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INÊS249 INÊS249 � Publisher: Fabio Carvalho VICTOR CIVITA (1907-1990) Fundada em 1950 ROBERTO CIVITA (1936-2013) Diretor de Redação: Mauricio Lima CO-CEO Francisco Coimbra, VP DE PUBLISHING (CPO) Andrea Abelleira, VP DE TECNOLOGIA E OPERAÇÕES (COO) Guilherme Valente, DIRETORIA FINANCEIRA (CFO) Marcelo Shimizu, DIRETORIA DE MONETIZAÇÃO, LOGÍSTICA E CLIENTES Erik Carvalho VEJA 2 890 (ISSN 0100-7122), ano 57, nº 17. VEJA é uma publicação semanal da Editora Abril. Edições anteriores: Venda exclusiva em bancas, pelo preço da última edição em banca mais despesa de remessa. Solicite ao seu jornaleiro. VEJA não admite publicidade redacional. Redatores-chefes: Fábio Altman, José Roberto Caetano, Policarpo Junior e Sérgio Ruiz Luz Editores-executivos: Monica Weinberg, Tiago Bruno de Faria Editor-sênior: Marcelo Marthe Editores: Alessandro Giannini, Amauri Barnabé Segalla, André Afetian Sollitto, Diogo Massaine Sponchiato, José Benedito da Silva, Juliana Machado, Marcela Maciel Rahal, Raquel Angelo Carneiro, Ricardo Vasques Helcias, Sergio Roberto Vieira Almeida Editores-assistentes: Larissa Vicente Quintino Repórteres: Adriana Ferraz, Allaf Barros da Silva, Amanda Capuano Gama, Bruno Caniato Tavares, Camila Cordeiro Alves Barros, Diego Gimenes Bispo dos Santos, Felipe Barbosa da Silva, Felipe Branco Cruz, Gustavo Carvalho de Figueiredo Maia, Isabella Alonso Panho, Juliana Soares Guimarães Elias, Kelly Ayumi Miyashiro, Laísa de Mattos Dall’Agnol, Luana Meneghetti Zanobia, Lucas Henrique Pinto Mathias, Luiz Paulo Chaves de Souza, Maria Eduarda Gouveia Martins Monteiro de Barros, Meire Akemi Kusumoto, Natalia Hinoue Guimarães, Nicholas Buck Shores, Paula Vieira Felix Rodrigues, Pedro do Val de Carvalho Gil, Ramiro Brites Pereira da Silva, Simone Sabino Blanes, Valéria França, Valmar Fontes Hupsel Filho, Valmir Moratelli Cassaro, Victoria Brenk Bechara Sucursais: Brasília — Chefe: Policarpo Junior Editor-executivo: Daniel Pereira Editor-sênior: Robson Bonin da Silva Editoras-assistentes: Laryssa Borges, Marcela Moura Mattos Repórteres: Hugo Cesar Marques, Ricardo Antonio Casadei Chapola Rio de Janeiro — Chefe: Monica Weinberg Editores: Ricardo Ferraz de Almeida, Sofia de Cerqueira Repórteres: Amanda Péchy, Caio Franco Merhige Saad Estagiários: Giovanna Bastos Fraguito, Gisele Correia Ruggero, Ligia Greco Leal de Moraes, Maria Fernanda Firpo Henningsen, Mariana Carneiro de Souza, Marilia Monitchele Macedo Fernandes, Paula de Barros Lima Freitas, Sara Louise França Salbert, Thiago Gelli Carrascoza Arte — Editor: Daniel Marucci Designers: Ana Cristina Chimabuco, Arthur Galha Pirino, Luciana Rivera, Ricardo Horvat Leite Fotografia — Editor: Rodrigo Guedes Sampaio Pesquisadora: Iara Silvia Brezeguello Rodrigues Produção Editorial — Secretárias de produção: Andrea Caitano, Patrícia Villas Bôas Cueva, Vera Fedschenko Revisora: Rosana Tanus Colaboradores: Alexandre Schwartsman, Cristovam Buarque, Fernando Schüler, José Casado, Lucilia Diniz, Maílson da Nóbrega, Murillo de Aragão, Ricardo Rangel, Vilma Gryzinski, Walcyr Carrasco Serviços internacionais: Associated Press/Agence France Presse/Reuters www.veja.com Redação e Correspondência: Rua Cerro Corá, 2175, lojas 101 a 105, 1º andar, Vila Romana, São Paulo, SP, CEP 05061-450 IMPRESSA NA PLURAL INDÚSTRIA GRÁFICA LTDA. 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INÊS249 2 | 3 FO TO S C R IS TI A N O B O R G ES ; R O V EN A R O S A /A G ÊN C IA B R A S IL O clima de terror escalou ainda mais com o aumen to das atividades das facções criminosas, que passaram a dominar várias áreas das metrópoles e começaram a usar o dinheiro do tráfico para financiar outros ramos de negócios. Parte desses lucros é investida para estender tentáculos de in- fluência em direção à política e à Justiça. Considerando-se esse contexto crítico, não por acaso a questão da segurança se tornou o item que mais preocupa hoje os brasileiros. Uma pesquisa Datafolha feita no fim de março constatou que dois em cada três entrevistados (65%) se sentem inseguros ao andar nas ruas: 39%, muito insegu- ros e 26%, um pouco inseguros. Várias sondagens eleitorais divulgadas nas últimas semanas em diversas cidades mos- tram que o assunto estará no centro das inquietações dos eleitores nas disputas municipais deste ano e, muito prova- REFORÇOS Compra de viaturas em Goiás e câmera em PM de São Paulo: investimentos que fazem a diferença INÊS249 3 | 3 velmente, nos debates relativos aos pleitos de 2026, incluin- do a corrida ao Palácio do Planalto. Infelizmente, é comum que esse enorme apelo do tema ajude na proliferação de discursos demagógicos. Medidas populistas e açodadas fazem algum barulho, ajudando a angariar aplausos nos palanques e curtidas nas redes so- ciais, mas se mostram pouco eficazes na prática. É neces- sário encarar de forma mais séria a questão, equilibrando os esforços de prevenção e repressão, sem fazer com que o combate ao crime atropele direitos individuais e acabe in- crementando a barbárie vista atualmente nas ruas com a participação da (má) polícia. Está longe de ser uma tarefa fácil resolver o imbróglio da segurança, é verdade, mas alguns estados vêm conseguindo resultados elogiáveis. Conforme mostra a reportagem que começa na pág. 22 desta edição, governos de Goiás, Rio Grande do Sul, Espírito Santo e Santa Catarina, entre outros, não ficaram apenas no discurso e nas promessas. Com uma série de ações planejadas, reduziram de forma expressiva as ocorrências policiais. A solução não passa apenas por inves- timentos em equipamentos, em mais homens nas ruas e em novas tecnologias, como as câmeras embutidas nos unifor- mes dos guardas para inibir abusos e preservar os policiais. Tudo isso é necessário, claro, mas nada vai evoluir na escala que o país precisa sem a implementação de boas políticas públicas coordenadas entre municípios, estados e governo federal. Não há mais tempo a perder nessa luta. ƒ INÊS249 INÊS249 INÊS249 https://realestate.jhsf.com.br/empreendimento/reserva-cidade-jardim?utm_source=qrcode&utm_medium=revista_veja&utm_campaign=veiculacao_17-04&utm_term=reserva-noturno “O EXTREMISMO MATA” O prestigiado diretor e roteirista do blockbuster Guerra Civil fala sobre a crise das democracias, os perigos do populismo digitale por que o cinema é uma ferramenta para questionar o poder RAQUEL CARNEIRO M O N IC A S C H IP P ER /G ET TY IM A G ES 1 | 10 ENTREVISTA ALEX GARLAND INÊS249 LOGO NO INÍCIO da pandemia, em 2020, Alex Gar- land contraiu covid-19. O cineasta inglês ficou muito de- bilitado e, quando se recuperou, sentiu uma confusão mental parecida com a do protagonista de Extermínio, filme de 2002 escrito por ele. Na trama, o personagem vivido por Cillian Murphy acorda do coma em uma Lon- dres tomada por zumbis e criminosos. Na vida real, Gar- land não deparou com mortos-vivos, mas ficou em cho- que ao ver o noticiário: em meio às centenas de milhares de mortes, diversos governantes mundiais espalhavam fake news, e manifestações antirracistas eram reprimi- das por policiais americanos. O mundo estava um caos. Foi então que ele concebeu Guerra Civil, filme sobre um hipotético (mas assustadoramente realista) conflito in- terno nos Estados Unidos que lidera as bilheterias no momento no país de Biden e Trump — e também no Bra- sil. Garland, hoje aos 53 anos, iniciou carreira como au- tor de romances — entre os quais, A Praia, um tratado pop sobre as desilusões com as utopias modernas. Mas foi como cineasta que atingiu a consagração: é ele a men- te por trás de Ex_Machina, filme que examina os peri- gos da inteligência artificial. Em Guerra Civil, Garland faz um retrato incisivo — e polêmico — de como o extre- mismo leva uma sociedade a se autodilacerar. Na entre- vista, o diretor fala sobre os bastidores da produção, sua relação com o jornalismo e como foi trabalhar com o as- tro brasileiro Wagner Moura. 2 | 10 INÊS249 “Guerra Civil é um alerta contra a guerra. Porém, é ainda mais sobre o que a precede: esses conflitos são um produto do extremismo, seja ele político, econômico ou religioso” O filme Guerra Civil é narrado pelo ponto de vista de três repórteres — interpretados por Kirsten Dunst, Wagner Moura e Cailee Spaeny. Por que essa escolha? Existem muitos pontos de vista que podem ser explorados em um filme sobre guerra. Pode ser uma família tentando fugir e sair de um lugar rumo a outro, ou um grupo de soldados envolvidos no conflito, por exemplo. Eu escolhi esses pro- tagonistas porque quis fazer um filme sobre o ofício do jor- nalismo e sua importância para a sociedade. É uma profis- são que sofre inúmeras críticas — muitas delas válidas, in- clusive. Mas que, na verdade, enfrenta tentativas constan- tes e desproporcionais de desmoralização. O jornalismo é essencial para a democracia. A que se deve sua crença nisso? Sem a liberdade de imprensa, não há equilíbrio de poderes. A democracia é 3 | 10 INÊS249 formada por leis e instituições com poderes distintos. Cabe ao jornalismo reportar quando há um desequilí- brio entre essas instâncias. Apesar do tema corajoso, Guerra Civil é criticado por al- gumas pessoas por ser um filme supostamente “isen- tão”, que deixa em aberto sua mensagem. Concor- da? Digo que o filme oferece respostas, mas de forma su- til. É um aceno ao grande debate sobre o jornalismo: ele de- ve apenas reportar o que aconteceu ou apresentar um juízo de valor? Os protagonistas falam no filme que o papel deles é entregar a informação e cabe a quem a recebe analisar o que aquilo significa. No filme, a personagem de Kirsten Dunst é uma fotojor- nalista que se sente desolada por ter passado anos re- gistrando os horrores da guerra pelo mundo afora com o objetivo de alertar contra esse tipo de conflito — e então vê seu próprio país ser atingido. É também sua intenção alertar para a tragédia da guerra? Sim, com certeza. Guerra Civil é um alerta contra a violência política. Porém, é ainda mais sobre o que a precede: conflitos civis são pro- duto do extremismo, seja ele político, econômico ou reli- gioso. Geralmente, as pessoas são levadas ao extremo por políticos populistas. Entre seus piores efeitos está a supres- são dos direitos humanos. É uma escalada inevitável. Logo a imprensa é reprimida, surgem presos políticos, o aumen- 4 | 10 INÊS249 to da violência. O extremismo mata. Quase todo genocídio na história humana foi fruto dessa forma de ódio. Os Estados Unidos estão perto de mais uma eleição pre- sidencial conturbada e havia a expectativa de que Guer- ra Civil fosse mais incisivo contra os rompantes autoritá- rios de Donald Trump e de seus partidários republicanos. O que pensa de quem não gostou do filme por essa ra- zão? Eu li esse tipo de crítica de jornais progressistas. Mas quem faz essa análise está seguindo a mesma estrada dos extremistas. Para mim, a crise mundial hoje não é entre es- querda e direita, mas entre extremistas e o centro. Como assim? Veja meu caso. Eu me considero alguém de centro. Acredito em ideologias da esquerda, como a visão que ela tem sobre a economia de livre mercado, sobre a sociedade — mas, por outro lado, dialogo com meus amigos de direita. O que não tenho são amigos ex- tremistas. Para mim, essa é a diferença: há extremismo na direita e na esquerda e, apesar de se apresentarem co- mo inimigos, eles se retroalimentam e precisam um do outro para sobreviver. Acredita que essa análise se aplica também a um país como o Brasil? Com certeza. Ela se aplica ao Brasil, ao Reino Unido, a Israel, Holanda, Itália, e diversos países asiáticos. É um fenômeno do nosso tempo que se espa- 5 | 10 INÊS249 lhou pelo mundo. Optei por ambientar o filme nos Esta- dos Unidos porque é um país enorme e muito poderoso. O resto do mundo olha para os americanos, admirando ou odiando — fato é que tudo que acontece por lá ecoa na nossa direção. Com sua trama que acompanha as manipulações de uma androide ardilosa, Ex_Machina (2014) lançou um olhar perturbador sobre os riscos da inteligência artificial — hoje uma ferramenta explorada por grupos extremistas nas redes sociais. Como analisa esse cenário, e por que deixou o tema de fora em Guerra Civil? Foi uma escolha não mergulhar nas razões do conflito. Mas, claro, as redes sociais e a inteligência artificial são parte dessa engrena- gem. Em inglês usamos a expressão “a perfect storm” (uma tempestade perfeita) quando vários fatores se unem e cul- minam em uma situação drástica, deixando a tormenta ain- da pior do que ela já seria. Acho que as empresas de tecno- logia são devastadoramente irresponsáveis no modo como priorizam o lucro e seu poder de influência em detrimento da responsabilidade social. Na minissérie Devs, o senhor narra — com as devidas do- ses de sarcasmo e espírito crítico — a história de um bilio- nário do ramo da computação. Por que resolveu abordar essa elite do mundo digital em sua ficção? Sou um gran- de e incisivo crítico desses gigantes da tecnologia. Devs é 6 | 10 INÊS249 “As empresas de tecnologia são devastadoramente irresponsáveis no modo como priorizam o lucro e seu poder de influência, em detrimento da responsabilidade social” uma ficção científica sobre as possibilidades desse ramo de estudo da física, mas eu quis no fundo mostrar quanto esses bilionários agem com pouquíssima regulamentação e mui- to acesso. Eles se acham o máximo e são chamados por muita gente de gênios, mas, na verdade, não são geniais: trata-se apenas de empresários querendo ter mais poder e influência do que deveriam. Wagner Moura é um celebrado ator brasileiro e tem um papel importante em Guerra Civil, como o jornalista que é viciado na adrenalina de perseguir a notícia. Por que o escolheu? Eu o vi pela primeira vez em Narcos, a série da Netflix na qual Wagner interpreta Pablo Escobar. A produção é muito sofisticada e ele está muito bem. Quan- do o conheci, logo nos demos bem e não tive dúvidas que era dele o papel. 7 | 10 INÊS249 De onde veio essa certeza? O Wagner Moura é brilhante. É um excelente ator e uma ótima pessoa. Ele era perfeito para o papel, pois tem um jeito brincalhão e despojado, mas, por baixo dessa faceta, é caloroso e inteligente. Uma personalidade que se encaixou perfeitamenteno tipo de personagem que eu imaginei. O filme estreou no topo das bilheterias americanas, passando dos 45 milhões de dólares por lá em duas se- manas — um feito para uma produção independente. Curiosamente, entre os fatores que impulsionaram es- se resultado está o sucesso entre eleitores republica- nos do sexo masculino. Era um estrato de público que o senhor esperava atingir? Olha, esse filme só não deve ser visto por crianças, pois é muito violento. No geral, quero que ele seja visto por qualquer pessoa que esteja disposta a chegar com a mente aberta. Sei que meus fil- mes são provocativos, mas o que eu quero provocar não é raiva, medo ou violência. Não quero arranjar briga com ninguém. O que eu quero com minha obra é que as pes- soas reflitam e questionem o poder. Fala especificamente de poder político? Sim, mas tam- bém de outros tipos de poder. Seja o poder das grandes em- presas de tecnologia, seja o poder militar, ou religioso. Sem- pre questione o uso do poder. Não quero incitar a uma pa- ranoia, mas, sim, a uma inquietude. Todos sabemos que o 8 | 10 INÊS249 poder corrompe, não importa quem esteja com ele nas mãos. Então, espero que as pessoas saiam do cinema refle- tindo sobre o mundo onde vivem. O filme é, de fato, bem violento. Acha que encontrou um equilíbrio capaz de retratar a brutalidade humana sem incitá-la? Existe a violência real e existe a violên- cia cinematográfica. Uma é completamente diferente da outra. Optei por algo mais próximo da realidade, a vio- lência que é vista em zonas de guerra, que é muito mais perturbadora e horrível do que qualquer filme possa mostrar. Assim como as pessoas que, nesse tipo de con- texto, se divertem com a dor alheia. A guerra extrai o pior do ser humano. De novo, o filme é um alerta contra tudo isso, não uma incitação. Seu pai, Nicholas Garland, é um famoso cartunista políti- co na Inglaterra e cofundador do jornal The Independent. Ele serviu de inspiração na concepção desses persona- gens? Com certeza. Eu cresci cercado por jornalistas na mesa de jantar. Meu pai é uma inspiração, assim como meu padrinho e o padrinho do meu irmão, ambos correspon- dentes de guerra. Eu quis ser jornalista, mas desisti. Por quê? Sou melhor escrevendo ficção do que não fic- ção. A reportagem não dá espaço para liberdades criati- vas. Uma matéria jornalística precisa de apuração e pre- 9 | 10 INÊS249 cisão ao narrar fatos. Além disso, escrever é um processo difícil e complexo. Sempre que escrevo analiso palavra por palavra, para passar corretamente as informações. Mas as pessoas raramente leem com tanta atenção e po- dem interpretar erroneamente o texto. É como um sabo- nete molhado na mão, que me escapa e não consigo con- trolar. Com a ficção, me sinto mais confortável para pas- sar a ideia que eu tenho. É verdade que planeja se aposentar? Olha, eu preciso dar um tempo de dirigir filmes. É bem exaustivo. Tam- bém quero voltar a escrever romances. Vamos dar tem- po ao tempo. ƒ 10 | 10 INÊS249 IMAGEM DA SEMANA 1 | 2 SELCUK ACAR/ANADOLU/GETTY IMAGES UMA TRISTE AULA DE INTOLERÂNCIA NA HISTÓRIA dos Estados Unidos, com ecos para todo o mundo, os campi universitários foram sempre termômetro democrático do que anda em corações e mentes — e não haveria de ser diferente em torno da guerra entre Israel e Gaza. Na semana passada, algumas das principais INÊS249 2 | 2 instituições de ensino americanas entraram em ebulição, alimentadas pelos protestos de grupos favoráveis aos palestinos. Dezenas de estudantes foram detidos em Yale e na Universidade de Nova York (NYU). Em Columbia, a reitora chamou a polícia. Aulas e provas presenciais foram canceladas — e tiveram de ser feitas on-line, como nos piores dias da pandemia. O rastilho de pólvora corria com velocidade, alimentado pelo ódio que mimetiza o confronto no Oriente Médio. Não há dúvida: o direito à livre expressão, de ambos os lados, é sagrado, e não há nada que impeça as pessoas de pensarem e defenderem seus direitos. Contudo, são inaceitáveis os episódios de antissemitismo que se espalharam entre os bancos escolares, no ambiente mercurial, e às favas o bom senso. O presidente americano Joe Biden deu o tom equilibrado e necessário para baixar a fervura, avesso ao radicalismo — instado a comentar a gritaria, ele foi direto ao ponto: condenou os “protestos antissemitas” e também aqueles “que não entendem o que está acontecendo com os palestinos”. O escritor Amós Oz (1939-2018) deixou como legado o caminho a ser trilhado pela civilização: “O conflito do século XXI é entre os fanáticos e nós”. ƒ Amanda Péchy INÊS249 1 | 3 CONVERSA VINCENZO VISCIGLIA “É UMA BOLHA DE LUXO” O brasileiro que decora as casas dos bilionários do Oriente Médio e veste as mulheres mais ricas de Dubai e região diz que as guerras na vizinhança não afetam a ostentação vivida ali DAS ARÁBIAS O estilista e arquiteto: “É gratificante ter me tornado um pilar da moda” A R TÉ M G IL M A N INÊS249 2 | 3 Como você caiu no gosto das árabes endinheiradas? Já estou em Dubai há quinze anos, com um escritório de ar- quitetura e um ateliê de moda. Faço as casas das famílias e os vestidos das mulheres, que não podem se mostrar para os homens, nem mesmo a seus pretendentes. Elas sabem que sou bastante profissional. No começo, pediam para as costureiras tirarem as medidas e eu desenhava. Com o tem- po, pegaram confiança e me deixam vesti- las. Claro que é mais difícil quando a família é tradicional: as mães nem se- quer deixam ver suas filhas. Qual é a preferência de estilo, ainda que elas tenham que usar véus ou burcas em público? São vestidos extre- mamente luxuosos. Feitos para eventos e casamentos. Quanto mais próximo o anfitrião, maior o investimento. São modelos de alta-costura, com metros de tecidos nobres e muitos bordados, pedrarias, cristais e brilho, que levam até quatro meses para ficar prontos. Quanto mais a roupa ostenta, melhor. É a maneira que elas têm de mostrar que são ricas. E existe muita competição. Temos até um esque- ma contra vazamentos porque as clientes investigam e ten- tam tirar informações sobre o vestido das outras. Costura para personalidades também? Sim, visto as ce- lebridades locais, não só de Dubai, mas também do Catar, do Kuwait e da Arábia Saudita. Inclusive atrizes, cantoras e influenciadoras sírias e libanesas, que são menos rígidas e INÊS249 3 | 3 podem se expor mais. E ainda tem as xeicas, que geralmente vão à loja, escolhem uns vinte vestidos, que mandamos à ca- sa delas. Mas não podemos tirar fotos. Elas respeitam muito os costumes, mas estão conquistando espaço e liberdade na moda. Só que, nas redes sociais, as fotos ainda aparecem com a cabeça cortada ou um borrão no rosto. Até que ponto os conflitos no Oriente Médio afetam seu trabalho? Estamos no meio de uma guerra, mas, em Dubai, as pessoas vivem como se nada estivesse acontecendo, por- que o governo consegue dominar as notícias e filtrar as redes sociais. Então, acaba não impactando o nosso dia a dia. Vive- mos em uma bolha de luxo — e com sensação de segurança. Pretende voltar ao Brasil para ser mais reconhecido por aqui? Penso em trazer minha marca para o país, obviamente adaptada. Mas a ideia não é competir com os estilistas brasi- leiros, que são muito talentosos. Já é muito gratificante repre- sentar o Brasil e ter me tornado um pilar da moda no Oriente Médio. Não preciso provar mais nada para ninguém. ƒ Simone Blanes INÊS249 DATAS 1 | 4 O MAIS LONGO DOS SEQUESTROS REFÉM Terry Anderson, ao deixar o cativeiro xiita, em 1991: 2 454 dias confinado MARK DUNCAN/AP/IMAGEPLUS A jornalista americana Sulome Anderson só conheceu o pai aos 6 anos — na tarde de dezembro de 1991 em que, depois de 2 454 dias de cativeiro, ele foi libertado por um grupo xiita libanês associado ao Hezbollah que o fizera refém. Terry Anderson tinha 44 anos. Era o chefe do es- INÊS249 2 | 4 critório da agência AssociatedPress (AP) em Beirute. Os terroristas, apoiados pelo Irã, diziam retaliar o uso de ar- mas americanas por Israel em ataques anteriores na dire- ção de alvos muçulmanos e drusos no Líbano (atenção: tu- do isso ocorreu há quatro décadas, não foi ontem). Busca- vam também pressionar a administração do presidente Ronald Reagan a facilitar secretamente a venda de armas ilegais para as autoridades iranianas e, simultaneamente, financiar os “contras” da Nicarágua — em esquema emba- raçoso que ficou conhecido como o caso “Irã-Contras”. Anderson foi o último dos dezoito reféns ocidentais li- bertados pelos criminosos — ninguém ficou mais tempo sequestrado do que ele. Embora não tenha sido torturado durante o cárcere, chegou a ser acorrentado, segundo seu próprio relato. Passou um ano em confinamento solitário. “Não havia nada em que me agarrar, nenhuma maneira de tranquilizar minha mente”, disse. “Tentava orar todos os dias, às vezes por horas. Mas não havia nada ali, ape- nas um vazio. Falava comigo mesmo, não com Deus.” Depois daquele episódio — um dos mais rumorosos dos anos 1980 e 1990 —, Anderson compraria um bar de blues em Athens, no estado de Ohio. Concorreu sem sucesso co- mo candidato democrata para o Senado estadual, em 2004. Na Justiça, venceria um processo que o autorizou a receber 26 milhões de dólares em ativos iranianos. Ruim de negócios, faliria em 2009. Morreu em 21 de abril, aos 76 anos, de complicações de uma cirurgia cardíaca. INÊS249 3 | 4 BEATA ZAWRZEL/NURPHOTO/GETTY IMAGES DA ARTE DO CETICISMO O americano Daniel Dennett não veio ao mundo a passeio. Ateu e fervoroso evangelizador das ideias evolu- cionistas de Charles Dar win, o filósofo fez muito barulho ao opor, como muitos poucos, religião e ciência. Para Dennett, acreditar em um ser superior era mais do que simples perda de tempo: podia ser uma tremenda irres- ponsabilidade. Em nome desse ou daquele deus, argu- mentava ele, muita coisa errada acontece no mundo to- IDEIA Daniel Dennett: “Deus é um nome para a beleza do universo” INÊS249 4 | 4 dos os dias — da proibição do uso de preservativos à vio- lação dos direitos humanos. Em uma entrevista para a revista SUPERINTERESSANTE, da Editora Abril, ins- tado a comentar a existência (ou não) do Todo-Poderoso, respondeu com a clareza que o fez popular: “Deus signi- fica tantas coisas que essa pergunta é impossível de ser respondida. Para alguns, é apenas um nome para a bele- za do universo e não tem nada a ver com forças sobrena- turais. Esse Deus, obviamente, existe. O que não existe é um agente sobrenatural que responde às nossas preces ou supervisiona e guia a evolução das coisas”. O legado de Dennett pode ser lido em mais de vinte livros, entre eles Quebrando o Encanto e A Perigosa Ideia de Darwin. Ele morreu em 19 de abril, aos 82 anos, em decorrência de problemas pulmonares. ƒ INÊS249 1 | 6 A PROFECIA DE SCHUMPETER VIROU MODA xingar Elon Musk. Como não temos nenhum problema de censura prévia, e ninguém foi banido das redes sem o devido processo, nossa prioridade é falar mal dessa “perigosa conspiração da extrema direita global”. Quem sabe liderada pelo próprio Musk entre uma e outra reunião sobre foguetes e telhas solares, no Texas. Não deixa de ser divertido isso tudo. Sempre foi uma boa jogada atirar no mensageiro e empurrar a mensagem para debaixo do tapete. Mas há um outro ponto aí. Elon Musk é um candidato quase perfeito para vilão de história em quadrinhos de um certo pensamento lati- no-americano. O sujeito que ficou rico gerando valor no mer- cado, abre empresas em série, não dá bola para o politicamen- te correto, diz o que pensa e, pecado dos pecados, gosta desse novo monstrinho moderno, que é a liberdade de expressão. Musk não gosta lá muito de protocolos. Em uma tarde de sexta-feira, quase Natal de 2022, na sede do Twitter, recém- comprado, ele escutava sem muita paciência a explicação de uma engenheira sobre por que iria demorar oito meses para deslocar o data center da rede de Sacramento para Portland. FERNANDO SCHÜLER INÊS249 2 | 6 Eram 5 200 hacks, cada um pesando 1 tonelada. Havia pro- tocolos de segurança, conexões delicadas etc. “Vocês têm três meses”, disse Musk, irritado. “Ou estão demitidos.” Na- quela mesma noite, no seu jato, sobrevoando Las Vegas, mandou o piloto dar meia volta e resolveu fazer ele mesmo o serviço. Pousou em Sacramento, alugou um Corolla, fez o chefe da segurança abrir o data center e começou a desligar as máquinas com um canivete. Mobilizou sua tropa e, no fi- nal, fez o serviço em pouco mais de um mês. Musk depois avaliou que agiu por impulso, como tantas vezes, e tomou um risco para o sistema. Mas funcionou. “Deixou claro para a turma do Twitter”, escreveu seu biógrafo, “que não deve- riam mais duvidar de seu senso de urgência”. O biógrafo é Walter Isaacson, que acompanhou Musk de perto por dois anos, e teve carta branca para escrever o que quisesse. O resultado é interessante. Um livro sobre enge- nheiros tentando resolver problemas, sobre um tipo obsessi- vo e temperamental, mas sobretudo sobre um rapaz sul- africano, com um pai autoritário, que se converte em herói moderno da inovação. O tipo implacável, espécie de John Galt moderno, que demite 75% dos funcionários do Twitter sem piscar um olho. Que aposta todo seu dinheiro na quarta tentativa de lançar um foguete, numa espécie de jogo de tu- do ou nada. O tipo preocupado em nos transformar em uma “espécie interplanetária”. O sujeito que um dia fica irritado com os pedidos obsessivos de censura vindo de um estra- nho país da América do Sul, e resolve dar um soco na mesa. INÊS249 3 | 6 SONHO O plano de Elon Musk para uma cidade em Marte: é preciso tentar SPACE X/DIVUGALÇÃO “Se o país realmente gosta de censura, o problema não é meu”, dirá, em uma tarde quente de Austin, entre uma reu- nião e outra sobre robôs, foguetes e inteligência artificial. O que achei realmente curioso, nas últimas semanas, foi Musk ser chamado de “menino mimado”, “líder da extrema direita”, e coisas piores, aqui pelos trópicos. Me lembrei de Umberto Eco, desgostoso, falando sobre os “idiotas da al- deia”, na era digital. Musk é o sujeito que inventou o foguete reutilizável, capaz de ir e voltar do espaço e pousar elegan- temente; o primeiro a levar astronautas à Estação Espacial Internacional e civis ao espaço, depois daquele voo trágico da Challenger, em 1986. Foi também o primeiro a criar uma INÊS249 4 | 6 empresa de carros elétricos realmente competitiva. Isso quando não está entretido com a interface cérebro-máqui- na, em sua Neuralink, ou com a criação de um robô huma- noide capaz de gradativamente livrar a humanidade do tra- balho braçal e pouco criativo. Quando lia sobre Musk, me lembrava de Schumpeter. Em parte pelo seu elogio do empresário inovador, aquele que faz “novas combinações”, que “nunca dorme tranqui- lo”, e cuja intuição para enxergar à frente produz o dina- mismo da vida econômica. Mas também pelo seu lado me- lancólico. A crença reafirmada em seu último artigo, A Marcha para o Socialismo, de que o capitalismo caminhava para o fim. E não porque o socialismo fosse um bom siste- ma, mas por uma mecânica interna à própria economia de mercado. O capitalismo faz crescer a produtividade, ele diz, e com isso o bem-estar. E mais: viabiliza o crescimento de uma influente “casta” intelectual, feita de acadêmicos e bu- rocratas. Uma casta que vive dos sucessos do capitalismo, “No mundo da inovação, a economia de mercado faz prodígios” INÊS249 5 | 6 mas cada vez mais distante de seu processo real de produ- ção. Gente que não entende, ou não quer entender, como é gerada a riqueza que, logo ali abaixo da superfície, sustenta o seu interessante modo de vida. A outra linha de força vem do próprio processo de pro- dução cada vez mais cheio de regras, controlado por gran- des corporações, de um lado, e pela intervenção governa- mental, do outro, de modoque todo o sistema vai perdendo o apetite pelo risco e força inovadora. Diagnóstico instigan- te, mas apenas parcialmente correto. De fato, os intelectuais tendem à incompreensão da economia de mercado e, por vezes, a um anticapitalismo infantil. Muito do próprio “hor- ror a Musk” e obsessão em torno dos “bilionários”, da “me- ritocracia” fazem parte disso. E prossegue válida a ironia de Schumpeter de que falar mal do capitalismo, nos meios inte- lectuais, funciona “como uma espécie de regra de etiqueta”. No mundo da inovação, porém, a economia de mercado ainda faz prodígios. E é aí que entra Musk. Sua vida é a ne- gação da tese de Schumpeter. Ele vende a Zip2, aos 28 anos, ganha alguns milhões e aposta tudo em um banco digital, que seria o PayPal; na venda da empresa, ganha outros tan- tos milhões e aposta tudo de novo em uma improvável com- panhia espacial, a SpaceX. Tudo ancorado em um certo éthos. O asco pelos burocratas e “reguladores inúteis”. O culto do risco, a crença na intuição (por vezes desastrosa), no trabalho obsessivo e o desprezo por essa gente “bem-su- cedida e que tira férias”. Vai nesse pacote o horror à ideolo- INÊS249 6 | 6 gia woke e atração pelo seu contrário: a cultura libertária. Coisas que levam àquele “go f. yourself” para eventuais anunciantes que não querem investir no Twitter por causa de uma postagem sua. Valendo o mesmo para pequenos di- tadores bisbilhotando contas de ativistas e jornalistas. O livro de Isaacson deveria ser recomendado nas faculda- des. Estaríamos formando uma geração de empreendedores investindo na cura de doenças, na invenção de baterias mais eficientes, nos usos inteligentes da inteligência artificial, e não uma turma formada no pensamento mágico sobre como se produz a riqueza. Só por isso já valeria a pena contar a his- tória do sujeito que fugiu de casa aos 17 anos e hoje repete em relação a Marte a frase de Kennedy sobre a conquista da Lua: “Temos de ir lá e fazer outras coisas... porque elas são difí- ceis”. Porque somos humanos. Porque não sabemos do que somos capazes. E por isso precisamos tentar. ƒ ƒ Os textos dos colunistas não refletem necessariamente as opiniões de VEJA Fernando Schüler é cientista político e professor do Insper INÊS249 SOBEDESCE 1 | 2 MOTOCICLETAS A produção no país cresceu 42% desde 2019 e chegou a 1,6 milhão de unidades em 2023, o maior número em dez anos, segundo a Abraciclo, uma das associações que reúnem empresas do setor. MARÍLIA MENDONÇA A cantora, que morreu em 2021, chegou a 12 bilhões de streams no Spotify e se tornou a primeira artista do Brasil a bater a marca de 10 bilhões na plataforma. PRAÇA DOS TRÊS PODERES Patrimônio mundial pela Unesco desde 1987 e depredado no 8 de Janeiro, o local terá 1 milhão de reais do PAC para restaurações, iluminação e acessibilidade. SOBE INÊS249 2 | 2 TIKTOK O presidente Joe Biden sancionou projeto aprovado pelo Senado que dá um ano para que a chinesa ByteDance venda o aplicativo a uma empresa sediada nos EUA. CARLA ZAMBELLI A PGR denunciou a deputada do PL e o hacker Walter Delgatti Neto por invasão ao sistema do CNJ e emissão de mandado falso contra Alexandre de Moraes. CIGARRO ELETRÔNICO A Anvisa publicou, na quarta 24, resolução que proíbe a fabricação, importação, comercialização, armazenamento, transporte e propaganda desse tipo de dispositivo para fumar. DESCE INÊS249 1 | 5 VEJA ESSA W EI S S E U B A N K S /N B C U N IV ER S A L/ G ET TY IM A G ES “Será difícil fazer qualquer coisa que supere a popularidade daquela cena.” MEG RYAN, atriz americana, hoje diretora, relembrando o eterno sucesso da cena do falso orgasmo no restaurante em Harry e Sally — Feitos Um para o Outro INÊS249 2 | 5 “O Alckmin tem que ser mais ágil, tem que conversar mais. O Haddad, em vez de ler um livro, tem que perder algumas horas conversando no Senado e na Câmara.” PRESIDENTE LULA, passando pito em sua turma “Está superado. Não tem crise.” ALEXANDRE PADILHA, ministro de Relações Institucionais, a respeito do quiproquó com o presidente da Câmara, Arthur Lira, que o chamou de “incompetente” e “desafeto pessoal” “O que o Supremo está decidindo é qual a quantidade que irá diferenciar o usuário de traficante. (...) Nada justifica a prisão de usuários de drogas.” LUÍS ROBERTO BARROSO, presidente do STF “O que posso dizer é que se Lula e Petro realmente querem pressionar Maduro por eleições livres, o momento é agora.” JUAN MANUEL SANTOS, ex-presidente da Colômbia, instando o atual mandatário do país e o presidente do Brasil a exigir democracia real na Venezuela INÊS249 3 | 5 “O futuro é ancestral.” ALOK, DJ e produtor musical, parafraseando o novo imortal da academia, o indígena Ailton Krenak “Existem mimados de todas as idades. Veja o Elon Musk, que está aí para confirmar a minha tese. A imaturidade não tem idade. Isso é uma falácia.” MARCELO TAS, humorista e apresentador de televisão. Musk tem 52 anos “Vocês podem ter um presidente mais competente do que eu. Existem muitas pessoas, mas duvido que haja alguém com o couro mais grosso do que o meu.” JAIR BOLSONARO, ex-presidente, em ato realizado na Praia de Copacabana, no domingo 21 “Está tudo bem, mas dá muito trabalho. É um dia de cada vez.” CÉLINE DION, cantora canadense, que sofre de uma doença rara, a síndrome da pessoa rígida, que afeta o sistema nervoso central INÊS249 4 | 5 “Tinha de duas horas a uma semana para morrer.” TANDE, ex-atacante da seleção brasileira de vôlei, medalhista de ouro na Olimpíada de 1992. Ele se recupera de um infarto “O rap é machista porque é um espelho da sociedade.” PROJOTA, cantor e compositor de rap “Nunca achei que eu fosse ser uma Gisele.” HELENA RIZZO, chef de cozinha, que chegou a trabalhar como modelo “Joguei mais do que Zidane, Xavi, Beckham, Bergkamp, Del Piero e Marcelinho Carioca.” RIVALDO, campeão do mundo pela seleção brasileira em 2002 “Pessoas que só têm pensamentos bons são perigosíssimas.” RAPHAEL MONTES, escritor INÊS249 5 | 5 “Jovem, não conversava sobre sexo com a minha mãe. Aprendi a dar prazer para o homem. Porém, demorei muito tempo para entender que o meu prazer era importante.” GIOVANNA EWBANK, atriz e modelo INSTAGRAM @GIOEWBANK INÊS249 RADAR 1 | 6 ROBSON BONIN Com reportagem de Gustavo Maia, Nicholas Shores e Ramiro Brites ESTUDO Mercadante: BNDES vai avaliar todo o patrimônio das Forças Armadas LU LA M A R Q U E S /A G Ê N C IA B R A S IL Patrimônio militar O BNDES de Aloizio Mer- cadante assinou nesta se- mana, com o ministro da Defesa, José Múcio, um acordo histórico. Pela pri- meira vez, o banco usará sua expertise para fazer um detalhado levantamento de todo o patrimônio em nome das Forças Armadas. Feirão da caserna São quilômetros de fazen- das, praias, prédios públi- cos e terrenos em áreas pri- vilegiadas país afora. O ob- jetivo da parceria é avaliar o INÊS249 2 | 6 potencial financeiro das instituições e, se possível, converter parte disso em re- cursos para os projetos es- tratégicos militares. Projetos imobiliários Há interesse privado, por exemplo, em imóveis e áreas militares em grandes centros, que poderiam ser vendidos ao setor imobiliá- rio. Com o estudo pronto, as possibilidades serão ava- liadas. Soldo reajustado Se depender do ministro da Defesa, José Múcio, Lula dará aos militares o mesmo reajuste pensado pelo go- verno para servidores civis. Ele já pediu e Lula prome- teu viabilizar. Reforço de caixa Lula pediu, nesta semana, ao Congresso a liberação de 256 milhões de reais a obras do Exército em GO, RS, MG. Falar não custa Chefe do Exército, Tomás Paiva teve uma conversa re- cente com Alexandre de Moraes, em que tratou da libertação dos bolsonaristas presos no QG. Tem gente na filaApesar de Paiva defender a soltura de alguns militares, ninguém no comando fica- ria triste com a prisão dos generais metidos com o gol- pismo. Leia-se: Braga Netto e outros de seus chegados. Capitão em campanha Enquanto a finada frente ampla que elegeu Lula perde tempo com intrigas e disputas de poder, Jair INÊS249 3 | 6 Bolsonaro está em franca campanha. Desde janeiro, já visitou 37 cidades em treze estados. No terreno da esquerda... Cabo eleitoral de prefeitos, Bolsonaro fez carreatas e comícios em onze capitais. Só na Região Nordeste, es- teve em quatro estados: BA, CE, AL e PB. ... E no terreno feminino Em outra frente, pilotando o PL Mulher, Michelle Bol- sonaro também tem corrido o país. Ela visitou dezesseis estados e filiou mais de 22 000 mulheres ao PL. Alvo preferencial Além de sonhos golpistas, a PF descobriu que grupos de bolsonaristas do WhatsApp frequentados por Mauro Cid adoravam espalhar conteúdo difamatório con- tra a primeira-dama Janja. Discurso de ódio A PGR arquivou uma inves- tigação contra um bolsona- rista que defendeu, nas redes, matar Alexandre de Moraes, identificado como “ditador” do “Alexandrequistão”. A PGR não viu crime. Acelera, Xandão Apesar das críticas crescen- tes, Moraes, aliás, segue com total apoio no STF. “Nada mudará enquanto ele não quiser”, diz um ministro da Corte. Criticar pode A PGR arquivou uma inves- tigação sobre crime contra a honra da deputada bolso- narista Julia Zanatta. O mo- tivo: criticar parlamentar não é crime. INÊS249 4 | 6 RUÍDO Randolfe: base defende o STF, mas é criticada por ministros da Corte W A LD E M IR B A R R E TO /A G Ê N C IA S E N A D O Ecos do 8 de Janeiro O STF prevê invest i r 260 000 reais em equipa- mentos de fotografia. Os patriotas do 8 de Janeiro, como se sabe, roubaram as câmeras e lentes da Corte. Supremo clipping O STF va i gastar até 295 000 por ano para mo- nitorar notícias sobre a Cor- te em veículos de imprensa. Missão quase impossível Lula disse a um aliado que trabalha pessoalmente para reaproximar Arthur Lira e Renan Calheiros. Como se sa- be, os dois caciques de Ala- goas são inimigos declarados. “Bola nas costas” Sobre a fala de um ministro do STF, que disse a Lula que ele joga uma Champions League “com time de se- gunda divisão” na articula- ção política, diz o líder do governo, Randolfe Rodri- gues: “É uma tremenda bo- la nas costas dos poucos parlamentares que defen- dem o STF no Congresso”. INÊS249 5 | 6 Sem respostas Dias Toffoli tem enfrenta- do dificuldades para obter informações na vara da Lava-Jato em Curitiba so- bre atos de Sergio Moro. Nem todo mundo tem coo- perado com a equipe do ministro. Péssimo exemplo A disputa pela vaga no TST virou uma lama. Os três advogados — Adriano Avelino, Antônio Gonçal- ves e Roseline Morais — que podem ser escolhidos por Lula já foram fritados no Planalto. Olha aqui, TCU! A EBC quer torrar quase 1 milhão de reais para con- tratar uma empresa que re- formule seus ritos de licita- ção. No Planalto, isso é fei- to de graça. Melhor prevenir O Banco Central vai reno- var o seguro de todos os seus prédios e tudo que tem de n t ro de le s . C u s t o : 323000 reais. Melhor prevenir 2 Ainda está distante, mas o governo já começou a orga- nizar a logística do desfile de 7 de Setembro na Espla- nada. O foco, como sempre, é a segurança. Quem quer dinheiro? Até março, a Caixa já libe- rou 10,7 milhões de reais em patrocínios a 38 organiza- ções de diferentes setores, do agro aos movimentos de esquerda. Evento internacional Jorge Kajuru quer conven- cer o governo a bancar um festival de música interna- INÊS249 6 | 6 cional em dezembro, du- rante o encontro do G20. A proposta partiu dos músi- cos Ivan Lins e Guarabyra, e está orçada em 10 milhões de reais. Champions da favela Organizada pela Globo e pela Cufa, A Taça das Fa- velas vai virar uma compe- tição internacional, em 2025, com times de países latinos, da Europa e da África. Amauri Soares toca o projeto. Cadê Ivete? A cantora Ivete Sangalo é processada por um juiz de Santa Catarina por causa de uma postagem sobre o julgamento do caso Maria- na Ferrer. Ele quer indeni- zação de 15 000 reais. A Justiça tenta notificar Ivete. ƒ JUSTIÇA Ivete: juiz processou a cantora por causa de uma postagem M A U R ÍC IO F ID A LG O /T V G LO B O INÊS249 1 | 19 TIROS NO ALVO Alguns estados são bons exemplos de como é possível reduzir a criminalidade, com integração das polícias, investimentos em efetivos, armas e veículos, uso de tecnologia, inteligência e ações na área social ADRIANA FERRAZ, BRUNO CANIATO E VICTORIA BECHARA TROPA NA RUA Policiais com novas viaturas em Goiás: até o roubo de gado caiu CRISTIANO BORGES SEGURANÇABRASIL SEGURANÇABRASIL CAPA: MONTAGEM COM FOTOS DE FREEPIK; DIVULGAÇÃO SECOM/PR; SECR. DE SEGURANÇA PÚBLICA DO GOVERNO DE SP; CRISTIANO BORGES INÊS249 2 | 19 segurança pública ganhou relevância política nos últimos tempos e já desponta como um te- ma central para a eleição nacional de 2026. O avanço das facções criminosas, o entrelaça- mento cada vez mais evidente da bandidagem com o poder público, a persistência das altas taxas de crimes em níveis vergonhosos, as cenas frequentes de violência a que a população é submetida nos grandes centros urbanos e a inoperância das autoridades para li- dar com a escalada do problema assustam a população. Em meio a esse cenário, no entanto, há ilhas de excelên- cia que vêm experimentando resultados positivos nesse enfrentamento, com reduções expressivas em ocorrên- cias sensíveis como homicídios, latrocínios e roubos, conforme mostra um levantamento feito por VEJA com base em dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), que são fornecidos pelos es- tados e compilados no Ministério da Justiça. Um dos bons exemplos nesse sentido é Santa Catari- na. No ano passado, metade dos 295 municípios não re- gistrou um único caso de homicídio. Desde 2017, o esta- do reduziu o número de assassinatos em 47% e o de la- trocínios em 84%. A taxa de homicídios por 100 000 ha- bitantes é de 6,78, a segunda menor do país (atrás de São Paulo) e comparável à dos Estados Unidos. A Polícia Ci- vil local alcançou uma marca histórica, com 80% dos homicídios elucidados, desempenho semelhante aos de A INÊS249 3 | 19 NO CAMINHO CERTO Estados que conseguiram reduções superiores à média nacional em mais de um indicador entre os principais crimes (variação entre 2017 e 2023) HOMICÍDIOS LATROCÍNIOS ROUBO E FURTO DE VEÍCULOS O QUE FEZ Incentivou a integração das polícias, transferiu líderes de facções, criou polícia rural e direcionou recursos para equipamentos (armas e viaturas) e pessoal -56% -88% -80% GOIÁS Fontes: Ministério da Justiça e Segurança Pública e governos estaduais INÊS249 4 | 19 HOMICÍDIOS LATROCÍNIOS ROUBO E FURTO DE VEÍCULOS O QUE FEZ Apostou em melhorias urbanísticas, como iluminação pública de LED, passou a monitorar “manchas” criminais, ampliou o videomonitoramento e unificou a base de ocorrências -54% -50% -58% DISTRITO FEDERAL Canadá e Austrália. “Os crimes acontecem e não ficam esquecidos”, diz o delegado-geral, Ulisses Gabriel. Como Santa Catarina, outros estados tiveram avanços consis- tentes, entre eles Distrito Federal, Goiás, Rio Grande do Sul, Pará e Espírito Santo (veja o quadro abaixo). Em co- mum, todos tiveram quedas acima da média nacional em mais de um dos principais crimes. Nenhum desses estados inventou a roda. O êxito é fundamentado em ações que deveriam ser básicas, como INÊS249 5 | 19 HOMICÍDIOS LATROCÍNIOS ROUBO E FURTO DE VEÍCULOS O QUE FEZ Integrou as polícias no planejamento de ações, aumentou a vigilância ostensiva e investiu em compra de viaturas, armas automáticas e câmeras de leitura de placa veicular -47% -84% -49% SANTA CATARINA integrar asdiversas forças de segurança e aperfeiçoar a análise das estatísticas para definir locais de maior cri- minalidade e vulnerabilidade social e planejar melhor as intervenções. Alocar recursos para a compra de armas e veículos e contratação de pessoal é outra ação primor- dial, assim como testar tecnologias modernas, como mo- nitoramento por vídeo com inteligência artificial e equi- pamentos para aprimorar o trabalho de perícia. É fun- damental ainda traçar estratégias para minar o crime INÊS249 6 | 19 HOMICÍDIOS LATROCÍNIOS ROUBO E FURTO DE VEÍCULOS O QUE FEZ Priorizou ações nas cidades mais violentas, adotou programas de cultura e lazer nas periferias, reduziu o tempo médio das perícias e ampliou as vagas no sistema penitenciário -45% -56% -65% RIO GRANDE DO SUL organizado, separando líderes presos ou identificando (e impedindo) o financiamento das facções. Também é re- levante o trabalho de apreensão de armas e drogas, esta a maior fonte de dinheiro dessas falanges e combustível que alimenta a espiral da violência no país. A ofensiva contra a criminalidade varia muito depen- dendo do perfil dos governantes. Goiás, por exemplo, governado por Ronaldo Caiado (União Brasil), à direita no espectro ideológico, baixou os indicadores a partir do INÊS249 7 | 19 HOMICÍDIOS LATROCÍNIOS ROUBO E FURTO DE VEÍCULOS O QUE FEZ Estabeleceu metas para a redução da criminalidade, transferiu líderes de facções e lançou o Usinas da Paz, programa de segurança e cidadania, em áreas com altos índices de violência -38% -72% -70% PARÁ investimento pesado em armas, viaturas e agentes de se- gurança e um policiamento ostensivo, inclusive no cam- po, com tropas especializadas e georreferenciamento de propriedades rurais. “Até o roubo de gado caiu”, celebra o secretário de Segurança Pública, Renato Brum. Ex-co- mandante-geral da PM, ele reconhece o efeito colateral da política de confronto: no ano passado, 517 suspeitos foram mortos, o que coloca a polícia goiana como a quarta mais letal do país, à frente até de São Paulo, o es- INÊS249 8 | 19 HOMICÍDIOS LATROCÍNIOS ROUBO E FURTO DE VEÍCULOS O QUE FEZ Criou índices regionais de criminalidade, priorizou a resolutividade de homicídios, instalou câmeras nas rodovias e combateu a vulnerabilidade social nas periferias -31% -40% -40% ESPÍR ITO SANTO tado mais populoso (que teve 504 mortos). “Aumentou, de fato, mas porque retomamos o controle”, justifica. Não é apenas Goiás que enfrenta o desafio de equili- brar os esforços de prevenção e repressão, sem fazer com que o combate ao crime atropele direitos indivi- duais e aumente a barbárie nas ruas. Jorginho Mello (PL-SC), Ratinho Junior (PSD-PR) e Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) seguem o discurso de tolerância zero contra a bandidagem e são frequentemente criticados INÊS249 9 | 19 por abusos. Para a socióloga Carolina Ricardo, diretora- executiva do Instituto Sou da Paz, é necessária uma abordagem realista, deixando de lado o populismo. “Um programa estruturado exige metas conjuntas, bônus, ações compartilhadas e visão de longo prazo. É preciso ainda segurar a pressão pela ‘Rota na rua’ enquanto re- sultados não chegam”, diz. Há governantes que tentam somar ao policiamento ri- goroso algumas abordagens menos ortodoxas. É o caso do programa RS Seguro, lançado em 2019 por Eduardo Leite (PSDB). Com quatro eixos principais (combate ao crime, políticas sociais preventivas e transversais, quali- ficação do atendimento ao cidadão e sistema prisional), a ação é coordenada pelo gabinete do governador, que faz reuniões mensais para monitorar os resultados. “É preciso acompanhar, se possível, em tempo real. E com um tripé baseado em três ‘is’: integração, investimento e inteligência. Polícia na rua só não basta”, diz o tucano. Outro ponto simbólico é a modernização do sistema pri- sional. O governo demoliu a Cadeia Pública, conhecida como Presídio Central, uma masmorra dos anos 1950 no coração de Porto Alegre, que foi classificada pela CPI do Sistema Carcerário, em 2008, como a “pior prisão do país”. Com esgoto a céu aberto, celas sem trancas e livre interação entre os presos, o local era uma “escola do cri- me”, segundo Leite, que vai erguer outro presídio no lo- cal, mais moderno e com maior controle dos detentos. INÊS249 10 | 19 “Temos de aprimorar a inteligência para combatermos o crime organizado dentro e fora da cadeia, senão é enxu- gar gelo”, afirma. O cerco ao crime combinado ao olhar social mostra que pode haver bons resultados até em locais que eram símbolos de terra violenta. É o caso do Pará, que nos úl- timos anos enfrentou traficantes de drogas nas frontei- ras, pistoleiros, garimpeiros, grileiros e desmatadores. A taxa de homicídios ainda é alta (30,11), mas era de 54,68 em 2017. Parte da queda se deve a ações do governo Hel- der Barbalho (MDB), como o Polícia Mais Forte, focado na presença da PM nas ruas e no investimento em inteli- gência e tecnologia. Também transferiu líderes de fac- OLHAR Projeto Cerco Inteligente, no Espírito Santo: aposta nas câmeras E D S O N R E IS /S E C O M -P M S INÊS249 11 | 19 ções e instalou câmeras em presídios e nos uniformes dos policiais penais. Por outro lado, investiu no Usinas da Paz, complexos que oferecem serviços de saúde, do- cumentos, capacitação profissional, esporte e lazer. Se- gundo o governo, a violência nos bairros onde o projeto foi implementado caiu 77%. Outro investimento comum a esses estados é o uso de tecnologia para prevenção e investigação de crimes. Um exemplo é o Espírito Santo, onde o governo faz leitura facial dos presos, usa inteligência artificial para ler pla- cas de veículos e trabalha com microprocessadores ba- lísticos capazes de identificar de que arma saiu determi- nado projétil. Um dos programas, o Cerco Inteligente, se PREVENÇÃO Santa Catarina: estado adotou PMs nas escolas após a morte de quatro crianças em creche de Blumenau R IC A R D O W O LF F E N B Ü T TE L/ S E C O M INÊS249 12 | 19 MUDANÇA Porto Alegre: pior prisão do país dará lugar a presídio moderno M A U R IC IO T O N E T TO /S E C O M transformou numa vasta rede de câmeras instaladas nas principais vias e cidades capixabas. Somada a outras ações iniciadas em 2011, o estado conseguiu sair da se- gunda posição de mais violento para a 18ª. Governador no terceiro mandato, Renato Casagrande (PSB) diz que planos de longo prazos são fundamentais. “A continui- dade da política é que faz a diferença. Não existe bala de prata na segurança pública”, defende. A aposta na priorização do uso da tecnologia no com- bate à criminalidade faz parte também da política ado- tada no Distrito Federal. Unidade da federação com a se- gunda maior concentração de policiais (6,6 por 1 000 habitantes, atrás do Amapá), o DF tem 500 dispositivos INÊS249 13 | 19 TROPA Ronda no Distrito Federal: taxa de 6,6 policiais por 1 000 habitantes A G Ê N C IA B R A S ÍL IA móveis (como um bip) para mulheres vítimas de violên- cia e que estão sob medida protetiva, e 500 tornozeleiras que são colocadas no agressor. O aparelho da vítima po- de ser usado para acionar a polícia quando o limite de proximidade não é respeitado. Outra medida foi distri- buir um sensor, menor que uma chave de carro, aos co- merciantes do Conic, tradicional centro de compras, que pode ser usado para acionar diretamente a PM em caso de algum risco à segurança. Os estados mais populosos da federação conseguiram avanços, só que mais pontuais, no período pesquisado por VEJA. São Paulo reduziu homicídios (26%), latrocí- nios (54%) e roubo e furto de veículos, mas essas quedas INÊS249 14 | 19 VIOLÊNCIA DESIGUAL Oito estados têm taxas de homicídios abaixo da média nacional Taxas de mortes por 100 000 habitantes* (em 2023) 5,64 6,78 8,02 12,94 14,07 14,94 15,12 15,34 18,53 19,59 19,87 20,42 21,45 22,21 22,76 SÃO PAULO SANTA CATARINADISTRITO FEDERAL MINAS GERAIS GOIÁS MATO GROSSO DO SUL RIO GRANDE DO SUL PARANÁ BRASIL SERGIPE PIAUÍ RORAIMA ACRE RIO DE JANEIRO TOCANTINS INÊS249 15 | 19 Fontes:*Ministério da Justiça e Segurança Pública; **projeção para 2023 da consultoria AH Datalytics e ***ONU — dados de 2021 OUTROS PAÍSES 5,69 2,09 1,14 0,83 0,54 0,23 PARAÍBA MATO GROSSO RIO GRANDE DO NORTE ESPÍRITO SANTO MARANHÃO RONDÔNIA PARÁ AMAZONAS BAHIA CEARÁ ALAGOAS PERNAMBUCO AMAPÁ 23,47 23,86 24,37 24,47 25,35 26,44 30,11 31,79 32,67 32,89 35,01 36,78 41,29 EUA** CANADÁ*** FRANÇA*** ALEMANHA*** NORUEGA*** JAPÃO*** INÊS249 16 | 19 ficaram abaixo da média nacional — -30%, -59% e -33%, respectivamente. O uso de câmeras corporais pela PM desde 2020 fez a letalidade policial cair nos dois anos seguintes. Ela voltou a crescer em 2023, já na ges- tão Tarcísio de Freitas. Crítico do uso dos aparelhos, ele se viu pressionado após dezenas de mortes em operações recentes e, na quarta 24, comprometeu-se com o STF a ampliar o uso dos equipamentos — hoje, são 10 125 em metade dos 510 batalhões. Os novos modelos farão leitu- ra de placas de veículos e terão recursos de áudio para que policiais peçam ajuda em operações. Estado que se tornou emblema nacional do avanço da criminalidade, o Rio de Janeiro continua na direção con- trária à dos bons exemplos: registrou alta dos homicídios em 2023 (7%) após um período de baixas e o recrudesci- mento das ações do crime organizado não aponta para um local mais seguro — não à toa, a Força Nacional de Segurança atua no estado desde outubro de 2023. Em Minas Gerais, onde o governador Romeu Zema (Novo) também empunha a bandeira da segurança, o roubo e furto de veículos teve queda expressiva desde 2017 (48%), mas crimes como homicídio e latrocínio recua- ram menos que a média nacional. O Paraná baixou o roubo e furto de veículos acima da média (49%) e obteve bons números na apreensão de armas e drogas. Nos ca- sos de homicídios e latrocínios, no entanto, as reduções não foram tão expressivas. INÊS249 17 | 19 As políticas de segurança pública sempre foram uma atribuição dos Executivos estaduais, mas nos últimos anos a pressão vem batendo à porta do governo federal. O Con- gresso transformou o tema em uma de suas prioridades, com a bancada à direita, majoritária, avançando na aprova- ção de medidas punitivistas, como a do fim da chamada “saidinha” dos presos. Escalado para representar o Palácio do Planalto nesse debate, o ministro da Justiça, Ricardo Le- wandowski, afirmou nos últimos dias que a criminalidade adquiriu um caráter transnacional, ressaltando que o poder central não tem os instrumentos legais para enfrentar o problema. Ele defendeu a aplicação compulsória de parte do Orçamento em segurança, como já ocorre com saúde e EDUCAÇÃO Criança exibe cartaz no projeto Usinas da Paz, no Pará: queda de 77% da violência nas comunidades B R U N O C E C IM /A G .P A R Á INÊS249 18 | 19 educação. Também disse ser preciso reorganizar o papel de cada ente federativo, para que a União possa traçar diretri- zes para o país. Não será fácil. A discussão corrente é no sentido de desvincular as verbas obrigatórias até para saú- de e educação. Os estados também devem resistir a esse ti- po de mudança. De qualquer forma, é um avanço que Le- wandowski tenha aberto essa discussão. “Essa repactuação entre os entes é essencial”, diz Renato Sérgio de Lima, pre- sidente do Fórum Nacional de Segurança Pública. Os dados mais recentes mostram que o Brasil avança a passos muito lentos. A taxa de homicídios é de 18,53 (era de 18,57 em 2017), o que coloca o país no patamar do Haiti. Não por acaso, pesquisa Datafolha de abril RECORDE Apreensão de armas em Iporã em 2023: a maior da história do Paraná P M -P R /D IV U LG A Ç Ã O INÊS249 19 | 19 mostrou que dois em cada três brasileiros não se sentem seguros. A constatação repercute na avaliação dos go- vernantes. Levantamento da Quaest apontou que 42% dos entrevistados acham ruim ou péssima a atuação de Lula nessa área. Na esteira da escalada da criminalida- de, não param de surgir discursos demagógicos tentan- do vender a ideia à população assustada de que é possí- vel resolver um problema complexo com discursos de- magógicos e soluções simples. Os bons exemplos de ações adotadas por alguns governos estaduais mostram que essa batalha só pode começar a ser vencida com po- líticas inteligentes, continuadas e coordenadas. É uma li- ção que está mais do que na hora de o país aprender. ƒ ALERTA Ato contra o feminicídio no Rio: crime cresceu 58% no país desde 2017 TÂ N IA R Ê G O /A G Ê N C IA B R A S IL INÊS249 1 | 10 ELES NÃO SE ENTENDEM... ...e é você quem pode acabar pagando a conta da irresponsabilidade de alguns, do populismo de outros e da falta de compromisso de muitos com o país DANIEL PEREIRA E HUGO MARQUES REGRESSIVA Pacheco, Lula e Lira: ainda é possível desarmar as bombas que podem comprometer a estabilidade MONTAGEM COM FOTOS DE ISTOCK/GETTY IMAGES; FABIO RODRIGUES-POZZEBOM/AGÊNCIA BRASIL; LULA MARQUES/AGÊNCIA BRASIL PODERBRASIL INÊS249 2 | 10 A HISTÓRIA correu como um rastilho de pólvora a ressaltar a insuperável desigualdade — de renda, de poder de pressão e de força política — existente no país. No último dia 5, a Câma- ra de Vereadores de Dias d’Ávila (BA) aprovou reajuste sala- rial para os professores do município, que conta com pouco mais de 70000 habitantes e está localizado na região metro- politana de Salvador. Apresentado pelo prefeito Alberto Cas- tro (PSDB), o projeto garantiu um aumento de 46 centavos para um determinado tipo de docente a partir de dezembro. Quarenta e seis centavos. Já professores com mestrado rece- berão 106 reais a mais. A votação ocorreu em clima de cons- trangimento. O sindicato da categoria alegou não ter sido pro- curado para negociar. E o prefeito, alçado a uma notoriedade repentina, disse que houve apenas um “ajuste” para adequar os novos salários ao piso nacional do magistério, que é 4580,57 reais. “É um avanço pequeno, mas é um avanço”, de- clarou, sem ruborizar, o vereador Renato Henrique (PP), que preside a comissão de educação e tem vencimento mensal su- perior a 10000 reais. Já a vereadora Professora Rosenir (PT) protestou: “Eu acordei querendo queimar a minha carteira de trabalho”. A indignação dela e de outros tantos brasileiros tem razão de ser — e não se restringe a esse caso. Menos de duas semanas depois da votação em Dias d’Ávi- la, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado, a mais poderosa da Casa, aprovou uma proposta de emenda consti- tucional (PEC) que ressuscita o chamado quinquênio ao pre- ver um aumento de 5%, a cada cinco anos, nos vencimentos INÊS249 3 | 10 de determinadas categorias da elite do funcionalismo públi- co. De autoria do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), a PEC concedia o benefício, em sua versão origi- nal, apenas a juízes e integrantes do Ministério Público, mas, durante a tramitação, outras carreiras foram contempladas, como defensores públicos, advogados da União e delegados da Polícia Federal. O texto já está em discussão no plenário do Senado e, se aprovado, terá de passar pelo crivo da Câma- ra dos Deputados. Preocupado com o impacto nas contas pú- blicas, o governo tenta detê-lo. Não será fácil, dadas a grande adesão à proposta entre senadores, a desarticulação da base governista no Congresso e a força do lobby dos setores envol- vidos, que têm poder e influência diametralmente opostos aos dos professores do pequeno município baiano. Segundo estimativa da Consultoria de Orçamentos, Fiscalização e ORÇAMENTO Congresso: parlamentares argumentam que conhecem mais que ninguém as necessidades da população PA B LO V A LA D A R ES /C Â M A R A D O S D EP U TA D O S INÊS249 4 | 10 NA CONTRAMÃO Haddad: apesar do empenho do ministro, governo não conseguecortar despesas — pelo contrário M A R C EL O C A M A R G O /A G ÊN C IA B R A S IL Controle do Senado, a “PEC do Quinquênio” pode custar 81,6 bilhões de reais entre 2024 e 2026 — isso, claro, se a lis- ta de beneficiários não aumentar. É muito dinheiro. Para cumprir a meta fiscal de 2025, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, terá de conseguir 50 bilhões de reais em receitas extras, conforme projeções da própria equipe econômica. Com 80 bilhões de reais, o go- verno banca metade do custo anual do Bolsa Família. A di- ferença é que o quinquênio deve engordar o contracheque de cerca de 38000 servidores, enquanto o principal progra- ma de transferência de renda sustenta 21 milhões de famí- lias. A proposta tem outros vícios. O aumento de 5% a cada cinco anos é automático, não importando se o servidor fez por merecê-lo. Além disso, o prêmio está reservado ao topo da elite do funcionalismo, que já tem vencimentos próximos INÊS249 5 | 10 ao teto salarial, de 44008,52 reais. Enquanto isso, metade dos 11 milhões de servidores públicos do país, a grande mas- sa esquecida pela PEC, tem salário médio de cerca de 3400 reais. “O Congresso Nacional precisa decidir se é uma Casa em favor de todos os brasileiros ou se legisla em benefício de uma minoria”, reagiu em nota o instituto República.org, de- dicado à gestão no serviço público. “O Brasil é um campeão mundial da desigualdade, e a disparidade da remuneração no setor público é gritante.” Diante da repercussão do tema, o senador Rodrigo Pa- checo reforçou uma antiga promessa e declarou que a “PEC do Quinquênio” só será promulgada caso seja aprovado an- tes um projeto que acaba com os supersalários no Brasil. A economia decorrente do projeto — que já passou pela Câ- mara, mas dormita na mesma CCJ do Senado — seria maior do que o gasto decorrente da PEC, de acordo com o senador. Pacheco também declarou que não haverá repasses de re- cursos adicionais para que cada órgão pague o quinquênio. Parece um avanço, mas não é, já que o Judiciário e o Minis- tério Público não geram suas próprias receitas, que são for- madas pelos impostos pagos pelos contribuintes. “Carreiras que têm poder de pressão ignoram o fato de que ocupam 0,1% da pirâmide de rendimentos do Brasil. Não é 1% mais rico, é 0,1%. E aí se quebra um país, se quebra a Previdência, para atendimento desse 0,1%”, declarou o senador Alessan- dro Vieira (MDB-SE), que votou contra a proposta na CCJ. No colegiado, prevaleceu o voto do relator, senador Eduardo INÊS249 6 | 10 Gomes (PL-TO), que, ignorando as estimativas, disse que a PEC — considerada o carro-chefe da chamada pauta-bom- ba — não quebrará o país. A ministra do Planejamento, Si- mone Tebet, discorda: “Não temos gordura, margem fiscal”. O relator Eduardo Gomes externa uma lógica bem brasi- leira: nada que me beneficia ou beneficia os meus aliados prejudica as contas públicas. O cobertor orçamentário é cur- to, mas não para atender às demandas e aos interesses de se- tores poderosos. Segundo o cientista político Alberto Aggio, da Universidade Estadual Paulista, os setores mais organi- zados têm prevalecido cada vez mais na definição do Orça- mento, inclusive porque atores políticos importantes do pas- sado perderam força. O próprio PT não tem mais a capaci- dade de articular com segmentos da sociedade para tentar democratizar o Orçamento. Hoje, pelo contrário, o governo REALIDADE Dias d’Ávila (BA): professores protestam contra reajuste de 46 centavos N Ú C LE O A P LB D IA S D ´Á V IL A /D IV U LG A Ç Ã O INÊS249 7 | 10 Lula enfrenta críticas de aliados históricos. “Lula não está sendo acossado pela Faria Lima, pelo Judiciário, pelo Ar- thur Lira (presidente da Câmara). Ele é parte desse mundo”, declara Aggio. “Na democracia lulista, o meu interesse vale tudo, e, se o meu interesse vale tudo, é legítimo o que fazem os homens do Judiciário: eu quero o meu”, arremata. Desde que assumiu o terceiro mandato presidencial, Lula briga com Lira pelo controle de fatias orçamentárias. A ten- são é permanente, mas não inviabiliza acordos, como ficou claro na aprovação de pontos da agenda econômica. A de- pender dos termos, a parceria pode continuar. No último dia 9, a Câmara aprovou um dispositivo que liberou o governo a antecipar o gasto de 15,7 bilhões de reais este ano. O favor foi incluído num projeto, apresentado pelo presidente da Re- pública, que recria o DPVAT, seguro que indeniza vítimas de acidente de trânsito. A iniciativa deu fôlego extra ao minis- tro Fernando Haddad e pode render dividendos aos parla- mentares. Em retribuição, o governo cogita disponibilizar parte dos 5,6 bilhões de reais em emendas de comissão que haviam sido vetados por Lula. Nos bastidores, fala-se numa contrapartida de cerca de 3 bilhões de reais. Nos últimos dez anos, por sinal, o Congresso protago- nizou o maior avanço sobre o Orçamento da União. Uma das funções primordiais de deputados e senadores é votar a lei orçamentária. Até a década passada, os ajustes feitos pelos congressistas eram pontuais, e eles controlavam módicas fatias das verbas públicas. Esse quadro mudou INÊS249 8 | 10 radicalmente. Em 2015, no primeiro ano do segundo mandato de Dilma Rousseff, as emendas parlamentares totalizaram cerca de 15 bilhões de reais. Em 2020, sob Jair Bolsonaro e o impulso do chamado “orçamento se- creto”, alcançaram 44 bilhões de reais. Na campanha de 2022, Lula disse que colocaria ordem na casa e acabaria com a farra das emendas. Não conse- guiu. No Orçamento de 2024, havia previsão de 53 bi- lhões de reais em emendas parlamentares. O presidente vetou 5,6 bilhões, mas, por necessidade política, pode de- volver parte dos valores vetados. Com a esquerda minori- tária no Congresso, Lula precisa de Lira e do Centrão pa- ra aprovar projetos estratégicos, caso da regulamentação da reforma tributária, apresentada na quarta, 24, e do programa de crédito lançado recentemente. Como as di- FANTASIA Senado: projeto que cria supersalários para algumas categorias ED IL S O N R O D R IG U ES /A G ÊN C IA S EN A D O INÊS249 9 | 10 vergências entre o presidente e o grupo político do depu- tado quase nunca são resolvidas no mérito, sobram as moedas de troca de praxe. O dinheiro das emendas, vale ressaltar, é usado por deputados e senadores para obras e investimentos. Os parlamentares costumam dizer que sa- bem mais das necessidades da população do que os engra- vatados de Brasília. Podem até ter razão, mas também é verdade que nem sempre direcionam os recursos para projetos prioritários ou atendem a quem realmente preci- sa. Muitas vezes, preferem apenas privilegiar seus redutos eleitorais. A falta de compromisso público gera desperdí- cio, ineficiência e, segundo investigações da Polícia Fede- ral, casos de corrupção. Os ralos são conhecidos. Em meio aos problemas na articulação política, Lula conversou com Lira no último dia 19. Nenhum dos dois revelou o que foi tratado na ocasião. Dias depois, o petista cobrou do vice-presidente Geraldo Alckmin e dos minis- tros Fernando Haddad e Rui Costa, chefe da Casa Civil, mais empenho na negociação com o Congresso. Numa conversa com jornalistas, o presidente também declarou que não há crise na relação com o Legislativo. “Não há di- vergência que não possa ser superada. Se não houvesse di- vergência, não haveria necessidade de a gente dizer que são três poderes autônomos”, afirmou. Já Lira adotou um tom um pouco diferente. Desde que o deputado conversou com o presidente, seus aliados pararam de vazar a amea- ça de que ele retaliará o Palácio do Planalto instalando INÊS249 10 | 10 CPIs ou votando pautas-bomba. O ambiente aparente- mente deu uma desanuviada. Mesmo assim, num evento com empresários, Lira deixou claro que a disputa em tor- no do Orçamento continuará. “Essa briga não vai acabar nunca, são posicionamentos de placas tectônicas a respei- to da destinação de políticas públicas. Todademocracia vive isso”, afirmou o deputado. A comparação com as placas tectônicas, em razão dos poderes e dos cargos envolvidos na queda de braço, até faz sentido. Já a referência a políticas públicas é relativa e, na maioria dos casos, soa um tanto despropositada. A cúpula da República pensa, antes de qualquer coisa, no seus pró- prios interesses — políticos, eleitorais ou meramente pes- soais. Já a base da pirâmide, num costume secular, fica em segundo plano. “O professor sempre foi esquecido no país, nunca foi prioridade. Apesar de estar previsto em lei de 2008, o piso do magistério não é pago por 90% das prefei- turas”, diz o coordenador-geral do Sindicato dos Trabalha- dores da Educação da Bahia, Rui Oliveira. “Pensa num ab- surdo. Na Bahia, ele existe”, complementa, referindo-se à votação em Dias d’Ávila. Não é um caso isolado. Ao con- trário do que prega a propaganda oficial, há problemas graves na educação, na saúde e na infraestrutura — não necessariamente por falta de dinheiro. O contribuinte sus- tenta um Estado ineficiente, gastador e muitas vezes cap- turado por interesses bem específicos. A indignação de- corre disso. Não é só pelos 46 centavos. ƒ INÊS249 1 | 3 O PADRÃO A SER BUSCADO ENTRE O MERENDA Escolar (1955) e o Pacto Nacio- nal pela Alfabetização na Idade Certa (2023), o Brasil lançou vinte programas federais com promessas de salto na educação. A necessidade desse último, sete décadas depois do primeiro, mostra o fracasso dos anteriores: os bisnetos ainda estão precisando de pacto federativo para realizar, aos 8 anos, o que deveria ter beneficiado seus bi- savós, aos 5. Fracassamos porque, no lugar de projetos executivos nacionais ambiciosos, optamos por intenções modestas com execução municipal, pobre e desigual. Sem uma política nacional ambiciosa e com instrumentos federais efetivos, em 2041 apenas 50% dos 2,5 milhões de brasileiros que nasceram em 2023 terminarão o ensi- no médio; no máximo a metade deles preparada para as exigências do mundo contemporâneo. Essa ambição já serviu às crianças de famílias que po- dem pagar algumas das boas escolas particulares ou que conseguem vaga em escolas públicas de qualidade, quase CRISTOVAM BUARQUE É preciso ampliar e replicar o sucesso das escolas públicas federais INÊS249 2 | 3 todas federais. A solução para a equidade, portanto, já existe: ampliar para todas as crianças o sistema escolar das públicas federais. O sistema atual é injusto, porque exclusivo para poucos, e ineficiente, porque desperdiça milhões de cérebros, principal recurso do mundo atual. Além da injustiça, o Brasil continua barrando o potencial de 80% de seus cérebros. O presidente Lula parece ter entendido essa solução direta quando recentemente elogiou Leonel Brizola (1922-2004) por implantar os chamados Cieps, que Fer- nando Collor rebatizaria de Ciacs. Mas, quase meio sécu- lo depois, os Cieps e os Ciacs já não bastam pedagogica- mente e escolas isoladas não deram o efeito esperado: o país precisa fazer a revolução por meio das Cefes (Cida- des com Educação Federal). As Cefes seriam passos vi- tais de uma estratégia visando formar um sistema federal “É um sistema injusto, exclusivo para poucos, e ineficiente, ao desperdiçar cérebros” INÊS249 3 | 3 público de educação de base com eficácia e equilíbrio pa- ra toda a população. O caminho: sucessivos governos na- cionais substituiriam as escolas municipais por federais, em horário integral; com edificações e equipamentos mo- dernos; professores de uma carreira nacional com eleva- da remuneração, formação, dedicação e avaliação de re- sultados. Ao final de duas ou três décadas, estaria im- plantado o sistema nacional com o padrão das atuais es- colas federais: as técnicas, os colégios militares, o Colé- gio Pedro II, no Rio, e os institutos de aplicação. Nenhum governo será capaz de implantar esse sistema em todo o território nacional durante apenas um ou dois mandatos, mas até 2026 o governo Lula tem condições de espalhar o padrão federal em cinquenta a 100 pequenas ci- dades, com 1 000 alunos cada, que desejem trocar suas ins- tituições municipais por federais, com descentralização ge- rencial e liberdade pedagógica. Ao custo de 15 000 reais a 20 000 reais por aluno/ano, seu governo estaria dando iní- cio à revolução que o país precisa se quiser aproveitar o re- curso intelectual de cada brasileiro. Outros presidentes adotaram estratégias para indús- tria e infraestrutura — mas nenhum, contudo, para a raiz do progresso, que é a educação de base. Lula tem a opor- tunidade de deixar essa marca originada em seu governo com ambição transformadora para todo o Brasil. A ver os próximos passos. ƒ INÊS249 1 | 8 PROBLEMAS CASEIROS Indígenas, sem-terra, sindicalistas e servidores públicos — grupos historicamente alinhados à esquerda — não estão nada satisfeitos com o governo RICARDO CHAPOLA ATO Manifestação em Brasília: críticas pela demora na demarcação de terras e protestos contra a lei do marco temporal MATHEUS ALVES/DPA/GETTY IMAGES GOVERNOBRASIL INÊS249 2 | 8 EM ABRIL do ano passado, a organização do Acampa- mento Terra Livre, manifestação de grupos indígenas que ocorre todos os anos, convidou Lula para participar do evento em Brasília. O clima era de absoluta lua de mel. O presidente, que tinha assumido o governo havia apenas quatro meses, comprometeu-se a acelerar a demarcação de áreas, anunciou a liberação de verbas, lembrou que havia criado o Ministério dos Povos Indígenas e nomeado para comandá-lo a ativista Sonia Guajajara — uma demonstra- ção aparentemente inequívoca de apoio à causa. Um ano depois, os indígenas reclamam que demarcações prometi- das não saíram do papel, que os recursos liberados foram insuficientes e que o ministério está esvaziado. Para deixar explícita a insatisfação, dessa vez decidiram não convidar Lula e, sim, eles mesmos irem ao Palácio do Planalto apre- sentar a pauta de reivindicações. “O presidente tinha se comprometido a demarcar as terras nos primeiros 100 dias e não fez. Isso gerou um grande embaraço”, diz Paulo Tu- piniquim, um dos organizadores. Para as lideranças do grupo, o governo optou por desa- celerar os processos de demarcação para tentar se aproxi- mar do agronegócio. A insatisfação aumentou ainda mais depois da aprovação do marco temporal, que restringe a de- marcação a propriedades comprovadamente ocupadas pe- los indígenas até 1988. Esse trecho da lei chegou a ser vetado por Lula, mas acabou revogado pelo Congresso. Teria falta- do empenho do governo e do presidente para tentar evitar INÊS249 3 | 8 esse desfecho. “Nós estamos vendo um alinhamento muito próximo dele com o agronegócio, nossos inimigos históri- cos”, disse Dinamam Tuxá, coordenador da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, referindo-se à postura de Lula. Na terça, 23, cerca de 8000 indígenas caminharam em di- reção à Praça dos Três Poderes. Um forte esquema de segu- rança manteve o grupo a distância das sedes do Congresso, do Supremo Tribunal Federal e do Palácio do Planalto. Esse cenário de descontentamento com o governo atin- ge outros setores tradicionalmente ligados à esquerda e ao PT. O MST, que já foi até instado por Lula no passado a co- locar o seu “exército” na rua em defesa do governo, emite sinais de agastamento. Nos dois primeiros mandatos do INSATISFAÇÃO Protesto de servidores federais: ameaça de greve geral JO S É C R U Z /A G Ê N C IA B R A S IL INÊS249 4 | 8 presidente, os sem-terra eram usados como arma para constranger grandes proprietários de terras, empresas liga- das ao agronegócio e adversários políticos. Hoje, enfrentan- do circunstâncias bem diferentes de antes, o presidente pre- cisa se aproximar dos ruralistas por necessidade política. Para construir pontes, Lula foi aconselhado a colocar o pé no freio na reforma agrária e evitar conflitos no campo. Pa- ra tentar compensar, cedeu espaços e deu cargos importan- tes ao movimento,além de anunciar um ambicioso progra- ma, cuja meta seria assentar 295000 famílias até 2026. Na- da indica que isso vai aplacar os ânimos do MST. Apenas nos primeiros vinte dias de abril, os sem-terra invadiram 32 propriedades em quinze estados. Os dirigen- CAIXA VAZIO Esther Dweck: sem recursos para aumentos salariais em 2024 A N TO N IO C R U Z /A G Ê N C IA B R A S IL INÊS249 5 | 8 tes do movimento dizem que não estão convencidos do em- penho do governo em cumprir as promessas. Eles se quei- xam de que foram assentadas até o momento apenas 1400 famílias, contingente considerado pequeno demais, e dos cortes orçamentários. O MST calcula que seriam necessá- rios ao menos 2,8 bilhões de reais para atingir a meta em 2024, mas o Incra, órgão responsável pelo planejamento e execução dos projetos, conta com apenas 567 milhões para tocar o programa — um quinto do valor estimado. “Por mais que haja certo esforço do governo em sinalizar a reto- mada da reforma agrária, isso ainda não aconteceu. Há um passivo que não foi ainda sequer mexido. É fundamental que possamos seguir mobilizados e organizados para mostrar que é uma demanda urgente e necessária”, ressaltou Ceres Hadich, dirigente nacional do MST, no site da entidade. Outro foco de problemas para o governo se encontra no funcionalismo público. Em tempos de desequilíbrio fiscal, reajustes salariais não encontram espaço no orçamento. Al- gumas categorias estão pressionando o governo. Os técni- co-administrativos, por exemplo, ameaçam entrar em gre- ve caso não sejam concedidos reajustes que variam de 22% a 34%. Em muitas universidades federais, a turma já cru- zou os braços. O Ministério da Gestão, comandado pela pe- tista Esther Dweck, também já informou que não haverá aumentos neste ano, o que foi considerado pelos represen- tantes da categoria como uma postura “intransigente” e “decepcionante”. Sem acordo, ameaçam uma paralisação INÊS249 6 | 8 que pode atingir todos os níveis da administração pública. “O que o governo tem feito é colocar a gente sempre no fi- nal da fila. Os servidores estão há sete anos com a remune- ração congelada. A nossa paciência acabou”, diz Sérgio Ro- naldo da Silva, secretário-geral da Confederação dos Tra- balhadores no Serviço Público Federal, entidade que repre- senta 80% dos funcionários do Executivo. Para um governo do PT, partido que nasceu no berço do sindicalismo, nada mais constrangedor que esse tipo de co- brança. Afinal, foi nesse ambiente que Lula, um ex-metalúr- gico, construiu sua carreira política. Por questões de ordem prática, a ameaça de uma greve geral dos servidores públi- cos tem preocupado o governo. “Nós estamos preparando “EXÉRCITO” Ação dos sem-terra: onda de invasões para chamar atenção para a lentidão nos assentamentos A D R IA N O A LV E S /F O LH A P R E S S INÊS249 7 | 8 aumento de salário para todas as carreiras. Nem sempre é tudo que a pessoa pede. Muitas vezes é aquilo que a gente pode dar. E nós vamos negociar com todas as categorias. Eu quero até aproveitar para dizer que ninguém será punido neste país por fazer uma greve”, disse o presidente na terça, 23. O Ministério da Gestão designou o secretário de Rela- ções do Trabalho, José Lopez Feijóo, para tentar resolver o impasse. Feijóo já foi presidente do Sindicato dos Metalúrgi- cos do ABC e secretário-geral da Central Única dos Traba- lhadores (CUT). Em uma das primeiras reuniões, ele condi- cionou o avanço das negociações à não realização de greves ou qualquer tipo de paralisação. A postura foi classificada pelos sindicalistas como autoritária e inadmissível. FALTA EMPENHO Sindicatos: cobrando promessas feitas na campanha JO S É C R U Z /A G Ê N C IA B R A S IL INÊS249 8 | 8 O fato é que as próprias centrais sindicais, inclusive aquelas historicamente ligadas ao PT, demonstram certa irritação com o governo. Desde a volta de Lula ao Planalto, elas se articulam para tentar recriar o imposto sindical. A contribuição compulsória, abolida pela reforma trabalhis- ta, tirou 3 bilhões de reais por ano dos cofres das entida- des. Na campanha eleitoral, Lula se comprometeu a criar um mecanismo que compensasse a perda de arrecadação. O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, ex-sindicalista, chegou até a elaborar uma minuta para a criação do cha- mado “financiamento solidário e democrático”, um nome mais bonito para definir a volta do tributo. Rejeitada pelos patrões e pelos congressistas, a proposta não avançou. “Se- guindo a orientação do Lula, estamos há um ano nego- ciando com a área empresarial, mas falta empenho”, disse Ricardo Patah, presidente da União Geral dos Trabalhado- res (UGT).“Também é preciso cobrar do governo a corre- ção da tabela do imposto de renda e gritar contra a cares- tia, que prejudica os mais pobres”, ressalta Miguel Torres, presidente da Força Sindical. Essas e outras reivindicações serão apresentadas no ato que vai celebrar o Dia do Traba- lho, 1º de maio, em São Paulo. Lula foi convidado, mas ain- da não confirmou presença. ƒ INÊS249 1 | 3 FREIOS E CONTRAPESOS NO BRASIL contemporâneo, a dinâmica entre os poderes Executivo e Legislativo evoluiu significativamente, marca- da por uma constante busca de equilíbrio e eficácia gover- namental. Há anos, alertei sobre a transformação do mo- delo de governabilidade no país, onde o software político exigia uma coabitação inequívoca, uma previsão que se confirma atualmente. Tradicionalmente, o governo controlava as ações legis- lativas por meio da distribuição estratégica de verbas e cargos, criando uma maioria no Congresso Nacional ba- seada no princípio do “toma lá dá cá”. No entanto, a partir de 2014, o Congresso despertou para seus poderes consti- tucionais, especialmente quanto ao controle do Orçamen- to, que, anteriormente, era apenas validado pelos parla- mentares a pedido do Executivo. Essa evolução representa um avanço democrático sig- nificativo, pois incorpora um sistema de freios e contrape- sos fundamental para a manutenção da democracia, já que MURILLO DE ARAGÃO O avanço do semipresidencialismo foi bom para o Brasil INÊS249 2 | 3 promove a divisão e o equilíbrio do poder entre Executivo, Legislativo e Judiciário. No Brasil, essa divisão é evidente não apenas na teoria, mas também na prática cotidiana, com debates judiciais e legislativos frequentes sobre leis e políticas públicas. O processo decisório no Legislativo, exemplificado pela gestão de Arthur Lira na Câmara dos Deputados, revela uma sistemática com diálogo e pluralismo pouco percebidos e que deveria ser valorizada, sobretudo pela busca incessante de consenso. Toda terça-feira, o pro- cesso começa com um café da manhã, do qual partici- pam o presidente da Câmara e os líderes da oposição e onde a pauta da semana é repassada. Na hora do almo- ço, o quórum aumenta, incluindo os líderes partidários. Nada do que é votado no plenário deixa de ser discutido com os líderes. Todos. “O fortalecimento do Legislativo de 2015 para cá foi decisivo para a aprovação de diversas reformas importantes” INÊS249 3 | 3 Naquela mesa se define o futuro da legislação do país, com Lira ouvindo todas as correntes políticas existentes e representadas na Câmara e articulando consensos. Tal fa- to revela uma pluralidade na condução do processo deci- sório no país que, sem dúvida, é um avanço democrático, já que, no mínimo, todas as forças representadas na Câma- ra sabem o que está sendo votado, rejeitado ou aprovado. O fortalecimento do Legislativo de 2015 para cá foi de- cisivo para a aprovação de diversas reformas importantes, como a trabalhista, a previdenciária e a tributária, todas resultantes de intensas negociações e debates no Parla- mento. Antes, era penoso o avanço das reformas constitu- cionais e muitas vezes nada acontecia. A atuação do Congresso em 2023 representa um exem- plo da eficácia desse sistema, com mais de 7 000 proposi- ções analisadas e 228 votadas,refletindo uma agenda le- gislativa diversificada, que abrange desde reformas econô- micas até a promoção de programas sociais e de sustenta- bilidade ambiental. Assim, o sistema de freios e contrapesos no Brasil tem demonstrado sua vitalidade e relevância, garantindo que ne- nhum ramo do governo detenha poder absoluto. E a reparti- ção de poderes impediu que arroubos autoritários ameaças- sem, de fato, a nossa democracia. Com um presidencialismo autocrático, viveríamos um grave retrocesso. O Legislativo, como a Casa do Povo, e também dos estados, é o centro do debate das políticas nacionais. E é assim que deve ser. ƒ INÊS249 1 | 9 O BOMBEIRO CIVIL Sem alarde, o ministro da Defesa driblou o Partido dos Trabalhadores, conteve os radicais e conseguiu pacificar as relações entre o governo e os militares MARCELA MATTOS CONCILIADOR José Múcio: apenas “alguns” fardados “indisciplinados” se envolveram em planos golpistas CHARLES SHOLL BRAZIL PHOTO PRESS/AFP MINISTÉRIOBRASIL INÊS249 2 | 9 JOSÉ MÚCIO MONTEIRO tinha tudo para ser o ministro menos longevo do governo Lula — quem sabe até um dos menos longevos da história. Sete dias depois de tomar posse no comando da Defesa, em 2023, ele estava na linha de fren- te de uma das crises políticas mais graves desde a redemo- cratização do país. No 8 de Janeiro, Múcio almoçava em um restaurante em Brasília quando foi avisado de que apoiado- res do ex-presidente Jair Bolsonaro haviam deixado o acam- pamento montado no quartel-general do Exército em dire- ção à Praça dos Três Poderes. A manifestação, como se sa- be, terminou com a invasão e depredação dos prédios do Palácio do Planalto, do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. Ainda naquele dia trágico, o presidente Lula deu or- dens para debelar a insurgência e prender imediatamente todos os responsáveis pelos ataques, incluindo, se fosse o ca- so, os militares envolvidos. Era o pior começo possível para quem assumiu o cargo com a missão de normalizar as rela- ções, que já não eram nada boas, entre o governo e a tropa. Deputado federal por cinco mandatos, chefe da articula- ção política de Lula entre 2007 e 2009 e ex-ministro do Tri- bunal de Contas da União, Múcio é conhecido pela habilida- de de conversar e pelo talento em circular pelos diferentes espectros políticos. O momento exigia alguém com esse per- fil para o cargo de ministro da Defesa. Inicialmente, ele che- gou a recusar o convite do presidente justificando, em tom de brincadeira, que não sabia “nem dar um tiro”, mas diz que acabou cedendo por ser um “refém da gratidão”. Ao INÊS249 3 | 9 aceitar a função, um dos primeiros recados que recebeu foi o de que até o Alto Comando das Forças Armadas estava con- taminado pela politização do governo Jair Bolsonaro e que uma significativa parcela dos militares resistia a prestar con- tinência a Lula — um cenário de extrema gravidade. “O que você vai fazer diante dessa situação?”, perguntou um inter- locutor. “Eu vou evitar que eles se encontrem”, respondeu. Era, evidentemente, uma brincadeira. A estratégia traçada pelo ministro era justamente fazer o contrário disso. Múcio organizou encontros, garantiu a participação do presidente em solenidades militares, promoveu agendas NORMALIDADE O presidente Lula e os comandantes: relações restabelecidas R IC A R D O S TU C K ER T/ P R INÊS249 4 | 9 31 DE MARÇO Almeida: projeto abortado para não criar suscetibilidades M AT EU S B O N O M I/A G IF /A FP com os comandantes para falar sobre assuntos administrati- vos, discutir promoções e combinar investimentos. O 8 de Janeiro, no entanto, continuava dificultando a aproximação com a instituição como um todo, principalmente quando a Polícia Federal passou a investigar oficiais de alta patente. Os comandantes nunca admitiram o envolvimento da insti- tuição em qualquer ato ilegal — muito menos que no dia 8 de janeiro houve uma tentativa de sublevação. Na medida em que as investigações mostraram a participação isolada de alguns militares, poupando a instituição, as resistências diminuíram de ambos os lados. INÊS249 5 | 9 Janja, por exemplo, não escondia sua ojeriza aos milita- res, a ponto de recusar que eles atuassem em sua seguran- ça. No mês passado, a primeira-dama foi madrinha de lan- çamento de um submarino da Marinha. “Que Deus aben- çoe este submarino e todos os marinheiros que aqui nave- garem”, disse ela no evento. Do lado fardado, sobram elo- gios à atuação de Múcio. “Nós podemos falar em pacifica- ção. E isso significa uma relação de respeito, baseada na cordialidade, na confiança e no profissionalismo com o co- mandante, que é o presidente da República. Sem experiên- cia pregressa e num momento difícil, o principal ator para a construção disso é o ministro Múcio. Temos de fazer esse reconhecimento”, afirmou a VEJA o general Tomás Paiva, comandante do Exército. Recentemente, coube a Múcio desarmar uma bomba que podia ter colocado tudo a perder. O ministro foi alertado de que havia uma programação especial do Ministério dos Di- reitos Humanos para lembrar o dia 31 de março, aniversário do golpe militar de 1964. O roteiro incluía homenagens às vítimas de tortura e a criação de memoriais para os mortos durante o regime. Ao saber da programação, Lula pediu ao titular daquela pasta, Silvio Almeida, para cancelar o even- to, argumentando que isso geraria um constrangimento des- necessário neste momento. Em outro gesto na direção da política de desarmar bombas, no último dia 19, o presidente participou da cerimônia de comemoração do Dia do Exérci- to na mesma praça onde funcionou, em janeiro do ano pas- INÊS249 6 | 9 sado, o famoso acampamento golpista. Entre o público pre- sente, havia apoiadores e críticos do governo, houve peque- nas manifestações de uma e de outra parte, mas a tensão que havia antes não é nem de longe a mesma. Passados dezesseis meses à frente de uma das missões mais espinhosas da Esplanada, Múcio, além de continuar sendo um estranho no ninho, também pode se considerar um sobrevivente. O ministro já chamou Jair Bolsonaro de “democrata”, defendeu os acampamentos em frente aos CPF OU CNPJ? 8 de Janeiro: o governo acusou as Forças Armadas de envolvimento na tentativa de golpe JOEDSON ALVES/ANADOLU AGENCY/GETTY IMAGES INÊS249 7 | 9 quartéis militares e repetiu diversas vezes que as Forças Ar- madas foram as responsáveis por evitar, em vez de articular, um golpe contra Lula — ou seja, rezou todo esse tempo ao contrário da cartilha empunhada pelos aliados do governo. Além disso, o chefe da Defesa atuou para conter as investi- das do PT, que, entre outras incursões, tentou alterar as re- gras de promoções dos oficiais e ainda defendeu a criação de uma Guarda Nacional, o que, na prática, esvaziaria a atu- ação do Exército. Antes mesmo de completar um mês no cargo, Múcio recebeu a ligação de um assessor palaciano advertindo que ele poderia ser substituído no cargo. A res- posta foi bem ao estilo dele: “Acho o máximo, ótima ideia. Estou feliz que o presidente achou alguém para a Defesa”. A demissão, por óbvio, não passava de fogo amigo. No mês passado, na festa de aniversário do ex-ministro José Dirceu, o deputado e ex-presidente do PT Rui Falcão aproveitou a oportunidade para fustigar o ministro diante de uma roda de jornalistas. Ao se aproximar de Múcio, o parlamentar fez questão de criticar em alto e bom som o cancelamento dos atos programados pelo Ministério dos Di- reitos Humanos para o dia 31 de março. Depois, perguntou ao ministro até quando ele seguiria na pasta. Quem assistiu à cena ficou em dúvida se a pergunta era uma brincadeira ou uma provocação. Se foi uma provocação, Rui Falcão tal- vez desconheça que, ironicamente, os petardos do PT têm a valia de fortalecer Múcio dentro da caserna. “Coloquem no jornal que o PT quer a cabeça dele, porque isso o credencia”, INÊS249 8 | 9 brinca um aliado, sabedor da tendência conservadora dos militares.Hábil, o ministro também conseguiu resolver situ- ações delicadas sem criar marola. Ele se empenhou pessoal- mente no afastamento de todos os militares arrolados nas investigações sobre os atos golpistas e esteve no centro da articulação que inviabilizou a promoção do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro. No último dia 17, o ministro da Defesa e os comandantes das três Forças passaram por uma sabatina de mais de cinco FOGO AMIGO Gleisi Hoffmann, presidente do PT: o ministro da Defesa até hoje é alvo de intrigas por parte de petistas PA U LO P IN TO /A G ÊN C IA P T INÊS249 9 | 9 horas na Câmara dos Deputados. Depois de fazer um balan- ço positivo de sua gestão, Múcio reafirmou que apenas “al- guns” fardados “indisciplinados” se envolveram em planos golpistas. Garantiu também que a relação de confiança entre o governo e os militares foi, enfim, restabelecida. “O que eu quero dizer é que se quebrou o gelo. O mais importante que a gente tem é a fala, e a gente deve usá-la para aproximar, para pacificar e pedir desculpas”, disse depois a VEJA. O bombei- ro saiu do Congresso aplaudido até pela oposição. ƒ MUDANÇA Janja: primeira-dama começou a participar de eventos nos quartéis EVARISTO SÁ/AFP INÊS249 1 | 5 A DELEGADA VERMELHA Policial há mais de vinte anos e nome da esquerda em Goiânia, capital do agronegócio, Adriana Accorsi é, por ora, a única candidata competitiva puro-sangue do PT nas capitais ISABELLA ALONSO PANHO ESTRATÉGIAS A pré-candidata petista: apostas na bandeira da segurança e na interlocução com quem pensa diferente D IV U LG A Ç Ã O ELEIÇÕESBRASIL INÊS249 2 | 5 EM 2020, quando tentou pela primeira vez a prefeitura de Goiânia, Adriana Accorsi sentiu o tamanho da dificuldade que teria para, como delegada da Polícia Civil, empunhar no estado a bandeira do PT, ao qual é filiada desde 1990. “Não existe policial esquerdista, porque defende bandido. Tem que morrer. Goiás não é a m... do Nordeste”, ameaçou em privado no Instagram um usuário, que foi encontrado e preso logo depois. Adriana chegou em terceiro naquela dis- puta, foi eleita deputada federal em 2022 e agora tenta no- vamente o comando da cidade em uma condição bem pe- culiar: no coração do agronegócio, a policial é, por ora, a mais competitiva candidata do PT em todas as capitais. A responsabilidade dela é grande, já que o petismo planeja não repetir o fiasco de 2020, quando não elegeu nenhum prefeito nas capitais, rompendo uma tradição que vinha desde a criação da legenda. O partido, no en- tanto, nem tem candidatos próprios nos dois maiores co- légios eleitorais (São Paulo e Rio de Janeiro). Enquanto isso, no Nordeste, onde tem a sua base eleitoral, não é fa- vorito em nenhuma cidade. Em Goiânia, segundo levan- tamento de fevereiro do instituto Paraná Pesquisas, Adriana aparece numericamente à frente, com 22,1%, se- guida do senador Vanderlan Cardoso (PSD) e do deputa- do Gustavo Gayer (PL) — a margem de erro é de 3,8 pon- tos. Ainda que pequena, a vantagem é significativa, con- siderando-se que nenhum outro petista lidera hoje a cor- rida em outras capitais. INÊS249 3 | 5 Candidata de esquerda em uma cidade que deu 64% dos votos a Jair Bolsonaro no se- gundo turno de 2022, Adria- na aposta na sua longa trajetó- ria política. Ela é filha de Dar- ci Accorsi, professor e filósofo que foi um dos primeiros pre- feitos do PT no país ao vencer a eleição em Goiânia em 1992. Policial desde 2000, Adriana foi a primeira mulher a chefiar a Polícia Civil no estado, entre 2012 e 2013. Depois, elegeu- se deputada estadual por dois mandatos e chegou em 2022 pela primeira vez à Câmara, onde é vice-líder do PT e autora de 24 projetos de lei — boa parte sobre violência contra a mulher e direitos civis. Ter como centro da sua atuação a bandeira da segurança pública também é outro diferencial para quem é de esquerda, segmento que tradicionalmente tem dificuldades com a pauta, largamente explorada pela di- reita. Adriana defende a atuação de Lula na questão, diz que “a maior parte da política de segurança é feita pelos estados” e que o “poder de atuação do governo federal é limitado”. A principal aposta política de Adri ana, no entanto, é na interlocução com quem pensa diferente. “Não sou uma CABO ELEITORAL Caiado: com alta aprovação, ele tenta quebrar tabu K A IO L A K A IO INÊS249 4 | 5 PADRINHO Gayer (no centro) e Bolsonaro: 64% dos goianos votaram no capitão G U IL H ER M E H O N O R AT O /P L G O IÁ S candidata extremista nem radical de esquerda. Sou conhe- cida pela minha postura democrática”, diz. Afirma ter re- lação “muito cordial” com o agronegócio e que sua candi- datura atende a um pedido do próprio Lula, que pena para ter inserção no Centro- Oeste e no agronegócio, que lhe oferecem grande objeção política — o presidente planeja visitar Goiás ainda no primeiro semestre, o que seria um gesto inédito no seu terceiro mandato. Considerada uma das prioridades do PT na eleição, a conquista de Goiânia não será fácil. Vanderlan Cardoso foi para o segundo turno nas duas últimas eleições municipais, fazendo mais de 40% dos votos. Já Gustavo Gayer, da ala mais panfletária do bolsonarismo, tem o apoio do ex-presi- INÊS249 5 | 5 dente, um cabo eleitoral importante no estado. Também en- trou na disputa recentemente Sandro Mabel, ex-assessor es- pecial do então presidente Michel Temer e hoje presidente da Federação das Indústrias de Goiás, que também tem um padrinho que pode ser decisivo: o governador Ronaldo Caiado (União Brasil), cuja gestão é aprovada por 86% dos eleitores no estado, segundo pesquisa Quaest feita em abril. Ele pretende quebrar a escrita de um candidato apoiado pe- lo governador nunca ter vencido a eleição na capital goiana. O fato de correr sozinha enquanto aposta do campo da esquerda e o de enfrentar uma direita fragmentada no esta- do representam trunfos para Adriana Accorsi, mas podem ser um problema em um eventual segundo turno. É muito provável que, nessa fase da disputa, os demais concorrentes estejam juntos do outro lado — Caiado chegou a ir ao lança- mento da candidatura de Gayer junto com Bolsonaro. “O nosso trabalho é para o segundo turno”, afirma Vanderlan, apostando na repetição dos feitos de 2016 e 2020. Embora a eleição caminhe para um enfrentamento entre direita e esquerda, Caiado acha difícil que a polarização seja o fator decisivo. “O debate será sobre quem tem mais condi- ções de gerir essa cidade”, diz. Historicamente, as eleições municipais costumam, de fato, ser decididas por questões locais, mas pesquisas mostram que segurança pública pode- rá ter um grande peso no debate. A questão é saber quanto a delegada vermelha terá de “bala na agulha” para vencer o difícil duelo que se avizinha no cerrado. ƒ INÊS249 1 | 6 FISGADOS PELO IBAMA Levantamento feito por VEJA mostra que o mar de Santa Catarina é o principal reduto da pesca ilegal no país, com um terço das multas aplicadas entre 2018 e 2024 BRUNO CANIATO NO RADAR Exploração em águas da Região Sul: uso ilegal de apetrechos é o maior problema PM AMBIENTAL DE SANTA CATARINA MEIO AMBIENTEBRASIL INÊS249 2 | 6 HÁ MENOS de um ano, em junho de 2023, agentes do Ibama abordaram uma embarcação no mar de Santa Cata- rina em uma operação que entraria para a história ambien- tal brasileira. No navio, os fiscais apreenderam 29 tonela- das de barbatanas de tubarão de origem irregular, quanti- dade que estabeleceu o novo recorde mundial de confisco desse tipo. A carga pertencia a uma empresa de Itajaí, a Kowalsky Pescados, cujo proprietário carrega consigo também o desonroso troféu de campeão nacional da pesca ilegal — Evaldo Kowalsky acumula 28 autuações e 32 mi- lhões de reais em multas ambientais desde 2018. Embora representativo, o personagem é mais um dos muitos infra- tores que fizeram de Santa Catarina o estado campeão da pescaria predatória,segundo levantamento feito por VEJA com base nos registros do Ibama. O desrespeito à legislação em Santa Catarina é enorme. O estado abriga 7% da faixa litorânea brasileira, mas con- centra um terço do volume de multas por pesca ilegal no pa- ís. No período pesquisado pela reportagem, pessoas e em- presas catarinenses foram autuadas em 153 milhões de reais por atividade irregular, cerca de 34% do total de punições aplicado em toda a costa brasileira, que chegou a 453 mi- lhões de reais (veja o quadro na pág. ao lado). A ilegalidade é tão arraigada que até o ex- presidente do Sindicato dos Ar- madores e das Indústrias da Pesca de Itajaí e Região, Giova- ni Genázio Monteiro, figura em terceiro lugar no ranking de multas, com 11,5 milhões de reais. Em 2015, ele chegou a ser INÊS249 3 | 6 28,5 RJ ES SE AL BA PE MG MS SP RS PAAM AC TO RO MT RNCE RR AP PI MA GO DF PR PB 143 37,6 20 153SC NA MIRA DOS FISCAIS PER Í ODO 2 0 1 8 - 2 0 24 (em milhões de reais) Os estados campeões em infrações neste setor Fonte: Ibama INÊS249 4 | 6 preso pela Polícia Federal, acusado de comandar um vasto esquema de fraudes na concessão de licenças pesqueiras. A liderança catarinense em bandidagem na pesca não é coincidência. A indústria de pescados é um forte motor eco- nômico de Santa Catarina, que concentra cerca de 30% das embarcações e o maior número de empresas do setor no Brasil, segundo a Secretaria Executiva Estadual de Aqui- cultura e Pesca. O estado movimentou mais de 5 bilhões de reais com a atividade entre janeiro e outubro de 2023 — o porto de Itajaí movimenta 55% do mercado brasileiro e li- dera as vendas de congelados no país. A pesca catarinense também tem considerável influên- cia política. O estado é a base de Jorge Seif Jr., ex-secretá- rio de Pesca e Aquicultura no governo Jair Bolsonaro, atu- al senador do PL (mas arriscado a perder o mandato, em julgamento em curso no TSE por abuso de poder econômi- co na campanha) e dono de um longo histórico na ativida- de pesqueira. Seu pai, Jorge Seif, é fundador da JS Pesca- dos e acumula, com a esposa, Sara Kischener Seif, 6 mi- lhões de reais em multas desde 2018. Os dados mostram que a fiscalização afrouxou sob Bolsonaro, ao mesmo tem- po que era comum ver o então presidente pescando com Seif Jr. em águas catarinenses. Em 2018, o volume de mul- tas no país superou 146 milhões de reais. Com a posse de Bolsonaro, caiu pela metade. Em 2020, despencou para 25 milhões de reais. Com Lula, voltou a subir, para 135,6 mi- lhões de reais. “Dois fatores foram bastante prejudiciais INÊS249 5 | 6 para a fiscalização: a redução do quadro efetivo e a falta de embarcações”, diz Igor de Brito, chefe do Núcleo de Fisca- lização dos Recursos Pesqueiros (Nupesc), do Ibama. Os crimes incluem irregularidades nas licenças, comer- cialização de espécies vetadas e utilização de técnicas proi- bidas, como o espinhel de superfície, apetrecho composto por uma estrutura de linhas e anzóis que tem como foco a pesca de atuns, mas atrai grandes quantidades de animais protegidos, como tartarugas. As espécies mais afetadas pela pesca predatória ilegal variam entre as regiões. No panorama nacional, especialis- tas apontam que tubarões, cações e arraias estão entre os mais ameaçados. Outras espécies que sofrem com a ativi- dade irregular são camarões, lagostas, tainhas e sardinhas. Além dos apetrechos desproporcionalmente letais, causa preocupação o desrespeito ao defeso, o período de reprodu- POLÍTICA Jorge Seif Jr. (à dir.), seu pai e Bolsonaro: retrocesso na fiscalização TW IT TE R @ JO R G ES EI FJ U N IO R INÊS249 6 | 6 ção dos animais. “A redução desproporcional de uma deter- minada população causa desequilíbrio em toda uma cadeia alimentar”, alerta Ronaldo Christofoletti, professor do Ins- tituto do Mar da Unifesp e representante da Unesco para a proteção dos oceanos brasileiros. Segundo ele, além de for- talecer a fiscalização, é preciso revisar o arcabouço legal para considerar o ecossistema, mais do que espécies indivi- duais, e proteger a autonomia das comunidades que explo- ram o mar de forma sustentável. A pesca ilegal é um dos crimes que mais têm preocupado, não só os agentes ambientais, como as autoridades policiais. Quadrilhas envolvidas nesse tipo de prática têm, em alguns lugares do país, conexões com outras atividades criminosas, como garimpo e tráfico de drogas. Pescadores ilegais mata- ram o indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips, em junho de 2022, no Amazonas — terceiro no ranking da pesca ilegal, mas bem abaixo dos estados do Sul. Segundo o fiscal Igor de Brito, na Amazônia, a atividade ocor- re no mar e em rios, de forma muito espalhada, o que dificulta a atuação quando se tem um baixo número de fiscais. Já no Sul, a atividade é concentrada em determinadas regiões, faci- litando a ação dos agentes. A exploração dessa modalidade de crime encontra águas tranquilas quando a repressão reflui, quase sempre em razão de uma visão ambiental permissiva. Mas o país precisa agir com firmeza, porque é necessário pro- teger a exploração econômica legal e punir quem suja as águas dessa atividade importante para o Brasil. ƒ INÊS249 INÊS249 1 | 3 RADAR ECONÔMICO NOS ARES KC-390, avião militar da Embraer: em negociação com a Colômbia GORDZAM/ALAMY/FOTOARENA Voando alto A Embraer mantém conver- sas avançadas para vender seu cargueiro militar KC- 390 ao governo colombia- no. O modelo já foi negocia- do com cinco nações euro- peias e com a Coreia do Sul. Atualmente, a Força Aérea Colombiana opera quarenta aeronaves da Embraer. Comboio elétrico No embalo do programa fe- deral Mover, que dará crédi- tos tributários às montado- ras que investirem em pes- quisa e projetos de descarbo- PEDRO GIL Com reportagem de Diego Gimenes, Felipe Erlich e Juliana Machado INÊS249 2 | 3 nização, a Volkswagen vai anunciar investimentos na eletrificação de caminhões e ônibus. “Os ciclos de veícu- los leves e pesados estão des- casados”, diz Marco Saltini, vice-presidente da VW. Lar digital Anunciada no ano passado, a fusão entre os provedores brasileiros de internet Vero e Americanet começa a ren- der frutos. A companhia re- sultante da operação — cha- mada apenas Vero — vai ampliar a oferta de telefonia móvel e produtos digitais para residências. Para isso, foram assinadas parcerias com o Google e o serviço de streaming Roku. Negócios com empresas A Vero também vai entrar no mercado de “hardware as a service”, como é cha- mado o aluguel de equipa- mentos para empresas. Atualmente, 15% do fatura- mento da provedora vem do segmento B2B. A intenção é aumentar esse volume. Retomada na saúde A compra do laboratório São Lucas pela rede de ser- viços médicos Fleury, sa- cramentada na semana pas- sada, foi o primeiro sinal do reaquecimento do setor. A última grande movimenta- ção havia ocorrido em 2022, quando a Rede D’Or comprou a SulAmérica. Vem mais por aí Quem acompanha de per- to o mercado de saúde ga- rante que fusões e aquisi- ções serão retomadas com força no setor em 2024. Há um grande negócio em vista: Rede D’Or, Bradesco INÊS249 3 | 3 Saúde e Amil estariam in- teressadas no grupo de diagnósticos Dasa. Olho na RJ As gestoras Strata Capital, Flow Invest, Jive Asset e Vin- ci Partners estão à procura de empresas em processos de recuperação judicial para investir. A avaliação de negó- cios é feita em parceria com a consultoria RGF. Novos mercados Presente em 43 países e com ações negociadas na bolsa de Nova York, a plata- forma brasileira de softwa- re de comércio eletrônico Vtex quer explorar novos mercados. A ideia é ingres- sar na China e na Índia. Bola cheia A La Liga, entidade respon- sável pela organização do campeonato espanhol de fu- tebol, vai divulgar nos pró- ximos dias o ótimo desem- penho financeiro do torneio na temporada 2022/23. As receitas somaram 27 bilhões de reais, oque representou um aumento de 15% em re- lação à edição anterior. A Selic ideal O banco Itaú BBA realizou uma pesquisa com 160 ges- tores financeiros para en- tender qual seria o “número mágico” da taxa de juros bá- sica no Brasil que estimula- ria a entrada de investidores na renda variável. Segundo os entrevistados, uma Selic de 9% ao ano aumentaria consideravelmente os apor- tes em ações locais. ƒ OFERECIMENTO INÊS249 https://kovr.com.br/ 1 | 9 CORRIDA CONTRA O TEMPO O governo encaminhou ao Congresso o projeto de regulação da reforma tributária. Para aprovar a proposta ainda em 2024, contudo, será preciso superar diversos obstáculos FELIPE ERLICH E JULIANA ELIAS EM MÃOS Lira recebe documento de Haddad: sintonia entre eles é vital para o texto andar DIOGO ZACARIAS/MF IMPOSTOSECONOMIA INÊS249 2 | 9 urante a implementação do Plano Real, em 1994, o ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, foi alerta- do, pelo candidato a presidente Fernando Henrique Cardoso, sobre o risco de o Congresso desfigurar a proposta. “Vão querer pendurar uma porção de coisas que não têm nada a ver”, disse FHC à época. O relato acima foi feito a VEJA pelo próprio Ricupero e ilustra como é complexo emplacar grandes mudanças econômicas sem o intrometimento implacável — para o bem ou para o mal — do Congresso. Trinta anos depois, o Parlamento se volta à reforma tributária, cuja regulamentação também está sujei- ta à apreciação de deputados e senadores. Não será tarefa fá- cil dar andamento ao projeto, especialmente diante do aper- tado calendário do Legislativo em 2024 — haverá eleições municipais em outubro — e do intrincado relacionamento en- tre o governo e o Congresso. Na noite da quarta-feira 24, o presidente da Câmara, Ar- thur Lira, recebeu das mãos do ministro da Fazenda, Fer- nando Haddad, o documento de 354 páginas, 499 artigos e 24 anexos que compõem a proposta do governo para a regulamentação da tão aguar- D PREOCUPAÇÃO Appy: o secretário lamenta o número alto de exceções D IO G O Z A C A R IA S /M F INÊS249 3 | 9 dada reforma tributária. É esse calhamaço que seguirá sob a análise parlamentar nos próximos meses. Com ele, vão jun- to dois grandes desafios do governo: aprovar as regras ainda em 2024 e evitar que se repita a rodada de remendos que o texto anterior sofreu na primeira tramitação no Congresso. “A força dos grupos de interesse poderá ampliar os privilé- gios e exceções e tirar ainda mais o brilho da reforma”, diz o economista e ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega, sócio da Tendências Consultoria. “Quanto mais exceções, maior o imposto que todo o resto terá que pagar.” A promessa de Lira é aprovar o pacote na Câmara antes do recesso parlamentar, em julho, para que no retorno, em agosto, ele já possa ser apreciado pelo Senado. Trata-se de um calendário bastante desafiador, dado o tamanho do pro- jeto em proporção ao pouco tempo disponível. É por isso que o presidente Lula tem defendido a ideia de que, tanto Li- ra quanto o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, recon- duzam para a relatoria dessa nova etapa da reforma o depu- tado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB) e o senador Eduardo Braga (MDB-AM), responsáveis por coordená-la nas votações do ano passado. “O cara já está familiarizado, você ganha tem- po”, disse Lula para jornalistas no início da semana. O principal objetivo da reforma tributária, aprovada e promulgada em dezembro, é simplificar o emaranhado de impostos do consumo. O novo sistema pretende trocar os milhares de legislações e alíquotas atuais por um futu- ro imposto único, mais transparente e mais simples. Será INÊS249 4 | 9 O QUE MUDA A reforma tributária unifica os impostos sobre consumo COMO É HOJE Cada prefeitura e estado tem a sua legislação, as alíquotas variam entre os produtos e os impostos são aplicados uns sobre os outros COMO SÃO APL ICADOS ISS: municipal ICMS: estadual PIS, Cofins, IPI: federais o chamado IVA, ou Imposto sobre Valor Agregado, e foi inspirado nos melhores exemplos do mundo. Mas o Bra- sil é o Brasil: a primeira versão aprovada pelos parlamen- tares ganhou uma lista grande de categorias com o direi- to de pagar menos ou nenhum imposto. Elas vão de re- médios e alimentos, passando por profissionais liberais, a times de futebol. INÊS249 5 | 9 COMO VAI F ICAR Terão alíquota única geral e a cobrança não será cumulativa COMO SERÃO APL ICADOS IBS (Imposto sobre Bens e Serviços): municipal e estadual CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços): federal Pelos cálculos de Bernard Appy, secretário especial da Fa- zenda e um dos pais da atual reforma tributária, a profusão de exceções já elevaria o IVA padrão para algo entre 25,7% e 27,3%, o que o colocaria entre os mais altos do mundo. O papel da regulamentação é, justamente, definir os produtos e serviços que terão tratamento especial — o perigo está aí. Os parlamen- tares estão expostos a lobbies de diferentes setores, e certamente muitos deles defenderão seus interesses com afinco. Como se não bastasse, a regulação chega ao Congresso em um momento tumultuado da relação entre o governo Lula e o Legislativo. “A tradução disso é uma reforma que pode demorar mais para pas- INÊS249 6 | 9 ANÁLISE Senador Eduardo Braga: ele deverá ser o relator da proposta R O Q U E D E S Á /A G ÊN C IA S EN A D O sar e que, possivelmente, acabará mais distante do ideal deseja- do pela equipe econômica”, diz o cientista político Rafael Cortez. Há muitos obstáculos no horizonte. Ameaças de pautas- -bomba, com as quais os parlamentares poderiam implodir o Orçamento, ainda pairam no ar. A situação também é mais delicada do que no ano passado, quando a reforma tributária foi apreciada pela primeira vez por deputados. “A impressão é de que agora a relação está mais descontrolada”, diz o ex-mi- nistro Ricupero. Sobrou até para Haddad, que levou um pu- xão de orelha público de Lula por, segundo o presidente, ler livros demais e conversar com o Congresso de menos. “O mi- nistro tem que fazer sua parte, mas o entendimento maior com Lira precisa vir do próprio Lula”, afirma Ricupero. Conta a favor o fato de o presidente da Câmara ser um dos principais interessados na aprovação. O mandato do ala- INÊS249 7 | 9 O QUE FALTA DECIDIR Os pontos que a regulamentação da reforma tributária detalha A metodologia que deverá ser usada para o cálculo da alíquota e a aplicação do IVA CÁLCULO DO IMPOSTO Quais alimentos terão direito a desconto ou isenção do imposto CESTA BÁSICA Quais itens terão a incidência do imposto extra, destinado a produtos nocivos à saúde ou meio ambiente IMPOSTO SELET IVO INÊS249 8 | 9 A lista de categorias de trabalhadores que terão direito a pagar imposto menor PROFISSIONAIS L IBERAIS Como funcionará a cobrança dos setores previstos para terem sistemas próprios (serviços financeiros, mercado imobiliário, combustíveis e outros) REGIMES ESPECIA IS goano à frente da casa legislativa termina em menos de um ano e ele quer incluir a matéria no currículo. “Lira será o presidente da Câmara que vai aprovar a reforma depois de trinta anos”, afirma o deputado Baleia Rossi (MDB-SP). “Concluir a proposta é uma sinalização importante que o país dará aos agentes econômicos nacionais e internacio- nais”, diz o deputado Luiz Carlos Hauly (Podemos- PR), um dos idealizadores da reforma. Há um entendimento entre parlamentares de que Lira poderá blindar a pauta de seus atritos com o Executivo. “Mas a coordenação política do go- verno está bastante instável”, diz Murillo de Aragão, funda- INÊS249 9 | 9 COMPRAS No supermercado: definição de alíquota do novo IVA é um ponto nevrálgico do texto IS TO C K /G ET TY IM A G ES dor da casa de análises políticas Arko Advice. “Se esse diá- logo com o Congresso melhorar, é possível, sim, termos uma boa reforma aprovada até o fim do ano.” As bases do sistema tributário brasileiro foram estabele- cidasnos anos 1960 e, ao menos desde a redemocratização, especialistas discutem como desatar o nó em que ele se transformou. “São vários anos de debate, então não pode- mos dizer que seis meses vão definir ou não o sucesso da proposta”, afirmou a VEJA o ex-ministro da Fazenda Henri- que Meirelles. “É uma questão de tempo para que as refor- mas faltantes, a tributária e a administrativa, sejam consu- madas.” Tudo indica, porém, que o caminho será longo e tortuoso. Cabe ao Parlamento dar andamento célere às no- vas regras tributárias, fundamentais para o país virar uma página importante de sua história. ƒ INÊS249 1 | 3 SORTE NOSSA, O BC É INDEPENDENTE ESTUDOS indicam que a economia e a sociedade se be- neficiam da independência do Banco Central (BC), enten- dimento que se firmou dos anos 1980 em diante. Provou- se que taxas elevadas de inflação costumavam nascer de medidas para forçar o BC a reduzir a taxa básica de juros (no caso do Brasil, a Selic). A taxa básica é um instrumento poderoso, que serve tan- to para enfrentar surtos inflacionários quanto para ampliar a liquidez em certos momentos, como ocorreu na crise fi- nanceira de 2008 e na pandemia de covid-19, quando seus respectivos custos foram minimizados. Líderes populistas podem lançar mão desse instrumento para a expansão in- flacionária da atividade econômica, o que gera incertezas, inflação e queda do potencial de crescimento. Recente estudo publicado no blog do FMI aponta os cus- tos econômicos e sociais resultantes da ausência de um BC independente (Strengthen Central Bank Independence to Protect the World Economy). “Todos são prejudicados pela MAÍLSON DA NÓBREGA Sua nobre missão tem sido religiosamente cumprida INÊS249 2 | 3 alta inflação, especialmente as pessoas que vivem de rendi- mentos fixos (salários, aposentadorias e pensões), que so- frem a erosão de sua renda”, assinalou o estudo. Isso provo- ca aumento da pobreza e da desigualdade. Todos os BCs das nações ricas são independentes. O mesmo ocorre na maioria dos países da América do Sul. Na- ções que pretendam ingressar na União Europeia precisam ter banco central independente. Aqui, nosso BC nasceu em 1965 com uma área para prover crédito em favor da agricul- tura, da indústria e das exportações, o que acarretou pres- sões inflacionárias. Essa contradição desapareceu com as reformas realizadas em 1986 e 1987. Desde então, o BC adquiriu paulatinamente as funções básicas de um banco central moderno, quais sejam, cuidar da estabilidade da moeda e do sistema financeiro. A inde- pendência formal só viria, no entanto, em 2021. Entre os “A velha esquerda ainda resiste à ideia, uma prova adicional da incapacidade de modernizar seu pensamento” INÊS249 3 | 3 países relevantes da América Latina, fomos o último a dar esse passo. A velha esquerda brasileira ainda resiste à ideia, uma prova adicional da incapacidade de modernizar seu pensa- mento econômico e de aprender com políticas públicas bem- sucedidas. Vêm daí, ao que parece, os ataques pessoais ao presidente do BC, tratado como “esse cidadão” e acusado de “não entender o Brasil”. Autoridades pedem publicamente que o BC reduza a taxa Selic ou acelere sua queda. Esse equívoco é comum em parte da classe política e do empresariado. Às vésperas das reuniões do Comitê de Polí- tica Monetária, líderes de associações de classe clamam por redução dos juros, como se fosse mera questão de vontade. Valendo-se de sua independência, o presidente do BC e os demais membros do comitê ignoram tais pressões. Podem, assim, manejar corretamente a taxa Selic, permitindo o cumprimento das metas de inflação. Sorte nossa. O nosso BC foi eleito recentemente o melhor do mundo. Dificilmente a notícia teve a repercussão devida entre os in- capazes de aprender e entender como funciona essa institui- ção. Quem sabe nas próximas gerações. ƒ INÊS249 1 | 6 A CONECTIVIDADE ENTRA EM CAMPO Redes 4G e 5G estão chegando agora às regiões agrícolas remotas, mas o ritmo de expansão dessa infraestrutura pelo país precisa ser ainda maior CAMILA BARROS NA PALMA DA MÃO Tablet na lavoura: equipamentos modernos impulsionam a produtividade Y U M I M IN I/ IS T O C K /G E T T Y I M A G E S NEGÓCIOSECONOMIA INÊS249 2 | 6 O MUNICÍPIO de Caconde, a 290 quilômetros de São Pau- lo, é um dos maiores polos de plantio de café no país. Loca- lizado na sinuosa região da Serra da Mantiqueira, tem uma topografia ideal para o desenvolvimento dos arbustos frutí- feros, que crescem melhor em altitudes elevadas. Até pouco tempo atrás, no entanto, essa característica mantinha os produtores da região isolados. Sem contar com infraestrutu- ra de internet, eles sofriam para acessar sites ou usar dispo- sitivos que necessitam de boa conexão. Foi só em 2018 que as primeiras antenas começaram a chegar à cidade. Em 2020, com a pandemia impulsionando a comunicação digi- tal, o processo de instalação de torres ganhou fôlego. Atual- mente, Caconde faz parte do projeto conhecido como Se- mear Digital, criado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) para aumentar a conectividade em áreas rurais. “O programa colocou a produção agrícola de Caconde no mapa”, afirma o cafeicultor Ademar Pereira, presidente da cooperativa agropecuária do município. De acordo com ele, a internet ajudou a dar escala ao agro local, além de ter estimulado o uso de novas tecnologias. Em um país de dimensões continentais como o Brasil, poucos desafios são tão urgentes para o agronegócio quanto o de aumentar os índices rurais de conectividade. Apesar dos avanços registrados nos últimos anos, eles permanecem bai- xos. De acordo com o indicador de conectividade rural (ICR), lançado há alguns dias pela associação ConectarAGRO, ape- nas 19% da área rural brasileira tem cobertura de internet INÊS249 3 | 6 4G ou 5G — a pesquisa não contabiliza conexões 2G e 3G por considerá-las tecnologias em declínio e com capacidade de tráfego de dados muito limitada. O indicador ainda mos- tra que a maioria das fazendas com acesso a internet está no Sul e no Sudeste do país. “No Sul, as propriedades costumam ser pequenas e estar perto das cidades, o que facilita em ter- mos de infraestrutura”, diz Anselmo del Toro, vice-presiden- te da ConectarAGRO. “Já regiões do Centro-Oeste e Norte do país possuem áreas maiores para populações menores.” BAIXO ALCANCE Apesar dos avanços nos últimos anos, há muito a melhorar APENAS 19% DA ÁREA AGRÍCOLA NO BRASIL TEM COBERTURA 4G OU 5G ENTRE OS GRANDES PRODUTORES RURAIS, SÓ 6% MANTÊM TODAS AS SUAS LAVOURAS CONECTADAS POR REDE 4G OU 5G REGIÕES AGRÍCOLAS DO DISTRITO FEDERAL, RIO DE JANEIRO E ESPÍRITO SANTO POSSUEM AS MELHORES CONEXÕES DE INTERNET. AMAPÁ, RORAIMA E AMAZONAS, AS PIORES Fonte: Indicador de Conectividade Rural (ICR), da ConectarAGRO INÊS249 4 | 6 Uma força econômica do Brasil, o agronegócio depende cada vez mais de boas redes de internet para desfrutar das extraordinárias oportunidades trazidas pela nova era digi- tal. É a conectividade que permite o uso de tecnologias ino- vadoras, como drones que mapeiam lavouras, robôs pulve- rizadores, equipamentos portáteis de análise do clima ou tratores autônomos controlados por inteligência artificial, entre muitas outras. Sem ela, os dispositivos não se comuni- cam entre si e ficam impossibilitados de compartilhar dados ou até mesmo de operar. Isso impõe uma barreira que, afi- nal, diminui os índices de produtividade das áreas agrícolas. Para tornar viáveis projetos fora das cidades, as opera- doras têm apostado em novas estruturas econômicas. A DESAFIO Torre: dimensões continentais do Brasil dificultam ampliação do acesso IS T O C K /G E T T Y I M A G E S INÊS249 5 | 6 TIM, uma das apoiadoras da ConectarAGRO, trabalha em parceria com grandes produtores rurais, que pagam pela instalação das antenas em suas propriedades. Em terras de 20 000 a 30 000 hectares, que sãoos focos do projeto, a instalação de estruturas de rede 4G custa em torno de 500000 reais e leva de três a cinco anos para ser concluí- da. “Se usássemos o nosso modelo tradicional de negócios, não funcionaria”, afirma Paulo Humberto Gouvea, diretor de Soluções Corporativas da TIM Brasil. Em uma fazenda modelo em Água Boa, no Mato Grosso, a TIM calcula que a chegada da internet aumentou a safra em 18% e reduziu o uso de combustíveis em 10%. Outra solução em alta são as redes não terrestres (NTN, VISÃO DO ALTO Drones: aparelhos voadores são usados para mapear plantações E + /G E T T Y I M A G E S INÊS249 6 | 6 na sigla em inglês), baseadas em sistemas de comunicação via satélite. A mais famosa delas é a Starlink, subsidiária da empresa americana de foguetes SpaceX, de Elon Musk. No Brasil, seu equipamento custa 2000 reais, com mensalida- de de 184 reais. Nesse caso, o apelo está em levar internet para regiões afastadas e sem nenhuma infraestrutura, que dependeriam de grandes projetos para acessar redes 4G. “Não consideramos essas novas tecnologias como concor- rentes”, diz Del Toro, da ConectarAGRO, que mira em levar redes 4G às propriedades. “Qualquer modelo é apenas o meio para um fim, que é o de conectar máquinas e pessoas no campo.” Isso é ótimo para os produtores, mas melhor ainda para o Brasil. ƒ INÊS249 1 | 5 O TERCEIRO ELEMENTO Candidato sem partido e afeito a opiniões polêmicas e teorias conspiratórias, Robert Kennedy Jr. não tem nenhuma chance de ganhar a disputa pela Casa Branca. Mas que atrapalha, atrapalha ERNESTO NEVES POR FORA O político independente: atraindo democratas com o sobrenome e trumpistas com teorias conspiratórias JOSH EDELSON/AFP ESTADOS UNIDOSINTERNACIONAL INÊS249 2 | 5 altando sete meses para as eleições presidenciais dos Estados Unidos, até as rochas onde Elon Musk quer fincar uma civilização em Marte (leia o artigo de Fernando Schüler) sabem que os protagonistas da batalha final serão o presidente Joe Biden, pelo lado democrata, e seu antecessor, Donald Trump, pelo repu- blicano. Empatados tecnicamente nas pesquisas, os dois dis- putam voto a voto a vitória nas urnas, tal qual aconteceu em 2020, com uma diferença: a presença de um terceiro candi- dato, sem chance nenhuma de ganhar, mas com grande ca- pacidade de atrapalhar o jogo. É Robert Francis Kennedy Jr., 70 anos, sem partido, bem-apessoado e bronzeado advo- gado de Malibu, onde se concentram os ricaços da Califór- nia. Além de mais jovem do que os dois adversários numa votação em que o fator idade é crucial (Biden tem 81, Trump completa 78 em junho), faz questão de propagandear em dis- cursos e entrevistas tanto o sobrenome famoso de um clã historicamente democrata quanto teorias conspiratórias pregadas no ideário do trumpismo. É nesse cenário que ele se mexe para cavar espaço entre eleitores nas duas frentes. “Sou a oportunidade de restaurarmos este país, sua demo- cracia e autoridade moral”, diz. RFK Jr., como gosta de ser chamado (reeditando as ini- ciais pelas quais o pai era conhecido), é filho do senador Ro- bert Kennedy, alvejado fatalmente em uma primária demo- crata quando tentava se candidatar à Casa Branca em 1968, e sobrinho do ex-presidente John Kennedy, assassinado a ti- F INÊS249 3 | 5 ros em 1963. A maioria das pesquisas o coloca com cerca de 10% das intenções de voto — a melhor performance de um candidato independente em décadas. “Pesquisas mostram que Kennedy tira mais votos de Biden, mas ele já causa preo- cupação também a Trump”, diz Grant Davis Reeher, profes- sor de ciências políticas da Universidade Syracuse. RFK Jr. já conseguiu assinaturas suficientes para aparecer nas cédulas em swing states, aqueles que definem eleições, como Arizo- na, Geórgia, Nevada, Michigan e New Hampshire. Anuncia- da recentemente, sua vice, Nicole Shanahan, 38 anos, investi- dora e ex-mulher de Sergey Brin, fundador do Google, con- tribuiu para aumentar seu apelo entre os jovens — justamen- te a fatia do eleitorado que em 2020, sem opção entre Biden e Trump, acabou votando no democrata como mal menor. Candidato a ser agora a terceira via, Kennedy, como toda a família, foi democrata de carteirinha. Vestiu essa camisa até APOIO O clã dos Kennedy na Casa Branca: declaração de voto a Joe Biden X @ K E R R Y K E N N E D Y R F K INÊS249 4 | 5 2023 e se projetou no início dos anos 2000 como advogado ambientalista, chegando a ser cotado para ocupar a direção de órgãos do governo na área. Ao longo da última década, po- rém, tornou-se mais conhecido pelo vigoroso discurso contra a vacinação infantil, que, replicando teorias amalucadas, in- siste em associá-la a doenças como autismo. A lista de sandi- ces inclui ainda duvidar da relação entre HIV e aids e associar o tratamento da água que o público consome a disfunções se- xuais. E, claro, ele faz parte da turma de céticos contumazes que vê o dedo da CIA nos assassinatos do pai e do tio. Durante a pandemia, não perdeu chance de disparar bi- zarrices a respeito da origem do vírus da covid-19, dos supos- tos males da vacina e do lockdown. “Até na Alemanha de Hi- tler as pessoas podiam cruzar os Alpes e se refugiar na Suíça e se esconder no sótão, como Anne Frank. Hoje os mecanis- mos em vigor nos impedem de fugir. Ninguém consegue se TEORIA Com o tio assassinado: ele acha que houve dedo da CIA na morte A P /I M A G E P L U S INÊS249 5 | 5 esconder”, proclamou em uma manifestação antivacinas em Washington. Por essas e outras, chegou a ser temporariamen- te banido de redes sociais. Em 2021, lançou um livro demoni- zando o médico Anthony Fauci, conselheiro da Casa Branca no combate à pandemia que diversas vezes entrou em choque com Trump. Por suas posições, Kennedy foi solenemente re- negado pela família, que recentemente fez questão de se en- contrar em peso com Biden para manifestar seu apoio. Candidatos independentes como Kennedy não têm ne- nhuma chance de emperrar a engrenagem da máquina elei- toral dos partidos tradicionais, mas são capazes de causar so- luços e imprevistos, ainda mais em uma eleição como a deste ano, que deve ser decidida por margem muito estreita de de- legados no Colégio Eleitoral. “Nem Biden nem Trump po- dem se dar ao luxo de perder qualquer voto”, diz Alice Ste- wart, consultora do Partido Republicano. Ao longo da histó- ria, outsiders já mostraram que podem ser um fator de risco para os políticos tradicionais. Na disputada eleição de 2000, Ralph Nader, do Partido Verde, amealhou 3 milhões de votos que fizeram muita falta ao democrata Al Gore e contribuí- ram para a vitória do republicano George W. Bush. Anos an- tes, em 1992, outro azarão, o bilionário conservador Ross Pe- rot, sacudiu a tranquilidade das legendas mais conhecidas ao atrair 19% do eleitorado, boa parte insatisfeita com a conjun- tura econômica da época, e fortalecer o democrata Bill Clin- ton. Resta ver que prejuízo Kennedy poderá causar desta vez, e a quem. Tanto Biden quanto Trump que se cuidem. ƒ INÊS249 1 | 4 MÃOS DE FERRO Plebiscito confirma a aprovação dos equatorianos à linha dura do presidente Daniel Noboa contra o crime organizado, ampliando o poder das forças de segurança para prender suspeitos e ocupar as ruas CAIO SAAD EQUADORINTERNACIONAL CRUZADA Em um discurso recente: investindo na política do prende e arrebenta, de olho na reeleição em fevereiro do ano que vem G ER A R D O M EN O S C A L/ A FP INÊS249 2 | 4 CAMINHANDO firme na direção de uma versão desco- medida da política de tolerância zero contra criminosos que anda fazendo sucesso pelo mundo, o Equador acaba de aprovar em plebiscito um conjunto de medidas que aper- tam o parafuso do uso da força extrema e prisões indiscri- minadas no país. O resultado evidencia o apoio popular ao presidente Daniel Noboa, de 36 anos, herdeiro da família mais rica do Equador, que foi eleito e vem fazendo carreira como comandante de uma cruzadapara acabar com as quadrilhas que aterrorizam a população. Entre as providên- cias aprovadas no referendo de onze pontos estão a regula- mentação das Forças Armadas ao lado da polícia no com- bate ao crime organizado, a criação de tribunais especiais e a extensão das penas de prisão — o que pode aumentar ain- da mais a população carcerária, foco de aliciamento e coor- denação das gangues que assolam o país. Apenas os pontos relativos à segurança foram aprova- dos e quase 30% dos eleitores se abstiveram. Mesmo assim, o referendo avalizou o maciço apoio à linha-dura adotada por Noboa. “Para os equatorianos, trata-se de uma guerra entre grupos criminosos e o Estado por território e contro- le. Há uma atmosfera de insegurança muito grande na so- ciedade e essas medidas são uma resposta a essa situação”, diz Maria Fernanda González, da Faculdade Latino-Ame- ricana de Ciências Sociais do Equador. Antes uma ilha de tranquilidade, o Equador entrou em ebulição nos últimos anos: uma sequência de governos fracos coincidiu com mu- INÊS249 3 | 4 danças nas rotas do tráfico de drogas na América do Sul, e de uma hora para outra os portos equatorianos se tornaram o canal preferencial de escoamento de cocaína para Esta- dos Unidos e Europa. Presos, os chefes das quadrilhas, sob ordens de cartéis mexicanos, instalaram seu QG nas peni- tenciárias e a violência disparou. A nova realidade foi exposta ao mundo em janeiro, ao vivo e em cores, quando bandidos invadiram um estúdio da TV estatal e lançaram ameaças à população sobre as consequências de “mexer com a máfia” do narcotráfico — ação ousada que levou Noboa a declarar “estado de conflito armado”. Investidos de novos e amplos poderes, no início do mês policiais entraram à força na embaixada do México PROPAGANDA Suspeito detido em Quito: imagens reforçam a linha dura JO S É JÁ C O M E /E FE INÊS249 4 | 4 em Quito e prenderam Jorge Glas, ex-vice-presidente equa- toriano condenado por corrupção que lá se encontrava re- fugiado. Além de cortar relações, o México vai levar o caso ao Tribunal Internacional de Justiça. Apesar da reação, o governo segue inabalável no proces- so de “bukelização” no país, referência ao estilo truculento do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, na guerra às gangues locais, que hoje serve de inspiração para um rol crescente de líderes latino-americanos. Em dois anos, o go- verno salvadorenho encheu as ruas de soldados e prendeu quase 75000 pessoas, ou 8% da população masculina, exi- bidas em fotos e vídeos de pátios lotados de prisioneiros se- minus. Quase ninguém foi julgado até agora. No Equador, a violência diminuiu, mas está longe de ser controlada: nos feriados da Páscoa, dois prefeitos foram as- sassinados, e as denúncias de sequestros e extorsão são fre- quentes. “O sistema judiciário está entrando em colapso e o número de detidos aumenta dia a dia”, afirma Renato Rive- ra, do Observatório Equatoriano do Crime Organizado. Noboa, político de centro-direita, com 68% de aprovação (já foram 85%) e em plena campanha pela reeleição em 2025, anunciou a construção de duas megapenitenciárias e a compra de navios-prisão para acomodar a multidão de detidos — provas de que ele continuará dobrando as apos- tas na política de linha dura. ƒ INÊS249 1 | 3 O MAXIMALISTA E O MINIMALISTA O SITE BLOOMBERG propôs uma comparação intrinse- camente injusta, mas irresistível: qual visão econômica se- rá mais bem-sucedida, a de Lula da Silva ou a de Javier Milei? É um game que está acontecendo diante de nossos olhos e, como na série O Problema dos Três Corpos, afeta nossas vidas de maneira crucial. O brasileiro e o argentino são opostos em tudo; um, quer o governo máximo e o Es- tado indutor; outro, o governo mínimo e o empreendedo- rismo produtor. É uma questão em discussão permanente nos países que ainda não acertaram o caminho para a prosperidade coletiva, mas que nunca foi tão bem codifica- da por dois presidentes vizinhos. Lula, o populista de es- querda, pragmático e escolado na política, talvez obcecado demais em replicar resultados do passado. Milei, um liber- tário politicamente neófito que propõe uma visionária ava- lanche liberalizante. Os resultados dirão quem tende a ter mais razão, embora os jogadores tenham partido de posi- ções diferentes — daí a injustiça da comparação —, com Lula e Milei estão em polos antagônicos na relação com o mercado INÊS249 2 | 3 um Brasil bastante em ordem, considerando-se as circuns- tâncias, e uma Argentina martirizada por tudo o que de pior tem o peronismo em suas diversas encarnações, a ca- minho da hiperinflação. Um exemplo entre tantos: Lula assumiu aumentando o número de ministérios para 38 — espíritos mais céticos di- riam que o objetivo mesmo é contemplar aliados e promo- ver a eufemisticamente chamada governabilidade. Milei cortou as pastas para nove e virou um serial killer de em- pregos pendurados no enorme cabide que sustenta o que chamou de casta. Lula é uma entidade conhecida, nos acertos e nos erros. Milei continua a ser um enigma, embo- ra, até o momento, menos alucinado do que se esperaria de alguém que só cultiva laços de intimidade real com a irmã e com os cães — a namorada, que muitos achavam ser um arranjo de fachada, já foi para o espaço. O FMI elogiou o “Os resultados dirão quem tende a ter mais razão, embora os jogadores tenham partido de posições diferentes” INÊS249 3 | 3 “impressionante” avanço promovido por Milei em matéria de ajuste fiscal, ao custo de uma queda prevista de 2,8% do PIB para este ano. A inflação subiu “só” 11% em março — uma vitória — e já despontou um superávit fiscal. So- breviverão os argentinos com os cintos apertados até além do último furo? A dureza do ajuste atiçará a famosa volati- lidade social do país? Em recente viagem à Colômbia, Lula fez um diagnósti- co sobre a América Latina: “Não pode ser por coincidência que todos nós, que já temos 500 anos de vida, não tenha- mos nenhum país altamente desenvolvido, um país rico, um país com estado de bem-estar social que possa ser comparado aos países europeus. Alguma coisa está erra- da”. Equivocou-se ao atribuir a “coisa errada” a uma dis- posição de “nações colonizadas” a esperar por “muitos e muitos séculos a ordem daqueles que nos colonizaram pa- ra dizer o que a gente tinha que fazer”. A atual moda es- querdista de pendurar todos os nossos males no colonialis- mo ignora o fenômeno de um país como os EUA, uma co- lônia selvagem quando o Brasil já era exportador da mais cobiçada commodity da época — o açúcar —, mas que de- senvolvia uma sociedade horizontalizada baseada na cria- ção de riquezas por esforço próprio e na liberdade como valor supremo. É isso que o “mileinarista” argentino quer replicar com sua revolução cultural. Quem tem o melhor plano, ele ou Lula? ƒ INÊS249 GENTE 1 | 5 VALMIR MORATELLI PRISIONEIRA DE UM ENREDO A expectativa de PAOLLA OLIVEI- RA, 41 anos, com a estreia da segunda temporada de Justiça, no Globoplay, era de que as atenções se voltassem para o caráter mais que duvidoso da protagonista a que dá vida, a psicopata Jordana. Mas o roteiro foi bem diferen- te. Desde que o primeiro lote de episó- dios foi ao ar, só se fala mesmo das tór- ridas cenas de sexo entre ela e a per- sonagem de Nanda Costa, que acaba parando na prisão por engano, justa- mente no lugar de Jordana, a verdadei- ra autora do crime que conduz a trama. “É misógino levar tudo para o lado se- xual. Nós ficamos aprisionadas nisso”, queixa-se Paolla, que não é novata nos takes em que se envolve com mulhe- res, como na microssérie Felizes para Sempre?, na qual os amassos eram com a atriz Maria Fernanda Cândido. “A complexidade acaba se perdendo em meio a essa leitura banal. Puro precon- ceito”, enfatiza, muito séria. IN S TA G R A M @ PA O LL A O LI V EI R A R EA L INÊS249 2 | 5 A ARTE IMITA A VIDA O escocês RICHARD GADD, 34 anos, anda celebrando oinstantâ- neo sucesso de Bebê Rena, a primeira série que produz, no ar na Netflix. O enredo gira em torno de um comediante frustrado que pas- sa a ser perseguido por uma mulher obsessiva, e sua vida vira um in- ferno. O surpreendente detalhe, apenas agora revelado, é que o ro- teiro é muito semelhante ao que Gadd viveu na própria pele. Ao longo de quatro anos, segundo calculou, ele recebeu 41 000 e-mails, 350 horas de mensagens de voz e mais uma centena de cartas de uma mesma mulher. A obsessão da fã, a princípio engraçada, se conver- teu em pesadelo. “Ela começou a invadir a minha vida. Aparecia nos shows, me esperava do lado de fora da minha casa. Não tive mais paz”, relatou em entrevista ao britânico The Times. Ele só conseguiu se livrar da figura que o assombrava na Justiça. IN S TA G R A M @ M R R IC H A R D G A D D INÊS249 3 | 5 NÃO CHORES POR NÓS O romance de FÁTIMA FLÓREZ, 43 anos, com JAVIER MILEI, 53, sempre foi envolto em suspeitas de que não passaria, na verda- de, de uma boa fachada para o então candidato à Presidência ar- gentina. Após oito meses, o enlace acaba de se desfazer, e o boato voltou a toda. “Essa é a maior estupidez. Se alguém acha que eu se- ria capaz de fingir, é porque não me conhece”, disparou a humorista, que ganhou fama com sua debochada imitação de Cristina Kirchner, a ex-ocupante da Casa Rosada. Ao tratar do tema, Milei, agora no poder, justificou que o namoro seria incompatível com a carreira de- la, que teria recebido ofertas de trabalho nos Estados Unidos e na Europa, inviabilizando a relação. Ambos, porém, dizem que a afinida- de segue firme. “Partilhamos o mesmo humor”, garante Fátima. R O D R IG O A B D /A P /IM A G EP LU S INÊS249 4 | 5 CAMINHANDO E CANTANDO Antes de lançar o novo álbum, The Tortured Poets Department, TAYLOR SWIFT, 34 anos, já tinha dado um spoiler que deixou muita gente em alerta: ela falaria ali de seus ex- namorados. E assim fez. Sobre o fim do relacionamento de seis anos com o ator Joe Al- wyn, disparou em uma das letras: “Você me traiu/ Você me machu- cou/Você me ensinou/Você me enjaulou”. Não poupou também o músico Matty Healy, a quem cutuca: “Alguma coisa foi real?”. Neste caso, o tom, mais ame- no do que se esperava, foi recebido com alívio. “A família de Matty esta- va preocupada, achava que Taylor iria expô-lo como vilão”, contou o assessor do músico ao site US Weekly. Já a cantora é só alegria. Atualmente namorando o jogador de futebol americano Travis Kelce, ela contabilizou 200 mi- lhões de reproduções do álbum no Spotify em um único dia. JA M ES D EV A N EY /G C IM A G ES /G ET TY IM A G ES INÊS249 5 | 5 CONSELHEIRA, NÃO Aos 85 anos, ARLETE SALLES não pensou duas vezes ao acei- tar ser protagonista em dose dupla de Família É Tudo, a trama global das 7 em que interpreta as gêmeas Frida e Catarina. A passagem do tempo, ela conta, trouxe mais firmeza para atuar. “Nunca me senti tão confortável em cena”, garante a atriz, que observa quanto a idade vem sendo implacável com várias de suas colegas, hoje desvalorizadas e sem bons papéis. Para Arle- te, ainda requisitada, o que mais incomoda mesmo é quando a geração mais jovem pede conselhos durante as gravações. “Te- nho muita preguiça disso. Todo mundo está aprendendo o tempo todo, até eu”, encerra a veterana, sem rodeios. ƒ M A N O EL LA M EL LO /T V G LO B O INÊS249 1 | 11 A DIFERENÇA LIBERTADORA Com o aumento dos casos de autismo, acompanhado da maior aceitação e exposição do assunto, cresce o número de pessoas que enxergam, em seu diagnóstico, o caminho para uma vida melhor VALÉRIA FRANÇA GABRIEL MONTEIRO/AGÊNCIA O GLOBO SAÚDEGERAL REVELAÇÃO A atriz Letícia Sabatella recebeu o diagnóstico de autismo leve aos 52 anos, logo depois de descobrir que a filha tinha a condição. Sem constrangimento algum, veio a público dividir a existência do quadro, o que ajuda no processo de esclarecer a população, atalho para diminuir os tabus. INÊS249 2 | 11 m diagnóstico médico costuma ser um divisor de águas na trajetória de qualquer pessoa. Com o maior conhecimento sobre o transtorno do es- pectro autista (TEA), e o devido respeito que vem angariando, sair de um especialista com a notícia de que se tem a condição pode funcionar como passaporte para uma vida mais consciente e feliz. É essa a sensação de quem recebeu o diagnóstico tardio, já na idade adulta. Nada de manifestações com tom de pesar, desesperançoso. “A sensação foi libertadora”, diz a atriz Letícia Sabatella depois de descobrir ter um grau leve de autismo aos 52 anos. “Mudou minha vida”, postou no Instagram Tallulah Willis, de 30 anos, filha caçula de Bruce Willis com Demi Moore, após saber que integrava o espectro. Não se trata de celebrar um quadro clínico, muito menos de atribuir a ele uma aura inexistente, como se fosse um modismo comportamental. Trata-se, na ver- dade, de entender melhor as diferenças e as peculiarida- des humanas — e aprender a utilizá-las ou contorná-las em prol do próprio bem-estar. O TEA é marcado por um funcionamento atípico do cérebro, podendo afetar a comunicação, o comportamen- to e a socialização em vários níveis — há quem tenha com- prometimentos mais brandos, outros mais expressivos. A causa foi abraçada, nos últimos meses, por personalida- des que ou depararam com o diagnóstico ou decidiram compartilhar como é cuidar de um familiar com a condi- U INÊS249 3 | 11 ção. Quando pessoas admiradas por milhares de fãs mos- tram que o transtorno não é uma sentença nem um entra- ve à qualidade de vida, todos os neurodivergentes (como alguns preferem ser chamados) saem ganhando. A come- çar pelo combate ao preconceito e aos estigmas que ainda rondam o assunto. “Na década de 1960, as crianças com o diagnóstico eram levadas a clínicas”, diz o psiquiatra Gui- lherme Polanczyk, professor da Faculdade de Medicina PAI COM CAUSA Para o apresentador Marcos Mion (à dir.), falar de autismo virou um propósito de vida. Pai de Romeo, diagnosticado há mais de dez anos, o astro do Caldeirão, da TV Globo, divulga, nas redes sociais, a relevância de reconhecer e respeitar a condição, ampliando também a inclusão social de pacientes e famílias. IN S TA G R A M @ M A R C O S M IO N INÊS249 4 | 11 da USP. O entendimento sobre o quadro avançou signifi- cativamente, e o autismo deixou de ser visto como um obstáculo intransponível para ingressar na escola ou no mercado de trabalho, muito embora casos mais severos imponham, infelizmente, grandes limitações. O que também avança é o número de diagnósticos pelo mundo. Nos EUA, país de estatísticas fidedignas, havia um caso para cada 10 000 crianças na década de 1970. Em 2022, o índice passou para um em cada 36. No Brasil, sem registro oficial, estima-se contingente de 4 milhões de pes- soas com TEA — resultado da maior conscientização so- bre o tema e do maior acesso a especialistas aptos a identi- ficar o transtorno. “O grupo com TEA já conquista lugar de respeito, em fenômeno que lembra o que aconteceu com os portadores da síndrome de Down nos anos 1990”, diz o neurocirurgião Pedro Pierro Neto. “Antes, quem tinha Do- wn era rotulado absurdamente de mongoloide.” O apresentador de TV Marcos Mion, cujo filho Ro- meo, de 18 anos, foi diagnosticado aos 7, é um dos princi- pais nomes a erguer a bandeira do autismo, difundindo a relevância do reconhecimento precoce e da inclusão so- cial. No fim do ano passado, ele realizou o sonho do jo- vem ao levá-lo ao palco do seu programa, o Caldeirão, onde o menino dançou ao som de Elvis Presley. Hoje, o maior volume de informações sobre o universo autista é compartilhado e alimentado justamente pelos próprios pacientes e familiares. INÊS249 5 | 11 Aumento de informações voltadas ao público e médicos treinados fazem o número de autistas subir EXPLOSÃO DE DIAGNÓSTICOS OCENSO ESCOLAR DO BRASIL REGISTROU UM AUMENTO DE 280% NA QUANTIDADE DE ESTUDANTES COM TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA (TEA) MATRICULADOS EM ESCOLAS PÚBLICAS E PARTICULARES ENTRE 2017 E 2021 Filósofo e dramaturgo, Henrique Vitorino, de 32 anos, é outro que, após entender sua condição, aprendeu a se re- lacionar melhor com o ambiente ao redor. Seu percurso de autodescoberta é narrado em Manual do Infinito: Relatos de um Autista Adulto (Editora Nova Alexandria), fruto de dois anos de pesquisas depois de receber o diagnóstico. O escritor relata que precisa levar protetores auriculares profissionais para conseguir andar de metrô, uma vez que o barulho para ele é como uma “agulha espetando os tím- INÊS249 6 | 11 OS CENTROS DE CONTROLE E PREVENÇÃO DE DOENÇAS (CDC), DO GOVERNO DOS ESTADOS UNIDOS, ESTIMAM QUE UMA EM CADA 36 CRIANÇAS DE 8 ANOS É AUTISTA — O QUE SIGNIFICA 2,8% DA POPULAÇÃO AMERICANA A ONU CALCULA QUE 70 MILHÕES DE PESSOAS NO MUNDO ESTEJAM DENTRO DO ESPECTRO DO AUTISMO A ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PLANOS DE SAÚDE (ABRAMGE) APONTA QUE O CUSTO DOS TRATAMENTOS DE TEA REPRESENTARAM 9% DOS GASTOS DOS PLANOS DE SAÚDE, MAIS DO QUE O DAS TERAPIAS ONCOLÓGICAS (8,7%), EM 2023 INÊS249 7 | 11 panos”. E, inclusive, criou estratégias para impedir que um estímulo sonoro indesejável o lance a uma crise capaz de deixá-lo três dias trancado no quarto. O mundo, aliás, também está mudando para acolher os autistas. “Estamos, aos poucos, tendo nossa condição res- peitada”, diz Vitorino. “Até os estádios de futebol, como o do Corinthians e o do Palmeiras, já têm salas especiais, vedadas acusticamente, onde podemos assistir aos jogos.” O fato é que, dentro ou fora da bolha, os integrantes do es- E+/GETTY IMAGES ESTÍMULOS Especialistas indicam: quanto antes começar a terapia, melhor INÊS249 8 | 11 pectro ganharam voz. No podcast Fractais, produzido por quatro neurodivergentes com diagnóstico tardio, entram em pauta temas que vão de crise de identidade a bullying. Um dos apresentadores é o psiquiatra Alexandre Valver- de, de 44 anos. Não por ser especialista, mas também por ser... paciente. “Tirei as minhas algemas e agora quero sol- tar as das outras pessoas”, diz o médico, diagnosticado há dois anos, após o período de isolamento imposto pela co- vid-19. Durante a pandemia, Valverde e a família se mu- daram para o interior paulista. Com a vacinação e o con- trole do vírus, todos voltaram a São Paulo, menos o psi- quiatra, que encontrou ali sua zona de conforto. Valverde diz ter dificuldades de interação social, sensi- bilidade ao excesso de luz e ruídos, além de ansiedade. Tanto que trabalha em pé o dia todo, mesmo quando aten- de virtualmente seus pacientes. Os conhecidos sempre o acharam “esquisito”, mas por ser superdotado. De fato, ele tem QI comprovadamente mais alto do que a maioria da população. “Conseguia esconder minhas dificuldades gra- ças à minha capacidade cognitiva”, diz. “Só que isso invisi- bilizava minhas dificuldades e o diagnóstico.” Avesso às mistificações, o psiquiatra faz questão de sublinhar que mesmo sintomas sutis do autismo tendem a gerar proble- mas ao longo do tempo. Isso porque, ainda que disponham de altas habilidades, os autistas podem conviver com uma série de dificuldades no cotidiano. Daí a necessidade de um bom acompanhamento e suporte especializado. INÊS249 9 | 11 As limitações — motoras, psíquicas ou sociais — são justamente o que baliza os níveis do espectro. Quando o indivíduo tem independência para tocar a vida, recebe o diagnóstico de TEA leve, ou grau 1 — caso de Sabatella e outros artistas e ativistas da causa. Mas, quando é preciso contar com cuidadores e terapeutas no dia a dia, o autis- mo perambula entre os níveis 2 e 3. Existem inúmeros de- LIVRE DE AMARRAS O psiquiatra Alexandre Valverde, de São Paulo, suspeitou que podia fazer parte do espectro autista após os meses de isolamento na pandemia de covid-19. O diagnóstico foi confirmado por um especialista, e, desde então, o médico readaptou a rotina e dá voz ao assunto em um programa de podcast e nas onipresentes redes sociais. A R Q U IV O P ES S O A L INÊS249 10 | 11 O bebê não estabelece contato visual com a mãe na amamentação Não olha quando é chamado pelo nome ou quando alguém compartilha um interesse e aponta para algo Não gosta do toque. Prefere ficar sozinho no berço ou quarto A criança tem seletividade alimentar e problemas com texturas Faz gestos repetitivos, com a cabeça ou o tronco, e balança as mãos Não fala ou, quando aprende a falar, repete frases, sem se comunicar Mudanças de rotina provocam irritação, mesmo em jovens adultos Alguns sintomas ajudam os médicos a reconhecer crianças com autismo PISTAS CLÍNICAS INÊS249 11 | 11 safios que cercam a detecção do quadro. Os pais nem sempre captam sinais de atipicidade. Tampouco existem exames de sangue ou imagem para bater o martelo. O diagnóstico é eminentemente clínico, levando em consi- deração uma soma de comportamentos desde a infância (veja exemplos no quadro). Ainda assim, como eviden- ciam relatos nas redes sociais, muitas pessoas vivem anos sem saber que estão dentro do espectro. Quanto antes se abre a caixa do autismo, contudo, me- lhor. “Mesmo quando se encontra apenas um sintoma, devemos tratar o paciente precocemente para que não haja atraso no seu desenvolvimento”, afirma Polanczyk. Foi o caso do autor de livros sobre o universo autista Fer- nando Murilo Bonato, de 16 anos, que recebe ajuda espe- cializada desde os 2. “O neurologista disse para estimu- larmos o que podíamos”, diz a mãe e professora Karine Bonato. Ainda que tenha começado a andar de bicicleta sem rodinhas aos 3 anos e conte com uma boa autono- mia, o garoto só começou a falar aos 12, depois que a mãe passou a acompanhá-lo nos estudos em casa durante a pandemia. Como ele não consegue escrever, dita para ela os textos das lições e das obras que passou a publicar. “Estou conhecendo meu filho, finalmente. E ele está se realizando com essa nova via de expressão”, diz Karine. Vivam as diferenças. ƒ INÊS249 1 | 6 O DIPLOMA MORA AO LADO A duríssima disputa por uma vaga em faculdades de medicina no Brasil está levando uma crescente turma a buscar alternativas em países vizinhos, como a Argentina PAULA FREITAS CIRCUITO PORTENHO Universidade de Buenos Aires: ensino bem avaliado e portas abertas, sem vestibular UBA EDUCAÇÃOGERAL INÊS249 2 | 6 PASSAR para uma faculdade de medicina virou um daque- les torturantes processos para estudantes brasileiros que, quase sempre, tentam uma, duas, três vezes e não conse- guem vencer a dura batalha por um lugar ao sol neste que é o curso mais disputado no país. Em instituições públicas, em média 66 candidatos duelam por uma vaga, concorrên- cia que alcança extraordinários quase 300 aspirantes guer- reando por uma única carteira na Universidade Estadual de Campinas, que registra a maior concorrência nacional. A briga dá uma atenuada no circuito das particulares, mas aí são as cifras que espantam — de 10 000 reais mensais para cima. Em meio aos obstáculos, uma crescente leva de jo- vens vem encontrando alternativas menos onerosas e de boa qualidade em nações vizinhas, como o Paraguai e, mais ainda, a Argentina, onde o afluxo de alunos de nacio- nalidade brasileira multiplicou-se por cinco desde 2017, chegando a um contingente de 20 000, segundo recente le- vantamento do governo. “A gente ouve português por todo o campus”, diz a sergipana Renata Mendonça, 24 anos, que estuda na Universidade de Buenos Aires (UBA) e esclarece: “Na sala de aula, a regra é só espanhol”. O nível do ensino é um atrativo, já que o curso ofereci- do em algumas das universidades fora, sobretudo nas ar- gentinas, se situa à frente, no ranking das melhores da América Latina, do que é ofertado por ótimas brasileiras. É o caso da UBA e da Nacional de La Plata, ambas públi- cas, em colocações superiores às daUniversidade de Bra- INÊS249 3 | 6 sília e da Federal de São Paulo, por exemplo. Não existe ali, nem tampouco no sistema paraguaio, nada como ves- tibular ou o Enem — as vagas são liberadas conforme a demanda, bastando apresentar a documentação e se sub- meter a uma prova de espanhol em que se exige conheci- mento intermediário. A migração é facilitada pelo acordo do Mercosul, que prevê, sem exagerada burocracia, resi- dência temporária de até dois anos (depois, ela precisa ser convertida em permanente) — uma trilha que o presiden- te Javier Milei avisou que pretende dificultar, tributando O ESPORTE UNE Nathalia (à dir.) com colegas brasileiros: à frente de torneios ARQUIVO PESSOAL INÊS249 4 | 6 os estrangeiros, mas, por ora, ficou no discurso. “A procu- ra segue em escalada, é vantajoso vir para cá”, afirma Monique Lemos, que fez do fenômeno um negócio: é dona de uma assessoria que justamente auxilia brasileiros a de- senrolar a papelada e se instalar no país. Avistam-se as digitais da turma verde e amarela em vá- rios setores do dia a dia, como a moda (nunca tantos pés calçaram Havaianas na cena universitária portenha) e o menu das lanchonetes, nos quais empanadas cedem espa- ço a campeões de venda como coxinha, pão de queijo, açaí e brigadeiro. O caldo de cultura, que inclui festas movidas a funk e regadas a chope, também agita o ensino superior dos hermanos, menos habituados a eventos tão informais, assim como as associações que se reúnem em torno de es- portes, as “atléticas”, com numerosa adesão dos locais. Compartilhar o gosto por futebol ajuda. “São formas de matar a saudade e sentir um pouco do Brasil na Argenti- na”, diz a presidente de um desses grupos esportivos, Na- thalia Lopes, 27 anos, que deixou Brasíliaṕara estudar na Universidade Barceló, outra de Buenos Aires. Entre os gastos com a universidade (no caso das parti- culares) e os custos de viver longe de casa, a conta com- pensa: a estimativa dos que moram na capital argentina é de uns 3 500 reais por mês, enquanto na rota paraguaia sai por volta de 2 500 reais. “Os brasileiros já represen- tam inacreditáveis 90% dos alunos de medicina por aqui”, relatou a VEJA Eduardo Franco, diretor da Univer- INÊS249 5 | 6 sidade do Pacífico (UP), que tem o selo de qualidade da Agência Nacional de Avaliação do Ensino Superior do Paraguai. Bem na fronteira com o Mato Grosso do Sul, ainda fica distante do lar paulistano de Itallo Lemos, 24 anos, que acabou chegando lá por indicação de dois pri- mos, formados naquele campus. “É um sacrifício, sim, mas vale muito a pena ter esse diploma”, pondera Itallo. Embora não seja comum, a invasão brasileira faz, vez ou outra, aflorar manifestações de xenofobia. “Soube de alu- nos que saíram chorando da sala após o professor falar OLHO NO CANUDO Itallo Lemos, de São Paulo: o sacrifício envolvido compensa A R Q U IV O P ES S O A L INÊS249 6 | 6 que a pessoa não sabia nem espanhol, imagina medicina”, lamenta a carioca Maria Clara Viegas, 22 anos, da Uni- versidade Nacional de La Plata. A maioria, porém, se sen- te à vontade. “Fui bem acolhida, percebo um interesse deles em conhecer nossa cultura”, diz Renata Mendonça, da UBA, que havia tentado três vezes o vestibular no Bra- sil antes de decidir emigrar. Os passos que se seguem à formatura são, em geral, envoltos em dúvida — permanecer ou não em solo es- trangeiro é o grande ponto de interrogação que paira so- bre essa turma. Logo de cara, os que regressam precisam vencer uma barreira, o Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos (Revalida), um teste conhecido pe- la elevada complexidade, pré-requisito para exercer a profissão no Brasil. Embora os currículos sejam pareci- dos, muita gente não passa de primeira. “A prova é essen- cial para garantir que apenas pessoas bem formadas che- guem ao mercado”, afirma Julio Braga, do Conselho Fe- deral de Medicina. Após se graduar na Bolívia, o primei- ro dos países da América do Sul a ingressar no mapa de brasileiros em busca do canudo, na década de 1980, Ales- sandra Lima, 28 anos, mergulhou nos livros para enfren- tar o Revalida. “Não foi fácil, mas hoje sou médica com orgulho, atuando na minha cidade”, diz ela, que vive em Manaus. Enquanto a ampliação de vagas por aqui se dá vagarosamente, é saltando fronteiras que uma parcela dos brasileiros vira doutor. ƒ INÊS249 1 | 6 UM GÊNIO NOS TRÓPICOS Em 1925, Albert Einstein visitou Argentina, Uruguai e Brasil. Os registros daquela jornada revelam o homem comum diante do inalcançável criador de um universo ALESSANDRO GIANNINI AGENDA CHEIA Diante do meteoro Bendegó, no Museu Nacional do Rio: comentários ambíguos sobre miscigenação DOMÍNIO PÚBLICO HISTÓRIAGERAL INÊS249 2 | 6 É JORNADA que merecia, de fato, mais zelo. No primeiro semestre de 1925, Albert Einstein (1879-1955), já premia- do com o Nobel pelos estudos sobre física quântica e cele- brado pela teoria da relatividade, fez uma viagem de três meses na América do Sul. De 5 de março a 11 de maio, vi- sitou a Argentina, o Uruguai e o Brasil para divulgar seus trabalhos científicos e encontrar as comunidades judai- cas. Sua única incursão pelo continente foi registrada em um diário, hábito adquirido em périplos anteriores pelos Estados Unidos, Extremo Oriente, Palestina e Espanha. Ele anotou tudo em um caderno com 72 páginas pauta- das, em entradas sucintas, pontuadas por comentários so- bre os lugares que visitou, os eventos aos quais compare- ceu e as pessoas que lhe apresentaram. Todo esse material foi reunido no livro Os Diários de Viagem de Albert Einstein (Editora Record), previsto para chegar às livrarias na segunda semana de maio. O histo- riador Ze’ev Rosenkranz, editor no Einstein Papers Pro- ject, entidade que reúne os arquivos do cientista, foi o res- ponsável por organizar a papelada. A fim de obter um re- trato mais abrangente das aventuras no sul, Rosenkranz cotejou as anotações com artigos de jornais, documentos pessoais, discursos e relatórios diplomáticos. Na edição, o arquivista também incluiu cartas e cartões-postais fami- liares. É um tesouro. Há muita especulação em torno da motivação de Eins- tein para a travessia transoceânica. Alguns historiadores INÊS249 3 | 6 batem na tecla evidente: atalho pa- ra a disseminação das teorias que o faziam famoso e para o intercâm- bio científico. Pode ter havido, con- tudo, outra razão, comezinha e hu- mana, demasiadamente humana, para a fuga do refúgio em Berlim: afastar-se de uma relação extra- conjugal com sua secretária à épo- ca, Betty Neumann, muitos anos mais jovem do que ele, um tímido por excelência. “A viagem pode ter fornecido uma maneira convenien- te de encerrar o relacionamento e permitir que ele e a mulher, Elsa, passassem algum tempo separados depois de um período que deve ter sido desafiador para ambos”, anota Rosenkranz. O Brasil representava capítulo fundamental da carreira de Eins- tein, um ponto distante e sentimen- tal. Foi em Sobral, no interior do Ceará, em 1919, a partir de um eclipse solar, que uma equipe de astrônomos britânicos confirmou a mãe de to- das as ideias, a da relatividade geral — um outro grupo de investigação fora deslocado para a Ilha do Príncipe, na OS DIÁRIOS DE VIAGEM DE ALBERT EINSTEIN. Organização de Ze’ev Rosenkranz; tradução de Alessandra Bonrruquer (Record; 288 páginas; 79,90 reais e 49,90 reais em e-book) INÊS249 4 | 6 R EP R O D U Ç Ã O OLHAR FORASTEIRO Cartão-postal da vista do bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, enviado por Einstein à mulher e à enteada em carta de 5 de maio de 1925: “Guardem o cartão-postal, porque é bonitinho” INÊS249 5 | 6 África. “A questão que minha mente formulou foi respon- dida pelo radiante céu do Brasil”, disse ao ser informado dos bons resultados das experiências. Foi nesse tom de júbilo, portanto, que Einstein desem- barcou no Rio de Janeiro. De cara, espantou-se com a na- tureza,como tantos europeus. No diário, anotou em 4 de maio, com letra cuidadosa: “Chegada ao Rio ao pôr do sol, com clima esplêndido. Em primeiro plano, ilhas de grani- to de formato fantástico. A umidade produz um efeito misterioso”. Foi levado ao Museu Nacional, diante do me- teorito Bendegó, encontrado em 1784 no sertão da Bahia. Celebrado como se fosse um chefe de Estado, era um gê- nio a desfilar incômodo com os trópicos. Embora mesmerizado pelo cenário natural da cidade emoldurada pelo Pão de Açúcar (o Cristo Redentor ainda não existia) e pela “miscelânea de povos nas ruas”, que classificou como “deliciosa”, Einstein logo tratou de es- corregar para reflexões um tanto absurdas, elitistas e ra- cistas. Era o criador de um universo, improvável e im- ponderável, a tratar do pequeno mundo aqui embaixo, com todas as suas mazelas e incorreções. “Aqui sou uma espécie de elefante branco para eles, e eles são macacos para mim”, rabiscou. Se os argentinos são “indizivelmen- te estúpidos”, atribuiu uma suposta indolência dos brasi- leiros ao clima. “Todos me dão a impressão de terem sido amolecidos pelos trópicos”, concluiu, como quem punha a língua de fora. INÊS249 6 | 6 Não é o caso de absolvê-lo das estultices, nem mesmo de justificá-las porque era ruim assim naquele tempo. Elas assustam, lidas hoje, ao revelar o sujeito de carne e osso por trás do totem inigualável. Mas há, sim, uma pequena ponderação: as anotações não nasceram para exposição pública. Serviam a interesses pessoais, de quem descreve o que vê, e como ponte para a mulher e a enteada, Mar- got, na Alemanha. “Temos certeza de que não dedicou o diário à posteridade ou para publicação”, afirma Ro- senkranz. O fascinante, na cuidadosa compilação, é poder entrar na mente de quem nos ajudou a pensar de onde vie- mos e, quiçá, para onde vamos. ƒ 1919 Astrônomos britânicos em Sobral: o eclipse validou a relatividade geral O B S ER VA TÓ R IO N A C IO N A L/ D IV U LG A Ç Ã O INÊS249 1 | 6 OLHO VIVO NAS CÂMERAS Sistemas de reconhecimento facial ganham espaço nos estádios, empresas e ruas ao promover a segurança. Uma iniciativa bem-vinda, mas que exige responsabilidade MARÍLIA MONITCHELE ÉTICA O recurso de biometria de rosto da empresa SenseTime, de Hong Kong: regido por normas cada vez mais severas GILLES SABRIE/BLOOMBERG/GETTY IMAGES TECNOLOGIAGERAL INÊS249 2 | 6 POUCAS DÉCADAS atrás, a ideia de abrir portas, desblo- quear aparelhos e acessar eventos por meio da leitura das características do rosto pareceria coisa de ficção científica. Soava como quimera inalcançável. Hoje, porém, a tecnolo- gia de reconhecimento facial avança com vigor por diversos setores da vida cotidiana, de forma inexorável e muito bem- vinda. As câmeras monitoram a circulação de pessoas em prédios, ruas e estádios de futebol. Nos campos esportivos, é iniciativa que evita o uso irre- gular de cartões, emprestados a amigos e familiares ou corrompidos pela sanha dos cambistas. Só entra quem mostra a cara. “É atalho para que os torcedores tenham uma experiência mais rápida e conveniente”, diz Tironi Paz, executivo-chefe da Imply, empresa de controle de acessos em palcos como a Arena MRV, do Atlético-MG; o Beira-Rio, do Internacional de Porto Alegre; a Ligga Are- na, do Athletico-PR; o Estádio São Januário, do Vasco da Gama; e a Arena Pantanal, em Cuiabá. Um outro efeito paralelo — e positivo — é a identificação de criminosos que tentam atravessar as catracas como se não tivessem contas a prestar para a Justiça. Uma parceria da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo com o Al- lianz Parque, do Palmeiras, resultou na prisão de 28 suspei- tos que tentaram assistir a quatro partidas do time em 2024. Um dos detidos era procurado por tráfico internacional de drogas — estava foragido desde março de 2020. Relembre- se que a Lei Geral do Esporte, de 2023, determina a imple- INÊS249 3 | 6 ACESSO Catraca eletrônica do Beira-Rio, estádio do Inter: tranquilidade FI LI P E M A C IE L/ S P O R T C LU B IN TE R N A C IO N A L mentação do monitoramento biométrico em recintos espor- tivos com capacidade para mais de 20 000 pessoas em até dois anos. “Ao tornar o estádio mais seguro, teremos mais famílias, maior média de público e, consequentemente, maior consumo e faturamento”, diz Victor Grunberg, vice -presidente do Internacional. Deve-se celebrar a iniciativa. Convém, contudo, não es- quecer dos efeitos indesejados que podem provocar — e da forçosa discussão ética alimentada pelo inteligente recurso. Hoje, no Brasil, cerca de 72 milhões de pessoas estão poten- INÊS249 4 | 6 cialmente sob vigilância de câmeras de reconhecimento fa- cial na segurança pública (veja no quadro ao lado). É ideia que faz as pessoas andarem com mais tranquilidade, embo- ra não seja imune a erros. O personal trainer João Antônio Trindade foi detido no intervalo do jogo entre Confiança e Sergipe na Arena Batistão, em Aracaju. O torcedor foi con- fundido com um criminoso depois de passar pelo compul- sório reconhecimento eletrônico. Seria liberado em seguida. A extensão da tecnologia é inegável. Até 2028, a expec- tativa é de um crescimento acelerado, atingindo cifras de 12,6 bilhões de dólares em investimentos, em todo o mun- do (pelo menos 48 países a usam maciçamente). É natural, portanto, dada a novidade, que surgissem dores do parto. A principal crítica cutuca um certo “preconceito algorítmi- co”. A taxa de identificação bem-sucedida é imensa entre homens brancos, segundo os estudos. Contudo, o patamar de erro chega a 35% ao trabalhar com as faces de mulheres negras, em distorção inaceitável. A disparidade cria um ambiente propício para discriminação. Um levantamento feito pela Rede de Observatórios da Segurança analisou as prisões feitas a partir da biometria facial e apontou que 90% dos reconhecimentos resultantes em detenção no Bra- sil foram de pessoas negras. “Temos visto movimentos con- trários à adoção e até mesmo banimentos de uso no hemis- fério norte, daí o crescimento do negócio em outras re- giões”, diz Pablo Nunes, coordenador do Centro de Estudos em Segurança e Cidadania (CESeC). INÊS249 5 | 6 Sistemas de reconhecimento facial ganham espaço, mas podem oferecer riscos SOB VIGILÂNCIA 72 MILHÕES DE BRASILEIROS MONITORADOS POR CÂMERAS 209 PROJETOS DE RECONHECIMENTO FACIAL NO BRASIL 728 MILHÕES DE REAIS INVESTIDOS PELO ESTADO DA BAHIA, LÍDER DE USO DA TECNOLOGIA NO PAÍS 90% DOS PRESOS POR RECONHECIMENTO FACIAL EM 2018 ERAM NEGROS Fontes: O Panóptico, Rede de Observatórios de Segurança INÊS249 6 | 6 Países como Bélgica e Luxemburgo não autorizam o uso de reconhecimento facial para o monitoramento de seus ci- dadãos. Nos Estados Unidos, cidades como São Francisco e Boston também baniram instalações desse tipo. Na China, país em que a ferramenta chegou a ser usada para controle da população durante o período mais fechado da pandemia de covid-19, com sucessivas denúncias de invasão de priva- cidade e falta de consentimento, brotam leis de controle, em passo necessário — é cuidado que não impede o extraordi- nário crescimento de uma empresa como a SenseTime, de Hong Kong, a campeã do mundo no negócio, que foi barra- da nos Estados Unidos por suposta violação de direitos hu- manos. O tema, aliás, será ruidoso durante a Olimpíada de Paris, com a inteligência artificial atrelada a imagens, de modo a evitar problemas de segurança. Não há dúvida: a vi- gilância, dentro de normas morais, aprovadas pela socieda- de, é crucial. Trata-se de avançar com cautela, ao equilibrar inovação com responsabilidade. ƒ INÊS249 1 | 6 O ARQUEIRO VERDE E AMARELO Número 1 do mundo no tiro com arco, Marcus D’Almeida coloca no mapa do país o esporte que tão poucos brasileiros conhecem e vive hoje pelo ouro olímpico MONICA WEINBERG APONTAR, ATIRAR, MEDALHA! Marcus em Maricá: doze horas por dia se preparando com a cabeça fixa em Paris A LE X F E R R O GERAL E M P A R I S 2 0 2 4 INÊS249 2 | 6 O ARCO E FLECHA integra o rol dos grandes inventos da humanidade por seu papel essencial para a caça na ba- talha pré-histórica pela sobrevivência e, mais tarde, como uma valiosa arma nas guerras. Importantes civilizações acabaram por fazer do artefato um esporte, especialmen- te apreciado pelos faraós egípcios e que, nas mãos da no- breza chinesa, lá pelo século XI a.C., ganharia seu caráter competitivo. Várias voltas do mundo depois, eis que a mo- dalidade, hoje chamada de tiro com arco e alçada à cate- goria olímpica, desembarcou com tudo num ponto impro- vável do planeta — Maricá, cidade a 60 quilômetros do “Ninguém chega a número 1 do mundo sem gostar de pressão. Eu procurei isso e adoro ser a atração do show” INÊS249 3 | 6 Rio de Janeiro, mais conhecida por se situar na profícua trilha do petróleo fluminense. É lá que o carioca Marcus Vinícius D’Almeida, de 26 anos, o atual número 1 no ran- king mundial, mora e obsessivamente treina com a ideia fixa de conquistar uma medalha de ouro na Olimpíada de Paris, em julho. “Meu esporte é solitário, é você com seu arco, um exercício constante de equilíbrio físico e mental mirando o pódio”, diz Marcus, a quem todos, apesar de seu 1,83 metro, se referem como Marquinhos. No dia em que recebeu a reportagem de VEJA, ele se- guia à risca um roteiro que começa às 8 e só termina às 20 horas. Tocava na caixa de som um trap, subgênero do rap, o que o ajuda no minucioso gesto de posicionar a flecha, congelar o corpo em busca da precisão e disparar em dire- ção ao alvo 70 metros à frente. O ato, que seria repetido 300 vezes, parece quase como um balé, envolto em leveza, mas apenas o arco pesa 4,5 quilos e, no instante do tiro, a carga sobre o corpo sobe para 25. “É um esporte que alia a força bruta ao movimento fino”, explica o biomecânico Henrique Lelis, do Comitê Olímpico do Brasil (COB), que conhece Marcus e ressalta sua capacidade de não se deixar abater quando erra. Foi com frieza e excessiva autocrítica que ele deu o saldo daquela manhã de treinos: de 100 tiros lançados à velocidade média de 228 quilômetros por hora, seis não atingiram a pontuação máxima. O que seria o ra- zoável? “Uns dois tiros fora do alvo”, ele estimou, arrema- tando bem ao seu estilo: “Mesmo assim, é intolerável”. INÊS249 4 | 6 Em Paris, a competição será na esplanada em frente ao Hôtel des Invalides, com seu luminoso domo dourado, on- de está sepultado Napoleão Bonaparte. Marcus tem curio- sidade de entrar lá (embora seu coração pulse mais pela Torre Eiffel), porém, agora nem pensar. “Não dá para tirar a cabeça das flechas, a visita vai ficar para a próxima”, es- clarece ele, que já experimentou o lugar em 2023, quando levou um bronze em uma etapa da Copa do Mundo. Gosta da área, verde e rodeada de belas construções que funcio- nam como anteparo para o vento — um fator imprevisível com o qual nenhum atleta do arco gosta de lidar. Em sua primeira Olimpíada, a do Rio, em 2016, o palco do duelo era o Sambódromo, e na outra, em Tóquio, um campo demasiado aberto. Encarou os Jogos cariocas com 18 anos e perdeu na largada. “Ele ficou obstinado em me- lhorar e ganhar uma medalha no Japão”, lembra sua noi- va, a médica veterinária Bianca Rodrigues, 28 anos, tam- bém praticante do tiro com arco. Mas Marcus seria elimi- nado ali nas oitavas de final, resultado que contribuiu pa- ra ganhar estofo e mais controle sobre a mente. “A derrota sem uma análise é só uma derrota. Com o tempo, eu aprendi a extrair coisas dela”, conta. Ele tinha 12 anos e já era afeito às atividades físicas — natação, remo, capoeira —, quando a mãe, a contadora Denise Carvalho, 60 anos, soube de um programa para crianças e adolescentes no centro de treinamento da Con- federação Brasileira de Tiro com Arco, recém-instalado INÊS249 5 | 6 na cidade. Marcus resolveu tentar, mesmo que isso des- pertasse comentários como os que ouviu Denise: “Diziam que eu estava louca e me perguntavam: ‘Seu filho vai ser índio ou o quê?’ ”. Pois aos 14 o menino ingressou como o caçula da seleção brasileira e, aos poucos, o esporte, ainda bem pouco conhecido no país, foi se fazendo mais disse- minado em Maricá, onde Marcus e a mãe fundaram até um clube, o Dispara Brasil. “É tudo muito novo. Estamos aqui porque, quando não existia nem centro de treinamen- to no Brasil, a prefeitura local nos ofereceu terreno. A pro- fissionalização mesmo tem uns três anos”, relata o presi- dente da confederação, João Cruz. São 2 000 atletas fede- rados, mais que o dobro de 2021, mas nada que se compa- re à multidão de adeptos da Coreia do Sul, hoje a nação com resultados mais consistentes, onde o tiro com arco é tão cultivado quanto o futebol por aqui. Na Olimpíada, a modalidade terá cinco torneios — pa- ra os individuais masculino e feminino (com o nome ain- da em disputa) e o da dupla mista, os brasileiros já estão garantidos. Falta ver se vão conseguir emplacar as vagas por equipe. “As pessoas começaram a falar dos Jogos só agora, mas, para mim, é todo dia, é a minha vida”, enfati- za Marcus, que sente a alta pressão e diz não se incomo- dar. “Ninguém chega a número 1 do mundo sem gostar de pressão. Eu procurei isso e adoro ser a atração do show”, admite, sem rodeios e demonstrando destreza ao posar para a foto. INÊS249 6 | 6 Em sua casa de três quartos, onde mora com Bianca, um é reservado para alojar uma coleção de mais de 200 medalhas e vinte troféus, tratados como joias. Avistam-se ainda referências a Paris-2024 em garrafas, canecas e um ímã de geladeira que o transportam à Cidade-Luz. Ele também tenta relaxar a mente (“faz parte”), jogando Fifa na TV e estudando teoria musical, um hobby. Meditação entra no cardápio dos preparativos. “O barulho depende do silêncio”, lê-se em uma de suas cinco tatuagens, essa no braço esquerdo. “Para ter barulho, plateia, aplauso, vo- cê precisa descobrir esse silêncio interior antes”, filosofa, e, sem tempo a perder, retorna a sua cronometrada rotina rumo a Paris. ƒ INÊS249 1 | 6 O PRÍNCIPE DA SELVA Documentário do Disney+ celebra a beleza, o mistério e a resiliência dos tigres na Índia, cuja população mais do que dobrou nos últimos vinte anos ALESSANDRO GIANNINI QUEM RUGE Shankar, o macho protagonista do filme: furtivo e à espreita da próxima presa MARTYN COLBECK/DISNEY+ AMBIENTEGERAL INÊS249 2 | 6 EM O LIVRO DA SELVA, o escritor britânico Rudyard Kipling (1865-1936) conta a história de Mogli, um meni- no criado por lobos que busca conciliar suas duas nature- zas: a humana e a animal. No clássico da literatura, de- pois levado ao cinema, a criança aprende da mãe loba os ensinamentos da floresta, divididos entre a necessidade de caçar para sobreviver e também para não ser caçado. Há, naquele ambiente, algum equilíbrio improvável, e Ki- pling tratou de não exagerar nas tintas. Com uma exce- ção: o tigre Shere Khan, representação do mal, da violên- cia e da crueldade. A má fama do bicho é indevida. Ele só tem cara, jeito e rugido ameaçadores. O famigerado vilão provavelmente morreria de fome, já que sua marca — a pata defeituosa — não lhe permitiria ir atrás das presas e se tornaria alvo fácil dos verdadeiros e grandes predado- res do planeta, os humanos. O lindo e enigmático felino é personagem central do ótimo documentário Tigre, que acaba de estrear no Dis- ney+. “É um animal maravilhoso”, diz Vanessa Berlo- witz, codiretora da produção, ao lado de Mark Linfield. “No passado, com as câmeras antigas, montávamos um tripé na traseira de um jipe, dávamos uma olhada no bi- cho e depois ele desaparecia. As novas tecnologias nos permitem decifrar seus hábitos.” É passeio necessário em torno do gatão e de mudan- ças ambientais relevantes. Classificado como “em peri- go” na Lista Vermelha da União Internacional para a INÊS249 3 | 6 Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais, o ma- mífero já esteve em situaçãomais confortável. Era encon- trado em toda a Ásia — Central, Oriental e Meridional. Porém, no último século, perdeu 93% de sua área de dis- tribuição natural e agora só sobrevive de forma dispersa em treze países, da Índia ao Sudeste Asiático, em Suma- tra, na China e na extremidade leste da Rússia. Mais de 75% da população mundial dos felinos se concentra nas NUNCA MAIS A rainha Elizabeth diante de um animal abatido: cenas inaceitáveis hoje em dia CENTRAL PRESS/AFP INÊS249 4 | 6 selvas indianas que inspiraram Kipling — e nelas, eis aí uma boa notícia, a espécie aumentou de forma meteórica nas últimas duas décadas. De acordo com o Instituto da Vida Selvagem da Índia, passou de 1 411 espécimes, em 2006, para 3 682, em 2022. Não é matemática simples, a esmiuçada em Tigre. A recente e localizada explosão populacional na Índia de- ve-se a um trabalho de preservação que remonta aos anos 1970, quando o governo local promulgou a Lei de Proteção à Vida Selvagem e demarcou áreas que facilita- ram a conservação dos animais e das florestas tropicais. Com exceção de um período entre os anos 1980 e 1990, quando o mercado paralelo de partes do bicho e de sua pele cresceu de forma exponencial, o investimento na manutenção da vida dos grandes gatos sempre foi priori- dade, e exige atenção permanente. Há casos de inciden- tes isolados em áreas urbanas, que assustam as popula- ções. Daí a relevância de campanhas esclarecedoras, de modo a apartar o medo. O tigre é o animal selvagem mais popular em 44 paí- ses do mundo, de acordo com dados de pesquisa do Goo- gle — no Brasil, o campeão é a baleia. Mascote esportivo, garoto propaganda de cereal e personagem de desenho animado, além de figura de prosa e verso intrigante, fas- cina tanto pela beleza quanto pela aura elusiva e o coti- diano solitário. Por isso, é tão difícil registrá-lo na natu- reza, seja o macho que vaga sozinho em busca de alimen- INÊS249 5 | 6 LISTRADOS E CAMUFLADOS Ferozes e intimidadores, os grandes gatos não estão mais ameaçados de extinção 2 A 4 FILHOTES A CADA DOIS ANOS É A NINHADA QUE UMA FÊMEA PODE TER 14 A 20 HORAS POR DIA É O TEMPO QUE PODEM PASSAR DORMINDO 50 A 65 QUILÔMETROS POR HORA É A VELOCIDADE QUE ATINGEM 14 A 16 ANOS É O TEMPO MÉDIO DE VIDA, MAS CHEGAM ATÉ 20 ANOS 2,5 ATÉ 3,5 METROS DE COMPRIMENTO É O TAMANHO MÉDIO; PESAM DE 135 A 225 QUILOS Fonte: Disney/Instituto da Vida Selvagem da Índia INÊS249 6 | 6 MÃE FELINA Ambar e dois de seus quatro filhotes: mimos e carinhos só até os bebês terem idade para se virar YA S H PA L R AT H O R E /D IS N EY + to, seja a fêmea que cria seus filhotes até considerá-los aptos a se virarem sozinhos. Caçá-los, como já fez a rainha Elizabeth nos anos 1960, com pompa e circunstância, em registros celebra- dos com formosas fotografias, não é mais uma opção. Até porque animais como Ambar e seus quatro filhotes ou o enorme Shankar, protagonistas de Tigre, são essenciais para a manutenção do equilíbrio ambiental e da diversi- dade das florestas que habitam. O melhor a fazer é tratar de entendê- los e compreender que a turma de Shere Khan têm mais medo de nós, humanos, do que nós deles. ƒ INÊS249 1 | 6 MÚSICA PARA OS TECIDOS Victoria Beckham, ex-Spice Girls, chega aos 50 anos ainda mais reconhecida por seu trabalho como estilista, dona de uma marca respeitada e cobiçada SIMONE BLANES V IC T O R IA B E C K H A M B E A U T Y /G E T T Y I M A G E S MODAGERAL EMPREENDEDORA Reação ao sucesso: “Me sinto abençoada, e não apenas como mulher” INÊS249 2 | 6 EM LONDRES, uma festança regada a tequila e repleta da nata da nata no exclusivo clube Oswald’s marcou o 50º ani- versário de Victoria Beckham. Entre os convidados, estrelas como Tom Cruise, Eva Longoria e Salma Hayek, além, é claro, do marido e ex-jogador de futebol, David Beckham, e dos quatro filhos do casal, Brooklyn, Romeo, Cruz e Har- per. Quem mais fez barulho, porém, foram as ex-compa- nheiras de carreira musical: as Spice Girls Geri Halliwell, Melanie Chisholm (Mel C), Emma Bunton e Melanie Brown (Mel B), parceiras no fenômeno pop dos anos 1990. Quando um vídeo da reunião, com uma performance improvisada do hit Stop, foi postado na internet, instantaneamente virou trend topic. Era a celebração de uma figura interessantíssi- ma, ícone de um tempo, mas sobretudo o aval de uma trans- formação: Victoria virou estilista, e das mais cobiçadas. Pode-se dizer que, ao sair do mundo da música, a ex-can- tora — que sempre dividiu os holofotes com as colegas de grupo — fez história também no universo fashion. E não à toa: a inglesa tem talento e já é internacionalmente reconhe- cida pelos desenhos de suas roupas, com direito a desfiles reverenciados em Paris, na semana da moda mais prestigia- da do planeta. “Me sinto abençoada por ter alcançado esse marco não apenas como mulher, mas também por ver quão longe minha marca de moda chegou”, postou. Os números da fama não a deixam mentir: enquanto as ex-Spice somam entre 1 e 1,6 milhão de seguidores nas redes sociais cada, a senhora Beckham tem mais de 33 milhões, e contando. INÊS249 3 | 6 Filha de uma cabeleireira e um engenheiro, ela teve uma infância confortável na cidade de Harlow. Descendente do pintor alemão Carl Heinrich Pfänder, antes interessou-se mais pela arte da dança do que pelo pop rock. Sempre ele- gante, foi logo apelidada de Posh Spice ao fazer sucesso com a banda de meninas — posh é a gíria em inglês para “elegante, requintada”. O bom gosto ao vestir-se a distin- guia das outras integrantes do grupo, que apelavam para roupas coloridas e espalhafatosas. Victoria apostava em looks limpos, com cores neutras, silhuetas ajustadas e sal- CASAL FASHION Com o marido, David Beckham: parceria na vida e no estilo C H A N D A N K H A N N A /A F P INÊS249 4 | 6 tos altíssimos. Era o prelúdio da grife que criaria mais tar- de. “Ela sempre se destacou mais pelas roupas do que pela música em si”, diz Brunno Almeida Maia, pesquisador de moda da Universidade de São Paulo (USP). As Spice Girls se separaram em 2000, e, como as ou- tras, Victoria até tentou carreira solo, mas logo percebeu que tinha outra vocação. Colaborou com marcas de luxo, foi embaixadora da Dolce&Gabbana e desfilou para Ro- berto Cavalli. Em seis anos, fundou uma linha de jeans e escreveu um best-seller com dicas de etiqueta visual, com FENÔMENO POP Spice Girls: Victoria (à esq.) já era a mais elegante do grupo V IN N IE Z U F F A N T E /G E T T Y I M A G E INÊS249 5 | 6 mais de 400 000 exemplares vendidos. A marca que leva seu nome nasceu em 2008 e, desde o princípio, pautou-se por trajes sofisticados, de alfaiataria, e traços minimalis- tas. Não foi preciso muito esforço para virar objeto de de- sejo de gente influente, como a editora de moda Anna Wintour, da top model Miranda Kerr e de estrelas do cine- ma, caso de Kate Winslet e Cameron Diaz. Em 2011, a estilista expandiu a atuação com linhas se- paradas de jeans, óculos e perfumes, sendo premiada co- mo marca de design do ano no British Fashion Awards e ELEGÂNCIA A grife nas ruas e passarelas: aplaudida em Paris e vestindo Kate Winslet e Miranda Kerr N C P /S TA R M A X /F IL M M A G IC /G E T T Y I M A G E S W IR E IM A G E /G E T T Y I M A G E S P E T E R W H IT E /G E T T Y I M A G E S INÊS249 6 | 6 estreando na Semana de Moda de Nova York. Os aplausos dos colegas e designers ecoaram ainda mais forte que os li- kes das celebridades e fãs. Em 2017, ela recebeu a Ordem do Império Britânico pelos serviços prestados à indústria do estilo e, nos anos subsequentes, passou a desfilar suas peças com barulho e ótimos negócios. Victoria, tudo somado, é retrato de uma tendência: o casamento entre estilo e música. Madonna, sempre ela, navegou por essas águas, de mãos dadas com Jean Paul Gaultier. A diva até tentou lançar uma marca, a MaterialGirl, em parceria com a filha, Lourdes Maria — exemplo seguido por gente como as cantoras Rihanna e Avril La- vigne. Nenhuma delas vingou como Posh, hoje sinônimo de elegância. “Faço moda há mais tempo do que canções”, diz ela. Ainda bem. E sempre com discreta e firme pre- sença. Vale, como retrato de quem ela é, ver e rever a ade- siva cena do documentário Beckham, da Netflix, em que, simplesmente sexy, põe a mão no ombro do marido e jun- tos dançam Islands in the Stream, de Dolly Parton e Kenny Rogers. Victoria é chique demais. ƒ INÊS249 1 | 4 Com maior diversidade de produtos nacionais e importados, o mercado de azeite brasileiro começa a ser tratado de modo profissional — e a preços caríssimos ANDRÉ SOLLITTO FOTOS ANNIE & JEAN-CLAUDE MALAUSA/BIOSPHOTO/AFP; E+/GETTY IMAGES GASTRONOMIAGERAL DIVERSIDADE A variedade Koroneiki, da Grécia: público busca maior conhecimento COMO SE FOSSE VINHO INÊS249 2 | 4 QUEM PERCORRE as prateleiras de azeites nos super- mercados com um tantinho de desatenção pode imaginar ter parado numa adega. As garrafas, com tamanhos e for- matos diversos, indicam as variedades de azeitonas usadas na produção, como a espanhola Arbequina, a grega Koro- neiki ou a portuguesa Cordovil, além de uma vastidão de safras. Os preços, ressalve-se, também são equivalentes aos dos vinhos. Rótulos mais simples estão na casa dos 30 reais — as alternativas especiais, tanto as nacionais como as importadas, passam com folga dos 100 reais. As mu- danças climáticas que atingem as regiões produtoras de olivas, de verão inclemente e seca exagerada, sobretudo na Europa, jogaram para baixo a colheita, atalho para o enca- recimento na ponta final, do consumidor. Bem-vindo ao novíssimo mundo do azeite, que deixa a infância e a adolescência para entrar na idade adulta. O mercado do produto, que em 2022 bateu em 70 bilhões de dólares, deve alcançar os 90,5 bilhões de dólares em 2030. A título de comparação: o faturamento global com vinhos é o dobro. Trata-se, agora, de buscar conhecimen- to e incrementar a harmonização com diferentes pratos. Um dos bons exemplos desse caminho de valorização cui- dadosa brota da região do Alentejo, em Portugal. Ali, o grupo Esporão, de celebrada viticultura, começou a ofere- cer azeites cobiçados pelo gosto brasileiro. O catálogo aos poucos se amplia, como reflexo natural do interesse. Há blends, como são chamadas as misturas de variedades, ou INÊS249 3 | 4 os tipos monovarietais, elaborados com uma única azeito- na, caso da Cobrançosa, que saiu de Trás-os- Montes para vicejar no Alentejo. “Não trabalhamos com nenhuma azeitona estrangeira, porque faz parte da nossa proposta e da nossa identidade”, diz a azeitóloga Ana Carrilho, do Esporão. “Queremos mostrar a diversidade que há em Portugal.” Hoje, 75% da produção da reputada casa lusita- na é exportada, boa parte dela ao Brasil. A procura do que vem de fora, é natural, alimentou o plantio pelas bandas de cá, com bons resultados. Recente- mente, o rótulo Potenza Frutado, elaborado pela Fazenda Serra dos Tapes, em Canguçu, no Rio Grande do Sul, foi es- colhido o melhor azeite de oliva extravirgem pelo Guia ESAO, elaborado pela Escola Superior do Azeite de Oliva, na Espanha, referência mundial. A láurea é reflexo da animação do setor. Modalidades artesanais têm chamado a atenção dos especialistas e fo- mentado o movimento de olivoturismo, como é conheci- do o negócio de viagem relacionada ao azeite. O Rio Grande do Sul é o maior produtor brasileiro. Na Serra da Mantiqueira, entre Minas Gerais e São Paulo, há riqueza indizível de escolhas. O Oliq, em São Bento do Sapucaí (SP), tem um restaurante que oferece até menu degusta- ção de azeites, alguns deles premiados em concursos. Em Itanhandu (MG), a Fazenda Serra que Chora oferece hos- pedagem em pousada para os visitantes ansiosos por per- noitar próximos aos olivais. INÊS249 4 | 4 Apesar do avanço, há ainda muito espaço para evolu- ção — e convém lembrar que nos restaurantes o azeite é oferecido tal qual uma commodity sem graça, como se fos- se tudo a mesma coisa. É comum a apresentação do pre- cioso líquido em embalagens de vidro, insossas, sem indi- cação de origem. Nesse aspecto, a bem da verdade, a estra- da é longa. Se há sommeliers para vinhos, é urgente tê-los também para um elemento da gastronomia que não se re- sume a mero molho para saladas. Com a palavra o chef francês radicado em Mônaco, Alain Ducasse, em cujos res- taurantes já pousaram 21 estrelas do Guia Michelin: “Se minha cozinha pudesse ser descrita por um único sabor, seria o do azeite extravirgem, sutil e aromático”. ƒ INÊS249 1 | 3 DESFILE DE CERTEZAS DE PÉ EM UM CAIXOTE, ou no centro de uma roda, um homem discursa. Alguns ficam para ouvir. Outros só espiam e vão embora. É uma cena ainda comum em pra- ças por aí. Ou melhor, em qualquer tela ao alcance de vo- cê. Pois em cada post de rede social e, às vezes, também em textos de jornal, vemos especialistas e palpiteiros des- tilando certezas inabaláveis — ao menos até uma nova vir desbancar as anteriores. A temperança não é hoje artigo popular. Ao longo dos anos em que acompanho o segmento de saúde e bem-estar, vi uma série de “estridências” relacionadas a dietas para emagrecer, desinchar, desintoxicar, além de treinos mais efi- cazes e de remédios milagrosos de todo tipo, fossem receitas caseiras ou fruto da farmacêutica de ponta. Cada novidade que surge é anunciada por alguém como a solução definitiva para o problema em pauta. E tem sempre alguém disposto a ouvir — e também a contestar. À diferença do que ocorre com os palanques físicos, não é tão simples virar as costas para os virtuais. Ao bus- car informação sobre algo que nos interessa, somos inva- LUCILIA DINIZ Nos tempos atuais, sobra estridência e falta moderação INÊS249 2 | 3 didos o tempo todo pelo “último grito”. Retomo essa ex- pressão, tão usada em outras épocas para definir tendên- cias, porque ela parece ter adquirido outro sentido, mais literal. Este mundo no qual pouco se escuta o outro me recorda uma frase de Desmond Tutu (1931-2021). Arce- bispo da Igreja Anglicana e figura central da luta contra o regime racista do apartheid na África do Sul, ele conta- va que seu pai sempre dizia: “Não levante a sua voz; me- lhore os seus argumentos”. Hoje parece que nem a chan- cela do Nobel da Paz, que Tutu levou em 1984, basta pa- ra ele ser ouvido em meio à balbúrdia. Em lugar de diálogos, temos monólogos sucessivos. Como se cada pessoa fosse detentora de uma verdade única. Na prática, sabemos, não é assim. Alternativas ti- das como milagrosas ao nascer tornam-se alvo de ques- tionamento conforme se difundem. Quanto mais uma “Como já dizia Aristóteles: ‘O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete’ ” INÊS249 3 | 3 técnica se torna almejada, mais pessoas se tornam aptas a exercê-la, fazendo-a mais acessível. Isso tem dois efei- tos. Um é o risco de prática indiscriminada. O outro é o conhecimento trazido pela repetição. Nesses “testes do real”, problemas surgem. A cirurgia bariátrica é um exemplo recente. Primeiro realizada sob indicações médicas mais estritas, passou a ser vista como panaceia. Há pouco, estudos mostraram que uma grande parcela dos operados volta a ganhar pe- so. A julgar pela grita que se seguiu, ela estaria condena- da. Mas continua sendo útil, quando há indicação e com o devido acompanhamento. As canetas emagrecedoras passam por processo semelhante. A estridência se faz ou- vir em ondas, ora para louvar seus benefícios, ora para reclamar de seu alcance — como elas não têm genéricos, ao menos até 2026 quando cairá a patente, seu uso se li- mita às camadas de maior renda. No fim, falta temperan- ça para aceitar que, assim como princípios ativos no pas- sado — lembra do orlistat e da sibutramina? —, seu efeito cessa com a interrupção do uso. De minha parte, só prego, sem medo de arrependimen- tos, uma coisa: a moderação.Como já dizia Aristóteles: “O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete”. Prefi- ro observar com calma esse desfile de certezas e formar minha própria opinião. Afinal, prudência e canja de gali- nha não fazem mal a ninguém. Se bem que é capaz de al- guém reclamar da canja. ƒ INÊS249 PRIMEIRA PESSOA 1 | 4 JHONY AGUIAR INÊS249 2 | 4 É UM DESAFIO VIVER DE ARTE NO BRASIL Dalton Paula, 41 anos, trocou o emprego de bombeiro pelos pincéis — e hoje é destaque na Bienal de Veneza MUITOS ARTISTAS NO NOSSO PAÍS precisam ter duas, três, quatro, cinco profissões para obter sustento, e isso mostra como é um desafio enorme viver disso no Brasil. Comigo não foi diferente. Trabalhei como bombeiro militar por quase uma década, época em que conciliei o emprego fixo com a pintura, minha verdadeira paixão. Com muito esforço, consegui vencer os obstáculos e hoje sou um dos convidados na Bienal de Arte de Veneza, uma mostra de grande prestígio internacional, onde exponho uma série de retratos. Mas o início não foi simples. Nasci em Brasília, mas prefiro dizer que sou um artista goianiense. Mudei para a capital de Goiás com minha família ainda na infância, quando minha mãe, funcionária pública, passou em um concurso na cidade. E foi em Goiânia que me INÊS249 3 | 4 tornei artista. Eu adorava histórias em quadrinhos e copiava os desenhos de Os Cavaleiros do Zodíaco usando papel-car- bono, para depois pintá-los com lápis de cor. Já que os gibis eram em preto e branco, a escolha das cores ficava totalmen- te em minhas mãos, brincadeira que eu adorava. Logo mais, na adolescência, tratei de iniciar meus estudos sobre pintura. A convite da mãe de um amigo, entrei aos 14 anos na Escola de Artes Visuais de Goiás, instituto público de formação que funcionava junto com o Museu de Arte Contemporânea da capital. Lá, além de me aprofundar na pintura, tive contato com a fotografia e a performance, técnicas que mexeram muito com a minha cabeça. Frequentar aquele espaço foi o que despertou minha ideia de viver da minha criatividade. O próximo passo para realizar esse sonho foi cursar artes visuais na Universidade Federal de Goiás. Vendia minhas obras por preços baixos a quem se interessasse, para conse- guir comprar mais material e continuar produzindo. Para custear as despesas e permanecer nos estudos, prestei um concurso público, e foi assim que me tornei bombeiro. Além de um segundo emprego, o quartel foi como uma segunda escola para mim. Eu frequentava a faculdade pela manhã e, no restante do dia, me dedicava ao resgate de vítimas de aci- dentes e incêndios. Aprendi muito sobre cuidar das pessoas no tempo em que passei em hospitais, e até hoje a experiên- cia se reflete na minha arte. Lido muito com a questão da cautela e do respeito com os outros quando estou pintando. Penso sempre em como esses personagens gostariam de ser INÊS249 4 | 4 representados, quais roupas gostariam de vestir e em qual contexto social eles estão inseridos. Nas minhas telas, busco evidenciar as pessoas negras, que são maioria no Brasil, mas quase não aparecem nos museus. Em 2016, enquanto ainda equilibrava a profissão de artista com a de bombeiro, fui convidado para expor na Bienal de Arte de São Paulo. Naquele momento, uma voz ecoou na mi- nha cabeça: “Do que mais você precisa para acreditar que a arte é seu caminho?”. O país estava numa crise política, e eu sabia que o desafio de viver de arte era uma constante. Então, eu me arrisquei. Foi um baita gesto de coragem largar o Cor- po de Bombeiros e abraçar de vez a outra carreira. Me agarrei ao pensamento de que, se eu dedicasse toda minha energia àquilo, as portas iriam se abrir. E, por sorte, elas realmente se abriram. A venda dos meus trabalhos na Bienal foi um suces- so, e desde então eu posso dizer que, sim, vivo de arte. Para chegar aonde estou, fui muito ajudado. Uma pessoa que me acolheu foi a Rosana Paulino, minha madrinha na arte. Ela sempre dizia: “Quando você tiver condições, vai passar essa história adiante”. E é o que busco fazer. Fundei o Sertão Negro, ateliê e escola de artes em Goiânia, com o ob- jetivo de apoiar novos talentos. Ser artista vai além de pin- tar: é preciso deixar contribuições para o mundo. ƒ Depoimento dado a Mariana Carneiro INÊS249 1 | 7 AS DONAS DO PRAZER Com Zendaya no picante “trisal” de Rivais e Kristen Stewart puxando o thriller lésbico O Amor Sangra, a temporada prova que, apesar do recato e da correção, ainda há lugar para o sexo explosivo na tela — só que agora sob comando feminino THIAGO GELLI TRIÂNGULO FORTE Zendaya entre seus dois parceiros em Rivais: ménage à trois empoderado MGM PICTURES CINEMACULTURA INÊS249 2 | 7 SOLTANDO FAÍSCA Katy e Kristen em O Amor Sangra: nudez e cenas eróticas A N N A K O O R IS /A 24 os últimos dias de um torneio juvenil de tênis, os cole- gas de quarto Art (Mike Faist) e Patrick (Josh O’Con- nor) estão suados, cansados — e sugestivamente an- siosos. Além da partida que decidirá o título no dia seguinte, afinal, eles convidaram a menina de ouro da modalidade feminina do esporte, Tashi (Zendaya), para tomar umas bebidas em seu quarto de hotel. Surpreendentemente, ela aceita o convite, aparece toda deslumbrante e sensual — e logo tem os dois na palma da mão. Conversa vai, conversa vem, N INÊS249 3 | 7 Tashi se senta na beira da cama, chama a dupla — os marman- jos correm para o seu lado como cachorrinhos —, beija um, re- pete a ação com o outro e os puxa para um enlace triplo, antes de se afastar para observá-los de lábios unidos. Satisfeita com a manipulação fácil, ela sorri e vai embora, estabelecendo assim o complexo ménage à trois que dura por mais de uma década e é o foco de Rivais, estreia picante dos cinemas. A cena pode não espantar pelo conteúdo, mas surpreende pelas doses generosas de algo que Hollywood aparentava ter perdido: a libido. Com estreia marcada para quinta-feira, 1º, S U N S ET B O U LE VA R D /C O R B IS /G ET TY IM A G ES Três momentos do cinema que dizem muito sobre a moral sexual de seu tempo:TELA QUENTE ÚLTIMO TANGO EM PARIS (1972) No embalo da contracultura, o filme de Bernardo Bertolucci resumiu uma era de erotismo nas telas. Hoje, porém, é condenado pela visão machista e pelos abusos que a atriz Maria Schneider teria sofrido em cenas com Marlon Brando INÊS249 4 | 7 D IV U LG A Ç Ã O Love Lies Bleeding — O Amor Sangra colabora para essa sensação ao apresentar o tórrido caso entre a herdeira de um criminoso e uma fisiculturista homicida, vividas pelas atrizes assumidamente lésbicas Kristen Stewart e Katy O’Brian. No thriller, o par enfrenta as ameaças do pai da protagonista, um poderoso traficante, mas ainda reserva tempo para as carícias um tanto explícitas conduzidas pela diretora Rose Glass. A temporada dá resposta explosiva, enfim, a uma inda- gação que rondou o cinema nos últimos anos: é possível existir vida sexual na tela grande nos dias de hoje? Uma mi- NINFOMANÍACA (2013) Com a ascensão conservadora nos Estados Unidos, coube ao cinema europeu manter viva a chama da libido — e ninguém foi mais radical nisso que o dinamarquês Lars von Trier, com o longa em duas partes cheio de lances explícitos INÊS249 5 | 7 U N IV ER S A L P IC TU R ES ríade de fatores nada excitantes indicava que não: a priorida- de dos estúdios para filmes adolescentes de heróis, o avanço conservador nos Estados Unidos, as pesquisas que mostra- vam o incômodo da geração Z com a nudez e as cenas for- tes. A eclosão do movimento #MeToo, em 2017, acrescentou a esses freios um argumento irrefutável: boa parte do que era exibido nos filmes como prazer para adultos, especial- mente a partir do final dos anos 1960, foi feita com base no prisma machista da indústria — e pior: às custas de abusos morais e sexuais inaceitáveis contra tantas atrizes. CINQUENTA TONS DE CINZA (2015) A escassez de desejo atingiu o fundo do poçocom a trilogia baseada nos livros de E. L. James, na qual fetiches “proibidos” ganham uma roupagem asséptica e água com açúcar. Um sexo burocrático e nada excitante — mas muito comercial INÊS249 6 | 7 Caso clássico do revisionismo da libido se deu com o cult Úl- timo Tango em Paris (leia no quadro). Nos últimos anos, bus- cou-se fazer justiça à francesa Maria Schneider (1952-2011), que se sentiu “violentada” por Bernardo Bertolucci e Marlon Bran- do nos bastidores por não ter sido avisada de que o colega utili- zaria manteiga com fins capciosos na cena mais famosa do lon- ga. Quarenta anos depois, Azul É a Cor Mais Quente (2013) causou polêmica com uma cena íntima de dez minutos cuja fil- magem foi descrita como “horrível” pelas atrizes. Exemplos as- sim foram a senha para uma nova classe profissional se impor: os “coordenadores de intimidade”, profissionais (normalmente mulheres) que asseguram o conforto das atrizes no set. Passada mais de meia década desse novo e louvável mo- do de conduta, porém, a atual safra de longas chega para provar que, sim, os morros de Los Angeles ainda têm seu quê de Babilônia — ainda que a chave para acessá- la agora já não seja a mesma dos filmes que incendiaram a imagina- ção no passado, como 9 1/2 Semanas de Amor (1986) ou Ins- tinto Selvagem (1992), com seu apelo principalmente ao voyeurismo masculino. O quente agora é o desejo feminino — e isso vem dando uma baita química. Um exemplo dessa nova forma de ousadia é Pobres Cria- turas, filme do diretor Yorgos Lanthimos em que a vencedo- ra do Oscar, Emma Stone, encarna uma criatura com corpo de mulher adulta e cérebro despudorado, que então se entre- ga a dezenas de experimentos carnais notadamente gráficos. Para as múltiplas cenas, ela teve o auxílio de uma coordena- INÊS249 7 | 7 SERELEPE Emma Stone (com Mark Ruffalo) em Pobres Criaturas: haja energia S EA R C H LI G H T P IC TU R ES dora de intimidade, mas também tomou as rédeas para si, as- sumindo o papel de produtora do longa. “Quando dizem que o filme é exemplar do olhar masculino por ser dirigido e es- crito por um homem, estão negando minha colaboração ar- tística”, disse em conversa com a colega Olivia Colman. Seguindo a trilha de Emma, Zendaya é a produtora que está no comando de seu próprio “trisal” em Rivais — que, apesar de não conter cenas explícitas, exala malícia a cada curva. Já Kris- ten Stewart, homossexual assumida e militante, pode chocar quem só se lembra da mocinha da franquia juvenil Crepúsculo: em O Amor Sangra, ela está soltíssima — postura que credita ao clima construtivo e de diálogo no set. “É como ter uma con- versa aberta sobre o que todos desejam e, assim, proporcionar uma ótima transa”, já resumiu. As novas musas do prazer no ci- nema são senhoras de seus corpos — ainda bem. ƒ INÊS249 1 | 3 ASTROS ANÔNIMOS O filme O Dublê se vale do humor e do carisma de Ryan Gosling para celebrar o perigoso ofício dos profissionais que garantem ótimas cenas de ação, mas ainda lutam pelo reconhecimento DURO NA QUEDA Gosling no filme: cenas exuberantes e roteiro cômico sobre uma busca a um ator desaparecido ERIC LACISTE/UNIVERSAL PICTURES CINEMACULTURA INÊS249 2 | 3 VESTIDO com um macacão antichamas e usando acessó- rios para proteger os dentes e o pescoço, Colt (Ryan Gos- ling) está pronto para encarar uma perigosa cena de ação em um filme de Hollywood. O momento é essencial para ele: dublê de uma grande estrela do cinema, Colt estava ha- via mais de um ano afastado do trabalho após um grave aci- dente em outro set. Na sequência que marca seu retorno, ele deve dirigir um carro em alta velocidade pela praia, com pouca tração na areia, e capotar várias vezes. A meta é atin- gida e superada: o veículo gira oito vezes e meia — um re- corde histórico. A comemoração é dupla: enquanto em cena o personagem de Gosling é celebrado pelo feito, nos bastido- res de O Dublê (The Fall Guy, Estados Unidos, 2024), que estreia nos cinemas na quinta-feira 2, o diretor David Leitch urra de alegria enquanto o time tira do carro Logan Holla- day, dublê de Gosling — e que entrou ali, de verdade, para o Guinness, o livro dos recordes. Na trama de contorno metalinguístico, Colt deve não só ser o profissional que se arrisca no lugar do astro mimado Tom Ryder, vivido com gosto por Aaron Taylor-Johnson, como precisa ainda encontrá-lo, já que o ator desapareceu antes do fim das filmagens de uma rocambolesca produção apocalíptica. O longa usa e abusa dos dotes cômicos de Gos- ling e também das excelentes cenas de perseguição, lutas e fugas — no ar, na terra e até no mar. Tal resultado é fruto de experiências passadas do diretor: Leitch começou a carrei- ra, ele próprio, sendo dublê de medalhões como Brad Pitt e INÊS249 3 | 3 Matt Damon, antes de se embrenhar com sucesso na função de diretor. Conduziu alguns exemplares exuberantes e cria- tivos do gênero de ação, caso de Atômica, Velozes e Furio- sos: Hobbs e Shaw e do hilário Trem-Bala, e ainda assina como produtor a saga John Wick — a qual conta com a dire- ção de outro ex-dublê, Chad Stahelski. A trilha desses profissionais até a direção não é raridade — e atesta o valor de quem sabe manobrar uma boa atua- ção física, o ângulo ideal e o ritmo da cena. Leitch engrossa uma fila puxada por outros talentosos ex-dublês, como Bruce Lee, Jackie Chan e até mesmo o incomparável ci- neasta John Ford, que começou entre carros explodindo antes de levar quatro estatuetas do Oscar por obras essen- ciais, entre elas No Tempo das Diligências (1939) e As Vi- nhas da Ira (1940). Enquanto O Dublê se prepara para cha- coalhar as bilheterias, o diretor e seus colegas intensificam o lobby que pede à Academia de Hollywood uma categoria específica no Oscar para premiar o ofício. É justo: os astros anônimos merecem reconhecimento. ƒ Raquel Carneiro INÊS249 1 | 5 O VALOR DA INTIMIDADE Uma nova série sobre o roqueiro Bon Jovi reforça tendência curiosa: todo artista agora quer um documentário tocante para chamar de seu — e se autopromover FELIPE BRANCO CRUZ JO N K O PA LO FF /W IR EI M A G E /G ET TY IM A G ES N ET FL IX H U LU N ET FL IX ENTRETENIMENTOCULTURA 1 4 5 INÊS249 2 | 5 S W A N G A LL ET /W W D /P EN S K E M ED IA /G ET TY IM A G ES JA M ES D EV A N EY /G C IM A G ES /G ET TY IM A G ES DONO DOS FAMOSOS agudos de Livin’ on a Prayer, Jon Bon Jovi alarmou os fãs há um mês com uma revelação dramática. O roqueiro americano de 62 anos confidenciou que, após operar as cordas vocais, não se sente capaz de fazer shows — e sinalizou uma eventual aposentadoria. Embora seus problemas sejam reais, a declaração foi mili- metricamente pensada para outro fim: despertar interesse pela série documental Thank You, Goodnight: A História EXPOSIÇÃO CALCULADA Selena Gomez (1), Bon Jovi (2), Céline Dion (3), Arnold Schwarzenegger (4), Sylvester Stallone (5) e Lady Gaga (6): biografias devassadas, mas sem perder o controle narrativo da história 2 3 6 INÊS249 3 | 5 de Bon Jovi, já disponível no Star+. Em quatro episódios, o programa acompanha o músico de Nova Jersey em sua úl- tima turnê, em 2023, marcada por críticas à sua voz e pela ruidosa briga com seu principal parceiro, o guitarrista Ri- chie Sambora — que havia deixado a banda alguns anos antes e participa do doc contando uma versão pouco con- vincente do rompimento. Ao final, a verdadeira utilidade da série fica clara: Bon Jovi anuncia seu novo álbum, Fore- ver. Spoiler: sem Sambora nas guitarras. Com o chapa-branca Thank You, Goodnight, Bon Jovi reforça um fenômeno curioso: numa era em que essas produções ganharam peso nas plataformas de streaming, toda celebridade quer um doc para chamar de seu. Nos últimos anos, esses programas surgiram aos montes, ace- nando ao espectador com acesso inédito à intimidade de famosos tão díspares quanto astros de ação e divas pop, de ArnoldSchwarzenegger e Sylvester Stallone a Lady Gaga ou Selena Gomez. Não é difícil detectar o pulo do gato dos novos docu- mentários. Eles fascinam o público ao vender um mergu- lho confessional nas fragilidades dos grandes artistas — expondo como, lá no fundinho, eles são gente como a gen- te. Algumas produções são de fato impactantes e expõem histórias reais corajosas. O ator americano Val Kilmer se abre de forma tocante sobre o câncer que arruinou sua car- reira num filme de 2021; em junho, chegará ao Prime Vi- deo o antecipado I Am: Céline Dion, em que a cantora ca- INÊS249 4 | 5 nadense mostrará os bastidores de sua luta contra a sín- drome da pessoa rígida, doença autoimune que afeta o sis- tema nervoso central. Mas mesmo os melhores docs da sa- fra atual oferecem um anteparo valioso aos artistas: seus rasgos de franqueza e até as confissões mais dolorosas se dão sempre num ambiente controlado e seguro. Como as celebridades têm total controle da narrativa, os documentários se transformaram, sobretudo, em excelentes peças de autopromoção. A Netflix desbravou a seara em 2017, quando lançou Five Foot Two, produção em que Lady Gaga conta como lida com a fibromialgia, doença que lhe causa dores lancinantes. Num expediente narcisístico típico, a musa pop fala de dor, mas faz questão de enfatizar seu po- der: a certa altura do filme, posta um vídeo no Instagram e imediatamente recebe milhões de likes. Nos casos de Arnold Schwarzenegger e Sylvester Stallo- ne, que também lançaram produções autobiográficas na Netflix, demonstra-se outro uso marqueteiro dos docs: eles servem para amenizar sua imagem de brutamontes machis- tas e egocêntricos. Os dois atores participam dos programas um do outro para falar de sua propalada rivalidade — sem- pre com declarações elogiosas. E os dramas verdadeiros em suas biografias são amortizados por uma narrativa açucara- da. Schwarzenegger expõe detalhes sobre o passado nazista do pai e se abre sobre o filho Joseph Baena, fruto de um rela- cionamento fora do casamento. Stallone dedica boa parte do tempo a falar do filho Sage, que sofria de depressão e mor- INÊS249 5 | 5 reu aos 36 anos, e também de seu pai, Frank, homem vio- lento que jamais aprovou sua carreira. O espectador sai dos programas nutrindo mais simpatia pelos pobres fortões. Na música, Katy Perry foi uma das primeiras a se expor dessa forma, em Katy Perry: Part of Me, lançado nos cine- mas em 2012. Boa parte do filme é dedicada a falar sobre como ela se recuperou de um divórcio e foi capaz de lançar um novo disco de sucesso. Lançado ano passado na Apple TV+, Minha Mente e Eu mostra os duros anos de tratamen- to de Selena Gomez contra o lúpus e o transtorno bipolar, justificando por que ela parou de fazer shows e decidiu virar atriz. Meses atrás, a Netflix trouxe a mania ao Brasil, com Se Eu Fosse Luísa Sonza, em que a cantora fala sobre vida amorosa, como lida com os haters e também de saúde men- tal — além de promover seu álbum mais recente, claro. A in- timidade nunca teve tanto valor na tela. ƒ INÊS249 1 | 4 EPITÁFIO GENIAL Mostra em Londres lança luz sobre o quadro misterioso, considerado o trabalho final de Caravaggio, que revela o rosto sofrido do mestre pouco antes da morte AMANDA CAPUANO ARTECULTURA IN TE S A S A N PA O LO C O LL EC TI O N G A LL ER IE D ’IT A LI A INÊS249 2 | 4 EM MAIO DE 1606, o genial e encrenqueiro Michelan- gelo Merisi — ou, simplesmente, Caravaggio (1571-1610) — entrou em uma briga violenta com um cafetão chama- do Ranuccio Tomassoni. Provocado por uma partida de jogo ou uma disputa amorosa, teorizam estudiosos, o combate acabou com o assassinato de Tomassoni e uma AUTORRETRATO? O Martírio de Santa Úrsula, com o rosto que se acredita ser do pintor em destaque (acima): o mestre barroco costumava se representar de maneira trágica nas próprias obras, e deixou esse registro de sua face dilacerada pelos ferimentos que sofreu em briga numa taverna INÊS249 3 | 4 caçada a Caravaggio: como punição, qualquer pessoa nos estados papais poderia matar o pintor barroco e oferecer sua cabeça como prova. Amedrontado, Caravaggio fugiu de Roma e fez um périplo pelo país: nos quatro anos se- guintes, esteve em Nápoles, Malta, Sicília e retornou a Nápoles antes de partir para Porto Ercole, na Toscana, onde morreu em julho de 1610. Antes disso, no entanto, produziu obras como a magistral Salomé com a Cabeça de João Batista (1609-1610) e, dois meses antes da via- gem final, deu suas derradeiras pinceladas no glorioso O Martírio de Santa Úrsula — estrela da mostra O Último Caravaggio, que acaba de entrar em exibição na National Gallery de Londres. A representação de Santa Úrsula é a pintura documen- tada mais próxima da data de sua morte. Inicialmente atribuída a pupilos de estilo caravaggesco, a obra só foi apontada como sendo dele nos anos 1980, depois que car- tas preservadas em Nápoles, e datadas de maio de 1610, revelaram que fora encomendada a Caravaggio por Mar- cantonio Doria (1572-1651), então príncipe de Angri. Mais tarde, a autoria foi reforçada pelo achado de inscrições no verso do quadro: a assinatura póstuma d. Michel Angelo da/Caravaggio 1616 e as iniciais M.A.D., adornadas por uma cruz, escritas após a morte do dono, em 1651, refor- çando a encomenda do nobre ao pintor. Sob posse da família original durante séculos, a pintura ficou pendurada despercebida no Palazzo Doria d’Angri até INÊS249 4 | 4 o século XX, e passou para outra coleção particular ao ser adquirida como parte de uma villa antes pertencente ao clã. Publicamente, só foi revelada em 1963, em uma exposição em Nápoles, ainda sem a autoria de Caravaggio. Hoje per- tencente ao Banco Intesa Sanpaolo, a pintura fica exposta na Gallerie d’Italia, na Via Toledo, em Nápoles, de onde foi retirada para a mostra inglesa. Com o jogo de luz e sombras típico do mestre, a pin- tura captura Santa Úrsula pouco antes de seu martírio. Diz a crença que ela e um grupo de virgens que a se- guiam foram capturados e mortos pelos hunos. O rei te- ria se oferecido para salvar a vida de Úrsula casando-se com ela, mas a moça recusou a oferta e foi morta por uma flecha. Acima da mulher martirizada, surge um provável autorretrato do artista, que costumava se pintar de modo trágico nas obras — aqui, aparece desfigurado e pálido assistindo à cena. “É nosso último vislumbre de um homem desesperado emergindo de um dos momen- tos mais conturbados de sua vida”, escreve a curadora Francesca Whitlum-Cooper. A falta de vitalidade não é à toa: meses antes, ao sair de uma taverna, ele foi surpreendido por inimigos e feri- do no rosto com golpes tão graves que suas feições se tornaram quase irreconhecíveis. Morreu pouco depois, possivelmente vítima de uma sepse adqui ri da através de um ferimento de outra briga, sugerem pesquisas recen- tes. O epitáfio do gênio é tão trágico quanto sua obra. ƒ INÊS249 1 | 3 QUEM É VOCÊ, ADOLESCENTE? ROMEU E JULIETA eram adolescentes, como tão bem mostrou Zefirelli no cinema. Verdade: a intensidade de seus sentimentos só poderia ocorrer na adolescência. Um adulto pensaria duas vezes em atitudes tão radicais quanto o suicí- dio por amor. Até mesmo desconfiaria do próprio amor. “Será que eu gosto mesmo dela? Ou dele?” — pensaria Ro- meu. “Mas ele nem passou no Enem”, refletiria uma Julieta contemporânea e cautelosa. O limbo que existe entre a in- fância e a fase adulta, é disso que estou falando. Você não é mais criança para ganhar festas temáticas com balões. Ao mesmo tempo, não costuma ter as obrigações da vida adul- ta. Mas é claro que estou falando de um recorte da socieda- de, da classe média em diante. É uma fase terrível. O adoles- cente não sabe quem é, os pais não sabem como agir diante de tantas angústias e tensões. Inclusive, na medicina surgiu uma especialidade para dar conta desse período: o hebiatra. Antes, os sofridos adolescentes eram obrigados a esperar aconsulta em salas de pediatras com ursinhos, joguinhos e WALCYR CARRASCO As eternas (e novas) dores e delícias de ser jovem INÊS249 2 | 3 crianças chorando. Justo eles, que já se consideravam adul- tos e aguardavam a data de tirar carteira de motorista! É um momento de definições: escolher uma faculdade, por exem- plo, é um martírio. Pior: na maioria das vezes, o adolescente pouco sabe da profissão que está escolhendo ao se inscrever no vestibular; fugir dos estudos para entrar num mosteiro; ou arrumar um emprego e já despencar no mercado de tra- balho. Os hormônios estão explodindo. Frequentemente, as espinhas também. Há grandes paixões no ar, mas pode ser difícil realizá-las sem um cantinho só seu. Alguns vivem sua grande história de amor na intimidade do cinema — ou até mesmo no toalete de uma festa. A que grupo pertencer: o da frente da sala, do meio ou do fundão? Cada escolha é um universo que se abre. Os pais que se segurem. Dizer não para um adolescente da época di- gital pode ser muito difícil. A nova geração está acostumada “A nova geração está acostumada a dar unfollow se algo lhe desagrada. Só que não pode deletar os pais” INÊS249 3 | 3 a dar unfollow quando algo lhe desagrada. Só que não pode deletar os pais. Portas batem. Os pais projetam sonhos que não realizaram. Os filhos, muitas vezes, só acham que eles são chatos. – Pai, posso fazer isso? – Pergunta pra sua mãe. – Mãe, posso fazer aquilo? – Pergunta pro seu pai. O adolescente é um ser sensível, mesmo quando age co- mo um pit bull. Mas cada época tem seu DNA. Na minha, eu pensava que ia mudar o mundo. Hoje, realmente o mundo mudou para os adolescentes que estão por aí. Não é fácil construir uma vida no universo digital. Existir fisicamente, no metaverso, conviver com a IA, e correr o risco de ver um robô roubar seu futuro emprego é de arrasar. Os desafios da minha adolescência eram outros: me posicionar contra o regime militar, aprender inglês, e não perder nem uma passeata. Na adolescência, a gente pode votar. É uma grande responsabilidade das muitas que de- sabam. Mais que tudo, o jovem precisa descobrir quem é e como será. E isso só se faz no caminho, que pode ser difí- cil. Mas um dia todos nós descobrimos que o caminho é a melhor parte da vida. ƒ INÊS249 1 | 8 CULTURA VEJA RECOMENDA TELEVISÃO HACKS — TERCEIRA TEMPORADA (no Max a partir de quinta-feira 2) Pioneira entre as poucas mulheres da comédia stand-up, Debo- rah Vance (Jean Smart) desfrutou de anos gloriosos — até cair no ostracismo. Na primeira temporada de Hacks, a veterana contrata a jovem Ava (Hannah Einbinder), uma roteirista que foi cancelada nas redes sociais. Juntas no limbo, elas vão de uma turnê micada pelo interior dos Estados Unidos até a pro- dução de um elogiado especial. Na nova e apetitosa leva de epi- sódios, a dupla inicialmente está separada: Deborah desfruta de um novo auge na carreira, e Ava vive um raro bom momento na vida pessoal e profissional. Mas o sucesso, quem diria, as deixa entediadas. Quando se reencontram, as parceiras que bri- gavam como cão e gato se aliam para sair da mesmice — mes- mo que para isso arrisquem tudo o que foi conquistado. B ET H D U B B ER /M A X ESTRELA Jean Smart (no centro) na série Hacks: comediante desfruta de um novo sucesso após ostracismo INÊS249 2 | 8 LIVRO O PAÍS DOS OUTROS, de Leïla Slimani (tradução de Dorothée de Bruchard; Intrínseca; 320 páginas; R$ 69,90 ou R$ 46,90 em e-book) Em meio à Segunda Guerra, a jovem francesa Mathilde se apaixona pelo soldado marroquino Amine, que faz parte do Exército francês. Ao fim do conflito, o casal fixa residência em Meknés, cidade do país africano cheia de colonos euro- peus. Inspirada na família da franco-marroquina Leïla Sli- mani, vencedora do prestigioso Goncourt, a trama mergu- lha em temas como colonialismo e racismo ao seguir o casal no dia a dia marcado por diferenças culturais, dando aten- ção especial às dificuldades vividas pelas mulheres. RAÍZES LITERÁRIAS Leïla Slimani: bela narrativa inspirada na história dos avós C AT H ER IN E H ÉL IE INÊS249 3 | 8 DISCO THIS AIN’T THE WAY YOU GO OUT, de Lucy Rose (disponível nas plataformas de streaming) Umas das mais celebradas cantoras da nova música folk do Reino Unido, a pianista Lucy Rose achou que jamais voltaria a tocar. Após o parto de seu filho em 2021, a artista de 34 anos desenvolveu uma forma rara de osteoporose que lhe causava excruciante dor nas costas. A superação a inspirou a retornar ao pia- no. Ao contrário do que se poderia supor, as canções que surgiram são alegres, mesmo em letras confes- sionais como Could You Help Me, em que descreve a busca pela cura, ou No More, a mais animada e sel- vagem do álbum. ƒ INÊS249 4 | 8 CULTURA OS MAIS VENDIDOS FICÇÃO 1 a biblioteCa Da meia-noite Matt Haig [2 | 94#] BERTRAND BRASIL 2 tuDo é rio Carla Madeira [3 | 82#] RECORD 3 é assim que aCaba Colleen Hoover [5 | 136#] GALERA RECORD 4 em agosto nos Vemos Gabriel García Márquez [8 | 6#] RECORD 5 uma família feliZ Raphael Montes [1 | 5] COMPANHIA DAS LETRAS 6 é assim que Começa Colleen Hoover [7 | 73] GALERA RECORD 7 VeritY Colleen Hoover [9 | 105#] GALERA RECORD 8 as meninas Lygia Fagundes Telles [4 | 2] COMPANHIA DAS LETRAS 9 a emPregaDa Freida McFadden [10 | 15#] ARQUEIRO 10 o aVesso Da Pele Jeferson Tenório [6 | 8#] COMPANHIA DAS LETRAS INÊS249 5 | 8 NÃO FICÇÃO 1 nutrir Gisele Bündchen [0 | 1] BEST SELLER 2 as seis lições Ludwig von Mises [0 | 2#] LVM 3 nação DoPamina Dra. Anna Lembke [2 | 39#] VESTÍGIO 4 a CaDa Passo Anderson Birman [7 | 7#] CITADEL 5 ráPiDo e DeVagar Daniel Kahneman [0 | 193#] OBJETIVA 6 o PrínCiPe Nicolau Maquiavel [5 | 41#] VÁRIAS EDITORAS 7 se não eu, quem Vai faZer VoCê feliZ? Graziela Gonçalves [3 | 12#] PARALELA 8 em busCa De mim Viola Davis [0 | 75#] BEST SELLER 9 soCieDaDe Do Cansaço Byung-Chul Han [4 | 56#] VOZES 10 mulHeres que Correm Com os lobos Clarissa Pinkola Estés [10 | 185#] ROCCO INÊS249 6 | 8 AUTOAJUDA E ESOTERISMO 1 Café Com Deus Pai 2024 Junior Rostirola [1 | 18#] VÉLOS 2 ou Vai ou Voa Josef Rubin e Hendel Favarin [3 | 2] BUZZ 3 o liVro que VoCê gostaria que seus Pais tiVessem liDo Philippa Perry [0 | 5#] FONTANAR 4 Como falar sobre sexualiDaDe Com as Crianças Leiliane Rocha [0 | 1] ASTRAL CULTURAL 5 mais esPerto que o Diabo Napoleon Hill [6 | 245#] CITADEL 6 o PoDer Da autorresPonsabiliDaDe Paulo Vieira [2 | 93#] GENTE 7 Hábitos atômiCos James Clear [4 | 45#] ALTA BOOKS 8 o Homem mais riCo Da babilônia George S. Clason [8 | 165#] HARPERCOLLINS BRASIL 9 a PsiCologia finanCeira Morgan Housel [5 | 31#] HARPERCOLLINS BRASIL 10 os segreDos Da mente milionária T. Harv Eker [9 | 455#] SEXTANTE INÊS249 7 | 8 INFANTOJUVENIL 1 o fabriCante De lágrimas Erin Doom [1 | 3] HARPERCOLLINS 2 o Pequeno PrínCiPe Antoine de Saint-Exupéry [3 | 415#] VÁRIAS EDITORAS 3 Promessas Cruéis Rebecca Ross [2 | 2] ALT 4 a lenDa Da Caixa Das almas Paola Siviero [0 | 1] GUTENBERG 5 HarrY Potter e a PeDra filosofal J.K. Rowling [5 | 423#] ROCCO 6 Coraline Neil Gaiman [0 | 71#] INTRÍNSECA 7 Diário De um banana Jeff Kinney [8 | 27#] VR 8 as aVenturas De miKe Gabriel Dearo e Manu Digilio [7 | 27#] OUTRO PLANETA 9 o menino, a touPeira, a raPosa e o CaValo Charlie Mackesy [6 | 22#] SEXTANTE 10 as aVenturas De miKe 4 — a origem De robson Gabriel Dearo e Manu Digilio [9 | 14#] OUTRO PLANETA INÊS249 8 | 8 [A|B#] — A] posição do livro na semana anterior B] há quantas semanas o livro aparece na lista #] semanas não consecutivas Pesquisa: Bookinfo / Fontes: Aracaju: Escariz, Balneário Camboriú: Curitiba, Barra Bonita: Real Peruíbe, Barueri: Travessa, Belém: Leitura, SBS, Travessia, Belo Horizonte: Disal, Jenipapo, Leitura, Livraria da Rua, SBS, Vozes, Bento Gonçalves: Santos,Betim: Leitura, Blumenau: Curitiba, Brasília: Disal, Leitura, Livraria da Vila, SBS, Vozes, Cabedelo: Leitura, Cachoeirinha: Santos, Campina Grande: Leitura, Campinas: Disal, Leitura, Livraria da Vila, Loyola, Senhor Livreiro, Vozes, Campo Grande: Leitura, Campos do Jordão: História sem Fim, Campos dos Goytacazes: Leitura, Canoas: Mania de Ler, Santos, Capão da Canoa: Santos, Caruaru: Leitura, Cascavel: A Página, Colombo: A Página, Confins: Leitura, Contagem: Leitura, Cotia: Prime, Um Livro, Criciúma: Curitiba, Cuiabá: Vozes, Curitiba: A Página, Curitiba, Disal, Evangelizar, Livraria da Vila, SBS, Vozes, Florianópolis: Curitiba, Catarinense, Fortaleza: Evangelizar, Leitura, Vozes, Foz do Iguaçu: A Página, Frederico Westphalen: Vitrola, Garopaba: Livraria Navegar, Goiânia: Leitura, Palavrear, SBS, Governador Valadares: Leitura, Gramado: Mania de Ler, Guaíba: Santos, Guarapuava: A Página, Guarulhos: Disal, Leitura, Livraria da Vila, SBS, Ipatinga: Leitura, Itajaí: Curitiba, Jaú: Casa Vamos Ler, João Pessoa: Leitura, Joinville: A Página, Curitiba, Juiz de Fora: Leitura, Vozes, Jundiaí: Leitura, Limeira: Livruz, Lins: Koinonia, Londrina: A Página, Curitiba, Livraria da Vila, Macapá: Leitura, Maceió: Leitura, Livro Presente, Maringá: Curitiba, Mogi das Cruzes: A Eólica Book Bar, Leitura, Natal: Leitura, Niterói: Blooks, Palmas: Leitura, Paranaguá: A Página, Pelotas: Vanguarda, Petrópolis: Vozes, Poços de Caldas: Livruz, Ponta Grossa: Curitiba, Porto Alegre: A Página, Cameron, Disal, Leitura, Macun Livraria e Café, Mania de Ler, Santos, SBS, Taverna, Porto Velho: Leitura, Recife: Disal, Leitura, SBS, Vozes, Ribeirão Preto: Disal, Livraria da Vila, Rio Claro: Livruz, Rio de Janeiro: Blooks, Disal, Janela, Leitura, Leonardo da Vinci, Odontomedi, SBS, Rio Grande: Vanguarda, Salvador: Disal, Escariz, LDM, Leitura, SBS, Santa Maria: Santos, Santana de Parnaíba: Leitura, Santo André: Disal, Leitura, Santos: Loyola, São Bernardo do Campo: Leitura, São Caetano do Sul: Disal, Livraria da Vila, São João de Meriti: Leitura, São José: A Página, Curitiba, São José do Rio Preto: Leitura, São José dos Campos: Amo Ler, Curitiba, Leitura, São José dos Pinhais: Curitiba, São Luís: Hélio Books, Leitura, São Paulo: A Página, B307, Círculo, Cult Café Livro Música, Curitiba, Disal, Dois Pontos, Drummond, Essência, HiperLivros, Leitura, Livraria da Tarde, Livraria da Vila, Loyola, Megafauna, Nobel Brooklin, Santuário, SBS, Simples, Vozes, Vida, WMF Martins Fontes, Serra: Leitura, Sete Lagoas: Leitura, Taboão da Serra: Curitiba, Taguatinga: Leitura, Taubaté: Leitura, Teresina: Leitura, Uberlândia: Leitura, SBS, Umuarama: A Página, Vila Velha: Leitura, Vitória: Leitura, SBS, Vitória da Conquista: LDM, internet: Amazon, A Página, Authentic E-commerce, Boa Viagem E-commerce, Canal dos Livros, Curitiba, Leitura, LT2 Shop, Magazine Luiza, Sinopsys, Submarino, Travessa, Um Livro, Vanguarda, WMF Martins Fontes INÊS249 1 | 4 VENTO ELEITORAL LULA TEVE uma ideia: “Criar uma espécie de um ‘190’, um ‘180’, um telefone para que as pessoas pudessem telefonar e se queixar se as coisas não estão acontecendo (no governo)”. Na semana passada, justificou-se: “Eu preciso que tenha um lugar para o povo colocar para fora as suas angústias”. O “Disque-Lula” não existe, mas já tem a primeira quei- xa para registro: o presidente reclama da rotina dormente do próprio governo — problema do qual tenta se eximir co- mo um crítico distanciado, talvez por achá-lo insolúvel a es- ta altura do mandato. Governar, dizia Bill Clinton do lado de fora da biblioteca da Casa Branca, é como dar ordens num cemitério: tem mui- ta gente abaixo de você e ninguém ouve. No Palácio do Pla- nalto, “erro” é palavra temida. Ali predomina o receio de le- var problemas ao chefe, e a frase mais repetida é: “Quem vai contar para o Lula?”. Mês passado, ele reuniu o ministério. Passou cinco horas ouvindo e concordando com ministros que elogiavam... o governo Lula. No Partido dos Trabalhadores, a opção preferencial tem sido pela máscara. Como relatou o deputado paulista Arlin- do Chinaglia, em recente reunião interna: “O que se ouve JOSÉ CASADO INÊS249 2 | 4 na bancada federal do PT sobre o ministério do Lula nem sempre são elogios. A gente finge que está concordando, que está todo mundo satisfeito”. O partido tem culpa, ele acha: “Não temos coragem para falar. O que estamos fazen- do? Só batendo palmas”. A aflição com o governo disfuncional, sem bússola nem rumo, não é privilégio do presidente e dos aliados. Queixas e reclamações dos eleitores reluzem em diferentes pesquisas dos cinco meses. “O brasileiro quer ver a luz do fim do túnel, o que Lula não está oferecendo”, interpreta Renato Meirel- les, do Instituto Locomotiva/Data Favela. Insatisfações cres- centes captadas nas sondagens de opinião incomodam Lula porque contêm potencial corrosivo para os planos de reelei- ção. Já animam conversas entre banqueiros, industriais e co- merciantes do eixo São Paulo-Rio sobre mudanças na dire- ção do vento eleitoral num cenário de baixo crescimento econômico e alta desigualdade social. No outono do ano que vem, Lula precisará escolher uma entre três alternativas: vai à reeleição; se aposenta depois de três décadas e meia no ofício de candidato presidencial per- manente do PT; ou indica substituto para a disputa em 2026. Em qualquer opção estará condicionado pelos resultados das eleições municipais deste ano. O Ipec constata que quase metade (47%) do eleitorado pro- cura candidatos a prefeito e vereador sem vínculos com Lula e Jair Bolsonaro. Essa busca sugere duas coisas, acha Marcia Ca- vallari, responsável pela pesquisa: uma é a vontade de renova- INÊS249 3 | 4 “Quase metade (47%) do eleitorado procura candidato sem vínculo com Lula e Bolsonaro” ção, outra é a expectativa de novo modelo de liderança política. Elas permitem, também, um vislumbre da sutileza e elegância dos eleitores no aviso sobre fadiga de material na política. No Congresso, há consenso sobre a tendência de reforço dos partidos de centro e de direita nas eleições de outubro, para prefeito e vereador, em coerência com o panorama tra- çado nas pesquisas. Na leitura interessada do governador paulista, Tarcísio de Freitas, isso significa que “a população está cada vez mais de saco cheio, ninguém aguenta mais, e acho que ela vai dar o tom (em outubro)”. Antonio Lavareda e Vinícius Silva Alves, do Ipespe, estu- daram as disputas municipais dos últimos 39 anos. Suspei- tam que elas têm funcionado como uma espécie de barôme- tro das eleições gerais seguintes. Ou seja, sinalizando as chances dos blocos políticos nos embates posteriores pela Presidência, governos estaduais e bancadas parlamentares. Certo mesmo é que há década e meia a direita avança nas eleições municipais. Ampliou seu espaço (de 41,9% para INÊS249 4 | 4 ƒ Os textos dos colunistas não refletem necessariamente as opiniões de VEJA 45,1%) na soma nacional de votos nas cidades, entre 2008 e 2012. Na sequência, em 2016, cresceu nas câmaras munici- pais (de 45,1% para 52,6% do total) e nas prefeituras (de 29,8% a 37,7%). Na disputa de 2020, aumentou a votação para vereadores (59,2%) e prefeitos (54,3%). Faltam cinco meses para o primeiro turno em 5 570 cida- des. Os erros do governo, as frustrações dos eleitores estam- padas nas pesquisas e o histórico recente do desempenho eleitoral nos municípios incitam a marcha da direita no mapa político. Mas, vale lembrar: o lulismo venceu cinco das seis eleições presidenciais realizadas nas últimas duas décadas. ƒ INÊS249 INÊS249 INÊS249 Capa Expediente Carta ao Leitor Entrevista - Alex Garland Imagem da Semana Conversa - Vincenzo Visciglia Datas Colunista - Fernando Schüler SobeDesce Veja Essa Radar Brasil - Segurança Brasil - Poder Colunista - Cristovam Buarque Brasil - Governo Colunista - Murillo de Aragão Brasil - Ministério Brasil - EleiçõesBrasil - Meio Ambiente Radar Econômico Economia - Impostos Colunista - Maílson da Nóbrega Economia - Negócios Internacional - Estados Unidos Internacional - Equador Colunista - Vilma Gryzinski Gente Geral - Saúde Geral - Educação Geral - História Geral - Tecnologia Geral - VEJA em Paris 2024 Geral - Ambiente Geral - Moda Geral - Gastronomia Colunista - Lucilia Diniz Primeira Pessoa Cultura - Cinema Cultura - Cinema Cultura - Entretenimento Cultura - Arte Colunista - Walcyr Carrasco Cultura - Veja Recomenda Cultura - Os mais vendidos Colunista - José Casado