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Fig. 34.1 - Trichuris trichiura; A - fêmea; B - macho; C - ovo; a - ânus; b - utero; c - ovário; d - vagina; e - faringe filiforme; f - canal deferente; g - espículo; h - cloaca; i - testículo (adaptado de Rey, 1973). no ânus, localizado próximo a extremidade da cauda. Os vermes adultos são dióicos e com dimorfismo sexual. O macho é menor, possui testículo único seguido por canal deferente, canal ejaculador que termina com um espículo. A extremidade posterior é fortemente curvada ventralmen- te, apresentando o espículo protegido por uma bainha, recoberta por pequenos espinhos (Fig. 34.1). Na fêmea pode-se observar ovário e útero únicos, que se abrem na vulva, localizada na proximidade da junção entre esôfago e intestino (Fig. 34.3). Ovos: Medem de 50-55pn de comprimento por 22pn de largura, apresentam um formato elíptico característico com poros salientes e transparentes em ambas extremidades, pre- enchidos por material lipídico (Fig. 34.2B). A casca do ovo de Trichuris é formada por três camadas distintas, uma ca- mada lipídica externa, uma camada quitinosa intermediária e uma camada vitelínica interna, que favorece a resistência destes ovos a fatores ambientais. Hábitat Os adultos de 7: trichiura são parasitos de intestino grosso de humanos, e em infecções leves ou moderadas, estes vermes habitam principalmente o ceco e cólon ascen- dente do hospedeiro. Nas infecções intensas ocupam tam- bém cólon distal, reto e porção distal do ileo. 7: trichiura é considerado por muitos autores um parasito tissular, pois toda a região esofagiana do parasito penetra na camada epitelial da mucosa intestinal do hospedeiro, onde se alimen- ta principalmente de restos dos enterócitos lisados pela ação de enzimas proteolíticas secretadas pelas glândulas esofagianas do parasito (esticócitos). Alguns autores de- monstram a presença de sangue no esôfago de vermes adul- tos, sugerindo a utilização de sangue do hospedeiro como fonte alimentar. A porção posterior de 7: trichiura permane- ce exposta no lúmen intestinal, facilitando a reprodução e a eliminação dos ovos. Ciclo Biológico fiÉ . do tipo monoxeno; fêmeas e machos que habitam o in- testino grosso se reproduzem sexuadamente e os ovos são eliminados para o meio externo com as fezes3iferentes es- tudos relatam que a relação de vermes fêmeas para cada macho é próxima de 1 (1 ,O1 -1,28). A sobrevivência dos ver- mes adultos no homem é estimada em cerca de três a qua- tro anos, cm base no período de eliminação da infecção de populações que migram de uma área endêmica para outra área sem transmissão. Entretanto, esses dados podem repre- sentar uma estimativa de sobrevida exagerada, uma vez que considera a sobrevivência máxima do parasito. Estimativas indiretas, com base na intensidade da infecção em diferen- tes faixas etárias da população de áreas endêmicas, indicam uma sobrevida de um a dois anos para os vermes adultos de 7: trichiura. A fêmea fecundada elimina de 3.000 a 20.000 ovos por dia, sugerindo uma reposição diária de 5% a 30% dos cerca de 60.000 ovos encontrados no útero. O embrião contido no ovo recém-eliminado se desenvolve no ambiente para se tomar infectante. O período de desenvolvimento do ovo de- pende das condições ambientais; a temperatura de 25"C, o processo de embriogênese ocorre em cerca de 21 dias, en- quanto a 34°C a embriogênese ocorre em 13 dias. Em tempe- raturas abaixo de 20°C este processo pode ser bastante re- tardado; por exemplo, 7: suis, parasito de suínos, cujos ovos embrionam em cerca de 37 dias a 25"C, levam de 434 a 630 dias para completar sua embriogênese no sudeste da Inglaterra, onde a temperatura do solo varia de 4 a 20°C. Temperaturas muito elevadas (acima de 52°C) ou muito bai- xas (- 9 "C) não permitem o desenvolvimento dos ovos de 7: trichiura, apesar de não necessariamente matar o embrião. Da mesma maneira que Ascaris lumbricoides, os ovos de i? trichiura são muito sensíveis a dessecação, não sobreviven- do por mais de 15 dias quando a umidade relativa é menor que 77%. Entretanto, em condições ambientais favoráveis, os ovos de 7: trichiura contendo as larvas infectantes po- dem permanecer viáveis por longo período de tempo. Em um 290 Capitulo 34 Fig. 34.2 - Caracterlsticas gerais de Trichuris: A) vermes adultos (macho e fêmea); B) ovo de T. trichiura; C) porção anterior do verme adulto, na região do esbfago, evidenciando células glandulares denominadas uestic6citos" (seta). Fotos da autora. estudo realizado com solo recolhido da área do pátio de um hospital psiquiátrico da Inglaterra, foi demonstrado que após 12 meses, sem nova contaminação, cerca de 50% dos ovos de T trichiura permaneciam viáveis (Fig. 34.2). Os ovos infectantes podem contaminar alimentos sóli- dos e líquidos, podendo, assim, serem ingeridos pelo ho- mem. As larvas de T trichiura eclodem através de um dos poros presentes nas extremidades do ovo, no intestino del- gado do hospedeiro. Estudos in vitro indicam que o proces- so de eclosão das larvas do parasito é estimulado pela ex- posição sequencial dos ovos aos componentes do suco gástrico e do suco pancreático. O desenvolvimento das larvas de Trichuris em huma- nos nos primeiros dias após a eclosão ainda é bastante controverso. A maioria dos autores relata que as larvas ini- cialmente penetram no epitélio da mucosa intestinal na re- gião duodenal, pela base das criptas de Lieberkühn, per- manecendo nesta localidade por cinco a dez dias, e poste- riormente estas larvas ganham a luz intestinal e migram para região cecal onde completam seu desenvolvimento. A permanência das larvas no duodeno do hospedeiro foi ini- cialmente descrita em infecção experimental de T vuípis em cães, utilizando-se uma grande quantidade de ovos para a infecção dos animais; portanto, alguns autores discutem a relevância fisiologia da presença das larvas no duodeno e sua existência em infecções humanas. Estudos histológi- cos revelam que as larvas de Trichuris sp. podem penetrar na mucosa em várias regiões do intestino, mas esta pene- tração ocorre principalmente no intestino grosso, e não foram encontradas evidências de que as larvas que pene- tram no duodeno completam seu desenvolvimento, ou mesmo que ocorra uma posterior migração das larvas do duodeno para o intestino grosso. Na região do ceco, as lar- vas migram por dentro das células epiteliais, em direção do lúmen intestinal, formando túneis sinuosos na superfície epitelial da mucosa. Durante este período as larvas se de- senvolvem em vermes adultos, passando pelos quatro es- tágios larvais típicos do desenvolvimento dos nemató- deos; ocorre a diferenciação dos esticócitos na região esofãgiana, e do órgão genital na porção posterior para a junção Fig. 34.3 - A e B - FBmea de Trichuris sp. mostrando o oviduto (o) contendo ovos e a abertura da vulva (v) prbxima da separação do esofago com intestino (seta); C e D - Porção posterior do macho de Trichuris sp., mostrando o esp6culo envolto em uma bainha com espinhos (seta). Fotos da autora. do esôfago com o intestino. O crescimento e desenvolvi- mento dos vermes levam ao rompimento das células epite- liais e a exposição da porção posterior do corpo de í? trichiura à luz intestinal do hospedeiro. Apenas uma pequena parte (5-22 %) dos ovos infectan- tes de 7: trichiura ingeridos completa o desenvolvimento até vermes adultos. Estima-se que o período pré-patente da tricuríase no homem, tempo entre a infecção até a elimina- ção dos ovos pelas fezes do hospedeiro, é de aproximada- mente 60-90 dias. Transmissão Os ovos de trichiura eliminados com as fezes do hospedeiro infectado contaminam o ambiente, em locais sem saneamento básico. Como os ovos são extremamen- te resistentes as condições ambientais, podem serdisse: m i n a d o s e l ~ e g t o ou pela água-emntaminar os alimen- t o s s á l i d o s ~ s , send-~tão, ingeridõs pelo hospedeiro. Ovos de trichiura Qrnbém podem ser d k~ m - i n a d ~ s c a - d o ~ t i c & q u e transportam os- ovos na superfície extemadocoypo, do-local-onde as-fe:_. s s - f o g m depõs7tdas até o alimento. Em algumas áreas de alta F e v ã i c i a cie tricuríase tem sido demonstrada que a prática de geofagia é muito frequente, principal- mente entre crianças e mulheres grávidas, sendo esta uma importante pn t e de infecção, especialmente em algumas regiões da Africa, Índia e América Latina. Apesar do grande número de pessoas infectadas por II: trichiura, a tricuríase não tem sido tratada com a devida atenção pelas autoridades de saúde pública das regiões de alta prevalência da infecção. Provavelmente, o descaso seja devido a grande proporção de casos assintomáticos da doença e da falta de informações quanto a real consequên- cia da infecção crônica, especialmente em crianças. Agravidade da-tricuríase depende da carga parasitáAa, mas também temimpor&ite infh&.ncia d , omo ida-. h-haspédeiro, estado n u t r i c i o e m s vermes a d u i t ~ s l l ~ t e s t i n o . Com relação a carga parasítá- nã;ãÕrganização Mundiãrde Saúde recomenda que os pro- gramas de controle de helmintos considerem como infec- ções leves, os pacientes cujo exame de fezes revela núme- ro menor de 1 .O00 ovoslg fezes, infecções moderadas as que os pacientes eliminam entre 1 .O00 e 9.999 ovos/ g fezes, e in- fecções graves quando um número superior a 10.000 ovos/ g fezes é quantificado nas fezes dos pacientes. Em geral, observa-se uma_correlação positiva entre intensdidGdeK 7-- fecção e g r a v i d a d è ~ s i n t o m a t o l o g i a ~ o r t a n t ~ dos pacientes com infecções leves-é assintomáticaQuaprer_ senta sintõmatolo~a intestinal discreta,_enqiiantoospacien= tes com infecção moderada apresentam-grausuariados de- sintomas, como dores de cabeça, dor epigástrica e no-bai= xo abdômen, diarréia, náusea e vômitos. A síndrome \ disentérica crônica é, em geral, relatada em crianças com , infecções intensas, e nestes casos pode-se observar uma \ 292 Capitulo 34 Fig. 34.4 - Ciclo do Trichuris trichiura. A) Machos e fêmeas no ceco. 1) Eliminaçáo de ovos nas fezes; 2) ovos tornando-se embrionados; 3) ovo infectante contaminando alimentos: ovo segue esõfago e atinge estômago, onde é semidigerido; larva eclode no duodeno e migra para o ceco; durante a migração, sofre quatro mudas; cerca de um més após a infecção, as fémeas inicam a postura. diarréia intermitente com presença abundante de muco e, al- gumas vezes, sangue, dor abdominal com tenesmo, anemia, desnutrição grave caracterizada por peso e altura abaixo do nível aceitável para a idade e, algumas vezes, prolapso retal. * importante relembrar que, além da intensidade da infecção, a idade do hospedeiro e o estado nutricional também influ- enciam o desenvolvimento da sintomatologia, com relatos na literatura de crianças desnutridas com sintomatologia grave sem necessariamente ter uma infecção intensa (ou seja, estar eliminando mais de 10.000 ovoslg fezes) ou de adultos bem nutridos com infecção intensa, mas sem sintomatologia correspondente. Para entender a sintomatologia associada a tricunase é necessário ressaltar as alterações imunopatológicas induzi- das por esses parasitos. Como não existe migração sistêmica das larvas de í? trichiura, as lesões provocadas pelo verme estão confina- das ao intestino. As alterações histopatológicas, induzidas pela presença do verme na mucosa intestinal, apresentam- se restritas ao epitélio e lâmina própria, na proximidade do verme, podendo ser observado um aumento na produção de muco pela mucosa intestinal, áreas de descamação da cama- da epitelial e infiltração de células mononucleares na lâmi- na própria. Eosinófilos são também encontrados associados a região dos esticossomos (conjunto de células glandulares da região esofagiana) dos vermes. Portanto, infecções com pequena quantidade de vermes adultos (infecções leves ou mesmo na maioria das infecções moderadas), que compre- endem a grande maioria dos casos, os vermes encontram-se restritos a região do ceco e cólon ascendente, consequen- temente a inflamação se apresenta discreta e localizada, não interferindo significativamente nos processos fisiológicos do hospedeiro e, portanto, não produzindo sintomatologia expressiva. Entretanto, em infecções intensas e crônicas, o parasi- to se distribui por todo o intestino grosso, atingindo tam- bém a porção dista1 do íleo e reto. Desta maneira, os sinto- mas relatados estão associados a distúrbios locais, como dor abdominal, disenteria, sangramento e prolapso retal, bem como alterações sistêmicas, como perda do apetite, vômito, eosinofilia, anemia, desnutrição, retadamento no desen- volvimento físico e comprometimento cognitivo. As alterações Capitulo 34 293 - com infecção grave. A relação entre tricuríase e desnutrição também é difícil de ser estabelecida, pois as infecções inten- sas em geral ocorrem em populações pobres sujeitas A de- ficiência nutricional que independem da helrnintíase. Apesar desta dificuldade, alguns trabalhos demonstram que crian- ças com tricuríase grave (síndrome disentérica crônica) apre- sentam uma melhora significativa nos índices nutricionais, estimados pela relação peso e altura por idade, após o uso de tratamento anti-helmíntico. Esta melhora no estado nutricional é observada, sem que ocorram alterações em ou- tros parâmetros socioeconômicos a que esta população esta sujeita, sugerindo a participação direta de í? trichiura no desenvolvimento do quadro de desnutrição. Apesar de modelos experimentais, como a infecção de T muris em camundongos, mostrarem uma intensa resposta inflamatória resultante em infecções crônicas com um gran- de número .de vermes, em crianças com tricuríase grave, a análise histopatológica de biopsia do ceco nem sempre re- vela um processo inflamatório compatível com a gravidade da doença. Por esta razão, trabalhos recentes têm procura- do outras alterações, locais e sistêmicas, além da intensidade da resposta inflamatória, que poderiam participar da patoge- nia da tricuríase. Um detalhamento do estudo histopatoló- gico do intestino de crianças com parasitismo intenso de- ' f monstrou que, apesar do número total de macrófagos pre- 1 9, . ,. . k / ' sentes na lâmina própria do intestino de crianças com tricuríase grave ser semelhante ao número observado em Fig. 34.5 - Prolapso retal provocado por alta infecção do Trichuris trichiura; c~anças-controle, a quantidade de células contendo T N F - ~ lesão relativamente frequente no norte do país (segundo Beck, J.W. & Davis, J. E. Medica1 Parasitology, 1981). (tumor necrose factor alpha) é muito maior nas crianças com tricuríase, e estas também apresentam níveis significa- tivamente elevados de TNF-a no soro. Níveis elevados de locais estão, provavelmente, associadas ao aumento da ex- tensão e da intensidade da reação inflamatória intestinal, com relatos de ulcerações e sangramentos na mucosa. O processo inflamatório pode ser particularmente intenso quando os vermes atingem o reto, sendo observados edema e intenso sangramento da mucosa retal, que provavelmen- te é responsável por iniciar o reflexo de defecação, mesmo na ausência de fezes no reto. O esforço continuado de de- fecação associado a possíveis alterações nas terminações nervosas locais, gerando aumento do peristaltismo, pode re- sultar em prolapso retal. O prolapso retal devido à tricuríase é relatado com maior freqüência em crianças da Região Norte (Fig. 34.5), onde o clima quente e úmido e as precárias con- dições sanitárias favorecem o estabelecimento de infecções intensas. Como não ocorre comprometimento da musculatu- ra pélvica, o prolapso retal produzido na tricuríase é rever- sível após a eliminação dos vermes e resolução da reação inflamatória local. A indução das alterações sistêmicas, como anemia, des- nutrição e retardamento do crescimento, observadas em pa- cientes comtricuríase grave ainda é assunto de grande dis- cussão. Embora muitos autores tenham demonstrado que os vermes adultos podem ingerir sangue do hospedeiro, es- tima-se que o volume de sangue perdido por este mecanis- mo é bem pequeno, ao contrário do que ocorre para ancilostomíase, dificilmente justificando os casos de anemia. Por outro lado, a presença de sangue nas fezes detectado em alguns pacientes com tricuríase grave, pode produzir perdas significativas de sangue que justificam o quadro de anemia, embora isto não aconteça em todos os pacientes TNF-a são responsáveis pela falta de apetite observada com freqüência nas pessoas com infecção intensa, que podem le- var a um quadro de caquexia. A influência da infecção por Trichuris no consumo de alimentos foi experimentalmente demonstrada em porcos infectados por í? suis, que ingerem uma quantidade significativamente menor de alimentos e apresentam um menor ganho de peso. Além dos elevados níveis de TNF-a, crianças com tricuríase grave também apre- sentam redução dos níveis séricos do hormônio IGF-1 (in- sulina-like growth factor) e da síntese de colágeno, que pode ser parcialmente responsável pelos casos de baixa es- tatura observado nestas crianças. Pacientes com tricuríase grave também apresentam um aumento significativo na permeabilidade intestinal, que s6 foi recuperada após o tratamento com mebendazol. Alguns autores sugerem que a alteração de permeabilidade intesti- nal, importante elemento no desenvolvimento do quadro disentérico, pode ser conseqüência da produção de IgE e desgranulação de mastócitos que geralmente é observada na mucosa de pacientes com tricuríase crônica. Desta maneira, a diminuição do consumo de nutrientes, devido a falta de apetite induzida pelo aumento de TNF-a, e o aumento das perdas alimentares, conseqüência da disen- teria e vômitos, bem como do prejuízo na absorção de a11 guns alimentos, como sais minerais, especialmente zinco e ferro, podem ser fatores essenciais ao aparecimento das al- terações sistêmicas, como anemia, desnutrição e comprome- timento no desenvolvimento físico e cognitivo. Estudos realizados em áreas submetidas à quimioterapia em massa mostram que a redução da prevalência de