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Publisher: Fabio Carvalho
VICTOR CIVITA 
(1907-1990)
 
Fundada em 1950
ROBERTO CIVITA 
(1936-2013)
 
Diretor de Redação: Mauricio Lima
CO-CEO Francisco Coimbra, VP DE PUBLISHING (CPO) Andrea Abelleira, VP DE TECNOLOGIA 
E OPERAÇÕES (COO) Guilherme Valente, DIRETORIA FINANCEIRA (CFO) Marcelo Shimizu, 
DIRETORIA DE MONETIZAÇÃO, LOGÍSTICA E CLIENTES Erik Carvalho
VEJA 2 890 (ISSN 0100-7122), ano 57, nº 17. VEJA é uma publicação semanal da Editora Abril. Edições anteriores: 
Venda exclusiva em bancas, pelo preço da última edição em banca mais despesa de remessa. Solicite ao seu jornaleiro. 
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Zanobia, Lucas Henrique Pinto Mathias, Luiz Paulo Chaves de Souza, Maria Eduarda Gouveia Martins Monteiro 
de Barros, Meire Akemi Kusumoto, Natalia Hinoue Guimarães, Nicholas Buck Shores, Paula Vieira Felix 
Rodrigues, Pedro do Val de Carvalho Gil, Ramiro Brites Pereira da Silva, Simone Sabino Blanes, Valéria França, 
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de Janeiro — Chefe: Monica Weinberg Editores: Ricardo Ferraz de Almeida, Sofia de Cerqueira Repórteres: 
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Greco Leal de Moraes, Maria Fernanda Firpo Henningsen, Mariana Carneiro de Souza, Marilia Monitchele 
Macedo Fernandes, Paula de Barros Lima Freitas, Sara Louise França Salbert, Thiago Gelli Carrascoza Arte — 
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Produção Editorial — Secretárias de produção: Andrea Caitano, Patrícia Villas Bôas Cueva, Vera Fedschenko 
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CARTA AO LEITOR
O COMBATE 
NECESSÁRIO
O PAÍS TEM UMA LISTA cada vez maior de graves e ur-
gentes desafios na área de segurança. Temos uma média de 
18,53 mortes para cada 100 000 habitantes, taxa compatí-
vel à de nações como Guatemala e Nigéria. Outro indicador 
capaz de tirar o sono dos brasileiros é a quantidade de fur-
tos e roubos. Somente de veículos, registram-se 41 ocorrên-
cias por hora, ou seja, quase uma por minuto. Ataques de 
bandidos para surrupiar celulares ganharam proporções 
epidêmicas e ocorrem com frequência mesmo à luz do dia. 
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O clima de terror escalou ainda mais com o aumen to das 
atividades das facções criminosas, que passaram a dominar 
várias áreas das metrópoles e começaram a usar o dinheiro 
do tráfico para financiar outros ramos de negócios. Parte 
desses lucros é investida para estender tentáculos de in-
fluência em direção à política e à Justiça. 
Considerando-se esse contexto crítico, não por acaso a 
questão da segurança se tornou o item que mais preocupa 
hoje os brasileiros. Uma pesquisa Datafolha feita no fim de 
março constatou que dois em cada três entrevistados (65%) 
se sentem inseguros ao andar nas ruas: 39%, muito insegu-
ros e 26%, um pouco inseguros. Várias sondagens eleitorais 
divulgadas nas últimas semanas em diversas cidades mos-
tram que o assunto estará no centro das inquietações dos 
eleitores nas disputas municipais deste ano e, muito prova-
REFORÇOS Compra de viaturas em Goiás 
e câmera em PM de São Paulo: investimentos 
que fazem a diferença
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velmente, nos debates relativos aos pleitos de 2026, incluin-
do a corrida ao Palácio do Planalto. 
Infelizmente, é comum que esse enorme apelo do tema 
ajude na proliferação de discursos demagógicos. Medidas 
populistas e açodadas fazem algum barulho, ajudando a 
angariar aplausos nos palanques e curtidas nas redes so-
ciais, mas se mostram pouco eficazes na prática. É neces-
sário encarar de forma mais séria a questão, equilibrando 
os esforços de prevenção e repressão, sem fazer com que o 
combate ao crime atropele direitos individuais e acabe in-
crementando a barbárie vista atualmente nas ruas com a 
participação da (má) polícia. 
Está longe de ser uma tarefa fácil resolver o imbróglio da 
segurança, é verdade, mas alguns estados vêm conseguindo 
resultados elogiáveis. Conforme mostra a reportagem que 
começa na pág. 22 desta edição, governos de Goiás, Rio 
Grande do Sul, Espírito Santo e Santa Catarina, entre outros, 
não ficaram apenas no discurso e nas promessas. Com uma 
série de ações planejadas, reduziram de forma expressiva as 
ocorrências policiais. A solução não passa apenas por inves-
timentos em equipamentos, em mais homens nas ruas e em 
novas tecnologias, como as câmeras embutidas nos unifor-
mes dos guardas para inibir abusos e preservar os policiais. 
Tudo isso é necessário, claro, mas nada vai evoluir na escala 
que o país precisa sem a implementação de boas políticas 
públicas coordenadas entre municípios, estados e governo 
federal. Não há mais tempo a perder nessa luta. ƒ
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https://realestate.jhsf.com.br/empreendimento/reserva-cidade-jardim?utm_source=qrcode&utm_medium=revista_veja&utm_campaign=veiculacao_17-04&utm_term=reserva-noturno
“O EXTREMISMO 
MATA”
O prestigiado diretor e roteirista do blockbuster 
Guerra Civil fala sobre a crise das democracias, os 
perigos do populismo digitale por que o cinema é 
uma ferramenta para questionar o poder
RAQUEL CARNEIRO
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ENTREVISTA ALEX GARLAND
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LOGO NO INÍCIO da pandemia, em 2020, Alex Gar-
land contraiu covid-19. O cineasta inglês ficou muito de-
bilitado e, quando se recuperou, sentiu uma confusão 
mental parecida com a do protagonista de Extermínio, 
filme de 2002 escrito por ele. Na trama, o personagem 
vivido por Cillian Murphy acorda do coma em uma Lon-
dres tomada por zumbis e criminosos. Na vida real, Gar-
land não deparou com mortos-vivos, mas ficou em cho-
que ao ver o noticiário: em meio às centenas de milhares 
de mortes, diversos governantes mundiais espalhavam 
fake news, e manifestações antirracistas eram reprimi-
das por policiais americanos. O mundo estava um caos. 
Foi então que ele concebeu Guerra Civil, filme sobre um 
hipotético (mas assustadoramente realista) conflito in-
terno nos Estados Unidos que lidera as bilheterias no 
momento no país de Biden e Trump — e também no Bra-
sil. Garland, hoje aos 53 anos, iniciou carreira como au-
tor de romances — entre os quais, A Praia, um tratado 
pop sobre as desilusões com as utopias modernas. Mas 
foi como cineasta que atingiu a consagração: é ele a men-
te por trás de Ex_Machina, filme que examina os peri-
gos da inteligência artificial. Em Guerra Civil, Garland 
faz um retrato incisivo — e polêmico — de como o extre-
mismo leva uma sociedade a se autodilacerar. Na entre-
vista, o diretor fala sobre os bastidores da produção, sua 
relação com o jornalismo e como foi trabalhar com o as-
tro brasileiro Wagner Moura.
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“Guerra Civil é um alerta contra 
a guerra. Porém, é ainda mais sobre 
o que a precede: esses conflitos são 
um produto do extremismo, seja ele 
político, econômico ou religioso”
O filme Guerra Civil é narrado pelo ponto de vista de três 
repórteres — interpretados por Kirsten Dunst, Wagner 
Moura e Cailee Spaeny. Por que essa escolha? Existem 
muitos pontos de vista que podem ser explorados em um 
filme sobre guerra. Pode ser uma família tentando fugir e 
sair de um lugar rumo a outro, ou um grupo de soldados 
envolvidos no conflito, por exemplo. Eu escolhi esses pro-
tagonistas porque quis fazer um filme sobre o ofício do jor-
nalismo e sua importância para a sociedade. É uma profis-
são que sofre inúmeras críticas — muitas delas válidas, in-
clusive. Mas que, na verdade, enfrenta tentativas constan-
tes e desproporcionais de desmoralização. O jornalismo é 
essencial para a democracia. 
A que se deve sua crença nisso? Sem a liberdade de 
imprensa, não há equilíbrio de poderes. A democracia é 
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formada por leis e instituições com poderes distintos. 
Cabe ao jornalismo reportar quando há um desequilí-
brio entre essas instâncias.
Apesar do tema corajoso, Guerra Civil é criticado por al-
gumas pessoas por ser um filme supostamente “isen-
tão”, que deixa em aberto sua mensagem. Concor-
da? Digo que o filme oferece respostas, mas de forma su-
til. É um aceno ao grande debate sobre o jornalismo: ele de-
ve apenas reportar o que aconteceu ou apresentar um juízo 
de valor? Os protagonistas falam no filme que o papel deles 
é entregar a informação e cabe a quem a recebe analisar o 
que aquilo significa.
No filme, a personagem de Kirsten Dunst é uma fotojor-
nalista que se sente desolada por ter passado anos re-
gistrando os horrores da guerra pelo mundo afora com o 
objetivo de alertar contra esse tipo de conflito — e então 
vê seu próprio país ser atingido. É também sua intenção 
alertar para a tragédia da guerra? Sim, com certeza. 
Guerra Civil é um alerta contra a violência política. Porém, 
é ainda mais sobre o que a precede: conflitos civis são pro-
duto do extremismo, seja ele político, econômico ou reli-
gioso. Geralmente, as pessoas são levadas ao extremo por 
políticos populistas. Entre seus piores efeitos está a supres-
são dos direitos humanos. É uma escalada inevitável. Logo 
a imprensa é reprimida, surgem presos políticos, o aumen-
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to da violência. O extremismo mata. Quase todo genocídio 
na história humana foi fruto dessa forma de ódio.
Os Estados Unidos estão perto de mais uma eleição pre-
sidencial conturbada e havia a expectativa de que Guer-
ra Civil fosse mais incisivo contra os rompantes autoritá-
rios de Donald Trump e de seus partidários republicanos. 
O que pensa de quem não gostou do filme por essa ra-
zão? Eu li esse tipo de crítica de jornais progressistas. Mas 
quem faz essa análise está seguindo a mesma estrada dos 
extremistas. Para mim, a crise mundial hoje não é entre es-
querda e direita, mas entre extremistas e o centro. 
Como assim? Veja meu caso. Eu me considero alguém 
de centro. Acredito em ideologias da esquerda, como a 
visão que ela tem sobre a economia de livre mercado, 
sobre a sociedade — mas, por outro lado, dialogo com 
meus amigos de direita. O que não tenho são amigos ex-
tremistas. Para mim, essa é a diferença: há extremismo 
na direita e na esquerda e, apesar de se apresentarem co-
mo inimigos, eles se retroalimentam e precisam um do 
outro para sobreviver. 
Acredita que essa análise se aplica também a um país 
como o Brasil? Com certeza. Ela se aplica ao Brasil, ao 
Reino Unido, a Israel, Holanda, Itália, e diversos países 
asiáticos. É um fenômeno do nosso tempo que se espa-
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lhou pelo mundo. Optei por ambientar o filme nos Esta-
dos Unidos porque é um país enorme e muito poderoso. 
O resto do mundo olha para os americanos, admirando 
ou odiando — fato é que tudo que acontece por lá ecoa 
na nossa direção.
Com sua trama que acompanha as manipulações de uma 
androide ardilosa, Ex_Machina (2014) lançou um olhar 
perturbador sobre os riscos da inteligência artificial — 
hoje uma ferramenta explorada por grupos extremistas 
nas redes sociais. Como analisa esse cenário, e por que 
deixou o tema de fora em Guerra Civil? Foi uma escolha 
não mergulhar nas razões do conflito. Mas, claro, as redes 
sociais e a inteligência artificial são parte dessa engrena-
gem. Em inglês usamos a expressão “a perfect storm” (uma 
tempestade perfeita) quando vários fatores se unem e cul-
minam em uma situação drástica, deixando a tormenta ain-
da pior do que ela já seria. Acho que as empresas de tecno-
logia são devastadoramente irresponsáveis no modo como 
priorizam o lucro e seu poder de influência em detrimento 
da responsabilidade social.
Na minissérie Devs, o senhor narra — com as devidas do-
ses de sarcasmo e espírito crítico — a história de um bilio-
nário do ramo da computação. Por que resolveu abordar 
essa elite do mundo digital em sua ficção? Sou um gran-
de e incisivo crítico desses gigantes da tecnologia. Devs é 
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“As empresas de tecnologia são 
devastadoramente irresponsáveis no 
modo como priorizam o lucro e seu 
poder de influência, em detrimento da 
responsabilidade social”
uma ficção científica sobre as possibilidades desse ramo de 
estudo da física, mas eu quis no fundo mostrar quanto esses 
bilionários agem com pouquíssima regulamentação e mui-
to acesso. Eles se acham o máximo e são chamados por 
muita gente de gênios, mas, na verdade, não são geniais: 
trata-se apenas de empresários querendo ter mais poder e 
influência do que deveriam.
Wagner Moura é um celebrado ator brasileiro e tem um 
papel importante em Guerra Civil, como o jornalista que 
é viciado na adrenalina de perseguir a notícia. Por que 
o escolheu? Eu o vi pela primeira vez em Narcos, a série 
da Netflix na qual Wagner interpreta Pablo Escobar. A 
produção é muito sofisticada e ele está muito bem. Quan-
do o conheci, logo nos demos bem e não tive dúvidas que 
era dele o papel.
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De onde veio essa certeza? O Wagner Moura é brilhante. 
É um excelente ator e uma ótima pessoa. Ele era perfeito 
para o papel, pois tem um jeito brincalhão e despojado, 
mas, por baixo dessa faceta, é caloroso e inteligente. Uma 
personalidade que se encaixou perfeitamenteno tipo de 
personagem que eu imaginei. 
O filme estreou no topo das bilheterias americanas, 
passando dos 45 milhões de dólares por lá em duas se-
manas — um feito para uma produção independente. 
Curiosamente, entre os fatores que impulsionaram es-
se resultado está o sucesso entre eleitores republica-
nos do sexo masculino. Era um estrato de público que o 
senhor esperava atingir? Olha, esse filme só não deve 
ser visto por crianças, pois é muito violento. No geral, 
quero que ele seja visto por qualquer pessoa que esteja 
disposta a chegar com a mente aberta. Sei que meus fil-
mes são provocativos, mas o que eu quero provocar não 
é raiva, medo ou violência. Não quero arranjar briga com 
ninguém. O que eu quero com minha obra é que as pes-
soas reflitam e questionem o poder. 
Fala especificamente de poder político? Sim, mas tam-
bém de outros tipos de poder. Seja o poder das grandes em-
presas de tecnologia, seja o poder militar, ou religioso. Sem-
pre questione o uso do poder. Não quero incitar a uma pa-
ranoia, mas, sim, a uma inquietude. Todos sabemos que o 
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poder corrompe, não importa quem esteja com ele nas 
mãos. Então, espero que as pessoas saiam do cinema refle-
tindo sobre o mundo onde vivem.
O filme é, de fato, bem violento. Acha que encontrou 
um equilíbrio capaz de retratar a brutalidade humana 
sem incitá-la? Existe a violência real e existe a violên-
cia cinematográfica. Uma é completamente diferente da 
outra. Optei por algo mais próximo da realidade, a vio-
lência que é vista em zonas de guerra, que é muito mais 
perturbadora e horrível do que qualquer filme possa 
mostrar. Assim como as pessoas que, nesse tipo de con-
texto, se divertem com a dor alheia. A guerra extrai o 
pior do ser humano. De novo, o filme é um alerta contra 
tudo isso, não uma incitação.
Seu pai, Nicholas Garland, é um famoso cartunista políti-
co na Inglaterra e cofundador do jornal The Independent. 
Ele serviu de inspiração na concepção desses persona-
gens? Com certeza. Eu cresci cercado por jornalistas na 
mesa de jantar. Meu pai é uma inspiração, assim como meu 
padrinho e o padrinho do meu irmão, ambos correspon-
dentes de guerra. Eu quis ser jornalista, mas desisti.
Por quê? Sou melhor escrevendo ficção do que não fic-
ção. A reportagem não dá espaço para liberdades criati-
vas. Uma matéria jornalística precisa de apuração e pre-
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cisão ao narrar fatos. Além disso, escrever é um processo 
difícil e complexo. Sempre que escrevo analiso palavra 
por palavra, para passar corretamente as informações. 
Mas as pessoas raramente leem com tanta atenção e po-
dem interpretar erroneamente o texto. É como um sabo-
nete molhado na mão, que me escapa e não consigo con-
trolar. Com a ficção, me sinto mais confortável para pas-
sar a ideia que eu tenho.
É verdade que planeja se aposentar? Olha, eu preciso 
dar um tempo de dirigir filmes. É bem exaustivo. Tam-
bém quero voltar a escrever romances. Vamos dar tem-
po ao tempo. ƒ
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IMAGEM DA SEMANA
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SELCUK ACAR/ANADOLU/GETTY IMAGES
UMA TRISTE AULA 
DE INTOLERÂNCIA
NA HISTÓRIA dos Estados Unidos, com ecos para todo o 
mundo, os campi universitários foram sempre termômetro 
democrático do que anda em corações e mentes — e não 
haveria de ser diferente em torno da guerra entre Israel e 
Gaza. Na semana passada, algumas das principais 
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2 | 2
instituições de ensino americanas entraram em ebulição, 
alimentadas pelos protestos de grupos favoráveis aos 
palestinos. Dezenas de estudantes foram detidos em Yale 
e na Universidade de Nova York (NYU). Em Columbia, a 
reitora chamou a polícia. Aulas e provas 
presenciais foram canceladas — e tiveram de ser 
feitas on-line, como nos piores dias da pandemia. O 
rastilho de pólvora corria com velocidade, alimentado pelo 
ódio que mimetiza o confronto no Oriente Médio. Não há 
dúvida: o direito à livre expressão, de ambos os lados, é 
sagrado, e não há nada que impeça as pessoas de pensarem 
e defenderem seus direitos. Contudo, são inaceitáveis os 
episódios de antissemitismo que se espalharam entre os 
bancos escolares, no ambiente mercurial, e às favas o bom 
senso. O presidente americano Joe Biden deu o tom 
equilibrado e necessário para baixar a fervura, avesso ao 
radicalismo — instado a comentar a gritaria, ele foi direto 
ao ponto: condenou os “protestos antissemitas” e também 
aqueles “que não entendem o que está acontecendo com os 
palestinos”. O escritor Amós Oz (1939-2018) deixou como 
legado o caminho a ser trilhado pela civilização: “O conflito 
do século XXI é entre os fanáticos e nós”. ƒ
Amanda Péchy
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CONVERSA VINCENZO VISCIGLIA
“É UMA BOLHA DE LUXO”
O brasileiro que decora as casas dos bilionários 
do Oriente Médio e veste as mulheres mais 
ricas de Dubai e região diz que as guerras na 
vizinhança não afetam a ostentação vivida ali
DAS ARÁBIAS O estilista e arquiteto: “É gratificante 
ter me tornado um pilar da moda”
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Como você caiu no gosto das árabes endinheiradas? Já 
estou em Dubai há quinze anos, com um escritório de ar-
quitetura e um ateliê de moda. Faço as casas das famílias e 
os vestidos das mulheres, que não podem se mostrar para 
os homens, nem mesmo a seus pretendentes. Elas sabem 
que sou bastante profissional. No começo, pediam para as 
costureiras tirarem as medidas e eu desenhava. Com o tem-
po, pegaram confiança e me deixam vesti- las. Claro que é 
mais difícil quando a família é tradicional: as mães nem se-
quer deixam ver suas filhas. 
Qual é a preferência de estilo, ainda que elas tenham 
que usar véus ou burcas em público? São vestidos extre-
mamente luxuosos. Feitos para eventos e casamentos. 
Quanto mais próximo o anfitrião, maior o investimento. 
São modelos de alta-costura, com metros de tecidos nobres 
e muitos bordados, pedrarias, cristais e brilho, que levam 
até quatro meses para ficar prontos. Quanto mais a roupa 
ostenta, melhor. É a maneira que elas têm de mostrar que 
são ricas. E existe muita competição. Temos até um esque-
ma contra vazamentos porque as clientes investigam e ten-
tam tirar informações sobre o vestido das outras. 
Costura para personalidades também? Sim, visto as ce-
lebridades locais, não só de Dubai, mas também do Catar, 
do Kuwait e da Arábia Saudita. Inclusive atrizes, cantoras e 
influenciadoras sírias e libanesas, que são menos rígidas e 
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podem se expor mais. E ainda tem as xeicas, que geralmente 
vão à loja, escolhem uns vinte vestidos, que mandamos à ca-
sa delas. Mas não podemos tirar fotos. Elas respeitam muito 
os costumes, mas estão conquistando espaço e liberdade na 
moda. Só que, nas redes sociais, as fotos ainda aparecem 
com a cabeça cortada ou um borrão no rosto. 
Até que ponto os conflitos no Oriente Médio afetam seu 
trabalho? Estamos no meio de uma guerra, mas, em Dubai, 
as pessoas vivem como se nada estivesse acontecendo, por-
que o governo consegue dominar as notícias e filtrar as redes 
sociais. Então, acaba não impactando o nosso dia a dia. Vive-
mos em uma bolha de luxo — e com sensação de segurança. 
Pretende voltar ao Brasil para ser mais reconhecido por 
aqui? Penso em trazer minha marca para o país, obviamente 
adaptada. Mas a ideia não é competir com os estilistas brasi-
leiros, que são muito talentosos. Já é muito gratificante repre-
sentar o Brasil e ter me tornado um pilar da moda no Oriente 
Médio. Não preciso provar mais nada para ninguém. ƒ
Simone Blanes
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DATAS
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O MAIS LONGO 
DOS SEQUESTROS
REFÉM Terry Anderson, ao deixar o cativeiro xiita, 
em 1991: 2 454 dias confinado
MARK DUNCAN/AP/IMAGEPLUS
A jornalista americana Sulome Anderson só conheceu 
o pai aos 6 anos — na tarde de dezembro de 1991 em que, 
depois de 2 454 dias de cativeiro, ele foi libertado por um 
grupo xiita libanês associado ao Hezbollah que o fizera 
refém. Terry Anderson tinha 44 anos. Era o chefe do es-
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2 | 4
critório da agência AssociatedPress (AP) em Beirute. Os 
terroristas, apoiados pelo Irã, diziam retaliar o uso de ar-
mas americanas por Israel em ataques anteriores na dire-
ção de alvos muçulmanos e drusos no Líbano (atenção: tu-
do isso ocorreu há quatro décadas, não foi ontem). Busca-
vam também pressionar a administração do presidente 
Ronald Reagan a facilitar secretamente a venda de armas 
ilegais para as autoridades iranianas e, simultaneamente, 
financiar os “contras” da Nicarágua — em esquema emba-
raçoso que ficou conhecido como o caso “Irã-Contras”. 
Anderson foi o último dos dezoito reféns ocidentais li-
bertados pelos criminosos — ninguém ficou mais tempo 
sequestrado do que ele. Embora não tenha sido torturado 
durante o cárcere, chegou a ser acorrentado, segundo seu 
próprio relato. Passou um ano em confinamento solitário. 
“Não havia nada em que me agarrar, nenhuma maneira 
de tranquilizar minha mente”, disse. “Tentava orar todos 
os dias, às vezes por horas. Mas não havia nada ali, ape-
nas um vazio. Falava comigo mesmo, não com Deus.” 
Depois daquele episódio — um dos mais rumorosos dos 
anos 1980 e 1990 —, Anderson compraria um bar de blues 
em Athens, no estado de Ohio. Concorreu sem sucesso co-
mo candidato democrata para o Senado estadual, em 
2004. Na Justiça, venceria um processo que o autorizou a 
receber 26 milhões de dólares em ativos iranianos. Ruim 
de negócios, faliria em 2009. Morreu em 21 de abril, aos 
76 anos, de complicações de uma cirurgia cardíaca.
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BEATA ZAWRZEL/NURPHOTO/GETTY IMAGES
DA ARTE DO CETICISMO
O americano Daniel Dennett não veio ao mundo a 
passeio. Ateu e fervoroso evangelizador das ideias evolu-
cionistas de Charles Dar win, o filósofo fez muito barulho 
ao opor, como muitos poucos, religião e ciência. Para 
Dennett, acreditar em um ser superior era mais do que 
simples perda de tempo: podia ser uma tremenda irres-
ponsabilidade. Em nome desse ou daquele deus, argu-
mentava ele, muita coisa errada acontece no mundo to-
IDEIA Daniel Dennett: “Deus é um nome 
para a beleza do universo” 
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4 | 4
dos os dias — da proibição do uso de preservativos à vio-
lação dos direitos humanos. Em uma entrevista para a 
revista SUPERINTERESSANTE, da Editora Abril, ins-
tado a comentar a existência (ou não) do Todo-Poderoso, 
respondeu com a clareza que o fez popular: “Deus signi-
fica tantas coisas que essa pergunta é impossível de ser 
respondida. Para alguns, é apenas um nome para a bele-
za do universo e não tem nada a ver com forças sobrena-
turais. Esse Deus, obviamente, existe. O que não existe é 
um agente sobrenatural que responde às nossas preces ou 
supervisiona e guia a evolução das coisas”. O legado de 
Dennett pode ser lido em mais de vinte livros, entre eles 
Quebrando o Encanto e A Perigosa Ideia de Darwin. Ele 
morreu em 19 de abril, aos 82 anos, em decorrência de 
problemas pulmonares. ƒ
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1 | 6
A PROFECIA DE 
SCHUMPETER
VIROU MODA xingar Elon Musk. Como não temos nenhum 
problema de censura prévia, e ninguém foi banido das redes 
sem o devido processo, nossa prioridade é falar mal dessa 
“perigosa conspiração da extrema direita global”. Quem sabe 
liderada pelo próprio Musk entre uma e outra reunião sobre 
foguetes e telhas solares, no Texas. Não deixa de ser divertido 
isso tudo. Sempre foi uma boa jogada atirar no mensageiro e 
empurrar a mensagem para debaixo do tapete. Mas há um 
outro ponto aí. Elon Musk é um candidato quase perfeito para 
vilão de história em quadrinhos de um certo pensamento lati-
no-americano. O sujeito que ficou rico gerando valor no mer-
cado, abre empresas em série, não dá bola para o politicamen-
te correto, diz o que pensa e, pecado dos pecados, gosta desse 
novo monstrinho moderno, que é a liberdade de expressão. 
Musk não gosta lá muito de protocolos. Em uma tarde de 
sexta-feira, quase Natal de 2022, na sede do Twitter, recém-
comprado, ele escutava sem muita paciência a explicação de 
uma engenheira sobre por que iria demorar oito meses para 
deslocar o data center da rede de Sacramento para Portland. 
FERNANDO SCHÜLER
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Eram 5 200 hacks, cada um pesando 1 tonelada. Havia pro-
tocolos de segurança, conexões delicadas etc. “Vocês têm 
três meses”, disse Musk, irritado. “Ou estão demitidos.” Na-
quela mesma noite, no seu jato, sobrevoando Las Vegas, 
mandou o piloto dar meia volta e resolveu fazer ele mesmo o 
serviço. Pousou em Sacramento, alugou um Corolla, fez o 
chefe da segurança abrir o data center e começou a desligar 
as máquinas com um canivete. Mobilizou sua tropa e, no fi-
nal, fez o serviço em pouco mais de um mês. Musk depois 
avaliou que agiu por impulso, como tantas vezes, e tomou 
um risco para o sistema. Mas funcionou. “Deixou claro para 
a turma do Twitter”, escreveu seu biógrafo, “que não deve-
riam mais duvidar de seu senso de urgência”. 
O biógrafo é Walter Isaacson, que acompanhou Musk de 
perto por dois anos, e teve carta branca para escrever o que 
quisesse. O resultado é interessante. Um livro sobre enge-
nheiros tentando resolver problemas, sobre um tipo obsessi-
vo e temperamental, mas sobretudo sobre um rapaz sul- 
africano, com um pai autoritário, que se converte em herói 
moderno da inovação. O tipo implacável, espécie de John 
Galt moderno, que demite 75% dos funcionários do Twitter 
sem piscar um olho. Que aposta todo seu dinheiro na quarta 
tentativa de lançar um foguete, numa espécie de jogo de tu-
do ou nada. O tipo preocupado em nos transformar em uma 
“espécie interplanetária”. O sujeito que um dia fica irritado 
com os pedidos obsessivos de censura vindo de um estra-
nho país da América do Sul, e resolve dar um soco na mesa. 
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3 | 6
SONHO O plano de Elon Musk para uma 
cidade em Marte: é preciso tentar
SPACE X/DIVUGALÇÃO
“Se o país realmente gosta de censura, o problema não é 
meu”, dirá, em uma tarde quente de Austin, entre uma reu-
nião e outra sobre robôs, foguetes e inteligência artificial. 
O que achei realmente curioso, nas últimas semanas, foi 
Musk ser chamado de “menino mimado”, “líder da extrema 
direita”, e coisas piores, aqui pelos trópicos. Me lembrei de 
Umberto Eco, desgostoso, falando sobre os “idiotas da al-
deia”, na era digital. Musk é o sujeito que inventou o foguete 
reutilizável, capaz de ir e voltar do espaço e pousar elegan-
temente; o primeiro a levar astronautas à Estação Espacial 
Internacional e civis ao espaço, depois daquele voo trágico 
da Challenger, em 1986. Foi também o primeiro a criar uma 
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4 | 6
empresa de carros elétricos realmente competitiva. Isso 
quando não está entretido com a interface cérebro-máqui-
na, em sua Neuralink, ou com a criação de um robô huma-
noide capaz de gradativamente livrar a humanidade do tra-
balho braçal e pouco criativo. 
Quando lia sobre Musk, me lembrava de Schumpeter. 
Em parte pelo seu elogio do empresário inovador, aquele 
que faz “novas combinações”, que “nunca dorme tranqui-
lo”, e cuja intuição para enxergar à frente produz o dina-
mismo da vida econômica. Mas também pelo seu lado me-
lancólico. A crença reafirmada em seu último artigo, A 
Marcha para o Socialismo, de que o capitalismo caminhava 
para o fim. E não porque o socialismo fosse um bom siste-
ma, mas por uma mecânica interna à própria economia de 
mercado. O capitalismo faz crescer a produtividade, ele diz, 
e com isso o bem-estar. E mais: viabiliza o crescimento de 
uma influente “casta” intelectual, feita de acadêmicos e bu-
rocratas. Uma casta que vive dos sucessos do capitalismo, 
“No mundo da 
inovação, a economia 
de mercado faz 
prodígios”
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mas cada vez mais distante de seu processo real de produ-
ção. Gente que não entende, ou não quer entender, como é 
gerada a riqueza que, logo ali abaixo da superfície, sustenta 
o seu interessante modo de vida. 
A outra linha de força vem do próprio processo de pro-
dução cada vez mais cheio de regras, controlado por gran-
des corporações, de um lado, e pela intervenção governa-
mental, do outro, de modoque todo o sistema vai perdendo 
o apetite pelo risco e força inovadora. Diagnóstico instigan-
te, mas apenas parcialmente correto. De fato, os intelectuais 
tendem à incompreensão da economia de mercado e, por 
vezes, a um anticapitalismo infantil. Muito do próprio “hor-
ror a Musk” e obsessão em torno dos “bilionários”, da “me-
ritocracia” fazem parte disso. E prossegue válida a ironia de 
Schumpeter de que falar mal do capitalismo, nos meios inte-
lectuais, funciona “como uma espécie de regra de etiqueta”. 
No mundo da inovação, porém, a economia de mercado 
ainda faz prodígios. E é aí que entra Musk. Sua vida é a ne-
gação da tese de Schumpeter. Ele vende a Zip2, aos 28 anos, 
ganha alguns milhões e aposta tudo em um banco digital, 
que seria o PayPal; na venda da empresa, ganha outros tan-
tos milhões e aposta tudo de novo em uma improvável com-
panhia espacial, a SpaceX. Tudo ancorado em um certo 
éthos. O asco pelos burocratas e “reguladores inúteis”. O 
culto do risco, a crença na intuição (por vezes desastrosa), 
no trabalho obsessivo e o desprezo por essa gente “bem-su-
cedida e que tira férias”. Vai nesse pacote o horror à ideolo-
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6 | 6
gia woke e atração pelo seu contrário: a cultura libertária. 
Coisas que levam àquele “go f. yourself” para eventuais 
anunciantes que não querem investir no Twitter por causa 
de uma postagem sua. Valendo o mesmo para pequenos di-
tadores bisbilhotando contas de ativistas e jornalistas. 
O livro de Isaacson deveria ser recomendado nas faculda-
des. Estaríamos formando uma geração de empreendedores 
investindo na cura de doenças, na invenção de baterias mais 
eficientes, nos usos inteligentes da inteligência artificial, e 
não uma turma formada no pensamento mágico sobre como 
se produz a riqueza. Só por isso já valeria a pena contar a his-
tória do sujeito que fugiu de casa aos 17 anos e hoje repete em 
relação a Marte a frase de Kennedy sobre a conquista da Lua: 
“Temos de ir lá e fazer outras coisas... porque elas são difí-
ceis”. Porque somos humanos. Porque não sabemos do que 
somos capazes. E por isso precisamos tentar. ƒ
ƒ Os textos dos colunistas não refletem 
necessariamente as opiniões de VEJA
Fernando Schüler é cientista político e professor do Insper
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SOBEDESCE
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MOTOCICLETAS 
A produção no país cresceu 42% 
desde 2019 e chegou a 1,6 milhão 
de unidades em 2023, o maior 
número em dez anos, segundo a 
Abraciclo, uma das associações 
que reúnem empresas do setor.
MARÍLIA MENDONÇA 
A cantora, que morreu em 2021, 
chegou a 12 bilhões de streams 
no Spotify e se tornou a primeira 
artista do Brasil a bater a marca 
de 10 bilhões na plataforma.
PRAÇA DOS TRÊS PODERES 
Patrimônio mundial pela Unesco 
desde 1987 e depredado no 8 de 
Janeiro, o local terá 1 milhão de 
reais do PAC para restaurações, 
iluminação e acessibilidade.
SOBE
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TIKTOK 
O presidente Joe Biden sancionou 
projeto aprovado pelo Senado 
que dá um ano para que a chinesa 
ByteDance venda o aplicativo a 
uma empresa sediada nos EUA.
CARLA ZAMBELLI 
A PGR denunciou a deputada do 
PL e o hacker Walter Delgatti 
Neto por invasão ao sistema do 
CNJ e emissão de mandado falso 
contra Alexandre de Moraes. 
CIGARRO ELETRÔNICO 
A Anvisa publicou, na quarta 24, 
resolução que proíbe a fabricação, 
importação, comercialização, 
armazenamento, transporte e 
propaganda desse tipo de 
dispositivo para fumar.
DESCE
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VEJA ESSA
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“Será difícil fazer qualquer 
coisa que supere a popularidade 
daquela cena.” 
MEG RYAN, atriz americana, hoje diretora, relembrando o 
eterno sucesso da cena do falso orgasmo no restaurante 
em Harry e Sally — Feitos Um para o Outro
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“O Alckmin tem que ser mais ágil, tem que 
conversar mais. O Haddad, em vez de ler 
um livro, tem que perder algumas horas 
conversando no Senado e na Câmara.”
PRESIDENTE LULA, passando pito em sua turma
“Está superado. Não tem crise.” 
ALEXANDRE PADILHA, ministro de Relações Institucionais, 
a respeito do quiproquó com o presidente da Câmara, Arthur 
Lira, que o chamou de “incompetente” e “desafeto pessoal”
“O que o Supremo está decidindo é qual a 
quantidade que irá diferenciar o usuário de 
traficante. (...) Nada justifica a prisão de 
usuários de drogas.” 
LUÍS ROBERTO BARROSO, presidente do STF
“O que posso dizer é que se Lula e Petro 
realmente querem pressionar Maduro por 
eleições livres, o momento é agora.” 
JUAN MANUEL SANTOS, ex-presidente da Colômbia, 
instando o atual mandatário do país e o presidente do Brasil a 
exigir democracia real na Venezuela
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“O futuro é ancestral.” 
ALOK, DJ e produtor musical, parafraseando o novo 
imortal da academia, o indígena Ailton Krenak
“Existem mimados de todas as idades. 
Veja o Elon Musk, que está aí para 
confirmar a minha tese. A imaturidade 
não tem idade. Isso é uma falácia.” 
MARCELO TAS, humorista e apresentador 
de televisão. Musk tem 52 anos
“Vocês podem ter um presidente mais 
competente do que eu. Existem muitas 
pessoas, mas duvido que haja alguém 
com o couro mais grosso do que o meu.”
JAIR BOLSONARO, ex-presidente, em ato realizado na 
Praia de Copacabana, no domingo 21
“Está tudo bem, mas dá muito trabalho. 
É um dia de cada vez.” 
CÉLINE DION, cantora canadense, que sofre de uma 
doença rara, a síndrome da pessoa rígida, que afeta o sistema 
nervoso central
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“Tinha de duas 
horas a uma semana 
para morrer.” 
TANDE, ex-atacante da seleção brasileira de vôlei, 
medalhista de ouro na Olimpíada de 1992. Ele se 
recupera de um infarto
“O rap é 
machista porque 
é um espelho 
da sociedade.” 
PROJOTA, cantor e 
compositor de rap
“Nunca achei 
que eu fosse ser 
uma Gisele.” 
HELENA RIZZO, chef de 
cozinha, que chegou a 
trabalhar como modelo
“Joguei mais do que Zidane, Xavi, 
Beckham, Bergkamp, Del Piero e 
Marcelinho Carioca.” 
RIVALDO, campeão do mundo pela seleção 
brasileira em 2002
“Pessoas que só têm pensamentos 
bons são perigosíssimas.” 
RAPHAEL MONTES, escritor
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“Jovem, não 
conversava 
sobre sexo 
com a minha 
mãe. Aprendi 
a dar prazer 
para o homem. 
Porém, 
demorei muito 
tempo para 
entender 
que o meu 
prazer era 
importante.” 
GIOVANNA EWBANK, 
atriz e modelo
INSTAGRAM @GIOEWBANK
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RADAR
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ROBSON BONIN 
Com reportagem de Gustavo Maia, 
Nicholas Shores e Ramiro Brites
ESTUDO Mercadante: BNDES vai avaliar 
todo o patrimônio das Forças Armadas
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Patrimônio militar
O BNDES de Aloizio Mer-
cadante assinou nesta se-
mana, com o ministro da 
Defesa, José Múcio, um 
acordo histórico. Pela pri-
meira vez, o banco usará 
sua expertise para fazer um 
detalhado levantamento de 
todo o patrimônio em nome 
das Forças Armadas.
Feirão da caserna
São quilômetros de fazen-
das, praias, prédios públi-
cos e terrenos em áreas pri-
vilegiadas país afora. O ob-
jetivo da parceria é avaliar o 
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potencial financeiro das 
instituições e, se possível, 
converter parte disso em re-
cursos para os projetos es-
tratégicos militares.
Projetos imobiliários 
Há interesse privado, por 
exemplo, em imóveis e 
áreas militares em grandes 
centros, que poderiam ser 
vendidos ao setor imobiliá-
rio. Com o estudo pronto, 
as possibilidades serão ava-
liadas.
Soldo reajustado 
Se depender do ministro da 
Defesa, José Múcio, Lula 
dará aos militares o mesmo 
reajuste pensado pelo go-
verno para servidores civis. 
Ele já pediu e Lula prome-
teu viabilizar. 
Reforço de caixa 
Lula pediu, nesta semana, 
ao Congresso a liberação 
de 256 milhões de reais a 
obras do Exército em GO, 
RS, MG.
Falar não custa 
Chefe do Exército, Tomás 
Paiva teve uma conversa re-
cente com Alexandre de 
Moraes, em que tratou da 
libertação dos bolsonaristas 
presos no QG.
Tem gente na filaApesar de Paiva defender a 
soltura de alguns militares, 
ninguém no comando fica-
ria triste com a prisão dos 
generais metidos com o gol-
pismo. Leia-se: Braga Netto 
e outros de seus chegados.
Capitão em campanha 
Enquanto a finada frente 
ampla que elegeu Lula 
perde tempo com intrigas 
e disputas de poder, Jair 
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Bolsonaro está em franca 
campanha. Desde janeiro, 
já visitou 37 cidades em 
treze estados.
No terreno da esquerda... 
Cabo eleitoral de prefeitos, 
Bolsonaro fez carreatas e 
comícios em onze capitais. 
Só na Região Nordeste, es-
teve em quatro estados: BA, 
CE, AL e PB.
... E no terreno feminino
Em outra frente, pilotando 
o PL Mulher, Michelle Bol-
sonaro também tem corrido 
o país. Ela visitou dezesseis 
estados e filiou mais de 22 
000 mulheres ao PL.
Alvo preferencial
Além de sonhos golpistas, a 
PF descobriu que grupos de 
bolsonaristas do WhatsApp 
frequentados por Mauro 
Cid adoravam espalhar 
conteúdo difamatório con-
tra a primeira-dama Janja.
Discurso de ódio 
A PGR arquivou uma inves-
tigação contra um bolsona-
rista que defendeu, nas redes, 
matar Alexandre de Moraes, 
identificado como “ditador” 
do “Alexandrequistão”. A 
PGR não viu crime.
Acelera, Xandão
Apesar das críticas crescen-
tes, Moraes, aliás, segue 
com total apoio no STF. 
“Nada mudará enquanto ele 
não quiser”, diz um ministro 
da Corte.
Criticar pode
A PGR arquivou uma inves-
tigação sobre crime contra 
a honra da deputada bolso-
narista Julia Zanatta. O mo-
tivo: criticar parlamentar 
não é crime.
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RUÍDO Randolfe: base defende o STF, 
mas é criticada por ministros da Corte
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Ecos do 8 de Janeiro 
O STF prevê invest i r 
260 000 reais em equipa-
mentos de fotografia. Os 
patriotas do 8 de Janeiro, 
como se sabe, roubaram as 
câmeras e lentes da Corte.
Supremo clipping 
O STF va i gastar até 
295 000 por ano para mo-
nitorar notícias sobre a Cor-
te em veículos de imprensa. 
Missão quase impossível
Lula disse a um aliado que 
trabalha pessoalmente para 
reaproximar Arthur Lira e 
Renan Calheiros. Como se sa-
be, os dois caciques de Ala-
goas são inimigos declarados.
“Bola nas costas” 
Sobre a fala de um ministro 
do STF, que disse a Lula que 
ele joga uma Champions 
League “com time de se-
gunda divisão” na articula-
ção política, diz o líder do 
governo, Randolfe Rodri-
gues: “É uma tremenda bo-
la nas costas dos poucos 
parlamentares que defen-
dem o STF no Congresso”.
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Sem respostas 
Dias Toffoli tem enfrenta-
do dificuldades para obter 
informações na vara da 
Lava-Jato em Curitiba so-
bre atos de Sergio Moro. 
Nem todo mundo tem coo-
perado com a equipe do 
ministro.
Péssimo exemplo 
A disputa pela vaga no 
TST virou uma lama. Os 
três advogados — Adriano 
Avelino, Antônio Gonçal-
ves e Roseline Morais — 
que podem ser escolhidos 
por Lula já foram fritados 
no Planalto. 
Olha aqui, TCU! 
A EBC quer torrar quase 1 
milhão de reais para con-
tratar uma empresa que re-
formule seus ritos de licita-
ção. No Planalto, isso é fei-
to de graça. 
Melhor prevenir 
O Banco Central vai reno-
var o seguro de todos os 
seus prédios e tudo que tem 
de n t ro de le s . C u s t o : 
323000 reais.
Melhor prevenir 2 
Ainda está distante, mas o 
governo já começou a orga-
nizar a logística do desfile 
de 7 de Setembro na Espla-
nada. O foco, como sempre, 
é a segurança.
Quem quer dinheiro? 
Até março, a Caixa já libe-
rou 10,7 milhões de reais em 
patrocínios a 38 organiza-
ções de diferentes setores, 
do agro aos movimentos de 
esquerda.
Evento internacional 
Jorge Kajuru quer conven-
cer o governo a bancar um 
festival de música interna-
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cional em dezembro, du-
rante o encontro do G20. A 
proposta partiu dos músi-
cos Ivan Lins e Guarabyra, 
e está orçada em 10 milhões 
de reais.
Champions da favela 
Organizada pela Globo e 
pela Cufa, A Taça das Fa-
velas vai virar uma compe-
tição internacional, em 
2025, com times de países 
latinos, da Europa e da 
África. Amauri Soares toca 
o projeto. 
Cadê Ivete? 
A cantora Ivete Sangalo é 
processada por um juiz de 
Santa Catarina por causa 
de uma postagem sobre o 
julgamento do caso Maria-
na Ferrer. Ele quer indeni-
zação de 15 000 reais. 
A Justiça tenta notificar 
Ivete. ƒ
JUSTIÇA Ivete: juiz 
processou a cantora por 
causa de uma postagem
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TIROS NO ALVO
Alguns estados são bons exemplos de como é possível 
reduzir a criminalidade, com integração das polícias, 
investimentos em efetivos, armas e veículos, uso de 
tecnologia, inteligência e ações na área social
ADRIANA FERRAZ, BRUNO CANIATO 
E VICTORIA BECHARA
TROPA NA RUA Policiais com novas viaturas 
em Goiás: até o roubo de gado caiu
CRISTIANO BORGES
SEGURANÇABRASIL SEGURANÇABRASIL
CAPA: MONTAGEM COM FOTOS DE FREEPIK; DIVULGAÇÃO SECOM/PR; SECR. DE SEGURANÇA PÚBLICA DO GOVERNO DE SP; CRISTIANO BORGES
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segurança pública ganhou relevância política 
nos últimos tempos e já desponta como um te-
ma central para a eleição nacional de 2026. O 
avanço das facções criminosas, o entrelaça-
mento cada vez mais evidente da bandidagem 
com o poder público, a persistência das altas taxas de 
crimes em níveis vergonhosos, as cenas frequentes de 
violência a que a população é submetida nos grandes 
centros urbanos e a inoperância das autoridades para li-
dar com a escalada do problema assustam a população. 
Em meio a esse cenário, no entanto, há ilhas de excelên-
cia que vêm experimentando resultados positivos nesse 
enfrentamento, com reduções expressivas em ocorrên-
cias sensíveis como homicídios, latrocínios e roubos, 
conforme mostra um levantamento feito por VEJA com 
base em dados do Sistema Nacional de Informações de 
Segurança Pública (Sinesp), que são fornecidos pelos es-
tados e compilados no Ministério da Justiça.
Um dos bons exemplos nesse sentido é Santa Catari-
na. No ano passado, metade dos 295 municípios não re-
gistrou um único caso de homicídio. Desde 2017, o esta-
do reduziu o número de assassinatos em 47% e o de la-
trocínios em 84%. A taxa de homicídios por 100 000 ha-
bitantes é de 6,78, a segunda menor do país (atrás de São 
Paulo) e comparável à dos Estados Unidos. A Polícia Ci-
vil local alcançou uma marca histórica, com 80% dos 
homicídios elucidados, desempenho semelhante aos de 
A
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NO CAMINHO CERTO
Estados que conseguiram reduções 
superiores à média nacional em mais de um 
indicador entre os principais crimes
(variação entre 2017 e 2023)
HOMICÍDIOS
LATROCÍNIOS
ROUBO E FURTO
DE VEÍCULOS
O QUE FEZ
Incentivou a integração das
polícias, transferiu líderes de facções, criou 
polícia rural e direcionou recursos para 
equipamentos (armas e viaturas) e pessoal
-56%
-88%
-80%
GOIÁS
Fontes: Ministério da Justiça e Segurança Pública 
e governos estaduais
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HOMICÍDIOS
LATROCÍNIOS
ROUBO E FURTO
DE VEÍCULOS
O QUE FEZ
Apostou em melhorias urbanísticas, como 
iluminação pública de LED, passou a monitorar 
“manchas” criminais, ampliou o videomonitoramento 
e unificou a base de ocorrências
-54%
-50%
-58%
DISTRITO FEDERAL
Canadá e Austrália. “Os crimes acontecem e não ficam 
esquecidos”, diz o delegado-geral, Ulisses Gabriel. Como 
Santa Catarina, outros estados tiveram avanços consis-
tentes, entre eles Distrito Federal, Goiás, Rio Grande do 
Sul, Pará e Espírito Santo (veja o quadro abaixo). Em co-
mum, todos tiveram quedas acima da média nacional em 
mais de um dos principais crimes.
Nenhum desses estados inventou a roda. O êxito é 
fundamentado em ações que deveriam ser básicas, como 
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HOMICÍDIOS
LATROCÍNIOS
ROUBO E FURTO
DE VEÍCULOS
O QUE FEZ
Integrou as polícias no planejamento de ações, 
aumentou a vigilância ostensiva e investiu em 
compra de viaturas, armas automáticas e 
câmeras de leitura de placa veicular
-47%
-84%
-49%
SANTA CATARINA
integrar asdiversas forças de segurança e aperfeiçoar a 
análise das estatísticas para definir locais de maior cri-
minalidade e vulnerabilidade social e planejar melhor as 
intervenções. Alocar recursos para a compra de armas e 
veículos e contratação de pessoal é outra ação primor-
dial, assim como testar tecnologias modernas, como mo-
nitoramento por vídeo com inteligência artificial e equi-
pamentos para aprimorar o trabalho de perícia. É fun-
damental ainda traçar estratégias para minar o crime 
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HOMICÍDIOS
LATROCÍNIOS
ROUBO E FURTO
DE VEÍCULOS
O QUE FEZ
Priorizou ações nas cidades mais violentas, 
adotou programas de cultura e lazer nas 
periferias, reduziu o tempo médio das perícias 
e ampliou as vagas no sistema penitenciário
-45%
-56%
-65%
RIO GRANDE DO SUL
organizado, separando líderes presos ou identificando (e 
impedindo) o financiamento das facções. Também é re-
levante o trabalho de apreensão de armas e drogas, esta 
a maior fonte de dinheiro dessas falanges e combustível 
que alimenta a espiral da violência no país.
A ofensiva contra a criminalidade varia muito depen-
dendo do perfil dos governantes. Goiás, por exemplo, 
governado por Ronaldo Caiado (União Brasil), à direita 
no espectro ideológico, baixou os indicadores a partir do 
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HOMICÍDIOS
LATROCÍNIOS
ROUBO E FURTO
DE VEÍCULOS
O QUE FEZ
Estabeleceu metas para a redução da 
criminalidade, transferiu líderes de facções e 
lançou o Usinas da Paz, programa de segurança e 
cidadania, em áreas com altos índices de violência
-38%
-72%
-70%
PARÁ
investimento pesado em armas, viaturas e agentes de se-
gurança e um policiamento ostensivo, inclusive no cam-
po, com tropas especializadas e georreferenciamento de 
propriedades rurais. “Até o roubo de gado caiu”, celebra 
o secretário de Segurança Pública, Renato Brum. Ex-co-
mandante-geral da PM, ele reconhece o efeito colateral 
da política de confronto: no ano passado, 517 suspeitos 
foram mortos, o que coloca a polícia goiana como a 
quarta mais letal do país, à frente até de São Paulo, o es-
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HOMICÍDIOS
LATROCÍNIOS
ROUBO E FURTO
DE VEÍCULOS
O QUE FEZ
Criou índices regionais de criminalidade, 
priorizou a resolutividade de homicídios, 
instalou câmeras nas rodovias e combateu
a vulnerabilidade social nas periferias
-31%
-40%
-40%
ESPÍR ITO SANTO
tado mais populoso (que teve 504 mortos). “Aumentou, 
de fato, mas porque retomamos o controle”, justifica.
Não é apenas Goiás que enfrenta o desafio de equili-
brar os esforços de prevenção e repressão, sem fazer 
com que o combate ao crime atropele direitos indivi-
duais e aumente a barbárie nas ruas. Jorginho Mello 
(PL-SC), Ratinho Junior (PSD-PR) e Tarcísio de Freitas 
(Republicanos-SP) seguem o discurso de tolerância zero 
contra a bandidagem e são frequentemente criticados 
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por abusos. Para a socióloga Carolina Ricardo, diretora-
executiva do Instituto Sou da Paz, é necessária uma 
abordagem realista, deixando de lado o populismo. “Um 
programa estruturado exige metas conjuntas, bônus, 
ações compartilhadas e visão de longo prazo. É preciso 
ainda segurar a pressão pela ‘Rota na rua’ enquanto re-
sultados não chegam”, diz.
Há governantes que tentam somar ao policiamento ri-
goroso algumas abordagens menos ortodoxas. É o caso 
do programa RS Seguro, lançado em 2019 por Eduardo 
Leite (PSDB). Com quatro eixos principais (combate ao 
crime, políticas sociais preventivas e transversais, quali-
ficação do atendimento ao cidadão e sistema prisional), 
a ação é coordenada pelo gabinete do governador, que 
faz reuniões mensais para monitorar os resultados. “É 
preciso acompanhar, se possível, em tempo real. E com 
um tripé baseado em três ‘is’: integração, investimento e 
inteligência. Polícia na rua só não basta”, diz o tucano. 
Outro ponto simbólico é a modernização do sistema pri-
sional. O governo demoliu a Cadeia Pública, conhecida 
como Presídio Central, uma masmorra dos anos 1950 no 
coração de Porto Alegre, que foi classificada pela CPI do 
Sistema Carcerário, em 2008, como a “pior prisão do 
país”. Com esgoto a céu aberto, celas sem trancas e livre 
interação entre os presos, o local era uma “escola do cri-
me”, segundo Leite, que vai erguer outro presídio no lo-
cal, mais moderno e com maior controle dos detentos. 
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“Temos de aprimorar a inteligência para combatermos o 
crime organizado dentro e fora da cadeia, senão é enxu-
gar gelo”, afirma.
O cerco ao crime combinado ao olhar social mostra 
que pode haver bons resultados até em locais que eram 
símbolos de terra violenta. É o caso do Pará, que nos úl-
timos anos enfrentou traficantes de drogas nas frontei-
ras, pistoleiros, garimpeiros, grileiros e desmatadores. A 
taxa de homicídios ainda é alta (30,11), mas era de 54,68 
em 2017. Parte da queda se deve a ações do governo Hel-
der Barbalho (MDB), como o Polícia Mais Forte, focado 
na presença da PM nas ruas e no investimento em inteli-
gência e tecnologia. Também transferiu líderes de fac-
OLHAR Projeto Cerco Inteligente, 
no Espírito Santo: aposta nas câmeras
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ções e instalou câmeras em presídios e nos uniformes 
dos policiais penais. Por outro lado, investiu no Usinas 
da Paz, complexos que oferecem serviços de saúde, do-
cumentos, capacitação profissional, esporte e lazer. Se-
gundo o governo, a violência nos bairros onde o projeto 
foi implementado caiu 77%. 
Outro investimento comum a esses estados é o uso de 
tecnologia para prevenção e investigação de crimes. Um 
exemplo é o Espírito Santo, onde o governo faz leitura 
facial dos presos, usa inteligência artificial para ler pla-
cas de veículos e trabalha com microprocessadores ba-
lísticos capazes de identificar de que arma saiu determi-
nado projétil. Um dos programas, o Cerco Inteligente, se 
PREVENÇÃO Santa Catarina: estado adotou PMs nas escolas 
após a morte de quatro crianças em creche de Blumenau
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MUDANÇA Porto Alegre: pior prisão do país dará lugar a 
presídio moderno 
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transformou numa vasta rede de câmeras instaladas nas 
principais vias e cidades capixabas. Somada a outras 
ações iniciadas em 2011, o estado conseguiu sair da se-
gunda posição de mais violento para a 18ª. Governador 
no terceiro mandato, Renato Casagrande (PSB) diz que 
planos de longo prazos são fundamentais. “A continui-
dade da política é que faz a diferença. Não existe bala de 
prata na segurança pública”, defende.
A aposta na priorização do uso da tecnologia no com-
bate à criminalidade faz parte também da política ado-
tada no Distrito Federal. Unidade da federação com a se-
gunda maior concentração de policiais (6,6 por 1 000 
habitantes, atrás do Amapá), o DF tem 500 dispositivos 
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TROPA Ronda no Distrito Federal: taxa de 6,6 policiais por 
1 000 habitantes
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móveis (como um bip) para mulheres vítimas de violên-
cia e que estão sob medida protetiva, e 500 tornozeleiras 
que são colocadas no agressor. O aparelho da vítima po-
de ser usado para acionar a polícia quando o limite de 
proximidade não é respeitado. Outra medida foi distri-
buir um sensor, menor que uma chave de carro, aos co-
merciantes do Conic, tradicional centro de compras, que 
pode ser usado para acionar diretamente a PM em caso 
de algum risco à segurança.
Os estados mais populosos da federação conseguiram 
avanços, só que mais pontuais, no período pesquisado 
por VEJA. São Paulo reduziu homicídios (26%), latrocí-
nios (54%) e roubo e furto de veículos, mas essas quedas 
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VIOLÊNCIA DESIGUAL
Oito estados têm taxas de homicídios 
abaixo da média nacional
Taxas de mortes por 100 000 habitantes*
(em 2023)
5,64
6,78
8,02
12,94
14,07
14,94
15,12
15,34
18,53
19,59
19,87
20,42
21,45
22,21
22,76
SÃO PAULO
SANTA CATARINADISTRITO FEDERAL
MINAS GERAIS
GOIÁS
MATO GROSSO DO SUL
RIO GRANDE DO SUL
PARANÁ
BRASIL
SERGIPE
PIAUÍ
RORAIMA
ACRE
RIO DE JANEIRO
TOCANTINS
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Fontes:*Ministério da Justiça e Segurança Pública; **projeção para 
2023 da consultoria AH Datalytics e ***ONU — dados de 2021
OUTROS PAÍSES
5,69
2,09
1,14
0,83
0,54
0,23
PARAÍBA
MATO GROSSO
RIO GRANDE DO NORTE
ESPÍRITO SANTO
MARANHÃO
RONDÔNIA
PARÁ
AMAZONAS
BAHIA
CEARÁ
ALAGOAS
PERNAMBUCO
AMAPÁ
23,47
23,86
24,37
24,47
25,35
26,44
30,11
31,79
32,67
32,89
35,01
36,78
41,29
EUA**
CANADÁ***
FRANÇA***
ALEMANHA***
NORUEGA***
JAPÃO***
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ficaram abaixo da média nacional — -30%, -59% e 
-33%, respectivamente. O uso de câmeras corporais pela 
PM desde 2020 fez a letalidade policial cair nos dois 
anos seguintes. Ela voltou a crescer em 2023, já na ges-
tão Tarcísio de Freitas. Crítico do uso dos aparelhos, ele 
se viu pressionado após dezenas de mortes em operações 
recentes e, na quarta 24, comprometeu-se com o STF a 
ampliar o uso dos equipamentos — hoje, são 10 125 em 
metade dos 510 batalhões. Os novos modelos farão leitu-
ra de placas de veículos e terão recursos de áudio para 
que policiais peçam ajuda em operações.
Estado que se tornou emblema nacional do avanço da 
criminalidade, o Rio de Janeiro continua na direção con-
trária à dos bons exemplos: registrou alta dos homicídios 
em 2023 (7%) após um período de baixas e o recrudesci-
mento das ações do crime organizado não aponta para 
um local mais seguro — não à toa, a Força Nacional de 
Segurança atua no estado desde outubro de 2023. Em 
Minas Gerais, onde o governador Romeu Zema (Novo) 
também empunha a bandeira da segurança, o roubo e 
furto de veículos teve queda expressiva desde 2017 
(48%), mas crimes como homicídio e latrocínio recua-
ram menos que a média nacional. O Paraná baixou o 
roubo e furto de veículos acima da média (49%) e obteve 
bons números na apreensão de armas e drogas. Nos ca-
sos de homicídios e latrocínios, no entanto, as reduções 
não foram tão expressivas.
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As políticas de segurança pública sempre foram uma 
atribuição dos Executivos estaduais, mas nos últimos anos 
a pressão vem batendo à porta do governo federal. O Con-
gresso transformou o tema em uma de suas prioridades, 
com a bancada à direita, majoritária, avançando na aprova-
ção de medidas punitivistas, como a do fim da chamada 
“saidinha” dos presos. Escalado para representar o Palácio 
do Planalto nesse debate, o ministro da Justiça, Ricardo Le-
wandowski, afirmou nos últimos dias que a criminalidade 
adquiriu um caráter transnacional, ressaltando que o poder 
central não tem os instrumentos legais para enfrentar o 
problema. Ele defendeu a aplicação compulsória de parte 
do Orçamento em segurança, como já ocorre com saúde e 
EDUCAÇÃO Criança exibe cartaz no projeto Usinas da Paz, 
no Pará: queda de 77% da violência nas comunidades
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educação. Também disse ser preciso reorganizar o papel de 
cada ente federativo, para que a União possa traçar diretri-
zes para o país. Não será fácil. A discussão corrente é no 
sentido de desvincular as verbas obrigatórias até para saú-
de e educação. Os estados também devem resistir a esse ti-
po de mudança. De qualquer forma, é um avanço que Le-
wandowski tenha aberto essa discussão. “Essa repactuação 
entre os entes é essencial”, diz Renato Sérgio de Lima, pre-
sidente do Fórum Nacional de Segurança Pública.
Os dados mais recentes mostram que o Brasil avança 
a passos muito lentos. A taxa de homicídios é de 18,53 
(era de 18,57 em 2017), o que coloca o país no patamar 
do Haiti. Não por acaso, pesquisa Datafolha de abril 
RECORDE Apreensão de armas em Iporã 
em 2023: a maior da história do Paraná
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mostrou que dois em cada três brasileiros não se sentem 
seguros. A constatação repercute na avaliação dos go-
vernantes. Levantamento da Quaest apontou que 42% 
dos entrevistados acham ruim ou péssima a atuação de 
Lula nessa área. Na esteira da escalada da criminalida-
de, não param de surgir discursos demagógicos tentan-
do vender a ideia à população assustada de que é possí-
vel resolver um problema complexo com discursos de-
magógicos e soluções simples. Os bons exemplos de 
ações adotadas por alguns governos estaduais mostram 
que essa batalha só pode começar a ser vencida com po-
líticas inteligentes, continuadas e coordenadas. É uma li-
ção que está mais do que na hora de o país aprender. ƒ
ALERTA Ato contra o feminicídio no Rio: 
crime cresceu 58% no país desde 2017
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ELES NÃO SE 
ENTENDEM...
...e é você quem pode acabar pagando a conta da 
irresponsabilidade de alguns, do populismo de outros e 
da falta de compromisso de muitos com o país 
DANIEL PEREIRA E HUGO MARQUES
REGRESSIVA Pacheco, Lula e Lira: ainda é 
possível desarmar as bombas que podem 
comprometer a estabilidade
MONTAGEM COM FOTOS DE ISTOCK/GETTY IMAGES; FABIO RODRIGUES-POZZEBOM/AGÊNCIA BRASIL; LULA MARQUES/AGÊNCIA BRASIL
PODERBRASIL
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A HISTÓRIA correu como um rastilho de pólvora a ressaltar 
a insuperável desigualdade — de renda, de poder de pressão e 
de força política — existente no país. No último dia 5, a Câma-
ra de Vereadores de Dias d’Ávila (BA) aprovou reajuste sala-
rial para os professores do município, que conta com pouco 
mais de 70000 habitantes e está localizado na região metro-
politana de Salvador. Apresentado pelo prefeito Alberto Cas-
tro (PSDB), o projeto garantiu um aumento de 46 centavos 
para um determinado tipo de docente a partir de dezembro. 
Quarenta e seis centavos. Já professores com mestrado rece-
berão 106 reais a mais. A votação ocorreu em clima de cons-
trangimento. O sindicato da categoria alegou não ter sido pro-
curado para negociar. E o prefeito, alçado a uma notoriedade 
repentina, disse que houve apenas um “ajuste” para adequar 
os novos salários ao piso nacional do magistério, que é 
4580,57 reais. “É um avanço pequeno, mas é um avanço”, de-
clarou, sem ruborizar, o vereador Renato Henrique (PP), que 
preside a comissão de educação e tem vencimento mensal su-
perior a 10000 reais. Já a vereadora Professora Rosenir (PT) 
protestou: “Eu acordei querendo queimar a minha carteira de 
trabalho”. A indignação dela e de outros tantos brasileiros tem 
razão de ser — e não se restringe a esse caso.
Menos de duas semanas depois da votação em Dias d’Ávi-
la, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado, a mais 
poderosa da Casa, aprovou uma proposta de emenda consti-
tucional (PEC) que ressuscita o chamado quinquênio ao pre-
ver um aumento de 5%, a cada cinco anos, nos vencimentos 
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3 | 10
de determinadas categorias da elite do funcionalismo públi-
co. De autoria do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco 
(PSD-MG), a PEC concedia o benefício, em sua versão origi-
nal, apenas a juízes e integrantes do Ministério Público, mas, 
durante a tramitação, outras carreiras foram contempladas, 
como defensores públicos, advogados da União e delegados 
da Polícia Federal. O texto já está em discussão no plenário 
do Senado e, se aprovado, terá de passar pelo crivo da Câma-
ra dos Deputados. Preocupado com o impacto nas contas pú-
blicas, o governo tenta detê-lo. Não será fácil, dadas a grande 
adesão à proposta entre senadores, a desarticulação da base 
governista no Congresso e a força do lobby dos setores envol-
vidos, que têm poder e influência diametralmente opostos 
aos dos professores do pequeno município baiano. Segundo 
estimativa da Consultoria de Orçamentos, Fiscalização e 
ORÇAMENTO Congresso: parlamentares argumentam que 
conhecem mais que ninguém as necessidades da população 
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NA CONTRAMÃO Haddad: apesar do empenho do ministro, 
governo não conseguecortar despesas — pelo contrário
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Controle do Senado, a “PEC do Quinquênio” pode custar 
81,6 bilhões de reais entre 2024 e 2026 — isso, claro, se a lis-
ta de beneficiários não aumentar.
É muito dinheiro. Para cumprir a meta fiscal de 2025, o 
ministro da Fazenda, Fernando Haddad, terá de conseguir 
50 bilhões de reais em receitas extras, conforme projeções 
da própria equipe econômica. Com 80 bilhões de reais, o go-
verno banca metade do custo anual do Bolsa Família. A di-
ferença é que o quinquênio deve engordar o contracheque 
de cerca de 38000 servidores, enquanto o principal progra-
ma de transferência de renda sustenta 21 milhões de famí-
lias. A proposta tem outros vícios. O aumento de 5% a cada 
cinco anos é automático, não importando se o servidor fez 
por merecê-lo. Além disso, o prêmio está reservado ao topo 
da elite do funcionalismo, que já tem vencimentos próximos 
INÊS249 
5 | 10
ao teto salarial, de 44008,52 reais. Enquanto isso, metade 
dos 11 milhões de servidores públicos do país, a grande mas-
sa esquecida pela PEC, tem salário médio de cerca de 3400 
reais. “O Congresso Nacional precisa decidir se é uma Casa 
em favor de todos os brasileiros ou se legisla em benefício de 
uma minoria”, reagiu em nota o instituto República.org, de-
dicado à gestão no serviço público. “O Brasil é um campeão 
mundial da desigualdade, e a disparidade da remuneração 
no setor público é gritante.”
Diante da repercussão do tema, o senador Rodrigo Pa-
checo reforçou uma antiga promessa e declarou que a “PEC 
do Quinquênio” só será promulgada caso seja aprovado an-
tes um projeto que acaba com os supersalários no Brasil. A 
economia decorrente do projeto — que já passou pela Câ-
mara, mas dormita na mesma CCJ do Senado — seria maior 
do que o gasto decorrente da PEC, de acordo com o senador. 
Pacheco também declarou que não haverá repasses de re-
cursos adicionais para que cada órgão pague o quinquênio. 
Parece um avanço, mas não é, já que o Judiciário e o Minis-
tério Público não geram suas próprias receitas, que são for-
madas pelos impostos pagos pelos contribuintes. “Carreiras 
que têm poder de pressão ignoram o fato de que ocupam 
0,1% da pirâmide de rendimentos do Brasil. Não é 1% mais 
rico, é 0,1%. E aí se quebra um país, se quebra a Previdência, 
para atendimento desse 0,1%”, declarou o senador Alessan-
dro Vieira (MDB-SE), que votou contra a proposta na CCJ. 
No colegiado, prevaleceu o voto do relator, senador Eduardo 
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Gomes (PL-TO), que, ignorando as estimativas, disse que a 
PEC — considerada o carro-chefe da chamada pauta-bom-
ba — não quebrará o país. A ministra do Planejamento, Si-
mone Tebet, discorda: “Não temos gordura, margem fiscal”.
O relator Eduardo Gomes externa uma lógica bem brasi-
leira: nada que me beneficia ou beneficia os meus aliados 
prejudica as contas públicas. O cobertor orçamentário é cur-
to, mas não para atender às demandas e aos interesses de se-
tores poderosos. Segundo o cientista político Alberto Aggio, 
da Universidade Estadual Paulista, os setores mais organi-
zados têm prevalecido cada vez mais na definição do Orça-
mento, inclusive porque atores políticos importantes do pas-
sado perderam força. O próprio PT não tem mais a capaci-
dade de articular com segmentos da sociedade para tentar 
democratizar o Orçamento. Hoje, pelo contrário, o governo 
REALIDADE Dias d’Ávila (BA): professores protestam 
contra reajuste de 46 centavos
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Lula enfrenta críticas de aliados históricos. “Lula não está 
sendo acossado pela Faria Lima, pelo Judiciário, pelo Ar-
thur Lira (presidente da Câmara). Ele é parte desse mundo”, 
declara Aggio. “Na democracia lulista, o meu interesse vale 
tudo, e, se o meu interesse vale tudo, é legítimo o que fazem 
os homens do Judiciário: eu quero o meu”, arremata. 
Desde que assumiu o terceiro mandato presidencial, Lula 
briga com Lira pelo controle de fatias orçamentárias. A ten-
são é permanente, mas não inviabiliza acordos, como ficou 
claro na aprovação de pontos da agenda econômica. A de-
pender dos termos, a parceria pode continuar. No último dia 
9, a Câmara aprovou um dispositivo que liberou o governo a 
antecipar o gasto de 15,7 bilhões de reais este ano. O favor 
foi incluído num projeto, apresentado pelo presidente da Re-
pública, que recria o DPVAT, seguro que indeniza vítimas de 
acidente de trânsito. A iniciativa deu fôlego extra ao minis-
tro Fernando Haddad e pode render dividendos aos parla-
mentares. Em retribuição, o governo cogita disponibilizar 
parte dos 5,6 bilhões de reais em emendas de comissão que 
haviam sido vetados por Lula. Nos bastidores, fala-se numa 
contrapartida de cerca de 3 bilhões de reais. 
Nos últimos dez anos, por sinal, o Congresso protago-
nizou o maior avanço sobre o Orçamento da União. Uma 
das funções primordiais de deputados e senadores é votar 
a lei orçamentária. Até a década passada, os ajustes feitos 
pelos congressistas eram pontuais, e eles controlavam 
módicas fatias das verbas públicas. Esse quadro mudou 
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8 | 10
radicalmente. Em 2015, no primeiro ano do segundo 
mandato de Dilma Rousseff, as emendas parlamentares 
totalizaram cerca de 15 bilhões de reais. Em 2020, sob 
Jair Bolsonaro e o impulso do chamado “orçamento se-
creto”, alcançaram 44 bilhões de reais.
Na campanha de 2022, Lula disse que colocaria ordem 
na casa e acabaria com a farra das emendas. Não conse-
guiu. No Orçamento de 2024, havia previsão de 53 bi-
lhões de reais em emendas parlamentares. O presidente 
vetou 5,6 bilhões, mas, por necessidade política, pode de-
volver parte dos valores vetados. Com a esquerda minori-
tária no Congresso, Lula precisa de Lira e do Centrão pa-
ra aprovar projetos estratégicos, caso da regulamentação 
da reforma tributária, apresentada na quarta, 24, e do 
programa de crédito lançado recentemente. Como as di-
FANTASIA Senado: projeto que cria supersalários 
para algumas categorias
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vergências entre o presidente e o grupo político do depu-
tado quase nunca são resolvidas no mérito, sobram as 
moedas de troca de praxe. O dinheiro das emendas, vale 
ressaltar, é usado por deputados e senadores para obras e 
investimentos. Os parlamentares costumam dizer que sa-
bem mais das necessidades da população do que os engra-
vatados de Brasília. Podem até ter razão, mas também é 
verdade que nem sempre direcionam os recursos para 
projetos prioritários ou atendem a quem realmente preci-
sa. Muitas vezes, preferem apenas privilegiar seus redutos 
eleitorais. A falta de compromisso público gera desperdí-
cio, ineficiência e, segundo investigações da Polícia Fede-
ral, casos de corrupção. Os ralos são conhecidos.
Em meio aos problemas na articulação política, Lula 
conversou com Lira no último dia 19. Nenhum dos dois 
revelou o que foi tratado na ocasião. Dias depois, o petista 
cobrou do vice-presidente Geraldo Alckmin e dos minis-
tros Fernando Haddad e Rui Costa, chefe da Casa Civil, 
mais empenho na negociação com o Congresso. Numa 
conversa com jornalistas, o presidente também declarou 
que não há crise na relação com o Legislativo. “Não há di-
vergência que não possa ser superada. Se não houvesse di-
vergência, não haveria necessidade de a gente dizer que 
são três poderes autônomos”, afirmou. Já Lira adotou um 
tom um pouco diferente. Desde que o deputado conversou 
com o presidente, seus aliados pararam de vazar a amea-
ça de que ele retaliará o Palácio do Planalto instalando 
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CPIs ou votando pautas-bomba. O ambiente aparente-
mente deu uma desanuviada. Mesmo assim, num evento 
com empresários, Lira deixou claro que a disputa em tor-
no do Orçamento continuará. “Essa briga não vai acabar 
nunca, são posicionamentos de placas tectônicas a respei-
to da destinação de políticas públicas. Todademocracia 
vive isso”, afirmou o deputado.
A comparação com as placas tectônicas, em razão dos 
poderes e dos cargos envolvidos na queda de braço, até faz 
sentido. Já a referência a políticas públicas é relativa e, na 
maioria dos casos, soa um tanto despropositada. A cúpula 
da República pensa, antes de qualquer coisa, no seus pró-
prios interesses — políticos, eleitorais ou meramente pes-
soais. Já a base da pirâmide, num costume secular, fica em 
segundo plano. “O professor sempre foi esquecido no país, 
nunca foi prioridade. Apesar de estar previsto em lei de 
2008, o piso do magistério não é pago por 90% das prefei-
turas”, diz o coordenador-geral do Sindicato dos Trabalha-
dores da Educação da Bahia, Rui Oliveira. “Pensa num ab-
surdo. Na Bahia, ele existe”, complementa, referindo-se à 
votação em Dias d’Ávila. Não é um caso isolado. Ao con-
trário do que prega a propaganda oficial, há problemas 
graves na educação, na saúde e na infraestrutura — não 
necessariamente por falta de dinheiro. O contribuinte sus-
tenta um Estado ineficiente, gastador e muitas vezes cap-
turado por interesses bem específicos. A indignação de-
corre disso. Não é só pelos 46 centavos. ƒ
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O PADRÃO A 
SER BUSCADO
ENTRE O MERENDA Escolar (1955) e o Pacto Nacio-
nal pela Alfabetização na Idade Certa (2023), o Brasil 
lançou vinte programas federais com promessas de salto 
na educação. A necessidade desse último, sete décadas 
depois do primeiro, mostra o fracasso dos anteriores: os 
bisnetos ainda estão precisando de pacto federativo para 
realizar, aos 8 anos, o que deveria ter beneficiado seus bi-
savós, aos 5. Fracassamos porque, no lugar de projetos 
executivos nacionais ambiciosos, optamos por intenções 
modestas com execução municipal, pobre e desigual. 
Sem uma política nacional ambiciosa e com instrumentos 
federais efetivos, em 2041 apenas 50% dos 2,5 milhões 
de brasileiros que nasceram em 2023 terminarão o ensi-
no médio; no máximo a metade deles preparada para as 
exigências do mundo contemporâneo.
Essa ambição já serviu às crianças de famílias que po-
dem pagar algumas das boas escolas particulares ou que 
conseguem vaga em escolas públicas de qualidade, quase 
CRISTOVAM BUARQUE
É preciso ampliar e replicar o sucesso 
das escolas públicas federais
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todas federais. A solução para a equidade, portanto, já 
existe: ampliar para todas as crianças o sistema escolar 
das públicas federais. O sistema atual é injusto, porque 
exclusivo para poucos, e ineficiente, porque desperdiça 
milhões de cérebros, principal recurso do mundo atual. 
Além da injustiça, o Brasil continua barrando o potencial 
de 80% de seus cérebros.
O presidente Lula parece ter entendido essa solução 
direta quando recentemente elogiou Leonel Brizola 
(1922-2004) por implantar os chamados Cieps, que Fer-
nando Collor rebatizaria de Ciacs. Mas, quase meio sécu-
lo depois, os Cieps e os Ciacs já não bastam pedagogica-
mente e escolas isoladas não deram o efeito esperado: o 
país precisa fazer a revolução por meio das Cefes (Cida-
des com Educação Federal). As Cefes seriam passos vi-
tais de uma estratégia visando formar um sistema federal 
“É um sistema 
injusto, exclusivo para 
poucos, e ineficiente, 
ao desperdiçar 
cérebros”
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público de educação de base com eficácia e equilíbrio pa-
ra toda a população. O caminho: sucessivos governos na-
cionais substituiriam as escolas municipais por federais, 
em horário integral; com edificações e equipamentos mo-
dernos; professores de uma carreira nacional com eleva-
da remuneração, formação, dedicação e avaliação de re-
sultados. Ao final de duas ou três décadas, estaria im-
plantado o sistema nacional com o padrão das atuais es-
colas federais: as técnicas, os colégios militares, o Colé-
gio Pedro II, no Rio, e os institutos de aplicação.
Nenhum governo será capaz de implantar esse sistema 
em todo o território nacional durante apenas um ou dois 
mandatos, mas até 2026 o governo Lula tem condições de 
espalhar o padrão federal em cinquenta a 100 pequenas ci-
dades, com 1 000 alunos cada, que desejem trocar suas ins-
tituições municipais por federais, com descentralização ge-
rencial e liberdade pedagógica. Ao custo de 15 000 reais a 
20 000 reais por aluno/ano, seu governo estaria dando iní-
cio à revolução que o país precisa se quiser aproveitar o re-
curso intelectual de cada brasileiro.
Outros presidentes adotaram estratégias para indús-
tria e infraestrutura — mas nenhum, contudo, para a raiz 
do progresso, que é a educação de base. Lula tem a opor-
tunidade de deixar essa marca originada em seu governo 
com ambição transformadora para todo o Brasil. A ver os 
próximos passos. ƒ
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PROBLEMAS 
CASEIROS
Indígenas, sem-terra, sindicalistas e servidores 
públicos — grupos historicamente alinhados 
à esquerda — não estão nada satisfeitos com o governo
RICARDO CHAPOLA
ATO Manifestação em Brasília: críticas pela demora na 
demarcação de terras e protestos contra a lei do marco temporal 
MATHEUS ALVES/DPA/GETTY IMAGES
GOVERNOBRASIL
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EM ABRIL do ano passado, a organização do Acampa-
mento Terra Livre, manifestação de grupos indígenas que 
ocorre todos os anos, convidou Lula para participar do 
evento em Brasília. O clima era de absoluta lua de mel. O 
presidente, que tinha assumido o governo havia apenas 
quatro meses, comprometeu-se a acelerar a demarcação de 
áreas, anunciou a liberação de verbas, lembrou que havia 
criado o Ministério dos Povos Indígenas e nomeado para 
comandá-lo a ativista Sonia Guajajara — uma demonstra-
ção aparentemente inequívoca de apoio à causa. Um ano 
depois, os indígenas reclamam que demarcações prometi-
das não saíram do papel, que os recursos liberados foram 
insuficientes e que o ministério está esvaziado. Para deixar 
explícita a insatisfação, dessa vez decidiram não convidar 
Lula e, sim, eles mesmos irem ao Palácio do Planalto apre-
sentar a pauta de reivindicações. “O presidente tinha se 
comprometido a demarcar as terras nos primeiros 100 dias 
e não fez. Isso gerou um grande embaraço”, diz Paulo Tu-
piniquim, um dos organizadores.
Para as lideranças do grupo, o governo optou por desa-
celerar os processos de demarcação para tentar se aproxi-
mar do agronegócio. A insatisfação aumentou ainda mais 
depois da aprovação do marco temporal, que restringe a de-
marcação a propriedades comprovadamente ocupadas pe-
los indígenas até 1988. Esse trecho da lei chegou a ser vetado 
por Lula, mas acabou revogado pelo Congresso. Teria falta-
do empenho do governo e do presidente para tentar evitar 
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esse desfecho. “Nós estamos vendo um alinhamento muito 
próximo dele com o agronegócio, nossos inimigos históri-
cos”, disse Dinamam Tuxá, coordenador da Articulação dos 
Povos Indígenas do Brasil, referindo-se à postura de Lula. 
Na terça, 23, cerca de 8000 indígenas caminharam em di-
reção à Praça dos Três Poderes. Um forte esquema de segu-
rança manteve o grupo a distância das sedes do Congresso, 
do Supremo Tribunal Federal e do Palácio do Planalto. 
Esse cenário de descontentamento com o governo atin-
ge outros setores tradicionalmente ligados à esquerda e ao 
PT. O MST, que já foi até instado por Lula no passado a co-
locar o seu “exército” na rua em defesa do governo, emite 
sinais de agastamento. Nos dois primeiros mandatos do 
INSATISFAÇÃO Protesto de servidores 
federais: ameaça de greve geral 
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presidente, os sem-terra eram usados como arma para 
constranger grandes proprietários de terras, empresas liga-
das ao agronegócio e adversários políticos. Hoje, enfrentan-
do circunstâncias bem diferentes de antes, o presidente pre-
cisa se aproximar dos ruralistas por necessidade política. 
Para construir pontes, Lula foi aconselhado a colocar o pé 
no freio na reforma agrária e evitar conflitos no campo. Pa-
ra tentar compensar, cedeu espaços e deu cargos importan-
tes ao movimento,além de anunciar um ambicioso progra-
ma, cuja meta seria assentar 295000 famílias até 2026. Na-
da indica que isso vai aplacar os ânimos do MST.
Apenas nos primeiros vinte dias de abril, os sem-terra 
invadiram 32 propriedades em quinze estados. Os dirigen-
CAIXA VAZIO Esther Dweck: sem recursos 
para aumentos salariais em 2024
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tes do movimento dizem que não estão convencidos do em-
penho do governo em cumprir as promessas. Eles se quei-
xam de que foram assentadas até o momento apenas 1400 
famílias, contingente considerado pequeno demais, e dos 
cortes orçamentários. O MST calcula que seriam necessá-
rios ao menos 2,8 bilhões de reais para atingir a meta em 
2024, mas o Incra, órgão responsável pelo planejamento e 
execução dos projetos, conta com apenas 567 milhões para 
tocar o programa — um quinto do valor estimado. “Por 
mais que haja certo esforço do governo em sinalizar a reto-
mada da reforma agrária, isso ainda não aconteceu. Há um 
passivo que não foi ainda sequer mexido. É fundamental que 
possamos seguir mobilizados e organizados para mostrar 
que é uma demanda urgente e necessária”, ressaltou Ceres 
Hadich, dirigente nacional do MST, no site da entidade.
Outro foco de problemas para o governo se encontra no 
funcionalismo público. Em tempos de desequilíbrio fiscal, 
reajustes salariais não encontram espaço no orçamento. Al-
gumas categorias estão pressionando o governo. Os técni-
co-administrativos, por exemplo, ameaçam entrar em gre-
ve caso não sejam concedidos reajustes que variam de 22% 
a 34%. Em muitas universidades federais, a turma já cru-
zou os braços. O Ministério da Gestão, comandado pela pe-
tista Esther Dweck, também já informou que não haverá 
aumentos neste ano, o que foi considerado pelos represen-
tantes da categoria como uma postura “intransigente” e 
“decepcionante”. Sem acordo, ameaçam uma paralisação 
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que pode atingir todos os níveis da administração pública. 
“O que o governo tem feito é colocar a gente sempre no fi-
nal da fila. Os servidores estão há sete anos com a remune-
ração congelada. A nossa paciência acabou”, diz Sérgio Ro-
naldo da Silva, secretário-geral da Confederação dos Tra-
balhadores no Serviço Público Federal, entidade que repre-
senta 80% dos funcionários do Executivo.
Para um governo do PT, partido que nasceu no berço do 
sindicalismo, nada mais constrangedor que esse tipo de co-
brança. Afinal, foi nesse ambiente que Lula, um ex-metalúr-
gico, construiu sua carreira política. Por questões de ordem 
prática, a ameaça de uma greve geral dos servidores públi-
cos tem preocupado o governo. “Nós estamos preparando 
“EXÉRCITO” Ação dos sem-terra: onda de invasões para 
chamar atenção para a lentidão nos assentamentos
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aumento de salário para todas as carreiras. Nem sempre é 
tudo que a pessoa pede. Muitas vezes é aquilo que a gente 
pode dar. E nós vamos negociar com todas as categorias. Eu 
quero até aproveitar para dizer que ninguém será punido 
neste país por fazer uma greve”, disse o presidente na terça, 
23. O Ministério da Gestão designou o secretário de Rela-
ções do Trabalho, José Lopez Feijóo, para tentar resolver o 
impasse. Feijóo já foi presidente do Sindicato dos Metalúrgi-
cos do ABC e secretário-geral da Central Única dos Traba-
lhadores (CUT). Em uma das primeiras reuniões, ele condi-
cionou o avanço das negociações à não realização de greves 
ou qualquer tipo de paralisação. A postura foi classificada 
pelos sindicalistas como autoritária e inadmissível.
FALTA EMPENHO Sindicatos: cobrando 
promessas feitas na campanha
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O fato é que as próprias centrais sindicais, inclusive 
aquelas historicamente ligadas ao PT, demonstram certa 
irritação com o governo. Desde a volta de Lula ao Planalto, 
elas se articulam para tentar recriar o imposto sindical. A 
contribuição compulsória, abolida pela reforma trabalhis-
ta, tirou 3 bilhões de reais por ano dos cofres das entida-
des. Na campanha eleitoral, Lula se comprometeu a criar 
um mecanismo que compensasse a perda de arrecadação. 
O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, ex-sindicalista, 
chegou até a elaborar uma minuta para a criação do cha-
mado “financiamento solidário e democrático”, um nome 
mais bonito para definir a volta do tributo. Rejeitada pelos 
patrões e pelos congressistas, a proposta não avançou. “Se-
guindo a orientação do Lula, estamos há um ano nego-
ciando com a área empresarial, mas falta empenho”, disse 
Ricardo Patah, presidente da União Geral dos Trabalhado-
res (UGT).“Também é preciso cobrar do governo a corre-
ção da tabela do imposto de renda e gritar contra a cares-
tia, que prejudica os mais pobres”, ressalta Miguel Torres, 
presidente da Força Sindical. Essas e outras reivindicações 
serão apresentadas no ato que vai celebrar o Dia do Traba-
lho, 1º de maio, em São Paulo. Lula foi convidado, mas ain-
da não confirmou presença. ƒ
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FREIOS E 
CONTRAPESOS 
NO BRASIL contemporâneo, a dinâmica entre os poderes 
Executivo e Legislativo evoluiu significativamente, marca-
da por uma constante busca de equilíbrio e eficácia gover-
namental. Há anos, alertei sobre a transformação do mo-
delo de governabilidade no país, onde o software político 
exigia uma coabitação inequívoca, uma previsão que se 
confirma atualmente.
Tradicionalmente, o governo controlava as ações legis-
lativas por meio da distribuição estratégica de verbas e 
cargos, criando uma maioria no Congresso Nacional ba-
seada no princípio do “toma lá dá cá”. No entanto, a partir 
de 2014, o Congresso despertou para seus poderes consti-
tucionais, especialmente quanto ao controle do Orçamen-
to, que, anteriormente, era apenas validado pelos parla-
mentares a pedido do Executivo.
Essa evolução representa um avanço democrático sig-
nificativo, pois incorpora um sistema de freios e contrape-
sos fundamental para a manutenção da democracia, já que 
MURILLO DE ARAGÃO
O avanço do semipresidencialismo 
foi bom para o Brasil
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promove a divisão e o equilíbrio do poder entre Executivo, 
Legislativo e Judiciário. No Brasil, essa divisão é evidente 
não apenas na teoria, mas também na prática cotidiana, 
com debates judiciais e legislativos frequentes sobre leis e 
políticas públicas.
O processo decisório no Legislativo, exemplificado 
pela gestão de Arthur Lira na Câmara dos Deputados, 
revela uma sistemática com diálogo e pluralismo pouco 
percebidos e que deveria ser valorizada, sobretudo pela 
busca incessante de consenso. Toda terça-feira, o pro-
cesso começa com um café da manhã, do qual partici-
pam o presidente da Câmara e os líderes da oposição e 
onde a pauta da semana é repassada. Na hora do almo-
ço, o quórum aumenta, incluindo os líderes partidários. 
Nada do que é votado no plenário deixa de ser discutido 
com os líderes. Todos. 
“O fortalecimento do 
Legislativo de 2015 para 
cá foi decisivo para a 
aprovação de diversas 
reformas importantes”
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Naquela mesa se define o futuro da legislação do país, 
com Lira ouvindo todas as correntes políticas existentes e 
representadas na Câmara e articulando consensos. Tal fa-
to revela uma pluralidade na condução do processo deci-
sório no país que, sem dúvida, é um avanço democrático, 
já que, no mínimo, todas as forças representadas na Câma-
ra sabem o que está sendo votado, rejeitado ou aprovado. 
O fortalecimento do Legislativo de 2015 para cá foi de-
cisivo para a aprovação de diversas reformas importantes, 
como a trabalhista, a previdenciária e a tributária, todas 
resultantes de intensas negociações e debates no Parla-
mento. Antes, era penoso o avanço das reformas constitu-
cionais e muitas vezes nada acontecia. 
A atuação do Congresso em 2023 representa um exem-
plo da eficácia desse sistema, com mais de 7 000 proposi-
ções analisadas e 228 votadas,refletindo uma agenda le-
gislativa diversificada, que abrange desde reformas econô-
micas até a promoção de programas sociais e de sustenta-
bilidade ambiental.
Assim, o sistema de freios e contrapesos no Brasil tem 
demonstrado sua vitalidade e relevância, garantindo que ne-
nhum ramo do governo detenha poder absoluto. E a reparti-
ção de poderes impediu que arroubos autoritários ameaças-
sem, de fato, a nossa democracia. Com um presidencialismo 
autocrático, viveríamos um grave retrocesso. O Legislativo, 
como a Casa do Povo, e também dos estados, é o centro do 
debate das políticas nacionais. E é assim que deve ser. ƒ
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O BOMBEIRO CIVIL
Sem alarde, o ministro da Defesa driblou o Partido dos 
Trabalhadores, conteve os radicais e conseguiu 
pacificar as relações entre o governo e os militares 
MARCELA MATTOS
CONCILIADOR José Múcio: apenas “alguns” fardados 
“indisciplinados” se envolveram em planos golpistas
CHARLES SHOLL BRAZIL PHOTO PRESS/AFP
MINISTÉRIOBRASIL
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JOSÉ MÚCIO MONTEIRO tinha tudo para ser o ministro 
menos longevo do governo Lula — quem sabe até um dos 
menos longevos da história. Sete dias depois de tomar posse 
no comando da Defesa, em 2023, ele estava na linha de fren-
te de uma das crises políticas mais graves desde a redemo-
cratização do país. No 8 de Janeiro, Múcio almoçava em um 
restaurante em Brasília quando foi avisado de que apoiado-
res do ex-presidente Jair Bolsonaro haviam deixado o acam-
pamento montado no quartel-general do Exército em dire-
ção à Praça dos Três Poderes. A manifestação, como se sa-
be, terminou com a invasão e depredação dos prédios do 
Palácio do Planalto, do Congresso e do Supremo Tribunal 
Federal. Ainda naquele dia trágico, o presidente Lula deu or-
dens para debelar a insurgência e prender imediatamente 
todos os responsáveis pelos ataques, incluindo, se fosse o ca-
so, os militares envolvidos. Era o pior começo possível para 
quem assumiu o cargo com a missão de normalizar as rela-
ções, que já não eram nada boas, entre o governo e a tropa. 
Deputado federal por cinco mandatos, chefe da articula-
ção política de Lula entre 2007 e 2009 e ex-ministro do Tri-
bunal de Contas da União, Múcio é conhecido pela habilida-
de de conversar e pelo talento em circular pelos diferentes 
espectros políticos. O momento exigia alguém com esse per-
fil para o cargo de ministro da Defesa. Inicialmente, ele che-
gou a recusar o convite do presidente justificando, em tom 
de brincadeira, que não sabia “nem dar um tiro”, mas diz 
que acabou cedendo por ser um “refém da gratidão”. Ao 
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aceitar a função, um dos primeiros recados que recebeu foi o 
de que até o Alto Comando das Forças Armadas estava con-
taminado pela politização do governo Jair Bolsonaro e que 
uma significativa parcela dos militares resistia a prestar con-
tinência a Lula — um cenário de extrema gravidade. “O que 
você vai fazer diante dessa situação?”, perguntou um inter-
locutor. “Eu vou evitar que eles se encontrem”, respondeu. 
Era, evidentemente, uma brincadeira. A estratégia traçada 
pelo ministro era justamente fazer o contrário disso.
Múcio organizou encontros, garantiu a participação do 
presidente em solenidades militares, promoveu agendas 
NORMALIDADE O presidente Lula e os comandantes: 
relações restabelecidas
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31 DE MARÇO Almeida: projeto abortado para 
não criar suscetibilidades
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com os comandantes para falar sobre assuntos administrati-
vos, discutir promoções e combinar investimentos. O 8 de 
Janeiro, no entanto, continuava dificultando a aproximação 
com a instituição como um todo, principalmente quando a 
Polícia Federal passou a investigar oficiais de alta patente. 
Os comandantes nunca admitiram o envolvimento da insti-
tuição em qualquer ato ilegal — muito menos que no dia 8 
de janeiro houve uma tentativa de sublevação. Na medida 
em que as investigações mostraram a participação isolada 
de alguns militares, poupando a instituição, as resistências 
diminuíram de ambos os lados. 
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Janja, por exemplo, não escondia sua ojeriza aos milita-
res, a ponto de recusar que eles atuassem em sua seguran-
ça. No mês passado, a primeira-dama foi madrinha de lan-
çamento de um submarino da Marinha. “Que Deus aben-
çoe este submarino e todos os marinheiros que aqui nave-
garem”, disse ela no evento. Do lado fardado, sobram elo-
gios à atuação de Múcio. “Nós podemos falar em pacifica-
ção. E isso significa uma relação de respeito, baseada na 
cordialidade, na confiança e no profissionalismo com o co-
mandante, que é o presidente da República. Sem experiên-
cia pregressa e num momento difícil, o principal ator para a 
construção disso é o ministro Múcio. Temos de fazer esse 
reconhecimento”, afirmou a VEJA o general Tomás Paiva, 
comandante do Exército.
Recentemente, coube a Múcio desarmar uma bomba que 
podia ter colocado tudo a perder. O ministro foi alertado de 
que havia uma programação especial do Ministério dos Di-
reitos Humanos para lembrar o dia 31 de março, aniversário 
do golpe militar de 1964. O roteiro incluía homenagens às 
vítimas de tortura e a criação de memoriais para os mortos 
durante o regime. Ao saber da programação, Lula pediu ao 
titular daquela pasta, Silvio Almeida, para cancelar o even-
to, argumentando que isso geraria um constrangimento des-
necessário neste momento. Em outro gesto na direção da 
política de desarmar bombas, no último dia 19, o presidente 
participou da cerimônia de comemoração do Dia do Exérci-
to na mesma praça onde funcionou, em janeiro do ano pas-
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sado, o famoso acampamento golpista. Entre o público pre-
sente, havia apoiadores e críticos do governo, houve peque-
nas manifestações de uma e de outra parte, mas a tensão 
que havia antes não é nem de longe a mesma. 
Passados dezesseis meses à frente de uma das missões 
mais espinhosas da Esplanada, Múcio, além de continuar 
sendo um estranho no ninho, também pode se considerar 
um sobrevivente. O ministro já chamou Jair Bolsonaro de 
“democrata”, defendeu os acampamentos em frente aos 
CPF OU CNPJ? 8 de Janeiro: o governo acusou as Forças 
Armadas de envolvimento na tentativa de golpe
JOEDSON ALVES/ANADOLU AGENCY/GETTY IMAGES
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quartéis militares e repetiu diversas vezes que as Forças Ar-
madas foram as responsáveis por evitar, em vez de articular, 
um golpe contra Lula — ou seja, rezou todo esse tempo ao 
contrário da cartilha empunhada pelos aliados do governo. 
Além disso, o chefe da Defesa atuou para conter as investi-
das do PT, que, entre outras incursões, tentou alterar as re-
gras de promoções dos oficiais e ainda defendeu a criação 
de uma Guarda Nacional, o que, na prática, esvaziaria a atu-
ação do Exército. Antes mesmo de completar um mês no 
cargo, Múcio recebeu a ligação de um assessor palaciano 
advertindo que ele poderia ser substituído no cargo. A res-
posta foi bem ao estilo dele: “Acho o máximo, ótima ideia. 
Estou feliz que o presidente achou alguém para a Defesa”. A 
demissão, por óbvio, não passava de fogo amigo. 
No mês passado, na festa de aniversário do ex-ministro 
José Dirceu, o deputado e ex-presidente do PT Rui Falcão 
aproveitou a oportunidade para fustigar o ministro diante 
de uma roda de jornalistas. Ao se aproximar de Múcio, o 
parlamentar fez questão de criticar em alto e bom som o 
cancelamento dos atos programados pelo Ministério dos Di-
reitos Humanos para o dia 31 de março. Depois, perguntou 
ao ministro até quando ele seguiria na pasta. Quem assistiu 
à cena ficou em dúvida se a pergunta era uma brincadeira 
ou uma provocação. Se foi uma provocação, Rui Falcão tal-
vez desconheça que, ironicamente, os petardos do PT têm a 
valia de fortalecer Múcio dentro da caserna. “Coloquem no 
jornal que o PT quer a cabeça dele, porque isso o credencia”, 
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brinca um aliado, sabedor da tendência conservadora dos 
militares.Hábil, o ministro também conseguiu resolver situ-
ações delicadas sem criar marola. Ele se empenhou pessoal-
mente no afastamento de todos os militares arrolados nas 
investigações sobre os atos golpistas e esteve no centro da 
articulação que inviabilizou a promoção do tenente-coronel 
Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro. 
No último dia 17, o ministro da Defesa e os comandantes 
das três Forças passaram por uma sabatina de mais de cinco 
FOGO AMIGO Gleisi Hoffmann, presidente do PT: o ministro 
da Defesa até hoje é alvo de intrigas por parte de petistas
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horas na Câmara dos Deputados. Depois de fazer um balan-
ço positivo de sua gestão, Múcio reafirmou que apenas “al-
guns” fardados “indisciplinados” se envolveram em planos 
golpistas. Garantiu também que a relação de confiança entre 
o governo e os militares foi, enfim, restabelecida. “O que eu 
quero dizer é que se quebrou o gelo. O mais importante que a 
gente tem é a fala, e a gente deve usá-la para aproximar, para 
pacificar e pedir desculpas”, disse depois a VEJA. O bombei-
ro saiu do Congresso aplaudido até pela oposição. ƒ
MUDANÇA Janja: primeira-dama começou a participar de 
eventos nos quartéis
EVARISTO SÁ/AFP
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A DELEGADA 
VERMELHA
Policial há mais de vinte anos e nome da esquerda em 
Goiânia, capital do agronegócio, Adriana Accorsi é, 
por ora, a única candidata competitiva puro-sangue 
do PT nas capitais ISABELLA ALONSO PANHO
ESTRATÉGIAS A pré-candidata petista: apostas na bandeira 
da segurança e na interlocução com quem pensa diferente
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ELEIÇÕESBRASIL
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EM 2020, quando tentou pela primeira vez a prefeitura de 
Goiânia, Adriana Accorsi sentiu o tamanho da dificuldade 
que teria para, como delegada da Polícia Civil, empunhar 
no estado a bandeira do PT, ao qual é filiada desde 1990. 
“Não existe policial esquerdista, porque defende bandido. 
Tem que morrer. Goiás não é a m... do Nordeste”, ameaçou 
em privado no Instagram um usuário, que foi encontrado e 
preso logo depois. Adriana chegou em terceiro naquela dis-
puta, foi eleita deputada federal em 2022 e agora tenta no-
vamente o comando da cidade em uma condição bem pe-
culiar: no coração do agronegócio, a policial é, por ora, a 
mais competitiva candidata do PT em todas as capitais.
A responsabilidade dela é grande, já que o petismo 
planeja não repetir o fiasco de 2020, quando não elegeu 
nenhum prefeito nas capitais, rompendo uma tradição 
que vinha desde a criação da legenda. O partido, no en-
tanto, nem tem candidatos próprios nos dois maiores co-
légios eleitorais (São Paulo e Rio de Janeiro). Enquanto 
isso, no Nordeste, onde tem a sua base eleitoral, não é fa-
vorito em nenhuma cidade. Em Goiânia, segundo levan-
tamento de fevereiro do instituto Paraná Pesquisas, 
Adriana aparece numericamente à frente, com 22,1%, se-
guida do senador Vanderlan Cardoso (PSD) e do deputa-
do Gustavo Gayer (PL) — a margem de erro é de 3,8 pon-
tos. Ainda que pequena, a vantagem é significativa, con-
siderando-se que nenhum outro petista lidera hoje a cor-
rida em outras capitais. 
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Candidata de esquerda em 
uma cidade que deu 64% dos 
votos a Jair Bolsonaro no se-
gundo turno de 2022, Adria-
na aposta na sua longa trajetó-
ria política. Ela é filha de Dar-
ci Accorsi, professor e filósofo 
que foi um dos primeiros pre-
feitos do PT no país ao vencer 
a eleição em Goiânia em 1992. 
Policial desde 2000, Adriana 
foi a primeira mulher a chefiar 
a Polícia Civil no estado, entre 
2012 e 2013. Depois, elegeu-
se deputada estadual por dois 
mandatos e chegou em 2022 
pela primeira vez à Câmara, onde é vice-líder do PT e autora 
de 24 projetos de lei — boa parte sobre violência contra a 
mulher e direitos civis. Ter como centro da sua atuação a 
bandeira da segurança pública também é outro diferencial 
para quem é de esquerda, segmento que tradicionalmente 
tem dificuldades com a pauta, largamente explorada pela di-
reita. Adriana defende a atuação de Lula na questão, diz que 
“a maior parte da política de segurança é feita pelos estados” 
e que o “poder de atuação do governo federal é limitado”.
A principal aposta política de Adri ana, no entanto, é na 
interlocução com quem pensa diferente. “Não sou uma 
CABO ELEITORAL 
Caiado: com alta aprovação, 
ele tenta quebrar tabu
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PADRINHO Gayer (no centro) e Bolsonaro: 
64% dos goianos votaram no capitão
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candidata extremista nem radical de esquerda. Sou conhe-
cida pela minha postura democrática”, diz. Afirma ter re-
lação “muito cordial” com o agronegócio e que sua candi-
datura atende a um pedido do próprio Lula, que pena para 
ter inserção no Centro- Oeste e no agronegócio, que lhe 
oferecem grande objeção política — o presidente planeja 
visitar Goiás ainda no primeiro semestre, o que seria um 
gesto inédito no seu terceiro mandato.
Considerada uma das prioridades do PT na eleição, a 
conquista de Goiânia não será fácil. Vanderlan Cardoso foi 
para o segundo turno nas duas últimas eleições municipais, 
fazendo mais de 40% dos votos. Já Gustavo Gayer, da ala 
mais panfletária do bolsonarismo, tem o apoio do ex-presi-
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dente, um cabo eleitoral importante no estado. Também en-
trou na disputa recentemente Sandro Mabel, ex-assessor es-
pecial do então presidente Michel Temer e hoje presidente 
da Federação das Indústrias de Goiás, que também tem um 
padrinho que pode ser decisivo: o governador Ronaldo 
Caiado (União Brasil), cuja gestão é aprovada por 86% dos 
eleitores no estado, segundo pesquisa Quaest feita em abril. 
Ele pretende quebrar a escrita de um candidato apoiado pe-
lo governador nunca ter vencido a eleição na capital goiana.
O fato de correr sozinha enquanto aposta do campo da 
esquerda e o de enfrentar uma direita fragmentada no esta-
do representam trunfos para Adriana Accorsi, mas podem 
ser um problema em um eventual segundo turno. É muito 
provável que, nessa fase da disputa, os demais concorrentes 
estejam juntos do outro lado — Caiado chegou a ir ao lança-
mento da candidatura de Gayer junto com Bolsonaro. “O 
nosso trabalho é para o segundo turno”, afirma Vanderlan, 
apostando na repetição dos feitos de 2016 e 2020. 
Embora a eleição caminhe para um enfrentamento entre 
direita e esquerda, Caiado acha difícil que a polarização seja 
o fator decisivo. “O debate será sobre quem tem mais condi-
ções de gerir essa cidade”, diz. Historicamente, as eleições 
municipais costumam, de fato, ser decididas por questões 
locais, mas pesquisas mostram que segurança pública pode-
rá ter um grande peso no debate. A questão é saber quanto a 
delegada vermelha terá de “bala na agulha” para vencer o 
difícil duelo que se avizinha no cerrado. ƒ
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FISGADOS 
PELO IBAMA
Levantamento feito por VEJA mostra que o mar de Santa 
Catarina é o principal reduto da pesca ilegal no país, com 
um terço das multas aplicadas entre 2018 e 2024 
BRUNO CANIATO
NO RADAR Exploração em águas da Região Sul: 
uso ilegal de apetrechos é o maior problema
PM AMBIENTAL DE SANTA CATARINA
MEIO AMBIENTEBRASIL
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HÁ MENOS de um ano, em junho de 2023, agentes do 
Ibama abordaram uma embarcação no mar de Santa Cata-
rina em uma operação que entraria para a história ambien-
tal brasileira. No navio, os fiscais apreenderam 29 tonela-
das de barbatanas de tubarão de origem irregular, quanti-
dade que estabeleceu o novo recorde mundial de confisco 
desse tipo. A carga pertencia a uma empresa de Itajaí, a 
Kowalsky Pescados, cujo proprietário carrega consigo 
também o desonroso troféu de campeão nacional da pesca 
ilegal — Evaldo Kowalsky acumula 28 autuações e 32 mi-
lhões de reais em multas ambientais desde 2018. Embora 
representativo, o personagem é mais um dos muitos infra-
tores que fizeram de Santa Catarina o estado campeão da 
pescaria predatória,segundo levantamento feito por VEJA 
com base nos registros do Ibama.
O desrespeito à legislação em Santa Catarina é enorme. 
O estado abriga 7% da faixa litorânea brasileira, mas con-
centra um terço do volume de multas por pesca ilegal no pa-
ís. No período pesquisado pela reportagem, pessoas e em-
presas catarinenses foram autuadas em 153 milhões de reais 
por atividade irregular, cerca de 34% do total de punições 
aplicado em toda a costa brasileira, que chegou a 453 mi-
lhões de reais (veja o quadro na pág. ao lado). A ilegalidade 
é tão arraigada que até o ex- presidente do Sindicato dos Ar-
madores e das Indústrias da Pesca de Itajaí e Região, Giova-
ni Genázio Monteiro, figura em terceiro lugar no ranking de 
multas, com 11,5 milhões de reais. Em 2015, ele chegou a ser 
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28,5
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37,6
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153SC
NA MIRA DOS FISCAIS
PER Í ODO 2 0 1 8 - 2 0 24
(em milhões de reais)
Os estados campeões em
infrações neste setor
Fonte: Ibama
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preso pela Polícia Federal, acusado de comandar um vasto 
esquema de fraudes na concessão de licenças pesqueiras.
A liderança catarinense em bandidagem na pesca não é 
coincidência. A indústria de pescados é um forte motor eco-
nômico de Santa Catarina, que concentra cerca de 30% das 
embarcações e o maior número de empresas do setor no 
Brasil, segundo a Secretaria Executiva Estadual de Aqui-
cultura e Pesca. O estado movimentou mais de 5 bilhões de 
reais com a atividade entre janeiro e outubro de 2023 — o 
porto de Itajaí movimenta 55% do mercado brasileiro e li-
dera as vendas de congelados no país.
A pesca catarinense também tem considerável influên-
cia política. O estado é a base de Jorge Seif Jr., ex-secretá-
rio de Pesca e Aquicultura no governo Jair Bolsonaro, atu-
al senador do PL (mas arriscado a perder o mandato, em 
julgamento em curso no TSE por abuso de poder econômi-
co na campanha) e dono de um longo histórico na ativida-
de pesqueira. Seu pai, Jorge Seif, é fundador da JS Pesca-
dos e acumula, com a esposa, Sara Kischener Seif, 6 mi-
lhões de reais em multas desde 2018. Os dados mostram 
que a fiscalização afrouxou sob Bolsonaro, ao mesmo tem-
po que era comum ver o então presidente pescando com 
Seif Jr. em águas catarinenses. Em 2018, o volume de mul-
tas no país superou 146 milhões de reais. Com a posse de 
Bolsonaro, caiu pela metade. Em 2020, despencou para 25 
milhões de reais. Com Lula, voltou a subir, para 135,6 mi-
lhões de reais. “Dois fatores foram bastante prejudiciais 
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para a fiscalização: a redução do quadro efetivo e a falta de 
embarcações”, diz Igor de Brito, chefe do Núcleo de Fisca-
lização dos Recursos Pesqueiros (Nupesc), do Ibama.
Os crimes incluem irregularidades nas licenças, comer-
cialização de espécies vetadas e utilização de técnicas proi-
bidas, como o espinhel de superfície, apetrecho composto 
por uma estrutura de linhas e anzóis que tem como foco a 
pesca de atuns, mas atrai grandes quantidades de animais 
protegidos, como tartarugas. 
As espécies mais afetadas pela pesca predatória ilegal 
variam entre as regiões. No panorama nacional, especialis-
tas apontam que tubarões, cações e arraias estão entre os 
mais ameaçados. Outras espécies que sofrem com a ativi-
dade irregular são camarões, lagostas, tainhas e sardinhas. 
Além dos apetrechos desproporcionalmente letais, causa 
preocupação o desrespeito ao defeso, o período de reprodu-
POLÍTICA Jorge Seif Jr. (à dir.), seu pai e Bolsonaro: 
retrocesso na fiscalização
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ção dos animais. “A redução desproporcional de uma deter-
minada população causa desequilíbrio em toda uma cadeia 
alimentar”, alerta Ronaldo Christofoletti, professor do Ins-
tituto do Mar da Unifesp e representante da Unesco para a 
proteção dos oceanos brasileiros. Segundo ele, além de for-
talecer a fiscalização, é preciso revisar o arcabouço legal 
para considerar o ecossistema, mais do que espécies indivi-
duais, e proteger a autonomia das comunidades que explo-
ram o mar de forma sustentável.
A pesca ilegal é um dos crimes que mais têm preocupado, 
não só os agentes ambientais, como as autoridades policiais. 
Quadrilhas envolvidas nesse tipo de prática têm, em alguns 
lugares do país, conexões com outras atividades criminosas, 
como garimpo e tráfico de drogas. Pescadores ilegais mata-
ram o indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom 
Phillips, em junho de 2022, no Amazonas — terceiro no 
ranking da pesca ilegal, mas bem abaixo dos estados do Sul. 
Segundo o fiscal Igor de Brito, na Amazônia, a atividade ocor-
re no mar e em rios, de forma muito espalhada, o que dificulta 
a atuação quando se tem um baixo número de fiscais. Já no 
Sul, a atividade é concentrada em determinadas regiões, faci-
litando a ação dos agentes. A exploração dessa modalidade de 
crime encontra águas tranquilas quando a repressão reflui, 
quase sempre em razão de uma visão ambiental permissiva. 
Mas o país precisa agir com firmeza, porque é necessário pro-
teger a exploração econômica legal e punir quem suja as 
águas dessa atividade importante para o Brasil. ƒ
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RADAR ECONÔMICO
NOS ARES KC-390, avião militar da Embraer: 
em negociação com a Colômbia
GORDZAM/ALAMY/FOTOARENA
Voando alto
A Embraer mantém conver-
sas avançadas para vender 
seu cargueiro militar KC-
390 ao governo colombia-
no. O modelo já foi negocia-
do com cinco nações euro-
peias e com a Coreia do Sul. 
Atualmente, a Força Aérea 
Colombiana opera quarenta 
aeronaves da Embraer.
Comboio elétrico
No embalo do programa fe-
deral Mover, que dará crédi-
tos tributários às montado-
ras que investirem em pes-
quisa e projetos de descarbo-
PEDRO GIL
Com reportagem de Diego Gimenes, 
Felipe Erlich e Juliana Machado
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nização, a Volkswagen vai 
anunciar investimentos na 
eletrificação de caminhões e 
ônibus. “Os ciclos de veícu-
los leves e pesados estão des-
casados”, diz Marco Saltini, 
vice-presidente da VW.
Lar digital
Anunciada no ano passado, 
a fusão entre os provedores 
brasileiros de internet Vero 
e Americanet começa a ren-
der frutos. A companhia re-
sultante da operação — cha-
mada apenas Vero — vai 
ampliar a oferta de telefonia 
móvel e produtos digitais 
para residências. Para isso, 
foram assinadas parcerias 
com o Google e o serviço de 
streaming Roku.
Negócios com empresas
A Vero também vai entrar 
no mercado de “hardware 
as a service”, como é cha-
mado o aluguel de equipa-
mentos para empresas. 
Atualmente, 15% do fatura-
mento da provedora vem do 
segmento B2B. A intenção é 
aumentar esse volume.
Retomada na saúde
A compra do laboratório 
São Lucas pela rede de ser-
viços médicos Fleury, sa-
cramentada na semana pas-
sada, foi o primeiro sinal do 
reaquecimento do setor. A 
última grande movimenta-
ção havia ocorrido em 
2022, quando a Rede D’Or 
comprou a SulAmérica.
Vem mais por aí
Quem acompanha de per-
to o mercado de saúde ga-
rante que fusões e aquisi-
ções serão retomadas com 
força no setor em 2024. 
Há um grande negócio em 
vista: Rede D’Or, Bradesco 
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Saúde e Amil estariam in-
teressadas no grupo de 
diagnósticos Dasa.
Olho na RJ
As gestoras Strata Capital, 
Flow Invest, Jive Asset e Vin-
ci Partners estão à procura 
de empresas em processos 
de recuperação judicial para 
investir. A avaliação de negó-
cios é feita em parceria com 
a consultoria RGF.
Novos mercados
Presente em 43 países e 
com ações negociadas na 
bolsa de Nova York, a plata-
forma brasileira de softwa-
re de comércio eletrônico 
Vtex quer explorar novos 
mercados. A ideia é ingres-
sar na China e na Índia. 
Bola cheia
A La Liga, entidade respon-
sável pela organização do 
campeonato espanhol de fu-
tebol, vai divulgar nos pró-
ximos dias o ótimo desem-
penho financeiro do torneio 
na temporada 2022/23. As 
receitas somaram 27 bilhões 
de reais, oque representou 
um aumento de 15% em re-
lação à edição anterior.
A Selic ideal
O banco Itaú BBA realizou 
uma pesquisa com 160 ges-
tores financeiros para en-
tender qual seria o “número 
mágico” da taxa de juros bá-
sica no Brasil que estimula-
ria a entrada de investidores 
na renda variável. Segundo 
os entrevistados, uma Selic 
de 9% ao ano aumentaria 
consideravelmente os apor-
tes em ações locais. ƒ
OFERECIMENTO
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https://kovr.com.br/
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CORRIDA CONTRA 
O TEMPO
O governo encaminhou ao Congresso o projeto de 
regulação da reforma tributária. Para aprovar a 
proposta ainda em 2024, contudo, será preciso 
superar diversos obstáculos
FELIPE ERLICH E JULIANA ELIAS
EM MÃOS Lira recebe documento de Haddad: 
 sintonia entre eles é vital para o texto andar
DIOGO ZACARIAS/MF
IMPOSTOSECONOMIA
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urante a implementação do Plano Real, em 1994, o 
ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, foi alerta-
do, pelo candidato a presidente Fernando Henrique 
Cardoso, sobre o risco de o Congresso desfigurar a 
proposta. “Vão querer pendurar uma porção de 
coisas que não têm nada a ver”, disse FHC à época. O relato 
acima foi feito a VEJA pelo próprio Ricupero e ilustra como 
é complexo emplacar grandes mudanças econômicas sem o 
intrometimento implacável — para o bem ou para o mal — 
do Congresso. Trinta anos depois, o Parlamento se volta à 
reforma tributária, cuja regulamentação também está sujei-
ta à apreciação de deputados e senadores. Não será tarefa fá-
cil dar andamento ao projeto, especialmente diante do aper-
tado calendário do Legislativo 
em 2024 — haverá eleições 
municipais em outubro — e do 
intrincado relacionamento en-
tre o governo e o Congresso.
Na noite da quarta-feira 24, 
o presidente da Câmara, Ar-
thur Lira, recebeu das mãos 
do ministro da Fazenda, Fer-
nando Haddad, o documento 
de 354 páginas, 499 artigos e 
24 anexos que compõem a 
proposta do governo para a 
regulamentação da tão aguar-
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PREOCUPAÇÃO Appy: 
o secretário lamenta o 
número alto de exceções
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dada reforma tributária. É esse calhamaço que seguirá sob a 
análise parlamentar nos próximos meses. Com ele, vão jun-
to dois grandes desafios do governo: aprovar as regras ainda 
em 2024 e evitar que se repita a rodada de remendos que o 
texto anterior sofreu na primeira tramitação no Congresso. 
“A força dos grupos de interesse poderá ampliar os privilé-
gios e exceções e tirar ainda mais o brilho da reforma”, diz o 
economista e ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega, 
sócio da Tendências Consultoria. “Quanto mais exceções, 
maior o imposto que todo o resto terá que pagar.”
A promessa de Lira é aprovar o pacote na Câmara antes 
do recesso parlamentar, em julho, para que no retorno, em 
agosto, ele já possa ser apreciado pelo Senado. Trata-se de 
um calendário bastante desafiador, dado o tamanho do pro-
jeto em proporção ao pouco tempo disponível. É por isso 
que o presidente Lula tem defendido a ideia de que, tanto Li-
ra quanto o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, recon-
duzam para a relatoria dessa nova etapa da reforma o depu-
tado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB) e o senador Eduardo Braga 
(MDB-AM), responsáveis por coordená-la nas votações do 
ano passado. “O cara já está familiarizado, você ganha tem-
po”, disse Lula para jornalistas no início da semana.
O principal objetivo da reforma tributária, aprovada e 
promulgada em dezembro, é simplificar o emaranhado 
de impostos do consumo. O novo sistema pretende trocar 
os milhares de legislações e alíquotas atuais por um futu-
ro imposto único, mais transparente e mais simples. Será 
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O QUE MUDA
A reforma tributária unifica os 
impostos sobre consumo
COMO É HOJE
Cada prefeitura e estado tem a sua legislação, as 
alíquotas variam entre os produtos e os impostos 
são aplicados uns sobre os outros
COMO SÃO APL ICADOS
ISS: municipal
ICMS: estadual
PIS, Cofins, IPI: federais
o chamado IVA, ou Imposto sobre Valor Agregado, e foi 
inspirado nos melhores exemplos do mundo. Mas o Bra-
sil é o Brasil: a primeira versão aprovada pelos parlamen-
tares ganhou uma lista grande de categorias com o direi-
to de pagar menos ou nenhum imposto. Elas vão de re-
médios e alimentos, passando por profissionais liberais, a 
times de futebol.
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COMO VAI F ICAR
Terão alíquota única 
geral e a cobrança não 
será cumulativa
COMO SERÃO APL ICADOS
IBS (Imposto sobre Bens e
Serviços): municipal e estadual
CBS (Contribuição sobre
Bens e Serviços): federal
Pelos cálculos de Bernard Appy, secretário especial da Fa-
zenda e um dos pais da atual reforma tributária, a profusão de 
exceções já elevaria o IVA padrão para algo entre 25,7% e 
27,3%, o que o colocaria entre os mais altos do mundo. O papel 
da regulamentação é, justamente, definir os produtos e serviços 
que terão tratamento especial — o perigo está aí. Os parlamen-
tares estão expostos a lobbies de diferentes setores, e certamente 
muitos deles defenderão seus interesses com afinco. Como se 
não bastasse, a regulação chega ao Congresso em um momento 
tumultuado da relação entre o governo Lula e o Legislativo. “A 
tradução disso é uma reforma que pode demorar mais para pas-
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ANÁLISE Senador Eduardo Braga: ele deverá ser 
o relator da proposta
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sar e que, possivelmente, acabará mais distante do ideal deseja-
do pela equipe econômica”, diz o cientista político Rafael Cortez.
Há muitos obstáculos no horizonte. Ameaças de pautas-
-bomba, com as quais os parlamentares poderiam implodir o 
Orçamento, ainda pairam no ar. A situação também é mais 
delicada do que no ano passado, quando a reforma tributária 
foi apreciada pela primeira vez por deputados. “A impressão é 
de que agora a relação está mais descontrolada”, diz o ex-mi-
nistro Ricupero. Sobrou até para Haddad, que levou um pu-
xão de orelha público de Lula por, segundo o presidente, ler 
livros demais e conversar com o Congresso de menos. “O mi-
nistro tem que fazer sua parte, mas o entendimento maior 
com Lira precisa vir do próprio Lula”, afirma Ricupero.
Conta a favor o fato de o presidente da Câmara ser um 
dos principais interessados na aprovação. O mandato do ala-
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O QUE FALTA DECIDIR
Os pontos que a regulamentação da 
reforma tributária detalha
A metodologia que deverá ser 
usada para o cálculo da alíquota e 
a aplicação do IVA
CÁLCULO DO IMPOSTO
Quais alimentos terão direito a 
desconto ou isenção do imposto
CESTA BÁSICA
Quais itens terão a incidência do imposto 
extra, destinado a produtos nocivos à 
saúde ou meio ambiente
IMPOSTO SELET IVO
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A lista de categorias de trabalhadores que 
terão direito a pagar imposto menor
PROFISSIONAIS L IBERAIS
Como funcionará a cobrança dos setores previstos 
para terem sistemas próprios (serviços financeiros, 
mercado imobiliário, combustíveis e outros)
REGIMES ESPECIA IS
goano à frente da casa legislativa termina em menos de um 
ano e ele quer incluir a matéria no currículo. “Lira será o 
presidente da Câmara que vai aprovar a reforma depois de 
trinta anos”, afirma o deputado Baleia Rossi (MDB-SP). 
“Concluir a proposta é uma sinalização importante que o 
país dará aos agentes econômicos nacionais e internacio-
nais”, diz o deputado Luiz Carlos Hauly (Podemos- PR), um 
dos idealizadores da reforma. Há um entendimento entre 
parlamentares de que Lira poderá blindar a pauta de seus 
atritos com o Executivo. “Mas a coordenação política do go-
verno está bastante instável”, diz Murillo de Aragão, funda-
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COMPRAS No supermercado: definição de alíquota do novo 
IVA é um ponto nevrálgico do texto
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dor da casa de análises políticas Arko Advice. “Se esse diá-
logo com o Congresso melhorar, é possível, sim, termos uma 
boa reforma aprovada até o fim do ano.”
As bases do sistema tributário brasileiro foram estabele-
cidasnos anos 1960 e, ao menos desde a redemocratização, 
especialistas discutem como desatar o nó em que ele se 
transformou. “São vários anos de debate, então não pode-
mos dizer que seis meses vão definir ou não o sucesso da 
proposta”, afirmou a VEJA o ex-ministro da Fazenda Henri-
que Meirelles. “É uma questão de tempo para que as refor-
mas faltantes, a tributária e a administrativa, sejam consu-
madas.” Tudo indica, porém, que o caminho será longo e 
tortuoso. Cabe ao Parlamento dar andamento célere às no-
vas regras tributárias, fundamentais para o país virar uma 
página importante de sua história. ƒ
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SORTE NOSSA, O BC 
É INDEPENDENTE
ESTUDOS indicam que a economia e a sociedade se be-
neficiam da independência do Banco Central (BC), enten-
dimento que se firmou dos anos 1980 em diante. Provou-
se que taxas elevadas de inflação costumavam nascer de 
medidas para forçar o BC a reduzir a taxa básica de juros 
(no caso do Brasil, a Selic). 
A taxa básica é um instrumento poderoso, que serve tan-
to para enfrentar surtos inflacionários quanto para ampliar 
a liquidez em certos momentos, como ocorreu na crise fi-
nanceira de 2008 e na pandemia de covid-19, quando seus 
respectivos custos foram minimizados. Líderes populistas 
podem lançar mão desse instrumento para a expansão in-
flacionária da atividade econômica, o que gera incertezas, 
inflação e queda do potencial de crescimento. 
Recente estudo publicado no blog do FMI aponta os cus-
tos econômicos e sociais resultantes da ausência de um BC 
independente (Strengthen Central Bank Independence to 
Protect the World Economy). “Todos são prejudicados pela 
MAÍLSON DA NÓBREGA
Sua nobre missão tem sido 
religiosamente cumprida
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alta inflação, especialmente as pessoas que vivem de rendi-
mentos fixos (salários, aposentadorias e pensões), que so-
frem a erosão de sua renda”, assinalou o estudo. Isso provo-
ca aumento da pobreza e da desigualdade. 
Todos os BCs das nações ricas são independentes. O 
mesmo ocorre na maioria dos países da América do Sul. Na-
ções que pretendam ingressar na União Europeia precisam 
ter banco central independente. Aqui, nosso BC nasceu em 
1965 com uma área para prover crédito em favor da agricul-
tura, da indústria e das exportações, o que acarretou pres-
sões inflacionárias. Essa contradição desapareceu com as 
reformas realizadas em 1986 e 1987.
Desde então, o BC adquiriu paulatinamente as funções 
básicas de um banco central moderno, quais sejam, cuidar 
da estabilidade da moeda e do sistema financeiro. A inde-
pendência formal só viria, no entanto, em 2021. Entre os 
“A velha esquerda 
ainda resiste à ideia, 
uma prova adicional da 
incapacidade de modernizar 
seu pensamento”
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países relevantes da América Latina, fomos o último a dar 
esse passo. 
A velha esquerda brasileira ainda resiste à ideia, uma 
prova adicional da incapacidade de modernizar seu pensa-
mento econômico e de aprender com políticas públicas bem-
sucedidas. Vêm daí, ao que parece, os ataques pessoais ao 
presidente do BC, tratado como “esse cidadão” e acusado de 
“não entender o Brasil”. Autoridades pedem publicamente 
que o BC reduza a taxa Selic ou acelere sua queda. 
Esse equívoco é comum em parte da classe política e do 
empresariado. Às vésperas das reuniões do Comitê de Polí-
tica Monetária, líderes de associações de classe clamam por 
redução dos juros, como se fosse mera questão de vontade. 
Valendo-se de sua independência, o presidente do BC e os 
demais membros do comitê ignoram tais pressões. Podem, 
assim, manejar corretamente a taxa Selic, permitindo o 
cumprimento das metas de inflação. Sorte nossa.
O nosso BC foi eleito recentemente o melhor do mundo. 
Dificilmente a notícia teve a repercussão devida entre os in-
capazes de aprender e entender como funciona essa institui-
ção. Quem sabe nas próximas gerações. ƒ
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A CONECTIVIDADE 
ENTRA EM CAMPO
Redes 4G e 5G estão chegando agora às regiões 
agrícolas remotas, mas o ritmo de expansão dessa 
infraestrutura pelo país precisa ser ainda maior
CAMILA BARROS
NA PALMA DA MÃO Tablet na lavoura: equipamentos 
modernos impulsionam a produtividade
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NEGÓCIOSECONOMIA
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O MUNICÍPIO de Caconde, a 290 quilômetros de São Pau-
lo, é um dos maiores polos de plantio de café no país. Loca-
lizado na sinuosa região da Serra da Mantiqueira, tem uma 
topografia ideal para o desenvolvimento dos arbustos frutí-
feros, que crescem melhor em altitudes elevadas. Até pouco 
tempo atrás, no entanto, essa característica mantinha os 
produtores da região isolados. Sem contar com infraestrutu-
ra de internet, eles sofriam para acessar sites ou usar dispo-
sitivos que necessitam de boa conexão. Foi só em 2018 que 
as primeiras antenas começaram a chegar à cidade. Em 
2020, com a pandemia impulsionando a comunicação digi-
tal, o processo de instalação de torres ganhou fôlego. Atual-
mente, Caconde faz parte do projeto conhecido como Se-
mear Digital, criado pela Empresa Brasileira de Pesquisa 
Agropecuária (Embrapa) para aumentar a conectividade 
em áreas rurais. “O programa colocou a produção agrícola 
de Caconde no mapa”, afirma o cafeicultor Ademar Pereira, 
presidente da cooperativa agropecuária do município. De 
acordo com ele, a internet ajudou a dar escala ao agro local, 
além de ter estimulado o uso de novas tecnologias.
Em um país de dimensões continentais como o Brasil, 
poucos desafios são tão urgentes para o agronegócio quanto 
o de aumentar os índices rurais de conectividade. Apesar dos 
avanços registrados nos últimos anos, eles permanecem bai-
xos. De acordo com o indicador de conectividade rural (ICR), 
lançado há alguns dias pela associação ConectarAGRO, ape-
nas 19% da área rural brasileira tem cobertura de internet 
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4G ou 5G — a pesquisa não contabiliza conexões 2G e 3G 
por considerá-las tecnologias em declínio e com capacidade 
de tráfego de dados muito limitada. O indicador ainda mos-
tra que a maioria das fazendas com acesso a internet está no 
Sul e no Sudeste do país. “No Sul, as propriedades costumam 
ser pequenas e estar perto das cidades, o que facilita em ter-
mos de infraestrutura”, diz Anselmo del Toro, vice-presiden-
te da ConectarAGRO. “Já regiões do Centro-Oeste e Norte 
do país possuem áreas maiores para populações menores.”
BAIXO ALCANCE
Apesar dos avanços nos últimos anos, 
há muito a melhorar
APENAS 19% DA ÁREA AGRÍCOLA NO 
BRASIL TEM COBERTURA 4G OU 5G
ENTRE OS GRANDES PRODUTORES RURAIS, 
SÓ 6% MANTÊM TODAS AS SUAS LAVOURAS 
CONECTADAS POR REDE 4G OU 5G
REGIÕES AGRÍCOLAS DO DISTRITO FEDERAL,
RIO DE JANEIRO E ESPÍRITO SANTO POSSUEM AS 
MELHORES CONEXÕES DE INTERNET. AMAPÁ, 
RORAIMA E AMAZONAS, AS PIORES
Fonte: Indicador de Conectividade Rural (ICR), da ConectarAGRO
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Uma força econômica do Brasil, o agronegócio depende 
cada vez mais de boas redes de internet para desfrutar das 
extraordinárias oportunidades trazidas pela nova era digi-
tal. É a conectividade que permite o uso de tecnologias ino-
vadoras, como drones que mapeiam lavouras, robôs pulve-
rizadores, equipamentos portáteis de análise do clima ou 
tratores autônomos controlados por inteligência artificial, 
entre muitas outras. Sem ela, os dispositivos não se comuni-
cam entre si e ficam impossibilitados de compartilhar dados 
ou até mesmo de operar. Isso impõe uma barreira que, afi-
nal, diminui os índices de produtividade das áreas agrícolas.
Para tornar viáveis projetos fora das cidades, as opera-
doras têm apostado em novas estruturas econômicas. A 
DESAFIO Torre: dimensões continentais 
do Brasil dificultam ampliação do acesso
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TIM, uma das apoiadoras da ConectarAGRO, trabalha em 
parceria com grandes produtores rurais, que pagam pela 
instalação das antenas em suas propriedades. Em terras de 
20 000 a 30 000 hectares, que sãoos focos do projeto, a 
instalação de estruturas de rede 4G custa em torno de 
500000 reais e leva de três a cinco anos para ser concluí-
da. “Se usássemos o nosso modelo tradicional de negócios, 
não funcionaria”, afirma Paulo Humberto Gouvea, diretor 
de Soluções Corporativas da TIM Brasil. Em uma fazenda 
modelo em Água Boa, no Mato Grosso, a TIM calcula que 
a chegada da internet aumentou a safra em 18% e reduziu 
o uso de combustíveis em 10%.
Outra solução em alta são as redes não terrestres (NTN, 
VISÃO DO ALTO Drones: aparelhos voadores 
são usados para mapear plantações
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na sigla em inglês), baseadas em sistemas de comunicação 
via satélite. A mais famosa delas é a Starlink, subsidiária da 
empresa americana de foguetes SpaceX, de Elon Musk. No 
Brasil, seu equipamento custa 2000 reais, com mensalida-
de de 184 reais. Nesse caso, o apelo está em levar internet 
para regiões afastadas e sem nenhuma infraestrutura, que 
dependeriam de grandes projetos para acessar redes 4G. 
“Não consideramos essas novas tecnologias como concor-
rentes”, diz Del Toro, da ConectarAGRO, que mira em levar 
redes 4G às propriedades. “Qualquer modelo é apenas o 
meio para um fim, que é o de conectar máquinas e pessoas 
no campo.” Isso é ótimo para os produtores, mas melhor 
ainda para o Brasil. ƒ
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O TERCEIRO 
ELEMENTO
Candidato sem partido e afeito a opiniões polêmicas 
e teorias conspiratórias, Robert Kennedy Jr. 
não tem nenhuma chance de ganhar a disputa pela 
Casa Branca. Mas que atrapalha, atrapalha
ERNESTO NEVES
POR FORA O político independente: atraindo democratas 
com o sobrenome e trumpistas com teorias conspiratórias
JOSH EDELSON/AFP
ESTADOS UNIDOSINTERNACIONAL
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altando sete meses para as eleições presidenciais 
dos Estados Unidos, até as rochas onde Elon Musk 
quer fincar uma civilização em Marte (leia o artigo 
de Fernando Schüler) sabem que os protagonistas 
da batalha final serão o presidente Joe Biden, pelo 
lado democrata, e seu antecessor, Donald Trump, pelo repu-
blicano. Empatados tecnicamente nas pesquisas, os dois dis-
putam voto a voto a vitória nas urnas, tal qual aconteceu em 
2020, com uma diferença: a presença de um terceiro candi-
dato, sem chance nenhuma de ganhar, mas com grande ca-
pacidade de atrapalhar o jogo. É Robert Francis Kennedy 
Jr., 70 anos, sem partido, bem-apessoado e bronzeado advo-
gado de Malibu, onde se concentram os ricaços da Califór-
nia. Além de mais jovem do que os dois adversários numa 
votação em que o fator idade é crucial (Biden tem 81, Trump 
completa 78 em junho), faz questão de propagandear em dis-
cursos e entrevistas tanto o sobrenome famoso de um clã 
historicamente democrata quanto teorias conspiratórias 
pregadas no ideário do trumpismo. É nesse cenário que ele 
se mexe para cavar espaço entre eleitores nas duas frentes. 
“Sou a oportunidade de restaurarmos este país, sua demo-
cracia e autoridade moral”, diz.
RFK Jr., como gosta de ser chamado (reeditando as ini-
ciais pelas quais o pai era conhecido), é filho do senador Ro-
bert Kennedy, alvejado fatalmente em uma primária demo-
crata quando tentava se candidatar à Casa Branca em 1968, 
e sobrinho do ex-presidente John Kennedy, assassinado a ti-
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ros em 1963. A maioria das pesquisas o coloca com cerca de 
10% das intenções de voto — a melhor performance de um 
candidato independente em décadas. “Pesquisas mostram 
que Kennedy tira mais votos de Biden, mas ele já causa preo-
cupação também a Trump”, diz Grant Davis Reeher, profes-
sor de ciências políticas da Universidade Syracuse. RFK Jr. já 
conseguiu assinaturas suficientes para aparecer nas cédulas 
em swing states, aqueles que definem eleições, como Arizo-
na, Geórgia, Nevada, Michigan e New Hampshire. Anuncia-
da recentemente, sua vice, Nicole Shanahan, 38 anos, investi-
dora e ex-mulher de Sergey Brin, fundador do Google, con-
tribuiu para aumentar seu apelo entre os jovens — justamen-
te a fatia do eleitorado que em 2020, sem opção entre Biden e 
Trump, acabou votando no democrata como mal menor.
Candidato a ser agora a terceira via, Kennedy, como toda a 
família, foi democrata de carteirinha. Vestiu essa camisa até 
APOIO O clã dos Kennedy na Casa Branca: 
declaração de voto a Joe Biden
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2023 e se projetou no início dos anos 2000 como advogado 
ambientalista, chegando a ser cotado para ocupar a direção 
de órgãos do governo na área. Ao longo da última década, po-
rém, tornou-se mais conhecido pelo vigoroso discurso contra 
a vacinação infantil, que, replicando teorias amalucadas, in-
siste em associá-la a doenças como autismo. A lista de sandi-
ces inclui ainda duvidar da relação entre HIV e aids e associar 
o tratamento da água que o público consome a disfunções se-
xuais. E, claro, ele faz parte da turma de céticos contumazes 
que vê o dedo da CIA nos assassinatos do pai e do tio.
Durante a pandemia, não perdeu chance de disparar bi-
zarrices a respeito da origem do vírus da covid-19, dos supos-
tos males da vacina e do lockdown. “Até na Alemanha de Hi-
tler as pessoas podiam cruzar os Alpes e se refugiar na Suíça 
e se esconder no sótão, como Anne Frank. Hoje os mecanis-
mos em vigor nos impedem de fugir. Ninguém consegue se 
TEORIA Com o tio assassinado: 
ele acha que houve dedo da CIA na morte
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esconder”, proclamou em uma manifestação antivacinas em 
Washington. Por essas e outras, chegou a ser temporariamen-
te banido de redes sociais. Em 2021, lançou um livro demoni-
zando o médico Anthony Fauci, conselheiro da Casa Branca 
no combate à pandemia que diversas vezes entrou em choque 
com Trump. Por suas posições, Kennedy foi solenemente re-
negado pela família, que recentemente fez questão de se en-
contrar em peso com Biden para manifestar seu apoio.
Candidatos independentes como Kennedy não têm ne-
nhuma chance de emperrar a engrenagem da máquina elei-
toral dos partidos tradicionais, mas são capazes de causar so-
luços e imprevistos, ainda mais em uma eleição como a deste 
ano, que deve ser decidida por margem muito estreita de de-
legados no Colégio Eleitoral. “Nem Biden nem Trump po-
dem se dar ao luxo de perder qualquer voto”, diz Alice Ste-
wart, consultora do Partido Republicano. Ao longo da histó-
ria, outsiders já mostraram que podem ser um fator de risco 
para os políticos tradicionais. Na disputada eleição de 2000, 
Ralph Nader, do Partido Verde, amealhou 3 milhões de votos 
que fizeram muita falta ao democrata Al Gore e contribuí-
ram para a vitória do republicano George W. Bush. Anos an-
tes, em 1992, outro azarão, o bilionário conservador Ross Pe-
rot, sacudiu a tranquilidade das legendas mais conhecidas ao 
atrair 19% do eleitorado, boa parte insatisfeita com a conjun-
tura econômica da época, e fortalecer o democrata Bill Clin-
ton. Resta ver que prejuízo Kennedy poderá causar desta vez, 
e a quem. Tanto Biden quanto Trump que se cuidem. ƒ
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MÃOS DE FERRO
Plebiscito confirma a aprovação dos equatorianos à 
linha dura do presidente Daniel Noboa contra o crime 
organizado, ampliando o poder das forças de segurança 
para prender suspeitos e ocupar as ruas CAIO SAAD
EQUADORINTERNACIONAL
CRUZADA
Em um discurso 
recente: investindo 
na política do prende 
e arrebenta, de olho 
na reeleição em 
fevereiro do 
ano que vem
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CAMINHANDO firme na direção de uma versão desco-
medida da política de tolerância zero contra criminosos que 
anda fazendo sucesso pelo mundo, o Equador acaba de 
aprovar em plebiscito um conjunto de medidas que aper-
tam o parafuso do uso da força extrema e prisões indiscri-
minadas no país. O resultado evidencia o apoio popular ao 
presidente Daniel Noboa, de 36 anos, herdeiro da família 
mais rica do Equador, que foi eleito e vem fazendo carreira 
como comandante de uma cruzadapara acabar com as 
quadrilhas que aterrorizam a população. Entre as providên-
cias aprovadas no referendo de onze pontos estão a regula-
mentação das Forças Armadas ao lado da polícia no com-
bate ao crime organizado, a criação de tribunais especiais e 
a extensão das penas de prisão — o que pode aumentar ain-
da mais a população carcerária, foco de aliciamento e coor-
denação das gangues que assolam o país.
Apenas os pontos relativos à segurança foram aprova-
dos e quase 30% dos eleitores se abstiveram. Mesmo assim, 
o referendo avalizou o maciço apoio à linha-dura adotada 
por Noboa. “Para os equatorianos, trata-se de uma guerra 
entre grupos criminosos e o Estado por território e contro-
le. Há uma atmosfera de insegurança muito grande na so-
ciedade e essas medidas são uma resposta a essa situação”, 
diz Maria Fernanda González, da Faculdade Latino-Ame-
ricana de Ciências Sociais do Equador. Antes uma ilha de 
tranquilidade, o Equador entrou em ebulição nos últimos 
anos: uma sequência de governos fracos coincidiu com mu-
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danças nas rotas do tráfico de drogas na América do Sul, e 
de uma hora para outra os portos equatorianos se tornaram 
o canal preferencial de escoamento de cocaína para Esta-
dos Unidos e Europa. Presos, os chefes das quadrilhas, sob 
ordens de cartéis mexicanos, instalaram seu QG nas peni-
tenciárias e a violência disparou. 
A nova realidade foi exposta ao mundo em janeiro, ao 
vivo e em cores, quando bandidos invadiram um estúdio 
da TV estatal e lançaram ameaças à população sobre as 
consequências de “mexer com a máfia” do narcotráfico — 
ação ousada que levou Noboa a declarar “estado de conflito 
armado”. Investidos de novos e amplos poderes, no início 
do mês policiais entraram à força na embaixada do México 
PROPAGANDA Suspeito detido em Quito: 
imagens reforçam a linha dura
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em Quito e prenderam Jorge Glas, ex-vice-presidente equa-
toriano condenado por corrupção que lá se encontrava re-
fugiado. Além de cortar relações, o México vai levar o caso 
ao Tribunal Internacional de Justiça. 
Apesar da reação, o governo segue inabalável no proces-
so de “bukelização” no país, referência ao estilo truculento 
do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, na guerra às 
gangues locais, que hoje serve de inspiração para um rol 
crescente de líderes latino-americanos. Em dois anos, o go-
verno salvadorenho encheu as ruas de soldados e prendeu 
quase 75000 pessoas, ou 8% da população masculina, exi-
bidas em fotos e vídeos de pátios lotados de prisioneiros se-
minus. Quase ninguém foi julgado até agora. 
No Equador, a violência diminuiu, mas está longe de ser 
controlada: nos feriados da Páscoa, dois prefeitos foram as-
sassinados, e as denúncias de sequestros e extorsão são fre-
quentes. “O sistema judiciário está entrando em colapso e o 
número de detidos aumenta dia a dia”, afirma Renato Rive-
ra, do Observatório Equatoriano do Crime Organizado. 
Noboa, político de centro-direita, com 68% de aprovação 
(já foram 85%) e em plena campanha pela reeleição em 
2025, anunciou a construção de duas megapenitenciárias e 
a compra de navios-prisão para acomodar a multidão de 
detidos — provas de que ele continuará dobrando as apos-
tas na política de linha dura. ƒ
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O MAXIMALISTA 
E O MINIMALISTA 
O SITE BLOOMBERG propôs uma comparação intrinse-
camente injusta, mas irresistível: qual visão econômica se-
rá mais bem-sucedida, a de Lula da Silva ou a de Javier 
Milei? É um game que está acontecendo diante de nossos 
olhos e, como na série O Problema dos Três Corpos, afeta 
nossas vidas de maneira crucial. O brasileiro e o argentino 
são opostos em tudo; um, quer o governo máximo e o Es-
tado indutor; outro, o governo mínimo e o empreendedo-
rismo produtor. É uma questão em discussão permanente 
nos países que ainda não acertaram o caminho para a 
prosperidade coletiva, mas que nunca foi tão bem codifica-
da por dois presidentes vizinhos. Lula, o populista de es-
querda, pragmático e escolado na política, talvez obcecado 
demais em replicar resultados do passado. Milei, um liber-
tário politicamente neófito que propõe uma visionária ava-
lanche liberalizante. Os resultados dirão quem tende a ter 
mais razão, embora os jogadores tenham partido de posi-
ções diferentes — daí a injustiça da comparação —, com 
Lula e Milei estão em polos antagônicos 
na relação com o mercado
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um Brasil bastante em ordem, considerando-se as circuns-
tâncias, e uma Argentina martirizada por tudo o que de 
pior tem o peronismo em suas diversas encarnações, a ca-
minho da hiperinflação.
Um exemplo entre tantos: Lula assumiu aumentando o 
número de ministérios para 38 — espíritos mais céticos di-
riam que o objetivo mesmo é contemplar aliados e promo-
ver a eufemisticamente chamada governabilidade. Milei 
cortou as pastas para nove e virou um serial killer de em-
pregos pendurados no enorme cabide que sustenta o que 
chamou de casta. Lula é uma entidade conhecida, nos 
acertos e nos erros. Milei continua a ser um enigma, embo-
ra, até o momento, menos alucinado do que se esperaria de 
alguém que só cultiva laços de intimidade real com a irmã 
e com os cães — a namorada, que muitos achavam ser um 
arranjo de fachada, já foi para o espaço. O FMI elogiou o 
“Os resultados dirão 
quem tende a ter mais 
razão, embora os 
jogadores tenham partido 
de posições diferentes”
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“impressionante” avanço promovido por Milei em matéria 
de ajuste fiscal, ao custo de uma queda prevista de 2,8% 
do PIB para este ano. A inflação subiu “só” 11% em março 
— uma vitória — e já despontou um superávit fiscal. So-
breviverão os argentinos com os cintos apertados até além 
do último furo? A dureza do ajuste atiçará a famosa volati-
lidade social do país? 
Em recente viagem à Colômbia, Lula fez um diagnósti-
co sobre a América Latina: “Não pode ser por coincidência 
que todos nós, que já temos 500 anos de vida, não tenha-
mos nenhum país altamente desenvolvido, um país rico, 
um país com estado de bem-estar social que possa ser 
comparado aos países europeus. Alguma coisa está erra-
da”. Equivocou-se ao atribuir a “coisa errada” a uma dis-
posição de “nações colonizadas” a esperar por “muitos e 
muitos séculos a ordem daqueles que nos colonizaram pa-
ra dizer o que a gente tinha que fazer”. A atual moda es-
querdista de pendurar todos os nossos males no colonialis-
mo ignora o fenômeno de um país como os EUA, uma co-
lônia selvagem quando o Brasil já era exportador da mais 
cobiçada commodity da época — o açúcar —, mas que de-
senvolvia uma sociedade horizontalizada baseada na cria-
ção de riquezas por esforço próprio e na liberdade como 
valor supremo. É isso que o “mileinarista” argentino quer 
replicar com sua revolução cultural. Quem tem o melhor 
plano, ele ou Lula? ƒ
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GENTE
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VALMIR MORATELLI
PRISIONEIRA DE UM ENREDO
A expectativa de PAOLLA OLIVEI-
RA, 41 anos, com a estreia da segunda 
temporada de Justiça, no Globoplay, 
era de que as atenções se voltassem 
para o caráter mais que duvidoso da 
protagonista a que dá vida, a psicopata 
Jordana. Mas o roteiro foi bem diferen-
te. Desde que o primeiro lote de episó-
dios foi ao ar, só se fala mesmo das tór-
ridas cenas de sexo entre ela e a per-
sonagem de Nanda Costa, que acaba 
parando na prisão por engano, justa-
mente no lugar de Jordana, a verdadei-
ra autora do crime que conduz a trama. 
“É misógino levar tudo para o lado se-
xual. Nós ficamos aprisionadas nisso”, 
queixa-se Paolla, que não é novata nos 
takes em que se envolve com mulhe-
res, como na microssérie Felizes para 
Sempre?, na qual os amassos eram 
com a atriz Maria Fernanda Cândido. “A 
complexidade acaba se perdendo em 
meio a essa leitura banal. Puro precon-
ceito”, enfatiza, muito séria. IN
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A ARTE IMITA A VIDA
O escocês RICHARD GADD, 34 anos, anda celebrando oinstantâ-
neo sucesso de Bebê Rena, a primeira série que produz, no ar na 
Netflix. O enredo gira em torno de um comediante frustrado que pas-
sa a ser perseguido por uma mulher obsessiva, e sua vida vira um in-
ferno. O surpreendente detalhe, apenas agora revelado, é que o ro-
teiro é muito semelhante ao que Gadd viveu na própria pele. Ao longo 
de quatro anos, segundo calculou, ele recebeu 41 000 e-mails, 350 
horas de mensagens de voz e mais uma centena de cartas de uma 
mesma mulher. A obsessão da fã, a princípio engraçada, se conver-
teu em pesadelo. “Ela começou a invadir a minha vida. Aparecia nos 
shows, me esperava do lado de fora da minha casa. Não tive mais 
paz”, relatou em entrevista ao britânico The Times. Ele só conseguiu 
se livrar da figura que o assombrava na Justiça. 
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NÃO CHORES POR NÓS
O romance de FÁTIMA FLÓREZ, 43 anos, com JAVIER MILEI, 
53, sempre foi envolto em suspeitas de que não passaria, na verda-
de, de uma boa fachada para o então candidato à Presidência ar-
gentina. Após oito meses, o enlace acaba de se desfazer, e o boato 
voltou a toda. “Essa é a maior estupidez. Se alguém acha que eu se-
ria capaz de fingir, é porque não me conhece”, disparou a humorista, 
que ganhou fama com sua debochada imitação de Cristina Kirchner, 
a ex-ocupante da Casa Rosada. Ao tratar do tema, Milei, agora no 
poder, justificou que o namoro seria incompatível com a carreira de-
la, que teria recebido ofertas de trabalho nos Estados Unidos e na 
Europa, inviabilizando a relação. Ambos, porém, dizem que a afinida-
de segue firme. “Partilhamos o mesmo humor”, garante Fátima. 
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CAMINHANDO E CANTANDO
Antes de lançar o novo álbum, The Tortured Poets Department, 
TAYLOR SWIFT, 34 anos, já tinha dado um spoiler que deixou 
muita gente em alerta: ela falaria ali de seus ex- namorados. E assim 
fez. Sobre o fim do relacionamento de seis anos com o ator Joe Al-
wyn, disparou em uma das letras: “Você me traiu/ Você me machu-
cou/Você me ensinou/Você me enjaulou”. Não poupou também o 
músico Matty Healy, a quem cutuca: “Alguma coisa foi real?”. Neste 
caso, o tom, mais ame-
no do que se esperava, 
foi recebido com alívio. 
“A família de Matty esta-
va preocupada, achava 
que Taylor iria expô-lo 
como vilão”, contou o 
assessor do músico ao 
site US Weekly. Já a 
cantora é só alegria. 
Atualmente namorando 
o jogador de futebol 
americano Travis Kelce, 
ela contabilizou 200 mi-
lhões de reproduções 
do álbum no Spotify em 
um único dia. JA
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CONSELHEIRA, NÃO
Aos 85 anos, ARLETE SALLES não pensou duas vezes ao acei-
tar ser protagonista em dose dupla de Família É Tudo, a trama 
global das 7 em que interpreta as gêmeas Frida e Catarina. A 
passagem do tempo, ela conta, trouxe mais firmeza para atuar. 
“Nunca me senti tão confortável em cena”, garante a atriz, que 
observa quanto a idade vem sendo implacável com várias de 
suas colegas, hoje desvalorizadas e sem bons papéis. Para Arle-
te, ainda requisitada, o que mais incomoda mesmo é quando a 
geração mais jovem pede conselhos durante as gravações. “Te-
nho muita preguiça disso. Todo mundo está aprendendo o tempo 
todo, até eu”, encerra a veterana, sem rodeios. ƒ
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A DIFERENÇA 
LIBERTADORA
Com o aumento dos casos de autismo, acompanhado 
da maior aceitação e exposição do assunto, cresce o 
número de pessoas que enxergam, em seu diagnóstico, 
o caminho para uma vida melhor
VALÉRIA FRANÇA
GABRIEL MONTEIRO/AGÊNCIA O GLOBO
SAÚDEGERAL
REVELAÇÃO 
A atriz Letícia 
Sabatella recebeu 
o diagnóstico de 
autismo leve aos 
52 anos, logo depois 
de descobrir que a 
filha tinha a condição. 
Sem constrangimento 
algum, veio a público 
dividir a existência 
do quadro, o que 
ajuda no processo 
de esclarecer a 
população, atalho 
para diminuir 
os tabus. 
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m diagnóstico médico costuma ser um divisor 
de águas na trajetória de qualquer pessoa. Com 
o maior conhecimento sobre o transtorno do es-
pectro autista (TEA), e o devido respeito que 
vem angariando, sair de um especialista com a 
notícia de que se tem a condição pode funcionar como 
passaporte para uma vida mais consciente e feliz. É essa 
a sensação de quem recebeu o diagnóstico tardio, já na 
idade adulta. Nada de manifestações com tom de pesar, 
desesperançoso. “A sensação foi libertadora”, diz a atriz 
Letícia Sabatella depois de descobrir ter um grau leve de 
autismo aos 52 anos. “Mudou minha vida”, postou no 
Instagram Tallulah Willis, de 30 anos, filha caçula de 
Bruce Willis com Demi Moore, após saber que integrava 
o espectro. Não se trata de celebrar um quadro clínico, 
muito menos de atribuir a ele uma aura inexistente, como 
se fosse um modismo comportamental. Trata-se, na ver-
dade, de entender melhor as diferenças e as peculiarida-
des humanas — e aprender a utilizá-las ou contorná-las 
em prol do próprio bem-estar. 
O TEA é marcado por um funcionamento atípico do 
cérebro, podendo afetar a comunicação, o comportamen-
to e a socialização em vários níveis — há quem tenha com-
prometimentos mais brandos, outros mais expressivos. 
A causa foi abraçada, nos últimos meses, por personalida-
des que ou depararam com o diagnóstico ou decidiram 
compartilhar como é cuidar de um familiar com a condi-
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ção. Quando pessoas admiradas por milhares de fãs mos-
tram que o transtorno não é uma sentença nem um entra-
ve à qualidade de vida, todos os neurodivergentes (como 
alguns preferem ser chamados) saem ganhando. A come-
çar pelo combate ao preconceito e aos estigmas que ainda 
rondam o assunto. “Na década de 1960, as crianças com o 
diagnóstico eram levadas a clínicas”, diz o psiquiatra Gui-
lherme Polanczyk, professor da Faculdade de Medicina 
PAI COM CAUSA
Para o apresentador Marcos Mion (à dir.), falar de 
autismo virou um propósito de vida. Pai de Romeo, 
diagnosticado há mais de dez anos, o astro do Caldeirão, da 
TV Globo, divulga, nas redes sociais, a relevância de 
reconhecer e respeitar a condição, ampliando também a 
inclusão social de pacientes e famílias.
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da USP. O entendimento sobre o quadro avançou signifi-
cativamente, e o autismo deixou de ser visto como um 
obstáculo intransponível para ingressar na escola ou no 
mercado de trabalho, muito embora casos mais severos 
imponham, infelizmente, grandes limitações. 
O que também avança é o número de diagnósticos pelo 
mundo. Nos EUA, país de estatísticas fidedignas, havia um 
caso para cada 10 000 crianças na década de 1970. Em 
2022, o índice passou para um em cada 36. No Brasil, sem 
registro oficial, estima-se contingente de 4 milhões de pes-
soas com TEA — resultado da maior conscientização so-
bre o tema e do maior acesso a especialistas aptos a identi-
ficar o transtorno. “O grupo com TEA já conquista lugar 
de respeito, em fenômeno que lembra o que aconteceu com 
os portadores da síndrome de Down nos anos 1990”, diz o 
neurocirurgião Pedro Pierro Neto. “Antes, quem tinha Do-
wn era rotulado absurdamente de mongoloide.”
O apresentador de TV Marcos Mion, cujo filho Ro-
meo, de 18 anos, foi diagnosticado aos 7, é um dos princi-
pais nomes a erguer a bandeira do autismo, difundindo a 
relevância do reconhecimento precoce e da inclusão so-
cial. No fim do ano passado, ele realizou o sonho do jo-
vem ao levá-lo ao palco do seu programa, o Caldeirão,
onde o menino dançou ao som de Elvis Presley. Hoje, o 
maior volume de informações sobre o universo autista é 
compartilhado e alimentado justamente pelos próprios 
pacientes e familiares. 
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Aumento de informações voltadas ao 
público e médicos treinados fazem o 
número de autistas subir
EXPLOSÃO DE 
DIAGNÓSTICOS
OCENSO ESCOLAR DO BRASIL REGISTROU UM 
AUMENTO DE 280% NA QUANTIDADE DE 
ESTUDANTES COM TRANSTORNO DO ESPECTRO 
AUTISTA (TEA) MATRICULADOS EM ESCOLAS 
PÚBLICAS E PARTICULARES ENTRE 2017 E 2021
Filósofo e dramaturgo, Henrique Vitorino, de 32 anos, 
é outro que, após entender sua condição, aprendeu a se re-
lacionar melhor com o ambiente ao redor. Seu percurso de 
autodescoberta é narrado em Manual do Infinito: Relatos 
de um Autista Adulto (Editora Nova Alexandria), fruto de 
dois anos de pesquisas depois de receber o diagnóstico. O 
escritor relata que precisa levar protetores auriculares 
profissionais para conseguir andar de metrô, uma vez que 
o barulho para ele é como uma “agulha espetando os tím-
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OS CENTROS DE CONTROLE E PREVENÇÃO DE 
DOENÇAS (CDC), DO GOVERNO DOS ESTADOS UNIDOS, 
ESTIMAM QUE UMA EM CADA 36 CRIANÇAS
DE 8 ANOS É AUTISTA — O QUE SIGNIFICA 
2,8% DA POPULAÇÃO AMERICANA
A ONU CALCULA QUE 70 MILHÕES DE PESSOAS
NO MUNDO ESTEJAM DENTRO DO ESPECTRO 
DO AUTISMO
A ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PLANOS DE SAÚDE 
(ABRAMGE) APONTA QUE O CUSTO DOS TRATAMENTOS 
DE TEA REPRESENTARAM 9% DOS GASTOS DOS 
PLANOS DE SAÚDE, MAIS DO QUE O DAS TERAPIAS 
ONCOLÓGICAS (8,7%), EM 2023
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panos”. E, inclusive, criou estratégias para impedir que 
um estímulo sonoro indesejável o lance a uma crise capaz 
de deixá-lo três dias trancado no quarto. 
O mundo, aliás, também está mudando para acolher os 
autistas. “Estamos, aos poucos, tendo nossa condição res-
peitada”, diz Vitorino. “Até os estádios de futebol, como o 
do Corinthians e o do Palmeiras, já têm salas especiais, 
vedadas acusticamente, onde podemos assistir aos jogos.” 
O fato é que, dentro ou fora da bolha, os integrantes do es-
E+/GETTY IMAGES
ESTÍMULOS Especialistas indicam: quanto antes 
começar a terapia, melhor
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pectro ganharam voz. No podcast Fractais, produzido por 
quatro neurodivergentes com diagnóstico tardio, entram 
em pauta temas que vão de crise de identidade a bullying. 
Um dos apresentadores é o psiquiatra Alexandre Valver-
de, de 44 anos. Não por ser especialista, mas também por 
ser... paciente. “Tirei as minhas algemas e agora quero sol-
tar as das outras pessoas”, diz o médico, diagnosticado há 
dois anos, após o período de isolamento imposto pela co-
vid-19. Durante a pandemia, Valverde e a família se mu-
daram para o interior paulista. Com a vacinação e o con-
trole do vírus, todos voltaram a São Paulo, menos o psi-
quiatra, que encontrou ali sua zona de conforto. 
Valverde diz ter dificuldades de interação social, sensi-
bilidade ao excesso de luz e ruídos, além de ansiedade. 
Tanto que trabalha em pé o dia todo, mesmo quando aten-
de virtualmente seus pacientes. Os conhecidos sempre o 
acharam “esquisito”, mas por ser superdotado. De fato, ele 
tem QI comprovadamente mais alto do que a maioria da 
população. “Conseguia esconder minhas dificuldades gra-
ças à minha capacidade cognitiva”, diz. “Só que isso invisi-
bilizava minhas dificuldades e o diagnóstico.” Avesso às 
mistificações, o psiquiatra faz questão de sublinhar que 
mesmo sintomas sutis do autismo tendem a gerar proble-
mas ao longo do tempo. Isso porque, ainda que disponham 
de altas habilidades, os autistas podem conviver com uma 
série de dificuldades no cotidiano. Daí a necessidade de 
um bom acompanhamento e suporte especializado. 
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As limitações — motoras, psíquicas ou sociais — são 
justamente o que baliza os níveis do espectro. Quando o 
indivíduo tem independência para tocar a vida, recebe o 
diagnóstico de TEA leve, ou grau 1 — caso de Sabatella e 
outros artistas e ativistas da causa. Mas, quando é preciso 
contar com cuidadores e terapeutas no dia a dia, o autis-
mo perambula entre os níveis 2 e 3. Existem inúmeros de-
LIVRE DE AMARRAS
O psiquiatra Alexandre Valverde, de São Paulo, 
suspeitou que podia fazer parte do espectro autista após 
os meses de isolamento na pandemia de covid-19. 
O diagnóstico foi confirmado por um especialista, e, desde 
então, o médico readaptou a rotina e dá voz ao assunto em 
um programa de podcast e nas onipresentes redes sociais.
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O bebê não estabelece contato visual 
com a mãe na amamentação
Não olha quando é chamado pelo nome 
ou quando alguém compartilha um interesse 
e aponta para algo
Não gosta do toque. Prefere ficar 
sozinho no berço ou quarto
A criança tem seletividade alimentar 
e problemas com texturas
Faz gestos repetitivos, com a cabeça 
ou o tronco, e balança as mãos
Não fala ou, quando aprende a falar, 
repete frases, sem se comunicar
Mudanças de rotina provocam irritação, 
mesmo em jovens adultos
Alguns sintomas ajudam os médicos 
a reconhecer crianças com autismo 
PISTAS CLÍNICAS
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safios que cercam a detecção do quadro. Os pais nem 
sempre captam sinais de atipicidade. Tampouco existem 
exames de sangue ou imagem para bater o martelo. O 
diagnóstico é eminentemente clínico, levando em consi-
deração uma soma de comportamentos desde a infância 
(veja exemplos no quadro). Ainda assim, como eviden-
ciam relatos nas redes sociais, muitas pessoas vivem anos 
sem saber que estão dentro do espectro. 
Quanto antes se abre a caixa do autismo, contudo, me-
lhor. “Mesmo quando se encontra apenas um sintoma, 
devemos tratar o paciente precocemente para que não 
haja atraso no seu desenvolvimento”, afirma Polanczyk. 
Foi o caso do autor de livros sobre o universo autista Fer-
nando Murilo Bonato, de 16 anos, que recebe ajuda espe-
cializada desde os 2. “O neurologista disse para estimu-
larmos o que podíamos”, diz a mãe e professora Karine 
Bonato. Ainda que tenha começado a andar de bicicleta 
sem rodinhas aos 3 anos e conte com uma boa autono-
mia, o garoto só começou a falar aos 12, depois que a mãe 
passou a acompanhá-lo nos estudos em casa durante a 
pandemia. Como ele não consegue escrever, dita para ela 
os textos das lições e das obras que passou a publicar. 
“Estou conhecendo meu filho, finalmente. E ele está se 
realizando com essa nova via de expressão”, diz Karine. 
Vivam as diferenças. ƒ
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O DIPLOMA 
MORA AO LADO
A duríssima disputa por uma vaga em faculdades de 
medicina no Brasil está levando uma crescente 
turma a buscar alternativas em países vizinhos, 
como a Argentina PAULA FREITAS 
CIRCUITO PORTENHO Universidade de Buenos Aires: 
ensino bem avaliado e portas abertas, sem vestibular
UBA
EDUCAÇÃOGERAL
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PASSAR para uma faculdade de medicina virou um daque-
les torturantes processos para estudantes brasileiros que, 
quase sempre, tentam uma, duas, três vezes e não conse-
guem vencer a dura batalha por um lugar ao sol neste que é 
o curso mais disputado no país. Em instituições públicas, 
em média 66 candidatos duelam por uma vaga, concorrên-
cia que alcança extraordinários quase 300 aspirantes guer-
reando por uma única carteira na Universidade Estadual de 
Campinas, que registra a maior concorrência nacional. A 
briga dá uma atenuada no circuito das particulares, mas aí 
são as cifras que espantam — de 10 000 reais mensais para 
cima. Em meio aos obstáculos, uma crescente leva de jo-
vens vem encontrando alternativas menos onerosas e de 
boa qualidade em nações vizinhas, como o Paraguai e, 
mais ainda, a Argentina, onde o afluxo de alunos de nacio-
nalidade brasileira multiplicou-se por cinco desde 2017, 
chegando a um contingente de 20 000, segundo recente le-
vantamento do governo. “A gente ouve português por todo 
o campus”, diz a sergipana Renata Mendonça, 24 anos, que 
estuda na Universidade de Buenos Aires (UBA) e esclarece: 
“Na sala de aula, a regra é só espanhol”. 
O nível do ensino é um atrativo, já que o curso ofereci-
do em algumas das universidades fora, sobretudo nas ar-
gentinas, se situa à frente, no ranking das melhores da 
América Latina, do que é ofertado por ótimas brasileiras. 
É o caso da UBA e da Nacional de La Plata, ambas públi-
cas, em colocações superiores às daUniversidade de Bra-
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sília e da Federal de São Paulo, por exemplo. Não existe 
ali, nem tampouco no sistema paraguaio, nada como ves-
tibular ou o Enem — as vagas são liberadas conforme a 
demanda, bastando apresentar a documentação e se sub-
meter a uma prova de espanhol em que se exige conheci-
mento intermediário. A migração é facilitada pelo acordo 
do Mercosul, que prevê, sem exagerada burocracia, resi-
dência temporária de até dois anos (depois, ela precisa ser 
convertida em permanente) — uma trilha que o presiden-
te Javier Milei avisou que pretende dificultar, tributando 
O ESPORTE UNE Nathalia (à dir.) com colegas brasileiros: 
à frente de torneios
ARQUIVO PESSOAL
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os estrangeiros, mas, por ora, ficou no discurso. “A procu-
ra segue em escalada, é vantajoso vir para cá”, afirma 
Monique Lemos, que fez do fenômeno um negócio: é dona 
de uma assessoria que justamente auxilia brasileiros a de-
senrolar a papelada e se instalar no país.
Avistam-se as digitais da turma verde e amarela em vá-
rios setores do dia a dia, como a moda (nunca tantos pés 
calçaram Havaianas na cena universitária portenha) e o 
menu das lanchonetes, nos quais empanadas cedem espa-
ço a campeões de venda como coxinha, pão de queijo, açaí 
e brigadeiro. O caldo de cultura, que inclui festas movidas 
a funk e regadas a chope, também agita o ensino superior 
dos hermanos, menos habituados a eventos tão informais, 
assim como as associações que se reúnem em torno de es-
portes, as “atléticas”, com numerosa adesão dos locais. 
Compartilhar o gosto por futebol ajuda. “São formas de 
matar a saudade e sentir um pouco do Brasil na Argenti-
na”, diz a presidente de um desses grupos esportivos, Na-
thalia Lopes, 27 anos, que deixou Brasíliaṕara estudar na 
Universidade Barceló, outra de Buenos Aires.
Entre os gastos com a universidade (no caso das parti-
culares) e os custos de viver longe de casa, a conta com-
pensa: a estimativa dos que moram na capital argentina é 
de uns 3 500 reais por mês, enquanto na rota paraguaia 
sai por volta de 2 500 reais. “Os brasileiros já represen-
tam inacreditáveis 90% dos alunos de medicina por 
aqui”, relatou a VEJA Eduardo Franco, diretor da Univer-
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sidade do Pacífico (UP), que tem o selo de qualidade da 
Agência Nacional de Avaliação do Ensino Superior do 
Paraguai. Bem na fronteira com o Mato Grosso do Sul, 
ainda fica distante do lar paulistano de Itallo Lemos, 24 
anos, que acabou chegando lá por indicação de dois pri-
mos, formados naquele campus. “É um sacrifício, sim, 
mas vale muito a pena ter esse diploma”, pondera Itallo. 
Embora não seja comum, a invasão brasileira faz, vez ou 
outra, aflorar manifestações de xenofobia. “Soube de alu-
nos que saíram chorando da sala após o professor falar 
OLHO NO CANUDO Itallo Lemos, de São Paulo: 
o sacrifício envolvido compensa
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que a pessoa não sabia nem espanhol, imagina medicina”, 
lamenta a carioca Maria Clara Viegas, 22 anos, da Uni-
versidade Nacional de La Plata. A maioria, porém, se sen-
te à vontade. “Fui bem acolhida, percebo um interesse 
deles em conhecer nossa cultura”, diz Renata Mendonça, 
da UBA, que havia tentado três vezes o vestibular no Bra-
sil antes de decidir emigrar.
Os passos que se seguem à formatura são, em geral, 
envoltos em dúvida — permanecer ou não em solo es-
trangeiro é o grande ponto de interrogação que paira so-
bre essa turma. Logo de cara, os que regressam precisam 
vencer uma barreira, o Exame Nacional de Revalidação 
de Diplomas Médicos (Revalida), um teste conhecido pe-
la elevada complexidade, pré-requisito para exercer a 
profissão no Brasil. Embora os currículos sejam pareci-
dos, muita gente não passa de primeira. “A prova é essen-
cial para garantir que apenas pessoas bem formadas che-
guem ao mercado”, afirma Julio Braga, do Conselho Fe-
deral de Medicina. Após se graduar na Bolívia, o primei-
ro dos países da América do Sul a ingressar no mapa de 
brasileiros em busca do canudo, na década de 1980, Ales-
sandra Lima, 28 anos, mergulhou nos livros para enfren-
tar o Revalida. “Não foi fácil, mas hoje sou médica com 
orgulho, atuando na minha cidade”, diz ela, que vive em 
Manaus. Enquanto a ampliação de vagas por aqui se dá 
vagarosamente, é saltando fronteiras que uma parcela 
dos brasileiros vira doutor. ƒ
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UM GÊNIO 
NOS TRÓPICOS
Em 1925, Albert Einstein visitou Argentina, 
Uruguai e Brasil. Os registros daquela jornada 
revelam o homem comum diante do inalcançável 
criador de um universo ALESSANDRO GIANNINI
AGENDA CHEIA Diante do meteoro Bendegó, no Museu 
Nacional do Rio: comentários ambíguos sobre miscigenação
DOMÍNIO PÚBLICO
HISTÓRIAGERAL
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É JORNADA que merecia, de fato, mais zelo. No primeiro 
semestre de 1925, Albert Einstein (1879-1955), já premia-
do com o Nobel pelos estudos sobre física quântica e cele-
brado pela teoria da relatividade, fez uma viagem de três 
meses na América do Sul. De 5 de março a 11 de maio, vi-
sitou a Argentina, o Uruguai e o Brasil para divulgar seus 
trabalhos científicos e encontrar as comunidades judai-
cas. Sua única incursão pelo continente foi registrada em 
um diário, hábito adquirido em périplos anteriores pelos 
Estados Unidos, Extremo Oriente, Palestina e Espanha. 
Ele anotou tudo em um caderno com 72 páginas pauta-
das, em entradas sucintas, pontuadas por comentários so-
bre os lugares que visitou, os eventos aos quais compare-
ceu e as pessoas que lhe apresentaram. 
Todo esse material foi reunido no livro Os Diários de 
Viagem de Albert Einstein (Editora Record), previsto para 
chegar às livrarias na segunda semana de maio. O histo-
riador Ze’ev Rosenkranz, editor no Einstein Papers Pro-
ject, entidade que reúne os arquivos do cientista, foi o res-
ponsável por organizar a papelada. A fim de obter um re-
trato mais abrangente das aventuras no sul, Rosenkranz 
cotejou as anotações com artigos de jornais, documentos 
pessoais, discursos e relatórios diplomáticos. Na edição, o 
arquivista também incluiu cartas e cartões-postais fami-
liares. É um tesouro. 
Há muita especulação em torno da motivação de Eins-
tein para a travessia transoceânica. Alguns historiadores 
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batem na tecla evidente: atalho pa-
ra a disseminação das teorias que o 
faziam famoso e para o intercâm-
bio científico. Pode ter havido, con-
tudo, outra razão, comezinha e hu-
mana, demasiadamente humana, 
para a fuga do refúgio em Berlim: 
afastar-se de uma relação extra-
conjugal com sua secretária à épo-
ca, Betty Neumann, muitos anos 
mais jovem do que ele, um tímido 
por excelência. “A viagem pode ter 
fornecido uma maneira convenien-
te de encerrar o relacionamento e 
permitir que ele e a mulher, Elsa, 
passassem algum tempo separados 
depois de um período que deve ter 
sido desafiador para ambos”, anota 
Rosenkranz.
O Brasil representava capítulo 
fundamental da carreira de Eins-
tein, um ponto distante e sentimen-
tal. Foi em Sobral, no interior do 
Ceará, em 1919, a partir de um eclipse solar, que uma 
equipe de astrônomos britânicos confirmou a mãe de to-
das as ideias, a da relatividade geral — um outro grupo de 
investigação fora deslocado para a Ilha do Príncipe, na 
OS DIÁRIOS DE 
VIAGEM DE 
ALBERT 
EINSTEIN.
Organização de 
Ze’ev Rosenkranz; 
tradução de 
Alessandra 
Bonrruquer (Record; 
288 páginas; 
79,90 reais e 49,90 
reais em e-book)
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OLHAR FORASTEIRO
Cartão-postal da vista do bairro 
de Botafogo, no Rio de Janeiro, 
enviado por Einstein à mulher 
e à enteada em carta de 
5 de maio de 1925: “Guardem o 
cartão-postal, porque é bonitinho”
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África. “A questão que minha mente formulou foi respon-
dida pelo radiante céu do Brasil”, disse ao ser informado 
dos bons resultados das experiências. 
Foi nesse tom de júbilo, portanto, que Einstein desem-
barcou no Rio de Janeiro. De cara, espantou-se com a na-
tureza,como tantos europeus. No diário, anotou em 4 de 
maio, com letra cuidadosa: “Chegada ao Rio ao pôr do sol, 
com clima esplêndido. Em primeiro plano, ilhas de grani-
to de formato fantástico. A umidade produz um efeito 
misterioso”. Foi levado ao Museu Nacional, diante do me-
teorito Bendegó, encontrado em 1784 no sertão da Bahia. 
Celebrado como se fosse um chefe de Estado, era um gê-
nio a desfilar incômodo com os trópicos. 
Embora mesmerizado pelo cenário natural da cidade 
emoldurada pelo Pão de Açúcar (o Cristo Redentor ainda 
não existia) e pela “miscelânea de povos nas ruas”, que 
classificou como “deliciosa”, Einstein logo tratou de es-
corregar para reflexões um tanto absurdas, elitistas e ra-
cistas. Era o criador de um universo, improvável e im-
ponderável, a tratar do pequeno mundo aqui embaixo, 
com todas as suas mazelas e incorreções. “Aqui sou uma 
espécie de elefante branco para eles, e eles são macacos 
para mim”, rabiscou. Se os argentinos são “indizivelmen-
te estúpidos”, atribuiu uma suposta indolência dos brasi-
leiros ao clima. “Todos me dão a impressão de terem sido 
amolecidos pelos trópicos”, concluiu, como quem punha 
a língua de fora.
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Não é o caso de absolvê-lo das estultices, nem mesmo 
de justificá-las porque era ruim assim naquele tempo. Elas 
assustam, lidas hoje, ao revelar o sujeito de carne e osso 
por trás do totem inigualável. Mas há, sim, uma pequena 
ponderação: as anotações não nasceram para exposição 
pública. Serviam a interesses pessoais, de quem descreve 
o que vê, e como ponte para a mulher e a enteada, Mar-
got, na Alemanha. “Temos certeza de que não dedicou o 
diário à posteridade ou para publicação”, afirma Ro-
senkranz. O fascinante, na cuidadosa compilação, é poder 
entrar na mente de quem nos ajudou a pensar de onde vie-
mos e, quiçá, para onde vamos. ƒ
1919 Astrônomos britânicos em Sobral: 
o eclipse validou a relatividade geral
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OLHO VIVO 
NAS CÂMERAS
Sistemas de reconhecimento facial ganham espaço 
nos estádios, empresas e ruas ao promover a 
segurança. Uma iniciativa bem-vinda, mas que 
exige responsabilidade MARÍLIA MONITCHELE
ÉTICA O recurso de biometria de rosto da empresa SenseTime, 
de Hong Kong: regido por normas cada vez mais severas
GILLES SABRIE/BLOOMBERG/GETTY IMAGES
TECNOLOGIAGERAL
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POUCAS DÉCADAS atrás, a ideia de abrir portas, desblo-
quear aparelhos e acessar eventos por meio da leitura das 
características do rosto pareceria coisa de ficção científica. 
Soava como quimera inalcançável. Hoje, porém, a tecnolo-
gia de reconhecimento facial avança com vigor por diversos 
setores da vida cotidiana, de forma inexorável e muito bem-
vinda. As câmeras monitoram a circulação de pessoas em 
prédios, ruas e estádios de futebol. 
Nos campos esportivos, é iniciativa que evita o uso irre-
gular de cartões, emprestados a amigos e familiares ou 
corrompidos pela sanha dos cambistas. Só entra quem 
mostra a cara. “É atalho para que os torcedores tenham 
uma experiência mais rápida e conveniente”, diz Tironi 
Paz, executivo-chefe da Imply, empresa de controle de 
acessos em palcos como a Arena MRV, do Atlético-MG; o 
Beira-Rio, do Internacional de Porto Alegre; a Ligga Are-
na, do Athletico-PR; o Estádio São Januário, do Vasco da 
Gama; e a Arena Pantanal, em Cuiabá. 
Um outro efeito paralelo — e positivo — é a identificação 
de criminosos que tentam atravessar as catracas como se 
não tivessem contas a prestar para a Justiça. Uma parceria 
da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo com o Al-
lianz Parque, do Palmeiras, resultou na prisão de 28 suspei-
tos que tentaram assistir a quatro partidas do time em 2024. 
Um dos detidos era procurado por tráfico internacional de 
drogas — estava foragido desde março de 2020. Relembre-
se que a Lei Geral do Esporte, de 2023, determina a imple-
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ACESSO Catraca eletrônica do Beira-Rio, 
estádio do Inter: tranquilidade
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mentação do monitoramento biométrico em recintos espor-
tivos com capacidade para mais de 20 000 pessoas em até 
dois anos. “Ao tornar o estádio mais seguro, teremos mais 
famílias, maior média de público e, consequentemente, 
maior consumo e faturamento”, diz Victor Grunberg, vice
-presidente do Internacional. 
Deve-se celebrar a iniciativa. Convém, contudo, não es-
quecer dos efeitos indesejados que podem provocar — e da 
forçosa discussão ética alimentada pelo inteligente recurso. 
Hoje, no Brasil, cerca de 72 milhões de pessoas estão poten-
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cialmente sob vigilância de câmeras de reconhecimento fa-
cial na segurança pública (veja no quadro ao lado). É ideia 
que faz as pessoas andarem com mais tranquilidade, embo-
ra não seja imune a erros. O personal trainer João Antônio 
Trindade foi detido no intervalo do jogo entre Confiança e 
Sergipe na Arena Batistão, em Aracaju. O torcedor foi con-
fundido com um criminoso depois de passar pelo compul-
sório reconhecimento eletrônico. Seria liberado em seguida.
A extensão da tecnologia é inegável. Até 2028, a expec-
tativa é de um crescimento acelerado, atingindo cifras de 
12,6 bilhões de dólares em investimentos, em todo o mun-
do (pelo menos 48 países a usam maciçamente). É natural, 
portanto, dada a novidade, que surgissem dores do parto. 
A principal crítica cutuca um certo “preconceito algorítmi-
co”. A taxa de identificação bem-sucedida é imensa entre 
homens brancos, segundo os estudos. Contudo, o patamar 
de erro chega a 35% ao trabalhar com as faces de mulheres 
negras, em distorção inaceitável. A disparidade cria um 
ambiente propício para discriminação. Um levantamento 
feito pela Rede de Observatórios da Segurança analisou as 
prisões feitas a partir da biometria facial e apontou que 
90% dos reconhecimentos resultantes em detenção no Bra-
sil foram de pessoas negras. “Temos visto movimentos con-
trários à adoção e até mesmo banimentos de uso no hemis-
fério norte, daí o crescimento do negócio em outras re-
giões”, diz Pablo Nunes, coordenador do Centro de Estudos 
em Segurança e Cidadania (CESeC).
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Sistemas de reconhecimento facial ganham 
espaço, mas podem oferecer riscos
SOB VIGILÂNCIA
72 MILHÕES
DE BRASILEIROS MONITORADOS 
POR CÂMERAS
209 PROJETOS
DE RECONHECIMENTO FACIAL NO BRASIL
728 MILHÕES
DE REAIS INVESTIDOS PELO ESTADO DA BAHIA, 
LÍDER DE USO DA TECNOLOGIA NO PAÍS
90%
DOS PRESOS POR RECONHECIMENTO 
FACIAL EM 2018 ERAM NEGROS
Fontes: O Panóptico, Rede de
Observatórios de Segurança
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Países como Bélgica e Luxemburgo não autorizam o uso 
de reconhecimento facial para o monitoramento de seus ci-
dadãos. Nos Estados Unidos, cidades como São Francisco e 
Boston também baniram instalações desse tipo. Na China, 
país em que a ferramenta chegou a ser usada para controle 
da população durante o período mais fechado da pandemia 
de covid-19, com sucessivas denúncias de invasão de priva-
cidade e falta de consentimento, brotam leis de controle, em 
passo necessário — é cuidado que não impede o extraordi-
nário crescimento de uma empresa como a SenseTime, de 
Hong Kong, a campeã do mundo no negócio, que foi barra-
da nos Estados Unidos por suposta violação de direitos hu-
manos. O tema, aliás, será ruidoso durante a Olimpíada de 
Paris, com a inteligência artificial atrelada a imagens, de 
modo a evitar problemas de segurança. Não há dúvida: a vi-
gilância, dentro de normas morais, aprovadas pela socieda-
de, é crucial. Trata-se de avançar com cautela, ao equilibrar 
inovação com responsabilidade. ƒ
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O ARQUEIRO 
VERDE E AMARELO
Número 1 do mundo no tiro com arco, Marcus D’Almeida 
coloca no mapa do país o esporte que tão poucos 
brasileiros conhecem e vive hoje pelo ouro olímpico 
MONICA WEINBERG
APONTAR, ATIRAR, MEDALHA! Marcus em Maricá: doze 
horas por dia se preparando com a cabeça fixa em Paris
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O ARCO E FLECHA integra o rol dos grandes inventos 
da humanidade por seu papel essencial para a caça na ba-
talha pré-histórica pela sobrevivência e, mais tarde, como 
uma valiosa arma nas guerras. Importantes civilizações 
acabaram por fazer do artefato um esporte, especialmen-
te apreciado pelos faraós egípcios e que, nas mãos da no-
breza chinesa, lá pelo século XI a.C., ganharia seu caráter 
competitivo. Várias voltas do mundo depois, eis que a mo-
dalidade, hoje chamada de tiro com arco e alçada à cate-
goria olímpica, desembarcou com tudo num ponto impro-
vável do planeta — Maricá, cidade a 60 quilômetros do 
“Ninguém chega 
a número 1 
do mundo 
sem gostar 
de pressão. 
Eu procurei isso 
e adoro ser a 
atração do show”
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Rio de Janeiro, mais conhecida por se situar na profícua 
trilha do petróleo fluminense. É lá que o carioca Marcus 
Vinícius D’Almeida, de 26 anos, o atual número 1 no ran-
king mundial, mora e obsessivamente treina com a ideia 
fixa de conquistar uma medalha de ouro na Olimpíada de 
Paris, em julho. “Meu esporte é solitário, é você com seu 
arco, um exercício constante de equilíbrio físico e mental 
mirando o pódio”, diz Marcus, a quem todos, apesar de 
seu 1,83 metro, se referem como Marquinhos.
No dia em que recebeu a reportagem de VEJA, ele se-
guia à risca um roteiro que começa às 8 e só termina às 20 
horas. Tocava na caixa de som um trap, subgênero do rap, 
o que o ajuda no minucioso gesto de posicionar a flecha, 
congelar o corpo em busca da precisão e disparar em dire-
ção ao alvo 70 metros à frente. O ato, que seria repetido 
300 vezes, parece quase como um balé, envolto em leveza, 
mas apenas o arco pesa 4,5 quilos e, no instante do tiro, a 
carga sobre o corpo sobe para 25. “É um esporte que alia a 
força bruta ao movimento fino”, explica o biomecânico 
Henrique Lelis, do Comitê Olímpico do Brasil (COB), que 
conhece Marcus e ressalta sua capacidade de não se deixar 
abater quando erra. Foi com frieza e excessiva autocrítica 
que ele deu o saldo daquela manhã de treinos: de 100 tiros 
lançados à velocidade média de 228 quilômetros por hora, 
seis não atingiram a pontuação máxima. O que seria o ra-
zoável? “Uns dois tiros fora do alvo”, ele estimou, arrema-
tando bem ao seu estilo: “Mesmo assim, é intolerável”.
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Em Paris, a competição será na esplanada em frente ao 
Hôtel des Invalides, com seu luminoso domo dourado, on-
de está sepultado Napoleão Bonaparte. Marcus tem curio-
sidade de entrar lá (embora seu coração pulse mais pela 
Torre Eiffel), porém, agora nem pensar. “Não dá para tirar 
a cabeça das flechas, a visita vai ficar para a próxima”, es-
clarece ele, que já experimentou o lugar em 2023, quando 
levou um bronze em uma etapa da Copa do Mundo. Gosta 
da área, verde e rodeada de belas construções que funcio-
nam como anteparo para o vento — um fator imprevisível 
com o qual nenhum atleta do arco gosta de lidar. 
Em sua primeira Olimpíada, a do Rio, em 2016, o palco 
do duelo era o Sambódromo, e na outra, em Tóquio, um 
campo demasiado aberto. Encarou os Jogos cariocas com 
18 anos e perdeu na largada. “Ele ficou obstinado em me-
lhorar e ganhar uma medalha no Japão”, lembra sua noi-
va, a médica veterinária Bianca Rodrigues, 28 anos, tam-
bém praticante do tiro com arco. Mas Marcus seria elimi-
nado ali nas oitavas de final, resultado que contribuiu pa-
ra ganhar estofo e mais controle sobre a mente. “A derrota 
sem uma análise é só uma derrota. Com o tempo, eu 
aprendi a extrair coisas dela”, conta. 
Ele tinha 12 anos e já era afeito às atividades físicas — 
natação, remo, capoeira —, quando a mãe, a contadora 
Denise Carvalho, 60 anos, soube de um programa para 
crianças e adolescentes no centro de treinamento da Con-
federação Brasileira de Tiro com Arco, recém-instalado 
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na cidade. Marcus resolveu tentar, mesmo que isso des-
pertasse comentários como os que ouviu Denise: “Diziam 
que eu estava louca e me perguntavam: ‘Seu filho vai ser 
índio ou o quê?’ ”. Pois aos 14 o menino ingressou como o 
caçula da seleção brasileira e, aos poucos, o esporte, ainda 
bem pouco conhecido no país, foi se fazendo mais disse-
minado em Maricá, onde Marcus e a mãe fundaram até 
um clube, o Dispara Brasil. “É tudo muito novo. Estamos 
aqui porque, quando não existia nem centro de treinamen-
to no Brasil, a prefeitura local nos ofereceu terreno. A pro-
fissionalização mesmo tem uns três anos”, relata o presi-
dente da confederação, João Cruz. São 2 000 atletas fede-
rados, mais que o dobro de 2021, mas nada que se compa-
re à multidão de adeptos da Coreia do Sul, hoje a nação 
com resultados mais consistentes, onde o tiro com arco é 
tão cultivado quanto o futebol por aqui.
Na Olimpíada, a modalidade terá cinco torneios — pa-
ra os individuais masculino e feminino (com o nome ain-
da em disputa) e o da dupla mista, os brasileiros já estão 
garantidos. Falta ver se vão conseguir emplacar as vagas 
por equipe. “As pessoas começaram a falar dos Jogos só 
agora, mas, para mim, é todo dia, é a minha vida”, enfati-
za Marcus, que sente a alta pressão e diz não se incomo-
dar. “Ninguém chega a número 1 do mundo sem gostar de 
pressão. Eu procurei isso e adoro ser a atração do show”, 
admite, sem rodeios e demonstrando destreza ao posar 
para a foto.
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Em sua casa de três quartos, onde mora com Bianca, 
um é reservado para alojar uma coleção de mais de 200 
medalhas e vinte troféus, tratados como joias. Avistam-se 
ainda referências a Paris-2024 em garrafas, canecas e um 
ímã de geladeira que o transportam à Cidade-Luz. Ele 
também tenta relaxar a mente (“faz parte”), jogando Fifa 
na TV e estudando teoria musical, um hobby. Meditação 
entra no cardápio dos preparativos. “O barulho depende 
do silêncio”, lê-se em uma de suas cinco tatuagens, essa 
no braço esquerdo. “Para ter barulho, plateia, aplauso, vo-
cê precisa descobrir esse silêncio interior antes”, filosofa, 
e, sem tempo a perder, retorna a sua cronometrada rotina 
rumo a Paris. ƒ
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O PRÍNCIPE DA SELVA
Documentário do Disney+ celebra a beleza, o mistério 
e a resiliência dos tigres na Índia, cuja população 
mais do que dobrou nos últimos vinte anos 
ALESSANDRO GIANNINI
QUEM RUGE Shankar, o macho protagonista do filme: 
furtivo e à espreita da próxima presa
MARTYN COLBECK/DISNEY+
AMBIENTEGERAL
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EM O LIVRO DA SELVA, o escritor britânico Rudyard 
Kipling (1865-1936) conta a história de Mogli, um meni-
no criado por lobos que busca conciliar suas duas nature-
zas: a humana e a animal. No clássico da literatura, de-
pois levado ao cinema, a criança aprende da mãe loba os 
ensinamentos da floresta, divididos entre a necessidade 
de caçar para sobreviver e também para não ser caçado. 
Há, naquele ambiente, algum equilíbrio improvável, e Ki-
pling tratou de não exagerar nas tintas. Com uma exce-
ção: o tigre Shere Khan, representação do mal, da violên-
cia e da crueldade. A má fama do bicho é indevida. Ele só 
tem cara, jeito e rugido ameaçadores. O famigerado vilão 
provavelmente morreria de fome, já que sua marca — a 
pata defeituosa — não lhe permitiria ir atrás das presas e 
se tornaria alvo fácil dos verdadeiros e grandes predado-
res do planeta, os humanos.
O lindo e enigmático felino é personagem central do 
ótimo documentário Tigre, que acaba de estrear no Dis-
ney+. “É um animal maravilhoso”, diz Vanessa Berlo-
witz, codiretora da produção, ao lado de Mark Linfield. 
“No passado, com as câmeras antigas, montávamos um 
tripé na traseira de um jipe, dávamos uma olhada no bi-
cho e depois ele desaparecia. As novas tecnologias nos 
permitem decifrar seus hábitos.”
É passeio necessário em torno do gatão e de mudan-
ças ambientais relevantes. Classificado como “em peri-
go” na Lista Vermelha da União Internacional para a 
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Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais, o ma-
mífero já esteve em situaçãomais confortável. Era encon-
trado em toda a Ásia — Central, Oriental e Meridional. 
Porém, no último século, perdeu 93% de sua área de dis-
tribuição natural e agora só sobrevive de forma dispersa 
em treze países, da Índia ao Sudeste Asiático, em Suma-
tra, na China e na extremidade leste da Rússia. Mais de 
75% da população mundial dos felinos se concentra nas 
NUNCA MAIS A rainha Elizabeth diante de um 
animal abatido: cenas inaceitáveis hoje em dia
CENTRAL PRESS/AFP
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selvas indianas que inspiraram Kipling — e nelas, eis aí 
uma boa notícia, a espécie aumentou de forma meteórica 
nas últimas duas décadas. De acordo com o Instituto da 
Vida Selvagem da Índia, passou de 1 411 espécimes, em 
2006, para 3 682, em 2022. 
Não é matemática simples, a esmiuçada em Tigre. A 
recente e localizada explosão populacional na Índia de-
ve-se a um trabalho de preservação que remonta aos 
anos 1970, quando o governo local promulgou a Lei de 
Proteção à Vida Selvagem e demarcou áreas que facilita-
ram a conservação dos animais e das florestas tropicais. 
Com exceção de um período entre os anos 1980 e 1990, 
quando o mercado paralelo de partes do bicho e de sua 
pele cresceu de forma exponencial, o investimento na 
manutenção da vida dos grandes gatos sempre foi priori-
dade, e exige atenção permanente. Há casos de inciden-
tes isolados em áreas urbanas, que assustam as popula-
ções. Daí a relevância de campanhas esclarecedoras, de 
modo a apartar o medo. 
O tigre é o animal selvagem mais popular em 44 paí-
ses do mundo, de acordo com dados de pesquisa do Goo-
gle — no Brasil, o campeão é a baleia. Mascote esportivo, 
garoto propaganda de cereal e personagem de desenho 
animado, além de figura de prosa e verso intrigante, fas-
cina tanto pela beleza quanto pela aura elusiva e o coti-
diano solitário. Por isso, é tão difícil registrá-lo na natu-
reza, seja o macho que vaga sozinho em busca de alimen-
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LISTRADOS E CAMUFLADOS
Ferozes e intimidadores, os grandes gatos não 
estão mais ameaçados de extinção
2 A 4 FILHOTES A CADA
DOIS ANOS É A NINHADA QUE 
UMA FÊMEA PODE TER
14 A 20 HORAS POR
DIA É O TEMPO QUE PODEM 
PASSAR DORMINDO
50 A 65 QUILÔMETROS 
POR HORA É A VELOCIDADE 
QUE ATINGEM
14 A 16 ANOS É O
TEMPO MÉDIO DE VIDA,
MAS CHEGAM ATÉ 20 ANOS
2,5 ATÉ 3,5 METROS DE 
COMPRIMENTO É O TAMANHO 
MÉDIO; PESAM DE 135 A
225 QUILOS
Fonte: Disney/Instituto da Vida Selvagem da Índia
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MÃE FELINA Ambar e dois de seus quatro filhotes: mimos e 
carinhos só até os bebês terem idade para se virar 
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to, seja a fêmea que cria seus filhotes até considerá-los 
aptos a se virarem sozinhos. 
Caçá-los, como já fez a rainha Elizabeth nos anos 
1960, com pompa e circunstância, em registros celebra-
dos com formosas fotografias, não é mais uma opção. Até 
porque animais como Ambar e seus quatro filhotes ou o 
enorme Shankar, protagonistas de Tigre, são essenciais 
para a manutenção do equilíbrio ambiental e da diversi-
dade das florestas que habitam. O melhor a fazer é tratar 
de entendê- los e compreender que a turma de Shere Khan 
têm mais medo de nós, humanos, do que nós deles. ƒ
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MÚSICA PARA 
OS TECIDOS
Victoria Beckham, ex-Spice Girls, chega aos 50 anos 
ainda mais reconhecida por seu trabalho como 
estilista, dona de uma marca respeitada e cobiçada 
SIMONE BLANES
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MODAGERAL
EMPREENDEDORA Reação ao sucesso: “Me sinto 
abençoada, e não apenas como mulher” 
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EM LONDRES, uma festança regada a tequila e repleta da 
nata da nata no exclusivo clube Oswald’s marcou o 50º ani-
versário de Victoria Beckham. Entre os convidados, estrelas 
como Tom Cruise, Eva Longoria e Salma Hayek, além, é 
claro, do marido e ex-jogador de futebol, David Beckham, e 
dos quatro filhos do casal, Brooklyn, Romeo, Cruz e Har-
per. Quem mais fez barulho, porém, foram as ex-compa-
nheiras de carreira musical: as Spice Girls Geri Halliwell, 
Melanie Chisholm (Mel C), Emma Bunton e Melanie Brown 
(Mel B), parceiras no fenômeno pop dos anos 1990. Quando 
um vídeo da reunião, com uma performance improvisada 
do hit Stop, foi postado na internet, instantaneamente virou 
trend topic. Era a celebração de uma figura interessantíssi-
ma, ícone de um tempo, mas sobretudo o aval de uma trans-
formação: Victoria virou estilista, e das mais cobiçadas. 
Pode-se dizer que, ao sair do mundo da música, a ex-can-
tora — que sempre dividiu os holofotes com as colegas de 
grupo — fez história também no universo fashion. E não à 
toa: a inglesa tem talento e já é internacionalmente reconhe-
cida pelos desenhos de suas roupas, com direito a desfiles 
reverenciados em Paris, na semana da moda mais prestigia-
da do planeta. “Me sinto abençoada por ter alcançado esse 
marco não apenas como mulher, mas também por ver quão 
longe minha marca de moda chegou”, postou. Os números 
da fama não a deixam mentir: enquanto as ex-Spice somam 
entre 1 e 1,6 milhão de seguidores nas redes sociais cada, a 
senhora Beckham tem mais de 33 milhões, e contando. 
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Filha de uma cabeleireira e um engenheiro, ela teve uma 
infância confortável na cidade de Harlow. Descendente do 
pintor alemão Carl Heinrich Pfänder, antes interessou-se 
mais pela arte da dança do que pelo pop rock. Sempre ele-
gante, foi logo apelidada de Posh Spice ao fazer sucesso 
com a banda de meninas — posh é a gíria em inglês para 
“elegante, requintada”. O bom gosto ao vestir-se a distin-
guia das outras integrantes do grupo, que apelavam para 
roupas coloridas e espalhafatosas. Victoria apostava em 
looks limpos, com cores neutras, silhuetas ajustadas e sal-
CASAL FASHION Com o marido, David Beckham: 
parceria na vida e no estilo
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tos altíssimos. Era o prelúdio da grife que criaria mais tar-
de. “Ela sempre se destacou mais pelas roupas do que pela 
música em si”, diz Brunno Almeida Maia, pesquisador de 
moda da Universidade de São Paulo (USP). 
As Spice Girls se separaram em 2000, e, como as ou-
tras, Victoria até tentou carreira solo, mas logo percebeu 
que tinha outra vocação. Colaborou com marcas de luxo, 
foi embaixadora da Dolce&Gabbana e desfilou para Ro-
berto Cavalli. Em seis anos, fundou uma linha de jeans e 
escreveu um best-seller com dicas de etiqueta visual, com 
FENÔMENO POP Spice Girls: Victoria (à esq.) já era 
a mais elegante do grupo
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mais de 400 000 exemplares vendidos. A marca que leva 
seu nome nasceu em 2008 e, desde o princípio, pautou-se 
por trajes sofisticados, de alfaiataria, e traços minimalis-
tas. Não foi preciso muito esforço para virar objeto de de-
sejo de gente influente, como a editora de moda Anna 
Wintour, da top model Miranda Kerr e de estrelas do cine-
ma, caso de Kate Winslet e Cameron Diaz. 
Em 2011, a estilista expandiu a atuação com linhas se-
paradas de jeans, óculos e perfumes, sendo premiada co-
mo marca de design do ano no British Fashion Awards e 
ELEGÂNCIA A grife nas ruas e passarelas: aplaudida 
em Paris e vestindo Kate Winslet e Miranda Kerr 
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estreando na Semana de Moda de Nova York. Os aplausos 
dos colegas e designers ecoaram ainda mais forte que os li-
kes das celebridades e fãs. Em 2017, ela recebeu a Ordem 
do Império Britânico pelos serviços prestados à indústria 
do estilo e, nos anos subsequentes, passou a desfilar suas 
peças com barulho e ótimos negócios. 
Victoria, tudo somado, é retrato de uma tendência: o 
casamento entre estilo e música. Madonna, sempre ela, 
navegou por essas águas, de mãos dadas com Jean Paul 
Gaultier. A diva até tentou lançar uma marca, a MaterialGirl, em parceria com a filha, Lourdes Maria — exemplo 
seguido por gente como as cantoras Rihanna e Avril La-
vigne. Nenhuma delas vingou como Posh, hoje sinônimo 
de elegância. “Faço moda há mais tempo do que canções”, 
diz ela. Ainda bem. E sempre com discreta e firme pre-
sença. Vale, como retrato de quem ela é, ver e rever a ade-
siva cena do documentário Beckham, da Netflix, em que, 
simplesmente sexy, põe a mão no ombro do marido e jun-
tos dançam Islands in the Stream, de Dolly Parton e 
Kenny Rogers. Victoria é chique demais. ƒ
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Com maior diversidade de produtos nacionais e 
importados, o mercado de azeite brasileiro começa a 
ser tratado de modo profissional — e a preços 
caríssimos ANDRÉ SOLLITTO
FOTOS ANNIE & JEAN-CLAUDE MALAUSA/BIOSPHOTO/AFP; E+/GETTY IMAGES
GASTRONOMIAGERAL
DIVERSIDADE A variedade 
Koroneiki, da Grécia: público busca 
maior conhecimento
COMO SE 
FOSSE VINHO
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QUEM PERCORRE as prateleiras de azeites nos super-
mercados com um tantinho de desatenção pode imaginar 
ter parado numa adega. As garrafas, com tamanhos e for-
matos diversos, indicam as variedades de azeitonas usadas 
na produção, como a espanhola Arbequina, a grega Koro-
neiki ou a portuguesa Cordovil, além de uma vastidão de 
safras. Os preços, ressalve-se, também são equivalentes 
aos dos vinhos. Rótulos mais simples estão na casa dos 30 
reais — as alternativas especiais, tanto as nacionais como 
as importadas, passam com folga dos 100 reais. As mu-
danças climáticas que atingem as regiões produtoras de 
olivas, de verão inclemente e seca exagerada, sobretudo na 
Europa, jogaram para baixo a colheita, atalho para o enca-
recimento na ponta final, do consumidor. 
Bem-vindo ao novíssimo mundo do azeite, que deixa a 
infância e a adolescência para entrar na idade adulta. O 
mercado do produto, que em 2022 bateu em 70 bilhões de 
dólares, deve alcançar os 90,5 bilhões de dólares em 
2030. A título de comparação: o faturamento global com 
vinhos é o dobro. Trata-se, agora, de buscar conhecimen-
to e incrementar a harmonização com diferentes pratos. 
Um dos bons exemplos desse caminho de valorização cui-
dadosa brota da região do Alentejo, em Portugal. Ali, o 
grupo Esporão, de celebrada viticultura, começou a ofere-
cer azeites cobiçados pelo gosto brasileiro. O catálogo aos 
poucos se amplia, como reflexo natural do interesse. Há 
blends, como são chamadas as misturas de variedades, ou 
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os tipos monovarietais, elaborados com uma única azeito-
na, caso da Cobrançosa, que saiu de Trás-os- Montes para 
vicejar no Alentejo. “Não trabalhamos com nenhuma 
azeitona estrangeira, porque faz parte da nossa proposta e 
da nossa identidade”, diz a azeitóloga Ana Carrilho, do 
Esporão. “Queremos mostrar a diversidade que há em 
Portugal.” Hoje, 75% da produção da reputada casa lusita-
na é exportada, boa parte dela ao Brasil.
A procura do que vem de fora, é natural, alimentou o 
plantio pelas bandas de cá, com bons resultados. Recente-
mente, o rótulo Potenza Frutado, elaborado pela Fazenda 
Serra dos Tapes, em Canguçu, no Rio Grande do Sul, foi es-
colhido o melhor azeite de oliva extravirgem pelo Guia 
ESAO, elaborado pela Escola Superior do Azeite de Oliva, 
na Espanha, referência mundial.
A láurea é reflexo da animação do setor. Modalidades 
artesanais têm chamado a atenção dos especialistas e fo-
mentado o movimento de olivoturismo, como é conheci-
do o negócio de viagem relacionada ao azeite. O Rio 
Grande do Sul é o maior produtor brasileiro. Na Serra da 
Mantiqueira, entre Minas Gerais e São Paulo, há riqueza 
indizível de escolhas. O Oliq, em São Bento do Sapucaí 
(SP), tem um restaurante que oferece até menu degusta-
ção de azeites, alguns deles premiados em concursos. Em 
Itanhandu (MG), a Fazenda Serra que Chora oferece hos-
pedagem em pousada para os visitantes ansiosos por per-
noitar próximos aos olivais.
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Apesar do avanço, há ainda muito espaço para evolu-
ção — e convém lembrar que nos restaurantes o azeite é 
oferecido tal qual uma commodity sem graça, como se fos-
se tudo a mesma coisa. É comum a apresentação do pre-
cioso líquido em embalagens de vidro, insossas, sem indi-
cação de origem. Nesse aspecto, a bem da verdade, a estra-
da é longa. Se há sommeliers para vinhos, é urgente tê-los 
também para um elemento da gastronomia que não se re-
sume a mero molho para saladas. Com a palavra o chef 
francês radicado em Mônaco, Alain Ducasse, em cujos res-
taurantes já pousaram 21 estrelas do Guia Michelin: “Se 
minha cozinha pudesse ser descrita por um único sabor, 
seria o do azeite extravirgem, sutil e aromático”. ƒ
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DESFILE DE CERTEZAS
DE PÉ EM UM CAIXOTE, ou no centro de uma roda, 
um homem discursa. Alguns ficam para ouvir. Outros só 
espiam e vão embora. É uma cena ainda comum em pra-
ças por aí. Ou melhor, em qualquer tela ao alcance de vo-
cê. Pois em cada post de rede social e, às vezes, também 
em textos de jornal, vemos especialistas e palpiteiros des-
tilando certezas inabaláveis — ao menos até uma nova vir 
desbancar as anteriores.
A temperança não é hoje artigo popular. Ao longo dos 
anos em que acompanho o segmento de saúde e bem-estar, 
vi uma série de “estridências” relacionadas a dietas para 
emagrecer, desinchar, desintoxicar, além de treinos mais efi-
cazes e de remédios milagrosos de todo tipo, fossem receitas 
caseiras ou fruto da farmacêutica de ponta. Cada novidade 
que surge é anunciada por alguém como a solução definitiva 
para o problema em pauta. E tem sempre alguém disposto a 
ouvir — e também a contestar.
À diferença do que ocorre com os palanques físicos, 
não é tão simples virar as costas para os virtuais. Ao bus-
car informação sobre algo que nos interessa, somos inva-
LUCILIA DINIZ
Nos tempos atuais, sobra estridência 
e falta moderação
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didos o tempo todo pelo “último grito”. Retomo essa ex-
pressão, tão usada em outras épocas para definir tendên-
cias, porque ela parece ter adquirido outro sentido, mais 
literal. Este mundo no qual pouco se escuta o outro me 
recorda uma frase de Desmond Tutu (1931-2021). Arce-
bispo da Igreja Anglicana e figura central da luta contra 
o regime racista do apartheid na África do Sul, ele conta-
va que seu pai sempre dizia: “Não levante a sua voz; me-
lhore os seus argumentos”. Hoje parece que nem a chan-
cela do Nobel da Paz, que Tutu levou em 1984, basta pa-
ra ele ser ouvido em meio à balbúrdia.
Em lugar de diálogos, temos monólogos sucessivos. 
Como se cada pessoa fosse detentora de uma verdade 
única. Na prática, sabemos, não é assim. Alternativas ti-
das como milagrosas ao nascer tornam-se alvo de ques-
tionamento conforme se difundem. Quanto mais uma 
“Como já 
dizia Aristóteles: 
‘O ignorante afirma, 
o sábio duvida, 
o sensato reflete’ ”
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técnica se torna almejada, mais pessoas se tornam aptas 
a exercê-la, fazendo-a mais acessível. Isso tem dois efei-
tos. Um é o risco de prática indiscriminada. O outro é o 
conhecimento trazido pela repetição. Nesses “testes do 
real”, problemas surgem.
A cirurgia bariátrica é um exemplo recente. Primeiro 
realizada sob indicações médicas mais estritas, passou a 
ser vista como panaceia. Há pouco, estudos mostraram 
que uma grande parcela dos operados volta a ganhar pe-
so. A julgar pela grita que se seguiu, ela estaria condena-
da. Mas continua sendo útil, quando há indicação e com 
o devido acompanhamento. As canetas emagrecedoras 
passam por processo semelhante. A estridência se faz ou-
vir em ondas, ora para louvar seus benefícios, ora para 
reclamar de seu alcance — como elas não têm genéricos, 
ao menos até 2026 quando cairá a patente, seu uso se li-
mita às camadas de maior renda. No fim, falta temperan-
ça para aceitar que, assim como princípios ativos no pas-
sado — lembra do orlistat e da sibutramina? —, seu efeito 
cessa com a interrupção do uso.
De minha parte, só prego, sem medo de arrependimen-
tos, uma coisa: a moderação.Como já dizia Aristóteles: “O 
ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete”. Prefi-
ro observar com calma esse desfile de certezas e formar 
minha própria opinião. Afinal, prudência e canja de gali-
nha não fazem mal a ninguém. Se bem que é capaz de al-
guém reclamar da canja. ƒ
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PRIMEIRA PESSOA
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JHONY AGUIAR
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É UM DESAFIO VIVER 
DE ARTE NO BRASIL
Dalton Paula, 41 anos, trocou o emprego de bombeiro pelos 
pincéis — e hoje é destaque na Bienal de Veneza
MUITOS ARTISTAS NO NOSSO PAÍS precisam ter duas, 
três, quatro, cinco profissões para obter sustento, e isso 
mostra como é um desafio enorme viver disso no Brasil. 
Comigo não foi diferente. Trabalhei como bombeiro militar 
por quase uma década, época em que conciliei o emprego 
fixo com a pintura, minha verdadeira paixão. Com muito 
esforço, consegui vencer os obstáculos e hoje sou um dos 
convidados na Bienal de Arte de Veneza, uma mostra de 
grande prestígio internacional, onde exponho uma série de 
retratos. Mas o início não foi simples. 
Nasci em Brasília, mas prefiro dizer que sou um artista 
goianiense. Mudei para a capital de Goiás com minha família 
ainda na infância, quando minha mãe, funcionária pública, 
passou em um concurso na cidade. E foi em Goiânia que me 
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tornei artista. Eu adorava histórias em quadrinhos e copiava 
os desenhos de Os Cavaleiros do Zodíaco usando papel-car-
bono, para depois pintá-los com lápis de cor. Já que os gibis 
eram em preto e branco, a escolha das cores ficava totalmen-
te em minhas mãos, brincadeira que eu adorava. Logo mais, 
na adolescência, tratei de iniciar meus estudos sobre pintura. 
A convite da mãe de um amigo, entrei aos 14 anos na Escola 
de Artes Visuais de Goiás, instituto público de formação que 
funcionava junto com o Museu de Arte Contemporânea da 
capital. Lá, além de me aprofundar na pintura, tive contato 
com a fotografia e a performance, técnicas que mexeram 
muito com a minha cabeça. Frequentar aquele espaço foi o 
que despertou minha ideia de viver da minha criatividade. 
O próximo passo para realizar esse sonho foi cursar artes 
visuais na Universidade Federal de Goiás. Vendia minhas 
obras por preços baixos a quem se interessasse, para conse-
guir comprar mais material e continuar produzindo. Para 
custear as despesas e permanecer nos estudos, prestei um 
concurso público, e foi assim que me tornei bombeiro. Além 
de um segundo emprego, o quartel foi como uma segunda 
escola para mim. Eu frequentava a faculdade pela manhã e, 
no restante do dia, me dedicava ao resgate de vítimas de aci-
dentes e incêndios. Aprendi muito sobre cuidar das pessoas 
no tempo em que passei em hospitais, e até hoje a experiên-
cia se reflete na minha arte. Lido muito com a questão da 
cautela e do respeito com os outros quando estou pintando. 
Penso sempre em como esses personagens gostariam de ser 
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representados, quais roupas gostariam de vestir e em qual 
contexto social eles estão inseridos. Nas minhas telas, busco 
evidenciar as pessoas negras, que são maioria no Brasil, mas 
quase não aparecem nos museus. 
Em 2016, enquanto ainda equilibrava a profissão de artista 
com a de bombeiro, fui convidado para expor na Bienal de 
Arte de São Paulo. Naquele momento, uma voz ecoou na mi-
nha cabeça: “Do que mais você precisa para acreditar que a 
arte é seu caminho?”. O país estava numa crise política, e eu 
sabia que o desafio de viver de arte era uma constante. Então, 
eu me arrisquei. Foi um baita gesto de coragem largar o Cor-
po de Bombeiros e abraçar de vez a outra carreira. Me agarrei 
ao pensamento de que, se eu dedicasse toda minha energia 
àquilo, as portas iriam se abrir. E, por sorte, elas realmente se 
abriram. A venda dos meus trabalhos na Bienal foi um suces-
so, e desde então eu posso dizer que, sim, vivo de arte.
Para chegar aonde estou, fui muito ajudado. Uma pessoa 
que me acolheu foi a Rosana Paulino, minha madrinha na 
arte. Ela sempre dizia: “Quando você tiver condições, vai 
passar essa história adiante”. E é o que busco fazer. Fundei o 
Sertão Negro, ateliê e escola de artes em Goiânia, com o ob-
jetivo de apoiar novos talentos. Ser artista vai além de pin-
tar: é preciso deixar contribuições para o mundo. ƒ
Depoimento dado a Mariana Carneiro
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AS DONAS DO PRAZER
Com Zendaya no picante “trisal” de Rivais e Kristen 
Stewart puxando o thriller lésbico O Amor Sangra, 
a temporada prova que, apesar do recato e da 
correção, ainda há lugar para o sexo explosivo na 
tela — só que agora sob comando feminino
THIAGO GELLI
TRIÂNGULO FORTE Zendaya entre seus dois parceiros em 
Rivais: ménage à trois empoderado
MGM PICTURES
CINEMACULTURA
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SOLTANDO FAÍSCA Katy e Kristen em O Amor Sangra: 
nudez e cenas eróticas
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os últimos dias de um torneio juvenil de tênis, os cole-
gas de quarto Art (Mike Faist) e Patrick (Josh O’Con-
nor) estão suados, cansados — e sugestivamente an-
siosos. Além da partida que decidirá o título no dia 
seguinte, afinal, eles convidaram a menina de ouro da 
modalidade feminina do esporte, Tashi (Zendaya), para tomar 
umas bebidas em seu quarto de hotel. Surpreendentemente, ela 
aceita o convite, aparece toda deslumbrante e sensual — e logo 
tem os dois na palma da mão. Conversa vai, conversa vem, 
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Tashi se senta na beira da cama, chama a dupla — os marman-
jos correm para o seu lado como cachorrinhos —, beija um, re-
pete a ação com o outro e os puxa para um enlace triplo, antes 
de se afastar para observá-los de lábios unidos. Satisfeita com a 
manipulação fácil, ela sorri e vai embora, estabelecendo assim 
o complexo ménage à trois que dura por mais de uma década e 
é o foco de Rivais, estreia picante dos cinemas. 
A cena pode não espantar pelo conteúdo, mas surpreende 
pelas doses generosas de algo que Hollywood aparentava ter 
perdido: a libido. Com estreia marcada para quinta-feira, 1º, 
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Três momentos do cinema que dizem muito 
sobre a moral sexual de seu tempo:TELA QUENTE
ÚLTIMO TANGO EM PARIS (1972)
No embalo da contracultura, o filme de Bernardo Bertolucci 
resumiu uma era de erotismo nas telas. Hoje, porém, é 
condenado pela visão machista e pelos abusos que a atriz Maria 
Schneider teria sofrido em cenas com Marlon Brando
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Love Lies Bleeding — O Amor Sangra colabora para essa 
sensação ao apresentar o tórrido caso entre a herdeira de um 
criminoso e uma fisiculturista homicida, vividas pelas atrizes 
assumidamente lésbicas Kristen Stewart e Katy O’Brian. No 
thriller, o par enfrenta as ameaças do pai da protagonista, um 
poderoso traficante, mas ainda reserva tempo para as carícias 
um tanto explícitas conduzidas pela diretora Rose Glass.
A temporada dá resposta explosiva, enfim, a uma inda-
gação que rondou o cinema nos últimos anos: é possível 
existir vida sexual na tela grande nos dias de hoje? Uma mi-
NINFOMANÍACA (2013)
Com a ascensão conservadora nos Estados Unidos, coube ao 
cinema europeu manter viva a chama da libido — e ninguém foi 
mais radical nisso que o dinamarquês Lars von Trier, com o longa 
em duas partes cheio de lances explícitos
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ríade de fatores nada excitantes indicava que não: a priorida-
de dos estúdios para filmes adolescentes de heróis, o avanço 
conservador nos Estados Unidos, as pesquisas que mostra-
vam o incômodo da geração Z com a nudez e as cenas for-
tes. A eclosão do movimento #MeToo, em 2017, acrescentou 
a esses freios um argumento irrefutável: boa parte do que 
era exibido nos filmes como prazer para adultos, especial-
mente a partir do final dos anos 1960, foi feita com base no 
prisma machista da indústria — e pior: às custas de abusos 
morais e sexuais inaceitáveis contra tantas atrizes. 
CINQUENTA TONS DE CINZA (2015)
A escassez de desejo atingiu o fundo do poçocom a trilogia 
baseada nos livros de E. L. James, na qual fetiches “proibidos” 
ganham uma roupagem asséptica e água com açúcar. Um sexo 
burocrático e nada excitante — mas muito comercial
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Caso clássico do revisionismo da libido se deu com o cult Úl-
timo Tango em Paris (leia no quadro). Nos últimos anos, bus-
cou-se fazer justiça à francesa Maria Schneider (1952-2011), que 
se sentiu “violentada” por Bernardo Bertolucci e Marlon Bran-
do nos bastidores por não ter sido avisada de que o colega utili-
zaria manteiga com fins capciosos na cena mais famosa do lon-
ga. Quarenta anos depois, Azul É a Cor Mais Quente (2013) 
causou polêmica com uma cena íntima de dez minutos cuja fil-
magem foi descrita como “horrível” pelas atrizes. Exemplos as-
sim foram a senha para uma nova classe profissional se impor: 
os “coordenadores de intimidade”, profissionais (normalmente 
mulheres) que asseguram o conforto das atrizes no set.
Passada mais de meia década desse novo e louvável mo-
do de conduta, porém, a atual safra de longas chega para 
provar que, sim, os morros de Los Angeles ainda têm seu 
quê de Babilônia — ainda que a chave para acessá- la agora 
já não seja a mesma dos filmes que incendiaram a imagina-
ção no passado, como 9 1/2 Semanas de Amor (1986) ou Ins-
tinto Selvagem (1992), com seu apelo principalmente ao 
voyeurismo masculino. O quente agora é o desejo feminino 
— e isso vem dando uma baita química.
Um exemplo dessa nova forma de ousadia é Pobres Cria-
turas, filme do diretor Yorgos Lanthimos em que a vencedo-
ra do Oscar, Emma Stone, encarna uma criatura com corpo 
de mulher adulta e cérebro despudorado, que então se entre-
ga a dezenas de experimentos carnais notadamente gráficos. 
Para as múltiplas cenas, ela teve o auxílio de uma coordena-
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SERELEPE Emma Stone (com Mark Ruffalo) em 
Pobres Criaturas: haja energia
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dora de intimidade, mas também tomou as rédeas para si, as-
sumindo o papel de produtora do longa. “Quando dizem que 
o filme é exemplar do olhar masculino por ser dirigido e es-
crito por um homem, estão negando minha colaboração ar-
tística”, disse em conversa com a colega Olivia Colman. 
Seguindo a trilha de Emma, Zendaya é a produtora que está 
no comando de seu próprio “trisal” em Rivais — que, apesar de 
não conter cenas explícitas, exala malícia a cada curva. Já Kris-
ten Stewart, homossexual assumida e militante, pode chocar 
quem só se lembra da mocinha da franquia juvenil Crepúsculo: 
em O Amor Sangra, ela está soltíssima — postura que credita 
ao clima construtivo e de diálogo no set. “É como ter uma con-
versa aberta sobre o que todos desejam e, assim, proporcionar 
uma ótima transa”, já resumiu. As novas musas do prazer no ci-
nema são senhoras de seus corpos — ainda bem. ƒ
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ASTROS ANÔNIMOS
O filme O Dublê se vale do humor e do carisma 
de Ryan Gosling para celebrar o perigoso ofício 
dos profissionais que garantem ótimas cenas 
de ação, mas ainda lutam pelo reconhecimento
DURO NA QUEDA Gosling no filme: cenas exuberantes e 
roteiro cômico sobre uma busca a um ator desaparecido
ERIC LACISTE/UNIVERSAL PICTURES
CINEMACULTURA
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VESTIDO com um macacão antichamas e usando acessó-
rios para proteger os dentes e o pescoço, Colt (Ryan Gos-
ling) está pronto para encarar uma perigosa cena de ação 
em um filme de Hollywood. O momento é essencial para 
ele: dublê de uma grande estrela do cinema, Colt estava ha-
via mais de um ano afastado do trabalho após um grave aci-
dente em outro set. Na sequência que marca seu retorno, ele 
deve dirigir um carro em alta velocidade pela praia, com 
pouca tração na areia, e capotar várias vezes. A meta é atin-
gida e superada: o veículo gira oito vezes e meia — um re-
corde histórico. A comemoração é dupla: enquanto em cena 
o personagem de Gosling é celebrado pelo feito, nos bastido-
res de O Dublê (The Fall Guy, Estados Unidos, 2024), que 
estreia nos cinemas na quinta-feira 2, o diretor David Leitch 
urra de alegria enquanto o time tira do carro Logan Holla-
day, dublê de Gosling — e que entrou ali, de verdade, para o 
Guinness, o livro dos recordes. 
Na trama de contorno metalinguístico, Colt deve não só 
ser o profissional que se arrisca no lugar do astro mimado 
Tom Ryder, vivido com gosto por Aaron Taylor-Johnson, 
como precisa ainda encontrá-lo, já que o ator desapareceu 
antes do fim das filmagens de uma rocambolesca produção 
apocalíptica. O longa usa e abusa dos dotes cômicos de Gos-
ling e também das excelentes cenas de perseguição, lutas e 
fugas — no ar, na terra e até no mar. Tal resultado é fruto de 
experiências passadas do diretor: Leitch começou a carrei-
ra, ele próprio, sendo dublê de medalhões como Brad Pitt e 
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Matt Damon, antes de se embrenhar com sucesso na função 
de diretor. Conduziu alguns exemplares exuberantes e cria-
tivos do gênero de ação, caso de Atômica, Velozes e Furio-
sos: Hobbs e Shaw e do hilário Trem-Bala, e ainda assina 
como produtor a saga John Wick — a qual conta com a dire-
ção de outro ex-dublê, Chad Stahelski.
A trilha desses profissionais até a direção não é raridade 
— e atesta o valor de quem sabe manobrar uma boa atua-
ção física, o ângulo ideal e o ritmo da cena. Leitch engrossa 
uma fila puxada por outros talentosos ex-dublês, como 
Bruce Lee, Jackie Chan e até mesmo o incomparável ci-
neasta John Ford, que começou entre carros explodindo 
antes de levar quatro estatuetas do Oscar por obras essen-
ciais, entre elas No Tempo das Diligências (1939) e As Vi-
nhas da Ira (1940). Enquanto O Dublê se prepara para cha-
coalhar as bilheterias, o diretor e seus colegas intensificam 
o lobby que pede à Academia de Hollywood uma categoria 
específica no Oscar para premiar o ofício. É justo: os astros 
anônimos merecem reconhecimento. ƒ
Raquel Carneiro
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O VALOR DA 
INTIMIDADE
Uma nova série sobre o roqueiro Bon Jovi reforça 
tendência curiosa: todo artista agora quer um 
documentário tocante para chamar de seu — e se 
autopromover FELIPE BRANCO CRUZ
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ENTRETENIMENTOCULTURA
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DONO DOS FAMOSOS agudos de Livin’ on a Prayer, Jon 
Bon Jovi alarmou os fãs há um mês com uma revelação 
dramática. O roqueiro americano de 62 anos confidenciou 
que, após operar as cordas vocais, não se sente capaz de 
fazer shows — e sinalizou uma eventual aposentadoria. 
Embora seus problemas sejam reais, a declaração foi mili-
metricamente pensada para outro fim: despertar interesse 
pela série documental Thank You, Goodnight: A História 
EXPOSIÇÃO 
CALCULADA 
Selena Gomez 
(1), Bon Jovi (2), 
Céline Dion (3), 
Arnold 
Schwarzenegger 
(4), Sylvester 
Stallone (5) e 
Lady Gaga (6): 
biografias 
devassadas, 
mas sem perder 
o controle 
narrativo da 
história
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de Bon Jovi, já disponível no Star+. Em quatro episódios, o 
programa acompanha o músico de Nova Jersey em sua úl-
tima turnê, em 2023, marcada por críticas à sua voz e pela 
ruidosa briga com seu principal parceiro, o guitarrista Ri-
chie Sambora — que havia deixado a banda alguns anos 
antes e participa do doc contando uma versão pouco con-
vincente do rompimento. Ao final, a verdadeira utilidade 
da série fica clara: Bon Jovi anuncia seu novo álbum, Fore-
ver. Spoiler: sem Sambora nas guitarras. 
Com o chapa-branca Thank You, Goodnight, Bon Jovi 
reforça um fenômeno curioso: numa era em que essas 
produções ganharam peso nas plataformas de streaming, 
toda celebridade quer um doc para chamar de seu. Nos 
últimos anos, esses programas surgiram aos montes, ace-
nando ao espectador com acesso inédito à intimidade de 
famosos tão díspares quanto astros de ação e divas pop, 
de ArnoldSchwarzenegger e Sylvester Stallone a Lady 
Gaga ou Selena Gomez. 
Não é difícil detectar o pulo do gato dos novos docu-
mentários. Eles fascinam o público ao vender um mergu-
lho confessional nas fragilidades dos grandes artistas — 
expondo como, lá no fundinho, eles são gente como a gen-
te. Algumas produções são de fato impactantes e expõem 
histórias reais corajosas. O ator americano Val Kilmer se 
abre de forma tocante sobre o câncer que arruinou sua car-
reira num filme de 2021; em junho, chegará ao Prime Vi-
deo o antecipado I Am: Céline Dion, em que a cantora ca-
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nadense mostrará os bastidores de sua luta contra a sín-
drome da pessoa rígida, doença autoimune que afeta o sis-
tema nervoso central. Mas mesmo os melhores docs da sa-
fra atual oferecem um anteparo valioso aos artistas: seus 
rasgos de franqueza e até as confissões mais dolorosas se 
dão sempre num ambiente controlado e seguro.
Como as celebridades têm total controle da narrativa, os 
documentários se transformaram, sobretudo, em excelentes 
peças de autopromoção. A Netflix desbravou a seara em 
2017, quando lançou Five Foot Two, produção em que Lady 
Gaga conta como lida com a fibromialgia, doença que lhe 
causa dores lancinantes. Num expediente narcisístico típico, 
a musa pop fala de dor, mas faz questão de enfatizar seu po-
der: a certa altura do filme, posta um vídeo no Instagram e 
imediatamente recebe milhões de likes. 
Nos casos de Arnold Schwarzenegger e Sylvester Stallo-
ne, que também lançaram produções autobiográficas na 
Netflix, demonstra-se outro uso marqueteiro dos docs: eles 
servem para amenizar sua imagem de brutamontes machis-
tas e egocêntricos. Os dois atores participam dos programas 
um do outro para falar de sua propalada rivalidade — sem-
pre com declarações elogiosas. E os dramas verdadeiros em 
suas biografias são amortizados por uma narrativa açucara-
da. Schwarzenegger expõe detalhes sobre o passado nazista 
do pai e se abre sobre o filho Joseph Baena, fruto de um rela-
cionamento fora do casamento. Stallone dedica boa parte do 
tempo a falar do filho Sage, que sofria de depressão e mor-
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reu aos 36 anos, e também de seu pai, Frank, homem vio-
lento que jamais aprovou sua carreira. O espectador sai dos 
programas nutrindo mais simpatia pelos pobres fortões.
Na música, Katy Perry foi uma das primeiras a se expor 
dessa forma, em Katy Perry: Part of Me, lançado nos cine-
mas em 2012. Boa parte do filme é dedicada a falar sobre 
como ela se recuperou de um divórcio e foi capaz de lançar 
um novo disco de sucesso. Lançado ano passado na Apple 
TV+, Minha Mente e Eu mostra os duros anos de tratamen-
to de Selena Gomez contra o lúpus e o transtorno bipolar, 
justificando por que ela parou de fazer shows e decidiu virar 
atriz. Meses atrás, a Netflix trouxe a mania ao Brasil, com 
Se Eu Fosse Luísa Sonza, em que a cantora fala sobre vida 
amorosa, como lida com os haters e também de saúde men-
tal — além de promover seu álbum mais recente, claro. A in-
timidade nunca teve tanto valor na tela. ƒ
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EPITÁFIO GENIAL
Mostra em Londres lança luz sobre o quadro misterioso, 
considerado o trabalho final de Caravaggio, que revela o 
rosto sofrido do mestre pouco antes da morte 
AMANDA CAPUANO
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EM MAIO DE 1606, o genial e encrenqueiro Michelan-
gelo Merisi — ou, simplesmente, Caravaggio (1571-1610) 
— entrou em uma briga violenta com um cafetão chama-
do Ranuccio Tomassoni. Provocado por uma partida de 
jogo ou uma disputa amorosa, teorizam estudiosos, o 
combate acabou com o assassinato de Tomassoni e uma 
AUTORRETRATO?
O Martírio de Santa Úrsula, com o rosto 
que se acredita ser do pintor em 
destaque (acima): o mestre barroco 
costumava se representar de maneira 
trágica nas próprias obras, e deixou 
esse registro de sua face dilacerada 
pelos ferimentos que sofreu em briga 
numa taverna
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caçada a Caravaggio: como punição, qualquer pessoa nos 
estados papais poderia matar o pintor barroco e oferecer 
sua cabeça como prova. Amedrontado, Caravaggio fugiu 
de Roma e fez um périplo pelo país: nos quatro anos se-
guintes, esteve em Nápoles, Malta, Sicília e retornou a 
Nápoles antes de partir para Porto Ercole, na Toscana, 
onde morreu em julho de 1610. Antes disso, no entanto, 
produziu obras como a magistral Salomé com a Cabeça 
de João Batista (1609-1610) e, dois meses antes da via-
gem final, deu suas derradeiras pinceladas no glorioso O 
Martírio de Santa Úrsula — estrela da mostra O Último 
Caravaggio, que acaba de entrar em exibição na National 
Gallery de Londres.
A representação de Santa Úrsula é a pintura documen-
tada mais próxima da data de sua morte. Inicialmente 
atribuída a pupilos de estilo caravaggesco, a obra só foi 
apontada como sendo dele nos anos 1980, depois que car-
tas preservadas em Nápoles, e datadas de maio de 1610, 
revelaram que fora encomendada a Caravaggio por Mar-
cantonio Doria (1572-1651), então príncipe de Angri. Mais 
tarde, a autoria foi reforçada pelo achado de inscrições no 
verso do quadro: a assinatura póstuma d. Michel Angelo 
da/Caravaggio 1616 e as iniciais M.A.D., adornadas por 
uma cruz, escritas após a morte do dono, em 1651, refor-
çando a encomenda do nobre ao pintor.
Sob posse da família original durante séculos, a pintura 
ficou pendurada despercebida no Palazzo Doria d’Angri até 
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o século XX, e passou para outra coleção particular ao ser 
adquirida como parte de uma villa antes pertencente ao clã. 
Publicamente, só foi revelada em 1963, em uma exposição 
em Nápoles, ainda sem a autoria de Caravaggio. Hoje per-
tencente ao Banco Intesa Sanpaolo, a pintura fica exposta 
na Gallerie d’Italia, na Via Toledo, em Nápoles, de onde foi 
retirada para a mostra inglesa. 
Com o jogo de luz e sombras típico do mestre, a pin-
tura captura Santa Úrsula pouco antes de seu martírio. 
Diz a crença que ela e um grupo de virgens que a se-
guiam foram capturados e mortos pelos hunos. O rei te-
ria se oferecido para salvar a vida de Úrsula casando-se 
com ela, mas a moça recusou a oferta e foi morta por 
uma flecha. Acima da mulher martirizada, surge um 
provável autorretrato do artista, que costumava se pintar 
de modo trágico nas obras — aqui, aparece desfigurado 
e pálido assistindo à cena. “É nosso último vislumbre de 
um homem desesperado emergindo de um dos momen-
tos mais conturbados de sua vida”, escreve a curadora 
Francesca Whitlum-Cooper. 
A falta de vitalidade não é à toa: meses antes, ao sair 
de uma taverna, ele foi surpreendido por inimigos e feri-
do no rosto com golpes tão graves que suas feições se 
tornaram quase irreconhecíveis. Morreu pouco depois, 
possivelmente vítima de uma sepse adqui ri da através de 
um ferimento de outra briga, sugerem pesquisas recen-
tes. O epitáfio do gênio é tão trágico quanto sua obra. ƒ
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1 | 3
QUEM É VOCÊ, 
ADOLESCENTE?
ROMEU E JULIETA eram adolescentes, como tão bem 
mostrou Zefirelli no cinema. Verdade: a intensidade de seus 
sentimentos só poderia ocorrer na adolescência. Um adulto 
pensaria duas vezes em atitudes tão radicais quanto o suicí-
dio por amor. Até mesmo desconfiaria do próprio amor. 
“Será que eu gosto mesmo dela? Ou dele?” — pensaria Ro-
meu. “Mas ele nem passou no Enem”, refletiria uma Julieta 
contemporânea e cautelosa. O limbo que existe entre a in-
fância e a fase adulta, é disso que estou falando. Você não é 
mais criança para ganhar festas temáticas com balões. Ao 
mesmo tempo, não costuma ter as obrigações da vida adul-
ta. Mas é claro que estou falando de um recorte da socieda-
de, da classe média em diante. É uma fase terrível. O adoles-
cente não sabe quem é, os pais não sabem como agir diante 
de tantas angústias e tensões. Inclusive, na medicina surgiu 
uma especialidade para dar conta desse período: o hebiatra. 
Antes, os sofridos adolescentes eram obrigados a esperar aconsulta em salas de pediatras com ursinhos, joguinhos e 
WALCYR CARRASCO
As eternas (e novas) dores e 
delícias de ser jovem
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crianças chorando. Justo eles, que já se consideravam adul-
tos e aguardavam a data de tirar carteira de motorista! É um 
momento de definições: escolher uma faculdade, por exem-
plo, é um martírio. Pior: na maioria das vezes, o adolescente 
pouco sabe da profissão que está escolhendo ao se inscrever 
no vestibular; fugir dos estudos para entrar num mosteiro; 
ou arrumar um emprego e já despencar no mercado de tra-
balho. Os hormônios estão explodindo. Frequentemente, as 
espinhas também. Há grandes paixões no ar, mas pode ser 
difícil realizá-las sem um cantinho só seu. Alguns vivem sua 
grande história de amor na intimidade do cinema — ou até 
mesmo no toalete de uma festa.
A que grupo pertencer: o da frente da sala, do meio ou do 
fundão? Cada escolha é um universo que se abre. Os pais 
que se segurem. Dizer não para um adolescente da época di-
gital pode ser muito difícil. A nova geração está acostumada 
“A nova geração 
está acostumada a dar 
unfollow se algo lhe 
desagrada. Só que não 
pode deletar os pais” 
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a dar unfollow quando algo lhe desagrada. Só que não pode 
deletar os pais. Portas batem.
Os pais projetam sonhos que não realizaram. Os filhos, 
muitas vezes, só acham que eles são chatos.
– Pai, posso fazer isso?
– Pergunta pra sua mãe.
– Mãe, posso fazer aquilo?
– Pergunta pro seu pai.
O adolescente é um ser sensível, mesmo quando age co-
mo um pit bull. Mas cada época tem seu DNA. Na minha, eu 
pensava que ia mudar o mundo. Hoje, realmente o mundo 
mudou para os adolescentes que estão por aí. Não é fácil 
construir uma vida no universo digital. Existir fisicamente, 
no metaverso, conviver com a IA, e correr o risco de ver um 
robô roubar seu futuro emprego é de arrasar.
Os desafios da minha adolescência eram outros: me 
posicionar contra o regime militar, aprender inglês, e não 
perder nem uma passeata. Na adolescência, a gente pode 
votar. É uma grande responsabilidade das muitas que de-
sabam. Mais que tudo, o jovem precisa descobrir quem é e 
como será. E isso só se faz no caminho, que pode ser difí-
cil. Mas um dia todos nós descobrimos que o caminho é a 
melhor parte da vida. ƒ
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CULTURA VEJA RECOMENDA
TELEVISÃO 
HACKS — TERCEIRA TEMPORADA
(no Max a partir de quinta-feira 2)
Pioneira entre as poucas mulheres da comédia stand-up, Debo-
rah Vance (Jean Smart) desfrutou de anos gloriosos — até cair 
no ostracismo. Na primeira temporada de Hacks, a veterana 
contrata a jovem Ava (Hannah Einbinder), uma roteirista que 
foi cancelada nas redes sociais. Juntas no limbo, elas vão de 
uma turnê micada pelo interior dos Estados Unidos até a pro-
dução de um elogiado especial. Na nova e apetitosa leva de epi-
sódios, a dupla inicialmente está separada: Deborah desfruta de 
um novo auge na carreira, e Ava vive um raro bom momento 
na vida pessoal e profissional. Mas o sucesso, quem diria, as 
deixa entediadas. Quando se reencontram, as parceiras que bri-
gavam como cão e gato se aliam para sair da mesmice — mes-
mo que para isso arrisquem tudo o que foi conquistado. 
B
ET
H
 D
U
B
B
ER
/M
A
X
ESTRELA Jean Smart (no centro) na série Hacks: 
comediante desfruta de um novo sucesso após ostracismo
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LIVRO
O PAÍS DOS OUTROS, 
de Leïla Slimani (tradução de Dorothée 
de Bruchard; Intrínseca; 320 páginas; 
R$ 69,90 ou R$ 46,90 em e-book) 
Em meio à Segunda Guerra, a jovem francesa Mathilde se 
apaixona pelo soldado marroquino Amine, que faz parte do 
Exército francês. Ao fim do conflito, o casal fixa residência 
em Meknés, cidade do país africano cheia de colonos euro-
peus. Inspirada na família da franco-marroquina Leïla Sli-
mani, vencedora do prestigioso Goncourt, a trama mergu-
lha em temas como colonialismo e racismo ao seguir o casal 
no dia a dia marcado por diferenças culturais, dando aten-
ção especial às dificuldades vividas pelas mulheres. 
RAÍZES 
LITERÁRIAS 
Leïla Slimani: 
bela narrativa 
inspirada 
na história 
dos avós
C
AT
H
ER
IN
E 
H
ÉL
IE
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DISCO 
THIS AIN’T THE WAY YOU GO OUT, 
de Lucy Rose (disponível nas plataformas de streaming)
Umas das mais celebradas cantoras da nova música 
folk do Reino Unido, a pianista Lucy Rose achou que 
jamais voltaria a tocar. Após o parto de seu filho em 
2021, a artista de 34 anos desenvolveu uma forma 
rara de osteoporose que lhe causava excruciante dor 
nas costas. A superação a inspirou a retornar ao pia-
no. Ao contrário do que se poderia supor, as canções 
que surgiram são alegres, mesmo em letras confes-
sionais como Could You Help Me, em que descreve a 
busca pela cura, ou No More, a mais animada e sel-
vagem do álbum. ƒ 
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CULTURA OS MAIS VENDIDOS
FICÇÃO
1 a biblioteCa Da meia-noite 
Matt Haig [2 | 94#] BERTRAND BRASIL
2 tuDo é rio 
Carla Madeira [3 | 82#] RECORD
3 é assim que aCaba 
Colleen Hoover [5 | 136#] GALERA RECORD
4 em agosto nos Vemos 
Gabriel García Márquez [8 | 6#] RECORD
5 uma família feliZ 
Raphael Montes [1 | 5] COMPANHIA DAS LETRAS
6 é assim que Começa 
Colleen Hoover [7 | 73] GALERA RECORD
7 VeritY 
Colleen Hoover [9 | 105#] GALERA RECORD
8 as meninas 
Lygia Fagundes Telles [4 | 2] COMPANHIA DAS LETRAS
9 a emPregaDa 
Freida McFadden [10 | 15#] ARQUEIRO
10 o aVesso Da Pele 
Jeferson Tenório [6 | 8#] COMPANHIA DAS LETRAS
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NÃO FICÇÃO
1 nutrir 
Gisele Bündchen [0 | 1] BEST SELLER
2 as seis lições 
Ludwig von Mises [0 | 2#] LVM 
3 nação DoPamina 
Dra. Anna Lembke [2 | 39#] VESTÍGIO
4 a CaDa Passo 
Anderson Birman [7 | 7#] CITADEL
5 ráPiDo e DeVagar 
Daniel Kahneman [0 | 193#] OBJETIVA
6 o PrínCiPe 
Nicolau Maquiavel [5 | 41#] VÁRIAS EDITORAS
7 se não eu, quem Vai faZer VoCê feliZ? 
Graziela Gonçalves [3 | 12#] PARALELA
8 em busCa De mim 
Viola Davis [0 | 75#] BEST SELLER
9 soCieDaDe Do Cansaço 
Byung-Chul Han [4 | 56#] VOZES
10 mulHeres que Correm Com os lobos 
Clarissa Pinkola Estés [10 | 185#] ROCCO
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AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1 Café Com Deus Pai 2024 
Junior Rostirola [1 | 18#] VÉLOS
2 ou Vai ou Voa 
Josef Rubin e Hendel Favarin [3 | 2] BUZZ
3 o liVro que VoCê gostaria que seus Pais 
tiVessem liDo Philippa Perry [0 | 5#] FONTANAR
4 Como falar sobre sexualiDaDe Com 
as Crianças Leiliane Rocha [0 | 1] ASTRAL CULTURAL
5 mais esPerto que o Diabo 
Napoleon Hill [6 | 245#] CITADEL
6 o PoDer Da autorresPonsabiliDaDe 
Paulo Vieira [2 | 93#] GENTE
7 Hábitos atômiCos 
James Clear [4 | 45#] ALTA BOOKS
8 o Homem mais riCo Da babilônia 
George S. Clason [8 | 165#] HARPERCOLLINS BRASIL
9 a PsiCologia finanCeira 
Morgan Housel [5 | 31#] HARPERCOLLINS BRASIL
10 os segreDos Da mente milionária 
T. Harv Eker [9 | 455#] SEXTANTE
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INFANTOJUVENIL
1 o fabriCante De lágrimas 
Erin Doom [1 | 3] HARPERCOLLINS
2 o Pequeno PrínCiPe 
Antoine de Saint-Exupéry [3 | 415#] VÁRIAS EDITORAS 
3 Promessas Cruéis 
Rebecca Ross [2 | 2] ALT
4 a lenDa Da Caixa Das almas 
Paola Siviero [0 | 1] GUTENBERG
5 HarrY Potter e a PeDra filosofal 
J.K. Rowling [5 | 423#] ROCCO
6 Coraline 
Neil Gaiman [0 | 71#] INTRÍNSECA
7 Diário De um banana 
Jeff Kinney [8 | 27#] VR
8 as aVenturas De miKe 
Gabriel Dearo e Manu Digilio [7 | 27#] OUTRO PLANETA
9 o menino, a touPeira, a raPosa e o CaValo 
Charlie Mackesy [6 | 22#] SEXTANTE
10 as aVenturas De miKe 4 — a origem De robson 
Gabriel Dearo e Manu Digilio [9 | 14#] OUTRO PLANETA
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[A|B#] — A] posição do livro na semana anterior B] há quantas semanas 
o livro aparece na lista #] semanas não consecutivas
Pesquisa: Bookinfo / Fontes: Aracaju: Escariz, Balneário Camboriú: Curitiba, Barra Bonita: Real 
Peruíbe, Barueri: Travessa, Belém: Leitura, SBS, Travessia, Belo Horizonte: Disal, Jenipapo, 
Leitura, Livraria da Rua, SBS, Vozes, Bento Gonçalves: Santos,Betim: Leitura, Blumenau: 
Curitiba, Brasília: Disal, Leitura, Livraria da Vila, SBS, Vozes, Cabedelo: Leitura, 
Cachoeirinha: Santos, Campina Grande: Leitura, Campinas: Disal, Leitura, Livraria da Vila, 
Loyola, Senhor Livreiro, Vozes, Campo Grande: Leitura, Campos do Jordão: História sem Fim, 
Campos dos Goytacazes: Leitura, Canoas: Mania de Ler, Santos, Capão da Canoa: Santos, 
Caruaru: Leitura, Cascavel: A Página, Colombo: A Página, Confins: Leitura, Contagem: Leitura, 
Cotia: Prime, Um Livro, Criciúma: Curitiba, Cuiabá: Vozes, Curitiba: A Página, Curitiba, Disal, 
Evangelizar, Livraria da Vila, SBS, Vozes, Florianópolis: Curitiba, Catarinense, Fortaleza: 
Evangelizar, Leitura, Vozes, Foz do Iguaçu: A Página, Frederico Westphalen: Vitrola, Garopaba: 
Livraria Navegar, Goiânia: Leitura, Palavrear, SBS, Governador Valadares: Leitura, Gramado: 
Mania de Ler, Guaíba: Santos, Guarapuava: A Página, Guarulhos: Disal, Leitura, Livraria da 
Vila, SBS, Ipatinga: Leitura, Itajaí: Curitiba, Jaú: Casa Vamos Ler, João Pessoa: Leitura, 
Joinville: A Página, Curitiba, Juiz de Fora: Leitura, Vozes, Jundiaí: Leitura, Limeira: Livruz, Lins: 
Koinonia, Londrina: A Página, Curitiba, Livraria da Vila, Macapá: Leitura, Maceió: Leitura, 
Livro Presente, Maringá: Curitiba, Mogi das Cruzes: A Eólica Book Bar, Leitura, Natal: 
Leitura, Niterói: Blooks, Palmas: Leitura, Paranaguá: A Página, Pelotas: Vanguarda, Petrópolis: 
Vozes, Poços de Caldas: Livruz, Ponta Grossa: Curitiba, Porto Alegre: A Página, Cameron, Disal, 
Leitura, Macun Livraria e Café, Mania de Ler, Santos, SBS, Taverna, Porto Velho: Leitura, 
Recife: Disal, Leitura, SBS, Vozes, Ribeirão Preto: Disal, Livraria da Vila, Rio Claro: Livruz, Rio 
de Janeiro: Blooks, Disal, Janela, Leitura, Leonardo da Vinci, Odontomedi, SBS, Rio Grande: 
Vanguarda, Salvador: Disal, Escariz, LDM, Leitura, SBS, Santa Maria: Santos, Santana de 
Parnaíba: Leitura, Santo André: Disal, Leitura, Santos: Loyola, São Bernardo do Campo: Leitura, 
São Caetano do Sul: Disal, Livraria da Vila, São João de Meriti: Leitura, São José: A Página, 
Curitiba, São José do Rio Preto: Leitura, São José dos Campos: Amo Ler, Curitiba, Leitura, São 
José dos Pinhais: Curitiba, São Luís: Hélio Books, Leitura, São Paulo: A Página, B307, Círculo, 
Cult Café Livro Música, Curitiba, Disal, Dois Pontos, Drummond, Essência, 
HiperLivros, Leitura, Livraria da Tarde, Livraria da Vila, Loyola, Megafauna, Nobel 
Brooklin, Santuário, SBS, Simples, Vozes, Vida, WMF Martins Fontes, Serra: Leitura, 
Sete Lagoas: Leitura, Taboão da Serra: Curitiba, Taguatinga: Leitura, Taubaté: Leitura, Teresina: 
Leitura, Uberlândia: Leitura, SBS, Umuarama: A Página, Vila Velha: Leitura, Vitória: Leitura, 
SBS, Vitória da Conquista: LDM, internet: Amazon, A Página, Authentic E-commerce, Boa 
Viagem E-commerce, Canal dos Livros, Curitiba, Leitura, LT2 Shop, Magazine Luiza, 
Sinopsys, Submarino, Travessa, Um Livro, Vanguarda, WMF Martins Fontes
INÊS249 
1 | 4
VENTO ELEITORAL
LULA TEVE uma ideia: “Criar uma espécie de um ‘190’, um 
‘180’, um telefone para que as pessoas pudessem telefonar e 
se queixar se as coisas não estão acontecendo (no governo)”. 
Na semana passada, justificou-se: “Eu preciso que tenha um 
lugar para o povo colocar para fora as suas angústias”.
O “Disque-Lula” não existe, mas já tem a primeira quei-
xa para registro: o presidente reclama da rotina dormente 
do próprio governo — problema do qual tenta se eximir co-
mo um crítico distanciado, talvez por achá-lo insolúvel a es-
ta altura do mandato. 
Governar, dizia Bill Clinton do lado de fora da biblioteca 
da Casa Branca, é como dar ordens num cemitério: tem mui-
ta gente abaixo de você e ninguém ouve. No Palácio do Pla-
nalto, “erro” é palavra temida. Ali predomina o receio de le-
var problemas ao chefe, e a frase mais repetida é: “Quem vai 
contar para o Lula?”. Mês passado, ele reuniu o ministério. 
Passou cinco horas ouvindo e concordando com ministros 
que elogiavam... o governo Lula. 
No Partido dos Trabalhadores, a opção preferencial tem 
sido pela máscara. Como relatou o deputado paulista Arlin-
do Chinaglia, em recente reunião interna: “O que se ouve 
JOSÉ CASADO
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2 | 4
na bancada federal do PT sobre o ministério do Lula nem 
sempre são elogios. A gente finge que está concordando, 
que está todo mundo satisfeito”. O partido tem culpa, ele 
acha: “Não temos coragem para falar. O que estamos fazen-
do? Só batendo palmas”. 
A aflição com o governo disfuncional, sem bússola nem 
rumo, não é privilégio do presidente e dos aliados. Queixas e 
reclamações dos eleitores reluzem em diferentes pesquisas 
dos cinco meses. “O brasileiro quer ver a luz do fim do túnel, 
o que Lula não está oferecendo”, interpreta Renato Meirel-
les, do Instituto Locomotiva/Data Favela. Insatisfações cres-
centes captadas nas sondagens de opinião incomodam Lula 
porque contêm potencial corrosivo para os planos de reelei-
ção. Já animam conversas entre banqueiros, industriais e co-
merciantes do eixo São Paulo-Rio sobre mudanças na dire-
ção do vento eleitoral num cenário de baixo crescimento 
econômico e alta desigualdade social. 
No outono do ano que vem, Lula precisará escolher uma 
entre três alternativas: vai à reeleição; se aposenta depois de 
três décadas e meia no ofício de candidato presidencial per-
manente do PT; ou indica substituto para a disputa em 2026. 
Em qualquer opção estará condicionado pelos resultados 
das eleições municipais deste ano. 
O Ipec constata que quase metade (47%) do eleitorado pro-
cura candidatos a prefeito e vereador sem vínculos com Lula e 
Jair Bolsonaro. Essa busca sugere duas coisas, acha Marcia Ca-
vallari, responsável pela pesquisa: uma é a vontade de renova-
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“Quase metade (47%) 
do eleitorado procura 
candidato sem vínculo 
com Lula e Bolsonaro”
ção, outra é a expectativa de novo modelo de liderança política. 
Elas permitem, também, um vislumbre da sutileza e elegância 
dos eleitores no aviso sobre fadiga de material na política. 
No Congresso, há consenso sobre a tendência de reforço 
dos partidos de centro e de direita nas eleições de outubro, 
para prefeito e vereador, em coerência com o panorama tra-
çado nas pesquisas. Na leitura interessada do governador 
paulista, Tarcísio de Freitas, isso significa que “a população 
está cada vez mais de saco cheio, ninguém aguenta mais, e 
acho que ela vai dar o tom (em outubro)”.
Antonio Lavareda e Vinícius Silva Alves, do Ipespe, estu-
daram as disputas municipais dos últimos 39 anos. Suspei-
tam que elas têm funcionado como uma espécie de barôme-
tro das eleições gerais seguintes. Ou seja, sinalizando as 
chances dos blocos políticos nos embates posteriores pela 
Presidência, governos estaduais e bancadas parlamentares. 
Certo mesmo é que há década e meia a direita avança nas 
eleições municipais. Ampliou seu espaço (de 41,9% para 
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4 | 4
ƒ Os textos dos colunistas não refletem 
necessariamente as opiniões de VEJA
45,1%) na soma nacional de votos nas cidades, entre 2008 e 
2012. Na sequência, em 2016, cresceu nas câmaras munici-
pais (de 45,1% para 52,6% do total) e nas prefeituras (de 
29,8% a 37,7%). Na disputa de 2020, aumentou a votação 
para vereadores (59,2%) e prefeitos (54,3%). 
Faltam cinco meses para o primeiro turno em 5 570 cida-
des. Os erros do governo, as frustrações dos eleitores estam-
padas nas pesquisas e o histórico recente do desempenho 
eleitoral nos municípios incitam a marcha da direita no mapa 
político. Mas, vale lembrar: o lulismo venceu cinco das seis 
eleições presidenciais realizadas nas últimas duas décadas. ƒ
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INÊS249 
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	Capa
	Expediente
	Carta ao Leitor
	Entrevista - Alex Garland
	Imagem da Semana
	Conversa - Vincenzo Visciglia
	Datas
	Colunista - Fernando Schüler
	SobeDesce
	Veja Essa
	Radar
	Brasil - Segurança
	Brasil - Poder
	Colunista - Cristovam Buarque
	Brasil - Governo
	Colunista - Murillo de Aragão
	Brasil - Ministério
	Brasil - EleiçõesBrasil - Meio Ambiente
	Radar Econômico
	Economia - Impostos
	Colunista - Maílson da Nóbrega
	Economia - Negócios
	Internacional - Estados Unidos
	Internacional - Equador
	Colunista - Vilma Gryzinski
	Gente
	Geral - Saúde
	Geral - Educação
	Geral - História
	Geral - Tecnologia
	Geral - VEJA em Paris 2024
	Geral - Ambiente
	Geral - Moda
	Geral - Gastronomia
	Colunista - Lucilia Diniz
	Primeira Pessoa
	Cultura - Cinema
	Cultura - Cinema
	Cultura - Entretenimento
	Cultura - Arte
	Colunista - Walcyr Carrasco
	Cultura - Veja Recomenda
	Cultura - Os mais vendidos
	Colunista - José Casado

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