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Relações Indígenas com a Natureza

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2ª SÉRIE
Aula 10 – 3º bimestre
Sociologia
Etapa Ensino Médio
Relações dos povos indígenas com a natureza
Modos de vida dos povos indígenas;
Interações dos povos indígenas com a natureza;
Processos e técnicas produtivas;
Agroextrativismo indígena.
Compreender as técnicas produtivas de povos indígenas enquanto formas de relação e conhecimento.
Conteúdo
Objetivo
EM13CHS302 – Analisar e avaliar criticamente os impactos econômicos e socioambientais de cadeias produtivas ligadas à exploração de recursos naturais e às atividades agropecuárias em diferentes ambientes e escalas de análise, considerando o modo de vida das populações locais – entre elas as indígenas, quilombolas e demais comunidades tradicionais –, suas práticas agroextrativistas e o compromisso com a sustentabilidade.
Assista ao vídeo e tente identificar as causas do desperdício de alimentos no país.
5 minutos
O desperdício do planeta
Para começar
Os hábitos produtivos e de consumo são dois dos motivos para o grande desperdício de alimentos. Ou seja, a forma como nos relacionamos com o que vira comida, seja na esfera da produção, seja na esfera do consumo, pode aumentar o desperdício. 
A captura do pirarucu
O problema das escolhas técnicas 
Cientes dos impactos econômicos e ambientais que nossas escolhas técnicas produzem, os pescadores da vila Sucuriju, na Amazônia, optaram por proibir o uso de malhadeiras para a captura do pirarucu (SAUTCHUK, 2007; FERREIRA et al., 2015, p. 162).
Foco no conteúdo
Enquanto os gestores da Reserva Biológica do Lago Piratuba tinham uma preocupação conservacionista com a técnica para captura do peixe, os pescadores da região receavam que o uso dela poderia deixá-los panema. Isto é, dois grupos diferentes, com razões próprias, acordavam que precisavam pôr fim ao uso de malhadeiras.
Panema: “é comumente definida como ‘falta de sorte’, ‘azar’, ‘infelicidade’, e foi com esse sentido incorporada ao vocabulário popular do Norte” (GALVÃO, 1951, p. 222).
Duas razões diferentes para uma mesma escolha técnica
Foco no conteúdo
“Palavra de origem tupi, panema designa um conceito conhecido desde o início do período colonial [...]. Como tantas outras palavras e ideias de origem tupi, o termo circulou pela América do Sul e hoje é usado por comunidades de pescadores, de seringueiros, por quilombolas, por populações urbanas, e adotado por indígenas de outras famílias linguísticas.”
“A panema remete aos contextos do insucesso na caça, na pesca, nas roças, nas relações conjugais, entre entes variados. Ela qualifica as pessoas, mas também cachorros que não matam caça; árvores que não dão frutos; espingardas que não atiram; e, ainda, rios que não dão peixes. Em todos os casos, trata-se de expectativas frustradas, algo que não age como deveria, que não produz o que se esperaria, tendo normalmente viés negativo.” (BRAGA, 2020).
Panema
Foco no conteúdo
Panema tem importante significado para a forma como vários povos indígenas relacionam-se com o mundo que os cerca. Afinal, para que ninguém tenha má sorte, é preciso seguir um conjunto de preceitos ético-morais. Em várias sociedades amazônicas, não se pode ser sovina, tocar determinadas substâncias corporais (o sangue menstrual, por exemplo), relacionar-se diretamente com seres espirituais causadores de panema, insultar a caça que se quer abater etc.
Relativismo – lembre-se de que é essencial relativizar os seus pressupostos culturais, pois, do contrário, as experiências e os mundos dos Outros (dos indígenas) ficarão incompreensíveis.
Aqui buscamos entender as experiências pelos termos dos Outros. 
Uma forma de relação com o mundo
Foco no conteúdo
A natureza é cheia de agências que podem fazer outras agências (como a dos humanos) ficarem sem efeito, deixando-as panema.
Veja isso a partir dessa vivência junto aos Sateré-Mawé:
“Dessa vez fui cordialmente repreendida pelos meus colegas indígenas de viagem, por ter feito algo, considerado extremamente perigoso: jogar pertences de Curupira [ossos de caça] num domínio que não era o dele, nas águas, lugar dos encantados. Curupira ficaria enraivecido e não aceitaria as oferendas de troca do caçador que nos tinha oferecido a paca (geralmente tabaco) e o caçador se tornaria panema (com má-
-sorte na caça) (FIGUEROA, 2004, p. 4-5).” (LEITE, 2007, p. 188). 
Respeitar o domínio do Curupira
Foco no conteúdo
https://books.scielo.org/id/fyyqb/pdf/barros-9788575415870-09.pdf
Como se pode perceber a partir da noção de panema, essa dimensão do mundo chamada de “natureza” tem agência, capacidades de ação e afecção, podendo trazer consequências indesejadas aos humanos. Essa é a razão de toda a ética dos povos indígenas com os seres ditos da “natureza”. Isso não significa que os povos indígenas sejam “bons selvagens” (uma das imagens que o ocidente construiu sobre esses povos), significa que esses povos, com os olhares específicos de suas próprias culturas, miram o mundo e agem sobre ele entendendo as existências e as potências que o povoam.
Natureza vs. cultura – O fato de os indígenas reconhecerem, na natureza, capacidades que costumamos reconhecer nos humanos mostra que esses povos não segmentam muito a natureza da cultura. 
As certezas indígenas sobre o mundo
Foco no conteúdo
https://ea.fflch.usp.br/conceito/panema
Leia o excerto para responder a questão no próximo slide:
“A caça de porcos é um tema que arrebata os Juruna tanto quanto o cauim; por isso, em um instante já não posso compreender o que os caçadores dizem. Todos falando ao mesmo tempo, gritos estridentes, onomatopeias de explosões de tiros, flechas silvando, porcos batendo os dentes, porcos em correria. Todos têm casos para contar e mímicas para fazer. Estão, talvez, encenando seu destemor. Essa caça é tida como uma empresa muito perigosa; os porcos são muito violentos e ousam afrontar o caçador, que só consegue escapar-lhes subindo em uma árvore, como aconteceu no passado recente com um finado. Nada porém dessa algazarra quando chegar o momento de matar. Se o caçador emite um grito, sua alma pode ir viver com os porcos. O mesmo destino pode ter aquele que se atemorizar diante dos porcos medonhos: assustada, sua alma foge e é capturada pelos porcos.” (LIMA, 1996, p. 22).
2 minutos
Na prática
De que forma os Juruna precisam agir diante dos porcos do mato para que suas almas não sejam roubadas?
2 minutos
Na prática
Ele não deve gritar, pois, do contrário, “sua alma pode ir viver com os porcos”.
Ele não pode se amedrontar, sob pena de sua alma fugir e ser capturada pelos porcos.
Correção
2 minutos
De que forma os Juruna precisam agir diante dos porcos do mato para que suas almas não sejam roubadas?
Na prática
“Batata não nasce simplesmente, ela brota e dá “para alguém”. Antes escondidas embaixo da terra, as cabeças da Batata se tornam visíveis para a mulher se esta é vista como uma boa mãe, cuidadosa e generosa. Do contrário, a Batata não dá nada, se muda para a roça de outro e pode se vingar com doenças. Dotada de conhecimentos xamânicos e rituais, a Batata também tem toras, cantos e danças que foram apropriados pelos mẽhĩ antigos no tempo do mito.” (LIMA, 2017, p. 22).
De que forma uma mulher krahô deve ser percebida para que as batatas não se vinguem enviando-lhe doenças?
2 minutos
Leia o excerto para responder à questão no próximo slide:
Na prática
De que forma uma mulher krahô deve ser percebida para que as batatas não se vinguem, enviando-lhe doenças?
Ela deve ser vista como uma boa mãe, cuidadosa e generosa.
Correção
2 minutos
Na prática
Aplicando
5 minutos
Essas certezas que os povos indígenas têm sobre o mundo natural não são, em termos pragmáticos, diferentes das certezas que os cientistas e técnicos têm sobre ele. Ambos agem em função de suas formas de pensar a realidade. Isto é, distintas certezas sobre o mundo orientam diferentes práticas de manejo da floresta, da roça, do plantel de animais e vegetais.
Como compreender, então, a produção agroextrativista indígena?
“Toda economia [...]pressupõe a existência de entes.” (ALMEIDA, 2013, p. 8).
Aplicando
Em diálogos com toda a turma, compare as certezas ou as existências pressupostas nessas formas de produção:
TEXTO I
Segundo os Araweté, o açaí e o cupuaçu foram plantados e são cuidados pelos Ani, um tipo de gente que habita a superfície terrestre, mora em ocos de castanheiras e de sapucaias e estabelece com humanos uma relação de agressão [...]. Essas espécies plantadas pelos Ani não devem ficar próximas às aldeias a fim de se evitar perigos aos humanos. A planta em si não é perigosa. É permitido coletar os frutos sem aparentes “cuidados”, mas deve-se evitar derrubar a árvore para o uso da madeira, por exemplo, porque Ani fica bravo e pode até matar aquele que executou a derrubada” (MATTA, 2016, p. 33).
5 minutos
Aplicando
TEXTO II
“Nos casos em que se observa uma pequena densidade de castanheiras, pode ser feito o plantio de mudas nas capoeiras ou mesmo na floresta. Para isso, as sementes que produzirão as mudas precisam ser coletadas em árvores selecionadas (as quais foram mapeadas previamente), principalmente quanto à produção e características do fruto (facilidade para quebrar e número de sementes). É recomendado misturar sementes de várias árvores selecionadas (mínimo 20) para garantir uma população produtiva. A semente da castanha não germina facilmente devido à casca que a envolve. Em condições naturais, ou seja, sem nenhum tratamento demora de 6 a 18 meses, no entanto, para agilizar a germinação recomenda-se esfregar a semente sobre uma superfície rugosa (lixa ou cimento) para desgastar um pouco a casca e facilitar a penetração de água.” (WADT et al., 2005, p. 26).
Tarefa SP
Localizador: 98638
Professor, para visualizar a tarefa da aula, acesse com seu login: tarefas.cmsp.educacao.sp.gov.br
Clique em “Atividades” e, em seguida, em “Modelos”.
Em “Buscar por”, selecione a opção “Localizador”.
Copie o localizador acima e cole no campo de busca.
Clique em “Procurar”. 
Videotutorial: http://tarefasp.educacao.sp.gov.br/
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ALMEIDA, M. W. B. de. Caipora e outros conflitos ontológicos. Revista de Antropologia da UFSCar, v. 5, n. 1, p. 7–28, 2013. Disponível em: https://doi.org/10.52426/rau.v5i1.85. Acesso em: 30 jun. 2023.
BRAGA, Leonardo Viana. Panema. In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia, 2020. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/conceito/panema. Acesso em: 30 jun. 2023.
FERREIRA, J. C. L.; PERALTA, N.; SANTOS, R. B. C. e. Nossa reserva: redes e interações entre peixes e pescadores no médio Rio Solimões. Amazônica: Revista de Antropologia, v. 7, n. 1, 2015. Disponível em: https://periodicos.ufpa.br/index.php/amazonica/article/view/2155. Acesso em: 30 jun. 2023.
GALVÃO, E. Panema: uma crença do caboclo amazônico. Revista do Museu Paulista, São Paulo, v. 5, 1951. Disponível em: http://etnolinguistica.wdfiles.com/local--files/biblio%3Agalvao-1951-panema/Galvao_1951_Panema_CrencaCabocloAmaz_BDCN_ColNic.pdf. Acesso em: 30 jun. 2023.
LEITE, M. S. Sociodiversidade, alimentação e nutrição indígena. In: BARROS, D. C.; SILVA, D. O.; GUGELMIN, S. Â. (org.). Vigilância alimentar e nutricional para a saúde Indígena [online]. v. 1. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2007, p. 180-210. Disponível em: doi: 10.7476/9788575415870.009. Acesso em: 30 jun. 2023.
Referências
LEITE, M.S. Sociodiversidade, alimentação e nutrição indígena. In: BARROS, D. C.; SILVA, D. O.; GUGELMIN, S. Â. (org.). Vigilância alimentar e nutricional para a saúde Indígena [online]. v. 1. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2007. p. 180-210. Disponível em: doi: 10.7476/9788575415870.009. Acesso em: 30 jun. 2023.
LIMA, A. G. M. de. A cultura da batata-doce: cultivo, parentesco e ritual entre os Krahô. Mana, v. 23, n. 2, p. 455-490, 2017. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/1678-49442017v23n2p455. Acesso em: 30 jun. 2023.
LIMA, T. S. O dois e seu múltiplo: reflexões sobre o perspectivismo em uma cosmologia tupi. Mana, v. 2, n. 2, out. 1996. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0104-93131996000200002. Acesso em: 30 jun. 2023.
MATTA, P. Modos ameríndios de conhecer as florestas: produção de relações e percepções. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2016. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8134/tde-23032016-153311/publico/2016_PriscilaMatta_VCorr.pdf. Acesso em: 30 jun. 2023.
SAUTCHUK, C. E. O arpão e o anzol: técnica e pessoa no estuário do Amazonas (Vila Sucuriju, Amapá). Tese (Doutorado em Antropologia) – Departamento de Antropologia, Universidade de Brasília, Brasília, 2007
WADT, L. H. de O. et al. Manejo da castanheira (Bertholletia excelsa) para produção de castanha-do-brasil. Rio Branco: Secretaria de Extrativismo e Produção Familiar, 2005. Disponível em: https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/502181/manejo-da-castanheira-bertholletia-excelsa-para-producao-de-castanha-do-brasil. Acesso em: 30 jun. 2023.
Referências
Lista de imagens e vídeos
Slide 3 – https://www.youtube.com/watch?v=IN7JB0GtzHc
Slide 4 – https://portalamazonia.com/amazonia-az/pirarucu-o-gigante-da-amazonia
Referências
Material 
Digital

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