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· ÉTICA NA SUPERVISÃO PSICANALITICA. · PROFESSORA: ANA MARIA DOS SANTOS. CURSO LIVRE DE FORMAÇÃO EM PSICANALÍSE DIDATA. Curso Disciplina Pré-Requisito PSICANALISE DIDATA ÉTICA PSICANÁLITICA NA SUPERVISÃO Carga horária Professor Crédito Período Letivo 30 h Ana Maria dos Santos 04 25/05/2024 EMENTA: Fundamentos da Ética Psicanalítica na supervisão, definição de ética e sua relação com a supervisão, a importância de psicanalisar-se, o que nos interroga a supervisão, destacando a influência de Freud e Lacan. PROGRAMA DE DISCIPLINA Objetivo geral: 1. Proporcionar ao aluno, profissional da Psicanálise Clínica, conhecimento básicos e específicos no campo da Ética e supervisão no curso de Psicanálise Didata. 1. Despertar no aluno o interesse pela ética no campo da docência e supervisão de seus analisando contribuir com a valorização da ética no caráter profissional, respeitando o outro na figura do analisando. CONTEÚDO PROGRAMÁTICO: Introdução, Ética e supervisão, reflexões sobre a ética na supervisão em psicanalise; Aspectos éticos da prática da supervisão; Questão da avaliação “Quando fala um analista”; O que nos interroga a supervisão. METODOLOGIA: Leitura de texto, apresentação de slide, atividade individual ou em grupo, análises de vídeos ou filmes e caso clínico. RECURSO: Data show, Textos e Slide e som AVALIAÇÃO: Através de frequência, participação, atividade escrita, oral ou trabalho em grupo, síntese do vídeo ou filme e análise do caso clínico. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA: Associação Psicanalítica de Porto Alegre (2005) Onde fala o analista. Porto Alegre, Appoa, n º 29. , S (1976[1918]) Linhas de progresso na terapia psicanalítica. Rio de Janeiro, Imago, vol XVII. BITONDI, F.R. & Setem, J. (2007). A importância das habilidades terapêuticas e da supervisão clínica: Uma revisão de conceitos. Revista Uniara, 20, 203-213. DARRIBA, V.A. (2011). O lugar do saber na psicanálise e na universidade e seus efeitos na experiência do estágio nas clínicas-escola. Agora, 14 (2), 293-306 FERENCZI, Sándor. Obras completas – psicanálise IV. São Paulo: Martins Fontes, 1992. FERREIRA, Aurélio B. de H. Novo dicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975. FONTOURA, L. L. (2007) “Supervisão: alterização de uma escuta.” em Falando Nisso – Informativo da Clínica de Psicologia da UNIJUÍ. Ijuí, ano 7, nº 29, maio-junho. GAGEIRO, A. M. (2005) “A prática da supervisão: uma breve história” em Correio da Appoa, (1992). O seminário, livro 17 – O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro, Jorge Zahar. _______ (2005). O seminário, livro 10 – A angústia. Rio de Janeiro, Jorge Zahar. PADILHA, M.T.M. (2005). Supervisão: O ato da palavra. Estudos de Psicanálise, 28, 103-110. PERES, Urânia T. Mosaico de letras: ensaios de psicanálise. Rio de Janeiro: Escuta, 1999. PINHEIRO, N.N.B. & Darriba, V.A. (2010). A clínica psicanalítica na universidade: Reflexões a partir do trabalho de supervisão. Psicologia Clínica, 22 (2), 45-55. PEREIRA, R. “O que é um psicanalista ou observações a respeito da instituição como terceiro” em Associação Psicanalítica de Porto Alegre (1998) Ato e interpretação. Porto Alegre, Appoa, n14. VALABREGA, J-P. A formação do psicanalista. São Paulo: Martins Fontes, 1983. Colocar todas as referências juntos a essas. · ÉTICA PSICANALÍTICA NA SUPERVISÃO · INTRODUÇÃO Foi com muita satisfação que resolvi organizar essa disciplina para o curso de Psicanálise Didata. Bem, aproveitando-me do meu interesse por essa disciplina, desde da época que cursei o curso de Formação em Psicanálise, a alguns anos atrás, sempre busquei compreender e entender a importância da ética em minha profissão, buscando levá-la a sério em minha vida pessoal e profissional. Então, uma trajetória pela psicanálise, a qual, institucionalmente, vem se dando no âmbito das aulas dadas no Curso Livre de Formação em Psicanálise Clínica, do Instituto Logos. Certamente também o fato de há cerca de quinze anos atuar na Clínica de Atendimento Psicanalítico, como desdobramento dessa dupla inserção, me tornei membro da ABRATH, Sindicato Nacional e Internacional de Terapeutas Holísticos do Brasil. Atendendo alunos na supervisão de estágios, já algum tempo e desde essa posição, atravessado pelos ensinos de Freud e outros autores, vou tentar trazer algumas considerações sobre o tema em questão. Preciso advertir que, mesmo reconhecendo que a elaboração sobre a ética tenha longa tradição na cultura, principalmente na filosofia (no mínimo desde Aristóteles, passando por Kant, etc), não tomarei essa linha de elaboração. Não é uma área na qual me arriscaria a incursionar. Na própria psicanálise, também deve ocorrer imediatamente a qualquer pessoa minimamente informada, o caminho proposto por Lacan a partir de seu sétimo seminário, denominado exatamente de “A ética na psicanálise”. Mesmo que não os tenha como desconsiderar – pois certamente seria difícil escapar dessas produções na medida em que já estão ‘entranhadas’ na cultura, em particular na produção psicanalítica – na abordagem que farei não as tomarei explicitamente. Procurarei servir-me de alguns caminhos que recentemente tenho trilhado, deixando claro que entendo que qualquer que fosse o rumo escolhido, como Lacan tão bem explicita no Seminário XVII, sempre seria uma abordagem parcial: “Se há algo que toda a nossa abordagem delimita que seguramente foi renovado pela experiência analítica, é justamente que nenhuma evocação da verdade pode ser feita se não for para indicar que ela só é acessível por um semi-dizer, que ela não pode ser inteiramente dita porque, para além de sua metade, não há nada a dizer. Tudo o que se pode dizer é isto. Aqui, por conseguinte, o discurso se abole. Não se fala do indizível, por mais prazer que isto pareça dar a alguns.” (Lacan, 1992, p. 49) Então tomarei, mais simplesmente, o seguinte ponto de partida: ‘Ética’ remete, necessariamente, a uma ação, ao movimento descrito por Freud, no qual, ‘só depois’, por suas consequências, é que podemos buscar deduzir de onde esse mesmo movimento foi produzido. Ademais, em psicanálise, o acesso à ‘verdade’ – inconsciente – sempre é um vislumbre. Trata-se, então, de ver se fomos éticos ou não pelos desdobramentos de nossos atos (de onde pode ser deduzido qual é nosso desejo inconsciente, para não deixarmos de lado o colocado no referido Seminário 7 de Lacan). Isso não concerne à moral. Esta remeteria a alguma norma de senso comum, a um ‘a priori’ qualquer, a um ideal previamente dado. Mais um elemento a acrescentar: Ética remeteria a uma posição, sempre singular, desde onde nos situamos, a um lugar. Nesse sentido, não foi gratuito ter iniciado o texto buscando situar algo sobre a minha posição. Vamos então buscar ‘cercar o assunto’. Para isso, nada melhor para começar do que fazê-lo na ilustre companhia de Freud, quando este interveio no “Quinto Congresso Psicanalítico Internacional”, no ano de 1918, em Budapeste. Trata-se do que podemos acompanhar no texto “Linhas de progresso na terapia psicanalítica”, publicado no ano seguinte e que consta na Edição Standard, da Imago, no volume XVII (pedindo desde já desculpas por algumas infelizes escolhas terminológicas que se encontram nessa tradução). Está-se aqui em pleno final da Primeira Guerra Mundial e, por outro lado, é o importante momento em que se gestava o giro na obra freudiana, que se daria em torno do texto o “Além do Princípio do Prazer”. Mas também era um tempo em que o esforço inicial pela consolidação e reconhecimento da psicanálise já havia sido feito, a estruturação de um primeiro núcleo teórico fora constituída, as primeiras gerações de analistas já tinham sido formadas, o que levou tanto à própria constituição da IPA e a seus Congressos, como às primeiras dissidências. É nesse contexto que Freud propõe vislumbrar um mundo futuro, no qual a psicanálise pudesse ambicionar ser estendida a uma gama maior de pessoas. “Somos apenas um pequenogrupo e, mesmo trabalhando muito, cada um pode dedicar-se, num ano, somente a um pequeno número de pacientes. Comparada à enorme quantidade de miséria neurótica que existe no mundo. Talvez não precisasse existir, a quantidade que podemos resolver é quase desprezível. Ademais, as nossas necessidades de sobrevivência limitam o nosso trabalho às classes abastadas, que estão acostumadas a escolher seus próprios médicos e cuja escolha se desvia da psicanálise por toda espécie de preconceitos. Presentemente nada podemos fazer pelas camadas sociais mais amplas, que sofrem de neuroses de maneira extremamente grave.” (Freud, 1976[1919], p. 209). Para isso seria preciso pensar em uma nova forma de organização: “Vamos presumir que, por meio de algum tipo de organização, consigamos aumentar os nossos números em medida suficiente para tratar uma considerável massa da população. Por outro lado, é possível prever que, mais cedo ou mais tarde, a consciência da sociedade despertará, e lembrar-se-á de que o pobre tem exatamente tanto direito a uma assistência à sua mente, quanto o tem, agora, à ajuda oferecida pela cirurgia, e de que as neuroses ameaçam a saúde não menos do que a tuberculose, de que, como esta, também não podem ser deixadas aos cuidados impotentes de membros individuais da comunidade. Quando isto acontecer, haverá instituições ou clínicas de pacientes externos, para as quais serão designados médicos analiticamente preparados,” (Freud, 1976[1919], p. 210) É nesse contexto que surge a sempre lembrada referência à fusão do ‘ouro puro da análise, ao cobre da sugestão. Podemos perceber aqui um raro momento em que Freud, tão apegado ao rigor em tudo o que concerne à psicanálise, cogita acerca da possibilidade de precisar vir a transigir (trocando o ‘ouro puro’ pelo ‘cobre’. “Defrontar-nos-emos, então, com a tarefa de adaptar a nossa técnica às novas condições. Não tenho dúvida de que a validade das nossas hipóteses psicológicas causará uma boa impressão também sobre as pessoas pouco instruídas, mas precisaremos buscar as formas mais simples e mais facilmente inteligíveis de expressar as nossas doutrinas teóricas... Muitas vezes, talvez, só poderemos conseguir alguma coisa combinando a assistência mental com certo apoio material, É muito provável, também, que a aplicação em larga escala da nossa terapia nos force a fundir o ouro puro da análise livre com o cobre da sugestão direta;.. No entanto, qualquer que seja a forma que essa psicoterapia para o povo possa assumir, quaisquer que sejam os elementos dos quais se componha, os seus ingredientes mais efetivos e mais importantes continuarão a ser, certamente, aqueles tomados à psicanálise estrita e não tendenciosa.” (Freud, 1976[1919], p. 210-11) Em termos institucionais, é interessante referir, esse movimento acabou levando a uma tentativa pioneira: o ‘Instituto de Berlim’. O objetivo dessa instituição foi exatamente atender camadas mais amplas e menos abastadas da população, através de atendimentos gratuitos (financiados pelos responsáveis pelo Instituto, sendo Max Eitingon um dos principais); e, ao mesmo tempo, estender a formação a um número maior de analistas. Aqui a questão ética começa a se colocar. A formação pautada por uma busca de normatividade, através de um ensino seriado, pré-estabelecido, e da obrigatoriedade da análise didática, é marca dessa experiência (Gageiro, 2005) e vem a alimentar parte importante dos questionamentos que Lacan reiteradamente fez a partir da década de 50 do século passado às práticas da IPA. Assim, podemos dizer, essa proposta, tão plena de nobres e boas intenções, pecaria por ter sido situada em uma perspectiva mais moral do que ética, buscando atingir o ideal de uma extensão da psicanálise, seja aos pacientes, seja a candidatos a uma formação, por intermédio de uma espécie de pragmatismo simplificador. Isso nos mostra que não é fácil escapar às armadilhas que podem se colocar no caminho de quem busca seguir a aposta de Freud, por melhor que esteja preparado. Se já na situação analítica convencional há toda uma complexidade, quem dirá em uma proposta de atendimento em instituição. Talvez nesse caso Freud tenha deixado um alento: pode-se considerar a possibilidade de perder algo, mas não se deveria transigir em relação a seguir tentando buscar formas de lidar, conforme citado acima, com a ‘enorme quantidade de miséria neurótica que existe no mundo’. Façamos agora um salto no tempo, no espaço e nas circunstâncias, para abordar diretamente o nosso tema em questão. Assim, coloca-se o desafio de pensar – e, mais do que isso, sustentar – uma prática em Clínica-Escola de Psicologia que considere as questões postas pela ética e técnica da psicanálise. Aqui, outros tantos problemas são vislumbrados, uma vez que é sabido que uma universidade não é instituição de formação de analistas. A esse propósito, cabe ao menos referir: Freud tem – por sinal publicado na mesma época do texto já comentado – um outro de seus belos pequenos escritos, dedicado ao “Ensino da Psicanálise nas Universidades”. Outra questão pertinente é a de que a psicologia, a rigor, é heterogênea à psicanálise. Também não nos deteremos nessa querela, o que não quer dizer desconhece sua possível importância para muitos. Mas direcionaremos nossas considerações àqueles implicados pela psicanálise. É inegável, no Brasil ao menos, que a psicanálise, especialmente a lacaniana, estabeleceu nos cursos de psicanálise um local que, posteriormente, vem a se revelar como tendo sido relevante no encaminhamento da formação de muitos analistas. Deduz-se aí pelos efeitos na trajetória de vários daqueles que trabalham ou foram alunos de cursos de psicologia, a presença de uma formação que é marcada pela ética da psicanálise. E nesse aspecto, a experiência nas clínicas-escola se destaca. Quando me aproximei da Clínica/Escola de Atendimento Psicanalítico, entrando na sala de aula do curso de Psicanálise Didata, vislumbrei ali um local que se afigurava interessante, exatamente em função das questões postas por Freud em 1918. As clínicas ou os consultórios, têm uma estrutura que permite atender a uma quantidade de pessoas com sofrimento psíquico. E, se não é ali o lugar para oportunizar uma formação analítica – pois esta deve encontrar na Instituição Analítica as condições adequadas para tal – pode sim oportunizar uma formação que, como dissemos, atravessada pela psicanálise, remeta aos que por ela sejam implicados, a Seguir uma formação que, ‘depois’, se revele analítica e, assim, resinifique esse momento na clínica-escola como tendo sido um momento, se não suficiente, mas, necessário para tal direcionamento da formação do sujeito. Tal efeito tem ocorrido nestes anos, pelo que tenho podido acompanhar, no trabalho que se desenvolve nas clínicas/ consultórios que atuo em particular. As pessoas atendidas têm encontrado ali um espaço de escuta respeitosa para seu mal-estar, o qual dificilmente encontrariam em outras circunstâncias. Diversos são os analistas que tiveram seus estudos nesse Instituto e ali tiveram um ponto de passagem reputado como significativo em sua formação. Não existe fórmula única, a ser proposta universalmente às clínicas-escola dos cursos de Formação em psicanálise. Parece-me que, sim, é fundamental que as soluções cotidianas para o encaminhamento do trabalho recaiam sob a responsabilidade dos que se ocupam de sustentá-la, que isso inclusive faça parte da possibilidade mesma de sua sustentação. É uma suposição de saber necessária; a partir daí pode-se dar a colocação em movimento dos lugares de agente-trabalho-produção e verdade dos “quatro discursos” propostos por Lacan (1992). A técnica deve ser um desdobramento, decorrência da ética, uma postura adotada a partir da psicanálise (do discurso do analista?). Freud, Lacan e muitos outros sempre foram claros nesse sentido: as soluções técnicas que utilizavam não eram receitas, aquilo era o que fora possível para eles. Como chamou a atenção Robson Pereira (1998), a responsabilidade clínica nãoé terceirizável, cabe a cada analista dar conta de sua prática, mesmo que para isso precise de ‘mais alguns’. Se não há técnica a ensinar (ou estaríamos tomando o saber no comando, o que já é propor um outro discurso), da mesma forma, em se tratando de uma clínica-escola, não há decisão que seja meramente administrativa, burocrática. Estas sempre devem ser propostas subordinadas à dimensão clínica. Trata-se então de problematizar e pensar a partir de que efeitos de ação e de qual posição pode-se dar uma clínica consequente com uma ética da psicanálise. E esta perspectiva deveria se dar atendendo aos objetivos postos por Freud em 1919 e poderia ser enriquecida levando em conta as considerações de Lacan (1992) sobre os discursos, no seminário XVII, especialmente quanto ao discurso do analista. E, nesse sentido, uma ética da psicanálise passaria pela colocação em causa, pontualmente que fosse – e mesmo porque talvez seja sempre assim – do discurso do analista. Ou seja, um discurso que teria como seu agente o ‘objeto a’. Com a colocação do ‘objeto a’ no comando, dá-se a suspensão do saber, tomado como algo que não consegue jamais dar conta daquilo que faz falta ao sujeito e que o determina. Este sujeito seria colocado em posição de trabalhar, visando à produção de seus significantes mestres ou primordiais. A elaboração sobre o ‘objeto a’ é de uma radicalidade que não convém desprezar. Radical tanto no sentido etimológico, de apontar a raiz, quanto por, ao mesmo tempo, levar ao limite extremo a posição do sujeito. Lacan (2005) vai nos indicar que esta posição do sujeito é decidida desde a sua constituição, a partir de um lugar necessariamente perdido. É ao que a geralmente lembrada menção de ‘a bolsa ou a vida’ remete. Teríamos uma importante inflexão de Lacan, nesse momento de sua elaboração, até então voltado a privilegiar a distinção entre os registros simbólico e imaginário. É pelo menos a partir desse décimo Seminário que o sujeito tem o que o causa posto em um objeto (objeto a: objeto causa do desejo) para todo o sempre perdido, inencontrável. O registro do real, assim, adquire uma relevância cuja consequência clínica não se pode mais desprezar. Incluindo agora um pouco mais do que tenho trabalhado no estudo que atualmente me dedico (Kessler, 2006), tenho buscado entender a supervisão a partir da possibilidade de sustentar a colocação do discurso do analista em operação. Inclusive, na medida em que esse discurso situa uma barreira entre os significantes mestres do sujeito e o saber que este constituiu (Lacan, 1992, p. 122), poder-se-ia pensar em uma possível distinção entre o que seria da ordem da psicanálise e da psicoterapia (esta última, seguindo a prevalência da lógica do ‘discurso universitário’, visaria, através de saber sobre a verdade do que faz sofrer ao sujeito, controlar e eliminar este sofrimento). Assim, tendo como supervisor um analista (mesmo que dependendo ainda de várias outras circunstâncias), poderia um ‘encontro feliz’ operar um efeito pontual de transmissão da psicanálise, tanto àquele que fazia estágio/especialização/extensão, quanto ao que buscara tratamento para o seu mal-estar. Esse efeito de transmissão, como apontamos acima, pode se revelar posteriormente como ponto de partida que tenha levado à formação de um analista. Pelo trabalho que desenvolvo, a supervisão tem se apresentado como um local/momento privilegiado para esse atravessamento ético da psicanálise. Lucy (Fontoura, 2007), percebe, a respeito do posicionamento ético como consequência da transmissão. Tomando outro comentário de Lacan, vemos que ele considera um pedido de supervisão como um ato, uma manifestação do desejo do analista (propõe, aliás, num primeiro momento, encorajar sempre o analista a seguir seu movimento...). “... esta famosa ‘supervisão’ ... que... nós chamamos em francês simplesmente de ‘um controle’ (o que não quer dizer, é claro, que nós creiamos controlar alguém). Eu, frequentemente, nos meus controles – no início deles ao menos -, eu encorajo geralmente o analista – ou aquele que se creia tal -, eu o encorajo a seguir seu movimento. Eu não penso que seja sem razão que ... alguém vem lhe contar qualquer coisa em nome simplesmente de que: que alguém lhe diz que ele é um analista. Não é sem razão, porque ele escuta alguma coisa...” (Lacan, 1976, p. 46 · SUPERVISÃO PSICANALÍTICA: A ética da psicanálise, ou, mais precisamente, do psicanalista, onde ele estiver, só pode ser uma: psicanalisar (dispondo para tal de condições adequadas: não se trata evidentemente de uma apologia da psicanálise selvagem). Propor-se a escutar desde o resto que a experiência de passagem pelo divã – por sua própria análise – deixou. Portanto, aos que procurem atendimento em função de seu mal-estar subjetivo, a partir da psicanálise pode-se oferecer uma escuta nessa posição, de quem não supõe possível preencher, suprir, mas sim (levando) adiante a busca do sujeito, até que ele se autorize a empreender seu caminho. A supervisão psicanalítica é um componente no processo de formação do psicanalista clinico. A supervisão psicanalítica é um processo pelo qual o psicanalista em formação (supervisionado) recebe orientação e feedback de um psicanalista experiente (supervisor). Essa relação permite a reflexão sobre o trabalho clinico, a transferência, as contra referencias e as teorias psicanalíticas. O supervisor observa as sessões clinicas do supervisionado, analisando os aspectos teóricos. Isso inclui a análise das transferências e resistências presentes na relação terapêutica. Além de ser um requisito formativo, a supervisão também oferece suporte emocional e ajuda a desenvolver a capacidade de auto análise e auto sustentação psíquica do futuro psicanalítico. A supervisão é parte do “tripé” básico de formação do psicanalista, juntamente com a análise pessoal e o estudo teórico. O psicanalista didata é formador do psicanalista clinico. Ele acompanha todo o processo de análise, preparação para o estágio e o estágio supervisionado. O supervisor, ao lado da análise pessoal e do estudo teórico valida o trabalho do supervisionando e contribui para sua formação clínica. O objetivo do curso de formação do psicanalista didata é preparar o preceptor do futuro psicanalítico clinico, capacitando para supervisionar e orientar outros profissionais em formação. A supervisão também envolve questões éticas. O psicanalista didata deve estar ciente das responsabilidades éticas ao supervisionar outros profissionais. A relação entre a ética e psicanálise permeia todo o processo formativo, desde a análise pessoal até a supervisão clínica. O psicanalista didata, ao exercer o papel de supervisor, deve considerar a ética da psicanálise e garantir que o supervisionando esteja preparado para a prática clínica. A supervisão psicanalítica é aquela mental para a formação do psicanalista proporcionando suporte, reflexão e orientação em sua jornada clínica. Ela contribui para o desenvolvimento profissional e ético do futuro analista. · REFLEXÕES SOBRE ÉTICA NA SUPERVISÃO EM PSICANÁLISE A supervisão de estágios em Psicanálise é parte inerente da formação do psicanalista, prevista como atividade obrigatória oferecida nos cursos Livre de formação em Psicanálise no Brasil. Será nessa circunscrição, de supervisão de estágios em cursos livres de Formação em Psicanálise, na sua especificidade de supervisão clínica ou da área da saúde, e as respectivas dimensões éticas envolvidas, que se pretende refletir a ética no contexto da supervisão Há aspectos legais e éticos envolvidos na supervisão de estágios em cursos de Psicanálise, ainda sem limites claros no que tange às funções de cada um dos envolvidos, o que pode oferecer oportunidade de conflitos de natureza ética no exercício das funções de professor/supervisor de estágio, especialmente aquelas relacionadas a responsabilidades, tanto do estudante/ estagiário/supervisionando quanto dos usuários dos serviços do estágio. · SOBRE ÉTICA NA SUPERVISÃO DE ESTÁGIOS CLÍNICOS/SAÚDE. Dependendo dasênfases do curso de formação em Psicanálise, há estágios específicos clínicos que podem ser realizados nos serviços-escola, ou na própria instituição de ensino, caso tenha espaço apropriado, ou em outros ambientes (como em comunidades ou em serviços de saúde, ou local preparado pelo próprio aluno etc, desde que a Coordenação do curso autorize. Nesses estágios, mais claramente (porém não de forma exclusiva) a supervisão exige uma ação balanceada entre as necessidades do supervisionando e as necessidades da clientela atendida, ou seja, os usuários dos serviços, de forma a ter um equilíbrio entre a disponibilidade do estagiário e dos pacientes pilotos. É importante ressaltar que o estagiário terá dupla jornada nesse contexto: Análise pessoal e o estágio concomitante O Código de Ética da American Psychological Association (APA, 2002) refere que o treinamento de estagiários em saúde mental é um campo único de desafios. Nesse código encontramos referência à complexidade envolvida nessa dupla tarefa ética do supervisor, voltada para o supervisionando e para a clientela. Segundo esse código, para facilitar o desenvolvimento da competência técnica em treinados, supervisores devem monitorar cuidadosamente o processo terapêutico, o que envolve delicado balanceamento entre prover oportunidades para o estagiário se engajar diretamente na decisão clínica e prática (permitindo desenvolvimento de autonomia) e ao mesmo tempo garantir segurança e manter controle de qualidade nos serviços clínicos (Koocher; Shafranske & Falender, 2008). Cuidados éticos na supervisão voltam-se assim para o campo de interação direta com o estagiário (com objetivo de desenvolvimento de sua formação profissional) e para o campo de interação indireta, e em geral dependente da percepção e comunicação do estagiário, sobre o serviço prestado à comunidade (com objetivo de qualidade do serviço). · ASPECTOS ÉTICOS DA PRÁTICA DA SUPERVISÃO: A QUESTÃO DA AVALIAÇÃO: As funções do supervisor acadêmico englobam ensinar, analisar, monitorar e avaliar. A essência do processo de supervisão é um feedback contínuo e, dessa forma, a avaliação vai acompanhar integralmente o processo de supervisão, no decorrer da análise pessoal O componente avaliativo presente na supervisão acadêmica do curso livre de formação em Psicanálise, difere de outros cursos, nas quais, em geral, há utilização de notas, o que permite questionamentos com maior objetividade. De outra maneira, de forma ampla, a avaliação na supervisão no curso de Psicanálise, é conceitual e inclui esferas qualitativas, no sentido do aluno através da sua análise pessoal, resolver questões de caráter traumático que envolve sua vida, para que não dificulte seu desempenho no estágio com paciente piloto. O citado regulamento enumera, também de forma ampla, as demais responsabilidades que cabem aos supervisores e ainda explicita ser tarefa dos mesmos, dentre outros, comunicar à Coordenação Pedagógica quando o aluno estiver apto a iniciar seu estágio, após ter completado vinte sessões mínimas de análise pessoal e ter demonstrado um conhecimento sobre si mesmo. Existindo alguma dificuldade que impossibilite o analisando de iniciar o Estágio, mesmo tendo completado as sessões limites, o Supervisor deve comunicar a Instituição, assim como qualquer problema com o estagiário, que não esteja a seu alcance resolver, sendo de responsabilidade da referida Instituição, mediar estes conflitos. Desafios éticos ficam assim presentes na supervisão, já que o supervisionando em formação possui vulnerabilidades próprias de um não saber, que devem ser comunicadas na supervisão; ao mesmo tempo, ele será avaliado por sua atuação, com exigência de padrões de qualidade. Embora sentimentos de ansiedade e de insegurança do supervisionando possam constituir tópicos de discussão na supervisão, esta se insere num contexto institucional de avaliação. Reconhecer e respeitar o poder diferencial e a relação hierárquica (incluída na avaliação) entre supervisor / professor e supervisionando / estudante é crucial para a dimensão ética da supervisão de estágio no curso livre formação em psicanálise. Dada a complexidade da supervisão clínica acadêmica de estágios, é natural que soluções e respostas aos desafios existentes, não possam ser encontradas unicamente nas legislações, códigos de ética e documentos escritos. Mesmo porque, ao se tratar de condutas éticas, está se tratando de algo dinâmico, que implica em valores individuais e de grupos inseridos em grupos e culturas particulares. Talvez por esta razão atualmente, pode-se observar uma preocupação, de instituições do meio acadêmico, em oferecer formação específica aos supervisores tanto iniciantes como experientes. · QUANDO FALA UM ANALISTA? Numa época em que assistimos à tendência mundial de uma profissionalização e de burocratização da psicanálise, acreditamos não ser demais lembrar seus fundamentos e, principalmente, o quanto ela consiste numa prática singular. Prática singular que não se confunde com o exercício privado da psicanálise. Pois, longe de ser uma psicoterapia orientada pela teoria psicanalítica, a psicanálise consiste numa prática discursiva sustentada por um psicanalista, esteja ele onde estiver. Prática, essa, comprometida com a verdade que o discurso porta. Não a verdade comprovada da ciência; muito menos aquela enunciada por um lugar de autoridade. Também não se trata de defender a banalização da verdade, a partir do que todas as verdades se equivaleriam. O critério de verdade, em psicanálise, é muito preciso: o efeito de verdade se produz quando o sujeito arca com as consequências da enunciação da qual parte seu enunciado, o saber inconsciente. Por essa razão, para quem se pretenda analista, passar pela experiência do inconsciente é fundamental. Única forma de transmissão desse encontro com a verdade, tal como a psicanálise a define. Sobre a qual o psicanalista se sustenta na sua prática. Isso, mais pelo mesmo motivo, a interpretação constitui a prova da verdade sobre postular o conceito de ética em psicanálise, faz dela o exercício mesmo de uma ética muito específica. Se assim não fosse, como entender a afirmação lacaniana de que “a impotência em sustentar autenticamente uma práxis reduz-se, como é comum na história dos homens, ao exercício de um poder”? A validade de tal enunciado, podemos verificá-la não só na psicanálise em intensão, como também na psicanálise em extensão. Lacan, em seu ensino, não se furtou de apontá-la, seja na lida com a transferência, no transcurso de um tratamento, seja nos desdobramentos institucionais da psicanálise. Afinal, conduzir uma cura ou encarregar-se da transmissão psicanalítica tendo o analista como modelo é, antes de mais nada, exercício de poder. Já Freud, por sua vez, não deixará de pronunciar-se a esse respeito ante os rumos que tomava o movimento psicanalítico. Acreditando que uma comunidade de analistas era necessária para manter vivo e transmitir o discurso psicanalítico, temia por sua viabilidade, caso cada Sociedade viesse a editar suas próprias normas. No entanto, o fundador da Sociedade Psicanalítica de Viena não se poupou de criticar veementemente quando, a partir de 1925, seguindo-se o modelo burocratizado inaugurado pelo Instituto de Berlim, foram padronizadas as normas para a formação de analistas a serem reproduzidas pelas demais sociedades filiadas à IPA. Deu-se início, então, a um dos debates mais controvertidos da história da psicanálise, a formação psicanalítica para não-médicos. E mais. Seguramente não foi a modéstia que o levou a nos legar precisamente aqueles casos clínicos que testemunham curas “fracassadas”. Antes, caberia indagar: Qual era o impasse que tais transferências denunciavam? E o que podem nos dizer as recorrentes dissidências, rupturas, fundações e dissoluções institucionais, que fazem a história da psicanálise desde sua invenção até nossos dias? Eis aí o confronto inevitável que a análise coloca a todo aquele que se aventura a alcançar seu desenlace. Ocasião de questionamento radicalde sua filiação, pois, ali onde o sujeito esperava contar com a verdade originária, o que encontra é a arbitrariedade do Outro, que o introduziu no discurso por um determinado traço, ao invés de outro. Diante da inevitabilidade de situar uma nova filiação, impõe-se a escolha: ou a tentação do poder, ou a sustentação de uma ética. Assim sendo, não é de surpreender o caráter de insistência que o tema da formação adquire, principalmente no seio das instituições psicanalíticas. Lacan. A direção do tratamento e princípios de seu poder. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 81998. p. 592. Nossa aposta é de que tal retorno não se restrinja à mera repetição sintomática, para fins de puro deleite de analistas que teriam optado pela entrega a uma empresa inatingível a formação analítica. Conta-se que o tema retorne na dupla vertente de denunciar o impossível de tudo dizer, ao mesmo tempo em que nos debruçamos sobre a elaboração desta temática. Se a análise e a formação em psicanálise são intermináveis, é porque o inconsciente também é. Porém, isso não significa que não possamos distinguir diferentes tempos lógicos em tais percursos, a saber, instante de ver, tempo de compreender e momento de concluir. Na mesma medida em que a origem de um sujeito é brutalmente interrogada no desenlace da análise, também o é a formação de um analista ao se fazer cargo da transmissão da psicanálise. · O QUE NOS INTERROGA NA SUPERVISÃO? Esta disciplina se propõe a apresentar algumas considerações sobre o lugar da prática de Supervisão na formação analítica e sua importância na clínica. A função do terceiro, que o supervisor vem a ocupar, possibilitando uma abertura na escuta analítica, faz do espaço da supervisão, juntamente com a análise pessoal, o estudo teórico e a interlocução institucional com os pares, as condições necessárias para o exercício da psicanálise. Trata-se de um trabalho conjunto, em transferência, e que permite avançar nos impasses da clínica. Ao mesmo tempo, ao possibilitar ao analista em formação o encontro com outros estilos, proporciona um alargamento transferencial que contribui para o processo de desidealização, seja do espaço de supervisão, do lugar do analista ou da própria psicanálise. Sem entrar no mérito da questão do nome que se adote – embora nós, psicanalistas, saibamos bem que a questão do significante nunca é irrelevante –, obviamente não é este o modelo de supervisão que tenho em mente, tampouco é esta a prática que tenho vivido em minha experiência, seja como supervisionada, seja como supervisora. Então, qual é o modelo, ou melhor, o que está em causa na prática da supervisão? E qual é seu lugar e sua importância na formação do psicanalista e na sustentação do trabalho clínico? A escassa produção escrita sobre o tema – pelo menos nas leituras que pude fazer – levaram-me a interrogar se a supervisão ocuparia imaginariamente um lugar menor na formação analítica, diferentemente da análise pessoal, do exercício da clínica e do estudo teórico, mais enfaticamente abordados quando se trata do tema da formação. A supervisão se converteria então num recurso eventual, buscado em momentos de grande impasse na clínica, ou quem sabe, destinada apenas aos iniciantes? Ou, o que dá na mesma, buscada como quem executa uma prescrição, cumpre um ritual, submete-se a ela como uma tarefa que a instituição ou o meio psicanalítico cobra do aspirante a analista? Se pensamos que a supervisão opera efeitos de formação por outra via que não a da prescrição – e creio que estamos todos de acordo quanto a este ponto – é por tomá-la como consequência direta da implicação e da responsabilidade do analista em formação (e qual analista não está, a rigor, em contínua formação?) com a sua clínica; como consequência do seu desejo de psicanalista; e como compromisso de conferir à sua atividade clínica uma “significação e uma força verdadeiramente analíticas” (Valabrega, 1983, p. 49). Podemos lembrar, como primeiro ponto, a importância ou mesmo a necessidade, na trajetória de formação de um psicanalista, de que outros analistas, além do seu próprio, participem deste percurso de formação. A diversidade de estilos e de escuta, os diferentes cruzamentos transferenciais, possibilitam uma formação em que a identificação não seja ao analista ou ao supervisor, mas à psicanálise. Uma posição em relação aos princípios, a teoria e à ética psicanalítica, na qual o sujeito se inclui e se diferencia ao mesmo tempo, construindo o seu próprio estilo. Se inclui porque ele faz parte de uma série, herda um legado e uma dívida de transmissão. Diferencia-se porque está desde o início responsabilizado pelo ponto em que se encontra em seu percurso de formação, e a forma como sustentará e dará mostras deste percurso será única, singular. A supervisão constitui-se como ferramenta crucial para preservar o lugar terceiro no processo de análise. Primeiramente, esta necessidade me era clara na situação do par analisam-te - analista, não só pela escuta de impasses que percebemos em determinada situação ou caso clínico, mas principalmente pela escuta de impasses despercebidos por nós, os quais nos escapam quando a transferência nos enlaça sem fazer ruído. Mas não só lugar terceiro em relação a este par, como também – e só agora me dou conta mais claramente disso –, terceiro em relação à tendência à identificação com seu próprio analista. Valabrega (1983) propõe o termo análise quarta no lugar de controle, considerando que a dimensão terceira já está presente na díade analisam-te-analista, e que o supervisor (na terminologia que estou usando e que é a mais comum entre nós) entra como o quarto elemento: o primeiro seria o analisam-te; o segundo, o analista; o terceiro seria o analista do analista; e o quarto, portanto, o supervisor (p. 50). É certo que, para que esteja em curso efetivamente uma análise, a dimensão terceira estará ali presente. Mas justamente para garantir as condições transferenciais de operação deste lugar terceiro é que a supervisão, além da própria análise do analista, ocupa, em meu entender, lugar central na formação psicanalítica. Transcrevo agora uma frase do autor, em que aparece algo curioso, que tomei por um lapso de escrita, ou de tradução, não importa: “Os analistas quartos têm por função descobrir uma vida [via?] de acesso ao candidato e ajudá-lo a identificar os pontos de contato e interferência da sua prática com a sua própria análise” (1983, p. 51). Digo que não importa de quem é o lapso, porque Isso (o inconsciente) fala ali: vida no lugar de via aponta, em minhas associações, para o vívido-vivido de uma supervisão. Vívido diz respeito à dimensão de resgate da vitalidade da clínica na prática de supervisão, ao nos colocar em causa através de nosso discurso em transferência. E é no vivido da experiência de supervisão que algo de nossa clínica nos interroga, através do que falamos conscientemente do caso (e o caso em questão não é o paciente, e, sim, o próprio tratamento), mas também, e principalmente, através dos lapsos, das repetições inadvertidas, dos “brancos”, da angústia ou da emoção que nos atinge naquele momento; o que vem a ser trabalhado, no espaço da supervisão, ao nível da relação transferencial, obviamente; mas que não deixa de provocar desdobramentos na própria análise do supervisionando, produzindo efeitos de formação. Gostaria de introduzir algumas contribuições de um texto de Ferenczi, intitulado Elasticidade da técnica psicanalítica, que é a publicação de uma conferência proferida na Sociedade Húngara de Psicanálise, em 1928. Ele afirma a inutilidade da transmissão de regras ou preceitos técnicos. Mas reafirma, com Freud, a regra fundamental por parte do analisante: associar livremente; e a segunda regra fundamental, que recai sobre o analista: “quem quer analisar os outros deve, em primeiro lugar, ser ele próprio analisado” (Ferenczi, 1992, p. 26). Não fala da supervisão, mas há algumas passagens do texto que me fizeram pensar nesta questão. Sustenta que as condições de praticar a psicanálise se apoiamnuma longa formação, e não se restringem apenas a pessoas especiais, embora reconheça que “haverá sempre os artistas de exceção, de quem esperamos os progressos e as novas perspectivas” (p. 26). Aborda a liberdade de decisão e a responsabilidade do psicanalista com o andamento do tratamento, dizendo que o analista deve-se guiar na clínica pelo que ele nomeia de tato psicológico: “...de saber quando e como se comunica alguma coisa ao analisando, quando se pode declarar que o material fornecido é suficiente para extrair dele certas conclusões; como se pode reagir a uma reação inesperada ou desconcertante do paciente; quando se deve calar e aguardar outras associações; e em que momento o silêncio é uma tortura inútil para o paciente, etc.” (p. 27). Em seguida se pergunta: “Mas o que é o tato? O tato é a faculdade de ‘sentir com’ (Einfühlung)” (p. 27). Refere que é a experiência clínica, de um lado, e a própria análise, de outro, que possibilitam ao analista esta faculdade de se deixar levar pelas associações do analisante, mas permanecendo atento à força da resistência. Penso que ele está se referindo aqui ao trabalho em transferência, à possibilidade de o analista se incluir na cena. E justifica o título do artigo, Elasticidade da técnica analítica, com a seguinte metáfora: É necessário, como uma tira elástica, ceder às tendências do paciente mas sem abandonar a tração na direção de suas próprias opiniões, enquanto a falta de consistência de uma ou outra dessas posições não estiver plenamente provada (p.32). O autor recomenda modéstia e humildade ao psicanalista, lembrando que “a modéstia do analista não é uma atitude apreendida, mas a expressão da aceitação dos limites do nosso saber” (p. 31). Parece-me que o que está em questão aqui é se deixar guiar pela transferência e, ao mesmo tempo, poder situar-se em relação a ela. E isto só poderá ser sustentado no alargamento de um espaço terceiro. A supervisão não elimina o lugar solitário da posição do analista, nem tampouco a radicalidade da responsabilidade para com sua clínica. Mas produz um alargamento transferencial que possibilita deslocamentos na escuta, operando efeitos de formação analítica. Em supervisão, falamos da clínica e, ao falar da clínica, é nossa análise que fala ali. Não me parece que seja na posição de analisam-te que falamos no espaço da supervisão, nem de analista, e sim numa posição de deixar falar o analisam-te através de nós (vale aqui a polissemia do significante), através de nossa transferência: tripla transferência, com o analisam-te, com o supervisor e com o nosso próprio analista. Ou seja, falamos desde um ponto de ignorância em relação ao saber inconsciente. É aí que o processo de análise e a prática de supervisão confluem, produzindo efeitos de formação analítica. Peres (1999) traz outro elemento interessante, ao retomar o dizer de Christian Hoffmann de que o lugar do supervisor se equipara ao lugar do auditor no chiste: [...] O chiste coloca o jogo de palavra e o não-senso ao abrigo da crítica da razão; ele necessita de uma outra pessoa a quem se dirigir [...] O chiste é um processo que acontece entre três pessoas: a primeira que fala, o ‘eu’, a segunda sobre quem se fala, e a terceira que escuta. Assim, o chiste abala a certeza do sentido e o domínio do julgamento do eu e confia ao Outro a decisão de finalizar o trabalho do chiste (p. 172). Ou seja, um sentido novo, mas que não é da ordem do entendimento, e, sim, da ordem do significante, emerge ali, possibilitando novas posições de escuta e de intervenção na clínica. O chiste põe em evidência a estrutura mesma do inconsciente. Esta parece ser a função da supervisão: manter aberta a escuta às formações do inconsciente. Portanto não se trata da transmissão de um “bom modo de fazer”, ou de um saber sobre a clínica. Também não se trata de uma identificação ao estilo de outro analista, sustentado em transferência num lugar de sujeito-suposto-saber. Aliás, estilo não é algo que se possa copiar ou imitar. Diz respeito à singularidade de cada um na sua posição frente à castração do Outro. EXTOSição da Supervisão 592. Termino, sem concluir, fazendo minhas algumas palavras de Peres (1999): A psicanálise é uma prática do singular e a instituição psicanalítica – (e agora acrescento eu) igualmente o espaço de supervisão – deve ser um lugar para abrigar esta singularidade. Como o psicanalista, a instituição também deve manter um estilo e, por isso mesmo, é fundamental que ela não se universalize e que possamos, cada um, fazer o percurso solitário do encontro consigo próprio. Porém, é pelo reconhecimento do terceiro que esse encontro se materializa em descoberta” (p.173). Que, em nossa práxis, possamos manter aberto e vigorante este lugar terceiro. · ATIVIDADE PARA RESPONDER E APRESENTAR NA AULA: · CASO CLÍNICO: O ANALISTA INADEQUADO: Maria, uma mulher de 28 anos, busca ajuda psicanalítica para lidar com sua ansiedade e insônia. Ela relata que está sobrecarregada com o trabalho e problemas familiares. Maria começa a frequentar sessões com Dr. Carlos, um analista renomado. Dr. Carlos, compartilha detalhes do caso de Maria com outros pacientes durante as sessões em grupo. Isso viola a confiabilidade e prejudica a relação de confiança. Durante as sessões o Dr. Calos faz comentários negativos sobre as escolhas de vida de Maria. Ele a julga por suas decisões e não a trata com empatia. Para completar, o Dr. Carlos, revela a Maria que tem interesse romântico por ela. Isso cria uma situação desconfortável e compromete a integridade do tratamento. · REFLEXÃO: 1. QUAL FOI O ERRO COMETIDO PELO DR. CARLOS? 1. QUAIS OS ASPECTOS ÉTICOS, QUE OCORRERAM DURANTE AS SESSÕES COM MARIA? 1. QUAL O IMPACTO CAUSADO NO TRATAMENTO? REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICA: Associação Psicanalítica de Porto Alegre (2005) Onde fala o analista. Porto Alegre, Appoa, n º 29. , S (1976[1918]) Linhas de progresso na terapia psicanalítica. Rio de Janeiro, Imago, vol XVII. BITONDI, F.R. & Setem, J. (2007). A importância das habilidades terapêuticas e da supervisão clínica: Uma revisão de conceitos. Revista Uniara, 20, 203-213. DARRIBA, V.A. (2011). O lugar do saber na psicanálise e na universidade e seus efeitos na experiência do estágio nas clínicas-escola. Agora, 14 (2), 293-306 FERENCZI, Sándor. Obras completas – psicanálise IV. São Paulo: Martins Fontes, 1992. FERREIRA, Aurélio B. de H. Novo dicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975. FONTOURA, L. L. (2007) “Supervisão: alterização de uma escuta.” em Falando Nisso – Informativo da Clínica de Psicologia da UNIJUÍ. Ijuí, ano 7, nº 29, maio-junho. 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CURSO LIVRE DE FORMAÇÃO EM PSICANALÍSE DIDATA. image1.png image2.jpeg image3.jpeg image4.jpeg image5.jpeg