Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.
details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

236 Elinor Goldschmied e Sonia Jackson
As brincadeiras de “rochas” e “prisões” são exemplos de atividades “com-
petitivas”. A “rocha” assume várias formas, dependendo se a pessoa ou se
senta com os joelhos dobrados e os pés separados ou se deita de bruços e com
os braços estendidos no chão, ou fica de joelhos. Mas a tarefa do outro parcei-
ro de brincadeira é forçá-la a se mover. O adulto empurra-a com força suficiente
para que a criança tenha que usar toda sua força para resistir, mas não tão
forte que faça com que ela se desequilibre. Quando os papéis se invertem, o
adulto tem de escolher um momento em que vai se mover ou cair, para grande
prazer da criança.
Na brincadeira das “prisões”, os parceiros de brincadeira adotam a mes-
ma posição do aninhar, porém, neste caso, os braços e as pernas da parceira
mais velha agarram a criança, que é estimulada a lutar para escapar. A brinca-
deira não é satisfatória quando é muito fácil escapar, e a adulta tem de ter
sensibilidade para avaliar a força e a habilidade de tolerar frustrações da
criança.
Já observamos o brincar relacional ser utilizado com sucesso com mães
deprimidas, pais e mães que haviam abusado de seus filhos, crecheiras sem
experiência e assistentes sociais que têm dificuldades de comunicação com
crianças pequenas. Esse tipo de brincar é uma das formas mais eficazes de
trabalhar diretamente com pais e mães que são dificilmente influenciáveis
por métodos baseados em conversa e discussão, e, por não envolver um modo
certo ou errado, ou ganhadores e perdedores, ele oferece uma oportunidade
para modelar, sem minar a confiança dos pais.
RESUMO
Neste capítulo, discutimos algumas questões práticas que surgem quan-
do o cuidado diário de uma criança pequena é dividido entre os pais e um
centro de cuidado fora de casa. Quaisquer que sejam as razões da ida da
criança à creche, precisa-se trabalhar os canais de comunicação e deixar cla-
ras as expectativas de ambos os lados. A pessoa-chave tem um papel muito
importante nisso.
Em algumas creches, as relações com os pais não irão muito além disso.
Outras creches ampliaram suas funções para envolver as mães, e ocasional-
mente os pais, em uma gama completa de atividades, dentre as quais o brin-
car relacional. Tocamos em alguns problemas que podem surgir mesmo em
relações comuns com os pais e as mães, mas que em geral podem ser sobre-
pujados com boa vontade e um pouco de habilidade para negociar. Nos pró-
ximos dois capítulos falaremos sobre crianças e famílias com dificuldades
mais sérias.
Educação de 0 a 3 anos 237
 c a p í t u l o 13
Crianças em dificuldades
Os corações das crianças pequenas são órgãos delicados.
Um começo cruel ao adentrar o mundo pode moldá-los de maneiras estranhas.
Carson McCullers
cuidado de crianças pequenas com dificuldades é tema de inúmeros
livros e artigos, geralmente relacionados a problemas que ocorrem
dentro do círculo familiar. Muito pouco foi escrito que pudesse ajudar
as cuidadoras ou as mães-crecheiras que cuidam de crianças fora de suas ca-
sas. Sabemos que uma grande parcela das crianças que frequentam creches da
prefeitura têm probabilidade de apresentar problemas comportamentais ou
de desenvolvimento (Bain e Barnett, 1980; as McGuire e Richman, 1986).
Isso pode refletir não apenas na maneira como as prioridades são aplicadas na
oferta de vagas, mas também na aprendizagem por intermédio dos pares, de
forma que o agrupamento de crianças severamente desfavorecidas em alguns
centros específicos pode, como Moss e Melhuish (1991) sugerem, transformar
tais lugares em “escolas de treinamento de comportamentos problemáticos”.
A mudança, de creches vinculadas aos serviços para creches de bairros,
pode reduzir o problema, porém concentrar os recursos em áreas desfavorecidas
indica que é improvável que ele desapareça. As pesquisas sobre vínculo parental
indicam que mais de um terço das crianças que vivem nas áreas mais pobres
pode ser classificado como “difícil” em testes padronizados. Ghate e Hazel
(2002) mostram como estresses múltiplos no ambiente físico e social contri-
buem para essa situação.
No entanto, qualquer criança pode ter dificuldades, mesmo que tempo-
rariamente, e não apenas aquela que têm problemas óbvios em suas famílias.
Não devemos nos esquecer de que a maneira como o centro de cuidado é
organizado tem um efeito poderoso no comportamento da criança, como
Richman e McGuire (1988) relataram em um estudo de seis creches em Lon-
O
238 Elinor Goldschmied e Sonia Jackson
dres. Os problemas que a criança já tem podem ser acentuados por ela estar
em um grupo, e em alguns casos esses problemas podem mesmo ser criados
pela maneira como o grupo é conduzido. Iniciamos discutindo princípios ge-
rais sobre o manejamento de comportamentos em um centro de cuidado em
grupo e, a seguir, analisamos algumas variedades de comportamento difícil
que podem causar problemas para as cuidadoras.
DIFICULDADES GERADAS PELO CENTRO
Como adultos, podemos nos lembrar de algumas situações, como ficar
apertado no meio de um ônibus apinhado de gente ou esperar por horas em
um corredor de hospital, em que nos sentimos oprimidos e frustrados, e te-
mos de exercer grande controle sobre nós mesmos para não expressar nossa
raiva muito abertamente. Para a criança que está em uma creche, algumas
situações são equivalentes: ter de sentar-se para ouvir uma história em um
grupo demasiado grande, sem ter espaço para suas pernas, receber um que-
bra-cabeça em que duas peças estão faltando ou uma boneca sem roupas e
sem um dos braços, sentar-se à mesa em uma cadeira que é muito baixa, e
assim ficar com o queixo em cima do prato. Quando as cuidadoras acham que
o comportamento da criança é difícil, é essencial questionar se o ambiente
que oferecemos não está tornando as coisas ainda piores, em especial quando
a criança já tem muitos problemas com que lidar. Assim, muitas vezes pode-
mos evitar conflitos, que de outra forma produziriam choro e gritaria. É sem-
pre melhor antecipar e prevenir o confronto com as crianças, em vez de reagir
de forma negativa assim que o problema surgir.
É claro que estabelecer limites é parte do processo de socialização que
ocorre à medida que o bebê, completamente dominado por suas necessidades
físicas, se desenvolve e amadurece. Para suas cuidadoras, isso significa encon-
trar um equilíbrio entre dois tipos de interação com a criança: por um lado a
afeição, a tolerância, a empatia, a proteção, a compreensão, produção de con-
fiança e estímulo; por outro, fazer pedidos, proibir certos comportamentos,
expressar desconforto, dar responsabilidades.
Quando as cuidadoras são muito pressionadas e apressadas, elas podem
ver-se em uma situação em que agem demasiadamente pelo lado do controle,
dando uma série de ordens, ou repreendendo constantemente a criança, o
que pode produzir uma rebelião ou um distanciamento. Há o perigo de que
uma criança em dificuldades possa receber pouca comunicação do tipo positi-
vo, em casa ou na creche, e isso terá um efeito bastante prejudicial para o seu
autoconceito e assim no seu comportamento e desenvolvimento.
Às vezes dizemos “não” de uma forma descuidada, quando estamos sob
pressão, percebendo somente mais tarde que nossa proibição não era real-
mente necessária. Se não estamos preocupados em “ganhar a discussão” e
Educação de 0 a 3 anos 239
sabemos que cometemos um erro, podemos dizê-lo honestamente, mostrando
à criança uma pessoa genuína que não tem medo de corrigir uma decisão
errônea.
REAÇÕES A EVENTOS ESTRESSANTES
Quando uma criança que normalmente é bem adaptada e cooperativa
começa de repente a se comportar de uma maneira não característica, é bas-
tante provável que ela esteja reagindo a algum evento importante que ocorre
com sua família. Nas creches em que o sistema de educador-referência estiver
em funcionamento, o adulto especial da criança poderá dar a ela uma atenção
afetuosa extra nesse período. Um exemplo típico ocorre quando uma criança
em seu terceiro ano de vida vivencia onascimento de um irmão ou uma irmã.
Uma pesquisa relatou que 93% dos primogênitos mostram um aumento na
ocorrência de comportamento não cooperativo e exigente depois da chegada
de um segundo filho ou filha (Dunn, 1984), de forma que uma mudança
temporária de comportamento pode ser vista como totalmente normal. O im-
portante é que os adultos evitem reagir de uma forma punitiva.
Mesmo que a criança tenha sido bem-preparada e uma expectativa favo-
rável tenha sido criada, a realidade de ver um bebê que tira seu lugar e recebe
a atenção de todos pode ser muito difícil de suportar. A criança pode expres-
sar seu ressentimento sendo completamente desagradável e gritando, aparen-
temente sem motivo algum. Ela pode clamar por uma mamadeira novamente,
quando, na verdade, já a havia abandonado. Ela tem de lidar com sentimen-
tos poderosos, dispondo, até então, de meios muito limitados de expressão. A
menos que os adultos próximos possam ajudá-la a passar por essa verdadeira
crise, a exasperação dos primeiros com seu comportamento dará à criança a
ideia de que ela é má.
Os adultos às vezes ficam muito ansiosos com a possibilidade de admitir
que o ciúme existe, e assim a criança ouve seguidamente como será maravi-
lhoso ter um irmão ou irmã com quem brincar. Quando o bebê nasce, na
verdade isso não é nada maravilhoso para a criança, e ela pode sentir-se iso-
lada e com raiva (compreensivelmente, do seu ponto de vista) com a negação
de parte da realidade que vive nesse período. Seria extraordinário se a crian-
ça não sentisse ciúmes; podemos apenas ajudá-la a lidar com esse sentimento.
Outras circunstâncias também podem produzir um desvio da atenção
que se dá à criança, com efeitos similares, como, por exemplo, a morte de um
avô ou avó, uma crise financeira repentina ou uma decisão dos pais de se
separarem. Quando o sistema de educador-referência funciona bem, essa situa-
ção no lar será conhecida, e a criança ganhará confiança ao saber que há uma
pessoa (cuidadora) que tem uma preocupação especial com ela e que irá apoiá-
-la quando estiver com algum problema. Quando uma criança pequena passa
240 Elinor Goldschmied e Sonia Jackson
por um período que ela vivencia como uma violenta mudança em seu ambien-
te, uma rotina familiar e o contato com uma pessoa substituta com quem ela
tem vínculo são as formas mais eficazes de reduzir a angústia (Arnold, 1990).
LIDANDO COM COMPORTAMENTOS DIFÍCEIS
Acessos de raiva
Os acessos de raiva são extremamente comuns em crianças muito peque-
nas, e provavelmente estão relacionados à incapacidade de reconhecer suas
próprias necessidades, às frequentes frustrações que vivenciam e ao seu limi-
tado domínio da linguagem. Estima-se que quase 20% das crianças de 2 e 3
anos têm um acesso de raiva no mínimo uma vez por dia, e uma parcela muito
maior de crianças demonstra acessos ocasionais de raiva, que muitas vezes
são imprevisíveis (Jenkins et al., 1980). Embora o acesso de raiva não afete
diretamente as outras crianças, ele perturba o grupo devido ao barulho e à
confusão que pode causar.
Às vezes, esse acesso de raiva pode ocorrer muito repentinamente, com a
criança jogando-se ao chão, gritando e esperneando. Em momentos como esse,
é óbvio que palavras são inúteis; na verdade, qualquer tentativa de “frear”
essa raiva geralmente piora as coisas. O adulto pode ser mais útil ficando
perto da criança, talvez sentado, dedicando sua atenção e ficando disponível,
mas sem intervir, até que a criança torne a se acalmar. Muitas vezes é fácil
notar que as outras crianças ficam observando cuidadosamente a cuidadora,
tranquilizando-se ao ver que ela permanece calma e, assim que o acesso de
raiva passa, ajuda a criança, com um copo d’água e algumas palavras tranquilas,
a sentir-se bem.
Algumas crianças que têm acessos de raiva frequentemente podem ter
aprendido que essa é a melhor (ou única) forma de obter o que desejam. É
obviamente muito importante não reforçar esse tipo de comportamento e, para
o educador-referência, discutir com os pais formas de desencorajá-lo em casa.
Agressões contra outras crianças
Ações agressivas que causam aflição, perturbam e, por vezes, machucam
outras crianças, como arrebatar coisas, empurrar e puxar, chutar e bater, pu-
xar os cabelos ou atirar brinquedos, são especialmente desafiadoras para as
cuidadoras em centros de grupo. Embora demos atenção imediata à criança
que foi machucada, ao intervirmos para parar o conflito e confortar a vítima,
é importante perceber como se sente a criança que agrediu, pois muitas vezes
ela está bem infeliz. Também precisamos de compreensão em relação a como
nos relacionamos então com esta última criança; não há muita razão em per-
	Capítulo 13 | Crianças em dificuldades

Mais conteúdos dessa disciplina