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141 11 Andrew pergunta ao cirurgião se ele não gostaria de ser humano. Essa questão desencadeia uma discussão entre os dois que revela a sensibilidade do personagem principal a um tema muito caro para a humanidade, o que de alguma forma aproxima Andrew dos huma- nos, mas não aproxima o robô cirurgião. a. Que tema é esse? b. Em sua opinião, que outras discussões sobre o desenvolvimento da inteligência artificial ele gera? 12 A que tipo de cirurgia você imagina que Andrew deseja ser subme- tido? Por que o cirurgião não a faria se ele fosse humano? Narrativas literárias de ficção científica A ficção científica é um subgênero literário que acrescenta aspectos imaginários a elementos reais, com base em extrapolações dos conheci- mentos científicos. Nessas produções, geralmente é possível reconhecer um ou alguns dos seguintes elementos: viagens no tempo, naves espa- ciais, inteligência artificial representada por computadores ou robôs, presença alienígena, etc. Nascida no século XIX, influenciado pelas transformações advindas da Revolução Industrial, a narrativa de ficção científica é marcada pelo deslumbramento e temor gerado pelos avanços tecnológicos. A conflu- ência desses dois elementos fez com que a ficção científica tivesse como mote a antecipação de etapas posteriores da história da humanidade, destacando a ciência e a tecnologia como coautoras de processos evolutivos, ora positivos ora nada promissores. Em geral, os autores de ficção científica tomam como ponto de partida eventos presentes, os quais são sensíveis para projetar os eventos futuros. Assim, a leitura desse tipo de narrativa não pode estar apartada do con- texto em que foi produzido. Na segunda metade do século XIX, por exem- plo, em narrativas como Vinte mil léguas submarinas ou Da Terra à Lua, ambas de Júlio Verne (1828-1905), o futuro é visto com otimismo e a ciên- cia é a responsável pela superação de obstáculos entre o ser humano e os espaços que deseja dominar. Visão contrária a essa aparece na obra da inglesa Mary Shelley (1797-1851), Frankenstein, de 1818. Considerada a pri- meira obra a explorar a ciência como meio para construção de realidades insólitas, a narrativa critica a vaidade e a ambição do cientista, que, na tentativa de se parecer com Deus, dá vida a uma criatura que, mais tarde, se volta contra o próprio criador. Em ambos os enredos, aspectos relacio- nados às visões de mundo próprias do século XIX, como o fascínio com os avanços científicos e o temor moral e religioso, estão presentes. O período entre as duas grandes guerras mundiais – 1918 e 1939 – foi marcado pelo pessimismo e pelo temor aos totalitarismos nascentes, como o nazismo e o fascismo. Nessa época, surgiram as ficções científi- cas distópicas: narrativas em que a ciência é usada por Estados totalitá- rios, que, em nome do controle e da ordem, coibem as liberdades indivi- duais. Fazem parte desse grupo obras como Admirável mundo novo, (1932), de Aldous Huxley (1894-1963), Cântico (1938), de Ayn Rand (1905-1982) e, mais tarde, o romance 1984 (1949), de George Orwell (1903-1950), do qual foi retirado o termo Grande Irmão (Big Brother) _ o olho do Estado totalitário que tudo vê. O tema da liberdade. Resposta pessoal. Resposta pessoal. Andrew deseja tornar-se mortal. Um robô cirurgião jamais poderia programar a morte de um ser humano porque isso violaria a primeira lei da robótica. O homem bicentenário, dirigido por Chris Columbus (Estados Unidos/ Canadá: 1999, 132 min). Assista ao filme para ampliar seus conhecimentos sobre ficção científica. FICA A DICA distópicas: o contrário de utópicas. Trata-se, em geral, da representação de situações em que se vive sob regimes totalitários e opressivos. V6_LINGUAGENS_Faraco_g21Sa_Cap4_120a153_LA.indd 141V6_LINGUAGENS_Faraco_g21Sa_Cap4_120a153_LA.indd 141 29/09/2020 13:1229/09/2020 13:12 142 Já as obras de ficção científica publicadas entre os anos 1950 e 1990 refletem também avanços e temores desse tempo, o que comprova que esse estilo de narrativa representa um futuro tomado pelas espe- ranças e inquietações do presente. Não sem razão, muitas produções desse período tratam de holocausto nuclear e/ou das consequências da radioatividade no planeta; de viagens ao espaço; de inteligência das máquinas, muitas vezes representadas por robôs; de totalitarismos e de crises ambientais. São desse período os livros cujos excertos foram analisados nesta trilha: O homem bicentenário, de Isaac Asimov (autor também da coletânea de contos Eu, robô) e 2001: uma odisseia no es- paço, de Arthur Clarke. Ficção científica e ciência Avanços da ciência e da ficção científica parecem estar correlaciona- dos. Tanto a ficção científica se apropria de conhecimentos da ciência, quanto a ciência se inspira na imaginação dos autores de ficção científi- ca para desenvolvimento de artefatos. Se a ficção científica é campo fértil para o desenvolvimento de mun- dos imaginários em que humanos e robôs convivem, se enfrentam ou se invejam, os riscos dessa interação emergem quando a ciência assume como possível o desenvolvimento de máquinas superinteligentes. O texto que você vai ler a seguir é um trecho da reportagem “V.A. Vida Artificial”, publicada em abril de 2020. Durante a leitura, relacione temas como imaginação e ciência, liberdade científica e ética. Com base na leitura desse texto, você e os colegas participarão de duas experi- mentações: a primeira será um debate sobre os limites do avanço cien- tífico e a segunda será a produção de um conto de ficção científica. V.A. Vida Artificial Para alguns cientistas, só existe um jeito de criar inteligência artificial de QI realmente alto: construir máquinas que tenham medo de morrer e saibam lutar pela própria sobrevivência. O que pode dar errado? Que imagem surge em sua cabeça ao ouvir a expressão “inteligência artificial”? Provavelmente uma coisa incorpórea, um software, respon- dendo por meio de algum aplicativo ou de um “assistente pessoal”. [...] Se você tivesse feito essa pergunta para alguém há 30 anos, prova- velmente a resposta seria bem diferente. O que viria à mente das pessoas seria um robô físico, que imita um ser humano. Um androide, como os replicantes de Blade Runner, o pequeno David, protagonista de Inteligência Artificial ou, mais recentemente, os anfitriões de Westworld. Entidades que [...] têm consciência plena e medo de mor- rer, exatamente como uma entidade viva. O irônico é que, bem agora que a inteligência artificial chega aos celulares e às caixinhas de som, a hipótese de que a verdadeira inte- ligência artificial precisa ter características humanas volta à tona na ciência de verdade. Pelo menos é o que propuseram dois neurocientistas bastante reco- nhecidos: o português António Damásio e seu colega americano Kingson Man, da Universidade do Sul da Califórnia. Em novembro de 2019, a dupla publicou um artigo científico chamado Homeostasis and soft robo- tics in the design of feeling machines (“Homeostase e robótica flexível no desenho de máquinas sensíveis”). NÃO ESCREVA NESTE LIVRO. Vinte mil léguas submarinas, de Júlio Verne (São Paulo: Zahar, 2014). Leia o livro se você gosta de ficções científicas e aventuras. Admirável mundo novo, de Aldous Huxley (São Paulo: Globo, 2001). Leia o livro se preferir romances distópicos em que a ciência é utilizada para coibir liberdades. 1984, de George Orwell (São Paulo: Cia das Letras, 2009). Este também é um romance distópico, bastante conhecido e que serviu de inspiração para várias outras obras literárias e cinematográficas. FICA A DICA V6_LINGUAGENS_Faraco_g21Sa_Cap4_120a153_LA.indd 142V6_LINGUAGENS_Faraco_g21Sa_Cap4_120a153_LA.indd 142 29/09/2020 13:1229/09/2020 13:12