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A representação descritiva e a produção literária indígena brasileira

Artigo sobre representação bibliográfica da literatura indígena brasileira; contextualiza seu surgimento, analisa registros em catálogos online, fundamenta-se em Representação Descritiva (Mey, Silveira) e conclui que o bibliotecário é agente essencial para a representação documental.

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1 Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Programa de Pós-Graduação em Biblioteconomia. Av. Pasteur, 458, sala 408, Urca, 22290-240, Rio de
Janeiro, RJ, Brasil. Correspondência para/Correspondence to: A. FRANCA. E-mail: <aline_sfranca@yahoo.com.br>.
2 Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Escola de Biblioteconomia. Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
Recebido em 16/5/2013 e aceito para publicação em 31/10/2013.
A representação descritiva e a produção
literária indígena brasileira
Descriptive representation and Brazilian
indigenous literature
Aline FRANCA1
Naira Christofoletti SILVEIRA2
Resumo
A partir da contextualização do surgimento da literatura indígena, este artigo apresenta os aspectos relevantes à elaboração da
representação bibliográfica das obras literárias indígenas do Brasil, a fim de assegurar uma representação documental digna. Esse
tipo de literatura caracteriza-se por criações de caráter oral ou escrito, coletivas ou individuais, sendo estabelecida, pensada e
estruturada a partir de padrões culturais e elementos estilísticos dos povos indígenas. Objetiva-se discutir a relação entre as publi-
cações literárias indígenas e os aspectos relativos à sua representação bibliográfica. Quanto à metodologia, recorreu-se a pesqui-
sas em catálogos online de acesso público a fim de recuperar registros bibliográficos a serem analisados. Utilizou-se o método
bibliográfico de forma exploratória visando reunir conceitos antropológicos e dados sobre grupos indígenas do Brasil. Sua base
teórica fundamenta-se a partir dos conhecimentos em Representação Descritiva, especialmente nas obras de Mey e Silveira.
Conclui-se que o bibliotecário torna-se o agente essencial para garantir a representação documental adequada e fiel aos docu-
mentos indígenas, para que estes possam relacionar-se com os outros itens do catálogo de uma Unidade de Informação, expon-
do todo seu potencial informativo.
Palavras-chave: Catalogação. Literatura indígena. Registros bibliográficos.
Abstract
Within the context of the emergence of indigenous literature, the aim of the paper is to introduce the relevant aspects of the development
of bibliographic representation of Brazilian indigenous literature to ensure a worthy document representation. This kind of literature
can be understood as any oral or written creation, be it collective or individual, established, designed and structured by cultural
standards and stylistic elements of indigenous people. The aim is to discuss the relationship between indigenous literary works
and aspects related to their bibliographic representation. The methodology used was research at online public access catalogs
to analyze bibliographic records. The bibliographic exploratory methodology was used to collect anthropological concepts
and data on indigenous groups in Brazil and the theoretical background was based on descriptive representation, particularly
in the works of Mey and Silveira. It was concluded that the librarian is the key player to ensure adequate and faithful
representation of documents of indigenous works to relate them to other items in the catalog of an information unit, exposing
their informative potential.
Keywords: Cataloguing. Indigenous literature. Bibliographic record.
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Introdução
Dotada de grandiosa riqueza cultural, as comu-
nidades indígenas brasileiras possuem, cada qual a seu
modo, variações de aspectos socioculturais que as
individualizam. Seja pela organização social, sejam pelas
estruturas linguísticas, práticas religiosas ou mesmo pelos
traços étnicos, os índios brasileiros despertaram - e conti-
nuam despertando -, o interesse de outros povos.
As últimas décadas do século XX foram determi-
nantes para a conquista de direitos das sociedades
indígenas. Esses grupos passaram a ser alvo de políticas
indigenistas que visaram proteger e assegurar a conti-
nuidade e preservação da cultura nativa. Por meio de
iniciativas de grupos individuais e governamentais, os
índios tiveram seus direitos reconhecidos perante o
governo, conquistando a possibilidade de representa-
rem a si mesmos. A produção bibliográfica é uma das
formas de representação desses povos, tema abordado
neste texto.
A partir da década de 1980, diversos grupos indí-
genas passaram a publicar e divulgar seus conheci-
mentos por meio de livros. Este tipo de publicação vem
crescendo, tanto em número quanto em relevância,
tornando-se presente em várias partes do mundo. Nesse
sentido, é interessante discutir a forma do tratamento
documental desses materiais, uma vez que são produ-
zidos no Brasil por índios brasileiros. Denominada por
literatura indígena, de acordo com Regino (2003), essa
literatura pode ser compreendida como qualquer criação
de caráter oral ou escrito, seja coletiva ou individual,
sendo estabelecida, pensada e estruturada a partir de
padrões culturais e elementos estilísticos dos povos
indígenas. Tal manifestação cultural proporciona o
conhecimento da cultura indígena por pessoas não
indígenas e facilita a disseminação da cultura, uma vez
que é produzida pelos próprios membros das comu-
nidades indígenas. A produção literária indígena na forma
escrita iniciou-se na década de 1980 pela demanda de
materiais didáticos utilizados nas escolas indígenas que
refletissem a cultura e a realidade de cada povo. Feliz-
mente, com o passar do tempo, a literatura indígena foi
assumindo outras características que enriqueceram seu
conteúdo. Ela não se limitou ao caráter didático inicial,
mas ampliou seu escopo por meio da criação de obras
narrativas e poesias.
Dessa forma, o trabalho considerou como obje-
tivo geral discutir a relação entre a produção literária
indígena e a sua representação bibliográfica. A temática
desse estudo está sendo aprofundada no Mestrado
Profissional em Biblioteconomia, no Programa de Pós-
-Graduação em Biblioteconomia, da Universidade Federal
do Estado do Rio de Janeiro. Trata-se de uma pesquisa
descritiva, de caráter documental e bibliográfico. De
acordo com Barros e Lehfeld (1986, p.91), esse tipo de
pesquisa tem como objetivo “Recolher, analisar e inter-
pretar as contribuições teóricas já existentes sobre deter-
minado fato, assunto ou ideia”. Utilizou-se a pesquisa
bibliográfica de modo exploratório a fim de extrair con-
ceitos e informações relevantes para fundamentar a arti-
culação das ideias apresentadas, consultando-se livros,
artigos de periódicos e outras pesquisas produzidas em
meio acadêmico. Apenas para ilustrar as discussões teóri-
cas, será realizada uma comparação entre dois registros
bibliográficos, recuperados em dois catálogos de acesso
online, da primeira obra literária indígena publicada no
Brasil.
A relevância de tal temática está em propor a
reflexão acerca da produção literária de grupos indígenas
brasileiros e a responsabilidade do bibliotecário em
permitir o acesso à informação de diferentes grupos
étnicos, sociais e políticos e, consequentemente, preser-
var a memória das comunidades indígenas brasileiras.
Mesmo que o foco da pesquisa tenha sido a
representação documental, faz-se necessário com-
preender alguns pontos relevantes sobre a cultura
indígena. A seguir serão apresentados a contextualização
do processo de produção bibliográfica indígena brasileira
e o etnocentrismo. Após situar algumas características
da cultura indígena, serão abordados conceitos rela-
cionados à representação bibliográfica, especificamente
à Representação Descritiva. E, por fim, apresenta-se a
relação entre a representação bibliográfica de obras
literárias indígenas e as considerações finais.
Contextualização
O primeiro passo para a produção literária indí-
gena foi dado com o avanço das práticas escolares nas
aldeias. Por haver uma demanda por materiais didáticos
que refletissem a realidadee a cosmovisão dos grupos
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indígenas, iniciou-se a elaboração de material específico
para tal fim, que fosse adequado ao ensino para esses
grupos. A introdução da escrita alfabética incentivou a
produção bibliográfica nas sociedades indígenas que, em
sua maioria, faziam uso apenas da tradição oral. Entre-
tanto, a produção não se manteve limitada aos livros
didáticos, alcançando outras tipologias textuais como os
contos e os textos informativos.
Organizações como o Núcleo de Escritores e Artis-
tas Indígenas (NEARIN), vinculado ao Instituto Indígena
Brasileiro para Propriedade Intelectual (INBRAPI), têm
atuado no combate ao preconceito literário e no incen-
tivo à produção literária escrita dos povos indígenas,
reforçando-a como uma ferramenta de resistência cultu-
ral pouco estudada em seus aspectos contemporâneos.
Do que pode ser denominado de “movimento literário
indígena”, as obras produzidas no Brasil estão atingindo
gradual notoriedade dentro e fora do País, principalmente
pelas novas formas de associações dos grupos indígenas.
Atualmente é possível encontrar alguns desses títulos nos
catálogos de importantes bibliotecas fora do Brasil, como
a Library of Congress (LOC), Biblioteca Nacional de España,
Biblioteca Nacional de México, entre outras.
Cultura indígena: etnocentrismo
e representações sociais
Do início da colonização do Brasil até meados do
século XX, os grupos nativos constituíam a temática de
inúmeras obras artísticas, literárias e antropológicas. No
entanto, por não ter havido uma preocupação de que
os mesmos fossem representados pelos seus próprios
membros, eles permaneceram sendo retratados por um
olhar estrangeiro, que se julgava superior. Ao posicionar
a cultura indígena em um nível inferior à cultura europeia
nota-se claramente o etnocentrismo que vigorava nos
primeiros séculos de colonização. Entende-se por etno-
centrismo o conceito antropológico que “Consiste em
privilegiar um universo de representações propondo-o
como modelo e reduzindo à insignificância os demais
universos culturais ‘diferentes’” (Carvalho, 1997, p.181).
Dessa forma, um grupo étnico ou cultural é tomado
como referência, declarando as culturas diferentes como
“subalternas”. No período compreendido entre os séculos
XV e XVI, notável pela expansão marítima europeia, o
colonialismo europeu estava fortemente relacionado ao
eurocentrismo. Partindo da compreensão de que a
Europa correspondia a uma hegemonia mundial, Araújo
e Maeso (2010, p.244) afirmaram:
[...] o eurocentrismo é mais do que uma pers-
pective [sic], é um sistema de representação cuja
eficácia ideológica reside mais na despolitização
das relações de poder, do que propriamente no
desenvolvimento de oposições binárias que
essencializam com sucesso o “nós” e o “outro”. A
violência é assim naturalizada ou ultrapassada,
com consequências fundamentais no modo
como o racismo, a identidade nacional e a “his-
tória” do “outro” [...] são interpretados ou simples-
mente evitados.
Lévi-Straus (1970, p.232), já sinalizava a perda
cultural que este tipo de ideologia ocasionava ao
reconhecer que ao “Caracterizar as raças biológicas por
propriedades psicológicas particulares, afastamo-nos da
verdade cientifica ao defini-las tanto de maneira positiva
quanto negativa”. Além disso, a “[...] diversidade inte-
lectual, estética, sociológica [das sociedades e civili-
zações] não está ligada por qualquer relação de causa e
efeito à que existe, no plano biológico, entre certos
aspectos observáveis pelos grupamentos humanos”.
Por muitos anos esta concepção manteve-se
predominante, tendo sido ensinada nos livros de história
sobre a colonização do Brasil. Esse pensamento influen-
ciou decisivamente a imagem dos povos dominados nas
expedições europeias, uma vez que feriu a identidade
cultural do grupo. A própria expressão “descobrimento
do Brasil” remete a uma visão eurocêntrica da chegada
dos portugueses ao território brasileiro, geralmente
associada a “Uma produção historiográfica realizada em
padrões tradicionais, saudosa dos grandes nomes e
eventos e valorizadora das efemérides” (Kuhn, 2000, p.59).
O contato entre portugueses e índios, naquela
época, foi permeado pela curiosidade e estranhamentos.
O interesse em relatar os hábitos e costumes daquele
povo motivou estudiosos de diversas áreas, influenciando
os textos de informação e a literatura jesuítica, ambos
pertencentes ao Quinhentismo, movimento literário que
se desenvolvia na Europa. Os textos de informação docu-
mentaram a instauração do processo de colonização,
explicitando informações que os missionários e viajantes
europeus adquiriam da natureza e do homem local. A
literatura jesuítica, além de seu caráter informativo,
possuía intenção pedagógica e moral (Bosi, 2006).
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Em decorrência desse contato, surgiram dife-
rentes formas de representar (de forma escrita) a cultura
indígena, a saber: a literatura indianista, a literatura indi-
genista, a literatura em línguas indígenas e, claro, a litera-
tura indígena, conceituada anteriormente, objeto deste
estudo. Essas diferentes manifestações literárias não
devem ser confundidas entre si, pois, apesar de objetiva-
rem a representação dos povos indígenas, seus agentes
não são os mesmos.
Segundo Regino (2003), a literatura indianista
surge depois do movimento de independência nacional,
na busca de fazer surgir um heroi nacional. No Brasil, foi
uma das peculiaridades do Romantismo literário com a
prosa de José de Alencar com os romances “O Guarani”
em 1857, “Iracema” em 1865 e “Ubirajara” em 1874, entre
outros, e pela poesia de Gonçalves Dias, destacando-se
“Juca-Pirama” e “Marabá” em 1851. Além disso, o indianis-
mo esteve presente em outros períodos da literatura
como no Barroco (tendo como autor de destaque o Padre
José de Anchieta) e no Arcadismo, com o poema épico
“O Uraguai” em 1769, de Basílio da Gama.
Já a literatura indigenista refere-se a: “[...] uma
literatura de protesto contra a situação em que se encon-
travam os povos indígenas e a firme decisão de mudar a
situação. A literatura indigenista vai defender o índio e
usá-lo como veículo de expressão dentro de uma escrita
altamente comprometida” (Kauss, 2009, p.63).
Esta literatura não é produzida pelos índios,
normalmente é feita por escritores que descendem,
convivem ou sentem-se atraídos pela cultura indígena
(Kauss, 2009). Os autores buscam compreender a cultura
indígena por meio de suas próprias perspectivas. No
Brasil, dois grandes autores indigenistas foram os irmãos
Orlando Villas-Bôas e Cláudio Villas-Bôas.
Surgida recentemente após a apropriação da
escrita pelas sociedades ágrafas, a literatura em línguas
indígenas permitiu a tradução de documentos de dife-
rentes idiomas para as línguas indígenas, tendo como
grande contribuição a escrita da tradição oral existente
nas comunidades (Regino, 2003).
O domínio da língua materna e do português, de
forma escrita e oral, proporcionou novas formas de
interação do indivíduo indígena com a “sociedade
nacional” (termo utilizado na Constituição Federal de
1988 para denominar a sociedade não indígena). A
apropriação desses saberes pode significar um ganho
estratégico para as comunidades indígenas, uma vez que
a língua materna pode vir a ocupar um espaço junto à
língua oficial, ao ser utilizada de forma escrita. Por conse-
quência, abre-se um novo caminho para o relaciona-
mento com outros grupos e para o estabelecimento de
posições políticas comuns. Consequentemente, o conhe-
cimento de seus direitos e a possibilidade de exercerem
sua cidadania resultará em respeito e reconhecimento
perante aos outros povos.
A cultura indígena, riquíssima em sua diversidade,
vem passando por modificações no contato com outras
sociedades. De acordo com Laraia (1988), a cultura possui
caráter dinâmico e se modifica a partir de diferentes
interações.Os grupos indígenas não configuram um
bloco homogêneo, mas a partir de raízes comuns esta-
belecem, entre as diferentes características que os indivi-
dualizam, pontos de convergência cultural. Melià (1987)
analisa com certa desconfiança a prática da escrita nas
sociedades indígenas ao afirmar que essa pode ser uma
forma de dominação. De fato, a escrita poderia ser vista
como um instrumento de opressão caso objetivasse
moldar a linguagem de um determinado grupo sob os
parâmetros de outro. Entretanto, de maneira geral, a
adoção da forma escrita para os grupos indígenas tem
representado uma nova via para o estabelecimento de
comunicação com diferentes grupos sociais.
O panorama atual da literatura indígena
A literatura indígena não surgiu com a escrita nas
aldeias, sendo encontrada anteriormente. Coutinho
(2008, p.24), ao conceituar literatura, afirma que “[...] a
literatura, como toda arte, é uma transfiguração do real,
é a realidade recriada, através do espírito do artista e
retransmitida através da língua para as formas, que são
os gêneros, e com os quais ela toma corpo e nova reali-
dade”. Partindo desse pressuposto, pode-se afirmar que
a literatura indígena, bem como as tradições poéticas, já
existia na tradição oral, e que nos últimos anos apenas
passou a fazer uso de outro recurso, a forma escrita. As
obras, que até então estavam nos cantos, lendas, mitos
etc. começam a se manifestar por meio de suportes
físicos, em especial o papel, sendo mais uma ferramenta
na manutenção das tradições e identidades.
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Utilizada de maneira adequada, a escrita - e por
sua vez, a literatura -, poderá contribuir significativamente
para a preservação e valorização da língua e cultura
indígenas. Esse movimento iniciado no final do século
XX vem ampliando a possibilidade de transmissão de
conhecimento e interação social e política entre os povos
indígenas e a “sociedade nacional”. A literatura escrita
indígena vai além da publicação de livros com a temática
indígena. Ela contém a possibilidade de autorrepresen-
tação de povos que por vezes foram mantidos em cate-
goria secundária no panorama político e cultural na-
cional.
Essas e outras conquistas são frutos da reivindi-
cação dos próprios grupos indígenas. E é nesse cenário
que surgem autores como Daniel Munduruku, Olívio
Jekupé e Eliane Potiguara, entre outros.
Daniel Munduruku, além de presidente do Insti-
tuto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual
(INBRAPI), pode ser considerado um dos principais
autores do que poderia se chamar de “movimento
literário indígena”. Com mais de 30 obras publicadas, o
autor já teve algumas de suas obras traduzidas para
outros idiomas e depositadas em importantes bibliotecas
como a Library of Congress (EUA) e a Biblioteca Nacional
da Itália, por exemplo. Seus textos costumam versar sobre
atividades cotidianas nas aldeias e tradições, como na
obra “Histórias de índio”:
Após o banho e a brincadeira, ele devia se ocupar
de alguma tarefa com a mãe ou o pai. Não havia
uma hora definida para começar esta atividade
uma vez que Kaxi tinha percebido que os mais
velhos diziam serem eles os senhores do tem-
po e não possuírem nenhum controlador do
tempo - que ele descobriu mais tarde se tratar
do kaxinug usado pelo homem branco para
marcar as horas. Às vezes, saíam bem cedinho
para a roça ou para a caça e a pesca, outras vezes
iam só na parte da tarde, e outras, ainda, não iam
a lugar nenhum, preferindo ficar em casa, conver-
sando e pitando [...]. À medida que crescia, Kaxi
ia sendo iniciado nos costumes tradicionais de
sua tribo. Falava a gíria [...], caçava, pescava, plan-
tava e colhia junto com os adultos (Munduruku,
2010, p.19).
Segundo Silveira (2005), mais de 40 etnias indí-
genas do Brasil já publicaram seus textos em livros e
cartilhas. A perspectiva é que esse número aumente
devido às políticas de incentivo à educação indígena e
ao crescente número de índios com formação superior
no país. O tipo de registro que é feito de uma deter-
minada cultura é determinante para a manutenção e
disseminação de informações sobre ela. Com o passar
do tempo, as sociedades se alteram, algumas culturas
são dizimadas, mas os documentos permanecem, e por
meio deles os grupos poderão ser estudados e com-
preendidos futuramente.
Ao alcançar um contexto de produção bibliográ-
fica, a literatura indígena deve ser compreendida como
documento capaz de portar a visão de mundo de um
determinado povo, seus hábitos, costumes etc. Com-
preender o contexto de criação de uma obra com tantas
especificidades como as publicações indígenas é funda-
mental para garantir uma representação bibliográfica
fidedigna. Assim, ao perceber que somente por meio de
uma representação adequada o documento poderá
relacionar-se com os outros itens de uma Unidade de
Informação, o bibliotecário torna-se o agente essencial
para garantir a comunicação entre os elementos que
compõem um acervo.
Representação documental
Possuir um documento em um acervo significa
mais do que um livro em uma estante. Significa um
recurso informacional inserido em um universo bibliográ-
fico, por meio do estabelecimento de relações com
outros elementos geradores de informação. A partir de
um documento isolado, pode-se obter somente a trans-
missão de seu conteúdo. Entretanto, se estiver envolvido
em relações de significados será possível expor ao
máximo o seu potencial informativo. Dessa forma, consi-
derando cada Biblioteca (ou Unidade de Informação)
como sistemas que vão muito além do significado
etimológico da palavra - que se refere somente à guarda
de livros -, é necessário que haja uma organização lógico-
-semântica capaz de controlar todo esse ambiente.
Independentemente da quantidade de itens
existentes em um acervo (seja de uma modesta bibliote-
ca particular ou de uma imponente biblioteca nacional),
faz-se necessária a utilização de ferramentas que viabi-
lizem a localização exata dos documentos. Entre os
diversos instrumentos utilizados para esse fim, destaca-
-se o catálogo. Capaz de estabelecer fluxos comuni-
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cativos entre o usuário e o acervo, o catálogo possibilita
as relações entre os documentos sem a necessidade
de tê-los em mãos por meio de representações bi-
bliográficas.
O vocábulo “representar” significa “Fazer ou tornar
presente; mostrar à evidência, [...] revelar” (Michaelis, 2009,
online). De acordo com Mey (1999, p.18) a
-
 “Represen-
tação bibliográfica consiste em um processo de comu-
nicação, visando a interligar itens (suportes físicos de
obras) a usuários e [...] demandas de usuários a itens
pertinentes”. Ainda segundo a autora, nesse processo
comunicativo, a representação bibliográfica se utiliza de
mensagens codificadas, “Pois cada um dos elementos
tem lugar e pontuação fixos, para sua identificação”.
Mais tarde, esse conceito foi apresentado como
a sintaxe e a semântica da linguagem catalográfica (Mey
& Silveira, 2010). A sintaxe compreende a pontuação e a
posição de cada elemento descritivo ao registrar um
atributo ou característica de uma determinada entidade
bibliográfica no âmbito dos Functional Requirements for
Bibliographic Records (FRBR); e a semântica “O significa-
do dos termos em sua posição e respectiva pontuação
precedente” (Mey & Silveira, 2010, p.128). Assim, a repre-
sentação bibliográfica pode ser compreendida como um
conjunto de informações organizadas para descrever e
acessar um item, evidenciando suas características
particulares.
No caso de obras literárias indígenas, por se tratar
de um conjunto de publicações com tantas particula-
ridades, o profissional bibliotecário deve proceder com
cautela ao elaborar o registro bibliográfico dos docu-
mentos. Essa representação será responsável por esta-
belecer um elo entre os itens de um acervo e seus
usuários. A representação bibliográfica adequada dos
documentos implicaa garantia e manutenção da memó-
ria dos grupos indígenas que estão ali representados. A
tomada de decisão por parte do bibliotecário sobre quais
características e informações acerca do documento serão
relevantes para a sua representação torna-se crucial. Esse
ato estabelecerá quais aspectos serão passíveis de busca
e relacionamento com os dados de outros documentos
do acervo.
Ao promover a representação bibliográfica desses
documentos, a importância do bibliotecário nesse
processo é reconhecida como um agente social. Como
profissional da informação, este deve conscientizar-se de
que as informações descritas de maneira inadequadas
serão capazes de criar barreiras no processo comunica-
cional que envolve os documentos de um acervo e os
usuários de uma Unidade de Informação.
Análise de registros bibliográficos
A fim de demonstrar a perda informacional gera-
da pela representação bibliográfica inadequada, a
pesquisa estabeleceu uma breve análise comparativa de
registros bibliográficos produzidos por diferentes bi-
bliotecas para o mesmo livro. Os registros foram pes-
quisados e extraídos do catálogo das bibliotecas em 25
de março de 2013. Portanto, tratam-se de registros bi-
bliográficos reais, recuperados nos catálogos disponí-
veis para acesso público online e elaborados por duas
bibliotecas de grande porte, sendo uma delas brasileira
e outra estrangeira. Tais bibliotecas serão denominadas
“Biblioteca A” e “Biblioteca B”, de forma a preservar a iden-
tidade das instituições. Ambas fizeram uso do código
Anglo-American Cataloging Rules, 2.ed. rev. (AACR2r) e do
formato Machine Readable Cataloging (MARC).
A obra pesquisada nos catálogos intitula-se “Antes
o mundo não existia”, de Umúsin Panlõn Kumu e Tolamãn
Kenhíri, com introdução de Berta G. Ribeiro. Trata-se do
primeiro livro totalmente escrito e ilustrado por índios
no Brasil, apresentando uma narrativa acerca da mitologia
do povo Desana-Kehiripora, sobre a criação do mundo.
Sua primeira edição foi lançada em 1980, pela Livraria
Cultura Editora.
Considerando a regra 2.0B do AACR2r, que diz
respeito às fontes de informação, para livros e outros tipos
de monografias impressas, deve-se considerar como
fonte principal a página de rosto. De acordo com a área
da descrição, dados podem ser extraídos de outras partes
da publicação (como outras páginas preliminares e
colofão) e, em alguns casos, pesquisados fora dela
(Código de Catalogação Anglo-Americano, 2004). Desta
forma, apresenta-se a página de rosto da obra analisada
(Figura 1), para que seja possível visualizar os dados
contidos na mesma.
A página de rosto apresenta de forma clara as
informações quanto ao título, subtítulo, autores e editora,
enquanto outras informações podem ser encontradas no
verso da página, fornecendo dados necessários para uma
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descrição clara do material. A partir da leitura técnica, as
bibliotecas elaboraram seus registros bibliográficos
(Figuras 2 e 3).
Ainda que tenha sido utilizado o mesmo código
e formato de catalogação, é possível verificar diferenças
na representação do documento em questão. A principal
diferença, nesse caso, se dá pela atribuição de respon-
sabilidade da obra e a escolha dos pontos de acesso. Ora,
se é pelo do ponto de acesso que o catálogo será capaz
de recuperar determinadas informações que descrevem
um item, quanto à forma de entrada, o código estabelece
o seguinte:
21.1 A2. Regra geral. Faça a entrada de uma obra
de uma ou mais pessoas sob o cabeçalho esta-
belecido para o autor pessoal [...], para o autor
pessoal principal [...] ou para o autor pessoal mais
Figura 1. Página de rosto do livro “Antes o mundo não existia”.
Fonte : Kumu e Kenhiri (1980).
provável [...]. Em alguns casos de autoria compar-
tilhada [...], faça a entrada sob o cabeçalho esta-
belecido para a pessoa mencionada em primeiro
lugar. Faça entradas secundárias de acordo com
as instruções de 21.29-21.30 (Código de Catalo-
gação Anglo-Americano, 2004, p.6).
No registro bibliográfico da Biblioteca B (Figura
3), consta entrada principal e secundária para os autores
da obra, enquanto o registro elaborado pela Biblioteca
A (Figura 2), possui somente entrada principal para o
título da obra. De acordo com o AACR2r, o ponto de
acesso principal pelo título deve ser feito se:
a) a autoria pessoal for desconhecida [...], ou difusa
[...], e a obra não for proveniente de uma entidade
ou b) é uma coleção de obras por diferentes
pessoas ou entidades (veja 21.7) ou c) procede
de uma entidade mas não se enquadra em
nenhuma das categorias enumeradas em 21.1B2
e não é de autoria pessoal ou d) é reconhecida
como escritura sagrada de um grupo religioso
(veja 21.37) (Código de Catalogação Anglo-Ame-
ricano, 2004, p.7).
Aparentemente, a obra não se enquadra nas
exceções previstas pela regra. Não há como saber quais
motivos levaram a Biblioteca A a ocultar dados tão impor-
tantes como os autores de um livro, mas não há dúvidas
de que isto gera perda informacional, uma vez que o
usuário não conseguirá recuperar o registro bibliográfico
ao pesquisar pelos nomes dos autores. No caso da
catalogação realizada pela Biblioteca A, somente o nome
da pessoa que escreveu a introdução do livro figura na
área destinada aos responsáveis pela obra, enquanto os
autores não foram sequer mencionados, no campo 245,
no subcampo $b do formato MARC.
Desconsiderar os autores indígenas como respon-
sáveis intelectuais pela obra resulta em uma represen-
tação incompleta e na restrição das possibilidades de
pesquisa dos usuários para a recuperação do documento,
além de prejudicar identificação dos responsáveis pela
obra. Se, como visto, os nomes dos autores constam na
página de rosto em seu local adequado e estes são
omitidos do registro bibliográfico, a representação do
documento fica comprometida. Este aspecto fere a
integridade da representação do item, uma vez que o
registro bibliográfico ocupará, no catálogo, o lugar do
documento em si.
A comparação entre os registros aqui apresentada
buscou apenas exemplificar as discussões presentes no
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.C. SILVEIRA
74
TransInformação, Campinas, 26(1):67-76, jan./abr., 2014
quadro teórico. Outras comparações poderiam ter sido
feitas para melhor clarificar a situação da representação
de obras literárias indígenas. Ao comparar os registros
bibliográficos observou-se que há uma lacuna referente
LDR 00757cam0022002417a 4504
001 98041714430250E53
003
005 20081215160817.7
008 970609s19800000bspa 000 0 por d
040 ## $a
043 ## $a s-bl---
082 04 $a 299.8
092 ## $a
245 00 $a Antes o mundo não existia : $b a mitologia heróica dos índios Desana / $c introdução
 de Berta G. Ribeiro. -
260 ## $a [São Paulo] : $b Cultura, $c 1980.
300 ## $a 239p. : $b il. color. ; $c 20cm.
590 ## $a
650 04 $a Índios Desana - $x Religião e mitologia.
650 04 $a Índios da América do Sul - $z Brasil.
700 1# $a Ribeiro, Berta G. $q (Berta Gleizer), $d 1924-1997.
852 ## $a
949 ## $a
Figura 2. Registro bibliográfico, Biblioteca A.
Fonte : Elaborado pelas autoras (2013).
Figura 3. Registro bibliográfico, Biblioteca B.
Fonte : Elaborado pelas autoras (2013).
001 3753850
005 19941003155101.8
008 830802s1980 bl a b 000 0 por
035 ## $9 (DLC) 82106190
906 ## $a 7 $b cbc $c orignew $d 4 $e ncip $f 19 $g y-gencatlg
010 ## $a 82106190
020 ## $c Cr$480.00
040 ## $a DLC $c DLC $d DLC
043 ## $a s-bl—
050 00 $a F2520.1.D47 $b K85 1980
082 00 $a 299.8 $2 19
100 1# $a Kumu, Umuìsin PanloÞn.
245 10 $a Antes o mundo naÞo existia : $b a mitologia heroica dos índios Desâna / $c Umuìsin
 Panlõn Kumu, Tolamãn Kenhìri ; introdução de Berta G. Ribeiro.
250 ## $a 1.a ed.
260 ## $a SaÞo Paulo : $b Livraria Cultura Editora, $c 1980.
300 ## $a 239 p. : $b ill. ; $c 20 cm.
504 ## $a Includes bibliographical references.
650 #0 $a Desana mythology.
700 1# $a Kenhiìri, TolamaÞn.
991 ## $b c-GenColl $h F2520.1.D47 $i K85 1980 $t Copy 1$w BOOKS
à elaboração dos pontos de acesso autorizados (cabe-
çalhos autorizados) de autores indígenas e divergências
entre representação da mesma obra em edições dife-
rentes. Além disso, observou-se que o registro bibliográ-
PRO
D
U
Ç
Ã
O
 LITERÁ
RIA
 IN
D
ÍG
EN
A
75
TransInformação, Campinas, 26(1):67-76, jan./abr., 2014
o seu alcance. No entanto, a adoção de ferramentas iguais
não garante a elaboração de registros bibliográficos
idênticos. O processo de descrição de documentos
algumas vezes é visto como a simples aplicação de
normas e padrões, porém a atividade intelectual e
interpretativa envolvida nesta prática é determinante
para o resultado final. As normas de catalogação são
ferramentas que norteiam a prática da representação
documental, entretanto devem ser adaptadas à realidade
da Unidade de Informação na qual se aplicam e aos
aspectos que atenderão o público ao qual se destina.
Caso os instrumentos utilizados não sejam suficientes
para atender uma determinada situação de repre-
sentação, a fim de garantir o contexto informacional, o
bibliotecário deve ser capaz de realizar ajustes ne-
cessários e adotar as medidas adequadas a cada circuns-
tância em particular.
Para a escolha de pontos de acesso, sugere-se que
a agência bibliográfica nacional estabeleça diretrizes para
a normalização dos pontos de acesso para nomes indí-
genas, uma vez que o AACR2r não abarca esse tipo de
especificidade. Os catálogos de bibliotecas, por sua
importância no gerenciamento das informações sobre
os itens de um acervo, devem possuir uma política estru-
turada a fim de garantir sua consistência. Tal descom-
passo limita as possibilidades de recuperação do catálo-
go, prejudicando a pesquisa por parte do usuário. Por
outro lado, principalmente nos casos de autores pessoais
que possuem tanto o nome em língua portuguesa quan-
to em língua indígena, estabelecer o ponto de acesso
que o representará adequadamente, relacionando-o às
outras possíveis formas de busca, irá minimizar os im-
pactos causados por inconsistências do catálogo no
resultado das buscas.
A Representação Descritiva, enquanto processo
de representação documental, implica em uma série de
tomadas de decisões, pois, ao escolher um aspecto do
documento a ser representado, pode-se, involunta-
riamente, condenar o outro ao esquecimento. Para que
um item seja capaz de relacionar-se com os outros por
meio do catálogo, seu registro deve ser o mais imparcial
e amplo possível, estabelecendo conexões que
garantirão seu contexto informacional. Isso se estende à
adoção dos nomes indígenas dos autores nativos, que
por vezes são negligenciados, utilizando-se somente a
fico mais completo é oriundo da biblioteca estrangeira.
Como o livro representado constitui uma parte da cultura
brasileira (no caso, a cultura indígena), acredita-se que o
registro bibliográfico deveria ser o mais completo pos-
sível. Tais temas serão resgatados e discutidos em pes-
quisas futuras.
Considerações Finais
O Brasil, por seu processo histórico, deve valorizar
as nuances de sua cultura nacional, reconhecendo o
devido valor da produção literária indígena. Ao entender
os aspectos que influenciaram seu surgimento, é possível
compreender a importância desses documentos e sua
contribuição para a cultura nacional. Um conhecimento
mais sólido acerca das culturas indígenas pode ser capaz
de reduzir, quiçá extinguir, as “manchas culturais” causa-
das pelo etnocentrismo.
A Representação Documental é posterior à pro-
dução do documento, devendo a primeira corresponder
da forma mais fidedigna possível ao documento a ser
representado. É possível observar, em alguns catálogos
de bibliotecas, que certos documentos produzidos por
uma determinada tribo ou autor indígena não estão re-
presentados adequadamente, seja por limitações dos
Códigos de Catalogação e demais instrumentos, seja pelo
desconhecimento do próprio bibliotecário. Algumas
vezes o nome da tribo é considerado como a temática
da obra, sendo que na realidade a tribo deveria ser consi-
derada responsável pelo conteúdo ou pela produção
deste documento. Outras vezes, o registro bibliográfico
não apresenta pontos de acesso aos autores indígenas,
além da ausência de padronização nos cabeçalhos de
pontos de acesso para nomes pessoais e povos indí-
genas. Estas questões interferem na representação e
recuperação da informação, podendo inclusive revelar
um descompromisso com parte da cultura indígena
brasileira.
Sabe-se que a utilização de um mesmo código e
formato de catalogação em diferentes catálogos bene-
ficia a interoperabilidade entre sistemas e a possibilidade
de compartilhamento de registros. Dessa forma, é pos-
sível ultrapassar barreiras relacionadas à compreensão e
intercâmbio de registros bibliográficos, ampliando assim
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76
TransInformação, Campinas, 26(1):67-76, jan./abr., 2014
forma em língua portuguesa. Uma vez que o nome nativo
de um autor indígena é respeitado, sua etnia passa a ser
reconhecida e aceita. Não é somente o ato de inserir uma
determinada informação em seu local de representação
específico no registro bibliográfico. Ao omitir esse tipo
de dado, nega-se a atribuição da responsabilidade
intelectual do autor indígena pelo material produzido.
Por fim, conclui-se que os documentos produzi-
dos pelos grupos indígenas oferecem uma nova pers-
pectiva à cultura nacional. Os índios, que por longos anos
permaneceram em situação de desvantagem social,
possuem ferramentas para reescrever a história do Brasil,
a partir da história do seu povo. Estudar as formas de
representação dos documentos de diferentes grupos
sociais e étnicos é uma maneira de garantir a preservação
da memória destes grupos, ao facilitar e beneficiar o
acesso à informação aos cidadãos. Oferecer um trata-
mento bibliográfico digno a esses documentos é função
do bibliotecário, que deve sempre respeitar a diversidade
cultural e beneficiar o acesso aos documentos que lhe
são confiados, independentemente do seu tipo de supor-
te. Nesse cenário, o bibliotecário se destaca como um
dos responsáveis por evitar o desaparecimento de
conhecimentos ancestrais, atuando de forma interdis-
ciplinar como disseminador desses saberes e incen-
tivador do desenvolvimento literário das minorias étnicas.
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