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MANUAL
SIMPLIFICADO DE 
Direito Penal 
LEI N° 2.848. DE 7 DE DEZEMBRO DE 1940
CÓDIGO PENAL BRASILEIRO
PARTE GERAL
· NOCÕES PRELIMINARES
Antes de iniciarmos o estudo da teoria do crime sob a óptica do Decreto-Lei n° 2.848/1940 (Código Penal Brasileiro, doravante designado apenas pelas iniciais CPB), trataremos de alguns temas preliminares, que lhe permitirão alcançar maior domínio sobre as matérias comentadas mais adiante neste manual.
Em primeiro lugar, já que estamos falando do CPB, nada mais oportuno do que investigar o significado da expressão Direito Penal, segundo o pensamento de conhecidos doutrinadores.
· Direito Penal
Luiz Regis Prado conceitua Direito Penal como "um conjunto de normas que definem os delitos e as sanções que lhes correspondem, orientando, também, sua aplicação" (2010, pp. 65-66). Nesta definição, o autor leva em conta o direito penal material (descreve crimes e comina penas) e o direito penal formal ou processual (estabelece regras de procedimento aplicáveis no julgamento das infrações penais).
"Direito Penal é o conjunto de normas jurídicas que regulam o poder punitivo do Estado [ins puniendi], tendo em vista os fatos de natureza criminal e as medidas aplicáveis a quem os pratica" (NORONHA, 2004, p. 5).
Que o objeto do Direito, enquanto ciência, é a norma jurídica, disso estamos cansados de saber (o jusfilósofo argentino Carlos Cossio pôs a conduta, e não a norma, no centro da experiência jurídica. Cumpre lembrar, todavia, que a conduta, enquanto ação ou omissão humana, está igualmente no centro de disciplinas científicas com a Antropologia, a Sociologia, a Psicologia, dentre outras). Logo, nada mais natural do que tratar o Direito Penal como um conjunto de normas jurídicas: normas jurídicas especiais, é verdade, cuja função consiste em regular o poder punitivo do Estado (ius puniendi), tendo em vista os fatos de natureza criminal. Em outras palavras: Direito Penal é o estudo do crime enquanto norma, e de suas consequências jurídicas. Lembrando Dostoievski', a todo crime deve ser cominado um correspondente castigo.
· O que significa ius puniendi?
lus puniendi é, em versão direta para o Português, o "direito de punir" atribuído ao Estado. O Estado é a única fonte do poder de punir e, no Brasil, esse poder emana da Constituição da República (CR, art. 5°, caput e inciso II). Estamos falando, em sentido mais amplo, do poder-dever que o Estado detém, com exclusividade, de punir o autor de uma infração penal, isto é, o autor de um crime ou de uma contravenção penal, que Magalhães Noronha (1998, p. 4) chamou, lato sensu, de "fatos de natureza criminal". O Estado tem o monopólio do poder punitivo, porque não se admite, em uma sociedade civilizada, o exercício da justiça privada, que autorize qualquer particular a exercer arbitrariamente suas próprias razões.
Não esqueça que a infração penal, no Brasil, divide-se em: a) crime ou delito e b) contravenção. No direito penal brasileiro, crime e delito são termos sinônimos, assim como na Itália e na Alemanha, que adotaram, em relação às infrações penais, o sistema dicotômico. A França, por outro lado, adotou o sistema tricotômico, que prevê três espécies de infração penal, consoante o grau de nocividade ético-social da conduta: crime (infração mais grave), delito (infração de grau médio) e contravenção (infração menos grave).
Ao tomar conhecimento da prática de uma infração penal, a autoridade pública deve dar início à persecução penal, uma sequência de atos administrativos e judiciais destinados a provar a materialidade, a autoria e as circunstâncias do fato, para, finalmente, punir o infrator, aplicando- lhe a devida pena, mediante sentença judicial. Esses atos estão disciplinados em lei (Código de Processo Penal e leis processuais especiais), de modo que os agentes do poder público responsáveis pela persecução penal (membros da Polícia Judiciária, do Ministério Público e do Poder Judiciário) devem atuar, nos procedimentos investigatórios e judiciais, com absoluta observância das regras e princípios jurídicos prescritos pelas leis processuais e pela Constituição da República. Afinal, o Brasil é um Estado democrático de direito, no qual as leis obrigam todos os cidadãos - inclusive, e principalmente, as autoridades públicas.
De tudo quanto comentado acima, percebe-se que o Direito Penal se encarrega de regular, disciplinar e limitar o poder punitivo que o Estado vai exercer, observado o devido processo legal. sobre o autor da prática de um delito ou de uma contravenção.
· Infração penal
Na legislação brasileira, a infração penal classifica-se em crime e contravenção, tal como vimos linhas acima. Vejamos adiante a diferença entre uma espécie e outra.
· Crime
A doutrina menciona pelo menos três conceitos de crime: a) conceito formal; b) conceito material; c) conceito analítico-dogmático.
Do ponto de vista formal, crime é a violação da norma jurídico-penal. Em outras palavras: o conceito formal aplica toda ênfase na lei penal. O crime de homicídio, por exemplo, caracteriza-se, formalmente, por ser uma transgressão à norma do art. 121 do CPB, que proíbe "matar alguém".
Materialmente, crime é a violação de um bem jurídico. Bem é tudo aquilo que satisfaz uma necessidade do ser humano, como a vida, a liberdade, a moradia, a água, o ar que respiramos etc. Há casos em que o bem, dada a sua importância para o indivíduo ou para a coletividade, ou em razão da sua escassez na natureza, passa a receber a salvaguarda do direito, tal como a vida, a liberdade, a honra pessoal, a propriedade, o crédito etc. Esses são elevados à categoria de bens jurídicos. O ar que respiramos, conquanto seja indispensável à vida, não está protegido pelo direito, uma vez que, devido à sua abundância na natureza, pode ser compartilhado por todos, sem exceção e gratuitamente.
Consideram-se bens jurídicos penais todos os bens que, indispensáveis à satisfação das necessidades humanas, pela utilidade de que se revestem como expressão de valores individuais ou coletivos (como a liberdade, a saúde, segurança, a honra, a fé pública, a família e o patrimônio), são extremamente relevantes no processo de manutenção da estabilidade social.
Segundo Aníbal Bruno, a missão do direito penal consiste na defesa de interesses fundamentais dos indivíduos e da sociedade, que, pelo seu valor social, econômico e moral, a consciência comum dos grupos dominantes da sociedade eleva à categoria de bens jurídicos, julgando-os merecedores da tutela do Direito; e, em particular, da tutela mais aguda e severa do Direito Penal. Interesses de valor permanente, como a vida, a liberdade, a honra; ou variável, segundo a estrutura da sociedade ou as concepções de vida de um determinado momento (BRUNO, 2005, pp. 5-6). "Em princípio, são socialmente danosas condutas que afetam de forma intolerável a estabilidade e o desenvolvimento da vida em comunidade, só sendo admissível o emprego da lei penal quando haja necessidade essencial de proteção da coletividade ou de bens vitais do indivíduo" (PRADO, 2010, p. 249).
É preciso lembrar que vige no direito penal o princípio da intervenção mínima, segundo o qual a incriminação de condutas só pode ser acionada quando o bem jurídico efetivamente justificar o amparo da norma penal. "Os mais relevantes e preciosos [bens jurídicos] atingem a tutela do Direito Penal sob a ótica da intervenção mínima", ensina Nucci (2016, p. 7). Ademais, deve-se ter em conta que condutas formalmente proibidas pelo direito penal só devem atrair a reprovação do Estado quando o dano sofrido pelo bem jurídico tutelado justificar, pela sua magnitude, tal reprovação (princípio da intervenção mínima).
Do ponto de vista analítico-dogmático, crime é, para a maioria dos penalistas no Brasil e no exterior, um fato típico, acompanhado de ilicitude e culpabilidade, consoante o seguinte esquema: Crime = Fato Típico + Ilicitude + Culpabilidade? (teoria tripartite, ou tripartida). Chamamos de injusto penal a conjugação do fato típico com a ilicitude. Comentaremos o significado de fato típico, ilicitudee culpabilidade no estudo do art. 13 CPB.
· Contravenção penal
Na verdade, pouca diferença há entre crime e contravenção quanto à natureza em si das duas categorias. O crime, sinônimo de delito, distingue-se da contravenção apenas pela qualidade da pena privativa de liberdade cominada a cada uma dessas duas espécies de infração penal. Essa diferença encontra-se estampada no art. 1° do Decreto-Lei n° 3.914, de 9 de dezembro de 1941 (Lei de Introdução ao Código Penal e à Lei das contravenções Penais):
crime é a infração penal sancionada com detenção ou reclusão, quer isoladamente, quer alternativa ou cumulativamente com a pena de multa; contravenção é a conduta penal punida com prisão simples ou multa, ou ambas, alternativa ou cumulativamente.
Vê-se que a distinção entre crime e contravenção não tem natureza ontológica (trata-se do mesmo fenômeno social), mas normativa, ou seja, a diferença é dada pela norma, e não pela natureza substancial das duas categorias. A propósito, algumas condutas que outrora eram classificadas como contravenção hoje integram o rol de crimes, a exemplo do porte ilegal de arma de fogo, descrito no revogado artigo 19 da Lei das Contravenções Penais°, atualmente art. 14 da Lei n° 10.826/2003 (Estatuto do Desarmamento).
· Penas
Quais são as sanções previstas em nosso sistema jurídico-penal? A resposta a essa pergunta é dada pelos arts. 32 e seguintes do CPB: I) penas privativas de liberdade (detenção e reclusão, no caso de crimes; prisão simples, para as contravenções); II penas restritivas de direitos e III) pena de multa.
· Conduta
Em segundo lugar, devemos ter sempre presente que o Direito Penal só se interessa por condutas voluntárias e conscientes. Conduta, na perspectiva do Direito Penal, é o comportamento humano (ação ou omissão) livre e consciente, causador de dano, potencial ou efetivo, a bens jurídicos relevantes. Condutas involuntárias, como nos atos reflexos, e ações praticadas em estados de inconsciência, como ocorre no sonambulismo e nos acessos convulsivos, são penalmente irrelevantes.
Conduta penalmente relevante é aquela que ofende ou põe em situação de risco bem jurídico valioso (princípio da ofensividade), cujo titular não seja o próprio agente (princípio da alteridade).
· Estrutura do Código Penal Brasileiro
Em terceiro lugar, quero chamar a sua atenção para a estrutura do CPB. Como veremos, o Decreto-Lei n° 2.848/1940 abriga mais de 300 artigos, alguns dos quais se desdobram em parágrafos, incisos e alíneas. É, como desde logo se vislumbra, uma lei bastante abrangente, ocupada com diversas matérias. Por esta razão, foi necessário dividi-la inicialmente em duas Partes: Parte Geral e Parte Especial.
Cada Parte foi dividida em Títulos; estes, por sua vez, foram subdivididos em Capítulos, alguns deles segmentados em Seções. Os enunciados da lei são formalizados por meio de Artigos, que podem se desdobrados em Parágrafos, Incisos e Alíneas. No caso de desdobramento, o enunciado principal do artigo recebe o nome de caput, que significa cabeça, em Latim. Mas, atenção! Só faz sentido referir-se a caput se o enunciado do artigo vier em seguida desdobrado em pelo menos um parágrafo (Parágrafo único), incisos ou alíneas.
A Parte Geral é um catálogo de orientações que auxiliam o intérprete do Direito no seu esforço de cognição e aplicação das normas da Parte Especial. Exemplo: o crime de roubo (CPB, Parte Especial, art. 157) é mais severamente punido quando praticado em concurso de pessoas (CPB, art. 157, § 2°, II). Para saber o que é concurso de pessoas, deve-se recorrer aos arts. 29 e seguintes da Parte Geral.
A Parte Geral do CPB é formada por oito Títulos, a saber (somente os quatro primeiros, ligados à teoria do delito, serão abordados neste trabalho):
· Título I - Da Aplicação da Lei Penal;
· Título II - Do Crime;
· Título III - Da Imputabilidade Penal;
· Título IV - Do Concurso de Pessoas;
· Título V - Das Penas;
· Título VI - Das Medidas de Segurança;
· Título VII - Da Ação Penal;
· Título VIII - Da Extinção da Punibilidade.
Convém advertir que o direito penal é, essencialmente, um direito de casos. Cada crime é único em suas peculiaridades e circunstâncias, tanto objetivas quanto subjetivas. Não pode haver dois crimes iguais, porque as condições de caráter pessoal de autores e vítimas são distintas, os motivos são os mais diversos, o contexto das práticas delitivas varia, e assim por diante. Bom lembrar a lição do Prof. Nilo Batista, que sentenciou (1990, p. 111):
[..] a missão do direito penal defende (a sociedade), protegendo (bens, ou valores, ou interesses), garantindo (a segurança jurídica, ou a confiabilidade nela) ou confirmando (a validade das normas); ser-lhe-á percebido um cunho propulsor, e a mais modesta de suas virtualidades estará em resolver casos.
· Existe diferença entre lei e norma?
Lei é o texto da norma, ou seja, a lei expressa textualmente a norma, que subjaz à fórmula linguística com a qual a lei se anuncia. Lei é corpo; norma é espírito; lei é significante; norma é significado. Quem revela o significado da lei (ou seja, a norma) é a interpretação.
· Tipo penal
O enunciado linguístico da norma penal, que descreve a conduta criminosa e comina a respectiva pena, é denominado tipo penal, ou fato-tipo. Neste sentido mais restrito, tipo penal é sinônimo de norma penal incriminadora, porque ele descreve, em todos os seus elementos e circunstâncias, a conduta proibida pelo legislador penal e comina a respectiva pena.
No dizer de Luiz Regis Prado (2010, p. 278), "O Direito Penal é, por excelência, um direito tipológico. O tipo é a descrição abstrata de um fato real que a lei proíbe (tipo incriminador)"
Tipo penal, portanto, é o enunciado da lei, cuja função consiste em descrever a conduta proibida e ameaçar o autor com uma determinada sanção. Foi o alemão Ernst von Beling (1866-1932) quem criou o conceito de tipo penal e sua correspondente teoria - a teoria da tipicidade no âmbito penal.
Tipo penal, portanto, é o enunciado da lei, cuja função consiste em descrever a conduta proibida e ameaçar o autor com uma determinada sanção.
O caput do art. 121 do CPB, que proíbe a conduta de matar alguém, cominando-lhe pena de reclusão de 6 a 20 anos, é um tipo penal, denominado homicídio simples.
· Núcleo do tipo penal
O tipo penal se inicia com o verbo, que indica a ação ou a omissão praticada pelo infrator. O verbo descritor da ação ou da omissão puníveis é denominado núcleo do tipo. Os tipos penais que contêm um só núcleo são chamados de mononucleares; os que contêm mais de um, plurinucleares.
· Estrutura do tipo penal
O tipo penal é constituído de: a) título, ou rubrica, a denominação jurídica (nomen iuris, em Latim) do tipo penal; b) número do artigo da lei, seguido de ponto final; c) descrição da conduta típica, denominada preceito primário (praeceptum iris, em Latim), seguida de dois pontos; d) cominação da respectiva pena, com o nome de preceito secundário (sanctio iuris, em Latim), seguida de ponto final.
O art. 121 do CPB define o crime de homicídio simples com a seguinte redação e estrutura:
Homicídio simples
Art. 121. Matar alguém:
Pena- reclusão, de 6 (seis) a 20 (vinte) anos.
Título: Homicídio simples;
Número do dispositivo: Art. 121;
Preceito primário: Matar alguém;
Preceito secundário: Reclusão, de 6 (seis) a 20 (vinte) anos.
O título do dispositivo encerra uma espécie de síntese da conduta descrita no preceito primário: homicídio (matar ser humano); lesão corporal (violar o corpo ou a saúde de alguém) etc.
· Elementos do tipo penal
Elementos do tipo penal são termos e expressões utilizados pelo legislador na descrição do delito. Classificam-se como: a) elementos objetivos, aqueles cuja existência se revela no mundo exterior (uma pessoa, uma coisa, uma palavra, um gesto etc.); b) elementos subjetivos, aqueles que estão no mundo interior, no íntimo do agente e indicam uma finalidade especial da conduta típica (um sentimento, uma emoção, um pensamento etc.). Os elementos objetivos, por sua vez, subdividem-se em: a) elementos objetivosdescritivos, que estão no mundo exterior e podem ser percebidos pelos sentidos e descritos em seus caracteres físicos (objetos do mundo exterior) ou em seu desenvolvimento (ações e omissões); b) elementos objetivos normativos, que estão no mundo exterior, mas não podem ser percebidos sensorialmente, e, por esta razão, não podem ser descritos, e sim, provados no caso concreto (coisa alheia, vantagem indevida etc.).
No tipo penal do homicídio (CPB, art. 121), temos apenas dois elementos: matar + alguém. Matar é um elemento objetivo descritivo, porque define uma ação, e toda ação se processa no mundo exterior e pode ser descrita, em seu desenvolvimento, por quem a presenciou sentido da visão); alguém é outro elemento objetivo descritivo, porque se refere a uma pessoa, que também pode ser descrita em seu aspecto fisico.
A análise do tipo penal do furto (CPB, art. 155) evidencia, em sua descrição, todos os elementos do tipo, como veremos.
Furto
Art. 155. Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel:
Pena - reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa.
No tipo do furto, são objetivos descritivos (estão no mundo exterior e podem ser descritos) os seguintes elementos: Subtrair (núcleo do tipo, que indica a ação de tirar algo de alguém), porque, como dissemos, toda ação se passa no mundo exterior e pode ser descrita por quem a presenciou; coisa móvel, que pode ser qualquer objeto com movimento próprio ou removível por força externa, suscetível de ser descrito por quem o vê (um relógio, uma caneta, uma pintura etc.)
Coisa alheia, referente a um objeto que se encontra no mundo exterior, classifica-se como elemento objetivo normativo, porque os nossos sentidos não são suficientes para relacionar alguém com a propriedade de uma coisa. Se vejo uma pessoa dirigindo um veículo, por exemplo, não posso afirmar, só pelo que vejo, que a coisa (o veículo) pertence àquela pessoa, o motorista. Só é possível comprovar pela aparência a posse ou a detenção, mas não a propriedade. Quem diz ser dono de algum bem fica obrigado a provar a propriedade. Logo, ser coisa própria ou coisa alheia é questão de prova, o que faz da expressão coisa alheia matéria de prova e, portanto, elemento objetivo normativo do tipo penal do furto: objetivo porque pertence ao mundo exterior; normativo porque depende de prova.
A respeito do elemento para si ou para outrem, observe que a finalidade da subtração, no caso do furto, é um dado presente no mundo interior do agente, um elemento subjetivo do tipo, porque, no momento do fato, só o infrator tem consciência (coeficiente subjetivo) do destino que dará à coisa furtada (res furtiva, em Latim). O elemento subjetivo do tipo também é conhecido pelas expressões dolo específico do tipo e especial fim de agir.
· Classificação das normas penais
As normas penais classificam-se em:
(a) normas penais incriminadoras: todas as normas penais que descrevem uma conduta proibida e cominam a respectiva pena. Exemplo: CPB, art. 121, caput (Homicídio simples);
(b) normas penais permissivas, subdivididas em:
(b1) normas permissivas excludentes, que excluem a ilicitude da conduta típica. Fazem parte desse rol as normas dos arts. 23 a 25 do CPB (além de outras, situadas na Parte Especial do Código);
 (b2 ) normas permissivas exculpantes, que isentam de pena o autor de um injusto penal, a exemplo das normas dos arts. 21 e 22 do CPB;
(c) normas penais explicativas: todas as normas penais cuja finalidade é explicitar o sentido de um termo ou expressão constante em outra norma. Exemplo: o art. 327 do CPB, que dá o significado de funcionário público para efeito de aplicação do direito penal nos crimes funcionais (crimes praticados por funcionários públicos);
(d) normas penais em branco, assim chamadas as normas penais cujo preceito primário (descritor da conduta típica) necessita de uma outra norma, posta em lei em sentido estrito ou em regulamento, para se aperfeiçoarem. A sua adequada interpretação depende, portanto, de outra norma, que as completa. Neste sentido, o art. 237 do CPB prescreve:
Conhecimento prévio de impedimento
Art. 237. Contrair casamento, conhecendo a existência de impedimento que lhe cause a nulidade absoluta:
Pena - detenção, de 03 (três) meses a 1 (um) ano.
Esta é a regra penal - ela não diz nada quanto aos impedimentos matrimoniais. Consequentemente, o intérprete só vai ter certeza de que alguém incorreu na proibição se souber quais são os impedimentos matrimoniais, que a lei penal, como vimos, não menciona. Consequentemente, para fazer uma adequada exegese da regra objetiva, o intérprete vai precisar valer-se do Código Civil, que é a lei apropriada para tratar do casamento e dos seus impedimentos (ver art. 1.521 do Código Civil). Neste caso, a lei civil que trata das causas que impedem de modo absoluto o casamento (impedimentos matrimoniais absolutos) cumpre a função de complemento da norma penal sob referência.
As normas penais em branco se dividem em: a) normas penais em branco em sentido estrito, ou heterogêneas; b) normas penais em branco de sentido amplo, ou homogêneas.
Normas penais em branco heterogêneas são aquelas cujo complemento encontra-se abrigado em norma administrativa editada pelo Poder Executivo, e não em lei ordinária, que tem origem parlamentar. As normas administrativas são produzidas fora do ambiente legislativo formal, e delas são exemplos a portaria, o regulamento, a resolução, o decreto etc. Não são leis no sentido estrito do termo, porque não passam pelo crivo do Poder Legislativo. Exemplo: a norma penal que incrimina a venda de medicamentos por preço acima do que estiver fixado em tabela oficial é uma norma penal em branco heterogênea, porque a edição dessa tabela, que complementa a norma penal, compete à Anvisa, agência do Ministério da Saúde, que a publica na forma de Regulamento.
Normas penais em branco homogêneas são aquelas cujo complemento encontra-se abrigado em lei ordinária do Poder Legislativo. Exemplo: a norma do art. 237 do CPB (contrair casamento com conhecimento prévio de impedimento absoluto, porque os impedimentos matrimoniais a que o legislador se refere, e que complementa a referida norma penal, encontram- se previstos no art. 1.521 do Código Civil, que é lei ordinária da mesma natureza do CPB, conforme já exposto parágrafos acima.
· Conflito aparente de normas penais
Às vezes, o intérprete, diante de um fato criminal, tem dúvida quanto ao direito a ser aplicado, supondo a incidência concorrente, no caso concreto, de diversas normas incriminadoras vigentes. Advirta-se, desde logo, que tal concorrência, ou conflito, de normas penais é fictício, só existe na cabeça do intérprete relutante. Não existe a possibilidade de um mesmo suporte fático concreto poder ser solucionado por mais de uma regra penal. A análise mais cuidadosa da conduta levará o intérprete à correta solução do problema, pela escolha, dentre as normas supostamente rivais, daquela que se adapta perfeitamente ao fato concreto, e a consequente exclusão da outra, ou das outras.
Requisitos do conflito aparente de normas - Só se instala o conflito aparente de normas penais quando: a) existe um fato criminal único; b) existe a suposta concorrência de vários tipos penais aplicáveis ao fato.
Princípios usados na solução do conflito aparente de normas - A doutrina aponta quatro critérios empregados na solução do conflito, a saber.
(a) especialidade
Baseado no princípio segundo o qual lex specialis derogat generalis ("a lei especial revoga a lei geral"), é utilizado quando o conflito envolve tipos penais vigentes, ao mesmo tempo, em uma lei geral e em uma lei especial. Neste caso, prevalece o tipo penal hospedado na lei especial. Exemplo: o CPB, lei geral, pune o homicídio culposo com pena de detenção de 1 a 3 anos. O mesmo crime, quando praticado ao volante de veículo automotor, é punido com pena de detenção de 2 a 4 anos, cumulada com pena restritiva de direitos, pelo Código de Trânsito Brasileiro (Lei n° 9.503/1997), que é lei especial para as infrações de trânsito. Se o motorista imprudentematar alguém no trânsito, a pena será aplicada conforme a lei especial.
(b) subsidiariedade
Há tipos penais cuja descrição contém todos os elementos de outro tipo penal e mais alguns. Em casos assim, chamamos o tipo mais amplo de norma primária, e o mais contido, de norma subsidiária, ou secundária. Na hipótese de conflito aparente entre essas normas, só se aplica a norma subsidiária se, no caso concreto, não concorrerem todos os elementos da norma primária. Exemplo: O tipo do art. 146 do CPB (constrangimento ilegal) contém todos os elementos do tipo do art. 147 (ameaça), e mais alguns. Senão, vejamos.
CPB, art. 147 (crime de ameaça): Ameaçar alguém, por palavra, escrito ou gesto, ou qualquer outro meio simbólico, de causar-lhe mal injusto e grave: Pena - detenção, de 1 (um) a (seis) meses, ou multa.
CPB, art. 146 (crime de constrangimento ilegal): Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, ou depois de lhe haver reduzido, por qualquer outro meio, a capacidade de resistência, a não fazer o que a lei permite, ou a fazer o que ela não manda: Pena - detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, ou multa.
Observe que o crime de constrangimento ilegal tem uma descrição mais ampla do que o crime de ameaça. Neste, a ameaça se esgota em si mesma, o agente ameaça a vítima por ameaçar. No constrangimento ilegal, o agente ameaça a vítima para obrigá-la a não fazer o que a lei permite, ou a fazer o que a lei não manda. Logo, o tipo do art. 146 é o tipo primário, ou principal; o tipo do art. 147 é subsidiário. Exemplo: se o agente ameaça a vítima com o propósito de forçá-la a não ir ao trabalho, qual das duas normas deve ser aplicada? Sem dúvida, a do art. 146.
A subsidiariedade pode ser tácita, quando se deduz das normas em conflito aparente, como no exemplo acima; ou expressa, quando consta no preceito secundário da norma subsidiária, sob a fórmula: "se o fato não constitui crime mais grave. Exemplo: CPB, art. 132 (perigo para a vida ou [a] saúde de outrem):
CPB, art. 132. Expor a vida ou a saúde de outrem a perigo direto e iminente: Pena detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, se o fato não constitui crime mais grave;
(c) consunção ou da absorção
Orienta a solução quando as normas em aparente conflito guardam entre si, basicamente, relação de meio e fim; ou de maior e menor intensidade.
Às vezes, o agente realiza a conduta descrita em um tipo penal menos grave para consumar a conduta descrita em um tipo penal mais grave. Exemplo 1 (relação de meio e fim): o agente entra em casa alheia, sem consentimento do morador, para praticar furto. Neste caso, o crime de violação de domicílio (CPB, art. 150), menos grave, fica absorvido pelo crime de furto, mais grave: o agente responderá apenas pelo furto, uma vez que a violação de domicílio foi o meio necessário (crime- meio) para o cometimento do furto (crime-fim). Exemplo 2 (relação de maior e menor intensidade): dá-se também a consunção de um fato criminal por outro quando o dolo do agente cresce em intensidade, o que o leva a progredir de um crime menos grave para um crime mais grave (progressão criminosa), ou a ter de praticar, necessariamente, condutas típicas de um crime menos grave para poder obter um resultado mais grave (crime progressivo). Exemplo 2.1 (progressão criminosa): o agente agride a vítima com animus laedendi (dolo de lesão), mas, durante a agressão, decide matar a vítima (dolo de homicídio). Neste caso, o infrator será punido apenas pelo crime de homicídio, que absorve as lesões corporais. Exemplo2.2 (crime progressivo) o agente, com animus necandi, provoca diversas lesões perfurantes no corpo da vítima, até consumar o homicídio, pelo qual será punido. Observe que, na progressão criminosa, o dolo inicial, menos grave, evoluiu para o dolo final, mais grave; no crime progressivo, o dolo é o mesmo, do começo ao fim da execução do crime.
Outros casos de aplicação do critério da consunção ou absorção: 1) tentativa e consumação; 2) participação e autoria; 3) fatos posteriores (pós-fato) e fatos anteriores (antefato) não puníveis. Em todos esses casos, o segundo elemento absorve o primeiro. Exemplo 1: se, na execução de homicídio, a vítima sobrevive por algum tempo (tentativa), chegando a óbito dias depois, o agente responderá apenas por homicídio (não seria lógico responsabilizá-lo por tentativa de homicídio e por homicídio consumado pelo mesmo fato). Exemplo 2: o agente, a princípio, coopera com o autor de homicídio, provendo-lhe a arma do crime; em seguida, decide atuar como coautor, deflagrando, junto com o comparsa, os tiros que mataram a vítima. Responderá, no caso, na condição de coautor, e não como coautor e partícipe. Exemplo 3: o agente pratica crime de furto e, em seguida, destrói a res furtiva. Neste caso, só responderá pelo fato anterior (furto), e não pelo tato posterior (dano), que fica absorvido pelo primeiro. Trata-se, no exemplo, de pós-fato impunível.
(d) Princípio da alternatividade: não resolve, a rigor, o conflito aparente de normas, uma vez que não parte da premissa da existência de duas ou mais normas penais supostamente aplicáveis ao mesmo fato, mas da aplicação da mesma norma a dois ou mais fatos por ela descritos. É observado quando o agente pratica diversas ações previstas em um tipo plurinuclear, que são aqueles cujo preceito primário descreve várias ações típicas (crimes de ação múltipla). Exemplo: o tipo penal do art. 180 do CPB (Receptação) tem diversos núcleos (verbos típicos); é, portanto, um tipo plurinuclear. Se o agente pratica, concomitantemente, duas ou mais ações previstas nos diversos núcleos do tipo, ele não responderá por cada uma delas, mas pelo crime como uma unidade jurídico-formal. Exemplo:
Receptação
Art. 180. Adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar, em proveito próprio ou alheio, coisa que sabe ser produto de crime, ou influir para que terceiro, de boa-fé, a adquira, receba ou oculte: pena- reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa.
Se o agente for flagrado no momento em que estiver transportando caixas de bebidas roubadas que adquirira do autor do roubo, ele não responderá criminalmente pelas ações de adquirir e transportar a mercadoria, com dupla penalização, mas apenas pelo crime de receptação, com a pena a este cominada.

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