Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.
details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

AULA 1 
EVOLUÇÃO E 
COMPORTAMENTO HUMANO
Prof. Leonardo Martins 
 
 
2 
INTRODUÇÃO 
Diversas ciências se dedicam, em algum nível, ao estudo do 
comportamento humano. Temos a antropologia, a biologia, a sociologia, a 
neurociência, a psicologia, cada qual com especialidades internas e vertentes 
teóricas menos ou mais compatíveis. Temos ainda formas de conhecimento que 
não são propriamente científicas, como a história e a filosofia, mas que prestam 
contribuições específicas e indispensáveis para a compreensão do que é o ser 
humano e dos “comos” e “porquês” de seu comportamento não somente atual, 
mas ao longo da história. 
Algumas dessas áreas ou subáreas são menos conhecidas, ao passo que 
outras são objeto de distorções diversas, não raro causadas por conhecimento 
insuficiente de quem fala a seu respeito. Esta aula trata justamente de um desses 
campos, que é, ao mesmo tempo, pouco conhecido e objeto frequente de mal-
entendidos: o estudo evolucionista do comportamento humano. Trata-se de uma 
área de conhecimento vasta e que combina diferentes disciplinas, como biologia, 
psicologia, etologia, neurociência, química e filosofia, tendo como base a famosa 
(e tão comumente mal-entendida) teoria da evolução das espécies. Para que 
possamos prosseguir com segurança, precisamos introduzir esse referencial 
teórico, combatendo, desde já, uma série de equívocos a seu respeito. 
TEMA 1 – TEORIA DA EVOLUÇÃO – DO SÉCULO XIX AOS DIAS ATUAIS 
A teoria da evolução foi proposta no Século XIX pelo naturalista e biólogo 
britânico Charles Darwin (1809-1882). Darwin viajou o mundo observando animais 
tanto vivos, quanto fósseis, tentando compreender como e por que os animais que 
existem ou existiram tinham suas características. Em 1859, Darwin publicou seu 
notório “A Origem das Espécies” (Darwin, 2003), um dos livros mais influentes de 
todos os tempos. 
Mas temos de recordar, contudo, que a teoria darwinista é apenas uma das 
que emergiram ao longo da história para compreender a evolução da vida. 
Diferentes religiões e filosofias, de alguma forma, espiritualistas possuem suas 
próprias noções sobre a origem e as mudanças das formas de vida na Terra, 
caracterizando diferentes vertentes de criacionismo. O criacionismo judaico-
cristão, com o qual a maioria de nós está familiarizado, envolve Deus criando o 
universo pela força de sua vontade, após criando diferentes animais e os 
 
 
3 
humanos. É um exercício interessante comparar essa vertente de criacionismo 
com outras, provenientes da África, dos esquimós, dos aborígenes australianos, 
dos filósofos antigos do extremo oriente. De qualquer forma, todas as vertentes 
de criacionismo se valem de alguma força ou instância meta-empírica, 
sobrenatural, mística, divina ou supra-humana para criar e manter a realidade que 
conhecemos. 
 
Charles Darwin (1809-1882) 
Créditos: Everett Historical/ Shutterstock 
Já as teorias propriamente científicas, ao buscarem explicações mais 
simples e verificáveis empiricamente para os mesmos fenômenos, prescindem do 
uso de forças divinas e afins. É o caso da teoria darwinista que buscou se alicerçar 
nas ciências naturais (Darwin, 2003). No entanto, aqui emerge o que podemos 
tomar como a primeira fonte de equívoco em relação ao tema: ao contrário do que 
é dito com frequência, mesmo por biólogos, teorias naturalistas como a de Darwin 
não demonstram a inexistência de Deus ou algo análogo, pois essa é uma questão 
filosófica e religiosa não demonstrável nesses termos. Em outras palavras, 
mesmo que a teoria da evolução proponha vias mais parcimoniosas para 
compreender a natureza, indo até aí o seu domínio, ela não pode demonstrar a 
efetiva inexistência de aspectos sobrenaturais, porque esses, na eventualidade 
 
 
4 
de sua existência, estariam justamente além do que as evidências naturais 
(aquelas estudadas por essas teorias) permitem concluir. Seria filosoficamente 
possível, por exemplo, que alguma forma de Deus tivesse criado e se valido dos 
princípios da evolução para gerenciar a vida. O fato de haver explicações mais 
simples para os fenômenos naturais que dispensem a existência de alguma forma 
de Deus não implica automaticamente na inexistência desse Deus (embora 
coloque lenha na discussão sobre os motivos para a manutenção das crenças 
relacionadas). 
Assim, a eventual dimensão divina da criação permanece nos domínios da 
teologia, da filosofia e da crença pessoal, havendo, inclusive, muitos biólogos que 
aceitam tranquilamente a evolução das espécies e que, ainda assim, são 
profundamente religiosos. Não é necessário, portanto, desacreditar a robusta 
teoria da evolução para que se mantenha a eventual crença em Deus (a esse 
respeito, recomenda-se Paiva, 2000). 
Retornando à vertente científica do debate, Darwin não foi o único a propor 
uma teoria da evolução. Entre os outros que o fizeram, o mais famoso foi o 
naturalista francês Jean-Baptiste de Lamarck (1744-1829), que propôs, antes de 
Darwin, que os animais evoluíam conforme utilizavam e aprimoravam suas 
aptidões naturais. Tratava-se da chamada “lei do uso e desuso”, pela qual partes 
dos corpos dos animais se desenvolviam ou atrofiavam conforme o uso ou o 
desuso, como as girafas que alongariam seu pescoço no esforço para comer 
folhas nas árvores mais altas, passando adiante tais ganhos, pela chamada “lei 
da transmissão dos caracteres adquiridos” (Lamarck, 1986). 
Não podemos nos esquecer do naturalista britânico Alfred Russel Wallace 
(1823-1913), que desenvolveu uma teoria bastante semelhante à de Darwin no 
mesmo período. Wallace enviou a Darwin seu manuscrito, o que levou os dois a 
reconhecer as semelhanças entre suas perspectivas. Mas Darwin, sendo mais 
reconhecido naquele tempo, acabou por ser mais associado à teoria. 
A teoria de Darwin se ajustou melhor às evidências, sendo corroborada por 
incontáveis experimentos, estudos observacionais, análises de fósseis, estudos 
genéticos, entre tantos outros métodos e abordagens que fizeram com que ela 
prevalecesse ao final (embora haja vertentes atuais – e não hegemônicas – de 
um “lamarckismo revisado”). Assim, a teoria da evolução que temos atualmente 
não é aquela do Séc. XIX, mas uma complexa combinação das contribuições 
basilares de Darwin e de incontáveis pesquisadores de diversos campos em torno 
 
 
5 
da noção original de que as espécies descendem de outras anteriores, podendo-
se regredir até um ancestral comum datado do início da vida na Terra. As espécies 
sempre estiveram e ainda estão em processo de evolução. Contornando outro 
mito comum, isso não significa a vitória do “mais forte”, tampouco que “o mais 
forte devora o mais fraco”. Tais visões simplistas deixam escapar que o aspecto 
essencial não é necessariamente a força (seja ela física ou de outra natureza mais 
imediata), mas a adaptação às circunstâncias do ambiente específico. 
Assim, espécies menores e fisicamente mais fracas, por exemplo, podem 
sobreviver na competição contra outros maiores, como houve ao longo de milhões 
de anos com a gradual diminuição do porte físico dos animais sobre a Terra desde 
o período dos dinossauros, graças, entre outras variáveis, à queda na taxa 
atmosférica de oxigênio. 
 
Créditos: Susan Schmitz/ Shutterstock 
De forma absolutamente sintética – pois deixaremos o detalhamento para 
as próximas seções deste texto e para outros encontros –, as principais bases da 
teoria de Darwin foram: 
 Os indivíduos de uma mesma espécie apresentam variações naturais entre 
si. Tais variações ocorrem devido a mutações genéticas, algo que não era 
sabido nos tempos de Darwin; 
 Os indivíduos com características mais adaptativas em dado ambiente têm 
maior probabilidade de sobreviver; 
 
 
6 
 Tais indivíduos também possuem mais chances de se reproduzir, 
transmitindo tais características que são vantajosas naquelas condições 
ambientais. Assim, ocorreuma gradual “lapidação” das características de 
uma população em relação a seu ambiente. Contudo, devido à ausência de 
conhecimentos sobre genética naquele tempo, as noções de 
hereditariedade que temos atualmente não se faziam presentes. Veremos, 
mais adiante, sutilezas desse processo. 
Tais pontos básicos levam a algumas conclusões adicionais: 
 O que é adaptativo em um ambiente pode perfeitamente não o ser em 
outro, podendo constituir até uma desvantagem. O tamanho de animais 
pré-históricos como a preguiça gigante e outros tantos é um exemplo, 
tornando mais adaptativo, ao longo de milhões de anos de decréscimo do 
nível de oxigênio na atmosfera, um porte físico menor; 
 A evolução pode ser observada no nível da espécie, não do organismo 
individual. Variações individuais são essenciais para a evolução de uma 
espécie; ou seja, a unidade alvo da seleção natural é o indivíduo. Contudo, 
não há qualquer garantia que determinado indivíduo com alguma vantagem 
passe adiante os seus genes, pois diversas circunstâncias podem impedi-
lo. Mas, conforme a passagem do tempo e o surgimento de diversas 
gerações de indivíduos, determinado salto evolutivo pode ser observado na 
espécie. 
Cabe mencionar rapidamente, inclusive, que o caráter adaptativo de um 
comportamento ou expressão de um gene não é a única via para que uma 
característica seja consolidada evolutivamente em uma espécie. Pesquisas 
posteriores evidenciaram outros processos como a transmissão de características 
que são subproduto de outras; ou seja, elas não são adaptativas em si mesmas, 
mas apenas “pegam carona” em uma característica adaptativa, sendo também 
selecionadas. Temos também a deriva genética, que ocorre devido a variáveis 
circunstanciais, como um acaso que reduz uma população e privilegia 
acidentalmente a disseminação de características não necessariamente 
adaptativas dos indivíduos que sobraram. Esse fenômeno é mais comum entre 
populações pequenas que são vítimas de alguma fatalidade, como a morte 
acidental de parcela significativa daqueles indivíduos, de modo que a parcela 
restante terá oportunidade de transmitir eventuais características genéticas em 
comum (Lande, 1976). 
 
 
7 
Outra concepção corriqueira, mas que necessitamos eliminar de pronto, é 
o determinismo genético: muitos acreditam que defender a existência de 
tendências genéticas no comportamento humano significa afirmar que somos 
determinados (de modo fatalista) por nossos genes (Vieira; Oliva, 2017), como se 
fôssemos máquinas respondendo ao comando dos genes. Na verdade, os genes 
fornecem um leque relativamente vasto de possibilidades de comportamentos 
ligados a determinado assunto, como preferência sexual, por exemplo. Em outras 
palavras, ter determinada composição genética e reconhecer que isso afetará o 
comportamento e a subjetividade significa reconhecer um alicerce maleável de 
possibilidades sobre as quais incidirá a história de vida da pessoa e a cultura em 
que ela se desenvolve, cabendo a essa complexa e, por vezes, imprevisível 
combinação de elementos a emergência de um comportamento específico de uma 
pessoa. Portanto, não somos “robôs genéticos” ou algo equivalente. Vejamos, a 
seguir, como os estudos sobre evolução e comportamento humano levam em 
conta a complexidade do tema. 
TEMA 2 – A SOCIOBIOLOGIA E A ECOLOGIA COMPORTAMENTAL HUMANA 
A natureza biológica do ser humano permite que ele seja estudado sob uma 
perspectiva evolucionista de modo semelhante ao que ocorre com outros animais. 
A complexidade da nossa espécie, o Homo sapiens, que a destaca das demais 
em relação a características como inteligência, subjetividade e cultura, entre 
outras, agrega desafios a esses estudos, embora não os inviabilizem. Justamente 
devido ao caráter multifacetado do comportamento humano, surgiram diversas 
perspectivas de base evolucionista para o estudo de nossa espécie, cada qual 
enfatizando determinados aspectos, sem necessariamente negar os demais. 
Apresentaremos a seguir as principais abordagens entre elas, destacando suas 
bases e contribuições para a compreensão da evolução humana. 
Podemos definir a sociobiologia como o estudo evolutivo do 
comportamento social. Por isso, ela se dedica ao estudo de animais sociais em 
geral, incluindo o ser humano. A ênfase da sociobiologia se dá no estudo do 
comportamento na “perspectiva do gene”, ou seja, na investigação do quanto os 
comportamentos são adaptativos e impactam a transmissão dos genes, o que 
guarda relação com o aspecto reprodutivo que é tão importante para a evolução, 
como vimos (Laland; Brown, 2002, p. 69-108, 300-302). 
 
 
8 
Devido a essa ênfase no comportamento social, qualquer tema que seja 
interessante ao estudo evolutivo dentro dessa perspectiva precisa ser definido em 
termos comportamentais e coletivos. Se houver interesse em se investigar a 
religião, por exemplo, é necessária sua delimitação em termos do comportamento 
religioso e de seus impactos diante do grupo, passando-se a estudar os rituais 
religiosos, as peregrinações etc. Entre as tantas questões passíveis de se 
investigar dentro da perspectiva B e mantendo-nos em nosso exemplo, haveria 
um papel adaptativo em participar de rituais religiosos como cultos, danças etc.? 
A sobrevivência do grupo e o sucesso em transmitir os genes são afetados pelo 
comportamento de participar desses e outros rituais (como ao favorecer a 
cooperação mútua e a coesão do grupo). Se sim, esse aumento no sucesso 
reprodutivo justificaria ao menos uma parte da conhecida tendência humana em 
se organizar em grupos para atividades religiosas desde seus primórdios? Assim, 
torna-se claro que tipos de questão estão ao alcance da sociobiologia humana. 
 
Créditos: Uncle Leo/ Shutterstock 
Resultados interessantes podem surgir de empreitadas desse tipo, como 
no estudo da chamada sinalização custosa, que é a demonstração de 
engajamento grupal e confiabilidade por meio de “sacrifícios” para o grupo, 
passando-se a colher benefícios disso nas esferas de sobrevivência e da 
ampliação dos laços sociais. Ainda no caso da religião, temos como exemplos de 
sinalização custosa as doações, o martírio do corpo, as abstinências etc. (Maraldi; 
Martins, 2017). 
A sociobiologia humana, embora ainda traga contribuições potenciais para 
o estudo do comportamento humano sob bases evolucionistas, foi acusada de 
 
 
9 
simplista, ocasionando, em reação, o surgimento de outras perspectivas que 
buscaram superar suas limitações. 
Uma reação imediata veio da ecologia comportamental humana, quando 
antropólogos decidiram testar as hipóteses da sociobiologia com dados reais de 
culturas humanas. Com base na promissora noção de que as estratégias 
comportamentais são adaptativas em um amplo espectro de condições 
ambientais e sociais, esses “antropólogos darwinistas” buscaram investigar o 
quanto o ser humano é capaz de alterar seus comportamentos diante de desafios 
ambientais novos. A ecologia comportamental humana passa, assim, a ser mais 
versátil e atenta à complexidade da questão que a sociobiologia, propondo uma 
relação mais dinâmica entre indivíduo e cultura. A ênfase dessa perspectiva está, 
então, na flexibilidade comportamental diante do contexto e adaptabilidade natural 
da espécie humana, e não propriamente em quanto determinados 
comportamentos são adaptativos. Novamente os temas de interesse têm de ser 
definidos em termos comportamentais para seu estudo pela ecologia 
comportamental, como ocorre com a sociobiologia. Mas as características de cada 
forma de manifestação desses comportamentos são analisadas em relação às 
características do contexto em que emergem (Laland; Brown, 2002, p. 109-152, 
300-302). 
Entre os tantos exemplos possíveis de estudos nessa direção, os 
comportamentos de flerte, de demonstração de interesse sexual, variam 
consideravelmente quando comparamos diferentes culturas (ou diferentessituações dentro da mesma cultura). Essa variabilidade comportamental do flerte, 
quando analisada junto às características de cada ambiente em que ocorrem, 
revelam uma flexibilidade que favorece a sobrevivência e a reprodução humana? 
Note que há certa semelhança com as perguntas passíveis de serem investigadas 
pela sociobiologia. Contudo, o enfoque da ecologia comportamental é mais 
abrangente. 
TEMA 3 – ETOLOGIA HUMANA 
Uma das vertentes mais conhecidas do estudo do comportamento humano 
sob bases evolucionistas é a etologia humana. Trata-se do estudo de 
comportamentos inatos dos humanos em seu ambiente natural (tal como a 
etologia, em geral, procede em relação aos demais animais), diferentemente do 
que ocorre, como veremos, com abordagens que recorrem a experimentos, 
 
 
10 
questionários e métodos afins. Conhecida como o lugar do biólogo no estudo do 
comportamento humano e mesmo da psicologia (Carvalho, 1989), a etologia 
humana busca superar dicotomias comuns na cultura para compreender o 
comportamento humano, como a discussão sobre se determinado comportamento 
é inato ou adquirido com base no aprendizado. Assim, a cultura é entendida como 
produtora e produto da evolução humana e do seu atual feitio comportamental, 
sendo essa perspectiva avessa a reducionismos (Carvalho, 1989; Toni; Salvo; 
Marins; Weber, 2004). Note-se também que a etologia humana agrega diversos 
dos elementos que vimos anteriormente e que veremos a seguir (embora sem 
perder suas especificidades metodológicas), como noções de coevolução genes-
cultura e a ênfase no comportamento, com suas respectivas potencialidades e 
limitações. 
A etologia começou buscando avaliar quatro pontos ou questões que 
norteariam a pesquisa: quais são as causas imediatas de um comportamento 
específico (a causalidade), como esse comportamento se desenvolve durante a 
vida do indivíduo (a ontogênese), qual a função desse comportamento (ou seja, 
seu valor para a sobrevivência) e como esse comportamento se desenvolveu 
durante a evolução (a filogênese). Esses dois últimos pontos são atualmente 
dominantes no estudo do comportamento animal (Toni; Salvo; Marins; Weber, 
2004). 
No método etológico, tradicionalmente se busca observar e descrever 
meticulosamente o comportamento, desenvolvendo o chamado “etograma”, que 
é então analisado em termos causais, ontogenéticos, filogenéticos e funcionais, 
como vimos. A análise causal é feita levando-se em conta a relação entre o 
comportamento e as condições que o antecediam. Já a análise ontogenética 
observa as variações do comportamento de um indivíduo ao longo do tempo, 
buscando padrões reveladores de aspectos de seu desenvolvimento. A análise 
filogenética investiga a história do comportamento em questão ao longo da 
evolução de uma espécie específica (como a espécie humana, no caso da etologia 
humana). Por fim, a análise funcional considera as mudanças no indivíduo e no 
ambiente decorrentes de determinado comportamento, observando seu valor para 
a sobrevivência. 
Um exemplo famoso de trabalho de natureza etológica (embora 
recentemente controverso à luz de novas pesquisas) é a catalogação de emoções 
humanas pretensamente básicas com base em expressões faciais feita pelo 
 
 
11 
psicólogo Paul Ekman (Ekman; Friezen, 2003). Ekman e seus colaboradores 
desenvolveram exaustiva catalogação de expressões faciais humanas por meio 
de meticulosa observação e de experimentos em diferentes culturas, chegando a 
desenvolver categorizações de emoções ligadas à tensão e ao relaxamento de 
músculos específicos da face. 
TEMA 4 – PSICOLOGIA EVOLUCIONISTA 
Apesar de sua complexidade em relação à sociobiologia, a ecologia 
comportamental humana também foi objeto de críticas, dada sua ênfase apenas 
no comportamento. A psicologia evolucionista surgiu como uma reação a essa 
limitação, buscando incluir o estudo evolutivo das instâncias cognitivas humanas. 
Essa abordagem busca o estudo dos mecanismos cognitivos inatos, que são 
considerados como adaptações resultantes da história evolutiva da espécie 
humana. Para isso, os psicólogos evolucionistas buscam identificar justificativas 
para a existência e as características dos processos cognitivos atuais nas 
condições de vida da espécie humana e daquelas das quais ela descende. Assim, 
as hipóteses que são testadas nesses estudos nascem da especulação sobre que 
funções e vantagens haveria em determinadas características da nossa cognição 
que as teriam feito persistir ao longo dos milênios. Uma vez especulado tal sentido 
último em determinada característica cognitiva, busca-se testar tal hipótese por 
meio de diversos métodos, como experimentos ou questionários aplicados em 
voluntários atuais, numa espécie de verificação indireta sobre o passado da 
espécie (Laland; Brown, 2002, p. 153-196, 300-302). 
Por exemplo, diante da hipótese de que nós, humanos, somos 
particularmente propensos a inferir a presença de “alguém” no ambiente quando 
ouvimos algum som estranho ou vemos alguma sombra porque essa disposição 
foi adaptativa ao nos manter alerta contra ameaças ocultas no perigoso ambiente 
pré-histórico, pode-se testar tal ideia submetendo crianças muito jovens a 
experimentos que busquem evidenciar se elas agem diante de estímulos 
ambíguos do ambiente como se fossem indicativos da presença de alguém. A 
importância de tais experimentos com crianças muito jovens está em que suas 
reações a esse respeito teriam probabilidade muito maior de serem inatas, em vez 
de derivadas do aprendizado ao longo da vida. Estudos dessa natureza 
acumularam evidência para sugerir que temos, de fato, tal viés cognitivo, que nos 
leva a inferir presenças no ambiente, mesmo quando não há alguém nele. Tal viés 
 
 
12 
é chamado de dispositivo hipersensível de detecção de agentes (hyperactive 
agent-detection device; Barret, 2000). 
 
Créditos: Vitstudio/ Shutterstock 
Ao contrário da sociobiologia e da ecologia comportamental humana, a 
psicologia evolucionista prevê a possibilidade de que processos e 
comportamentos atuais não sejam adaptativos, por eles terem sido selecionados 
em condições ambientais que não mais existem. O próprio dispositivo 
hipersensível de detecção de agentes pode nos servir de exemplo. No passado 
remoto, era imensamente adaptativo para os membros da espécie se 
sobressaltarem ao menor sinal de que alguém pudesse estar oculto no ambiente, 
como uma cobra ou um indivíduo de um grupo rival, mesmo que se errasse de 
vez em quando nessa identificação. Em um ambiente tão rico em ameaças, “pecar 
pelo excesso” era preferível, em termos de sobrevivência dos indivíduos, que 
ignorar os menores sinais de uma ameaça oculta. Mas tal hipersensibilidade, 
persistindo atualmente por estar enraizada em nossos genes, pode gerar 
consequências muito mais negativas que positivas, pois não vivemos mais em um 
ambiente tão perigoso, ao passo que podemos experimentar níveis prejudiciais 
de ansiedade e paranoia diante de ambientes com estímulos ambíguos. 
TEMA 5 – COEVOLUÇÃO GENES-CULTURA 
 
 
13 
É possível perceber que cada vertente do estudo evolutivo do 
comportamento humano agrega elementos que as permite progressivamente lidar 
com os desafios desse escorregadio objeto de estudo. Mesmo quando 
consideramos os progressos feitos pelas abordagens citadas, havia ao menos um 
nível crucial de análise ainda não abarcado quando do surgimento de cada uma. 
Enquanto enfatizavam ora a esfera individual da cognição e do comportamento, 
ora os genes, ora a cultura e os comportamentos coletivos, as diferentes 
abordagens não enfatizavam a interação entre genes, indivíduo e cultura. 
Ao leitor desavisado, para quem esse nível de análise pode parecer igual 
aos anteriores, devemos lembrar a máxima popularizada pela psicologia da 
Gestalt, de que "o todo é diferente da soma das partes". Em outras palavras, 
estudar comportamentos,genes e cultura somados é diferente de estudar a 
interação entre essas instâncias, pois de sua interação emergem qualidades que 
estão ausentes quando analisamos tais elementos separadamente. Valendo-nos 
do esclarecedor poder das analogias, o sabor de uma pizza não pode ser inferido 
baseado na degustação de seus ingredientes separadamente; o sabor específico 
da pizza emerge somente quando os ingredientes são combinados. De modo 
semelhante, o estudo do comportamento humano sob bases evolucionistas ganha 
conhecimentos únicos quando a análise incide na interação entre genes e cultura. 
Para a abordagem da coevolução genes-cultura, a cultura é modelada por 
imperativos biológicos, genéticos, enquanto nossos traços biológicos são, ao 
mesmo tempo, alterados pela evolução biológica que acontece em resposta a 
inovações culturais. O nível de explicação dessa abordagem está, portanto, na 
combinação genes-cultura, na zona turva entre elas. Essa abordagem não 
corresponde propriamente a uma teoria ou a um conjunto de teorias, como ocorre 
com as demais aqui apresentadas, mas equivale a técnicas de pesquisa baseadas 
na genética de populações e em modelos matemáticos de que se vale para testar 
suas hipóteses (Laland; Brown, 2002, p. 241-286, 300-302). 
A complexidade desses modelos matemáticos impele a explicações que 
nos desviariam do foco. Mas um exemplo pode clarear mais o ponto. McClenon 
(1997) desenvolveu uma série de trabalhos organizando a teoria de que a 
tendência humana a ser hipnotizado (um traço chamado na literatura científica de 
hipnotizabilidade) pode ter evoluído e permanecido nos nossos genes em um caso 
de coevolução genes-cultura. Os primeiros xamãs, diante de enfermidades para 
as quais possuíam pouco ou nenhum recurso terapêutico para enfrentar, 
 
 
14 
perceberam, com base na tentativa-e-erro, que conversas ritmadas, que logo 
evoluíram para cantos, acalmavam e “hipnotizavam” os doentes, potencializando 
sua melhora. 
Tal percepção parece ter levado a uma sofisticação gradual dos rituais de 
cura, que passaram a incluir cantos e danças cada vez mais elaborados, ao 
mesmo tempo em que as pessoas mais responsivas a essas práticas obtinham 
os melhores resultados, ocasionando maior taxa de sobrevivência e reprodução 
na população associada a tais características. Em outras palavras, as 
características ligadas a essa hipnotizabilidade parecem ter evoluído juntamente 
aos rituais de cura xamânicos ao longo de dezenas de milhares de anos, 
desaguando nas religiões atuais e em diversas categorias de experiências em 
estados alterados de consciência. 
Como vimos, a relação entre genes, comportamentos e cultura humana é 
muito complexa, o que acabou por ocasionar diversas perspectivas teóricas e 
metodológicas para o seu estudo. Ao longo desta disciplina, veremos em detalhe 
exemplos desses estudos em temas do cotidiano humano como sexualidade, 
inteligência, medos, ansiedade, cooperação e tomada de decisão. Contudo, fez-
se necessária esta breve apresentação das formas de se estudar o assunto para 
que possamos progredir com segurança e sem mal-entendidos básicos. Mais 
adiante veremos como a evolução modelou o cérebro do Homo sapiens e que 
implicações isso traz. 
 
 
 
15 
REFERÊNCIAS 
BARRETT, J. Exploring the Natural Foundations of Religion. Trends in Cognitive 
Sciences, v. 4, n. 1, p. 29-34, 2000. 
CARVALHO, A. M. A. O lugar do biólogo na psicologia; o ponto de vista da 
etologia. Biotemas, v. 2, n. 2, p. 81-92, 1989. 
DARWIN, C. 2003. A origem das Espécies. Porto: LELLO & IRMAO 
(originalmente publicado em 1859). 
EKMAN, P; FRIESEN, W. V. Unmasking the Face: A Guide to Recognizing 
Emotions from Facial Clues. Ishk, 2003 (originalmente publicado em 1975). 
LALAND, K. N.; BROWN, G. R. Sense and Nonsense: Evolutionary Perspectives 
on Human Behaviour. New York: Oxford University Press, 2002. 
LAMARCK, J-B. Filosofia zoológica. Barcelona: Editorial Alta Fulla “Mundo 
Científico, 1986 (originalmente publicado em 1809). 
LANDE, R. Natural Selection and Random Genetic Drift in Phenotypic 
Evolution. Evolution, v. 30, n. 2, p. 314-334, 1976. 
MARALDI, E. de O.; MARTINS, L. B. Contribuições da psicologia evolucionista e 
das neurociências para a compreensão das crenças e experiências 
religiosas. REVER-Revista de Estudos da Religião, v. 17, n. 1, p. 40-69, 2017. 
MCCLENON, J. Shamanic Healing, Human Evolution, and the Origin of Religion. 
Journal for the Scientific Study of Religion, n. 36, p. 345-354, 1997. 
PAIVA, G. J. A religião dos cientistas: uma leitura psicológica. Edições Loyola, 
2000. 
TONI, P. M.; SALVO, C. G.; MARINS, M. C.; WEBER, L. N. D. Etologia humana: 
o exemplo do apego. Psico-USF, v. 9, n. 1, p. 99-104, 2004. 
VIEIRA, M. L.; OLIVA, A. D. Evolução, cultura e comportamento humano. 
Florianópolis: Edições do Bosque, Série Saúde e Sociedade, 2017.

Mais conteúdos dessa disciplina