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Thatcher e Reagan deram início a um vasto programa de privatização de empre- sas estatais, além de reduzirem os impostos sobre empresas e grandes fortunas. Os capitais foram liberados para circular livremente pelo mundo, e surgiram os paraísos fiscais. Houve reação do movimento sindical a essas medidas, com várias greves em defesa dos direitos sociais e trabalhistas. Contudo, a orientação de Thatcher e Reagan, seguida posteriormente por governos conservadores, era a de não ceder ou negociar com o sindicalismo organizado. Os governos social-democratas não tiveram respostas adequadas à crise mundial nem ao avanço neoliberal. Devido ao aumento do desemprego e à de- sindustrialização, eles perderam sua principal base social: os operários sindi- calizados. Muitos desses partidos adotaram o receituário neoliberal ou, então, perderam poder nas eleições para os partidos conservadores. O resultado das políticas neoliberais foram prejudiciais aos trabalhadores. Além da perda de direitos sociais e trabalhistas, o novo modelo econômico resul- tou em alto número de desempregados e na queda da renda dos trabalhadores empregados. Na França, o desemprego atingiu 500 mil trabalhadores em 1977, chegando a 3 milhões em 1992. Além disso, a concentração da renda aumentou. Nos Estados Unidos, entre 1977 e 1990, a renda dos 20% mais pobres diminuiu 5%, enquanto a dos 20% mais ricos aumentou 9%. Esse fenômeno foi visto em todos os países que adotaram o modelo neoliberal. paraíso fiscal jurisdição em que a lei facilita a aplicação de capitais estrangeiros (muitas vezes, de origem desconhecida) com alíquotas de tributação muito baixas ou nulas. A luta dos trabalhadores por seus direitos sociais não recuou, mesmo com o desmonte do Estado de bem-estar social pelas políticas públicas neoliberais. Em 14 de março de 2018, em Londres (Inglaterra), milhares de professores, estudantes e funcionários de universidades foram em passeata até a sede do Parlamento. Eles protestavam contra o corte de bolsas e a restrição do número de funcionários, além de apoiar a greve dos professores devido ao corte de suas aposentadorias. Na faixa, o sindicato que representa os professores, o University and College Union (UCU), exige “Educação para todos”, apoia a greve dos professores e se opõe ao sucateamento do ensino. W ik to r S zy m a n o w ic z/ B a rc ro ft M e d ia /G e tt y I m a g e s 61 V4_CIE_HUM_Vainfas_g21Sa_Cap2_040a063_LA.indd 61V4_CIE_HUM_Vainfas_g21Sa_Cap2_040a063_LA.indd 61 9/27/20 2:26 PM9/27/20 2:26 PM R O T E I R O D E E S T U D O S 1 A partir dos anos 1970, o chamado Estado de bem- -estar social foi sendo desmontado pela política neoliberal, que prega menor interferência do Es- tado em assuntos econômicos e menos restrições para os mercados, inclusive o de trabalho. O eco- nomista britânico Guy Standing (1948-) é responsá- vel por cunhar o termo “precariado”, que se refere à nova classe de trabalhadores criada pelos des- dobramentos das políticas econômicas neoliberais pelo mundo. Leia, a seguir, um trecho de uma en- trevista concedida por ele ao Estadão. [...] O conceito de precariado se refere a uma classe emergente, de�nida por uma combina- ção distinta de relações. Isto é, como um gru- po societário, diferente do proletariado, que se de�ne por relações distintas na produção, distribuição e com o Estado. Estas pessoas do precariado estão sendo forçadas a aceitar uma vida de empregos instáveis, sem uma identida- de ocupacional, tendo que fazer muitos servi- ços que, na verdade, não são trabalho. Neles, os trabalhadores estão sendo explorados fora de um emprego, fora de um espaço físico e horá- rios regulares de trabalho, assim como dentro deles. Eles não têm férias remuneradas, ou a perspectiva de aposentadoria. E por serem os salários baixos e voláteis, ou até mesmo impre- visíveis, eles normalmente estão com dívidas e com medo de perder suas rendas subitamente. Por último, o precariado está no processo de perda de todas as formas de direitos, sejam eles civis, culturais, sociais, econômicos e polí- ticos. A perda de direitos políticos vem do sim- ples fato de que o precariado não vê partidos ou líderes políticos os representando. [...] PUPO, Amanda; POMPEU, Lauriberto. Principal inimigo do precariado é o Estado, diz economista britânico. Estad‹o. Disponível em: https:// infogra�cos.estadao.com.br/focas/planeje-sua-vida/ principal-inimigo-do-precariado-e-o-estado-diz- economista-britanico. Acesso em: 23 jul. 2020. Agora, responda às questões e faça o que se pede a seguir. a) Cite algumas das consequências da organiza- ção dos trabalhadores em diversos países nos séculos XIX e XX. b) Há semelhanças entre as demandas dos tra- balhadores nas primeiras décadas do século XX e as condições enfrentadas pelo precaria- do? Quais são elas? c) Você conhece alguém, de qualquer categoria profissional, que faça parte do precariado? Por que, na sua opinião, essas pessoas fazem parte dessa nova classe de trabalhadores? d) Em duplas, pesquisem as seguintes catego- rias de trabalhadores: entregadores e moto- ristas de aplicativo, jornalistas e programa- dores. Procure saber quais são as condições de trabalho de cada uma delas pelo mundo e responda às seguintes perguntas: ■ Que demandas esses trabalhadores po- dem ter? ■ Quais são os principais problemas que eles enfrentam? ■ Eles têm acesso a direitos trabalhistas, de maneira geral? Brasil: interpretação de um fato 2 De acordo com Sheldon Leslie Maram, em sua obra Anarquistas, imigrantes e o movimento ope- rário brasileiro, durante a Primeira República (1889-1939) no Brasil, as condições de vida e trabalho dos operá- rios brasileiros não eram muito diferen- tes das da Inglaterra no século XIX. Além dos baixos salários, não havia nenhuma legislação social ou direito trabalhista. Nas in- dústrias Matarazzo, na cidade de São Paulo (SP), homens trabalhavam 18 horas por dia; mulheres, 14 horas por dia; e crianças entre 8 e 12 anos, 12 horas por dia. Havia ainda os turnos noturnos, que começavam às 17 horas e terminavam às 6 horas da manhã do dia seguinte. As crianças eram as que mais sofriam com os rigo- res da alta jornada de trabalho. Relatos da época as descrevem como “esqueletos”, com “olhos melan- cólicos”, destinadas a morrer de tuberculose. Elas também sofriam com os castigos físicos nas fábricas. Leia, a seguir, o relato de Jacob Penteado, que, quando era criança, em 1910, foi operário em uma fábrica de vidro no bairro de Belenzinho, em São Paulo (SP). Minha família, de parcos recursos, não pode- ria manter-me em estabelecimentos de ensino secundário. [...] E assim, fui continuar meus estudos na ‘Fabriquinha’. [...] Trabalhava-se, pois, nove horas por dia, inclusive aos sábados. E, quando havia muitas encomendas, também MARAM, Sheldon Leslie. Anarquistas, imigrantes e o movimento operário brasileiro – 1890-1920. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. cap. VI. 62 V4_CIE_HUM_Vainfas_g21Sa_Cap2_040a063_LA.indd 62V4_CIE_HUM_Vainfas_g21Sa_Cap2_040a063_LA.indd 62 9/27/20 2:26 PM9/27/20 2:26 PM