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PDF AULA - INTRODUÇÃO AO CÓDIGO CIVIL DE 2002

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O PARADIGMA EVOLUTIVO DO 
CÓDIGO CIVIL DE 2002 
e os processos de constitucionalização, 
descodificação e repersonalização do direito civil
EMENTA
O Direito Civil Brasileiro antes do Código Civil Brasileiro. Causas e consequências da
pseudoindependência do Brasil para o Direito Civil. A fragmentação e hierarquização dos membros
da sociedade brasileira. Indefinição dos sujeitos de direito e do objeto do direito civil pátrio. A
codificação tardia do Direito Civil Brasileiro. Esboços, projetos e recusas a um Código Civil Brasileiro.
Os paradoxos do Código Civil de 1916: patrimonialismo e hierarquização das relações sociais. Triunfo
e decadência do Código Civil de 1916. As reformas sucessivas após o Código Civil de 1916: a busca
sisífica do legislador pelo Código perfeito em um universo normativo deficitário. O fenômeno da
sobrelegiferação no Direito Civil. O ideário da socialidade no bojo de um novo Código: as
transformações confirmadas e implementadas por intermédio do Código Civil de 2002. A
mitigação dos valores individualistas: a solidariedade social, a eticidade e a operabilidade como
pressupostos de uma nova etapa do Direito Civil Brasileiro. A descodificação e a constitucionalização
do Direito Civil: paradigmas emergentes do Direito Privado e protagonismo do Direito Civil.
Legislação setorial e microssistemas. Reflexos das tensões panprincipiológicas no Direito Civil. A
refuncionalização da Família, da Propriedade e do Contrato. Eficácia horizontal dos direitos
fundamentais. As nuanças do processo de repersonalização do Direito Civil e seus efeitos na Parte
Geral. As responsabilidades do civilista no paradigma do ciberespaço: a constatação da insuficiência
dos processos de codificação do direito e a aderência a um sistema de cláusulas gerais e de conceitos
indeterminados. A organização do Código Civil de 2002. A função da Parte Geral no Código Civil de
2002.
LEITURA OBRIGATÓRIA
CANARIS, Claus-Wilhelm. Funções da Parte Geral de um Código Civil e limites da sua prestabilidade. In: 
Comemorações dos 35 anos do Código Civil e dos 25 anos da reforma de 1977. Portugal: Coimbra Editora, 
2006. Disponível na biblioteca setorial.
NEVES, Marcelo. Ideias em outro lugar? Constituição liberal e codificação do direito privado na virada do 
século XIX para o século XX no Brasil. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 30, p. 5-27, 2015. Disponível 
em: https://www.scielo.br/j/rbcsoc/a/9Lwmf3cFvs7n3XQLLnqJLbm/?lang=pt 
LEAL, Fernando. Seis objeções ao direito civil constitucional. Revista EMERJ, Rio de Janeiro, v. 22, n. 2, p. 91 
- 150, mai-ago. 2020. Disponível em: 
https://www.emerj.tjrj.jus.br/revistaemerj_online/edicoes/revista_v22_n2/revista_v22_n2_91.pdf 
O DIREITO CIVIL BRASILEIRO ANTES DO 
CÓDIGO CIVIL BRASILEIRO
01
O DIREITO CIVIL BRASILEIRO ANTES DO CÓDIGO 
CIVIL BRASILEIRO
 De partida, cabe afirmar que a codificação chegou tardiamente ao Brasil
 Vigiam, no Brasil colonial, até meados do Brasil Império, a legislação portuguesa.
 Eram as chamadas Ordenações Afonsinas, Manuelinas e Filipinas
ORDENAÇÕES 
AFONSINAS
ORDENAÇÕES 
MANUELINAS
ORDINAÇÕES 
FILIPINAS
1446 – Reinado de D. Afonso 1521 – Reinado de D. Manuel 1603 – Reinado de D. Felipe III
União dos Tronos de Portugal e Espanha
Vigeram em Portugal até 1867
Vigeram no Brasil até 1917
O DIREITO CIVIL BRASILEIRO ANTES DO CÓDIGO 
CIVIL BRASILEIRO
 No século XIX, já independente, o Brasil se volta ao desenvolvimento de sua legislação
nacional de modo a superar a regência das Ordenações Filipinas
 A Constituição de 1824 estabeleceu claramente que deveria ser organizado um Código Civil e
um Código Criminal (art. 179, XVIII, Constituição Imperial/1824)
 Porém, esbarrava-se em uma dificuldade prática: como administrar o hiato entre a criação de
uma nova lei/código e sua vigência?
 A opção foi temporariamente manter em vigor as legislações portuguesas enquanto não se
elaborava um Código Civil para o Brasil
Art. 179. A inviolabilidade dos Direitos
Civis, e Politicos dos Cidadãos
Brazileiros, que tem por base a
liberdade, a segurança individual, e a
propriedade, é garantida pela
Constituição do Imperio, pela maneira
seguinte [...] XVIII. Organizar–se-ha
quanto antes um Codigo Civil, e
Criminal, fundado nas solidas bases da
Justiça, e Equidade
ESBOÇOS, PROJETOS E RECUSAS A UM 
CÓDIGO CIVIL BRASILEIRO
02
ESBOÇOS, PROJETOS E RECUSAS A UM CÓDIGO 
CIVIL BRASILEIRO
 Em 1855, movimenta-se no sentido de iniciar esse processo a partir da consolidação do direito
civil brasileiro
 Trata-se de um aceno à codificação que, á época, deveria ser precedida da reunião da
legislação atinente às normas de direito privado
 Desta consolidação se encarrega Augusto Teixeira de Freitas
 Em 1858, Teixeira de Freitas entre sua Consolidação das Leis Civis; é reputado o primeiro
grande monumento jurídico nacional
 Incumbiu-se também Teixeira de Freitas da elaboração do Código Civil, tendo sido
estabelecido contrato com o governo para este fim, intermediado por outro personagem:
Nabuco de Araújo
 Em 1865, Teixeira de Freitas entrega o esboço com quase 5000 artigos (4608 precisamente)
ESBOÇOS, PROJETOS E RECUSAS A UM CÓDIGO 
CIVIL BRASILEIRO
 A prolixidade do esboço rendeu críticas, de modo que, desmotivado, Teixeira de
Freitas, desistiu de elaborar o Código Civil
 O esboço foi aproveitado pela Argentina na elaboração de seu próprio Código, que
contou substancialmente com o produto das reflexões de Teixeira de Freitas
 Nabuco de Araújo, então, decide dar continuidade ao seu projeto, mas seu
falecimento interrompe o trabalho, restando a minuta de 182 artigos redigidos
 A forma de rascunho em que foram encontrados estes artigos elaborados impediu
que este material fosse aproveitado
ESBOÇOS, PROJETOS E RECUSAS A UM CÓDIGO 
CIVIL BRASILEIRO
• Coube, em 1881, a Joaquim Felício dos Santos apresentar um projeto, que foi
rechaçado por comissão integrada por juristas renomados à época
• Em 1889, foi nomeada uma nova comissão, porém que foi dissolvida quando da
Proclamação da República, considerando a ruptura com tudo que ligava o Brasil
com as práticas do período imperial
• Em 1890, é chamado Coelho Rodrigues a redigir o Código, tendo concluído o
projeto em 1893. O projeto de também foi rejeitado, porém o projeto foi enviado,
pelo próprio Coelho Rodrigues, ao Senado na expectativa de uma aprovação
ESBOÇOS, PROJETOS E RECUSAS A UM CÓDIGO 
CIVIL BRASILEIRO
 Tem Epitácio Pessoa protagonismo nesse processo de codificação tão tumultuado
na medida em que, como Ministro, designou Clóvis Beviláqua à elaboração de um
Código Civil
 A disputa entre a escola de direito do Recife e a Escola proveniente da Faculdade de
São Paulo, traduziu-se em embates entre Beviláqua e Rui Barbosa, impedindo o
avanço rápido do Código Civil
 Em 1899, Beviláqua inicia seu trabalho, entregando o projeto em novembro
 Encaminhado à Câmara (seguindo os trâmites da época) o projeto foi analisado por
comissão especializada , sendo aprovado em 1902
O DIREITO CIVIL BRASILEIRO ANTES DO CÓDIGO 
CIVIL BRASILEIRO
 No Senado, o projeto teve com relator Rui Barbosa que em 3 dias redigiu e enviou
parecer apresentando emendas e críticas substanciais, especialmente à linguagem,
por ele considerada imprópria a um Código Civil
 O projeto não se movimentou no Senado após isso ate 1911, quando se propôs, por
urgência, sua aprovação provisória
 A Lei nº 3071 de 1916 concretizou um projeto de muitas etapas, permeado por
disputas políticas e por contribuições de grandes civilistas brasileiro; o Código Civil
entrou em vigor em 1917
 Logo se constatou: em função do longo tempo de maturação, o Código Civil nasceu
velho
OS PARADOXOS DO CÓDIGO CIVIL DE 1916: 
PATRIMONIALISMO E HIERARQUIZAÇÃO DE 
RELAÇÕES SOCIAIS
03
OS PARADOXOS DO CÓDIGO CIVIL DE 1916: 
PATRIMONIALISMO E HIERARQUIZAÇÃO DE 
RELAÇÕES SOCIAIS
 O Brasil foi um dos últimos países da América Latina a ter um Código Civil
 Houve, assim, um atraso para a modernização liberal brasileira Permaneceu um limbo civilizatório, pois sem um Código Civil não se podia legislar
sobre relações de trabalho (locação de serviços), dispor de modo contundente
sobre questões de herança, sobre doações de bens, disciplinar as relações privadas a
fim de evitar conflitos, em suma
 Em uma sociedade fundiária, mantida refém de processos de escravização (e
mantendo reféns) não se podiam compatibilizar com facilidade as aspirações liberais
TRIUNFO E DECADÊNCIA DO CC/16
 A feitura do Código Civil foi marcada, paradoxalmente, pela resistência no
reconhecimento de civilidade, na forma de cidadania para toda a população
 Esse reconhecimento era uma premissa fundamental da construção de um Código
Civil
 O primeiro elemento que precisava ser definido e ganhou relevância era quem era e
quem não era cidadão diante da conjuntura do Código Civil em elaboração
 Tratou-se de definir com precisão quem seria sujeito de direito civil, estabelecendo
a distinção fundamental pessoa-coisa
TRIUNFO E DECADÊNCIA DO CC/16
 Não foi debatida a questão social e muito menos a racial
 Não foi factualmente afastada a igreja dos procedimentos regulamentação das relações
privadas
 Em relação ao conteúdo, o Código de 1916 foi essencialmente individualista, pautado no
patriarcalismo e nas tendências de excessiva proteção patrimonial e livre (absolutamente
livre) disposição dos bens acumulados por meio de instrumentos negociais
 Considerando os destinatários da norma jurídica, o CC/16 se voltou a uma sociedade rural e
com caracteres senhoriais, o que o fez resistente a mudanças sociais mais profundas
 Não coube no CC/16 menções à função social, solidariedade social, boa-fé, proteção dos
vulneráveis ou outras disposições de maior alcance coletivo. Tratou-se de uma obra técnica
TRIUNFO E DECADÊNCIA DO CC/16
 Seguindo a estrutura alemã, o CC/16 tinha uma parte geral e outra especial
 Na concepção de Beviláqua, se insculpidos direitos sociais na codificação civil, isso poderia levar
a formas de socialismo que repercutiriam negativamente na esfera da autonomia privada
 Resistência acentuada teve também o jurista em relação ao divórcio, que para ele traria a
“poligamia sucessiva”
 O CC/16, portanto, é marcado pela hierarquização das relações sociais
 Reforça e cria distinções entre os membros da sociedade
 Essa hierarquização se traduz em significativas diferenças de tratamento
HOMENS/MULHERES CREDORES/DEVEDORES TITULARES/USUÁRIOS DOMINANTES/DOMINADOS
TRIUNFO E DECADÊNCIA DO CC/16
 O CC/16 acentua o chamado privatismo doméstico na medida em que vincula o
Direito Privado (posto pelo Estado) a um arranjo social marcado pela intimidade: a
família
 A família “prescrita” pelas normas do CC/16 era marcada pelo despotismo patriarcal
 Isso é evidenciado na própria sistematização do Código, cuja parte especial é
principiada pelo Direito de Família
 Esse privatismo doméstico pode ser visto na proibição do divórcio (também em
decorrência de proibição constitucional), na incapacidade relativa da mulher casada
(vínculo de dependência existencial criado com o casamento).
A BUSCA SÍSIFICA DO LEGISLADOR PELO 
CÓDIGO PERFEITO
04
A BUSCA SÍSIFICA DO LEGISLADOR PELO CÓDIGO 
PERFEITO
 Esses preceitos, porém, perderam espaço ao longo do séc. XIX, de maneira
que o Código precisaria passar por reformas
 Porém, reformar contrariaria a natureza da codificação, fazendo-a parecer
algo dispensável
 Á época, convinha que Códigos meramente condensassem, simplificassem e
metodizassem as normas jurídicas vigentes
 A solução foi a criação de leis especiais que regulassem matéria cível mas que
estivessem situadas fora do Código Civil
A BUSCA SÍSIFICA DO LEGISLADOR PELO CÓDIGO 
PERFEITO
 Inicia-se, assim, uma busca sisífica do legislador
pelo Código perfeito
 Dessa busca, surgem os primeiros indícios de um
problema grave da cultura legiferante do Brasil: a
sobrelegiferação (Big Bang Legislativo)
 Na tentativa de “remendar” o CC/16 e de
contornar as situações que surgiam no entorno
da estaticidade do Direito Civil Brasileiro,
repelindo, tanto quanto possível, os efeitos do
que se chamou de senilidade congênita, foram
propostas leis especiais
A DESCODIFICAÇÃO DO DIREITO CIVIL
 Essas leis deveriam, a princípio, funcionar modo integrado ao Código Civil, porém o
resultado foi o esvaziamento gradual de seu conteúdo, que foi sendo diluído
 Foram muitas as leis surgidas nesse hiato entre o CC/16 e o CC/02: a, a lei sobre
convenções em moeda estrangeira, leis sobre direito do consumidor lei de usura
 Também, neste mesmo hiato, foram formulados e propostos conceitos como o de
abuso de direito e abuso do poder econômico, lesão, imprevisão, revisão contratual,
finalidade social, limitação de bens dentre outros inaugurados nesse período
•* Lei nº 883/1949
• Reconhecimento 
de filhos 
ilegítimos
•* Lei nº 4121/1962
• Estatuto da mulher 
casada
•* Lei nº 6515/1977
• Divórcio
A DESCODIFICAÇÃO DO DIREITO CIVIL
 Os movimentos pró reforma da codificação ganham seus contornos em 1940 com a
proposta de elaboração de um Código das Obrigações que mitigaria o individualismo
do CC/16
 Tendo a primeira tentativa fracassado, foi proposto em 1961 um novo Código das
Obrigações, também inexitoso
 Foi em 1969 que, designada nova comissão, capitaneada por Miguel Reale foi
proposto um novo projeto, que mais tarde viria a ser o CC/02
O IDEÁRIO DO CC/02
05
O IDEÁRIO DO CC/02
José Carlos Moreira Alves 
(Parte Geral) - SP
Clóvis do Couto e Silva
(Direito de Família) - RS
Augusto Alvim
(Obrigações) -SP
Ebert Chamoun
(Direito das Coisas) -RJ
Torquatro Castro
(Direito Sucessório) -PE
Sylvio Marcondes
(Sociedades Empresárias) -
SP
O IDEÁRIO DO CC/02: PREMISSAS
O IDEÁRIO DO CC/02: PREMISSAS
 A fim de que fossem tecidas críticas (e feitas contribuições), o anteprojeto foi publicado em
1972 (também em 1973, 1974) e só em 1975 foi apresentado ao Congresso Nacional (PL-634-
B)
 O CC/02 tem uma roupagem de texto coletivo (foram 1000 emendas na Câmara e mais de
400 no Senado)
 A aprovação do projeto sobreveio em 1997, embora pairasse sobre o código a suspeita de ter
sido elaborado no período militar e também que, por isso, sua maturação teria sido
insuficiente
 O Código Civil passou a produzir efeitos a partir de 2003, após período de vacância
estipulado pela Lei nº 10406/2002 e inaugurou institutos jurídicos e modificações que ainda
provocam rechaços na doutrina especializada
O IDEÁRIO DO CC/02: PRINCIPAIS INOVAÇÕES
•* A unificação do direito privado
•* Um capítulo dedicado aos direitos da 
personalidade
•* Redução da maioridade para 18 anos 
•* Normas sobre a função social dos 
institutos de Direito Privado
•* A previsão de reparação do dano moral
CONSTITUCIONALIZAÇÃO DO DIREITO CIVIL
 Diferente de outros Códigos Civis, o CC/02 não seguiu qualquer linha política,
fugindo à regra de que os Códigos Civis estão comprometidos com valores
ideológicos ligados às instabilidades da política
 O CC/02 e sua sistemática integrativa fez com que fosse possível evitar a
revogação das leis especiais; em lugar disso, criou-se um ambiente que
possibilitou a coexistência de microssistemas jurídicos fruto do processo de
descodificação
 Todas as normas se alinhavam ao paradigma constitucional e buscavam efetivar
os direitos fundamentais previstos no Texto Maior (eficácia horizontal dos direitos
fundamentais)
PROCESSOS DE REPERSONALIZAÇÃO DO DIREITO 
CIVIL
 Essa configuração induziu a uma superação
paulatina das premissas individualistas do
Direito Civil
 Em lugar dessas premissas, instaurou-se
uma preocupação com o bem-estar da
pessoa
 O patrimônio passou a ter uma significância
secundária nas relações intersubjetivas
PROCESSOS DE REPERSONALIZAÇÃO DO DIREITO 
CIVIL
 Priorizou-se que as normas de direito
privado deveriam priorizar o pleno
desenvolvimento das potencialidades da
pessoa, para além dos meros interesses
econômicos do indivíduo
 Dessa configuração, resta superada tambéma crítica de que a codificação trazia a
fossilização do Direito em função do
atrelamento à fluidez da dinâmica
constitucional
LEGISLAÇÃO SETORIAL, MICROSSISTEMAS E O 
PAPEL DA JURISPRUDÊNCIA
 A inserção de cláusulas gerais e de conceitos indeterminados (conceitos de
equidade) fez com que se sobressaísse a necessidade das normas do Código Civil
serem sempre reinterpretadas à luz do caso concreto (sistema dinâmico)
 Nas cláusulas gerais, utilizam-se termos propositalmente vagos (os conceitos
jurídicos indeterminados) a fim de que se possa ampliar o grau de liberdade
criativa dos intérpretes e aplicadores e vocacionar o Direito Civil à renovação
utilitária (art. 188, II, CC)
 A jurisprudência também ganhou um papel renovado em função das escolhas
operativas do CC/02, que davam maior protagonismo à interpretação judicial na
aplicação da norma
 A boa-fé é um exemplo válido de cláusula geral (que ganha status de norma de
ordem pública). Ela está presente ao longo o CC/02: arts. 113, 187, 422, CC
Art. 188. Não constituem atos ilícitos:
I - os praticados em legítima defesa ou no exercício
regular de um direito reconhecido;
II - a deterioração ou destruição da coisa alheia, ou a
lesão a pessoa, a fim de remover perigo iminente.Art. 187. Também comete ato
ilícito o titular de um direito que,
ao exercê-lo, excede
manifestamente os limites
impostos pelo seu fim econômico
ou social, pela boa-fé ou pelos
bons costumes.
LEGISLAÇÃO SETORIAL, MICROSSISTEMAS E O 
PAPEL DA JURISPRUDÊNCIA
 O sistema de cláusulas gerais foi recebido (e ainda é visto) com desconfiança; ele
macularia a segurança jurídica de modo a gerar incertezas e conflitos
interpretativo
 A crítica possui substância, embora a realidade testemunhe contra esse juízo
 O CC/02 endossou o surgimento desses microssistemas/microcosmos, traçando,
juntamente com a Constituição Federal, as balizas necessárias a esta
acomodação de normas que propunham uma tutela à pessoa (epcd)
 É o sistema de cláusulas gerais que vai permitir a constitucionalização e a
repersonalização das relações de direito privado, porém, em um primeiro
momento, instalou-se a insegurança quanto ao seu funcionamento (esse sistema
foi replicado no CPC/2015)
O PARADIGMAS EMERGENTES DO DIREITO PRIVADO E 
PROTAGONISMO DO DIREITO CIVIL CODIFICADO DE 
BASE PRINCIPIOLÓGICA DO CC/02
06
PARADIGMAS EMERGENTES DO DIREITO PRIVADO
DESDOBRAMENTOS DA ETICIDADE
 Em linhas gerais, o princípio da eticidade se refere à necessidade de que se possa
permear o Direito Privado a valores éticos
 É a eticidade que melhor traduz a necessidade das cláusulas gerais e dos conceitos
indeterminados
 No CC/02, a eticidade impele a um abandono do rigor conceitual e se concentra
na interpretação da norma diante do caso concreto; esse cenário contribui para
instalação do ativismo judicial
 Pelo princípio da eticidade, o CC/02 valoriza algumas condutas dos indivíduos e
impõe sanções caso não observe um certo arquétipo de comportamento, mesmo
nas relações privadas
DESDOBRAMENTOS DA SOCIALIDADE
 Por socialidade, é preciso
entender que se procura “curar”
o Direito Privado do espectro
individualista de sua gênese
 A socialidade implica na
substituição do eu pelo nós no
campo das relações
interprivadas
•REFUNCIONALIZAÇÃO 
DA FAMÍLIA
•REFUNCIONALIZAÇÃO 
DA PROPRIEDADE
•REFUNCIONALIZAÇÃO 
DO CONTRATO
DESDOBRAMENTOS DA SOCIALIDADE
 Dessa forma, se aplica a ideia de função social ao contrato, à família, à propriedade, à
posse, à responsabilidade civil, à empresa e ao testamento
 O princípio da socialidade impele a que seja considerado o coletivo como mais
relevante que o particular (demovendo a atomização do indivíduo)
 Em relação à propriedade, a função social tem fundamento constitucional (art. 5º,
XXII e XXIII, art. 170, III, CF/88)
 A função social já aparece na LINDB, precisamente no art. 5º da Lei
 A função social dos contratos está prevista no art. 421, caput, CC
 Essa função social dos contratos perfaz-se em atos de eficácia interna e de eficácia
externa
Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do
trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a
todos existência digna, conforme os ditames da justiça
social, observados os seguintes princípios:
[...]
III - função social da propriedade
Art. 5º Na aplicação da lei, o juiz atenderá aos fins sociais a
que ela se dirige e às exigências do bem comum.
Art. 421. A liberdade contratual será exercida nos limites da
função social do contrato.
DESDOBRAMENTOS DA SOCIALIDADE
 O CC/02 é o único do mundo que correlaciona autonomia privada e função social
 A Lei 13874/2019 (Lei Da Liberdade Econômica) tem alterado esse panorama na
medida em que traz princípios que colidem com essa premissa da codificação civil
 Ao lado da função social da propriedade e do contrato, há a função social da posse
(art. 1238, 1242, CC) que se manifesta na posse-trabalho
 Fala-se ainda em função socioambiental da propriedade, almejando o cumprimento
de metas internacionais de diminuição dos danos ao meio ambiente
 A função social do direito sucessório (art. 1846, CC)
Art. 421. A liberdade contratual será exercida nos limites da
função social do contrato.
Parágrafo único. Nas relações contratuais privadas,
prevalecerão o princípio da intervenção mínima e a
excepcionalidade da revisão contratual. (Incluído pela Lei nº
13.874, de 2019)
Art. 1.242. Adquire também a propriedade do imóvel aquele
que, contínua e incontestadamente, com justo título e boa-
fé, o possuir por dez anos.
Art. 1.846. Pertence aos herdeiros necessários, de pleno
direito, a metade dos bens da herança, constituindo a
legítima.
DESDOBRAMENTOS DA OPERABILIDADE
 A operabilidade diz respeito à necessidade de que o CC/02 seja acessível, abrindo mão de
tecnicismos
 Na feitura do Código, foi essencial a busca pela eliminação de ambiguidades
 A intenção foi de simplificar, o máximo possível, o conteúdo do Código, mas ao mesmo tempo
garantir sua efetividade
 Foi realizada a distinção entre prescrição e decadência
 Também se realiza o princípio da operabilidade na previsão taxativa dos contratos (contratos
em espécie)
 A divisão do código em uma parte geral e outra especial é demonstração da operabilidade
ESTRUTURA DO CC/02

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