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Novo Comportamento com
Modelagem
 Objetivos do aprendizado
Definir modelagem
Discutir como a modelagem envolve sucessivas aplicações dos princípios
de reforço e extinção
Identificar as dimensões do comportamento ao longo das quais a
modelagem pode ocorrer
Descrever os fatores que influenciam a efetividade da modelagem como
técnica de modificação de comportamento
Explicar como a modelagem pode ser desvantajosa àqueles que a
desconhecem.
Frank, você correu hoje?
Aprimorando os exercícios de Frank*
Depois de se aposentar precocemente aos 55 anos de idade, Frank decidiu fazer
algumas mudanças em sua vida. Contudo, ele não sabia ao certo por onde
começar. Consciente de sua necessidade de mudar alguns hábitos, inscreveu-se
1.
2.
3.
em um curso de modificação de comportamento oferecido por uma faculdade
comunitária local. Então, seguindo o conselho de seu médico, resolveu iniciar
um programa de exercícios regulares. Frank foi um preguiçoso durante toda a
vida adulta: voltava do trabalho para casa, pegava uma lata de cerveja e
sentava na frente da televisão. Frank iniciou seu programa de exercícios
prometendo à esposa que correria 400 metros por dia, mas, após algumas
tentativas, acabou retomando a rotina do sofá. Ele achou que teria resultados
muito bons muito rapidamente. Então, decidiu tentar um procedimento
chamado modelagem, que havia estudado no curso de modificação de
comportamento. Os três estágios a seguir resumem esse procedimento:
Especificar o comportamento-alvo. A meta de Frank era correr 400
metros por dia. Entretanto, por ser sedentário há muito tempo, a meta
estava além de sua capacidade.
Identificar uma resposta que pudesse ser usada como ponto de partida no
trabalho rumo ao comportamento-alvo. Frank decidiu que calçaria os tênis
e daria uma volta (quase 30 metros) ao redor de sua casa. Embora
faltasse muito para os 400 metros, era um começo.
Reforçar o comportamento inicial; em seguida, reforçar estimativas cada
vez mais próximas até, eventualmente, atingir o comportamento-alvo.
Frank decidiu usar a oportunidade de tomar cerveja como reforçador.
Explicou seu programa para a esposa e pediu-lhe para lembrá-lo de que
ele tinha que terminar o exercício para poder beber. Após ter caminhado
30 metros várias tardes sucessivas, Frank aumentou sua meta para 2 voltas
(quase 60 metros). Após alguns dias, aumentou a distância para 4 voltas
(cerca de 110 metros), depois para 6 voltas (quase 170 metros) e,
posteriormente, para trechos cada vez maiores, até atingir uma distância
aproximada de 400 metros e, então, percorrê-la correndo. Ao reforçar
suas estimativas até sua meta, Frank alcançou o objetivo de correr 400
metros regularmente.
MODELAGEM
Nos Capítulos 4 e 5, descrevemos como o reforço positivo poderia ser usado para
aumentar a frequência de um comportamento, desde que esse comportamento
ocorresse ocasionalmente. E o que fazer se um comportamento desejado jamais
viesse a ocorrer? Neste caso, é impossível aumentar sua frequência apenas
esperando que ocorra para, então, reforçá-lo. Entretanto, um procedimento
chamado modelagem pode ser usado para estabelecer um comportamento que o
indivíduo nunca manifesta. O analista comportamental começa reforçando uma
resposta que ocorre com uma frequência maior que zero e que, ao menos
remotamente, assemelha-se ao comportamento-alvo. Frank, por exemplo, foi
reforçado primeiramente por uma única caminhada em torno de sua casa,
porque esse comportamento se deu ocasionalmente e era remotamente próximo
a um hábito que ele não tinha. Quando a resposta inicial ocorre com alta
frequência, os analistas comportamentais param de reforçá-lo e começam a
reforçar uma aproximação discretamente mais estreita do comportamento-alvo.
Nesse sentido, o comportamento-alvo é eventualmente estabelecido reforçando
sucessivas aproximações. A modelagem, portanto, pode ser definida como o
desenvolvimento de um novo comportamento operante pelo reforço de
sucessivas aproximações deste comportamento e pela extinção das
aproximações anteriores, até que o novo comportamento ocorra. A modelagem é
referida às vezes como método de aproximações sucessivas.
Os comportamentos que um indivíduo adquire ao longo da vida se
desenvolvem a partir de diversas fontes e influências. Às vezes, um
comportamento novo se desenvolve quando um indivíduo manifesta algum
comportamento inicial e o ambiente, então, reforça discretas variações nesse
comportamento. Depois de um longo período, esse comportamento inicial pode
ser modelado, para que a forma final seja diferente. Por exemplo, a maioria dos
pais usa a modelagem para ensinar os filhos a falar. Um bebê que está
começando a balbuciar emite alguns sons que remotamente se aproximam de
palavras na linguagem dos pais. Quando isso acontece, os pais geralmente
reforçam o comportamento com abraços, beijos e sorrisos. Os sons “mmm” e
“paa” recebem doses excepcionalmente grandes de reforço de pais que falam
português. Em algum momento, a criança diz “ma-ma” e “pa-pa”, o que é
fortemente reforçado; e os “mmm” e “paa” anteriores são extintos. O mesmo
ocorre quando a criança passa a dizer “mamãe” e “papai”, extinguindo “ma-
ma” e “pa-pa”.
Primeiro, a criança passa por um estágio em que são reforçadas as
aproximações muito remotas de palavras do idioma dos pais. Então, a criança é
reforçada a entrar no estágio “fala de bebê”. Por fim, os pais e outras pessoas
pedem para a criança pronunciar palavras de acordo com certos requisitos
verbais. Por exemplo, uma criança que diz “a-a” em um estágio inicial, recebe
um copo de água. Se essa criança estiver com sede, esta ação reforçará a
resposta. Em um estágio posterior, somente ao falar “aga”, em vez de “a-a” é
que se oferece água. Por fim, a criança deve dizer “água” corretamente para
receber o reforço.
Esse exemplo certamente superssimplifica a forma como uma criança
aprende a falar. Mesmo assim, serve para ilustrar a importância da modelagem
no processo pelo qual as crianças avançam do balbuciar à fala de bebê e à
conversação mais bem desenvolvida. Outros processos que exercem papéis
importantes no desenvolvimento da fala são discutidos em outros capítulos do
livro.
Existem cinco aspectos ou dimensões do comportamento que podem ser
modelados: topografia, frequência, duração, latência e intensidade (ou força). A
topografia é a configuração espacial ou a forma de uma resposta em particular
(i. e., os movimentos específicos envolvidos). Desenhar uma palavra e escrevê-
la são exemplos de uma mesma resposta produzida com duas topografias
distintas. A modelagem da topografia ocorre, por exemplo, ao ensinar uma
criança a mudar de uma resposta imagética para uma escrita, a dizer “mamãe”
em vez de “ma-ma”, a aprender a patinar no gelo com passos cada vez mais
longos, e a aprender os movimentos apropriados para se alimentar usando hashi
(os “pauzinhos” que servem de talheres na cultura asiática). Stokes et al. (2010)
usaram a topografia para melhorar as investidas de dois jogadores de futebol
americano universitários. Em primeiro lugar, o técnico identificou os
componentes de uma investida eficaz (cabeça para cima, abraçar as coxas do
jogador que está com a bola etc.). Em seguida, em um exercício, um jogador
tentou tomar a bola de outro, o qual tentava enganar ou correr ao redor do
primeiro. Foram feitas 10 tentativas de investida. No decorrer dos treinos, se
houvesse melhora na topografia da tomada de bola, o técnico reforçava o
jogador com um adesivo colorido de capacete. A investida de ambos os
jogadores melhorou no decorrer dos treinos e, consequentemente, nos jogos.
Algumas vezes, nos referimos à frequência ou à duração de um
determinado comportamento como sendo a quantidade desse comportamento. A
frequência de um comportamento é o número de vezes que ele ocorre em um
determinado período de tempo. São exemplos de modelagem de frequência o
crescente número de passos (distância) que Frank alcançou em seu programa de
exercícios e o número cada vez maior de repetições de uma tacadapraticada por
um jogador de golfe. A frequência de uma resposta também pode ser diminuída
por modelagem, como no programa de modificação de comportamento em que
uma paciente com esclerose múltipla aprendeu a aumentar gradativamente o
tempo entre as idas ao banheiro, diminuindo sua frequência (O’Neill e Gardner,
1983). A duração de uma resposta é a extensão do tempo que ela persiste. São
exemplos de modelagem de duração o prolongamento do tempo de estudo antes
de se fazer um intervalo e o ajuste gradual do tempo que uma massa de
panqueca precisa ser batida até alcançar a consistência certa. A modelagem da
duração foi usada por Athens et al. (2007) para aprimorar o comportamento
acadêmico de estudantes com falta de habilidades no aprendizado.
Latência é o tempo entre a ocorrência de um estímulo e a resposta evocada
por ele. Um termo comum para latência é tempo de reação. Em um programa
de TV norte-americano, o tempo entre o estímulo verbal do apresentador até o
participante apertar o botão é a latência desse participante para responder ao
estímulo. Em uma corrida, o tempo entre o disparo de largada e a partida do
corredor é a resposta de latência deste ao som da pistola. A modelagem da
latência poderia permitir que o corredor reagisse mais rápido ou o participante do
programa de TV demorasse menos para apertar o botão.
A intensidade ou força de uma resposta se refere ao efeito físico que a
resposta produz sobre o ambiente. Por exemplo, considere um jovem fazendeiro
cujo trabalho é bombear água de um poço usando uma bomba manual antiga.
Quando o equipamento foi instalado, tinha sido recém-lubrificado e se movia
facilmente para cima e para baixo quando o jovem aplicava certa quantidade de
força à manivela, de modo que a água fluía. Suponha, contudo, que a falta de
lubrificação regular fez a bomba enferrujar aos poucos. Todo dia, o jovem aplica
aproximadamente a mesma força do primeiro dia de uso. Quando a força
diminui em decorrência da ferrugem na manivela, o jovem provavelmente
aplicará um pouco mais de força e pensará que isso resolverá o problema. No
decorrer de vários meses, o comportamento dele vai sendo gradativamente
modelado, e ele passa a pressionar com bastante força já na primeira tentativa ‐
um comportamento terminal muito diferente do inicial. Outros exemplos de
modelagem da intensidade incluem aprender a dar apertos de mão mais firmes e
aplicar a quantidade certa de força ao esfregar a pele para aliviar uma coceira
sem se machucar. Um exemplo de modelagem da intensidade em um programa
de modificação de comportamento envolveu ensinar uma jovem socialmente
isolada, cuja fala era quase inaudível, a falar cada vez mais alto, até que
estivesse falando com um tom de voz normal (Jackson e Wallace, 1974). A
Tabela 7.1 apresenta um resumo das dimensões do comportamento.
Tabela 7.1 Dimensões do comportamento que podem ser modeladas.
Dimensão Definição Exemplo
Topografia Movimento físico envolvido
no comportamento
Extensão que se segue a um
serviço em uma partida de
tênis
Quantidade:
frequência
Número de ocorrências do
comportamento em
determinado período de
tempo
Número de pratos lavados
em 5 minutos
Quantidade:
Quantidade contínua de
tempo em que o Duração do tempo de
1.
2.
3.
4.
5.
duração comportamento persiste bombear água
Latência
Tempo decorrido entre o
estímulo controlador e o
comportamento
Tempo entre a pergunta
“Que horas são?” e a reação
de olhar no relógio
Intensidade
(força)
Quantidade de energia gasta
com o comportamento
A força de um soco no
pugilismo
A modelagem é tão comum no dia a dia que as pessoas raramente têm
consciência dela. O procedimento de modelagem às vezes é aplicado de maneira
sistemática, como no caso de Frank, e por vezes de modo não sistemático, como
quando os pais modelam a pronúncia correta dos filhos. Em outros casos, ainda, a
modelagem se dá a partir de consequências no ambiente natural, como no caso
de uma cozinheira que aprimora gradualmente o método de virar panquecas.
 Questões para aprendizagem
Identifique os três estágios básicos em qualquer procedimento de
modelagem, conforme apresentado no início deste capítulo, e descreva-os
com um exemplo (pode ser o caso de Frank ou um exemplo criado por
você).
Defina modelagem.
Qual é a outra denominação para modelagem?
Explique como a modelagem envolve sucessivas aplicações dos princípios
de reforço positivo e extinção operante.
Por que se preocupar com a modelagem? Por que não apenas aprender a
6.
7.
8.
usar o reforço positivo direto para intensificar um comportamento?
Em termos dos três estágios de um procedimento de modelagem,
descreva como os pais poderiam modelar seus filhos para que dissessem
uma palavra em particular.
Liste cinco dimensões de comportamento que podem ser modeladas. Dê
dois exemplos de cada.
Descreva um comportamento seu que tenha sido modelado por
consequências do ambiente natural e estabeleça várias das aproximações
iniciais.
FATORES QUE INFLUENCIAM A EFETIVIDADE DA
MODELAGEM
Especificação do comportamento-alvo
O primeiro estágio da modelagem consiste em identificar com clareza o
comportamento-alvo.1 No caso de Frank, o comportamento-alvo era correr 400
metros por dia. Com uma definição tão específica como esta, havia pouca
possibilidade de que Frank ou sua esposa desenvolvessem expectativas diferentes
com relação ao desempenho dele. Se diferentes pessoas trabalhando com um
indivíduo têm expectativas distintas, ou se uma pessoa não mantém seu
rendimento de uma sessão de treino ou de uma determinada situação para a
próxima, então é provável que o progresso será tardio. Estabelecer com precisão
o comportamento-alvo aumenta as chances de reforço consistente de sucessivas
aproximações desse comportamento. O comportamento-alvo deve ser
estabelecido de tal modo que todas as características relevantes do
comportamento (topografia, duração, frequência, latência e intensidade) sejam
identificadas. Além disso, as condições sob as quais o comportamento se
manifesta ou não devem ser determinadas, e quaisquer outras diretrizes que
pareçam ser necessárias para fins de consistência deverão ser fornecidas.
Escolha do comportamento inicial
Como o comportamento-alvo não se manifesta de início, e devido à necessidade
de reforçar algum comportamento que se aproxime dele, é preciso identificar
um comportamento inicial, que deve ocorrer com frequência suficiente para ser
reforçado dentro do tempo da sessão, além de se aproximar do comportamento-
alvo. Por exemplo, dar uma volta ao redor de sua casa foi algo que Frank fez
periodicamente. Essa foi a aproximação mais estreita à meta de correr 400
metros por dia.
Em um programa de modelagem, é fundamental saber não só para onde se
está indo (o comportamento-alvo) como também o comportamento inicial do
indivíduo. O propósito do programa de modelagem é conseguir sair de um e
alcançar o outro por meio do reforço de sucessivas aproximações, do
comportamento inicial até o comportamento-alvo, ainda que sejam distintos. Em
um estudo clássico, Isaacs et al. (1960) aplicaram a modelagem para
redesenvolver o comportamento verbal em um homem com esquizofrenia
catatônica, mudo havia 19 anos. Usando goma de mascar como reforçador, o
pesquisador conduziu seu paciente ao longo das etapas da modelagem do
movimento ocular na direção do chiclete, movimento facial, movimentos da
boca, movimentos labiais, vocalizações, pronúncia e, enfim, fala compreensível.
Escolha das etapas da modelagem
Antes de iniciar o programa de modelagem, é útil destacar as sucessivas
aproximações por meio das quais a pessoa irá se mover tentando alcançar o
comportamento-alvo. Por exemplo, o comportamento-alvo em um programa de
modelagem para que uma criança diga papai. Determinou-se que o
comportamento inicial era a criança dizer “paa”. A partir de então, seguiu-se as
etapas: dizer “pa-pa”, “pai”, “pa-ee”e “papai”. Para começar, o reforço
somente é dado em algumas ocasiões, com a ocorrência do comportamento
inicial (“paa”). Quando esse comportamento ocorrerepetidamente, o instrutor
segue para a etapa 2 (“pa-pa”) e reforça essa aproximação várias vezes. Esse
procedimento em etapas continua até a criança finalmente dizer “papai”.
Quantas aproximações sucessivas devem acontecer? Em outras palavras,
1.
2.
3.
qual é a extensão de uma etapa razoável?2 Infelizmente, não há diretrizes
específicas para identificar o tamanho ideal de uma etapa. Na tentativa de
especificar as etapas desde um comportamento inicial até o comportamento-
alvo, analistas comportamentais podem imaginar quais etapas seguiriam. Do
mesmo modo, às vezes é útil observar outras pessoas que já conseguem realizar
o comportamento-alvo e lhes pedir para executar uma aproximação inicial e
algumas aproximações subsequentes. Independentemente das diretrizes ou
suposições usadas, é importante tentar aderir a elas, ainda que flexíveis, caso o
indivíduo não prossiga suficientemente rápido ou esteja aprendendo mais rápido
do que o esperado. Algumas diretrizes para a movimentação ao longo do
programa comportamental são descritas na seção a seguir.
Ritmo do movimento ao longo das etapas da modelagem
Quantas vezes cada aproximação deve ser reforçada antes de seguir para a
próxima? Mais uma vez, não há diretrizes específicas para responder a essa
pergunta. Entretanto, existem várias regras para reforçar aproximações
sucessivas de uma resposta-alvo:
Reforçar uma aproximação várias vezes antes de prosseguir para a etapa
subsequente. Ou seja, evitar o sub-reforço de uma etapa de modelagem.
Está bem estabelecido que tentar ir para uma nova etapa antes da
aproximação prévia pode resultar na sua perda, tampouco conseguindo
alcançar a nova aproximação.
Evitar reforçar excessivas vezes, em qualquer etapa da modelagem. O item
1 alerta contra ir rápido demais. Também é importante não progredir muito
devagar. Se uma aproximação for reforçada por um tempo longo demais, a
ponto de se tornar extremamente forte, novas aproximações tenderão a
aparecer menos.
Se um comportamento for perdido porque você está se movendo rápido
demais ou a etapa for grande demais, retorne à aproximação anterior em
que você consiga captar o comportamento novamente. Você também pode
9.
10.
11.
12.
13.
precisar inserir uma ou duas etapas adicionais.
Essas diretrizes podem parecer confusas. Por um lado, é recomendável não
passar rápido demais de uma aproximação a outra e, por outro, é aconselhável
não seguir devagar demais. Se pudéssemos acompanhar essas diretrizes usando
uma fórmula matemática para calcular o tamanho exato das etapas em cada
situação, bem como o número exato de reforços a serem fornecidos em cada
etapa, as diretrizes seriam bem mais objetivas. Infelizmente, os experimentos
necessários para o fornecimento dessa informação ainda não foram realizados.
O analista comportamental deve observar atentamente o comportamento e estar
preparado para introduzir alterações no procedimento ‐ modificar a extensão das
etapas, desacelerar, acelerar ou voltar etapas ‐ sempre que o comportamento
não parecer estar se desenvolvendo adequadamente. A modelagem requer uma
boa dose de prática e habilidade para ser executada com o máximo de
efetividade.
 Questões para aprendizagem
O que significa o termo comportamento-alvo em um programa de
modelagem? Dê um exemplo.
Qual é o significado do termo comportamento inicial em um programa de
modelagem? Dê um exemplo.
Como você sabe que alcançou um número suficiente de aproximações
sucessivas ou que as etapas de modelagem têm o tamanho certo?
Por que é necessário evitar o sub-reforço em qualquer etapa de
modelagem?
Por que é necessário evitar fornecer reforço com uma frequência
exagerada em qualquer etapa da modelagem?
ARMADILHAS DE MODELAGEM
Aplicação errada acidental
Assim como para outros procedimentos e processos naturais, a modelagem
opera independentemente de termos ou não consciência dela. Infelizmente,
aqueles que não conhecem a modelagem podem aplicá-la acidentalmente e
desenvolver comportamentos indesejáveis com amigos, conhecidos, familiares e
outros.3
Considere outro exemplo desse tipo de armadilha. Suponha que uma criança
pequena recebe pouquíssima atenção dos familiares ao realizar um
comportamento apropriado. Talvez, algum dia, essa criança sofra uma queda
acidental e bata a cabeça de leve. Mesmo que a criança não se machuque
seriamente, o pai ou a mãe podem vir correndo e fazer um grande alvoroço em
torno do acidente. Por causa desse reforço ‐ e porque em qualquer outra coisa
que a criança faça ela raramente chama a atenção ‐, ela tenderá a bater a
cabeça de leve no chão novamente. Durante as primeiras vezes em que isso
ocorrer, o pai ou a mãe poderão continuar reforçando a resposta. No fim, porém,
vendo que a criança não está de fato se machucando, eles poderão parar de
reforçá-la. Como agora o comportamento foi submetido à extinção operante, sua
intensidade poderá aumentar (ver Capítulo 6). Ou seja, a criança poderá
começar a bater a cabeça com mais força, e o baque discretamente mais alto
fará seus pais virem correndo novamente. Se esse processo continuar, chegará
ao ponto de a criança bater a cabeça com força suficiente para se machucar
seriamente. É extremamente difícil, se não impossível, usar a extinção operante
para eliminar esse tipo de comportamento violentamente autodestrutivo. Teria
sido melhor jamais ter deixado tal comportamento se desenvolver.
Muitos comportamentos indesejáveis comumente observados em crianças
com necessidades especiais ‐ por exemplo, birras violentas, agitação constante,
agressividade contra outras crianças, vômito voluntário ‐ são produtos frequentes
da aplicação inadvertida da modelagem. Talvez esses comportamentos possam
ser eliminados por uma combinação de extinção operante do comportamento
indesejado e reforço positivo do comportamento desejado. Infelizmente, esta
costuma ser uma tarefa difícil, porque: o comportamento às vezes é tão danoso
que sua ocorrência não pode ser permitida sequer uma única vez durante o
período que a extinção é aplicada; e os adultos que ignoram os princípios
comportamentais por vezes frustram, sem saber, os esforços daqueles que
tentam conscientemente aplicar esses princípios.
No Capítulo 23, aborda-se como diagnosticar e tratar comportamentos
problemáticos que podem ter se desenvolvido de modo acidental ao longo da
modelagem. Assim como na Medicina, todavia, a melhor cura é a prevenção. O
ideal seria que todas as pessoas responsáveis pelo cuidado de outros indivíduos
fossem tão versadas nos princípios comportamentais que não haveria
necessidade de se modelar o comportamento indesejado.
Falha de aplicação
Outro tipo de armadilha é a falha em aplicar a modelagem para o
desenvolvimento de um comportamento desejável. Alguns pais, por exemplo,
podem não ser suficientemente respondentes aos primeiros balbucios dos filhos.
Talvez, mantenham uma expectativa alta demais no começo e não reforcem
nenhum tipo de aproximação à fala normal. Por exemplo, alguns pais parecem
esperar que seu filho, ainda bebê, diga “Papai!” logo de cara, e não se
impressionam quando a criança diz “pa-pa”. Há também o problema oposto. Em
vez de não darem reforço suficiente para o balbucio da criança, alguns pais o
super-reforçam. Isso pode resultar em uma criança cuja fala não se desenvolve
(“fala de bebê”).
Explicação incorreta do comportamento
Se uma criança de determinada idade não aprendeu a falar ainda, algumas
pessoas podem tentar explicar esse déficit rotulando-a como intelectualmente
incapacitada ou autista. É possível que haja indivíduos com falta de habilidades
intelectuais ou autismo cuja condição não seja causada por distúrbio genético ou
físico, mas simplesmente por jamais terem sido expostas a procedimentos de
modelagem efetivos. Muitas variáveis podem impedir uma criança fisicamente
normal de receber a modelagem necessária para estabelecer comportamentos
1.
a)
b)
2.
3.
a)
normais. Em Drash e Tudor (1993) há uma excelente discussão sobre como os
atrasos na aquisição das habilidades de linguagemem crianças pré-escolares
sem distúrbios físicos ou genéticos podem ser responsáveis pelo comportamento
tardio.
DIRETRIZES PARA A APLICAÇÃO EFETIVA DA
MODELAGEM
Selecionar o comportamento-alvo:
Escolha um comportamento específico (como trabalhar
silenciosamente por 10 minutos), em vez de uma categoria geral (p.
ex., “bom” comportamento em sala de aula). A modelagem é
apropriada para modificar quantidade, latência e intensidade do
comportamento, bem como para desenvolver um novo comportamento
de uma topografia (forma) diferente. Se o comportamento-alvo é uma
sequência complexa de atividades (como arrumar a cama) que pode
ser desmembrada em etapas, e se o programa equivale a unir essas
etapas em uma determinada ordem, então não se trata de um
programa de modelagem. Em vez disso, o comportamento-alvo precisa
ser desenvolvido por encadeamento (ver Capítulo 11).
Se possível, selecione um comportamento que, depois de modelado,
venha a ser controlado por reforçadores naturais.
Selecionar um reforçador apropriado (ver Tabela 4.2, no Capítulo 4).
Plano inicial:
Elabore uma lista de aproximações sucessivas do comportamento-alvo,
começando com o comportamento inicial. Para definir o
comportamento inicial, encontre um comportamento do repertório do
aprendiz que lembre mais estreitamente o comportamento-alvo e que
ocorra ao menos uma vez durante um período de observação.
b)
4.
a)
b)
c)
d)
e)
f)
■
■
■
Etapas iniciais ou aproximações sucessivas geralmente são “suposições
educadas”. Durante o programa, você poderá modificá-las conforme o
desempenho do aprendiz.
Implementação do plano:
Antes de começar, fale sobre o plano com o aprendiz.
Comece o reforço imediatamente após cada ocorrência do
comportamento inicial.
Jamais passe para uma nova aproximação sem o aprendiz ter
dominado a aproximação anterior.
Se tiver dúvida sobre quando mover o aprendiz para uma nova
aproximação, use a seguinte regra: passe à próxima etapa quando ele
tiver realizado corretamente a etapa atual em 6 de um total de 10
tentativas, geralmente com 1 ou 2 tentativas menos perfeitas do que o
desejado, e 1 ou 2 tentativas em que o comportamento foi superior à
etapa vigente.
Não dê reforços demais em nenhuma etapa e evite sub-reforçar
qualquer etapa.
Se o aprendiz parar de avançar, é possível que você tenha passado pelas
etapas rápido demais, o tamanho das etapas pode não ser apropriado ou
o reforçador é ineficaz:
Primeiro, cheque a eficácia do seu reforçador
Se o aprendiz ficar desatento ou exibir sinais de enfado, é possível que
as etapas sejam pequenas demais
A desatenção ou o enfado também podem significar que você tem
avançado rápido demais. Se for esse o caso, retorne à etapa anterior por
mais algumas tentativas e, então, tente novamente a etapa atual
■
14.
15.
16.
17.
18.
Se o aprendiz continuar tendo dificuldade, apesar do retreinamento nas
etapas anteriores, adicione mais etapas no ponto de dificuldade.
 Questões para aprendizagem
Dê um exemplo de armadilha de aplicação errada acidental no
desenvolvimento de um comportamento indesejado. Descreva algumas
etapas de modelagem no seu exemplo.
Dê um exemplo de armadilha em que a falha em aplicar a modelagem
poderia causar um resultado indesejado.
Com base em sua própria experiência, dê um exemplo de um
comportamento-alvo que seria desenvolvido por meio de um
procedimento que não fosse a modelagem (ver Diretriz 1a).
Estabeleça uma regra para decidir quando mover o aprendiz para uma
nova aproximação.
Por que nos referimos ao reforço positivo e à extinção operante como
princípios, e à modelagem como procedimento? (Dica: ver Capítulo 1.)
 Exercícios
Exercício envolvendo outros
Imagine uma criança normal, entre 2 e 7 anos, com quem você tenha contato
(p. ex., irmã, irmão ou vizinho). Especifique um comportamento-alvo
verdadeiro dessa criança que você poderia tentar desenvolver usando um
procedimento de modelagem. Identifique o ponto de partida que você definiria,
bem como o reforçador e as aproximações sucessivas que você percorreria.
Exercícios de automodificação
1.
2.
1.
2.
Observe atentamente muitas de suas próprias habilidades – por exemplo,
sacializar, namorar e estudar. Identifique duas habilidades específicas que
provavelmente foram modeladas por outros, consciente ou
inconscientemente. Identifique dois comportamentos específicos que
provavelmente foram modelados pelo ambiente. Para cada exemplo,
identifique o reforçador e pelo menos três aproximações que você
provavelmente tenha realizado durante o processo de modelagem.
Selecione um de seus déficits comportamentais, talvez um dos que você
listou ao final do Capítulo 2. Destaque um programa completo de
modelagem que, com pouca ajuda da parte de seus amigos, você poderia
usar para superar esse déficit. Garanta que seu plano siga as diretrizes
para uma aplicação eficaz da modelagem, discutidas neste capítulo.
 Notas para aprendizagem
A modelagem parece ser útil na modificação não só do comportamento
externo como também do interno. R. W. Scott et al. (1973), por exemplo,
demonstraram que a modelagem poderia ser usada para modificar a
frequência cardíaca (FC). Nesse estudo, o dispositivo de monitoramento
da FC foi ligado ao componente de vídeo de um aparelho de TV que o
indivíduo assistia. Embora o áudio da TV permanecesse ligado
ininterruptamente, o vídeo somente aparecia quando a FC do indivíduo se
alterava em alguns batimentos por minuto, em relação ao nível anterior.
Quando a FC permanecia em um nível novo durante três sessões
consecutivas, o componente de vídeo era usado para reforçar uma
alteração adicional na FC. Em um caso envolvendo um paciente
psiquiátrico que sofria de ansiedade crônica e tinha uma FC relativamente
alta, os pesquisadores modelaram várias quedas na FC do paciente. É
interessante notar que, quando a FC do indivíduo havia caído a um nível
inferior, a enfermaria relatou que “ele parecia menos ‘tenso’ e ‘ansioso’”,
e que “tinha feito menos pedidos de medicação”.
Com que velocidade você deve passar de uma etapa a outra? Qual deveria
3.
ser a extensão de uma etapa? Um motivo pelo qual não há respostas
específicas para essas questões é a dificuldade em medir tamanhos de
etapas específicos e reforçar de modo consistente as respostas
satisfatórias. O julgamento humano simplesmente não é rápido o bastante
nem preciso o suficiente para garantir que qualquer procedimento de
modelagem seja aplicado de modo consistente, para permitir
comparações entre esse procedimento e outros procedimentos de
modelagem consistentemente aplicados. Isso é particularmente válido
quando a topografia é o aspecto do comportamento que está sendo
modelado. Computadores, porém, são mais parecidos e mais rápidos,
podendo, portanto, ser úteis para responder questões fundamentais sobre
quais procedimentos de modelagem são mais efetivos (Midgley et al.,
1989; Pear e Legris, 1987). Pear e. Legris, usando duas filmadoras
conectadas a um microcomputador programado para detectar a posição
da cabeça de um pombo em um abiente de testes, demonstraram que um
computador pode modelar onde o pombo movimenta a cabeça Além de
fornecer uma metodologia para estudar a modelagem, esses estudos
sugerem que os computadores podem modelar alguns tipos de
comportamento de maneira tão eficaz quanto os seres humanos. Assim,
um dispositivo que molda movimentos, por exemplo, pode ajudar uma
pessoa a recuperar o uso de um membro paralisado por um acidente
vascular encefálico ou um acidente (p. ex., ver Taub et al., 1994).
Em relação ao ser humano, o dispositivo seria mais vantajoso por sua
precisão, pela habilidade de fornecer feedback de modo extremamente
rápido e sistemático e pela “paciência” (i. e., os computadores não julgam
nem se cansam).
Rasey e Iversen (1993) forneceram uma boa demonstração em
laboratório de um efeito potencial inadaptável da modelagem. Eles deram
reforço aos ratos, fornecendo comida quando os animais estendiam o
focinho sobre a borda da plataforma onde foram colocados. Ao longo das
tentativas,era necessário que os ratos estendessem o focinho cada vez
mais adiante sobre a borda da plataforma, para então receberem o
1.
2.
3.
4.
reforço. No fim, os ratos estenderam o focinho tão à frente da borda que
acabaram caindo da plataforma. Uma rede colocada sob a plataforma
impediu que eles se machucassem. Esse experimento, todavia, mostrou
que os animais, e provavelmente os seres humanos também, podem ser
modelados para se engajarem até mesmo em um comportamento
perigoso.
 Questões adicionais
Descreva como Scott et al. usaram a modelagem para diminuir a
frequência cardíaca de um homem que sofria de ansiedade crônica.
Descreva como a tecnologia computacional poderia ser usada para
modelar os movimentos de um membro de um indivíduo paralisado.
Descreva como a tecnologia computacional poderia ser usada para
estudar a modelagem de um modo mais preciso do que os procedimentos
atuais não informatizados.
Descreva um experimento demonstrando que o comportamento
inadaptável pode ser modelado.
	Parte 2 Princípios e Procedimentos Comportamentais Básicos
	7 Novo Comportamento com Modelagem

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