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Copyright © 2006 Ed René Kivitz
Publicado por Editora Mundo Cristão
Os textos das referências bíblicas foram extraídos da Nova Versão Internacional (NVI), da
Biblica, Inc., salvo indicação especí�ca.
 
Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei no 9.610, de 19/02/1998.
 
É expressamente proibida a reprodução total ou parcial deste livro, por quaisquer meios
(eletrônicos, mecânicos, fotográ�cos, gravação e outros), sem prévia autorização, por
escrito, da editora.
 
Diagramação: Triall Composição Editorial Ltda Preparação: Omar de Souza Diagramação
para e-book: Yuri Freire Capa: Douglas Lucas
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Kivitz, Ed René
Outra espiritualidade [livro eletrônico]: fé,
 graça e resistência / Ed René Kivitz. --
 São Paulo : Mundo Cristão, 2014.
2 Mb; ePUB
ISBN 978-85-433-0014-6
1. Conduta de vida 2. Espiritualidade 3. Fé 4. Missão da Igreja 5. Vida espiritual -
Cristianismo I. Título.
14-03226   CDD-266
Índices para catálogo sistemático: 1. Espiritualidade missionária : Cristianismo 266
Categoria: Espiritualidade/Inspiração
 
Publicado no Brasil com todos os direitos reservados por: Editora Mundo Cristão
Rua Antônio Carlos Tacconi, 79, São Paulo, SP, Brasil, CEP 04810-020
Telefone: (11) 2127-4147
www.mundocristao.com.br
 
1a edição eletrônica: maio de 2014
http://www.mundocristao.com.br/
Sumário
Palavra do editor
Apresentação
Introdução
 
Parte 1. Outro cristianismo
1. Ser cristão
2. Amizades espirituais
3. Pastores de ontem e de hoje
4. Auditórios manipuláveis
5. Evangelização contextualizada
6. Santo remédio
7. Bandeiras antigas
8. Ladeira abaixo
9. Pastores e pastores
10. Missão integral – Uma síntese
11. As verdades de Norton
12. Até quando
13. A espiritualidade na pós-modernidade
14. Um convite à oração
 
Parte 2. Outra igreja
15. O Evangelho da graça de Deus
16. Construir comunidades
17. As marcas da institucionalização da Igreja
18. Novos paradigmas para a Igreja
19. O sol e a peneira
20. A Igreja relevante na pós-modernidade
21. O poder de uma visão
22. Obsolescência
23. Você também tem razão
24. Um sonho de igreja
25. Igreja: organismo e organização
26. A cidade edi�cada sobre o monte
 
Parte 3. Outro céu
27. O cristão e o código de barras
28. Só Cristo salva
29. O que é pecado?
30. A morte lhe cai bem
31. Pontos de chegada
32. Dr. Jekyll e Mr. Hyde
33. Paradigmas de sucesso
 
Parte 4. Outra fé
34. Vivendo com propósitos
35. Sal da Terra e luz do mundo
36. Felicidade não é um lugar aonde se chega
37. Os brasileiros e sua fé
38. Ressurreição
39. Coisas ruins acontecem às pessoas boas
40. Deus conosco
41. A fé que eu quero
42. A tirania da felicidade
43. O Deus bailarino
44. Pessoas não mudam
 
Parte 5. Outras coisas
45. O signi�cado do sucesso
46. Ford, General Motors e as igrejas evangélicas no Brasil
47. Religião e política
48. Novas doutrinas
49. Espiritualidade corporativa
50. Estreitar, mas sem perder a largura
51. A graça comum, a imago Dei e a MPB
52. Dai a César o que é de César
53. O sentido do trabalho
54. O monge e o executivo
 
Sobre o autor
Palavra do editor
A HISTÓRIA DEMONSTRA: AOS MAIORES avanços do cristianismo correspondem
movimentos de retorno às raízes da fé e o resgate dos valores do Reino
originalmente pregados e vividos por Jesus e aqueles a quem o Mestre chamou.
Se é verdade que o Corpo de Cristo passou, na prática, por vários avivamentos
– aqui entendidos como as experiências de povos e nações que reconhecem seu
distanciamento de Deus e, arrependidos, buscam o caminho de volta à
comunhão com o Criador –, é digno de nota o fato de seus expoentes terem
sido homens e mulheres que recusaram os confortos da secularização e
recuperaram a trilha de chão batido aberta pelos pais da Igreja.
É por essa razão que tantas “novas revelações” anunciadas com alarde por
aventureiros em dois mil anos de história, e mais ainda nas últimas décadas,
com a ajuda dos meios de comunicação, resistem cada vez menos ao tempo.
Enquanto elas vêm e vão ao sabor das órbitas da Terra, a ortodoxia cristã é, vez
por outra, redescoberta, como se nunca estivesse ali, mas presente o tempo
inteiro a sustentar o ânimo vital do Corpo de Cristo. E a cada repetição do
ciclo surge mais um grupo de resistentes, gente que ousa questionar, pensar e, se
necessário, romper com aquilo que não traduz a essência do Evangelho.
Ed René Kivitz é uma dessas pessoas. Nos últimos anos, tem se destacado
não só na condição de pastor de seu rebanho local, a Igreja Batista de Água
Branca, em São Paulo, como na inspiração que oferece a públicos de todo o
Brasil em palestras e conferências de que participa e por meio dos artigos que
escreve, desde o ano 2000, com regularidade para a revista Eclésia.
Assim como a força das mensagens que prega não passa pela elevação no
tom da voz, o vigor de seus textos não está na altivez das palavras ou na
virulência da linguagem. Pelo contrário: Ed René é o tipo de escritor que
responde ao desa�o de admoestar, exortar, provocar e re�etir com o gesto
generoso daquele que oferece a mão e convida o leitor para uma jornada do
pensamento – nem sempre suave ou breve, é verdade, mas nunca improdutiva.
Já em Vivendo com propósitos, seu primeiro livro pela Editora Mundo
Cristão, �cava clara a angústia de Ed René Kivitz com a própria perspectiva de
vida disseminada na Igreja Evangélica e a urgência da correção de rumo – até
porque é exatamente na caminhada, e não no destino, que ele percebe estar a
dimensão mais genuína do viver cristão. Os textos produzidos para a coluna
“Diálogo” da revista Eclésia, por sua vez reunidos em Outra espiritualidade,
denunciam as indagações e inquietudes de um pensador que não hesita em
revelar suas dúvidas e convicções sobre a identidade de uma Igreja tão
orgulhosa por marchar em nome de um evangelho pródigo em pirotecnia, mas,
em muitos casos, raso e destituído de causa.
Integrante de uma geração de líderes cristãos forjada num período singular
da Igreja brasileira – �m da ditadura militar, consolidação do conceito de
Evangelho Integral, in�uência de grupos doutrinários excêntricos, ampliação
do espaço evangélico na mídia, revisão dos parâmetros de administração e
gerência eclesiástica, relativização do papel fundamental do Corpo de Cristo
em troca de espaço político etc., Ed René Kivitz faz parte de um grupo que
representa uma espécie de desobediência civil às tendências da maioria de seus
contemporâneos. Daí o dever de publicá-lo.
Apresentação
A EXPRESSÃO “OUTRA ESPIRITUALIDADE” SUGERE a pergunta: “outra em relação
a quê?”. Isto é, que espiritualidade está sendo abandonada para que em seu
lugar apareça “outra”? No meu caso é simples: estou abandonando a
espiritualidade do senso comum evangélico e saindo em busca da
espiritualidade do senso comum da tradição cristã.
Apresso-me em explicar. Considero “senso comum” uma forma simples de
me referir ao fato de que, apesar da enorme diversidade a respeito das
características que identi�cam o ser evangélico, há um núcleo que resume
como este segmento religioso da sociedade articula sua crença e seu modus
vivendi. Ao escolher o senso comum, admito que a “outra espiritualidade” que
busco não é uma novidade, mas um resgate dos aspectos essenciais à fé cristã
conforme se estabeleceram nestes mais de dois mil anos de história.
Deixando de lado o rigor acadêmico e cientí�co, que não cabe na proposta
deste livro, chamo “senso comum da fé evangélica” os conteúdos articulados na
face mais visível dessa tradição religiosa, notadamente por meio da mídia
impressa, radiofônica e televisiva. São os autores e “comunicadores de massa
que fazem a cabeça dos �éis e, aos poucos, vão de�nindo, consciente e
inconscientemente, voluntária einvoluntariamente, um núcleo de crenças
determinantes de uma cosmovisão e, por consequência, um jeito de ser no
mundo. A partir de determinado ponto, passa a existir uma cultura autônoma,
independente dos conteúdos mais elaborados dos teóricos. Essa cultura
autônoma é apropriada pelo povo, e a partir de então é de�agrado um processo
de desenvolvimento de crenças e costumes que vai se distanciando cada vez
mais da proposta original.
Não tenho dúvidas de que esse fenômeno aconteceu na chamada “Igreja
evangélica”, e que o ser evangélico, conforme compreendido hoje pela
sociedade brasileira – e até mesmo por muitos evangélicos –, está
absolutamente distante dos conteúdos originais da fé cristã. Evidentemente, é
pretensioso aquele que a�rma conhecer “os conteúdos originais da fé cristã”,
pois toda teologia é interpretação, isto é, tudo quanto os cristãos propagam são
versões do conteúdo original. O que se exige é a avaliação mínima dos
conteúdos atuais relativamente àqueles que foram, desde períodos mais
remotos, divulgados como constitutivos da fé cristã. Tenho a �rme convicção
de que o cristianismo dos evangélicos contemporâneos é absolutamente
distinto do cristianismo dos primeiros cristãos e das tradições teológicas mais
consistentes da história da Igreja.
Aliás, é muito triste o fato de grande parte dos novos líderes evangélicos e
dos novos convertidos à fé evangélica desconhecer a tradição teológica da
história da Igreja, seus expoentes mais respeitados, suas fundamentações
�losó�cas, seus embates com os espíritos de sua época; suas argumentações
apologéticas e, principalmente, seu sangue vertido em defesa da fé. Os
neoevangélicos estão ocupados demais em construir uma experiência religiosa
que os satisfaça no imediato, e não se ocupam com as aproximações da
verdade, uma vez que vivem o pragmatismo de quem se ocupa antes em fazer
Deus funcionar do que em ser íntimo dele.
Fui tomando consciência disso aos poucos e, de certa forma, construindo
meu pensamento a respeito de “outro Deus e outra espiritualidade” passo a
passo, um insight de cada vez, como o pão que nos chega à alma toda manhã,
caindo do céu a cada dia. A coluna “Diálogo”, publicada mensalmente na
revista Eclésia, foi um dos fóruns privilegiados em que tentei não apenas
articular minha fé, como também compartilhar cada nova percepção com
outros cristãos, abrindo-me aos seus argumentos, questionamentos e
encaminhamentos. Sou grato a Deus por todos e cada um dos meus leitores,
que ao longo de mais de dez anos caminharam comigo, pacientes,
intercessores, críticos e encorajadores. Sou igualmente grato a Deus pelos
amigos Omar de Souza e Carlos Fernandes, que me estimularam, apoiaram e
sempre esperaram pacientemente o parto mensal de um novo artigo, além de
corrigir os textos, sugerindo mudanças e agregando valor, honrando a dura e
pouco valorizada rotina dos editores de periódicos.
Os artigos foram mantidos conforme originalmente escritos. Fosse escrevê-
los hoje, provavelmente não diria algumas coisas que disse, e diria outras que
deixei de dizer. Mas optei por não retocar o que foi dito, pois não me
arrependo de tê-lo feito. Não me envergonho de ter sido quem fui. E posso
dizer que, pela graça de Deus, sou o que sou. Aliás, pela graça de Deus sou o
que sou porque também pela graça fui o que fui.
Você tem em mãos, portanto, minhas verdades, de ontem e de hoje. Espero
que guarde um mínimo de coerência, mas admito a possibilidade de algum
desencontro. Depois de alguns anos, nossas verdades tendem a ser provisórias.
Considerando que o oposto da fé não é dúvida, mas o medo, não tenho medo
de duvidar, revisar, repensar, refazer. Aquele menino cheio de certezas que vivia
dentro de mim deu lugar a um homem um pouco mais maduro, que admite,
como Riobaldo Tartarana: “Eu quase de nada não sei, mas descon�o de muita
coisa”.
Uma coletânea de textos publicados ao longo do tempo se caracteriza muito
mais como estrada que destino. Desejo a todos uma boa viagem.
Introdução — Outro Deus e outra
espiritualidade
CHEGOU A MINHA VEZ DE DIZER QUE “Deus morreu, vocês mataram Deus”. Sei
dos riscos. Dizem que gato escaldado tem medo de água fria. Mas alguns gatos
não se dão por vencidos. Aliás, dizem também que gatos têm sete vidas. Que
seja.
Tudo bem, posso atenuar um pouco, respeitando as pessoas que me querem
bem e temem por mim. Temem que eu me comprometa em lutas quixotescas.
Temem as retaliações que possa sofrer. E, na verdade, temem que eu perca o
juízo e a fé. Nesse caso, dou um passo atrás e digo que um deus morreu em
mim, e nasceu outro, que me seduziu com amor eterno. Por ele me apaixonei.
O deus que morreu foi exaltado na subcultura da religiosidade evangélica
brasileira. Era basicamente um deus que: 1) vivia de plantão para me poupar de
qualquer tragédia, evitar meus sofrimentos e abreviar as situações que me
trariam qualquer desconforto; 2) prometia satisfazer não apenas minhas
necessidades, mas também meus desejos; 3) estava comprometido com
favorecer-me em todas minhas demandas contra os pagãos; 4) compensava
minhas irresponsabilidades e ignorâncias em troca de minha fé; 5) manipulava
todas as circunstâncias de minha vida como um tapeceiro que corta �os e dá
nós no emaranhado do avesso do tapete para revelar a bela paisagem no �m do
processo, capaz de encantar todos aqueles que olham pelo lado certo. En�m,
morreu em mim aquele deus parecido com a �gura idealizada de um superpai,
que levou homens como Freud, Nietzsche e Sartre a desdenhar da religião.
Esse deus morreu em mim porque se demonstrou falso. Isto é, não existia de
fato ou estava descrito de maneira equivocada, pois não precisamos ser muito
sagazes para perceber que o justo sofre e convive com frustrações, que os maus
prosperam, que Deus não faz o que compete aos seres humanos e que não se
pode conceber que Deus tenha decidido na eternidade que a missionária
Fulana de Tal seria estuprada numa esquina de São Paulo para cumprir um
propósito, pois, neste caso, o estuprador estaria isento de responsabilidade.
Não é razoável a crença em um deus que coloca os seus �éis numa bolha
protetora contra toda sorte de di�culdades e possibilidades de dores. A Bíblia
Sagrada registra que todos os homens que foram íntimos de Deus e cumpriram
tarefas designadas por ele sofreram, mais até do que muitos que lhe deram as
costas. Isso levou Teresa de Ávila a a�rmar: “Se o Senhor trata assim os seus
amigos, não se admira que tenha tantos inimigos”.
Tampouco faz sentido o relacionamento com Deus motivado pelo interesse
em suas bênçãos e galardões, pois isso faz que Deus deixe de ser um �m em si
mesmo e se torne um meio de prosperidade, isto é, passa a ser um ídolo a
serviço dos �éis. Igualmente incoerente é acreditar que a fé é su�ciente para o
êxito, pois ninguém passa no vestibular “pela fé”. Finalmente, não é sensato
acreditar que Deus é a causa de tudo quanto acontece no mundo, pois, se
assim fosse, Deus estaria por trás de todo ato de maldade, levando o malvado a
agir, de modo que ninguém seria culpado por seus atos.
Essa coisa de “Deus tem um plano para cada criatura” é incoerente em
relação à fé cristã, pois seres criados à imagem e semelhança de Deus não
podem ser privados da liberdade. Ou os seres humanos são responsáveis por
seu destino ou não podem ser julgados moralmente. Esse deus morreu. Mas
sua morte fez ecoar uma pergunta no ar: Deus tem um favor especial aos
nascidos de novo? Isto é, quanto aos não cristãos, os cristãos são tratados de
maneira diferente pelo seu Deus?
Minha resposta é “sim” e “não”. Sim, porque, por de�nição, aqueles que se
relacionam de maneira consciente e voluntária com Deus desfrutam de
possibilidades que extrapolam os horizontes de vida daqueles que vivem como
se Deus não existisse. A pergunta a respeito do cuidado especial de Deus não se
refere a favoritismo ou a acepção de pessoas, mas a algo inerente ao
relacionamento. Algo como alguém perguntar se uma mãe trata diferentemente
seus �lhos em relação a outras crianças. É claro que sim, pois estãosob seus
cuidados e sob sua autoridade. Mas, em tese, uma mulher que vive a
experiência da maternidade trata todas as crianças com o mesmo senso de
justiça e compaixão. E é justamente nesse sentido que Deus não faz nenhuma
distinção entre os que o reconhecem e os que o rejeitam: Ele faz o sol nascer
sobre justos e injustos.
Mas então qual foi o Deus que nasceu para ocupar o lugar do deus que
morreu – ou, se preferir para tornar a coisa um pouco mais prática, o que posso
esperar de Deus?
Sendo cristão, enxergo a vida com outros olhos. Experimentei a metanoia,
que chamam “arrependimento”, mas creio ser uma expansão de consciência (do
grego meta = além e nous = mente). Vivo sob valores, imperativos, prioridades e
propósitos diferenciados. Conhecer a Deus me faz andar na luz, na verdade,
livre de pesos, culpas e máscaras, com a consciência e as intenções tão puras
quanto um ser humano imperfeito as pode ter, e isso já basta para que minha
vida dê um salto de qualidade imensurável.
Recebo subsídios de Deus no meu “homem interior”, pois sendo verdade
que “tudo posso naquele que me fortalece”, aprendo a viver o contentamento
em toda e qualquer situação. As promessas de Deus aos seus não dizem respeito
ao conforto circunstancial ou à prosperidade aqui e agora, mas afetam a
interioridade humana com, por exemplo, paz que excede o entendimento e a
alegria completa. Mais do que isso, a intimidade com Deus não torna minha
vida mais fácil, mas me faz mais humano, mais maduro, mais capaz de amar
com a lucidez que escolhe as coisas mais excelentes e mais capaz de enfrentar
com dignidade toda e qualquer situação.
Sou integrado numa comunidade de cristãos que me abençoa na dinâmica
da mutualidade. O socorro de Deus para minha vida chega pelas mãos dos
meus irmãos. São os meus irmãos que me falam as palavras de Deus, repartem
comigo seu pão, andam ao meu lado no vale da sombra da morte.
Experimento a presença de Deus na comunhão com os �lhos de Deus, vendo
Deus na face deles.
Tenho minha consciência e sensibilidade despertadas para o sofrimento da
raça humana. Sinto a agonia do cosmo que sofre suas dores, de modo a receber
em meu coração um pouco do amor e da compaixão do coração de Deus.
Acato a utopia do novo Céu e da nova Terra, não como sonhos irrealizáveis,
mas como promessa que motiva à ação toda vez que sou interpelado pelo Deus
que me fala desde o clamor dos oprimidos.
Vivo sob o olhar amoroso, poderoso e justo de Deus, que interfere em
minha vida à luz de sua economia eterna, a seu critério, e isto é mistério da
graça, quer dizer, não depende dos méritos dos bene�ciados. Descanso no fato
de que, apesar de Deus não ser a causa primeira de tudo quanto me acontece,
nada do que venha a me acontecer estará fora de seu conhecimento, controle e
cuidado. É su�ciente crer que toda vez que Deus opta por deixar a vida correr
seu curso normal – e geralmente é isso o que faz – nada pode me separar do
seu amor, que está em Cristo Jesus, meu Salvador.
Em síntese, morreu o deus que fazia de mim uma criança mimada que
chorava a cada desencontro da vida. Recebi de Deus o convite para crescer a
�m de que ele possa me receber como seu cooperador, seu amigo, uma pessoa
para quem não tem segredos e que encontra a felicidade não na vida
confortável, mas na vida digna. Com a morte de um deus, morreu também
uma espiritualidade. E nasceu outra, marcada pela graça, pela fé e pela
resistência.
Parte 1
Outro cristianismo
1
Ser cristão
O EVANGELHO TEM MUITAS VERSÕES, cada uma com suas ênfases e
consequências. Algumas versões são mutuamente excludentes; outras,
complementares – se enriquecem mutuamente – ou paralelas – cada um vive
de um jeito a mesma fé, sem que ninguém esteja totalmente certo nem
totalmente errado. Diante disso, tenho buscado responder a mim mesmo o que
signi�ca ser cristão para que possa, mediante a graça divina, tentar viver de
modo coerente. Eis alguns balizamentos que encontrei nas Escrituras Sagradas
para minha peregrinação. Espero que lhe sejam úteis em sua jornada.
 
João 3.16
Ser cristão é experimentar a vida com qualidade divina no contexto de um
relacionamento dinâmico através da fé em Jesus Cristo.
 
2Coríntios 3.18
Ser cristão é ser transformado gradativamente pelo Espírito Santo segundo a
imagem de Jesus Cristo.
 
2Coríntios 5.14-15
Ser cristão é viver apenas e tão somente para fazer a vontade de Jesus Cristo.
 
Mateus 16.24
Ser cristão é abandonar o egocentrismo para se identi�car com a pessoa e a
obra de Jesus Cristo em sua totalidade.
 
2Timóteo 3.16-17
Ser cristão é viver sob a obsessão de ser como Cristo e fazer mais como
Cristo.
 
Romanos 8.28-30
Ser cristão é se relacionar com a vida crendo que todas as circunstâncias
podem ser usadas por Deus para nos fazer iguais a Jesus Cristo.
 
Colossenses 1.13
Ser cristão é ser liberto por Deus de uma vida sob o ódio do Diabo para
uma vida sob o amor de Jesus Cristo.
 
Lucas 24.45-47
Ser cristão é abandonar a vida egocêntrica e receber perdão para os pecados
conforme o discernimento do signi�cado eterno da morte e da ressurreição de
Jesus.
 
Atos 2.38
Ser cristão é explicitar o abandono da vida para si mesmo a �m de receber
perdão dos pecados e entrar na comunhão com Deus através da participação
no Espírito Santo.
 
Mateus 4.1-11
Ser cristão é descansar nas promessas divinas, con�ar no caráter de Deus e
se submeter aos propósitos dele.
 
João 1.12
Ser cristão é receber a pessoa e obra de Jesus Cristo para ser feito �lho de
Deus.
 
2Coríntios 5.17
Ser cristão é ser uma nova criatura coletiva.
 
Mateus 16.16
Ser cristão é adorar a Jesus Cristo como Deus.
 
Filipenses 2.9-11
Ser cristão é viver em absoluta submissão a Jesus Cristo.
 
Mateus 28.18-20
Ser cristão é andar nos passos de Jesus, praticando tudo quanto ele ensinou.
 
Efésios 2.1-7
Ser cristão é ser salvo da ira divina que repousa sobre todos os que, iludidos,
vivem para o Diabo, pensando que vivem para si mesmos.
 
Efésios 2.8-10
Ser cristão é desfrutar da imerecida oportunidade de viver para Deus através
da fé em Jesus Cristo.
 
Romanos 8.1
Ser cristão é desfrutar da liberdade da condenação de ser quem somos,
mediante a fé em Jesus Cristo, que conquistou a possibilidade de sermos quem
Deus quer que sejamos.
 
Lucas 10.25-37
Ser cristão é amar o próximo com o amor de Cristo.
 
João 1.7
Ser cristão é ter todas as ofensas praticadas contra Deus anuladas pelo
sangue de Jesus Cristo.
 
Colossenses 2.13-15
Ser cristão é estar livre do passado de ofensas contra Deus mediante a obra
de Jesus Cristo na cruz, que satisfez plenamente a justiça de Deus e venceu
todos os poderes espirituais da maldade.
 
Gálatas 3.11-14
Ser cristão é entrar através da fé na comunhão do Espírito Santo pela porta
da justiça de Jesus Cristo, que liberta da maldição imposta pela Lei.
 
2Corintios 2.14-16
Ser cristão é ser uma expressão de Jesus Cristo no mundo.
 
1 Tessalonicenses 1.9
Ser cristão é abandonar a devoção aos ídolos para servir exclusivamente ao
Deus vivo e verdadeiro.
 
Judas 24-25
Ser cristão é ser livre da necessidade de ser alguma coisa.
2
Amizades espirituais
EARL C. WILLER CONTA A HISTÓRIA DE Jim e Phillip, dois meninos que
cresceram juntos e se tornaram os melhores amigos. Atravessaram a
adolescência e a juventude juntos, e depois de formados na universidade
decidiram se tornar marines, os fuzileiros navais norte-americanos. Por uma
casualidade rara, foram enviados para a Alemanha e lutaram lado a lado em
uma das mais cruéis batalhas da Segunda Guerra Mundial. No meio da
baralha, sob fogo cruzado, explosões e muitas perdas, receberam ordem do
comandante para que recuassem. Enquanto corriam em fuga, Jim percebeu que
Phillip não estava com os que voltavam. Entrou em pânico, pois sabia que se
Phillip não retornasse em um ou dois minutos, provavelmente nunca mais o
faria. Pediu ao comandante que o deixasse voltar para buscar o amigo, mas não
obteve permissão, sob a justi�cativa de que seria suicídio.
Arriscando a própria vida, Jim desobedeceu à ordeme voltou ao encontro
de Phillip. Com o coração quase explodindo e sem fôlego, sumiu entre a
fumaça gritando pelo nome do amigo. Poucos instantes depois, tinha o amigo
ferido nos braços, e tudo quanto conseguiu foi presenciar o último suspiro de
vida de Phillip.
Ao regressar para juntar-se aos outros soldados, o comandante estava aos
berros. Dizia que aquele fora um ato impensado, tolo, inconsequente e inútil.
“Seu amigo estava morto, e não havia nada que você pudesse fazer.” “O senhor
está errado”, replicou Jim. “Cheguei a tempo. Antes de morrer, suas últimas
palavras foram: ‘Eu sabia que você viria’”.
Esta história pequena e verídica, registrada por John MaxwelI em seu livro
�e treasure of a friend, conduziu-me a muitas re�exões a respeito da amizade
genuína e despertou em mim alguns sentimentos extraordinários. Vivemos a
era da tecnologia, em que o valor de todas as coisas deriva de sua
funcionalidade e e�ciência. Tudo ao nosso redor vai aos poucos se tornando
máquina de manipulação a serviço de nosso conforto e da nossa conveniência.
Experimentamos um tipo de tecnostress, tentando equilibrar uma parafernália
eletrônica que nos oprime com seus botões e suas falsas promessas de
facilitação e simpli�cação da vida.
A maneira como nos relacionamos com os objetos é transferida para as
pessoas. Organizamos a agenda como quem ajeita um painel de controle,
colocando cada pessoa num lugar de fácil acesso, do outro lado de um botão
do celular ou ao alcance da mão, na exata distância entre o mouse e a remessa
do e-mail. Pessoas que acionamos quando bem desejamos ou delas
necessitamos. Pessoas que se tornam biotecnoparafernálias com a missão literal
de funcionar para nos suprir e servir.
Talvez de tão acostumados a interagir com secretárias eletrônicas já não
saibamos o que fazer, com que tom falar, com que dosagem de afetividade
temperar a fala quando alguém de carne e osso nos atende. E assim vamos
tocando os dias: maridos usando esposas, �lhos usando pais, patrões usando
seus funcionários, pastores usando seus rebanhos, empreendedores usando seus
clientes, numa �la interminável de relacionamentos utilitaristas, que acontecem
na dinâmica de um vice-versa sem �m.
Com isso, perdemos a capacidade de estar ao lado desinteressadamente
mesmo quando a única coisa que se pode fazer é estar ao lado. Manipuladores
de máquinas, fomos mordidos pelo vírus da onipotência que a tudo pretende
fazer funcionar, e já não admitimos que há momentos na vida dos amigos
quando tudo o que podemos fazer é estar ao lado e ouvir: “Eu sabia que você
viria”.
Larry Crabb fala sobre a comunidade como “o lugar mais seguro da Terra, e
diz que nos tornamos consertadores – não podemos suportar um problema a
respeito do qual nada possamos fazer. Nossa preocupação é melhorar as coisas.
Ouvimos desabafos e con�ssões entre lágrimas e os rotulamos como se fossem
problemas a resolver. Ocupamo-nos em diagnosticar, abrimos nossas maletas
de frases feitas e chavões como quem saca ferramentas, tecnobisturis para
consertar tecnopessoas que recebemos não para abraçar, mas para estender sobre
o balcão da pseudo-o�cina psicoespiritual.
Chega de campanhas políticas, apelos institucionais, convocações para a
“obra do Senhor”, atividades religiosas e frenesi expansionista. Já é hora de
pagar o preço, qualquer que seja ele, diz Crabb, de fazer parte de uma
comunidade espiritual, e não de uma organização eclesiástica. Já é hora de nos
lembrarmos de que “não sois máquinas, homens é que sois”, como profetizou a
pedra chamada Chaplin. Quero amigos. Amigos que voltem ao campo de
batalha e arrisquem a vida por mim. Amigos que me tomem nos braços, ainda
que seja quase tarde. E quero viver à altura de cada um deles.
3
Pastores de ontem e de hoje
UM OLHAR POR DENTRO DAS DEZ IGREJAS mais inovadoras da atualidade: o que
fazem, como fazem e como aplicar suas ideias em sua igreja. Estas palavras
constituem o título do livro de Elmer Towns que me caiu nas mãos. Há dez
anos, nenhum título poderia causar tamanho impacto em meu coração como
este o fez. Naquela época, tudo o que me interessava era descobrir o truque ou
os truques para fazer uma igreja crescer. Creio que minhas motivações eram
legítimas, mas isto não vem ao caso. O que quero mesmo compartilhar com
você é que houve um tempo que o grande sonho de minha vida era construir
uma megaigreja brasileira. E o livro de Elmer Towns, do tipo how to [como
fazer], era o mais exato símbolo daquilo que um jovem pastor local procurava
com toda a ansiedade: o truque para o sucesso ministerial.
Minhas prateleiras �caram cheias de livros de administração e liderança.
Ainda estão lá, e evidentemente não pretendo jogá-los fora. Até porque não me
arrependo de tê-los estudado. Naqueles dias, eu estava convicto de que a
maneira de expandir o ministério de minha igreja local era assimilando e
adaptando as estratégias que os grandes líderes empresariais haviam roubado da
Bíblia. Meus interlocutores eram homens como Tom Peters, Ken Blanchard,
Bob Waterman Jr., Warren Bennis, Peter Drucker, C.K. Prahalad, James
CoIlins, Jerry Porras, Michael Porter e outros gurus da administração e gestão
moderna. Os exemplares da Harvard Business Review, que eu recebia de
presente de um amigo especial, eram como �gurinhas carimbadas dos meus
álbuns de infância.
Ainda convivo à distância, e com certa nostalgia, com Ricardo Semlet, que
me encantou com ideias nada ortodoxas registradas em seu livro Virando a
própria mesa. Ainda �co de boca aberta quando deparo com uma entrevista
como a que Henrique Meirelles, presidente do FleetBoston Global, concedeu à
revista Veja, uma pérola que eu chamaria “curso completo de liderança em
cinco parágrafos”. Não consigo deixar de visitar a seção “Administração e
negócios” das megalivrarias, e a mão coçou no bolso para comprar Liderando a
revolução e Quem mexeu no meu queijo?, que discutem como administrar
organizacionais.
Lembro-me saudoso das noites semanais quando me reunia com a
Comissão de Planejamento Estratégico da Igreja Batista de Água Branca para
discutir sobre as declarações de visão e missão, de�nição do público-alvo,
elaboração da estratégia, estabelecimento de diretrizes e metas e
desenvolvimento do planejamento operacional para o período até o ano 2000.
Agora mesmo, enquanto escrevo, estou rindo sozinho da cara de espanto que
�zeram alguns executivos quando me apresentei como “pastor evangélico”
durante o almoço do Seminário de Qualidade Total promovido pela Fundação
Christiano Ottoni, num hotel cinco estrelas de São Paulo; daqui de onde estou
escrevendo consigo ver o livro do professor Vicente Falconi na prateleira.
Perdi as contas das horas em que passei debruçado sobre os livros e sentado
em auditórios de congressos para pastores e líderes estudando conceitos e
princípios de gestão organizacional e desenvolvimento de estruturas
ministeriais. Olho para trás e, ao recordar os primeiros dois dias do meu
ministério pastoral, vejo-me como um menino, cheio de sonhos, disposto a dar
tudo para conseguir um ministério pastoral relevante. Hoje, contudo, passados
quase vinte anos, tenho o coração voltado em outra direção. As últimas
palavras de um livro que me �zeram chorar foram escritas por Eugene
Peterson:
 
Os pastores estão abandonando seus postos, desviando-se para a direita e para a
esquerda, com frequência alarmante. Isso não quer dizer que estejam deixando a
igreja e sendo contratados por alguma empresa.
As congregações ainda pagam seus salários, o nome deles ainda consta do boletim
dominical e continuam a subir ao púlpito domingo após domingo. O que estão
abandonando é o posto, o chamado. Prostituíram-se após outros deuses. Aquilo que
fazem e alegam ser ministério pastoral não tem a menor relação com as atitudes dos
pastores que �zeram história nos últimos vinte séculos.
Os pastores se transformaram em um grupo de gerentes de lojas, sendo que os
estabelecimentos comerciais que dirigem são as igrejas. As preocupações são as
mesmas dos gerentes: como manter os clientes felizes,como atraí-los para que não
corram para a loja concorrente, como embalar os produtos de forma que os
consumidores gastem mais dinheiro com eles. Alguns pastores são ótimos gerentes,
atraindo muitos consumidores, levantando grandes somas em dinheiro e
desenvolvendo excelente reputação. Ainda assim, o que fazem é gerenciar uma loja.
Religiosa, mas, de toda forma, uma loja. Esses empreendedores têm a mente
ocupada por estratégias semelhantes às de franquias de fast-food e, quando dormem,
sonham com sucesso que atraia a atenção da mídia.
 
A verdade bíblica é que não existem igrejas cheias de sucesso. Pelo contrário,
o que há são comunidades de pecadores reunidos semana após semana perante
Deus em cidades e vilarejos por todo o mundo. O Espírito Santo os reúne e
trabalha neles. Nessas comunidades de pecadores, um é chamado “pastor”, que
se torna responsável por manter todos atentos a Deus. É esta responsabilidade
que tem sido completamente abandonada. Hoje entendo o provérbio bíblico:
maior é aquele que conquista a si mesmo do que aquele que conquista uma
cidade (Pv 16.32).
4
Auditórios manipuláveis
TENHO REFLETIDO A RESPEITO DO fenômeno contemporâneo profetizado pelo
apóstolo Paulo há quase dois mil anos: “Pois virá o tempo em que não
suportarão a sã doutrina; ao contrário, sentindo coceira nos ouvidos, juntarão
mestres para si mesmos, segundo os seus próprios desejos” (2Tm 4.3). Fico me
perguntando por que existe tanta gente disposta a ouvir bobagens travestidas
de verdades divinamente reveladas. Cheguei a algumas conclusões. Encontrei
pelo menos quatro razões pelas quais os contadores de fábulas estão levando
vantagem sobre os profetas e mestres: ignorância, cobiça, culpa e desespero.
Por mais estranho que pareça, não creio que a ignorância seja a causa
principal. A verdade é que pessoas esclarecidas são facilmente manipuladas
quando se tornam presas da culpa, da cobiça e do desespero. Claro, não tenho
dúvidas quanto à necessidade de ensinar, oferecer referenciais objetivos para a
re�exão, apresentar argumentos lógicos para a defesa da fé. Tenho percebido,
contudo, que há um ponto a partir do qual as pessoas já não ouvem com a
razão, mas com o coração. Sim, aquele mesmo coração enganoso e
desesperadamente corrupto, como o descreveu o profeta Jeremias, é ele mesmo
que as pessoas culpadas, gananciosas e desesperadas utilizam para desenvolver
seu ouvido seletivo.
O tratamento bíblico para a culpa é o arrependimento e a con�ssão: admitir
o pecado, concordar com o veredicto de Deus e mudar de ideia, atitude ou
comportamento. Confessar signi�ca literalmente “homolagar”, “concordar”,
“rati�car”. Confessar é, então, ouvir Deus dizer: “Você é ladrão”; e admitir:
“Sim, Senhor, sou ladrão”. Arrependimento é mudança de rumo. É ouvir Deus
perguntar: “E vai continuar roubando?”; e responder: “Não, Senhor, não vou
continuar roubando”. Em outras palavras, libertar-se do peso da culpa implica
transformação pessoal. Mas sei que uma oferta �nanceira, uma bajulação ao
guru espiritual ou um sacri�ciozinho semanal custa mais barato e dói menos
do que a transformação mediante o arrependimento e a con�ssão.
Costumo distinguir cobiça, ambição e ganância. Ambição é querer mais.
Ganância é nunca estar satisfeito. Cobiça é querer o que não é legítimo. Não
vejo nada de errado na ambição. A�nal, não devemos nos contentar com as
migalhas, quando Deus nos promete uma mesa posta, unção com óleo e cálice
transbordando. Já a ganância é perniciosa. Pessoas insatisfeitas não são gratas,
pois nunca desfrutam o que têm, uma vez que tudo quanto enxergam é o que
não têm. A cobiça, no entanto, é pior. Ela estimula a posse por usurpação,
acessa o que é alheio, agarra-se ao que não é permitido. Por serem irmãs, a
cobiça e a inveja andam sempre juntas. Querer sempre mais já é péssimo –
imagine, então, deixar-se consumir pelo desejo daquilo que Deus jamais
prometeu e até mesmo proibiu.
O coração vazio de Deus é um buraco negro, um bicho come-come
insaciável que perde a noção do bom senso e se ilude com as promessas
inescrupulosas dos marqueteiros da fé, que sabem se valer da gula existencial
dos insatisfeitos crônicos. De fato, participar da corrente de intercessão e
súplica, jejuar alguns dias seguidos, aumentar o valor da oferta �nanceira para
compensar a falta de fé é muito mais fácil do que aprender a viver feliz em
qualquer situação. Dormir na esperança, ainda que ilusória, de um dia possuir,
é menos penoso do que aprender a estar satisfeito em qualquer situação.
E o desespero? O desespero é resultado da dor profunda, do sofrimento
excessivo, da sensação de morte, da iminência da tragédia. Pessoas nessas
condições estão dispostas a qualquer coisa. Pagam qualquer preço. Poucas
coisas custam tão caro e estão tão valorizadas no mercado quanto a solução
imediata. Poucas indústrias são tão rentáveis quanto a da promessa do alívio
instantâneo. E não são poucos os que estão capitalizando em cima dessa ferida
aberta da sociedade. Até porque o alívio imediato e a solução instantânea
possuem atrativos que nem se comparam a processos de transformação interior,
geralmente longos e doloridos, porém com frutos perenes.
Não tenho dúvidas: a fórmula para a manipulação das massas possui doses
de ignorância, culpa, cobiça e desespero.
5
Evangelização contextualizada
ANTIGAMENTE PREGÁVAMOS O EVANGELHO DIZENDO que aquele que não
aceitasse a Jesus como Salvador pessoal iria para o inferno. Lembro-me de
quantas vezes acompanhei irmãos norte-americanos em campanhas
evangelísticas baseadas em entrevistas: “Você quer ir para o céu? Você acredita
que Jesus é o Filho de Deus? Você aceita Jesus como seu Salvador?”. Perguntas
retóricas para brasileiros de histórico católico romano. Ao �m de uma semana,
tínhamos centenas de pessoas “convertidas”. A base era simples: quem aceita a
Jesus vai para o céu; quem não o aceita vai para o inferno. Um maniqueísmo
proselitista.
A ameaça do inferno não amedronta mais ninguém, e o céu é uma certeza
para a maioria esmagadora das pessoas que acredita em vida após a morte. Uma
pesquisa realizada pelo instituto Vox Populi demonstrou que 83% das pessoas
acreditam que passarão a eternidade no Paraíso e 15%, que chegarão lá após
uma breve passagem pelo purgatório. Em outras palavras, as pessoas não estão
preocupadas com a vida após a morte. Assim sendo, este é um tempo em que
devemos mudar o enfoque. A partir de agora, os cristãos devem proclamar o
Evangelho a�rmando que acreditam em vida antes da morte. A angústia do ser
humano contemporâneo não é tanto com o que vai acontecer com ele após a
morte, mas com o que faz de sua vida antes de a morte chegar. Não lhe falta
propósito para a eternidade. Falta-lhe propósito existencial, algo que o livre não
do possível inferno pós-morte, mas do inferno em que vive agora, antes mesmo
de bater as botas.
Preocupado com isso, resgatei a utopia cristã, isto é, o propósito eterno de
Deus e suas implicações para a história e o projeto de vida cristão. Todos os
cristãos esperam o dia em que a Terra se encherá do conhecimento da glória do
Senhor como as águas cobrem o mar (Hc 2.14). O propósito eterno de Deus é
estabelecer seu Reino, quando pessoas de toda tribo, raça, língua e nação,
compradas pelo sangue do Cordeiro, reinarão com Cristo no novo céu e na
nova Terra, onde não haverá lágrimas nem dor, mas justiça, paz e alegria no
Espírito Santo (Rm 14.17; Ap 5.9-10; 21.1-7).
A convocação de Jesus Cristo para o discipulado encerra o mais fascinante
projeto de vida, pois se inicia na história, dando sentido à peregrinação
existencial, e se consuma na eternidade, na plena realização de todo o universo
criado, �nalmente devolvido às justas e amorosas mãos de seu Criador. No
coração deste propósito eterno do Reino de Deus está a Igreja, e mais
precisamente a comunidade cristã local. A resposta cristã para a necessidade de
um projeto existencial é a vida em comunidade a comunidade cristã que o
Novo Testamento apresenta como “comunidade da cruz”, pois é em resposta à
obra da cruz,aos benefícios da cruz e aos imperativos da cruz que a igreja
existe.
A salvação não pode ser anunciada somente em termos de eternidade, mas
deve confrontar o homem contemporâneo com a cruz de Cristo e convocá-lo a
tomar a sua cruz. Para uma sociedade humanista e hedonista, que colhe os
frutos amargos do egoísmo e da vida preocupada com o horizonte do umbigo,
a Igreja deve se mostrar como lugar onde o viver para si mesmo foi substituído
pelo viver para Deus, que, em termos práticos, implica viver para o próximo.
Lugar dos egos mortos, mortos na cruz de Cristo, e ressuscitados para uma
nova vida, uma nova raça, uma nova humanidade.
O Novo Testamento também apresenta a Igreja como “comunidade da
vida”, pois aqueles que respondem à cruz de Cristo experimentam o novo
nascimento, que dá origem ao novo homem, que experimenta a nova vida. O
encontro com Cristo se expressa nas categorias éticas, se explica em bases
doutrinais, mas é essencialmente uma questão de transformação: quem está em
Cristo transcende a natureza humana e se torna participante da natureza divina
(2Pe 1.4). Para uma sociedade perdida em neuroses e psicoses, embalada nas
drogas e frustrada de dieta em dieta, a Igreja deve se apresentar como ambiente
onde a vida de Deus �ui, lugar de ajuda do alto, muito além da autoajuda.
A Igreja é também a “comunidade do amor”, pois todos que nasceram de
novo em Cristo são desa�ados a expressar o amor de Cristo, testemunhando,
assim, que são, de fato, discípulos de Cristo (Jo 13.34-35; 1Jo 3.16; 4.7-21). O
relacionamento com Deus é pessoal, a peregrinação cristã é comunitária e, no
Evangelho de Cristo, nada, absolutamente nada, é individual. O Reino de
Deus existe sob o “Pai nosso”, no qual se partilha o pão nosso. Para uma
sociedade chafurdada no egoísmo e tranca�ada atrás de grades, guardas e
sistemas eletrônicos de segurança, a Igreja deve se apresentar como ambiente
fraterno, de acolhimento e reconciliação, lugar de restauração e solidariedade,
onde Deus é visto na face do irmão e do próximo. Num tempo em que a
solidariedade perde para a poupança e a proposta para acumular bate de
goleada no apelo para compartilhar, a Igreja deve ser a mesa da comunhão,
“comumpão”, no qual quem colhe muito não tem sobra e quem colhe pouco
não tem falta.
A comunidade cristã é o ambiente prioritário para a manifestação e a
experiência da presença de Deus. É o Corpo de Cristo, templo de pedras vivas,
habitação do Espírito Santo (1Co 12.12-31; Ef 2.19-22; 1Pe 2.1-9). A Igreja é,
portanto, a “comunidade do carisma”, pois é capacitada, por meio do batismo
no Espírito, a experimentar o fruto do Espírito, na dinâmica dos dons do
Espírito, sob constantes visitações do Espírito. Toda igreja cristã é carismática,
isto é, uma comunidade que convive com fenômenos espirituais – do Espírito-
espírito. Ou, conforme a�rmou John Wimber, a Igreja de Cristo é
“naturalmente sobrenatural”. Para uma sociedade mística, cheia de médiuns,
gurus, pais de santo, magos, duendes e demônios, a Igreja deve se apresentar
sem medo de transitar pelas regiões do invisível, e mostrar que não apenas
conhece, mas tem ainda nas mãos a autoridade delegada pelo Senhor das
Luzes, que determinou que, a partir dela, a Igreja, não haveria mais escuridão
de�nitiva (Mt 16.18-19; 28.18-20).
Finalmente, o Novo Testamento ensina que a igreja é a “comunidade do
Reino”, pois a comunidade cristã é responsável por manifestar, aqui e agora, a
maior densidade possível do novo céu e da nova Terra, que serão consumados
ali e além. A Igreja de Cristo é portadora da promessa do Reino, protagonista
dos sinais históricos do Reino e vive na esperança da consumação do Reino.
Para uma sociedade que perdeu a esperança e vive “o �m da história e o último
homem”, como profetizou Francis Fukuyama, a Igreja deve apresentar o Reino
de Deus como utopia. Deve marchar pelas ruas com a canção dos jovens e
idealistas cristãos portugueses durante a Revolução dos Cravos: “Oh, vinde vós,
os povos de todas as nações, erguei-vos e cantai com alegria, sabei que em breve
vem um novo dia; um dia de justiça, um dia de verdade, um dia em que haverá
paz na Terra; um dia em que será vencida a morte pela vida e a escravidão
en�m acabará”.
Para quem não teme a eternidade, mas ainda procura um projeto de vida
capaz de dar signi�cado à existência, o Evangelho de Jesus responde com cinco
palavras: cruz, vida, amor, carisma e Reino. E, na verdade, somente quem
apreendeu e se comprometeu com essas dimensões possíveis na história pode
dormir sossegado a respeito da eternidade.
6
Santo remédio
QUASE NINGUÉM SABE O QUE É benzilpenicilina benzatina, mesmo os que já
sofreram na ponta da agulha de um Benzetacil. E o que dizer do bromazepan,
cujo nome de guerra é Lexotan! Sabe quem é o brometo de n-
butilescopolamina? Nada mais, nada menos do que o Buscopan. E se você
preferir o Buscopan Composto, basta chegar à farmácia e pedir brometo de n-
butilescopolamina com dipirona sódica. O aciclovir é mais conhecido como
Zovirax, e o cloridrato de �uoxetina é o famosíssimo Prozac. Jamais viajo sem a
companhia de mucato de isometepteno, mais dipirona sódica, mais cafeína
anidra: a Neosaldina.
O Evangelho é um santo remédio. Bem, pelo menos, costumava ser. Ou
melhor, ainda é, caso estejamos falando do genérico. Sim, porque os
laboratórios eclesiásticos institucionais empacotaram a essência de maneira a
torná-la mais atraente e, nessa manipulação das substâncias, o conteúdo do
Evangelho foi alterado. Até porque mais vale a embalagem e o marketing do
que o remédio em si. Fiz uma pequena pesquisa no mercado e encontrei o
genérico Evangelho empacotado em diversas versões. Uma pior do que a outra,
mas todas muito populares.
Encontrei o Evangelho versão incorporação. A receita diz que o usuário
deve esvaziar-se completamente de suas responsabilidades pessoais para tornar-
se gradativamente um mero instrumento despersonalizado das forças
espirituais. A fórmula foi muito usada nos terreiros de macumba e centros
espíritas, adotadas pelos “cavalos” e “cambonos”, e depois foi adotada por
setores da Igreja Evangélica, que acreditam que o ideal de intimidade com
Deus e desempenho ministerial é a completa anulação de si mesmo em sujeição
ao Espírito-espíritos. Ao usar o Evangelho versão incorporação, o usuário passa
a justi�car todas as coisas pela ação direta do Espírito Santo – ou outro
espírito, sabe-se lá: “Foi o Espírito quem mandou”; “Foi o Espírito quem
disse”; “Foi o Espírito quem me conduziu”, e outras coisas, como se o Espírito
Santo tivesse baixado no sujeito, da mesma forma que nos terreiros baixa o
santo.
Encontrei também o Evangelho versão segregação. Esse aí, muito caro.
Usado apenas por uma casta especial de favorecidos por Deus: os �lhos do Rei.
Os usuários do Evangelho de segregação proclamam que as riquezas do mundo
pertencem a Deus e seus �lhos, e foram usurpadas pelo Diabo e pelos ímpios.
Acreditam que, após algumas doses regulares, geralmente tomadas em correntes
e vigílias, os favorecimentos divinos vão sendo canalizados na direção deles, e
somente deles. Dizem que o pão é nosso, mas “nosso” signi�ca “nosso, dos
crentes”: A fórmula foi emprestada dos regimes totalitários, em que as benesses
sociais são acessíveis apenas aos que são leais ao poder estabelecido, e os
“rebeldes” são espoliados em favor de uma minoria. Diversos segmentos da
Igreja Evangélica acreditam que Deus existe para satisfazer os seus, e mundo
existe para ser saqueado.
Há também o Evangelho de mediação. Este é administrado apenas nas
farmácias espirituais certas, em sujeição aos enfermeiros espirituais certos. Sua
fórmula foi desenvolvida na tradição do catolicismo romano pós-Constantino,
e está baseada no “institucionalismo hierarquizado”, muito popular nos
grandes impérios eclesiásticos centrados nas �guras carismáticas de seus
fundadores e proprietários. Desde os tempos da Idade Média, quando bastava
ser nascido dentro das fronteiras do império para ser considerado cristão, há
segmentos da Igreja Evangélica que acreditamque a relação com Deus é
subproduto da correta identi�cação institucional. A propaganda deste remédio
não fala mais de antes e depois do Evangelho, antes e depois de Cristo, mas de
antes e depois da igreja A ou B, antes e depois da unção do bispo, do
missionário e do apóstolo.
Já deparei também com o Evangelho versão sentimentalismo. Este remédio
é administrado com dia e hora marcados, aliás, como a maioria dos remédios.
Para ter acesso a uma dose, o usuário deve comparecer às atividades propostas
pela autoridade clínica: a igreja e seu respectivo guru. Justiça seja feita,
ninguém �ca sem uma dose. Basta ligar o rádio e a TV, e logo os usuários
�cam sabendo onde será e quando começa a próxima corrente da fé, a
campanha da vitória, a noite do milagre, o dia do santo jejum, e por aí vai.
Quem não estiver lá, perde a dose. Fica sem o remédio. A fórmula foi
desenvolvida também na cultura da Santa Missa – sacramento que supõe
transferir graça – e adotada por segmentos da Igreja Evangélica que acreditam
que a participação na ciranda do culto é a principal fonte de benefício
espiritual para os �éis. E fonte de enriquecimento para a indústria farmacêutica
espiritual, é claro.
7
Bandeiras antigas
NÃO BASTASSEM OS QUE DISCUTEM SE o cristianismo é a verdade, há também os
que questionam sua possibilidade. Perguntam não apenas a respeito da
relevância, mas querem saber principalmente até que ponto o estilo de vida
proposto por Jesus pode ser encarnado na sociedade contemporânea. Como
virar a outra face sem ser massacrado pela violenta competitividade? Como
perdoar setenta vezes sete sem perder a dignidade nas mãos dos cínicos? Ou
como deixar de odiar aquele que estuprou a �lha ou sequestrou o pai? São
inquietações daqueles honestos que sabem que o caminho da espiritualidade
não é conceitual, mas vivencial, na dinâmica que vai além do crer e se
concretiza na experiência: o discipulado implica não somente crer como
verdade o que Jesus ensinou, mas fundamentalmente andar como ele andou.
A ética do sermão do Monte é possível no mundo contemporâneo? As
proposições do apóstolo Paulo não estariam condicionadas ao seu tempo e a
seus contextos cultural e social? Os mandamentos morais da Bíblia Sagrada
ainda são caminhos de vida, mesmo nesta sociedade pós-moderna? A sociedade
pragmática confronta o cristianismo não mais no debate a respeito da verdade,
mas da funcionalidade. O que a turma quer mesmo saber não é se o Evangelho
é a revelação divina, mas se esta revelação aponta na direção da felicidade
imediata e da solução dos problemas cotidianos, em que solução e felicidade
estão de mãos dadas com conforto, pouco ou nenhum sacrifício, resultados
emocionais satisfatórios e bem-estar pessoal.
Esta abordagem a respeito da atualidade e da exequibilidade do cristianismo
não está presente apenas nos ambientes de oposição à fé evangélica, mas já
encontra seus articulados debatedores dentro mesmo dos nossos arraiais. Essas
perguntas me são feitas sistematicamente pelas pessoas que se consideram
cristãs, de con�ssão evangélica, muitas delas no meio de um con�ito que as
levou ao gabinete pastoral, ou despretensiosamente em conversas informais,
nas quais pretendem esconder a angústia pessoal num debate displicente, como
se falassem a respeito de terceiros. Por exemplo, tenho sido chamado a
responder se as antigas a�rmações dos crentes ainda estão valendo: sexo antes
do casamento ainda é pecado? Divórcio é pecado? Divorciado pode se casar de
novo? A gente tem mesmo de pagar tudo quanto é imposto?
Não estão de todo errados aqueles que assim questionam. De fato, uma
coisa é defender o sexo no contexto do casamento quando o ato conjugal era
prática imediata à puberdade, fruto de acordos familiares; outra é falar de sexo
no casamento quando os nubentes não estão mais com 14 ou 15 anos, mas já
com 28, ativos no mercado de trabalho e, obedientes aos pais, marcaram a data
de casamento para “depois da formatura na faculdade”.
Não resta dúvida de que a lei do divórcio foi promulgada muito mais em
defesa da mulher que, abandonada pelo marido, estaria exposta à infâmia, à
rejeição social e ao desprezo da família de origem; outra coisa é falar de
divórcio numa sociedade desenvolvida na defesa dos direitos individuais. Uma
coisa é falar de integridade �scal para um grupo de pessoas identi�cado como
minoria, lutando para �rmar seus alicerces e preservar sua continuidade
histórica sob perseguição do império; outra é falar para um povo cuja fé está
consolidada, detém nas mãos as ferramentas que possibilitam sua defesa diante
de um Estado corrompido e opressor, numa situação em que se defende até
mesmo o terrorismo contra toda e qualquer expressão de imperialismo.
Alguém poderia argumentar, então, que as bandeiras cristãs da virgindade,
da indissolubilidade do casamento e da sujeição às autoridades estão
ultrapassadas. Confesso que, de vez em quando, engrosso a �leira dos que
fazem perguntas. Mas tenho como certo que a discussão a respeito da ética
cristã não coloca em xeque a ética cristã em si, mas a sociedade que a
questiona. O que deveria ser discutido: a virgindade ou a erotização infantil? A
indissolubilidade do casamento ou a banalização da família? A sujeição às
autoridades ou a ausência de integridade daqueles que deveriam ser modelos do
viver?
Não tenho dúvidas a respeito do valor e da propriedade do sexo restrito à
relação conjugal. Os danos da promiscuidade são incomparáveis. Vivemos
numa sociedade bestializada, onde as pessoas foram reduzidas à utilidade do
corpo para o fetiche de terceiros. A grande fome do nosso mundo não é de
sexo, é de romance. Os meninos já não querem mais uma gatinha para levar
para a cama – querem uma mulher com quem repartir o futuro. A grande
reclamação das meninas é a falta de “caras decentes”. Jamais imaginei debater
com jovens no ocaso da puberdade e já enfastiados de sexo. Todo esse frisson
erótico é virtual. Na intimidade dos casais, a discussão é a perda do apetite
sexual, a impotência, e as mulheres já não reclamam da falta de um pênis, e sim
da falta de um homem.
Também não tenho dúvidas a respeito do valor e da propriedade do
casamento “até que a morte vos separe”. Aprendi que a gente não se casa para
ver se vai dar certo, mas fazer dar certo. O compromisso conjugal não é um
atalho para o prazer indolor, mas um passo na direção da coragem para o
autoconhecimento, da transformação e do crescimento pessoal, no intercâmbio
de forças e fraquezas, em que um faz o outro melhor, muitas vezes à custa de
atrito e faísca, pois somente assim o ferro com o ferro se a�a. Costumo dizer
que durante a vida de solteiro nos estragamos, e o casamento é a principal
proposta terapêutica de Deus. Quem não quer crescer, vencer limites
emocionais, reescrever sua história, exorcizar seus demônios, �ca solteiro ou
pula de paixão em paixão, em relações que são eternas enquanto duram. Isso
sem falar na saúde das futuras gerações e no equilíbrio sistêmico possível
apenas a uma sociedade que saiba valorizar a família.
Finalmente, continuo crendo no valor e na propriedade da sujeição às
autoridades. Ou você prefere o atual faroeste urbano e o caos que resulta do
famoso “cada cabeça uma sentença”, em que o fraco é oprimido pelo forte sem
que ninguém se levante em sua defesa, o rico espolia o pobre, o mal subverte o
direito do justo? A completa degeneração do sentido de autoridade, tanto de
quem a exerce quanto de quem a ela deveria se submeter, é uma peça necessária
para qualquer debate que se proponha a montar o quebra-cabeça da barbárie
social em que vivemos. A degeneração das relações entre pais e �lhos,
professores e alunos, idosos e jovens acaba jogando no ralo a equidade das
relações sociais. A integridade �scal entra nesse pacote. Ainda creio na taxação
tributária como caminho para a distribuição de renda, e que a corrupção
generalizada não deve nos levar a questionar a validade do tributo, mas a
desenvolver mecanismos �scais e judiciais capazes de colocar essa laia na cadeia.
A essa altura do campeonato,você deve se perguntar se meu próximo
assunto não será em defesa da tríade “tradição, família e propriedade”. Ainda
não. Aproveito este espaço apenas para expressar meu cansaço diante da
hipocrisia e da super�cialidade do debate em torno da ética. Não consigo mais
discutir virgindade com consumidores de pornogra�a que se entregam sem
restrições aos instintos. Não consigo mais discutir indissolubilidade do
casamento com jovens cheios de arrogância que acreditam mais em Sartre do
que em Jesus e andam propagando que “o inferno são os outros”. Não consigo
mais discutir sujeição às autoridades com gente irresponsável, incapaz de um
mínimo gesto de solidariedade, e que não tem olhos para a pobreza, pois está
ocupada em fazer as malas para “descansar um pouquinho neste feriado
prolongado”.
8
Ladeira abaixo
ESTAMOS SEGUINDO LADEIRA ABAIXO. Saímos do cristianismo para a
cristandade, da cristandade para o protestantismo, do protestantismo para o
evangelicalismo, do evangelicalismo para o denominacionalismo, do
denominacionalismo para o comunidadismo (perdoe-me: uma vez ladeira
abaixo, até o português sofre), e do comunidadismo para o institucionalismo.
Isso começou a acontecer quando Constantino tornou o cristianismo religião
o�cial do império. Dali em diante, os templos e o clero passaram
gradativamente a funcionar como aparelhos políticos de manutenção e
extensão do poder de Roma. Os guias espirituais já não eram homens de
con�ança de Deus (se é que existem), mas do imperador. Os templos �caram
mais próximos de prefeituras do que de casas de oração. A coisa degringolou
numa mistura de sexo, dinheiro e poder que só veio a perder ibope para a nova
tríade sexo, drogas e rock’n roll dos anos 1960.
Lá pelos idos de 1500, além do Cabral, outros personagens faziam história.
Ao tempo que era descoberta a Terra Brasilis, a cristandade também descobria o
protestantismo. Lutero, Calvino e seus navegadores levaram a nau da Igreja
para um movimento de antítese à cristandade. Note bem que o protestantismo
foi um movimento de protesto, e não de proposta. Foi uma reação à
cristandade com suas cruzadas, seus cofres e suas inquisições. E foi uma reação
teológica, conceitual, que aos poucos desembocou em propostas e experiências
comunitárias. É aí que nasce o denominacionalismo.
Saímos do cristianismo para a cristandade, daí para o protestantismo e logo
passamos ao denominacionalismo. E o carrinho vai descendo a ladeira. Agora
já não falamos em fé cristã, mas em presbiterianismo, metodismo, batistismo e
outros ismos mais. Aos poucos, Deus vai perdendo vela na procissão. Cada
denominação com sua declaração doutrinária, opção de governo e estrutura
eclesial, seu código de ética, seu centro de poder e sua volúpia expansionista. A
luta subliminar é para ver quem tem nas mãos a melhor versão do cristianismo
(ou do protestantismo, ou da cristandade, sei lá).
No entanto, na carona do liberalismo, demos outro salto, ou melhor, outra
escorregada. Chegamos à livre iniciativa e à regulamentação de mercado versão
gospel, e as denominações começaram a se fragmentar, vítimas da multiplicação
de empreendedores religiosos. Fenômeno interessante: assim como o sonho do
brasileiro de classe média é deixar de ser empregado e se tornar patrão, o sonho
da ovelha de classe média é deixar de ser ovelha e se tornar pastor, ou bispo, ou
apóstolo, ou rei – quem sabe?
Do denominacionalismo, chegamos ao comunidadismo, o fenômeno
caracterizado pela in�nidade de igrejas independentes. Os empreendedores da
religião, adeptos radicais da livre iniciativa, rompem com as multinacionais e
megacorporações da fé e iniciam a própria microempresa religiosa – sua igreja,
ou melhor, sua comunidade. São líderes espirituais autonomeados que reúnem
pessoas ao redor de si, de sua doutrina-opinião, sua visão-ideia brilhante, seu
carisma-personalidade. E suas doenças-doenças mesmo.
A partir de então surge a necessidade de defender suas distinções, isto é, as
razões por que romperam com as igrejas de origem. Ficam obcecados em
defender os pontos de discordância, e aos poucos o que era antítese vira tese; o
que era aspecto secundário ao Evangelho vira aspecto essencial da doutrina da
nova e emergente comunidade. A necessidade de a�rmação, de fazer vingar a
nova visão, gera vaidade disfarçada de piedade, em que o nome da comunidade
passa a ser mais valorizado do que sua mensagem. E quando alguém abre os
olhos, a vaca já foi para o brejo: o que era comunidade virou instituição-grife.
Deste ponto em diante, os testemunhos deixam de ser “antes e depois de
Cristo”, e passam a ser “antes e depois da igreja A”, “antes e depois da igreja B”.
Os apelos �nanceiros se tornam necessários para “o nosso programa de rádio”,
que existe não mais para que o Evangelho seja anunciado, mas para que o
Brasil tenha a oportunidade de ouvir “a visão que Deus nos deu”. Chegamos ao
institucionalismo, o pé da ladeira. E se você pensa que este é o pior cenário,
ainda não ouviu falar dos �lhos do institucionalismo. Mais precisamente seis.
O primeiro é o dogmatismo, a absolutização de uma versão doutrinária em
detrimento da própria verdade que se pretende interpretar. Nasceu quando a
defesa de um credo foi tão contumaz que a declaração de fé substituiu a
necessidade da revelação. O que antes era uma interpretação provável da
Palavra de Deus, nas mãos de uma instituição passa a ser a única verdade
possível. Depois vem o moralismo, a absolutização da moral em detrimento da
vida de santidade. Veio ao mundo pelas mãos da necessidade de padronização
de identidade. E para quem deseja a uniformidade das consciências, nada
melhor do que padronizar comportamentos.
O terceiro é o ritualismo, a absolutização de um processo litúrgico em
detrimento da devoção do coração. A expressão devocional �ca engessada no
conjunto dia-hora-endereço-liturgia. Para falar a verdade, uma grande sacada: o
que pode ser mais poderoso do que o universo simbólico e o rito para
aprisionar �éis? Esses três primeiros �lhos do institucionalismo vêm com
sobrenome bíblico – ou, se você preferir, com CPF e RG espiritual, ou seja,
livro-capítulo-versículo, pois é possível justi�car doutrina, moral e culto com a
Bíblia na mão.
Os outros três �lhos obedecem mais à lógica do processo do que a
fundamentação bíblico-teológica. O quarto �lho é o tradicionalismo, a
absolutização de uma experiência histórica em detrimento da liberdade do
Espírito. Aquela conversa de que “aqui sempre �zemos assim” é, na verdade, a
a�rmação sutil de que o Espírito parou de soprar desde que “discernimos nossa
visão”, ou seja, “plantamos nossa instituição”. O Espírito deixa de ser um
vento, que não se sabe de onde vem nem para onde vai, para se tornar um
ventilador barato, que na maioria das vezes nem chega a girar. Claro, quem
partiu para um caminho autocentrado e independente não pode mudar de
opinião, rever conceitos, pois fazê-lo signi�ca necessariamente questionar a
gênese. Quem questiona processo histórico questiona uma sucessão de
cooperadores, e quem questiona a própria história questiona a si mesmo:
“Guru autonomeado nunca está errado.
O quinto �lho é o sectarismo, a absolutização de um grupo de adeptos em
detrimento do Corpo de Cristo = os �lhos do Reino. Os sectários dizem que
“se você não crê como nós não se comporta como nós, não cultua a Deus do
nosso jeito, então não é um dos nossos. E se você não é um dos nossos, e nós
temos a verdade, então você tem a mentira, está nó erro; ou em rebeldia contra
a visão e a unção que Deus nos deu. Nesse caso, você deve se tornar um de nós;
senão vai para o inferno”. Surge, então, o último dos �lhos do
institucionalismo, o sexto, a saber, o proselitismo, a absolutização do marketing
religioso institucional em detrimento do ministério do Espírito que convence
do pecado e revela o Cristo.
Não tenho dúvidas de que, em determinadas circunstâncias, o estilo de vida
evangélico é absolutamente distinto do estilo de vida cristão. Uma
espiritualidade dissociada da vida e encravada no solo da religião
institucionalizadaconspira contra os interesses do Reino de Deus e certamente
contra as intenções de Jesus de Nazaré ao convidar pessoas para andar com ele
na simplicidade do discipulado, em que os compromissos radicais diziam
respeito ao ser, e ser em Deus, o Pai nosso. Compromissos que não se
destinavam a uma instituição, mas ao Reino de Deus; não privilegiavam o
universo religioso, mas a vida, o mundo, a Terra, e clamavam que fosse feita a
vontade de Deus; não sobreviviam à custa do sectarismo proselitista dos
padrões dogmáticos, moralistas e ritualistas, mas no fundamento do perdão e
da graça de Deus, possíveis apenas na mesa fraterna onde se reparte o pão, o
pão de cada dia, o pão de todo dia; en�m, compromissos que se rebelavam
contra toda e qualquer dominação e exploração do ser humano, pois o Reino
de Deus é Reino onde somos livres do mal, do maligno e da malignidade, onde
quer que se manifestem.
Meu amigo divulgou, outro dia, um texto onde desabafou: “Não quero
mais ser evangélico”. Pedindo licença, digo que agora é a minha vez: “Quero
voltar a ser cristão”.
9
Pastores e pastores
NÃO JULGAR PARA NÃO SER JULGADO. Esta recomendação de Jesus tem sido mal-
interpretada. A maioria usa para refrear opiniões a respeito de outras pessoas.
Contudo, não é isso que Jesus pretende. Na verdade, ele recomenda que se
tenha opinião a respeito dos outros. Ele insiste na necessidade de observar e
chegar a conclusões a respeito dos outros. E no mesmo texto que recomenda o
não julgamento. Adverte que devemos tomar cuidado com os falsos profetas,
que se aproximam disfarçados de ovelhas, mas que, na verdade, são lobos
selvagens. Para discernir um lobo vestido de ovelha é necessária boa observação.
Somente quem presta atenção no outro consegue ver que ele é algo diferente
do que pretende fazer parecer. Desmascarar é diferente de julgar. Desmascarar é
necessário à sobrevivência espiritual. Seguir um lobo é perigoso. Cair na
conversa de um lobo é fatal. Lobos são letais. Julgar é estabelecer veredictos,
determinar sentenças, prescrever penalidades. Julgar é prerrogativa divina.
Observar para discernir e desmascarar é responsabilidade humana.
Ao longo dos últimos anos, tenho observado bastante. Minha base de
informação consiste de horas de paciente escuta diante da televisão, centenas de
artigos colecionados a respeito da con�guração evangélica, dezenas de livros,
dissertações de mestrado e doutorado a respeito do fenômeno evangélico, além
de muita conversa, tudo isso regado com muita oração e re�exão angustiada.
Cheguei à conclusão de que existem, pelo menos, quatro tipos de pastores no
movimento evangélico brasileiro.
O primeiro tipo chamo de “pastores-lobos”. Pastores corrompidos. Alguns
conscientemente, outros sinceramente enganados. Mas corrompidos na alma,
na mente, no coração. Corrompidos no entendimento da verdade, na relação
com o sagrado e o divino. Pastores de si mesmos. Homens que se utilizam da fé
e do desespero alheios para alcançar seus próprios objetivos, servir aos seus
próprios interesses, implementar sua visão particular, desenvolver seu projeto
pessoal de poder, dinheiro e imoralidade de toda sorte (ou azar). Homens que
atuam no ramo da religião, no segmento evangélico, mas que estão
absolutamente distantes do Evangelho de Jesus Cristo, distantes de sua
mensagem, seu espírito, seu caráter, seus propósitos, seus valores, seus
conteúdos mais profundos. Oportunistas ou iludidos. Corrompidos do mesmo
jeito.
O segundo tipo chamo de “pastores-ovelhas”. Aqueles são lobos vestidos de
pastores. Estes são ovelhas vestidas de pastores. Cristãos sinceros e dedicados
que jamais deveriam ter sido investidos da autoridade que acompanha a função
pastoral. Ou deveriam ter recusado os insistentes apelos das outras ovelhas.
Homens que pretendem servir a Deus, e o fazem com integridade e sinceridade
ao longo dos anos, mas que nunca foram separados pelo Espírito Santo, isto é,
homens aos quais o Espírito Santo não constituiu bispos.
São dotados de boa vontade e capacidades. Experimentaram certo sucesso
pro�ssional, sempre foram bons contribuintes �nanceiros nas comunidades e
até mesmo as dirigiram muito bem na ausência dos pastores (e até melhor, em
muitos casos), mas sua contribuição era circunstancial, emergencial, e não
vocação perene. Falta-lhes o carisma. Falta-lhes a autoridade divina. Faltam-
lhes o coração e a alma de pastor. Falta-lhes a paixão. Faltam-lhes as vísceras
pastorais. Receberam o cetro. Receberam o título. Receberam o diploma de
bacharel. No entanto, não receberam a unção. Aquilo vem de baixo. Esta vem
do alto. Não pode ser forjada, manipulada, tomada de assalto. Como se diz
entre as ovelhas, estes são os que seriam bons crentes, mas preferem ser
péssimos pastores.
O terceiro tipo chamo apenas de “pastores”. Foram chamados pelo Espírito
Santo – vocacionados. Ouviram a Voz. Foram seduzidos, e seduzidos �caram.
O Senhor que chamou foi mais forte do que eles e prevaleceu. Carregam o
estigma de Cristo e sofrem dores de parto pelos seus rebanhos, cumprem em
sua própria carne o que resta dos sofrimentos de Cristo Jesus em favor da
Igreja. Pesa sobre eles a preocupação por todas as igrejas, e quando alguém se
enfraquece, eles se enfraquecem também. Quando alguém cai em pecado, eles
�cam muito a�itos. Estes são os que servem a Deus com todas as forças da
alma. Jamais seriam realizados e felizes fazendo qualquer outra coisa.
No entanto, na mesma intensidade com que se dedicam a Deus, são
assolados pelas sombras de seu mundo interior ainda não totalmente resolvido,
não su�cientemente redimido, não completamente curado e parcialmente
subjugado em obediência à autoridade de Cristo Jesus. São homens de lutas e
dores. Experimentam a contradição dos anseios profundos de santidade,
doação e autodoação, que convivem com o egoísmo arraigado, o pendor para o
mal e o pecado, que os obriga a gritar: “Miseráveis somos, quem nos livrará
deste corpo mortal?”. Como bem disse meu amigo, pastor e pastor de pastores,
são homens que algumas vezes Deus os tem e, algumas outras, eles têm a Deus
nos próprios termos e conveniências.
Apesar das contradições e angústias na alma, Deus sabe que eles o amam e
conscientemente repetiriam com Dostoievski: “Caso me dissessem que Cristo
não é verdade, eu diria: ‘Vai-te, verdade, pois tudo o que quero é Cristo’”.
Deus os compreende mais do que eles mesmos. Deus os ama de um jeito
diferente e os usa, apesar do que são, e em detrimento do que tentam ser.
Finalmente, há os pastores que nem sei ao certo como classi�car. Talvez
pudesse usar a palavra “iluminados”, mas ainda não sei se é a melhor maneira
de descrever essa gente. São homens que romperam a linha que nivela os
mortais. Pessoas equacionadas na alma, resolvidas, que vivem no patamar que a
Bíblia chama “plenitude do Espírito”, sendo esta plenitude não uma
experiência eventual, mas um status perene, uma qualidade de ser que se
consolidou. A diferença entre os “iluminados” e os pastores é que estes têm um
ministério, e aqueles são o ministério.
Comigo acontece de receber elogios ao que faço: um sermão inspirado, um
artigo lúcido, um aconselhamento sábio. As pessoas geralmente agradecem o
fruto do meu trabalho. Fico satisfeito, honrado e agradeço a Deus a
oportunidade de ser útil. Quando o feedback do meu trabalho não vem ou
demora, pergunto o que acharam e como avaliam meu desempenho. Preciso de
reforço externo para a sustentação de minha autoimagem e a consolidação de
minha identidade. Os iluminados são diferentes. Eles já sabem o que são. E
não estão mais ocupados ou preocupados em saber o que pensam do que
fazem. In�uenciam pela vida, e não pela obra – ou, se você preferir, sua vida é
sua obra, e o conjunto da obra é maior do que qualquer obra em particular.
Homens assim nos conduzem ao mistério e ao silêncio. Diante deles,
percebemos a tolice do elogio, cuidamos das palavras e experimentamos certo
constrangimento como se eles soubessem o que se passa dentro de nós e das
coisas erradas que fazemos às escondidas. A sensaçãoé a de que Deus conta
tudo para eles, que olham para nós com aquela cara de misericórdia,
acreditando que ainda chegaremos lá. São poucos. Mas estão espalhados por aí.
Bem-aventurados os que tropeçam neles. Até porque eles jamais se interpõem
em nosso caminho. Não se julgam dignos.
10
Missão integral – Uma síntese
A TEOLOGIA EVANGELICAL – MISSÃO INTEGRAL – oferece uma lente por meio da
qual lemos as Escrituras Sagradas em busca de referenciais para a presença do
cristão e da comunidade cristã no mundo: “Assim como o Pai me enviou [ao
mundo], eu os envio”. A soteriologia da missão integral é o domínio de Deus,
de direito e de fato, sobre todo o universo criado, por meio daqueles
restaurados à imagem de Jesus Cristo, o Primogênito dentre muitos irmãos. A
salvação é o Reino de Deus em plenitude, no qual a vontade de Deus é
realizada, concretizada em perfeição. A redenção pessoal/individual é apenas
uma parcela do que o Novo Testamento chama “salvação”: o novo céu e a nova
Terra.
A eclesiologia da missão integral é o novo homem coletivo. Deus não está
salvando pessoas, está restaurando a raça humana. Estar em Cristo é não apenas
ser nova criatura, mas também, e principalmente, ser nova humanidade; não
mais descendência de Adão, mas de Cristo, o novo homem – homem novo. O
caos do universo é fruto da rebeldia da raça humana em relação ao Deus
Criador; a redenção do universo – fazer convergir todas as coisas em Cristo – é
resultado da reconciliação da raça humana com Deus, que estava em Cristo
reconciliando consigo a humanidade. No cristianismo, a salvação é pessoal, a
peregrinação espiritual é comunitária e nada, absolutamente nada, é individual.
A Igreja é a unidade dos redimidos que são transformados, de glória em glória,
pelo Espírito Santo até que todos cheguem juntos à estatura de varão perfeito.
A missiologia da missão integral é a sinalização histórica do Reino de Deus,
que será consumado na eternidade. A Igreja, o Corpo de Cristo, é o
instrumento prioritário por meio do qual Cristo, o Cabeça, exerce seu domínio
sobre todas as coisas no céu, na Terra e debaixo da terra, não apenas neste
século, mas também no vindouro. A missão da Igreja é manifestar, aqui e
agora, a maior densidade possível do Reino de Deus, que será consumado ali e
além. O convite ao relacionamento pessoal com Deus é apenas uma parcela da
missão. A missão integral implica ação para que Cristo seja Senhor sobre tudo,
sobre todos, em todas as dimensões da existência humana: “O Evangelho todo,
o homem todo”.
A antropologia da missão integral é a unidade indivisível do “pó da
terra/fôlego da vida”, as dimensões física e espiritual do ser humano. “Corpo
sem alma é defunto; alma sem corpo é fantasma”; “Cristo veio não só a alma
do mal salvar, mas também o corpo ressuscitar”. A ação missiológica e pastoral
da igreja afeta o ser humano em todas as dimensões: bio-psico-espirirual-social
– a pessoa inteira em seu contexto, o homem e suas circunstâncias.
O querigma [evangelização] na missão integral é a proclamação de que Jesus
Cristo é o Senhor, seguida da convocação ao arrependimento e à fé para acesso
ao Reino de Deus. A oferta de perdão para os pecados pessoais é o início da
peregrinação espiritual, porta de entrada para o relacionamento de submissão
radical a Jesus Cristo, a partir do que a pessoa e tudo quanto ela produz passam
a servir aos interesses do Reino de Deus, existindo e funcionando em
alinhamento com seu caráter perfeito.
A proposta da missão integral como agenda ministerial para a Igreja é mais
do que a mescla evangelismo pessoal e assistência social (geralmente como isca
ou argumento evangelístico). O referencial da missão integral para a presença
do cristão e da comunidade cristã no mundo é mais do que a construção e a
multiplicação de igrejas locais, onde os cristãos se retiram do mundo e passam
a exercer funções que a viabilizam – ela, igreja, instituição religiosa – como um
�m em si mesmo.
A convocação da missão integral é para a rendição ao senhorio de Jesus
Cristo, para perdão dos pecados e recebimento do dom do Espírito Santo, a
partir do que se passa a integrar um corpo, o Corpo de Cristo, ambiente para a
experimentação coletiva dos benefícios da cruz, responsável por transbordar
tais benefícios ao mundo como anúncio profético do novo céu e da nova Terra.
O caminho missiológico e pastoral da missão integral é afetivo e relacional, em
vez de metodológico e operacional; comunitário, em detrimento de
institucional; devocional, em vez de gerencial.
A igreja é a comunidade da graça, comunidade terapêutica, agência de
transformação social, sinal histórico do Reino de Deus, instrumentalizada pelo
Espírito Santo enquanto serve incondicionalmente a Jesus Cristo, Rei dos reis,
Senhor dos senhores, a quem seja glória eternamente, amém.
11
As verdades de Norton
NOS ANOS DE 1819 A 1880 VIVEU em São Francisco um homem autodenominado
Norton I, imperador dos Estados Unidos. Vivia e agia como tal, e era acatado
pela sociedade com todas as honras. Sua companhia era aceitável, sua presença
em festas e eventos era disputada e o seu apoio sempre desejado para toda e
qualquer causa. Imprimia o próprio dinheiro, que nenhum dono de
restaurante ousava rejeitar. Uma legítima nota de cinquenta centavos de dólar
do Norton I hoje é comercializada por mais de quinhentos dólares. Mais de
dez mil pessoas compareceram ao seu funeral, revelando quanto valorizavam
sua excentricidade.
Desde que a ouvi, num documentário do GNT, achei a história maravilhosa.
Já dediquei horas de lucubrações a respeito de Norton I e seu império
particular. De vez em quando, suscito uma discussão com amigos para saber o
que eles aprenderam com essa história. O que mais me chamou a atenção foi o
fato de que você pode construir uma identidade falsa a seu respeito, e não
faltarão pessoas que acreditem, alimentem e até mesmo tirem proveito da sua
mentira.
Na verdade, acho que todo mundo cresce construindo uma identidade falsa
a respeito de si mesmo. Desde a infância, quando sofremos as projeções dos
pais e da família, passando pela adolescência, período em que precisamos
encontrar um jeito de ser aceitos e admirados pela turma, chegando à fase de
de�nição de carreira e casamento, até este mundo de fachada, cuja moeda mais
valorizada é a imagem e onde ninguém vale mais do que aquilo que aparenta.
Aos poucos, vai deixando de ser importante o que de fato somos para que entre
em cena algo em que nos tornamos por escolha própria ou pressão de outros. A
menina que disputava o amor do pai e o menino que disputava o amor da
musa da escola crescem e se tornam a executiva que disputa a admiração do seu
homem e o empresário que quer provar para todo mundo que é melhor do que
o irmão dele, sim.
A maioria das pessoas funciona num ciclo de retroalimentação dessa loucura
coletiva de identidades de mentirinha e infelicidades crônicas. Ninguém se
atreve a tirar as máscaras. E muito menos a denunciar as máscaras dos outros.
Sobrevivemos de tapinhas nas costas e elogios evanescentes. Mal de época.
Tempos em que ser celebridade é mais importante do que ser gente. Dias em
que, para ser celebridade, vale tudo (e viva as promoters), até prostituir a
identidade. Mundo de Caras e bocas, onde os seduzidos pelos �ashes e
holofotes não buscam outra coisa senão a notoriedade, a admiração, o
comentário invejoso dos demais boçais. Pessoas esculpidas nos implantes,
lipoaspirações e plásticas – pessoas de plástico, corpo e cara de mentira,
admirados e exibidos como verdadeiros. Bolhas de sabão, perfeitos apenas de
relance. Sanduíches de fotogra�a.
Alguém disse que a máscara, se lhe dermos tempo, torna-se o próprio rosto.
Aí acontece o que Orlando Tejo, poeta de cordel, cantou: Eu briguei com um
cabra-macho mas não sei o que se deu eu entrei pru dentro dele
ele entrou pru dentro deu
e num zuadão daquele
não sei se eu era ele
nem sei se ele era eu
 
Isto é, já não sabemos quem é quem dentro de nós, desconhecemos quem
mora na nossa casa, quem domina o pedaço que acreditávamosser nosso
corpo. Mas tem sempre o dia em que a casa cai. Graças a Deus. O Lulu Santos
tem razão, pois tem mesmo...
 
...dias que a gente olha pra si E se pergunta se é mesmo isso ali Que a gente achou
que ia ser Quando a gente crescer E a nossa história de repente �cou Alguma coisa
que alguém inventou E a gente não se reconhece ali No oposto de um déjà vu
 
Por essas e outras é que acredito que a maturidade implica necessariamente
a descoberta de si mesmo. A questão primária para todo ser humano é
responder à pergunta que Adão ouviu de Deus logo após o seu pecado: “Onde
estás?”, que não visa a descobrir a localização geográ�ca, mas existencial. O
signi�cado desta experiência paradigmática para a raça humana é a a�rmação
de que a pessoa alienada de Deus está também alienada de si mesma, e, neste
caso, o reencontro com Deus é necessariamente um reencontro consigo. É mais
ou menos como se Deus estivesse se dirigindo a cada pessoa, perguntando:
“Onde estás?”; ou, em outras palavras: “Onde está seu eu verdadeiro, quem é
você por trás dessa máscara?”. Neste sentido, “onde estás?” é uma pergunta
muito próxima de “quem é você?”. Algo do tipo: “Que você não é Norton I,
imperador dos Estados Unidos, eu sei. Então, quem é você?”.
Meu amigo Alisson captou isso perfeitamente em uma de suas mais belas
canções.
 
Quando olha bem no íntimo
Através do teu sorriso
O que será que Deus vê?
Bem além da tua lógica
Bem atrás de toda estética
O que será que Deus vê?
Um coração a�ito, um espírito ferido E uma alma já cansada de representar Alguém
descon�ado, sem um verdadeiro amigo A quem possa se abrir sem se envergonhar
Quando Deus te investiga Bem no âmago da vida
Lá no teu eu verdadeiro
É que ele quer por inteiro
Transformar a tua essência
Num batismo de alegria
Verdadeiramente livre te fazer
Os verdadeiros amigos não são aqueles que nos dão tapinhas nas costas e
vivem alimentando nossos egos falsos. Amigo é aquele que nos ajuda a enxergar
a verdade a respeito de nós mesmos. Amigo é quem nos coloca de frente para o
espelho. Isto exige honestidade, coragem, aceitação, perdão, encorajamento na
direção da transformação, disposição de permanecer ao lado, caminhando
junto depois que cai o pano.
Não sabemos quem se escondia por trás de Norton I. Não sabemos também
do que ele se escondia, ou de quem fugia, ou porque precisou se proteger
daquela maneira. Ninguém conseguiu fazê-lo despir sua fantasia. Nem sequer
sabemos se houve quem tentasse. Norton I é uma vida desperdiçada. O mais
triste dessa história é que Norton I não é apenas um personagem ou um
indivíduo desequilibrado. É o nome cientí�co de um tipo de gente. Aquele foi
Norton I, depois dele vieram muitos outros. Gente que não entendeu ainda
que “mais vale controlar o seu espírito do que conquistar uma cidade” (Pv
16.32). As ruas estão cheias de nortons. A maioria deles não está nem mesmo
preocupada em conquistar a cidade. Basta-lhes aparecer numa manchete, numa
festa ou numa retina qualquer de outro Norton se consumindo de inveja.
12
Até quando
TALVEZ POR PURO EXERCÍCIO MASOQUISTA, ainda continuo dando atenção aos
programas evangélicos na televisão e no rádio. Não fosse trágico, seria cômico.
Por alguns instantes, chego mesmo a rir às gargalhadas, e não poucas vezes me
surpreendo imitando alguns gurus da mídia gospel. Mas o sentimento mais
autêntico é de pasmo e revolta. Não consigo ser tão nobre a ponto de chegar à
tristeza ou à compaixão.
Outro dia ouvi um tele-evangelista anunciando que sua denominação
inauguraria uma antena de retransmissão com palavras assim: “Vamos
inaugurar a torre que todo olho verá, e então toda língua confessará que a
programação da nossa rede é a melhor da televisão brasileira”. Quase não
acreditei. A utilização, como peça de marketing, do texto de Filipenses que se
refere ao mais sublime paradoxo da pessoa de Jesus Cristo, no qual o apóstolo
reproduz um hino cristão primitivo que retrata a humilhação e a exaltação do
Filho de Deus, foi um acinte ao Evangelho como poucos que tive o desprazer
de ver.
Também ouvi um apóstolo fazendo apelo para contribuições, a�rmando
algo como “este programa – de televisão – é mantido por pessoas que
acreditam que o investimento no Reino de Deus dá retorno (...) Então ligue
para cá, que eu vou orar sobre o boleto, e tenho certeza de que Deus vai
abençoá-lo cada vez que for ao banco fazer sua oferta”. Não bastasse,
acrescentou: “Você, que tem um trabalho natural e não pode evangelizar,
evangelize por meio do nosso programa, fazendo sua contribuição e investindo
com retorno garantido”.
Quantas besteiras em poucas frases:
 
• a comparação do compromisso missionário com “investimento com
retorno”;
• a sugestão de uma barganha �nanceira em que Deus está comprometido
pela palavra do apóstolo;
• o reforço do dualismo entre clero e laicato;
• a propagação da crença de que o cristão não pode ser um agente do Reino
em sua atividade pro�ssional, e que seu emprego é um empecilho para sua
obrigação e privilégio de ser testemunha do Evangelho de Jesus Cristo;
• a distorção do conceito de vocação ao falar de trabalho natural em
contraposição ao trabalho espiritual ou sobrenatural.
 
Também �quei chocado com o tele-evangelista que a�rmou que as vítimas
da tsunami que abalou a Ásia, especialmente a Indonésia e o Sri Lanka,
morreram porque estavam na praia, em vez de estar no templo, cultuando a
Deus. Isto é medieval. Assemelha-se à malignidade da Igreja que se valeu do
medo e do pavor para vender suas indulgências e manter escravos seus �éis.
Não me conformo com a instituição que evoca os simbolismos do
sincretismo religioso popular e convoca pessoas para “marchar sobre o vale do
sal”, participar de “sessões de descarrego” e receber “tratamento espiritual de ex-
bruxas” para que se vejam livres de demônios e maldições. Certo dia, um dos
pseudopastores recomendou que uma senhora a�ita escrevesse seu nome sete
vezes em sete papeizinhos que deveriam ser depositados no tal vale do sal,
sendo este o melhor tratamento do Brasil para o problema que ela estava
enfrentando.
Até quando vamos chamar de “cristãos” essa gente? Eles inventaram outra
religião. Abandonaram o cristianismo. Não falam da cruz de Cristo e do poder
do Espírito Santo como solução para toda e qualquer escravidão espiritual, mas
inventam a cada dia nova amarração simbólica que perpetua a escravidão, que
se faz dupla: aos demônios e aos religiosos. Não falam do discipulado de Jesus
Cristo como compromisso com o Reino de Deus, o que exige arrependimento
(expansão da consciência) e submissão absoluta ao Rei Eterno, o que implica
mudança de vida e serviço abnegado. Não apresentam o Evangelho sem engano
e sem dolo, mas uma distorção das Escrituras já denunciada pelo padre
Antônio Vieira, quando a�rmou que “a Palavra de Deus apresentada com
sentido inverso ao pretendido por Deus ao proferi-la não é palavra de Deus; é
palavra do Diabo”.
Tenha, Deus, misericórdia de nós.
13
A espiritualidade na pós-modernidade
O CONCEITO DE PÓS-MODERNIDADE AINDA é um tema controvertido. Fala-se
em “hipermodernidade”, “alta modernidade” ou “modernidade tardia”,
“modernidade radicalizada”, “modernidade líquida”. A compreensão comum,
entretanto, é que a chamada “pós-modernidade” inclui a modernidade, e não
pode ser compreendida sem ela.
A modernidade designa um fenômeno muito complexo que se manifesta
com força na segunda metade do século 18, com a Revolução Industrial –
capitalismo, ciência e técnica, urbanismo, desenvolvimento ilimitado e a
revolução democrática muito sensível aos direitos humanos, com todas as suas
nuanças ideológicas. No centro da modernidade está o indivíduo, pois nada é
tão percebido quanto a subjetividade, que liberta todo mundo da dependência
das instituições sociais.
A Declaração dos direitos do homem e do cidadão, de 1789, de�ne liberdade
como “poder para fazer tudo o que não prejudica o outro; o exercício dos
direitos naturais de cada homem não tem mais limites do que os que
asseguram aos outros membros da sociedade o gozodos mesmos direitos”. E a
Declaração universal dos direitos humanos, de 1948, a�rma que “todos os
homens nascem e permanecem iguais e livres”.
A lógica deste ideário moderno exige dois outros aspectos da
individualidade: a autonomia e a racionalidade. O signi�cado etimológico de
autonomia é “ter a lei em si mesmo”, a capacidade de o indivíduo agir movido
e orientado pela consciência, assumindo, portanto, a responsabilidade pelos
seus atos. Autonomia implica todo poder normativo subordinado à consciência
individual e, consequentemente, a rejeição de todo poder arbitrário e
dogmático. Por esse motivo, o processo moderno rejeita a religião e a divindade
representada por ela.
Nesse contexto, a racionalidade surge como necessária, ou mesmo como
decorrência da autonomia. O princípio de Descartes – “Penso, logo existo” –
proclama a centralidade do indivíduo pensante. O iluminismo do século 18
quer dizer “esclarecimento racional”, em oposição ao dogmatismo que faz da
autoridade e da tradição os critérios últimos de juízo. O homem moderno
deseja fazer sempre, e em todo lugar, uso da própria razão. Uma sociedade que
supervaloriza a subjetividade, a liberdade; a autonomia e a razão do indivíduo
evidentemente privilegia a vivência de espiritualidade sem a tutela
institucional.
A palavra “espiritualidade” pode suscitar muitas imagens: um mosteiro com
homens recolhidos e afastados da realidade, auto�agelando-se em penitências;
pessoas sentadas em roda, na posição de lótus, buscando fazer uma ponte entre
seu eu mais profundo e as energias do universo; o auditório repleto de crentes
diante de um pastor – mais parecido com animador de auditório – fazendo
promessas para a solução imediata de quaisquer problemas em troca de ofertas
�nanceiras; a romaria de �éis que cruzam uma pequena vila, à luz de velas,
seguindo um santo de devoção ao som de cantilenas tristes; ou até mesmo uma
mesa na repartição pública, cheia de cristais, gnomos, �tas e amuletos, que
visam atrair os bons �uídos e afastar os maus-olhados. Todas essas, entretanto,
são expressões de espiritualidade, cada qual associada a uma tradição religiosa.
Toda civilização tem seu jeito de sistematizar a experiência espiritual;
estruturando as coisas em termos de dogmas, rituais e padrões morais.
O saldo da modernidade é o rompimento com as instituições sociais
religiosas e o abandono da pessoa à própria consciência e à mercê de sua
liberdade. Os setores acadêmicos, inclusive, recomendam que não sejam usadas
expressões como “sincretismo”, “fanatismo” e “tolerância”. A expressão
“sincretismo” pressupõe algo que resulta da mistura de várias “religiões puras”,
sendo que não existe “religião pura”; o termo “fanatismo” denuncia
pejorativamente alguém comprometido com uma crença e evidencia certa
intolerância, o que não convém a uma sociedade de iguais, livres e autônomos;
e a expressão “tolerância” sugere uma aceitação indiferente da fé alheia, de
modo que os teóricos optam por “tolerância ativa”, que se opõe não só à
intolerância, como também à indiferença, legitimando como igualmente
verdadeira – ou, no mínimo, o direito de ser considerada igualmente
verdadeira – a fé do outro.
A espiritualidade na pós-modernidade é marcada, portanto, pela
subjetividade individual, livre da tutela das instituições sociais religiosas. Surge
o mercado religioso com uma fé privatizada. Isso, em parte, explica a Babel em
que vivemos hoje, não apenas no mundo religioso em geral, como também no
emaranhado de seitas cristãs, pois onde não há rei, cada um faz o que é certo
aos próprios olhos.
14
Um convite à oração
MEU CORAÇÃO ESTÁ INCLINADO À ORAÇÃO. Pretendo me dedicar a ler, estudar,
escrever e pregar mais a respeito da oração. E especialmente orar, é claro. Esta
inclinação me veio como resposta de oração. Dediquei bom tempo do �m do
ano de 2005 buscando a Deus a respeito do que deveria me ocupar no ano
seguinte, e somente parei quando meu coração se encheu do desejo de
mergulhar nas águas profundas da oração. Orei para saber o que fazer e percebi
que deveria continuar orando. Com esse desejo também me chegaram alguns
discernimentos.
Primeiramente, percebi que não estava sendo chamado a buscar o
conhecimento de Deus, o poder de Deus, respostas de Deus, experiências com
Deus ou nenhuma outra coisa por meio da oração. Desde o início, compreendi
que não deveria transformar nem a oração – muito menos Deus – em meio
para alcançar determinados �ns. O chamado foi simples: orar. Fez todo o
sentido.
A primeira coisa que me passou pela cabeça ao planejar um ano dedicado à
oração foi que seria um período de grandes experiências com Deus. Percebi,
entretanto, que estava apenas reagindo automaticamente ao paradigma
convencional do que se entende por orar. Orar não é uma atividade que visa
mover a mão de Deus, não é um recurso para colocar Deus em movimento,
uma vez fustigado pela fé, como se ele fosse um irresponsável indolente,
sentado sobre um trono de má vontade. Jesus ensinou que seu Pai trabalha até
hoje.
Orar é estar com Deus a portas fechadas para que ele, que nos vê em
secreto, nos dê a recompensa. A recompensa da oração não depende da agenda
de quem ora, mas do amor, da misericórdia e da bondade eterna de Deus, que
em sua plena sabedoria e soberania distribui aos seus �lhos boas dádivas e dons
perfeitos.
Outra coisa que discerni foi que o chamado à oração não era uma exortação
a falar com Deus, mas meramente estar em silêncio, em sua presença. Sempre
me chamou a atenção o fato de que no quarto, a portas fechadas, Deus não
ouve o que dizemos, mas nos vê: a oração é muito mais uma atitude de
entrega, rendição e disponibilidade do que um monólogo piedoso diante de
Deus. Talvez por essa razão, Jesus tenha dito que o Filho não pode fazer nada,
exceto aquilo que vê o Pai fazer. Mais uma vez, faz sentido, pois se o Pai está
trabalhando, então devemos esperar que ele mesmo decida a recompensa e nos
chame a cooperar com sua obra redentora. Quem não ora, não colabora. E
quem ora somente com palavras também não colabora – espera colaboração.
Também tive minha atenção voltada para o fato de que a oração tem muito
mais a ver com o amor do que com o poder de Deus. No quarto, a portas
fechadas, Deus não é o General, o Todo-Poderoso, mas o Pai que nos sussurra:
“Você é meu �lho amado, em quem tenho prazer”. No quarto, a portas
fechadas, a oração não é um amontoado de palavras, insistentes repetições de
petições, uma lista de assuntos a tratar com Deus como quem despacha com
seu funcionário na manhã de segunda-feira. A oração em secreto é o
pronunciar singelo do “Aba”, o balbuciar da criança que descansa em absoluta
con�ança no colo do Papai do céu.
Total sentido. Jesus nunca orou em busca de poder. Na verdade, sempre
advertiu seus discípulos a respeito das armadilhas do poder. Seu Reino não
seria de servos, mas de amigos, e seus amigos deveriam reinar não como
poderosos, mas como servos. Jesus esteve ocupado em manter-se submisso ao
Pai, guardando a exata relação de dependência e rendição. As expressões de
poder seriam consequências naturais. Curar pessoas, expulsar demônios, andar
sobre as águas, alimentar multidões, ressuscitar mortos e falar com autoridade
eram apenas os bons frutos da árvore boa, que mesmo sendo em forma de
Deus, não teve por usurpação aferrar-se aos seus direitos e prerrogativas
divinas. Esvaziou-se, assumiu a forma humana e vestiu os trajes do servo, pois
sabia que, no mundo dos homens, o poder seduz e degrada quem o possui,
mas o amor constrange corações na direção de Deus Pai. Mesmo porque o
inferno, ainda que imperfeitamente, imita o poder de Deus, mas jamais é capaz
de um mínimo gesto de amor.
Iniciei minha jornada com o devocionário baseado nas obras de C. S.
Lewis,1 que me deu de presente esta meditação, fazendo eco com meu coração:
 
Se o mundo não existe principalmente para amar a Deus, mas para que ele nos ame,
ainda assim esse mesmo fato se dá, num nível mais profundo, por nossa causa. Se
ele, que existe em si mesmo e não precisa de nada, optapor precisar de nós, é
porque precisamos que precisem de nós. O cristianismo que aprendemos agora
ensina que, por trás de todos os relacionamentos de Deus para com o homem, existe
um ato divino de pura doação – a eleição do ser humano, a partir da não existência
para tornar-se o amado de Deus e, portanto (em certo sentido), o necessário e
desejado de Deus. Ele não deseja nada a não ser esse mesmo ato, já que tem e é toda
a bondade eternamente. E esse ato é devido a nós. É bom conhecermos o amor; e
melhor ainda é conhecer o melhor objeto de amor: Deus. Mas seria uma forma falsa
de conhecê-lo se considerássemos a própria natureza das coisas. Ou seja, conhecê-lo
como se tivesse um amor cujos pretendentes fôssemos primariamente nós, e Deus
fosse o pretendido, o qual estivéssemos buscando. É como se nós o tivéssemos
achado para se conformar às nossas necessidades, e não o contrário. Não passamos
de criaturas; nosso papel tem de ser o de paciente para o agente, da fêmea para o
macho, do espelho para a luz, do eco para a voz. Nossa atividade mais nobre deve
ser a de resposta, e não de iniciativa. Experimentar o amor de Deus de uma forma
verdadeira e não ilusória é, portanto, experimentá-lo como entrega às suas
exigências; nossa conformidade para com o seu desejo. A experiência contrária
signi�ca, por assim dizer, um atentado contra a gramática do ser.
Parte 2
Outra igreja
15
O Evangelho da graça de Deus
PASSAVA DAS 23H30 QUANDO ENTREI naquele táxi forrado de adesivos com
mensagens bíblicas. Após orientar a respeito do meu destino, perguntei: “Onde
o irmão congrega?”. Feitos os esclarecimentos iniciais, logo percebi que estava
sendo evangelizado pelo motorista, entusiasmado com sua doutrina. Sua
declaração de fé era muito simples e, aliás, muito bem articulada em três frases
curtas: “Deus abençoa quem se sacri�ca; Deus honra quem persevera; e Deus
abomina quem retrocede”.
Fiquei impressionado, e logo me aventurei a perguntar como aquilo
funcionava no dia a dia. As respostas estavam na ponta da língua: “Quando o
senhor quer receber uma graça de Deus tem de dar alguma coisa em troca”.
Imaginei que isso explica a primeira parte, Deus abençoa quem se sacri�ca. Fui
esclarecido de que o tamanho da bênção depende do tamanho do sacrifício.
Onde aparece “sacrifício”, leia-se “oferta �nanceira na corrente da fé”, que dura
quarenta noites – o mesmo tempo que Jesus passou no deserto.
“Agora, se o senhor não receber a graça durante o tempo da corrente, não
deve desanimar.” Esta é a aplicação da segunda parte, Deus honra quem
persevera, pensei. “Mas, olha, o senhor não pode faltar nenhuma noite, nem
desistir no meio da corrente, senão tem de começar tudo de novo.” Isso
completa a declaração de fé: Deus abomina quem retrocede.
Antes de descer do táxi, convicto de que o Espírito de Deus é o único capaz
de guiar toda a verdade (Jo 16.13), resumi o Evangelho da graça de Deus em
duas notícias, uma boa e outra ruim. Contei primeiro a pior das notícias: o
pecado do homem faz separação entre Deus e os homens, e ninguém pode
fazer nada para conquistar o favor de Deus. Em seguida, apresentei a boa
notícia, a melhor delas: o sacrifício de Jesus na cruz é su�ciente para que Deus
nos abençoe com todas as bênçãos espirituais, pois se Deus não poupou nem
mesmo seu Filho, como não nos dará também com ele todas as coisas? (Rm
8.31-32).
Fiquei olhando o táxi sumir na escuridão da noite, imaginando o que a
Palavra Viva faria dentro do coração e da mente daquele homem durante a
madrugada. Naquela noite me lembrei da história de Simão, um mágico muito
respeitado que vivia na cidade de Samaria na época em que Filipe passou por lá
pregando o Evangelho do Reino de Deus. Simão �cou impressionado, abraçou
a fé e “foi batizado, e seguia Filipe por toda parte, observando maravilhado os
grandes sinais e milagres que eram realizados” (At 8.9-13).
Simão podia facilmente ser confundido com um cristão: creu, foi batizado,
discipulado e conviveu no ambiente das manifestações poderosas de Deus.
Aliás, para quem olha de relance, Simão é cristão. Mas a história não termina
aí. Lucas, o evangelista, conta que, quando Pedro e João chegaram a Samaria
para veri�car se o Evangelho pregado por Filipe era o mesmo que os apóstolos
pregavam em Jerusalém, impuseram as mãos sobre os convertidos e todos
receberam o Espírito Santo (8.14-17).
Simão, que já estava impressionado com Filipe, foi ao delírio com a
demonstração de poder pelas mãos de Pedro e João. Imediatamente ofereceu
dinheiro para que Pedro e João lhe dessem daquele poder extraordinário.
Naquela hora, o apóstolo Pedro foi enfático: “O teu dinheiro seja contigo para
a perdição, pois julgaste adquirir, por meio dele, o dom de Deus” (8.18-20).
Simão não entendera o fundamental: as bênçãos divinas são concedidas em
razão da graça de Deus, e jamais pela conquista humana, pois não há nada que
o homem possa fazer para merecer o favor de Deus.
A Bíblia conta a história de outros homens que também creram em Jesus,
mas nem por isso se tornaram cristãos. Quando Jesus estava “em Jerusalém, na
festa da Páscoa, muitos viram os sinais miraculosos que ele estava realizando e
creram em seu nome. Mas Jesus não se con�ava a eles, pois conhecia a todos”
(Jo 2.23-24). Em outras palavras, crer no poder e na autoridade do nome de
Jesus não faz de ninguém cristão.
Receio que este mesmo fenômeno esteja acontecendo hoje na cristandade.
As pessoas estão descobrindo que Jesus é maior do que os exus, tranca-ruas e
outros bichos, e saem por aí declarando, com toda razão, que Jesus Cristo é o
Senhor. Mas acontece que querem se relacionar com Jesus como se
relacionavam com os demônios ou santos de devoção, isto é, pela via das
promessas, penitências, sacrifícios e ofertas. Acreditam que Deus abençoa quem
se sacri�ca, honra quem persevera e abomina quem retrocede. Julgam que podem
comprar o dom de Deus e caminham para a perdição, a exemplo do
pseudocristão chamado Simão.
Seja sobre nós o Espírito de toda a verdade, e faça triunfar no Brasil o
Evangelho da graça de Deus.
16
Construir comunidades
CERTO DIA ME PUS A PENSAR NOS desa�os com os quais a Igreja convive. Listei
pelo menos dez: 1) a tirania do mercado, 2) a ilusão do marketing, 3) a falência
das instituições, 4) a matriz do neoliberalismo (individualismo), 5) as crises
ideológica, social, econômica e de fé, 6) o relativismo moral, 7) o
institucionalismo religioso, 8) o desenvolvimento cientí�co e tecnológico, 9) a
proliferação do espiritualismo e 10) o vazio de signi�cado. A relevância da
Igreja neste mundo implica necessariamente a construção de comunidades. Isto
não é tão óbvio, pois a Igreja vive entre três paradigmas funcionais – e, dos três,
o comunitário é o menos favorecido e mais negligenciado.
O primeiro paradigma é o carismático. A ênfase está na manipulação dos
poderes espirituais visando a solução de problemas e o acesso ao conforto. O
movimento da batalha espiritual – que inclui quebra de maldições, orações de
renúncia, descarrego e outras barbaridades; os grandes ajuntamentos em
auditórios onde há fogo santo no altar e unção sobre a massa; a ênfase nos
fenômenos e seus modismos cíclicos, tipo disco ao contrário, alinhamento de
planetas, dentes de ouro, unção do riso, unção do emagrecimento, cair no
espírito-Espírito, revelações, visões e ministrações angelicais; as correntes e
vigílias; as fogueiras santas e os votos. Outras tantas expressões ritualistas
evidenciam que poucos estão dispostos à peregrinação do discipulado,
preferindo intervenções instantâneas do mundo espiritual, resolvendo questões
como num passe de mágica, numa oração só, numa noite apenas, sob a bênção
do guru de plantão e a ministração de um espírito qualquer, supostamente sob
o comando do Espírito Santo.
O segundo paradigma é corporativo. A ênfase está na utilização de
ferramentas e recursos da administração moderna. A promoção do
planejamento estratégico e seu detalhamento: visão, missão, crenças e valores,
estratégia, público-alvo; estrutura e gestão organizacional;programas, com
projetos e atividades; desenvolvimento de lideranças cada vez menos espirituais
e cada vez mais moldadas nos parâmetros empresariais têm sustentado a
falaciosa cultura de que uma igreja viva é necessariamente bem organizada, e
vice-versa.
Evidentemente, ambos os paradigmas, carismático e corporativo, têm
respaldo da Escritura Sagrada, legitimidade e relevância. Ninguém duvida de
que estejamos em luta sem tréguas contra os poderes das trevas e que a única
possibilidade de êxito ministerial está na rendição ao Espírito Santo, que se
manifesta por meio de todos, sempre e em todo lugar, para a edi�cação do
Corpo de Cristo, multiplicando fenômenos e distribuindo ministrações –
inclusive instantâneas.
Ninguém discordaria também que o acesso às ferramentas e aos recursos da
administração moderna não signi�ca que a igreja está querendo aprender com
as empresas e organizações, mas que os gurus da administração extraíram da
Bíblia seus principais conceitos e cases de liderança, de modo que a igreja está
apenas e tão somente resgatando um tesouro que é seu. Moisés, Neeias e Paulo
são incomparáveis, e teriam lugar em qualquer tribuna de treinamento de
executivos. Isso sem contar com o próprio Jesus.
Mas o fato é que apenas na dimensão comunitária a Igreja pode fazer frente
aos desa�os contemporâneos. É na vida de comunhão e na trilha dos
relacionamentos de intimidade que vencemos a tirania do mercador e
construímos uma realidade que transcende à ilusão do marketing religioso,
onde o Evangelho não é tratado como produto, mas como poder de Deus para
abençoar pessoas. É na vida de comunhão que superamos a falência das
instituições, quer pelos vínculos afetivos que vão se formando, quer pela ação
solidária que oferece ao povo uma alternativa de serviço e apoio em detrimento
de um Estado falido e corrompido.
É na vida de comunhão que somos constantemente desa�ados a sair de
nossa zona de conforto individual e nos colocar a caminho do encontro. É na
vida de comunhão que o reino de Deus ganha densidade, e a agenda de justiça
e fraternidade pode ser concretizada como profecia contra todas as propostas
ideológicas de saúde social. É na vida de comunhão que se constrói a rede de
serviço por meio da qual os pobres são supridos em suas faltas, os ricos
encontram caminhos de doações que resultam em benefícios reais aos
destinatários da oferta. É na vida de comunhão que a fé é alimentada, quer
pelo constante encorajamento mútuo, quer pela possibilidade de suporte ao
fraco, consolo ao desanimado, respostas aos questionadores e oportunidades
aos que caíram.
É na vida de comunhão que encontramos alternativas de preservação ética,
além do comportamentalismo legalista e barato. É na vida de comunhão que
desmascaramos o institucionalismo religioso, fazendo as pessoas ser valorizadas
acima das agendas, dos programas e dos projetos. É na vida de comunhão que
oferecemos o high touch como contraponto ao high tech, pois sabemos que “não
sois máquinas, homens é que sois”. É na vida de comunhão que fazemos frente
ao espiritualismo esotérico e ao misticismo desencarnado, fazendo pontes entre
céus e Terra, uma vez que o contato com Deus há de ser, antes e depois de
tudo, um contato com o próximo e o irmão. É na vida de comunhão que
preenchemos o vazio de signi�cado, pois a comunidade cristã, agência do
Reino de Deus, resume em si uma proposta existencial na direção do outro e
dos outros.
Imagino a Igreja não como uma alternativa para a sociedade, mas como a
sociedade alternativa. O fenômeno das ONGs tem feito migrar para os setores
mobilizados da sociedade civil muitos serviços que outrora eram privilégio do
Estado. O voluntariado do Terceiro Setor responde hoje por boa parcela do
atendimento às populações carentes, inclusive na manutenção �nanceira da
assistência.
Esse paradigma é compatível – aliás, o mais compatível – com a realidade da
vida cristã em comunhão, pois as comunidades cristãs são, ou deveriam ser,
força de mobilização, agências de prestação de serviço solidário, ambientes de
fraternidade, fóruns promotores da justiça, moldura para a jornada espiritual,
locais onde tão importante quanto o lugar aonde se chega é o jeito como se vai
e os companheiros no caminho.
Sim, é mais fácil ministrar por atacado, em auditórios superlotados, gerando
a falsa impressão de êxito e e�cácia. É mais fácil administrar coisas, programas,
projetos, atividades, agendas, orçamentos. É mais fácil falar ao telefone com o
ouvinte do outro lado do país e orar de uma vez só com óleo sobre cartas de
remetentes anônimos. Difícil mesmo é colocar o pé na lama, ir ao encontro das
pessoas, uma de cada vez, para ouvir suas histórias singulares, discernir seus
mundos interiores trancados em chaves de defesa, trilhar o caminho
desconhecido em busca de respostas que não estão prontas nos manuais de
aconselhamento.
Difícil mesmo é conviver com as contradições dos outros, seus julgamentos
injustos, suas neuroses projetadas, sua imaturidade emocional, sua confusão
mental, sua ignorância espiritual e sua vaidade a toda prova. Difícil mesmo é
abrir a casa em hospitalidade, repartir o pão, depositar uma oferta na conta
corrente do irmão com nome, CIC, RG e dívidas. Difícil mesmo é exercitar a
disciplina do encontro, da busca constante e do perdão. Difícil mesmo é ser
gente em comunidade.
Difícil, mas fascinante. Difícil, mas relevante. Difícil, mas inocultável, pois
quando a cidade está edi�cada, uma casa de cada vez, e cada uma iluminada,
ninguém mais consegue calar a voz da profecia e da oferta da graça.
17
As marcas da institucionalização da
Igreja
A IGREJA É, AO MESMO TEMPO, organismo espiritual e instituição social. O
grande desa�o é o constante arrancar das ervas daninhas da institucionalização
de modo que organismo espiritual encontre espaço para �orescer, fruti�car e se
alastrar. O que se observa hoje, entretanto, é um movimento contrário,
segundo o qual muitas comunidades cristãs caminham a passos largos para a
institucionalização – sem falar naquelas que estão com os dois pés �ncados no
terreno da religiosidade formal. Observe o que chamo de “marcas da
institucionalização da Igreja”.
 
1. Liderança personalista. Quando a comunidade perde de vista a realidade
de 1Coríntios 12 e se deixa vencer pela tentação de privilegiar ministros tidos
como especiais em detrimento da participação de todos na dinâmica da
unidade, da diversidade e da mutualidade, ela abre espaço para que outra
pessoa além de Cristo se torne alvo de devoção. Ocorre, nesse momento, uma
idolatria sutil.
2. Ênfase na particularidade do ministério. Uma vez que o projeto
institucional se torna preponderante, a ênfase não pode recair no conteúdo
comum a todas as comunidades cristãs. A necessidade de se estabelecer como
referência no mercado religioso conduz necessariamente à comunicação
centrada nas razões pelas quais “você deve ser da minha igreja, e não de
nenhuma outra”. Torna-se comum o orgulho disfarçado dos líderes que
estimulam testemunhos do tipo “antes e depois de minha chegada nesta igreja”.
3. Ministração quase exclusiva à massa sem rosto. Ministérios
institucionalizados estão voltados para o crescimento numérico e valorizam a
ministração de massa, que se ocupa em levar uma mensagem abstrata a pessoas
que trarão trabalho aos bastidores pastorais. Parece que os líderes se satisfazem
em saber que “gente do Brasil inteiro nos escreve”, como se transmitir verdade
fosse a única dimensão da ministração espiritual.
4. Busca de presença na mídia. Mostrar a “cara diferente”, principalmente
com um discurso do tipo “nós não somos iguais aos outros, venha para a nossa
igreja”, é quase imperativo dos ministérios institucionalizados. A justi�cativa de
que “todos precisam conhecer o verdadeiro Evangelho” acaba se
transformando, com o tempo, em necessidade de encontrar uma vitrine onde a
instituição se mostre como produto.
5. Projetos ministeriais impessoais. Ministérios institucionalizados medem seu
êxito pela conquista do que o dinheiro pode comprar. Pelomenos no discurso,
seus desa�os de fé não passam pelos frutos intangíveis nas vidas transformadas,
mas em realizações e empreendimentos que demonstram o poder das coisas
grandes.
6. Apelos �nanceiros exagerados. Consequência de toda a estrutura necessária
para sua viabilização, os ministérios institucionalizados precisam de dinheiro.
As pessoas aos poucos deixam de ser rebanho e passam a ser mala direta,
mantenedores, parceiros de empreendimentos.
7. Rede de relacionamentos funcionais. A mentalidade “massa sem rosto”,
somada ao apelo “mantenedores-parceiros de empreendimentos”, leva as
relações a deixarem de ser afetivas e se tornam burocráticas e estratégicas. As
pessoas valorizadas são aquelas que podem, de alguma forma, colaborar para
expandir a instituição. Já não existe mais o José, apenas o tesoureiro; não mais
o João, apenas o coordenador dos projetos Gideão, Neemias, Josué ou nenhum
outro nome que represente conquistas e realizações.
8. Rotatividade de líderes chamados leigos. Não se admira que muitos líderes,
ao longo do tempo, sintam-se usados, explorados, mal-amados,
desconsiderados e negligenciados. O desgaste de uns é logo mascarado pelo
entusiasmo de outros, que chegam atraídos pela aparência do sucesso e êxito
ministerial. Assim, a instituição se torna uma máquina de moer corações
dedicados e esvaziar bolsos de gente apaixonada pelo Reino. O movimento
migratório de líderes de uma igreja para outra é feito por caminhões de
mudança carregados de mágoas, ressentimentos, decepções e culpas.
9. Forte presença de conteúdos simbólicos. A institucionalização é adensada
por símbolos, hinos, uniformes, escudos, bandeiras, slogans, logotipos,
campanhas, en�m, componentes de amarração psíquica e mentalidade
uniforme segundo a qual o grupo se sobrepõe ao indivíduo e a instituição
esmaga a identidade. O que se materializa conduz ao distanciamento do
universo re�exivo e das possibilidades incontroláveis do mundo das ideias, e
quanto mais materializado o rito, mais amarrado e dependente o �el.
10. Ausência de liberdade às expressões individuais. Ministérios
institucionalizados, personalistas, dependentes de �éis na manutenção
�nanceira e psicologicamente amarrados pelos conjuntos simbólicos não são
ambientes para a criatividade e a diversidade. Todos brincam de “tudo quanto
seu mestre mandar, faremos todos”, e inconscientemente acabam se vestindo da
mesma maneira, usando o mesmo vocabulário, gestos e linguagens não verbais.
Seus rebanhos são compostos não apenas por massa sem rosto e
“mantenedores-parceiros de empreendimentos”, mas também por soldadinhos
uniformizados – o que, aliás, é a mesma coisa.
11. Falta de preocupação com o discipulado. Para quem supervaloriza a
expansão, a massa, o número e o coe�ciente de arrecadação, a seriedade no
acompanhamento pessoal pastoral e discipulador é deixada de lado. Ministérios
institucionalizados não se preocupam em transformar vidas de dentro para
fora, querem mesmo é conquistar o mundo e organizar uma sede
internacional.
12. Proclamação utilitarista. Ministérios institucionalizados se alimentam de
desespero e conveniência. A volúpia expansionista do pregador, mesclado com
a ganância e a necessidade do �el, constitui a mistura exata para a elaboração e
a divulgação de uma mensagem adocicada, irreal, fantasiosa e diabolicamente
deturpadora do Evangelho.
 
Evidentemente, não estou a�rmando que a presença de uma dessas marcas
caracteriza um ministério como institucionalizado. É fato, no entanto, que
essas ênfases determinam um per�l distante da realidade neotestamentária;
própria das comunidades cristãs locais que desejavam iluminar o mundo a
partir de sua rede de relacionamentos interpessoais.
18
Novos paradigmas para a Igreja
CONTINUO ASSUSTADO COM O ACELERADO processo de institucionalização da
Igreja. Evidentemente, não desejo generalizar nem exagerar a questão, mas não
consigo deixar de re�etir a respeito. Na verdade, creio que pensar é minha
obrigação. Jesus nos proibiu de julgar, mas nos estimulou a discernir. Julgar é
estabelecer veredito; discernir é buscar compreensão. Se é verdade que a versão
in�uencia mais do que o fato, é importante considerar que importa tanto o que
se diz quanto o que é percebido. Em outras palavras, como versa o dito
popular, “na prática, a teoria é outra”. Neste caso, independentemente da
teoria, na prática parece que os conceitos estão distorcidos. Separei uma lista
como proposta para sua re�exão.
A essência da experiência cristã é Cristo. Nada pode ocupar nosso desejo
mais do que o Cristo cruci�cado e ressurreto, pois a vida eterna é conhecer a
Deus e a seu Filho (Jo 17.3), e jamais podemos perder Jesus de vista, sob pena
de enveredar por outro Evangelho (Hb 12.2; 2Tm 2.8). Contudo, com o
tempo, os cristãos passaram a se devotar mais a uma causa, como vínculos
denominacionais e ministérios personalistas. Atualmente, a devoção – isto é, o
maior desejo – focaliza as bênçãos de Deus. Parece que muitos hoje aceitariam
a Terra Prometida mesmo que Deus não acompanhasse a caravana (Êx 33.12-
15). Para esses infelizes, a intimidade com Deus é secundária à posse da
bênção.
Neste contexto, a conversão já não implica transformação, e os frutos dignos
de arrependimento já não são esperados (Mt 3.8). Pior do que a adesão
institucional, a legitimidade da conversão está vinculada à satisfação do cliente.
Convertido não é aquele que se tornou nova criatura (2Co 5.17), mas aquele
para quem Deus funciona, em que “funcionar” equivale a “abençoar”.
A qualidade da vida cristã, portanto, deixou de ser mensurada pela realidade
paulatina de Cristo formado em nós (Gl 4.19), a experiência crescente do fruto
do Espírito (Gl 5.22-23) e a busca da intimidade com Deus (Jo 15.1-10). Até
mesmo a velha proposta moralista que enfatizava o legalismo �cou
ultrapassada. Bom cristão não é mais aquele cujo caráter re�ete Cristo – cristão
é “pequeno Cristo” –, tampouco aquele cujo comportamento percebido é
íntegro, mas aquele que prospera e triunfa em negócios lucrativos, corpos que
jamais adoecem e di�culdades que não chegam a sua tenda. Pior do que isso, o
próprio conceito de bênção foi rede�nido. Enquanto o Evangelho a�rma o
favor de Deus como dádiva imerecida, graça que procede do Pai das luzes (Rm
8.32; Tg 1.17-19), hoje se tornou fruto de conquista para quem se sacri�ca em
intermináveis correntes de jejum e oração, contribui �nanceiramente e é �el ao
líder diabolicamente divinizado – o qual, sabedor da consciência popular, por
seu turno trata a bênção como produto monopolizado por seu ministério
“ungido”.
A igreja, outrora a comunhão de pessoas ao redor do Jesus ressurreto, Corpo
vivo de Cristo, comunidade da fé e família de Deus (1Co 12.12-27; Ef 3.19),
foi aos poucos se tornando uma instituição identi�cada por seus estatutos, suas
estruturas (dis)funcionais e prédios suntuosos, e hoje já se parece mais com um
auditório ávido por experiências arrebatadoras e soluções imediatas. As pessoas
que compõem a Igreja, outrora chamadas “irmãos”, passaram a ser mão de
obra, mala direta e mercado.
A missão da Igreja, nesse contexto, foi perdendo sua ênfase evangelística e
seu ímpeto de testemunho de Jesus até os con�ns da Terra (At 1.8), e
gradativamente tornou-se atividade templocêntrica, dirigida ao crescimento da
instituição. Não demorou muito para que fosse agregado o conceito de
representatividade institucional e se transformasse num projeto político – uma
neo-constantinização. O testemunho da fé em Cristo, marcado pelo discipulado
e pelo imperativo de ensinar, com a vida, a guardar tudo quanto Jesus ordenou
(Mt 28.18-20; 2Tm 3.10-12), passou pela fase das campanhas e conferências
evangelísticas e chegou aos meios de comunicação: testemunhar é ocupar
espaço na mídia. O crescimento da Igreja, que deveria se dar pela multiplicação
(At 6.7), passou pela fase da adição e agora se explica pela massi�cação.
Os pastores se tornaram empreendedores, homens de negócios. Paradigma
invertido. Em vez de propor aos homens de negócios que assumamfunções
pastorais em seus horizontes de in�uência, os pastores estão se tornando
homens de negócios diante de seus rebanhos. O ministério pastoral, antes uma
função exercida no Corpo de Cristo mediante vocação espiritual e dotação de
dons especí�cos (At 20.28-32; Ef 4.11), já chegou a ser identi�cado com um
diploma de bacharel, e agora é valorizado pela capacidade de conquistar
mercado.
O sacerdócio universal, que a�rmava ser todo cristão um ministro (Ef 4.12-
16; 1Pe 2.9-10), passou a ser prerrogativa do clero, e seus representantes
assumem os papéis de animadores de auditório, marqueteiros e gurus que já não
de�nem “sucesso” como “�delidade” (1Co 4.1-5), mas como “desempenho”. A
marca do discipulado, que era o amor (Jo 13.34-35), com a Reforma
protestante passou a ser a verdade, e hoje já não é uma coisa nem outra, mas o
“poder do Espírito” – ou o pseudopoder do Espírito, ou poder do pseudo-
espírito, portanto, espírito, já nem sei mais.
Deus tenha misericórdia de nós. Todos nós.
19
O sol e a peneira
JÁ VAI LONGE O TEMPO QUANDO AS igrejas eram frequentadas por membros e
visitantes, numa distinção quase maniqueísta: os crentes e os incrédulos; os “da
mesma fé e ordem” e os outros irmãos. Naquela época, o auditório era
composto de poucas pessoas, algumas entrelaçadas por ligações familiares –
coisas como o �lho do diácono casado com a �lha do diretor de evangelismo.
Todo o mundo sabia da vida de todo o mundo, e quem era surpreendido
fumando tornava-se alvo da fofoca e da comissão de disciplina. Teve gente
excluída da comunhão por ter ido ao cinema e suspenso da ceia do Senhor por
jogar futebol no domingo. Os problemas de disciplina na igreja eram simples e
resolvidos de maneira simplista. De vez em quando, um escândalo abalava a
juventude, geralmente algo relacionado com a “quebra do sétimo
mandamento”, porque os líderes tinham di�culdade em dar nome ao pecado e
tratavam a coisa na base do código, quem sabe para amenizar o falatório e/ou a
má impressão do visitante, que naquele tempo era raro no culto.
Os auditórios dominicais das igrejas hoje são ocupados por pelo menos
quatro tipos de pessoas: membros, frequentadores, visitantes e usuários.
Membros são aqueles que formalizaram o compromisso com a igreja local, e
alguns deles, apesar de membros, são menos comprometidos e assíduos do que
alguns frequentadores e usuários. Os frequentadores são aqueles que, por razões
diversas, não optaram pela formalização do vínculo com a igreja, mas a têm
como “sua igreja”. Os visitantes são frequentadores esporádicos e podem ser
subdivididos entre curiosos, que “dão um pulo para ver por que falam tanto
dessa igreja”; os investigativos, em fase de mudança de igreja ou de busca
espiritual; e também os curtidores, que estão apenas passeando ou mudando de
ares num domingo ou outro. Já os usuários são de outra espécie: querem o
melhor de todos os mundos sem o compromisso com nenhum deles.
Frequentam várias comunidades ao mesmo tempo, uma por causa do louvor,
outra por causa da palavra, outra pela ênfase no poder, outra porque o pastor é
um cara muito disponível, e assim por diante.
Nesse contexto, não podemos confundir auditório com igreja. E devemos
saber que as pessoas presentes no auditório de uma igreja evangélica são de
todos os tipos: cristãos professos, não cristãos professos, cristãos professos que
não prestam, não cristãos professos que prestam, cristãos professos em fase de
amadurecimento, não cristãos professos em fase de conversão (isto existe?),
cristãos professos que são joio, não cristãos professos que parecem muito com
trigo, en�m, uma mistura de gente que faz a igreja não ser mais aquele
ambiente de “nós, oitenta santos e dedicados a Deus contra o resto do mundo”,
e passe a ser “essa multidão de gente, que não sabemos mais ao certo quem é
quem, mas temos de pastorear todo o mundo”. Duas pessoas lado a lado na
celebração dominical já não se fazem necessárias, nem provavelmente, uma
dupla de cristãos. Confundem-se conversão, e adesão, ser cristão e frequentar
igreja evangélica, seguir a Jesus no discipulado e comer o pão multiplicado.
Melhor assim. Pre�ro essa mistura maravilhosa e desa�adora de gente em
processo na direção de Deus. Na verdade, imagino o ministério de Jesus dessa
maneira: gente andando em volta, ele abençoando todo o mundo, mas se
con�ando a poucos. Assim também imagino a igreja de Antioquia. O que era
perceptível aos olhos de Barnabé era a graça de Deus, e a graça é vista sempre,
apesar das pessoas. Que dizer da igreja em Corinto, onde a todos Paulo chama
“irmãos”? Parece que os critérios de inclusão comunitária, apesar de rígidos
diante de rebeldia explícita, são �exíveis quando em face da infantilidade e da
busca sincera de transcender.
Isso muda radicalmente o contexto das igrejas locais. Antigamente, as
fronteiras de relacionamento da igreja eram protegidas. As más in�uências e os
transgressores �cavam de fora. Jamais imaginaríamos adolescentes fumando
maconha no banheiro da igreja, ou meninas sendo iniciadas nas práticas
homossexuais no “retiro espiritual de carnaval”. Acontecia, mas era raro. Raro e
abafado. Hoje, é escancarado. E não podemos mais tapar o sol com a peneira.
A pauta de re�exão bíblica está migrando aos poucos – e, infelizmente, bem
devagar. Já deveríamos ter deixado para trás a celeuma a respeito das sete
semanas de Daniel e passado a discutir as semanas de ibope do Big Brother
Brasil; deixado de lado disputas a respeito de buraco de agulha onde camelos
passam para discutir picada de agulha na veia da moçada; abandonado debates
a respeito de quem é o anjo da igreja para tentar discernir como pastorear
homossexuais convertidos; resolvido a questão da besta do Apocalipse para
levantar a voz contra as bestas que destroem torres e votam embargos. “Santa
ingenuidade, Batman”, diria Robin.
Certo dia, um pastor amigo meu se declarou estarrecido ao saber que um
dos homens de sua igreja fora �agrado pela esposa, de madrugada,
masturbando-se na sala. É hora de abrir os olhos para as adolescentes que
fazem aborto para “não estragar os melhores anos de sua juventude”; para os
envolvidos em romances virtuais e os viciados em pornogra�a cibernética; para
os sonegadores que se sentem culpados e os que transitam sem
constrangimento pela indústria da propina, fazendo negócios e gerando
dízimos; para os casais que vivem de fachada e os divorciados transformados
em cristãos de segunda classe, estigmatizados pelo fracasso conjugal; para os
viciados em álcool, cocaína, maconha e os escravizados pelos remédios para
dormir, antidepressivos e fórmulas para emagrecer; para as meninas solteiras
�agradas com a barriga grande, e os solteiros adultos que deram um jeito de
legitimar a cama do motel sem a necessidade de passar pelo altar, que levam a
vida numa boa, e dão risada de quem ainda pensa em “constituir família”.
A lista poderia seguir, mas já bastam esses exemplos de frequentadores de
igrejas evangélicas, cristãos modernos, discípulos urbanos, para mostrar que
uma coisa é o auditório de domingo à noite, e outra, a ekklesia de Jesus. Uma
coisa é o joio, outra é o trigo. E só Deus sabe quem é quem.
Quando falamos em uma Igreja contemporânea, contextualizada, relevante,
capaz de dialogar e causar impacto no mundo, estamos falando
necessariamente de uma Igreja capaz de andar no limite, encarar a baixaria da
televisão, os fundamentalismos do Oriente Médio e da América do Norte, as
pretensões dos políticos e as magias do Harry Potter sem cair em nenhuma
pegadinha. Para isso, precisamos rea�rmar com veemência o ideal da ética
cristã, desenvolver uma pastoral sem hipocrisia e dar o passo corajoso de iniciar
uma conversa sem ter as respostas prontas, na esperança de que o Espírito
Santo, vento sempre novo e renovador, nos conduza pela mão rumo à melhor
maneira de expressar amor por Jesus: pastoreando suas ovelhas.
20
A Igreja relevante na pós-modernidade
A RELEVÂNCIA DA IGREJA NO TERCEIRO milênio é um tema que ainda rende
muita discussão. Até mesmo aqueles que nãofazem a menor ideia de como ela
deve funcionar na próxima semana estão preocupados em saber como podem
enfrentar e vencer este século. Vivemos os dias da chamada “era pós-moderna”.
Em termos simples, podemos dizer que, na Idade Média, ou pré-moderna,
Deus era o centro de todas as coisas; na Idade Moderna, o homem ocupava
este foco; e hoje, na pós-modernidade, nem Deus nem o homem ocupam o
centro do universo. Os dias da pós-modernidade têm tantos centros quanto
homens: cada cabeça, uma sentença.
Em termos comparativos, nada é tão peculiar à pós-modernidade quanto a
rede mundial de computadores, a internet. Por essa razão, após meses de
re�exões e debates a respeito do tema, permito-me tomar um portal qualquer
da rede como paradigma para resumir minhas conclusões a respeito da
sobrevivência e relevância da igreja. Faço isso por meio de seis propostas
a�rmativas.
 
1. A igreja relevante é plural em suas ofertas. Para navegar na rede, os usuários
desejam um portal que ofereça múltiplos serviços, de modo que não precisem
transitar de um site para outro a �m de acessar seus temas de interesse e suprir
suas necessidades. Os portais mais relevantes oferecem acesso a informações e
serviços do mundo todo, e para todos os tipos de pessoas. Quer ler o jornal
francês Le Monde? Clique aqui. Quer comprar uma passagem para Miami?
Clique ali. Quer visitar o Museu do Louvre? Anunciar seu carro? Conversar
com o Ministro da Saúde? Consultar um guru esotérico? Encomendar uma
camisa sob medida? É só dar um clique no lugar certo. De igual modo, a Igreja
relevante identi�ca as necessidades de seus frequentadores e as provê em seu
universo de programas, projetos e atividade.
2. A igreja relevante é descentralizada em sua operação. Um portal que se
propõe a oferecer todo tipo de informação e serviços precisa do trabalho de
centenas de fontes. Quanto mais capaz for de hospedar sites que mantenham o
usuário em seu universo, mais relevante será o portal. Neste caso, o mesmo
portal coloca na tela do usuário informações e serviços gerados por diferentes
pessoas, em diferentes partes do planeta. De igual modo, para oferecer opções
múltiplas de ministração, a Igreja relevante possui uma rede de ministérios que
mobiliza um número sempre crescente de membros, frequentadores e
parceiros, inclusive externos:
3. A igreja relevante é inclusiva em seu horizonte de relacionamentos. A
internet é um fenômeno de socialização e democratização de serviços e
informações. Há gente de todo tipo entrando e saindo, provendo e acessando a
rede a cada instante. Um portal relevante não seleciona provedores e usuários.
Ele não interage com quem cumpre seus critérios, mas com quem quer
interagir com ele. Da mesma forma, a Igreja relevante tem as portas abertas
para que todos cheguem – “Eu venho como estou” –, e depois, somente
depois, sejam transformados no que devem ser.
4. Uma igreja relevante valoriza a experiência. Há vários portais disputando o
mesmo usuário, e a maioria dos grandes portais oferece acesso ao mesmo
universo de informações e serviços. Nesse caso; o portal que sobrevive e faz
diferença não está focado no produto que oferece, mas em como oferece, isto é,
está preocupado em oferecer ao usuário não apenas o que o usuário está
procurando, mas de uma maneira estimulante, criativa, que se torne
memorável e desejável. A Igreja relevante também ministra de maneira a causar
impacto para que o contato com ela contenha experiências inesquecíveis,
muito mais do que mera formalidade religiosa.
5. A igreja relevante cria comunidade. Os portais se preocupam em criar
�delização, e a melhor maneira de consegui-la é fracionar seus usuários em
blocos de interesse e grupos de a�nidade: criar comunidades, gerar vínculos
pessoais a partir da interação virtual. Há, inclusive, gente que se conheceu na
rede e acabou se casando – um casamento nada virtual, é claro.
Semelhantemente, a Igreja relevante cria um ambiente para relacionamentos de
mutualidade entre seus membros e frequentadores.
6. A igreja relevante valoriza a imagem. O mundo não é mais MS-DOS, mas
Windows. Signi�ca que o mundo não é mais letra e número, e sim imagem e
ícone. O mundo é multimídia. As pessoas não estão mais treinadas a ler e
decodi�car. Estão interessadas em ver e clicar. Buscam informação oferecida
com um mínimo de conceitos e valorizam a rapidez de acesso. De igual
maneira, a igreja relevante não descansa no discurso verbal lógico e
apologético, mas oferece pessoas-ícones, coloca na praça gente em quem o
Evangelho deu certo, pois o Evangelho, antes de ser entendido, deve ser visto, e
de modo atraente.
21
O poder de uma visão
JÁ SE PASSARAM QUASE VINTE ANOS desde que li Escreva sua �loso�a de ministério,
um artigo de três páginas no qual Peter Wagner apresentava os fatores de
sucesso de cinco igrejas da Califórnia e defendia que uma visão claramente
de�nida e compartilhada é fator essencial de sucesso organizacional. Desde
então, esse assunto ocupa minhas leituras, minha pesquisa, minhas entrevistas
com líderes, visitas a igrejas e ministérios criativos.
A discussão a respeito do que é visão continua relevante, até porque os
manuais não são concordes nas de�nições, como também, e, principalmente,
aqueles que se aventuram na implantação dos pacotes importados dedicam
pouco tempo para re�etir sobre a questão. Isso explica por que a maioria das
comunidades chamadas ou que se pretendem criativas e inovadoras se divide
entre as que copiam um modelo e as que copiam vários modelos, tecendo uma
colcha de retalhos visionária.
Diante de tantas possíveis de�nições, cheguei a uma conclusão
especialmente relevante para o contexto eclesiástico: visão é o botão de ignição
que ativa todas as áreas de atuação da igreja. A visão indica o modo peculiar de
uma igreja fazer o que todas as igrejas fazem. Sobre as áreas de atuação de uma
igreja local não há muito que discutir ou inventar. Guardadas as diferenças
semânticas, todas as igrejas devem desenvolver as mesmas dimensões de
atividades: adoração, instrução, comunhão, serviço e proclamação. Uma igreja
local será tão saudável quanto mais capaz de atuar nestas cinco áreas de
maneira equilibrada. Isto é o que se chama de ação holística, ou integral, da
Igreja.
Tomemos como exemplo três modelos distintos de igrejas da América do
Norte. A Willow Creek Community Church possui uma ênfase radical em
alcançar o sem igreja, o que, para o contexto brasileiro, signi�caria mais ou
menos transformar um católico nominal em católico praticante. O que falta ao
sem igreja não é o esclarecimento nem a aproximação com o Evangelho, mas a
experiência pessoal com Cristo, dentro do próprio background religioso – no
caso, evangélico-protestante. Isto é, a visão da Willow Creek Community
Church é alcançar, com o Evangelho, aquelas pessoas que não são alcançadas
pela estrutura eclesiástica formal e chamada “tradicional”. Em outras palavras, a
Willow Creek quer ser “uma igreja para quem não gosta de igreja”. Como diz
Bill Hybels, pastor presidente: “só existe um caminho para Deus, que é Cristo;
mas para Cristo existem vários caminhos, é a Igreja é responsável por encontrar
cada um deles”.
A Saddleback Valley Community Church, por sua vez; considera-se uma
purpose driven church, ou uma igreja dirigida por propósitos. Rick Warren, seu
pastor presidente, diz que uma igreja cresce quando tem saúde, e para ter saúde
basta fazer as coisas certas, isto é, cumprir os propósitos de Deus. O carro-chefe
do ministério da Saddleback Valley é o discipulado básico, por meio do qual
pretende integrar e oferecer o fundamento para que todos os seus
frequentadores saibam exatamente o que esperar de sua comunidade e como
servir no mundo por meio e a partir dela, sendo, inclusive, ativos em sua
manutenção e expansão. Em outras palavras, a Saddleback Valley é ótima no
pós-venda.
Outro exemplo de visão eclesiástica pode ser encontrada na Christian
Vineyard Fellowship, o movimento que já se espalhou por mais de cinquenta
países e reúne mais de duas mil igrejas locais. O maiorfator de distração da
Vineyard é sem dúvida a experiência coletiva de louvor e adoração. A convicção
de que os dons espirituais se manifestam prioritariamente enquanto o povo de
Deus está reunido em adoração é a base e a alavanca de todo o ministério
Vineyard. Aqueles irmãos creem de fato na ministração do Espírito Santo à
igreja, especialmente como resposta à adoração.
Cada uma dessas comunidades locais possui um botão de ignição singular
que dinamiza e mobiliza os cristãos. São igrejas que fazem as mesmas coisas –
adoração, comunhão, instrução, serviço e evangelização – a partir de centros
diferentes. Todas as dimensões da ekklesia estão presentes nos três modelos, mas
com ênfases diferentes e ativadas por um fator distinto. Este fator distinto, o
“como” peculiar, é na verdade o botão que ativa a experiência comunitária e,
portanto, a síntese da visão de cada uma dessas igrejas. A visão é, por assim
dizer, o elemento catalisador do potencial da igreja local. Nesse sentido,
podemos a�rmar que, guardados os parâmetros bíblicos, não existe visão certa
ou errada.
Poderíamos falar ainda a respeito de G 12, igreja em células, igreja dinâmica,
evangelismo explosivo, mas toda vez que concentrarmos a atenção na mera
avaliação dos modelos e seus respectivos pacotes e manuais estaremos fora da
questão essencial: a peculiaridade de cada comunidade cristã local, somada sua
história, seu rebanho, seus contextos, seus líderes e tantos outros fatores. Cada
igreja local possui um conjunto de características que resulta em sua
singularidade. Para cada uma delas há um botão de ignição. A maior
responsabilidade de um líder é discernir esse botão, sob pena de vestir em sua
comunidade uma armadura de Saul.
22
Obsolescência
OBSOLESCÊNCIA É O PROCESSO DE SE tornar obsoleto. Obsoleto é aquilo que
caiu em desuso, �cou ultrapassado ou foi mal desenvolvido, �cou atro�ado, é
rudimentar. Estas são as de�nições do dicionário. Obsoleto é o gramofone
diante da vitrola, que é obsoleta diante do CD player, que é obsoleto diante do
iPod. Obsoleta é a máquina de escrever diante do computador. E também o
telégrafo em relação ao telefone. O carbono diante da fotocópia, que por sua
vez é obsoleta perto da transmissão de imagem digital.
Esse conceito se estende para todas as áreas do desenvolvimento humano.
Vale para a ciência, mas também para a organização social, que evoluiu (será?)
da agricultura para a tecnologia, passando pela indústria, e chegou às portas da
sociedade do conhecimento e da informação. Obsolescência é a palavra que
de�ne os processos que vão carimbando como ultrapassadas ou arcaicas as
coisas e realidades que vão �cando para trás à medida que o mundo vai sendo
transformado pela pesquisa e suas consequências. Obsolescência é, portanto, o
processo que torna algo inadequado para o uso ou estéril em face da nova
realidade que se estabeleceu.
Por essa razão, obsolescência também serve para explicar a inadequação de
práticas e posturas pastorais e eclesiásticas. Existe, sim, um jeito de ser pastor à
moda antiga, de ser igreja à moda antiga. Claro, nem tudo que é antigo é
obsoleto. Os primeiros elásticos, feitos de borracha vulcanizada, foram
patenteados em 17 de março de 1845 por Stephen Perry, um fabricante de
Londres. A produção de rodelas de elástico para papéis, cartas e dinheiro foi
iniciada pela sua empresa na mesma época, e continuam ocupando espaço nas
gavetas de todas as agências bancárias do mundo. No entanto, acredito que, no
caso de muitas igrejas, a maneira como são conduzidas pastoralmente implica
não apenas antiguidade, mas também, e infelizmente, inadequação e
ine�ciência. Isso explica a luta entre progressistas e conservadores, inclusive no
âmbito religioso. Os campos de disputa são vários, desde o doutrinário até o
metodológico, incluindo a liturgia e a forma de governo da igreja. Isso sem
falar na ética.
Assumo a pretensão de fazer três advertências com o objetivo de livrar a
Igreja da obsolescência. Evidentemente, não acredito que apenas três serão
su�cientes. Acredito, porém, que dá para começar a conversar.
 
1. A agenda da igreja não pode mais ser institucional. As instituições, inclusive
a Igreja, estão sub judice em nossa sociedade. Instituições não são e nunca
foram uma �nalidade em si. Claro, ainda tem gente que dá a vida pelo
Corinthians ou pela Convenção Batista. Contudo, não é o caso da maioria.
Não devemos, portanto, agregar pessoas ao redor de programas de discipulado
e de pequenos grupos, desa�os patrimoniais como compra de terrenos e
construção de templos, programas de televisão ou eventos sensacionais. Os
desa�os às pessoas devem se encaixar nas molduras dos triângulos: pessoal-
relacional-devocional; devoção-unção-ministração.
Em outras palavras, não devemos (e jamais deveríamos) canalizar esforços e
recursos para edi�car uma grande igreja-organização-religiosa-estrutura-
eclesiástica, baseada em visão-missão-estratégia-planejamento-gestão. Estamos
edi�cando o Corpo de Cristo, “construindo pessoas”, “construindo o novo
homem coletivo”. Em termos práticos, as pessoas não cabem e nunca
couberam em pacotes e padrões de pastoreio-treinamento coletivo. Existe, sim,
um projeto institucional, mas é secundário. A prioridade (quase exclusividade)
é o cuidado das pessoas, uma de cada vez, cada uma de um jeito, num ritmo,
num processo, no contexto dos relacionamentos e da ministração mútua. O
discurso, os projetos, as ênfases da Igreja – isto é, sua agenda – devem re�etir
essa prioridade.
2. A tematização-abordagem da igreja não pode ser religiosa. Não devemos
defender os interesses da religião; devemos defender religiosamente os
interesses das pessoas. Quando subo ao púlpito numa típica manhã de
domingo, imagino que as pessoas estão esperando resposta para uma simples
pergunta. Muita gente pensa que as pessoas frequentam cultos e ouvem
pregadores com perguntas do tipo: “Como agradar a Deus? Como ser um
verdadeiro adorador? Como buscar o Reino de Deus em primeiro lugar? Como
testemunhar de Cristo de maneira e�caz?”. Acredito, porém, que as pessoas não
estão lá em busca de respostas a essas questões religiosas. As pessoas esperam
descobrir respostas para uma pergunta mais simples, para questões mais
imediatas e relevantes em seu dia a dia.
Quando encaro meu auditório, composto por pessoas de todas as idades, de
diferentes contextos socio-culturais e classes econômicas, imagino todas
niveladas por uma pergunta. Quando as pessoas me perguntam como consigo
me comunicar com um auditório tão diversi�cado, respondo que meu
auditório é composto por apenas um tipo de pessoa, pois todas elas estão
unidas por seu interesse comum e sua pergunta.
Ainda como introdução, e não querendo ser chato ou fazer excessivo
suspense, creio que a pergunta do meu auditório é própria desta geração
imediatista, hedonista (só se interessa pelo que dá prazer), pouco re�exiva e,
acima de tudo, pragmática (só se interessa pelo que funciona). Sem mais
delongas, creio que as pessoas que me ouvem dominicalmente querem saber
apenas e tão somente: “Como é que se vive bem?”. Esta é a pergunta que as
pessoas fazem hoje.
Quando o ponto de partida é a santi�cação, ou a intimidade com Deus, ou
até mesmo a oração e a expansão missionária, pressupõe-se que as pessoas
estejam interessadas nessas coisas. Mas o fato é que elas não estão. As pessoas
não querem lutar para expandir uma organização ou defender uma doutrina, e
muito menos preservar um mandamento moral. Elas estão interessadas em “ser
felizes” e “curtir a vida”. O mundo tem pouca gente como Carolina,
personagem da música de Chico Buarque que �ca olhando – sem enxergar – o
mundo passar pela janela. As pessoas pularam da janela e caíram no mundo. A
maioria está disposta a deixar para trás reputação, caráter, família e até Deus
para ir na onda. O ponto de partida deve ser o interesse-necessidade das
pessoas. Em outras palavras, devemos esquecer o que interessa à religião ou às
instituições e abordar os assuntos que sempre estiveram na ordem do dia: sexo,drogas e rock’n roll; ou dinheiro, sexo e poder; ou, se você preferir, Caras,
Playboy, Gazeta Mercantil, MTV, Big Brother, Show do Milhão e Fama.
3. A proposta da igreja não pode ser conceitual. Não estamos num tempo em
que basta a�rmar o quê (se é que um dia estivemos), mas somos desa�ados a
mostrar por que e como. Uma pastoral que defende a integridade �scal deve
meter a mão na lama da carga tributária; uma pastoral que se levanta contra o
sexo antes do casamento deve cair na noite com a juventude que só vai se casar
“depois que se formar na faculdade”; uma pastoral que defende que Deus
abomina o divórcio deve se embrenhar nos infernos familiares. Minha
di�culdade não está em responder o que a Bíblia ensina a respeito de
submissão às autoridades, sexualidade e família. Meu problema é oferecer
respostas para homens viciados em pornogra�a cibernética, mulheres
esmagadas pela tirania da estética, des�gurando-se por meio de dietas –
lipoaspirações e remédios, esposas que carregam maridos frouxos nas costas,
homens frustrados pro�ssionalmente e oprimidos por um salário indigno, e
jovens perdidos dentro de casa, sem referência vocacional, moral e espiritual.
Raras vezes participo de cultos em outras igrejas, e mais raramente ainda
ouço sermões. O pouco a que assisto (neste caso, “assisto” é mesmo o verbo a
ser usado) me diz que a maioria está construindo um império eclesiástico,
repetindo os clichês evangélicos e pregando mensagens �losó�ca e
psicologicamente abstratas. Também converso, e muito, e ouço bastante os
pastores por onde ando. E o que ouço é que “o grande desa�o deste ano é a
implantação da rede de ministérios”, “o material didático feito por nós mesmos
para as células trata da santi�cação” e “a classe de debates deu uma nova
dinâmica à escola dominical”.
23
Você também tem razão
“QUANDO PAULO ESTAVA LUTANDO CONTRA os defensores das coisas antigas,
sua clara visão do novo expressava-se de modo mais vivo. Quando ele percebia
que as coisas novas estavam sendo exageradas, ele defendia as antigas.” Estas
palavras de Krister Stendhal, professor emérito da Harvard Divinity School,
descrevem não apenas os movimentos cíclicos da Igreja de Cristo ao longo da
história, como também dos teólogos e historiadores, que se revezam como
protagonistas a cada nova fase desta Igreja.
Nada mais natural. A história caminha assim mesmo. Neste ponto,
concordo com os dialéticos que argumentam que os avanços de quaisquer
movimentos sociais, econômicos, culturais e �losó�cos ocorrem como fruto da
tensão entre tese e antítese, sendo que a verdade do momento se consolida na
síntese, que por sua vez vira tese, que se torna combatida por outra antítese, e
assim por diante. Como aprendi, às vezes o melhor posicionamento não está
em uma ou outra margem do rio, mas exatamente no meio da ponte entre elas.
Mas não existe ponte sem margens e sem abismo embaixo.
Um dos debates que mais me chamam a atenção nos dias de hoje é a
disputa entre igreja-empresa versus igreja-comunidade – ou o con�ito entre a
organização e o organismo na dinâmica do que chamamos “Igreja”. A�nal, vivo
esta tensão como pastor em uma igreja evangélica. Ao longo desses vinte anos,
conheci muitas igrejas estruturadas que têm declaração de visão e missão,
descrição de valores e crenças, identi�cação de público-alvo prioritário,
planejamento estratégico, sistemas e mecanismos de gestão, equipes
ministeriais que tentam obedecer a uma agenda e orçamentos anuais, fóruns de
decisões que seguem estatutos e regimentos, e reuniões que, para bem da
ordem, seguem regras parlamentares.
Nessas igrejas, vejo ênfase nos relacionamentos pessoais e no incentivo à
multiplicação dos vínculos afetivos e das amizades espirituais, na busca do
aprofundamento da intimidade com Deus e vulnerabilidade ao Espírito, na
valorização da exposição da Palavra de Deus e na experiência individual e
coletiva das práticas devocionais, incluindo as celebrações coletivas. Nos
bastidores dessas comunidades existem ministérios de libertação espiritual,
muitos grupos de oração com toda sorte de manifestações de dons espirituais,
profecias, visões, línguas e interpretação, além de um sem número de irmãos e
irmãs clamando para que Deus se derrame de maneira extraordinária e dizendo
que precisamos de mais quebrantamento, mais intercessão, mais ministração
do Espírito e no Espírito. En�m, gente de joelhos clamando por um
avivamento.
Nessas comunidades, observo a discussão apologética, a re�exão teológica e
a quali�cação acadêmica de líderes e ministros. Nelas atuam pedagogos
ocupados em avaliar a �loso�a de desenvolvimento e formação espiritual,
especialmente de nossas crianças, e terapeutas pro�ssionais, psicólogos e
psiquiatras, que sempre alertam para os exageros do carismatismo que pode
extrapolar em manipulação, notadamente das massas reunidas, e estabelecem
limites para a prática do aconselhamento cristão e da orientação pastoral.
São essas comunidades que mobilizam muitos de seus frequentadores em
projetos sociais espalhados pelas cidades deste Brasil, visando servir de maneira
solidária às pessoas em todas as dimensões de carências, além de contar com o
trabalho voluntário de muitos em suas múltiplas iniciativas de cuidado
também dos domésticos da fé. Essas igrejas também estão comprometidas com
missões transculturais, suportando �nanceiramente missionários em vários
países de todos os continentes, além daqueles que atuam no Brasil ou estão em
trânsito, aguardando momento oportuno de voltar ao campo missionário.
Não imagino como poderiam fazer isso se não tivessem um quê de igreja-
empresa. E não imagino como poderiam fazer isso se não fossem, de fato, uma
igreja-comunidade. Minha conclusão, após esses anos, é semelhante à postura
do rabino que foi procurado por dois frequentadores de sua sinagoga para
arbitrar uma demanda. Ouviu o primeiro e disse: “Você tem razão”. Ouviu o
segundo e disse: “Você tem razão”. Quando os dois foram embora,
contrariados, sua esposa, que ouvira a conversa, perguntou: “Perdoe-me a
indiscrição e intromissão, mas como podem estar certos os dois ao mesmo
tempo?”. Ao que o rabino respondeu: “Você tem razão”. É isso mesmo. Acho
que todo o mundo tem razão. E mais razão ainda tem o Stendhal: dependendo
do momento e do contexto, damos mais razão para um lado do que para o
outro.
24
Um sonho de igreja
FAZ TEMPO QUE VENHO SONHANDO com uma igreja além dos limites culto-
clero-domingo-templo. Uma igreja que leva o Evangelho todo para o homem
todo por meio de todas as atividades (além do culto), de todos os seus
frequentadores (além do clero), em todos os lugares (além do templo) e o
tempo todo (além do domingo). Isto implica necessariamente uma revolução
na eclesiologia – ou, mais precisamente, o que alguns teólogos e historiadores
têm chamado uma “segunda reforma”, já que a primeira, no século 16, foi
quase exclusivamente teológica.
Gosto da expressão “revolução dos leigos”, apesar de concordar com os que
não gostam da palavra “leigo” para identi�car quem não é clero, pois “leigo” é
aquele que faz parte do laos de Deus, isto é, o povo de Deus, e, neste caso, todo
mundo é leigo, incluindo o clero, a menos que exista alguém no clero que não
faça parte do povo de Deus – o que, aliás, é muito provável. Mas essa discussão
�ca para outra oportunidade. Mesmo assim, �co com a ideia de uma
“revolução dos leigos”, ou seja, a devolução do papel principal da Igreja aos
cristãos “comuns”, em detrimento desta malfadada ênfase nos pastores, bispos e
apóstolos. Tenho dedicado meu ministério pastoral à defesa desta bandeira:
uma Igreja que acontece todo dia, toda hora, em todo lugar, por meio de tudo
que todo mundo faz. Isso me levou a assumir três compromissos.
Em primeiro lugar, acreditei que a única maneira de ensinar que todo cristão é
sacerdote era eu me despir das vestes sacerdotais e seus respectivos privilégios.
Existem muitas maneiras de fazer isso, mas a mais importante é a partilha da
autoridade. Qualquer um que esteja comprometido na construção de umacomunidade deve enxergar-se como um entre iguais, respeitando dons, visões,
ministérios, competências e experiências daqueles a quem o Espírito Santo está
constituindo pastores ao seu lado em sua comunidade. Em outras palavras,
pastor que não sabe ser voto vencido na multidão de conselheiros espirituais
não tem o menor respeito ao Espírito Santo e não reconhece a diversidade de
vocações em sua comunidade.
O segundo compromisso que assumi foi com a rede de relacionamentos da
minha comunidade cristã. Acredito que a ministração do Espírito Santo por
meio da diversidade de dons, ministérios e operações é concedida a todos os
cristãos indistintamente. Nisto você também acredita. Espero. Mas também
acredito que essa ministração acontece prioritariamente na rede de
relacionamentos, em detrimento da rede de ministérios. A rede de ministérios é
outra forma de organizar, hierarquizar e burocratizar a ação dos cristãos na
comunidade. Estou convicto de que as coisas acontecem quando os cristãos
estão juntos. Não importa se são dois, três, trezentos ou três mil. A tarefa
prioritária dos guias espirituais que acreditam que todo cristão é um sacerdote
não é a gestão, mas a promoção da conexão.
O serviço cristão visa pessoas. O serviço cristão acontece, portanto, não
quando os cristãos estão mobilizados, organizados e atarefados, mas quando
estão juntos, atentos uns aos outros. Isso implica cobrança muito maior sobre
as pessoas do que sobre as estruturas. Em outras palavras, devemos substituir as
expressões “ministério de cuidado do rebanho” ou “ministério de assistência
social” por cristãos que se aconselham e suportam mutuamente e cristãos
solidários capazes de levantar do sofá e visitar o irmão desempregado.
Enquanto as pessoas acreditarem que a responsabilidade do serviço está nas
mãos do ministério disso e daquilo, a coisa continuará emperrada. Pessoas são
responsáveis por pessoas. Para que cumpram suas mútuas responsabilidades,
precisam estar perto umas das outras.
O terceiro compromisso que assumi visando construir uma comunidade onde
todo mundo é protagonista foi incentivar e abençoar vocações para fora da estrutura
eclesiástica. No jargão evangélico, quando alguém diz que é vocacionado,
signi�ca que o tal vai ser pastor ou missionário. A vocação, no entanto, é um
chamado de Deus para um serviço no Reino, e, neste caso, todo cristão é
vocacionado. A diferença entre os cristãos não é que alguns são vocacionados e
outros, não. A diferença está no ambiente, no contexto, no público, na tarefa
das vocações: onde, quem, quando, como, fazendo o quê. E com isso cada
cristão coopera com Deus para que sua vontade seja feita na Terra como no
céu. Por essa razão, acredito que trabalhar é cooperar com Deus para colocar
ordem no caos. O caos é o mundo sob o comando do príncipe deste século.
Outra forma de dizer que o mundo está em caos é a�rmar que o solo está
amaldiçoado. O mundo em caos é uma terra que produz espinhos e cardos,
onde o fruto do trabalho é possível apenas com esforço e fadiga.
Trabalhar é cooperar com Deus para colocar ordem no caos. Outra forma
de dizer isso é a�rmar que trabalhar é cooperar com Deus para que venha o
Reino, que é o equivalente ao jardim de onde o homem foi expulso. O jardim é
o mundo sob o comando de Deus. Toda vez que um ambiente, uma relação ou
uma atividade é submetida a Deus, o caos começa a entrar em ordem, isto é, o
jardim dá os seus sinais. Haverá um dia em que o caos será transformado em
jardim. Nesse dia, o Reino de Deus, que já foi inaugurado, estará consumado.
Enquanto ele não vem em plenitude, trabalhamos para que seja sinalizado ao
nosso redor. Enquanto o mundo todo não é transformado em um grande e
único jardim, construímos alguns jardins no mundo.
Continuo sonhando com essa Igreja, sinal histórico do Reino de Deus, além
dos limites culto-clero-domingo-templo. Uma Igreja que leva o Evangelho
todo para o homem todo por meio de todas as atividades de todos os seus
frequentadores, em todos os lugares e o tempo todo. Não sei quantos outros
compromissos deverei assumir com Deus para que esse sonho se realize. Espero
estar pronto quando chegarem. Esses poucos que assumi já têm dado trabalho
su�ciente. Mas durmo em paz, com a consciência tranquila de estar fazendo a
minha parte: aperfeiçoar os santos para que eles cumpram seu ministério, de
modo que todo o Corpo, ajustado e unido pelo auxílio de todas as juntas –,
cresça edi�cando a si mesmo em amor, à medida que cada parte realiza a sua
função sob a autoridade do Cabeça, que é Cristo Jesus, nosso Senhor.
25
Igreja: organismo e organização
A IGREJA É, AO MESMO TEMPO, organismo e organização. Até aí, nenhuma
novidade. Já não há tanta necessidade de que se discutam as distinções e
semelhanças entre essas dimensões ou que se perca tempo em tantos exemplos
para que o conceito �que claro. Bastaria dizer que a reunião em que se trata da
terceirização da limpeza e vigilância é administrativa, e, portanto, afeta a
organização institucional, e a reunião em que se trata a posição teológica a
respeito de divórcio é ministerial, e, assim, afeta a igreja enquanto organismo
espiritual. Mas o assunto não é tão simples assim. Pelo menos, consigo
enxergar três variáveis que carecem de melhor entendimento.
Em primeiro lugar, creio que seja urgente identi�car como as duas
dimensões se relacionam em termos de posturas pastorais – ou, se você preferir,
posturas dos pastores. Alistei algumas possibilidades. Há pastores que não
conseguem enxergar a distinção entre as duas dimensões e tratam-nas como se
fossem uma, e a mesma coisa. Estes são os que confundem princípios com
métodos, estruturas operacionais (organogramas) com dinâmicas funcionais
(Rm 12; 1Co 12; Ef 4), posição hierárquica com autoridade espiritual, vocação
com pro�ssão, ministério com emprego, chefe com pastor, e assim por diante,
numa salada sem pé nem cabeça – se bem que eu nunca comi salada que tivesse
pé ou cabeça.
Há também os que sabem a distinção entre as duas dimensões e creem que
o organismo espiritual tem primazia sobre a organização institucional, mas, na
prática, dão mais ênfase à organização do que ao organismo. Estes são os
irmãos que acreditam que o sucesso de uma igreja depende de sua estrutura
organizacional, seus sistemas e mecanismos de gestão e especialmente seus
métodos ministeriais. Tratam sempre de questões impessoais e genéricas:
ministérios, dons, ferramentas de planejamento, formulações estratégicas,
visão, missão, valores, e assim vai. Esses pastores acreditam que o organismo
espiritual será viabilizado pela correta administração da organização. Embora
suas igrejas sejam bem organizadas e, de forma geral, suas atividades e seus
processos funcionais apresentem ótima qualidade, seus rebanhos vivem
reclamando que sentem falta daquele algo mais da devoção e da comunhão,
coisas como mais calor humano e mais “espiritualidade”, como os crentes
gostam de dizer.
Além disso, a ênfase sobre a qualidade dos processos leva os pastores a
viverem mais rodeados de líderes estratégicos do que de crentes comuns, e não
são poucos os que vão sendo substituídos em suas funções por falta de
qualidade nos serviços prestados ou inadequação à visão, o que explica o
grande número de cristãos machucados e vacinados contra o que chamam
“igreja que mais parece uma empresa”.
Os que sabem a distinção entre as duas dimensões creem que o organismo
espiritual tem primazia sobre a organização institucional, e na prática fazem
valer esta convicção, mas de maneira a negligenciar a organização. Estes são os
pastores que acreditam que a oração e a dependência do Espírito Santo são
su�cientes e que a igreja prescinde de planejamento, orçamento, processos de
gestão e qualquer coisa que faça �car “parecida com uma empresa”, como
gostam de dizer.
Essas igrejas geralmente são calorosas e todo mundo se conhece, até porque
todo mundo soma mais ou menos cinquenta pessoas. Há espaço para
comunhão, participação de todos, acesso aos pastores e engajamento
ministerial de sobra. No entanto,são vítimas do rebanho rotativo, que
amadurece na fé, mas reclama da falta de estrutura e organização, dizendo que
as coisas funcionam na base da espontaneidade, o que é um eufemismo para
desorganização, e cedo ou tarde procura o pastor dizendo: “Nós o amamos
muito, mas nossos �lhos estão crescendo e decidimos buscar outra comunidade
com ministérios mais estruturados para atender as necessidades deles”.
Finalmente, há os pastores que sabem a distinção entre as duas dimensões,
creem que o organismo espiritual tem primazia sobre a organização
institucional e, na prática, �cam quase loucos. Primeiro, porque sabem que a
natureza da igreja implica necessidade de liderança mais tolerante, mais
inclusiva e menos exigente em termos de qualidade, até porque a igreja é de
todo mundo (ministros e voluntários, mais comprometidos e menos
comprometidos, mais preparados e menos preparados, pro�ssionais e amadores
– nos exatos sentidos), mas não se conformam com a má qualidade quando a
coisa é malfeita. Depois, porque sabem que as ênfases precisam ser devocionais,
relacionais e pastorais, mas �cam loucos da vida quando encontram o banheiro
sujo, precisam tolerar um técnico de som incompetente e mal preparado ou
�cam sabendo que a professora da classe das crianças teve um chilique e
decidiu não aparecer. Finalmente, porque estão conscientes de que a igreja, por
sua natureza de valorização de pessoas sobre estruturas, processos sobre
resultados e valores agregados sobre qualidade mensurável, sempre estará
aquém em termos do padrão de excelência que têm para si mesmos.
Abre parênteses. Sei que existem os que tratam a igreja apenas como
organização. São os que enxergaram um fenômeno sociológico embutido num
fato espiritual e conseguiram transformar o ajuntamento de fé em
oportunidade de negócio para enriquecimento pessoal por meio da exploração
do desespero e ambições alheias. Não os considero pastores. Fecha parênteses.
Outro aspecto desta relação organismo/organização, além das diferentes
posturas dos pastores, é a di�culdade em traçar uma linha exata de distinção
entre as duas dimensões da igreja. Em outras palavras, há ocasiões em que é
muito difícil saber quando “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”.
Claro, o fornecimento de água para os bebedouros é uma questão
administrativa, e o conteúdo teológico do material didático dos grupos
familiares é ministerial. Mas e a compra do terreno ao lado da sede da igreja?
Implica capacidade de negociação, avaliações jurídicas e viabilidade de projetos
em relação a zoneamento e regras da prefeitura, projeção de receita e
detalhamento da campanha �nanceira, de modo que os administradores se
apressariam em dizer: “Deixa com a gente, pastor, que dessas coisas nós
entendemos”.
Mas há outro lado da questão, como o kairós da igreja – o momento certo
de fazer as coisas, a visão ministerial em relação às possibilidades do terreno, a
postura pastoral de arrecadação e administração �nanceira e a famosa e
intransferível credibilidade diante do rebanho, que somente os pastores de fato
costumam ter, o que levaria os pastores a se apressar em dizer: “Deixem isso
conosco, e depois de nossa decisão ministerial encaminharemos as questões
administrativas a vocês”.
O fato é que existe uma zona cinzenta em que a organização e o organismo
se misturam e se confundem, completam-se e se con�itam, e é exatamente
nessa zona cinzenta que muitos pastores se perdem e muitas lideranças
eclesiásticas se dividem. Por essas e outras é que esse negócio de organismo e
organização já foi muito mais simples na minha cabeça. Naquele tempo,
pastorear era muito mais fácil. Eu tocava em frente uma organização e, quando
me era conveniente, batia na mesa usando minha prerrogativa de líder
espiritual. Agora é muito diferente. Está bem mais difícil. Mas estou com a
consciência em paz.
A terceira variável, além da postura dos pastores e das di�culdades de
separar as duas dimensões da igreja, é a questão dos modelos disponíveis no
que podemos chamar “mercado ministerial”. Minha opinião é que os modelos
que enfatizam o triângulo organização-metodologia-gerenciamento estão
muito mais popularizados e disponíveis do que os modelos que valorizam o
quadrado organismo-pastoral-devocional-relacional. Tem muito mais gente
disposta a ensinar a organizar a igreja do que a mentorear pastores. Tem mais
gente querendo fazer encontro para centenas de pastores e líderes do que
caminhar durante alguns anos com um pequeno grupo de discipulado mútuo.
O modelo de sucesso e êxito ministerial já nem é mais o da grande igreja,
mas do ministério independente que vira denominação. Foi-se o tempo em que
os pastores se gabavam de pastorear grandes igrejas. Agora a moda é ser
apóstolo de uma rede de igrejas. Isso faz parecer que a proposta hegemônica
seja a única proposta. Os modelos pastorais massi�cados nos congressos
abafam os outros modelos, e cada vez mais assistimos à formação de “pastores”
e “guias espirituais” na base de linha de produção, com discipulados rápidos e
treinamentos técnicos do tipo how to. A lei da lavoura é implacável: a gente só
colhe o que planta, exceto quando se trata de ervas daninhas. Temo pela
colheita da chamada Igreja Evangélica brasileira.
Recomendo, portanto, que, ao ouvir a a�rmação que a igreja é uma
organização e um organismo, seguida da expressão “isto é óbvio”, você coloque
uma vírgula e prossiga a conversa.
26
A cidade edificada sobre o monte
ESTE MUNDO VAI DE MAL A PIOR. Os que acreditam que ele vai melhorar
precisam ler a Bíblia outra vez. Ou refazer o curso de Teologia. Quem acredita
que “o dia de justiça, o dia de verdade, o dia em que haverá paz na Terra, em
que será vencida a morte pela vida, e a escravidão en�m acabará” refere-se às
possibilidades de estruturação social está iludido.
A teologia da missão integral da Igreja deu passos signi�cativos para que o
assistencialismo evoluísse para a solidariedade emancipadora. Na verdade, a
bandeira da responsabilidade social da Igreja, levantada pelo movimento
chamado “evangelical”, foi além do velho paradigma de “dar o peixe e ensinar a
pescar”. Profetizou a necessidade de transformar as estruturas sociais, isto é,
lutar pela igualdade de condições entre os pescadores: instrução a respeito de
pescaria, acesso aos apetrechos de pesca e às margens dos rios. A visão sistêmica
que compreende a interação entre o indivíduo e a sociedade não dá margem
para outra postura que não a implicação social da evangelização. Ponto para os
herdeiros de Lausanne, Congresso Mundial de Evangelização realizado em
1974, cujas conclusões teológicas sintetizam a teologia da missão integral.
Os discursos a respeito de igreja como agência de transformação histórica e
os apelos para que as cidades sejam conquistadas para Cristo foram, entretanto,
inseridos nas agendas dos políticos cristãos, distorcendo o próprio Propósito do
Senhor Jesus para sua Igreja e seu Reino. Boa parte da Igreja Evangélica
brasileira (cada dia gosto menos dessa expressão) padece de um crasso erro
hermenêutico: a transposição simples das promessas do Antigo Testamento
para o contexto social e histórico atual.
Quero dizer que a promessa de Deus ao povo de Israel – “Se o meu povo
que se chama pelo meu nome se humilhar, e orar, e buscar a minha face, e se
converter dos sus maus caminhos, então eu ouvirei do céu e sararei a sua terra”
(2Cr 7.14) – jamais pode ser aplicada ao Brasil e signi�car que a terra a ser
sarada a nação brasileira. Deus tinha um povo, e o seu povo tinha uma terra,
um projeto de Estado, uma ética social e ura agenda litúrgica em unidade
coerente. Isto é, o povo de Israel, habitando na terra da promessa, organizado
num Estado regido pela Lei em suas múltiplas dimensões e sujeito ao único e
verdadeiro Deus seria luz para todas as nações.
Hoje Deus ainda tem um povo: a Igreja (se você ainda acredita que o povo
de Deus é a nação de Israel, leia Gálatas novamente). Mas este povo, a Igreja,
não tem uma terra delimitada como espaço geográ�co do tipo “territórionacional”. Mais do que isso, quando a Igreja fala em “organização social”, não
está falando de um estado de direito, uma ordem social temporal, mas do
Reino eterno de Deus, e este não é um reino a ser instaurado na história, mas
sinalizado nela. A Igreja não vive sob a promessa de que a sociedade cristão
pode ser sarada. Vive sob o imperativo de se oferecer ao mundo como
humanidade e sociedade redimida, que se estrutura de maneira alternativa, e
por meio de suas relações internas anuncia profeticamente o Reino que virá.
Como aprendi com os evangelicais, a Igreja é responsável por manifestar, aqui e
agora, a maior densidade possível do Reino que será estabelecido ali e além.
Esta manifestação histórica do Reino de Deus, entretanto, não se dá pela
cristianização da sociedade – ou, como pretendem alguns: pela tomada do
poder temporal.
A Igreja – leia-se “comunidade cristã local” – é uma cidade: edi�cada sobre
o monte, uma luz na escuridão que, inserida na sociedade corrompida e
vivendo em meio a uma geração perversa que se opõe a Deus e é inimiga da
cruz, funciona como um sinal do Reino que virá. Não se iluda esperando que o
Brasil inteiro um dia �que iluminado. Ele, assim como todo o mundo,
continuara em trevas. Mas, em meio a essas trevas, viva em comunidade, uma
comunidade que “vive o que prega para que possa pregar o que vive”, de modo
que sua luz brilhe diante dos homens e eles glori�quem nosso Pai que está no
céu.
Parte 3
Outro céu
27
O cristão e o código de barras
O CÓDIGO DE BARRAS, QUE MUITOS cristãos consideram o sinal da besta, por
enquanto é apenas um extraordinário sistema de catalogação. Ao passar no
caixa do supermercado, por exemplo, a máquina leitora identi�ca o produto,
dá baixa no estoque, registra o preço e facilita a vida de todos, a começar
daqueles que estão na �la.
No entanto, como toda máquina, a leitora do código de barras, a tal pistola,
tem inteligência limitada a sua programação. Se alguém substituir o selo do
código de barras de uma caixa de cereais pelo selo de um produto mais barato,
como farinha, a máquina faz a leitura como se o produto fosse, de fato, um
saco de farinha. A máquina leitora não faz a comparação entre o selo do código
de barras e o produto. E, nesse caso, uma caixa de cereais sai do supermercado
disfarçada de saco de farinha.
Se entendo bem o Evangelho, a máquina leitora do código de barras que
existe no portão do céu é muito mais inteligente do que a que existe no caixa
do supermercado. A pistola do céu é capaz de compatibilizar o selo com o
produto e veri�car a coerência entre a identi�cação visível e o produto em si.
Samuel, o profeta, foi instruído quanto aos critérios de julgamento divino.
Aprendeu que Deus não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está
diante dos olhos, mas Deus vê o coração (1Sm 16.7). Em outras palavras, o
homem vê o código de barras, mas Deus enxerga o que tem dentro da caixa.
Por esta razão, Jesus disse que “nem todo o que me diz: Senhor, Senhor!
entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está
nos céus” (Mt 7.21). Coreogra�a, declarações verbais e placas sinalizadoras
podem impressionar as massas, mas não têm nenhum valor aos olhos de Deus.
O Evangelho implica transformação de dentro para fora. Tornar-se cristão não
é apenas uma questão de con�ssão de fé ou de passar a acreditar em algumas
coisas, mas de relacionamento dinâmico e consequente com Deus, por
intermédio de Jesus, sob a ação constante do Espírito Santo.
Sou cristão porque nasci de novo (Jo 3.5-8) e, em Cristo, sou nova criatura,
nova pessoa (2Co 5.17). Hoje experimento o processo por meio do qual o
Espírito Santo de Deus vai me transformando de glória em glória (2Co 3.18),
até que a imagem de Cristo seja formada em mim (Gl 4.19; Ef 4.12-13; Cl
1.28).
Que ninguém se iluda. A correria aos templos em busca de socorro
circunstancial não quer dizer absolutamente nada em termos de multiplicação
de cristãos. Nem mesmo os favores divinos eventualmente recebidos são
evidência de conversões genuínas. A�nal, Deus faz o sol nascer sobre maus e
bons, faz chover sobre justos e injustos (Mt 5.45), e entre dez leprosos curados
pelo favor de Deus, apenas um experimentou salvação plena em resposta a sua
fé (Lc 17.11-17).
A salvação em Cristo não implica apenas novo status de relacionamento
diante de Deus – do tipo �lho em vez de criatura, ou justi�cado em vez de
injusto. A salvação em Cristo implica necessariamente nova vida a partir deste
novo relacionamento. Cristo não veio para que tivéssemos uma verdade ou
novas bênçãos. Ele veio para que tivéssemos vida (Jo 3.16; 5.24; 10.10; 11.25;
20.30-31). Conhecimento da verdade e bênçãos são a moldura em que o
relacionamento com Deus acontece, mas esse relacionamento é na essência a
participação na vida de Deus fazendo-nos pessoas absolutamente distintas
daquelas que éramos antes da fé em Cristo.
Há, portanto, pelo menos dois evangelhos na praça. O primeiro convoca
pessoas para que supliquem o favor divino e vejam sua vida mudar de fora para
dentro, sendo que, na maioria das vezes, as coisas mudam apenas do lado de
fora – e quando mudam de fato. Este promete mundos e fundos para quem
não é bobo, está sofrendo ou deseja viver mais confortavelmente. O outro
evangelho é aquele que convoca ao arrependimento e à fé, que resultam em
transformação de dentro para fora. Este é o caminho estreito, apelo para que se
tome a cruz (Mt 7.13-14). O primeiro é caminho que ao homem parece
direito, mas ao �m se mostrará caminho de morte (Pv 14.12). O segundo é
caminho de cruz, que convive com a glória prometida a todos aqueles que
perderam sua vida por amor de Jesus (Mt 16.24-26).
28
Só Cristo salva
FUI CONVERTIDO AO EVANGELHO DE Jesus Cristo e discipulado na tradição
evangélica batista que observava a dinâmica de cultos doutrinários aos
domingos pela manhã e cultos evangelísticos aos domingos à noite. Durante
anos de minha vida, ouvi dominicalmente apelos baseados na verdadeira e
inquestionável declaração que “só Cristo salva”. De fato, vi igrejas crescendo e
se multiplicando a partir deste apelo e nem sequer posso imaginar quantas
vezes fui conselheiro de novos decididos ao �m da última estrofe de hinos
como Vem já, vem já, alma cansada, vem já e Cristo vai hoje passar. Vi, com
alegria e gratidão a Deus, pessoas respondendo ao apelo e “entregando sua vida
a Jesus”, “convidando Jesus para entrar em seu coração” e “recebendo Jesus
como seu Salvador pessoal”.
Esta última expressão, em especial – “receber Jesus como Salvador pessoal”
–, sintetiza o evangelicalismo ocidental norte-americano, de tradição histórica
tradicional muito bem representada pelo evangelismo pessoal baseado nas
“quatro leis espirituais”, que conduzira milhares de pessoas aos pés da cruz do
Calvário. Esta proposta de “salvação pessoal por meio de Jesus” foi assimilada
em nossa cultura religiosa com duplo signi�cado: forense e geográ�co. Isto é,
salvo em Cristo é aquele que tem seus pecados perdoados, sendo, portanto,
justi�cado por Deus mediante a fé, de modo a desfrutar do fato de nenhuma
condenação pesar sobre os que estão em Cristo (Ro 5.1; 8.1). A salvação em
sentido forense representa a absolvição do pecador diante do tribunal divino,
uma vez que Cristo cumpriu a pena com sua morte.
A salvação em sentido geográ�co é representada pela transposição do
pecador justi�cado de um lugar para outro: do mundo para a família de Deus,
das trevas para a luz, da morte para a vida, do império das trevas para o Reino
do amado �lho de Deus, do inferno para o céu – o que, em certo sentido, é
verdadeiro (Jo 5.24; Ef 2.11-22; Cl 1.13).
Essas duas compreensões trazem a conotação de que cristão é aquele que, ao
receber Jesus Cristo como seu Salvador pessoal, tem entrada garantida no céu,
pois tem nas mãos um documento que atesta que todos os seus pecados foram
perdoados –, algo como Deus na porta do céu, perguntando aos candidatos a
ingresso: “Você recebeu Jesus como Salvador pessoal? Ah, muito bem, meu
�lho, então pude entrar”.
Creio,entretanto, que a pergunta crucial (literalmente) “na porta do céu”
não será: “Você recebeu Jesus como Salvador pessoal?”; tampouco será: “Seus
pecados foram perdoados?”. A pergunta determinante que resume a experiência
espiritual cristã é: “Tendo recebido Jesus como Salvador pessoal e o perdão para
seus pecados, que tipo de gente você se tornou?”. Em outras palavras, a essência
da mensagem cristã não é que “só Cristo salva” ou “Cristo perdoa seus
pecados”. O perdão dos pecadores mediante á fé no sacrifício de Cristo na cruz
do Calvário não é o �m, mas o meio. O �m é a formação do homem à Imagem
de Jesus Cristo (Gl 4.19; Cl 1.28; 2Tm 3.16-17). Na verdade, somente o
homem formado à imagem de Cristo evidencia que um dia “recebeu Jesus
como Salvador pessoal e teve seus pecados perdoados”.
O segundo capítulo de Atos registra o primeiro sermão evangelístico da
história do cristianismo, cujo conteúdo pode ser resumido na contundente
declaração do apóstolo Pedro: “Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de
Israel de que a este Jesus, que vós cruci�caste, Deus o fez Senhor e Cristo”. Não
houve necessidade de apelo, pois a multidão compungida perguntou: “E agora,
que faremos?”. Pedro mais uma vez foi claríssimo: “Arrependei-vos e cada um
de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para a remissão dos vossos
pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo” (2.36-38). A essência desta
resposta não esta no batismo nem na remissão dos pecados, mas no
arrependimento para a possibilidade de participação na comunhão do Espírito
Santo.
Arrependimento não é lamento, é metanoia, transformação. A comunhão
no Espírito Santo implica necessariamente pessoas transformadas – aliás, pouco
a pouco transformadas, de glória em glória, pelo Espírito, tornando-se a
imagem de Jesus (2Co 3.18). Este é o �m da salvação. E, neste caso, a salvação
é um relacionamento com Deus, por meio do qual experimentamos a vida
abundante que há em Jesus mediante a dinâmica do Espírito Santo. Cristão é
aquele que se está tornando, a cada dia, como Cristo. Este, sim, está salvo.
29
O que é pecado?
A DEFINIÇÃO MAIS COMUM PARA pecado é “infringir normas divinas”. Millard
Erickson, em sua obra sobre Teologia Sistemática, de�ne pecado como
“qualquer falta de conformidade, ativa ou passiva, com a lei moral de Deus.
Isso pode ser uma questão de ato, de pensamento ou de disposição”. A ênfase
recai sobre “conformidade com a lei”. E isso pressupõe uma autoridade
legisladora.
Nesse caso, estamos em sérias di�culdades, pois esta de�nição de pecado já
não faz o menor sentido para a maioria dos nossos vizinhos e a totalidade dos
novos jovens e adolescentes. Quem pretende convencer alguém que pecado é
desobedecer às leis de Deus sai perdendo de goleada. Esse papo de normas, leis
e regras está descartado. Um a zero. A ideia de um Deus autoritário – aliás,
qualquer noção de autoridade também já era. Dois a zero. E mesmo que seja
verdadeira a a�rmação segundo a qual pecado é infringir leis divinas, as pessoas
perguntam: “E daí, que diferença isso faz?”. Três a zero.
Vivemos dias de absoluto descaso com qualquer autoridade externa ao
indivíduo. Houve tempo em que dizíamos: “Jesus Cristo é Deus”, e logo
alguém retrucava: “Prove”. Corríamos, então, atrás de argumentos do tipo
“cinco provas da existência de Deus”, um dos mais notáveis exemplos de
Teologia Natural, desenvolvido por Tomás de Aquino. Hoje, quando dizemos:
“Cristo é a verdade”, o que ouvimos é: “Quem é você para dizer o que é
verdade e o que não é?”. A�nal, nos tempos chamados “pós-modernos”, cada
cabeça tem sua sentença, e a única coisa que precisamos ter em comum é free: a
liberdade de decisão e escolha.
Isso nos coloca no contexto do relativismo ético. Nem mesmo práticas
como matar, mentir e roubar podem ser consideradas unânimes na de�nição
de pecado. Isto é, todo mundo concorda que é pecado matar, mas quase todo
mundo também concorda que matar o cara que estuprou aquela menininha
linda do quinto andar não é pecado. Todo mundo concorda que mentir é
pecado, mas quase todo mundo também concorda que mentir para preservar o
emprego não é pecado. Todo mundo concorda que roubar é pecado, mas quase
todo mundo também concorda que roubar do governo não é pecado. Em
outras palavras, para que algo seja identi�cado como pecado é preciso que seja
incluído na categoria do hediondo. Somente o que extrapola, o que agride até
mesmo a consciência mais degenerada pode ser considerado pecado. E mesmo
assim, há controvérsias.
Tal contexto social; somado ao fenômeno da evolução socio-cultural, faz
que constantemente nos conformemos à média da prática coletiva. Os hábitos
e conceitos vão mudando, sendo reciclados (graças a Deus) e, aos poucos, as
práticas outrora escandalosas vão sendo assimiladas e encaradas com
naturalidade. Luis Fernando Veríssimo desenhou uma tira da Família Brasil na
qual o avô pergunta à neta grávida se o bebê seria homem ou mulher, ao que
ela respondeu com naturalidade: “Não sei, vai escolher quando crescer”.
A�nal, o que é pecado? Como podemos de�nir pecado para esta sociedade
contemporânea? Poderíamos teologizar, seguindo a ordem mais correta que
evolui (ou decai) do pecado original – rebelião – para natureza humana
corrompida, isto é, a inclinação interior para o mal, que resulta nas práticas
pecaminosos. A Teologia bíblica concorda que existe a dimensão de pecado
restrita a atos e práticas: o que fazemos ou deixamos de fazer relativamente às
leis que expressam e revelam o caráter de Deus. Há uma lógica nos imperativos
morais bíblicos: fomos criados à imago Dei e, nesse caso, nossa plena
humanidade deve se desenvolver em conformidade com o Deus que
expressamos e de quem derivamos. Em outras palavras, se Deus é amor, não
podemos ser ódio, e por esse motivo não podemos matar, banir pessoas de
nossa existência. Não podemos mentir porque Deus é a verdade, e somente se
relaciona com o que é verdadeiro. Nosso vínculo com Deus, de modo a sermos
inteiros, completos, saudáveis e equilibrados, depende de funcionarmos em
conformidade com seu caráter e sua natureza. Neste caso, as regras e leis
divinas são muito mais uma espécie de manual do proprietário do que
imposições de uma divindade melindrosa. Quando a Bíblia fala de “fazer e
deixar de fazer”, está falando de “pecados”, no plural.
Mas a Bíblia apresenta o pecado também em outra dimensão. Pecado é um
estado de rebelião contra Deus, uma recusa de submissão, uma pretensão de
autonomia (ser lei para si mesmo) em relação a Deus. Neste caso, pecado é um
status diante de Deus. Pecado, então, é também uma posição que ocupamos em
relação a Deus, o que de�ne como nos relacionamos com ele. A Bíblia diz que
todos os que estão em rebelião contra Deus são �lhos da desobediência, sobre
quem se manifesta a ira divina. Agora já não estamos falando em “fazer e deixar
de fazer”, mas em uma atitude em relação a Deus – pecado, no singular.
Finalmente, pecado é um estado de ser. Aqueles que estão em rebelião, na
posição de �lhos da desobediência, estão “na carne”, alheios à vida de Deus,
vivendo os próprios recursos e impossibilitados de agradar a Deus, pois o ser
humano distante de Deus pode até ter o desejo de fazer o bem, mas é
escravizado pelo mal, pois está sob a ação dos espíritos que operam sobre os
�lhos da desobediência. Já não se trata de uma atitude em relação a Deus, nem
mesmo de “fazer ou deixar de fazer”. Agora, pecado é uma inclinação, uma
disposição interior, uma tendência para o mal. Nesse caso, o ser humano é tão
culpado por pecar quanto o tuberculoso é culpado de tossir. O problema já não
é a tosse, mas a tuberculose.
Precisamos traduzir isso para nossos vizinhos e teens. Jesus fez isso com uma
história: a parábola do �lho pródigo. Contou a respeito do menino rico que
pediu a herança em vida, se mandou da casa do pai (reivindicou sua
autonomia), torrou a grana como se não houvesse amanhã (desperdiçou a si
mesmo e seus recursos, fazendo coisas erradas e deixando de fazer coisas certas)
e acabou sozinho e pobre (decaiu de seustatus), restando-lhe apenas duas
alternativas: viver com os porcos (bestializado) ou voltar para a casa do pai
(arrependido, após cair em si e cair de si). Eis algumas ilustrações de pecado.
Pecado é uma opção pela autossu�ciência, que gera em nós uma ilusão de
potência e nos faz desperdiçar recursos como se fossem inesgotáveis, fazendo-
nos descer a ladeira até a desumanização. Pecado anestesia. Pecado ilude.
Pecado drena. Pecado bestializa.
O melhor caminho para debater pecado com essa sociedade é em termos
existenciais: que tipo de gente você pensa que é? Que tipo de gente você está se
tornando? Que tipo de gente você gostaria de ser? Que tipo de gente você sabe
que é? Quando chegamos nesse ponto da conversa, ela tem dois caminhos
possíveis: o autoengano – e, neste caso, não adianta conversar, pois quem não
quer ou não está pronto para ouvir não receberá conceitos nem histórias – ou a
autoconsciência, possível para qualquer pessoa honesta que tem espelho em
casa. Estas terão de admitir que, por mais que tentemos argumentar contra,
temos de dar a mão à palmatória e concordar que somos mesmo miseráveis,
pois o bem que queremos fazer não fazemos, mas o mal que não queremos, este
praticamos. Resta dizer: “Sei o que devo ser, mas sou o que não suporto”. Eis a
porta da graça.
30
A morte lhe cai bem
A MORTE LHE CAI BEM É O TÍTULO DE um �lme estrelado por Merril Streep. Não
assisti ao �lme, mas o título me despertou repulsa. No meu caso, a morte
de�nitivamente não me cai bem. Não quero morrer. Estou como Paulo,
apóstolo. Sei que morrer é estar com Cristo, mas quero deixar isso para outra
hora. Woody Allen me agrada mais: “Sei que um dia a morte vai chegar, mas
quando isto acontecer, não quero estar por perto”. Por um lado, é natural, pois
quem pensa em morrer na �or da idade está doente, no mínimo, da alma. Mas,
por outro lado, minha repulsa à ideia da morte e as angústias que ela me traz
indicam que ainda não �z o acordo necessário com ela.
A guerra explícita que envolveu o mundo a partir da ilha de Manhattan, em
Nova York, trouxe-me de volta os sentimentos funestos a respeito da estupidez
de matar e morrer. Poucas imagens me �zeram tão mal quanto as fotos das
pessoas que morreram no desabamento das Torres Gêmeas. E depois, talvez
guiado por um senso inconsciente de justiça, as cenas de peregrinações dos
miseráveis e vitimados árabes afegãos, saindo do nada em direção a lugar
nenhum, levando consigo apenas fome, dores, ódio e crianças.
Passei a me perguntar mais uma vez a respeito do sentido da vida. Ou
melhor, da vida com sentido. Claro, não me ocupo com respostas genéricas e
universais. Quero saber que tipo de peregrinação histórica pode ser chamada de
“vida” e justi�car, com signi�cado, o direito de existir.
Dizem que existe a morte domada e a morte selvagem. A morte selvagem é
aquela que arranca o sujeito da vida e o sujeito vai, contrariado e desesperado.
Já a morte domada não consegue levar ninguém na marra, à força. A morte
domada é aquela recebida com boas-vindas, com a superioridade de quem
pode dizer: “Eu sabia que você estava chegando, já me preparei e estou pronto
para partir. O que tinha de fazer, já �z. Posso me deixar levar para o meu
destino eterno, aos braços do meu Pai do céu”. Penso que assim morreu Jesus.
Ele disse: “Por isso é que meu Pai me ama, porque eu dou a minha vida para
retomá-la. Ninguém a tira de mim, mas eu a dou por minha espontânea
vontade” (Jo 10.17-18). Também por esta razão, e não apenas por sua
ressurreição, cremos que Jesus venceu a morte e destruiu o seu poder. A morte
não foi um monstro que arrancou a vida das mãos de Jesus. Antes, ele,
plenamente obediente, tendo cumprido cabalmente sua missão, suspirou e
disse ao Pai: “Nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23.46).
Penso que Jacó morreu assim: uma morte domada. Jacó conseguiu fazer o
que a psicologia chama “um acordo com a morte”. O texto sagrado diz que,
após se despedir dos �lhos, Jacó se deitou e expirou. Parece ter escolhido o
momento de morrer. Por isso, presto atenção nas últimas palavras e atos de
Jacó e encontro algumas respostas para minha pergunta: “Qual é a vida que
vale a pena ser vivida?”.
O capítulo 48 de Gênesis é a antessala da morte de Jacó. O 49 é a sala. No
capítulo 48, Jacó se despede de José, o �lho que teve com Raquel, a mulher
que amou. Além de José, teve também Benjamin, mas tudo indica que foi
exatamente no parto de Benjamin que Raquel morreu. Mais um motivo para
que José fosse chamado à sala particular de onde se sai da história e se penetra a
eternidade.
Jacó traz à luz seu encontro com Deus em Betel. Lugar de promessas, onde
Jacó começa a entender que ser alguém na vida não depende de usurpações na
força do braço e da sagacidade da mente que passa os outros para trás, mas da
bênção de Deus, segundo a qual o que se tem na mão se explica como dádiva, e
não como conquista. Aprendo que a vida que vale a pena ser vivida é aquela
que se deixa levar pelos propósitos de Deus e se satisfaz no que ele promete dar.
Jacó traz à luz o dia mais triste de sua vida: o dia da morte de Raquel, no
caminho de Efrata, Belém. Jacó, ao se despedir da vida, podia dizer “Eu amei
uma mulher. E fui amado”. Nada levamos da vida senão nossas relações de
amor, pois o amor jamais acaba. Não apenas o amor romântico, mas também,
e principalmente, o amor amizade, o amor ágape, extensão e expressão do amor
de Deus. Aprendo que a vida que vale a pena ser vivida é aquela compartilhada
em intimidade e amor com pessoas, muitas pessoas, sem número.
Jacó traz à luz sua história com o Deus a quem serviram seus pais Abraão e
Isaque. Jacó relembra como foi suprido e transformado por Deus. Encomenda
seus netos Efraim e Manassés a suas mãos. A�rma que o povo de Israel usará
seus nomes para abençoar uns aos outros: “Que Deus faça a você como fez
com Efraim e Manassés”. Aprendo que a vida que vale a pena ser vivida é
aquela que deixa de herança um relacionamento vivo com o Deus vivo – não
apenas “o Deus do meu pai e do meu avô”, mas meu Pastor e Redentor.
Não sei que tipo de morte vai me levar, mas quero tê-la domado antes de
partir. Espero que às portas do meu último dia eu tenha a oportunidade de
reunir minha esposa, meus �lhos e netos, as pessoas amadas ao meu redor, e
lhes dizer que valeu a pena viver. Quero testemunhar o que Deus fez por mim,
através de mim e apesar de mim. Quero poder dizer que amei e fui amado. E
quero me despedir deixando-os nas mãos de Deus para que dele recebam um
futuro de paz e esperança. Somente quando tiver esta certeza poderei dizer que
“a morte me cai bem”.
31
Pontos de chegada
METAS, OBJETIVOS E PROPÓSITOS SÃO palavras entrelaçadas que para a maioria
das pessoas querem dizer exatamente a mesma coisa: pontos de chegada. Os
manuais de planejamento e gestão se multiplicam, e com eles também cresce o
número de de�nições possíveis para os termos. Na verdade, o mais comum é
que cada autor use as palavras de acordo com sua conceituação particular: o
que um chama “meta” o outro chama “objetivo”, e o que o outro chama
“propósito” aquele um chama “meta”, e assim por diante até que ninguém se
entende numa reunião porque todos estão usando as mesmas palavras, mas
com sentidos diversos. Tudo porque cada um leu um manual e ninguém se
preocupou em uni�car a linguagem.
A coisa não poderia mesmo ser diferente. As de�nições do dicionário
Aurélio, por exemplo, ajudam, mas não esclarecem. Precisamos montar o
quebra-cabeça dos conceitos, e o melhor que temos a fazer é redigir nosso
próprio aurélio: cada um escreve o seu dicionário, e depois, no meio das
conversas, faz as adequações necessárias do tipo “ele está falando de objetivo,
mas para mim isso é meta, tudo bem, já entendi, vamos em frente”. Fiz o meu
aurélio particular e o convido a me acompanhar no raciocínio.
A meta está relacionada com pontos mensuráveis de uma caminhada, e diz
respeito a pontos de chegada ou paradas para avaliação. A meta é o lugar
de�nitivo ou intermediário onde eu quero chegar. A meta responde à pergunta“o quê?”. O objetivo, por sua vez, está relacionado com o que se pretende caso a
meta seja alcançada. O objetivo justi�ca a meta. O objetivo responde à
pergunta “para quê?”. O propósito, então, está relacionado com a �nalidade, e a
�nalidade é algo que resulta da natureza do próprio ser que age em direção a
suas metas e objetivos. O propósito é a programação interior que me coloca em
movimento em certa direção. O propósito está ligado aos valores, às crenças e
às convicções profundas, e à própria natureza do ser. O propósito responde à
pergunta “por quê?”.
Em síntese, o propósito é algo que vem de dentro, faz parte da minha
natureza e identidade, e naturalmente me leva a buscar algumas coisas em
detrimento de outras. Para alcançar essas coisas que naturalmente estou
buscando (objetivos), estabeleço alguns padrões de medida (metas), isto é,
maneiras de saber se estou chegando aonde quero chegar. Dando asas à
criatividade, podemos trilhar os caminhos de La Fontaine e imaginar que o
Vento perguntou ao Fogo por que estava derretendo a ponta do cordão, e ele
respondeu que estava preocupado em não deixar o cordão des�ar, mas no
fundo gostava mesmo era de queimar. Derreter a ponta do cordão era a meta.
Evitar que o cordão des�asse era o objetivo. Queimar era o propósito, pois o
fogo foi feito para queimar. Na moringa sobre a pia da cozinha estava a Água,
que ouvia a conversa entre o Vento e o Fogo. Naquele instante, pensou:
“Também tenho uma meta – ser bebida até o �m da tarde – e um objetivo –
matar a sede de alguém – porque para isso existo, este é o meu propósito: sou
Água, fui feita para molhar”.
Conheço pessoas que têm meta, mas não têm objetivo nem propósito.
Tratam as metas como um �m em si, conseguem alcançá-las, mas não sabem
explicar por que se sacri�caram tanto. Cruzam a linha de chegada com uma
sensação de vazio e não se conformam que o sucesso em atingir a meta não
tenha repercutido nenhuma mudança em sua vida ou um mínimo de
realização. Essas pessoas geralmente vivem de acumulação. Acumulam bens,
mas nunca desfrutam de suas posses. Acumulam romances, mas nunca se
satisfazem afetivamente. São pessoas movidas pela conquista, e a conquista para
elas é um �m em si. Jamais estão satisfeitas. É o que Schopenhauer resume ao
a�rmar que “a vida oscila, pois, como um pêndulo, da direita para a esquerda,
do sofrimento ao tédio”. Sofrimento porque há desejo sem posse; e tédio
porque há posse sem desejo. Quem tem meta sem objetivo ou propósito não é
capaz de se satisfazer com suas conquistas porque as conquistas não podem ser
encaradas como o �m.
Conheço também pessoas que têm objetivos e propósitos, mas não têm
metas. Não conseguem sair do lugar, pois faltam os passos práticos na direção
de seus objetivos. Essas pessoas geralmente convivem com imensas frustrações
em razão de desejos não satisfeitos, mas, na verdade, não sabem o que poderia
trazer tal satisfação. Desejam conforto para a família, viver um grande amor,
ganhar dinheiro, obter reconhecimento entre os pares, mas não conseguem
identi�car ao certo as experiências que resultariam na realização de tais
objetivos. São pessoas que pensam de maneira abstrata e enxergam di�culdade
em tudo. Diferente daqueles que vivem de acumulação, gente assim vive de
ilusão. Tem sonhos sem trem de pouso.
Há também os que têm metas e objetivos, mas não têm propósito. Esses são
os mais infelizes. Stephen Covey fala daqueles que subiram a escada do sucesso
e descobriram que ela estava escorada na parede errada. Acredito, entretanto,
que as pessoas que têm metas e objetivos, mas não têm propósitos, não
escoraram a escada em parede alguma. Sua peregrinação rumo aos objetivos
através das metas não encontra sustentação. Chegam lá, mas é como se não
tivessem chegado. Conseguiram alcançar a meta de comprar a casa para realizar
o objetivo de dar mais conforto para a família, mas se esqueceram de perguntar
se era mesmo o conforto o que traria a todos o senso de plenitude. Essas
pessoas não vivem nem de acumulação nem de ilusão. Vivem de frustração.
Cruzam a linha de chegada e caem no vazio, percebendo que a conquista da
meta e a realização do objetivo não supriram as fomes essenciais e os reais
anseios do coração.
Isso explica por que o mundo está cheio de gente infeliz sem saber o motivo
– ou pior, gente infeliz que acredita ter tudo para ser feliz. Alcançaram suas
metas, mas isto não bastou. Concretizaram seus objetivos, mas isto não as
satisfez. Realizaram seus desejos, mas isto de nada adiantou. A razão é simples:
a felicidade não é um lugar aonde se chega, mas um jeito como se vai.
A felicidade depende muito mais de como se vive do que das conquistas de
metas e objetivos. Preste atenção no propósito de sua vida e nos propósitos
derivados do grande propósito. Não se deixe enganar pelo glamour dos apelos
de metas e seus objetivos. Você corre o risco de chegar ao �m do ano com
todas as suas metas e todos os seus objetivos alcançados, mas também com um
profundo senso de vazio. Ouça a recomendação de C. S. Lewis, que nos ensina
que toda tentativa de viver em desalinho com Deus é frustrada na origem:
 
A felicidade que Deus destinou às suas criaturas superiores é a felicidade de estarem
livre e voluntariamente unidas a ele e umas às outras, num êxtase de amor e alegria
(...) Deus nos criou do mesmo modo como um homem inventa um motor. Ora, um
automóvel feito para andar com gasolina não andará bem com nenhum outro
combustível; e Deus projetou a máquina humana para andar à base dele mesmo. Ele
é o combustível que o nosso espírito foi projetado para queimar, o alimento que
fomos feitos para consumir: não há nenhum outro. É por isso que não adianta pedir
a Deus que nos deixe ser felizes à nossa maneira, sem termos de nos preocupar com
“religião”. Deus não pode nos dar uma felicidade e uma paz independentes dele
simplesmente porque não existem. Não há sucedâneos para ele.
32
Dr. Jekyll e Mr. Hyde
É FÁCIL RECONHECER O PSICOPATA. Ele não é nervoso ou inseguro. Parece
muito sadio e simpático. Em geral, tem encanto e inteligência, forjada na razão
pura do interesse sem afetividade ou culpa para atrapalhar. Tem uma espantosa
capacidade de manipulação dos outros pela mentira, pela sedução e, se precisar,
pela chantagem. Não se emociona nem tem compaixão alguma pelo outro.
O que mais impressionou nas fotos da prisão de Abu Grabi, no Iraque, foi o
sorriso luminoso das mulheres que torturavam os presos. Questionado ou
�agrado, o psicopata não se responsabiliza por suas ações, sempre se acha
inocente ou vítima do mundo, do qual precisa se vingar. Em geral, ele não
delira. Suas ações mais absurdas e cruéis são justi�cadas como lógicas, naturais,
já que o outro não existe para ele. Não sente remorso nem vergonha do que faz
(o que nos dá imensa inveja). Ele mente compulsivamente, muitas vezes
acreditando na própria mentira para conseguir poder. Seu fraco amor aparece
como posse ou controle. Não tem capacidade de olhar para dentro de si
mesmo. Não tem insights, nem aprende com a experiência, simplesmente
porque acha que não tem nada a aprender.
Esse comportamento está deixando de ser uma exceção. O psicopata é um
prenúncio do futuro, quando todos seremos assim para sobreviver. A velha luta
pela ética, pela paz e pela solidariedade está virando batalha vã. Esses
sentimentos humanos também só foram possíveis historicamente. Raros foram
os momentos em que vicejaram. Os chamados comportamentos “humanos”
estão se esvaindo na distância. O que é o “humano” hoje? Está virando apenas
um lugar-comum para uma bondadezinha submissa, politicamente correta,
uma tarefa inócua para ONGs.
Antes, os psicopatas tocavam num mistério que não queríamos conhecer.
Tínhamos medo deles. Hoje, os zé-manés estão �cando com uma inveja danada
dos psicopatas por sua e�ciência, rapidez e falta de escrúpulos. Estão vendo que
essa antiga doença vai ser uma virtude no futuro. Estão vendo que precisarão
�car loucos como eles para sobreviver. Em breve, seremos todos psicopatas.
Fiquei em estado de choquequando li um texto de Arnaldo Jabor publicado
sob o título Os psicopatas chiques estão chegando. Minha perplexidade foi em
razão de me dar conta de que a sociedade me encoraja a educar meus �lhos
para serem psicopatas, pois as características descritas pelo Jabor seriam elogios
num currículo de qualquer executivo de multinacional e uma declaração de
aptidão para sobrevivência no mercado de trabalho. O psicopata, em síntese, é
um sujeito que, apesar de todas as suas virtudes, é capaz das maiores
atrocidades sem o menor constrangimento de consciência. Em outras palavras,
é uma espécie de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, médico e monstro, que dorme muito
bem à noite, obrigado.
Recente pesquisa realizada pela Med-Rio, uma das maiores clínicas
especializadas em check-up do Brasil, examinou 2,5 mil executivos de todo o
país com idade entre 35 e 70 anos. Cerca de 70% convivem com índices
elevados de estresse, 80% têm alimentação desequilibrada, 65% são sedentários
e 60% estão acima do peso. Pior do que isso: 40% fumam e 50% consomem
bebidas alcoólicas regularmente. De acordo com a revista Exame, que divulgou
a pesquisa, é gente que vive no limite entre a saúde e a doença a qualquer
momento. Úlceras, desmaios, enfartes e derrames não são experiências
incomuns para essa gente que precisa fazer das tripas coração para prosperar na
carreira ou simplesmente conquistar um lugar ao sol nesse competitivo
mercado de trabalho.
Dentre os desa�os propostos por Jesus, o de ganhar o mundo sem perder a
alma é um dos mais atuais. A realidade exige luta sem tréguas. Pouquíssimas
pessoas podem se dar ao luxo de diminuir sua carga de trabalho, dedicar-se ao
que gosta e escolher onde trabalhar. A maioria de nós precisa conviver com
agendas sobrecarregadas, acúmulo de atividades, altíssimas exigências em
termos de resultados e níveis elevados de cobrança em ambientes de trabalho
que nem sempre são satisfatórios – e, na verdade, dando graças a Deus pela
oportunidade de ter um emprego e poder ganhar o pão de cada dia com o
digno suor do rosto. Quase não temos escolha. Exceto em opções radicais,
como pedir demissão, mudar o ramo de atividade, redirecionar a carreira ou se
mudar para o interior, a perspectiva de mudanças na rotina pro�ssional é
muito remota. Até porque as mudanças radicais resolvem por algum tempo,
mas logo os vícios da ansiedade se manifestam novamente e o sujeito acaba
tendo um enfarte debaixo da mangueira de sua casa naquela cidadezinha
pacata.
Em resposta a este desa�o, evoco duas palavras de Jesus. A primeira é
narrada por Mateus como beatitudes ou bem-aventuranças, nas quais o modelo
de ser gente está absolutamente distante do psicopata chique denunciado e
desmascarado pelo Jabor. Os mais que felizes do Evangelho são mansos e
humildes, misericordiosos, paci�cadores e puros de coração. Estão do lado de
quem é perseguido, não dos perseguidores. São parceiros dos injustiçados, não
dos opressores. Sofrem o dano, mas não usurpam. Choram, mas não agridem.
Admitem sua fragilidade e clamam pela intervenção do justo juiz. É esse tipo
de gente que faz o mundo ainda habitável, contém a barbárie e promove a
esperança: sal da Terra e luz do mundo.
A segunda palavra de Jesus é a recomendação para que se busque o Reino de
Deus em primeiro lugar, seguida da promessa de que todas as coisas necessárias
à vida seriam oferecidas graciosamente pelo Pai celestial. O consenso popular
interpreta esta recomendação como um estímulo à maior dedicação à vida
religiosa, chamada sagrada, em detrimento da vida no mercado e no “mundo”,
chamada secular. Mas Henri Nouwen oferece outra visão, bem mais coerente,
equilibrada e exequível.
 
Jesus não responde à nossa maneira de viver, cheia de preocupações, dizendo que
não devemos nos ocupar tanto com os negócios do mundo. Ele não tenta nos afastar
dos múltiplos acontecimentos; das atividades e pessoas que constituem a nossa vida.
Ele pede que nos desviemos do nosso centro de gravidade, que recentremos a nossa
atenção, que modi�quemos as nossas prioridades. Ele não fala em mudança de
atividades, em mudança de contatos, nem sequer mudança de ritmo. Ele fala em
mudança de coração. Jesus pede que coloquemos nosso coração no centro, onde
todas as coisas se encaixam no lugar certo. Que centro é esse? Jesus o denomina
“Reino de Deus”. Voltar nossos corações para o Reino de Deus signi�ca fazer da
vida do Espírito, dentro e entre nós, o centro de tudo que pensamos, dizemos ou
fazemos.1
 
Você pode ser um psicopata – chique; mas, ainda assim, psicopata. E pode
ser um bem-aventurado. Isto é, pode domar o Mr. Hyde que habita as
entranhas de todo ser humano e deixar �uir o Dr. Jekyll, expressão da imago
Dei em todo ser, e sopro do Espírito em quem nasceu de novo.
33
Paradigmas de sucesso
SALOMÃO OCUPARIA FACILMENTE AS PÁGINAS das revistas de fofocas semanais, e
certamente no topo da lista dos “dez mais”: os dez mais bem-vestidos, os dez
maiores empreendedores, os dez mais sedutores, e por aí vai. Imagino que seria
capa de revistas para homens de negócios, e sua foto seria muito popular nas
revistas que fazem a moldura dos salões de cabeleireiros e consultórios
dentários. Apareceria cada semana ao lado de uma beldade sorridente, seria case
de empresário de sucesso, estadista com maior índice de popularidade e, muito
provavelmente, ganharia Nobel em alguma coisa, talvez em literatura. Salomão,
�lho de Davi, rei em Jerusalém, seria o paradigma de sucesso. Também
contribuiria para a audiência dos programas do tipo gente-famosa-no-sofá.
O que a Bíblia conta a respeito de Salomão deixa os mais narcisos dos
nossos se mordendo de raiva. Diz que teve setecentas mulheres e trezentas
amantes. Foi o mais sábio do seu tempo. O mais rico. Seu povo comia, bebia e
era feliz. Seu reino, inabalável. Bom de romance, de negócios e de cabeça. Era
um ícone da tríade mais celebrada de todos os tempos: poder, dinheiro e sexo,
um digno representante do tripé do paraíso neoliberal: controle, conforto e
prazer. Uau! Coisa para poucos mortais. O homem ideal, ponto de chegada de
todo mundo que embalou na rat race do mundo ocidental, a corrida dos ratos
pela trilha da fama e da prosperidade.
Salomão mereceria enfoque. Mas Deus o tirou de cena. Rasgou sua foto da
revista que os anjos leem e que motiva a celebração da grande nuvem de
testemunhas que anima o céu. O al�nete celestial fez murchar o balão mais
in�ado das páginas das Escrituras Sagradas. O gigante tombou. E a queda foi
grande. Não foi pior porque Deus o poupou por amor ao seu pai, Davi – este,
sim, rei com todas as letras, com erre dourado, prelúdio do Rei dos reis.
Salomão foi o terceiro dos reis que ocuparam o trono de Israel enquanto um
reino unido. Cento e vinte anos, quarenta para cada rei: Saul, Davi, seu pai, e
ele, Salomão. Se Saul representa o homem cujo coração jamais esteve nas mãos
de Deus, e Davi, o homem segundo o coração de Deus, Salomão representa a
maioria absoluta de nós – pessoas com o coração dividido.
Sua biogra�a é paradoxal. Começa maravilhosamente bem. Consegue �car
em pé diante de uma das mais estonteantes declarações de Deus a um homem:
“Peça-me o que quiser, e eu lhe darei”. Pede sabedoria, capacidade para
discernir entre o bem e o mal, senso de justiça para governar. Deus atende seu
pedido e lhe faz promessas de fama, prosperidade e grandeza jamais vistas sobre
os ombros de um mortal. Salomão abraçou tudo quanto Deus lhe prometeu.
Desfrutou de cada uma das benesses do divino.
O paradoxo de sua história está revelado em Deuteronômio 17, em que
Deus adverte que um rei de Israel jamais deveria acumular cavalos, isto é,
exércitos, e também mulheres e tesouros. Mas aí é que está a confusão. O
mesmo Deus que proíbe, promete. O mesmo Deus que com mãos cautelosas
traça um risco de segurança no chão, apaga a marca com mãos dadivosas. O
mesmo Deus que empacota o paradigma de sucesso e sela com estampa de
“proibido”, abre a caixa e coloca tudo em cima da mesa do cidadão, à vista e ao
alcance das mãos. “A�nal de contas, meu Senhor e meu Deus”,questionaria
Salomão, “o poder, as mulheres e os tesouros são proibidos ou legítimos? São
coisas que jamais poderei ter nas mãos ou presentes que graciosamente me
dás?”
Perdoem a petulância, mas acho que aí está o paradoxo. O dilema que o
sábio não discerniu. Poder, dinheiro e sexo são, ao mesmo tempo, realidades
das quais se deve fugir e benesses que se deve desfrutar. Controle conforto e
prazer são, na mesma proporção, os maiores perigos que assolam a alma como
as experiências que melhor de�nem o Paraíso. Tentação e bênção. Ao mesmo
tempo. No mesmo instante. Depende de como nos relacionamos com elas.
Depende do coração que com elas convive e delas desfruta.
Deus não cercearia o acesso àquilo que ele mesmo promete. Não
consideraria ilegítimo aquilo que ele mesmo concede. Não trataria como
transgressão a posse do que ele mesmo oferece. A discussão não é a respeito de
ter ou não ter. A discussão é a respeito de que lugar estas coisas ocupam no
coração de quem as tem. O problema não é tanto o dinheiro, mas muito mais
o amor ao dinheiro. O problema não é tanto a riqueza, mas depositar nela a
esperança. A questão não é quanto se tem para comer, beber e vestir, mas a
preocupação, a ansiedade e a obsessão a respeito disso, em detrimento da
justiça do Reino de Deus. Em síntese, não é o que você tem, mas se o que você
tem também tem você. Ou, como diz o poeta, quem é mesmo o dono de
quem.
Tem gente que tem, mas não é possuída pelo que tem. Tem gente que não
tem, mas é possuída pelo que não tem. Gente que tem e é possuída pelo que
tem. Gente que não tem e não é possuída pelo que não tem – não faz questão
de ter. Gente que já teve e perdeu, e gente que nunca teve e que, geralmente,
acha que será alguém quando tiver de novo ou pela primeira vez. Gente que
vive obcecada por ter. Gente de todo tipo. Resumindo, dois tipos de gente:
gente que precisa ter e gente que já descobriu que o segredo não está na posse,
mas no coração. Gente obcecada e gente desencanada. Quem é obcecado pode
ter tudo, mas sempre sentirá falta, pois “tudo não será o bastante”. Gente
desencanada pode não ter nada, mas vive como se o nada fosse su�ciente.
Quem não está satisfeito com pouco não �cará satisfeito com muito, pois “mais
da mesma coisa nos deixa no mesmo lugar”, como ensinou Hans Bürki. E para
quem está satisfeito com pouco, o muito é irrelevante; pode vir e pode não vir,
tanto faz. Quem encontrou a liberdade é capaz de mandar e obedecer, ter e não
ter, rir e chorar com a mesma grandeza de alma, com o mesmo coração
simples, com a mesma atitude pura.
Não sou bobo nem nada. Concordo com o judeu que disse: “Fui rico, agora
sou pobre. Ser rico é melhor”. Fico com sir Winston Churchill quando
a�rmou: “Não sou um homem exigente, me contento com o melhor”. Faço
coro com João, apóstolo, que nos deseja a prosperidade em tudo,
principalmente na alma. Mas sei que o segredo mesmo está em alcançar a
sabedoria que Salomão mesmo descobriu: “Maior é aquele que conquista a si
mesmo do que aquele que conquista uma cidade”. Ou, como Jesus ensinou,
ganhar o mundo sem perder a alma, ou jamais ter qualquer coisa que exija a
alma em troca. Doar sempre. Ter para ter para dar. Aprender a viver contente,
pleno, satisfeito em qualquer situação! Acho que ainda não aprendi. Mas ainda
chego lá.
Parte 4
Outra fé
34
Vivendo com propósitos
O QUE FAZ DIFERENÇA ENTRE A VIDA cristã altamente motivada e a vida cristã
que obedece a uma rotina sem nenhum entusiasmo? O apóstolo Paulo, em sua
despedida aos cristãos de Éfeso (At 20.17-38), faz algumas declarações que
deixam transparecer segredos para uma vida cristã fascinante, cheia de
aventuras com Deus.
Em primeiro lugar, parece que Paulo conseguia fechar os olhos e ver o �lme
do Reino de Deus se desenrolar na história. Suas palavras “o Espírito Santo me
diz, de cidade em cidade” indicam que, à semelhança de Jesus, estava em
sintonia com o mover de Deus (Jo 5.19), e conseguia ver o que o Espírito
Santo estava fazendo e desejando fazer em seus dias ao redor do mundo. Ele
enxergava o futuro, e percebia toda a trama espiritual envolvida na construção
desse futuro. Paulo fechava os olhos e via lugares, pessoas, situações; sentia
cheiros; ouvia a trilha sonora que fazia fundo para a ação ininterrupta de Deus
na história humana. Ele se emocionava e chorava. Ficava irritado e irado.
Louvava a Deus pelas visões maravilhosas. Caía de joelhos em ardente
intercessão. Tudo isso motivado pela visão do �lme do Reino que lhe passava
na mente cada vez que ele se recolhia em meditação na quietude com Deus.
Em segundo lugar, está claro que o apóstolo Paulo se via nesse �lme. Ele
conseguia enxergar sua contribuição especí�ca no processo histórico do Reino
de Deus. Ele participava de muitas cenas desse �lme que lhe passava pela
mente e pelo coração. Quando rea�rma seu dever de “completar a minha
carreira”, o apóstolo Paulo expressa claramente a convicção de que, no �lme do
Reino de Deus, ele não era espectador, mas ator. Ele não estava na plateia, mas
em cena. Além disso, declara que sabia exatamente qual era o papel que lhe
cabia e quais eram as expectativas do Grande Roteirista para ele, Paulo. O fato
é que o apóstolo não encarava a vida como sucessão aleatória de circunstâncias.
Ele via as circunstâncias como sets de �lmagens para que ele pudesse cumprir
seu papel nessa superprodução de Deus. Consciente de seu papel, Paulo
aproveitava todas as situações de seu cotidiano como oportunidades do Reino.
Em terceiro e último lugar, o apóstolo Paulo declara solenemente a
convicção de que esse seu papel representava uma vocação divina: “A carreira
que recebi do Senhor Jesus”. Paulo sabia que seu papel fora desenhado,
concebido pelo Senhor do Reino especialmente para ele – algo como se o
Senhor Jesus tivesse preparado o apóstolo para aquele papel especí�co, naquele
momento especí�co da história. Paulo estava convicto de que aquilo que o
Senhor Jesus esperava dele era algo que poderia fazer porque fora talhado para
aquela cena. O papel tinha a cara dele.
Essa certeza – de que temos uma contribuição a dar no Reino de Deus, uma
contribuição que somente nós, naquela situação, podemos dar – torna a vida
cristã uma aventura fascinante. Essa visão do todo e este senso de localização
histórica, ainda mais numa trama com signi�cado eterno, traz saúde e nos
torna mais bem-sucedidos na vida. Todos os estudiosos do comportamento
humano acreditam que um dos fatores mais importantes para o equilíbrio
humano é a visão do futuro aplicada à situação especí�ca de si mesmo.
Jesus tinha razão: a vida deve ser vivida na perspectiva do Reino de Deus:
“buscai primeiro”, e a partir desse compromisso experimentar “todas as outras
coisas”. Quem busca primeiro “todas as outras coisas” cava a própria sepultura
existencial, pois “aquele que quiser salvar a sua vida vai perdê-la, mas quem
perder a sua vida por minha causa, disse Jesus, vai achá-la” (Mt 16.25; BLH).
35
Sal da Terra e luz do mundo
SOU DO TEMPO EM QUE SERVIR A DEUS era incompatível com a carreira de
médico, pedreiro, arquiteto, piloto de avião, professor, mecânico, gerente de
banco, dona de casa e outras tantas ocupações legítimas. Sou do tempo em que
servir a Deus era coisa para missionário e pastor. Na minha época, aquele que
desejava dedicar a vida ao ministério era automaticamente candidato a alguma
vaga de seminário teológico. Somente aqueles “chamados por Deus para o
ministério da palavra” eram considerados vocacionados. Em outras palavras,
estava subentendido que Deus chamava apenas aqueles que se tornariam
pastores e missionários. Os demais escolhiam o que queriam ser na vida. E
deveriam, no exercício de sua pro�ssão, honrar a Deus dando bom testemunho
por meio de sua conduta moral e, se possível, evangelizando algum amigo de
trabalho. A obra de Deus era realizada pelos pastores e missionários. Os outros
tinham de dar duro para “ganhar a vida”, e não lhes sobrava tempo e disposição
para servir na igreja.
Com isso, criou-se o paradigma de que ministério é alguma coisaque
fazemos por meio de cargos eletivos, diretorias e comissões dentro da estrutura
eclesiástica, mais precisamente na sede da igreja e suas extensões, nas diversas
instâncias de trabalho voluntário que chamamos “ministérios”. Em resumo,
confunde-se servir a Deus com trabalhar na igreja, e desenvolver um ministério
com atuar a partir da estrutura eclesiástica. Em minha atividade como pastor
de uma igreja local, convivo com centenas de cristãos que se sentem culpados
por dedicar pouco tempo aos ministérios da igreja e que se sentem omissos
socialmente porque não conseguem dedicar um tempinho (que já seria ótimo)
na creche, “aquele trabalho lindo que Deus está fazendo com os pobres aqui do
bairro”.
Paul Stevens, em seu livro A hora e a vez dos leigos, contribui
signi�cativamente para a renovação desses paradigmas a respeito do conceito de
ministério. Ele diz que há dois tipos de ministério: tipo A e tipo B. Os cristãos
do tipo A vivem para Cristo e cooperam na expansão do Reino por meio do
exercício de sua pro�ssão chamada “secular”. Os cristãos do tipo B vivem para
Cristo e cooperam para a expansão do Reino pelas atribuições dentro e a partir
de suas igrejas locais. Os cristãos do tipo A estão na diáspora (dispersão); os do
tipo B, na ekklesia (reunião).
Celso; um pagão do século 2, reconhecia que eram “os que trabalham com
lã, os sapateiros; os lavadeiros e os camponeses mais iletrados e rústicos” que
levavam o Evangelho adiante – mais do que os bispos, os apologistas e os
teólogos. Isto confere com Atos 8.1-4. De fato, comenta Stevens: todos os
cristãos são chamados por Deus. O ‘chamado secreto’ do pregador não o torna
mais chamado que o carpinteiro; e o físico nuclear, que vive por Cristo na
sociedade, não é menos chamado que o ministro pro�ssional.
Creio que o grande paradigma que precisa ser quebrado está na categoria do
entendimento a respeito do que signi�ca de fato servir a Deus. A maioria das
pessoas associa “servir a Deus” com atividades relacionadas às questões
religiosas. Em outras palavras, servir a Deus depende de “o que” você faz. O
conceito bíblico, entretanto, diz que servir a Deus está muito mais relacionado
com o “como” você faz. Por essa razão, creio que, ao falar da cidade edi�cada
sobre o monte e dos cristãos espalhados como sal da Terra e luz do mundo,
Jesus não se referia aos apóstolos, evangelistas, profetas, pastores e mestres, mas
aos pobres de espírito, os que choram, os mansos, os misericordiosos, os
famintos e sedentos de justiça, limpos de coração e paci�cadores (Mt 5.1-16):
Servir a Deus no mundo e estar inserido socialmente não é tanto “o que” você
faz, mas “como” faz.
O importante não é o fato de ser ministro pro�ssional ou engenheiro de
multinacional; trabalhar em tempo integral na creche de sua igreja ou atrás de
um telefone de telemarketing; dedicar-se exclusivamente a uma organização
paraeclesiástica ou fazer a contabilidade de sua empresa. O que importa não é
se você está pregando na sinagoga ou fabricando tenda; profetizando para o Rei
ou construindo um barco. O que importa mesmo é fazer tudo isso de um jeito
que os homens vejam as suas boas obras e glori�quem o seu Pai que está nos
céus.
36
Felicidade não é um lugar aonde se
chega
JÁ FAZ TEMPO QUE NÃO ME INTERESSO em responder aos que me perguntam se
acredito em vida depois da morte. Acredito, sim. Mas estou muito mais
preocupado em defender que acredito em vida antes da morte. Já não cuido
tanto dos destinos eternos. Pre�ro conversar com as pessoas que, conforme
bem observou Henry David �oureau, vivem “uma vida de silencioso
desespero”.
O psicólogo Carl Jung chegou à conclusão de que o problema de cerca de
um terço de seus pacientes não era diagnosticado clinicamente como neurose,
mas resultava da falta de sentido de sua vida vazia. De�niu esse vazio
existencial como a neurose geral de nossa época. Viktor Frankl, terapeuta
vienense, precursor da logoterapia ou terapia do sentido, disse que “a principal
preocupação da pessoa não consiste em obter prazer ou evitar a dor, mas antes
em ver sentido para sua vida. A busca da felicidade e a busca de sentido para a
vida se cruzam, andam de mãos dadas. A melhor relação entre elas foi de�nida
pelo rabino Harold Kushner: “Perseguição da felicidade é um objetivo errado.
Você não passa a ser feliz perseguindo a felicidade. Você se torna feliz vivendo
uma vida com signi�cado”.
Há algum tempo, ao falar a um grupo de atletas a respeito da felicidade,
iniciei minha palestra pedindo que descrevessem “uma bola de futebol feliz”.
Pedi que me dissessem o que poderiam fazer com uma bola de futebol além de
jogar futebol. Foram espertos. Disseram que uma bola de futebol pode
funcionar de banquinho, escora de porta e peça de museu. Foi meu gancho.
Perguntei se achavam que a bola do gol mil do Pelé, agora peça de museu (a
bola, não o Pelé), era uma bola feliz. A resposta não poderia ter sido melhor:
“Acho que não”, disse um garoto, “acho que ela foi feliz só naquela noite”.
Bingo! O menino acertou em cheio. Uma bola feliz é uma bola em jogo:
espalmada pelo goleiro ou estufando as redes, nos pés do atacante ou no peito
do zagueiro, cruzando os ares ou roçando a grama verde, qualquer que seja a
situação... desde que seja uma bola em jogo. Uma bola de futebol feliz é uma
bola que está funcionando de acordo com o propósito para o qual foi criada.
O mesmo raciocínio serve para nós, mortais. Deus criou o ser humano
como expressão e extensão de si mesmo, e somente seremos felizes quando
funcionarmos de acordo com os propósitos desejados por Deus ao nos criar.
Nenhuma pessoa será feliz procurando a felicidade nos próprios termos, e por
uma simples razão: essa felicidade não existe. Fomos criados por Deus para
funcionar movidos por ele mesmo. Neste caso, a felicidade existe apenas e tão
somente em Deus. Minha conclusão é simples: assim como você não pode usar
uma bola de futebol para bater prego ou uma chave de fenda para costurar a
barra de sua calça, também não pode imaginar que uma pessoa seja feliz
funcionando de maneira contrária a sua natureza e a seu propósito mais
essencial.
Quando penso em natureza e propósitos em relação à existência humana,
lembro de C. S. Lewis: “Se é verdade que alguém me fez para seus próprios
�ns, então é evidente que recaem sobre mim certos deveres que eu não teria se
simplesmente fosse dono do meu nariz”. Lembro também de Howard
Mumma, que esclareceu Albert Camus sobre uma grande diferença entre
cristianismo e existencialismo:
 
Ao contrário do que pensam os cristãos, os existencialistas acreditam que o homem
simplesmente veio a existir sem que nada o precedesse. Como resultado disso, o
homem deve confrontar suas experiências a �m de de�nir a si mesmo e seu
propósito na vida. Em outras palavras, sua existência precede sua essência.
 
No cristianismo, a essência precede a existência, e, portanto, é de sua
essência que o homem deve derivar o sentido de sua existência. A Bíblia a�rma
que “Deus criou o homem à sua imagem e semelhança” – a origem de�ne a
�nalidade.
A maioria das pessoas acredita que a felicidade é um lugar aonde se chega.
Por esse motivo, muitos dizem que serão felizes quando se casarem, quando
trocarem de emprego, quando comprarem aquela casa, quando os �lhos
estiverem criados. São pessoas que vivem no mundo do “quando”, a partir de
uma hipótese, uma suspeita, uma esperança, e não no mundo real. A vida de
acordo com a imagem de Deus, entretanto, não é um lugar aonde se chega,
mas sim o jeito como se vai. Mais importa a caminhada do que o ponto de
chegada. A felicidade não é resultado de conquistas especí�cas (ser a bola do
gol de número mil do Pelé), mas de um jeito de viver cada dia, cada momento,
cada situação (uma bola feliz é uma bola em jogo). Em outras palavras, não
importa tanto a conquista do diploma de Medicina, mas como se exerce o
sacerdócio terapêutico. Não importa tanto o dia do casamento, mas o dia a dia
conjugal. Não importa tanto a assinatura da escritura daquela casa, mas que
tipo de convivência existedebaixo daquele teto.
A imagem de Deus é a matriz de onde derivamos o jeito de viver.
Considerando que somos imago Dei, em termos práticos podemos dizer que, se
Deus é amor, não podemos ser ódio; se Deus é perdão, não podemos ser
ressentimento; se Deus é a verdade, não podemos viver com máscaras. Toda vez
que caminhamos na direção contrária à nossa natureza, colhemos frustração,
insatisfação e infelicidade.
Os teólogos e �lósofos cristãos debatem as possíveis de�nições para
“imagem e semelhança de Deus” desde tempos imemoriais. Depois de muita
pesquisa, re�exão, conversa e oração, cheguei a algumas conclusões simples.
Creio que a imago Dei possui quatro dimensões. Em primeiro lugar, se Deus é
três (Pai, Filho e Espírito numa perfeita comunhão entre iguais), isso implica
dizer que ninguém é feliz sozinho. Em segundo lugar, se Deus compartilhou
com o homem o domínio sobre o universo criado, isso signi�ca que ninguém é
feliz se não desenvolve suas habilidades e capacidades. Em terceiro lugar, se
Deus é Espírito, a criação do homem implica transcendência, contato, conexão
com o divino. Finalmente, se Deus é Espírito Pessoal, e não apenas força, luz
ou verdade impessoais, isso signi�ca que a natureza ou o propósito da criação
do homem implica desenvolvimento e aperfeiçoamento dos atributos
intrínsecos ao ser pessoa. Essas são as razões por que acredito que todas as
pessoas devem viver (funcionar) de acordo com quatro propósitos universais:
transcender, crescer, conviver e construir.
Em síntese, e perdoe-me ser trágico, no último dia de sua vida, antes do
último suspiro, você comparecerá diante de Deus no tribunal de sua
consciência e terá de responder a quatro perguntas: Onde está Deus? Que tipo de
gente eu me tornei? Onde estão as pessoas que eu amo e que me amam? O que deixo
como legado para as futuras gerações?. Suas respostas a essas perguntas dirão se
você foi ou não “uma bola feliz”. Por essa razão, sugiro que comece a pensar
nas respostas desde já. Recomendo que abandone as ilusões das conquistas,
deixe de viver de metas (pontos de chegada) e comece a viver com propósitos
(jeito de ir): transcender, crescer, conviver e construir.
37
Os brasileiros e sua fé
TENHO EM MÃOS O RESULTADO DA pesquisa encomendada pela revista Veja ao
instituto Vox Populi, “destinada a medir as manifestações da espiritualidade
dos brasileiros”. Sob a chamada de capa “A fé que move o Brasil”, a revista, em
sua edição número 1731, traz como tema principal Um povo que acredita:
pesquisa mostra que os brasileiros são religiosos, creem em Deus e esperam passar a
eternidade no paraíso. A matéria apresenta números interessantíssimos: 99%
acreditam em Deus; 83% acreditam na vida eterna no paraíso; 69% acreditam
em punição e recompensa após a morte; 55% acreditam em inferno ou
punição eterna; 51% acreditam no Diabo.
Surpreendente é que ninguém, absolutamente ninguém entre os
entrevistados acredita que vai para o inferno, muito embora 11% acreditem
que seu destino após a morte é o purgatório, e 15% acreditem que
reencarnarão, o que mostra que há muita gente consciente de que alguma
culpa os perseguirá além-túmulo. Achei fascinante também que 99% acreditam
em Deus e apenas 51% acreditam no Diabo. A respeito disto, �co com Henri
Nouwen, teólogo católico que muito me inspira:
 
Há um inferno? Os conceitos de céu e inferno são tão intimamente ligados quanto
os do bem e do mal. Quando somos livres para fazer o bem, também somos livres
para fazer o mal; quando podemos dizer “sim” ao amor de Deus, também existe a
possibilidade de dizer “não”. Por conseguinte, onde há céu deve haver também
inferno. Todas essas distinções são feitas para salvaguardar o mistério de que Deus
quer ser amado por nós em liberdade. Nesse sentido, embora possa parecer estranho,
a ideia de inferno é uma boa-nova. Signi�ca de forma de�nitiva que os seres
humanos não são robôs que não têm escolhas, nem autômatos que,
independentemente do que façam na vida, acabam no Reino de Deus. Não, Deus
nos ama tanto que deu seu Filho Jesus por nós. E ele também quer ser amado por
nós. E o amor não pode ser forçado; deve ser espontâneo. O inferno é o fruto
amargo de um “não” �nal a Deus.
 
Na base desse raciocínio, é incoerente crer em Deus e descrer do Diabo.
Mais coerentes são os ateus, que não creem, ou os agnósticos, que a�rmam a
impossibilidade de veredictos em matéria de fé: se não há como crer, não há
como descrer. Quem crê na existência de Deus creia também na do Diabo.
A informação que mais me interessou, entretanto, foi a respeito do número
crescente de pessoas que se declaram “sem religião” – quase 5% da população.
Isto não signi�ca, entretanto, que não creem em Deus, não têm fé ou
negligenciam a espiritualidade. Signi�ca apenas que optaram por uma
peregrinação espiritual fora dos portões da religião organizada. Escolheram o
caminho da fé não institucional. Esse grupo de pessoas merece atenção porque
indica uma tendência da cultura chamada “pós-moderna”. Num contexto onde
a verdade é pessoal e já não existem critérios de certo e errado, bem e mal,
verdade e mentira, fora da consciência individual, é natural que, aos poucos,
surja uma categoria de pessoas que decide, com bases absolutamente íntimas e
subjetivas, em que crer; pessoas que selecionam das prateleiras do
supermercado da fé as propostas que lhes sejam mais atraentes, convenientes
ou palatáveis.
Um fenômeno paralelo a esse caminho espiritual do tipo “faça você mesmo”
é o caminho do sincretismo, que elevaria muito o número de 5% dos “sem-
religião”. Enquanto a turma do “faça você mesmo” escolhe um pouquinho de
cada lugar e inventa outros tantos para dar uma falsa coerência a sua fé, o
pessoal do sincretismo já se sente mais seguro acendendo uma vela em cada
altar. Conforme salientou a reportagem, de fato, é muito comum encontrar
católicos “fazendo três desejos ao amarrar no pulso uma �tinha do Bon�m e
ainda frequentar um centro espírita, ou um judeu reavaliar sua espiritualidade
percorrendo o Caminho de Santiago de Compostela, de tradição católica”. Essa
é a turma que se declara cristã, mas se deixa levar “pelos rituais do candomblé,
pelo espiritismo kardecista ou pelo último modismo místico, sejam cristais
mágicos, sejam mantras hinduístas”.
Tenho por certo que ter todas as religiões e não ter nenhuma é a mesma
coisa. Quem acredita em tudo, na verdade, não acredita em nada. Muito
embora as tradições de espiritualidade possuam um universo comum de
percepções e mapeamento da realidade, cada uma delas apresenta também um
núcleo de a�rmações que as torna singulares, pois, quando as verdades
con�itam, uma delas é mentira.
Imagino que você vai me refutar a�rmando meu maniqueísmo, criticando
minha visão do mundo em preto e branco e me convidando para andar pela
zona cinzenta, onde as coisas não precisam ser chamadas “verdade” ou
“mentira”, mas apenas “diferentes”, “complementares”, “cooperativas”.
Obrigado, mas essa esparrela não me serve. Jesus me ensinou que assim como
Deus é amor, o Diabo é mentira. Disse-me que o conhecimento da verdade é
que liberta. Além disso, orou por mim ao Pai: “Seleciona os teus �lhos através
da verdade, a tua Palavra é a verdade” (Jo 17.17). Por �m, imaginando que
alguns desejariam mais detalhes a respeito da verdade, chamou para si toda a
responsabilidade: “Eu sou a verdade” (Jo 14.6).
No meio da discussão a respeito de Deus e do Diabo, vida eterna no
paraíso, punição e recompensa após a morte, inferno ou punição eterna, e
justamente por evocar o Evangelho para arbitrar entre verdades e mentiras,
�quei curioso para saber o que os brasileiros pensam a respeito de Jesus Cristo.
Tenho por certo que a maioria responderia sem hesitar que Jesus é o Filho de
Deus. Mas não faço ideia de quais seriam as respostas a respeito da relação
entre Jesus e os demais temas discutidos na pesquisa. Isto é, o que Jesus tem a
ver com a existência de Deus, a vida digna, a vitória sobre o Diabo e o destino
eterno das pessoas?
Incrível como a cristandade foi capaz de gerar uma naçãoque acredita em
Deus, teme o Diabo, espera o céu e, ao mesmo tempo, não sabe nada a respeito
de Jesus, sua vida e sua obra. Aliás, incrível como alguém pode realizar uma
pesquisa a respeito de espiritualidade no contexto do cristianismo sem fazer
uma referência sequer ao Cristo. Creio que a resposta está no inconsciente que
se traiu ou no caso pensado do descaramento que evita a confrontação, pois
cristianismo sem Cristo é cristianismo sem cruz, sem ressurreição, sem pecado
e arrependimento, sem critério de julgamento e balizamento para a vida.
Cristianismo sem Cristo não é cristianismo. É apenas um deísmo, a crença em
um Deus destituído de atributos pessoais, que não tem cara; voz e vez. É um
amontoado de crenças que fazem de Deus apenas mais um deus.
Caso o instituto Vox Populi batesse em minha porta, teria respondido com
o Credo dos Apóstolos:
 
Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, e em Jesus Cristo, seu Filho unigênito, nosso
Senhor, que nasceu do Espírito Santo e da virgem Maria; foi cruci�cado, morto e
sepultado sob Pôncio Pilatos e, ao terceiro dia, ressuscitou de entre mortos, subiu
aos céus, está assentado à destra do Pai, de onde há de vir para julgar os vivos e os
mortos. Creio no Espírito Santo, na Santa Igreja, no perdão dos pecados, na
ressurreição do corpo e na vida eterna. Amém.
38
Ressurreição
NO DIA 12 DE MAIO DE 2002, um pastor da Assembleia de Deus de Paulínia,
cidade vizinha a Campinas, São Paulo, sete outras pessoas e os pais de uma
menina de dois anos morta atropelada invadiram, à noite, o cemitério da
cidade. A intenção era ressuscitar a menina, enterrada havia quatro dias
(lembra alguma coisa?). O vigia do cemitério chamou a polícia e todos foram
presos em �agrante. Segundo fui informado, seriam julgados por violação de
túmulo, danos ao patrimônio público e vilipêndio a cadáver, sendo este último
crime ina�ançável.
Evidentemente, o ato foi tresloucado, passível de críticas sob quase todos os
ângulos ou dimensões que se analise a situação: teológica, sociológica,
psicológica e até mesmo legal. Sobrevive apenas quando olhado sob o prisma
pastoral e/ou existencial. Não conheço os detalhes, e por esse motivo não avalio
o ato em si, mas o eco que fez em meu coração. Não analiso o pastor, suas reais
motivações, seu histórico eclesiástico, seu contexto e suas credenciais
ministeriais e tantos outros aspectos possíveis nesta Babel que se tornou a Igreja
Evangélica no Brasil. Respondo apenas ao que esta notícia suscitou em mim.
Falo de algo que transcende ao fato, que brota do coração. Re�exões pessoais
que transformo em orações. Olhei o fato pelo avesso e enxerguei algumas
realidades não poucas vezes negligenciadas em minha vida cristã e atividade
pastoral.
 
• A fé em Deus. Não é fácil para um pastor made in seminário teológico de
tradição reformada acreditar em ressurreições contemporâneas. Aliás, pega mal
a mera citação da possibilidade de vir a crer. Soa como con�ssão de fraqueza,
recaída exegética, imaturidade idealista, fé infantil. Caso aquele casal me
perguntasse com olhos cheios d’água se haveria alguma possibilidade de Deus
ressuscitar sua �lha, eu certamente responderia: “Nem pensar!”. Peço a Deus
que me devolva o coração capaz de crer. Crer no impossível, no improvável, no
inimaginável, no que não faz sentido, no que fere o senso comum, no que
extrapola as categorias do explicável e do plausível. Simplesmente crer. Crer em
coisas que não podem ser vistas e não podem ser comprovadas pela razão. Crer
no que excede o entendimento. Crer na possibilidade da ressurreição.
• A simplicidade da leitura da Bíblia. Já não sou capaz de ler sem interpretar.
Aliás, eu diria que toda leitura é, por si, interpretativa. Mas quem me dera
apenas ler e crer. A Bíblia registra palavras de Jesus: “Aquele que crê em mim
fará também as obras que tenho realizado; fará coisas maiores do que estas” (Jo
14.12). Depois de ler isso, sempre acrescento: “Desde que as minhas palavras
estejam em vós; desde que concorra para a glória de Deus; desde que em
resposta a orações feitas em nome de Jesus (depois cito in�ndáveis signi�cados
de ‘em nome de Jesus’); desde que resulte em frutos para o Reino de Deus”; e
por aí vai, tudo de acordo com o contexto de João 13 a 17. E sei que não estou
errado. Mas gostaria muito de apenas ler e crer. E, crendo, orar pela
ressurreição. Mas temo iludir, enganar, manipular, ser desonesto, brincar com a
fé e a dor de terceiros. Peço a Deus que me dê olhos para ler a Bíblia. Olhos
capazes de distinguir a Palavra de Deus da Teologia.
• A rebeldia diante da morte. Dessa vez não me sinto tão réu assim. Sou e
creio que sempre serei rebelde diante da morte, que a Bíblia chama “último
inimigo a ser vencido” (1Co 15.26). Mas gostaria de ter coragem para dar
palavras de ordem contra a morte. Poder olhar para a morte e seus agentes e
impor sobre eles o túmulo vazio de Jesus Cristo, o Senhor da Vida. E depois
esperar a semente nascer de novo. Mas quase descreio de renovos e renovações.
Peço a Deus que me devolva a esperança e ousadia de quem anda por fé, e não
por vista. Que me faça capaz de acreditar não apenas na ressurreição do último
dia, mas também nas ressurreições históricas.
• A coragem diante das trevas. O ambiente fúnebre é também lúgubre,
tétrico, sinistro, amedrontador. Escuridão, trevas, túmulos, espíritos, demônios
e assombrações são realidades que me povoam a mente, o coração e o entorno.
Versa o dito que quem não deve não teme. E quando temo a morte e a
escuridão é porque Cristo se perdeu diante dos meus olhos. Quero, sim,
invadir com ousadia os vales da sombra da morte sem temer mal algum;
invadir as regiões celestiais e confrontar os poderes espirituais da maldade. Peço
a Deus que me faça forte e corajoso, fortaleça-me na força do seu poder e me
revista de toda a armadura de Cristo para que eu enfrente o dia mau e saia ileso
do outro lado.
• A compaixão entre irmãos. O que fazer diante de um casal que chora a
estupidez do mundo que não poupa crianças recém-nascidas? Aliás, que faria
eu se fosse minha �lha? Apenas me resignaria? Apenas aceitaria as displicentes
consolações de cristãos transeuntes descomprometidos que me dissessem: “Foi
da vontade de Deus”? Creio que não. Clamaria enquanto me sobrassem
lágrimas. E depois pediria a outros que clamassem em meu lugar. Mas, sendo
�lha dos outros, e não �lha minha, pre�ro escrever este texto. Peço a Deus que
me quebrante o coração para que eu seja capaz de amar meu próximo como
Cristo o amou, como se a dor que ele sente fosse minha própria dor.
• Fidelidade à vocação. Ao médico compete o diagnóstico. Ao coveiro, a
sepultura. Ao pastor, o clamor pela ressurreição. E caso não haja ressurreição,
palavras de consolação. Assim como não se espera do coveiro que se recuse a
cavar a cova, e não se espera do doutor que se recuse a assinar o óbito, também
não se espera do pastor que se recuse a orar pela ressurreição. Não se espera do
pastor que diga: “Eu não creio”. Não se espera do pastor que tema cemitérios.
Não se espera do pastor que lance dúvidas e mais dúvidas sobre a palavra de
Deus. Não se espera do pastor que ridicularize atos de fé. Peço a Deus que me
capacite a ser pastor. Que derrame sobre mim a unção do Espírito Santo para
que eu possa apascentar as ovelhas do Senhor Jesus. Que me ajude a pensar
sem me travestir de �lósofo religioso; ter bom senso sem me deteriorar em
consultor espiritual; ser cauteloso e prudente sem me acovardar diante do
mistério; ser equilibrado sem perder a noção de que, muitas vezes, o equilíbrio
está no passo de fé.
 
Convido-o a se unir a mim nestas minhas orações. Ou orar por mim.
39
Coisas ruins acontecem às pessoas
boas
ERA UMA TARDE CHUVOSA DE UMA típica sexta-feira paulistana quando fomos à
Sinagoga da Comunidade Israelita ouvir o rabino Henri Sobel, numa incursão
de curiosos seminaristas estudantes de hebraico. Mal sabia eu que aquela tarde
estabeleceria o paradigma de�nitivo para minha atividade pastoral. Nos
primeiros bancos, uma família enlutada recebia palavrasde consolo. Durante
alguns poucos minutos, o rabino Sobel citou trechos do livro de Harold
Kushner, prefaciado por ele para a edição em português: Quando coisas ruins
acontecem às pessoas boas. Kushner fez minha cabeça e me ensinou a pastorear.
Seu texto, entretanto, não me convenceu. Aqueceu meu coração, mas não
me satisfez teologicamente. No velho debate “Deus é bom, mas não é
onipotente para conter o mal” versus “Deus é onipotente, mas não é bom o
su�ciente para evitar o sofrimento”, Kushner se posiciona ao lado do Deus
bom e fraco. Procurei entender o que a Bíblia ensina a respeito do sofrimento.
Encontrei algumas explicações para a pergunta de Kushner: “Por que coisas
ruins acontecem às pessoas boas?”. Identi�quei cinco fontes de sofrimento, que
passo a enumerar, não necessariamente em sua ordem de importância.
A primeira é o caos do mundo natural. A Bíblia ensina que a natureza geme
e aguarda ardentemente ser libertada do cativeiro em que caiu não por opção,
mas por causa do pecado da raça humana. Considerando que o ser humano é a
coroa da Criação, tendo recebido delegação de Deus para governar o universo,
o afastamento de Deus e a consequente perda de autoridade sobre o cosmo fez
a natureza mergulhar no caos. Vivemos em um mundo onde as catástrofes
naturais são possíveis: vulcões, maremotos e furacões caminham lado a lado
com o mosquito da dengue e as ainda fatais evoluções da AIDS, do câncer e da
hepatite C.
Outra fonte de sofrimento é o desequilíbrio social sistêmico. Jesus advertiu
que seus discípulos seriam odiados pelo mundo, e, neste caso, o mundo é mais
bem explicado como conjunto de estruturas culturais, sociais, políticas e
econômicas alicerçadas nos valores anti-Reino de Deus. Quem duvida que a
equidade da distribuição de renda atenuaria muito o sofrimento humano
nunca visitou hospitais da rede pública dos países do Terceiro Mundo.
Muito sofrimento é perpetrado como resultado da maldade humana. O
mundo está cheio de gente desequilibrada e endiabrada. Pessoas irresponsáveis
atropelam crianças por dirigir embriagadas e pessoas revoltadas que matam
adolescentes em troca de pares de tênis podem ser encontradas ao lado de pais
hedonistas que destroem suas famílias, parentes mesquinhos que, motivados
pela inveja, sabotam irmãos – isso sem falar no poder de morte que algumas
línguas detêm. Além disso, também a própria limitação pessoal. Uma coisa é a
maldade intencional, outra a imperfeição; mesmo involuntária. Há muita
gente na chuva colhendo a tempestade do vento que semeou.
Finalmente, não poderia esquecer a malignidade do Diabo, que a Bíblia
apresenta a como nosso adversário. A luta contra principados, potestades e
agentes espirituais da maldade implica privações e di�culdades, numa guerra
sem tréguas, apesar do resultado de�nido na cruz do Calvário. Os cristãos são
mais que vencedores, mas o Maligno, apesar de cerceado, ainda não foi
completamente impedido de atacar os eleitos de Deus e dominar os
desprotegidos �lhos da desobediência.
“E Deus?”, alguém perguntaria. “Ele não é uma das fontes do sofrimento?”
Respondo com um veemente “não”. Quando muito, poderíamos incluir Deus
na gênese das provações, que nos aperfeiçoam em fé, e a respeito das quais
devemos dar graças, recebendo-as de bom grado e com alegria, pois provam a
autenticidade de nossa fé e nos conduzem à plena maturidade. Mas não tenho
coragem de associar provação com sofrimento na mesma categoria dos alistados
anteriormente.
Que respostas devemos dar ao sofrimento? Como devemos encarar as
diversas fontes de sofrimento e reagir a elas? Imagino que poderíamos
caminhar pela seguinte trilha:
 
• Devemos responder ao caos natural com fé. Jesus me ensinou que o mundo
está mesmo de cabeça para baixo, e que a Terra está desalinhada em relação à
vontade perfeita do céu. Mas me possibilitou olhar para Deus como Pai.
Aprendi que Deus não está no câncer, está na quimioterapia; não está no
sequestro, mas no telefonema anônimo que denunciou o cativeiro; não está no
desemprego, mas na cesta básica. Isso me faz lembrar a resposta atribuída a
Billy Graham quando lhe perguntaram onde estava Deus naquele fatídico 11
de setembro: “Nos bombeiros”, disse ele. Num mundo caótico, devemos
con�ar que Deus, nosso Pai Celestial, é capaz de fazer todas as coisas
cooperarem para o bem daqueles que o amam. Devemos descansar no fato de
que o Espírito Santo ora por nós com gemidos inexprimíveis, pois não sabemos
orar como convém, especialmente na hora da dor e da tragédia. Devemos
lembrar que não estamos órfãos, pois temos conosco o Parácletos, o
Consolador. Devemos caminhar na fé de que “Deus é bom e sabe amar”, como
me ensinou um amigo.
• Os cristãos devem encarar o desequilíbrio sistêmico com engajamento solidário
a Jesus em sua missão redentora. Se devemos sofrer, que seja pela verdade, pela
justiça, na prática da solidariedade e da defesa do direito do justo. Sofrer
fazendo o bem implica peso de glória, mão de Deus descendo e marcando
presença. Por essa razão, o presidente Abraham Lincoln respondeu a um dos
seus comandantes, que esperava que Deus estivesse do seu lado na batalha:
“Nada disso, capitão, espero que nós estejamos do lado de Deus”.
• A maldade humana somente pode ser neutralizada pelo perdão. “Perdoe-lhes
porque não sabem o que fazem” é oração que nasce nos lábios de Jesus, passa
pelos de Estêvão no momento mesmo de seu martírio e repercute na
intercessão da uma Igreja perseguida e atropelada pelos maus e seus agentes
humanos. Nossa luta não é contra carne e sangue, e a nenhum que nos fere
devemos virar a outra face, na esperança de que retornem ao seu perfeito juízo
e desfrutem conosco do perdão que recebemos de Deus. A única maneira de
vencer o mal é com o bem. Pagar o mal com o mal ou exigir justiça vazia de
misericórdia é fazer parte do problema. E os �lhos da luz são sempre parte da
solução.
• As imperfeições pessoais devemos responder com coragem para crescer.
Superamos nossos erros e nossas infantilidades pelo caminho “do
arrependimento e da con�ssão, que nos coloca a trilha do trabalho artesanal do
Espírito Santo, responsável por nos conduzir à plena maturidade em Cristo.
Crianças sofrem o ônus de suas decisões erradas e inadequadas em razão de
seus valores ainda não consolidados, e quanto mais crescem sem deixar de ser
crianças, mais sofrem. A opção pelo futebol com os amiguinhos do prédio em
detrimento da preparação para a prova de matemática, própria de um menino
pré-adolescente, deve �car para trás; a escolha do namoradinho com base no
critério “bronzeado verão”, próprio da menina que está deixando as bonecas,
deve ser reavaliada no futuro; pois, como se costuma dizer, “amor de férias não
sobe a serra” (com raras exceções).
• Enfrentamos o Diabo revestidos de toda a armadura de Deus, sob o signo da
cruz. Fortalecidos no Senhor e na força de seu poder, invadimos as regiões
celestiais orando em todo o tempo, com toda a súplica, por todos os santos.
Sempre vigilantes, encaramos o Maligno; certos de que somos mais que
vencedores e seremos capacitados para permanecer �rmes no dia mau.
Cobertos pelo sangue do Cordeiro, não tememos o mal, pois já não somos
�lhos do medo, mas �lhos de Deus, transportados para o Reino do seu amado
Filho.
 
Tudo isso fazemos na comunhão dos santos, pois o cordão de três dobras
não se quebra facilmente. Vivemos com esperança, aguardando a consumação
de nossa salvação, pois sabemos que caminhamos sob os cuidados de um
Redentor vivo, que, por �m, vai se levantar sobre a Terra, enchendo-a com o
conhecimento de sua glória, como as águas cobrem o mar.
40
Deus conosco
O SALMO 23 É O TESTEMUNHO DE Davi a respeito de seu relacionamento com
Deus. Revela a maneira como Davi percebia e experimentava Deus. Caso
alguém pedisse a Davi que descrevesse o seu Deus, ele diria: “Deus é o meu
Senhor/Pastor, é aquele que me supre, guia, restaura, acompanha na
adversidade, protege dos inimigos e cobre de misericórdia e bondade”. Uma
leitura teológico-sistemática diria que Deus pode ser chamado“Provedor”
(águas tranquilas, pastos verdes e refrigério para a alma), “Condutor” (guia
pelas veredas da justiça) e “Protetor” (vara e cajado no vale da sombra da
morte, mesa farta na presença dos inimigos, bondade e misericórdia todos os
dias) dos seus �lhos.
Mas devo confessar minhas incredulidades. Caso você me pergunte se creio
em Deus como meu Provedor, a resposta é um peremptório “sim”. Mas se
perguntar se isso signi�ca que creio que jamais passarei por privações
�nanceiras, jamais �carei desempregado, jamais endividado, jamais irei mal nos
negócios, jamais �carei mais pobre do que sou hoje, jamais precisarei da ajuda
de terceiros, a resposta desta vez é um peremptório não.
Caso você me pergunte se creio em Deus como meu Condutor, a resposta é
“sim”. Mas se perguntar se isso signi�ca que creio que jamais tomarei decisões
erradas, jamais escolherei o caminho da injustiça, jamais terei meus planos
frustrados e castelos desmoronados, jamais �carei indeciso e sem saber para
onde ir, desta vez a resposta é igualmente um sonoro “não”.
Da mesma maneira, caso você me pergunte se creio em Deus como meu
Protetor, a resposta é um convicto “sim”. Mas se perguntar se isso signi�ca que
creio que jamais serei tocado pelas fatalidades, jamais serei alcançado pela
tragédia, jamais serei ferido pela maldade, jamais serei injustiçado, jamais
sofrerei perdas ou danos, mais uma vez a resposta é um de�nitivo “não”.
A convicção quanto à provisão, à orientação e à proteção de Deus não nos
isenta das possibilidades de fracassos, fatalidades, privações e ferimentos. Tudo
isso constitui ônus do direito de viver. A própria biogra�a de Davi me autoriza
tal a�rmação. O início de sua trajetória rumo ao trono foi marcado por
perseguição e ódio. Seu primeiro exército foi composto da escória da sociedade:
endividados, angustiados e pessoas descartadas pela sociedade de então. Davi
teve um �lho que estuprou uma irmã e depois foi assassinado pelo irmão.
Depois disso, Davi abusou de seu poder de rei e tomou para si a mulher de
um de seus comandantes militares, a quem mandou matar: adultério e
assassinato. O �lho de seu adultério foi morto por ato disciplinar de Deus. O
�lho fratricida se revoltou contra sua autoridade e liderou uma rebelião no
reino de Israel. Este �lho rebelde foi morto pelo exército real, e depois Davi
teve de comparecer diante do povo para agradecer e honrar os assassinos do
próprio �lho, por quem chorou, desejando ter morrido em seu lugar. Qualquer
pessoa poderia questionar que tipo de Provedor, Condutor e Protetor é esse
que permite uma biogra�a marcada por tragédias, crimes, ódios e pecados
su�cientes para determinar a infelicidade crônica de qualquer mortal.
Isso me leva a crer que as a�rmações de Davi no salmo 23 devem ser
interpretadas de outra maneira, distinta daquela que nos leva a crer que Deus
nos coloca dentro de uma bolha de bem-estar, conforto e prosperidade
inabaláveis. Por essa razão, creio que a expressão que sustenta o relacionamento
entre Davi e Deus não apresenta Deus como Provedor, Condutor ou Protetor.
Essas dimensões do relacionamento pertencem a Deus, e nas mãos dele está a
prerrogativa de como prover, conduzir e proteger os seus. A expressão que
determina a qualidade do relacionamento entre Davi e Deus é “tu estás
comigo”. Caso você pedisse a Davi que descrevesse o seu Deus, ele deixaria de
lado a Teologia Sistemática e falaria com o coração: “Deus é meu grande
companheiro. Ele está sempre comigo. Esteve comigo na caverna de Adulão.
Esteve comigo quando Saul corria atrás de mim para me matar. Esteve comigo
quando meus �lhos se matavam e se odiavam. Esteve comigo quando eu não
soube o que fazer para estancar o ódio dentro da minha casa. Esteve comigo
quando eu andava pela escuridão usurpando, matando, mentindo. Esteve
comigo quando meu �lho conspirava contra mim. Esteve comigo quando
precisei superar a minha dor para resguardar a autoridade do meu exército e
preservar a unidade do povo. Deus é meu grande companheiro”.
Minha leitura deste salmo 23 ensinou-me duas coisas essenciais. Primeiro,
que não devo basear meu relacionamento com Deus naquilo que ele pode fazer
por mim, mas naquilo que pode fazer em mim. As expectativas que tenho a
respeito de Deus não estão relacionadas ao que ele pode fazer em minhas
circunstâncias, mas ao que ele pode fazer em meu coração. A�rmar “o Senhor é
meu Pastor e nada me faltará” implica um caminho livre de ansiedade e repleto
de satisfação. Espero que o dia da escassez nunca bata à minha porta, mas, se
chegar, o que mais espero é poder dizer que aprendi a estar contente em
qualquer situação porque Deus está comigo, e posso superar qualquer
circunstância ruim naquele que me fortalece. A�rmar que “ele me conduz às
águas tranquilas, aos pastos verdejantes e restaura a minha alma” implica um
caminho de serenidade e saúde emocional.
Tenho certeza de que Deus tem o seu caminho no meio da tormenta, e
mesmo no deserto me levará aos mananciais onde poderei ser restaurado no
corpo e na alma. Espero jamais passar pelo que Paulo apóstolo passou, mas,
caso necessário, o que mais espero é também poder dizer que combati o bom
combate, terminei a carreira e guardei a fé: estou inteiro e passaria por tudo
novamente. A�rmar que Deus prepara uma mesa na presença dos meus
inimigos e unge a minha cabeça com óleo implica um caminho no qual a
alegria é possível mesmo quando o que é mal está diante dos nossos olhos.
Espero que o ódio do mundo e do mal não se materializem contra mim de
forma tão visível e explícita, mas, caso aconteça, espero muito mais ter a
coragem de continuar em frente, com os olhos �tos na mesa posta pelo Bom
Pastor que me prometeu vida abundante no meio dos lobos.
A segunda coisa que aprendi lendo o salmo 23 é que não devo basear meu
relacionamento com Deus naquilo que ele pode fazer por mim, mas no que eu
passo fazer tendo um Deus como ele. Diante dos vales da sombra da morte,
não devo �car esperando que Deus me leve para longe do vale: ou que ele
afaste do vale a sombra da morte. No dia em que tudo �car escuro, espero não
me deixar tomar por um espírito de covardia, mas me levantar movido pelo
espírito de amor, moderação e poder para atravessar o vale com a dignidade
que somente os que a�rmam “Deus está comigo” podem ter.
Que venham os anos. Espero por eles sentado na confortável poltrona 23.
41
A fé que eu quero
O QUE É A FÉ? SIMPLES: fé é a capacidade de mover a mão de Deus. Foi por
causa da falta de fé que Jesus não fez milagres em Nazaré. Em contrapartida,
foi exatamente a fé que salvou a mulher com �uxo hemorrágico. Foi também
em resposta à grande fé da mulher cananeia que sua �lha foi liberta de opressão
espiritual. Os exemplos poderiam se multiplicar para justi�car que, na falta da
fé, a mão de Deus �ca encolhida, ele �ca sem a condição necessária para agir.
Quando falta a fé, Deus não é mobilizado: as pessoas não são curadas, os
problemas não são resolvidos, a provisão não chega, a bênção não vem. A�nal,
quem se aproxima de Deus deve fazê-lo com fé, quer seja para receber qualquer
boa dádiva, quer para receber sabedoria. Quem pede vacilando não recebe.
Quem pede com fé, crendo, recebe. É simples assim. Fé é a capacidade de
mover a mão de Deus. Certo? Mais ou menos.
Embora popular, este é o conceito mais pobre e super�cial da fé. Na melhor
das hipóteses, o menos enfatizado na Bíblia. É fato que estamos acostumados a
considerar pessoas de fé aquelas cujas orações são respondidas por Deus com
um “sim”. Parece que a grande evidência da fé é a capacidade de induzi-lo a
fazer o que queremos ou desejamos que ele faça. A fé, portanto, coloca Deus
em movimento. Pela fé, conseguimos curas, empregos, cônjuges, justiça,
sucesso e prosperidade. Tudo porque buscamos a Deus com essa capacidade de
fazê-lo agir em nosso favor.
Mas não creio assim. Aliás, creio que esse é o estágio mais infantil da fé.
Minha compreensão de fé é um pouco diferente. Não creio que o conceito
essencialmente cristão de fé seja a capacidade de mover a mão deDeus. Não
creio que a fé seja aquilo em nós que coloca Deus em movimento. Creio
exatamente no oposto: a fé é aquilo em nós que nos coloca em movimento. A
fé não mobiliza Deus. A fé mobiliza o �el. Deus não precisa ser mobilizado.
Jesus nos ensinou que o nosso Pai Celestial está cuidando de nós, dando-nos
tudo, pois sabe do que precisamos antes mesmo de pedirmos. Jesus nos
ensinou que o nosso Pai Celestial está trabalhando, trabalha desde a eternidade
até hoje. Quem precisa ser mobilizado não é Deus. Eu é que preciso ser
mobilizado.
Este é o ensinamento de Tiago. Você tem fé? Então mostre suas obras.
“Você tem fé? Então não me venha com testemunhos das coisas que Deus fez
em seu favor. Eu quero saber o que você fez em favor dos outros.” A fé é aquilo
em nós que nos arremessa na direção do próximo: quem tem fé e não reparte o
pão ou não veste o que tem frio tem uma fé morta, uma fé que não vale nada,
pois a fé não é a capacidade de mover a mão de Deus em nosso favor, mas a
capacidade de mover a nossa mão em favor do próximo.
Foi por essa razão que Jesus exortou seus discípulos, chamando-os “homens
de pequena fé”. A cena é bem conhecida: um barco, Jesus dormindo, os
discípulos apavorados e uma tremenda tempestade no mar da Galileia. Os
discípulos disputavam entre si para ver quem se atreveria a acordar Jesus e
chamar sua atenção para o perigo iminente, quem seria o corajoso a denunciar
o pouco-caso do Mestre para com suas vidas. Fizeram, então, o que qualquer
um de nós faria: pediram que Jesus desse um jeito na chuva. Jesus atendeu ao
seu clamor. Mas, estranhamente, em vez de elogiar sua fé, denunciou sua
pequenez.
O que isso signi�ca? Signi�ca que eles tiveram fé su�ciente em Jesus, mas
não tiveram a fé de Jesus. Tinham fé su�ciente para acreditar que Jesus poderia
resolver o problema, mas não tinham fé su�ciente para resolver o problema
com a autoridade que Jesus lhes delegara. Pediram para Jesus agir, e Jesus agiu.
Tiveram a fé que moveu a mão de Deus, mas não foram capazes de levantar as
próprias mãos para dar ordens ao vento e à chuva. Sua fé os manteve com mãos
recolhidas, desmobilizadas. O que aparentemente era uma expressão de fé e
dependência do poder de Jesus era, na verdade, um ato covarde de quem não
cresceu na fé.
As coisas continuam do mesmo jeito. A maioria dos discípulos
contemporâneos busca crescer na fé para que possa usufruir mais de Deus. São
poucos os que buscam crescer na fé para que possam ser mais úteis nas mãos de
Deus. Creio que uma das razões para a distorção é que aprendemos a associar a
fé às manifestações do poder de Deus, em vez de a relacionarmos com as
expressões de serviço do povo de Deus. A fé está relacionada com serviço, e não
com poder. “Você tem fé? Então me mostre as suas obras” (Tg 2.18).
Basta você abrir sua Bíblia em Hebreus 11 e veri�car que o elogio aos heróis
da fé não se deve ao que Deus fez por eles, mas ao que, mobilizados pela fé,
�zeram por Deus: ofereceram sacrifícios, obedeceram, dedicaram �lhos,
viveram como peregrinos, renunciaram a riquezas e posições, conquistaram
reinos, praticaram a justiça, entregaram-se ao martírio, sofreram toda sorte de
infortúnios em favor e na esperança do Reino eterno e da cidade cujo
fundamento é Deus. Os heróis da fé não são heróis por serem muito
abençoados, mas porque abençoam a muitos.
Há uma razão para que a fé nos mobilize na direção de Deus e do serviço.
Muito provavelmente porque a fé não é con�ança naquilo que Deus vai fazer
ou pode fazer. Costumo dizer que isso não é fé, é esperança, pensamento
positivo, torcida. A fé não é expectativa quanto ao que Deus vai fazer. A fé é
con�ança profunda em Deus. Fé é crer no caráter de Deus. Fé é deixar as
preocupações com a própria a vida – o que comer, o que vestir, onde morar –
nas mãos de Deus, con�ando em sua bondade, seus propósitos e suas
intenções. Fé é crer que Deus tem para nós planos de paz e felicidade para nos
dar um futuro. Somente quem crê assim em Deus é livre para deixar de pensar
em si e experimentar a liberdade necessária para que as mãos sejam mobilizadas
na direção do serviço ao próximo.
Creio, sim, que Deus age em resposta à fé. Creio que a incredulidade nos
priva de muito do que Deus tem para nos dar. Creio, sim, que não raras vezes
somos invadidos por convicções profundas quanto ao mover de Deus e seus
feitos que nos são comunicados ao coração de antemão pelo Espírito Santo.
Mas creio também que minha fé não deve se prestar ao papel de pretender
mover a mão de Deus. Ao que aspiro é a dimensão de fé que faz de Deus meu
companheiro. Quero a qualidade de fé que me possibilite andar com Deus, a
extensão de fé que me leve para dentro do coração do Pai, cada vez mais fundo,
para que ouça sua voz, receba a revelação de seus propósitos, ouça seus
segredos. E que de lá eu me levante com mãos arregaçadas para cumprir sua
vontade – ser e fazer no mundo aquilo que estou destinado a ser e fazer para
Deus, seu Reino, sua Igreja e os que ainda não são completamente seus.
Não quero a fé que espera Deus trabalhar por mim. Quero a fé que me faz
trabalhar para Deus. Não quero a fé que me faça prosperar entre meus irmãos.
Quero a fé que me faça cooperar e servir para que meus irmãos prosperem. No
fundo, acho que sou movido por ambições maiores: não quero ser apenas �el,
quero ser herói da fé. Não me basta ser o tipo de homem que é digno no
mundo. O que quero mesmo é ser o tipo de homem do qual o mundo não é
digno.
42
A tirania da felicidade
VIVEMOS HOJE O QUE SE PODERIA CHAMAR “a tirania da felicidade”. Ser feliz
virou obrigação. O consenso diz que a felicidade é o objetivo maior da
humanidade. Pascal Bruckner, ensaísta francês, analisa que esse fenômeno
ocorreu “depois de 1968, quando se fez uma revolução em nome do prazer”.
Desde então, a felicidade, “mais do que o dinheiro, é a nova ostentação dos
ricos. Eles estão na mídia e exibem seus carros de luxo, sua vida amorosa
extraordinária, seu sucesso social, �nanceiro ou mesmo moral, quando
colaboram com instituições bene�centes. A felicidade virou parte da comédia
social”. Swami Adiswarananda, monge da Ordem Ramakrishna, atualmente
dirigente do Ramakrishna-Vivekananda Center de Nova York, denuncia nossa
sociedade dizendo:
 
A felicidade é o objetivo da busca eterna e universal que vem ocupando a mente
humana desde os primórdios da Criação. As pessoas podem diferir em suas
perspectivas políticas e religiosas, �loso�as de vida, per�s psicológicos, cultura e
raça, mas todos, sem exceção, querem ser felizes. A felicidade é a meta do pobre e do
rico, do erudito e do ignorante, do santo e do pecador, do ateu e do crente, do
ascético e do indulgente. É por causa da felicidade que aspirantes espirituais oram,
trapaceiros trapaceiam, monopolistas monopolizam, caridosos entregam-se à
caridade, bêbados bebem, ladrões roubam e penitentes se arrependem. Almejando
felicidade, uns se casam, outros se divorciam, alguns cometem suicídio e outros se
tornam homicidas.
E, no entanto, a perseguição à felicidade resulta numa tentativa caótica, absurda,
infrutífera. Ninguém tem certeza de como alcançá-la. Nenhum ramo de estudo nos
trouxe conhecimento algum a respeito do segredo da felicidade. A religião enfatiza a
salvação e a �loso�a, a busca da verdade. Os moralistas falam a respeito do dever, e
os psicólogos nos pedem que enfrentemos e convivamos com a infelicidade. Os
cientistas pouco se importam com nossos sentimentos, e os economistas dão valor
tão somente à riqueza e à prosperidade. Nenhum deles se dedica ao problema da
felicidade.
Em busca da felicidade, as pessoas frequentemente se comportam de forma
estranha. Alguns �cam felizes quando os outros estão felizes; alguns são felizes
quando os outros são infelizes; e existem até mesmo aqueles que são felizes quando
eles próprios são infelizes. Uns têm esperança de comprar a felicidade enquanto
outros há que tentam usurpá-la do próximo. Há aqueles que buscam alcançar a
felicidade por meio do domínio, do poder; outros, pelo apego às coisas. Dessa
forma, estamostodos constantemente perseguindo a felicidade, em vez de sermos
felizes. Não admira, portanto, que nasçamos chorando, vivamos nos lamuriando e
morramos frustrados.1
 
A sociedade contemporânea vive à luz de um único mandamento: “Serás
feliz”, que, traduzido, signi�ca “buscarás estar satisfeito com tudo o tempo
todo”. Este único mandamento se decompõe em três outros submandamentos.
O primeiro é: “Eliminarás todo sofrimento”, ou seja, “negarás a dor, fugirás do
desconforto, evitarás os fracassados, rejeitarás tudo quanto não te der prazer”.
O segundo submandamento é: “Satisfarás todos os teus desejos”, quer dizer,
“conquistarás o máximo, buscarás o prazer acima de tudo, não passarás
vontade, correrás atrás de todos os teus sonhos, não te sacri�carás por nada e
ninguém”. O último é: “Realizarás o pleno potencial”, que se traduz por “serás
sempre o melhor, viverás sempre apaixonado, terás �lhos perfeitos, prosperarás
sempre e andarás sobre as águas”.
Basta um pouco de bom senso para concluir que isso não é possível. Assim,
o “mundo de Caras” propõe outro mandamento: “Construirás uma imagem de
sucesso”. A felicidade, conforme ostentada hoje nas revistas e telenovelas, nos
programas de entrevista e de auditório, é uma farsa.
Colocando os pés no chão, encontramos o conceito judaico-cristão da bem-
aventurança, a expressão bíblica que mais se aproxima do ideal contemporâneo
de felicidade. As palavras usadas na Bíblia foram ashréi, no hebraico, e
makarioi, em grego. Ashréi é a primeira palavra dos salmos 1 e 119, e também
pronunciada por Jesus nas bem-aventuranças, que os linguistas gostam de
traduzir por “felizes”. André Chouraqui sugere outra compreensão.
 
Ashréi repete-se 43 vezes na Bíblia hebraica. Esta exclamação (no plural) tem como
radical ashar, que não evoca uma vaga felicidade de essência hedonista, mas implica
uma retidão (yashar) do homem marchando na estrada sem obstáculos que leva a
Iahveh e, no sermão do monte, em direção ao reino de Iahveh. Todos os dicionários
etimológicos do hebraico bíblico dão como primeiro sentido ao radical ashar o de
“marchar”; ser feliz é um sentido secundário e tardio. O sentido fundamental de
ashar é “andar” (Pv 4.14), “conduzir por uma via reta” (Pv 23.19). Em linguagem
poética, ashur é o pé do homem. Ashréi pontua a dinâmica da salvação introduzida
na vida do homem em marcha na direção do Reino de Iahveh. A participação na
felicidade de Deus, em que consiste a bem-aventurança perfeita, está acima e além
das capacidades do homem em sua condição terrestre.2
 
Will Ferguson, em seu romance Ser feliz, denuncia a insensatez de uma
sociedade feliz, sem contradições e contrariedades. Conta a história de Edwin
De Valu, que edita um best-seller de autoajuda e alastra uma praga devastadora
pela humanidade: a felicidade. O romance é um primor, que desmascara essa
mitologia da realização pessoal e advoga a necessidade de aprendermos a
conviver com a incompletude e as imperfeições inescapáveis à condição
humana. Com humor ímpar, Ferguson diz que, “se um dia alguém escrevesse
um livro de autoajuda que realmente funcionasse, que sanasse nossos
infortúnios e eliminasse nossos maus hábitos, os resultados seriam
catastró�cos”.
Mário Sérgio Cortella cita Immanuel Kant, que trata a felicidade como a
estrela polar, que para o navegante é só a referência. Ele, o navegante, “não quer
chegar à estrela polar, nem chegará. É utopia, portanto. A sabedoria não está
em recusar o horizonte e se aquietar, mas em saber que você é um ser de busca,
e não de encontro”.
O primeiro passo na direção da felicidade é o desmascaramento da
felicidade conforme proposta pela sociedade contemporânea. Nas palavras de
Mário Quintana, a escolha de uma “felicidade realista”. Uma felicidade que
não depende do lugar aonde se chega, mas do jeito como se vai. Uma felicidade
que seja capaz de conviver com a imperfeição, com a frustração, com castelos
desmoronados, com desejos não satisfeitos. Uma felicidade mais simples e
singela, e menos hollywoodiana. A felicidade da fraternidade, da solidariedade,
do compromisso ético. A felicidade do romance, da vida em família, mesmo
com todas as suas contradições. A felicidade dos amigos ao redor da mesa, do
trabalho produtivo, do ócio criativo. A felicidade de aprender, crescer, mudar
as coisas e mudar a si mesmo – deixar-se transformar. A felicidade de andar
sempre, não desistir nunca, seguir a trilha que Jesus deixou e que conduz ao
Reino eterno.
43
O Deus bailarino
O QUE ACREDITAMOS A RESPEITO DE UMA coisa determina como nos
relacionamos com ela. Por exemplo, eu gosto de brincar com cachorros, mas, se
acredito que o bicho é bravo, �co longe; se acredito que é brincalhão, chego
perto. Assim é também com o mundo. Antigamente se acreditava que o
mundo era uma estrutura hierárquica: do mais complexo e poderoso para o
mais simples ou fraco, ocupando Deus o topo da pirâmide. O imaginário das
pessoas era construído a partir das relações entre rei e súditos, senhores e
escravos, generais e soldados, e assim por diante. Cada um tinha seu papel, e
quase todo mundo respeitava quase todo mundo. Naquela época, a Igreja tinha
autoridade, e quem não concordava com o que ela dizia morria na fogueira.
Mesmo que ela dissesse que índios e escravos não tinham alma e o Sol girava ao
redor da Terra.
Quem acredita numa realidade estruturada a partir de autoridade e poder
acha que a fé em Deus resolve tudo, pois, a�nal de contas, “agindo Deus, quem
impedirá?”. Basta orar com fé e esperar a cura, a prosperidade, a restituição, a
volta do marido, a libertação do �lho, en�m, a solução de qualquer problema.
Deus manda, o resto obedece. Tudo quanto se tem a fazer é aprender os
truques para fazer Deus mandar exatamente o que a gente quer que ele mande.
Surgem, então, as correntes de fé e as ofertas compensadoras da falta de fé, e
principalmente os gurus que sabem manipular Deus em favor de quem paga
bem. Feitiçaria pura.
Mas a história conta que surgiram Copérnico, Galileu, Newton e Einstein
com suas teorias cientí�cas. O mundo passou a ser visto como máquina, ou
como relógio, sendo Deus o relojoeiro. Neste mundo máquina, tudo pode ser
decodi�cado, explicado e controlado. As coisas funcionam em relações de causa
e efeito previsíveis, como, por exemplo, as estações do ano e as condições
climáticas, as fases da lua e os movimentos das marés, a órbita dos planetas e os
eclipses solares. No dia a dia, essas relações também são previsíveis: caso se
tenha a informação de massa, força, aceleração e direção, sabemos calcular em
quanto tempo o carro vai se chocar contra o poste ou qual bolinha vai acertar a
amarela e qual delas vai cair na caçapa da mesa de bilhar.
No mundo-máquina, é possível também consertar quase tudo e devolver
quase tudo às condições originais. Quando seu micro-ondas para de funcionar,
basta chamar um técnico e ele vai dizer qual peça deverá ser substituída ou se a
coisa pifou de vez. O problema é que quem acredita que o mundo funciona
assim acaba extrapolando isso para todas as suas relações. O casamento
quebrou? Seu �lho está dando trabalho? A vida não está funcionando? Basta
chamar o especialista. Quase tudo tem conserto, quase tudo pode voltar a
funcionar como antes.
Mais do que isso, se é verdade que as relações de causa e efeito obedecem à
precisão matemática, basta apertar o botão certo para que as coisas aconteçam:
para fazer discípulos, fazer a igreja crescer, evitar problemas na família, garantir
boa carreira pro�ssional, evitar problemas com os �lhos ou vender, basta fazer
o curso certo, encontrar o método certo, seguir as regras certas. A sempre
conduz a B. Caso você faça A e o resultado não seja B, então você pensa que
fez A, mas não fez, pois o mundo-máquina é assim – tudo sempre funciona
direitinho, você é que nem sempre funciona.
Desta compreensão é que surge o fenômeno: ministério A para quem quer
fazer a igreja funcionar com propósitos; estratégia de sete passos para fazer a
igreja ser relevante; quatro leis espirituais para ganhar a vidaeterna; técnicas de
ministração para libertação espiritual e cura interior; grupos de 12 para fazer a
igreja crescer; apostila para tudo quanto é coisa, curso para tudo quanto é treco
e guru especialista para tudo quanto é tranqueira. Quase todos bem-
intencionados, mas quase todos funcionando como se o mundo fosse mesmo
uma máquina.
Mais recentemente, apareceram no cenário algumas outras percepções da
realidade a partir das ciências da Física e da Biologia. Na mecânica quântica, os
movimentos não são tão previsíveis quanto na mecânica newtoniana. Na visão
mais abrangente da ecologia, o oikos, nossa casa comum, não é hierarquizada,
pois tudo está em relação com tudo e tudo afeta tudo. O mundo já não é
hierarquia nem máquina, mas organismo vivo. As palavras mais adequadas para
descrever a realidade são “teia”, “rede”, “arena”, e até mesmo “dança”. A
realidade é complexa – tem muitos centros – e os fenômenos naturais e sociais
não são previsíveis nem manipuláveis. As pessoas são singulares: dez pessoas
que ganham na loteria reagem de dez maneiras diferentes. Os relacionamentos
são singulares: dez casais que ganham um �lho reagem de dez maneiras
diferentes. Dez igrejas que iniciam um projeto de construção de templo reagem
de dez maneiras diferentes. Dez pessoas num mesmo curso de discipulado,
usando a mesma apostila, com o mesmo discipulador, reagem de dez maneiras
diferentes. Seres vivos não são padronizáveis. Seres vivos não obedecem a
relações exatas de causa e efeito. Seres vivos não são decodi�cáveis, catalogáveis
ou passíveis de enquadramentos. Seres vivos não são coisas. A vida não é exata.
Quem acredita no mundo como um ser vivo, uma teia de relações
intrincadas, onde cada ser e cada relação é singular, não consegue se submeter a
esquemas, não tem a pretensão de gerenciar pessoas, não con�a em métodos,
não dá muita bola para apostilas, não se impressiona com números, estatísticas,
previsões e probabilidades. Prefere outros caminhos. Escolhe o caminho da
intimidade com o outro, encanta-se com o mistério do sagrado, maravilha-se
com a (bio) diversidade, aproxima-se cauteloso de uma criança, fala baixo com
um casal machucado, presta atenção no jovem em con�ito com sua
sexualidade, ouve a história de vida do homem que não para em emprego, �ca
em silêncio diante da dor e se ajoelha para orar antes de dar qualquer passo em
qualquer direção. Não se dá muito bem com o Deus general ou o Deus
relojoeiro. Curte mais o Deus bailarino.
44
Pessoas não mudam
PESSOAS NÃO MUDAM. FALAM EM MUDAR, mas não mudam. Na verdade,
mudam apenas quando não têm alternativa. Esta é a tese de Po Bronson, em
seu livro O que devo fazer da minha vida?, em que relata quarenta histórias
tiradas de novecentas entrevistas com gente de tudo que é tipo.
Na verdade, Po Bronson é otimista. Em novembro de 2004, a IBM realizou
sua conferência Inovação Global e reuniu alguns dos melhores cérebros do
planeta para propor avanços cientí�cos e tecnológicos capazes de solucionar os
grandes problemas mundiais. No topo da agenda estava o setor da saúde, que
custa aos Estados Unidos 1,8 trilhão de dólares anuais (três vezes o PIB do
Brasil). A grande conclusão a que chegaram foi que muito dessa dinheirama
seria economizada se as pessoas estivessem dispostas a mudar hábitos
alimentares e estilo de vida. Mas a verdade é que a pesquisa realizada para
subsidiar a discussão mostrou que, mesmo diante da morte iminente, apenas
uma entre dez pessoas muda seu jeito de pensar e agir. Em outras palavras, para
a pergunta: “Se fosse dada a você a opção de morrer ou mudar, o que
escolheria?”, apenas uma em cada dez pessoas escolheria mudar.
De fato, sou tentado a concordar. Ao longo de mais de vinte anos de
atividade pastoral, atuando como mentor, discipulador e conselheiro, vi muito
pouca gente mudar de verdade. Mudanças cosméticas, apenas
comportamentais, vi aos montes; mas estruturais, vi poucas. As pessoas tendem
a ser o mesmo que sempre foram: os tímidos continuam tímidos, os eufóricos
continuam eufóricos, as mulheres dominadoras continuam dominando, os
maridos passivos continuam no cabresto, os trabalhadores continuam
trabalhando, os que nunca “dão certo” continuam “dando errado”, os
mulherengos continuam mulherengos, as obcecadas pela estética continuam
embaraçadas com suas dietas e cirurgias, os hipocondríacos continuam lendo
bulas e a turma que chora vendo comercial de televisão continua gostando de
novela mexicana. Freud explica. Literalmente.
Certo dia, fui interpelado por uma jovem após uma de minhas palestras.
Seu semblante demonstrava apreensão e sofrimento. Foi direto ao ponto:
contou que tinha um noivo um pouco violento, que já a havia agredido duas
vezes, mas que sempre chorava, pedindo perdão e prometendo não repetir as
agressões. Depois, fez a pergunta: “Pastor, devo me casar com ele?”.
Contrariando um procedimento padrão, respondi de maneira direta: “Apenas
se estiver disposta a apanhar pelo resto da vida”. Ela continuou: “Mas o senhor
não acredita que ele pode mudar?”. Respondi: “Acredito, sim. Acredito que ele
pode mudar. Mas não tenho certeza de que ele vai mudar. Portanto, você deve
se casar com ele somente na hipótese de acreditar que poderá conviver com ele
mesmo que não mude”.
Depois daquela conversa, fui para casa avaliando minha fé, minha crença no
poder transformador do Evangelho, na força da graça. Onde já se viu um
pastor evangélico pessimista quanto à mudança das pessoas? Logo eu, que
acredito que a transformação pessoal à imagem de Cristo é essencial à
mensagem cristã. Logo eu, que acredito que o maior problema que o ser
humano enfrenta não é o Diabo, nem o mundo mau, nem nada que exista do
lado de fora, mas seu inimigo íntimo, seu não gente que habita suas entranhas.
Era só o que me faltava: depois de tantos anos vendo conversões
extraordinárias, cheguei a esse ponto, de duvidar que as pessoas mudam – ou
pior, acreditar que a verdade maior é que as pessoas não mudam mesmo.
Precisei percorrer todo o caminho novamente. Voltei ao início e pus o pé na
estrada. Revisei o que me ensinaram e cheguei a conclusões preliminares que,
pelo menos a mim, �zeram mais sentido. Primeiro, considero que as mudanças
de que fala o Evangelho não são necessariamente estruturais, na personalidade
ou na índole das pessoas, mas em seus valores, seus amores, e, portanto, seus
objetos de devoção. A grande mudança do Evangelho não é “eu deixar de ser
eu”, mas “eu me render à vontade do meu novo Senhor”, isto é, não mais o
meu eu, mas o Cristo que vive em mim.
Também acredito que, em virtude desta mudança de objeto de devoção,
muita coisa na minha vida muda, mas continuo sendo eu mesmo. A conversão
não implica a despersonalização. A conversão não apaga tudo que vivi e fez de
mim o que sou. Mas depois de me render a Cristo, toda a minha vida passa por
uma revisão, e muita coisa que eu fazia necessariamente deixo de fazer, e muita
coisa que não fazia passo a fazer. Não por obrigação ou culpa, mas por nova
orientação da minha vontade: mudou meu objeto de devoção.
Creio também que as �guras “morte e ressurreição” ou “novo nascimento”,
que simbolizam o antes e depois da experiência mística-espiritual cristã, não
signi�cam que deixei de ser o que sempre fui, mas que passei a viver orientado
para outra direção. Não é que eu mudei; o que mudou foi a maneira como
convivo com o que sempre fui, e provavelmente vou continuar sendo. O
extraordinário nisso tudo é que já não sou obrigado a ser o que sempre fui, não
estou mais escravizado a realizar a sina da minha personalidade e cumprir o
vaticínio das marcas que a vida deixou em mim. Sou livre. Livre para me
reinventar, livre para vir a ser e, inclusive, livre para continuar sendo o que
sempre fui, mas me relacionando de maneira tão diferente comigo mesmo que
as pessoas ao meu redor dirão que pareço outra pessoa. Conheci a verdade, e a
verdade me libertou.
Finalmente, cresce em mim a convicção de que toda e qualquer
transformação é fruto da experiência humana, com a graça de Deus: ação
espontâneade Deus em favor de sua criatura; dádiva inexplicável, não
manipulável; gratuidade encantadora, demonstrativa do caráter amoroso e
santo do Criador que deseja a salvação-redenção-restauração de toda a sua
Criação.
As pessoas não mudam – a expressão é por demais pessimista. Na verdade, as
pessoas mudam em número, profundidade e velocidade inferiores ao que
desejamos. Em poucas, operam-se mudanças razoavelmente super�ciais e
lentas. Portanto, aprenda a conviver com as pessoas do jeito que elas são. Não
passe a vida tentando mudar os outros, seu cônjuge, seus �lhos, seus amigos,
seu chefe ou colegas no trabalho. Deixe isso nas mãos de Deus, à mercê da
graça. Conviva a partir da gratuidade: paciência nos processos, perdão, mais
amor, entrega e serviço em vez de cobranças, exigências e condições para a
relação. Aprenda a se relacionar com elas do jeito que são. Não tente fazer
novas as pessoas. Faça novos acordos. Você vai ver como sua vida vai mudar.
Você também. E os outros também.
Parte 5
Outras coisas
45
O significado do sucesso
Somente quem sabe o porquê da vida é capaz de suportar-lhe o como.
FRIEDRICH NIETSCHE
 
TODAS AS PESSOAS SÃO DIRIGIDAS por alguma coisa. Isto é, todas as pessoas são
guiadas, controladas, direcionadas por alguma força que determina o roteiro de
sua vida. Algumas são dirigidas pela culpa. Outras, pelo medo, pelo
ressentimento e pelo desejo de vingança. Há pessoas dirigidas pelo passado, e
outras, por sonhos de terceiros. Um dos maiores desa�os que devemos encarar
é a descoberta ou a opção a respeito das forças que determinam nossos
caminhos e destinos. Em outras palavras, devemos decidir em razão de que
estamos vivendo.
Na verdade, você pode viver em um de três níveis. O primeiro nível
podemos chamar “sobrevivência”. Nele, a pessoa não vive, apenas existe, e os
dias não passam de uma expectativa da chegada da sexta-feira. O segundo nível
podemos chamar de “sucesso”. De acordo com a cultura e o meio social em
que vivemos, buscamos conforto, prestígio, realização pro�ssional e
relacionamentos satisfatórios. Provavelmente, nesses termos, você possa
considerar-se uma pessoa bem-sucedida. A questão é que você não consegue
responder por que a sensação de que “está faltando alguma coisa”. O que isto
ensina? Ensina que o sucesso, por si só, não satisfaz. Você precisa de algo mais.
Você precisa chegar ao terceiro nível de vida. Além da sobrevivência e do
sucesso, você precisa de signi�cado.
Em minha busca pessoal por signi�cado, encontrei pelo menos três
respostas no Evangelho. Ele me deu uma utopia. Todos nós, cristãos,
esperamos o dia quando a Terra se encherá do conhecimento da glória do
Senhor como as águas cobrem o mar (Hc 2.14). O propósito eterno de Deus é
o estabelecimento do seu Reino, quando pessoas de toda raça, tribo, língua e
nação, compradas pelo sangue do Cordeiro, reinarão com ele no novo céu e na
nova Terra (Ap 5.9-10; 21.1-7).
Mas a utopia do Reino de Deus não me arrebatou da história, num
escapismo escatológico covarde e omisso. Vivo na história com os olhos na
eternidade. Aprendi que os cristãos e a Igreja de Jesus devem sinalizar, aqui e
agora, a maior densidade possível do Reino, que se consumará ali e além, e que
esses sinais históricos são anúncios proféticos que convocam pessoas ao
arrependimento porque o Reino de Deus está próximo (Lc 4.18-21; Mc 1.14-
15).
Neste Reino, encontrei uma vocação. Um lugar especialmente formatado
para mim. Um jeito como Deus decidiu manifestar-se e se expressar no mundo
por meu intermédio. Assim como Paulo, o apóstolo, também tenho uma
carreira (At 20.24) e me alegro em cooperar com Deus (1Co 3.9) em seu
projeto de redenção.
Entretanto, a maior resposta do Evangelho a todos é sempre Jesus. Jesus é
meu Salvador, Libertador e Senhor. Jesus é o meu Deus. Mas Jesus é também, e
principalmente, o meu destino. O Evangelho mostrou-me que o primeiro
propósito de Deus para a minha vida é fazer de mim um homem semelhante
ao seu Filho (Rm 8.28-30. 2Co 3.18; Ef 4.11-13. Cl 1.28). Minha relação com
Jesus implica que um dia serei semelhante a ele (1Jo 3.2), e nesse dia
participarei não apenas de seu Reino, mas também de sua natureza divina (2Pe
1.4).
O Evangelho não diz apenas que estaremos no mesmo lugar que Cristo –
por exemplo, o céu –, mas diz que seremos um com Cristo, em Deus. O
Evangelho não me promete apenas uma nova possibilidade de vida – o Reino
de justiça e paz, por exemplo –, mas antes promete nova dimensão de vida, a
unidade com Deus, onde reside nossa plena satisfação. Esta percepção encheu-
me os dias de expectativas e propósitos. Vivo em rendição ao Espírito de Deus,
que vai me transformando aos poucos no homem que serei na eternidade.
Se alguém perguntar em razão de que estou vivendo, sei como responder.
Espero o novo céu e a nova Terra. Tento viver de um jeito que as pessoas
acreditem que este novo céu e esta nova Terra existem e chegarão um dia.
Enquanto isso, olho para Cristo na esperança de que sua luz brilhe em meus
olhos e que alguns, pelo menos alguns, deem-me as mãos para caminharmos
juntos na mesma direção.
É assim que pratico a de�nição do Catecismo de Westminster, escrito no
século 17: “A �nalidade suprema da vida é glori�car a Deus e alegrar-se nele
por toda a eternidade”. Aspiro ser como Cristo, na esperança do Reino eterno
pelo qual luto na história, glori�co a Deus e me alegro nele aqui e agora.
46
Ford, General Motors e as igrejas
evangélicas no Brasil
Vou construir um carro a MOTOR para grandes multidões. O preço será tão baixo
que todos os que tiverem um bom salário poderão adquiri-lo. O cavalo terá
desaparecido de nossas estradas e o carro será algo corriqueiro.
 
ESSAS PALAVRAS DESCREVEM A VISÃO de Henry Ford. Pragmático, ele colocou
trem de pouso em sua visão e disse como faria para que seu sonho se tornasse
realidade. “A maneira de fazer carros é produzi-los um igual ao outro, igual ao
outro, igual ao outro (...) Quanto menos complexo for o nosso carro, tanto
mais fácil será fabricá-lo, tanto mais barato poderemos vendê-lo e, portanto,
tanto maior o número que poderá ser vendido”.
Ford acertou na mosca. O Modelo T começou a ser produzido em 1908, e
foram vendidos 5.986 carros a um preço de 850 dólares cada. Mas em 1916,
apenas oito anos depois, o custo caiu para 360 dólares e foram vendidos
577.036 carros. Em 1920, 33% das famílias norte-americanas possuíam um
carro. Esta porcentagem subiu para 77% em 1930. Sua estratégia foi perfeita
para um mercado virgem: um carro universal vendido ao menor custo possível.
Ford �cou milionário.
Mas, em 1930, o mercado de automóveis �cou saturado. A Ford tinha de
procurar uma forma de motivar as pessoas a comprar seu segundo carro, mas
Henry Ford �cou preso em sua história de sucesso e não foi capaz de perceber a
mudança no consumidor. Houve um camarada, entretanto, que conseguiu
perceber o novo espírito da época. Alfred Sloan tornou-se presidente da
General Motors em 1923 e criou um dos maiores sucessos da história
empresarial americana e mundial.
A tese de Sloan era oposta à de Ford. Enquanto Ford queria produzir o
mesmo tipo de carro em grande quantidade para garantir um custo baixo,
Sloan resolveu produzir um carro para cada bolso e cada necessidade. Em
outras palavras, inventou a segmentação. Foi a vez de ele acertar na mosca.
Durante os anos 1920, a GM bateu a Ford tanto em participação de mercado
quanto em lucro. Aliás, teve um lucro maior do que a Ford durante mais de
seis décadas ininterruptas, de 1925 a 1986.
Fiquei fascinado com essa história contada por Clemente Nóbrega em seu
livro Em busca da empresa quântica, à luz de estudos feitos por Richard Tedlow,
historiador de negócios de Harvard. Seu paralelo com a história da Igreja no
Brasil é signi�cativo. Observe que, no �m do século 19, ninguém no Brasil
tinha carro, isto é, o Brasil era um mercado virgem para a evangelização de
tradição protestante. Os primeiros missionários invadiram nossa terra com a
proclamação de uma mensagem simples e universal, focalizando a essênciada
conversão a Jesus Cristo, o Filho de Deus Salvador. Logo a Igreja �ncou suas
raízes nesta terra que, “em se plantando, tudo dá”, pois com o Evangelho não
foi diferente, e a semente vingou.
A primeira fase da evangelização do Brasil comportava macroconceitos e um
tratamento razoavelmente uniforme da população que se convertia. Naquele
período surgiram também os grandes blocos denominacionais com suas
distinções claras em termos de ênfase na proclamação (mensagem), formas
litúrgicas (estilos de culto) e estruturas eclesiásticas (sistemas de governo e
participação dos �éis). Em outras palavras, houve um tempo em que as massas
podiam ser tratadas com certa uniformidade, e para elas podiam ser vendidos
poucos modelos de carros. Mas aquele tempo acabou. Quem deseja ainda tratar
a população evangélica como massa uniforme e empurrar-lhe um Evangelho
versão “Modelo T” perdeu o bonde da história. Atualmente, aliás, a a�rmação
“sou evangélico” não diz absolutamente nada pela simples razão de dizer tantas
coisas ao mesmo tempo – coisas, inclusive, contraditórias entre si.
Em termos práticos, o que conta hoje é a a�nidade visionária. Os
fenômenos dos últimos anos no mundo evangélico atropelaram os blocos
denominacionais e criaram um novo paradigma de comunhão. Por exemplo, os
movimentos da missão integral e da espiritualidade, da teologia da
prosperidade e de batalha espiritual, as ondas de igreja em células e o badalado
G12 se espalharam por igrejas locais e conquistaram líderes cristãos,
independentemente de sua identidade (ou falta de identidade) denominacional
(batista, metodista, presbiteriana, entre outras). As iniciativas para a unidade da
Igreja na história recente do Brasil não passam de pretextos para aglutinação de
a�ns com interesses escusos de aproveitamento do mercado evangélico. A
“Igreja Evangélica” é hoje “uma grande Babel que re�ete um espírito de época e
se organiza tal e qual qualquer mercado: pela via da segmentação.
Compete, pois, a cada cristão e líder discernir as vozes e escolher seus guias,
cultivar o respeito mútuo na diversidade, encontrar seus pares para cultivar o
diálogo e, principalmente, redescobrir a singularidade e a entralidade da igreja
local para cumprimento do propósito de Deus: manifestar sua multiforme
graça para que o mundo se encha do conhecimento da glória do Senhor, como
as águas cobrem o mar.
47
Religião e política
O IDEAL DE UM ESTADO TEOCRÁTICO é a pedra no sapato dos projetos políticos
desenvolvidos ao longo da história cristã. Desde a conversão de Constantino e
a consequente identi�cação do cristianismo como “religião o�cial do império”,
passando pela Genebra de Calvino e Farel, as relações entre fé cristã e projetos
políticos visam, via de regra, submeter o Estado à Igreja, fazendo o poder civil
público servir como instrumento facilitador e garantidor da evangelização e/ou
cristianização. A ideia subjacente nesta relação é que “Deus é o Senhor, a Igreja
deseja adorá-lo e o Estado obriga a fazê-lo”, como interpretou o historiador
Seeberg.
Tais ideais estão na origem da Terra Brasilis: o primeiro ato cívico e
governamental realizado em solo brasileiro foi uma missa, e as forças
colonizadoras que atuaram no Brasil foram escandalosamente marcadas pela
catequização. Essa matriz que se propaga desde o século 4 forneceu a base do
catolicismo brasileiro praticado na intercessão entre Igreja Romana e poder
público, na qual os bispos católicos interferiram quase em caráter o�cial nos
rumos do país.
Em resposta ao monopólio católico romano em relação aos fóruns
governamentais e à formação da cultura política brasileira, alimentados pelo
sonho do Estado teocrático e deslumbrados com seu crescimento numérico,
que resulta num signi�cativo contingente eleitoral, os evangélicos colocam as
mangas de fora e começam a acreditar que chegou a nossa vez: é hora, e já é
tarde, de elegermos um presidente da República. Com vitórias signi�cativas nas
urnas nos pleitos eletivos de vereadores, deputados, senadores, prefeitos e
governadores e visibilidade razoável no cenário federal, com uma expressiva
bancada (que já foi chamada “cambada”), as lideranças eclesiásticas se articulam
mais uma vez na pretensão de alçar um evangélico ao cargo máximo da nação.
Ser evangélico, articular uma plataforma política alinhada com lideranças
evangélicas, governar com os evangélicos, conduzir o legislativo de acordo com
os interesses das igrejas evangélicas, lotear o executivo entre os evangélicos,
manipular o judiciário com a ética evangélica, de�nir políticas públicas visando
o favorecimento do avanço evangélico e tantas outras justi�cativas em pauta
não quali�cam nenhuma candidatura à presidência da República. Na verdade,
desquali�cam.
Quando Martin Luther King Jr. escreveu desde Birmingham, a�rmando
que “a injustiça em algum lugar é uma ameaça à justiça em todos os lugares”,
estava fazendo eco às palavras de Abraham Lincoln ao Congresso Nacional
Americano: “Ao dar liberdade aos escravos, estamos garantindo a liberdade aos
que são livres”. Traduzindo e atualizando, podemos compreender que ou o
governo é para todos, por meio de todos, em benefício de todos, mediante a
cooperação de todos, em todos os níveis, ou as bases do totalitarismo estão
de�agradas ou mantidas.
Todo e qualquer discurso totalitário é execrável. Uma sociedade democrática
deve se constituir e desenvolver por meio das tensões e cooperações de todos os
seus segmentos representativos em termos de raças, credos, sexos e classes.
Emilio Monti sustenta que não existe soberania se ela não é exercida pelo
soberano, e não há dúvida de que, no Estado democrático, o uso do termo
“soberano” é sinônimo de “povo”. E o povo não tem cor, ou melhor, tem todas
as cores. Neste caso, devemos fazer coro com Paul Freston, sociólogo cristão,
que a�rma que a tarefa do governo não é implementar a moralidade, mas a
justiça. Podemos ir mais longe e a�rmar que a tarefa do governo também não é
impor uma religião. De minha parte, �caria arrepiado se ouvisse um discurso
político do tipo “espírita vota em espírita”, “agora todo mundo tem de ser gay”,
“os umbandistas merecem isenção �scal”, “é proibido pregar o Evangelho na
televisão”.
Devemos crer que os fóruns legislativos sejam compostos por blocos e
representantes de vários e indistintos setores e segmentos da sociedade civil. É
justo que todos os cidadãos se vejam defendidos nas instâncias normativas da
convivência social. Mas é inadmissível que o Executivo e o Judiciário estejam
comprometidos com quaisquer segmentos da sociedade. A democracia implica
a riqueza produzida justamente compartilhada, a teia cultural diversamente
construída e evidenciada, a cadeia produtiva amplamente socializada.
Quando empunhamos a bandeira da justiça social, levantamo-nos contra
toda e qualquer forma de favoritismo nas relações entre os habitantes da polis.
Defendemos a igualdade de direitos e sustentamos que as autoridades
ordenadas por Deus devem agir como ministros de Deus para o benefício do
cidadão; devem promover o bem e coibir o mal. Não queremos um governo
evangélico – queremos um governo justo. E, ao que tudo indica, justiça e ética
evangélica se largaram as mãos em alguma esquina do passado.
Evidentemente, numa sociedade cada vez mais distante dos ideais de justiça
e ética propugnados pelo cristianismo, também queremos fazer ouvir a voz do
Cristo, que andou por toda parte fazendo o bem. Mas não podemos cair na
armadilha da possibilidade de sermos in�uência entre as forças que constroem
a polis antes de sermos uma cidade edi�cada sobre os montes. Enquanto as
igrejas evangélicas não se estabelecerem como microssociedades alternativas,
jamais poderão pretender se apresentar como alternativas para a sociedade.
Quero crer na possibilidade e na viabilidade de um cristão evangélico na
presidência da República. A�nal, passamos por um mandato exercido sob a
con�ssão do ateísmo (camaleônico, populistamente conversionista, mas, ainda
assim, ateísmo) com Fernando Henrique Cardoso. Presidente evangélico–
quem sabe? Governo evangélico, jamais.
48
Novas doutrinas
“A ESTRATÉGIA DE SEGURANÇA NACIONAL dos Estados Unidos”, documento
divulgado em 17 de setembro de 2002 pela Casa Branca, estabeleceu as novas
diretrizes da política externa e de segurança do país. Mas seus críticos diziam
que se destinava apenas a dar legitimidade ao ataque ao Iraque. Apelidado
“Doutrina Bush”, é composto de oito itens e retoma uma tradição norte-
americana, como a Doutrina Nixon (de julho de 1969).
Inspirados nessa controversa Doutrina Bush, especialistas propuseram novas
diretrizes para onze campos do conhecimento.1 Entre eles, Otavio Frias Filho,
diretor de Redação da Folha, fala de religião e sugere que vivemos tempos de:
 
• pluralismo: “Todos os deuses, todas as crenças, todos os sistemas religiosos
serão aceitos ao mesmo tempo. Como os antigos romanos, toleraremos todos
exatamente por não acreditar a fundo em nenhum deles”;
• misticismo e relativismo: “Gnomos, espíritos, magos, anjos, duendes,
demônios – um cortejo de quimeras extintas pela luz elétrica – ressuscitam,
assim, no ecletismo da nova religião, a mais relativista que já houve, apta a
admitir quaisquer fantasias e ignorar contradições entre elas”;
• fundamentalismo: “A religião passou a fazer parte do sistema geral da
mercadoria. Toda heresia agora é canônica. Dos sistemas religiosos arcaicos,
somente o islamismo ainda resiste como religião tradicional (aquela que é
verdadeira, enquanto as demais são falsas)”;
• um acentuado egoísmo: “No Ocidente, a religião pode até reforçar as
aparências de misticismo, mas seu conteúdo a converteu seja em rede social de
autoajuda, seja em altar solitário do Deus-ego, sempre voltada, porém, ao
mundo material e imediato”, e “onde houver um caldo de cultura reativo à
globalização, a religião continuará a ser excelente veículo para organizar
ressentimentos e dar valor moral à violência”;
• racionalismo, pragmatismo e animismo: “A nova religião é orgulhosamente
irracional, como as tradicionais, mas sua mitologia é cientí�ca, seus propósitos
são práticos e sua natureza é animista.
 
Imaginei qual seria a agenda do atual momento do evangelicalismo no
Brasil: quais seriam os oito pontos de uma eventual “doutrina do movimento
evangélico brasileiro”.
 
1. A proclamação, por palavras e obras, do Evangelho da graça de Deus, a
partir da apresentação da cruz de Jesus Cristo como ponto matricial da
experiência de conexão com o divino, valorizando a dimensão perdão-
aceitação-gratuidade do favor de Deus, em detrimento das forças destrutivas da
competição-segregação, esforço-mérito, frustração-culpa, auto�agelo da vida,
próprias da religiosidade construída na base do pseudopotencial humano.
2. A apologética bíblica em diálogo com as ciências abrangentes (Filoso�a,
Sociologia, Psicologia, Antropologia, Biotecnologia, por exemplo) como
ferramentas paralelas à Teologia, de tal maneira a inserir o cristianismo – e suas
a�rmações da verdade revelada – como força interativa na construção e na
preservação do conhecimento, tendo em vista a demonstração da relevância da
fé cristã para o mundo contemporâneo.
3. A espiritualidade processual, que valoriza a experiência pessoal, a
avaliação sem pressa, a peregrinação paulatina, capazes de harmonizar as
ambivalências e os paradoxos do ser-pessoa, além do cultivo da devoção e da
abertura aos carismas do Espírito, em contraposição à religião
institucionalizada, dogmática e moralista impositiva.
4. A vida em comunidade, que convida ao rompimento com o pnvatismo
subjetivista que estabelece o sucesso individual como alvo da experiência
espiritual e trata Deus não como o �m que promove reconciliação com a
Criação-criaturas, mas como um meio para �nalidades egocêntricas.
5. A revolução do laicato, que promove a derrocada do modelo
hierarquizado ritualístico da vivência da fé e privilegia a ministração do
Espírito Santo na dinâmica da liberdade-mutualidade-ultilidade da
comunidade fraterna – cada um se encontra como protagonista de sua história
e é desa�ado à plena realização a partir da abnegação-renúncia-autodoação.
6. A solidariedade engajada, em que a comunidade cristã se apresenta com
as mãos prontas para o serviço, tendo rejeitado a falácia da necessidade da
inserção da Igreja nas instâncias do poder político estatizante temporal como
caminho de transformação social e expressão da bondade de Deus para com o
humano-próximo.
7. A ética responsável, que extrapola o comportamentalismo e se estabelece
como referência de bem-viver e desenvolve as múltiplas dimensões da
responsabilidade do ser para com Deus, consigo mesmo, o próximo e seu
contexto social-histórico e cultural.
8. A pastoral compassiva, que vai além das rea�rmações da moralidade cristã
e busca caminhos de enfrentamento das di�culdades existenciais, ajuda a
carregar a carga, apresenta-se como parceira e companheira de jugo,
desenvolvendo um projeto de santidade promotor da saúde psico-emocional-
espititual.
 
Evidentemente, a inserção e a relevância da Igreja de Jesus, do movimento
evangélico e da cosmovisão cristã na sociedade brasileira implica processos
absolutamente mais abrangentes do que essas sugestões conseguem abarcar,
mas seja qual for o caminho certamente passará pelo menos perto dessa
tematização. Na verdade, os oito pontos sugeridos são praticamente o
testemunho do caminho pastoral que tento desenvolver em minha própria
comunidade cristã: o Evangelho da graça, a revisão da fé, o aprofundamento da
experiência comunitária, a espiritualidade em detrimento da religiosidade, a
promoção do engajamento de todos, a solidariedade, o serviço, a
responsabilidade ética e o cuidado do rebanho de Deus são os itens essenciais
da minha agenda ministerial.
Em tempos de guerra sem tréguas que a Igreja vem travando desde sua
gênese, e de terrorismo, inclusive interno, que aglutina os grupos radicais de
um lado e de outro, nada melhor do que balizas claras, consenso a respeito do
norte e unidade da militância.
49
Espiritualidade corporativa
A DIMENSÃO SAGRADA DO TRABALHO e das corporações está ganhando a
consciência de pessoas no mundo inteiro. Centenas de artigos e livros que
tratam da “alma da empresa” e discutem a espiritualidade no mundo
corporativo são publicados, e o tema enche páginas dos periódicos
especializados em business. Uma busca na internet para a expressão spirituality
in the marketplace [espiritualidade nos negócios] encontra, em poucos segundos,
a indicação de 460 mil sites. Em fevereiro de 1999, o Fórum Econômico
Mundial, reunido em Davos, na Suíça, dedicou-se a debater “as âncoras
espirituais para o novo milênio”. A Harvard Business School Online a�rmou
que, “de�nitivamente, alguma coisa de natureza não material está agitando o
templo corporativo”.
Nos Estados Unidos, companhias com Taco Bell, Pizza Hut e WalMart
estão contratando capelães que �cam à disposição 24 horas por dia para o
cuidado religioso de seus funcionários, prestando serviços como visitas a
hospitais, cerimônias fúnebres e casamentos, prevenção de estresse e síndromes
nervosas, além de aconselhamento psicológico e apoio espiritual. Em 2003, foi
realizado em São Paulo o seminário Liderança e Espiritualidade Corporativa,
que reuniu executivos de cerca de oitenta empresas de dezoito Estados
brasileiros e divulgou a Conferência Mundial de Espiritualidade nos Negócios,
para atender à demanda de pro�ssionais que buscam caminhos para
desenvolver a espiritualidade no ambiente empresarial.
O pastor Billy Graham a�rmou crer que o próximo grande mover de Deus
na Igreja mundial terá como centro os cristãos em seu ambiente de trabalho.
Não há dúvidas de que as pessoas estão em busca de integrar a dimensão
espiritual da vida ao que fazem durante a maior parte do tempo – o chamado
“trabalho secular”. Há um desejo generalizado de que as atividades pro�ssionais
promovam recompensas espirituais, além de prosperidade material.
Já perdi a conta de quantas vezes ouvi alguns cristãos dizerem que gostariam
de se dedicar mais ao ministério, masse sentem impedidos por causa do
emprego. São pessoas que dizem algo do tipo “meu trabalho é um mal
necessário, pois preciso ganhar dinheiro para pagar as contas, mas não vejo a
hora de poder deixar de trabalhar secularmente para poder me dedicar
integralmente à obra de Deus”. Esse antagonismo,entre o desejo de servir a
Deus e a necessidade de ganhar o pão de cada dia é um velho dilema para
muitos.
Durante muitos anos, compreendi que minha tarefa era inspirar os
“melhores cristãos” à dedicação de corpo e alma na rede de ministérios da igreja
local. Ao lado de uma teologia equilibrada a respeito do sacerdócio universal
dos cristãos e da igualdade da relevância das vocações no Reino de Deus,
minha agenda pastoral visava a um plano de carreira para os que iam chegando
à comunidade: conversão a Jesus, integração no Corpo de Cristo,
aperfeiçoamento pessoal e ministerial, até chegar ao topo do compromisso com
Deus, ou seja, a liderança de um ministério estratégico na estrutura eclesiástica
– de preferência,com dedicação, de tempo, integral e, mais ainda, sem ônus
�nanceiro para a comunidade. Não foram poucas as vezes em que lamentei que
os “melhores crentes” da “minha igreja” estavam servindo a suas empresas ou
sendo absorvidos por suas carreiras pro�ssionais.
Hoje consigo enxergar um pouco melhor esse cenário e perceber quantos
equívocos estão embutidos nessa visão de ministério e compromisso na obra de
Deus. O pior deles, talvez, seja a confusão entre engajamento no Reino de
Deus com serviço na estrutura operacional da igreja, como se o serviço a Cristo
estivesse restrito à comunidade cristã. Para muitos pastores, bons cristãos são
aqueles que servem de mão de obra para seus projetos e sonhos eclesiásticos,
tudo para a glória de Deus, é claro. Mas acredito que o paradigma que
antagoniza ministério com trabalho secular e trata a atividade pro�ssional
como o grande empecilho para o compromisso com o Reino de Deus está
ultrapassado.
Faz tempo que o movimento evangélico levou a espiritualidade para dentro
das empresas. Graças a Deus, são muitos os ministérios que encorajam e
subsidiam o testemunho cristão e visam a promover a evangelização no
ambiente de trabalho e no mundo dos negócios. O Brasil é abençoado por
milhares de cafés da manhã, almoços e jantares promovidos por empresários
cristãos, nos quais o anúncio do Evangelho e a convocação ao discipulado são
feitos com ousadia e entusiasmo, possibilitando conversões genuínas. E a
Igreja, na outra ponta, recebe esse contingente de pessoas já evangelizadas e
também seus recursos, inclusive �nanceiros. Em síntese, são iniciativas que
enxergam o ambiente pro�ssional como campo missionário para fazer
discípulos entre os colegas de trabalho.
Mas há outra maneira de relacionar engajamento no Reino de Deus e
atividade pro�ssional. O trabalho pode ser encarado a partir de, pelo menos,
três funções na vida do cristão. Em primeiro lugar, o trabalho é um ato de
adoração a Deus, uma liturgia que brota do nosso coração em afeto e oferta,
conforme Colossenses 3.24 – “É a Cristo que vocês estão servindo” –, e que
visa a glória de Deus, já que Mateus 5.14-16 frisa que nossas boas obras, vistas
pelos homens, os levam a glori�car nosso Pai.
Em segundo lugar, o trabalho é um caminho para o crescimento pessoal e a
expressão da imagem de Deus em nós, pois herdamos dele o domínio sobre
toda a Criação – e, nesse caso, quanto mais criativos, laboriosos e úteis, mais
cresceremos na experiência do caráter de Cristo.
Finalmente, o trabalho tem a função de cooperar com Deus para colocar
ordem no caos e redimir o universo. Não importa se este serviço é dar
testemunho evangelístico, consertar um automóvel, fazer um parto, dar uma
aula de matemática ou fechar o balanço de uma empresa. Todo trabalho
realizado como serviço a Cristo há que bene�ciar o próximo e funcionar como
sinal do Reino de Deus. A vocação pro�ssional é o contexto prioritário da
maioria absoluta dos cristãos. Logo, a atividade chamada “trabalho secular” não
tem nada de secular, pois é sagrada à medida que distribui amor, bondade,
riquezas e recursos de Deus para todos, por meio de todos.
O bispo sul-africano Desmond Tutu disse que é por meio do trabalho que
nos tornamos cooperadores de Deus. Talvez por essa razão Jesus tenha nos
advertido que o julgamento �nal seria nos termos da solidariedade e da
promoção da justiça, como se dissesse: “Tive sede e você me deu de beber;
fome, e você me deu de comer; estive preso e você me visitou; nu, e você me
vestiu; desabrigado, e você me deu terra para plantar; sem horizontes, e você
deu crédito; oprimido, e você foi meu advogado; era analfabeto e você me
alfabetizou; �quei doente e você me operou; estava na �la e você me atendeu
com dignidade; senti dor e você me sedou; estava desempregado, e você me
deu oportunidade; triste, e você me fez rir; chorando sozinho, e você chorou
comigo”.
50
Estreitar, mas sem perder a largura
“HAY QUE ENDURECERSE, PERO SIN perder la ternura”, disse Che Guevara. De
minha parte, quero parafrasear o líder e apelar, dizendo: “Hay que estrechar,
pero sin perder la anchura” – “É preciso estreitar, mas sem perder a largura”.
Digo isso movido pela sensação de que o caminho estreito proposto por Jesus
está mais estreito do que deveria. A subcultura evangélica consegue propor um
estreitamento além do necessário, provavelmente observando outra máxima de
Jesus, que denuncia aqueles que colocam fardos pesados demais nos ombros
dos �éis, fardos que nem eles mesmos conseguem suportar.
As dimensões deste estreitamento do espaço existencial promovido pela
religião são amplas, gerais e irrestritas. Por exemplo, na arte, nós, evangélicos,
desconhecemos os poetas, não lemos romances, cindimos a arte em profana e
sacra (especialmente na música), desvalorizamos as biogra�as, proibimos o
cinema, não fomos educados para frequentar museus, salas de espetáculos e
apreciar o teatro. Estamos tão ocupados com a vida religiosa que não temos
espaço na agenda para a inserção cultural, nem para produzir, nem para
consumir, nem para apreciar.
No esporte, transformamos os domingos em redomas e disciplinamos
nossos talentos que usam o dia do Senhor para correr atrás do “ovo do capeta”,
supervalorizamos o desenvolvimento espiritual em detrimento do
aperfeiçoamento físico e condenamos qualquer ocupação de cuidado do corpo
como expressão de vaidade ou di�culdade de autoaceitação, coisa de mulher
que vive oprimida pela necessidade de emagrecer. Isso nos faz praticamente
negar os prazeres sensuais, pois não fomos estimulados a degustar um vinho,
relacionamos a santidade mais ao jejum do que à boa mesa, não aprendemos a
dançar e reduzimos a sexualidade à relação pênis-vagina, criando um contexto
onde sexo está ligado à sujeira e pecado, o que resulta numa geração que sabe o
que é transar, mas não sabe o que é fazer amor.
Em relação ao trabalho, somos tímidos, culpamos quem muito se dedica,
tratamos a riqueza como transgressão, tachamos os ricos de “gananciosos”,
vemos o trabalho como competidor em relação ao engajamento ministerial
eclesiástico e desencorajamos aqueles que desejam o progresso pro�ssional e o
sucesso de uma carreira, sob pena de se dedicarem mais ao dinheiro do que ao
ministério. Enxergamos o trabalho apenas como meio de sobrevivência, e não
temos uma pastoral pro�ssional decente que sacralize a vocação. Nas questões
da ética, somos do tipo que diz mais “não” do que “sim”, além de nossa
capacidade de um maniqueísmo de dar inveja a pau de sebo, pois nossas
cinturas não têm jogo. Vivemos num mundo pretensamente preto no branco,
onde não há zonas cinzentas, o que torna desnecessária a �exibilidade nos
posicionamentos e comportamentos.
Em termos de religião, somos fechados ao diálogo, sectaristas, exclusivistas,
temos a verdade e todo mundo em volta tem a mentira. Finalmente, em
relação ao convívio social, isolamo-nos dos familiares não evangélicos, dos
amigos não religiosos, abandonamos os ambientes de convivente; geralmente,
somos antipáticos, nãoentrosados e proselitistas no ambiente pro�ssional.
Mas, justiça seja feita, temos razões de sobra para tal guetização da vivência
da fé. Por um lado, os textos bíblicos mais citados no discipulado cristão
constroem nosso imaginário em oposição ao mundo. O caminho que conduz
ao céu é estreito, e largo é o caminho que leva à perdição (Mt 7.13-14). Quem
deseja seguir a Jesus deve negar assim mesmo e atravessar a vida carregando
uma cruz (Mt 16.24), de modo que, se temos alguma glória, é a glória da cruz,
na qual fomos cruci�cados para o mundo e o mundo para nós (Gl 6.14). Uma
vez convertidos, devemos deixar para trás as coisas velhas e assumir o que
pertence às novas criaturas que estão em Cristo (2Co 5.17). Finalmente, as
enfáticas palavras de João e Paulo: não amem o mundo, não se deixem moldar
pelo mundo (1Jo 2.15-17; Rm 12.1-2).
Além dessa base bíblica, temos ainda boa herança histórica desde os tempos
dos hebreus que deveria ser diferente de todas as outras nações, passando pelo
�asco da capitulação dos cristãos, que deixaram de encarar o mundo como
adversário após a conversão de Constantino, chegando à gênese da
evangelização do Brasil, quando a adesão à fé evangélica implicava também
adesão à cultura norte-americana, que os missionários trouxeram com o Novo
Testamento.
O fato é que, com o mundo, a subcultura evangélica se relaciona a partir de
quatro fundamentos. Em primeiro lugar, o mundo está sob condenação, uma
vez que o Justo Juiz se apressa em bater o martelo no seu cósmico tribunal, o
que justi�ca nossa alienação, pois não podemos �car num ambiente que Deus
vê com maus olhos, até porque este mundo está fadado à destruição, já que
aguardamos uma pátria de substituição.
Mas a experiência espiritual cristã está baseada em outros alicerces. Em
detrimento da condenação, cremos na redenção, pois somos embaixadores não
da alienação, mas da reconciliação, já que nossa mensagem não é de destruição,
e sim de restauração. Isso explica por que não esperamos a substituição deste
universo por outro, mas a consagração de todas as coisas no céu, na terra e
debaixo da terra às mãos do Pai, no dia em que Jesus tiver tudo sob seus pés e,
tendo vencido o último inimigo, a morte, entregar o reino de volta às mãos do
Pai.
Esta percepção alternativa me conduz a outros textos da mesma Palavra de
Deus outrora usada para estreitar nossos limites de existência. Lembro-me de
Tiago 1.16-17, que me ensina que “toda boa dádiva e todo dom perfeito vem
do alto, do Pai das luzes”, de modo que jamais posso atribuir nenhuma coisa
boa à origem diabólica, nem mesmo deixar que ele usurpe o que Deus criou.
Lembro-me de 1Timóteo 4.1-5, que me coloca diante do desa�o de receber
tudo com ações de graças, reconhecendo que Deus é a fonte de tudo quanto é
digno e valoroso no planeta e na história. Assim, posso compreender Romanos
11.36, que me faz entregar o mundo a quem de direito e a viver consciente de
que Deus só será honrado quando recebermos tudo dele, experimentarmos
tudo em comunhão com ele e dedicarmos tudo a ele, pois dele, por ele e para
ele são todas as coisas. Somente assim consigo fazer tudo para a glória de Deus:
comer, beber, trabalhar, me divertir e tudo o mais, conforme 1Coríntios 10.31.
51
A graça comum, a imago Dei e a MPB
DE VEZ EM QUANDO, ALGUÉM ME pergunta por que não tenho um programa de
rádio e televisão. Geralmente apresento minhas respostas evasivas, comentando
a respeito de custos, prioridades ministeriais e pessoais ou coisas do tipo “ainda
não chegou a hora” (que nem sei se chegará um dia) – o que, no �m, deixa-me
com a sensação de que meus inquiridores nunca saem muito convencidos. A
verdade é que há muito tempo guardo no coração o formato de um programa
que chamo “a face de Deus na cultura brasileira”.
A inserção evangélica no debate cultural da sociedade brasileira é um desa�o
extraordinário. Isto implica a busca sem tréguas de uma tematização relevante;
uma linguagem compreensível para os leigos em Teologia Cristã, sem histórico
religioso evangélico; uma abordagem eclética, não preconceituosa, inclusiva,
não sectária; uma abertura para chamar “irmãos” as pessoas que a maioria dos
irmãos não receberia na mesa da eucaristia; a disposição de aprender e ser
enriquecido com a experiência daqueles que chamamos incrédulos-perdidos-
pagãos, e um esforço de leitura e pesquisa além das fronteiras das editoras
cristãs e dos livros norte-americanos-eclesiástico-religiosos.
Duas bases teológicas da tradição reformada deveriam ser oferecidas como
fundamento para este diálogo com a cultura e seus artesãos: a graça comum,
que incluiu, sob a bondade, o governo e a instrumentalidade de Deus, aqueles
que ainda não o conhecem ou com ele se relacionam em termos eventuais e
genéricos, à parte do conhecimento e do compromisso com o todo da
revelação bíblica; e a imago Dei, que faz de todo ser humano, indistintamente,
portador dos sinais do Espírito-espírito e capaz de expressar o ético e o estético
divinos, além de conviver com a nostalgia do paraíso perdido. Essa nostalgia é a
primeira pregação do Evangelho que todo mortal ouve em sua consciência –
por sua vez também expressão sagrada do Deus que a todos busca em amor,
esse Deus que a todos permite que andem por seus próprios caminhos sem,
contudo, deixar de lhes fazer o bem, dar a chuva e as colheitas, encher seus
corações de fartura e alegria (At 14.16-17).
Escolhi três gênios da música popular brasileira para ilustrar minha ideia de
um programa de rádio ou televisão que gostaria de fazer: Milton Nascimento,
Chico Buarque e Lulu Santos. Convido você a saborear algumas colheradas de
sabedoria e súplicas do coração humano que arde de saudade de Deus.
 
Caçador de mim
Milton Nascimento
 
Por tanto amor, por tanta emoção A vida me fez assim
Doce ou atroz, manso ou feroz
Eu, caçador de mim
Preso a canções, entregue a paixões Que nunca tiveram �m Vou me encontrar, longe
do meu lugar Eu, caçador de mim Nada a temer senão o correr da luta Nada a fazer
senão esquecer o medo Abrir o peito à força numa procura Fugir das armadilhas da
mata escura Longe se vai sonhando demais Mas aonde se chega assim?
Vou descobrir o que me faz sentir Eu, caçador de mim
 
Caso pudesse conversar com Milton, perguntaria coisas do tipo: “Onde foi
que você se perdeu para que precise procurar por si mesmo?”; ou: “O que você
entende por mata escura, e que armadilhas existem nessa busca do ser humano
por si mesmo?”.
Imagino que poderíamos enveredar numa conversa a respeito do arquétipo
judaico-cristão de Adão e Eva, que se perderam, esconderam-se e foram
expulsos do jardim. “Seria o afastamento de Deus a razão pela qual todo ser
humano busca se encontrar? Será que o encontro da pessoa consigo não deveria
ser precedido pelo encontro com o divino? Não seria verdade que a salvação de
que tanto se fala é uma dupla reconciliação, da pessoa com Deus e consigo, e
que uma não existe sem a outra? Será que mata escura é o oposto de jardim?
Você acredita mesmo que não existem gente boa e gente ruim, e que todo
mundo é, ao mesmo tempo, manso ou feroz, doce ou atroz? O encontro com o
divino reconcilia essas contrariedades interiores que fazem de nós caça e
caçador? Aliás, não seria o divino em nós o grande caçador? Ou o divino é a
caça?”
 
Minha história
Chico Buarque
 
Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar Eu só sei que falava e cheirava e
gostava de mar Sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente E minha mãe
se entregou a esse homem perdidamente Ele assim como veio partiu não se sabe pra
onde E deixou minha mãe com o olhar cada dia mais longe Espetando, parada,
pregada na pedra do porto Com seu único velho vestido, cada dia mais torto
Quando en�m eu nasci, minha mãe embrulhou-me num manto Me vestiu como se
eu fosse assim uma espécie de santo Mas por não se lembrar de acalantos, a pobre
mulher Me ninava cantando cantigas de cabaré Minha mãe não tardou alertar toda
a vizinhança A mostrar que ali estava bem mais que uma simples criança E não sei
bem se por ironia ouse por amor Resolveu me chamar com o nome do Nosso
Senhor Minha história e esse nome que ainda carrego comigo Quando vou bar em
bar, viro a mesa, berro, bebo e brigo Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo
e de cruz Me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus A conversa com Chico
seria um pouco mais pesada. Estaria ele sugerindo que o cabaré é a estrebaria
contemporânea? Caso Deus estivesse encarnando hoje e tomando sobre si todas as
mazelas da raça humana, será que escolheria identi�car-se com ladrões e amantes de
corpos e copos? Será que essa vida de amores errantes, ilusões e esperas, fugas por
meio de bebedeiras, mesmice e futilidade de calçada de bar é uma versão de cruz, e
que aqueles cuja vida tem apenas esses horizontes não são protagonistas de mau-
caratismo, mas vítimas de niilismo existencial? Haveria a sugestão de que estamos
condenados a esperar pelo redentor na beira do cais, enquanto vamos �cando cada
vez mais degenerados, degeneração esta simbolizada no corpo que vai envelhecendo,
perdendo a silhueta atraente e deixando o vestido torto? Ou seria verdade que esta
degeneração ocorre quando colocamos a esperança no redentor errado?
 
A cura
Lulu Santos
 
Existirá, em todo porto tremulará (se hasteará) A velha bandeira da vida Acenderá
todo farol iluminará
Uma ponta de esperança
 
E se virá, será quando menos se esperar De onde ninguém imagina Demolirá, toda
certeza vã, não sobrará Pedra sobre pedra Enquanto isso não nos custa insistir Na
questão do desejo não deixar se extinguir Desa�ando de vez a noção Na qual se crê
que o inferno é aqui
Existirá
E toda raça então experimentará Para todo o mal, a cura
Com o Lulu Santos eu começaria logo perguntando que mal é esse que faz a
raça esperar a cura? Gostaria de saber de onde vem a cura, quem é o portador
da bandeira da vida, quem vai hasteá-la? Aliás, por que “velha bandeira”? Será
que se trata de uma bandeira conhecida que sumiu dos portos e apagou a luz
da esperança? Quando foi que ela deixou de tremular? Quem a tirou de seu
lugar? Imagino uma boa conversa a respeito do desejo no qual se deve insistir, e
certamente acordaríamos a respeito do fato de que o inferno não é aqui. Não
sei aonde chegaríamos à discussão quanto ao lugar ou à dimensão do inferno,
isto é, onde e como é este “ali”? Não tenho a menor dúvida de que teríamos
um papo maravilhoso.
Agora me bate o desespero ao lembrar que o Mário Prata decidiu responder
às questões de um exame vestibular que tratava da interpretação dos seus textos
para ver como se sairia. Teria sido reprovado. Fico a pensar se os gênios citados
não se ririam de minhas lucubrações em torno de suas palavras. Minha única
saída seria argumentar que todo texto é polissêmico, e que escrever implica
repartir convicções, incluindo o leitor nas conclusões, especialmente quando a
palavra é poesia, coisa do coração.
Uma coisa é certa: já me dou por satisfeito por tentar. Tentar abrir a
conversa, enxergar por cima dos muros que me separam da minha cultura,
meus poetas, minhas canções. Tentar me aproximar das pessoas como humano
cujo coração também clama por sentido e signi�cado, em vez de me apresentar
como clérigo, dogmático, detentor da verdade e guardião das relações com
Deus. Talvez, um dia desses, você me encontre na tela da TV batendo um papo
com Gabriel Pensador. Certamente estaríamos a debater a pergunta que ele fez
em uma de suas canções: “Se Deus é justo, quem fez o julgamento?”.
52
Dai a César o que é de César
ADMITO. NÃO ENTENDO NADA DE economia e macroeconomia. Não entendo
nada da legislação tributária do país. Não sei direito quantos e quais são os
impostos pagos pelos cidadãos brasileiros. Ouço falar em reforma �scal e
tributária, mas não faço ideia do que deve ser feito. Presto atenção no
noticiário e faço cara de inteligente enquanto os comentaristas falam de
variação cambial e taxas de juros. Sei apenas que o jogo econômico faz crescer
ou diminuir a produção industrial, o poder de compra da população, os níveis
de importação e exportação, o incrementar do capital estrangeiro e movimenta
a tal balança comercial, que não faço ideia de onde �ca, sobre o balcão de
quem está, nem mesmo se está viciada.
Mas também admito que sei algumas coisas. Sei, por exemplo, que a carga
tributária do Brasil é uma das maiores do mundo. As empresas brasileiras
recolhem aos cofres públicos até 37% do resultado �nal de suas operações. Os
analistas internacionais dizem que qualquer taxa acima de 30% é con�scatória,
isto é, um eufemismo para o governo meter a mão no que não lhe pertence.
Também sei que os governos federal, estaduais e municipais nos dão a
impressão de ter celebrado um pacto contra o empreendedorismo no Brasil.
Está na boca do povo que o funcionalismo público é mestre em “criar
di�culdades para vender facilidades”, e quase nada neste país anda sem pistolão
ou corrupção. Isso sem falar na confusão das legislações entre as diversas
instâncias de arrecadação, o chamado “custo do custo”, que obriga o
empreendedor a pagar os tributos e a sustentar a máquina que possibilita a
arrecadação.
Sei também que a produção é taxada acima das taxas do capital (37%
contra 17%), o que onera o setor produtivo e estimula a especulação,
principalmente dos endinheirados estrangeiros. Sei que muita gente opta por
burlar as leis trabalhistas, num acordo de cavalheiros entre patrões e
empregados segundo o qual se torna conveniente para ambos o trabalho sem
carteira assinada: o patrão paga menos e o empregado, em tese, recebe mais. Os
impostos sobre as folhas salariais no Brasil são menores apenas que os da
Dinamarca, duas vezes maiores do que os dos Estados Unidos e três vezes
maiores do que os do Japão.
Sei que muitos brasileiros subsistem da economia informal, que representa
perto de 40% do PIB do país. Isso signi�ca que as empresas que cumprem suas
obrigações legais competem em absoluta desvantagem, e parece que isso vai
perdurar por muito tempo. Sei ainda que a indústria da corrupção e o
fenômeno do “por fora” movimentam boa parte dos negócios neste país. As
famosas comissões estão embutidas no custo das operações e no orçamento de
inúmeras empresas, inclusive multinacionais, que aos poucos foram
aprendendo a ganhar dinheiro fazendo negócios do jeito dos brasileiros.
Certo dia fui procurado por um empresário cristão com um dilema de
consciência. Participando de uma licitação com um governo estadual, estava
diante da possibilidade de colocar no bolso quase três milhões de dólares. O
embaraço era que deveria devolver um milhão a título de contribuição para o
caixa de campanha do partido do governador. O raciocínio era o seguinte: algo
que poderia custar ao governo três milhões (considerando justa a operação)
custaria quatro milhões, sendo que a diferença iria para o bolso do político de
ocasião. Resultado: o contribuinte pagaria a conta, isto é, eu e você pagaríamos
a conta. Aliás, sei que estou pagando essa conta faz tempo, mas não sei quanto,
onde e para quem. Mas quando chega ao meu colo a informação de que estou
sendo usurpado, lesado e desrespeitado pelo meu governo, e tenho diante de
mim um empresário me perguntando se posso dar meu aval pastoral, é sinal de
que chegamos ao fundo do poço.
Recentemente, recebi orientação de dois consultores �nanceiros que me
recomendaram fazer uma previdência privada fora do país, o que implicaria
deixar de declarar os valores no meu imposto de renda. Com isso, escaparia da
tributação, que me disseram chegar a 27% do valor investido, e protegeria meu
patrimônio. Uma proposta explícita de sonegação motivada pela louvável
preocupação com o meu futuro e de minha família.
Admitidas minhas ignorâncias e supostas ou possíveis sapiências, a�rmo
minha ingênua convicção: pagar impostos é participar da distribuição de renda
e exercer de maneira responsável a cidadania. Expliquei a minha �lha que o
dinheiro que a nossa família entrega ao governo como imposto é transformado,
por exemplo, em educação, saúde e habitação: escolas e universidades,
hospitais, casas populares.É com esse dinheiro que o governo libera crédito
para os pequenos empresários e produtores rurais, promove o desenvolvimento
das regiões mais carentes do país e desenvolve programas assistenciais. Fiz um
discurso abnegado, dizendo aos meus �lhos que as classes mais favorecidas
devem se resignar a ganhar menos para que os pobres, os miseráveis e excluídos
possam receber melhor cuidado, sendo conduzidos a condições mais dignas de
vida.
Tenho um amigo que deve pagar o adicional do Imposto de Renda. Serão
seis cotas cujo valor é su�ciente para sustentar três brasileiros com salário
mínimo durante um ano. Pagar os impostos, mesmo com a consciência de que
tem gente inescrupulosa pondo no próprio bolso esse dinheiro sagrado;
recusar-se a entrar no jogo da corrupção, mesmo correndo o risco de não
fechar negócios; e entregar sempre o melhor produto e serviço para o cliente –
esta é a maneira cristã de participar do mercado e cooperar com Deus para
colocar ordem no caos: sinalizar o Reino.
Creio que o dinheiro depositado nos cofres públicos é tão sagrado quanto o
dinheiro depositado nas urnas das igrejas, em ofertas a Deus. Um é o dízimo
da cidadania, e o outro, o dízimo da vida cristã, e ambos, o dízimo da
fraternidade universal, na qual Deus é Pai nosso. Tanto um quanto o outro
viabilizam a economia nos termos do Reino de Deus. E, para falar a verdade,
mesmo pagando os impostos e deixando de ganhar o que poderia, por me
recusar a determinadas práticas consideradas comuns no mercado, vivo
economicamente muito melhor do que a maioria esmagadora dos brasileiros.
Jamais poderia justi�car a sonegação e a transgressão como meio de
sobrevivência (se é que assim se poderiam justi�car), mas como ganância.
As regras do jogo precisam ser mudadas, e todos e cada um dos cristãos
devem atuar contribuindo para tais mudanças. Mas, enquanto não mudam,
que sejam respeitadas. Isso é democracia. Isso é respeitar o estado de direito.
Isso é ser cidadão. Qualquer um que se recuse a dar a César o que é de César é
réu de sublevação, conspira contra a ordem social e compromete o
desenvolvimento e o progresso da sociedade rumo à liberdade responsável de
seus cidadãos e suas instituições. Qualquer um que se submeta cegamente ao
César de ocasião e perpetue as regras que promovem a injustiça e a
impunidade, a usurpação do direito e o desrespeito à dignidade humana é réu
de traição do Reino acima de todos os reinos, a saber, o Reino de Deus. Deve
aguardar, tão certo como o sol se levanta sobre a terra, que do céu se manifeste
a ira de Deus sobre toda impiedade e injustiça entre os homens.
53
O sentido do trabalho
CANSO DE OUVIR PESSOAS RECLAMAREM que suas atividades pro�ssionais as
impedem de “servir a Deus”. Certo dia, conversava com o diretor comercial de
uma multinacional que me dizia que, sendo bem honesto, ele trabalhava para
ganhar dinheiro para o acionista e corria atrás das metas por causa do bônus do
�m do ano. A conclusão dele era a de que essa conversa que procura aplicar um
verniz de nobreza sobre a selvageria das relações de mercado é pura enganação,
maquiagem, discurso para apaziguar consciência. Não me conformei com o
veredito, mas me solidarizo com os camaradas que estão estressados pela
correria atrás de resultados, entediados com intermináveis reuniões de blá-blá-
blá, frustrados com a incompetência do chefe, desanimados porque chegaram à
idade que limita sua ascensão na empresa e diminui suas chances no mercado
ou que foram injustiçados por uma política interna da companhia, decidida lá
do outro lado do mundo.
Tem também aquela dos três operários que tiveram de responder a um
passante o que estavam fazendo. O primeiro disse: “Estou assentando tijolos”.
O segundo: “Estou correndo atrás do leite das crianças”. E o terceiro foi bem
mais longe: “Estou construindo uma catedral”. Verdade verdadeira: quanto
mais abrangente a consciência a respeito do seu trabalho, mais dignidade e
motivação você encontrará nas tarefas do dia a dia. A Bíblia conta a história de
Jacó, que trabalhou catorze anos para o sogro em troca da autorização para se
casar com Raquel – vai ser apaixonado assim lá na Bíblia! Nietzsche tinha
mesmo razão quando disse que “somente quem sabe o porquê da vida é capaz
de suportar-lhe o como”.
O segredo é encontrar um sentido para o trabalho. A atividade não pode ser
a �nalidade. Gosto de acreditar que trabalhar é cooperar com Deus para
colocar ordem no caos – imagine como seria o mundo sem o trabalho daqueles
que limpam as galerias de esgoto da cidade (aliás, não precisa imaginar, basta
visitar São Paulo numa tarde de chuva forte). Trabalhar é cooperar com Deus
para tornar o mundo habitável, mais justo, mais fraterno, mais solidário, isto é,
o mais parecido possível com o paraíso. Utopia? Claro. Mas é bom que sejamos
movidos por utopias. As alternativas são o niilismo, o cinismo ou algo pior.
Gosto também de acreditar que o trabalho é uma experiência de
autodesenvolvimento, coisa que disse o Vinícius de Moraes: “O operário faz a
coisa, e a coisa faz o operário”. Trabalhar é expressar talento, canalizar aptidão
de maneira útil, fazer algo que presta para um montão de gente, o que dá
aquela maravilhosa sensação de “eu faço diferença”.
Enquanto vamos transbordando para o mundo por meio do fruto do nosso
trabalho, vamos nos conhecendo, aprendendo a nos dominar, desenvolvendo-
nos emocional, intelectual e espiritualmente. Eu �caria orgulhosíssimo de ouvir
uma mulher dizer: “Meu marido melhorou muito desde que começou a
trabalhar como senhor, é mais paciente com os meninos e parou de beber”. Ou
então imagine aquela mãe cumprimentando você no dia da festa de �m de ano:
“Doutor, obrigado; meu menino é outra pessoa desde que veio trabalhar no seu
escritório”
O maior fruto do seu negócio é o tipo de gente que coloca na sociedade,
incluindo você mesmo. O trabalho que não me faz melhor não me serve. O
ambiente pro�ssional que não alavanca biogra�as ainda está aquém de meu
potencial pleno de produtividade. Mas, �loso�a à parte, o negócio é o seguinte:
é negócio mesmo. Apesar da beleza dos conceitos “trabalho e utopia”, “trabalho
e justiça social”, “trabalho e desenvolvimento pessoal”, no fundo a maioria
trabalha mesmo é para ganhar dinheiro. Convenhamos que é muito difícil
passar a tarde atrás de um guichê e na frente de uma �la que se arrasta e fazer
isso acreditando que a sociedade �cará mais justa quando a �la acabar, ou que
você vai embora para casa mais gente do que quando assumiu o balcão. Fale a
verdade: imagine-se dando uns rapinhas no ombro dos camaradas que estão
atravessando a garagem com uma geladeira pendurada no cinturão: “Parabéns
pessoal, quando vocês chegarem ao 14o andar serão homens muito melhores”.
Chegamos a uma encruzilhada. Não podemos abrir mão da dimensão que
alinha o trabalho e a vida pro�ssional com nossas crenças e valores mais
profundos. Mas não são raras as vezes em que não conseguimos enxergar
nenhuma relação entre o que fazemos durante a maior parte do nosso tempo
acordado com aquilo que realmente importa. Depois de alguns anos
conversando com pessoas que chegaram neste impasse, cheguei a algumas
conclusões.
Uma delas é que o signi�cado do trabalho e da atividade pro�ssional não
está necessariamente na atividade essencial que o de�ne. O signi�cado do
trabalho não está necessariamente em atender a �la, redigir uma petição,
planejar o lançamento de um novo produto, restaurar um dente ou dar uma
aula de matemática. Evidentemente, o mundo seria um caos se essas e milhões
de outras coisas não fossem feitas. Mas o segredo não está necessariamente na
atividade. É claro que algumas pessoas conseguem ver suas atividades e as ações
que de�nem a essência de seu trabalho como um �m em si, mas se não é o seu
caso, nem tudo está perdido, pois o segredo não está no que você faz, mas
também, e, principalmente, como você faz, o ambiente onde você faz, as
pessoas com quem você faz, as recompensas que você alcança depois que faz.
É possível que o camarada chegue em casa quebrado e digaà esposa que
passou o dia todo carregando caminhão. Mas também é possível que chegue a
casa e diga que, enquanto carregava caminhão, pôde conversar com o Carlão,
“que tá de cabeça cheia e �cou dois dias no bar, e eu falei para ele sair dessa
vida”. É possível que a mulher chegue em casa exausta e resmungando daquelas
pessoas que demoram vinte minutos para pagar uma conta de luz e nunca
ouviram falar em débito automático. Mas também pode chegar em casa e
contar que a �lha da Ritinha está grávida e o marido, desempregado, e que ela
chamou todo mundo para o almoço do sábado, “já que os meninos estão
viajando mesmo, podemos fazer um agrado pra Ritinha, que nos ajudou muito
quando sua mãe tava no hospital”.
Imagine como �ca diferente quando o seu Pedro chega no �m de semana e
diz que as duas horas a mais que trabalhou por dia no táxi valeram a pena, e
que vai dar para fazer a festinha de um ano do netinho. Ou então quando o
Paulo Roberto desabafa com o pai, dizendo que a empresa não remunera tão
bem, mas que a chance de fazer o MBA e a oportunidade de trabalhar com o
dr. Estevão são impagáveis.
Então, a coisa é a seguinte: de vez em quando, você tem certeza de que está
construindo uma catedral; outras vezes, está apenas assentando tijolos; e na
maioria das vezes está defendendo o leite das crianças e uma aposentadoria
confortável. Mas qualquer que seja sua atividade pro�ssional e seu ambiente de
trabalho, sempre é possível fazer as coisas com integridade e qualidade,
expressar talentos e canalizar capacidades de maneira útil, visando a bene�ciar
o maior número possível de pessoas, cultivar relacionamentos bons e
agradáveis, praticar a camaradagem e desenvolver amizades profundas e
duradouras, aprender alguma coisa, crescer como gente e se aperfeiçoar como
pro�ssional, somar recursos e amealhar riquezas que poderão ser desfrutadas e
compartilhadas. Basta levantar os olhos dos fatos e das atividades tangíveis e
visíveis, pois como Einstein fez questão de registrar no aforismo a�xado na
parede de seu gabinete: “nem tudo que conta pode ser contado, e nem tudo
que pode ser contado conta”.
54
O monge e o executivo
ESTE É O TÍTULO DE UM LIVRO de sucesso no mundo corporativo, escrito pelo
consultor norte-americano James Hunter e com mais de cem mil exemplares
vendidos no Brasil. Ele conta a história de um executivo que busca respostas
para seus problemas pessoais e pro�ssionais num mosteiro beneditino.
Publicado em 1998 com o título original �e servant [O servo], defende que
“liderar é servir”.
O fenômeno foi capa da revista Você S.A. No livro, o líder é apontado como
alguém ético que serve à equipe, em vez de ser servido. Segundo a reportagem,
ele coopera com os colegas, não tem vergonha de dizer que precisa da equipe
para crescer e, pasmem, é espiritualizado. O que chama a atenção é a distinção
que se faz entre religiosidade e espiritualidade, esta última de�nida como
capacidade de pensar, sentir e agir com base na crença de que existe algo maior
do que os aspectos materiais. “É uma postura de vida, não envolve rituais”, diz
o texto. “Tem elementos comuns a todas as religiões, como amor, esperança,
liberdade, igualdade”.
James Hunter foi entrevistado e contribuiu com algumas pérolas baseadas
no modelo de liderança de Jesus. Por exemplo: “As pessoas devem seguir você
de livre e espontânea vontade. Isso signi�ca liderar baseado na autoridade, e
não no poder”; e também que “muitas vezes, as organizações usam apenas as
pernas, os braços e as mãos dos funcionários. Neste caso, a empresa conta com
eles do pescoço para baixo. Para ser bem-sucedida, é preciso contar com os
funcionários do pescoço para cima”.
Uma pesquisa do Instituto Gallup apontou que “dois terços dos
funcionários que deixam seus empregos, na verdade, estão se demitindo de seus
chefes, e não das empresas”. O trecho do qual mais gostei trata da relação de
amor no trabalho: “Nós associamos essa palavra [amor] a sentimento. Mas o
que importa é o comportamento. O verdadeiro amor signi�ca servir
espontaneamente o outro e ajudá-lo a ser o melhor que ele pode ser. Este é o
grande teste da liderança. Quando as pessoas partem, elas estão melhores do
que quando chegaram? Desenvolveram-se? São pro�ssionais melhores? Ajudá-
las a fazer isso exige amor – o que não signi�ca ser bonzinho. Algumas vezes,
amar signi�ca abraçar. Em outras, bater. É isso que precisamos entender. Amar
é uma escolha”.
A proposta do “líder servo”, baseada no modelo de liderança de Jesus, não é
nova. Foi desenvolvida por Bill Hybels, Ken Blanchard e Phil Hodges em
Liderando com a Bíblia, e também por Gene Wilkes em O último degrau da
liderança, entre outros autores. Espiritualidade no ambiente de trabalho é um
dos temas do momento. As pessoas desejam mais do que a remuneração no �m
do mês. Desejam alinhar sua atividade pro�ssional com seus valores mais
profundos, experimentar a sensação de fazer a diferença, encontrar um sentido
perene para o trabalho e vivenciá-lo como caminho de amadurecimento e
realização pessoal.
Como disse o teólogo Leonardo Boff:
 
A espiritualidade está relacionada com aquelas qualidades do espírito humano, tais
como amor e compaixão, paciência e tolerância, capacidade de perdoar,
contentamento, noção de responsabilidade, noção de harmonia, que trazem
felicidade tanto para a própria pessoa quanto para os outros. [...] Há dentro de nós
uma chama sagrada coberta pelas cinzas do consumismo, da busca desenfreada de
bens materiais, da compra, do negócio e do interesse. As cinzas de uma vida
distraída das coisas essenciais. É preciso remover tais cinzas e despertar a chama
sagrada. E então irradiaremos. Seremos como o Sol.
 
Então já não basta cumprir horários, desempenhar funções e realizar tarefas.
Queremos trabalhar em “ambientes espirituais”, sacudir as cinzas e expressar
nossa chama sagrada, curtir a felicidade coletivamente. Imaginei um encontro
com esses consultores de espiritualidade-trabalho-negócios, no qual
pudéssemos oferecer nossas comunidades cristãs como espaço para seminários
vivenciais voltados a executivos e pro�ssionais liberais que desejassem se
aperfeiçoar na liderança espiritual e aprender como ser um líder servo. Mas
confesso que não sei se daria certo. Suspeito que nossos bastidores eclesiásticos
e nossas “empresas cristãs” não diferem muito da selva que é o mundo dos
negócios e os departamentos de qualquer empresa secular – competição desleal,
fraudes contábeis, puxadas de tapete, sonegação, plágios, informalidade,
inadimplência e outros horrores fazem parte do nosso dia a dia.
Além disso, temos ambientes nocivos, construídos por pessoas que
escondem sua incompetência atrás de uma falsa espiritualidade. É gente que
tenta amenizar as exigências das relações pro�ssionais confundindo “cliente”
com “irmão”, e acredita que tem licença para o destrato, a estupidez, a falta de
educação e a negligência, tudo em nome do perdão. Também conhecemos
líderes despóticos, cujas igrejas são negócios de família. Eles leem a cartilha de
Maquiavel mais do que a Bíblia e usam os mesmos chavões gospel-
espiritualoides para explorar, remunerar mal, abusar emocionalmente, usurpar
direitos e injustiçar seus funcionários.
Fiquei imaginando os modernos consultores numa reunião de presbitério
ou diretoria de uma igreja local, em que os líderes oriundos das famílias
fundadoras da instituição lutam pela manutenção do seu poder em detrimento
das lideranças emergentes. Fiquei imaginando as centenas e milhares de igrejas
e impérios eclesiásticos liderados com mão de ferro por um homem (ou
mulher) só. Concluí que talvez fosse mais adequado contratar o James Hunter
como consultor do que oferecer nossas comunidades como parceiras do
processo de desenvolvimento de uma liderança e�caz para a sociedade
brasileira.
Sobre o autor
ED RENÉ KIVITZ É TEÓLOGO, escritor e palestrante. É fundador e diretor da
Galilea – Consultoria e Treinamento, que divulga a tradição de espiritualidade
judaico-cristã, visando a contribuir para o desenvolvimento da pessoa e paraa
promoção da paz e da justiça social. Desde 1989 desenvolve sua atividade
pastoral na Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo. É casado com Silvia
Regina e tem dois �lhos, Fernanda e Vitor.
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Talmidim
Kivitz, Ed René 9788573258530
384 páginas
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Na Galileia do tempo de Jesus, os meninos em Israel iniciavam seus
estudos da Torá aos 6 anos. Aos 10, quando completavam o
primeiro estágio, a escola primária, chamada Beit Sefer, já tinham a
Torá decorada. Apenas os alunos que se destacavam seguiam para
a escola secundária, Beit Talmud, e mergulhavam no restante das
Escrituras e na tradição oral dos rabinos e suas muitas
interpretações e aplicações da Torá. Aos 14 e 15 anos, somente os
melhores entre os melhores estavam estudando, geralmente aos
pés de um rabino famoso e respeitado. Esses pouquíssimos
meninos da elite intelectual de Israel eram chamados talmidim (do
hebraico: talmid, discípulo; talmidim, discípulos). Apesar de ser
considerado um rabino marginal, não reconhecido formalmente
pelas autoridades religiosas de seu tempo, Jesus de Nazaré
também tinha seus discípulos e seguidores, seus talmidim. Este livro
apresenta a essência da mensagem de Jesus aos seus talmidim de
ontem e de hoje.
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	Palavra do editor
	Apresentação
	Introdução
	Parte 1. Outro cristianismo
	1. Ser cristão
	2. Amizades espirituais
	3. Pastores de ontem e de hoje
	4. Auditórios manipuláveis
	5. Evangelização contextualizada
	6. Santo remédio
	7. Bandeiras antigas
	8. Ladeira abaixo
	9. Pastores e pastores
	10. Missão integral – Uma síntese
	11. As verdades de Norton
	12. Até quando
	13. A espiritualidade na pós-modernidade
	14. Um convite à oração
	Parte 2. Outra igreja
	15. O Evangelho da graça de Deus
	16. Construir comunidades
	17. As marcas da institucionalização da Igreja
	18. Novos paradigmas para a Igreja
	19. O sol e a peneira
	20. A Igreja relevante na pós-modernidade
	21. O poder de uma visão
	22. Obsolescência
	23. Você também tem razão
	24. Um sonho de igreja
	25. Igreja: organismo e organização
	26. A cidade edificada sobre o monte
	Parte 3. Outro céu
	27. O cristão e o código de barras
	28. Só Cristo salva
	29. O que é pecado?
	30. A morte lhe cai bem
	31. Pontos de chegada
	32. Dr. Jekyll e Mr. Hyde
	33. Paradigmas de sucesso
	Parte 4. Outra fé
	34. Vivendo com propósitos
	35. Sal da Terra e luz do mundo
	36. Felicidade não é um lugar aonde se chega
	37. Os brasileiros e sua fé
	38. Ressurreição
	39. Coisas ruins acontecem às pessoas boas
	40. Deus conosco
	41. A fé que eu quero
	42. A tirania da felicidade
	43. O Deus bailarino

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