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7 • • • • • Novo Comportamento com Modelagem Objetivos do aprendizado Definir modelagem Discutir como a modelagem envolve sucessivas aplicações dos princípios de reforço e extinção Identificar as dimensões do comportamento ao longo das quais a modelagem pode ocorrer Descrever os fatores que influenciam a efetividade da modelagem como técnica de modificação de comportamento Explicar como a modelagem pode ser desvantajosa àqueles que a desconhecem. Frank, você correu hoje? Aprimorando os exercícios de Frank* Depois de se aposentar precocemente aos 55 anos de idade, Frank decidiu fazer algumas mudanças em sua vida. Contudo, ele não sabia ao certo por onde começar. Consciente de sua necessidade de mudar alguns hábitos, inscreveu-se 1. 2. 3. em um curso de modificação de comportamento oferecido por uma faculdade comunitária local. Então, seguindo o conselho de seu médico, resolveu iniciar um programa de exercícios regulares. Frank foi um preguiçoso durante toda a vida adulta: voltava do trabalho para casa, pegava uma lata de cerveja e sentava na frente da televisão. Frank iniciou seu programa de exercícios prometendo à esposa que correria 400 metros por dia, mas, após algumas tentativas, acabou retomando a rotina do sofá. Ele achou que teria resultados muito bons muito rapidamente. Então, decidiu tentar um procedimento chamado modelagem, que havia estudado no curso de modificação de comportamento. Os três estágios a seguir resumem esse procedimento: Especificar o comportamento-alvo. A meta de Frank era correr 400 metros por dia. Entretanto, por ser sedentário há muito tempo, a meta estava além de sua capacidade. Identificar uma resposta que pudesse ser usada como ponto de partida no trabalho rumo ao comportamento-alvo. Frank decidiu que calçaria os tênis e daria uma volta (quase 30 metros) ao redor de sua casa. Embora faltasse muito para os 400 metros, era um começo. Reforçar o comportamento inicial; em seguida, reforçar estimativas cada vez mais próximas até, eventualmente, atingir o comportamento-alvo. Frank decidiu usar a oportunidade de tomar cerveja como reforçador. Explicou seu programa para a esposa e pediu-lhe para lembrá-lo de que ele tinha que terminar o exercício para poder beber. Após ter caminhado 30 metros várias tardes sucessivas, Frank aumentou sua meta para 2 voltas (quase 60 metros). Após alguns dias, aumentou a distância para 4 voltas (cerca de 110 metros), depois para 6 voltas (quase 170 metros) e, posteriormente, para trechos cada vez maiores, até atingir uma distância aproximada de 400 metros e, então, percorrê-la correndo. Ao reforçar suas estimativas até sua meta, Frank alcançou o objetivo de correr 400 metros regularmente. MODELAGEM Nos Capítulos 4 e 5, descrevemos como o reforço positivo poderia ser usado para aumentar a frequência de um comportamento, desde que esse comportamento ocorresse ocasionalmente. E o que fazer se um comportamento desejado jamais viesse a ocorrer? Neste caso, é impossível aumentar sua frequência apenas esperando que ocorra para, então, reforçá-lo. Entretanto, um procedimento chamado modelagem pode ser usado para estabelecer um comportamento que o indivíduo nunca manifesta. O analista comportamental começa reforçando uma resposta que ocorre com uma frequência maior que zero e que, ao menos remotamente, assemelha-se ao comportamento-alvo. Frank, por exemplo, foi reforçado primeiramente por uma única caminhada em torno de sua casa, porque esse comportamento se deu ocasionalmente e era remotamente próximo a um hábito que ele não tinha. Quando a resposta inicial ocorre com alta frequência, os analistas comportamentais param de reforçá-lo e começam a reforçar uma aproximação discretamente mais estreita do comportamento-alvo. Nesse sentido, o comportamento-alvo é eventualmente estabelecido reforçando sucessivas aproximações. A modelagem, portanto, pode ser definida como o desenvolvimento de um novo comportamento operante pelo reforço de sucessivas aproximações deste comportamento e pela extinção das aproximações anteriores, até que o novo comportamento ocorra. A modelagem é referida às vezes como método de aproximações sucessivas. Os comportamentos que um indivíduo adquire ao longo da vida se desenvolvem a partir de diversas fontes e influências. Às vezes, um comportamento novo se desenvolve quando um indivíduo manifesta algum comportamento inicial e o ambiente, então, reforça discretas variações nesse comportamento. Depois de um longo período, esse comportamento inicial pode ser modelado, para que a forma final seja diferente. Por exemplo, a maioria dos pais usa a modelagem para ensinar os filhos a falar. Um bebê que está começando a balbuciar emite alguns sons que remotamente se aproximam de palavras na linguagem dos pais. Quando isso acontece, os pais geralmente reforçam o comportamento com abraços, beijos e sorrisos. Os sons “mmm” e “paa” recebem doses excepcionalmente grandes de reforço de pais que falam português. Em algum momento, a criança diz “ma-ma” e “pa-pa”, o que é fortemente reforçado; e os “mmm” e “paa” anteriores são extintos. O mesmo ocorre quando a criança passa a dizer “mamãe” e “papai”, extinguindo “ma- ma” e “pa-pa”. Primeiro, a criança passa por um estágio em que são reforçadas as aproximações muito remotas de palavras do idioma dos pais. Então, a criança é reforçada a entrar no estágio “fala de bebê”. Por fim, os pais e outras pessoas pedem para a criança pronunciar palavras de acordo com certos requisitos verbais. Por exemplo, uma criança que diz “a-a” em um estágio inicial, recebe um copo de água. Se essa criança estiver com sede, esta ação reforçará a resposta. Em um estágio posterior, somente ao falar “aga”, em vez de “a-a” é que se oferece água. Por fim, a criança deve dizer “água” corretamente para receber o reforço. Esse exemplo certamente superssimplifica a forma como uma criança aprende a falar. Mesmo assim, serve para ilustrar a importância da modelagem no processo pelo qual as crianças avançam do balbuciar à fala de bebê e à conversação mais bem desenvolvida. Outros processos que exercem papéis importantes no desenvolvimento da fala são discutidos em outros capítulos do livro. Existem cinco aspectos ou dimensões do comportamento que podem ser modelados: topografia, frequência, duração, latência e intensidade (ou força). A topografia é a configuração espacial ou a forma de uma resposta em particular (i. e., os movimentos específicos envolvidos). Desenhar uma palavra e escrevê- la são exemplos de uma mesma resposta produzida com duas topografias distintas. A modelagem da topografia ocorre, por exemplo, ao ensinar uma criança a mudar de uma resposta imagética para uma escrita, a dizer “mamãe” em vez de “ma-ma”, a aprender a patinar no gelo com passos cada vez mais longos, e a aprender os movimentos apropriados para se alimentar usando hashi (os “pauzinhos” que servem de talheres na cultura asiática). Stokes et al. (2010) usaram a topografia para melhorar as investidas de dois jogadores de futebol americano universitários. Em primeiro lugar, o técnico identificou os componentes de uma investida eficaz (cabeça para cima, abraçar as coxas do jogador que está com a bola etc.). Em seguida, em um exercício, um jogador tentou tomar a bola de outro, o qual tentava enganar ou correr ao redor do primeiro. Foram feitas 10 tentativas de investida. No decorrer dos treinos, se houvesse melhora na topografia da tomada de bola, o técnico reforçava o jogador com um adesivo colorido de capacete. A investida de ambos os jogadores melhorou no decorrer dos treinos e, consequentemente, nos jogos. Algumas vezes, nos referimos à frequência ou à duração de um determinado comportamento como sendo a quantidade desse comportamento. A frequência de um comportamento é o número de vezes que ele ocorre em um determinado período de tempo. São exemplos de modelagem de frequência o crescente número de passos (distância) que Frank alcançou em seu programa de exercícios e o número cada vez maior de repetições de uma tacadapraticada por um jogador de golfe. A frequência de uma resposta também pode ser diminuída por modelagem, como no programa de modificação de comportamento em que uma paciente com esclerose múltipla aprendeu a aumentar gradativamente o tempo entre as idas ao banheiro, diminuindo sua frequência (O’Neill e Gardner, 1983). A duração de uma resposta é a extensão do tempo que ela persiste. São exemplos de modelagem de duração o prolongamento do tempo de estudo antes de se fazer um intervalo e o ajuste gradual do tempo que uma massa de panqueca precisa ser batida até alcançar a consistência certa. A modelagem da duração foi usada por Athens et al. (2007) para aprimorar o comportamento acadêmico de estudantes com falta de habilidades no aprendizado. Latência é o tempo entre a ocorrência de um estímulo e a resposta evocada por ele. Um termo comum para latência é tempo de reação. Em um programa de TV norte-americano, o tempo entre o estímulo verbal do apresentador até o participante apertar o botão é a latência desse participante para responder ao estímulo. Em uma corrida, o tempo entre o disparo de largada e a partida do corredor é a resposta de latência deste ao som da pistola. A modelagem da latência poderia permitir que o corredor reagisse mais rápido ou o participante do programa de TV demorasse menos para apertar o botão. A intensidade ou força de uma resposta se refere ao efeito físico que a resposta produz sobre o ambiente. Por exemplo, considere um jovem fazendeiro cujo trabalho é bombear água de um poço usando uma bomba manual antiga. Quando o equipamento foi instalado, tinha sido recém-lubrificado e se movia facilmente para cima e para baixo quando o jovem aplicava certa quantidade de força à manivela, de modo que a água fluía. Suponha, contudo, que a falta de lubrificação regular fez a bomba enferrujar aos poucos. Todo dia, o jovem aplica aproximadamente a mesma força do primeiro dia de uso. Quando a força diminui em decorrência da ferrugem na manivela, o jovem provavelmente aplicará um pouco mais de força e pensará que isso resolverá o problema. No decorrer de vários meses, o comportamento dele vai sendo gradativamente modelado, e ele passa a pressionar com bastante força já na primeira tentativa ‐ um comportamento terminal muito diferente do inicial. Outros exemplos de modelagem da intensidade incluem aprender a dar apertos de mão mais firmes e aplicar a quantidade certa de força ao esfregar a pele para aliviar uma coceira sem se machucar. Um exemplo de modelagem da intensidade em um programa de modificação de comportamento envolveu ensinar uma jovem socialmente isolada, cuja fala era quase inaudível, a falar cada vez mais alto, até que estivesse falando com um tom de voz normal (Jackson e Wallace, 1974). A Tabela 7.1 apresenta um resumo das dimensões do comportamento. Tabela 7.1 Dimensões do comportamento que podem ser modeladas. Dimensão Definição Exemplo Topografia Movimento físico envolvido no comportamento Extensão que se segue a um serviço em uma partida de tênis Quantidade: frequência Número de ocorrências do comportamento em determinado período de tempo Número de pratos lavados em 5 minutos Quantidade: Quantidade contínua de tempo em que o Duração do tempo de 1. 2. 3. 4. 5. duração comportamento persiste bombear água Latência Tempo decorrido entre o estímulo controlador e o comportamento Tempo entre a pergunta “Que horas são?” e a reação de olhar no relógio Intensidade (força) Quantidade de energia gasta com o comportamento A força de um soco no pugilismo A modelagem é tão comum no dia a dia que as pessoas raramente têm consciência dela. O procedimento de modelagem às vezes é aplicado de maneira sistemática, como no caso de Frank, e por vezes de modo não sistemático, como quando os pais modelam a pronúncia correta dos filhos. Em outros casos, ainda, a modelagem se dá a partir de consequências no ambiente natural, como no caso de uma cozinheira que aprimora gradualmente o método de virar panquecas. Questões para aprendizagem Identifique os três estágios básicos em qualquer procedimento de modelagem, conforme apresentado no início deste capítulo, e descreva-os com um exemplo (pode ser o caso de Frank ou um exemplo criado por você). Defina modelagem. Qual é a outra denominação para modelagem? Explique como a modelagem envolve sucessivas aplicações dos princípios de reforço positivo e extinção operante. Por que se preocupar com a modelagem? Por que não apenas aprender a 6. 7. 8. usar o reforço positivo direto para intensificar um comportamento? Em termos dos três estágios de um procedimento de modelagem, descreva como os pais poderiam modelar seus filhos para que dissessem uma palavra em particular. Liste cinco dimensões de comportamento que podem ser modeladas. Dê dois exemplos de cada. Descreva um comportamento seu que tenha sido modelado por consequências do ambiente natural e estabeleça várias das aproximações iniciais. FATORES QUE INFLUENCIAM A EFETIVIDADE DA MODELAGEM Especificação do comportamento-alvo O primeiro estágio da modelagem consiste em identificar com clareza o comportamento-alvo.1 No caso de Frank, o comportamento-alvo era correr 400 metros por dia. Com uma definição tão específica como esta, havia pouca possibilidade de que Frank ou sua esposa desenvolvessem expectativas diferentes com relação ao desempenho dele. Se diferentes pessoas trabalhando com um indivíduo têm expectativas distintas, ou se uma pessoa não mantém seu rendimento de uma sessão de treino ou de uma determinada situação para a próxima, então é provável que o progresso será tardio. Estabelecer com precisão o comportamento-alvo aumenta as chances de reforço consistente de sucessivas aproximações desse comportamento. O comportamento-alvo deve ser estabelecido de tal modo que todas as características relevantes do comportamento (topografia, duração, frequência, latência e intensidade) sejam identificadas. Além disso, as condições sob as quais o comportamento se manifesta ou não devem ser determinadas, e quaisquer outras diretrizes que pareçam ser necessárias para fins de consistência deverão ser fornecidas. Escolha do comportamento inicial Como o comportamento-alvo não se manifesta de início, e devido à necessidade de reforçar algum comportamento que se aproxime dele, é preciso identificar um comportamento inicial, que deve ocorrer com frequência suficiente para ser reforçado dentro do tempo da sessão, além de se aproximar do comportamento- alvo. Por exemplo, dar uma volta ao redor de sua casa foi algo que Frank fez periodicamente. Essa foi a aproximação mais estreita à meta de correr 400 metros por dia. Em um programa de modelagem, é fundamental saber não só para onde se está indo (o comportamento-alvo) como também o comportamento inicial do indivíduo. O propósito do programa de modelagem é conseguir sair de um e alcançar o outro por meio do reforço de sucessivas aproximações, do comportamento inicial até o comportamento-alvo, ainda que sejam distintos. Em um estudo clássico, Isaacs et al. (1960) aplicaram a modelagem para redesenvolver o comportamento verbal em um homem com esquizofrenia catatônica, mudo havia 19 anos. Usando goma de mascar como reforçador, o pesquisador conduziu seu paciente ao longo das etapas da modelagem do movimento ocular na direção do chiclete, movimento facial, movimentos da boca, movimentos labiais, vocalizações, pronúncia e, enfim, fala compreensível. Escolha das etapas da modelagem Antes de iniciar o programa de modelagem, é útil destacar as sucessivas aproximações por meio das quais a pessoa irá se mover tentando alcançar o comportamento-alvo. Por exemplo, o comportamento-alvo em um programa de modelagem para que uma criança diga papai. Determinou-se que o comportamento inicial era a criança dizer “paa”. A partir de então, seguiu-se as etapas: dizer “pa-pa”, “pai”, “pa-ee”e “papai”. Para começar, o reforço somente é dado em algumas ocasiões, com a ocorrência do comportamento inicial (“paa”). Quando esse comportamento ocorrerepetidamente, o instrutor segue para a etapa 2 (“pa-pa”) e reforça essa aproximação várias vezes. Esse procedimento em etapas continua até a criança finalmente dizer “papai”. Quantas aproximações sucessivas devem acontecer? Em outras palavras, 1. 2. 3. qual é a extensão de uma etapa razoável?2 Infelizmente, não há diretrizes específicas para identificar o tamanho ideal de uma etapa. Na tentativa de especificar as etapas desde um comportamento inicial até o comportamento- alvo, analistas comportamentais podem imaginar quais etapas seguiriam. Do mesmo modo, às vezes é útil observar outras pessoas que já conseguem realizar o comportamento-alvo e lhes pedir para executar uma aproximação inicial e algumas aproximações subsequentes. Independentemente das diretrizes ou suposições usadas, é importante tentar aderir a elas, ainda que flexíveis, caso o indivíduo não prossiga suficientemente rápido ou esteja aprendendo mais rápido do que o esperado. Algumas diretrizes para a movimentação ao longo do programa comportamental são descritas na seção a seguir. Ritmo do movimento ao longo das etapas da modelagem Quantas vezes cada aproximação deve ser reforçada antes de seguir para a próxima? Mais uma vez, não há diretrizes específicas para responder a essa pergunta. Entretanto, existem várias regras para reforçar aproximações sucessivas de uma resposta-alvo: Reforçar uma aproximação várias vezes antes de prosseguir para a etapa subsequente. Ou seja, evitar o sub-reforço de uma etapa de modelagem. Está bem estabelecido que tentar ir para uma nova etapa antes da aproximação prévia pode resultar na sua perda, tampouco conseguindo alcançar a nova aproximação. Evitar reforçar excessivas vezes, em qualquer etapa da modelagem. O item 1 alerta contra ir rápido demais. Também é importante não progredir muito devagar. Se uma aproximação for reforçada por um tempo longo demais, a ponto de se tornar extremamente forte, novas aproximações tenderão a aparecer menos. Se um comportamento for perdido porque você está se movendo rápido demais ou a etapa for grande demais, retorne à aproximação anterior em que você consiga captar o comportamento novamente. Você também pode 9. 10. 11. 12. 13. precisar inserir uma ou duas etapas adicionais. Essas diretrizes podem parecer confusas. Por um lado, é recomendável não passar rápido demais de uma aproximação a outra e, por outro, é aconselhável não seguir devagar demais. Se pudéssemos acompanhar essas diretrizes usando uma fórmula matemática para calcular o tamanho exato das etapas em cada situação, bem como o número exato de reforços a serem fornecidos em cada etapa, as diretrizes seriam bem mais objetivas. Infelizmente, os experimentos necessários para o fornecimento dessa informação ainda não foram realizados. O analista comportamental deve observar atentamente o comportamento e estar preparado para introduzir alterações no procedimento ‐ modificar a extensão das etapas, desacelerar, acelerar ou voltar etapas ‐ sempre que o comportamento não parecer estar se desenvolvendo adequadamente. A modelagem requer uma boa dose de prática e habilidade para ser executada com o máximo de efetividade. Questões para aprendizagem O que significa o termo comportamento-alvo em um programa de modelagem? Dê um exemplo. Qual é o significado do termo comportamento inicial em um programa de modelagem? Dê um exemplo. Como você sabe que alcançou um número suficiente de aproximações sucessivas ou que as etapas de modelagem têm o tamanho certo? Por que é necessário evitar o sub-reforço em qualquer etapa de modelagem? Por que é necessário evitar fornecer reforço com uma frequência exagerada em qualquer etapa da modelagem? ARMADILHAS DE MODELAGEM Aplicação errada acidental Assim como para outros procedimentos e processos naturais, a modelagem opera independentemente de termos ou não consciência dela. Infelizmente, aqueles que não conhecem a modelagem podem aplicá-la acidentalmente e desenvolver comportamentos indesejáveis com amigos, conhecidos, familiares e outros.3 Considere outro exemplo desse tipo de armadilha. Suponha que uma criança pequena recebe pouquíssima atenção dos familiares ao realizar um comportamento apropriado. Talvez, algum dia, essa criança sofra uma queda acidental e bata a cabeça de leve. Mesmo que a criança não se machuque seriamente, o pai ou a mãe podem vir correndo e fazer um grande alvoroço em torno do acidente. Por causa desse reforço ‐ e porque em qualquer outra coisa que a criança faça ela raramente chama a atenção ‐, ela tenderá a bater a cabeça de leve no chão novamente. Durante as primeiras vezes em que isso ocorrer, o pai ou a mãe poderão continuar reforçando a resposta. No fim, porém, vendo que a criança não está de fato se machucando, eles poderão parar de reforçá-la. Como agora o comportamento foi submetido à extinção operante, sua intensidade poderá aumentar (ver Capítulo 6). Ou seja, a criança poderá começar a bater a cabeça com mais força, e o baque discretamente mais alto fará seus pais virem correndo novamente. Se esse processo continuar, chegará ao ponto de a criança bater a cabeça com força suficiente para se machucar seriamente. É extremamente difícil, se não impossível, usar a extinção operante para eliminar esse tipo de comportamento violentamente autodestrutivo. Teria sido melhor jamais ter deixado tal comportamento se desenvolver. Muitos comportamentos indesejáveis comumente observados em crianças com necessidades especiais ‐ por exemplo, birras violentas, agitação constante, agressividade contra outras crianças, vômito voluntário ‐ são produtos frequentes da aplicação inadvertida da modelagem. Talvez esses comportamentos possam ser eliminados por uma combinação de extinção operante do comportamento indesejado e reforço positivo do comportamento desejado. Infelizmente, esta costuma ser uma tarefa difícil, porque: o comportamento às vezes é tão danoso que sua ocorrência não pode ser permitida sequer uma única vez durante o período que a extinção é aplicada; e os adultos que ignoram os princípios comportamentais por vezes frustram, sem saber, os esforços daqueles que tentam conscientemente aplicar esses princípios. No Capítulo 23, aborda-se como diagnosticar e tratar comportamentos problemáticos que podem ter se desenvolvido de modo acidental ao longo da modelagem. Assim como na Medicina, todavia, a melhor cura é a prevenção. O ideal seria que todas as pessoas responsáveis pelo cuidado de outros indivíduos fossem tão versadas nos princípios comportamentais que não haveria necessidade de se modelar o comportamento indesejado. Falha de aplicação Outro tipo de armadilha é a falha em aplicar a modelagem para o desenvolvimento de um comportamento desejável. Alguns pais, por exemplo, podem não ser suficientemente respondentes aos primeiros balbucios dos filhos. Talvez, mantenham uma expectativa alta demais no começo e não reforcem nenhum tipo de aproximação à fala normal. Por exemplo, alguns pais parecem esperar que seu filho, ainda bebê, diga “Papai!” logo de cara, e não se impressionam quando a criança diz “pa-pa”. Há também o problema oposto. Em vez de não darem reforço suficiente para o balbucio da criança, alguns pais o super-reforçam. Isso pode resultar em uma criança cuja fala não se desenvolve (“fala de bebê”). Explicação incorreta do comportamento Se uma criança de determinada idade não aprendeu a falar ainda, algumas pessoas podem tentar explicar esse déficit rotulando-a como intelectualmente incapacitada ou autista. É possível que haja indivíduos com falta de habilidades intelectuais ou autismo cuja condição não seja causada por distúrbio genético ou físico, mas simplesmente por jamais terem sido expostas a procedimentos de modelagem efetivos. Muitas variáveis podem impedir uma criança fisicamente normal de receber a modelagem necessária para estabelecer comportamentos 1. a) b) 2. 3. a) normais. Em Drash e Tudor (1993) há uma excelente discussão sobre como os atrasos na aquisição das habilidades de linguagemem crianças pré-escolares sem distúrbios físicos ou genéticos podem ser responsáveis pelo comportamento tardio. DIRETRIZES PARA A APLICAÇÃO EFETIVA DA MODELAGEM Selecionar o comportamento-alvo: Escolha um comportamento específico (como trabalhar silenciosamente por 10 minutos), em vez de uma categoria geral (p. ex., “bom” comportamento em sala de aula). A modelagem é apropriada para modificar quantidade, latência e intensidade do comportamento, bem como para desenvolver um novo comportamento de uma topografia (forma) diferente. Se o comportamento-alvo é uma sequência complexa de atividades (como arrumar a cama) que pode ser desmembrada em etapas, e se o programa equivale a unir essas etapas em uma determinada ordem, então não se trata de um programa de modelagem. Em vez disso, o comportamento-alvo precisa ser desenvolvido por encadeamento (ver Capítulo 11). Se possível, selecione um comportamento que, depois de modelado, venha a ser controlado por reforçadores naturais. Selecionar um reforçador apropriado (ver Tabela 4.2, no Capítulo 4). Plano inicial: Elabore uma lista de aproximações sucessivas do comportamento-alvo, começando com o comportamento inicial. Para definir o comportamento inicial, encontre um comportamento do repertório do aprendiz que lembre mais estreitamente o comportamento-alvo e que ocorra ao menos uma vez durante um período de observação. b) 4. a) b) c) d) e) f) ■ ■ ■ Etapas iniciais ou aproximações sucessivas geralmente são “suposições educadas”. Durante o programa, você poderá modificá-las conforme o desempenho do aprendiz. Implementação do plano: Antes de começar, fale sobre o plano com o aprendiz. Comece o reforço imediatamente após cada ocorrência do comportamento inicial. Jamais passe para uma nova aproximação sem o aprendiz ter dominado a aproximação anterior. Se tiver dúvida sobre quando mover o aprendiz para uma nova aproximação, use a seguinte regra: passe à próxima etapa quando ele tiver realizado corretamente a etapa atual em 6 de um total de 10 tentativas, geralmente com 1 ou 2 tentativas menos perfeitas do que o desejado, e 1 ou 2 tentativas em que o comportamento foi superior à etapa vigente. Não dê reforços demais em nenhuma etapa e evite sub-reforçar qualquer etapa. Se o aprendiz parar de avançar, é possível que você tenha passado pelas etapas rápido demais, o tamanho das etapas pode não ser apropriado ou o reforçador é ineficaz: Primeiro, cheque a eficácia do seu reforçador Se o aprendiz ficar desatento ou exibir sinais de enfado, é possível que as etapas sejam pequenas demais A desatenção ou o enfado também podem significar que você tem avançado rápido demais. Se for esse o caso, retorne à etapa anterior por mais algumas tentativas e, então, tente novamente a etapa atual ■ 14. 15. 16. 17. 18. Se o aprendiz continuar tendo dificuldade, apesar do retreinamento nas etapas anteriores, adicione mais etapas no ponto de dificuldade. Questões para aprendizagem Dê um exemplo de armadilha de aplicação errada acidental no desenvolvimento de um comportamento indesejado. Descreva algumas etapas de modelagem no seu exemplo. Dê um exemplo de armadilha em que a falha em aplicar a modelagem poderia causar um resultado indesejado. Com base em sua própria experiência, dê um exemplo de um comportamento-alvo que seria desenvolvido por meio de um procedimento que não fosse a modelagem (ver Diretriz 1a). Estabeleça uma regra para decidir quando mover o aprendiz para uma nova aproximação. Por que nos referimos ao reforço positivo e à extinção operante como princípios, e à modelagem como procedimento? (Dica: ver Capítulo 1.) Exercícios Exercício envolvendo outros Imagine uma criança normal, entre 2 e 7 anos, com quem você tenha contato (p. ex., irmã, irmão ou vizinho). Especifique um comportamento-alvo verdadeiro dessa criança que você poderia tentar desenvolver usando um procedimento de modelagem. Identifique o ponto de partida que você definiria, bem como o reforçador e as aproximações sucessivas que você percorreria. Exercícios de automodificação 1. 2. 1. 2. Observe atentamente muitas de suas próprias habilidades – por exemplo, sacializar, namorar e estudar. Identifique duas habilidades específicas que provavelmente foram modeladas por outros, consciente ou inconscientemente. Identifique dois comportamentos específicos que provavelmente foram modelados pelo ambiente. Para cada exemplo, identifique o reforçador e pelo menos três aproximações que você provavelmente tenha realizado durante o processo de modelagem. Selecione um de seus déficits comportamentais, talvez um dos que você listou ao final do Capítulo 2. Destaque um programa completo de modelagem que, com pouca ajuda da parte de seus amigos, você poderia usar para superar esse déficit. Garanta que seu plano siga as diretrizes para uma aplicação eficaz da modelagem, discutidas neste capítulo. Notas para aprendizagem A modelagem parece ser útil na modificação não só do comportamento externo como também do interno. R. W. Scott et al. (1973), por exemplo, demonstraram que a modelagem poderia ser usada para modificar a frequência cardíaca (FC). Nesse estudo, o dispositivo de monitoramento da FC foi ligado ao componente de vídeo de um aparelho de TV que o indivíduo assistia. Embora o áudio da TV permanecesse ligado ininterruptamente, o vídeo somente aparecia quando a FC do indivíduo se alterava em alguns batimentos por minuto, em relação ao nível anterior. Quando a FC permanecia em um nível novo durante três sessões consecutivas, o componente de vídeo era usado para reforçar uma alteração adicional na FC. Em um caso envolvendo um paciente psiquiátrico que sofria de ansiedade crônica e tinha uma FC relativamente alta, os pesquisadores modelaram várias quedas na FC do paciente. É interessante notar que, quando a FC do indivíduo havia caído a um nível inferior, a enfermaria relatou que “ele parecia menos ‘tenso’ e ‘ansioso’”, e que “tinha feito menos pedidos de medicação”. Com que velocidade você deve passar de uma etapa a outra? Qual deveria 3. ser a extensão de uma etapa? Um motivo pelo qual não há respostas específicas para essas questões é a dificuldade em medir tamanhos de etapas específicos e reforçar de modo consistente as respostas satisfatórias. O julgamento humano simplesmente não é rápido o bastante nem preciso o suficiente para garantir que qualquer procedimento de modelagem seja aplicado de modo consistente, para permitir comparações entre esse procedimento e outros procedimentos de modelagem consistentemente aplicados. Isso é particularmente válido quando a topografia é o aspecto do comportamento que está sendo modelado. Computadores, porém, são mais parecidos e mais rápidos, podendo, portanto, ser úteis para responder questões fundamentais sobre quais procedimentos de modelagem são mais efetivos (Midgley et al., 1989; Pear e Legris, 1987). Pear e. Legris, usando duas filmadoras conectadas a um microcomputador programado para detectar a posição da cabeça de um pombo em um abiente de testes, demonstraram que um computador pode modelar onde o pombo movimenta a cabeça Além de fornecer uma metodologia para estudar a modelagem, esses estudos sugerem que os computadores podem modelar alguns tipos de comportamento de maneira tão eficaz quanto os seres humanos. Assim, um dispositivo que molda movimentos, por exemplo, pode ajudar uma pessoa a recuperar o uso de um membro paralisado por um acidente vascular encefálico ou um acidente (p. ex., ver Taub et al., 1994). Em relação ao ser humano, o dispositivo seria mais vantajoso por sua precisão, pela habilidade de fornecer feedback de modo extremamente rápido e sistemático e pela “paciência” (i. e., os computadores não julgam nem se cansam). Rasey e Iversen (1993) forneceram uma boa demonstração em laboratório de um efeito potencial inadaptável da modelagem. Eles deram reforço aos ratos, fornecendo comida quando os animais estendiam o focinho sobre a borda da plataforma onde foram colocados. Ao longo das tentativas,era necessário que os ratos estendessem o focinho cada vez mais adiante sobre a borda da plataforma, para então receberem o 1. 2. 3. 4. reforço. No fim, os ratos estenderam o focinho tão à frente da borda que acabaram caindo da plataforma. Uma rede colocada sob a plataforma impediu que eles se machucassem. Esse experimento, todavia, mostrou que os animais, e provavelmente os seres humanos também, podem ser modelados para se engajarem até mesmo em um comportamento perigoso. Questões adicionais Descreva como Scott et al. usaram a modelagem para diminuir a frequência cardíaca de um homem que sofria de ansiedade crônica. Descreva como a tecnologia computacional poderia ser usada para modelar os movimentos de um membro de um indivíduo paralisado. Descreva como a tecnologia computacional poderia ser usada para estudar a modelagem de um modo mais preciso do que os procedimentos atuais não informatizados. Descreva um experimento demonstrando que o comportamento inadaptável pode ser modelado. Parte 2 Princípios e Procedimentos Comportamentais Básicos 7 Novo Comportamento com Modelagem