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INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS 
HISTÓRICOS 
AULA 3 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Caio de Amorim Féo 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Nesta etapa, é preciso que você preste bastante atenção por se referir a 
uma temática altamente abstrata. Abordaremos aqui a relação entre tempo e 
história, pretendendo expor o que significa tempo e como este se relaciona com 
o nosso dia a dia, seja no papel de historiadores durante a prática historiográfica, 
seja como indivíduos suscetíveis às transformações ao longo do tempo. Nesse 
sentido, está envolvida na temática desta etapa a discussão de outros conceitos, 
como anacronismo, sincronia e diacronia, tão fundamentais ao estudo que 
estarão destacados em tópicos específicos a eles. 
TEMA 1 – DEFININDO TEMPO 
Este tópico consiste em um procedimento basilar quando estamos 
tratando de um assunto com elevada carga de abstração, como é o caso do 
tempo. Pode parecer simples e até mesmo banal responder à pergunta “o que é 
tempo?”, mas a verdade é que se trata de um assunto muito mais complexo e 
diversificado do que se pode imaginar. A partir do momento em que paramos 
para refletir e raciocinar sobre o tempo, percebemos que não é simples definir 
sua manifestação e constituição, algo que podemos constatar quando 
observamos a mudança da percepção acerca do tempo ao longo da história. 
Desse modo, o presente tópico tem por intuito estabelecer os parâmetros 
fundamentais do que configura o tempo, especialmente por meio das 
formulações de físicos como Isaac Newton e Albert Einstein. 
1.1 O que é tempo? 
Não é incomum, no nosso dia a dia, encontrarmos inúmeras 
representações daquilo que entendemos como tempo. Desde que acordamos e 
iniciamos nosso dia, o tempo se faz presente com as horas estampadas no 
relógio ou nos aparelhos celulares. Nos jornais, quando presenciamos as 
informações sobre a previsão meteorológica, estamos diante de outra 
representação do tempo, desta vez associada à natureza, ou seja, ao tempo da 
natureza. Isso nos leva à sensação de que o tempo é, de fato, algo multiforme, 
plural em sua essência. Contudo, podemos dizer que essa afirmação envolvendo 
a pluralidade do tempo é, simultaneamente, equivocada e correta. 
 
 
3 
Julio Aróstegui (2006) estabeleceu algumas das principais considerações 
acerca dessa temática. Segundo o autor, o homem, por ser um animal social, é 
o único ser vivo capaz tanto de fazer parte do tempo da natureza como também 
de fabricar seu próprio tempo. Isso não deve nos mobilizar, entretanto, a 
estabelecer uma espécie de dicotomia acerca do tempo, dividindo-o entre tempo 
físico e tempo social, sendo o primeiro relacionado a algo externo ao homem 
enquanto o segundo está diretamente relacionado à ação humana. 
Originalmente essa divisão passou a ser comum nos discursos de 
eruditos que se baseavam na concepção de tempo elaborada por Isaac Newton 
de que o tempo seria absoluto, ou seja, correspondia a um fluxo externo no qual 
o ser humano estaria inserido. Aróstegui (2006) nos explica, contudo, que essa 
definição fora contestada desde o século XIX por filósofos como Ernst Mach, 
mas ganharia novos contornos com a proposição de Albert Einstein e a teoria da 
relatividade. De acordo com Aróstegui, o tempo para Einstein consistia não no 
fluxo onde os fatos eram produzidos e se desenvolviam, mas sim correspondia 
a uma “dimensão das próprias coisas” (Aróstegui, 2006, p. 276). Isto é, trata-se 
de uma perspectiva que coloca no movimento a chave de entendimento do 
tempo e sua mudança. 
Ora, se a física hoje trata do tempo como algo relativo e não absoluto, não 
se pode dizer que a história também não tenha alterado sua percepção acerca 
do tempo. Porém, por terem pressupostos e preocupações distintas entre si, a 
percepção da história acerca do tempo passou a estar relacionada à mudança 
de acordo com um momento anterior e posterior. Nos termos de Aróstegui: 
O verdadeiro tempo da história é, pois, aquele que se mede em 
mudança frente à duração. [...] que em princípio é possível medir e que 
nas realidades sócio-históricas é um ingrediente essencial ‘interno’ à 
sua identidade, pois tais realidades não ficam inteiramente 
determinadas em sua materialidade se não são remetidas a uma 
posição temporal. (Aróstegui, 2006, p. 287-288) 
TEMA 2 – HISTORICIZANDO O TEMPO 
Apesar de serem ciências distintas entre si, física e história compartilham 
algumas das reflexões filosóficas acerca de seus objetos, e entre elas está a 
sobre o tempo. Como vimos, os desenvolvimentos desde Isaac Newton até 
Albert Einstein configuraram pressupostos interessantes a respeito do tempo, e 
o que veríamos em relação às discussões dos historiadores corresponderia ao 
 
 
4 
aprofundamento da especificidade do tempo trabalhado pelo historiador, isto é, 
na configuração de um tempo histórico. 
2.1 Tempo histórico 
Trazer à tona as características que compõem o chamado tempo histórico 
requer que façamos um movimento em direção à historicização do tempo. Isso 
significa que, apesar da categoria “tempo” ser mobilizada e utilizada por outras 
ciências, é preciso estabelecer aqueles elementos que melhor definem o tempo 
e lhe conferem um estado fundamental no estudo histórico. Julio Aróstegui 
(2006) afirmou que toda e qualquer sociedade é uma sociedade com tempo, o 
que implica dizer que, a partir do momento em que um historiador se dirige a 
estudar uma sociedade, ele apreende não apenas conhecimento histórico 
acerca dela, como também conhecimento acerca da temporalidade. 
Leandro Duarte Rust, durante uma extensa explanação das perspectivas 
dominantes acerca do tempo entre historiadores medievalistas, colocou-se de 
forma contrária à noção de tempo “como exterior ao ser”, destacando que “o 
tempo, como realidade humana, deveria ser encarado como um complexo fato 
de experiência social” (Rust, 2011, p. 55). Essa experiência se manifesta de 
distintas formas, mas, independentemente de suas variedades, sempre ocorre 
uma relação dialética entre passado, presente e futuro. 
Luis Artur Costa e Tânia Mara Galli Fonseca (2007) ressaltaram a 
mutabilidade do tempo apresentando algumas possibilidades de sua 
identificação. Entre elas, estaria o tempo cíclico, definido como partindo de uma 
noção ancorada na repetição, promovida pela sucessão das gerações, das 
tradições de uma dada sociedade, transmitidas pela oralidade. Ainda seguindo 
as propostas dos autores (2007), podemos também falar de um tempo linear, 
sustentado não na repetição, mas no acúmulo de informações. Em uma palavra: 
Tal finalidade do tempo [linear] pode ser finita ou infinita, laica ou 
religiosa, catastrófica degradante ou salvadora edificante; mas sempre 
é uma flecha afirmando uma teleologia, a qual se relaciona com a 
eternidade enquanto algo externo a esta linha, mesmo que possa estar 
marcando suas extremidades. (Costa; Fonseca, 2007, p. 113) 
As manifestações do tempo histórico estão intimamente relacionadas com 
a ação dos homens e das mulheres no tempo, construindo uma dualidade que 
Jörn Rüsen definiu como parte da tomada de (ou elaboração) da consciência 
histórica, sendo esta guiada “pela intenção de dominar o tempo que é 
 
 
5 
experimentado pelo homem como ameaça de perder-se na transformação do 
mundo e dele mesmo” (Rüsen, 2001, p. 60). Essas questões tratadas por Rüsen 
serão melhor debatidas no terceiro tópico, mas serve-nos aqui para que 
possamos entender que o tempo histórico reflete uma ação do homem com o 
tempo na realidade em que vive. 
2.2 Tempo e espaço 
Se não há dúvida de que a história é a ciência que busca estudar e 
compreender as relações dos homens ao longo do tempo, para recordarmos a 
máxima de Marc Bloch, também é preciso acrescentar que são analisadas as 
relações dos homens ao longo do tempo e do espaço. Esta definição já fora 
mencionada por José D’Assunção Barros (2006), que explicitou a noção de 
espaço “como lugar quese estabelece na materialidade física, como campo que 
é gerado através das relações sociais, ou como realidade que se vê estabelecida 
imaginariamente em resposta aos dois fatores anteriores” (Barros, 2006, p. 462). 
Segundo Ciro Flamarion Santana Cardoso (2005), há a possibilidade de 
a perspectiva espacial ter sido anterior, em sentido de tomada de consciência, 
em relação à temporal nas sociedades humanas. O autor parte de exemplos que 
remontam a povos antigos, como os do Egito Antigo ou os sumérios, que teriam 
espacializado o tempo, mas ainda indica que na nossa língua portuguesa isso 
também ocorre. Nas palavras de Cardoso, “qualificamos em português o tempo 
como ‘curto’ ou ‘longo’, isto é, com um vocabulário espacial” (2005, p. 12). 
A própria definição do tempo para Einstein, que comentamos 
anteriormente, entendida como uma das dimensões da realidade, “não pode ser 
concebida independentemente da de espaço”, como bem destacou Julio 
Aróstegui (Aróstegui, 2006, p. 277). Um exemplo bastante elucidativo dessa 
relação imbricada entre tempo e espaço foi exposto por Barros (2006). Em 
situações de guerra envolvendo o mar Mediterrâneo – região primorosamente 
estudada por Fernand Braudel –, durante o verão, a prática militar transcorria 
normalmente. Contudo, durante o inverno, a forte movimentação do mar 
dificultava o deslocamento das embarcações com sua tripulação de guerreiros, 
o que tornava a estação propícia para o estabelecimento de tréguas e, assim, a 
pausa nos conflitos militares. Em resumo, e trazendo à tona a definição de 
Barros, “o Clima (um aspecto físico do meio geográfico) reconfigura o Espaço, e 
 
 
6 
este redefine o ritmo de tempos em que se desenrolam as ações humanas. 
Espaço, Tempo e Homem” (2006, p. 469). 
TEMA 3 – DESTRINCHANDO O TEMPO HISTÓRICO 
Tendo definido as principais orientações da constituição do tempo, 
especialmente do tempo histórico, que nos é mais importante aqui, é preciso que 
sigamos agora para o desmembramento do tempo no sentido de compreender 
seus usos pelos seres humanos. Não se trata aqui de nos referirmos à 
materialização do tempo em objetos como relógios ou quaisquer outros 
aparelhos que nos indicam as horas, mas sim de como os homens e as mulheres 
se valem do tempo como fator importante no processo de conhecimento e 
experiência da realidade em que estão inseridos. Nesse sentido, será necessário 
explicitar duas perspectivas: a primeira, dos regimes de historicidade de François 
Hartog; a segunda, da relação entre passado, presente e futuro segundo 
Reinhart Koselleck. 
3.1 Regimes de historicidade 
A proposta de François Hartog que explicitaremos aqui não está separada 
no sentido de ser oposta às ideias de Reinhart Koselleck, mas optamos por tratá-
las separadamente com o intuito de facilitar a compreensão de ambas as 
perspectivas, uma vez que a proposta de Hartog se valeu de muitas das 
reflexões de Koselleck. 
Nesse sentido, o que significa regime de historicidade? De acordo com 
Hartog (2013), o conceito de regime de historicidade corresponde a uma 
ferramenta de cunho heurístico que auxilia o historiador a compreender os 
“momentos de crise do tempo” (p. 37). Isto é, trata-se de analisar não como os 
diferentes tempos (passado, presente e futuro) são pensados em um dado 
momento histórico, mas sim como o homem se relaciona com o tempo em um 
dado período. 
O autor estabelece que esse conceito seria capaz de possibilitar ao 
historiador vislumbrar a consciência de uma dada sociedade acerca de si mesma 
no tempo, o que varia de acordo com os períodos históricos. Por exemplo, 
durante a Antiguidade, as relações se davam por uma priorização do tempo 
passado, como pudemos ver no conteúdo a respeito da noção de história mestra 
 
 
7 
da vida manifesta por autores como Marco Túlio Cícero, ou seja, um regime de 
historicidade passadista. 
Os avanços de François Hartog foram importantes na percepção acerca 
do tempo em nossa sociedade. De acordo com Ciro Flamarion Santana Cardoso, 
após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o mundo passou “ao abandono 
da crença num tempo orientado e na noção de progresso”, perspectiva seguida 
até então desde a Revolução Francesa em 1789 (Cardoso, 2005, p. 21). Com a 
consciência da destruição e do massacre que o homem poderia causar a si 
mesmo manifestada pelas duas grandes guerras, a noção de progresso, 
portanto orientada por uma perspectiva que prioriza o futuro, acabou 
abandonada, da mesma forma que o passado como norteador havia sido 
abandonado com o advento da Revolução Francesa. 
Sendo assim, a experiência temporal predominante atualmente consistiria 
na que prioriza o presente, também conhecida por presentista ou presentismo. 
Hartog (2013), no entanto, estabelece que o momento de ruptura teria se 
concretizado em torno da queda do muro de Berlim e do fim da Guerra Fria, no 
fim do século XX. Para o autor, a possibilidade de ação somente poderia ser 
efetiva como transformação social se ocorresse no presente e estivesse 
orientada para o próprio presente, e não mais para o futuro. Dessa forma, Hartog 
argumenta que o fim do século XX teria lhe aparentado que “o crescimento 
rápido da categoria do presente” chegou ao nível de ser possível afirmar que o 
“presente [se tornou] onipresente” (Hartog, 2013, p. 26). 
3.2 Koselleck e o horizonte de expectativa 
Partindo das considerações sobre o tempo e a história, Reinhart Koselleck 
(2006) trouxe à tona uma nova perspectiva acerca da constituição do tempo 
histórico. Sua perspectiva gira em torno da vivência humana no presente acerca 
do passado e futuro, no sentido de como as relações sociais se constroem em 
conjunto com a formulação do tempo. Julio Aróstegui (2006) explica que a 
proposta de Koselleck compreende que as relações humanas estão em 
constante movimento dentro do tempo da história, tempo este que “não se 
entende senão a partir da tensão em direção ao futuro” (Aróstegui, 2006, p. 283-
284). 
A articulação do pensamento de Koselleck sobre o tempo consiste em um 
duplo movimento realizado entre o que chama de campo de experiência ou 
 
 
8 
espaço de experiência e horizonte de expectativa. O primeiro consiste, segundo 
o autor (2006), nos eventos passados que se manifestam no presente de alguma 
maneira, seja por meio de um dado comportamento assumido por uma 
sociedade ou um indivíduo, seja por meio da rememoração. Já o segundo, por 
sua vez, consiste em uma espécie de previsão acerca do porvir que interfere nas 
ações do presente, o qual se supõe, nesse sentido, como uma etapa anterior ao 
futuro esperado. 
Pode-se dizer que o futuro é entendido por Koselleck como pensado por 
meio de um prognóstico, justamente esse processo de construção do horizonte 
de expectativa. Buscando simplificar essas questões um tanto abstratas, 
Koselleck afirma que: “O prognóstico é um momento consciente de ação política. 
Ele está relacionado a eventos cujo ineditismo ele próprio libera” (Koselleck, 
2006, p. 32). Isso significa que o tempo histórico constitui uma elaboração fruto 
das relações sociais, o que implica dizer, portanto, que o “prognóstico produz o 
tempo” (Koselleck, 2006, p. 32). Obviamente essa percepção do futuro nem 
sempre fora dessa maneira. Em períodos históricos, como o da Idade Média, as 
previsões (geralmente de cunho apocalíptico) dominavam as expectativas, 
moldando um futuro totalmente previsível, ainda que sem que se soubesse 
quando ocorreria. Ao contrário do prognóstico moderno, fruto da dominação, 
segundo Koselleck, do Estado moderno sobre a manipulação do futuro, a 
expectativa do futuro é sempre construída como possibilidade de ocorrência, 
nunca como certeza. 
Portanto, o que nos interessa em relação aos pressupostos de Koselleck 
é como o tempo é fruto de uma elaboração humana feita no presente que 
mobiliza tanto referências do passado quanto do futuro para construir uma 
perspectiva acercadeste último. 
TEMA 4 – O PECADO MORTAL DO HISTORIADOR 
Vimos até então como o tempo está articulado à vida humana, seja em 
termos naturais, seja como construção social. Contudo, o que expomos até então 
consiste em uma constatação acerca da vida de homens e mulheres, 
independentemente de suas práticas profissionais. Cabe agora discutir como o 
tempo influencia a análise do historiador sobre seu objeto de pesquisa, 
delimitando as questões mais fundamentais a respeito da pesquisa histórica. 
 
 
9 
Neste tópico, discutiremos aquilo que todo historiador deve evitar: o 
anacronismo. 
4.1 Anacronismo 
Tratar do tempo é uma tarefa de que todo e qualquer historiador não pode 
fugir. Independentemente da época que esteja analisando, o pesquisador 
precisa ter a consciência de que múltiplas temporalidades estão em constante 
interação, tanto no que diz respeito ao período em questão quando em relação 
à prática historiográfica, isto é, que envolve a temporalidade do objeto e a 
temporalidade do historiador. 
Nem sempre isso é tão claro quanto parece, ainda que os historiadores 
estejam, de certa forma, bem “vacinados” contra o mal que trataremos aqui. 
Referimo-nos ao anacronismo, que Antonio Fontoura definiu de forma clara e 
objetiva como a avaliação “de um determinado período histórico com base nas 
concepções de outro” (Fontoura, 2016, p. 139). Geralmente essa perspectiva 
gira em torno de uma linha de raciocínio que envolve o presente do historiador, 
promovendo interpretações de períodos históricos passados pautados em 
significados comuns em seu tempo que não condizem com a época que está 
estudando. 
Trata-se da naturalização dos significados comuns da realidade do 
historiador como sendo comuns a todas as temporalidades. Considerar que há 
significados atemporais consistiria em um grave erro na análise histórica, 
comprometendo a compreensão de qualquer fenômeno que se pretenda estudar 
de forma mais aprofundada. Recordando as palavras precisas e claras de 
Fontoura: “A atemporalidade é, tecnicamente, uma espécie de anacronismo [...], 
pois é incapaz de conceber diferenças temporais e iguala todas as pessoas, de 
todas as épocas, com base em valores do presente” (Fontoura, 2016, p. 121). 
Um caso de anacronismo na história foi apresentado por Márcia Naomi 
Kuniochi (2004), que abordou a percepção a respeito da vida de Irineu 
Evangelista de Souza, conhecido como Barão de Mauá, por meio das obras 
escritas fundamentalmente no século XX, incluindo tanto biografias quanto 
historiografias. Sua investigação pode concluir que há distintas percepções 
acerca do barão que são condicionadas à situação em que os escritores estavam 
vivendo, por vezes o associando como especulador do setor financeiro e, em 
outros momentos, colocando-o como grande investidor de obras de 
 
 
10 
infraestrutura. De acordo com Kuniochi (2004), essa inconstância da imagem do 
Barão de Mauá está associada às ações diversas deste no plano dos negócios 
brasileiros durante o século XX. Nas palavras da autora, as visões anacrônicas 
acerca do barão manifestadas pela historiografia poderiam ser “reflexo[s] de um 
desconhecimento da história dos negócios no Rio de Janeiro e no país, em 
meados do século XIX. No momento em que a paisagem de fundo estiver 
definida, seus personagens poderão ser vistos com maior nitidez” (Kuniochi, 
2004, p. 166). 
TEMA 5 – O TEMPO NAS ANÁLISES HISTORIOGRÁFICAS 
Definido o que o historiador não deve fazer no trabalho historiográfico, 
explicitado pelo anacronismo, é o momento de trazermos à tona a aplicação do 
tempo no fazer historiográfico. Nesse sentido, cabe aqui destacar especialmente 
os avanços de Fernand Braudel com suas perspectivas acerca dos tempos curto, 
médio e longo. Portanto, o presente tópico busca debater as questões 
envolvendo as temporalidades históricas em duas direções: a primeira diz 
respeito ao que consiste na primazia do tempo longo exposta por Braudel em 
relação aos demais tempos; a segunda consiste na possibilidade do historiador 
de analisar um determinado fenômeno, de forma sincrônica, diacrônica, ou 
mesmo um trabalho de maior fôlego conjugando sincronia e diacronia. 
5.1 Os tempos de Fernand Braudel 
Como vimos anteriormente, as concepções acerca da história mudaram 
ao longo dos séculos, mais especialmente a partir da virada do século XIX para 
o XX. Dentre as diversas mudanças, uma se destacou, como bem ressaltou 
Antonio Fontoura (2016): a ruptura com uma história orientada pelo 
acontecimento. A história focada em acontecimentos, em eventos de grandes 
personagens, não mais orientava os estudos históricos como aquelas que 
melhor explicavam as relações dos homens no tempo e no espaço. 
Fernand Braudel (1965) destacou que a história dos metódicos, 
concentrada e articulada nos acontecimentos, priorizava o que chamou de tempo 
breve, um esforço em analisar um fenômeno de alcance extremamente 
circunscrito e curto. No entanto, na visão de Braudel, ater-se ao acontecimento 
não nos proveria a compreensão de um fenômeno histórico pelo fato de este 
 
 
11 
estar sujeito a elementos dispostos em uma duração maior. Dito de outro modo, 
“o acontecimento é explosivo [...]. Com sua fumaça excessiva, ele enche a 
consciência dos contemporâneos, mas não dura muito, mal se vê sua chama” 
(Braudel, 1965, p. 264). Isso significa que o acontecimento mobiliza os 
contemporâneos a ele de forma que ofusca a compreensão da constituição 
daquele acontecimento. 
De acordo com Braudel (1965), somente conseguiríamos compreender os 
fenômenos históricos em toda sua amplitude se partíssemos ao estudo da longa 
duração. Nesse sentido, torna-se imprescindível a categoria de estrutura, que, 
como define Braudel: “Para nós historiadores, uma estrutura é, sem dúvida, um 
conjunto, uma arquitetura, mas é mais ainda uma realidade que o tempo usa mal 
e veicula demoradamente” (Braudel, 1965, p. 268). Essas estruturas, passíveis 
de apreensão por intermédio do estudo orientado pela longa duração, 
manifestariam tanto exemplos difíceis de serem rompidos ao longo do tempo 
quanto outros mais duradouros, o que significa dizer que a mudança ocorre, mas 
de forma lenta. Podemos citar como exemplo de estrutura mais duradoura o 
pensamento machista ainda predominante na sociedade brasileira, o qual, ainda 
que venha sendo combatido nos últimos anos, ainda é característico da 
mentalidade de nossa sociedade. 
Em suma, podemos afirmar que a perspectiva de Fernand Braudel das 
três durações corresponderia ao seguinte esquema: 
 
• Consiste no tempo de curta duração,
geralmente associado aos
acontecimentos (como um desastre
natural, um incêndio etc.) e vistos por
Braudel como passíveis de ilusão.
Tempo 
breve
• Consiste no tempo de duração média,
associado geralmente a um ciclo ou uma
conjuntura que transcorre ao longo de
algumas décadas, a depender do objeto
de pesquisa.
Tempo 
médio
• Consiste no tempo de duração longa
(séculos, milênios), em que a
organização é feita por meio da estrutura,
e, portanto, seria mais confiável por
mostrar os elementos mais profundos do
objeto no tempo.
Tempo 
longo
 
 
12 
5.2 Sincronia e diacronia 
Se as temporalidades foram definidas por Fernand Braudel como 
representadas pelos tempos longo, médio e breve, de que maneira o estudo 
histórico se beneficiaria de sua articulação? Embora garantisse uma condição 
especial à longa duração, Braudel (1965) deixava clara a necessidade de uma 
dialética da duração, ou seja, associando na pesquisa histórica os três tempos 
que havia definido para compreender o fenômeno estudado. Como destacou 
Peter Burke acerca da obra de Braudel, O Mediterrâneo e o mundo mediterrâneo 
na época de Filipe II, “permanece uma conquista pessoal de Braudel combinar 
um estudo de longa duração com o de uma complexa interação entre o meio, a 
economia, a sociedade, a política, a cultura e [também] os acontecimentos” 
(Burke,1992, p. 73). 
A elaboração da perspectiva braudeliana se dirigiu especialmente à crítica 
de Claude Lévi-Strauss à história proferida em suas obras no fim da década de 
1940 e ao longo da década de 1950. De acordo com José Eustáquio Ribeiro, a 
argumentação de Braudel pretendia dar 
[...] uma resposta às críticas que as demais ciências sociais faziam à 
história, especialmente as partidas de Lévi-Strauss, que entendiam 
que a história, para ser científica, necessitava abandonar o seu próprio 
solo, a temporalidade, por isso afirmar as continuidades resistentes, 
mas não carentes, ao tempo. (Ribeiro, 2009, p. 111) 
Isso significa que, para Braudel, há a necessidade de romper com a noção 
de um estudo que priorize a análise sincrônica, com sincronia significando, 
conforme explicou Antonio Fontoura (2016), a análise contextual de algo que 
ocorre ao mesmo tempo, pois “não pode haver sincronia perfeita: uma parada 
instantânea, suspendendo todas as durações, é quase absurda, ou, o que dá no 
mesmo, muito factícia” (Braudel, 1965, p. 277). Por tal razão, Ribeiro constata 
que Braudel não pode ser visto como 
[...] um estruturalista formalista, pois não se contenta com formas 
estruturais plásticas capazes de explicar qualquer realidade particular, 
como em Lévi-Strauss. Sua postura está em aprisionar nas estruturas 
os acontecimentos e os conjuntos, que são cognoscíveis 
empiricamente por meio de procedimentos metodológicos, pois 
acontecimentos e conjuntos são determinados pelas estruturas. 
Conhecendo-os é possível vislumbrar as estruturas que os costuram. 
(Ribeiro, 2009, p. 110) 
Podemos concluir, assim, que para Braudel a análise sincrônica deve ser 
conjugada com a análise diacrônica se quisermos ter o entendimento acerca dos 
 
 
13 
fenômenos históricos ao longo do tempo e do espaço. Em uma palavra, o 
contexto (sincronia) não pode ser isolado do processo ao longo do tempo 
(diacronia), o que envolve o historiador em uma multiplicidade de tempos que 
não se esgotam nas três definições de Braudel, mas que foram assim definidos 
como forma de simplificar a análise histórica que lhe parecia mais adequada. 
NA PRÁTICA 
Com base no que foi discutido nesta etapa, analise com atenção o quadro 
a seguir intitulado A batalha de Alexandre, pintado em 1529 pelo pintor alemão 
Albrecht Altdorfer, que retrata a batalha de Isso, de 333 a.C., em que Alexandre, 
o Grande, obteve uma importante vitória contra o monarca persa Dário III. Então, 
responda às seguintes questões: Como o tempo é representado nesse quadro? 
Há uma representação das figuras em questão que condizem com a época a 
que a obra faz referência? Caso ache necessário, consulte Capítulo 1 do livro de 
Reinhart Koselleck (2006) indicado ao fim, na seção Referências. 
 
Crédito: A Biblioteca De Arte Bridgeman/CC/PD. 
FINALIZANDO 
Vimos ao longo desta etapa como o conceito de tempo foi formulado, 
pensado e debatido entre os pesquisadores, desde suas concepções advindas 
 
 
14 
da física até os desdobramentos desenvolvidos pelos historiadores. 
Percorremos as formulações constitutivas do tempo histórico e sua manifestação 
na vida dos homens e das mulheres, assim como também tentamos evidenciar 
a presença do tempo no fazer historiográfico. Neste sentido, foi delineado o que 
configura o anacronismo, o maior equívoco que um historiador pode cometer em 
sua análise, assim como também buscamos apresentar de forma clara e objetiva 
a influência das proposições de Fernand Braudel com suas três dimensões da 
duração, isto é, os tempos longo, médio e breve. 
 
 
 
15 
REFERÊNCIAS 
ARÓSTEGUI, J. A pesquisa histórica: teoria e método. Bauru: Edusc, 2006. 
BARROS, J. D. História, espaço e tempo: interações necessárias. Varia 
História, v. 22, n. 36, 2006, p. 460-476. 
BRAUDEL, F. História e ciências sociais: a longa duração. Revista de História, 
v. 30, n. 62, 1965, p. 261-294. 
BURKE, P. A Revolução Francesa da historiografia: a Escola dos Annales 
(1929-1989). 2. ed. São Paulo: UNESP, 1992. 
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