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Um livro incrível

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UM LIVRO INCRrVEL 
DJACIR MENEZES 
1 . Devo declarar de princípio e mui respeitosamente que não tenho a pretensão 
de f-cder avaliar. a obra do eminente General Sir Tohn Hackett e outros generais­
conselheiros que o assessoraram na tarefa de historiar a vindoura A terceira 
guerra mundial, publicada pela Biblioteca do Exército, editora que nos tem dado 
excelentes livros nacionais e estrangeiros. 
Este, porém, singelamente o confesso, pareceu-me esquisito e inquietante. 
Historiar o que está para vir é realmente uma façanha digna de Júlio Verne 
ou de WeIls, cada qual num sentido diferente. Baseado em profecias, o Padre 
Vieira escreveu uma História do futuro, que por acaso não li até hoje. Nesse 
livro, porém, o General Hackett, metido lá dentro do futuro, cercado de mísseis 
e outras coisas que fazem mal à saúde dos povos, conta-nos o que está acontecendo, 
com uma energia científica e clarividente, à luz da verdade de episódios pre­
sentificados, isto é, tornados presentes. 
Apresentemo-lo segundo as credenciais orelhadas no livro. 
Sir Tohn Hackett, vice-chefe do Estado-Maior e comandante-em-chefe do Exér­
cito britânico no Reno, cercado de oficiais-generais conselheiros da Organização 
do Tratado do Atlântico Norte (Otan), reduziu uma "ficção próxima dos fatos 
que estão acontecendo", a ponto de nos convencer de estarmos já vivendo aque­
las destruições em massa, que se afiguram a nós, pacifistas contumazes e igno­
rantes das ciências belígeras, algo que exorbita das fantasias normais. 
2. Bem sabemos, no pouco que sabemos, que desde Isaías e Habacuc, os pro­
fetas usam estilos peculiares. E longe de nós a veleidade de querer menosprezar 
ou argumentar contra uma obra tão calibrada na erudição militar produzida 
por tão altos representantes da ciência das calamidades nucleares que se gestam 
sigilosamente nos recessos internacionais sob os olhares desconfiados da provi­
dência. O autor destas linhas não passa de um professor borocochô e octogenário, 
apreensivo com a paz que nos estão preparando minorias antagonizadas, repar­
tidas nos dois hemisférios. Acontece, porém, que a infância e a senilidade têm 
direito de advertir, como no apólogo de Anderson, que o Rei está nu. 
Pois é o que venho tentar dizer, na timidez destas palavras, que os grandes 
cabos-de-guerra do mundo estão nus. Reagan também. Tenham, pois, a gentileza 
de lhes cobrirem pelo menos as partes pudendas, como diria o Senador Rui 
Barbosa noutros tempos de linguagem asseada. 
3. Não admira que a obra intitulada A terceira guerra mundial seja quase im­
penetrável ao leigo no cipoal de datas, fatos, hipóteses, mapas, conhecimentos 
especializados, que blindam o livro. O curioso, que habita outras áreas cientí­
ficas, ronda, receoso, o problema catastrófico, pasmando para a valentia dos 
líderes termonucleares. E reza com fervorosa incredulidade. 
R. C. pol., Rio de Janeiro, 30(3):3-4, jul./ set. 1987 
A descrição de Sir John Hackett antecipa-nos uma descrição miúda e assus­
tadora dos engenhos atômicos que estão escondidos nos pontos estratégicos pron­
tos para o apocalipse. O dessorado humanismo que nos circula na alma não 
permite compreender o sistema de defesa das zonas controladas em territórios 
que só a espionagem recíproca localiza e anota nos seus códigos, enquanto sub­
marinos discretos e calados vigiam o fundo dos oceanos à espera dos sinais 
que a canalhice secreta piedosamente organiza e não cessa de aperfeiçoar. Porque 
a razão humana é amiga da perfeição ... 
4. Falarei a verdade: tenho que compor esta resenha da obra austera - sem 
lê-la. Ou lê-la aos saltos. Exatamente como a maioria, que fale de obras imensas, 
lendo-as aos pulos se por acaso as folheiam - a Bíblia, O capital, o Alcorão, 
o Principia mathematica philosophiae naturalis, A origem das espécies, etc. 
Estes dois volumes do General Hackett, entretanto, somam apenas 400 páginas 
in-oitavo - mas quem não se tiver naturalizado no assunto e não tiver muita 
crença na solução dos impasses mediante explosivos, acaba desistindo. Sufocado 
pelo notável tecnicismo dos capítulos, não nos atrevemos a opinar sobre o gnmde 
mérito da narrativa. 
No oitavo capítulo, o título me é convidativo: "Heidelberg, 27 de agosto de 
1985" - porque de~perta reminiscências de Hegel e de uma visita universitária 
quando era Reitor da UFRJ. O capítulo começa assim, fagueiramente: 
"Era uma tarde quente de verão em Heidelberg. Os visitantes, integrantes 
do Comitê das Forças Armadas do Senado dos Estados Unidos, estavam ouvindo 
com muita atenção o chefe do Estado-Maior do Exército dos Estados Unidos da 
Europa (Usareur). Imprensa e TV estavam ausentes." 
As páginas seguintes, cheias de competência e zelo guerreiros, não facilitam 
acesso: é natural, pois, que previna ao leitor que faça primeiro um estágio es­
pecializado. E se for burro, como ouso supor, talvez se convença de que vamos 
vencer. 
4 R.C.P. 3/87

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