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Tensão no mundo da fé
O século XVI, na Europa, foi marcado por uma importante disputa reli-
giosa. Tudo começou em 1517, quando o padre alemão Martinho Lutero 
divulgou um conjunto de 95 teses em que denunciava a venda do perdão 
(indulgência) como uma prática corrupta da Igreja Católica. Segundo ele, o 
único caminho para a salvação pessoal era uma vida regrada, marcada pela 
religiosidade, pelo arrependimento sincero dos pecados e pela confiança 
na misericórdia de Deus. 
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Tem início o Concílio 
de Trento.
Chega ao Brasil o 
primeiro grupo de mis-
sionários da Companhia 
de Jesus.
Elizabeth I, protestante, 
sucede à rainha católica 
Mary no trono inglês.
O rei de Portugal, 
D. Sebastião, proíbe a 
escravidão indígena.
Massacre de São 
Bartolomeu, em que 
líderes protestantes 
foram assassinados por 
católicos franceses.
Peter Paul Rubens pinta 
o Retrato de Maria de 
Médici, exemplo perfeito 
do rebuscamento 
barroco. 
Os índios são agrupados 
em aldeias e recebem 
instruções e educação 
religiosa.
Diego Velázquez pinta 
Adoração dos reis 
magos, quadro com 
características barrocas 
no tema e no estilo que o 
consagrou.
Detalhe da obra de 
Velázquez. Óleo sobre 
tela, 203 3 125 cm.
Galileu Galilei é julgado 
pelo Tribunal do Santo 
Ofício por defender a 
tese de Copérnico de que 
a Terra se move em torno 
do Sol. Ameaçado de 
excomunhão, é obrigado 
a negar suas descobertas.
LEONI, O. Galileu Galilei. 
1624. Crayon.
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Filme: trecho de A rainha Margot.
Filme: trecho de Lutero, de Eric Till.
A debandada dos fiéis
Em pouco tempo, toda a Alemanha tomou conhecimento das ideias de 
Lutero, que se espalharam também pelo restante da Europa. Muitos fiéis 
abandonaram a Igreja Católica para seguir os preceitos luteranos. Martinho 
Lutero foi excomungado pelo papa Leão X, porém a Reforma Protestante 
não podia mais ser contida.
Quando João Calvino, um luterano convertido, passou a defender a ideia 
de que a prosperidade obtida por meio do trabalho era uma manifestação 
do favor divino, a debandada de católicos aumentou. Pela primeira vez na 
história da religião, o lucro passou a ser visto como algo aceitável. Era o 
impulso que faltava para a burguesia aderir ao protestantismo.
Reação católica
Quase três décadas depois, em 1545, a reação católica, conhecida 
como Contrarreforma, começou com a instalação do Concílio de Trento 
para definir medidas que pudessem conter as consequências da Reforma 
Protestante.
Algumas das medidas mais importantes foram:
• o ress r ime o do ri al do a o io am m amado a ra-
da Inquisição. Os inquisidores tinham o poder de prender as pessoas 
acusadas de heresia, confiscar seus bens e condená-las à morte na 
fogueira.
• a ria o do Índice dos livros proibidos (Index Librorum Proibitorum), 
uma relação de textos cuja leitura era vetada aos católicos, como os 
de Copérnico e Galileu, Descartes, Rousseau, Victor Hugo, Alexandre 
Dumas, Sartre. Essa relação só deixou de ser feita na segunda metade 
do século XX.
• a ria o da om a ia de es s elo adre io de o ola e i -
do um modelo militarizado, Loyola via os jesuítas como um grupo de 
combate à Reforma. 
Barroco: a harmonia da dissonância
Como movimento cultural e artístico, o Barroco se estende do final do 
século XVI até o início do século XVIII. Começa na Itália e alcança vários 
países europeus e algumas de suas colônias, como o Brasil.
A reação católica ao protestantismo terá grande influência na definição 
das características do Barroco. Na origem dessas características, há uma 
tensão que nasce da tentativa de fundir visões opostas: a perspectiva 
antropocêntrica, herdada do Renascimento, e a teocêntrica, resgatada 
pela Contrarreforma. 
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A obra dos principais artistas barrocos busca unir aspectos contradi-
tórios: o sagrado e o profano, as luzes e as sombras (oposição que dará 
origem a uma técnica conhecida como chiaroscuro, isto é, claro-escuro), o 
paganismo e o cristianismo, o ra cional e o irracional. 
O desafio do Barroco era representar um mundo instável. Por isso, a arte 
do período vive de contrastes que traduzem a tensão entre a aspiração à 
harmonia e à felicidade eterna e a beleza que se vê na luta e no sofrimento 
humanos.
O projeto literário do Barroco 
A fala do poeta italiano Giambattista Marini (1568-1625) resume o projeto 
literário do Barroco: “a poesia tem o desejo de produzir o espanto”. A chave 
para compreender as características da literatura barroca é aceitar que ela 
foi escrita com o objetivo de desencadear uma reação em um leitor de perfil 
muito específico.
Os agentes do discurso
No momento em que as obras barrocas começam a ser produzidas, a 
circulação dos textos literários ainda está bastante restrita à corte, centro 
de poder, e às universidades, centros de saber.
Para criar condições de um diálogo contínuo e produtivo entre os dife-
rentes escritores, surgem as Academias, agremiações culturais em que 
eles se reúnem para ler e estudar a poesia e os tratados de retórica dos 
clássicos latinos. 
 Gravura Mademoiselle 
Desmatins no papel de 
Psique na Ópera de Lully, de 
Jean Berain, 1703.
O esplendor da ópera
A grandiosidade e a tea-
tralidade da ópera promo-
viam um espetáculo dramá-
tico que maravilhava pela 
transformação de cenários 
diante dos olhos atônitos da 
plateia, cumprindo, assim, o 
desejo barroco de provocar 
espanto.
De olho na arte
A dúvida de Tomé
O primeiro aspecto que chama a atenção no qua-
dro de Caravaggio é o contraste entre luz e sombra, 
característico da técnica do chiaroscuro. Os contornos 
claros e precisos, típicos da estética renascentista, 
perdem espaço para a imprecisão barroca que carac-
teriza o ser humano de forma menos idealizada.
Outra característica barroca é a tendência de 
retratar a realidade de modo exagerado (hiper- 
-realismo). O resultado final mostra a harmonia dis-
sonante da estética barroca. O momento retratado é 
sublime: Jesus, ressuscitado, surge entre seus após-
tolos. O dedo que remexe a ferida, porém, assinala a 
incredulidade humana, o desejo de se certificar antes 
de aceitar o que parece impossível.
CARAVAGGIO. A dúvida de Tomé. 1602- 
-1603 Óleo sobre tela, 107 3 146 cm.
Como consequência dessas posturas conflitantes, a arte barroca será 
marcada pela angústia de um ser humano atormentado por grandes dúvidas 
existenciais. Os temas religiosos serão tratados por mestres da pintura, 
como Caravaggio, Rubens, Rembrandt e Velázquez, que expressam de forma 
enfática as contradições da época.
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De modo geral, os textos circulam em cópias acessíveis a poucos. Os 
escritores preferem publicar seus poemas em folhas manuscritas e não 
como livro impresso, para evitar que sejam lidos por um público maior, tido 
como “vulgar”.
O Barroco e o público•	
Fruto de muito estudo e trabalho, a poesia barroca é escrita por poetas 
para poetas. As disputas literárias, promovidas nas Academias, estimulam 
a sofisticação dos textos, porque o objetivo é demonstrar o melhor domínio 
da retórica clássica no desenvolvimento de temas consagrados. De perfil 
muito específico, esses leitores aprovam a repetição de temas, pois ela 
permite a comparação entre os diferentes poetas. Quanto mais elaborado 
o texto, maior a distinção conferida ao leitor capaz de compreendê-lo.
O jogo da poesia produzida nas Academias tinha sempre uma dupla face: 
deum lado, o poeta, que buscava compor um texto bastante elaborado 
para ser reconhecido; do outro, o leitor, que, por compreender esse texto, 
mostrava-se tão sofisticado quanto o poeta.
O fusionismo e o culto do contraste•	
O termo fusionismo se refere à fusão das visões medieval e renascen-
tista, antagônicas. Essa fusão se traduz, na pintura, pela mistura entre luz e 
sombra; na música, pela combinação de sons; na literatura, pela associação 
entre o racional e o irracional, entre a razão e a fé. A busca incessante da 
união dos opostos leva os escritores barrocos ao uso intenso de antíteses 
e paradoxos. 
Como consequência da dualidade na maneira de ver o mundo, o Barroco 
tende a aproximar os opostos, destacando o contraste, ao mesmo tempo 
que tenta conciliar extremos como pecado/perdão, erotismo/espirituali-
dade. Na literatura, algumas imagens simbolizam a indefinição resultante 
dos contrastes, como o crepúsculo (transição entre dia e noite) e a aurora 
(transição entre noite e dia).
O pessimismo e o feísmo
A religiosidade acentuada pelas disputas entre protestantes e cató-
licos emprestou um caráter mais dramático à vida no século XVII. Nesse 
contexto, um olhar mais pessimista para o mundo sobressai nas obras 
de arte. A vida terrena é caracterizada por traços que sugerem tristeza e 
sofrimento, para representá-la como oposta à felicidade da vida celestial. 
Dividido entre razão e religião, o ser humano opta pela religião na esperança 
de alcançar a glória divina.
Manifestando o pessimismo dos autores, várias obras barrocas exploram 
a miséria da condição humana, apresentada em alguns aspectos cruéis, 
dolorosos e, muitas vezes, repugnantes.
O rebuscamento
O artista barroco é minucioso na composição dos detalhes e manifes-
ta o gosto pela ornamentação excessiva, que revela o desejo de criar um 
discurso para convencer o público da glória de Deus. 
A utilização de uma linguagem trabalhada, cheia de imagens e de figuras, 
procura dar à literatura a riqueza visual da pintura e da escultura. Isso faz com 
que os jogos de palavras e as figuras de linguagem sejam muito explorados 
nos textos desse período.
 Ribera, J. São Paulo, o eremita. 1640. 
Óleo sobre tela, 143 3 143 cm. 
O realismo sombrio de alguns 
pintores do Barroco destaca a 
decadência humana decorrente 
da passagem do tempo. Nesta 
obra, São Paulo, esquelético e 
envelhecido, contempla um crânio, 
que simboliza a mortalidade 
humana.
 Indumentária barroca italiana 
bordada, da primeira metade do 
século XVIII. A arte barroca é 
marcada pela exuberância.
Projeto literário do Barroco
Desencadear reação em 
um público específico/
provocar o espanto 
do público
Produzir textos 
sofisticados 
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