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HISTÓRIA E CULTURA AFRO-BRASILEIRA Empresa: Modular Criativo Professora: Tânia Maria Sanches Minsky Faculdade Campos Elíseos (FCE) São Paulo – 2022 SUMÁRIO RESUMO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4 HISTÓRIA E CULTURA AFRO-BRASILEIRA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4 As Leis e a Educação: Instrumentos de Afirmação Sociocultural . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4 A Cultura Afro-brasileira . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10 Principais Contribuições da Cultura Afro-brasileira para a Formação da Identidade Na- cional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12 BIBLIOGRAFIA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20 3 4 R E S U M O O continente africano é composto por inúmeras etnias, considerado o Berço do Mundo, possui uma rica cultura baseada em princípios de culto a deuses e natureza, possui uma infinidade de manifestações religiosas e por causa da diáspora africana, teve seus povos espalhados pelo mundo como escravos. Uma grande parte desses escravos foi transportada para o Brasil, onde durante séculos esses povos viveram como escravos, contribuindo com diversas formas de manifestação cultural. Em virtude disso, surgiu a cultura afro-brasileira. Os indígenas brasileiros são os povos originários do país e, assim como o povo africano sofreu com os desmandos de um período colonial que igualmente, os humilhou, explorou e dizimou. A cultura indígena influenciou grandemente a formação da sociedade brasileira, entretanto, ainda é preciso lutar para ter reconhecimento e direitos assegurados. Sendo assim, a África e o Brasil possuem Histórias interseccionadas e seus povos ainda permanecem com sequelas sociais decorrentes de tantos anos de colonialismo europeu. H I S TÓ R I A E C U LT U R A A F R O - B R A S I L E I R A As Leis e a Educação: Instrumentos de Afirmação Sociocultural Conhecer a história e a cultura do Brasil, por meio das relações com a África, com os africanos dentro de um contexto histórico-sociocultural, nos remete a estudar, entender e reconhecer a luta dos negros e a cultura afro-brasileira, bem como a importância do negro na formação da sociedade nacional. Dessa forma, são inegáveis as contribuições dos africanos nas áreas política, econômica e social, na formação do povo e da Nação Brasileira. Na época do Brasil colônia, qualquer manifestação cultural de origem africana era desvalorizada e jogada à margem da sociedade. Nesse período, tradições, costumes e crenças dos povos africanos eram vistos como primitivos e selvagens pelos colonizadores europeus. Nesse sentido, em todos os espaços deste país/continente encontramos uma cultura local composta por danças, músicas e religiosidades provindas da cultura africana. Uma trajetória inglória, destes brasileiros (os afrodescendentes) é marcada por lutas de diversas naturezas, desde a formação dos quilombos até as reivindicações institucionais e ocupação nos espaços da sociedade em geral. Sendo assim, o preconceito, a violência, a discriminação, o desrespeito continuam presentes ainda neste século XXI, embora existam mecanismos legais que asseguram a igualdade e a equidade racial. Somos uma sociedade com uma história repleta de episódios de exclusão e preconceito, a constituição brasileira de 1988, assegurou os direitos aos negros e sua cultura, buscando estabelecer valores de igualdade e equidade. 5 Uma das parlamentares que participou do processo da constituinte e colocou essa questão em pauta na Câmara dos Deputados foi Benedita da Silva (PT-RJ). A deputada contou à Agência Brasil que o processo não foi fácil, porém motivou conquistas importantes. [...] Das sete constituições que o Brasil teve desde 1824, a Carta Magna de 1988 foi a primeira a incluir o racismo como crime inafiançá- vel, imprescritível e passível de pena. Entre os princípios fundamentais, a nova Constituição cita a promoção do bem de todos “sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”. A Constituição conhecida como cidadã também traz o combate ao racismo entre os princípios das relações internacionais do Brasil e destaca ainda “a proibição de diferença de salários, de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil”. (BRITO, 2018, online) A partir da Constituição, surgem as propostas de políticas afirmativas. Um exemplo é a Lei 10. 639/03 que alterou a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, “estabelecendo as diretrizes e bases da educação nacional, incluindo no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro- Brasileira” (BRASIL,2003). A publicação desta lei vem atender a uma conjunção de fatores: a condição humana, social, cultural e educacional. Assim, sabendo-se que um dos principais responsáveis pela transformação de um povo é a educação, as instituições educacionais e sociais implementam ações, que com compromisso e de maneira democrática, promovem o ser humano na sua integralidade, formando valores, comportamentos e hábitos que incentivam o respeito às diferenças e as particularidades de cada grupo. Você sabe o que são “Ações afirmativas?” Ações afirmativas são políticas públicas feitas pelo governo ou pela iniciativa privada com o objetivo de corrigir desigualdades raciais presentes na sociedade, acumuladas ao longo de anos. Uma ação afirmativa busca oferecer igualdade de oportunidades a todos. As ações afirmativas podem ser de três tipos: com o objetivo de reverter a representação negativa dos negros; para promover igualdade de oportunidades; e para combater o preconceito e o racismo. (PROEXT, 2019). Leia mais em: Mundo Educação/ Ações afirmativas Acesse: https://mundoeducacao.uol.com.br/sociologia/acoes-afirmativas.htm Foi na década de 90 que, institucionalmente, foi reconhecido o racismo em nosso país, esse reconhecimento surgiu de reivindicações, tanto por parte do Movimento Negro (MN) quanto de pesquisadores da área de Educação e Relações Étnico-Raciais, ambos afirmavam que “uma educação fundada em uma visão eurocêntrica do mundo perpetua a discriminação racial e fere a autoestima das pessoas que não se sentem contempladas e, portanto, não encontram identificação no ambiente escolar” (GELÉDES, 2022). Sobre a Ação Educativa, Suelaine Carneiro e Tânia Portella (2022), traçam uma linha do tempo que pode nos situar na trajetória de reconhecimento de direitos e estudos sobre a história da cultura afro-brasileira. A seguir, uma adaptação do artigo publicado, pelas pesquisadoras, no Portal Geledés, 6 Nesse sentido, a luta pela afirmação e reconhecimento da Cultura Afro- brasileira tem um longo percurso que remonta os tempos abolicionistas, vejamos, a seguir, algumas datas importantes e os acontecimentos que marcaram a evolução dos direitos do povo negro. Figura 1: No caminho das legislações. Fonte: Geledés, 2022. Nesse contexto, um marco nesta luta é a Constituição Federal, a lei máxima do país assegura incondicionalmente os direitos do cidadão negro, a partir dela muitas outras leis foram criadas. Figura 2: A Constituição e seus desdobramentos. Fonte: Brasil, 2010 e Geledés, 2022. 7 As ações afirmativas vão surgindo como consequência de encontros, muito estudo, participação de ativistas engajados na causa que defende os costumes eos direitos que conferem identidade ao brasileiro. Figura 3: Trabalho e participação. Fonte: Geledés, 2022. Diante disso, toda essa luta gerou um grande movimento na educação e, finalmente, foram definidas diretrizes para que a mudança comece pelo principal segmento de transformação: A Educação. Sendo assim, consagrada na Constituição, a cultura afro-brasileira tornou- se um princípio geral do ensino, demonstrando assim a relevância do tema, significando que precisa estar contemplada nos diversos níveis da Educação, devendo ser realizada também nas áreas que compõem as atividades-fim (controle governamental) e atividades-meio (magistério), nas formações Iniciais e continuadas de todos os profissionais da educação. 8 Figura 4: A Educação e a transformação. Fonte: Geledés, 2022. Diante disso, muitos eventos aconteceram, até que em 2010 foi promulgado o Estatuto da Igualdade Racial. A lei foi criada com o objetivo de efetivar a igualdade de condições e acesso para uma imensa parcela da população – pretos e pardos – que historicamente, sofre com a discriminação racial vivendo sob a sombra das desigualdades de acesso aos direitos considerados básicos. Foi pela ideia central de defender os direitos básicos dessa parte da população que o Estatuto surgiu, com muito valor e importância para aqueles que entendem que as desigualdades de gênero e raça precisavam ser discutidas e estruturadas no âmbito político e jurídico, Diante disso, tem como princípio apresentar que é dever do Estado a garantia e o estabelecimento de políticas públicas para aplicabilidade desses direitos, bem como definir, por meio de seu texto-base, quais são esses direitos fundamentais. (CAPITULINO,2021, online). O documento possui 65 artigos, compostos de 4 títulos divididos e subdivididos em unidades temáticas, o texto-base dessa lei é assim apresentado: 1. As disposições iniciais do Estatuto (o que a lei determina e os conceitos básicos necessários ao entendimento da lei); 2. Os direitos fundamentais (específica como bases que devem ser garantidas para uma população de negros e pardos garantindo igualdade de acesso); 3. Sobre o SINAPIR (Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial); 4. As disposições finais da lei. 9 Figura 5: O Estatuto, uma grande conquista. Fonte: Brasil, 2010. Ainda dentro do escopo das conquistas “legais”, ou seja, das leis criadas para ampliação e reconhecimento dos direitos da população negra, devemos destacar a LEI Nº 12.711, DE 29 DE AGOSTO DE 2012., mais conhecida como a lei de cotas, veja o que o site Brasil Escola, 2022, diz a esse respeito: Cotas raciais são reservas de vagas em vestibulares, provas e concursos públi- cos destinadas a pessoas de origem negra, parda ou indígena. As cotas visam a acabar com a desigualdade racial e o racismo estrutural resultantes de anos de escravidão no Brasil, que ainda excluem pessoas negras e indígenas da universi- dade, do mercado de trabalho e dos espaços públicos. (PORFÌRIO, 2022, online) Figura 6: A Lei de cotas raciais. Fonte: Brasil, 2016. Nessa breve viagem pelo tempo, percebe-se a necessidade de dialogar com a sociedade para enfrentar os desafios e estabelecer a luta antirracista por meio da temática da Educação das Relações Étnico-Raciais. Desse modo, as leis e os movimentos que reafirmam que a igualdade, a equidade e a valorização da cultura afro-brasileira só acontecem por meio de ações que educam. 10 Figura 7: Siglas. Fonte: A autora, 2022. Lélia Gonzalez é uma ativista negra que luta pela eliminação da discriminação racial, no site “Nossa Causa”, ela faz uma reflexão que deve pautar todos os cidadãos brasileiros ou não: ... o Brasil segue escondendo a população negra e, quando não é possível, articula-se para nos eliminar a todo custo. No século 21, pretenso símbolo de futuro, nosso país continua a deixar a população negra liderando trágicas estatísticas, como a de mortes evitáveis, de desemprego e de analfabetismo, entre outras. As taxas de homicídios de negros e negras, por exemplo, crescem a cada ano enquanto a taxa de não-negros diminui no mesmo recorte temporal. Movimentos racistas e conservadores parecem ganhar força nos últimos tempos, colocando em xeque a atual democracia brasileira. Diante de um cenário tão caótico e pouco promissor, o que fazer? (BRITO,2021) A Cultura Afro-brasileira Como podemos definir Cultura Afro-Brasileira? Podemos dizer que se trata da reunião de todas as expressões culturais predominantes no Brasil, que se formaram a partir da conjugação de elementos integrantes da cultura dos povos africanos que, durante o período colonial, vieram para o Brasil como escravos. A cultura afro-brasileira foi edificada e se caracteriza pela apropriação das expressões culturais dos africanos juntamente com muitas outras tradições e culturas que compõem a identidade brasileira, como as manifestações indígenas e europeias A pesquisadora Ione Aparecida Santos Dias, apresenta seu livro fazendo uma reflexão sobre a história cultural do negro no Brasil: No Brasil, a representação do corpo negro está fadada ao preconceito. Um corpo negro não pode representar um comercial de perfume pois sofre com comen- tários racistas, como se os consumidores fossem apenas os não negros. As meninas negras desde cedo são provocadas pelas mídias a negarem seu corpo, sua cor, seu cabelo. Por outro lado, os meninos negros são sempre hostilizados simplesmente pela cor de sua pele. Corpos estigmatizados em uma sociedade com a minoria de não negros. (DIAS, 2021, online) 11 Sendo assim, quando dissemos que no Brasil colonial, a população negra era marginalizada e estigmatizada, devemos criticamente reconhecer que negros continuam nessa condição, embora tenha havido avanços, as palavras da escritora citada acima, traduzem uma realidade. Além disso, a história nos relata que com o fim da escravidão em 1888, surge, mesmo que lento, um processo que reinterpreta a cultura afro. Na metade do século XX, uma parte da elite brasileira entende que alguns aspectos da cultura africana são expressões artísticas legítimas e relevantes e que são elementos importantes da identidade nacional. Ao buscarmos nossas raízes ancestrais, não podemos esquecer a história da África e, dentro dela, um dos mais terríveis episódios da humanidade: a Diáspora Africana. Esse fenômeno retirou milhares de homens e mulheres de suas aldeias, cidades e famílias e os espalhou pelo mundo. Essas pessoas carregavam consigo apenas seus corpos, suas tradições e suas memórias. Dados apontam que “cerca de 40% de todos os negros que foram capturados na África foram comercializados como escravos no Brasil.” (SIGNIFICADOS, 2022). Dessa forma, foi essa migração gigantesca que trouxe consigo tantos elementos que integram hoje os atuais costumes e tradições brasileiras. Alguns estados brasileiros receberam maiores influências africanas, dada a quantidade de escravos recebidos pelo tráfico, bem como pela migração interna que ocorreu após o ciclo da cana-de-açúcar no Nordeste, destaque-se Maranhão, Alagoas, Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul. Sendo assim, encontramos a cultura afro-brasileira praticamente em todas as manifestações da identidade cultural nacional, culinária, folclore, dança, religião, vocabulário, música e muito mais. Diáspora Africana: Processo histórico por meio do qual africanos e africanas foram dispersos pelas Américas e por outras partes do mundo, durante o tráfico transatlântico de escravizados. Foi um processo que envolveu migração forçada, mas também redefinição identitária, uma vez que estes povos, apesar do contexto de escravidão, reinventaram práticas e construíram novas formas de viver, possibilitando a existência de sociedades afro-diaspóricas como no Brasil. (MARQUES, 2019, online) 12 Principais Contribuições da Cultura Afro-brasileira para a Formação da Identidade Nacional Os povos africanos escravizados e trazidospara o Brasil, trouxeram consigo um enorme repertório de saberes, nas técnicas de cultivo, na criação de animais, na mineração, na construção das habitações, na religiosidade, na filosofia, navegação, seus conhecimentos sobre a saúde também foram absorvidos pela cultura brasileira, com o uso de ervas medicinais, de tratamentos curativos de doenças físicas e mentais. Dessa maneira, trouxeram consigo suas tradições de diversão, seus folguedos, suas danças, suas histórias sem contar com a grande contribuição na culinária que permeia diversos pratos com temperos e técnicas culinárias em nosso país. A interação entre estes povos, vindos de diferentes regiões e grupos étnicos do continente africano, construiu ao longo de séculos um novo cenário cultural nas Américas. Ao mesmo tempo também estavam em curso interações, disputas e trocas entre tradições africanas, portuguesas e indígenas. O encontro, nem sempre amistoso, entre esses diferentes povos fez nascer uma cultura original e diversificada: a cultura afro-brasileira. Muito do que hoje nos define como brasileiros é fruto desta criação cultural, na qual os africanos e seus descendentes foram protagonistas importantes. (FRAGA, 2009, online) • A mestiçagem A sociedade brasileira apresenta uma profunda influência que é resultante da mistura de povos e das culturas que vieram para cá seja por vontade própria (os imigrantes europeus) ou à força (os escravos negros). Conforme o autor aborda, “somos um povo mestiço, de cultura mestiça, o que quer dizer que somos o produto de várias misturas, que resultaram em coisas diferentes daqueles que lhe deram origem.” (TEIXEIRA, 2015, p.108). É importante destacar que a mestiçagem a que nos referimos está também relacionada a todos os outros povos que habitaram esta terra, e todos eles também são responsáveis pela construção da sociedade em vivemos hoje, e é claro os habitantes originais deste solo, os indígenas (que veremos posteriormente), possuem uma marcante influência na sociedade brasileira. Nosso estudo, faz um recorte especial para a predominância dos africanos em todo o território nacional, foram eles a principal força de trabalho durante um período de mais de trezentos anos. Sendo assim, eles se casaram com índios, portugueses, italianos dentre outros e imprimiram marcas genéticas nos rostos da população, as peles ficaram mais morenas, os cabelos ganharam cachos e volume, os gestos ficaram mais suaves e o andar malemolente e requebrado. A maneira de falar português do brasileiro foi transformada pelas pronúncias e gramáticas africanas, as vogais ficam mais abertas, as formas de fazer plural foram alteradas, os “erres” finais dos verbos muitas vezes deixaram de ser ditos. E muitas palavras foram incorporadas ao vocabulário. Elementos africanos estão na base da maioria das nossas manifestações culturais populares. Assim, quando falamos em mestiçagem do povo brasileiro, estamos nos referindo basicamente às misturas entre os africanos e os povos que eles encontraram aqui, principal- mente portugueses e indígenas. Mestiçagem resultante da importação de cerca de 5 milhões de africanos ao longo de mais de 300 anos. (TEIXEIRA, 2015, p.108) 13 Para resumir: a cultura afro-brasileira faz parte da formação da nação. O país que mais recebeu escravos africanos foi o Brasil e, mesmo com um evento chamado abolição, ainda existe uma luta incessante para reconhecimento, afirmação e justiça social. • A Religião na cultura afro-brasileira Durante décadas, as religiões e cultos que vieram da África foram proscritos na sociedade brasileira. Nesse sentido, “a partir da década de 1950 as perseguições às religiões afro-brasileiras diminuíram e a Umbanda passou a ser seguida por parte da classe média carioca.” (PORTAL DA CULTURA AFRO-BRASILEIRA, 2022, online). Nas décadas que se seguiram, as religiões afro-brasileiras começaram a ser celebradas e procuradas pela população branca, que aos poucos buscava abrigo espiritual e considerava os rituais afro-brasileiros uma demonstração de fé. Assim que chegavam ao Brasil, os negros escravos eram logo batizados e obrigados a praticarem o catolicismo, entretanto, era uma conversão superficial, as religiões de origem africana permaneciam, por meio de práticas secretas ou pelo sincretismo com a religião católica. Existem ainda hoje, algumas poucas religiões afro que se conservam quase que totalmente dentro das raízes africanas, como é o caso do Candomblé e do Xangô do Nordeste. Existem também, as que se formaram pelo sincretismo, como o Batuque, a Umbanda, o Tambor de Mina e outras. Praticamente todas as religiões afro-brasileiras, apresentam influências do catolicismo, outra manifestação está nos rituais de batismo e do casamento, mesmo se os fiéis seguirem uma religião de matriz afro. Algumas Religiões Afro-brasileiras e as regiões onde são mais frequentes: Figura 8: Religiões afro-brasileiras. Fonte: A autora, 2022. 14 • As danças, a música e as festas negras As manifestações artísticas criadas pelos afro-brasileiros são uma mescla de influências da África subsaariana com elementos da música portuguesa e, em menor grau, com outras culturas, tudo isso produziu uma enorme diversidade de estilos. Além disso, a história nos mostra que desde o período colonial até o século XX, a cultura vinda da Europa era supervalorizada, enquanto as manifestações culturais afro-brasileiras eram menosprezadas, discriminadas e muitas vezes proibidas. Por causa dessa mentalidade, as religiões afro-brasileiras e a capoeira foram muito perseguidas pelas autoridades. Outras expressões culturais do folclore eram toleradas e dependendo do contexto até incentivadas, cite-se o exemplo das Congadas, do Maracatu e do Lundu. Sob o ponto de vista das autoridades governamentais, religiosas e dos senhores, as festas negras foram muitas vezes descritas como “folias”, “batuques”, “voze- rias” ou “tocatas de pretos”. Esses termos se sucediam nos debates políticos e na imprensa do século XIX para qualificar as diferentes manifestações festivas dos africanos e seus descendentes. (TEIXEIRA, 2015, p.119) Ademais, a música popular brasileira apresenta muita influência dos ritmos africanos. Sendo assim, vários gêneros musicais coloniais de matriz africana deram origem a ritmos brasileiros como o maxixe, o samba, choro, bossa-nova e outros estilos contemporâneos. Uma das primeiras expressões da arte afro-brasileira, no início do século XX, foi o samba. Dessa forma, essa manifestação passou a ser reverenciada ao ocupar uma posição de destaque na música popular brasileira. Outra contribuição está em alguns instrumentos musicais, como o berimbau, o afoxé e o agogô. Durante o governo ditatorial de Getúlio Vargas, surgiram políticas públicas que incentivaram o nacionalismo, foi assim que a cultura afro-brasileira abriu caminhos para a aceitação oficial, nessa época os desfiles de escolas de samba receberam aprovação do governo, e, em 1934, foi fundada a União Geral da Escolas de Samba do Brasil. A seguir, um resumo das principais festas da cultura negra no Brasil. Quadro 1: Festas negras e outras manifestações. 15 Fonte: Adaptado de Palmares.gov, 2022. 16 Outra importante manifestação afro-brasileira é a Capoeira, encontrada hoje em todo o território brasileiro e em mais de 150 países, possui modalidades que variam de acordo com a região onde é praticada. Em 1953, o mestre Bimba, apresentou ao presidente Getúlio Vargas a Capoeira, que na ocasião, a chamou de “único esporte verdadeiramente nacional”. Assim, a Capoeira perdeu o rótulo de prática de bandidos e marginais. Figura 9: Jogar Capoëra - Danse de la guerre- Rugendas. Fonte: Wikimedia Commons, 2012. Johann Moritz Rugendas (Augsburg, Alemanha, 1802 – Weilheim, Alemanha, 1858). Pintor, desenhista e gravador que esteve no Brasil entre 1822 e 1825. Participou de expedições com o objetivo de documentar o continente americano e tem um importante trabalho iconográficode paisagens e costumes brasileiros. Diversas obras do artista documentam a vida dos negros no Brasil do Sec. XIX. Observar sua obra nos remete a um Brasil negro cheio de diversidade. Acesse a Enciclopédia Itaú Cultural e admire essas obras. https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa707/johann-moritz-rugendas/ obras?p=3 • Culinária Na culinária temos influências fortíssimas da cultura negra, foram os povos africanos que trouxeram muitas das comidas mais populares entre os brasileiros como o feijão preto, carne de porco, mandioca, o cuscuz e a canjica. Nesse contexto, o fato de serem escravos explica como os africanos desenvolveram suas técnicas culinárias no Brasil. Desse modo, aprisionados, viajando em péssimas condições, sem bagagem e sem ingredientes culinários, eles precisaram adaptar seus hábitos às condições existentes na colônia. Usaram a mandioca para substituir o inhame, não tinham pimentas africanas, o azeite de dendê, que já conheciam da África, foi um dos principais temperos. Aos poucos incorporaram seus modos de cozinhar à culinária dos colonizadores e dos indígenas, assim surgiu a cozinha brasileira. 17 Figura 10: A feijoada. Fonte: Freepik, 2022. Com o passar dos anos, o intercâmbio cultural entre Brasil e África foi sendo estreitado, tanto que, pratos afro-brasileiros são encontrados até hoje no continente africano, da mesma forma várias releituras de pratos africanos utilizando ingredientes brasileiros como a mandioca, retornaram ao nosso país. No que se refere aos ingredientes africanos que vieram para o Brasil durante a colonização, trazidos pelos traficantes de escravos e comerciantes, esses cons- tituem hoje importantes elementos da cultura brasileira. Seu consumo é popular e sua imagem constitui parcela importante dos ícones do imaginário do país. Vieram da África, entre outros, o coco, a banana, o café, a pimenta malagueta e o azeite-de-dendê. Sobre este, dizia Câmara Cascudo: “O azeite-de-dendê acompanhou o negro como o arroz ao asiático e o doce ao árabe”. (SOUZA, 2021, online). Existem muitos outros ingredientes e técnicas culinárias oriundas das culturas africanas e que hoje são considerados elementos afro-brasileiros. Finalizamos este tópico, destacando a importância de entender, conhecer e valorizar a contribuição afro-brasileira em nossa sociedade. Nos últimos tempos, vemos as discussões sobre racismo cada vez mais presentes. Muitas pessoas ainda acreditam que exista uma inferioridade racial, mesmo cento e poucos anos depois da abolição da escravatura. Ao verificarmos os dados reais, podemos perceber que alguma coisa está errada: “segundo o IBGE, dos 10% dos brasileiros mais pobres, 75% são negros; e de acordo com o Atlas da Violência, 75,7% das vítimas de homicídio são negros.” (SENADO,2020). São dados impressionantes que evidenciam que não é apenas preconceito. Diante disso, a discriminação racial está enraizada numa sociedade onde a maioria dos privilégios pertencem aos brancos. Esse é o que chamamos de “Racismo Estrutural”, que se perpetua por causa de uma estrutura social que mantém o racismo. Dessa maneira, estudar a história da formação, apropriar-se das informações dessa nossa sociedade Afro-brasileira deve ser uma ferramenta poderosa para demolir essa estrutura. 18 • A Literatura afro-brasileira, um instrumento de resistência Que lembranças trazemos das aulas onde personagens negras(os) eram mencionadas? Ou ainda, não há muito tempo, em filmes, novelas, programas de TV, que papéis eram desempenhados pelos afro-brasileiros? É comum pensarmos em personagens negros como elementos de histórias de escravidão ou folclore. Hoje em dia, temos uma situação diferente, temos negros e negras protagonistas, temos personagens negras e negros vitoriosos, cientistas, modelos etc. Sendo assim, é uma constatação e ao mesmo tempo uma reflexão. É perceptível que a participação negra na literatura se dá na maioria das vezes como tema, são raras as vezes em que negras e negros fazem parte do enunciado de suas histórias, Tal característica, por si só, já soa insatisfatória, mas torna-se ainda mais grave quando relembramos a composição da população brasileira: Em 2019, segundo a Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), divulga- da pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), negra(o)s (preta(o) s e parda(o)s) eram maioria, representando 56,2% da população; os brasileir(o)s que se declararam branca(o)s eram 42,8%. (ROCHA,2020, online). Com esses dados, cabe a indagação: por que conhecemos tão poucos escritores(as) negros (as) brasileiros? Nesse sentido, pesquisadores destacam os séculos de regime escravista e discriminação, mesmo depois da escravidão e os episódios repletos de políticas de extermínio e negação de direitos fundamentais como educação e saúde, esses seriam elementos para a pressuposição de uma superioridade intelectual, artística e cultural que impôs barreiras à cultura e a identidade cultural do povo negro, impedindo que produzissem suas próprias histórias. Desse modo, a consequência foi uma produção literária construída a partir de uma visão branca, com uma carga de estereótipos que de forma alguma contemplam a heterogeneidade de sujeitos negros. Em pesquisa acerca da produção literária do Brasil e dos modelos sociais que a constroem, Regina Dalcastagnè (2005) elaborou uma espécie de perfil do es- critor brasileiro: homem branco, heterrossexual, de classe média e do Sudeste. Sobre as personagens, 93,9% são brancas, em sua maioria, homens (62,1%) e heterossexuais (81%). Aos 7,9% de personagens negros, estão relegados pa- peis como bandidos ou contraventores (20,4%), empregados(as) domésticos(as) (12,2%) ou escravizados (9,2%). Destes, apenas 5,8% são protagonistas e 2,7% narradores (ROCHA, 2020, online). Existem inúmeros estudos sobre a presença do negro na literatura brasileira, não vamos nos deter aqui em todas as evidências, pois seriam necessárias muitas páginas para essa análise, basta termos presente que a literatura branca na maioria das vezes retratou personagens negros e negras, submissas, de mau caráter, inexpressivas muitas vezes com participações coadjuvantes. 19 Entretanto, apesar da ausência de destaques pela historiografia da literatura brasileira, outras vozes existiram. Aproveitando os espaços disponíveis, escritoras e escritores negros levantaram suas vozes, a despeito de uma estrutura racista que os desfavorecia. No quadro abaixo, alguns desses escritores e o período em que se destacaram: Quadro 2: Escritores e escritoras negras afro-brasileiros. Fonte: Rocha, 2020. A Literatura Negra no Brasil se manifesta como uma ação cidadã, necessária e indispensável à transformação, à resiliência, à (Re) construção de uma identidade, ela se entrelaça com as pautas contemporâneas e os debates antirracistas, ele pode desconstruir os efeitos desastrosos de estruturas opressoras que guardam os ranços colonialistas que ainda sufocam a população negra. Dessa forma, essa Literatura produz uma onda positiva que reafirma a identidade e as relações raciais na sociedade. 20 B I B L I O G R A F I A BEZERRA, Juliana. Cultura Africana. Disponível em: <https://www.todamateria.com.br/cul- tura-africana/>. Acesso em: 22/09/2022. BONISSONI, Natammy Luana et al. A História dos povos indígenas brasileiros. 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