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AULA 1 EVOLUÇÃO E COMPORTAMENTO HUMANO Prof. Leonardo Martins 2 INTRODUÇÃO Diversas ciências se dedicam, em algum nível, ao estudo do comportamento humano. Temos a antropologia, a biologia, a sociologia, a neurociência, a psicologia, cada qual com especialidades internas e vertentes teóricas menos ou mais compatíveis. Temos ainda formas de conhecimento que não são propriamente científicas, como a história e a filosofia, mas que prestam contribuições específicas e indispensáveis para a compreensão do que é o ser humano e dos “comos” e “porquês” de seu comportamento não somente atual, mas ao longo da história. Algumas dessas áreas ou subáreas são menos conhecidas, ao passo que outras são objeto de distorções diversas, não raro causadas por conhecimento insuficiente de quem fala a seu respeito. Esta aula trata justamente de um desses campos, que é, ao mesmo tempo, pouco conhecido e objeto frequente de mal- entendidos: o estudo evolucionista do comportamento humano. Trata-se de uma área de conhecimento vasta e que combina diferentes disciplinas, como biologia, psicologia, etologia, neurociência, química e filosofia, tendo como base a famosa (e tão comumente mal-entendida) teoria da evolução das espécies. Para que possamos prosseguir com segurança, precisamos introduzir esse referencial teórico, combatendo, desde já, uma série de equívocos a seu respeito. TEMA 1 – TEORIA DA EVOLUÇÃO – DO SÉCULO XIX AOS DIAS ATUAIS A teoria da evolução foi proposta no Século XIX pelo naturalista e biólogo britânico Charles Darwin (1809-1882). Darwin viajou o mundo observando animais tanto vivos, quanto fósseis, tentando compreender como e por que os animais que existem ou existiram tinham suas características. Em 1859, Darwin publicou seu notório “A Origem das Espécies” (Darwin, 2003), um dos livros mais influentes de todos os tempos. Mas temos de recordar, contudo, que a teoria darwinista é apenas uma das que emergiram ao longo da história para compreender a evolução da vida. Diferentes religiões e filosofias, de alguma forma, espiritualistas possuem suas próprias noções sobre a origem e as mudanças das formas de vida na Terra, caracterizando diferentes vertentes de criacionismo. O criacionismo judaico- cristão, com o qual a maioria de nós está familiarizado, envolve Deus criando o universo pela força de sua vontade, após criando diferentes animais e os 3 humanos. É um exercício interessante comparar essa vertente de criacionismo com outras, provenientes da África, dos esquimós, dos aborígenes australianos, dos filósofos antigos do extremo oriente. De qualquer forma, todas as vertentes de criacionismo se valem de alguma força ou instância meta-empírica, sobrenatural, mística, divina ou supra-humana para criar e manter a realidade que conhecemos. Charles Darwin (1809-1882) Créditos: Everett Historical/ Shutterstock Já as teorias propriamente científicas, ao buscarem explicações mais simples e verificáveis empiricamente para os mesmos fenômenos, prescindem do uso de forças divinas e afins. É o caso da teoria darwinista que buscou se alicerçar nas ciências naturais (Darwin, 2003). No entanto, aqui emerge o que podemos tomar como a primeira fonte de equívoco em relação ao tema: ao contrário do que é dito com frequência, mesmo por biólogos, teorias naturalistas como a de Darwin não demonstram a inexistência de Deus ou algo análogo, pois essa é uma questão filosófica e religiosa não demonstrável nesses termos. Em outras palavras, mesmo que a teoria da evolução proponha vias mais parcimoniosas para compreender a natureza, indo até aí o seu domínio, ela não pode demonstrar a efetiva inexistência de aspectos sobrenaturais, porque esses, na eventualidade 4 de sua existência, estariam justamente além do que as evidências naturais (aquelas estudadas por essas teorias) permitem concluir. Seria filosoficamente possível, por exemplo, que alguma forma de Deus tivesse criado e se valido dos princípios da evolução para gerenciar a vida. O fato de haver explicações mais simples para os fenômenos naturais que dispensem a existência de alguma forma de Deus não implica automaticamente na inexistência desse Deus (embora coloque lenha na discussão sobre os motivos para a manutenção das crenças relacionadas). Assim, a eventual dimensão divina da criação permanece nos domínios da teologia, da filosofia e da crença pessoal, havendo, inclusive, muitos biólogos que aceitam tranquilamente a evolução das espécies e que, ainda assim, são profundamente religiosos. Não é necessário, portanto, desacreditar a robusta teoria da evolução para que se mantenha a eventual crença em Deus (a esse respeito, recomenda-se Paiva, 2000). Retornando à vertente científica do debate, Darwin não foi o único a propor uma teoria da evolução. Entre os outros que o fizeram, o mais famoso foi o naturalista francês Jean-Baptiste de Lamarck (1744-1829), que propôs, antes de Darwin, que os animais evoluíam conforme utilizavam e aprimoravam suas aptidões naturais. Tratava-se da chamada “lei do uso e desuso”, pela qual partes dos corpos dos animais se desenvolviam ou atrofiavam conforme o uso ou o desuso, como as girafas que alongariam seu pescoço no esforço para comer folhas nas árvores mais altas, passando adiante tais ganhos, pela chamada “lei da transmissão dos caracteres adquiridos” (Lamarck, 1986). Não podemos nos esquecer do naturalista britânico Alfred Russel Wallace (1823-1913), que desenvolveu uma teoria bastante semelhante à de Darwin no mesmo período. Wallace enviou a Darwin seu manuscrito, o que levou os dois a reconhecer as semelhanças entre suas perspectivas. Mas Darwin, sendo mais reconhecido naquele tempo, acabou por ser mais associado à teoria. A teoria de Darwin se ajustou melhor às evidências, sendo corroborada por incontáveis experimentos, estudos observacionais, análises de fósseis, estudos genéticos, entre tantos outros métodos e abordagens que fizeram com que ela prevalecesse ao final (embora haja vertentes atuais – e não hegemônicas – de um “lamarckismo revisado”). Assim, a teoria da evolução que temos atualmente não é aquela do Séc. XIX, mas uma complexa combinação das contribuições basilares de Darwin e de incontáveis pesquisadores de diversos campos em torno 5 da noção original de que as espécies descendem de outras anteriores, podendo- se regredir até um ancestral comum datado do início da vida na Terra. As espécies sempre estiveram e ainda estão em processo de evolução. Contornando outro mito comum, isso não significa a vitória do “mais forte”, tampouco que “o mais forte devora o mais fraco”. Tais visões simplistas deixam escapar que o aspecto essencial não é necessariamente a força (seja ela física ou de outra natureza mais imediata), mas a adaptação às circunstâncias do ambiente específico. Assim, espécies menores e fisicamente mais fracas, por exemplo, podem sobreviver na competição contra outros maiores, como houve ao longo de milhões de anos com a gradual diminuição do porte físico dos animais sobre a Terra desde o período dos dinossauros, graças, entre outras variáveis, à queda na taxa atmosférica de oxigênio. Créditos: Susan Schmitz/ Shutterstock De forma absolutamente sintética – pois deixaremos o detalhamento para as próximas seções deste texto e para outros encontros –, as principais bases da teoria de Darwin foram: Os indivíduos de uma mesma espécie apresentam variações naturais entre si. Tais variações ocorrem devido a mutações genéticas, algo que não era sabido nos tempos de Darwin; Os indivíduos com características mais adaptativas em dado ambiente têm maior probabilidade de sobreviver; 6 Tais indivíduos também possuem mais chances de se reproduzir, transmitindo tais características que são vantajosas naquelas condições ambientais. Assim, ocorreuma gradual “lapidação” das características de uma população em relação a seu ambiente. Contudo, devido à ausência de conhecimentos sobre genética naquele tempo, as noções de hereditariedade que temos atualmente não se faziam presentes. Veremos, mais adiante, sutilezas desse processo. Tais pontos básicos levam a algumas conclusões adicionais: O que é adaptativo em um ambiente pode perfeitamente não o ser em outro, podendo constituir até uma desvantagem. O tamanho de animais pré-históricos como a preguiça gigante e outros tantos é um exemplo, tornando mais adaptativo, ao longo de milhões de anos de decréscimo do nível de oxigênio na atmosfera, um porte físico menor; A evolução pode ser observada no nível da espécie, não do organismo individual. Variações individuais são essenciais para a evolução de uma espécie; ou seja, a unidade alvo da seleção natural é o indivíduo. Contudo, não há qualquer garantia que determinado indivíduo com alguma vantagem passe adiante os seus genes, pois diversas circunstâncias podem impedi- lo. Mas, conforme a passagem do tempo e o surgimento de diversas gerações de indivíduos, determinado salto evolutivo pode ser observado na espécie. Cabe mencionar rapidamente, inclusive, que o caráter adaptativo de um comportamento ou expressão de um gene não é a única via para que uma característica seja consolidada evolutivamente em uma espécie. Pesquisas posteriores evidenciaram outros processos como a transmissão de características que são subproduto de outras; ou seja, elas não são adaptativas em si mesmas, mas apenas “pegam carona” em uma característica adaptativa, sendo também selecionadas. Temos também a deriva genética, que ocorre devido a variáveis circunstanciais, como um acaso que reduz uma população e privilegia acidentalmente a disseminação de características não necessariamente adaptativas dos indivíduos que sobraram. Esse fenômeno é mais comum entre populações pequenas que são vítimas de alguma fatalidade, como a morte acidental de parcela significativa daqueles indivíduos, de modo que a parcela restante terá oportunidade de transmitir eventuais características genéticas em comum (Lande, 1976). 7 Outra concepção corriqueira, mas que necessitamos eliminar de pronto, é o determinismo genético: muitos acreditam que defender a existência de tendências genéticas no comportamento humano significa afirmar que somos determinados (de modo fatalista) por nossos genes (Vieira; Oliva, 2017), como se fôssemos máquinas respondendo ao comando dos genes. Na verdade, os genes fornecem um leque relativamente vasto de possibilidades de comportamentos ligados a determinado assunto, como preferência sexual, por exemplo. Em outras palavras, ter determinada composição genética e reconhecer que isso afetará o comportamento e a subjetividade significa reconhecer um alicerce maleável de possibilidades sobre as quais incidirá a história de vida da pessoa e a cultura em que ela se desenvolve, cabendo a essa complexa e, por vezes, imprevisível combinação de elementos a emergência de um comportamento específico de uma pessoa. Portanto, não somos “robôs genéticos” ou algo equivalente. Vejamos, a seguir, como os estudos sobre evolução e comportamento humano levam em conta a complexidade do tema. TEMA 2 – A SOCIOBIOLOGIA E A ECOLOGIA COMPORTAMENTAL HUMANA A natureza biológica do ser humano permite que ele seja estudado sob uma perspectiva evolucionista de modo semelhante ao que ocorre com outros animais. A complexidade da nossa espécie, o Homo sapiens, que a destaca das demais em relação a características como inteligência, subjetividade e cultura, entre outras, agrega desafios a esses estudos, embora não os inviabilizem. Justamente devido ao caráter multifacetado do comportamento humano, surgiram diversas perspectivas de base evolucionista para o estudo de nossa espécie, cada qual enfatizando determinados aspectos, sem necessariamente negar os demais. Apresentaremos a seguir as principais abordagens entre elas, destacando suas bases e contribuições para a compreensão da evolução humana. Podemos definir a sociobiologia como o estudo evolutivo do comportamento social. Por isso, ela se dedica ao estudo de animais sociais em geral, incluindo o ser humano. A ênfase da sociobiologia se dá no estudo do comportamento na “perspectiva do gene”, ou seja, na investigação do quanto os comportamentos são adaptativos e impactam a transmissão dos genes, o que guarda relação com o aspecto reprodutivo que é tão importante para a evolução, como vimos (Laland; Brown, 2002, p. 69-108, 300-302). 8 Devido a essa ênfase no comportamento social, qualquer tema que seja interessante ao estudo evolutivo dentro dessa perspectiva precisa ser definido em termos comportamentais e coletivos. Se houver interesse em se investigar a religião, por exemplo, é necessária sua delimitação em termos do comportamento religioso e de seus impactos diante do grupo, passando-se a estudar os rituais religiosos, as peregrinações etc. Entre as tantas questões passíveis de se investigar dentro da perspectiva B e mantendo-nos em nosso exemplo, haveria um papel adaptativo em participar de rituais religiosos como cultos, danças etc.? A sobrevivência do grupo e o sucesso em transmitir os genes são afetados pelo comportamento de participar desses e outros rituais (como ao favorecer a cooperação mútua e a coesão do grupo). Se sim, esse aumento no sucesso reprodutivo justificaria ao menos uma parte da conhecida tendência humana em se organizar em grupos para atividades religiosas desde seus primórdios? Assim, torna-se claro que tipos de questão estão ao alcance da sociobiologia humana. Créditos: Uncle Leo/ Shutterstock Resultados interessantes podem surgir de empreitadas desse tipo, como no estudo da chamada sinalização custosa, que é a demonstração de engajamento grupal e confiabilidade por meio de “sacrifícios” para o grupo, passando-se a colher benefícios disso nas esferas de sobrevivência e da ampliação dos laços sociais. Ainda no caso da religião, temos como exemplos de sinalização custosa as doações, o martírio do corpo, as abstinências etc. (Maraldi; Martins, 2017). A sociobiologia humana, embora ainda traga contribuições potenciais para o estudo do comportamento humano sob bases evolucionistas, foi acusada de 9 simplista, ocasionando, em reação, o surgimento de outras perspectivas que buscaram superar suas limitações. Uma reação imediata veio da ecologia comportamental humana, quando antropólogos decidiram testar as hipóteses da sociobiologia com dados reais de culturas humanas. Com base na promissora noção de que as estratégias comportamentais são adaptativas em um amplo espectro de condições ambientais e sociais, esses “antropólogos darwinistas” buscaram investigar o quanto o ser humano é capaz de alterar seus comportamentos diante de desafios ambientais novos. A ecologia comportamental humana passa, assim, a ser mais versátil e atenta à complexidade da questão que a sociobiologia, propondo uma relação mais dinâmica entre indivíduo e cultura. A ênfase dessa perspectiva está, então, na flexibilidade comportamental diante do contexto e adaptabilidade natural da espécie humana, e não propriamente em quanto determinados comportamentos são adaptativos. Novamente os temas de interesse têm de ser definidos em termos comportamentais para seu estudo pela ecologia comportamental, como ocorre com a sociobiologia. Mas as características de cada forma de manifestação desses comportamentos são analisadas em relação às características do contexto em que emergem (Laland; Brown, 2002, p. 109-152, 300-302). Entre os tantos exemplos possíveis de estudos nessa direção, os comportamentos de flerte, de demonstração de interesse sexual, variam consideravelmente quando comparamos diferentes culturas (ou diferentessituações dentro da mesma cultura). Essa variabilidade comportamental do flerte, quando analisada junto às características de cada ambiente em que ocorrem, revelam uma flexibilidade que favorece a sobrevivência e a reprodução humana? Note que há certa semelhança com as perguntas passíveis de serem investigadas pela sociobiologia. Contudo, o enfoque da ecologia comportamental é mais abrangente. TEMA 3 – ETOLOGIA HUMANA Uma das vertentes mais conhecidas do estudo do comportamento humano sob bases evolucionistas é a etologia humana. Trata-se do estudo de comportamentos inatos dos humanos em seu ambiente natural (tal como a etologia, em geral, procede em relação aos demais animais), diferentemente do que ocorre, como veremos, com abordagens que recorrem a experimentos, 10 questionários e métodos afins. Conhecida como o lugar do biólogo no estudo do comportamento humano e mesmo da psicologia (Carvalho, 1989), a etologia humana busca superar dicotomias comuns na cultura para compreender o comportamento humano, como a discussão sobre se determinado comportamento é inato ou adquirido com base no aprendizado. Assim, a cultura é entendida como produtora e produto da evolução humana e do seu atual feitio comportamental, sendo essa perspectiva avessa a reducionismos (Carvalho, 1989; Toni; Salvo; Marins; Weber, 2004). Note-se também que a etologia humana agrega diversos dos elementos que vimos anteriormente e que veremos a seguir (embora sem perder suas especificidades metodológicas), como noções de coevolução genes- cultura e a ênfase no comportamento, com suas respectivas potencialidades e limitações. A etologia começou buscando avaliar quatro pontos ou questões que norteariam a pesquisa: quais são as causas imediatas de um comportamento específico (a causalidade), como esse comportamento se desenvolve durante a vida do indivíduo (a ontogênese), qual a função desse comportamento (ou seja, seu valor para a sobrevivência) e como esse comportamento se desenvolveu durante a evolução (a filogênese). Esses dois últimos pontos são atualmente dominantes no estudo do comportamento animal (Toni; Salvo; Marins; Weber, 2004). No método etológico, tradicionalmente se busca observar e descrever meticulosamente o comportamento, desenvolvendo o chamado “etograma”, que é então analisado em termos causais, ontogenéticos, filogenéticos e funcionais, como vimos. A análise causal é feita levando-se em conta a relação entre o comportamento e as condições que o antecediam. Já a análise ontogenética observa as variações do comportamento de um indivíduo ao longo do tempo, buscando padrões reveladores de aspectos de seu desenvolvimento. A análise filogenética investiga a história do comportamento em questão ao longo da evolução de uma espécie específica (como a espécie humana, no caso da etologia humana). Por fim, a análise funcional considera as mudanças no indivíduo e no ambiente decorrentes de determinado comportamento, observando seu valor para a sobrevivência. Um exemplo famoso de trabalho de natureza etológica (embora recentemente controverso à luz de novas pesquisas) é a catalogação de emoções humanas pretensamente básicas com base em expressões faciais feita pelo 11 psicólogo Paul Ekman (Ekman; Friezen, 2003). Ekman e seus colaboradores desenvolveram exaustiva catalogação de expressões faciais humanas por meio de meticulosa observação e de experimentos em diferentes culturas, chegando a desenvolver categorizações de emoções ligadas à tensão e ao relaxamento de músculos específicos da face. TEMA 4 – PSICOLOGIA EVOLUCIONISTA Apesar de sua complexidade em relação à sociobiologia, a ecologia comportamental humana também foi objeto de críticas, dada sua ênfase apenas no comportamento. A psicologia evolucionista surgiu como uma reação a essa limitação, buscando incluir o estudo evolutivo das instâncias cognitivas humanas. Essa abordagem busca o estudo dos mecanismos cognitivos inatos, que são considerados como adaptações resultantes da história evolutiva da espécie humana. Para isso, os psicólogos evolucionistas buscam identificar justificativas para a existência e as características dos processos cognitivos atuais nas condições de vida da espécie humana e daquelas das quais ela descende. Assim, as hipóteses que são testadas nesses estudos nascem da especulação sobre que funções e vantagens haveria em determinadas características da nossa cognição que as teriam feito persistir ao longo dos milênios. Uma vez especulado tal sentido último em determinada característica cognitiva, busca-se testar tal hipótese por meio de diversos métodos, como experimentos ou questionários aplicados em voluntários atuais, numa espécie de verificação indireta sobre o passado da espécie (Laland; Brown, 2002, p. 153-196, 300-302). Por exemplo, diante da hipótese de que nós, humanos, somos particularmente propensos a inferir a presença de “alguém” no ambiente quando ouvimos algum som estranho ou vemos alguma sombra porque essa disposição foi adaptativa ao nos manter alerta contra ameaças ocultas no perigoso ambiente pré-histórico, pode-se testar tal ideia submetendo crianças muito jovens a experimentos que busquem evidenciar se elas agem diante de estímulos ambíguos do ambiente como se fossem indicativos da presença de alguém. A importância de tais experimentos com crianças muito jovens está em que suas reações a esse respeito teriam probabilidade muito maior de serem inatas, em vez de derivadas do aprendizado ao longo da vida. Estudos dessa natureza acumularam evidência para sugerir que temos, de fato, tal viés cognitivo, que nos leva a inferir presenças no ambiente, mesmo quando não há alguém nele. Tal viés 12 é chamado de dispositivo hipersensível de detecção de agentes (hyperactive agent-detection device; Barret, 2000). Créditos: Vitstudio/ Shutterstock Ao contrário da sociobiologia e da ecologia comportamental humana, a psicologia evolucionista prevê a possibilidade de que processos e comportamentos atuais não sejam adaptativos, por eles terem sido selecionados em condições ambientais que não mais existem. O próprio dispositivo hipersensível de detecção de agentes pode nos servir de exemplo. No passado remoto, era imensamente adaptativo para os membros da espécie se sobressaltarem ao menor sinal de que alguém pudesse estar oculto no ambiente, como uma cobra ou um indivíduo de um grupo rival, mesmo que se errasse de vez em quando nessa identificação. Em um ambiente tão rico em ameaças, “pecar pelo excesso” era preferível, em termos de sobrevivência dos indivíduos, que ignorar os menores sinais de uma ameaça oculta. Mas tal hipersensibilidade, persistindo atualmente por estar enraizada em nossos genes, pode gerar consequências muito mais negativas que positivas, pois não vivemos mais em um ambiente tão perigoso, ao passo que podemos experimentar níveis prejudiciais de ansiedade e paranoia diante de ambientes com estímulos ambíguos. TEMA 5 – COEVOLUÇÃO GENES-CULTURA 13 É possível perceber que cada vertente do estudo evolutivo do comportamento humano agrega elementos que as permite progressivamente lidar com os desafios desse escorregadio objeto de estudo. Mesmo quando consideramos os progressos feitos pelas abordagens citadas, havia ao menos um nível crucial de análise ainda não abarcado quando do surgimento de cada uma. Enquanto enfatizavam ora a esfera individual da cognição e do comportamento, ora os genes, ora a cultura e os comportamentos coletivos, as diferentes abordagens não enfatizavam a interação entre genes, indivíduo e cultura. Ao leitor desavisado, para quem esse nível de análise pode parecer igual aos anteriores, devemos lembrar a máxima popularizada pela psicologia da Gestalt, de que "o todo é diferente da soma das partes". Em outras palavras, estudar comportamentos,genes e cultura somados é diferente de estudar a interação entre essas instâncias, pois de sua interação emergem qualidades que estão ausentes quando analisamos tais elementos separadamente. Valendo-nos do esclarecedor poder das analogias, o sabor de uma pizza não pode ser inferido baseado na degustação de seus ingredientes separadamente; o sabor específico da pizza emerge somente quando os ingredientes são combinados. De modo semelhante, o estudo do comportamento humano sob bases evolucionistas ganha conhecimentos únicos quando a análise incide na interação entre genes e cultura. Para a abordagem da coevolução genes-cultura, a cultura é modelada por imperativos biológicos, genéticos, enquanto nossos traços biológicos são, ao mesmo tempo, alterados pela evolução biológica que acontece em resposta a inovações culturais. O nível de explicação dessa abordagem está, portanto, na combinação genes-cultura, na zona turva entre elas. Essa abordagem não corresponde propriamente a uma teoria ou a um conjunto de teorias, como ocorre com as demais aqui apresentadas, mas equivale a técnicas de pesquisa baseadas na genética de populações e em modelos matemáticos de que se vale para testar suas hipóteses (Laland; Brown, 2002, p. 241-286, 300-302). A complexidade desses modelos matemáticos impele a explicações que nos desviariam do foco. Mas um exemplo pode clarear mais o ponto. McClenon (1997) desenvolveu uma série de trabalhos organizando a teoria de que a tendência humana a ser hipnotizado (um traço chamado na literatura científica de hipnotizabilidade) pode ter evoluído e permanecido nos nossos genes em um caso de coevolução genes-cultura. Os primeiros xamãs, diante de enfermidades para as quais possuíam pouco ou nenhum recurso terapêutico para enfrentar, 14 perceberam, com base na tentativa-e-erro, que conversas ritmadas, que logo evoluíram para cantos, acalmavam e “hipnotizavam” os doentes, potencializando sua melhora. Tal percepção parece ter levado a uma sofisticação gradual dos rituais de cura, que passaram a incluir cantos e danças cada vez mais elaborados, ao mesmo tempo em que as pessoas mais responsivas a essas práticas obtinham os melhores resultados, ocasionando maior taxa de sobrevivência e reprodução na população associada a tais características. Em outras palavras, as características ligadas a essa hipnotizabilidade parecem ter evoluído juntamente aos rituais de cura xamânicos ao longo de dezenas de milhares de anos, desaguando nas religiões atuais e em diversas categorias de experiências em estados alterados de consciência. Como vimos, a relação entre genes, comportamentos e cultura humana é muito complexa, o que acabou por ocasionar diversas perspectivas teóricas e metodológicas para o seu estudo. Ao longo desta disciplina, veremos em detalhe exemplos desses estudos em temas do cotidiano humano como sexualidade, inteligência, medos, ansiedade, cooperação e tomada de decisão. Contudo, fez- se necessária esta breve apresentação das formas de se estudar o assunto para que possamos progredir com segurança e sem mal-entendidos básicos. Mais adiante veremos como a evolução modelou o cérebro do Homo sapiens e que implicações isso traz. 15 REFERÊNCIAS BARRETT, J. Exploring the Natural Foundations of Religion. 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