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PEDAGOGIA Fundamentos Teóricos e Metodológicos de Língua Portuguesa e Prática UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 2 Créditos e Copyright Vanessa Laurentina Maia Crb8 71/97 Bibliotecária UNIMES Este curso foi concebido e produzido pela UNIMES Virtual. Eventuais marcas aqui publicadas são pertencentes aos seus respectivos proprietários. A UNIMES Virtual terá o direito de utilizar qualquer material publicado neste curso oriundo da participação dos alunos, colaboradores, tutores e convidados, em qualquer forma de expressão, em qualquer meio, seja ou não para fins didáticos. É proibida a reprodução total ou parcial deste curso, em qualquer mídia ou formato. S248c PEREIRA, Grace Luciana. Fundamentos Teóricos e Metodológicos da Língua Portuguesa e Prática. Grace Luciana Pereira. Atualizado por Giselle Larizzatti Agazzi. - Santos, 2023. 95fls. Universidade Metropolitana de Santos, Licenciatura em Pedagogia, 2018. 1. Pedagogia 2. Língua Portuguesa 3. Fundamentos Teóricos e Metodológicos da Língua Portuguesa e Prática CDD 371.102 UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 3 SUMÁRIO Aula 01_ A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e o ensino da Língua Portuguesa. ............................................................................................................... 4 Aula 02_ Os usos sociais da língua portuguesa e os campos de atuação (BNCC) 10 Aula 03_ Eixo integradores (práticas de linguagem) e tipos de texto ...................... 14 Aula 04_Produção Textual e a natureza do sistema ortográfico da Língua Portuguesa .............................................................................................................. 21 Aula 05_ Níveis de linguagem e a questão do “erro”............................................... 28 Aula 06_Trabalho em Grupo e o uso do dicionário ................................................. 31 Aula 07_ Gêneros Textuais e multimodalidade discursiva ...................................... 38 Aula 08_Os tipos de texto e o gênero conto ............................................................ 44 Aula 09_Fábula, poema e gêneros jornalísticos ...................................................... 51 Aula 10_Biografias e Culinária ................................................................................ 60 Aula 11_Expositivo e Argumentação – Carta .......................................................... 66 Aula 12_ Formando Leitores ................................................................................... 71 Aula 13_Materiais e Refletindo sobre Livros Didáticos ............................................ 75 Aula 14_ Modalidades discursivas e gêneros digitais ............................................. 80 Aula 15_O Professor de Língua Portuguesa e Organização Curricular em Língua Portuguesa .............................................................................................................. 83 Aula 16_ Avaliações e o portfólio ............................................................................ 91 UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 4 Aula 01_ A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e o ensino da Língua Portuguesa. Palavras-chave: ensino; língua portuguesa; Base Nacional Comum Curricular. Muitos estudos e pesquisas têm apontado necessidades de mudanças no ensino da Língua Portuguesa anos iniciais. Para a maioria de nós, o processo de aprendizagem desse conteúdo na escola deu-se de forma tradicional e essa disciplina é uma oportunidade de nos aproximarmos dos novos conhecimentos produzidos na área. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) desenvolve alguns dos pressupostos dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) de Língua Portuguesa para os anos iniciais do Ensino Fundamental: O aluno é um ser humano completo, inserido em ambientes socioculturais diversos, que constrói conhecimentos na interação com seus pares e com o meio em que vive. [...] A aprendizagem dá- se pela ação do aprendiz sobre o que é objeto de seu conhecimento e é potencializada por ambientes favoráveis. A atividade em parceria – em que os papéis do parceiro experiente e do aprendiz se alternam – é de grande importância para a aprendizagem. [...] A reflexão é condição de aprendizagem da língua: é preciso pensar sobre como se pode ler e escrever quando ainda não se sabe fazê-lo. A língua realiza-se no uso, nas práticas sociais. A finalidade principal do trabalho com a Língua Portuguesa na escola é a formação de usuários competentes da linguagem, o que deve estar, por sua vez, a serviço do desenvolvimento dos alunos como pessoas e como cidadãos. [...] Saber decodificar letras em sons e codificar sons em letras não significa ser capaz de utilizar a língua: a capacidade de uso é equivalente à possibilidade de falar, escutar, escrever e ler em diferentes contextos de comunicação.” A escola precisa aproximar, o máximo possível, suas práticas de uso da linguagem das práticas sociais de uso da linguagem. O trabalho com a diversidade de textos que circulam socialmente é necessário desde a educação infantil.[...] É possível produzir textos sem saber escrever.[...] É possível ler sem saber ler [...] É mais significativo, mais produtivo e mais eficaz aprender a ler e a escrever por meio de textos. É preciso ler e escrever para aprender a ler e escrever. [...] O interesse e a dedicação à leitura dependem de se ter acesso, desde pequeno, a textos interessantes, instigantes, intrigantes, emocionantes... Os textos simplificados, destinados principalmente a focalizar alguns padrões silábicos que se deseja ensinar, em geral, não seduzem as crianças nem prendem sua atenção. São as crianças pobres as que mais precisam da escola para aprender a ler e a escrever. [...]É fundamental que a escola se converta em um UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 5 ambiente propicio à leitura desde a Educação Infantil. A boa escrita é resultado tanto da leitura de muitos e diferentes textos como da possibilidade de pensar e discutir sobre como se faz para redigir bem e receber ajuda para isso. Em se tratando de linguagem oral, a questão não é de ensino da fala supostamente certa, mas dos modos de fala adequados a diferentes contextos de comunicação. [...] Falar de uma forma considerada errada não implica escrever errado: a ortografia nem sempre tem a ver com a correspondência oral e escrito. [...] O ensino da ortografia e da gramática, como de todos os demais conteúdos, deve estar a serviço do desenvolvimento da competência dos alunos como usuários da linguagem. (Parâmetros Curriculares Nacionais, p.82 a 84) A importância do trabalho sistemático com gramática e ortografia, enfatizando os aspectos de como abordá-los, a importância da leitura de textos de diferentes gêneros no processo de produção de textos, as propostas didáticas de produção de texto com apoio e revisão de texto à alfabetização são encaradas como conteúdos de análise linguística. Nosso desafio constituirá em refletirmos sobre o ensino da Língua Portuguesa que vá além da alfabetização. Imagine uma classe com alunos, todos alfabéticos. O que vem a seguir? Como intervir para que esses alunos continuem a avançar no aprendizado da Língua Portuguesa? Vemos ainda em grande escala o alfabeto funcional. O que vem a ser isso? A definição de analfabetismo vem, ao longo das últimas décadas, sofrendo revisões significativas como reflexo das próprias mudanças sociais. Em 1958, a UNESCO definia como alfabetizada uma pessoa capaz de ler e escrever um enunciado simples, relacionado à sua vida diária. Vinte anos depois, a UNESCO sugeriu a adoção dos conceitos de analfabetismoe alfabetismo funcional. Portanto, é considerada alfabetizada funcional a pessoa capaz de utilizar a leitura e escrita e habilidades matemáticas para fazer frente às demandas de seu contexto social e utilizá-las para continuar aprendendo e se desenvolvendo ao longo da vida. (Disponível em: https://acaoeducativa.org.br/wp- content/uploads/2016/10/inafresultados2005.pdf Acesso em: 27 mar. 2023) Pessoas que leem e escrevem com níveis mais baixos de entendimento são cidadãos com poucas opções na sociedade contemporânea, uma vez que é preciso apurada leitura para lidar com situações nas diversas esferas da vida, como identificar fake news ou cursar o ensino superior. Em nossas aulas falaremos do aprendizado de forma plena. Esse nível de qualidade não nasce espontaneamente, é fruto de muitas ações educativas e da ação consciente dos educadores. https://acaoeducativa.org.br/wp-content/uploads/2016/10/inafresultados2005.pdf https://acaoeducativa.org.br/wp-content/uploads/2016/10/inafresultados2005.pdf UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 6 Se já sabemos que queremos formar alfabetizados funcionais, capazes de desenvolver a leitura proficiente de textos mais ou menos complexos, o que devemos atingir com nossos alunos ao longo do Ensino Fundamental no tocante à Língua Portuguesa? Quais competências nossos alunos precisam desenvolver nos anos iniciais do Ensino Fundamental para se tornarem leitores proficientes? Quais as responsabilidades do professor para que os alunos se desenvolvam plenamente? Para responder a essa pergunta, o professor deve analisar o contexto dos alunos e planejar seus objetivos de acordo com o desafio proposto pela legislação oficial vigente, que é o de formar alunos capazes de se comunicar plenamente, de acessar, produzir informações, alunos críticos em relação à leitura do mundo e autores dos seus discursos, alunos que sejam proficientes na leitura e na produção, tenham autonomia. Como promover uma educação desse tipo? A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) foi homologada no dia 20 de dezembro de 2017, pelo então Ministro da Educação Mendonça Filho. Desde então, a discussão sobre as possibilidades de colocar em prática o que prevê a BNCC para o ensino infantil e fundamental tem sido excelente oportunidade para a reflexão sobre o ensino. Esse documento deve ser uma referência para as escolas públicas e privadas repensarem os currículos propostos bem como as práticas em sala de aula. Muitos países como a Finlândia ou os Estados Unidos nunca se preocuparam em ter um documento desse tipo, que prevê o que deve ser ensinado/aprendido em cada momento do ensino básico. O que os alunos devem desenvolver, em termos de competências, na Educação Infantil? O que os alunos devem saber ao fim do segundo ano do ensino fundamental? Do terceiro? E do quinto ano? Questões como essas, entre tantas outras, ocuparam diversos especialistas ao longo de quase cinco anos. Polemizar em torno da sua importância ou não é etapa ultrapassada. É possível contestar a BNCC, mas o fato é que, agora, cabe aos professores da Educação Infantil e dos anos iniciais do Ensino Fundamental (e de todos da Educação Básica) compreender o documento e, por meio da reflexão, propor práticas que respondam aos desafios propostos. Tratando dos Fundamentos Teóricos e Metodológicos da Língua Portuguesa e Práticas, o fato é que se faz necessário saber o que a BNCC traz de novo para os UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 7 anos inicias do Ensino Fundamental. É preciso lembrar que este componente não contempla a alfabetização, mas o que segue a ela. Com isso, é preciso refletir sobre práticas significativas para que o aluno avance no conhecimento da língua materna, usando-a de modo competente, crítico e criativo. Antes de mais nada, é essencial perceber que a BNCC não contraria os Parâmetros Curriculares de Língua Portuguesa. Ao contrário, esses documentos dialogam entre si de modo a se complementarem, procurando estabelecer as expectativas de aprendizagem para cada ano do Ensino Fundamental. Estando prevista na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e no Plano Nacional da Educação, a BNCC é um documento obrigatório e que deve pautar as relações de ensino e de aprendizagem de todos os anos da Educação Básica. A BNCC prevê as competências gerais e, depois, as competências específicas de cada área, a saber: Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza, Ciências Humanas e Ensino Religioso. Como cada uma dessas áreas apresenta determinadas competências a serem desenvolvidas, é preciso refletir sobre elas em separado e de maneira interdisciplinar. Ao fim, o que se vê, é uma proposta ampla para as relações de ensino e de aprendizagem, baseadas nas competências. A BNCC aborda a língua portuguesa a partir de um olhar mais amplo, para buscar particularizar cada um dos aspectos que a compõem, a fim de que seja possível traçar uma trajetória para cada um dos anos iniciais do Ensino Fundamental. É preciso ressaltar que a Base não é limitadora, mas procura atender às diversidades que compõem o Brasil, valorizando-as. O esteio sobre o qual a BNCC foi construída pode ser compreendido, quando se vê que a discussão sobre o ensino da língua contempla a busca pela conquista de direitos e a compreensão dos deveres dos seus usuários: Trata-se de promover uma formação, que faça frente a fenômenos como o da pós-verdade, o efeito bolha e proliferação de discursos de ódio, que possa promover uma sensibilidade para com os fatos que afetam drasticamente a vida de pessoas e prever um trato ético com o debate de ideias (BNCC, 2018, p. 135) O texto da BNCC é bastante democrático, visando reestabelecer um lugar seguro para as relações de ensino e de aprendizagem, voltadas ao bem-estar das pessoas. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 8 Há, na Base, um forte apelo para que a escola respeite a linguagem dos alunos, contemplando o fato de que, hoje, a comunicação se dá segundo práticas multimodais e que aproximam diversas áreas do saber. Nesse contexto, o que se vê é que a leitura e a produção de texto devem formar o currículo. Na área de Linguagens, estão previstos os seguintes componentes curriculares: Língua Portuguesa, Arte, Educação Física, Língua Inglesa, Geografia e História. Em Língua Portuguesa, a BNCC prevê: No Ensino Fundamental – Anos Iniciais, aprofundam-se as experiências com a língua oral e escrita já iniciadas na família e na Educação Infantil. Assim, no Ensino Fundamental – Anos Iniciais, no eixo Oralidade, aprofundam-se o conhecimento e o uso da língua oral, as características de interações discursivas e as estratégias de fala e escuta em intercâmbios orais; no eixo Análise Linguística/Semiótica, sistematiza-se a alfabetização, particularmente nos dois primeiros anos, e desenvolvem-se, ao longo dos três anos seguintes, a observação das regularidades e a análise do funcionamento da língua e de outras linguagens e seus efeitos nos discursos; no eixo Leitura/Escuta, amplia-se o letramento, por meio da progressiva incorporação de estratégias de leitura em textos de nível de complexidade crescente, assim como no eixo Produção de Textos, pela progressiva incorporação de estratégias de produção de textos de diferentes gêneros textuais. As diversas práticas letradas em que o aluno já se inseriu na sua vida social mais ampla, assim como na Educação Infantil, tais como cantar cantigas e recitar parlendas e quadrinhas, ouvir e recontar contos, seguir regras de jogos e receitas, jogar games, relatar experiências e experimentos, serão progressivamente intensificadas e complexificadas, na direção de gêneros secundários com textos mais complexos.Preserva-se, nesses eventos de letramento, mesmo em situação escolar, sua inserção na vida, como práticas situadas em eventos motivados, embora se preserve também a análise de aspectos desses enunciados orais e escritos que viabilizam a consciência e o aperfeiçoamento de práticas situadas. (BRASIL, 2018, p. 63) É preciso observar que o letramento deve se ampliar na medida em que os alunos desenvolvem as estratégias de leitura em textos que apresentam níveis de complexidade crescentes, assim como deve ocorrer em todos os eixos do ensino da língua portuguesa. Levar para a sala de aula objetos de conhecimento cada vez mais complexos ou tratados de maneira mais complexa é promover a reflexão permanente dos alunos sobre os usos da língua nas mais diversas situações da vida. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 9 REFERÊNCIAS BRASIL, SECRETARIA DE ENSINO FUNDAMENTAL. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Parâmetros Curriculares Nacionais – Língua Portuguesa: ensino de primeira à quarta série. Brasília: SEF,1997. BRASIL, SECRETARIA DE ENSINO FUNDAMENTAL. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil - Volume 3 / Conhecimento do Mundo. Brasília: MEC/ SEF, 1998. BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação Fundamental, Secretaria de Educação a Distância. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. INSTITUTO PAULO MONTENEGRO. 5º Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional. Um diagnóstico para a inclusão social pela educação. Avaliação de Leitura e Escrita. Disponível em: https://acaoeducativa.org.br/wp- content/uploads/2016/10/inafresultados2005.pdf Acesso em: 27 mar. 2023. https://acaoeducativa.org.br/wp-content/uploads/2016/10/inafresultados2005.pdf https://acaoeducativa.org.br/wp-content/uploads/2016/10/inafresultados2005.pdf UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 10 Aula 02_ Os usos sociais da língua portuguesa e os campos de atuação (BNCC) Palavras-chave: Usos da língua portuguesa; campos de atuação; BNCC. A BNCC mantém o que os Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa (PCNs) já afirmavam sobre o fato de o texto dever ser o foco do trabalho na escola; mais do que isso, mantém também a necessidade da escola valorizar os usos sociais da linguagem. Isso significa que a língua deve ser tratada na sala de aula em diálogo com a realidade dos alunos. Para tornar didática tal orientação, a BNCC define os campos de atuação da língua portuguesa. Segundo a Revista Nova Escola: Os campos de atuação são as áreas de uso da linguagem, na vida cotidiana. Por exemplo: no campo de atuação artístico-literário, temos o uso da língua voltado à produção e à leitura de contos, romances, peças de teatro, poemas. Nesse caso, trata-se de gêneros textuais e usos da linguagem com predominância da atuação artístico-literária. No campo de atuação jornalístico/midiático, encontramos os textos com outra tônica: a da transmissão de informações, da comunicação, da intenção de "vender" um produto/ideia etc. https://novaescola.org.br/bncc/conteudo/22/propostas-em-lingua- portuguesa-da-bncc-focam-na-gramatica-e-nos-generos-digitais Acesso em 27 mar. 2023. A BNCC estabelece, para efeitos didáticos, quatro campos de atuação para os anos iniciais do ensino fundamental, a saber: ● Campo jornalístico midiático ● Campo de atuação da vida pública ● Campo das práticas de estudo e pesquisa ● Campo artístico literário Cada campo contempla “Práticas de linguagem” e “Objetos de conhecimento”, além das habilidades específicas a serem desenvolvidas em cada ano e segundo cada especificidade. https://novaescola.org.br/bncc/conteudo/22/propostas-em-lingua-portuguesa-da-bncc-focam-na-gramatica-e-nos-generos-digitais https://novaescola.org.br/bncc/conteudo/22/propostas-em-lingua-portuguesa-da-bncc-focam-na-gramatica-e-nos-generos-digitais UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 11 As “Práticas de linguagem” preveem como os usuários lidam com a língua portuguesa e são identificadas em quatro: ● Leitura e escrita (compartilhada e autônoma) ● Produção de textos (escrita compartilhada e autônoma) ● Oralidade ● Análise linguística/semiótica Assim, de modo esquemático, podemos pensar no seguinte: COMPONENTE CURRICULAR: LÍNGUA PORTUGUESA CAMPOS DE ATUAÇÃO E PRÁTICAS DE LINGUAGEM OBJETOS DE CONHECIMENTO COMPETÊNCIAS E HABILIDADES É importante notar que a BNCC mantém as Práticas de Linguagem previstas nos Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa, mas acrescenta uma, que é a “Análise Linguística/Semiótica”. E do que trata a “Análise Linguística/Semiótica”? Trata-se da reflexão sobre os textos em múltiplas linguagens. É preciso observar que o documento valoriza as linguagens digitais como os vídeos dos youtubers, os memes, os emotions entre outras. A compreensão da BNCC evidencia que o documento não contraria os demais documentos já publicados pelo MEC. Ao contrário, reafirma-os, ampliando- os e aprofundando-os. Por isso, os Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa, publicados em 1997, continuam importantes para as reflexões sobre o ensino da língua. Teoricamente, a BNCC, assim como os outros documentos publicados pelo MEC, deve preparar as pessoas para que sejam leitores proficientes e autores autônomos. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 12 A formação do leitor é uma preocupação que não deve ser pontual, valorizada em uma ou outra atividade, por uma ou outra disciplina. Ao contrário, pensar na formação do leitor significa pensar na Educação Básica de modo mais amplo. Por isso, a leitura deve ser alvo de todas as práticas em sala de aula. Para tanto, não cabe apenas ao ensino da língua portuguesa requerer boa interpretação de texto, mas de história, geografia, ciências, educação física, literatura. Diferentemente do que se praticava, ao se restringir o ensino da língua materna para momentos específicos, atualmente, é necessário privilegiar a interpretação crítica e criativa dos diversos textos sociais nos diversos âmbitos da vida. Seja em Ciências ou em Matemática, a leitura – e, portanto, o ensino da língua, faz-se essencial. Uma diferença da BNCC para os documentos anteriores é exatamente este fato: a valorização da cultura das crianças e dos adolescentes. Como isso se dá na prática? Quando o professor, por exemplo, contempla uma atividade usando as redes sociais. Ou quando a escola incorpora no seu cotidiano a linguagem das crianças e adolescentes para ampliar o conhecimento dos alunos sobre os usos da língua portuguesa. Ainda dentro dessa perspectiva, a literatura ocupa um papel importante na vida dos alunos, uma vez que possibilita momentos de fruição e reflexão sobre diversos temas e a partir de inúmeras visões de mundo. O ensino da língua portuguesa nos anos iniciais do EF deixa de ser apenas gramatical, passando a ser um estudo dos textos, a partir de uma perspectiva interdisciplinar e multimodal. A ousadia da BNCC, ao fim, retorna a Paulo Freire, quando o educador reforça a importância de valorizar o repertório dos alunos e aponta para a necessária conquista da autonomia de cada educando. É sobre esta autonomia que a BNCC a todo se refere, tendo em perspectiva a ação de cada sujeito no mundo. Um exemplo prático seria o de o professor propor um projeto didático interdisciplinar, comparando fábulas aos valores contemporâneos de cada comunidade. Promover uma aproximação entre a tradicional fábula “A cigarra e a formiga” e a releitura de Monteiro Lobado dessa fábula, em “A cigarra e a formiga boa”, encaminhadasegundo o que a BNCC afirma, levaria os alunos a refletirem sobre a importância da arte, da música, da poesia para os seres humanos. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 13 A BNCC foca o ensino da Língua Portuguesa nos gêneros textuais de modo contextualizado. Ou seja, o professor precisa selecionar os gêneros que os alunos usam em seu cotidiano, indo dos gêneros que circulam na internet aos mais formais. Por exemplo, o professor deve trabalhar desde a elaboração de um convite para festa de aniversário, uma carta de reivindicação até os textos publicados em redes sociais como Facebook, Instagram, Twitter. Esse diálogo entre a realidade das crianças e dos adolescentes e a escola é o ponto da BNCC que reafirma o que os PCNs já indicavam, aprofundando-o ainda mais, uma vez que privilegia os usos sociais da linguagem por parte da comunidade envolvida. Nesse contexto, a gramática aparece a serviço de como cada gênero social aparece na vida dos alunos. Por exemplo: um convite de aniversário deve conter o nome do remetente e as informações básicas da festa. Se este convite for escrito, terá determinadas características; se for por Whatzapp, outras características. Também é preciso considerar que cada grupo social terá a sua linguagem própria. Em contrapartida, o professor pode trabalhar com uma notícia de jornal, discutindo a importância de haver uma linguagem padrão, a fim de que todos os brasileiros se entendam, do Sul ao Norte, passando pelo Centro-Oeste. A literatura ocupa papel preponderante na BNCC para os anos iniciais do Ensino Fundamental, uma vez que ela aproxima a importância da forma para o conteúdo e vice-versa. REFERÊNCIAS BRASIL, SECRETARIA DE ENSINO FUNDAMENTAL. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Parâmetros Curriculares Nacionais – Língua Portuguesa: ensino de primeira à quarta série. Brasília: SEF,1997. BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação Fundamental, Secretaria de Educação a Distância. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 14 Aula 03_ Eixo integradores (práticas de linguagem) e tipos de texto Palavras-chave: eixo integradores; BNCC; tipos de texto. Os PCNs já definiam os Eixos que deveriam pautar o ensino da Língua Portuguesa, a saber: o uso da língua oral e escrita, e a reflexão sobre a língua e a linguagem. A BNCC, sem negar os PCNs, atualiza esses Eixos. Para alguns especialistas, a BNCC, para os anos iniciais do Ensino Fundamental, representou um excelente avanço. Essa avaliação deriva do fato de esse documento valorizar mais a cultura das crianças e dos adolescentes. Com isso, entende-se que a escola consegue motivar e mobilizar mais os estudantes, uma vez que estabelece um diálogo com o público-alvo. Entre as mudanças, está a valorização maior da língua oral, tratando-a como uma modalidade que tem o mesmo prestígio da língua escrita. Na prática, o que esse olhar sugere? Sugere que o professor deva propor atividades em que a linguagem oral seja motivo de aprendizagem, já que promove o desenvolvimento de diversas habilidades dos alunos. Além disso, deve ser tratada nos projetos didáticos sem qualquer tipo de depreciação. Outro avanço para alguns especialistas (ver, por exemplo, a análise da Revista Nova Escola, 2017) é o fato do ensino de a língua estar vinculado aos novos gêneros digitais. Um exemplo prático seria o trabalho com as redes sociais, com a produção de poemas no Instagram, a pesquisa de alguns temas no Twiter. Claro que a mediação do professor, nesses casos, é ainda mais necessária, já que é preciso orientar muito bem os estudantes, quando eles estão inseridos neste mundo virtual. O que se quer é que a escola contribua para a formação de um olhar crítico dos alunos em relação às novas tecnologias, a fim de que haja uma plena interação com as línguas em uso. A gramática, que era vista com a “vilã” do ensino da língua, deve ser estudada sempre dentro do texto, mas sem perder o seu valor. Ao contrário, é preciso, segundo a BNCC, relacionar o ensino dos aspectos gramaticais à interpretação eficaz de um texto e a boa produção da comunicação oral e escrita. Nesse sentido, a articulação dos saberes gramaticais com as linguagens em uso é essencial. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 15 Também a literatura deve ser motivo de valorização em sala de aula, já que a formação do olhar estético é essencial. Do ponto de vista prático, isso significa que o professor deve propor leituras literárias com rotina e não de modo pontual. Além disso, deve estimular os alunos a escreverem literariamente, desenvolvendo projetos como a produção de murais ou de páginas no Facebook. Pensar na literatura e em como ela pode contribuir para o desenvolvimento das habilidades dos alunos é um desafio que requer do professor que ele mesmo seja um excelente leitor literário. Para isso, é essencial que o docente leia os mais diversos livros. Sabendo que o texto ocupa a centralidade do ensino da Língua Portuguesa, vale a pena ler o que a BNCC prevê para cada um dos Eixos: O Eixo Leitura compreende as práticas de linguagem que decorrem da interação ativa do leitor/ouvinte/espectador com os textos escritos, orais e multissemióticos e de sua interpretação, sendo exemplos as leituras para: fruição estética de textos e obras literárias; pesquisa e embasamento de trabalhos escolares e acadêmicos; realização de procedimentos; conhecimento, discussão e debate sobre temas sociais relevantes; sustentar a reivindicação de algo no contexto de atuação da vida pública; ter mais conhecimento que permita o desenvolvimento de projetos pessoais, dentre outras possibilidades. Leitura no contexto da BNCC é tomada em um sentido mais amplo, dizendo respeito não somente ao texto escrito, mas também a imagens estáticas (foto, pintura, desenho, esquema, gráfico, diagrama) ou em movimento (filmes, vídeos etc.) e ao som (música), que acompanha e cossignifica em muitos gêneros digitais. (...) O Eixo da Produção de Textos compreende as práticas de linguagem relacionadas à interação e à autoria (individual ou coletiva) do texto escrito, oral e multissemiótico, com diferentes finalidades e projetos enunciativos como, por exemplo, construir um álbum de personagens famosas, de heróis/heroínas ou de vilões ou vilãs; produzir um almanaque que retrate as práticas culturais da comunidade; narrar fatos cotidianos, de forma crítica, lírica ou bem- humorada em uma crônica; comentar e indicar diferentes produções culturais por meio de resenhas ou de playlists comentadas; descrever, avaliar e recomendar (ou não) um game em uma resenha, gameplay ou vlog; escrever verbetes de curiosidades científicas; sistematizar dados de um estudo em um relatório ou relato multimidiático de campo; divulgar conhecimentos específicos por meio de um verbete de enciclopédia digital colaborativa; relatar fatos relevantes para a comunidade em notícias; cobrir acontecimentos ou levantar dados relevantes para a comunidade em uma reportagem; expressar posição em uma carta de leitor ou artigo de opinião; denunciar situações de desrespeito aos direitos por meio de UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 16 fotorreportagem, fotodenúncia, poema, lambe-lambe, microrroteiro, dentre outros. (...) O Eixo da Oralidade compreende as práticas de linguagem que ocorrem em situação oral com ou sem contato face a face, como aula dialogada, webconferência, mensagem gravada, spot de campanha, jingle, seminário, debate, programa de rádio, entrevista, declamação de poemas (com ou sem efeitossonoros), peça teatral, apresentação de cantigas e canções, playlist comentada de músicas, vlog de game, contação de histórias, diferentes tipos de podcasts e vídeos, dentre outras. Envolve também a oralização de textos em situações socialmente significativas e interações e discussões envolvendo temáticas e outras dimensões linguísticas do trabalho nos diferentes campos de atuação. O tratamento das práticas orais compreende. O Eixo da Análise Linguística/Semiótica envolve os procedimentos e estratégias (meta) cognitivas de análise e avaliação consciente, durante os processos de leitura e de produção de textos (orais, escritos e multissemióticos), das materialidades dos textos, responsáveis por seus efeitos de sentido, seja no que se refere às formas de composição dos textos, determinadas pelos gêneros (orais, escritos e multissemióticos) e pela situação de produção, seja no que se refere aos estilos adotados nos textos, com forte impacto nos efeitos de sentido. Assim, no que diz respeito à linguagem verbal oral e escrita, as formas de composição dos textos dizem respeito à coesão, coerência e organização da progressão temática dos textos, influenciadas pela organização típica (forma de composição) do gênero em questão. No caso de textos orais, essa análise envolverá também os elementos próprios da fala – como ritmo, altura, intensidade, clareza de articulação, variedade linguística adotada, estilização etc. –, assim como os elementos paralinguísticos e cinésicos – postura, expressão facial, gestualidade etc. No que tange ao estilo, serão levadas em conta as escolhas de léxico e de variedade linguística ou estilização e alguns mecanismos sintáticos e morfológicos, de acordo com a situação de produção, a forma e o estilo de gênero. (BRASIL. Base Nacional Comum Curricular, pp. 55 a 77) Como se pode notar, a BNCC procura mobilizar todas as formas de apreensão da língua em seus usos sociais (como já se tinha nos Parâmetros Curriculares Nacionais) dentro da sala de aula. Aproximar os alunos das relações de ensino e de aprendizagem é um desafio que precisa ser enfrentado por todos. A BNCC defende a diversidade como valor a ser disseminado entre os estudantes, que devem desenvolver na escola o respeito ao outro, seja ele quem for, tendo a religião que tiver, pertencendo ao grupo social que pertencer. Qualquer forma de preconceito deve ser, segundo a BNCC, enfrentada por meio de textos que divulguem a solidariedade e a fraternidade entre os povos. Além disso, esse documento respeita plenamente os Direitos Humanos. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 17 Nesse sentido, o professor deve estar muito bem preparado, para que consiga lidar com crianças e adolescentes oriundos de classes sociais diferentes, que tenham costumes e culturas distintas, que sejam seguidores das várias religiões que estão no Brasil, que se comunicam de maneiras particulares. A função do professor, mediador, não é de inculcar valores nas crianças e nos adolescentes, mas ampliar a reflexão sobre como cada família vive e atua socialmente, fazendo uso da língua portuguesa. A BNCC, como os demais documentos que pautam a educação brasileira, atende à necessidade de construir uma sociedade realmente justa e igualitária. No ensino fundamental, a palavra redação por muito tempo significou escrever o que se havia feito nas férias. Muitas pessoas passaram por isso e não trazem boas lembranças; na maioria das vezes inventava-se para deixar o professor feliz. O filme “Muito gelo e dois dedos d’água” inicia com uma animação na qual a atriz Mariana Ximenes é uma adolescente que está entediada e se recusa a escrever a redação “Minhas férias” e diz à professora que lerá a do ano passado, pois suas férias foram exatamente iguais. Escrevíamos e o único retorno que tínhamos eram as marcas em vermelho sinalizando os erros. Era um mal passageiro. Atualmente, a redação está ligada ao vestibular; na Internet encontramos, inclusive, sites que trazem dicas de possíveis temas para o vestibular. Ainda encontramos cursos de técnicas de redação, todos voltados para vestibulares ou concursos. Com as novas propostas sobre o ensino da língua, falamos em produção de texto. A produção textual é uma atividade verbal, a serviço de fins sociais e, portanto, inserida em contextos mais complexos de atividades; trata-se de uma atividade consciente, criativa, que compreende o desenvolvimento de estratégias concretas de ação e a escolha de meios adequados à realização dos objetivos; isto é, trata-se de uma atividade intencional que o falante, de conformidade com as condições sob as quais o texto é produzido, empreende, tentando dar a entender seus propósitos ao destinatário através da manifestação verbal; é uma atividade interacional, visto que os interactantes, de maneiras diversas, se acham envolvidos na atividade de produção textual. (KOCH, 2000. p.22) Escrever textos pede um diálogo entre o autor e o texto, portanto é uma construção que tem uma finalidade. Não escrevemos para que o professor diga se UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 18 está certo ou errado; essa atitude é um empobrecimento do ensino, é reduzir a aprendizagem da Língua Portuguesa à gramática e à ortografia. Conceber o texto como unidade de ensino/aprendizagem é entendê- lo como um lugar de entrada para este diálogo com outros textos, que remetem a textos passados e que farão surgir textos futuros. Conceber o aluno como produtor de textos é concebê-lo como participante ativo deste diálogo contínuo: com textos e com leitores. Substituir a “redação” por produção de texto implica admitir este conjunto de correlações, que constitui as condições de produção de texto, cuja materialização não se dá sem “instrumentos de produção”, no caso os recursos expressivos mobilizados em sua construção. (GERALDI, 2001, p. 22). Ou seja, não adianta tentar produzir textos com os alunos se não aliar a esta atitude uma práxis, uma ação e reflexão sobre a prática pedagógica. Os tipos de texto podem ser: Descrição - É a forma utilizada para, como o próprio nome diz, descrever pessoas, situações, objetos, entre outros. Por ser caracterizado quase como um “retrato verbal”, é muito raro encontrar um texto totalmente descritivo. As descrições podem ser subjetivas, com a opinião do autor ou objetivas. Dissertação - Tem como principal característica o caráter opinativo do autor. O texto é apresentado com um grande número de argumentos, dados e fatos que são utilizados para dar força à ideia do autor. A dissertação pode ser objetiva, em terceira pessoa, ou subjetiva, na qual os argumentos são apresentados em primeira pessoa. Narração - É o relato de um fato ou acontecimento com personagens. Este estilo de texto exige que o autor crie um enredo para a trama. As narrativas podem ser diretas, quando o autor reproduz as falas dos personagens, e indiretas, quando ele próprio utiliza a fala de um personagem. O texto tem que ser encarado como uma matéria-prima e precisa ser revisto, comparado, discutido. O professor pode fazer atividades do tipo: ● Colocar um trecho de uma história e contar para os alunos, pedindo para que estes a escrevam e depois compararem com a original, verificando o que está diferente, como é o vocabulário usado pelo autor, como se deu o clímax da narrativa. ● Uma outra atividade é dar o final para que o aluno reconstrua a história. ● Fazer histórias coletivas. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 19 ● Partindo de um relato, escrever a história preenchendo as informações que eles não têm. ● Partindo de uma fotografia, escrever uma história. ● Partindo de elementos sonoros fazer uma história de terror, como por exemplo, gritos, sussurros etc. ● Ver um trecho de umfilme e escrever a continuação. ● Ouvir uma música e contar a história. ● Ler uma poesia e contar a história de amor que a gerou. ● Transformar um conto clássico em um outro tipo de gênero, por exemplo, transpor o conto do Chapeuzinho Vermelho em uma história policial, como é o argumento do filme “Deu a louca no Chapeuzinho Vermelho” e, depois, assistir ao filme e conversar sobre o próprio texto em relação ao filme visto. Estas são algumas possibilidades. A criatividade do professor e do aluno, com certeza, criarão outras atividades. Uma outra prática muito usada na escola é a cópia que acaba cumprindo objetivos semelhantes aos da redação. Escrever bem não é um processo perceptual, é uma ação cognitiva. Na atividade de cópia, o professor deve ter um objetivo claro com função social, ou atender a uma necessidade do aluno. Em algumas ocasiões (a cópia) está plenamente justificada: para registrar um texto tal como ficou, finalmente, depois de um processo de construção e discussão coletiva; quando necessitamos escrever um texto perfeitamente correto, por exemplo, ao enviar uma carta, e muito especificamente, quando se trata de “passar a limpo” um texto que foi devidamente revisado e melhorado em classe. Algumas crianças pequenas, num determinado momento de sua evolução, que pode prolongar-se em algumas, sentem um especial prazer na atividade de cópia: é um exercício motor que não requer desgaste cognitivo e que produz um resultado satisfatório para si mesmo, para os pais etc. - é uma demonstração de habilidade. Não há inconveniente em recolher na atividade da classe alguma destas tarefas. No entanto, a atividade de cópia é uma atividade de ordem motora ou de atenção, constância etc., mas não é uma atividade de elaboração de linguagem escrita, já que nela não se produz texto algum. Tem quase a mesma validade, como aprendizagem, que a cópia de desenhos, iluminuras, adornos etc., que podem substituí-la com vantagem. (CURTO, 2000, p.157) Discutimos sobre as diferentes formas de produção textual, cabe ressaltar na finalização, a necessidade de a sala de aula ser uma grande, lúdica e interessante UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 20 oficina de texto. Dá-se, então, a oportunidade aos nossos alunos de fazerem da escrita uma arte, um protesto, uma alternativa. REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica (SEB). Base Nacional Comum Curricular. Brasilia: MEC/CONSED/UNDIME, 2018. Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/ Acesso em: 20 fev. 2023. CURTO, Luís Maruny; MORILO, Maribel Ministral e TEIXIDÓ, Manuel Miralles. Escrever e ler, volume 1 e 2. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000. GERALDI, João Wanderlei e Beatriz Citelli (coordenadores do volumes 1). Da redação à produção de textos. In Aprender e ensinar com textos/ 4. ed. São Paulo: Cortez, 2001. KOCH, I.V. A inter-Ação pela linguagem. 5.ed. São Paulo: Contexto, 2000. p22 http://basenacionalcomum.mec.gov.br/ UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 21 Aula 04_Produção Textual e a natureza do sistema ortográfico da Língua Portuguesa Palavras-chave: Produção de texto; revisão; sistema ortográfico. Textos com erros ortográficos, em uma perspectiva tradicional de ensino, representam um convite a rabiscos vermelhos, o professor considera o erro como algo inadmissível, condenado. O professor sinaliza em vermelho o que precisa ser modificado. É uma tarefa do aluno não cometer esse erro. O que está por trás desta atitude? Que concepção de ensino permeia esse procedimento? Uma metodologia que de fato abandona os alunos. A proposta desta aula é oferecer um outro caminho. Partindo do pressuposto de que revisar é trabalhar o texto, desenvolver, compartilhar estratégias que ajudem o aluno a elaborar gradativamente a produção textual, fornecendo elementos diretos que farão diferença na qualidade do texto. Nesta concepção, o professor não se omite, atua como mediador do processo ensino-aprendizagem. O texto torna-se, juntamente com seus erros, um objeto de análise. Dessa forma, todas as contribuições são bem-vindas e o erro é sinal de investimento. O texto deixa de ser um fim, para ser um elemento constitutivo do processo de elaboração textual. Faz-se necessário construir um histórico do avanço do aluno, para que ele possa identificar seu progresso. O portfólio será trabalhado especificamente em uma aula. O aluno nesta concepção de revisão textual é sujeito ativo: A reescrita deveria ser vista, nesse caso, como atividade de exploração das possibilidades de realização linguística, de tal forma que o instituído pelos cânones gramaticais fosse colocado a serviço desse objetivo maior e, por isso mesmo, passível de releituras e novas formulações. (Jesus, 2001, p. 100) Quando o texto não é só para atender a instância ortográfica, mas centrado no trabalho com gêneros: UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 22 Desse modo, a figura do autor/leitor passa a ser vista como a de um agente mobilizador, cujas palavras são propulsoras de ações historicamente constituídas e, portanto, não podem ser apagadas, corrigidas, substituídas, pontuadas e/ou reelaboradas para atender exclusivamente aos reclamos imediatos da gramática pela gramática. (Jesus, 2001, p. 101) A revisão não deve ser uma atividade ocasional, tem que estar constantemente dentre as atividades planejadas - a elaboração e a reelaboração garantem novos aprendizados. Revisar o texto deve ter uma finalidade. Escrevemos para o entendimento do outro. Ao propor uma atividade de revisão em seu planejamento, o professor deve ter claro qual será a variável que irá focar. Pode ser a ortografia, a gramática, a pontuação, a concordância, a coesão e a coerência. É importante ressaltar que, como estes elementos aparecem colados ao texto, a proposta não é fragmentar o texto para uma revisão. O objetivo é direcionar o olhar para o elemento que o professor quer desenvolver. Os alunos irão perceber e pontuar os erros que encontrarem, pois, o aprendizado é gradual, portanto, eles terão um olhar cada vez mais apurado e crítico na revisão do texto. A revisão textual pode se dar de forma individual, em duplas, em grupo ou até mesmo no coletivo, depende do objetivo do professor. Algumas vezes as crianças têm dificuldades em revisar o texto. Podemos apontar algumas razões, dentre elas: 1. O esforço de escrever, em si é muito grande, cansa e assim experimentam um grande alívio em terminar. 2. O importante é o conteúdo, e o formal é o acessório: “desde que se entenda...”. 3. Se o professor “já sabe” o que quero dizer, para quê? 4. Revisar significa: ▪ Ler o escrito (quase sempre é difícil). ▪ Identificar dúvidas possíveis (pode ser que não tenha nenhuma). ▪ Encontrar soluções satisfatórias (pode ser que não saiba como fazê-lo). ▪ Ter claro o que se pede que corrija (o conteúdo, o estilo, a ortografia, a caligrafia, a apresentação, o formato etc.). (Curto,2000, p.155) UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 23 A questão ortográfica será explorada minuciosamente em outras aulas deste módulo. A revisão textual tem que estar além da ação pedagógica, que minimize a ação conflitiva, que reduza a situação problema. Nossas referências básicas para estudo da norma ortográfica estarão baseadas nos estudos e reflexões do pesquisador Artur Gomes de Morais, professor do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Cabe destacarmos uma primeira questão nos nossos estudos: as modalidades oral e escrita da língua apresentamsemelhança parcial, elas podem ser movidas pelas mesmas intenções, todavia apresentam diferenças. Essas diferenças podem ser determinadas pelas diferentes condições de produção, tais como: a dependência contextual, o grau de planejamento, a submissão consciente às regras convencionadas para a escrita. A forma correta de escrever uma palavra representa uma convenção, algo definido socialmente. A ortografia é uma convenção social voltada para a comunicação escrita. Se cada um escrevesse da forma como fala, nossa comunicação escrita seria “afetada” por nossa pronúncia. Nossa pronúncia é estabelecida de acordo com a região em que residimos, com nosso grupo sociocultural e com a época em que vivemos. As pronúncias são baseadas no contexto em que vivemos e a ele são adequadas, não existe uma pronúncia correta. Se a ortografia é uma norma socialmente construída, não há como nossos alunos aprenderem as questões ortográficas sozinhos. A partir do momento em que nosso aluno passa a compreender que a escrita representa a fala, é capaz de grafar seus textos dentro da hipótese alfabética de escrita. É necessário que a escola invista em um trabalho sistemático sobre ortografia. Toda norma ortográfica é uma norma arbitrária. Segundo Morais (2002, p.14): O fato de algumas questões ortográficas sejam previsíveis e possam ser resolvidas seguindo regras ou princípios gerativos não faz com que deixem de ser algo arbitrado, furto de uma convenção social prescrita como lei para determinada comunidade linguística. Hoje sabemos que quando a criança escreve um texto memorizado ou ditado, costuma apresentar menos erros do que quando escreve um texto espontâneo. Por quê? Isso acontece porque nos dois primeiros casos a carga de trabalho mental é UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 24 menor, a criança precisa apenas grafar o que memorizou ou escutou. Já quando produz seu próprio texto, ela tem que dar conta de várias exigências ao mesmo tempo: selecionar as ideias que colocará no papel, ordená-las e escolher a forma de expressá-las, além de pensar na forma correta de grafar. Corrigir e ensinar não são palavras sinônimas! Nosso trabalho com ortografia deve ser sistemático e intencional. Não é possível sanar todos os erros ortográficos de uma só vez. Nosso papel como professor é identificar a natureza dos erros e propor um trabalho reflexivo a partir das dificuldades detectadas nas produções de nossos alunos. Para compreender nosso sistema ortográfico, o aluno precisa apropriar-se das restrições regulares e irregulares socialmente convencionadas, somente assim ele poderá grafar palavras ortograficamente corretas. Esse aprendizado exige um trabalho cognitivo, de elaboração progressiva de conhecimentos, de tratamento da língua como um objeto de conhecimento. O trabalho com ortografia não é um trabalho passivo dependente da memorização, tornar a ortografia em objeto de conhecimento é nossa tarefa de educador! Na nossa próxima aula estudaremos as características regulares e irregulares da ortografia, buscando assim desvelar esse objeto de conhecimento. Pesquisas desenvolvidas por Ferreiro e Teberosky detectaram que, no processo de aquisição de linguagem escrita, as crianças passam por progressivos níveis de desenvolvimento até se apropriarem da lógica que rege o sistema alfabético de escrita. A partir do momento em que a criança adquire o domínio da base alfabética, ela ainda tem um longo caminho a trilhar, especialmente, se tomarmos como base a análise da natureza dos erros ortográficos. Não podemos afirmar (pesquisas ainda estão em andamento¹) que o progresso da criança com relação à ortografia possa ser caracterizado por um modelo de estágios de desenvolvimento. O que percebemos, através da análise dos erros ortográficos nas produções textuais produzidas por crianças recém- alfabetizadas, é que os erros apresentados são de naturezas distintas: As produções escritas das crianças revelam que erros de naturezas opostas como erros de transcrição de fala em que a escrita registra a própria fala, coexistem num mesmo sujeito com erros de supercorreção, em que generalizações indevidas são realizadas em UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 25 determinadas situações de escrita, por ex. “buli” para “bule” e “cel” para “céu”, respectivamente. Por outro lado, a aquisição de regras ortográficas de natureza semelhante, a exemplo de algumas regras contextuais, não ocorre simultaneamente. (Rego, 2002, p.22) Se os erros apresentados pelas crianças são de natureza diferente, o desafio de propiciarmos desequilíbrios cognitivos também é de natureza distinta, assim, as estratégias que devemos utilizar também deverão ser diferenciadas. Para superar erros distintos, é necessário o uso de diferentes raciocínios. Para melhor compreendermos as dificuldades ortográficas, apresentarei a seguir as distinções feitas por Artur Gomes de Morais (1988) indica que as dificuldades ortográficas podem ser de dois tipos: regulares e irregulares. Dificuldades regulares são aquelas que, em uma regra ou princípio gerador, são capazes de conduzir o “escritor” à grafia correta da palavra (mesmo que nunca tenha lido ou escrito a mesma). O tratamento dessas dificuldades pode ser feito através de diferentes estratégias de ensino que levem a criança a refletir e compreender sobre a regra. Essas dificuldades podem ser divididas em três grupos: regulares diretas, regulares contextuais e regulares morfológico-gramaticais. Também baseada em Morais, Araujo (2003), elaborou o seguinte quadro síntese: Regulares — São as palavras cuja grafia podemos prever e escrever, mesmo sem conhecê-las, porque existe um “princípio gerativo”, regra que se aplica à maioria das palavras da nossa língua. As correspondências regulares podem ser de três tipos: Diretas — Inclui a grafia de palavras com p, b, t, d, f e v (exemplo: pato, bode ou fivela). Não há outra letra competindo com elas, mas é comum a criança ter dificuldade para usá-las por causa do pouco conhecimento da pronúncia. Contextuais — A “disputa” entre o r e o rr é o melhor exemplo desse tipo de correspondência. A grafia que devemos memorizar varia em função do som da letra. Por exemplo: para o som do “r forte”, usamos r tanto no início da palavra (risada), como no começo de sílabas precedidas de consoante (genro). Quando o mesmo som de “r forte” aparece entre vogais, sabemos que temos que usar rr (carro, serrote). E, quando queremos registrar o outro som do r, que alguns chamam de “brando”, usamos só um r, como em careca e braço. Essa variedade explica porque, a princípio, as crianças têm tanta dificuldade. Morfológico-gramaticais — Nesse caso, são os aspectos ligados à categoria gramatical da palavra que estabelecem a regra com base na qual ela será escrita. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 26 Por exemplo: adjetivos que indicam o lugar onde a pessoa nasceu se escrevem com esa (francesa, portuguesa), enquanto substantivos derivados se escrevem com eza (certeza, de certo; avareza, de avaro). Na maioria dos casos, essas regras envolvem morfemas (partes internas que compõem a palavra), sobretudo sufixos que indicam a família gramatical. Em todos os casos que envolvem regularidades é possível ajudar os alunos a compreenderem as regras presentes. Compreender e não decorar! Através da compreensão e internalização das regras, o aluno adquirirá segurança para escrever. Irregulares — Não há regras que ajudem o estudante a escrever corretamente. A única saída é memorizar a grafia ou recorrer ao dicionário. Elas se concentram principalmente na escrita: ● do som do s (seguro, cidade, auxílio); ● do som do j (girafa, jiló); ● do som do z (zebu, casa); ● do som do x (enxada, enchente);● o emprego do h inicial (hora, harpa); ● a disputa entre e, i, o e u em sílabas átonas que não estão no final de palavras (seguro, tamborim); ● ditongos que têm pronúncia “reduzida” (caixa, madeira, vassoura etc.). (Artur Gomes de Morais, 1988) No caso das dificuldades irregulares, não há nenhuma regra que possa ajudar o aluno a resolver suas dúvidas. Nesses casos é importante que o professor auxilie as crianças na tarefa de memorização das palavras mais utilizadas para escrever, e oriente que, em caso de dúvida, restam poucas saídas: perguntar ou recorrer ao dicionário. REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação Fundamental, Secretaria de Educação a Distância. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 27 CURTO, Luís Maruny; MORILO, Maribel Ministral e TEIXIDÓ, Manuel Miralles. Escrever e ler, volume 1 e 2. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000. JESUS, Conceição Aparecida de. Reescrevendo o texto: higienização da escrita. In Aprender e ensinar com textos/ coordenadores do volume 1: João Wanderlei Geraldi e Beatriz Citelli. 4ª edição. São Paulo: Cortez, 2001. MORAIS, Artur. Ortografia: ensinar e aprender. São Paulo: Ática, 1988. MORAIS, Artur. O aprendizado da ortografia. Belo Horizonte: Autêntica, 2002. (Coleção Linguagem e Educação, 4) REGO, Lucia Lins Browne e BUARQUE, Lair Levi. Algumas fontes de dificuldade na aprendizagem de regras ortográficas. In: MORAIS, Artur Gomes de (org.). O aprendizado da ortografia. Belo Horizonte: Autêntica, 2002. (Coleção Linguagem e Educação, 4) UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 28 Aula 05_ Níveis de linguagem e a questão do “erro” Palavras-chave: níveis de linguagem; texto; contexto. A escola é lugar de muitos textos. Eles estão nos corredores, nos banheiros, na cantina, na secretaria e na sala de aula! Quando o professor tiver a oportunidade de tratar da língua portuguesa em aula deve fazer de modo a levar os alunos a refletirem sobre o que é “erro”. Antes de avançarmos, procure definir o que é cometer erros em língua portuguesa. Como você vê essa questão? Quando e em que contextos pode-se afirmar que alguém comete um erro gramatical? Responda a essas questões, pensando nos usos sociais que você faz da língua portuguesa! Se você respondeu que o erro em língua portuguesa corresponde a problemas na correção gramatical, é possível que você esteja correto ou não. Por quê? Porque não se pode pensar em erros sem pensar no contexto da linguagem. O que isso quer dizer? Quer dizer que não há o erro, mas há a inadequação da linguagem ao contexto. Se pensarmos no Chico Bento conversando com a sua professora, o que diríamos: ele fala errado? Figura 01: Charge do Chico Bento Disponível em: https://catracalivre.com.br/criatividade/muitas-tirinhas-da-turma-da-monica- para-se-esbaldar/ Acesso em: 30 mar. 2023. Não, Chico Bento não fala errado. Se ele escrevesse um texto argumentativo para um jornal com a fala que proferiu à professora, sim, poderíamos afirmar que ele cometera um erro, porque a linguagem (registro oral) não foi adequada ao contexto https://catracalivre.com.br/criatividade/muitas-tirinhas-da-turma-da-monica-para-se-esbaldar/ https://catracalivre.com.br/criatividade/muitas-tirinhas-da-turma-da-monica-para-se-esbaldar/ UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 29 (texto argumentativo, com registro formal). A isso se dá o nome de Níveis de Linguagem. Pensemos no whatsapp e em como se organiza uma comunicação dinâmica como a que essa rede social comporta. Essa é uma típica conversa informal entre mãe e filho: Figura 02: Fotografia de tela de whatsapp Fonte: produção autoral da fotografia. Vocês conseguem imaginar uma professora universitária escrevendo kkkkkkkkkk, bj, usando emojis e brincando com a linguagem (demorei um tempão para descobrir o sentido de “Vlw”.)? Acho que conseguem, afinal, vocês também usam a língua do Whatzapp, não é mesmo? E está errado? Não, claro que não. Os usos sociais da língua portuguesa em uma comunicação ágil e informal como a que o whatsapp veicula permite e até requer um tipo de comunicação específico. Não, há, pois, erro a ser considerado. Ao contrário, entende-se que cada suporte modele, também, a maneira como o texto será produzido, entendendo-se que o conceito de texto não se resume aos verbais. Contemplando a BNCC (2017), é função da escola contemplar as tecnologias digitais em sala de aula, a fim de que seja possível aos alunos construírem um olhar crítico e criativo sobre as novas formas de comunicação. Desenvolver o papel de mediador das relações de ensino e de aprendizagem dos diversos textos sociais é função do professor, que deve estar amparada em uma rede de sequências didáticas e projetos significativos. Pensar na cultura digital é, também, explorar os gêneros UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 30 usados no dia a dia dos alunos. Nesse contexto, não é possível banir da sala de aula as várias linguagens das quais ela é feita. Ao contrário, somente a partir do momento em que os usos sociais e cotidianos da língua portuguesa podem ser objeto de análise dos alunos é possível pensar na aprendizagem da língua portuguesa. Por isso, não é possível privilegiar determinadas formas de comunicação em detrimento de outras, assumindo algumas como se tivessem mais valor. É preciso que o professor privilegie tanto textos veiculados, por exemplo, em jornais, enciclopédias, livros didáticos, quanto veiculados pelo Instagram, Twiter, Podcast. Abordar os diversos níveis de linguagem é traçar possiblidades de construir saberes em torno das linguagens, valorizando, sim, suas especificidades. Isso não quer dizer, entretanto, que o professor não deva orientar o olhar do aluno para que ele consiga adequar as inúmeras linguagens a seus devidos contextos. Ao contrário, o professor, a todo tempo, deve desenvolver o olhar crítico dos alunos para que eles consigam adequar cada expressão verbal a seu público, contexto, demanda, intencionalidade. Engana-se, pois, quem afirma que um texto não deva ser corrigido. O texto deve sim ser corrigido, mas sempre em relação a sua intencionalidade, público, contexto, como mencionado acima. REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação Fundamental, Secretaria de Educação a Distância. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. CARVALHO, Carmen Silvia. Manual do professor – Língua portuguesa 2ª série. Disponível em: http://www.aticaeducacional.com.br/htdocs/Com- plementos/complementos.aspx (Os manuais da coleção Construindo a Escrita) CATRACA LIVRE. Muitas tirinhas da Mônica para se esbaldar. Disponível em: Disponível em: https://catracalivre.com.br/criatividade/muitas-tirinhas-da-turma-da-monica- para-se-esbaldar/ Acesso em: 30 mar. 2023. NOVA ESCOLA. Propostas em Língua Portuguesa da BNCC na Gramática e nos Gêneros Digitais (2017). Revista Nova Escola. Disponível em: https://novaescola.org.br/bncc/conteudo/22/propostas-em-lingua-portuguesa-da- bncc-focam-na-gramatica-e-nos-generos-digitais. Acesso em: 30 mar. 2023. http://www.aticaeducacional.com.br/htdocs/Complementos/complementos.aspx http://www.aticaeducacional.com.br/htdocs/Complementos/complementos.aspx https://catracalivre.com.br/criatividade/muitas-tirinhas-da-turma-da-monica-para-se-esbaldar/ https://catracalivre.com.br/criatividade/muitas-tirinhas-da-turma-da-monica-para-se-esbaldar/ https://novaescola.org.br/bncc/conteudo/22/propostas-em-lingua-portuguesa-da-bncc-focam-na-gramatica-e-nos-generos-digitais https://novaescola.org.br/bncc/conteudo/22/propostas-em-lingua-portuguesa-da-bncc-focam-na-gramatica-e-nos-generos-digitaisUNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 31 Aula 06_Trabalho em Grupo e o uso do dicionário Palavras-chave: agrupamentos produtivos; grupos; dicionário. A interação é um dos principais elementos da ação pedagógica que privilegia o aluno como protagonista do processo. Partindo dos pressupostos teóricos de Vygotsky, que trata da zona de desenvolvimento proximal, os alunos, trabalhando em duplas, em grupos ou até mesmo no coletivo, podem mediar o processo de ensino-aprendizagem. Neste contexto, o trabalho em grupos torna-se uma excelente estratégia pedagógica. Em uma aula em que alunos do 2º ano do Ciclo I estavam no laboratório de informática fazendo um livro eletrônico, a professora tentava ensinar o comando de abrir uma pasta para retirar as imagens e inserir no documento. Explicou a barra de ferramentas, mostrou o ícone, mas havia um aluno que não conseguia entender. Um outro aluno que se encontrava próximo dele levantou-se, foi para perto e disse para o colega que estava com dificuldades: ● Você está vendo o disquetinho? É o ícone do lado esquerdo. Conclusão: naquele momento entendi que as crianças encontram soluções, entre si, muito mais rápidas que as longas explicações do professor. Neste dia, sentei-me e escrevi um projeto de monitoria, no qual, os alunos se inscreveriam e poderiam ajudar os colegas. Foi um tremendo sucesso, aprendi com meus alunos em muitas outras oportunidades. ...hoje em dia, os professores concordam que a interação contribui para que os alunos possam tomar consciência do ponto de vista dos demais, para que aprendam a negociar e, se necessário a renunciar a suas próprias posições, ou a postergar a satisfação de seus interesses pessoais em benefício de um objetivo coletivo, também admitem que assim os alunos estabelecem uma série de laços inter- relacionados que conduzem a uma verdadeira construção conjunta: exploram, propõem, retificam, integram aquilo que diz o colega, regulam suas ações, apresentam argumentos a suas propostas para que o outro as entenda etc., tudo isso, com o objetivo de alcançar uma meta comum. Essas colocações foram formuladas e confirmadas por Anne-Nelly Perret-Clermont, que afirma: Em determinadas condições, uma situação de interação social que requer que os sujeitos coordenem entre si as suas ações ou que UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 32 confrontem seus diversos pontos de vista pode produzir uma consequente modificação da estruturação cognitiva individual. (NEMIROVSKY, 2002, p.53) A troca entre os alunos propicia a construção do conhecimento que vai do âmbito coletivo para o individual. Para trabalhar em grupos, não basta que os alunos estejam sentados próximos uns dos outros. Esta aprendizagem não é natural nos alunos. É muito comum observarmos, no trabalho em grupo, um ou dois alunos realizarem a tarefa e os outros serem meros coadjuvantes. Um número excessivo de alunos para a tarefa também pode dificultar a divisão de responsabilidades entre os alunos. A proposta tem que ser desafiadora a ponto de o grupo precisar de toda a contribuição possível. O professor precisa estar atento e estimular a participação de todos. A escolha dos membros do grupo pode atender desde o critério de afinidade, de grupo produtivo, ou por escolha dos próprios alunos, mas uma vez tomada esta decisão, ela deve estar atrelada ao objetivo estabelecido pelo professor. É essencial que os alunos se sintam confortáveis com a escolha e que trabalhem bem. No início, os alunos podem resistir e querer trabalhar somente com os amigos mais próximos. Cabe ao professor desmistificar a crença de que só é bom fazer atividades com os mais próximos. Nas atividades, o professor deve trabalhar conceitos atitudinais que façam a classe se sentir em comunidade ou, como diria Paulo Freire: “em comunhão”. Com as ferramentas tecnológicas, como a Internet, fica cada vez mais fácil trocar informações com alunos de outros bairros, cidades, estados, ou até mesmo, de outros países. Atividades que façam os alunos interagirem com outra classe da escola são excelentes estratégias para trabalhar a oralidade, por exemplo. O e-mail é outra fonte de conexão interclasses, por exemplo, imagine que as crianças vão fazer parte de um projeto em que deverão produzir um texto apresentando sua cidade para crianças de uma classe em outro estado. Esta atividade pede a elaboração conjunta da classe e há um interlocutor virtual, mas real. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 33 A autoavaliação durante a realização das tarefas é um sinalizador para que o aluno perceba o quanto melhorou ou precisa melhorar na inter-relação. Com esta estratégia o aluno percebe-se na tarefa e pode refletir sobre suas atitudes. Abaixo segue um exemplo de ficha de autoavaliação do trabalho em grupo: Coloque um x na coluna que você acredita que represente o item avaliado Figura 01 – Autoavaliação Fonte: Magia. Disponível em: magiagifs.com.br Acesso em: 03 mar. 2022. O ensino da Língua Portuguesa está centrado na aceitação de ideias, na negociação, na autonomia e todas essas características são fundamentais para o desenvolvimento do conhecimento da Língua. Só serão desenvolvidas atividades vivenciais, reais se o aluno aprender com o outro e vice-versa. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 34 Diz o dito popular que o dicionário é o “pai dos burros”. Nesse caso, temos a ressaltar que tal dito é infundado, pois para utilizarmos com competência o dicionário é necessário que tenhamos autonomia e vários conhecimentos. Quando nós, adultos escolarizados, manipulamos um dicionário não nos damos conta de quão complexa é essa tarefa e de que o uso do dicionário requer do seu usuário um profundo conhecimento da língua. Interagindo com esse objeto de conhecimento nos apropriamos do que precisamos saber para utilizá-lo e aprendemos ainda mais com ele. De acordo com MORAIS (1988, p.113), para utilizar o dicionário, a criança precisa saber: Que dentro daquele “livro” as palavras estão sequenciadas segundo suas letras (iniciais e seguintes); Que, ao consultar a ortografia de uma palavra, o significado (ou acepção) é um critério fundamental para checar se o verbete que está lendo é a palavra que quer escrever; Que várias palavras (todos os vocábulos que têm flexões de número, gênero, grau; pessoa ou tempo no caso dos verbos) não aparecem listadas no dicionário e que o único modo de encontrá-las é procurando suas formas não-flexionadas. Finalmente, quando vier a compreender certas siglas (s. = substantivo, v. = verbo etc.), o aprendiz poderá ser ainda mais eficaz em suas operações de consulta. Creio ser importante, desde a educação infantil, criar oportunidades para que as crianças percebam a importância do uso do dicionário. Com crianças pequenas, que não têm condição de consultá-los autonomamente, é possível conviver com ele, ao ver, por exemplo, a professora consultá-lo em busca do significado de palavras desconhecidas encontradas nas histórias que estiverem trabalhando, dessa forma é possível aproximar os “pequenos”, desde cedo, da finalidade desse “livro”. Ao ingressar no primeiro ano, e gradativamente, é necessário incluirmos atividades que reflitam sobre o uso do dicionário. Um dos primeiros objetivos de trabalho com dicionário é o de descobrir que sua organização é por ordem alfabética; descobrir a estrutura da organização; desenvolver recursos de busca rápida (se não houver agilidade na consulta, o dicionário torna-se um problema e não, uma solução). Outros objetivos que podem ser desenvolvidos no decorrer dos demais anos são: trabalhar simultaneamente com dedução de sentido pelo contexto e com UNIVERSIDADE METROPOLITANADE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 35 polissemia; descoberta de palavras no plural, no feminino e a utilização do dicionário como recurso de descoberta do significado; descobrir que o dicionário informa a classe gramatical das palavras; verificar que ele informa a maneira como a palavra se formou e sua origem; utilizar o dicionário como fonte de pesquisa ortográfica para verificar se as descobertas ortográficas feitas nos processos reflexivos são válidas; descobrir os símbolos e as informações gerais que o dicionário traz. São diversas as atividades que podem auxiliar nessa tarefa. Seguem abaixo algumas, como exemplos: ● Organizar listas que tenham por objetivo levar a criança a descobrir e treinar a ordem alfabética em situações do dia a dia em que, efetivamente, ela é usada como critério de organização. Exemplos: listas de livros – como nas livrarias; lista de ruas – como num guia de rua; lista de assuntos encontrados em enciclopédias; lista com nomes de alunos; lista telefônica, com nome dos assinantes, o endereço e o número do telefone. ● Criar jogos de sequenciação de palavras (também ligadas a temas significativos) conforme a ordem interna das letras. ● Jogos para desenvolver a velocidade na pesquisa do dicionário. Exemplo: o professor diz uma palavra e todos os alunos procuram no dicionário. Os três primeiros que encontrarem a palavra contam aos outros como fizeram para achá-la. Stop de dicionário: o professor fala uma palavra, todos começam a procurá- la e o primeiro que achar fala stop. Os outros param e ele avisa a página em que a palavra se encontra. ● Escrevendo palavras: como atividade de lição de casa: o professor pode propor aos alunos que encontrem uma determinada palavra no dicionário e copiem a palavra anterior e a imediatamente posterior a ela, além de registrarem a página em que se encontraram. ● Usando a curiosidade: as crianças costumam gostar de brincar de procurar palavras diferentes ou estranhas no dicionário, pela curiosidade que têm diante do novo. Podemos pedir que elas abram o dicionário aleatoriamente e encontrem palavras que acham engraçadas ou estranhas. Depois de encontrar, podemos fazer uma atividade em que um aluno diz a palavra e os outros imaginam o seu significado, e só depois verificam o que realmente UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 36 significa. Essa atividade proporciona ampliação de vocabulário e prepara as crianças para trabalharem a descoberta por dedução. Outros caminhos podem estimular a preocupação em ler as definições do dicionário. Penso, por exemplo, no tipo de reflexão embutido nos jogos de “cruzadinhas” (palavras cruzadas), nas quais as crianças se deparam com definições idênticas às dos dicionários e devem adivinhar as palavras (isto é, os verbetes). Assim, elas vivenciam sentido inverso à relação palavra- significado e, além disso, começam a conviver com outras pistas linguísticas sobre a natureza das palavras que estão procurando (por exemplo, quando se defrontam com abreviatura com “s.f.” para substantivo feminino, ou “v.”, para verbos). (MORAIS, 1988, p.117) Cabe ao professor estimular uma atitude de dúvida e antecipação nas crianças para que elas tenham “necessidade” de interação com o dicionário. Assim, é fundamental que aproveitemos as situações em que, coletiva ou individualmente, os alunos sejam estimulados a consultarem o dicionário. As situações de produção de texto são espaços privilegiados para esse trabalho, quando, por exemplo, somos perguntados sobre a grafia de determinada palavra ou quando efetuamos a leitura de um texto. O importante é que o uso do dicionário não se limite às tarefas de “busca de palavras” e se amplie para os momentos de atividades como as de produção e reflexão sobre a língua. É certo que há dicionários on-line, que podem e devem ser acessados pelos alunos. Porém, essa ação deve se dar a partir do momento em que eles conseguem compreender a lógica que o rege, o que, como se sabe, não é tarefa fácil. Para que os estudantes usem de modo competente o material disponível na internet também é preciso que saibam diferenciar os sites confiáveis dos não confiáveis, o que não é tarefa simples, ainda mais se pensamos nos primeiros anos. Por isso, vale investir tempo e energia no manuseio do livro físico, tornando-o um objeto de investigação e de aprendizagem. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 37 REFERÊNCIAS DICIONÁRIO MICHAELIS. Disponível em: http://michaelis.uol.com.br/ moderno/portugues/index.php?lingua=portuguesportugues&palavra=revisão. Acesso em: 30 mar. 2023 DICIONÁRIO MICHAELIS. Disponível em: http://michaelis.uol.com.br/ moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=poesia. Acesso em: 30 mar. 2023. MAGIA GIFS. Disponível em: www.magiagifs.com.br. Acesso em: 03 mar. 2022. MORAIS, Artur Gomes de (org.). O aprendizado da ortografia. Belo Horizonte: Autêntica, 2002. (Coleção Linguagem e Educação, 4) MORAIS, Artur. Ortografia ensinar e aprender. São Paulo: Ática, 1988. NEMIROVSKY, Myriam. O ensino da Linguagem Escrita. Porto Alegre: Artmed, 2002. TEBEROSKY, Ana e COLOMER, Teresa. Aprender a ler e a escrever: uma proposta construtivista. Porto Alegre: ArtMed, 2003. ZABALA, Antoni. A prática educativa: como ensinar. Porto Alegre: ArtMed, 1998. http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portuguesportugues&palavra=revis%C3%A3o http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portuguesportugues&palavra=revis%C3%A3o http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portuguesportugues&palavra=revis%C3%A3o http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=poesia http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=poesia http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=poesia UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 38 Aula 07_Gêneros Textuais e multimodalidade discursiva Palavras-chave: gêneros textuais; multimodalidade discursiva; tipos de texto. Valorizar a centralidade no texto para o ensino da língua portuguesa significa refletir sobre os gêneros textuais que são usados pelos alunos. Fica-nos uma pergunta, qual o problema com os textos tradicionalmente trabalhados nas escolas? Penso que a principal questão é que os textos tradicionalmente trabalhados nas escolas nada acrescentam ao trabalho com a leitura e a escrita, pelo fato de tratarem de maneira idêntica qualquer texto, desconsiderando suas especificidades e intenções. Quando nos referimos aos gêneros textuais, estamos nos referindo a: ● Diferentes formas de linguagem sejam elas mais formais ou informais. ● Tipos específicos de textos, de naturezas diversas, literários ou não (um romance, um artigo de opinião, uma receita culinária, um debate na televisão). ● Todos os gêneros textuais são caracterizados por funções específicas e organização retórica mais ou menos típica. ● São reconhecidos por características funcionais e organizações que exibem e são reconhecidos pelo contexto em que são usados. ● Podem aparecer tanto na forma oral quanto na escrita. ● Representam a forma como a língua se organiza nas inúmeras situações de comunicação vivenciadas no dia a dia. ● São instrumentos de comunicação. Todas as pessoas usam gêneros textuais para se comunicar – nossos textos orais ou escritos apresentam um conjunto de características estáveis, tenhamos ou não consciência delas. O fato de sermos usuários das características de alguns gêneros nos habilita para que possamos aprenderoutros e mais outros gêneros, de forma infinita. A escolha de um gênero não se dá de forma “gratuita”, optamos pelas características de um ou de outro, de acordo com nossas intenções comunicativas: ● Com quem estamos falando. ● Com que finalidade estamos falando. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 39 ● Sobre o que estamos falando. Por exemplo, fazemos uso de um texto narrativo, se estamos contando uma história; fazemos uso de um texto instrucional, se queremos ensinar a regra de um jogo ou uma receita culinária; fazemos uso de um texto argumentativo, se queremos convencer alguém. Aqui cabe uma distinção: os tipos de texto são caracterizados por uma forma de organização definida por sua organização linguística de composição. Existem em número limitado e têm como finalidade produzir um efeito específico entre os usuários da língua, por exemplo: narrar, relatar, argumentar, expor, descrever, instruir. Já com relação a gêneros textuais, são construídos historicamente pelas práticas sociais. Existem numa diversidade de textos, numa variedade imensa (são praticamente ilimitados), são relativamente estáveis e, para fim de análise, podem ser divididos em: ● Unidade composicional: forma particular dos textos pertencentes ao gênero. ● Unidade temática: o que é dizível ou pode se tornar dizível, por meio do gênero. ● Estilo: seleção feita pelo autor de recursos da língua (de vocabulário e gramaticais) tendo em vista o gênero. Gêneros textuais existem numa variedade imensa, a título de exemplo, reparem no quadro abaixo: Figura 02 – Tabela de gêneros textuais e modalidades discursivas Fonte: www.magiafifs.com.br Acesso em 02 fev. 2022. http://www.magiafifs.com.br/ UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 40 Quanto mais gêneros textuais dominarmos, maior será nosso poder de comunicação e inserção social, portanto, maior será nossa cidadania. Os gêneros digitais devem ser, também, motivo de reflexão em sala de aula. A BNCC (2017) afirma que ferramentas como o Whatsapp, Messenger podem funcionar em aulas diversas, indo de propostas para produção textual até mesmo à leitura. Ampliando as discussões iniciadas na aula anterior, destacamos que os gêneros em língua portuguesa são praticamente infinitos, isso ocorre porque cada forma de linguagem vivida no cotidiano (formal ou informal) detém características que lhes são próprias. Adotamos, no decorrer de nossa vida, infinitos papéis: ora somos amigos, ora somos filhos, ora somos alunos, ora somos trabalhadores e em cada interação assumimos lugares diferentes do ponto de vista da produção de linguagem. As situações de comunicação mudam constantemente e uma mesma pessoa pode usar diferentes situações comunicativas, conforme seu papel social naquele momento. Se toda forma de comunicação é feita por meio de gêneros, ampliamos nossa capacidade de comunicação quando dominamos diferentes gêneros. Muitos são aprendidos em situações do nosso cotidiano. Outros gêneros, porém, exigem um ensino sistematizado, e é aqui que entra o papel da escola: organizar o estudo de gêneros mais formais. O trabalho do professor em Língua Portuguesa, quando feito pelas perspectivas dos gêneros, não só amplia, diversifica e enriquece a capacidade dos alunos em produzir textos orais e escritos, como também amplia suas oportunidades de inserção social e participação como cidadão. É possível considerarmos o trabalho com gêneros como um instrumento através do qual é possível exercer uma ação linguística sobre a realidade. Quando trabalhamos dessa forma, possibilitamos a ampliação das capacidades individuais da criança e de seu conhecimento sobre o objeto de conhecimento – o gênero estudado. Por exemplo: UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 41 Ao estudarmos o gênero bilhete, ampliamos junto de nossos alunos a capacidade de reconhecimento das características do objeto de estudo e também o domínio cada vez maior da leitura e da escrita desse gênero. Se somos capazes de redigir uma carta, bilhete, telegrama, é porque esses gêneros existem e tivemos oportunidade de interagir com eles. Nossas ações sempre estão voltadas para ações que “existem” socialmente. Dito de outra forma: toda produção é elaborada buscando responder as seguintes questões: quem produziu o texto, quem é o leitor, qual a finalidade, qual é o momento histórico-social e qual gênero pode ser adotado para que essa comunicação seja efetiva? Os gêneros textuais de que fazemos uso nos foram transmitidos sócio- historicamente e os utilizamos de acordo com as interações que se fazem necessárias. Cada gênero pode ser identificado pelos alunos, a partir das suas características – relativamente estáveis – e da sua funcionalidade: como se estrutura uma notícia de jornal? Para que serve uma notícia de jornal? Quais as diferenças entre uma notícia de jornal e um bilhete, por exemplo? E entre uma notícia de jornal e uma fábula? Privilegiando os usos socialmente frequentes do público-alvo, como afirma a BNCC (2017), cabe ao professor conhecer o perfil do seu alunado e, a partir de sondagens frequentes, selecionar os gêneros que mais circulam entre os alunos, sem abrir mão, entretanto, de proporcionar a eles reflexão sobre os gêneros que lhes serão mais solicitados ao longo da vida. Se pensarmos no “chão da escola”, diria que o conhecimento e o domínio dos diferentes gêneros textuais por parte do aluno, não só o prepara para distintas práticas linguísticas, como também amplia sua compreensão da realidade, apontando formas concretas de participação como cidadãos, que podem criar, com as palavras e com os gêneros, objetos de arte para fruição estética e reflexão crítica, como: o poema, a crônica, o conto e as narrativas de ficção em geral. Refletindo a partir do já exposto, pensamos que as atividades propostas em sala de aula poderão ser organizadas no formato de sequência didática, projetos, planos de aula, elaborados por meio da aproximação gradativa ao gênero estudado e garantindo que, ao final do estudo, os alunos sejam capazes de produzir um texto de acordo com o gênero estudado. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 42 Para elaborar um planejamento de trabalho com um determinado gênero textual, através de uma sequência didática, é preciso respeitar as etapas descritas: 1. Conversar com os alunos buscando identificar o que já conhecem sobre o gênero. 2. Pedir aos alunos uma escrita inicial (sem dar maiores pistas sobre o gênero): por meio dessas duas atividades será possível elaborar um diagnóstico do que as crianças já sabem sobre o gênero escolhido. 3. Apresentar produções de qualidade sobre o gênero em estudo (os alunos e/ou o professor efetuam as leituras) 4. Pesquisas sobre o gênero em estudo (as crianças trazendo mais informações). 5. Estudo das principais características do gênero. 6. Produção coletiva, tendo o professor como escriba (esse tipo de atividade é importante, pois o professor pode chamar atenção para as características do gênero e a produção textual). 7. Produção individual utilizando as características estudadas. 8. Revisão de texto (possibilidade de aprimorar o trabalho desenvolvido). Lembre-se: como nosso principal objetivo é o de possibilitar interações sociais, devemos incentivar a produção centrada nas características de funcionamento da língua, situada num contexto histórico determinado. No ambiente escolar, a produção de textos deve ser desenvolvida através da realização de atividades mentais de planejamento e execução – o que só pode ser feito se conhecermos as características do objeto de estudo, o gênero escolhido! Os gêneros textuais são ações discursivas para agir edizer sobre o mundo, constituindo-o. O trabalho com gêneros textuais é uma importante oportunidade de lidarmos com a língua em seus diversos usos, pois todas nossas interações linguísticas são um gênero. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 43 REFERÊNCIAS DOLZ, J. & SCHENEUWLY, B. Os gêneros escolares: das práticas de linguagem aos objetos de ensino. mai-ago,1999 Nº 11 (pp. 05-16). Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/5766725/mod_resource/content/1/SCHNEU WLY%20E%20DOLZ%20g%C3%AAneros%20escolares.pdf Acesso em: 30 mar. 2023. GOMEZ, Margarita Victoria. Educação em rede: uma visão emancipadora. São Paulo. Cortez: Instituto Paulo Freire, 2004 KOCH, I.V. A inter-Ação pela linguagem. 5.ed. São Paulo: Contexto, 2000. MAGIA GIFS. Disponível em: www.magiagifs.com.br. Acesso em: 03 mar. 2022. MORAIS, Artur Gomes de (org.). O aprendizado da ortografia. Belo Horizonte: Autêntica, 2002. (Coleção Linguagem e Educação, 4) MORAIS, Artur. Ortografia ensinar e aprender. São Paulo: Ática, 1988. NEMIROVSKY, Myriam. O ensino da Linguagem Escrita. Porto Alegre: Artmed, 2002. https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/5766725/mod_resource/content/1/SCHNEUWLY%20E%20DOLZ%20g%C3%AAneros%20escolares.pdf https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/5766725/mod_resource/content/1/SCHNEUWLY%20E%20DOLZ%20g%C3%AAneros%20escolares.pdf UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 44 Aula 08_Os tipos de texto e o gênero conto Palavras-chave: ensino; textos; leitores. É por meio do trabalho com textos que podemos ampliar a capacidade leitora de nossas crianças. Consideramos texto, toda unidade completa de sentido, inserida dentro de uma situação comunicativa determinada, que contenha as seguintes propriedades: adequação ao contexto significativo a que se propõe, coerência temática e estrutural, coesão entre seus elementos linguísticos e correção ortográfica e gramatical. O contato com o texto só é significativo quando aliado ao uso da língua com finalidade comunicativa. Para tanto, todo texto deve ter um emissor e um receptor determinado, inseridos dentro de uma situação comunicativa real. Na aula 10, definimos como modalidades discursivas, as características linguísticas de composição que determinam as funções comunicativas que cada tipo de texto expressa. Cabe ressaltar que entre os textos que geralmente circulam entre nós, existem muito poucos que realmente sejam “puros”; assim, surgem os gêneros textuais, detendo características voltadas ao uso que fazemos do texto – sua função social. Para clarear o que acabamos de expor, descreverei a seguir uma classificação que busca relacionar tanto o tipo de texto (sua modalidade discursiva), quanto os domínios sociais em que os mesmos aparecem, adicionando exemplos de gêneros orais e escritos que se relacionam. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 45 Figura 03 – Modalidade discursiva e gêneros UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 46 UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 47 Fonte: Magia Gifs Assim como usamos o garfo para comer e o machado para cortar árvores, usamos gêneros como ferramentas para nos comunicarmos. A proposta de trabalho em Língua Portuguesa a partir de gêneros textuais implica apropriar-se de um instrumento de ação discursiva, ou seja, apropriar-se de uma ação entre sujeitos, exercendo uma atividade de linguagem. Aprender a falar e a escrever, então, é apropriar-se de instrumentos para realizar essas práticas em situações discursivas diversas. Nas nossas próximas aulas, exploraremos mais a fundo as características de alguns gêneros discursivos trabalhados no primeiro ciclo do ensino fundamental. O objetivo é nos apropriarmos das principais características de alguns gêneros; o formato é semelhante para cada gênero que “escolhermos” trabalhar. Era uma vez... Quando nós éramos crianças e ouvíamos essa frase, imediatamente sabíamos que iríamos ouvir belas histórias. Histórias de medo, alegres ou tristes. Essas histórias configuram o tema de nossa aula, ou seja, os textos narrativos. Em nossa sociedade, este tipo de texto faz parte da cultura literária e de ficção. Muitas vezes recriam o mundo das ideias, imitando a vida. Exemplo de gêneros orais e escritos, que tratam da modalidade discursiva - Narração. ● Contos maravilhosos/ de fadas ● Fábula/ lenda UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 48 ● Narrativa de aventura ● Narrativa de ficção científica ● Narrativa de enigma/ narrativa mítica ● História engraçada ● Biografia romanceada ● Romance/ Romance Histórico/ Novela ● Piada/ Adivinha/ Paródia ● Book trailers. Estes tipos de textos estão presentes em nossa vida. Com esta aula darei início a uma sequência que tratará especificamente de alguns desses temas e discutiremos suas características, para agregá-los às aulas de forma contextualizada e estimulante para os alunos. Os textos são tratados como fonte de conhecimento e ao mesmo tempo um entretenimento, uma viagem inigualável. Qual a diferença de estar em uma sala de aula com esta sistemática e em outra que trata o texto narrativo como uma matéria do currículo a ser dada? Diria que é a concepção de ensino-aprendizagem, que norteia que tipo de alunos que eu quero formar, se eu trabalho para a conscientização ou para a adequação. A palavra e o texto estão a serviço da transformação coletiva ou para a manutenção de uma minoria, como detentora do conhecimento. Neste sentido, o ensino da Língua Portuguesa deve privilegiar o acesso, mas ao mesmo tempo, olhar para o texto, focar suas características, quais são as especificidades que o definem. Essa é uma construção que a criança deve protagonizar. Para que o professor seja um bom mediador desta trajetória, faz-se necessário conhecer as características deste tipo de texto. Funções: ● Induzir no leitor sentimentos e emoções especiais. ● Entretenimento e diversão. ● Comunicar fantasias ou fatos extraordinários. ● Lembrança de acontecimentos e emoções vividos pelo grupo e pela própria pessoa. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 49 ● Transmitir valores culturais, sociais e morais. Modelos: ● Contos, narrações, lendas etc. ● Poesias, refrãos, canções, adivinhações etc. ● Teatro, fantoches etc. ● História em quadrinhos e gibis. ● Book trailers. ● Podcast. Conteúdos: ● Fórmulas consagradas de começar e terminar contos de princípio e fim (Era uma vez...). ● Descrições de personagens e situações, ambientes etc. ● Narração de fatos vividos ou fantásticos. ● Comunicação de sentimentos e emoções. ● Construção de enredos significativos para o público-alvo. Formatos: ● Composição de textos e imagens em forma de livro, com capa etc. ● Valorização da pontuação para diferenciar a narração do diálogo, por exemplo. ● Possível utilização com outros recursos expressivos: teatro, música, dança, audiovisuais etc. ● Usos das novas tecnologias como apoio em efeitos sonoros. ● Podcast, vídeos. Gramática: ● Contos e narrações: formas sintáticas em 3ª pessoa. Verbos no passado. Formas de discurso direto na 1ª pessoa. Diálogos. Figura literária etc. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 50 REFERÊNCIAS DOLZ, J. & SCHENEUWLY, B. Os gêneros escolares: das práticas de linguagem aos objetos de ensino. mai-ago,1999 Nº 11 (pp. 05-16). Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/5766725/mod_resource/content/1/SCHNEU WLY%20E%20DOLZ%20g%C3%AAneros%20escolares.pdfAcesso em: 30 mar. 2023. GOMEZ, Margarita Victoria. Educação em rede: uma visão emancipadora. São Paulo. Cortez: Instituto Paulo Freire, 2004 KOCH, I.V. A inter-Ação pela linguagem. 5.ed. São Paulo: Contexto, 2000. MAGIA GIFS. Disponível em: www.magiagifs.com.br. Acesso em: 03 mar. 2022. MORAIS, Artur Gomes de (org.). O aprendizado da ortografia. Belo Horizonte: Autêntica, 2002. (Coleção Linguagem e Educação, 4) MORAIS, Artur. Ortografia ensinar e aprender. São Paulo: Ática, 1988. NEMIROVSKY, Myriam. O ensino da Linguagem Escrita. Porto Alegre: Artmed, 2002. https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/5766725/mod_resource/content/1/SCHNEUWLY%20E%20DOLZ%20g%C3%AAneros%20escolares.pdf https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/5766725/mod_resource/content/1/SCHNEUWLY%20E%20DOLZ%20g%C3%AAneros%20escolares.pdf UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 51 Aula 09_Fábula, poema e gêneros jornalísticos Palavras-chave: fábula; poema; gêneros jornalísticos. Na aula passada, falamos sobre os contos e sua importância. Esta aula dará sequência a cada tipo de gênero. Depois dos contos, veremos como se estruturam e o que são as fábulas. Iniciamos nossa série pelas fábulas A palavra fábula é latina, e vem do verbo fabulare, que significa conversar, narrar. É dela que vem o verbo português “falar”. O primeiro dos fabulistas foi Esopo. Ele nasceu na Grécia Antiga e teve alguns seguidores, como o romano Fedro, que escreveu “A rã e os bois” e “O lobo e o cordeiro”, entre outros contos. A origem das fábulas foi a crítica ao comportamento humano. Os animais eram alusões aos humanos. A fábula contém no título os participantes da história e sempre traz uma moral. Uma das maiores críticas ao trabalho com fábulas na escola, é que os professores a utilizam para moralizar as aulas e moral não se constrói por imposição. Não adianta falar sobre a inveja, se o trabalho em sala de aula não privilegia um comportamento solidário, colaborativo. Esse tipo de trabalho reduz a grandiosidade das fábulas. São histórias que atravessaram o tempo e ainda mantêm sua contemporaneidade. As fábulas eram críticas sociais feitas com sagacidade e humor. Falava-se das mazelas de uma sociedade. Usar as fábulas para moralizar as aulas é um contrassenso. Este gênero, bem trabalhado em sala de aula, pode dar uma criticidade e flexibilidade aos textos dos alunos. É importante compartilhar com os alunos a origem das fábulas para que estes compreendam o sentido do trabalho. Dessa forma, os alunos podem ampliar sua visão de mundo, conversar e escrever sobre as virtudes e defeitos dos seres humanos, num trabalho riquíssimo que não se reduz a uma lição de moralismo. A fábula atravessa os tempos e vai se transformando de acordo com o contexto histórico. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 52 A formiga e a pomba (fábula atribuída a Esopo): Uma formiga foi à margem do rio para beber água e, sendo arrastada pela forte correnteza, estava prestes a se afogar. Uma pomba que estava numa árvore arrancou uma folha e a deixou cair perto da formiga, na correnteza do rio. A formiga subiu na folha e flutuou em segurança até a margem. Pouco tempo depois, um caçador de pássaros veio por baixo da árvore e se preparava para colocar varas com visgo perto da pomba que repousava nos galhos, alheia ao perigo. A formiga, percebendo a intenção do caçador, deu-lhe uma ferroada no pé. Ele, repentinamente, deixou cair a armadilha e isso deu chance para que a pomba voasse para longe, a salvo. Moral da história: Quem é grato de coração sempre encontrará oportunidades para mostrar sua gratidão. Há ainda muitos outros autores de fábulas. No Brasil podemos citar Monteiro Lobato e Millôr Fernandes, outro autor contemporâneo que escreve fábulas modernas. Uma atividade interessante seria propor aos alunos modernizar as fábulas com fatos sociais e políticos atuais. Como primeira atividade é importante elencar com os alunos, depois de ler várias fábulas, quais são as características principais do gênero e propor a escrita baseando-se no levantamento que eles fizeram. O essencial é usar a fábula como gênero de crítica e sátira e desafiar os alunos na escrita de suas próprias fábulas. Poema Palavras que se entrelaçam e ganham novos significados. A poesia traz ritmo, tempo e jogo de palavras em harmonia. Muitas vezes até o espaço faz parte da poesia, como é o caso da poesia concreta. Reduzir a importância da poesia ao didatizar o texto pode levar o aluno a um entendimento equivocado sobre ele. Para levar o aluno a entender a poesia o professor precisa trabalhar tanto a subjetividade presente no texto, quanto seu valor literário. É um trabalho com gênero e pede uma sistemática no tratamento, é necessário o contato com o maior número possível de poemas, desenvolvendo a sensibilidade dos alunos para este recurso literário. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 53 O poema está associado à criação harmoniosa de palavras, textos, rimas e sons. Não se entende ou aprende poesia tendo um contato espaçado com ela, é preciso uma frequência, não algo que no sentido entediante da palavra, seja rotineiro, mas que ocupe um espaço contínuo, nas atividades de Língua Portuguesa. Uma poesia precisa ser lida com entonação, intimidade com o texto, não se lê bem uma poesia logo de cara, é preciso que se conecte ao texto. A leitura que o professor faz é um referencial, mas não deve ser o único. Neste caso, uma dica aos professores são os áudio-books. Em livrarias e bibliotecas os alunos podem encontrar, por exemplo, poesias de Mário Quintana gravadas por ele mesmo. Posteriormente os alunos podem criar um áudio-book da classe com as poesias preferidas e doarem a um asilo ou a uma creche, ou outra instituição que a classe indicar. Enquanto características da poesia, Curto (2000) nos traz: Função: ● Induzir no leitor sentimentos e emoções especiais. Conteúdo: ● Comunicação de sentimentos e emoções. Formato: ● Organização em versos, estrofes. Gramática: ● Frequente alteração das estruturas sintáticas habituais. Efeitos de rima, estilo, figuras etc. Ainda segundo este autor, uma sequência didática para o trabalho com poesia: ▪ Organizar a presença frequente e constante de poemas. ▪ Selecionar a poesia que será lida/escrita de acordo com as necessidades do grupo, com a qualidade do texto, o interesse do conteúdo, a adequação de temas de trabalho etc. ▪ Leitura expressiva pelo professor, enfatizando a rima, o ritmo, a musicalidade do poema. Comentário coletivo: sentido do poema, relação do sentido com as UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 54 imagens poéticas, a beleza, o ritmo, a rima etc. Comentar a estrutura do poema. ▪ Memorização e recitação. Na recitação do poema, respeitar o ritmo, a entonação, o respeito, às características do poema etc. ▪ Leitura/interpretação pelos alunos. Se o poema foi memorizado, a atividade de lê-lo é muito útil para a aprendizagem das características do sistema alfabético e da decodificação. Ao saber o que o poema diz, a criança pode deter-se na análise da relação entre o que diz e o que está escrito, vendo a correspondência entre o som e a escrita: tamanho, variedade, letras conhecidas etc. Se o poema não está memorizado, ao lê-lo deve-se observar suas características: separação em versos, rima, estrofes, ordenação especial da frase etc. Além disso, a interpretação do poema requer com frequência, explicações adicionais e comentário do sentido figurado, associações poéticas entre objetos e imagens, comparações etc. (CURTO, 2000, p. 111 e 112)É necessário que o professor discuta com os alunos a criação poética; ler sobre os autores pode clarear inúmeros fatos. Ouse com os alunos: crie um ambiente favorável à poesia, à criação, à sonoridade das palavras. Faça das aulas de Língua Portuguesa um convite à harmonia. Olavo Bilac publicou em 1904 o belíssimo Poesias infantis, no qual apresenta um conjunto de poemas belíssimos, tidos como os fundadores do que se pode abarcar dentro de uma literatura infantil genuinamente brasileira. Dentre os poemas, lê-se a adaptação de algumas fábulas em poemas, o que mostra que os gêneros se entrecruzam e se transformam. Leia abaixo o poema-fábula: O leão e o camundongo (fábula de Esopo) Um camundongo humilde e pobre Foi um dia cair nas garras de um leão. E esse animal possante e nobre Não o matou por compaixão. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 55 Ora, tempos depois, passeando descuidoso Numa armadilha o leão caiu: Urrou de raiva e dor, estorceu-se furioso... Com todo o seu vigor as cordas não partiu. Então, o mesmo fraco e pequenino rato Chegou: viu a aflição do robusto animal, E, não querendo ser ingrato, Tanto as cordas roeu, que as partiu afinal... Vede bem: um favor, feito aos que estão sofrendo, Pode sempre trazer em paga outro favor. E o mais forte de nós, do orgulho esquecendo, Deve os fracos tratar com caridade e amor. (Disponível em: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/_documents/poesias_infantis _de_olavo_bilac-1.htm#Ole%C3%A3oeocamundongo Acesso em: 02 abr. 2023) Será que a leitura de jornal só pode ser efetuada por adultos? Tenho a crença de que não, que a leitura e a compreensão dos diferentes gêneros textuais que circulam por meio da imprensa escrita exigem uma aprendizagem para a qual a escola tem importante contribuição a dar. Essa aprendizagem pode e deve começar bem cedo. É possível fazermos uma aproximação gradual da criança com esse portador privilegiado que é o jornal, para incorporá-lo à vida dos jovens cidadãos. Como qualquer outro gênero, o trabalho de leitura de jornal precisa ser ensinado. O jornal como instrumento de transmissão de informações e conhecimentos, deve ser uma presença constante na vida escolar. No decorrer do seu processo de escolarização, a criança passa a perceber que existem mais pontos de vista do que o dela mesma. Quantas visões podem existir de um mesmo fato? Um trabalho desenvolvido a partir da leitura de jornais pode ajudar a perceber a complicada trama da existência e as diversas nuances da percepção e da verdade. https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/_documents/poesias_infantis_de_olavo_bilac-1.htm#Ole%C3%A3oeocamundongo https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/_documents/poesias_infantis_de_olavo_bilac-1.htm#Ole%C3%A3oeocamundongo UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 56 O nosso principal objetivo do trabalho com jornal está relacionado com a leitura, mesmo que façamos algumas propostas de escrita. Além disso, o trabalho com jornal é importante para as crianças, de modo que: ● Tenham contato com um veículo de informação e formação de opinião; ● Comparem e tenham acesso a diferentes pontos de vistas; ● Leiam sobre uma variedade de assuntos; ● Acessem diferentes gêneros do discurso; ● Ampliem a participação social; ● Ampliem o letramento. Conhecendo os gêneros jornalísticos O jornal como resultado final é excelente produto para ser explorado em todos os anos do ensino fundamental, dada a diversidade de gêneros que ele veicula. Das charges até notícias e reportagens, é possível explorar variadas frentes de trabalho: letramento (manuseio de jornal físico ou navegação pelos sites de notícias); aspectos discursivos (que veículo é esse, quem produz, a quem se destina, como se organiza); tentativas de leitura e linguagem oral. Apresente para a sala jornais para crianças e adolescentes (sim, há alguns que podem ser acessados pela internet e são muito interessantes. Faça uma pesquisa e confira!) e leve para sala de aula diferentes exemplares de jornal (da própria cidade, do bairro, de outras cidades etc.). Pergunte a seus alunos para que serve o jornal? O que acham que está escrito nele? Onde são comprados? A quem se destina? Deixe que as crianças manuseiem esse material. Incentive-as a falar sobre o que viram. Verifique o que mais lhes chamou atenção: o nome do jornal, as letras grandes das manchetes, dos títulos, das notícias, imagens, propagandas, quadrinhos, horóscopos, página de esporte. Depois é possível solicitar que façam desenho em frente a uma banca comprando jornal (é possível utilizar balões como das histórias em quadrinhos para redigir o pedido feito ao vendedor). Identificando os cadernos e as seções de um jornal Aspectos a serem trabalhados: identificação dos cadernos e seus assuntos. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 57 Escolha um jornal (não sensacionalista!). Divida as crianças em grupos e distribua um caderno do jornal para cada grupo. Solicite que analisem o caderno buscando descobrir o nome e o assunto abordado. Peça a cada grupo que registre suas descobertas. Elabore em conjunto com os alunos um cartaz com o nome dos cadernos e os assuntos abordados. É possível que elas encontrem dificuldade em identificar assuntos políticos, econômico, editorial. Complete essas informações de um jeito bem simples: Caderno A – opinião do jornal e do leitor; caderno... – notícias sobre o Brasil; caderno... – notícias sobre o mundo; caderno... – dinheiro ou economia. Deixe os cartazes expostos recorrendo a eles no decorrer dos estudos. Lendo notícias e aprendendo a diferenciá-las das fake news Aspectos a serem trabalhados: leitura de notícias, leitura de imagens, aspectos discursivos da notícia, oralidade. Durante alguns dias leia para seus alunos notícias que possam interessar (por exemplo: ecologia, cidade ou bairro em que moram, saúde, educação, trabalho infantil, acidentes domésticos, esportes, espetáculos infantis). Dê preferência a textos com imagens e não muito longos. Antes de iniciar a leitura explore a imagem e outros sinais gráficos. Perguntem sobre o que acham que é a notícia. Depois leia o título. Pergunte novamente sobre o que acham que é a notícia. Depois da leitura incentive-os a comentar oralmente a notícia fazendo perguntas: O que aconteceu ou está acontecendo? Onde? Quando? O que vocês pensam disso? Desenvolver o letramento nos gêneros jornalísticos é essencial ao combate à fake news, uma vez que os alunos podem refletir sobre a importância de se diferenciar fato de opinião. Essa habilidade é muito requerida nas avaliações externas e pode ser trabalhada por meio de notícias e reportagens. Opinião do leitor Aspectos a serem trabalhados: escrita de carta ao leitor e linguagem oral. Escolha uma notícia, reportagem ou artigo de jornal recente sobre a qual as crianças possam emitir uma opinião. Por exemplo: trabalho infantil, lixo acumulado nas ruas e córregos, poluição de praias. Mostre para elas que a maioria dos jornais tem uma seção reservada para que o leitor possa dar a sua opinião sobre as publicações do jornal. Proponha a escrita de uma carta coletiva para o jornal, opinando sobre o texto UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 58 lido. Leia a matéria selecionada e deixe que comentem oralmente. Incentive-as a falar e vá formulando questões sobre o fato ou assunto. Depois as crianças vão ditar e você escreve (na lousa ou papel pardo) uma pequena carta para o jornal que tenha essa seção. Na redação da carta não esqueça de identificar professor __________ e alunos do __º ano da Escola ______________. Envie a carta ao jornal. Explique que o jornal recebemuitas cartas e que nem todas são publicadas. Nos dias seguintes, verifique, diariamente, para ver se a carta foi publicada. Devido ao restrito espaço destinado a nossa aula não é possível descrever sugestão de mais atividades; destaco, então, que o importante no desenvolvimento do trabalho com jornal é propiciar atividades que levem os alunos à compreensão deste portador e o conhecimento dos diferentes gêneros discursivos presentes nesse portador, por exemplo: classificados, propaganda, entrevista, reportagem, tirinhas, crônicas, carta do leitor, textos informativos: notícias, reportagens, receitas, manchete, título, previsão do tempo, editorial. Dica A Fundação Itaú Social elabora bienalmente o prêmio Escrevendo o Futuro, as escolas públicas que se inscrevem para participar recebem um kit que sugere várias oficinas que visam aprimorar a escrita. O exemplar intitulado Pontos de Vista oferece uma excelente sequência didática de trabalho com Artigos de Opinião. Procure descobrir se sua escola ou algum colega dispõe desse material e não deixe de se inscrever na próxima edição do concurso! Trabalho em grupo: Comprem um jornal de grande circulação em sua região e analisem: ● NA PRIMEIRA PÁGINA: quais gêneros do discurso vocês identificam na primeira página do jornal? ● CADERNOS: quantos têm e sobre o que eles tratam. ● Elaborar uma sequência de atividades com o jornal. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 59 REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação Fundamental, Secretaria de Educação a Distância. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. BRASIL. Letramento literário na escola: o texto poético no processo de ensino- aprendizagem Letramento Literário. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br Acesso em: 02 abr. 2023. BASSO, R.; FERRAREZI JUNIOR, C. (org.). Semântica, semânticas: uma introdução. São Paulo: Contexto, 2013. BILAC, Olavo. Poesias infantis. Disponível em: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/_documents/poesias_infantis_de_olavo_bilac -1.htm#Ole%C3%A3oeocamundongo Acesso em: 02 abr. 2023 COLELLO, S. M. G. A escola e a produção textual: práticas interativas e tecnológicas. São Paulo: Summus, 2017. CURTO, Luís Maruny; MORILO, Maribel Ministral e TEIXIDÓ, Manuel Miralles. Escrever e ler, volume 1 e 2. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000. GROLLA, E.; SILVA, M. C. Para conhecer: aquisição da linguagem. São Paulo: Contexto, 2016. NEMIROVSKY, Myriam. O ensino da Linguagem Escrita. Porto Alegre: Artmed, 2002. http://basenacionalcomum.mec.gov.br/ https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/_documents/poesias_infantis_de_olavo_bilac-1.htm#Ole%C3%A3oeocamundongo https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/_documents/poesias_infantis_de_olavo_bilac-1.htm#Ole%C3%A3oeocamundongo UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 60 Aula 10_Biografias e Culinária Palavras-chave: gêneros textuais; biografia; culinária. O tema de nossa aula é o estudo do gênero textual biografia. Este tipo de texto é considerado expositivo, pois remete basicamente à ideia de explicar algo para que os demais conheçam. É um tipo de texto que busca transmitir informações sobre uma pessoa (tenha ela notoriedade ou não). A biografia é um texto que permite aprofundar conhecimentos a respeito da figura estudada e ainda pode inspirar os alunos. O relato da história de uma pessoa pode trazer elementos que sensibilizem os alunos. A história de um ser humano está articulada com a história da sociedade em que ele estava inserido. Portanto, ao entrar em contato com a biografia de alguém, temos a oportunidade de refletir sobre os condicionantes de sua sociedade. É uma forma de resgate, de voltar no tempo e compartilhar a visão do protagonista da história. Os alunos podem se identificar com as histórias, por isso é importante trazer para a sala de aula biografias de pessoas que tenham uma mensagem a ser compartilhada. Por outro lado, ao estudar a biografia de alguém, o aluno pode elucubrar sobre sua própria vida, ou até mesmo escrever sobre ela, fazer sua autobiografia. Este tipo de texto proporciona ao aluno olhar para sua vida, seus pais, avós, sua família. O estudo das biografias de pessoas que fizeram diferença em relação ao benefício da sociedade e do planeta pode auxiliar no processo de conscientização de nossas responsabilidades frente à humanidade. De acordo com Curto (2000, p.191), a biografia é um texto expositivo com as seguintes características: Função: ● Compreender ou transmitir novos conhecimentos. ● Estudar em profundidade. Modelos: ● Livro-texto, escolares. ● Livros de consulta, divulgação. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 61 ● Artigos temáticos, relatórios. ● Biografias. ● Preparação de exposições orais e conferências. ● Resenhas Conteúdo: ● Definições e enunciados. ● Descrições. ● Explicação de processos. ● Resumos ● Argumentações. ● Hipóteses e discussão dos resultados etc. ● Roteiros, índices, esquemas, mapas semânticos etc. Formato: ● Presença de títulos, subtítulos, gráficos esquemas e caracteres tipográficos (sublinhado, negrito, itálico etc.) de importância para a compreensão do texto. Gramática: ● Uso de um vocabulário preciso e rigoroso, que deve ser definido. ● Predomínio de substantivos. ● Construções impessoais na 3ª pessoa. ● Grande importância semântica dos nexos e partículas de relação (causa, consequência, modo, localizadores, quantificadores etc.). Procedimentos de leitura: ● Uso do título e subtítulos como resumo do tema e ideia principal. ● Uso de recursos tipográficos para ressaltar aspectos importantes (sublinhado, numeração etc.). ● Identificação do tema e da ideia principal Nas aulas é recomendável construir estes conceitos com os alunos e depois confrontar as conclusões deles com as características da biografia. Esta forma de ensinar Língua Portuguesa se recusa a ser mecanicista e conteudista; nesta concepção, o aluno é convidado a pensar, refletir, a errar, a construir. Segue agora um trecho de Nemirovsky (2002), no qual ela relata uma atividade de uma professora de nome Carmen, que trabalhava a biografia do pintor Picasso. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 62 Um dia, trabalhando com um reduzido grupo em que havia alguns mais velhos da turma, disse que parecia que a frequência de verbos era muito alta, em comparação com outros tipos de textos. Os alunos começaram a verificar esse dado e, buscando sistematicamente, notaram que, além disso, havia muitos deles em tempo passado. Logo fizeram algumas conjecturas e compararam as possíveis razões que explicariam o caso. Isso levou dois alunos a tomar todas as biografias, abri-las em diferentes folhas ao acaso, buscar os verbos. E verificar que o tempo passado era uma característica comum em todas, o que permitia que generalizassem o dado. Depois, revisaram o tempo verbal predominante nas notícias jornalísticas e nas receitas de cozinha. As diferenças dos tempos verbais entre distintos tipos de texto lhes pareceu uma boa descoberta; na realidade, sabiam disso de alguma maneira, visto que liam diferentes tipos de textos, porém era a primeira vez que buscavam a regularidade e tentavam elaborar justificativas ou argumentações que dessem conta das causas ou motivos desse fato (NEMIROVSKY , 2002,p.134 e 135.) O relato demonstrou a construção do que vem a ser um texto biográfico e ilustrou os princípios que foram tratados nesta aula. A característica primordial do trabalho com gêneros instrucionais é desenvolver nas crianças a habilidade de seguir instruções escritas; tal objetivo éimportante, pois no mundo atual, esse tipo de texto tem sido cada vez mais solicitado: na montagem de móveis, uso de aparelhos eletrônicos, operações bancárias, no uso de computadores, nas regras de jogos, para cozinhar novos pratos etc. Esse é um dos motivos pelo qual é necessário aproximarmos, gradativamente, nossos alunos no conhecimento das características e usos de textos instrucionais e prescritivos. Exploraremos as possibilidades de trabalho do texto instrucional, falando das possibilidades de trabalho com o gênero textual receita, cuja finalidade última é permitir que o usuário, seguindo as instruções nela contidas, seja capaz de prepará- la. O trabalho com o gênero receita, da mesma forma que o trabalho com outros gêneros, possibilita que a escola propicie às crianças oportunidades de ler e escrever textos da forma como eles se apresentam no cotidiano. Por exemplo: os alunos podem escrever receitas ensinadas por outras pessoas, organizar um caderno de receitas ou ler uma receita para preparar um prato específico. A seguir, descreverei uma série de atividades desenvolvidas com o gênero receita. Elas servem de base para montagem de uma sequência pedagógica, lembrando que outras atividades podem e devem ser acrescidas a esta lista. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 63 ● Observação de livros e cadernos de receitas: levar para sala de aula para manuseio e conhecimento, livros e cadernos de receita. Perguntar aos alunos se em suas casas possuem esse tipo de texto. Solicitar que tragam para sala de aula. O pedido aos pais pode ser feito através da confecção de um bilhete coletivo. É importante lembrarmos que o contato com material de qualidade é que enriquecerá o conhecimento sobre o gênero em estudo. ● Leitura de um poema sobre o tema. Pode ser R de Receita, de Elza Beatriz, encontrado no livro Pare no P da Poesia, ou: Salada de Frutas, de Alba Toledo, encontrado no livro Na trilha do Texto – Alfabetização, ou: Rimando e Cozinhando, encontrado no livro com mesmo nome de Ercília G. Ferraz (ou outro de sua preferência). Após leitura coletiva, em dupla e/ou individual, trabalhar no texto algumas propriedades do mesmo como o título, o autor e a referência. A partir do estímulo da leitura, também é possível propor a escrita de palavras do mesmo universo semântico. ● Executar em sala de aula ou na cozinha da escola uma receita estudada. Para tanto é possível propor uma produção coletiva de uma lista de compras, pois já que vamos fazer uma receita, teremos que ter os materiais apropriados para ela. Sendo assim, precisaríamos ter os produtos planejados previamente. Para tanto é possível lermos para as crianças um exemplo de listas de compra. ● Num outro momento, com o objetivo de explorar um outro gênero, a receita culinária, é possível ler para os alunos textos que envolvam as propriedades de uma receita: uma receita de sentimentos, uma música com características de recita culinária e/ou uma receita culinária. Antes de informar que os textos trazem as características do gênero receita culinária, explorar com as crianças o que há em comum entre os textos lidos, apontando as características próprias da receita culinária. ● Com a música ou o clip A sopa, de Sandra Peres, do selo Palavra Cantada, é possível de forma lúdica é divertida cantar, ler e discutir sobre os ingredientes possíveis ou não de uma sopa. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 64 Organizar um texto fora de ordem é uma atividade que ajuda o aluno a perceber as características estruturais do gênero culinário. Exemplo Arrumando A Receita A pessoa que escreveu essa receita fez a maior confusão. Você é capaz de arrumá- la? Propor a leitura de um trecho de O livro de receitas de Chapeuzinho Vermelho, de Mariana Rocha, escolher uma das receitas para explorar: localização dos ingredientes e o modo de fazer. Filme a Fantástica Fábrica de Chocolate é um excelente filme que pode ser trabalhado com seus alunos. Nele, doce e filme de fantasia se misturam quando cinco crianças ganham um sorteio cujo prêmio é um passeio à Fantástica Fábrica de chocolate, o resto da trama, de comédia e aventura deve ser vista por todos que ainda não se deliciaram com a história. Elaborar uma atividade de pesquisa sobre a origem dos doces é uma atividade muito interessante. Esses são alguns exemplos de atividades que podem ser desenvolvidas no trabalho com gênero receitas, muitas outras podem ser elaboradas e desenvolvidas a partir da sua criatividade. Nosso objetivo ao trabalhar textos instrucionais é orientar para a realização de uma determinada tarefa. Para que o aluno aprenda a ler, compreender e produzir textos dentro deste ou de qualquer outro gênero estudado, é importante ter oportunidade de ler, analisar, organizar e escrever. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 65 REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação Fundamental, Secretaria de Educação a Distância. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. COLELLO, S. M. G. A escola e a produção textual: práticas interativas e tecnológicas. São Paulo: Summus, 2017. CURTO, Luís Maruny; MORILO, Maribel Ministral e TEIXIDÓ, Manuel Miralles. Escrever e ler, volume 1 e 2. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000. NEMIROVSKY, Myriam. O ensino da Linguagem Escrita. Porto Alegre: Artmed, 2002. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 66 Aula 11_Expositivo e Argumentação – Carta Palavras-chave: texto expositivo; argumentação; carta. Nesta aula trataremos dos textos expositivos, sua função social e textos de transmissão e construção de conhecimento e apresentação textual de diferentes formas de saber, conforme tratamos na aula sobre tipos de textos. São eles: ● Texto expositivo/explicativo/resumos dos mesmos ● Conferência ● Artigo Enciclopédico ● Entrevista de Especialista ● Anotação ● Relatório Científico Quando o aluno chega à faculdade é com muita naturalidade que os professores propõem monografias, resenhas, resumos, como se isso sempre tivesse feito parte da vida do aluno. É preciso que fique claro que a intenção desta aula é contextualizar um tipo de texto, que deve estar presente, e ter atividades voltadas para ele, para que o aluno entenda sua função, finalidade e saiba utilizar quando necessário. A pesquisa ganhou um espaço muito mais significativo na escola. Antigamente, pesquisa estava ligada à cópia de enciclopédias; atualmente, os alunos já possuem um outro veículo, a internet, e a geração copia e cola está formada. O problema não está efetivamente no aluno, pois a pesquisa deve ser desafiadora e problematizar, fazer o aluno pensar para responder. É preciso que o aluno tenha contato com os textos expositivos e construa a diferença que há entre estes tipos de textos e outros. Na proposta de uma entrevista, é importante validar o que vem a ser uma entrevista, relacionar as questões com o objeto de estudo, sistematizar as ações e como o registro será feito, pois num caso de entrevista, é preciso que se preserve a autoria e veracidade do que foi falado. Uma educação plena, como é a proposta, relaciona estes conhecimentos ao aspecto UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 67 atitudinal e leva os alunos a refletirem sobre como isso acontece em nossa sociedade. Investigando se ocorre ou não a manipulação de massas: os alunos podem fazer o estudo deste tópico, cada um representando um segmento da sociedade e já se pensa sobre fazer uma conferência reunindo os dados de cada grupo. Como deve ser preparada? Como deve ser a comunicação? O professor,enquanto mediador deve trabalhar com material de estudo para os alunos, desde livros até cenas de TV e cinema. Deve criar experiências reais, dinâmicas, que tratem o texto como objeto de estudo. Um texto expositivo comunica ideias, essa atividade não pode ser uma aula expositiva, na qual o professor passa os procedimentos aos alunos, afinal, nossa postura repudia a educação bancária que trata os alunos como depósitos. A seguir teremos as características dos textos expositivos, segundo Curto (2000) Características dos textos expositivos Funções: ● Compreender ou transmitir novos conhecimentos. ● Estudo em profundidade. Modelos: ● Livros-texto, escolares. ● Livros de consulta, divulgação. ● Artigos temáticos, relatórios etc. ● Biografias. ● Preparação de exposições orais e conferências. ● Resenhas. Conteúdos: ● Definições e enunciados. ● Descrições. ● Explicação de processos. ● Resumos. ● Argumentações. ● Hipóteses e discussão dos resultados etc. ● Roteiros, índices, esquemas, mapas semânticos etc. Formatos: UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 68 ● Presença de títulos, subtítulos, gráficos esquemas e caracteres tipográficas (sublinhado, negrito, itálico etc.) de importância para a compreensão do texto. Gramática: ● Uso de um vocabulário preciso e rigoroso, que deve ser definido. Predomínio de substantivos. ● Construções impessoais na 3ª pessoa. ● Grande importância semântica dos nexos e partículas de relação (causa, consequência, modo, localizadores, quantificadores etc.). Procedimentos de leitura: ● Uso do título e subtítulo como resumo do tema e ideia principal. ● Uso de recursos tipógrafos para ressaltar aspectos importantes (sublinhado, numeração etc.). ● Identificação do tema e da ideia principal. ● Uso de técnicas de resumo. ● Reconstrução do roteiro a partir das perguntas que podem ser responsabilizadas com o texto. ● Identificação de termos desconhecidos ou duvidosos. ● Identificação de nexos e partículas de relação. Todos os elementos descritos acima compõem o que vem a ser um texto expositivo, portanto devem ser trabalhos. A troca entre os alunos é primordial, pois eles possuem diferentes tipos de habilidades; há alunos que priorizam os conteúdos, outros são sintéticos, uns mais complexos, outros mais superficiais e na construção de um texto expositivo, as diferentes visões podem contribuir muito. Quem de nós nunca escreveu ou recebeu cartas? A escrita de cartas é uma das formas de comunicação escrita mais utilizada numa conversa entre pessoas ausentes. Esse tipo de texto, descritivo/narrativo, quando escrito sob a forma de carta, pessoal ou não, é conhecido como gênero epistolar. Isso mesmo, os textos bíblicos, também chamados de epístolas, têm esse nome porque são escritos sob a forma de carta. Existem diferentes tipos de cartas, algumas servem para “conversar” com amigos ou parentes, são as chamadas cartas sociais. A empresa de correios e telégrafos (ETC) cobra uma taxa irrisória quando enviamos esse tipo de UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 69 correspondência. É possível que na escola, desenvolvamos o lado social das crianças, utilizando correspondência como meio de expressar suas experiências. Podemos criar condições para que nossos alunos troquem correspondências escrevendo e recebendo cartas diversas (de alunos de outras escolas, de professores que mudaram da escola, de crianças doentes ou que estão viajando, de alunos de outras instituições etc.). Durante este tipo de atividade é importante chamarmos atenção para as funções da carta: transmitir sentimentos, narrar experiências vividas, agradecer, notificar etc. e também para as características textuais próprias desse tipo de correspondência. Escrever e receber cartas, em aula, constitui um excelente meio de motivação para a leitura e escrita de textos com significado. Além das cartas com um caráter mais pessoal, é possível trabalharmos na escola outros tipos de carta. As cartas argumentativas são um exemplo. Elas servem para que possamos defender nossos direitos, ideias e posições. É sabido que desde pequenas as crianças são excelentes argumentadoras de seus pontos de vista, todavia, podem aprender mais. Se vislumbrarmos cidadãos que discutam os problemas da vida, do bairro, da cidade, enfim, que participem da vida do país, é necessário aprenderem a avaliar os argumentos dos outros e a desenvolver os seus próprios argumentos. Esse tipo de situação pode ser enriquecida se trabalharmos as características próprias de cartas de reclamação, cartas de solicitação, cartas do leitor etc. No site da Nova Escola há um Plano de Aula que resgata o valor documental das cartas antigas, refletindo sobre sua função e transformação, eles vão além, identificando as mensagens eletrônicas como um desenvolvimento do gênero epistolar. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 70 REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação Fundamental, Secretaria de Educação a Distância. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. COLELLO, S. M. G. A escola e a produção textual: práticas interativas e tecnológicas. São Paulo: Summus, 2017. CURTO, Luís Maruny; MORILO, Maribel Ministral e TEIXIDÓ, Manuel Miralles. Escrever e ler, volume 1 e 2. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 71 Aula 12_ Formando Leitores Palavras-chave: formação de leitores; ler é compreender; sentidos do texto. A formação de leitores é uma preocupação tanto dos familiares, da política cultural, quanto da escola. Apesar de avanços proporcionados pelas pesquisas na área de leitura, nem toda criança lê atribuindo significado ao texto. Uma criança pode ler um texto alfabeticamente, isto é, reconstituindo oralmente o que está redigido e não necessariamente, alcançando uma compreensão do seu significado. Isso acontece porque, na sua leitura, ela recorre a estratégias de fixação dos olhos no escrito, de forma que só consegue tratar um conjunto de algumas letras ou sílabas e assim ela acumula “frações de sons”, momentaneamente sem sentido, cuja soma reconstituirá um significante oral (geralmente sem sentido). Nesse caso, a criança procura na escrita, índices gráficos que correspondem a unidade fônica, buscando-os na sequência correta para construir o significante oral. Por exemplo, para ler a palavra “PIPOCA”, a criança reconstitui mentalmente a família silábica do “P”, recita mental ou oralmente “PA, PE, PI” é o “PI”, continua para a segunda sílaba “PA, PE, PI, PO” é o “PO”, quando finalmente ela decodifica o “CA”, já se esqueceu do PI e do PO, não alcançando a compreensão do lido: “PIPOCA”. Outra criança pode, ao se deparar com o texto, atribuir-lhe um significado, que poderá ou não ser oralizado. Essa criança efetua fixações muito mais amplas, busca uma unidade básica apreendida, que diferente da sílaba, remete diretamente a um significado. Qual a diferença nessa leitura? É que aqui, ao invés de construir um significante a partir do texto, a criança formula hipóteses sobre as formas escritas que aparecem e vai em busca de índices para verificar. Ela simplesmente confere se suas antecipações estavam de fato no texto. A leitura dessas duas crianças é substancialmente diferenciada, a primeira efetua encontros ocasionais com a escrita, lentos e trabalhosos, limitando seu contato com textos à estrita necessidade; a segunda criança estabelece uma relação sem intermediários, no qual não há nenhum obstáculo entre ela e o texto. Segundo Foucambert (1994, p.29) “A leitura só é difícil ou cansativa (e exige esforços) quando não se sabeler, quando se deve traduzir a escrita para compreendê-la.” UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 72 Essa diferença entre leitores está distribuída de forma desigual em nossa sociedade. Historicamente a escola ensinou o mínimo às crianças, o acesso ao mundo leitor era uma tarefa pessoal, adquirida geralmente longe dos bancos escolares. É necessário que a escola reveja seu papel, oferecendo o ensino da leitura ampla, acabando com a dicotomia alfabetizado e leitor. Ser leitor é querer saber o que se passa na cabeça do outro, para compreender melhor o que se passa na nossa. Essa atitude, no entanto, implica a possibilidade de distanciar-se do fato, para ter dele uma visão de cima, evidenciado de um aumento do poder sobre o mundo e sobre si por meio desse esforço teórico. Ao mesmo tempo, implica o sentimento de pertencer a uma comunidade de preocupações quem, mais que um destinatário, nos faz interlocutor daquilo que o autor produziu. Isso vale para todos os tipos de textos, seja um manual de instruções, seja um romance, um texto teórico ou um poema. (FOUCAMBERT, 1994, p.30) Se for no desenvolvimento de poder sobre si e sobre o mundo que a criança encontra a escrita e a leitura, um trabalho educativo que não se paute nessa relação de poder (entre escrita e leitura) não criará situações de aprendizagem capazes de tornar nossas crianças leitoras. Não é possível que só fora da escola, as crianças tenham oportunidade de vivenciar esse tipo de leitura. Como, então, a escola pode contribuir nesse aprendizado? Penso que: ● É preciso integrar a criança a situações em que a escrita é utilizada para viver (uso social) e não para, simplesmente, aprender a ler. ● Favorecer a heterogeneidade de experiências leitoras. Um grupo homogêneo de não-leitores dificilmente propiciará aos seus membros as condições e um uso real da escrita. ● Para aprender a ler, a criança deve se relacionar com os textos que leria se soubesse ler, devendo ser tratada como se já possuísse os conhecimentos que deve adquirir (a interação com os textos e o seu não-saber-atual, fazem com que ela adquira estratégias próprias, e todo aprendizado é uma resposta a um desequilíbrio). ● Para aprender a ler, a escola deve proporcionar toda ajuda na utilização de textos verdadeiros, não simplificando os textos de acordo com as possibilidades da criança. Aprendemos a ler através do aperfeiçoamento, UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 73 desde o início, dos textos que precisamos, partindo do conhecido para redução do desconhecido. ● Aprende-se a ler praticando atos de leitura! ● Favorecer o contato com textos variados, associando a utilização real dos mesmos (sejam textos escolares, do ambiente, da imprensa, de documentários, de obras de ficção etc.) Se não pretendermos formar alunos que leiam corretamente sem compreender o que está escrito, é necessário adotarmos as condições acima elencadas. Caso contrário, fica impossível formar o leitor, o máximo que é possível é tornar nossos alunos alfabetizados, e nosso papel vai, além disso. Ampliar as possibilidades leitoras implica, muito além da escolha de um método, de uma organização geral da escola, de uma política coerente que a equipe pedagógica decide adotar em seu conjunto: o Projeto Político Pedagógico de cada unidade escolar deve responsabilizar-se pela “leiturização” de nossas crianças. Termino nossas reflexões de hoje, com Foucambert: o aumento do número de leitores não passa pela generalização pura e simples do atual modelo leitor; passa, sim, pela diversificação de práticas de leitura e, portanto, pela evolução dos escritos disponíveis. É inconcebível que professores, cuja missão é precisamente abrir caminhos para democratização da leitura, não se engajem, totalmente, numa reflexão sobre o livro para crianças e jovens: não se pode separar o que é oferecido para ler do aprendizado da leitura propriamente dito. (1994, p. 36-37) REFERÊNCIAS CURTO, Luís Maruny; MORILO, Maribel Ministral e TEIXIDÓ, Manuel Miralles. Escrever e ler, volume 1 e 2. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000. DAVINI, Juliana. In Avaliação e Planejamento - A prática educativa em questão: Instrumentos metodológicos II. Publicações Espaço Pedagógico. São Paulo, 1997. FOUCAMBERT, Jean. A leitura em questão. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 74 GERALDI, João Wanderlei e Beatriz Citelli (coordenadores do volume 1). Da redação à produção de textos. In Aprender e ensinar com textos/ 4ª edição. São Paulo: Cortez, 2001. KAUFMAN, Ana Maria e RODRIGUEZ, Maria Elena. Escola, leitura e produção de textos. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. NEMIROVSKY, Myriam. O ensino da Linguagem Escrita. Porto Alegre: Artmed, 2002. TEBEROSKY, Ana e COLOMER, Teresa. Aprender a ler e a escrever: uma proposta construtivista. Porto Alegre: ArtMed, 2003. ZABALA, Antoni. A prática educativa: como ensinar. Porto Alegre: ArtMed, 1998. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 75 Aula 13_Materiais e Refletindo sobre Livros Didáticos Palavras-chave: Falar sobre materiais pode parecer irrelevante quando se trata do ensino da Língua Portuguesa, no entanto ainda há muitos professores que continuam na fórmula: giz + lousa = aula. A questão sobre a lousa refere-se a aulas em que o domínio da lousa é do professor. Nela, ele determina e localiza os erros de seus alunos. A lousa como instrumento do processo de ensino-aprendizagem, deve ser um espaço democrático de socialização entre professor e aluno. É importante refletirmos sobre materiais e organização do mesmo, pois a metodologia empregada no planejamento das aulas inclui esse item. E comunica a concepção de educação que permeia a prática do professor. Incluir os mais diferentes materiais oportuniza condições de acesso ao conhecimento da língua e da forma como ela é disposta. Por isso a palavra de ordem é diversidade. Infelizmente, muitas das escolas contam com poucos recursos, nesse caso vale buscar parcerias dos colegas que podem fazer doações, de pais e moradores da comunidade, tudo pelo acesso pleno. Oportunizar, ensinar a frequentar bibliotecas, faz parte da responsabilidade do professor, pois os pais muitas vezes não têm condições de propiciar esse acesso. Envolver os alunos na organização dos materiais divide responsabilidades e torna-os colaboradores. É necessário fazer escalas para que todos possam sentir- se integrados na organização. Materiais que devem estar presentes na sala de aula: ● Caixa de livros que contenha todos os tipos de textos, como por exemplo, contos de fadas, de terror, clássicos, livros científicos, enciclopédias, livros de receitas, pop-up, com texto e imagens, somente textos, só com imagens etc. ● Revistas ● Jornais ● Gibis UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 76 ● Folhetos ● Cartazes ● Caixas, estantes, fichas organizativas etc. Além do fato da existência deste material, faz-se necessária a discussão sobre como eles estarão atrelados ao planejamento do professor para dar significado às aulas. Zabala (1998) nos coloca que, É necessária uma política decidida de materiais curriculares, que assegure sua qualidade, que os conceba como um meio entre outros e que deposite nos professores a responsabilidade por seu uso criativo. O que é necessário? Qual é o leque de possibilidades que as escolas devem ter a seu alcance para se apoiar na tarefa educativa cotidiana? Uma das conclusões da análise dos recursos didáticos e de sua utilização é a necessidade da existência de materiais curriculares diversificados que, como peças de uma construção, permitam que cada professor elabore seuprojeto de intervenção específico, adaptado às necessidades de sua realidade educativa e estilo profissional. Quanto mais variados sejam os materiais, mais fácil será a elaboração de propostas singulares. Portanto, em vez de propor unidades didáticas fechadas, os projetos de materiais curriculares para os alunos têm que oferecer uma grande variedade de recursos. Recursos que possam integrar em unidades construídas pelos próprios professores, enraizando-se nas demandas específicas de seu contexto educativo. (1998, p.188.) Zabala nos alerta para a questão de que oferecer bons e diversificados materiais tem relação com uma política educacional da instituição, pois esta fornece elementos para que o professor constitua em sua sala momentos desafiadores de construção do conhecimento através de sua prática educativa em conjunto com materiais selecionados e de qualidade. Há ainda a possibilidade de trabalho com recursos midiáticos, como: a internet, o rádio, TV, vídeo cassete e aparelhos de DVD que podem enriquecer, ilustrando as aulas. Por exemplo, com a câmera fotográfica, os alunos podem encenar e registrar situações que podem compor uma fotonovela; a classe pode partir de um conto clássico, como Romeu e Julieta e ter a tarefa de modernizá-lo, registrando-o como uma fotonovela, comparando os diferentes portadores, criando situações comunicativas. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 77 Uma outra dica é usar curtas-metragens. O site www.portacurtas.com.br, apresenta alguns filmes que podem ser bons precursores de discussão sobre o ensino da Língua Portuguesa. Há, por exemplo, um curta baseado em um conto de Clarice Lispector, Felicidade Clandestina. Os alunos podem ler o texto e depois assistir ao curta-metragem e discutir as diferentes linguagens. Transformar uma fábula em um programa de rádio é uma atividade que pede que a criança entenda a essência do tipo textual, e isso acontece através da relação que se estabelece entre os materiais disponíveis, o conhecimento do tipo textual e a atividade proposta. O livro didático, por muitos anos, reinou absoluto nas aulas de Língua Portuguesa. O único acesso que os alunos tinham em relação aos textos era proveniente destes livros. Esta aula se propõe a discutir o uso do livro didático. Para ilustrar nossas colocações temos as considerações de Antoni Zabala. Em cada item elencado pelo autor, vamos fazer observações relacionando com o uso específico da Língua Portuguesa. A maioria dos livros didáticos, devido a sua estrutura, trata os conteúdos de forma unidirecional, não oferece ideias diversas à margem da linha estabelecida. Estes livros transmitem um saber que costuma se alimentar de estereótipos culturais. (ZABALA,1998, p.175) O livro didático de Língua Portuguesa é um grande exemplo da colocação do autor, pois após cada texto traz uma interpretação fechada, na qual o aluno deve se encaixar e encontrar a resposta verdadeira. Há 2 erros cruciais: primeiro comunica- se ao aluno que há uma verdade única em relação à interpretação de texto e segundo que essa verdade está na mão do professor, que é detentor do saber. Dada sua condição de produto mediatizados por uma infinidade de interesses. São livros que reproduzem os valores, as ideias e os preconceitos das instâncias intermediárias, baseadas em proposições vinculadas a determinadas correntes ideológicas e culturais. Neste sentido, é fácil encontrar livros com doses consideráveis de elitismo, sexismo, centralismo, classicismo etc. (ZABALA,1998, p.175) Nos livros didáticos é clássico encontrar a figura da família, com pai, mãe e um casal de filhos. Além do preconceito contra o negro, temos uma família http://campus20162.unimesvirtual.com.br/www.portacurtas.com.br UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 78 idealizada. São conteúdos mantenedores da injustiça social e estão longe de cumprir o papel conscientizador das ideologias dominantes que nos cercam. Com frequência, as opções postuladas são transmitidas de forma dogmática, apresentadas como conhecimentos acabados e sem possibilidade de questionamento. Desta maneira se silencia o conflito, fonte de progresso e de criação cultural e científica [...]Os livros didáticos, apesar de grande quantidade de informação que contêm, não podem oferecer toda a informação necessária para garantir a comparação. Portanto, a seleção das informações transforma em determinante não tanto o que expõe, mas o que deixa de lado. (ZABALA,1998, p.175) A estrutura do livro didático não possibilita a relação com outros temas. Na maioria das vezes, o professor fica preso àquele texto e cumpre a matéria dada, isso em Língua Portuguesa é a morte da própria essência da disciplina. A disciplina torna- se insípida e desinteressante como se fosse um amontoado de regras desconexas. Em Língua Portuguesa, acreditar que um único livro irá dar conta da disciplina é inadmissível e vai contra tudo aquilo que temos discutido nas aulas sobre a construção do conhecimento em Língua e a profunda relação que há com a diversidade de fontes de informação. [...] Fomentam a atitude passiva dos meninos e meninas, já que impedem que participem tanto no processo de aprendizagem como na determinação dos conteúdos. Desta maneira a iniciativa dos alunos é freada, limita-se sua curiosidade, eles são obrigados a adotar algumas estratégias de aprendizagem válidas apenas para uma educação baseada nestes materiais escolares. (ZABALA, 1998, p.175) O aluno, no caso do livro didático, é um “preenchedor” de fichas, que são descontextualizadas, minimizando a capacidade dos alunos e colocando-os como objetos do processo ensino-aprendizagem, depósito do conhecimento do professor. A autonomia que deveria ser construída no processo é relegada. O aluno é um executor de exercícios, que na maioria das vezes é memorizado e muito possivelmente será esquecido. [...] Não observam a forma nem ritmo de aprendizagem dos alunos. Não observam as experiências, os interesses ou as expectativas dos alunos nem suas diferenças pessoais. Propõem ritmos de aprendizagens comuns para coletividades, em vez de indivíduos. O UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 79 resultado é a uniformização do ensino, deixando de lado as necessidades de muitos alunos. (ZABALA, 1998, p.175 e 176) O livro didático trata os alunos como se todos possuíssem as mesmas experiências e devessem responder às mesmas coisas, ou a proposta é muito difícil ou muito fácil, em qualquer uma das opções, o conhecimento não se configura. Os desafios têm que ser instigantes, mas possíveis de serem realizados. Há ainda nos livros didáticos a questão dos textos empobrecidos e o vocabulário que se resume a palavras difíceis que são relacionadas, no final do texto, com o significado descrito. A Língua Portuguesa, da forma como é tratada no livro didático, dificulta o desenvolvimento de outras habilidades que ficam relegadas a um segundo plano, como é o caso da oralidade, da produção textual, do acesso aos textos complexos. Você pode estar se perguntando se uma coisa não elimina a outra, no entanto, na prática, o livro e a apostila ocupam o espaço da vivência com a diversidade textual, transformando o conhecimento em pequenas doses diárias das páginas do livro didático. Aprender e ensinar Língua Portuguesa é muito mais do que isso. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 80 Aula 14_ Modalidades discursivas e gêneros digitais Palavras-chave: modalidades discursivas; novas tecnologias; gêneros digitais. As tecnologias estão presentes no mundo. A escola resiste. No entanto, os alunos convivem com elas o tempo todo. As tecnologias abrangem desde o uso da TV, videocassete, rádio, gravador e aparelho deDVD. Atemo-nos, no entanto, ao uso do computador e da Internet. O computador já foi visto como grande vilão. Os professores mais tradicionais previam que o conhecimento seria minimizado pelas facilidades que ele oferece. Os alunos usavam a internet para o “copia e cola”. O professor pedia uma pesquisa e os alunos prontamente digitavam o assunto em um buscador e copiavam o texto do primeiro link que aparecesse. Instalou-se o problema, com uma parcela dos professores e pais culpando a Internet. Nosso propósito é ir além da culpabilização e enxergar as raízes do problema, para que estabeleçamos um modo de confrontá-lo. Uma pesquisa pode ser extremamente tradicional e teremos respostas como o modelo “cópia e cola” ou poderemos efetivar uma pesquisa em que, mesmo que os alunos queiram aplicar esse modelo não conseguirão. A pesquisa pressupõe uma situação-problema na qual o aluno precisa pensar refletir, tomar posição. Por exemplo, o professor pode pedir a seguinte pesquisa: traga uma crônica para a sala de aula. Se a proposta do professor parar por aí, só na busca do texto, o “copia e cola” dá conta, muito bem, mas se a pesquisa for: pesquise uma crônica e estabeleça as diferenças entre este texto e um conto de fadas. Nesse caso, o aluno fará a pesquisa, mas precisará ler, caracterizar, comparar e chegar a uma conclusão, e, nesse caso, a internet é uma fonte de pesquisa a favor do professor e do aluno. Concluindo, a diferença está na forma, na estratégia do professor. A Utilização da internet é um campo novo para o professor, principalmente porque na maioria das vezes é o professor que não tem acesso. O aluno também é um excluído digital. A Internet e o computador podem ser aliados do professor, na medida em que o utiliza para vencer as barreiras da sala de aula. Para pesquisar novas experiências, UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 81 fazer contato com outros educadores, buscar material para ilustrar e enriquecer as aulas e ainda fazer projetos colaborativamente com outros educadores. Alguns alunos usam outras ferramentas, como o blog, videolog, as comunidades virtuais, chats de comunicação on-line (síncrona). Um dos grandes desafios é o professor conseguir utilizar estes recursos que interessam aos alunos e usá-los como ferramentas no uso da língua. No ensino de Língua Portuguesa, o professor pode utilizar um blog colaborativo sobre um livro, por exemplo, e os alunos interagirem com outras pessoas que já leram o livro, trazendo outras visões e opiniões para a sala de aula. Os alunos podem fazer fóruns sobre livros de literatura, no qual discutem com outros alunos, a história, a intenção do autor etc. Podem fazer uma comunidade sobre determinado assunto e discutir com outras pessoas. Marcar um chat fora do horário de aula para discutir um texto com os colegas. Pode partir de um vídeo e cada um relatar através de um portador diferente, por exemplo, transformar a história numa fábula, em um conto de terror etc. Há a pesquisa, a literatura de livros on-line, uma modalidade nova entre os adolescentes é a fanfiction, no qual crianças e adolescentes recriam histórias de personagens conhecidos como, por exemplo, o Harry Potter. Esta é uma forma de estimular a produção textual, levando em consideração o interesse dos alunos. Há inúmeras possibilidades, o importante é utilizar as ferramentas em benefício do processo ensino-aprendizagem, lutando para que a inclusão digital ocorra para alunos e professores de forma consciente e emancipadora. A tarefa de formar leitores competentes iniciou esta unidade. Discutimos também a importância dos materiais nos planejamentos das aulas. Dessa forma, fez- se necessária uma reflexão sobre o uso do livro didático. A tecnologia, a postura do professor e a organização curricular foram outros destaques desta unidade. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 82 REFERÊNCIAS CURTO, Luís Maruny; MORILO, Maribel Ministral e TEIXIDÓ, Manuel Miralles. Escrever e ler, volume 1 e 2. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000. DAVINI, Juliana. In Avaliação e Planejamento - A prática educativa em questão: Instrumentos metodológicos II. Publicações Espaço Pedagógico. São Paulo, 1997. FOUCAMBERT, Jean. A leitura em questão. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994. GERALDI, João Wanderlei e Beatriz Citelli (coordenadores do volume 1). Da redação à produção de textos. In Aprender e ensinar com textos/ 4ª edição. São Paulo: Cortez, 2001. KAUFMAN, Ana Maria e RODRIGUEZ, Maria Elena. Escola, leitura e produção de textos. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. NEMIROVSKY, Myriam. O ensino da Linguagem Escrita. Porto Alegre: Artmed, 2002. TEBEROSKY, Ana e COLOMER, Teresa. Aprender a ler e a escrever: uma proposta construtivista. Porto Alegre: ArtMed, 2003. ZABALA, Antoni. A prática educativa: como ensinar. Porto Alegre: ArtMed, 1998. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 83 Aula 15_O Professor de Língua Portuguesa e Organização Curricular em Língua Portuguesa Palavras-chave: professor de língua portuguesa; organização curricular; aprendizagem significativa. A pergunta motivadora das reflexões que seguem é: qual relação deve ser estruturada para dar condições ao professor de oferecer boas situações de aprendizagem? Inicialmente, um professor de Língua Portuguesa, deve gostar da disciplina. Pode parecer óbvio, no entanto, ao longo da vida acadêmica encontramos professores que dizem não gostar de ler, o que me causa estranheza, equivaleria a um médico-cirurgião dizer que não gosta de operar. O mesmo se dá em relação aos professores que não gostam de ler. Não gostar implica em não querer buscar novas fórmulas, maneiras de superar. Em nosso curso, o perfil do professor deve ser de alguém que ama a Língua Portuguesa, que busque continuamente melhorar suas aulas, que torne o ensino da Língua algo apaixonante, intrigante. E que, ao mesmo tempo, permita-se aprender com seus alunos. De acordo com Zabala, temos algumas ações que o professor deve contemplar para ter aulas inovadoras: a) Planejar a atuação docente de maneira suficientemente flexível para permitir a adaptação das necessidades dos alunos em todo o processo de ensino/ aprendizagem. b) Contar com as contribuições e os conhecimentos dos alunos, tanto no início das atividades como durante a sua realização; c) Ajudá-los a encontrar sentido no que estão fazendo para que conheçam o que têm para fazer, sintam que podem fazê-lo e que é interessante fazê-lo. d) Estabelecer metas ao alcance dos alunos para que possam ser superadas com o esforço e a ajuda necessários. e) Oferecer ajudas adequadas, no processo de construção do aluno, para os progressos que experimenta e para enfrentar os obstáculos com os quais se depara. f) Promover atividade mental autoestruturante que permita estabelecer o máximo de relações com o novo conteúdo, atribuindo- lhe significado no maior grau possível e fomentando os processos de metacognição que lhe permitam assegurar o controle pessoal sobre os próprios conhecimentos e processos durante a aprendizagem. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 84 g) Estabelecer um ambiente e determinadas relações presididos pelo respeito mútuo e pelo sentimento de confiança, que promovam a autoestima e o autoconceito. h) Promover canais de comunicação que regulem os processos de negociação, participação e construção. i) Potencializar progressivamente a autonomia dos alunos na definição de objetivos, no planejamento das ações que os conduzirão a eles e em sua realização e controle, possibilitando que aprendam a aprender. j) Avaliar os alunos conforme suas capacidades e seus esforços, levando em conta o ponto pessoal de partida e o processo através do qualadquirem conhecimento e incentivando a autoavaliação das competências como o meio para favorecer as estratégias de controle e regulação da própria atividade. (ZABALA, 1998, p.92) Todas essas atitudes permeadas por uma metodologia construtivista tornarão as aulas de Língua Portuguesa um convite à descoberta, dando possibilidades aos nossos alunos de fazerem uso de nossa língua materna de forma mais muito mais concisa e consciente. É importante ressaltar que as aulas devem ser preparadas de acordo com o público-alvo e a partir da documentação publicada pelo Ministério da Educação. Por isso, é fundamental que o professor conheça profundamente a concepção de ensino da língua apresentada pela Base Nacional Comum Curricular e os direitos mínimos de aprendizagem de cada ciclo. A formação consistente do educador dará mais – ou menos – condições para que as aulas sejam significativas para os alunos. E não se trata de pensar apenas na formação inicial, mas também a continuada. Ademais, é preciso que o professor desenvolva hábitos leitores, uma vez que esse é um profissional cujo pré-requisito é ter consolidada uma leitura proficiente. Apesar disso, sabemos que não é a realidade de grande parte da população, mesmo os que já têm o curso finalizado. Parece estranho pensar que há professores que não leem, mas é a realidade. Por isso, você, minha cara aluna, meu caro aluno, precisará se observar permanentemente e se perguntar: quais materiais tenho lido? Tenho condições de oferecer uma boa variedade de títulos, se um aluno quiser uma indicação de leitura? Consigo compreender um texto escrito sem apoio de outras mídias? Eu me provoco a investigar novas linguagens? Consigo produzir um texto minimamente claro? Quais estratégias utilizo para escrever? Se você se reconhece como um leitor com poucas habilidades desenvolvidas, não pode continuar assim. Precisará se propor a ler com foco, sublinhando palavras- UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 85 chave, identificando e relacionando conceitos. Se você se reconhece como um escritor com poucas habilidades desenvolvidas para a produção textual, precisará enfrentar a escrita cotidiana, de textos inicialmente curtos. É fundamental assumir estratégias de leitura e de produção textual, se quisermos indicar o caminho para que nossos alunos sejam bons autores e leitores. Não há segredo: para ser um bom professor de língua portuguesa, é preciso conhecer bem a língua portuguesa em seus diversos contextos. Por isso, deixo a provocação: você se considera um bom leitor? Você se considera um bom autor? Que tal, uma vez ao mês, elaborar um artigo de opinião sobre um tema contemporâneo? Essa atividade pode, com o texto, tornar-se prazerosa. Que tal assumir a prática de leitura de, pelo menos, 15 páginas ao dia? Sei que parece bobagem quantificar desse modo, mas a minha experiência em formação de professores me traz esta realidade: se não colocarmos metas, com números objetivos, não é possível delinear as fragilidades que precisam superadas. Entendo que deveríamos pensar em formação de gosto e não de hábito de leitura. Mas sabemos, também, que nem sempre é gostoso ler e que, às vezes, precisamos desenvolver a leitura para aprender temas complexos (o que nem é sempre prazeroso). Lembre-se que aprendemos a ler e lemos para aprender. Daí, a necessidade dos professores permanecerem se provocando para que avancem na construção de seus conhecimentos. O bom professor de língua portuguesa deve conhecer os usos sociais da linguagem e não deve confundir variação linguística com preconceito linguístico. Ao contrário, o professor precisa incorporar todos os gêneros textuais em suas aulas, ampliando o seu próprio repertório. O BNCC aponta para a valorização da cultura juvenil, do repertório dos alunos, então, por que deveríamos separar os gêneros entre “escolares” e “não escolares”? Paulo Freire, em seu célebre Pedagogia da autonomia, não deixa margem para dúvidas quando aborda que o perfil de um bom professor é aquele que garante que seus alunos lidem com a realidade com consciência crítica e criativa. Por isso, o professor precisa, antes, lidar com sua própria realidade desse modo, desempenhando plenamente sua cidadania. Pensar sobre a proposta curricular é mapear a trajetória do que iremos vivenciar com os alunos. A escolha do currículo nunca é neutra, ou seja, é imbuída UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 86 de uma concepção de homem, educação e sociedade. O currículo expressa o que queremos desenvolver em nossos alunos, a diferença em propor situações problematizadoras ou tratar o conhecimento mecanicamente propõe uma opção metodológica. Escolher uma metodologia que seja baseada em um currículo fragmentado, conteudista elimina grande parte da possibilidade dos alunos em ter autonomia em relação ao seu conhecimento. O conteúdo é fundamental, mas não deve abordar só aspectos conceituais, o aluno é o cidadão que vive inserido em um contexto. A escola que lidar só com conceitos e fatos deixará de lado a oportunidade de desenvolver um leitor e escritor com habilidades. Além da apropriação do texto, o aluno entenderá também o contexto. A maioria dos guias curriculares em vigor já não organiza os conteúdos de Língua Portuguesa em alfabetização, ortografia, pontuação, leitura em voz alta, interpretação de texto, redação e gramática, mas, na prática da sala de aula, essa estruturação é a que ainda prevalece. Esses conteúdos também são propostos neste documento, mas estão organizados em função do eixo USO e REFLEXÃO e USO. Aparecem, portanto, como “Prática de leitura”, “Prática de produção de texto” e “Análise e reflexão sobre a língua”. O ponto de partida é a Base Nacional Comum Curricular. Mas é somente um ponto de partida, uma vez que cada região deve propor, com base nas suas especificidades, um currículo que esteja de acordo com suas características. A unidade escolar deve tratar o currículo de acordo com o perfil dos seus estudantes, visando que a aprendizagem seja significativa. A organização dos conteúdos de Língua Portuguesa em função das práticas de linguagem pressupõe um tratamento cíclico, pois, de modo geral, os mesmos conteúdos aparecem ao longo de toda a escolaridade, variando apenas o grau de aprofundamento e sistematização. Para garantir esse tratamento cíclico é preciso sequenciar os conteúdos segundo critérios que possibilitem a continuidade das aprendizagens. São eles: ▪ considerar os conhecimentos anteriores dos alunos em relação ao que se pretende ensinar, identificando até que ponto os conteúdos ensinados foram realmente aprendidos; UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 87 ▪ considerar o nível de complexidade dos diferentes conteúdos como definidor do grau de autonomia possível aos alunos, na realização das atividades, nos diferentes ciclos; ▪ considerar o nível de aprofundamento possível de cada conteúdo, em função das possibilidades de compreensão dos alunos nos diferentes momentos do seu processo de aprendizagem. Desde os Parâmetros Curriculares Nacionais, as habilidades de falar, escutar, ler e escrever são as bases da proposta de ensino-aprendizagem em Língua, e constituem o eixo norteador da disciplina. Pode parecer uma seleção simplista, mas se pensarmos na quantidade de analfabetos funcionais que temos em nosso país, a situação fica diferente, e é contra essa injustiça social que devemos lutar. Precisa ficar claro que estas são as habilidades básicas e pedem um aprofundamento muito sistemático e preciso. [...] A organização dos conteúdos não é um tema menor, uma decisão secundária ou um problema de escolha estritamente técnico. Ao contrário, responde à própria essência do que se pretende alcançar com a educaçãoobrigatória, ao protagonismo que se atribui ao aluno como sujeito ativo na construção do conhecimento, a análise que se realize dos fatores e das variáveis que intervêm favorecendo ou obstaculizando esta construção... [...] a resposta será a opção de reorganizar os conteúdos a fim de assegurar ao máximo, através de um enfoque globalizador, de que as aprendizagens sejam o mais significativas possível para que o que os meninos e meninas aprendam lhes ajude a se formar como cidadãos competentes para compreender a sociedade em que vivem e participar nela construtivamente. (ZABALA, 1998, p. 164 e 165.) O currículo não é só uma escolha arbitrária do professor, tem que estar atrelado ao Projeto Político Pedagógico da escola, portanto deve ser discutido em todas as instâncias escolares, com a equipe docente e comunidade (especialistas, pais, professores, funcionários, alunos etc.), pois a escolha de que conhecimentos serão apreendidos deve ser coletiva. Cabe ao professor, como especialista, dar seu parecer no sentido de preservar a especificidade da área de conhecimento. O planejamento é um dos instrumentos mais importantes para o ser humano. Através do planejamento é possível definirmos nossas metas a curto, médio e longo prazo; prevermos situações e recursos, organizarmos as atividades, dividirmos tarefas para facilitar o trabalho, avaliarmos. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 88 Na escola, é através do planejamento que temos a possibilidade de: selecionar e organizar os conteúdos mais significativos; organizar uma sequenciação lógica dos conteúdos; escolher os melhores procedimentos e recursos; atuar com mais segurança na sala de aula; evitar a improvisação, a repetição e a rotina, organizar a continuidade do ensino e também auxiliar o professor e as crianças a tomarem decisões de forma cooperativa e participativa. As aulas de Língua Portuguesa são importantes porque: proporcionam aos alunos ampliar as possibilidades de comunicação e expressão; permitem o registro de conhecimentos científicos, culturais e históricos; levam ao contato com as manifestações artísticas da linguagem, provocam na criança a reflexão sobre suas ansiedades e expectativas; dão acesso aos demais conteúdos curriculares; ampliam as possibilidades de o estudante reivindicar seus direitos de cidadãos. Assim, os planos, que podem mudar de escola para escola, devem deter-se a esses parâmetros básicos. Sempre de acordo com os PCNs de Língua Portuguesa, garantindo o trabalho com dois eixos básicos: o uso da língua oral e escrita e a análise e reflexão sobre a língua. É sabido por todos nós que muito educadores apoiam-se no livro didático na organização de seu planejamento. Cabe aqui destacar que alguns cuidados devem ser tomados com relação a essa prática: um material distribuído de norte a sul do nosso país, não dá conta de tratar das especificidades de cada sala de aula. Quando a escola adota esse material a primeira tarefa docente é analisar detalhadamente o livro recebido analisando o quanto ele é adequado de acordo com as competências e habilidades já adquiridas pelas crianças em anos anteriores e quais conteúdos devem ser objeto de situações de ensino e aprendizagem de acordo com as metas estabelecidas pela escola. Outra tarefa importante é não transformar o livro didático em um guia que deva ser seguido de maneira inflexível – para tanto, é preciso verificar o que pode ser tirado da ordem, excluído, acrescentado ou substituído na publicação. A fim de facilitarmos a tarefa acima, é importante que a escola, em seu Projeto Político Pedagógico, elabore uma tabela, indicando quais gêneros serão priorizados em cada ano do ensino fundamental. A elaboração dessa tabela auxiliará o professor na tarefa de análise do material previamente enviado para trabalhar (por exemplo, o livro didático), apontando quais materiais adicionais ele deverá levar para sala de UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 89 aula. Auxiliará, também, evitando que um determinado gênero seja repetidamente trabalhado em mais de uma oportunidade e que as crianças deixem de ter contato com outros que também serão fundamentais à sua formação. A tabela abaixo é um modelo de organização que pode ser adaptado de acordo com as necessidades de cada unidade escolar. Seu preenchimento indica quais gêneros serão privilegiados em cada ano, o que não impede, muito pelo contrário, que nos momentos de leitura, gêneros não selecionados na tabela sejam lidos pela criança ou professor. No preenchimento da tabela, é importante indicar se o trabalho com o gênero será baseado em atividades de escuta (leitura feita pelo professor), de leitura (feita pelo aluno), de escrita ou de leitura e escrita. A publicação da Base Nacional Comum Curricular em 2017 impacta as avaliações externas, mas a mais significativa é a em relação à alfabetização. Se antes os PCNs previam o fim do ciclo da alfabetização para o terceiro ano, agora, com a BNCC, ele deve se dar no segundo ano. Contextualizar os resultados das avalições externas, dialogando com toda a comunidade sobre os resultados, pode transformar os efeitos ruins que elas têm no cotidiano escolar. Como se sabe, o dia a dia de uma escola é atravessado por inúmeras variáveis, as quais não são contempladas em exames aplicados para a totalidade das escolas brasileiras. Por isso, apesar da pressão social para que as escolas tenham bons resultados, vale mais apostar no trabalho cotidiano desenvolvido em sala de aula, valorizando as especificidades do público. De qualquer modo, não há como deixar de reconhecer que é preciso melhorar muito as práticas escolares, para que as dez competências previstas na BNCC para todos os componentes – e as habilidades exigidas para cada ano – sejam plenamente desenvolvidas. Se pensarmos em algumas habilidades previstas para os anos iniciais do ensino fundamental e observarmos a realidade, fica claro que há problemas graves nas relações de ensino e de aprendizagem. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 90 REFERÊNCIAS CURTO, Luís Maruny; MORILO, Maribel Ministral e TEIXIDÓ, Manuel Miralles. Escrever e ler, volume 1 e 2. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000. DAVINI, Juliana. In Avaliação e Planejamento - A prática educativa em questão: Instrumentos metodológicos II. Publicações Espaço Pedagógico. São Paulo, 1997. FOUCAMBERT, Jean. A leitura em questão. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994. GERALDI, João Wanderlei e Beatriz Citelli (coordenadores do volume 1). Da redação à produção de textos. In Aprender e ensinar com textos/ 4ª edição. São Paulo: Cortez, 2001. KAUFMAN, Ana Maria e RODRIGUEZ, Maria Elena. Escola, leitura e produção de textos. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. NEMIROVSKY, Myriam. O ensino da Linguagem Escrita. Porto Alegre: Artmed, 2002. TEBEROSKY, Ana e COLOMER, Teresa. Aprender a ler e a escrever: uma proposta construtivista. Porto Alegre: ArtMed, 2003. ZABALA, Antoni. A prática educativa: como ensinar. Porto Alegre: ArtMed, 1998. UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 91 Aula 16_ Avaliações e o portfólio Palavras-chave: avaliação; portfólio; avaliação externa. Nesta aula, trataremos de um assunto que ainda ocupa um espaço a ser conquistado entre os professores de Língua Portuguesa: a utilização de um portfólio como retrato da trajetória de aprendizagem do aluno. O ensino por ciclos é uma determinação, no entanto, na prática, não deu certo na maioria das escolas públicas, pois o professor não sabe trabalhar continuamente. Há ainda uma dimensão política que impede a efetivação do ciclo, pois esta forma organizativa para ser bem sucedida pede um número reduzido de alunos na sala de aula, observar, registrar,mediar e desafiar os alunos respeitando a diferença de conhecimentos que eles possuem com eficiência. Para Jussara Hoffmann: O processo avaliativo não deve estar centrado no entendimento imediato pelo aluno das noções em estudo, ou no entendimento de todos em tempos equivalentes. Essencialmente, por que não há paradas ou retrocessos nos caminhos da aprendizagem. Todos os aprendizes estão sempre evoluindo, mas em diferentes ritmos e por caminhos singulares e únicos. O olhar do professor precisará abranger a diversidade de traçados, provocando-os a progredir sempre (2001, p. 47). Hoffmann indica que há pouca coerência entre o discurso da escola em relação à avaliação e o que se pratica, pois ainda predominam avaliações classificatórias, o que, segundo a autora, revelam uma atitude autoritária dos professores em relação aos alunos. A autora atribui tal atitude como resultado da educação que o próprio professor teve. Cipriano Luckesi (2005, p. 30) faz a seguinte afirmação: "Em nossa vida escolar, fomos muito abusados com os exames (...), hoje no papel de educadores, repetimos o padrão". Monitorar as progressões dos alunos não é algo tão fácil, exige competências do professor e estrutura técnico-pedagógica para realmente acontecer: Na avaliação nós não precisamos julgar, necessitamos isto sim, de diagnosticar, tendo em vista encontrar soluções mais adequadas e mais satisfatórias para os impasses e dificuldades. Para isso, não é necessário nem ameaça, nem castigo, mas sim acolhimento e confrontação amorosa. (LUCKESI, 2005, p. 33) UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 92 Cada aluno apresenta uma trajetória. Conseguir, construir e registrar esse processo é algo que o professor precisa aprender a fazer, uma das formas de isso acontecer é a construção de um portfólio que conterá a história do aluno e, consequentemente, do professor também. Seguindo Luckesi, a avaliação acaba por excluir os alunos das relações de ensino e de aprendizagem: Essa é uma prática que exige de cada um de nós educadores: vínculo com a profissão, formação adequada e consistente, compromisso permanente com a educação, atenção plena e cuidadosa com todas as nossas intervenções, a flexibilidade no relacionamento com os educandos. (LUCKESI, 2005, p. 34) Por isso, o portfólio é uma ferramenta significativa para que se desenvolva um processo avaliativo justo, entendendo-o como um instrumento avaliativo do aluno e do professor, entendendo a avaliação não como um julgamento que separa sucesso de fracasso, gerando rótulos, mas como algo a ser considerado como elemento indicativo de melhorias. Processo de Montagem de portfólio em 10 fases: 1. Estabelecer uma política para o portfólio. 2. Coletar amostras de trabalho. 3. Tirar fotografias. 4. Conduzir consultas nos diários de aprendizagem. 5. Conduzir entrevistas. 6. Realizar registros sistemáticos. 7. Realizar registros de casos. 8. Preparar relatórios narrativos. 9. Conduzir reuniões de análise de portfólios em três vias. Ainda segundo Shores e Grace, as primeiras questões a serem respondidas sobre portfólio consistem em: ● Como vou incorporar a avaliação com portfólio em minha escola ou em um programa de ensino? ● Como classifico as amostras de trabalhos das crianças? ● Como relacionar portfólios a testes-padrão e boletins? UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 93 O propósito é trazer elementos que possam ser úteis na elaboração do portfólio do aluno, não constituindo uma fórmula a ser seguida. O interessante é construir o portfólio com as características de sua turma, atendendo às necessidades da mesma. O portfólio deve ser compartilhado com os pais para que estes possam acompanhar o desenvolvimento dos filhos. Em hipótese nenhuma o portfólio deve configurar um instrumento de pressão para o aluno ou professor, pois tal atitude descaracterizaria a função de registro do processo. A homogeneização é um dos aspectos tradicionais que os professores tentam romper. Respeitar o momento dos alunos e levá-los a novas descobertas é outra contribuição que o portfólio pode auxiliar a desenvolver, pois fica mais nítido o avanço ou não do aluno. A precisão da aprendizagem é mais fácil de ser percebida quando organizada numa sequência, até mesmo para o aluno poder se autoavaliar. Uma das questões que sempre irá permear a atividade docente é como organizar as situações para que favoreçam a aprendizagem, o portfólio é um demonstrativo quanto à metodologia que está sendo utilizada e se foi adequada para os alunos, individualmente. É um monitoramento a curto e longo prazo. A estratégia de montar portfólios rompe com a forma tradicional de avaliar o aluno, pois o professor avalia o percurso como elementos encadeados e não somente por provas. Mas este é o assunto de nossa próxima aula. Este tema é um dos mais polêmicos: a avaliação. Antes de iniciarmos nosso diálogo, precisamos esclarecer que prova é só uma forma de avaliação. Enquanto alunos, provavelmente as provas de Português não trazem boas recordações. Era uma “decoreba” de substantivos, adjetivos, objeto direto, vocativo e muito mais. E as análises sintáticas? Tudo era extremamente desconectado do mundo real. A questão que se estabelece é como ensinar Língua Portuguesa, de forma que os assuntos estejam conectados, vivos, estimulantes. Dessa forma, a avaliação não pode ser uma prova conceitual, que qualquer criança boa de memória realize. Trataremos nesta aula de outra perspectiva da avaliação: ela não se limitará à prova. A prova está ligada ao exame, classificação, sucesso ou fracasso. No ensino tradicional, em minha época, se todos os alunos fossem bem nas provas era sinal de algo estava errado, a prova era feita para “pegar” o aluno. Caso contrário, o professor era considerado fraco, bom professor era aquele temido que dava notas UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 94 em conta-gotas. O aprendizado do aluno era coadjuvante, o ensino era centrado no professor. O professor Cipriano Luckesi sempre alerta os educadores que a prova como classificatória, eliminatória era do tempo dos jesuítas, que pregavam castigos corporais e sabatinas públicas elevando os bem-sucedidos e humilhando os que fracassavam. Na perspectiva que propomos, a avaliação ocorre em todas as etapas do processo, no início, durante e no final. E não existe para rotular os alunos, ela é um instrumento mediador entre aluno-professor, os objetivos estabelecidos e o que foi alcançado. A avaliação enquanto processo reflexivo em Língua Portuguesa, não pode ser expressa por provas que apresentam os conteúdos de formas desconexas. Ela irá pressupor um aluno protagonista, que constrói o conhecimento, e para quem não basta apenas saber a definição do que é uma crônica, por exemplo. É preciso entender como é feita, suas características e ser capaz de produzir este tipo de texto, saber se relacionar com o texto e o contexto. Romper com as raízes tradicionais é um compromisso a ser assumido, a esse respeito Zabala nos coloca: Dificilmente podemos conceber a avaliação como formativa se não nos desfazemos de algumas maneiras de fazer que impedem mudar as relações entre os alunos e os professores. Conseguir um clima de respeito mútuo, de colaboração, de compromisso com um objetivo comum é condição indispensável para que a atuação docente possa se adequar às necessidades de uma formação que leve em conta as possibilidades reais de cada menino ou menina e o desenvolvimento de todas as capacidades. A observação da atuação dos alunos em situações, o menos artificiais possível, com um clima de cooperação e cumplicidade, é a melhor maneira, para não dizer a única, de que dispomos para realizar uma avaliação que pretenda ser formativa. (1998, p. 210.)Não há uma fórmula mágica que possa ser aplicada para transformar a metodologia de avaliação. É preciso que cada professor, no individual e no coletivo, descubra formas de avaliar, levando em consideração o processo. Como abordamos na aula sobre portfólio, este é um dos caminhos. Para que o professor tenha autonomia e possa promover condições para que os alunos sejam autônomos, é necessário que as avaliações externas sejam articuladas às características de cada unidade escolar. Caso contrário, o que ocorre UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Núcleo de Ensino a Distância 95 é um ciclo vicioso em que se repete um tipo de avaliação que busca, antes, o bom desempenho dos alunos frente aos órgãos governamentais internos e até internacionais. A discussão é longa e precisa ser pensada ao lado de outros saberes como os que envolvem as políticas públicas educacionais. Por isso, essa aula é um estímulo para que os professores desenvolvam reflexões sobre a importância e a função das avaliações internas e externas. Algumas avaliações externas tradicionais são: • SARESP - Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo. Desde sua criação, em meados da década de 1990, avalia sistematicamente o sistema de ensino paulista, verificando o rendimento escolar dos alunos de diferentes anos. • SAEB- Sistema de Avaliação da Educação Básica – Programa nacional de avaliação, aplicado no país todo. • PISA - Programa internacional de avaliação comparada, cuja principal finalidade é produzir indicadores sobre a efetividade dos sistemas educacionais, avaliando o desempenho de alunos na faixa dos 15 anos, idade em que se pressupõe o término da escolaridade básica obrigatória na maioria dos países. REFERÊNCIAS HOFFMANN, Jussara. Avaliação mediadora: uma prática em construção da pré- escola à universidade. Porto Alegre: Educação & Realidade, 1993. HOFFMANN, Jussara. Avaliação mito e desafio: uma perspectiva construtivista. Porto Alegre: Educação & Realidade, 1993. LUCKESI, Cipriano Carlos. Avaliação da aprendizagem na escola: reelaborando conceitos e criando a prática. 2 ed. Salvador: Malabares Comunicações e eventos, 2005. LUCKESI, Cipriano Carlos. Avaliação da aprendizagem escolar: estudos e proposições. São Paulo: Cortez, 1995.