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Faculdade	de	Letras	/	UFRJ	
Disciplina:	Morfossintaxe	do	Português	(LEV210)		
Professora:	Silvia	Cavalcante		
Rio	de	Janeiro,	7	de	janeiro	de	2019.		
	
CLASSIFICAR	PRA	QUÊ?	CATEGORIAS	SINTÁTICAS	
Tradicionalmente	conhecidas	como:	classes	de	palavras	/	parte	do	discurso	/	classe	morfossintática		
Problemas	da	Tradição:	privilegia-se	o	critério	semântico	na	definição	/	conceituação	de	uma	determinada	classe.	Por	
exemplo:		
(1)		 a.	A	destruição	da	cidade	preocupa	os	Sul	Coreanos.		
b.	A	sinceridade	é	uma	virtude	importante.		
c.	O	assassinato	do	presidente	Kennedy	originou	várias	teorias	de	conspiração.		
d.	O	Rio	de	Janeiro	é	uma	cidade	boa	de	morar.		
	
Pode-se	conhecer	a	classe	de	uma	palavra,	ou	melhor,	a	categoria	a	que	a	palavra	pertence,	sem	saber	do	seu	significado:		
(2)		 a.	Um	camuripema	chimbeava	à	sorrelfa	no	calabrote	de	um	cacifo.		
b.	Um	chela	belfudo	e	sorumbático	achibantou-se,	bacorejando	as	prístinas	pataratas	dos	capadócios.		
	
TAREFA:		
A:	identifique	as	classes	das	palavras	das	sentenças	em	2	e	levante	os	critérios	que	você	usou	para	definir	cada	uma	delas.	
B:	consulte	uma	gramática	tradicional	(Cunha	e	Cintra,	ou	Rocha	Lima)	e	verifique	como	são	definidos	os	substantivos,	
adjetivos,	verbos,	advérbios	e	preposições.	Qual	o	critério	é	privilegiado?		
	
Algumas	classes	de	palavras	não	têm	“significado”.	Qual	o	significado	de	“que”	ou	de	“de”	nas	sentenças	abaixo?		
(3)		 a.	A	Maria	disse	que	vai	ao	cinema.		
b.	A	Maria	gosta	de	sorvete.		
	
Além	disso,	algumas	palavras	podem	aparentar	“mudar	de	classe”	em	determinadas	posições	na	sentença:		
Nome	ou	adjetivo?		
(4)		 a.	Os	ricos	deveriam	pagar	mais	impostos	do	que	os	pobres.		
b.	Os	casados	são	mais	responsáveis	do	que	os	solteiros.			
	
(5)		 a.	os	parentes	ricos	/	os	ricos	parentes		
b.	os	homens	casados	/	*os	casados	homens			
	
(6)	 a.	Os	parentes	são	ricos.		
b.	Aqueles	homens	são	casados.			
	
(7)	 a.	os	parentes	muito	ricos		
b.	*os	homens	muito	casados			
	
(8)	 a.	os	arrogantes	ricos	/	os	ricos	arrogantes	(=	os	ricos	que	são	arrogantes)		
b.	os	simpáticos	casados	/	os	casados	simpáticos	(=os	casados	que	são	simpáticos)			
	
(9)	 a.	O	meu	filho	médico	voltou	de	Paris.		
b.	Ele	é	muito	homem.			
	
Adjetivo	ou	particípio?		
(10)	 a.	Ele	está	preocupado	com	a	filha.		
	 	 b.	Ele	está	preocupadíssimo	com	a	filha.		
	 	 c.	Ele	está	muito	preocupado	com	a	filha.		
	 	 d.	Uma	pessoa	preocupada	apareceu	aqui.			
	
(11)		 a.	Ele	o	é	(=	fiel	à	mulher)		
	 	 b.	Ele	o	está	realmente	(=	preocupado	com	a	filha)			
	
(12)	 a.	A	namorada	foi	fiel	ao	João	/	A	namorada	lhe	foi	fiel.		
	 	 b.	A	encomenda	foi	entregue	ao	João	pela	polícia	/	A	encomenda	lhe	foi	entregue	pela	polícia.			
	
(13)	 a.	Ela	está	branquinha.		
	 	 b.	Ele	está	preocupadinho	com	a	prova.			
	
(14)	 a.	uma	província	ocupada	/	uma	província	recentemente	ocupada	(particípio)		
	 	 b.	uma	mulher	ocupada	/	*uma	mulher	recentemente	ocupada	(adjetivo)			
	
(15)	 a.	uma	reunião	autorizada	/	*uma	autorizada	reunião	(particípio)		
	 	 b.	uma	opinião	autorizada	/	uma	autorizada	opinião	(adjetivo)			
	
(16)	 a.	O	presidente	foi	assassinado	diante	de	todos.		
b.	O	assassino	tinha	ferido	duas	pessoas	antes	de	atingir	o	presidente.			
	
Adjetivo	ou	advérbio?		
(17)	 a.	A	Maria	trabalha	duro	(=	duramente).		
b.	A	Maria	fala	muito	alto		
c.	Skol	é	a	cerveja	que	desce	redondo.		
	
Critérios:	A	categoria	da	palavra	é	determinada	pela	sua	função	em	relação	a	outra	palavra	e	pela	sua	morfologia,	não	
pelo	seu	significado.		
Distribuição	morfológica:	quais	tipos	de	afixos	podem	ocorrer	numa	determinada	palavra;	que	tipos	de	afixos	flexionais	
podem	ocorrer.			
Distribuição	sintática:	quais	palavras	podem	aparecer	perto	umas	das	outras?			
	
TAREFA:		
A:	Qual	o	comportamento	morfossintático	de	Nomes,	Adjetivos,	Verbos,	Advérbios	e	Preposições?	
B:	Considere	a	classe	“Advérbios”	da	Gramática	Tradicional.	É	homogênea?	As	palavras	classificadas	como	“advérbio”	
apresentam	o	mesmo	comportamento	sintático?	Se	você	fosse	dividir	essa	classe	com	base	no	comportamento	das	
palavras,	quantos	subgrupos	você	poderia	fazer?	Qual	critério	utilizado?		
Leitura:	Camara	Jr.	(1970)	e	Bomfim	(1988).	
	
Classes	abertas	vs.	classes	fechadas:		
Tradicionalmente,	 a	 distinção	 entre	 classes	 abertas	 e	 classes	 fechadas	 se	 dá	 na	 possibilidade	 ou	 não	 de	 aparecerem	
neologismos.	Assim,	podemos	inventar	novos	substantivos,	mas	não	novas	preposições,	por	exemplo.			
Categorias	lexicais	vs.	categorias	funcionais:			
As	categorias	 lexicais	são	um	inventário	vasto	e	renovável	do	vocabulário	ou	léxico	da	 língua	e	o	seu	significado	remete	
para	entidades,	situações,	propriedades	ou	relações	entre	entidades:	Nomes,	Adjetivos,	Preposições,	Verbos,	Advérbios.	
Cada	uma	dessas	categorias	lexicais	constitui	o	núcleo	das	seguintes	categorias	sintagmáticas:	SN	(sintagma	nominal),	SA	
(sintagma	adjetival),	SP	(sintagma	preposicional),	SV	(sintagma	verbal),	SADV	(sintagma	adverbial).			
As	 categorias	 funcionais	 abrigam	 um	 leque	 reduzido	 de	 palavras	 ou	 unidades	morfológicas	 da	 língua	 e	 seu	 significado	
remete	para	noções	mais	abstratas	como	a	conexão	entre	sentenças,	a	determinação,	a	quantificação,	o	tempo,	o	modo,	
o	aspecto:	Determinantes,	Conjunções,	Complementizadores,	Negação,	Tempo	(=Flexão).	Cada	uma	dessas	categorias	é	o	
núcleo	 dos	 seguintes	 sintagmas:	 SD	 (sintagma	 determinante),	 SCONJ	 (sintagma	 conjuncional),	 SC	 (sintagma	
complementizador),	SNeg	(sintagma	de	negação),	ST	/	SF	(Sintagma	Temporal	/	Sintagma	Flexional).			
O	 sintagma	 é	 uma	 categoria	 sintática,	 a	 projeção	 máxima	 de	 um	 núcleo	 (lexical	 ou	 funcional)	 que	 desempenha	 uma	
função	na	 sentença.	Uma	sentença,	por	 sua	vez,	 também	é	um	sintagma	 (no	 sentido	de	 ser	a	projeção	máxima	de	um	
núcleo).			
	
DISCUSSÃO:	Para	estudar	a	estrutura	da	sentença	em	português,	devemos	saber	a	estrutura	dos	sintagmas,	que	por	sua	
vez,	são	a	projeção	de	um	núcleo	que	pertence	a	uma	dada	categoria	(ou	lexical	ou	funcional).	
Sintagmas	com	núcleos	lexicais		SN,	SA,	SV,	SP,	SADV		
	
Sintagmas	com	núcleos	funcionais:	
	
Sintagma	Determinante			
D	é	o	núcleo	do	sintagma	que	determina	“o	tipo	semântico”	e	a	distribuição	do	sintagma	determinante.	Num	conjunto	
formado	por	D+N,	o	núcleo	não	é	o	Nome,	mas	o	Determinante;	porque	é	o	Determinante	o	que	determina	a	semântica	
básica	 e	 a	 combinatória	 do	 conjunto.	Um	 SD	 é	 uma	 expressão	 referencial	 que	 denota	 uma	 entidade	 (como	 os	 nomes	
próprios	e	os	pronomes),	um	Nome	comum	denota	classe;	a	semântica	do	nome	comum	não	coincide	com	a	semântica	do	
conjunto	D+N	(um	SD);	por	isso	o	Nome	não	pode	ser	o	núcleo.		
	
(18)	 a.	O	homem	gosta	de	futebol.		
b.	Homem	gosta	de	futebol.			
(19)	 a.	{	*(o)	professor	/	Antonio	/	Ele	}	corrigiu	as	provas.		
b.	Tiveram	que	substituir	{*(o)	professor	/	Antonio	/	-lo	}.		
c.	Deram	um	prêmio	a	{	*(o)	professor	/	Antonio	/	ele	}.		
d.	A	todo	tempo	penso	em	{	*(o)	professor	/	Antonio	/	ele	}.			
(20)	 a.	Antonio	é	{	professor	/	inteligente	}		
b.	Nomearam-no	(*o)	professor	emérito.		
c.	Ele	foi	aos	Estados	Unidos	como	(*o)	professor.		
d.	Prefiro	um	professor	aluno	a	um	aluno	(*o)	professor.		
e.	(*o)	professor,	posso	sair	mais	cedo?			
(21)		 a.	O	filme	durou	{	três	/	*as	}	horas.		
b.	Essa	casa	custou	{	muitos	/	*os	}	reais.		
c.	Maria	pesou	{	cem	quilos	/	o	carneiro	}.		
d.	Meu	irmão	vai	medir	{	dois	metros	/	o	terreno	}.			
	
Sintagma	Temporal	/	Sintagma	Flexional		
Numa	sentença,	aparecem	 informações	 relativas	à	estrutura	dos	constituintes	 (número	e	 forma	dos	constituintes	e	sua	
ordem);	informações	relativas	à	estrutura	argumental	do	verbo	(intransitivo,	transitivo,	bitransitivo,	etc.)	e	informações	de	
tempo,	modo,	número	e	pessoa.	As	informações	de	Tempo,	Modo,	Número	e	Pessoa	pertencem	ao	núcleo	T	(ou	Flex),	que	
é	um	núcleo	funcional:	ST	ou	SFlex		
(22)	 a.	Eu	saio.		
b.	Eu	quero	sair.			
c.	*Eu	quero	eu	sair.			
	
(23)	 a.	Eu	comprei	o	livro.		
	 	 b.	Ø	comprei	o	livro.			
	
Pode-se	distinguiruma	sentença	com	tempo	de	uma	combinação	de	um	sujeito	com	um	predicado:		
(24)	 a.	menino	inteligente		
b.	O	menino	é	inteligente.		
	
Sintagma	Complementizador		
O	 complementizador	 determina	 se	 uma	 oração	 é	 ou	 não	 subordinada	 e	 marca	 a	 modalidade	 oracional	 (declarativa,	
interrogativa,	imperativa,	etc.)		
(25)	 a.	Ele	não	me	disse	{que	/	se	}	João	viria	amanhã.		
b.	Creio	{	que	/	*se	}	João	virá	amanhã.		
c.	Eu	me	pergunto	{	*que	/	se	}	João	virá	amanhã.		
d.	Sei	que	João	{	vem	/	*venha	}	amanhã.		
e.	Duvido	que	João	{	*vem	/	venha	}	amanhã.		
	
O	núcleo	C	pode	aparecer	em	algumas	orações	interrogativas:		
(26)	 a.	Qué	has	hecho?		
b.	Quoi	que	tu	as	fait?		
c.	O	que	que	você	fez?		
	
(27)	 a.	Je	me	demande	quoi	que	tu	fais.		
b.	Me	pregunto	qué	haces.		
c.	Eu	me	pergunto	o	que	que	você	faz.		
d.	Eu	me	pergunto	o	que	você	faz.		
	
Tipos	de	sentenças		
Possuem	propriedades	gramaticais	distintas	e,	portanto,	exprimem	valores	distintos:		
	
A.	Declarativas:	podem	exprimir	qualquer	tipo	de	ato	ilocutório;		
(28)		 a.	A	amiga	da	Maria	viu	o	filme.		
b.	Viu	o	filme,	a	amiga	da	Maria.		
c.	O	filme	foi	visto	pela	amiga	da	Maria.		
	
B.	Imperativas:	exprimem	atos	diretivos	de	ordem;		
(29)		 a.	Sente-se!		
b.	Não	faça	barulho	agora!		
c.	Poderia	não	fumar?!	
	
C.	Interrogativas:	exprimem	atos	diretivos	de	pedidos;		
(30)		 a.	O	João	telefonou?		
a'.	Telefonou	o	João?		
b.	Quantos	livros	a	Maria	comprou?		
b'.	Quantos	livros	comprou	a	Maria?		
c.	Perguntei	o	que	os	meus	amigos	fizeram.		
c'.	Perguntei	o	que	fizeram	os	meus	amigos.		
d.	A	Maria	leu	quantos	livros?		
d'.	A	Maria	leu	O	QUÊ?	
	
D.	Exclamativas:	exprimem	atos	expressivos	de	avaliação;		
(31)		 a.	Ele	é	tão	simpático!		
b.	Isso	é	que	era	bom!		
c.	Que	simpático	que	era	ele!	
d.	Lindo	o	serviço	que	você	fez!	
	
E.	Optativas:	exprimem	atos	expressivos	de	desejo.		
(32)		 a.	Que	essa	novela	acabe	logo!		
b.	Desejo	que	a	novela	acabe	logo!		
c.	Espero	que	não	haja	guerra!		
d.	O	que	você	fez?		
	
Referências:		
Bomfim,	E.	(1988)	Advérbios.	São	Paulo:	Ática.	
Brito,	A.	M.	(2003)	Categorias	Sintácticas.	In.	Mateus	et	al.	Gramática	da	Língua	Portuguesa.	Lisboa:	Caminho.	pp.	323-	
432.	Brito,	A.	M.;	I.	Duarte;	G.	Matos,.	(2003)	Estrutura	da	frase	simples	e	tipos	de	frases.	In.	Mateus	et	al.	Gramática	da	
Língua	Portuguesa.	Lisboa:	Caminho.	pp.	433-505.		
Camara	Jr.,	J.	Mattoso	(1970)	Estrutura	da	Língua	Portuguesa.	Petrópolis:	Vozes.	
Carnie,	A.	(2007)	Parts	of	Speech.	In.	Syntax	a	Generative	Introduction.	Oxford:	Blackwell.	pp.	37-62.	
	Eguren,	L.	e	O.	F.	Soriano.	(2004)	Introducción	a	una	sintaxis	minimista.	Madrid:	Gredos.		
Mateus	e	Villalva	(2006)	O	essencial	sobre	linguística.	Lisboa:	Caminho.	p.	96-97		
Monteiro,	J.	L.	(1986)	Morfologia	Portuguesa.	Campinas:	Pontes.		
Perini,	M.	(1985)	Para	uma	nova	gramática	do	Português.	São	Paulo:	Ática.		
Trask	(2004)	Dicionário	de	Linguagem	e	Linguística.	São	Paulo:	Contexto.

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