.ei.i n.. . ..nli. • mu iii.. diiqitlln que mio é 
contingente. 
3. É a anáhse que da temática faz Chaui: "Embora a psieoloxi.i >• i éil. .i leeelmm rKpndIçrteH di­
versas, em todas elas Platão estabelece uma relação pifei'..i .• ...eii', I(VIIIIIM(«, qi(«(i'iiie e 
téchne. Aareté, vimos, é a excelência ética, o ser honi. Os nnios pl.iiAiilni» pvidpliiliini i|ne n 
areté é uma dynamis, uma possibilidade ou poteneialiilade da alinii ipif piriiuM «PI minill/niln 
AatuaUzação é feita pela téchne como terapia e pun/iía. l'.Ma:. pn- ii|i. .eni K IIÍIII IK, W (ip(<li'Mic, 
que indica qual é a arete de cada função da alma (|iial ,i . \ . 1. n. i i de i iidii iiiiirt deliiu e 
qual a hierarquia entre essas funções. A tec/ine, istoé, a/Kiii/eiu ili.ileih n destn/ OÍ iiMiflIhw eniie 
as funções àapsykhé (sua desordem), fazendo com que cada mnii rriillíP «ii« fiini,»ii puipil.i" 
(Chaui, Introdução à história da filosofia, 1994, v. 1, p. 218). 
80 
PANORAMA HISTÓRICO 
nal, esta sim soberana. Desse modo, boa será a conduta que se afinizar com os 
ditames da razão.' 
A harmonia (armonía),^ uma vez dominados os instintos ferozes, o descon­
trole sexual, a fúria dos sentimentos... surge como consequência natural, permi­
tindo à alma fruir da bem-aventurança dos prazeres espirituais e intelectuais. A 
ética que deflui da alma racional é exatamente a de estabelecer este controle e 
equilíbrio entre as partes da alma, de modo que o todo se administre por força 
racional e não epitimética ou irascível.^ 
O vício, ao contrário da virtude, está onde reina o caos entre as partes da alma. 
De fato, onde predomina o levante das partes inferiores com relação à alma racio­
nal, aí está implantado o reino do desgoverno, isso porque ora manda o peito, e 
suas ordens e mandamentos são torrentes incontroláveis (ódio, rancor, inveja, 
ganância...), ora manda a paixão hgada ao baixo ventre (sexualidade, gula...). 
Então, buscar a virtude é afastar-se do que é tipicamente valorizado pelos 
homens, que é o que mais ainda o mantém hgado ao corpo e ao mundo terreno, e 
procurar o que é valorizado pelos deuses, e que mais o distancia do corpo e do 
mundo terreno. O homem deve sim buscar identificar-se com o que há de melhor 
e mais excelente, e nesse sentido deve buscar inspiração nas faculdades que ca­
racterizam os deuses, os mais excelentes dos seres, e não os animais. A alma que 
valoriza a mundanidade acaba por construir em torno de si certa corporalidade, 
que possui o peso das carnes humanas, e não a leveza característica dos deuses.'' 
1. "Não se afirma que uma alma que possui inteligência e virtude é boa, e que outra que é infame 
e corrompida é má? Não se afirma com razão? - Com toda a razão" (Platão, f'e'don, trad., 1999, 
p. 160). 
2. Mas - disse Sócrates - não vemos agora que a alma faz exatamente o contrário? Que dirige e 
governa as coisas de que pretende ser composta, resiste a elas no decorrer de quase toda sua 
existência, reprimindo a umas, duramente, pelas dores, como no ginásio, e a medicina tratan­
do a outras com maior doçiu-a, contentando-se em ameaçar ou reprimir os desejos, os ódios, os 
medos, como coisas de natureza distinta a sua? Foi isso que Homero representou tão bem quan­
do, na Odisseia, diz que Ulisses: 'Golpeando o peito dirigiu-se duramente a seu coração: Supor­
ta coração! Já que maiores torturas suportaste'. Crês que Homero teria dito isto se julgasse que 
a alma é uma harmonia que deve ser governada pelas paixões ao corpo? Não é mais lógico que 
julgasse que a alma deve dominá-las e dirigi-las e que é, enfim, coisa por demais divina para 
ser comparada com uma simples harmonia? (Platão, Fédon, trad., 1999, p. 162). 
3. Qual a tarefa étíca ou moral da alma racional? Dominar as outras duas faculdades, e harmo­
nizá-las com a razão" (Chaui, Introdução à história da filosofia, 1994, v. I, p. 214). 
4. "- No entanto, se a alma se afasta do corpo maculada, impura, como se houvesse estado sem­
pre mesclada com ele, até o ponto de julgar servi-lo, embriagada pelo corpo, até o ponto de 
crer que nada existe além do físico, do que se pode ver, tocar, comer e beber, ou do que se pres­
ta aos prazeres do amor, ao passo que detesta, receia e foge de tudo que é obscuro e invisível, 
de tudo que é inteUgente, crês que essa alma pode, ao separar-se do corpo, ver em si mesma, 
por si mesma e sem mistura? 
- Não, não creio. 
- Ao contrário, conforme penso, sai toda misturada com uma corporalidade que, por ela haver-se 
habituado com o corpo, parece-lhe íntima e natural, porque nunca deixou de viver em comu­
nidade com ela e multiplicou as oportunidades de exercitar-se nisso" (Platão, Fédon, trad., 1999 
P- 147). 
PLATÃO: IDEAUSMO, VIRTUDE E TRANSCENPfeNCIA JTKK 
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Lastreado num dos principais ensinamentos de Sócrates é (|uc PlalAo filxlu .seu 
sistema, obviamente já sincretizado com o orfismo e o piíagorisnio: 
"-Parece-te, portanto - replicou Sócrates -, que os dcM-ji''' dr nin lili'> 
sofo não têm por objeto o corpo e que, ao contrário, trabalha |i.n.i .il.i i.n • 
dele dentro do possível, a fim de se ocupar apenas de sua ahuai' 
- Com certeza. 
- Assim, de todas essas coisas que acabamos de falar - disse Sócrates 
-, é evidente que o trabalho do filósofo consiste em se ocupar mais particu­
larmente que os demais homens em afastar sua alma do contato com o cor­
po" (Platão, Fédon, trad., 1999, p. 125). 
Sacrificar-se pela causa da verdade significa abandonar os desejos do corpo, 
e fazer da alma o fulcro de condução da conduta em si e por si. Ao que deve visar 
o homem, para que sua ética se fortaleça?

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