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Tópico 09 Imunologia Resposta Imune Contra Antígenos Não-Próprios 1. Introdução Quando pensamos em antígenos que são externos ao organismo (antígenos não-próprios), logo imaginamos que se trata dos antígenos dos microrganismos que causam infecções. Esta percepção está correta, pois estes antígenos não estão presentes em nossos tecidos. Mas, há mais antígenos não-próprios com os quais também entramos em contato. Isto foi visto quando falamos dos processos de tolerância oral, em que o sistema imune entra em contato com antígenos, que são ingeridos durante a alimentação. Também não podemos descartar o contato com antígenos não-próprios, quando os transplantes de tecidos/órgãos são realizados. Como já tratamos da tolerância oral, vamos agora então dar atenção a estas duas outras situações de exposição a antígenos não-próprios: infecções e transplantes. 2. Características Gerais da Resposta Imune Contra Infecções Durante as infecções, há eventos-chave que ocorrem e que são importantes para determinarmos a extensão da resposta imune contra estas infecções. São eventos-chave: a entrada do micróbio, sua invasão e colonização de tecidos do hospedeiro; como ele consegue escapar da resposta imune, e qual a lesão tecidual desencadeada. A doença, portanto, é gerada quando ocorre a morte das células do hospedeiro ou quando toxinas são liberadas e alteram a homeostase do organismo. Avaliando vários tipos de infecções, podemos determinar algumas das características gerais da resposta imune contra os micróbios. Sabemos que a defesa contra as infecções é mediada pelas respostas da imunidade inata (que é primeira linha de combate do organismo) e adaptativa (que contém a resposta imune mais específica, de maior duração e com geração de células de memória). Portanto, quando a resposta imune adaptativa é acionada, sabemos que a resposta imune contra o micróbio em questão será distinta e especializada para ele (ou seja, especificidade de reação). Outra característica geral da resposta imune contra agentes infecciosos é a patogenicidade (capacidade de gerar doença). Esta é influenciada pela habilidade dos micróbios em escapar dos mecanismos efetores da resposta imune. Por fim, verificamos que, em muitas infecções, a injúria dos tecidos e a doença causada deixaram de ser responsabilidade do agente infeccioso, mas ocorrem pelo excesso de resposta imune (hipersensibilidade) ao micróbio e seus produtos. Há uma grande diversidade de agentes infecciosos que podemos entrar em contato e, de acordo com as respostas específicas da imunidade adaptativa, deveríamos ter que estudar os mecanismos específicos de cada infecção. Entretanto, além deste tipo de abordagem ser completamente impraticável para um curso de graduação, quando avaliamos as infecções, podemos verificar que há padrões que se repetem em “tipos” distintos de agentes infecciosos. Ou seja, há padrões de respostas contra infecções por bactérias extracelulares, bactérias intracelulares, fungos, vírus. As respostas imunológicas contra outros parasitas que não foram abrangidos nestes tipos podem ser agrupadas e estudadas em separado. Portanto, nos próximos itens, vamos abranger cada um destes grupos de resposta imune contra as infecções. 3. Imunidade Contra Bactérias Extracelulares As bactérias extracelulares se multiplicam fora das células do hospedeiro, em vários locais, como na circulação, nos tecidos e em seus espaços (por exemplo, o lúmen/espaço das vias respiratórias, onde o ar fica alojado). Nestas infecções, a doença é causada pela inflamação local gerada ou pelas toxinas que são produzidas por estes tipos de bactérias. As toxinas podem ser divididas em dois tipos: endotoxinas (que são parte da parede celular. Como exemplos, temos o LPS e os peptideoglicanos) e exotoxinas (que são substâncias produzidas pelas bactérias e que podem causar citólise). Na resposta imune inata contra as bactérias extracelulares, verificamos a ativação do sistema complemento (o LPS e as peptideoglicanas ativam a via alternativa do complemento), a fagocitose (pelos receptores de reconhecimento de padrão, os PRRs, que estão expressos em fagócitos, que reconhecem os padrões moleculares associados aos patógenos, os PAMPs; também há receptores que reconhecem moléculas do sistema complemento), e a resposta inflamatória (a ativação destes fagócitos pela ligação aos receptores citados acima, leva a produção de quimiocinas e citocinas que recrutam e ativam os leucócitos no local da infecção). Na resposta adaptativa, temos a resposta imune humoral, com produção de anticorpos contra antígenos de parede bacteriana ou toxinas produzidas por elas. Após a produção de anticorpos, teremos a opsonização e fagocitose das bactérias, a ativação da via clássica do sistema complemento e a neutralização dos efeitos das toxinas. Peptídeos destas bactérias são apresentados as células T CD4, que vão auxiliar na produção de anticorpos pelas células B e na ativação de fagócitos (neutrófilos e macrófagos), via produção de citocinas (IFN-γ, TNF-a, linfotoxina, e IL-17). Quando a resposta imune contra estas bactérias extracelulares é exacerbada, podemos verificar danos causados no organismo. A ativação excessiva de macrófagos e neutrófilos pode levar estas células a produzir e liberar espécies reativas do oxigênio e enzimas lisossomais em grande quantidade que, por sua vez, levam à morte das células dos tecidos. Pela alta produção repentina de citocinas (fenômeno conhecido por “cytokine storm”), principalmente de TNF-a, que ocorre quando as infecções bacterianas se disseminam pelo corpo, ocorre o choque séptico, com a formação de coágulos em vários capilares do corpo, levando ao colapso circulatório, hipoglicemia e, por fim, comprometimento de vários órgãos, como pulmões, fígado, rins, e coração. Algumas toxinas de bactérias estimulam células T que possuem um determinado tipo de região variável da cadeia beta (Vβ) no TCR. Estas toxinas são chamadas superantígenos e estes são importantes neste processo de injuria sistêmica, quando ativam, indiscriminadamente, um grande número de células T que, por sua vez, passam a produzir uma quantidade exacerbada de citocinas, levando ao “cytokine storm”. Anticorpos com especificidade cruzada também podem ser produzidos em algumas infecções, como na infecção de garganta por Streptococcus pyogenes que, em alguns indivíduos, leva à produção de anticorpos anti-proteína M da parede bacteriana, que reage contra proteínas do sarcolema (membrana celular) das células do miocárdio, causando inflamação cardíaca (miocardite). Esta doença é conhecida como febre reumática. A evolução dos mecanismos do sistema imune contra as infecções é observada pela miríade (grande quantidade) de mecanismos que são observados. Entretanto, quando pensamos na evolução, não podemos imaginar que apenas o sistema imune evolui, se adaptando aos microrganismos que surgem. Temos que assumir que a evolução também ocorre nos próprios micróbios, para escapar da destruição via mecanismos da sistema imune. Quando avaliamos as bactérias extracelulares sobre esta ótica, verificamos que elas podem escapar dos mecanismos efetores da resposta imune, por meio da inibição da ativação do sistema complemento (por exemplo, expressão de ácido siálico, que inibe a ativação do complemento) ou da fagocitose (por exemplo, quando produzem uma cápsula rica em polissacarídeos ao seu redor). Algumas bactérias extracelulares podem, ainda, sofrer uma variação gênica dos antígenos que expressam na sua superfície, fazendo com que os anticorpos previamente produzidos sejam inócuos frente as novas moléculas. Como exemplos de bactérias extracelulares causadoras de infecções, temos Staphylococcus aureus, Streptococcus pyogenes, Escherichia coli, Vibrio cholerae, Clostridium tetani, Neisseria meningitis, e Corynebacterium diphtheriae. Resposta imune inata contra bactérias extracelulares. Resposta imuneadaptativa contra bactérias extracelulares. Choque séptico. 4. Imunidade Contra as Bactérias Intracelulares As bactérias intracelulares vivem dentro dos vacúolos ou do citosol das células, fora do alcance dos anticorpos. Na imunidade inata contra estes micróbios, os neutrófilos são os primeiros a responder, fagocitando e destruindo estes microrganismos. Na sequência, verificamos que ocorre um “feedback” positivo de ativação entre macrófagos/células dendríticas (DCs) e células NK. Neste “feedback”, os macrófagos e as DCs, que foram ativados pelo contato com as bactérias, passam a produzir IL-12 que, por sua vez, ativa células NK para produzirem IFN-γ que, em retorno, ativa os macrófagos e DCs, para matar as bactérias fagocitadas e produzirem mais IL-12, fechando o ciclo. Já na imunidade adaptativa contra estes patógenos, as células T desempenham um papel importante, pois as células T CD4 contribuem para a ativação de macrófagos que matam as bactérias e as células T CD8 levam à morte de células infectadas, liberando as bactérias que, agora, serão capturadas e mortas pelos macrófagos ativados. A ativação exacerbada dos macrófagos contra bactérias intracelulares, via padrão Th1 de resposta, pode causar injuria também, pela formação de granulomas, levando a necrose e fibrose tecidual (como vemos na infecção por Mycobacterium tuberculosis). Em outras infecções, as variações entre os padrões de respostas das células T CD4 (por exemplo, Th1 versus Th2) podem influenciar na imunidade celular contra as bactérias intracelulares, gerando patologias diferentes contra a mesma infecção. Verificamos este tipo de variação nas infecções por Micobacterium leprae. Em pacientes com padrão Th1 de resposta (com produção de IFN-γ e IL-2), ocorre uma forte resposta imune celular e formação de granulomas ao redor dos nervos sensoriais, que leva a ocorrência maior de lesões de pele por acidentes, mas menor lesão causada por bactérias e menor produção de anticorpos (aqui temos a hanseníase tuberculóide). Já em pacientes com padrão Th2 de resposta (com produção de IL-4 e IL-10), ocorre uma supressão da ativação de macrófagos, com bactérias a sobreviver e multiplicar dentro deles, levando às lesões na derme. Também ocorre maior produção de anticorpos (aqui temos a hanseníase virchowiana ou lepromatosa). Assim como para bactérias extracelulares, também temos as estratégias de escape ao sistema imunológico, pelas bactérias intracelulares. Entre estas estratégias, verificamos que algumas inibem a fusão do fagossomo com o lisossomo, que levaria a sua degradação; outras saem dos fagossomos e migram para o citosol da célula, evitando sua destruição pelas enzimas lisossomais e há, ainda, algumas bactérias que conseguem neutralizar as espécies reativas do oxigênio, impedindo que sejam destruídas. Como exemplos de bactérias intracelulares, temos também Listeria monocytogenes e Legionella pneumophila. Resposta imune inata contra bactérias intracelulares. Resposta imune adaptativa contra bactérias intracelulares. 5. Imunidade Contra os Fungos A imunidade contra os fungos é de difícil estudo, pois, geralmente, estas são infecções oportunistas, ou seja, elas ocorrem quando há o comprometimento da imunidade do indivíduo. Portanto, é mais comum verificarmos este tipo de infecção nos pacientes com AIDS, ou naqueles que estão sob efeitos colaterais de imunoterapias, quer seja após recebimento de transplantes, quer seja no tratamento de tumores. De todas as deficiências que podemos associar ao aparecimento de infecções fúngicas, podemos destacar as deficiências de neutrófilos, por comprometimento da medula óssea. Os fungos podem instalar-se dentro ou fora das células e, portanto, os mecanismos de resistência são semelhantes aos descritos para as infecções com bactérias intra ou extracelulares. Porém, sabe-se pouco sobre a imunidade contra fungos, porque há escassez de modelos animais e porque estas infecções só ocorrem após falha na imunidade. Quando observamos a imunidade inata, verificamos que os macrófagos e neutrófilos são importantes para a resistência aos fungos. Entretanto, os neutrófilos são mais relevantes, pois ao contrário dos macrófagos, eles conseguem liberar os radicais livres e as enzimas lisossomais que matam os fungos, mesmo se não conseguirem fagocitá-los. Histoplasma capsulatum, que é um fungo que pode sobreviver dentro de macrófagos, é eliminado pelos mesmos mecanismos descritos na resistência contra as bactérias intracelulares. Na resposta imune adaptativa, verificamos que as células T CD4 e CD8 cooperam para a eliminação de Cryptococcus neoformans, que tende a colonizar pulmões e cérebros de pacientes imunodeprimidos. Em infecções por Candida albicans, que atacam primeiramente as mucosas, acredita-se que Muito se fala sobre o problema dos pombos nas cidades. É atribuído a eles a transmissão de uma série de doenças. Isto é, de fato, verdadeiro, pois os pombos podem carrear muitas infecções e proporcionar as condições ideais para o desenvolvimento de agentes patogênicos. Um bom exemplo disso é a relação que existe entre duas espécies patogênicas de fungo, Cryptococcus neoformans e Histoplasma capsulatum, e estes animais. Ambas espécies de fungo dependem de substrato rico em Nitrogênio para sobreviverem e é exatamente nas fezes destes pombos que eles encontram as condições ideais para sua sobrevivência. as células da imunidade celular previnem o alastramento da infecção para outros tecidos. Em muitos casos, as respostas do tipo Th1 e Th17 são protetoras, por levar a ativação de macrófagos e recrutamento de neutrófilos para o local da infecção. Contudo, conforme vimos quando estudamos os tipos de hipersensibilidade, em respostas Th1 pode ocorrer a formação de granulomas e, neste caso, o granuloma pode ser a causa de injurias nos tecidos do paciente. Muitos fungos induzem a produção de anticorpos, que são úteis na sua eliminação; nas infecções por C. neoformans, verificamos que as hifas recobertas pelos anticorpos podem ser destruídas pela citotoxidade mediada por anticorpos. Os fungos também estão sobre pressão evolutiva e verificamos que cepas virulentas de Cryptococcus neoformans inibem a produção de TNF-a e IL-12 por macrófagos (citocinas pró-inflamatórias), mas estimulam a produção de IL-10 por estas células (citocina anti-inflamatória), para escapar da imunidade inata. Resposta imune inata contra fungos. 6. Imunidade Contra Infecções Virais Quando avaliamos as infecções virais, verificamos que, na imunidade inata, os principais mecanismos de defesa são a produção de IFN do tipo 1 pelas células que estão infectadas, especialmente por DCs plasmocitóides. Sob ação de IFN tipo 1, as células produzem uma proteína quinase, a PKR, que depende da ligação ao RNA dupla fita (dsRNA) para ser ativada. Como dsRNA só estará presente nas células infectadas, a PKR ativada destas células vai inibir a síntese de proteínas, levando à morte da célula. Outro componente da imunidade inata que atua na morte de células infectadas são as células NK (mecanismo já descrito anteriormente). O processo de morte celular induzido pelas células NK é fascinante e, com o desenvolvimento das tecnologias de microscopia, pode ser visualizado. O vídeo abaixo mostra células NK matando células tumorais, como exemplo daquilo que estas células são capazes durante as infecções virais. Two-photon microscopy video of natural killeTwo-photon microscopy video of natural kille…… https://www.youtube.com/watch?v=TTtQk-UIhf4 Já na imunidade adaptativa, os anticorpos que são produzidos atuam de duas formas: impedem a entrada dos vírus nas células-alvo e facilitam a sua fagocitose. Em muitas situações, a IgA, que é produzida logo abaixo das mucosas, é secretada no muco, ficando depositada na mucosa. Quando os vírus chegam até estas superfícies, eles são opsonizados pela IgA e não conseguem infectar as células epiteliais.Uma vez dentro das células, ainda nos mecanismos de imunidade adaptativa, as respostas via linfócitos T citotóxicos (CTLs) passam a ser importantes (lembrando que estas células dependem da IL-2 produzida por células T CD4 para sua diferenciação/ativação). Nestes casos, estes CTLs reconhecem as células infectadas, destruindo-as por um mecanismo semelhante àquele observado nas células NK. É importante ressaltar que, em algumas infecções virais, especialmente em infecções não-citopáticas (nas qual o vírus não leva a destruição celular), a lesão tecidual pode ser causada pelas CTLs e não pelo vírus. Ou seja, a patogenia da doença não é gerada pela infecção per se, mas sim pela resposta imune. Verificamos este tipo de patogenia nas infecções pelo vírus da coriomeningite linfocítica (LCMV, na qual ocorre a destruição das células da meninge) e da hepatite B humana (que pode levar a um quadro de lesões cicatriciais e até mesmo a falha hepática ou câncer de fígado, na fase crônica da infecção). Os vírus tentam escapar da resposta imune, por meio da alteração de seus antígenos, principalmente das glicoproteínas da sua superfície, para que os anticorpos formados se tornem inúteis (como ocorre com o vírus da influenza, explicando o porquê de novas formulações vacinais a cada ano). Podem também inibir a produção de moléculas classe I do MHC, quer seja pelo bloqueio da sua montagem ou expressão, ou produzir proteínas que se ligam às citocinas e quimiocinas, que seriam produzidas para ativar e atrair as células do sistema imune para o local da infecção, ou ainda podem se ligar diretamente aos receptores destas moléculas, funcionando como seus antagonistas. Resposta imune inata contra vírus. Resposta imune adaptativa contra vírus. 7. Imunidade Contra Protozoários e Helmintos Neste item, agrupamos dois tipos de parasitas, sobre os quais há uma série de peculiaridades. Entretanto, eles possuem algumas características em comum: são a maior fonte de infecções em países em desenvolvimento. Muitas vezes, encontramos representantes com um ciclo de vida/hábitos de vida complexos (às vezes, dependendo de organismos vertebrados e invertebrados). Também verificamos que, em muitas destas infecções, as formas crônicas ocorrem quando há uma fraca resposta imune inata e a supressão da resposta imune adaptativa. Vamos agora agrupar as respostas imune inata e adaptativa, de acordo com cada um destes tipos de infecção. Quando avaliamos a resposta imune inata contra os protozoários, verificamos que a fagocitose é o principal elemento desta defesa, sendo que alguns destes organismos produzem moléculas (PAMPs), que são reconhecidas pelos PRRs. Contudo, muitos destes parasitas também evoluíram para desencadear respostas que desativam macrófagos, tornando-se resistentes e até mesmo proliferando dentro deles. Para protozoários que vivem dentro de macrófagos, o principal mecanismo de defesa da imunidade adaptativa é dependente da ativação de macrófagos no padrão M1, via respostas do tipo Th1. Em algumas infecções por protozoários intracelulares, os CTLs também são importantes, rompendo as células infectadas e desativadas, permitindo que novas células fagocitem e, antes de serem desativadas, eliminem os parasitas. Já na resposta imune inata contra helmintos, verificamos que alguns fagócitos também tentam fagocitá-los, liberando radicais livres e enzimas contra eles. Quando a imunidade adaptativa entra em cena, verificamos que há a indução de um padrão de resposta Th2, com a produção de grandes quantidades de IgE e ativação de eosinófilos. Antígenos dos helmintos que penetram pela mucosa e chegam até a IgE ligada aos mastócitos levam a sua ativação, degranulação e aumento da inflamação local. Anticorpos das classes IgG e IgA, que são secretados sobre os helmintos, podem auxiliar na ativação dos eosinófilos, que vão degranular e liberar proteínas catiônicas, que são nocivas às células do tegumento dos vermes. Portanto, a combinação das respostas de mastócitos e eosinófilos leva à expulsão e destruição dos vermes. Contudo, a ativação exacerbada da imunidade adaptativa pelos helmintos também pode causar dano tecidual. Na infecção por Schistosoma mansoni, a resposta imune adaptativa do padrão Th2 leva à produção de IL-4 e IL-13, com ativação de macrófagos (via alternativa, ou M2) e formação de granulomas, que contém os ovos do parasita no seu interior. Estes granulomas podem gerar fibrose severa no fígado, comprometendo sua circulação venosa, aumentando a sua hipertensão portal e o induzindo à cirrose. Como mecanismos de escape da resposta imune, os parasitas podem reduzir sua imunogenicidade (por expressarem antígenos distintos a cada forma evolutiva do seu ciclo de vida ou por expressar variações de certas proteínas em sua superfície), serem resistentes aos mecanismos efetores da resposta imune dos vertebrados (como são as larvas de Schistosoma), esconder dentro das células ou de cistos, largar sua capa de proteínas antigênicas (que podem estar recobertas por anticorpos) e induzir a geração de células T reguladoras (Tregs). Algumas vezes, quando falamos que estamos estudando o sistema imune, as pessoas já cogitam a ideia de gerar alguma vacina. Entretanto, se fosse fácil, já teríamos várias vacinas contra infecções que assolam a humanidade, como a malária, por exemplo. Estudando um pouco a resposta imune contra os parasitas, verificamos que estes possuem várias estratégias para escape do sistema imune, sendo que, algumas delas, comprometem exatamente o desenvolvimento de vacinas. Quando pensamos nas estratégias para o desenvolvimento das vacinas, temos que levar em conta, para seu sucesso, uma série de critérios. Entre eles: precisamos saber se os antígenos que estão presentes no microrganismo sofrem variação antigênica; se a própria vacina não será causadora de alterações indesejadas; que haja desenvolvimento de memória imunológica e produção de anticorpos. Os protocolos utilizados nas tentativas de se desenvolver vacinas contra micróbios englobam o uso de: vírus ou bactérias atenuadas, antígenos purificados dos micróbios (ou sintetizados in vitro) e que sejam injetados juntamente com um adjuvante (como no caso da vacina contra a gripe), plasmídios de cDNA e vetores virais (não-citopáticos), que carreiam genes de interesse do agente infeccioso. O problema que encontramos com a utilização dos vetores virais é que, às vezes, as infecções podem ocorrer em diversos tipos de células e não apenas naquele tipo para o qual o vetor viral será eficiente. Portanto, a mensagem final é que falar sobre o desenvolvimento de uma vacina é mais fácil do que desenvolvê-la de fato. Resposta imune inata contra protozoários e helmintos. Resposta imune adaptativa contra protozoários e helmintos. 8. Imunologia dos Transplantes A ideia dos transplantes é suprir, por meio da transferência de células, tecidos, ou órgãos, um défice funcional ou anatômico de um paciente. Entretanto, o maior fator limitante para o sucesso do transplante é a resposta imune do receptor contra antígenos do doador. A pesquisa experimental com transplantes teve seu início na década de 1950, com os experimentos realizados por Georges Snell, Baruj Benacerraf e Jean Dausset. É interessante como a ciência do século XX unia tantas mentes brilhantes, de áreas distintas, lançando os fundamentos que temos hoje. Por exemplo, Georges Snell foi pós-doutorando de Hermann J. Muller, que tinha descoberto as mutações letais balanceadas (marco na área da genética), e seu colega da época de graduação, Clarence C. Little, fundador da “Jackson Laboratories”, considerada a “meca” mundial em termos de geração e manutenção de camundongos isogênicos e transgênicos. E foi a utilização de camundongos isogênicos (geneticamente idênticos) e congênicos (com diferenças em apenas uma parte de todo o genoma) que tornou possível a descoberta dos genes principais e responsáveispela rej eição de transplantes (moléculas do MHC classe I e II, as quais já descrevemos em outro tópico). Portanto, a pesquisa experimental, responsável pela compreensão dos mecanismos de aceite/rejeição de transplantes, e os principais avanços dentro da área tiveram seus inícios no século passado e há uma série de termos que são específicos desta área, os quais descrevemos abaixo. Entre os termos utilizados em transplantes, temos 3 básicos: enxerto (células, tecidos, ou órgãos de um indivíduo que são transferidos a outro); doador (indivíduo que doa o enxerto); receptor ou hospedeiro (indivíduo que recebe o enxerto). Sobre o enxerto, este pode ser autólogo (transplante de tecido dentro de um mesmo indivíduo), singênico (transplante de tecido entre indivíduos geneticamente idênticos), alogênico (transplante de tecido entre indivíduos geneticamente distintos) ou xenogênico (transplante entre espécies distintas). O sangue é um tecido corpóreo e, portanto, quando fazemos uma transfusão de sangue, estamos fazendo um transplante de sangue ou plasma, de um paciente para outro. Também relacionado aos transplantes, sempre imaginamos que os órgãos são retirados e colocados nos mesmos locais, onde se encontravam originalmente. Entretanto, isto nem sempre acontece e, portanto, temos outros dois termos que são relacionados a esta área: o transplante ortotópico (enxerto transplantado ao seu local anatômico normal) e o transplante heterotópico (enxerto colocado em um local anatômico diferente do naturalmente ocupado por aquele tipo de enxerto). A ideia dos transplantes xenogênicos surgiu a partir da falta de doadores. O principal problema deste tipo de transplantes são os anticorpos naturais do receptor, que causam rejeição hiperaguda (por exemplo, anticorpos naturais contra antígenos de porco). Chimpanzés têm menor diferença nas glicosilações de suas proteínas, quando comparadas aos humanos e, além disto, por motivos logísticos e éticos, também não são utilizados. Em porcos, o principal determinante antigênico é um carboidrato formado pela adição de galactose no substrato que dá origem ao antígeno H humano. Alguns porcos transgênicos para expressão de DAF humano foram produzidos para inibir a ativação do complemento, assim como para expressão de fucosil- transferases humanas, para geração de antígenos H compatíveis. Contudo, mesmo com modificações deste gênero, estudos têm revelado que a rejeição aguda ainda ocorre e, muitas vezes, é ainda mais forte que a rejeição aguda a aloenxertos, provavelmente porque as diferenças entre as moléculas do MHC porcino são maiores que as de aloenxertos. Porém, a pesquisa com porcos tem avançado, para que até mesmo as moléculas do MHC humano sejam expressas nestes animais. O transplante de medula óssea é um dos poucos que não gera perda ao doador, pois a quantidade de medula doada é reposta com o passar do tempo. Ele pode ser usado para corrigir defeitos de origem hematopoiética ou imunológica (pois as células do sangue ou do sistema imune têm origem em precursores da medula), ou para corrigir problemas como geração anormal de hemoglobina. Em casos de tratamentos de tumores, nos quais a quimioterapia e a radioterapia levaram também à destruição da medula óssea, pode ser utilizado o transplante de medula óssea autólogo ou alogênico para corrigir esta situação. Finalmente, em algumas formas de leucemia, as células de medula alogênica podem ser efetivas na destruição do tumor, num processo análogo as respostas enxerto-versus-hospedeiro. Para fazer o transplante, são necessários um doador compatível às moléculas do MHC do receptor, a deleção total da medula óssea, e a imunossupressão do receptor, evitando assim a rejeição da nova medula. Entretanto, ainda que se tomem todos estes cuidados, podem ocorrer outros problemas, como a doença enxerto- versus-hospedeiro, onde as células T do doador acabam reagindo contra os antígenos do receptor, destruindo os tecidos do receptor. Para minimizar este tipo de doença, é feita a eliminação de células T maduras do doador. Um dos principais problemas que ocorrem nos transplantes de medula óssea é a imunodeficiência, que ocorre logo após o transplante. Ela é em decorrência do tratamento feito para eliminação da medula óssea defeituosa, que leva à falta de um repertório de células T e B diverso e à remoção de células de memória e plasmócitos. Portanto, os pacientes que vão receber uma nova medula são, previamente, tratados, para impedir Uma vez explicados as terminologias relacionadas a área dos transplantes, vamos agora entender os três principais aspectos relativos à imunologia dos transplantes: como esta resposta ocorre, quais são os mecanismos imunológicos envolvidos e como podemos suprimir a rejeição aos enxertos. 9. Resposta Imune aos Aloenxertos Quando pensamos nos aloenxertos, o reconhecimento do transplante como próprio ou não-próprio será determinado pelas diferenças nos tipos de moléculas do MHC que serão expostas. É preciso lembrar que, em um indivíduo, as moléculas do MHC não sofrem mudança na região de encaixe do peptídeo; ou seja, cada pessoa tem um conjunto de moléculas do MHC que vai estar expresso em suas células, sem sofrer variações. Portanto, quando pensamos em diferenças nas regiões de encaixe para os peptídeos no MHC, ou seja, em diferentes moléculas de MHC, não estamos considerando o indivíduo, mas sim a população. Cada indivíduo da população tem um conjunto de moléculas do MHC e, quando consideramos toda a população, temos o polimorfismo dos genes do MHC (várias formas expressas de um mesmo tipo de molécula). Portanto, para que o transplante seja feito, é preciso encontrar, na população humana, pacientes que contenham formas das moléculas do MHC que sejam idênticas. Caso contrário, as moléculas do MHC que estão expressas no tecido/órgão doado serão reconhecidas pelas células T do receptor. Este reconhecimento pode ocorrer de forma direta ou indireta. infecções bacterianas e virais, ou seja, com antibióticos, medicamentos anti-citomegalovirus, e imunizados contra bactérias encapsuladas. Pela via direta, as moléculas do MHC expressas na superfície das células do tecido/órgão transplantado, serão reconhecidas por células T do receptor, uma vez que, durante a geração do repertório de linfócitos T do receptor, ocorreu apenas seleção para o MHC do próprio organismo. Portanto, existem clones que podem reagir fortemente contra MHC exógenos, numa situação semelhante a que ocorre quando os clones de células T encontram as moléculas do MHC apresentando antígenos microbianos. Como cada célula do tecido alogênico expressa milhares de cópias das moléculas do MHC e cada uma, quando combinada a um peptídeo distinto, forma uma estrutura diferente que poderá ser reconhecida por uma célula T distinta, calcula-se que cerca de 2% de todo o repertório de linfócitos T é capaz de reconhecer diretamente o MHC alogênico. Como muitos dos clones de células T que reagem contra o enxerto são células T de memória, gerados inicialmente contra micróbios e que reagem, cruzadamente, contra o MHC alogênico, a rejeição ao enxerto processa-se de forma mais forte in vivo. Portanto, na via direta, a ativação da resposta imune aos aloenxertos ocorre após a migração de células dendríticas (DCs) do tecido/órgão do doador para os linfonodos (LNs) do receptor. Lá, serão ativados os linfócitos T CD4 e CD8, sendo que as células T CD8, que reconhecem o antígeno pela via direta, se diferenciam em linfócitos T citotóxicos (CTLs), migram para o tecido/órgão, matando as células do enxerto. Já pela via indireta, os peptídeos gerados pela degradação das moléculas do MHC alogênico (após ingestão e digestão de células do enxerto por APCs do receptor, como ocorre para micróbios intracelulares) são apresentados pelas moléculas do MHC do receptor. Não só células T CD4, mas também células T CD8 (pelo processo de apresentaçãocruzada de antígenos) podem ser ativadas por esta via. Neste caso, ocorre a migração de DCs do receptor para o enxerto, que capturam os antígenos do tecido, expressam os peptídeos derivados da quebra das moléculas de MHC do doador e migram para o LN drenante. Pode também ocorrer a drenagem de antígenos do enxerto (contendo antígenos do MHC do doador) para o LN drenante, onde as DCs do receptor capturam e expressam os peptídeos derivados do MHC do doador. Qualquer uma destas duas formas de encontro das DCs do receptor com os peptídeos do MHC do doador vai levar à apresentação de antígenos às células T CD4 do receptor. Estas células T CD4 alorreativas ativadas vão migrar para o enxerto, reconhecer DCs do receptor que ali se encontram (expressando os antígenos do doador) e vão começar a produzir citocinas que promovem o desenvolvimento de uma resposta similar à hipersensibilidade tardia, com infiltrado de leucócitos e destruição tecidual. Os mecanismos efetores da rejeição serão abordados abaixo. Para testarmos a alorreatividade de células T (capacidade de elas responderem contra antígenos de um enxerto), podemos usar reações de cultura mista de linfócitos. Nestas culturas, retiramos os leucócitos do sangue do “paciente A” (ou de uma linhagem “A” de camundongos) e misturamos estes, in vitro, com leucócitos do “paciente B” (ou de uma linhagem “B” de camundongos). Os leucócitos do “paciente B” são previamente tratados, antes da cultura, para impedir que estes proliferem. Passados alguns dias, a proliferação celular dos leucócitos do “paciente A” é medida: quanto maior a alorreatividade, maior serão os índices de proliferação. Via direta de rejeição. Via indireta de rejeição. 10. Mecanismos Efetores da Rejeição dos Transplantes Os mecanismos efetores da rejeição de aloenxertos são classificados de acordo com as características histopatológicas da rejeição. Portanto, as rejeições aos aloenxertos podem ser classificadas em hiperaguda, aguda e crônica. Na rejeição hiperaguda, observa-se a formação de trombos oclusivos nos vasos do enxerto, ocorrendo em minutos ou horas, após a anastomose dos vasos. Neste tipo de rejeição, os anticorpos naturais se ligam às células endoteliais do enxerto, ativando o sistema complemento. A ativação do complemento danifica as células endoteliais, expondo a membrana basal subendotelial, que ativa plaquetas, assim como ocorre a liberação de fator de Willebrand por estas células danificadas. As plaquetas e células endoteliais entram num processo de vesiculação, liberando partículas de lipídios, que promovem a coagulação do sangue. Como as células endoteliais estão danificadas, elas deixam de expressar proteoglicanas de sulfato de heparina, que impediriam a coagulação. Com a formação da oclusão vascular, o enxerto sofrerá dano isquêmico irreversível. A rejeição hiperaguda era observada quando transplantes de órgãos entre pacientes com sistema AB0 incompatível era realizada. Isto porque todas as células do organismo expressam estes antígenos, que são também encontrados nas hemácias. Ou seja, já há anticorpos naturais presentes nos indivíduos com tipagem sanguínea incompatível, causando a rejeição hiperaguda. A rejeição aguda é mediada por células e anticorpos, começando por volta de uma semana após o transplante (via direta de rejeição). As células T efetoras, que respondem às moléculas do MHC dos vasos e células do parênquima do transplante, matam diretamente estas células ou secretam citocinas, que recrutam e ativam células inflamatórias, levando à destruição das células dos vasos e/ou do parênquima do enxerto. Em enxertos vascularizados como o rim, as células endoteliais são os primeiros alvos de destruição, onde o aparecimento de endotelialite (inflamação do endotélio), ou arterite, de vasos de médio calibre, são os sinais iniciais de rejeição aguda. Tanto as células T CD8 (que matam diretamente) quanto as células T CD4 (que ativam a inflamação) contribuem para a rejeição aguda. Os anticorpos que foram produzidos pelas células B ligam-se às células endoteliais e estas são lisadas pelo sistema complemento. Na rejeição aguda, ocorre necrose transmural dos vasos do enxerto (necrose que vai além dos vasos do enxerto, comprometendo o tecido conjuntivo ao redor dos vasos), com inflamação aguda, enquanto na rejeição hiperaguda esta necrose não ocorre. Com o aparecimento de melhores terapias para controle da rejeição aguda, a rejeição crônica se tornou a maior causa de perda de transplantes. A rejeição crônica (via indireta de rejeição) ocorre meses após o transplante e é caracterizada pela vasculopatia do enxerto, ou arterosclerose acelerada do enxerto, nas quais a oclusão arterial é resultado da proliferação exacerbada da musculatura íntima lisa dos vasos sanguíneos. É iniciada, provavelmente, pela isquemia perioperativa e por episódios de rejeição aguda, em combinação com reações crônicas de linfócitos aloreativos aos antígenos endoteliais. O aumento da musculatura íntima lisa dos vasos ocorre em resposta a fatores de crescimento secretados pelas células endoteliais, células da musculatura lisa e macrófagos, em resposta ao IFN-γ e ao TNF- a, que foram produzidos pelas células T CD4 alorreativas. Com a progressão da arterosclerose, ocorre o compromisso da circulação sanguínea do tecido e morte de células do tecido, que são substituídas por um tecido fibroso, em resposta às outras moléculas que foram secretadas no local, como as citocinas TGF- β, IL-13, e ao fator de crescimento de fibroblastos (FGF). As constatações de rejeição em tecidos transplantados podem variar de acordo com o tecido. Em transplantes cardíacos e de rim, a vasculopatia do enxerto é uma das primeiras alterações observadas; em pulmões, observam-se espessamentos das vias aéreas pequenas (bronquiolite obliterante) e, em fígados, fibrose e perda do ducto biliar. Mecanismo de rejeição hiperaguda. Mecanismo de rejeição aguda. Mecanismo de rejeição crônica. 11. Prevenção e Tratamento da Rejeição dos Transplantes Quando pensamos na prevenção e tratamento da rejeição de aloenxertos, basicamente estamos falando de duas coisas: do uso de imunossupressores genéricos, na tentativa de reduzir a força da resposta alogênica, e na indução de tolerância específica ao transplante. Entre os imunossupressores genéricos temos: a ciclosporina e o FK-506 (comercialmente conhecido como “Tacrolimus”), que impedem a transcrição de genes de citocinas (por exemplo, a IL- 2); a rapamicina, que inibe proliferação celular, e o micofenolato de mofetila (MMF), que inibe a síntese de guanosina e, consequentemente, inibe a proliferação celular, incluindo dos linfócitos. Ainda, para inibir a ativação do sistema imune, também são utilizados anticorpos anti-CD25 ou anti- CD3 (para eliminar as células T, ativadas ou não, respectivamente), ou ainda, moléculas de fusão CTLA-4-Ig (que se ligam mais avidamente às moléculas B7 das APCs, impedindo a ligação das moléculas CD28 das células T alorreativas). As CTLA-4-Ig possuem o sítio de ligação ao CTLA-4 e alguns domínios da região constante da molécula de anticorpo. Corticosteróides são utilizados para inibir a inflamação, pois inibem a síntese de citocinas e outras moléculas pró-inflamatórias e, em altas doses, podem até mesmo levar à morte de células T. O fármaco FTY720 bloqueia o receptor da esfingosina 1-fosfato (S1P1) dos linfócitos, impedindo sua saída dos órgãos linfoides até o enxerto. A utilização destes imunossupressores aumentou muito a sobrevida dos enxertos e reduziu a incidência de rejeição aguda. Contudo, muitos são de efeito tóxico a outras células ou acabam por aumentar a susceptibilidade a infecções virais e o aparecimento de tumores associados a vírus. Para reduzir a força da resposta alogênica, procuram-se doadores com maior compatibilidade nas moléculas do MHC. Por exemplo, em transplantes de rim, quanto maior for a compatibilidadedos alelos do MHC maior é a sobrevida do transplante. A indução de tolerância específica ao aloenxerto é o maior alvo a ser atingido dentro da imunologia de transplantes, pois acabaria com os principais problemas das terapias atuais (supressão generalizada do sistema imunológico e favorecimento do aparecimento de tumores). O objetivo principal é induzir a tolerância pelos mesmos mecanismos que ocorrem para tecidos próprios, ou seja, por meio de anergia, deleção, e/ou supressão ativa de clones alorreativos. Algumas evidências experimentais suportam tais iniciativas: nos experimentos feitos por Medawar, foi verificado que camundongos neonatos, que receberam células de baço de uma linhagem alogênica, aceitaram transplantes desta linhagem na fase adulta; nos transplantes de rim, nos quais os receptores receberam transfusão de sangue dos doadores, houve menor incidência de rejeição aguda; em camundongos, o quimerismo de medula óssea (a manutenção concomitante de células de medula do doador e do receptor) leva ao aceite de transplantes da linhagem doadora. Em todas observações citadas, há a indicação de que houve geração de células T reguladoras (Tregs) específicas para o enxerto. Porém, há ainda muito a ser elucidado sobre a geração de Tregs contra enxertos. 12. Conclusão Ao terminarmos este tópico, aprendemos como o sistema imune reage contra antígenos que não pertencem ao organismo, como aqueles que ocorrem durante as infecções e os transplantes. Ou seja, aprendemos sobre as situações onde a maioria das pessoas acredita que o sistema imune está envolvido. No próximo tópico, vamos estudar um outro aspecto da resposta imune: quando ela é direcionada aos nossos próprios antígenos, nas condições que conhecemos como doenças autoimunes. 13. Referências ABBAS, A. K.; LICHTMAN, A. H. H.; PILLAI, S. Imunologia Celular e Molecular. 8a Edição ed. [s.l.] Elsevier Inc., 2015. Parabéns, esta aula foi concluída! Mínimo de caracteres: 0/150 O que achou do conteúdo estudado? Péssimo Ruim Normal Bom Excelente Deixe aqui seu comentário Enviar