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Título do original:
EL CANSANCIO DE LOS BUENOS
© Editorial Ciudad Nueva – Buenos Aires – 2012
Tradução: Silas de Oliveira e Silva
© Editora Cidade Nova – São Paulo – 2013
Revisão: Klaus Brüschke e Ignez Maria Bordin
Projeto gráfico: Marcelo Ferreira de Araújo
Conversão para Epub: Cláritas Comunicação
ISBN 978-85-7821-141-7
(Original: 978-950-586-289-4)
Editora Cidade Nova
Rua José Ernesto Tozzi, 198
Vargem Grande Paulista-SP – Brasil
CEP 06730-000 – Telefax: +55 (11) 4158-8898
www.cidadenova.org.br
editoria@cidadenova.org.br
vendas@cidadenova.org.br
Sumário
Capítulo 1
O DESGASTE PROFISSIONAL DOS QUE AJUDAM
(BURNOUT)
1. Susana, uma médica cheia de energia
2. O esgotamento profissional. Definição da síndrome
3. Esgotamento emocional
4. Despersonalização
5. Baixa realização pessoal
6. Avaliação pessoal
7. Do diagnóstico à terapia
8. Dicas para recuperar-se e prevenir o desgaste
profissional
9. Conselhos da psicologia cognitiva para agir na esfera
pessoal
10. Fatores externos
Conclusões
Capítulo 2
O DESGASTE PROFISSIONAL VISTO PELA
LOGOTERAPIA
1. Viktor Frankl: “O homem que encontrou o sentido
da própria vida ajudando outros a descobri-lo”
2. Princípios básicos da logoterapia
3. Os caminhos de sentido
4. O sentido do trabalho
5. Análise existencial, logoterapia e burnout
Anexo: O desgaste nas vocações religiosas
Capítulo 3
O AMBIENTE DE TRABALHO. AS RELAÇÕES DE
COMUNHÃO, REMÉDIO PARA O BURNOUT
1. Sanar o ambiente de trabalho. Essas complicadas
relações entre colegas
2. Vanglória e inveja, o sabor amargo de nossas
relações de trabalho
3. Dois cartazes
4. Humildade e autoestima
Anexo: O desgaste e a necessidade de uma liderança
responsável
Capítulo 4
UMA CULTURA QUE DESGASTA?
1. Consumismo
2. A temporalidade fragmentada
3. As neuroses coletivas
Capítulo 5
A CURA DA ALMA “DESGASTADA”
1. A saída espiritual
2. O segredo de padre Vilson
3. Mensagens de um sobrevivente dos campos de
concentração para se sobrepor ao burnout
4. Notas conclusivas
Referências
“Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu no meio de assaltantes
que, após havê-lo despojado e espancado foram-se, deixando-o semimorto.
Casualmente descia por esse caminho um sacerdote; viu-o e passou
adiante. Igualmente um levita, atravessando esse lugar, viu-o e prosseguiu.
Certo samaritano em viagem, porém, chegou junto dele, viu-o e moveu-se
de compaixão. Aproximou-se, cuidou de suas chagas, derramando óleo e
vinho, depois o colocou em seu próprio animal, conduziu-o a uma
hospedaria e dispensou-lhe cuidados. No dia seguinte, tirou dois denários
e deu-os ao hospedeiro, dizendo: ‘Cuida dele, e o que gastares a mais, em
meu regresso te pagarei’.”
Evangelho de Lucas
Dedicado aos que sofrem: que a ninguém falte um samaritano.
E aos samaritanos: que a tarefa não os esgote…
INTRODUÇÃO
“Irmãos, não vos canseis de fazer o bem.”
Paulo de Tarso
Muito se escreveu sobre o desânimo profissional ou burnout, desde
quando, em 1974, Herbert Freudenberger introduziu esse conceito na
literatura médico-científica. Em todos esses anos, foi-se compreendendo que
trabalhar nas áreas da saúde, da docência, da assistência social, do
voluntariado, da assistência espiritual etc. implica riscos. Reconhecer o
perigo de se atuar em situações de tensão emocional fez com que muitas
instituições e trabalhadores começassem a tomar medidas para prevenir o
esgotamento profissional.
Contudo, e apesar da grande divulgação do tema, várias instituições
públicas e privadas continuaram estruturadas com mecanismos inadequados
que favorecem o burnout. Por esse motivo e por razões socioculturais, sobre
os quais aqui discorreremos, o número de afetados por essa síndrome cresce
ano após ano, e a lista de profissionais a ela vulneráveis também aumenta.
Trata-se de uma verdadeira epidemia. A realidade dos afetados fala de um
sofrimento pessoal, cuja profundidade somente as pessoas que dela padecem
conhecem bem.
Desde 1995 atendo psicologicamente a homens e mulheres que, por sua
decisão de exercer profissões de ajuda ou trabalhos solidários em diferentes
órgãos internacionais, alternam momentos de estresse, desânimo, desilusão e
desejo de abandonar o compromisso assumido. Boa porcentagem dos que
acompanhei são pessoas consagradas da Igreja Católica (por isso dedico
algumas páginas ao burnout nessa instituição e entre seus membros).
Por outro lado, sendo médico, também estou entre os profissionais mais
afetados pelo esgotamento. Durante esses anos, em que aprendi muito com
minha própria experiência e a de meus pacientes, e conhecendo especialistas
do tema, cheguei à conclusão de que alguns fatores determinantes para o
desenvolvimento da síndrome foram negligenciados e, como consequência,
na sua prevenção e tratamento, não se aplicaram todos os recursos possíveis.
Este livro é uma tentativa de preencher tal lacuna.
Para ser mais exato, creio que na conceituação teórica do burnout foram
deixados de lado os aspectos relacionais, ou seja, a interação de
reciprocidade existente nos grupos de trabalho entre quem ajuda e quem é
ajudado. Os estudos focam quase unicamente a pessoa que sofre do mal, ou
seja, exclusivamente aquele que assiste. Isso se deve a uma forma
individualista de entender a pessoa humana e, portanto, reducionista.
Uso a expressão “forma reducionista” como um método de definir algo
ou uma pessoa a partir da descrição de uma de suas partes. Em princípio,
descrever algo a partir de uma de suas partes não é um erro; o problema
começa quando se pretende definir com esse método o objeto de estudo em
sua totalidade ou em sua essência.
Um exemplo para explicar isso: imaginemos uma pessoa que vê um avião
pela primeira vez e observa um Boeing taxiando no aeroporto. Ela poderá
defini-lo como um carro gigante com duas asas ornamentais imensas nos
lados. A definição será engraçada, pois ela levou em conta somente um
aspecto em particular, que tem um significado secundário na função do
avião, e que acabou por ridicularizá-lo. O essencial do avião é sua
capacidade de voar e transportar.
O mesmo ocorre com o ser humano. Posso defini-lo como um ser
biológico e orgânico, que certamente é, de modo análogo ao avião taxiando.
O ser humano, porém, não é só biologia. Posso ir muito além, compreendê-lo
com maior profundidade e descrevê-lo como um conjunto de paixões,
sentimentos e pensamentos que interagem com seu hábitat natural e com seus
semelhantes. Ainda que eu me aproxime mais de sua realidade, não o defino
em sua especificidade.
Qual é, então, o “voar” do ser humano? Qual é sua essência? Deparamos
com uma questão muito importante e intrincada. A dificuldade de
compreendermos a singularidade da pessoa humana e, portanto, de a
entendermos provém do grande paradoxo de que somos carnais e, ao mesmo
tempo, espirituais. Além disso, a relação com o mundo e com as coisas tem
outra peculiaridade: a carne e a presença do espírito. Juntas elas se abrem
ao mundo como um presente, uma dádiva. O poeta espanhol Antonio
Machado define isso de maneira completa com este simples refrão: “Moeda
que está na mão/talvez se deva guardar;/ a moedinha da alma/se perde se não
se dá”.
O ser próprio do homem e da mulher consiste em sua capacidade de
autotranscedência e autodoação, ou seja, de sair de si mesmo, partir de sua
forma orgânica, psicológica e social, para abrir-se a valores, ideais, tarefas
e pessoas pelas quais sacrifica a vida. Tudo isso porque não é simplesmente
carne, mas carne espiritualizada, e tampouco unicamente espírito, mas
espírito encarnado.
Sem essa compreensão da natureza humana como autotranscedência, os
estudos sobre burnout carecem de uma visão integrada das causas que geram
o desgaste profissional; por isso tornam-se unilaterais. Por exemplo, é
unilateral pensar que os assistidos do profissional com burnout funcionam
unicamente como um fator de estresse. Diz-se que os trabalhadores
esgotados foram “vítimas” de quem eles ajudaram. O assistido, o
necessitado, o homo patiens (o homem padecente) não é visto em sua
possibilidade deajuda terapêutica, como fonte de ensinamento e de energia
espiritual.
É igualmente reducionista a visão do profissional com burnout. Leva-se
em conta a pessoa chamada a trabalhar em situações de tensão emocional
somente em suas dimensões biológicas, sociológicas e psicológicas.
Esquece-se da dimensão espiritual, hoje considerada um tipo de inteligência,
centro da vida e do projeto de quem tomou a decisão de abraçar uma
profissão humanitária. Ao se reduzir a pessoa desse modo, é fácil concluir
que a opção pela ajuda humanitária se deva a uma distorção cognitiva de
onipotência idealista. Ainda que tal possibilidade se apresente com
frequência, ela não é a única. Em muitos casos vemos que a motivação mais
genuína e pessoal que levou essas pessoas a uma profissão de serviço foi
uma dinâmica de entrega verdadeira. Embora tendo encontrado a presença,
mais ou menos importante, de um pensamento onipotente idealista nos que
ajudam, eles mesmos admitem que não foram obrigados a esse compromisso
por suas emoções inconscientes; pensar assim os faria renunciar aos valores
que sentem ser o melhor de si. Ao ouvir histórias de vida desses homens e
mulheres, fica fácil notar que seu compromisso consciente com a vida e seus
próprios valores remontam a seus anos de juventude.
A visão reducionista é míope também com relação aos recursos
terapêuticos. Os estudos sérios e úteis sobre o burnout realizados com uma
visão reducionista deixam pelo caminho valores e qualidades humanas que
fundamentam toda relação de ajuda e, na hora do tratamento, não
proporcionam recursos terapêuticos concretos e válidos para quem padece
da síndrome.
Existe outro elemento não menos importante esquecido pelos analistas,
que é o contexto cultural em que se propaga o desgaste profissional. Por
conseguinte, faz-se necessário um estudo crítico da cultura que nos envolve e
permeia, uma vez que a cultura com seus imperativos é, sem dúvida alguma,
uma causa coadjuvante de burnout. A pós-modernidade propõe uma forma
de vida fragmentada e precária, que leva as pessoas a uma situação de
fragilidade favorecendo o desânimo profissional. Falar de desânimo
profissional sem um estudo crítico do modelo cultural é como fazer
referência ao vírus da dengue e à febre que provoca nos infectados sem
evidenciar a presença do mosquito transmissor no seu hábitat e sua relação
com a água estagnada em recipientes em desuso; saberíamos a etiologia viral
da dengue e como tratá-la no hospital, sem, contudo, saber deter a epidemia.
Daí surge, espontânea, a pergunta: A epidemia de burnout é o tributo que
pagamos à nossa época, época que aliena as pessoas com suas exigências,
suas demandas e o lugar exacerbadamente central da produção e do
rendimento?
De outra parte, também as relações pessoais nos ambientes de trabalho
precisam ser estudadas. Não me refiro às políticas institucionais, mas ao
clima nocivo que se vive no ambiente de trabalho. Há que encarar esse
aspecto, haja vista que nossos pacientes o enxergam como a causa principal
de seus sofrimentos.
Confesso que falo e escrevo sobre burnout com certo temor. É possível
que uma perspectiva reducionista nos leve a pensar que ajudar, solidarizar-
nos, continuar trabalhando com paixão nas causas que abraçamos de nossa
vida social sejam ações perigosas e daninhas à saúde, devendo, portanto, ser
evitadas. Em outras palavras, noto o risco de que a árvore não nos deixe ver
a floresta e que nos entrincheiremos num “individualismo saudável e
preventivo”.
Fica claro que o problema do desânimo profissional vai mais além da
simples distorção cognitiva de quem ajuda. O título deste livro, O cansaço
dos bons, quer afastar-nos de uma concepção simplesmente sociopsicológica
do problema que remete a um valor, a pessoa boa, e a possibilidade de sua
ação se ver limitada pelo cansaço. É significativo que a palavra bondade
compartilha sua origem etimológica com as palavras abono e bonificação, o
que nos leva a pensar nos bons como fator de fertilidade1. O problema
ecológico de uma terra desgastada ajuda-nos a compreender a situação dos
bons cansados, com todas as suas consequências. Os efeitos dessa situação
no futuro assemelham-se aos do desequilíbrio ecológico2.
Portanto, o objetivo um tanto audaz deste livro talvez seja contribuir para
que a terra continue sendo bonificada pelas pessoas boas, pelas pessoas
honestas. Para isso queremos oferecer um instrumento de ajuda aos que
ajudam. Os bons, comprometidos em vários projetos, têm pouco tempo;
assim tentamos apresentar uma síntese sobre o tema. Os bons geralmente
creem que é mais importante fazer que falar ou discursar; assim, procurarei
ser mais concreto do que abstrato. Não esqueço, porém, que, na sua escolha
do bem, eles desenvolveram um olhar transcendente que penetra até a raiz
das coisas. Trataremos então de não decepcioná-los com uma abordagem
superficial do tema.
Para concluir esta introdução, perguntamos: O que o leitor encontrará no
livro? Em primeiro lugar, descrevemos as características da síndrome do
burnout, sem descuidar das contribuições da psicologia cognitiva, da
psicologia do trabalho e institucional para sua prevenção e cura. Além disso,
daremos instrumentos simples e concretos para ajudar as pessoas que dela
sofrem. Ao mesmo tempo, queremos preencher uma lacuna, a falta de uma
compreensão filosófica, existencial e cultural da síndrome . Atrevo-me a
dizer, sem querer entrar em questões religiosas, que esse tema também deve
ser visto a partir da espiritualidade do ser humano, sua característica
essencial e específica. Fundamentamo-nos na presença de uma dimensão
espiritual do homem, que se transcende e se manifesta em sua capacidade de
se relacionar. Ajudam-nos muito os ensinamentos de Viktor Frankl,
psiquiatra austríaco sobrevivente dos campos de concentração nazistas,
fundador da escola da logoterapia, que propõem uma concepção do homem
como um “buscador constante de sentido para a sua vida”. Sua figura será
ponto de referência em quase totalidade destas páginas.
O livro pode ser também um instrumento de trabalho para os que atuam
em profissões de ajuda humanitária. O leitor encontrará, destacados,
convites à reflexão pessoal que, embora possam ser saltados para se
acompanharem somente os conceitos teóricos, seu uso poderá ser útil à
prevenção e a autocura na situação de desgaste profissional. Estas páginas,
obviamente, não substituem de maneira nenhuma um bom terapeuta, que,
quando for necessário, oferecerá uma ajuda profissional.
Ao término desta introdução, gostaria de fazer uma confidência: meu
trabalho volta-se para poucos. Reconheço que os bons, ao longo da história,
são e foram uma minoria. Contudo, uma minoria necessária. Se os bons
abandonarem a batalha por causa do cansaço ou do mero temor do
esgotamento, nossa comunidade humana correrá o maior de todos os riscos:
o empobrecimento de valor. Que os bons não se cansem é o grande desafio.
Como o leitor já intuiu, este trabalho tenta colaborar com essa inevitável
missão.
1 Há um sentido antigo de bonificar como tornar mais produtivo, sentido na língua espanhola do original
que é aplicado na agricultura. [N.d.E.]
2 A expressão “o cansaço dos bons” foi empregada por várias personalidades. Por exemplo, o papa Pio
XII costumava dizer, durante os tempos da Guerra Fria e diante da possibilidade de uma hecatombe
nuclear: “o perigo de hoje é o cansaço dos bons”. Martin Luther King manifestava temor similar: “O
que me preocupa não é nem sequer o grito dos corruptos, violentos, desonestos, sem caráter,
antiéticos; o que temo é o silêncio dos bons”. As consequências políticas, econômicas e sociais que
devastariam um mundo no qual o cansaço dos bons permitisse a ação dos malvados são imagináveis e
vão muito além da capa deste livro. Friedrich Nietzsche assim o demonstra, com força profética e um
gênero literário apocalíptico, em seu Assim falava Zaratustra: “e vi os homens sumirem-se numa
grande tristeza. Os melhores cansaram-se das suas obras”.
Capítulo 1
O DESGASTE PROFISSIONAL DOS
QUE AJUDAM (BURNOUT)“O trabalho é para nós o único caminho que nos leva do sonho à
realidade.
[…]
O sinal de que o trabalho é feito para nós, sempre que não seja desumano,
é uma alegria que não diminui nem mesmo pelo cansaço.”
Simone Weil
1. Susana, uma médica cheia de energia
“Ao saírem, encontraram um homem de Cirene de nome Simão. E o
requisitaram para que carregasse a cruz.”
Evangelho de Mateus
Susana é uma mulher com seus trinta e oito anos, profissional
responsável, atenta a seus pacientes e generosa com seu tempo. É o tipo de
médica que deixa qualquer paciente tranquilo, confiante e, ainda que possa
parecer exagerado, até mesmo amigo. Durante o ensino médio, nunca lhe
faltaram amigos. Chamavam-na de “a psicóloga” porque escutava as
histórias, interessantes ou chatas, cheias de novidade ou repetitivas, de toda
a classe. Todos “se confessavam” com ela. Quando chegou o momento de
escolher uma profissão, ficou na dúvida entre estudar psicologia,
aproveitando sua capacidade de escutar, ou o curso com que poderia servir à
humanidade mais concretamente. Com esse propósito, escolheu medicina.
Durante a faculdade, foi militante nos grêmios estudantis e, para manter-
se economicamente, dava plantão como enfermeira numa clínica geriátrica.
Rapidamente reconheceu a “desumanização da medicina” em quase todos os
setores do hospital-escola e na clínica geriátrica. Já tinha escutado falar
disso nas reuniões do Centro Acadêmico, mas a realidade é muito mais crua
do que a dialética política. Ao ver a angústia mesclada com a resignação dos
doentes diante de tanta indiferença, seu coração jovem e sincero rebelou-se.
Primeiro com a denúncia política. Susana participou de manifestações,
pichou paredes, pintou faixas com slogans revolucionários e proferiu seus
primeiros discursos contra a velha política de saúde. Contudo, ficou
insatisfeita com o pouco resultado alcançado.
Restava-lhe um plano B: trabalhar à contracorrente da indiferença,
estabelecendo relações humanas, autenticamente humanas, com seus
pacientes. A solidariedade demonstra-se com fatos e não com palavras.
Susana então agia para esquivar-se da burocracia hospitalar: pedia aos
laboratórios farmacêuticos medicamentos que não estavam disponíveis,
passava noites cuidando de doentes agonizantes, aconselhava familiares dos
pacientes e ia até a casa deles para aplicar injeções ou fazer curativos pós-
operatórios. Tudo, óbvio, gratuitamente; era inconcebível que essa gente
pobre que ia ao hospital pudesse pagar honorários. Mas Susana sentia-se
recompensada com o beijo de uma criança, o agradecimento de um
aposentado materializado numa sacola de verduras da própria horta ou com
o choro de emoção de um jovem pai ao ver o ganho de peso de seu bebê
após uma grave pneumonia.
Quando se tornou médica, pediram-lhe que atendesse no ambulatório do
bairro duas tardes por semana. Apesar do pouco tempo de que dispunha,
Susana aceitou com entusiasmo. Sempre quis fazer algo pela comunidade.
Por ser atenta e responsável, a Associação de Moradores solicitou-lhe que
assumisse a direção do ambulatório, e isso acrescentou mais uma reunião
semanal à sua já complicada agenda. Todavia, a essa mulher não faltavam
nem energia, nem entusiasmo, nem fé.
A propósito de fé, Susana começou a dedicar suas tardes de sábado a
ministrar palestras de educação sexual a jovens e noivos da paróquia. Nunca
havia pensado nisso; sim, era de tradição católica, mas não frequentava a
Igreja. Padre Carlos soube dela e foi procurá-la, pois não havia na paróquia
ninguém apto a essa tarefa. Nos anos anteriores tinha ido um médico velho e
católico; ele, talvez por essas características, ele fosse chato demais para os
jovens. Susana, jovem e próxima, era a pessoa certa. Disse-lhe padre
Carlos: “Você é a única que pode fazer isso!” E como parecia ser mesmo,
Susana não pôde recusar o pedido. Ademais, como ela queria fazer tudo
muito bem, tratou de compensar seus parcos conhecimentos sobre a matéria
lendo algo sobre a moral católica. Bastava dormir um pouco menos…
No entanto, a Susana não chegavam somente palavras e gestos de
gratidão. Com o tempo, foi recebendo algumas críticas de seus colegas,
muito sutis no início, mas bem ásperas depois. Elas se explicavam pelo fato
de o forte compromisso de Susana desnudar a superficialidade e a
indiferença de muitos. “Quem ela pensa que é? Madre Teresa de Calcutá?”
Surgiram até mesmo psicanalistas de botequim que, murmurando,
relacionavam sua “precisão obsessiva” na vida profissional com a sua
solteirice. Murmuravam ao redor dela. E como não havia aceitado dos
administradores do hospital propostas de pesquisas antiéticas, Susana foi
ganhando também a desconfiança e a antipatia de seus chefes. Seus pais,
mais queixosos pela idade e frequentemente abandonados por essa filha que
vivia absorvida pelo trabalho, passaram a recriminá-la. Com o decorrer dos
anos, Susana teve de dedicar mais tempo a seus pais, cujos achaques dos
anos os tornaram mais necessitados dos cuidados da “filha doutora”.
Por outro lado, Susana começou a constatar que alguns de seus pacientes,
apesar de todos os seus cuidados, não melhoravam. Alguns não seguiam o
tratamento proposto e, embora garantissem estar sendo fiéis às dietas ou ter
deixado o álcool, os exames clínicos (e o hálito!) mostravam o contrário.
Nem sempre era pela falta de dinheiro; muitas vezes, somente por desleixo.
Susana descobriu que estava mais interessada na saúde dos pacientes do que
os próprios pacientes. Também se foi revelando, aos poucos, uma velha
verdade: a medicina não cura todas as doenças. Fato muito conhecido e bem
aceito pela humanidade, cuja evidência os médicos parecem ser os últimos a
reconhecer. Um dia encrespou-se diante de uma senhora surda e senil,
enquanto pensava: “Quem me mandou tratar desta velha esclerosada? Que
sentido faz?” Assustou-se; algo estava mudando em seu coração. Outro dia
irritou-se e tratou com desconsideração uma mulher que carregou sacolas
pesadas logo após receber alta de uma cirurgia abdominal. Ao ver que os
pontos da cicatriz se tinham soltado, ficou desconcertada. Nunca tinha sido
tão grosseira!
As forças começaram a abandoná-la, e ela já não dispunha de sua
habitual energia. O esgotamento não era somente físico; também a mente foi
ficando lenta e confusa. Passou a não sentir nada pelas pessoas. Chegou até a
comentar com alguns amigos: “Sinto-me vazia; acho que não tenho mais nada
para dar…” Os corredores do hospital transformaram-se em caminhos
intermináveis, seus passos tornaram-se desanimados, e seu sorriso, tido
como encantador, virou artificial, uma careta. Certa vez, escondeu-se na
enfermaria para evitar uma paciente chata; não tinha coragem nem energia
necessárias para encará-la. Sua memória ficou frágil.
Lenta e quase imperceptivelmente, Susana entrincheirou-se. Reduziu o
número de contatos e manteve-se na esfera estritamente profissional. Enfim
conseguiu, como seus colegas, não mais se comover com o sofrimento
alheio. Seus pacientes transformaram-se em meros números, em doenças
para tratar, e suas necessidades humanas, em temas que não lhe diziam
respeito. Durante a consulta, aprendeu a mudar de assunto quando a conversa
se tornava muito pessoal.
Graças a essa burocratização, ela pôde continuar trabalhando;
internamente, porém, Susana já não se sentia mais a mesma. Tinha a sensação
de estar usando máscaras de acordo com o momento e o papel que lhe cabia:
médica, filha, militante política ou catequista. Sua vida fragmentou-se numa
sucessão de períodos desvinculados. E começou a ser o que jamais
imaginara vir a ser um dia: uma peça a mais na desumanização da medicina.
Um nosso amigo comum, colega de ambos, indicou meu nome para que
ela se consultasse comigo.
Ao terminar a narração de sua história, Susana me confessou seu
sentimento de fracasso e de inutilidade. Isso seria definitivo? Sentia-se
culpada por sua incoerência. Onde fora parar o ideal de sua vida? Por outro
lado, esses ideais a estavam levando à autodestruição, e ela estava
apavorada. “Jogar a toalha” parecia sera única saída, acompanhada da
pergunta: “Será que nasci para a medicina?”
2. O esgotamento profissional. Definição da
síndrome
“Erguendo-se após a oração, veio para juntos dos discípulos e encontrou-
os adormecidos de tristeza.”
Evangelho de Lucas
A história de Susana repete-se hoje, com diferentes nuanças, em muitas
pessoas. Profissionais da saúde, docentes, trabalhadores sociais,
voluntários, sacerdotes, frades e missionários, policiais, funcionários
públicos e empregados da iniciativa privada, políticos e até mesmo donas de
casa sofrem dessa forma de desgaste, ignorando, na maioria dos casos,
estarem sofrendo um transtorno.
Nas histórias delas, é possível encontrar elementos comuns que
permitiram aos pesquisadores – em geral, médicos e psicólogos – reuni-los
em uma síndrome, descrever suas características e assinalar a sua evolução.
Esse conhecimento foi útil para elaborar estratégias terapêuticas e
preventivas.
A síndrome do esgotamento profissional foi chamada de diferentes
maneiras. Como acontece geralmente, o nome sugerido tem a ver com a
concepção causal e evolutiva do médico que o emprega. O termo burnout,
em inglês, é o mais conhecido. Foi utilizado pela primeira vez em 1974 por
Herbert Freudenberger, um psiquiatra que trabalhava como assistente
voluntário numa clínica de recuperação de toxicodependentes em Nova
York. Muito observador, o doutor Herbert percebeu que os voluntários que
cuidavam desses pacientes, em sua maioria jovens, ingressavam nesse
serviço com grande entusiasmo; porém, com o passar do tempo, o contato
com o mundo das drogas levava-os à depressão e a transtornos emocionais.
Os que haviam começado o trabalho com grandes expectativas e energia
transformavam-se em pessoas cansadas e tristes. Por fim, mostravam-se
pouco compreensivos com os pacientes e irritavam-se com eles. Nas
reuniões de equipe, a atitude frente aos usuários do serviço era cínica e,
consequentemente, pessimista quanto ao decurso do tratamento. O doutor
Herbert Freudenberger deu a essa situação o nome de burnout, termo que se
usava na própria clínica de reabilitação para descrever o cérebro danificado
pelo consumo crônico de drogas, posto que normalmente se dizia: “Este
sujeito está com o cérebro queimado (burned out)”. Assim, ele definiu o
burnout como um estado de fadiga ou frustração produzido pela dedicação a
uma causa, estilo de vida ou relação que não produz o resultado esperado.
Freudenberger estava convencido de que as pessoas idealistas, ingênuas,
otimistas, em suma, “boas”, se entregavam a seu trabalho excedendo as
próprias possibilidades pela necessidade inconsciente de terem uma imagem
positiva de si mesmas. Essas pessoas poderiam ser comparadas a fósforos
que primeiro, quando riscados, se acendem vivamente; em seguida,
sustentam uma chama fraca por pouco tempo e, finalmente, se apagam.
Sabemos muito bem quão inútil é um fósforo queimado.
O que fundamentalmente se produziu foi um esgotamento dos recursos
psicológicos dessas pessoas para enfrentar as exigências do trabalho de
assistência a terceiros. Elas perderam o sentido existencial de sua vocação
inicial por causa do desequilíbrio prolongado entre o sentido da tarefa
realizada e a realidade objetiva do fracasso. Tudo isso levou a uma baixa
autoestima.
O termo burnout pertence também à linguagem aeronáutica. Chama-se
assim ao módulo do foguete que contém o combustível e que, cumprida a
missão de levar a cápsula para fora da atmosfera, fica girando vazio e inútil
pelo espaço sideral. Ambas as imagens, tanto a do cérebro queimado do
toxicômano quanto a do foguete como lixo espacial, têm conotação negativa.
No meu entender, são inadequadas, pois indicam situações sem retorno; mas,
como veremos, a evolução da síndrome nem sempre está fadada ao
esgotamento total das forças e ao conseguinte abandono da atividade. Muitas
pessoas superam esse mal graças a um processo de aprendizagem, com ajuda
externa ou com seus próprios recursos, e não são obrigadas a repeti-lo
pouco depois de retomar suas atividades.
De qualquer forma, em nosso trabalho usaremos indistintamente os
termos burnout, desgaste profissional ou desânimo profissional. Os três
termos já são populares e cada um remete à mesma síndrome. Pessoalmente
prefiro o último, desânimo profissional, porque a etimologia nos remete a
ânimo, alma. Que é o princípio vital do ser humano, e coloquialmente o
princípio de alguma coisa. Muitas vezes dizemos: “Fulano é a alma daquele
escritório”. Pois lhe dá o timbre e o ritmo. No futebol, o papel da torcida é
justamente animar, mesmo se o time está perdendo. Trata-se, portanto, de
uma palavra que têm uma conotação positiva, mesmo na necessidade. Isso
me leva a pensar que, em meio ao desânimo profissional, é possível abrir-se
para criar alma nova. Diz também da esperança de encontrar o apoio de uma
torcida fiel que siga animando mesmo na derrota.
A psicóloga Cristina Maslach, estudiosa da síndrome, define-a como a
resposta adequada a um estresse emocional crônico cujas características
principais são: esgotamento físico e emocional, atitude fria e
despersonalizada na relação com os demais e um sentimento de inadequação
para as tarefas que vinham sendo realizadas anteriormente. Portanto,
seguindo o esquema da doutora Maslach, podemos descrever a síndrome
mediante estas três dimensões: esgotamento emocional, despersonalização e
sentimento de baixa realização pessoal.
3. Esgotamento emocional
O esgotamento emocional supõe sintomas de perda de energia,
esgotamento físico e psíquico, e uma sensação de ter chegado ao limite, de
não aguentar mais. A pessoa encontra-se anulada, incapacitada para dar algo
de si. É fácil relacionar esses sintomas com a depressão. A abulia (falta de
vontade e iniciativa), a anedonia (incapacidade de experimentar prazer) e a
apatia (falta de motivação ou entusiasmo) tomam conta do sujeito.
A abulia é uma palavra de origem grega que significa falta de vontade e
diminuição da energia vital. No desgaste profissional, relaciona-se
especialmente ao trabalho realizado. A atividade torna-se lenta, e chegar ao
lugar de trabalho, à fábrica, ao escritório, à escola ou ao hospital, converte-
se numa tarefa titânica. O absentismo trabalhista é a consequência lógica
desse sintoma.
Já a abulia, como falta de vontade, permite-nos outras considerações. A
vontade é o centro das decisões do indivíduo; seu esgotamento produz o
adiamento das ações, e isso por dois motivos. Em primeiro lugar, as dúvidas
e a excessiva reflexão ofuscam a razão e, por outro lado, a falta de energia
impede o movimento inicial que toda decisão necessita para ser executada.
Desse modo, a pessoa fica lenta e arrasta-se pela vida, com a sensação
física de carregar nas costas uma pesada carga. A negligência, a passividade
e a displicência levam a um fatalismo. Não é possível fazer nada para mudar
e, sem as forças para lutar, só uma coisa se insinua: a derrota definitiva.
Também se verificam desejos de morte e tentativas de suicídio.
4. Despersonalização
Assim como aconteceu com a doutora Susana, os “queimados” mudam
inconscientemente suas atitudes para se proteger. A despersonalização
consiste em viver o trabalho como algo alheio e estranho. Pode-se falar com
propriedade em alienação. Essa palavra provém do latim alienus e significa
“de outro”. A despersonalização supõe uma dupla alienação: para com meu
tra- balho e para com meus assistidos. O primeiro passa a ser “o” tra ba- lho,
e “os” assistidos, um ente impessoal e desconhecido.
Não se devem julgar moralmente as atitudes decorrentes dessa situação,
uma vez que a sobrevivência é um dever que justifica a autodefesa. A pessoa
esgotada torna-se cínica e negativa. Dá respostas clichês, evitando assim
uma compreensão do outro que conduziria a uma empatia. Quando não se tem
proteção, a empatia deixa de ser um valor comunicacional para se converter
numa arma autodestrutiva. Como consequência, o esgotado mostra-se
distante, utiliza rótulos para classificar assistidos, situações e circunstâncias.
As decisõese ações são sempre protocolares. Segue rigorosamente o manual
de uso e, ainda que rotular suponha ordem e sistematização, a depreciação
das pessoas que isso provoca é evidente. Porém, como a vida e as pessoas
costumam escapar da sistematização, o trabalho é realizado em meio à luta
de adequar usuários e coisas à ordem estabelecida. Ao final, a luta provoca
ainda mais esgotamento. O desgastado sente-se vítima daqueles aos quais
serve e acusa-os de causarem suas próprias frustrações.
5. Baixa realização pessoal
A baixa realização pessoal é a sensação de ser inadequado à profissão
exercida. São sentimentos de incapacidade e baixa autoestima com relação
ao que se faz. São acompanhados de ideias de fracasso. Essa dimensão
depende das anteriores e de se continuar trabalhando em estado de desgaste.
É o elemento mais perigoso da síndrome, pois as pessoas esgotadas acabam
encontrando apenas duas respostas reativas a essa frustração: render-se ou
lançar-se freneticamente a trabalhar mais ainda, imaginando que o fracasso é
consequência de pouco esforço. Por isso, o ativismo pode ser considerado
um mecanismo de defesa inútil contra o esgotamento.
Alguém ironizou isso afirmando que ativismo significa “redobrar o
esforço quando se acaba de perder o objetivo”. Um sacerdote desgastado
comentou comigo que estava tendo problemas para conseguir a participação
dos moradores em suas atividades paroquiais. Perguntei qual era sua
estratégia para esses momentos difíceis, e ele me disse decidido: “Perdemos
o rumo, mas redobramos os esforços”. Não consegui deixar de rir.
Lamentavelmente, assim como o padre esgotado, diante do fracasso não
paramos, mas em geral substituímos com mais atividade a falta de sentido do
que fazemos. É um círculo vicioso. Quando perdemos o sentido de uma
tarefa, dificilmente a reconquistaremos com uma força espasmódica de
vontade e, menos ainda, redobrando a atividade. O ativismo também pode
ser comparado a um liquidificador em funcionamento cheio de água.
Ouvimos o barulho, vemos a espuma, mas quando o utensílio para de
funcionar, encontramos unicamente água, a mesma de antes. Teremos, logo
após o barulho e a espuma, água e um liquidificador aquecido a ponto de
“queimar”.
As três dimensões da síndrome de burnout geralmente vêm
acompanhadas de manifestações psicossomáticas. As mais frequentes são os
transtornos do sono, transtornos gastrointestinais, problemas
cardiovasculares, dores musculares e distúrbios menstruais. Esses sintomas
físicos frequentemente manifestam-se muito cedo e de forma isolada.
As repercussões na esfera do trabalho são evidentes: absentismo,
deterioração do ambiente, diminuição da qualidade do trabalho e, em casos
extremos, abandono da profissão.
As fases do esgotamento profissional
Samuel Klarreist define o esgotamento profissional como um processo
que se desenvolve em quatro fases. A ordem nem sempre é a seguinte,
embora seja a mais frequente.
1) A fase de “ilusão e entusiasmo”, em que o trabalhador social está
disposto a “engolir o mundo”, a transformá-lo, e todos os seus pensamentos
voltam-se a esse projeto.
2) A fase da “desilusão”, em que as expectativas da primeira fase se
confrontam com a realidade. A pessoa fica impaciente para conseguir
terminar a incumbência e ainda trabalha duro.
3) A fase da “frustração”, em que aparece pela primeira vez o desespero,
a irritabilidade e a perda do entusiasmo. Aqui se perde gradualmente a
confiança na própria capacidade.
4) A fase do “desespero”, em que “tudo parece estar perdido” e os
sonhos jamais se realizarão. A síndrome se manifesta então plenamente, com
sintomas relacionais de isolamento e solidão. Nesse momento, o quadro
clínico não se distingue de uma clássica síndrome depressiva.
Uma vez descrita a síndrome, é oportuno distingui-la de outras situações e
transtornos. O diagnóstico diferencial ajuda a traçar com mais precisão sua
identidade. Devemos distinguir o esgotamento profissional da depressão, do
estresse, do tédio, da insatisfação profissional e das crises vitais,
especialmente a chamada crise da meia-idade.
A síndrome do esgotamento profissional guarda semelhanças com a
depressão clínica e, portanto, nada mais justo do que nos perguntarmos se
não estamos usando dois nomes diferentes para uma mesma realidade. A
diferença não está nos elementos sintomatológicos descritos, mas na sua
etiologia e na sequência com que esses elementos se vão manifestando no
processo evolutivo. Assim, a diferença da depressão é clara no início do
desgaste e imperceptível nos momentos evolutivos finais, nos quais, aliás, o
tratamento é igual para ambas. A etapa do desgaste está circunscrita ao
âmbito profissional. Quando encontramos uma pessoa com sintomas
depressivos que praticamente só fala de suas dificuldades na realização de
seus projetos de trabalho, da forma como é realizado e em meio a conflitos
institucionais reais e objetivos, podemos considerar um diagnóstico de
esgotamento profissional. A depressão, que tem um padrão biológico claro,
induz-nos a pensar em transtorno bipolar.
Estresse, tédio e insatisfação profissional são termos relacionados, mas
não equivalentes. O burnout distingue-se da simples ansiedade e estresse,
embora esses elementos sejam descritos como produtos da situação laboral.
O burnout é uma disfunção crônica, e o estresse ocupacional, que ocorre em
breves períodos, pode ser um antecedente da síndrome; mas não se trata
ainda da instalação do transtorno. Que no trabalho haja uma relativa e sadia
tensão é normal e necessário para realizar tarefas.
O mesmo ocorre no caso do trabalho maçante e do sofrimento pelo tédio
ocupacional. Eles não são indicadores de desgaste profissional, mas um
alarma que exige a compreensão das causas do tédio. Estas podem ser
simplesmente pessoais – como, por exemplo, o caso das personalidades
narcisistas, que sofrem de um tédio crônico, independentemente do que
fizerem – ou relativo a uma tarefa repetitiva, em que não há possibilidade de
usar a própria criatividade.
Os acontecimentos e as crises vitais são elementos importantes a
considerar quando tratamos o burnout. Acontecimentos e êxitos negativos na
vida podem promover ou agravar uma sobrecarga já existente, rompendo o
equilíbrio alcançado, enquanto os acontecimentos positivos podem
amortecer as dificuldades profissionais.
A crise da meia-idade merece um parágrafo especial. No centro dessa
crise, que afeta pessoas entre os trinta e cinco e os quarenta e cinco anos, há
geralmente um balanço negativo entre o que foi realizado e os projetos da
juventude. Pode levar-nos a confundir com a perda da autoestima em relação
ao que foi realizado, também própria do burnout. A diferença aqui é que a
crise da meia-idade manifesta a esfera existencial pessoal e o tempo
histórico da pessoa, enquanto no burnout considera-se unicamente a
dimensão laboral. De qualquer modo, como o leitor intuirá, o limite entre a
crise existencial e o esgotamento profissional é tênue e permeável.
6. Avaliação pessoal
Após visitar esse conjunto de dados e questões relacionado ao
esgotamento profissional, chegou a hora de fazermos uma autoavaliação. Já
antecipamos que é possível superar o burnout e, apesar de poderem ficar
cicatrizes, adquirem-se no processo de crescimento que a cura supõe
maturidade e sabedoria para prevenir reincidências. É necessário enfrentar a
síndrome e, para consegui-lo, avaliemos antes se a estamos sofrendo.
Existem alguns instrumentos para essa avaliação. Trazemos aqui um
elaborado por Maslach, chamado de MBI (Maslach Burnout Inventory), que
conta vinte e dois itens. Esse questionário demonstrou ser um bom
instrumento de avaliação.
Como realizá-lo? Tome vinte minutos. Recomendo responder às
perguntas com objetividade e espontaneidade; aliás, seja mais espontâneo do
que objetivo, para não se atolar nas respostas pelo zelo demasiado. Utilize o
seguinte esquema, atribuindo um número de acordo com a frequência com
que experiencia cada item:
0= nunca
1= poucas vezes ao ano ou menos
2= uma vez ao mês ou menos
3= algumasvezes ao mês ou menos
4= uma vez por semana
5= algumas vezes por semana
6= todos os dias
Esse teste foi concebido especialmente para médicos; todavia, onde se
diz “pacientes”, pense em seus alunos, se você for professor; nos usuários
dos serviços onde você trabalha, se for funcionário público; nos
paroquianos, se for sacerdote ou agente pastoral; em seus filhos e marido, se
for dona de casa, etc.
ESCALA DE MASLACH
1) Sinto-me emocionalmente esgotado por causa do meu trabalho.
2) Sinto-me cansado no final do expediente.
3) Sinto-me fatigado quando me levanto de manhã e tenho de ir trabalhar.
4) Compreendo facilmente como os pacientes se sentem.
5) Acredito que trato alguns para os quais trabalho como se fossem objetos impessoais.
6) Trabalhar o dia todo com muita gente é um esforço.
7) Trato com muita eficácia os problemas das pessoas.
8) Sinto-me “queimado” (esgotado) pelo meu trabalho.
9) Creio que influencio positivamente a vida das pessoas com o meu trabalho.
10) Fiquei mais insensível com as pessoas desde que comecei a exercer esta profissão.
11) Preocupa-me o fato de que este trabalho possa endurecer-me emocionalmente.
12) Sinto-me muito ativo.
13) Sinto-me frustrado no meu trabalho.
14) Creio que estou trabalhando em demasia.
15) Realmente não me preocupa (ansiosamente) o que ocorre com meus pacientes, alunos e
pessoas para quem trabalho.
16) Trabalhar diretamente com pessoas me produz estresse.
17) Posso, com muita facilidade, criar uma atmosfera relaxada com os pacientes.
18) Sinto-me estimulado após trabalhar com os meus pacientes.
19) Obtive muitas coisas úteis com minha profissão.
20) Sinto-me acabado.
21) No meu trabalho trato os problemas emocionais com muita calma.
22) Sinto que os pacientes me culpam por alguns dos seus problemas.
O questionário Maslach mede os três aspectos da síndrome:
Cansaço emocional: 1, 2, 3, 6, 8, 13, 14, 16, 20. Avalia a vivência de
estar emocionalmente exausto pelas demandas do trabalho. Pontuação
máxima: 54.
Despersonalização: 5, 10, 11, 15, 22. Avalia o grau em que cada um
reconhece atitudes de frieza e distanciamento. Pontuação máxima: 30.
Realização pessoal: 4, 7, 9, 12, 17, 18, 19, 21. Avalia os sentimentos de
autoeficiência e realização pessoal no trabalho. Pontuação máxima: 48.
Não existe uma pontuação total do teste. Some suas respostas
separadamente e obterá um número para cada escala. Anote aqui:
Meus resultados
Cansaço emocional
(CE)
Despersonalização
(DP)
Realização pessoal
(RP)
1 5 4
2 10 7
3 11 9
6 15 12
8 22 17
13 18
14 19
16 21
20
Total Total Total
Pontuações altas nas duas primeiras escalas e baixas na terceira definem
a síndrome; caso contrário, ela fica descartada. Por exemplo, estaria longe
do burnout menos de 18 em CE, menos de 5 em DP e mais de 40 em RP.
Não existe uma cifra limite que indique a presença da síndrome; no entanto
há possibilidade elevada de sofrê-la quem apresenta mais de 27 em CE,
mais de 10 em DP e menos de 33 em RP.
7. Do diagnóstico à terapia
“Nem tudo que é ouro fulgura, nem todo vagante é vadio; o velho que é
forte perdura, raiz funda não sofre o frio. Das cinzas um fogo há de vir.
Das sombras a luz vai jorrar; a espada há de, nova, luzir, o sem-coroa há
de reinar.”
Gandalf
“Nem todo vagante é vadio”, escreveu o mago Gandalf a Frodo, em O
senhor dos anéis. São palavras que definem a esperança que germina na
terra seca. São palavras de alento, sobretudo se os resultados que você
obteve no teste acima indicam a presença de desgaste. É um bom momento
para tomar decisões que detenham o agravamento da síndrome e permitam
voltar a trabalhar com realismo e entusiasmo, porque, lembre-se, o frio
ainda não chegou às suas raízes fundas e andar vagante não significa ser
vadio.
Nos comentários a seguir, proporemos um caminho de recuperação ou de
prevenção. Sua aplicação, por menor que seja, vai tirar-nos de uma atitude
derrotista e de entrincheiramento para pôr-nos a trabalhar ativamente pelo
nosso bem-estar. Feito o diagnóstico, passemos à terapia!
8. Dicas para recuperar-se e prevenir o desgaste
profissional
“Quem de vós, querendo construir uma torre, primeiro não se senta para
calcular as despesas e ponderar se tem com que terminar?
Não aconteça que, tendo colocado o alicerce, e não sendo capaz de
acabar, todos os que virem comecem a caçoar dele, dizendo: Esse homem
começou a construir e não pôde acabar.
Qual o rei que, partindo para guerrear com outro rei, primeiro não se
senta para examinar se, com dez mil homens, poderá confrontar-se com
aquele que vem contra ele com vinte mil?”
Evangelho de Lucas
O evangelista Lucas já descrevia, há dois mil anos, a psicologia do
burnout e oferecia recursos para evitá-lo: o cálculo e o exame. O que
devemos considerar?
Em primeiro lugar, as características da pessoa que padece dele que a
deixam mais ou menos vulnerável, para logo em seguida levar em conta
também o trabalho que realiza. Em relação a esse segundo elemento, temos
de analisar o tipo de trabalho, a estrutura da instituição onde realiza a tarefa
e o ambiente.
Quanto às características pessoais, cada individuo é um ser único, bem
como suas atitudes e reações. As características da pessoa, sua história
afetiva, a ideia que tem de si mesma e do seu trabalho, como o interpreta,
valoriza e enfrenta, são, na realidade, fatores que influenciam suas reações
emotivas, suas ações e sua capacidade de suportar tensões. A partir dessas
estruturas pessoais, comprovamos que existem indivíduos mais vulneráveis
do que outros. Pode-se traçar um perfil característico dessas pessoas
vulneráveis. Elas têm dificuldade em definir os limites nas relações com os
demais, comprometem-se com inúmeras tarefas sem ter consciência de suas
possibilidades e sem avaliar riscos e recursos. Por outro lado, são frágeis e
dependentes ao lidar com os outros e procuram satisfazer no trabalho apenas
as necessidades de realização, afeto e aprovação. Recordemos o caso da
doutora Susana, cuja história deu início ao capítulo.
A imagem de uma casa vai ajudar-nos a elucidar a interação entre pessoa
e ambiente. Uma casa sem paredes, feita somente de janelas e portas de
materiais frágeis e transparentes, como o vidro comum, não oferecerá
segurança nem intimidade ao convívio dos seus moradores. São assim as
pessoas que têm dificuldade de pôr limites à intromissão de estranhos na
própria vida. Por outro lado, uma casa feita somente com paredes de
azulejos, sem janelas nem portas, será segura, mas a falta de intercâmbio
com o meio ambiente fará com que seus ocupantes se definhem pela falta de
alimentos e ausência de luz natural. Esse modelo de casa é similar às
pessoas fechadas à inter-relação com os demais; embora sendo
aparentemente menos vulneráveis, a falha na intercomunicação de bens
afetivos e materiais com seus semelhantes vai levá-los à depressão por
retração.
Uma casa onde as paredes, janelas e portas se distribuem de forma
proporcional à sua utilidade, ao lado da solidez dos materiais, oferece aos
ocupantes uma moradia segura. Atenção, porém! Nenhuma casa é
suficientemente forte para resistir intacta a bombardeios, tornados ou
tsunamis, ou o simples gotejamento de água lento e constante. Os elementos
externos também têm importância. Viktor Frankl, em seu testemunho vivido
nos campos de concentração nazista, assegurava com pesar que “os melhores
não voltaram”. Uma situação ambiental fortemente agressiva pode debilitar
inclusive pessoas capazes de grande fortaleza.
A psicologia cognitiva, que nasce entre os anos 1950 e 1960, estuda
como a realidade é percebida pela nossa mente, a maneira com que
armazenamos a informação e as condutas com as quais respondemos. Foca,
portanto, seu interesse nos dois componentes causais do burnout: a pessoa e
o ambiente. Por isso, suas contribuições para a prevenção e a cura do
esgotamento profissional são extremamente úteis. Baseados nessa pesquisa,
ofereceremos um guia simples para prevenir e resolver o burnout nos seus
aspectos sociais e psicológicos. Deixaremos para uma análise posterior osaspectos existenciais e espirituais, considerados fundamentais em nossa tese.
De fato, é conveniente agir em todas as dimensões do homem para sua
recuperação. Melhorar os aspectos psicológicos e institucionais abre
caminho para que venham à tona os recursos espirituais, cujas
possibilidades de transformação da realidade pessoal e comunitária são
determinantes.
A psicologia cognitiva ocupa-se dos elementos psicológicos de nossos
sofrimentos e propõe caminhos úteis para a recuperação. Uma cebola, assim
como nós, tem muitas camadas, e as mais superficiais fazem chorar tanto
quanto as mais internas. Comecemos então, sem demora, a descascar nossa
cebola a partir da superfície…
9. Conselhos da psicologia cognitiva para agir na
esfera pessoal
a) Concentrar-se no “campo de influência atual”
“Tua vida nunca mudará enquanto não mudares algo que fazes
diariamente.”
Delimitemos nosso campo de influência e o momento que vivemos como
a única possibilidade de tomar nossas decisões. Somente no que nos
compete e no momento presente podemos criar uma realidade nova que, a
partir de nossa atividade, influencie e transforme o ambiente.
Com a logoterapia, Viktor Frankl confirma que a resposta adequada ao
que a vida nos propõe deve ser ativada e enquadrada na concretude de cada
dia. É esse o espaço concreto do humano ser responsável. Nesse espaço
concreto, o indivíduo é insubstituível. Nossa personalidade, que é única e
não repetível, segundo o fundador da logoterapia, realiza-se no momento
presente, no “campo de influência” concreto que nos cabe viver.
Essa ideia é compartilhada pelos psicólogos cognitivos, que
recomendam produzir pequenas mudanças nos detalhes do “como
trabalhamos”, para que as emoções negativas que o trabalho gera diminuam
a partir dessas “pequenas ações”.
Talvez, neste momento e em nossa tarefa específica, não consigamos
transformar o sistema de saúde do país ou a realidade da educação em nível
estadual; contudo, focar na impossibilidade de fazer algo enseja atitudes
fatalistas. Esse sentimento negativo, associado à ideia de que “não posso
mudar nada”, produz a entrada num círculo vicioso em que a falta de ação
gera a ideia fatalista, e esta inibe ainda mais a ação. Melhor do que
perguntar qual a origem do círculo vicioso é fazer algo para rompê-lo.
Podemos mudar pequenos elementos no mundo que nos rodeia. Por exemplo,
nos trinta minutos que temos de descanso, podemos caminhar por uma praça
em vez de continuar no escritório respondendo a e-mails pessoais ou
atualizando nosso Facebook. É uma pequena mudança que depende de nós e
pode gerar uma grande diferença. Por conseguinte, ela nos fará sair logo do
sentimento negativo do tipo “não dá para mudar nada”. Algo aparentemente
insignificante dá para mudar, e posso fazê-lo já, neste momento.
b) Um ambiente belo e agradável
“Todo dia, devíamos, ao menos, ouvir uma breve canção, ler uma boa
poesia, ver um quadro genuíno, e, se possível, dizer algumas palavras
sensatas.”
Johann Wolfgang von Goethe
A vida não encontra sentido só no trabalho que desempenhamos. Existe a
possibilidade de dar sentido à nossa vida mediante a contemplação da
beleza que nos rodeia, manifestada na arte, na natureza, numa pessoa
querida. Essa riqueza exige de nós uma passividade ativa. É passividade,
porque recebemos valores que existem fora de nós, e é atividade, porque
requer a atenção para descobri-los.
Como atuar esses valores no trabalho? Não podemos trabalhar e, ao
mesmo tempo, fazer uma excursão em bosques e montanhas, rezar em uma
catedral gótica, estabelecer uma comunicação profunda e emocional com
uma pessoa querida, visitar um museu de arte e nos extasiarmos com uma
sinfonia. Sem dúvida, perderíamos o emprego em pouco tempo. Para nosso
chefe, os valores de contemplação seriam facilmente associados à
ociosidade. Resta- -nos, então, uma possibilidade: embelezar o ambiente
onde trabalhamos.
Uma consequência indesejável do burnout é que começamos a abandonar
o cuidado com o ambiente de trabalho. Com o tempo, temos a sensação de
trabalhar num chiqueiro, e nem sempre é somente sensação. Conseguir que o
lugar onde passamos boa parte do dia mantenha ordem, harmonia e aspecto
digno depende de nós e de nossas decisões. Conheci um diretor de uma
empresa importante que procurava ter os objetos de uso corriqueiro (clipes,
grampeadores, agenda, blocos de recados etc.) em cores muito vivas e, se
possível, originais e modernos. Isso fazia daquele escritório, onde ele
geralmente tinha de tomar decisões importantes, um ambiente agradável à
sua vista e recriava as longas horas de escritório.
Façamos uma lista das coisas desorganizadas e desagradáveis que temos
no nosso lugar de trabalho e tratemos de melhorá-las. Priorizemos umas
poucas, para começar; tomemos um tempo razoável e encaremos uma a uma.
O pessoal do campo diz que, de grão em grão, a galinha enche o papo. Não
há chiqueiro que resista a uma ação diária de saneamento, mesmo que seja
de uns poucos minutos.
Há também algumas outras formas de alimentarmos a passividade ativa.
A leitura de um bom artigo que nos atualiza na profissão, escutar música
durante o caminho até o trabalho, interessar-se pela vida de um companheiro
de trabalho antes de passar aos assuntos próprios “do que temos para fazer”
etc.
c) Trabalhar melhor em vez de mais
O trabalho pesado e tedioso de todos os dias pode ser mais tolerável,
mais eficiente e menos estressante. Isso se consegue quando se procura:
1) Estabelecer objetivos realistas. As utopias são ideais que nos
seduzem para a linha do horizonte, dando-nos força para caminhar. No
entanto, os passos que nos levam a nossos sonhos e ideais têm de ser
concretos, dados com os pés no chão. Sem nos iludirmos, consideremos
nossas capacidades e nossos limites, e que nossos objetivos sejam
específicos e factíveis. Façamos a distinção das utopias, que nos mantêm no
caminho, e os projetos concretos, demarcados por balizas que possam ser
verificadas. Ambos os elementos colocam-nos em movimento.
Enquanto escrevo estas páginas, proponho a mim mesmo revisar e deixar
mais compreensível este capítulo; para isso reservei uns dias, porque quero
poder fazê-lo sem ocupar todo o meu tempo. Deixo espaço para minha
família, meu trabalho profissional, esporte, ensaio do coral do meu bairro e
meditação espiritual diária. O projeto de “escrever um livro” ia me deixar
abatido pela sua envergadura além dos meus limites de escrita. Com essa
ansiedade, eu deixaria de desenvolver minha rotina diária, que me mantém
saudável e feliz, e me obrigaria unicamente a escrever. Como consequência,
o propósito ia certamente fracassar, pois eu ficaria extenuado em poucos
dias. Paradoxalmente, o livro sobre o burnout não sairia por causa do
burnout do autor.
2) Usar a criatividade. Com criatividade é possível fazer as mesmas
coisas, porém de forma diferente. Algumas situações dão a possibilidade de
improvisar e fugir da rotina. A novidade gera entusiasmo e dá um sentido de
liberdade pessoal antidesânimo.
O efeito benéfico da consciência de possuir a liberdade pessoal merece
o esforço e o risco.
Por exemplo, a aula que preciso ministrar ao ensino médio, e que repito
com o mesmo esquema desde quando a planejei cinco anos atrás, hoje
poderia ser diferente em sua metodologia e conteúdo. Para tanto, posso
chamar um colega ou aluno para que proponham novas formas. Geralmente
atendo meus pacientes de psicoterapia no meu consultório. Já que se trata da
última entrevista de uma longa serie, por que não propor que conversemos
passeando no parque? A criatividade é uma característica típica da espécie
humana. Há animais inteligentes, mas não criativos. Vamos usá-la, então!
3) Planejar o tempo adequadamente. Ainda que pareça contraditório
com o item acima, organizar a agenda e estabelecer uma rotina possibilita
um domínio sobre nosso tempo. Contudo, atenção com as listas das coisas a
serem feitas. Frequentemente enumeramos as atividades na agenda sem
intervalos entre elas, com bastante otimismo em relação ao tempo que a
tarefa consumirá.E o resultado é a impossibilidade de realizá-las e a
subsequente frustração. Por exemplo, achávamos que certa reunião para
resolver um intrincado conflito duraria o mínimo de tempo necessário; essa
reunião que, de acordo com a agenda, levaria quarenta e cinco minutos,
acabou durando duas horas. Registrar as várias atividades e quanto tempo
elas consomem, de forma objetiva, servirá para planejar o dia sem apertos,
evitando assim a angustiosa sensação de estar sempre correndo atrás de um
ônibus que acaba de passar. O tempo vivido é a substância do nosso ser;
consequentemente, não controlá-lo nos aliena.
4) Refletir sobre o que fazemos. Ação e pensamento vão de mãos dadas.
O trabalho oferece situações complexas e novas, desafios que são uma
oportunidade para pensar como superá-los. A reflexão também oferece a
ocasião para o intercâmbio de opiniões com companheiros e colegas, para
escutar atentamente o que pensam e apresentar desinteressadamente nossas
ideias. Dessa forma, a partir de uma situação em um primeiro momento tida
como problemática, surge a oportunidade de conhecer melhor nossos
recursos e os dos companheiros de trabalho. Descobrimos “aquele recurso
humano”, talvez o mais determinante, que é a interação da equipe e a
produção que surge como fruto. A isso chamamos sinergia, uma relação que
oferece um “algo mais” à soma das partes.
5) Administrar as coisas com distância, o que não significa indiferença.
O supercompromisso provoca a cegueira e impede a compreensão “do que
fazer” com objetividade. Não leve trabalho para casa nem na pasta e, se
possível, tampouco na cabeça.
Certa vez, assisti a um documentário na televisão que me chamou a
atenção. Mostrava como uns caçadores nativos da selva congolesa faziam
para capturar macacos. Eles escolhiam uma árvore com um oco
suficientemente grande para que entrasse a mão do macaco. Os caçadores
então colocavam uma laranja dentro desse oco e se escondiam esperando. O
macaco, sentindo o cheiro da fruta, aproximou-se da árvore para investigar.
Meteu a mão dentro no oco, agarrou a fruta e, quando tentou tirar a mão, não
conseguiu, pois a mão fechada segurando a laranja não passava pelo buraco
da árvore. Então os caçadores, com muita calma, iam até o macaco, jogavam
uma rede encima dele, apertavam sua munheca para soltar a laranja e o
colocavam numa jaula.
O apego ao trabalho pode fazer com que percamos a cabeça e acabemos
“enjaulados”, como aconteceu com o macaco do documentário.
Trabalhar menos em vez de mais:
1) Estabelecer objetivos realistas.
2) Usar a criatividade.
3) Planificar o tempo adequadamente.
4) Refletir sobre o que se faz.
5) Administrar as coisas com distância.
d) Cuidar do jardim de nossos pensamentos e sentimentos
Sublinhe as coisas que estão indo bem para você, junto com os fracassos
normais. Identifique as virtudes e os talentos que proporcionam seus
sucessos. Quais poderiam ser incrementados? Há algum defeito a ser
limado? “Conhece-te a ti mesmo”, era o imperativo dos filósofos antigos. A
autoanálise é necessária para compreendermos nossas reações e emoções.
Façamos isso de forma positiva, de modo que, ao mesmo tempo em que
reconhecemos os limites, identifiquemos os talentos.
Emoções positivas Emoções negativas
Inquietude Ansiedade
Tristeza Depressão
Responsabilidade Culpabilidade
Desilusão Vergonha
Desgosto Ira
Proponho um exercício. Escolha um momento para refletir e medite sobre
as emoções enumeradas na lista acima. Você consegue distinguir as emoções
positivas das negativas? Isso é fundamental, pois as primeiras são
adaptativas e trazem tolerância à frustração, capacidade de avaliar as
situações e lidar com decisões conscientes e uma saudável autoaceitação. As
outras são inadequadas e conduzem à ideia de uma catástrofe iminente, ao
alarmismo do “não aguento mais” e à autocondenação. As emoções
positivas, assim que identificadas, devem ser cultivadas e acompanhadas. As
outras são como os baobás do Pequeno príncipe1: se os deixamos crescer,
destruirão o planeta. Convém usar a enxada.
O diálogo interior permitirá a você compreender a qualidade e a
intensidade de suas emoções.
Dou algumas pistas. As emoções negativas têm a característica de serem
automáticas; com elas, o corpo fica tenso, a imagem que se tem de si avilta-
se e o sofrimento torna-se inútil e sem sentido. As emoções positivas nascem
do coração, surgem do nosso centro sentimental e decisório. O sofrimento
que acompanha as emoções aporta uma aprendizagem com mudança de
atitude, fazendo surgir novos caminhos para percorrer.
Por exemplo, meu paciente Armando tem “vergonha” por beber muito, e
esse sentimento leva-o a beber ainda mais. Maria está “triste” porque acaba
de ficar viúva e imagina que, nessa nova situação, sua vida será dedicada a
honrar a memória de tudo o que dividiu com seu marido. A “inquietude” por
não ter emprego é a energia para encontrá-lo. Se estivermos dominados pela
“ansiedade”, nossa eficácia no trabalho diminuirá notavelmente a ponto de
perdermos o emprego!
Acontece, porém, que, ao querermos evitar o sofrimento, não
reconhecemos as emoções positivas, como a inquietude, a tristeza, a
responsabilidade, a desilusão e o desgosto. Ao cultivá-las, vamos nos ver
com excelentes recursos. Descobriremos nossa inteligência, a fortaleza e a
coragem com que encaramos as situações, e a paciência para aceitar as
perdas irreparáveis sem resignação.
Mais um passo. Nesse diálogo vamos estabelecer os pensamentos e as
ações automáticos. Quando nos perguntamos por que fizemos determinada
coisa ou não compreendemos nossa atitude em determinadas circunstâncias,
certamente estamos diante de um comportamento automático. São os baobás,
pensamentos e condutas reativas que contribuem para nos esgotarmos. Na
lista abaixo encontraremos alguns exemplos. Essa lista, sem ser exaustiva,
permite que comecemos a reconhecer tais pensamentos em nosso diálogo
interior.
1) Se penso que “devo ser perfeito em tudo para ser aceito”, torno-me
ansiosamente perfeccionista.
2) Se meu pensamento é “se escolho fazer algo, tenho de ter sucesso”,
ficarei competitivo e centrado. E se não tiver êxito, direi a mim em tom
catastrófico: “Sou um fracasso!” Ou pior, do ponto de vista das
consequências relacionais, direi: “Fracassei porque todos estavam contra
mim!”
3) Se o único ideal da minha vida é encontrar alguém e me casar, e penso
que “sem uma mulher (ou um homem) não sou ninguém”, o resultado é a
dependência afetiva e uma posição insegura frente à vida.
4) Se repetidamente vem à minha mente a frase “Não importa o que você
fizer; não vai dar certo”, o resultado é uma desconfiança básica ante a vida.
E a desconfiança com relação ao mundo concretiza-se no âmbito das pessoas
mais próximas: “Não se pode confiar em ninguém!”
5) As palavras absolutas “sempre”, “nunca”, “tudo”, “nada” constroem
nossos esquemas de pensamento negativo. Como, por exemplo: “Nunca me
senti confortável entre pessoas ”. A atitude que decorre disso é a repulsa a
atividades sociais.
6) O pensamento “Se eu cometer um erro, perderei tudo” faz com que eu
não me arrisque e fique empacado. Os sentimentos de ansiedade contêm um
medo catastrófico que petrifica. A ideia que o acompanha é: “O mundo é
aterrador para mim!”
7) A tendência ao agravamento das coisas vai ficando sistemática, como
o pensamento quase ridículo de que “ainda que agora as coisas estejam indo
bem, no final terminarão mal”.
Essas pistas podem ser úteis para identificar nossos pensamentos
negativos; todavia, devemos nos lembrar da singularidade humana. A lista
acima é apenas uma amostra para estimular nossa busca interior. Estou certo
de que na reflexão descobriremos nossos “pensamentos-baobás” pessoais.
Como última advertência e sem entrar no catastrofismo: bastam dois deles
para nos romper o planeta!
As emoções adaptativas e positivas também são acompanhadas por
pensamentos que permitem encarar a realidade com êxito. Deixo estes dez
exemplos para um mergulho interior:
1) A confiança básica me faz dizer: “Não importa o que aconteça; deum
jeito ou de outro seguirei em frente!”
2) Não sei se terei êxito, mas, “se me esforço neste trabalho, posso
chegar a dominá-lo”. Viktor Frankl costumava dizer: “A intenção é nossa, o
efeito é de Deus”.
3) A ideia “sou um sobrevivente” coloca-nos diante das coisas como
alguém que, em algum momento, já as superou. Podemos dizer ante um novo
obstáculo: “Sobrevivi a tantos outros, por que não a este?”
4) “Os outros podem confiar em mim”, pude constatar isso e algumas
vezes os surpreendi dando mais do que esperavam. Naquelas coisas em que
eu pude corresponder às expectativas, o trabalho foi suficientemente bem
feito.
5) “As pessoas me respeitam”, e se alguém não o faz é porque não
conheceu meu valor ou por ignorância ou descuido. Se as pessoas são
desatentas, não é minha responsabilidade.
6) “Posso resolver os problemas”. O interessante nessa frase é a
ausência de palavras absolutas. Poderia ser: “Sempre resolvo os
problemas”. Contudo, sob essa aparência de otimismo esconde-se a
bipolaridade do pensamento pelo qual se passa, sem mediação, da segurança
do êxito ao fracasso categórico, com um pequeno tropeço que desafia e
vence a palavra “sempre”.
7) “Se me preparo com antecedência, geralmente faço as coisas melhor.”
Essa ideia me dá a garantia de que, sendo dono do tempo, sou dono dos meus
recursos. Otimizando meus recursos, as coisas vão melhor.
8) “Gosto dos desafios”, e uma vez que os supero, descubro em mim
alguns talentos que até então desconhecia.
9) “Não são muitas as coisas que me assustam”; com o tempo construirei
ferramentas de defesa para que meu medo não me imobilize.
10) “O normal é que as coisas vão bem para mim” e, mesmo quando vão
mal, restam sempre caminhos alternativos para sair da situação.
Concluamos nossa reflexão sobre os aspectos cognitivos e de conduta no
que se refere à etiologia do burnout com um último exercício. A pergunta
que fazemos é se existem características que permitem diferenciar os
pensamentos negativos dos positivos e adaptativos. Vimos que os primeiros
são automáticos e os segundos, reflexivos; os primeiros são reativos às
circunstâncias e os positivos, pró-reativos (ou seja, nascem do processo de
observar de modo realista o meio para agir nele com decisão). Para fixar o
esquema em nossa memória, vejamos na tabela a seguir as características
que diferenciam os dois tipos de pensamento, tomando como exemplo a
emoção do medo.
Pensamento primitivo e automático Pensamento maduro e reflexivo
Considera o problema numa única
dimensão.
Exemplo: Sou medroso.
É multidimensional.
Exemplo: Sou medianamente medroso, bastante generoso e inteligente
noutras coisas.
Absolutista e moralista.
Exemplo: Sou um covarde
menosprezível.
Relativo.
Exemplo: Tenho mais medo do que a maioria das pessoas que conheço.
Invariável.
Exemplo: Sempre fui e sempre serei
um covarde.
Variável.
Exemplo: Meus medos variam de momento a momento e de situação a
situação.
Diagnóstico de caráter.
Exemplo: Tenho uma personalidade
fóbica.
Diagnóstico de conduta.
Exemplo: Na maioria das vezes evito várias situações, e tenho diversos
medos.
Irreversível.
Exemplo: Como sou fraco de
nascença, não há nada que se
possa fazer para resolver meu
problema.
Reversível.
Exemplo: Posso aprender modos de enfrentar situações e de lutar
contra meus medos.
Polarizado.
Exemplo: Ou supero de uma vez
totalmente este problema, ou aban ‐
dono tudo.
Equilibrado.
Exemplo: Posso alcançar uma solução intermediária; provavelmente
não resolverei as coisas de maneira perfeita, mas já é bom conquistar
objetivos intermediários que estejam ao meu alcance.
Verifique se a reflexão leva você a:
1) Que as respostas às situações da vida sejam sempre
multidimensionais, isto é, que a compreensão da realidade abranja a maior
quantidade de aspectos e informação possíveis, e dê uma maior
possibilidade de respostas.
2) Que os juízos sejam relativos e subordinados ao imenso valor da
minha pessoa e à pessoa dos outros, julgando somente as condutas e não as
intenções.
3) Que cresça a convicção de estar percorrendo um caminho que não é
linear, mas que tem muitas curvas, recuos e pausas de descanso. Quando eu
me preparava para minha primeira maratona e me vi correndo sem fôlego e
com vontade de parar, um pensamento me veio à mente e me permitiu
prosseguir: “Não importa se você vai chegar; o importante é que você
continue correndo”. Apesar de já ter passado dos quarenta anos e de não ter
constituição física de atleta, consegui participar da maratona (corrida de
quarenta e dois quilômetros). Pude aplicar essa frase em situações
existenciais de minha vida com a mesma eficácia.
4) Que aprenda a recomeçar quantas vezes for necessário, graças à
aquisição da reversibilidade do pensamento.
10. Fatores externos
Passemos dos fatores individuais que produzem desânimo profissional
aos institucionais. Lembremos o exemplo da casa. Dizíamos que uma casa
bem construída e com materiais de ótima qualidade pode ser igualmente
destruída se as forças externas forem suficientemente demolidoras
(bombardeios, tsunamis, tornados etc.). Escoramos a casa que representa
nossa fortaleza pessoal para nos defendermos do desgaste profissional.
Volvamos agora nosso olhar para os fatores externos. Já sabemos que, na
gênese do esgotamento profissional, nem tudo é vulnerabilidade pessoal. Os
fatores externos englobam as dimensões culturais, institucionais e
interpessoais, que afetam os indivíduos e os tornam vítimas da síndrome.
Dedicaremos dois capítulos específicos às dimensões culturais e
interpessoais.
Partamos da premissa de que a tarefa propriamente dita do serviço na
medicina, de atenção ao público, na docência etc., promove o desgaste
profissional. Quem se entrega a uma tarefa de ajuda aos necessitados em
pouco tempo descobrirá que estes são muitos e que, além do mais, têm
muitas necessidades. Terá de se acostumar com um sentimento crônico de
insuficiência.
Por outro lado, as necessidades das pessoas são muito variadas,
enquanto que o serviço profissional que as instituições oferecem é limitado e
circunscrito à própria especialidade. Poderíamos trabalhar numa clínica
oftalmológica com um excelente serviço prestado, com recursos humanos e
materiais suficientes para a tarefa e atender pessoas que, além de seus
problemas oculares, não têm suas necessidades econômicas básicas
satisfeitas.
Outro elemento que prejudica docentes, médicos, assistentes sociais,
agentes pastorais da Igreja etc., é a dificuldade de avaliar os resultados do
que foi feito e, como consequência, as gratificações recebidas são escassas.
No âmbito da docência, os professores se veem diante de mudanças
culturais de enorme magnitude, e por isso têm a sensação de estar sempre
desinformados e pouco atualizados profissionalmente para poderem interagir
com as novas gerações.
As sociedades, assim como as pessoas, podem estruturar-se de forma
inadequada, repetindo comportamentos institucionais que promovem o
desânimo profissional. Por exemplo, a ambiguidade e a confusão na
distribuição de tarefas e papéis, e a sobrecarga de trabalho dos mais
capazes, sem, por outro lado, se encontrar um lugar para os menos dotados,
são situações frequentes. Josefa vem se consultar comigo por causa de um
quadro de desânimo profissional. Sua história é típica: é vice-diretora de
uma escola, e a inspetora do Ministério da Educação pediu-lhe que
desempenhasse as funções de diretora, pois quem já ocupa esse cargo é
incapaz de exercê-lo. Todavia, Josefa teria de tomar o trabalho da diretora
sem ferir a sensibilidade dela, e também sem que a situação transparecesse
aos demais. Para completar o quadro, receberia somente o salário de
professora, porque o de vice-diretora ainda não constava do orçamento. A
isso chamamos confusão e ambiguidade na distribuição dos papéis,
sobrecarga de trabalho e retribuição insuficiente. Depois de apenas dois
anos de trabalho nessa situação, Josefa desenvolveu a síndrome do desânimo
profissional.
Por outro lado, as instituições podem estabelecer objetivos e exigências
irreais.Esses objetivos podem ser proclamados pela hierarquia institucional
com força dogmática, gerando constante frustração entre os membros. São
bastante frequentes as injustiças remunerativas e relacionais no campo do
trabalho. A gestão com estilo autoritário impede o grupo de trabalho de
discutir as políticas da organização em que está e influir nelas. O baixo
conhecimento do próprio profissionalismo e a ausência de uma
retroalimentação daquilo que se faz geram também um clima de desconfiança
entre todos.
Essas disfunções institucionais são ambiente propício para que as
pessoas vulneráveis adoeçam. À disfunção institucional devemos
frequentemente somar o clima tóxico das relações interpessoais no ambiente
de trabalho. Meus pacientes denunciam a falta de apoio entre colegas e um
clima no ambiente de trabalho de competitividade, desconfiança, inveja,
assédio e até mesmo situações de abuso (mobbing). Tudo isso chega a ser
uma constante em muitos lugares.
São fatores que explicam a diminuição do sentimento de pertencimento
dos trabalhadores, elemento que antecipa o desânimo profissional. O
próximo capítulo será dedicado a esse tema.
Procurou-se oferecer pistas de harmonização para as instituições e os
grupos de trabalho com a finalidade de desativar esses mecanismos
descritos como causa do desgaste profissional. Ofereceremos agora um
breve guia com recomendações para as instituições. Trata-se,
essencialmente, de gerar diálogo. O diálogo interior propiciado aos
indivíduos na sessão anterior conduz ao diálogo interpessoal, tão necessário
quanto aquele. Aqui também se requer um esforço inicial para começar.
Como já vimos ao falar dos recursos pessoais, pequenas decisões podem
transformar-se em fatores determinantes de grande mudança. Recomenda-se
então:
1) Grupos de apoio dos empregados com reuniões periódicas. É
importante o intercâmbio dos aspectos emocionais envolvidos na tarefa.
Recomenda-se esse intercâmbio após alguns minutos de diálogo interior.
Intercambiar as atitudes que nos levam ao êxito e às frustrações no que
fazemos. Temos o hábito de dizer: “Essas coisas só acontecem comigo!”
Pois bem, o intercâmbio com meus companheiros de trabalho produz uma
surpresa: temos muitas coisas em comum, não estamos sozinhos neste mundo.
2) Pactuar objetivos claros, realistas e compartilhados por todos, na
medida do possível. Planifiquemos também como verificar o andamento dos
projetos em tempos e critérios acordados. Para isso, colocar na agenda
reuniões periódicas do grupo.
3) Procurar, entre todos, respostas originais para os problemas de
sempre. Além disso, atualizar um diagnóstico dos novos problemas e pensar
juntos em algo criativo, especialmente nas atividades educativas.
4) Multiplicar os programas de oficinas de desenvolvimento para a
formação continuada, visando a otimizar as competências relacionais. São
úteis cursos e treinamentos para melhorar a comunicação.
5) Atualizar as competências profissionais. Facilitar a atualização.
Programar na empresa, na escola ou no hospital a participação de todos em
congressos e cursos de atualização.
6) Possibilitar um trabalho criativo para todos, ou pelo menos oferecer a
possibilidade de fazer o mesmo trabalho de diferentes formas. É preciso
elasticidade na organização do trabalho.
7) São úteis os controles periódicos de burnout por meio de entrevistas
com o pessoal por especialistas no tema. Inclusive mediante conferências
que conscientizem sobre o tema. Em alguns lugares, aplica-se o teste MBI
anualmente. Recomenda-se não fazê-lo perto das festividades de fim de ano,
pois os fatores de estresse podem estar superdimensionados pela
hiperatividade da época.
8) Promover entre o pessoal breves férias comunitárias, excursões,
convívios, para melhorar as relações interpessoais em ambientes
recreativos.
Recursos institucionais
1) Grupos de apoio e comunicação.
2) Objetivos institucionais claros e realistas.
3) Procura de respostas originais aos problemas de sempre.
4) Atualização profissional.
5) Cursos de formação continuada.
6) Promoção do trabalho criativo.
7) Controles periódicos de burnout.
8) Favorecimento de ambientes e momentos de recreação.
O saneamento das relações entre colegas ainda espera um olhar
exaustivo. Os vícios e as virtudes individuais entrelaçam-se na
reciprocidade das relações, gerando cenários favoráveis ao burnout.
Encontramo-nos, portanto, diante de um campo de ação preventiva e
terapêutica que tem um valor fundamental para sanar a atmosfera insalubre
entre colegas de trabalho e que, se quisermos ajudar aos esgotados, não há
como deixar de encará-la. Portanto, cabe perguntar: Serão suficientes os
cursos de comunicação positiva se não houver mudança de atitude e abertura
de cada um para com os demais colegas? É possível erradicar o egoísmo,
tendência que acompanha nossa vida e contra a qual lutamos e em outras
ocasiões liberamos despreocupadamente, com excursões e esportes
praticados em comum entre colegas? Decerto são ações que ajudam, porém
também é necessário que haja a decisão pessoal por uma vida em que a
solidariedade, o amor, a coparticipação e o sadio desinteresse guiem as
ações. Desenvolveremos esse tema no Capítulo 3, dedicado às relações
interpessoais no ambiente de trabalho.
Conclusões
Neste capítulo, enumeramos as características da síndrome de burnout e
as valiosas contribuições da psicologia cognitiva e institucional para sua
prevenção e cura. Usamos também alguns instrumentos simples e ao alcance
de todos para compreendermos quão “queimados” estamos e, assim,
implementarmos imediatamente algumas mudanças, pessoais e institucionais,
que permitam recuperar a energia perdida.
Poderíamos parar por aqui; no entanto, queremos e desejamos mais. A
felicidade é o desejo consciente ou inconsciente que constitui nosso ser.
Trabalhar comodamente e sem desânimo, e alcançar um bem-estar justo e
necessário não significa viver em plenitude o sentido de nossa vida e de
nosso trabalho. Fomos concebidos de tal forma que não queremos
simplesmente o bem-estar, mas um motivo para estar bem. Nosso discurso
está voltado para a compreensão de outra dimensão: a perspectiva
existencial em que falar de burnout nos leve a refletir sobre o próprio
sentido de nosso trabalho. Para fundamentar o sentido de nossa vida e de
nosso trabalho requerem-se critérios de reflexão muito diferentes. A
observação superficial promovida pela nossa cultura faz-nos esquecer uma
verdade muito simples: toda árvore tem raízes que não podem ser vistas.
Nós temos algo em comum com as árvores, temos dimensões profundas
muitas vezes desconhecidas e inconscientes, ou seja, temos raízes. Portanto,
no desafio de superar definitivamente o desânimo profissional, faz-se
necessário uma visão que parta da sabedoria e que ponha seu olhar na base
das coisas. As mudanças psicológicas e institucionais que enumeramos terão
a possibilidade de arraigar-se e sustentar-se se forem acompanhadas de
transformações existenciais.
Para caminhar com essa visão, não podemos evitar a essência espiritual
do homem e da mulher, e sua manifestação transcendental. Acompanharemos
os ensinamentos de um tzadik2, um sábio. Viktor Frankl, fundador da escola
da logoterapia, que viveu no século passado, sofreu, superou e perdoou uma
situação dentre as mais dramáticas e cruéis que um homem pudesse viver:
ser prisioneiro em um campo de concentração nazista.
1 Em O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, o personagem vive num pequeno planeta, o
asteroide B612, no qual há três vulcões (dois deles ativos) e uma rosa. Ele passa os dias cuidando de
seu planeta e cortando os baobás, que constantemente tentam criar raízes ali. Se ele lhes permitisse
crescer, essas árvores rachariam seu planeta em pedaços.
2 Termo hebraico que se refere aos justos ou santos que o judaísmo considera autoridades espirituais.
Capítulo 2
O DESGASTE PROFISSIONAL VISTO
PELA LOGOTERAPIA
“Preocupar-se em encontrar um sentido para nossa existência é uma
realidade primária, é a característica mais original do ser humano.”Viktor Frankl, A ideia psicológica do homem
A pergunta pelo sentido da própria existência acompanha o ser humano
desde sempre; surge da sua realidade mais íntima e essencial.
Se essa pergunta não tivesse resposta, nós nos veríamos diante do
absurdo. Por isso Viktor Frankl afirma que, sob toda circunstância, mesmo
nas mais dolorosas, existe um sentido para a própria vida. Descobri-lo e
realizá-lo é uma tarefa fascinante e necessária para alcançar a felicidade. A
palavra e o testemunho dele possuem grande autoridade moral; Frankl afirma
isso não somente como médico psiquiatra e cientista, mas o faz
essencialmente como sobrevivente dos campos de concentração nazista.
Mesmo naquele lugar de horrores era possível dar um sentido à vida.
Existem inúmeras publicações sobre logoterapia1. O próprio Frankl
deixou uma obra ampla e articulada. Os muitos elementos autobiográficos de
sua obra agregam o fundamento do testemunho à base científica da teoria.
De todos esses livros, um é imprescindível: Em busca de sentido
(Frankl, 2011). Nesse livro, escrito na fase logo após sua libertação, Frankl
analisa a psicologia do prisioneiro do campo de concentração. Reflexões,
relatos e histórias, ao lado de seu testemunho pessoal mais íntimo,
entretecem uma obra-prima que, por seu estilo e profundidade, pode ser
comparada a As confissões, de santo Agostinho. Ambas são reflexões
sapienciais sobre os fatos dramáticos da própria vida, relatados a partir de
um diálogo com a transcendência que vive no íntimo desses autores
singulares. Frankl escreve simultaneamente para si, em busca de sossego
para sua alma, para os leitores, a quem deseja comunicar algo de sua quase
incomunicável experiência, e para Deus, numa reatualização da oração do
justo sofredor da tradição judaica. O efeito que o livro causou nos leitores é
único. Um estudo feito pelo Book of the Month Club e a Biblioteca do
Congresso dos Estados Unidos descobriu que Em busca de sentido estava na
lista dos dez livros de maior influência nos Estados Unidos. A influência
positiva permanece em seus leitores, mesmo depois de anos, devido à
paradoxal mensagem de esperança que o relato oferece. Esperança nas
possibilidades do ser humano, capaz de tanto ódio e atrocidade e, ao mesmo
tempo, de tanto heroísmo e amor.
Essa obra é a melhor introdução à pessoa de Viktor Frankl bem como à
sua teoria científica, para quem não é especialista. Recomendamos sua
leitura vivamente. Tanto o cidadão comum sensível ao problema da
existência quanto o profissional encontrarão respostas a muitas de suas
interrogações. A obra está dividida em duas partes; a primeira,
autobiográfica; a segunda, teórica. Nesta última é possível percorrer as
ideias básicas da logoterapia. Suas edições, numerosíssimas, sucedem-se
ano após ano.
De mãos dadas a esse sábio e com o problema do burnout nas costas,
vamos ver as contribuições da logoterapia para um tratamento eficaz a esse
mal. Após apresentar os elementos biográficos de Viktor Frankl,
abordaremos, com breves pinceladas, a análise existencial e a logoterapia.
O tema terá como foco as pistas necessárias para compreender o desgaste
profissional na perspectiva frankliana. Alerto, porém, que não pretendo
oferecer uma síntese completa dessa escola. Volto a encaminhar o leitor à
numerosa bibliografia a respeito.
1. Viktor Frankl: “O homem que encontrou o
sentido da própria vida ajudando outros a
descobri-lo”
Viktor Frankl se autodefiniu como aquele que encontrou o sentido da
própria vida ajudando outros a descobri-lo. Sua vida transcorre ao longo de
quase todo o século XX (1905-1997).
Apresentar Frankl é tarefa difícil, pois a admiração do discípulo pelo
mestre pode levar aquele a exagerar as qualidades deste. Trata-se,
felizmente, de uma pessoa profunda e ao mesmo tempo simples; por isso não
convém exaltá-lo com palavras e adjetivos grandiloquentes, pois o supérfluo
contradiz a essência de sua vida. Se imaginarmos que um sobrevivente dos
campos de concentração expressará em seu rosto sinais de sofrimento e de
justificados ressentimentos, com Frankl teremos uma surpresa: sua expressão
facial denota um bom humor inquebrantável. Se pensarmos que um
palestrante famoso com mais de trinta títulos de doutor honoris causa e
fundador de uma escola de psicoterapia irá nos cumprimentar com ar de
superioridade acadêmica e doutoral, agradavelmente descobriremos que não
é assim; pelo contrário, ele se apresentará com a humildade de quem sente
que pode aprender com o outro.
Eugenio Fizzotti, logoterapeuta italiano, aluno direto de suas aulas em
Viena e amigo dele e de sua família, descreve-o da seguinte maneira: “Ele
possui uma bagagem humana que desarma, uma cordialidade e uma
sinceridade contagiosas que os enfermos percebem como uma reconciliação
imediata com a vida. Sua combinação de extensa prática clínica, trágica
experiência nos campos de concentração nazistas, constante estudo e contato
frequente com as mais diferentes sociedades do nosso tempo, graças à sua
incansável atividade de palestrante, dão a seu pensamento e à sua palavra
uma aderência à realidade e um sentido humano que surpreende e até mesmo
desconserta. É preciso conhecer o homem Frankl, pois ele não é um homem
de ciência comum, nem um filósofo obscuro, nem um profeta fanático… E
apesar disso, tanto o clínico geral quanto o terapeuta, o pensador quanto o
sacerdote, o homem comum preocupado com a sorte da humanidade podem
obter uma ciência certa” (Fizzotti, 1998, p. 9-10).
Em junho de 1996, um pequeno grupo de cinco latino-americanos2
participou do Primeiro Congresso Internacional de Psicoterapias, nada
menos que em Viena, a cidade de Sigmund Freud. Participaram desse
congresso cerca de três mil colegas de diferentes escolas psicoterapêuticas,
oriundos em sua maioria da Europa. A multidão fervilhava inquieta no
auditório principal do Áustria Center aguardando a abertura do congresso.
No meio do burburinho das conversas e de uma plateia ansiosa, subiu
lentamente ao palco um senhor idoso quase cego, com óculos grossos, de
estatura baixa e encurvada. Suas palavras também eram lentas, cansadas e
ditas em um volume quase imperceptível. Sua palestra, em inglês, durou
apenas alguns minutos, suficientes, porém, para arrancar da Babel3 daquela
plateia um aplauso em pé. Uma frase suscitou a comoção e a resposta
imediata de todos: “A vida sempre tem sentido, mesmo diante do sofrimento
e da morte”. Não havia mais nada a acrescentar. Enquanto ainda se ouviam
os aplausos, aquele homem voltou a sentar-se na primeira fila, ajudado por
seus familiares, tão lentamente como quando havia subido. Esse homem era
Viktor Frankl; tinha noventa e dois anos, e sua palavra, pensamento e
testemunho se entrelaçavam numa sintonia perfeita. Estava no último ano de
vida, e sua notória capacidade de comunicação não estava ofuscada.
Uma personalidade assim não se improvisa; decerto é fruto de decisões e
atitudes adotadas ante as adversidades da vi- da. As coisas se deram com um
dramatismo peculiar, mas a vida tam pouco lhe foi mesquinha em
experiências de amor e alegria. Esse entrelaçamento de vida e decisões, de
coração e razão, de ciên cia e poesia, de sentido descoberto, reconhecido e
seguido, de sofrimento e felicidade, construiu um dos gigantes do século XX.
Esse século, como se estivesse querendo se desculpar de tanta injustiça,
ódio, guerras e imoralidades, presenteou-nos com um ramalhete de gigantes
para iluminar suas sombras4.
Sem a pretensão de escrever uma biografia, desejo contar alguns
episódios de sua vida que o descrevem perfeitamente. Aliás, tais episódios
foram os que mais influenciaram minha própria vida e arrancaram o melhor
de mim em momentos de decisões vigorosas.
A vida de Frankl chega ao ápice de sofrimento com o advento do
nazismo. Anexada ao império de Hitler, a Áustria começa a sofrer as
perseguições raciais. Frankl, de origem judaica, já casado e com quase
quarenta anos, consegue, por meio de sua fama no mundo científico
internacional, um visto para emigrar para os Estados Unidos. Nessahora
depara com um grande dilema. Se emigrar, poderá publicar sua tese e salvar
seu descobrimento científico, a logoterapia, mas se ficar, evitará, ao menos
imediatamente, que seus pais sejam deportados aos campos de concentração.
O que fazer? Cobre a “estrela amarela”5 do seu paletó e entra na Catedral de
Santo Estêvão. Depois de uma longa reflexão, ajudado pela solenidade e
pela penumbra da arquitetura gótica, a dúvida permaneceu. Volta para casa,
onde encontra o pai, que comenta que uma bomba destruiu a sinagoga. Dos
escombros, o pai recolheu uma pedra que corresponde a uma letra hebraica
encontrada unicamente no quarto mandamento: “honrar pai e mãe”. É um
sinal, e as dúvidas dissipam-se. Mais tarde, Viktor sonha que está
oferecendo ajuda psicológica aos deportados nos Lager. Deixa expirar o
visto e fica em Viena.
A deportação aos campos de concentração chega de igual maneira para
ele e sua família.
Em Auschwitz, é separado da esposa. “Salve a sua vida, custe o que
custar”, diz Viktor à sua mulher, na dramática despedida dos cônjuges, que
não sabem se voltarão a se ver. Frankl libera então a esposa da fidelidade
matrimonial, com a ilusão de que algum chefe nazista se interesse por ela e
isso lhe permita salvar-se. Só determinada hierarquia de valores e um
radical desapego podem realizar tais gestos de heroísmo.
A teoria da logoterapia, desenvolvida bem antes da sua deportação, é
colocada à prova. “Apesar de tudo, sim à vida”, é a proposta que faz a si
mesmo ao entrar em Auschwitz, e é uma das ideias propulsoras da
logoterapia, que reconhece no homem e na mulher a capacidade de colocar-
se acima dos condicionamentos e limites que lhes são impostos, para
responder ao sentido que a vida lhes oferece. Durante uma palestra, Frankl
afirmava:
“Aquele que é psiquiatra e, além disso, vienense, e tem orgulho disso
[…] conclui com esta passagem: ‘submeta a um regime de fome certo
número de pessoas de todos os tipos. Com o aumento da necessidade
imperiosa de alimentação, as diferenças individuais desaparecem e, em seu
lugar, surgem manifestações uniformes de um instinto insatisfeito’. Palavras
de Freud. Graças a Deus ele não teve de conhecer por dentro um campo de
concentração ou de prisioneiros de guerra. Seus pacientes deitavam-se num
cômodo divã no estilo vitoriano da época, época da cultura do veludo e não
das imundícies de Auschwitz ou Stalingrado. E ali as diferenças não
desapareceram; pelo contrário, acentuaram-se. Ali se revelaram os canalhas
e os santos. Sempre evitei falar, neste ponto, de santos, mas, depois da
canonização do padre Maximiliano Kolbe, poderia fazê-lo sem reparos.
Apesar disso, mais do que falar de pessoas santas, prefiro falar de pessoas
honestas, para confessar imediatamente que se trata de uma minoria.
Todavia, não é justamente essa raridade um chamado a tomar parte de tal
minoria de pessoas honestas? O mundo vai mal, porém irá muito pior se
cada um não fizer o que pode. Sabemos, depois de Auschwitz, do que o ser
humano é capaz e sabemos, depois de Hiroshima, o que está em jogo”
(Frankl, 2006, p. 82-83).
2. Princípios básicos da logoterapia
Após essa breve apresentação da pessoa de Viktor Frankl, mediante
episódios emblemáticos, permito-me fazer uma síntese da logoterapia. Para
isso, vou enumerar seus princípios básicos. A quem ainda não teve acesso à
obra de Frankl, quero em poucas linhas dar a possibilidade de conhecer seus
fundamentos. Essa brevidade é imperativa para passarmos ao que nos
interessa: a logoterapia como tratamento específico do burnout. Tenho
consciência de estar sintetizando e simplificando uma reflexão rica e
complexa. Quem estiver lendo este livro com a intenção de se ajudar a
superar o desânimo profissional vai me agradecer. Peço aos especialistas
que perdoem as lacunas que certamente encontrarão. Para facilitar a
aprendizagem, defino brevemente dezesseis princípios fundamentais.
1) A logoterapia afirma que a vida, em qualquer circunstância, feliz ou
adversa, oferece um significado, um sentido válido a ser descoberto.
2) O ser humano possui sempre, em sua vontade, a possibilidade de
encontrar e realizar esse sentido.
3) A consciência é o guia mais adequado para essa tarefa, pois ela é a
capacidade intuitiva que descobre o significado único e singular escondido
em cada situação. Numa palavra, a consciência é o órgão para descobrir o
significado e pode referir-se, por seu caráter imediato e intuitivo, ao que
Pascal chamava de as razões do coração6, e não a razão lógica. O sentido
da vida não é uma lógica da vida7.
4) A vontade da pessoa é livre para escolher realidades mais ou menos
significativas para a vida. A concepção frankliana está longe de um
relativismo moral situacional. Frankl pensa em valores objetivos universais,
que se articulam numa hierarquia. De toda maneira, a consciência decide
com liberdade tendo diante de si a situação e a ordem objetiva de valores8.
5) Os seres humanos constituem uma unidade de várias dimensões:
biológica, psíquica e espiritual. A dimensão social está integrada a todas; o
ser junto aos outros, que nos caracteriza, é uma realidade corporal,
cognitiva, sentimental e espiritual.
6) A dimensão espiritual marca o específico do ser homem ou mulher. A
pessoa deve ser conhecida e amada nessa dimensão. A perspectiva de
conhecer e amar o ser espiritual do outro, onde se enraíza seu caráter único e
não repetível, justifica reconhecer o amor como irrevogável, superando não
só as mudanças psicofísicas da história, mas também o próprio
desaparecimento do ser amado. Frankl costumava dizer, como médico, que o
espírito é o saudável da pessoa doente. Mas não só, o ser espiritual age
como um recurso terapêutico que permite o exercício da medicina com
possibilidades de êxito. Frankl foi o primeiro psicoterapeuta a integrar a
espiritualidade à psicoterapia. O espírito, na sua imaterialidade encarnada, é
uma força poderosa que se contrapõe aos condicionamentos psicofísicos.
Frankl chama a essa supremacia do espiritual sobre a dimensão orgânica de
a força indômita do espírito. Para a logoterapia, ser homem significa,
sobretudo, a capacidade de ir além dos condicionamentos, graças a essa
capacidade do espírito. Em seus textos, Frankl define a dimensão espiritual
de diferentes maneiras: ser noógeno9, ser pessoal, ser existencial.
A tensão e o estresse fazem parte da vida humana. A “tensão espiritual”
fortalece os “músculos espirituais” de uma pessoa e ajuda-a a conduzir a
vida como poderia ser em seu crescimento e não como se lhe apresenta.
7) A busca do sentido da vida pode ser frustrada e reprimida. Chamamos
a essa situação de vazio existencial. Muitas são suas causas, embora o
espírito não fique doente, ele se deixa conduzir pela existência, afirma
Jaspers. “A doença do existir”, continua este autor, “tem consequências para
a realização do espírito; este pode ser contido, deslocado, perturbado, ou
pode também ser animado e passível de ser de maneira única” (Jaspers,
1996, p. 803). Por isso a importância da educação como alento para o
espírito.
No surgimento do vazio existencial, são igualmente importantes os
aspectos socioculturais: o relativismo dos valores na cultura pós-moderna
nivela as opções de sentido, que perdem relevância, tornam-se menos
reconhecíveis e, por conseguinte, menos agradáveis, tornando, por
conseguinte, lenta a vontade de optar. Nas chamadas personalidades
narcisistas, é frequente uma posição autorreferencial, que se descuida da
capacidade de autotranscender, necessária para ir ao sentido escolhido.
Segundo Frankl, o vazio existencial constitui a perda do sentimento de que a
vida é significativa. Os pacientes queixam-se “da total e extrema falta de
sentido de suas vidas. Elas carecem da consciência de um sentido pelo qual
valesse a pena viver. Sentem-se perseguidos pela experiência de seu vazio
interior, de um vazio dentre de si mesmos” (Frankl, 2011, p. 130).
Definitivamente, quem sofre de vazio existencial considera que a vida não
tem sentido e que não vale a pena vivê-la. Nesse vazio, quenão chega a ser
uma patologia, em alguns casos desenvolve-se uma neurose, a neurose
noógena, caracterizada pela manifestação de uma sintomatologia ansiosa e
depressiva como resposta psico-orgânica à frustração da realização do
sentido.
8) O ser humano transcende-se a si mesmo em favor de outro ser humano
que necessite dele, mediante a virtude do amor. Transcende também ao
realizar uma tarefa ou aderir a um valor. Ser pessoa significa ser
autotranscendente. Decorre dessa concepção um claro compromisso com os
outros, com a comunidade e com o mundo, por meio da realização de valores
livremente escolhidos.
9) Podemos nos distanciar das preocupações com risadas e humor. O
homem, por causa da liberdade da vontade, pode distanciar-se de qualquer
situação e também de si mesmo. Ele é capaz de elevar-se acima de qualquer
fenômeno condicionante. Essas características humanas manifestam outra
qualidade da pessoa: o autodistanciamento. Essa capacidade de elevação
sobre as próprias necessidades de sobrevivência mostram-se também em
fenômenos tão humanos como o heroísmo e o martírio.
10) A liberdade, segundo Viktor Frankl, está intimamente ligada à
responsabilidade; de fato o homem é “livre de…” seus condicionamentos, ao
mesmo tempo em que é “livre para…” ser responsável pela ordem e
realização de valores.
A responsabilidade é uma característica essencial do ser pessoa. É a
capacidade existencial para responder às demandas da vida em determinado
momento. O próprio “demandado” é o único capaz de responder. Ser homem,
para Frankl significa ser responsável. Disso decorre um princípio
terapêutico: a ninguém pode ser empurrado um sentido, e os médicos e
psicólogos deveriam abster-se de “prescrevê-lo”. Sócrates e a maiêutica são
um modelo imprescindível para a atuação psicoterapêutica mediante um
diálogo que permita o nascimento da verdade do sentido.
11) Nossa existência presente não está condicionada somente pelo
passado, mas também pelo que desejamos ser no futuro. Frankl propõe
fundamentar a certeza do sentido da vida no passado, que ele apresenta como
realidade eterna, indelével e, portanto, não transitória. Nesse passado ficam
registradas nossas escolhas de sentido na ação, na contemplação ou no
sofrimento dignamente vivido. Para explicar, usa uma imagem apropriada: a
ampulheta, onde a areia que caiu na parte inferior ficará para sempre ali,
numa situação diferente da areia da parte superior, que poderá cair ou não.
Essa solidez do passado em relação ao futuro reflete “o otimismo do
passado” de sua posição. O mestre costumava dizer: “Ter sido é uma forma
de ser, a mais segura”. Com base nessa afirmação, ele confirmava sua tese
de que a precariedade da existência, e mesmo a própria morte, não tiram o
sentido da vida.
12) Existem três caminhos para dar sentido à vida. Em primeiro lugar, o
trabalho e a transformação do mundo mediante a tarefa (valores criativos);
depois damos significado à nossa vida mediante o acolhimento de
experiências, da beleza, da natureza ou da arte e dos afetos (estes são
valores vivenciais); por último, quando tudo estiver perdido, poderemos
escolher uma atitude digna para enfrentar um sofrimento inevitável (valores
de atitude).
13) Os valores de atitude têm uma função de aprendizagem. O homem
desconhece seus limites e sua fortaleza até que a vida o força a prová-los.
Os valores de atitude florescem diante de três circunstâncias específicas,
que Frankl chamou de a tríade trágica: o sofrimento, a culpa e a morte.
Ninguém consegue esquivar-se de cada um desses elementos da tríade.
Frankl enfrenta a tríade trágica com o otimismo trágico, que consiste em
transformar o sofrimento em oferenda, a culpa em mudança de atitudes e a
morte em estímulo constante para uma vida responsável no momento
presente que nos ocupa.
14) A felicidade e o prazer são efeitos colaterais que nos acompanham
no processo de busca e atuação do significado da vida, ou seja, em todo esse
processo de descoberta e resposta. A vida não é algo, é a oportunidade para
algo. Êxito, prazer e bem-estar são valores que chegam “acrescentados”10.
15) Cada indivíduo é único e não pode ser substituído. Para a
logoterapia, o homem e a mulher são seres caracterizados por sua
singularidade, por não poderem ser repetidos, por sua capacidade de se
relacionar e pela sua finitude. Sermos limitados torna-nos diferentes, e
sermos diferentes dá-nos o passaporte para entrarmos na comunidade em
que, por esse mesmo limite, nos tornamos imprescindíveis.
16) A pessoa se autotranscende na capacidade de relacionar-se. O ser
humano é interpessoal, é unidade e comunhão de pessoas. O amor que
alcança a reciprocidade entre pessoas, como acontece paradigmaticamente
entre um homem e uma mulher no casamento, gera uma comunidade
indivisível, única e total. Por isso, o corpo espiritualizado e o espírito
encarnado são os sinais visíveis do sentido esponsal que a pessoa-comunhão
chamada a formar uma comunidade de pessoas possui.
Quem seguiu atentamente os dezesseis princípios compreen derá que a
logoterapia, mais que uma corrente psicoterapêutica, é uma antropologia, ou
seja, é uma visão da pessoa humana. É fácil entender que essa visão pode
dar um marco referencial à atividade terapêutica, educativa e social.
Em suma, é uma concepção da pessoa em que o ser biológico,
psicológico, social e espiritual são integrados. Este último dá unidade e
sentido ao ser da pessoa humana. A vida do homem constitui uma unidade de
três dimensões e desenvolve-se na busca de sentido, sua tarefa existencial
mais importante. O sentido é descoberto e atuado trabalhando, amando,
desfrutando e sofrendo. Sem dúvida que buscamos a felicidade; contudo, ela
se apresenta a nós quando temos uma razão para sermos felizes.
Acredito que o leitor conhecedor das idas e vindas das psicoterapias
compreenderá até que ponto a logoterapia é uma mudança de perspectiva em
relação aos fundamentos da psicoterapia. As várias correntes psicológicas
possuem, em geral, uma visão do homem unicamente psicossomática e
social. Essa visão reducionista é arriscada. A ausência de espiritualidade
despoja a pessoa da sua dimensão mais distintiva, e assim ela fica
aprisionada nos limites dos seus condicionamentos, sejam eles biológicos,
psicológicos ou socioeconômicos.
O que acontece quando a espiritualidade do homem é reprimida? Nos
casos mais crônicos e difíceis, o terapeuta perde a esperança na recuperação
de seu paciente, e isso o deixa inclinado ao próprio desencanto profissional.
O doente sente-se determinado pelo seu passado ou por sua carga genética
ou educativa, e isso justifica para ele tomar atitudes displicentes com
respeito a si mesmo. Como consequência, produz-se uma imobilização das
energias terapêuticas de quem assiste e de quem é assistido, e o crescimento
de ambos é postergado.
Por outro lado, a dimensão espiritual do homem constitui sua unidade.
Afirma Frankl: “De onde procede a diversidade na unidade do homem? De
onde vem a estrutura humana estratificada? E a textura escalonada do
homem? Não por ser feito de corpo, alma e espírito, mas do diálogo que
sustenta o lado espiritual com o corporal e o psíquico” (Frankl, 2006, p.
141). Quem assistiu pessoas com dificuldades psíquicas e de outros tipos
concordará comigo em que a dispersão das diferentes forças do homem
causa sofrimento. A tão mencionada busca de integração entre coração e
mente, razão e sentimento, só poderá ser encontrada se fortalecermos um
estamento superior que se encontre acima das partes desencontradas, ou seja,
que fundamente a unidade. Essa é a dimensão espiritual da pessoa.
Resumindo, a logoterapia convida a psicologia a considerar a dimensão
espiritual e oferece uma prática de psicoterapia voltada para o sentido da
vida visto como a motivação fundamental do homem. Para o tema que nos
ocupa, o desânimo profissional, temos de considerar a maneira com que a
existência encontra sentido no trabalho e de que forma a dimensão espiritual
se manifesta nele.
3. Os caminhos de sentido
Para a logoterapia, o homem liberadode seus condicionamentos é capaz
de inclinar-se, com sua vontade, para a descoberta e a atuação do sentido da
vida. Segundo Frankl, ele faz isso por três caminhos: a realização de valores
de criatividade, a contemplação ou a vivência da vida e a assunção de uma
situação de sofrimento com a maior dignidade possível (já citados no ítem
12). Com os valores da criatividade, a pessoa transforma o mundo,
modifica-o e reconstrói-o tornando-o próprio. Todavia, é obvio que nem
tudo é trabalho na vida. Os valores vivenciais estão no prazer gerado pelo
viver e acolher o que a vida nos proporciona por meio da arte, da natureza,
das pessoas que amamos e das relações que cultivamos. Lembro-me de que,
no meu primeiro ano de faculdade de medicina, estabelecemos um pacto,
meus amigos e eu: não deixar que as longas horas de estudo nos impedissem
de continuar cultivando nossos compromissos políticos e sociais, a
participação em concertos, a visita a museus ou a simples divagação em
prosas amigas. Tínhamos consciência do quanto nos embruteceria
concentrarmos nossa vida somente no que então era o nosso trabalho: o
estudo.
Em certas situações dolorosas não é possível nem trabalhar nem
encontrar prazer na realidade. Resta, contudo, uma fonte de sentido, talvez a
mais essencial: dar valor ao sofrimento como aprendizagem, como oferenda,
como última garantia da própria grandeza.
Alguém me perguntou se as situações dolorosas levam unicamente a
viver os valores de atitude ou permitem outras possibilidades de sentido. A
pergunta era pertinente, uma vez que uma aceitação imediata do sofrimento
poderia levar ao quietismo11. Quando as coisas podem ser mudadas, somos
chamados a fazê-lo atuando os valores criativos. Por outro lado, se o destino
adverso for impossível de se modificar externamente, a força de vontade
empregada em fazer algo para mudar poderia parecer mais obstinação do
que fortaleza. Querer mudar algo irremediá vel só piora as coisas. Se
considerarmos isso em profundidade, veremos que esses valores concordam
entre si: os valores de atitude supõem sempre uma mudança interior, uma
verdadeira “criatividade para dentro”, e as obras realizadas por nossas
ações serão sempre imperfeitas, retomando o caminho em direção aos
valores de atitude na aceitação do limite. De qualquer maneira, a linha
fronteiriça não é clara, e frequentemente deparamos com este dilema
existencial: agir ou aceitar? Pessoalmente, o que mais me ajuda é a “oração
da serenidade” que os participantes dos Alcoólicos Anônimos e de muitos
outros grupos de autoajuda recitam: “Concedei-nos, Senhor, a serenidade
necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, coragem para
modificar aquelas que podemos, e sabedoria para distinguir umas das
outras”12.
Esses três caminhos de realização de sentido descritos – criativo,
vivencial e de atitude – interessam ao tema sobre esgotamento profissional.
A síndrome de burnout é a manifestação da perda do sentido e a sensação de
vazio correspondente à perda do sentido do trabalho em todas as suas
dimensões. O trabalho passa a se apresentar como um deserto em que a única
coisa que vemos são nossas ilusões, que formam “miragens conscientes”. Os
valores se desfiguram. Todos os caminhos de sentido fracassam, o fazer
criativo, o desfrutar a vida e o sofrer fecundo.
Consultou-me um engenheiro nuclear de trinta e sete anos que, apesar de
ter um ótimo emprego e com a carreira assegurada na sua especialidade,
descobriu que ardia no seu interior uma paixão pela literatura e decidiu
dedicar-se integralmente à criação poé tica e narrativa, abandonando assim
sua excelente posição profissional. Já podemos imaginar os esforços
intelectuais e econômicos que teve de enfrentar. Sua decisão tampouco foi
bem aceita no seu círculo familiar, entre colegas e amigos. Depois de um
longo processo e esgotado por suas lutas, alguns sentimentos de vazio
começaram a bloqueá-lo. Num de nossos encontros, ele me relatou um sonho
muito sugestivo e emblemático: “Eu estava fazendo uma mudança em pleno
deserto. Não estava sozinho. Havia amigos que me ajudavam. Não consigo
dizer exatamente quem, mas eram pessoas muito próximas, amigas. Cada um
de nós carregava uma caixa de livros e de discos. Caminhávamos no deserto;
não se via nada, somente areia e algumas dunas baixas. Foi quando um de
nós deixou cair todos os livros e discos. Paramos para recolhê-los, mas não
conseguimos achá-los, pois ficaram encobertos pela areia. Catamos a areia
com as mãos, cavamos buracos, fazendo pequenos montes de areia. Não
havia nada nos poços; eles talvez estivessem debaixo dos montes que
fizemos. ‘Se continuarmos assim, nunca mais os acharemos!’, gritei
desesperado”.
Façamos uma pausa para refletir. O sonho nos introduz num mundo carregado de imagens: o
deserto, os amigos que acompanham, a mudança das coisas, o que foi acumulado no passado,
a desordem, as perdas e o grito desesperado.
Procuro um lugar tranquilo, ponho minhas atividades entre parênteses por ao menos quarenta
e cinco minutos. Levo meu caderno de anotações.
Diante de mim estão presentes os três caminhos de sentido nos quais fixarei meu olhar:
criação, vivência e atitude.
1) Imagino-me fazendo algo para mudar minha vida e meu mundo. “As coisas que faço” têm
sentido? Como as vivo? Agora faço um balanço do que realizo diariamente. Minha atividade
muda algo ao meu redor? É justamente isso o que quero fazer? Sinto meu o que faço? Aonde
me está levando o que faço?
2) Imagino-me “curtindo” a vida. A contemplação da natureza, as teorias científicas, a música,
as artes plásticas, minha religiosidade, a oração, o amor, a amizade, as pessoas que amo. Que
importância dou a essa dimensão?
3) Voltam para mim os momentos de solidão, de perdas e de sofrimentos, nos quais só tenho a
possibilidade de aceitar o que o destino dispôs. Experimento isso como uma fatalidade ou
encontro em meu íntimo a liberdade para escolher a melhor atitude e, assim, aceitar e
transformar-me interiormente ? O que aprendi?
Penso se algo ou alguém está esperando uma resposta.
Enumero as perguntas que a vida me fez nos últimos tempos. Arrisco responder!
Qual o resultado dessa reflexão imaginária que você fez? Encontrou-se
como seu amigo no deserto? Areia, dunas e nenhum sinal? Ou talvez se viu
numa cidade cheia de vitalidade, com riqueza de sentido em todas as
direções? As possibilidades são infinitas. Lembre-se de que as imagens são
energia psíquica que nos estimulam a passar à ação. No dia a dia, uma
imagem torna-se fator de mudança quando nos leva a realizar atos concretos.
4. O sentido do trabalho
“São os valores que nos orientam e dirigem as grandes decisões.
Infelizmente, devido às condições desumanas do trabalho, por educação
ou por medo, muitas pessoas não se atrevem a decidir conforme sua
vocação, conforme esse chamado interior que o ser humano escuta no
silêncio da alma. E muito menos se arriscam a errar várias vezes.
Entretanto, a fidelidade à vocação, esse misterioso chamado, é o fiel da
balança onde se joga a própria existência, se se teve o privilégio de viver
em liberdade.”
Ernesto Sábato, A resistência
Analisamos neste capítulo o sentido do trabalho na ótica da logoterapia.
A pergunta pelo cansaço dos bons leva-nos a descrever o trabalho humano
com suas motivações e desencantos. Continuaremos com um texto de Viktor
Frankl sobre este tema chamado Psicanálise e existencialismo (1966, p.
170-184). Apesar da primeira edição desse livro ser em alemão e datado de
1946, ele é muito atual. Em sua análise, Frankl resume sua experiência de
aconselhamento a jovens desempregados durante a crise econômica da
década de 1930, época muito similar à nossa.
Frankl sustenta que, diante da pergunta pelo sentido da vida, é preciso
responder com a própria vida, e essa resposta deve ser ativa durante os
afazeres de cada dia, concreta e singular, como há de ser a resposta de um
individuo único e insubstituível.
O trabalho por si só não realiza plenamente o homem, nem garante
felicidade. A realização no trabalho é obtida quandoa pessoa coloca toda a
“sua” capacidade na obra que realiza em vista da comunidade. Seres que não
se sentem satisfeitos com o trabalho profissional não devem pensar que o
que está falhando é o tipo de profissão, mas devem buscar em si mesmos a
razão dessa percepção. Frankl aconselha fazer valer no trabalho esse algo
pessoal e específico que dá um caráter único e insubstituível à nossa
existência, e com isso um sentido à vida.
Demos um exemplo. O que dá sentido ao trabalho dos médicos? É o fato
de atuar conforme as regras da arte de curar, o fato de receitar um
medicamento ou algo assim? Não, o sentido não consiste em proceder
seguindo com exatidão as regras da arte de curar. O que dá sentido ao
trabalho médico e o torna insubstituível é o que a pessoa do médico faz no
exercício da sua profissão e que transcende o meramente profissional, ou
seja, é aquilo que nele há de pessoal, de humano. Muitas vezes são os
malabarismos que faz para chegar o mais perto possível da arte da cura em
situações de serviços públicos precários. Frankl conclui que o que faz da
vida algo único e insubstituível, algo que só se vive uma vez, depende da
própria pessoa, depende do que faz e como faz; não do tipo de trabalho em
si.
Isso não significa descuidar da arte de curar e da atualização
profissional. Ser um bom médico passa indiscutivelmente por exercer a
profissão com os princípios da arte médica. Um bom médico e perfeito
profissional, ensina Frankl, poderia não encontrar na sua tarefa o sentido da
vida e ser candidato ao vazio existencial. Só um bom médico que agrega um
algo mais pessoal pode conseguir isso.
Nós, médicos, recebemos de vez em quando a gratidão de nossos
pacientes. Logicamente gostaríamos de que eles elogiassem nosso bom
trabalho profissional. Contudo, o motivo da gratidão geralmente não tem a
ver com isso. O paciente agradecido dirige-se ao “algo mais” do
profissional, que custa definir. Serão gestos de gentileza? Ações que vão
além dos momentos de trabalho (por exemplo, enviar um e-mail com
informações de saúde úteis para sua pessoa)?… É difícil saber. Frankl diria
que é o pessoal e o humano que transcendem o ato profissional. Por
conseguinte, não é motivo de orgulho, uma vez que o pessoal e o humano
fazem parte da nossa natureza e não são uma conquista do esforço e do
mérito. A própria vida tem um caráter especial de “ser dada”, e essa
circunstância gera um sentimento de gratidão na própria pessoa e nos que
entram em contato com ela.
Em muitas ocasiões, o que se obtém com o trabalho é insatisfatório em si
por ter sido desenvolvido num contexto de injustiça, tanto pelas condições
quanto pela remuneração. Nesse caso, o sentido da vida encontra-se em tudo
aquilo que pode ser feito para mudar a situação, na luta para melhorar as
condições de trabalho. Paralelamente, é necessário encontrar um sentido
pleno do tempo livre que compense o vazio de um trabalho pouco
satisfatório.
Se o trabalho dá sentido à vida, o fato de não tê-lo tira o sentido. O
desempregado vive um vazio de sentido típico. Quando perdemos o trabalho,
apreciamos seu valor. A apatia é uma característica da neurose do
desempregado. Esse estado é perigoso para o homem que padece dela, pois
o aumento da falta de interesse diminui as chances de ele encontrar outro
emprego. Frankl refere um jovem desempregado que, durante todo o tempo
de sua desocupação, em que se sentia desesperado e quase a ponto de
suicidar-se, vivenciou um lindo momento. Certo dia, ao anoitecer, sentado no
banco de um parque, viu perto de si uma moça que chorava. Aproximou-se
dela e perguntou-lhe qual era o motivo do seu desespero. A moça contou-lhe
seus problemas e confidenciou que estava firmemente decidida a tirar a
própria vida. O jovem, então, teve de apelar a toda a sua força de persuasão
para fazê-la desistir de seu propósito, conseguindo finalmente. Para o jovem,
esse momento, o único útil fazia muito tempo, foi um ponto luminoso de sua
existência, pois lhe devolveu a sensação de que sua vida possuía um sentido.
Essa sensação arrancou-o, ainda que somente por breve tempo, do estado de
angústia e de apatia em que estava afundado. Dos dois tipos de
desempregados, o que se deprime e o que se mantém em pé, este encontrará
mais facilmente um novo emprego.
O trabalho dá sentido à vida se for realizado com certa distância. Os
filósofos gregos encorajavam a buscar em tudo a “justa medida”, o que não
significa um meio termo. A dependência do trabalho é o outro extremo da
neurose da desocupação. O desempregado sente-se inútil, não tem nada para
fazer e não encontra sentido na vida. O dependente do trabalho vive o
mesmo durante seu tempo livre. Frankl chama essa síndrome de “neurose
dominical”. Depois de ter trabalhado a semana inteira, o homem chega ao
domingo e não tem diante de si nenhuma atividade, depara com seu vazio
interior e se entristece ou usa seu tempo livre com fúria maníaca (esportes
radicais, violência na pelada de fim de semana, bebedeira e
toxicodependência).
Mas nem todos vivem esse vazio existencial durante o tempo livre. Há os
que sabem empregar criativamente o tempo ocioso de que dispõem, em
obras sociais, trabalhos de voluntariado, arte popular etc. Compreenderam
que o sentido da vida não se reduz ao trabalho profissional e se dão conta de
que, embora este lhes falte, suas vidas têm sentido. Vivi por um ano numa
cidade do norte da Itália, Trento, e vi com surpresa e satisfação pequenos
exércitos de aposentados voluntários em diferentes tarefas sociais (centros
de acolhida para estrangeiros, bibliotecas, atividades esportivas com
crianças etc.). Esse voluntariado desenvolvia-se com um alto nível de
profissionalismo, uma vez que geralmente aproveitava a experiência de
muitos anos de trabalho dos voluntários. O clima de trabalho desses
“seniores” caracterizava-se pelo entusiasmo e a alegria.
A neurose do desemprego repercute não somente na esfera psíquica, mas
também na biológica. A aposentadoria é uma crise vital que desafia
fortemente as pessoas maduras. É preciso encontrar uma atividade
substitutiva com o mesmo valor psíquico que a profissão, sob pena de, cedo
ou tarde, adoecer. Frankl lembra que Goethe, quando velho, trabalhou
durante seis anos escrevendo a segunda parte de sua tragédia Fausto, e dois
meses depois de ter dado por terminada sua obra, morreu. Isso se observa
inclusive nos animais. Os que são adestrados para o circo vivem mais dos
que os reclusos em zoológicos, onde não realizam nenhuma tarefa. O próprio
Frankl, aos setenta e seis anos, obteve licença para pilotar teco-tecos.
Não se confunda plenitude do trabalho profissional com plenitude do
sentido da vida criadora. Isso se pode notar em quem padece de “neurose
dominical”. O neurótico refugia-se no trabalho profissional; o verdadeiro
vazio e a verdadeira pobreza de sentido da vida revelam-se quando a
agitação do trabalho para no fim de semana. Frankl afirma: “Tem-se a
impressão de que o homem, sem saber dar à própria vida uma meta, corre e
se afana com velocidade cada vez mais acelerada, precisamente para não se
dar conta de não estar indo para lugar algum”.
O homem tenta escapar desse vazio, dessa carência de sentido, de
conteúdo e de meta em sua vida de diversas maneiras. Ao fugir de si mesmo,
procura distrair-se mediante atividades que lhe impeçam manter um diálogo
interior ou interpessoal. A discoteca é um lugar adequado para essa fuga. Ali
a palavra do espaço interior é sufocada, porque o intenso movimento
corporal invade a pessoa com fortes manifestações cenestésicas. Ao mesmo
tempo, a palavra relacional fica impossibilitada, sucumbindo na estridência
da música. Outros lugares de fuga são os eventos esportivos. O espectador
passivo perde a possibili dade que os atletas ativos têm de sublimar a
agressividade no jogo, como ensina a psicanálise. Nessa perspectiva,
compreende-se a violência dominical das torcidas de futebol.
Frankl não menosprezava o que o esporte pode ter de sadio e bom, e
destaca a atitude desportiva. O exemplo do alpinismo é claro. Nele aconteceuma participação ativa e há responsabilidade pela vida dos outros
integrantes da equipe, que literalmente estão “suspensos pela mesma corda”.
No alpinismo vemos também autênticas realizações, tanto em capacidade
física, quando é preciso recorrer ao esforço máximo, quanto do ponto de
vista anímico, quando é preciso vencer falhas e fraquezas morais, medo,
vertigem etc.
As rivalidades nos esportes conduzem ao afã pelos recordes, mas isso
não acontece no alpinismo. Nessa modalidade e em outras similares existe
uma forma superior de “rivalidade consigo mesmo”. Frankl era um alpinista
e sentia-se mais orgulhoso por duas trilhas de montanha terem seu nome do
que pelos inúmeros títulos de doutor honoris causa. Correr uma maratona ou
outra corrida que, por sua extensão, desafie nosso estado físico é uma forma
interessante de experimentar essa rivalidade consigo mesmo, enquanto
proporciona o autoconhecimento corporal e psíquico. É um impulso em
direção à própria superação não somente na esfera esportiva; ajuda a
alcançar metas e a vivenciar sentimentos de prazer e satisfação com o
próprio corpo. É um bom sinal que, ao redor do mundo, se estejam
multiplicando corridas, excursões em grupo etc.
O cinema e a televisão, bastante relacionados com a fuga, também podem
levar à neurose do tempo livre de que estamos falando. O costume neurótico
de assistir a filmes pode desviar o foco da pessoa pelo sentido. A
verdadeira arte enriquece o ser humano; na forma neurótica, porém,
embriaga e atordoa. Para fugir do vazio existencial, frequentemente assiste-
se a um filme policial de ação ou drama psicológico que, com o suspense,
gera grande tensão. Com essa tensão deseja-se relaxar, como prazer negativo
que nasce do desfazer-se de algo desagradável. Com isso, o vazio
existencial mantém-se imutável, pois o que produz a plenitude do sentido é o
movimento transcendente da pessoa e não a mera experiência de alternar
tensão e relaxamento.
O que importa na vida, segundo Frankl, é não se contentar com o que se
alcançou. A vida, com suas perguntas, desafia-nos. Quem se dá por satisfeito
consigo mesmo perde-se. A vida propõe, a cada dia e a cada hora, a
necessidade de novos feitos e abre a possibilidade de novas vivências.
A descrição existencial do sentido do trabalho e do vazio existencial que
Frankl fez em 1946, apesar da semelhança com nossa época, não nos exime
de fazer uma análise própria e atua lizada. A situação cultural é diferente, e
disso nos ocuparemos nos próximos capítulos.
O leitor que seguiu com atenção o discurso do psiquiatra vienense
chegará à conclusão que compartilhamos: o burnout é uma forma de vazio
existencial em que a realização do sentido do trabalho falhou.
5. Análise existencial, logoterapia e burnout
O sentido da vida não é uma abstração ou uma ideia na mente. Não se
alcança a plenitude do sentido por meio da doutrinação. Não basta pensar
que minha vida tem sentido para que automaticamente o tenha. A plenitude
do sentido repercute no estado anímico como uma percepção de realização
interna e de plenitude. Alegria produtiva é o sentimento associado à
realização do sentido, uma alegria serena, operativa e constante nos
conhecidíssimos corre-corres e dissabores da vida humana.
Devemos, então, aprender a distinguir plenitude do sentido e sentimentos
de vazio existencial. E assim desmascarar os sentimentos de “aparente”
sentido. Para tanto, um esquema proposto por Alfred Längle, psicólogo
austríaco e também logoterapeuta, ajuda (cf. Längle, 2003).
Sentido existencial
Aparência de sentido
Pré-burnout
As atividades e as experiências são vividas
como valores.
1) O trabalho é criatividade;
2) dedicação;
3) desenhado pelo individuo;
Sentimento de estar obrigado à ação, desvalorização da
experiência dos valores.
1) O trabalho é só esgotamento;
2) sacrifício não escolhido;
3) desenhado pelos outros;
4) agradável;
5) parte da pessoa;
6) livre e
7) responsável.
4) desagradável;
5) parte dos fatos;
6) forçado e
7) obrigado.
A partir das vivências que o trabalho sugere e usando a tabela acima,
podemos encontrar nossa localização na linha que vai da plenitude do
sentido no trabalho até o vazio, ou seja, da coluna da esquerda à direita.
Seguindo a lógica da logoterapia, o antídoto para o burnout é viver o
trabalho com sentido. Nosso caminho, infelizmente, é desviado para metas
menos ambiciosas, e nós nos conformamos com aquilo que Längle chama de
“aparência de sentido”.
Já falamos da valiosa distinção que Frankl fez, em 1946, entre o que se
faz e como se faz. Significa que não importa ser médico ou pedreiro, se não
partir daquele ser único e não repetível que somos e personalizar o que
fazemos. Assim, as atividades e experiências são vividas a partir do que há
de mais valioso, precisamente a partir do valor da pessoa humana que as
realiza. De qualquer maneira, deve-se considerar o valor da tarefa em si,
não mais vista como prestigio, mas como o “algo” do qual se é responsável.
Esse é um segundo valor de caráter objetivo: o valor da ocupação em si, que
não é considerada nível de prestígio proporcionado, mas tarefa e
responsabilidade de algo.
No burnout, esses dois valores, pessoa e tarefa, são vivenciados de
maneira dissociada, inclinando a balança para um lado em detrimento do
outro.
Tentando personalizar o que faço, posso preencher-me de propósitos
subjetivos, como ter uma boa carreira, sentir-me útil e ativo, ser um modelo
para os outros etc. Não são mais do que propósitos subjetivos, que me
afastam do valor da tarefa. Trata-se de uma dissociação com primazia
subjetiva.
Em sentido contrário, visando à valorização da tarefa e evitando a
subjetividade, posso distanciar-me tanto daquilo que faço que fico alienado.
Concentro-me nesse “algo” de que sou responsável em detrimento de meu
ser pessoa que conecta com a tarefa. Essa dissociação é denominada
“voluntarista”, pois obriga a pessoa fazer a tarefa sem lhe dar a chance de
participar dela a partir de seu centro decisório.
Qual é o denominador comum de ambas as dissociações? A perda da
relação entre pessoa e tarefa. Längue acredita que isso se deva à falha do
consentimento interior ao sentido da vida que o trabalho oferece. Esse
consentimento existencial é produzido pelo encontro entre o ser e sua
responsabilidade. Dizia o mestre Hillel, sábio judeu contemporâneo de Jesus
Cristo: “Se eu não fizer, quem o fará? Se não fizer agora, quando o farei? Se
fizer somente por mim, quem sou?” Nada pode explicar melhor o significado
do consentimento interior do que essas três breves frases.
Além do sentido da vida, a pessoa é motivada a preencher as suas
necessidades. A análise existencial leva-nos a encontrar o sentido em meio
às necessidades que constantemente batem à nossa porta. Refiro-me às
necessidades de segurança material, afetiva e existencial; de estabilidade, de
ser reconhecido pelos demais, de passarmos uma autoimagem satisfatória
etc. Das necessidades biológicas, como comer e dormir, às afetivas, como
ser reconhecido e querido, todas nos preparam para encontrar o sentido,
contudo ainda não são o sentido.
Quando essas necessidades se disfarçam de sentido, elas nos deixam
“satisfeitos” por um tempo, mas não preenchem o vazio existencial, e este,
cedo ou tarde, vai se manifestar. Infelizmente, é perda de tempo, pois o poço
existencial fica tampado e dissimulado pela satisfação das necessidades.
Trata-se de uma situação precária, pois quando chega o cansaço típico de
qualquer trabalho, com seus déficits físicos e psicológicos, é fácil entrar
numa situação de burnout. Trata-se de estados de baixa imunidade
existencial.
A análise existencial e a logoterapia, portanto, veem o burnout como um
sinal de aviso dessas dissociações. O burnout seria um mal-estar que nos
leva a uma nova compreensão dos valores e motivações que nos movem.
Este é o valor positivo do burnout: graças a ele, a vida dá uma chance de
reconsiderá-la!
Ao concluir este capítulo, sugiro um momento de reflexão mediante uma
história da tradição judaica chassídica:
Certa vez, rabiZusha apareceu diante de seus discípulos com os olhos avermelhados de tanto
chorar, angustiado e com o rosto pálido. Então seus discípulos lhe perguntaram: “O que está
acontecendo? Parece estar comovido!”
O rabi respondeu: “Tive uma visão. Nela fiquei sabendo qual será a pergunta que os anjos me
farão quando pedirem que eu preste contas da minha vida”. Os discípulos entreolharam-se
perplexos. Até que finalmente um deles disse: “Mestre, o senhor é um homem piedoso,
generoso e humilde, que ajudou a muitos de nós com sua generosidade e sua lucidez. Que
pergunta podem fazer sobre sua vida que o preocupe tanto?”
Rabi Zusha elevou seus olhos ao céu: “Fiquei sabendo que os anjos não me perguntarão: ‘Por
que você não foi um Moisés, que tirou seu povo da escravidão? ’” Seus seguidores insistiram:
“O que foi, então, que lhe perguntaram?”
Rabi Zusha suspirou: “Fiquei sabendo que os anjos não me perguntarão: ‘Por que você não foi
um Josué, que conduziu seu povo à Terra Prometida? ’” Um dos seus seguidores, chegando
perto dele, fitou-o nos olhos e perguntou-lhe: “O que foi, então, que lhe perguntaram?”
“Dirão a mim: ‘Zusha, havia apenas uma coisa no mundo que nenhum poder do céu ou da
terra poderia tê-lo impedido de ser’”. “Dirão a mim: ‘Zusha, por que você não foi Zusha?’”
A vida de cada pessoa é única, e Frankl explica isso assim: “A
responsabilidade cresce com o caráter peculiar da pessoa e com o fato de
que a situação é sempre peculiar e não repetível” (1966, p. 116).
O mestre Zusha foi estimulado pela ideia da morte para compreender sua
missão.
“Portanto, a finitude, a temporalidade (em outras palavras, a morte) não
só é uma característica essencial da vida humana, mas também é um fator
constitutivo do próprio sentido da vida” (Ibidem, p. 117).
A consciência de ser responsável “… é despertada e aumenta, sobretudo,
com base numa tarefa concreta e pessoal, no que se chama ‘missão’”.
Volto à tabela anterior de Längle e me pergunto:
Existe acordo entre meu ser e minha tarefa? Guardo sentimentos de obrigatoriedade em tudo
aquilo que faço? Sei distinguir entre obrigatoriedade e responsabilidade?
No final da minha vida, terei querido viver por aquilo que estou fazendo hoje? Terei realizado
aquilo que eu gostaria, sem que ninguém me tenha impedido?
Anexo: O desgaste nas vocações religiosas
Vimos como a pessoa e a tarefa formam um conjunto único para realizar
uma missão. Isso acontece particularmente com a vocação religiosa. Muitas
vezes, trata-se de uma missão pela qual se renuncia à vida matrimonial. Não
me refiro somente a sacerdotes e freiras; existem muitas formas de
compromisso de doação plena laical nas Igrejas ou organismos e instituições
que trabalham para o bem da humanidade. Para simplificar, porém, neste
anexo usaremos o termo religioso ou vocações de doação plena.
Os religiosos não vivem o que fazem como um simples trabalho; toda a
sua vida está em jogo no que fazem. Entretanto, dadas as características
dessa atividade, verifica-se neles uma propensão ao burnout, de
significativas consequências negativas para essas instituições, por conta da
deserção de seus membros “queimados”. Nesta sessão, eu gostaria de
considerar as peculiaridades do burnout nas vocações eclesiais de doação
plena.
Do ponto de vista individual, muitos religiosos possuem características
psicológicas que os predispõem ao desgaste profissional:
1) São pessoas idealistas, que possuem grande sensibilidade para com
aqueles que necessitam de ajuda. Frequentemente relegam o diálogo interior
com suas necessidades próprias.
2) Não é raro encontrar nessa categoria personalidades perfeccionistas,
com uma expectativa exagerada de viver cem por cento cada coisa ou cada
situação. Nas entrevistas psicológicas que faço com candidatos à admissão à
vida religiosa, encontro com frequência essa peculiaridade. Não é de
surpreender que personalidades assim encontrem afinidade com uma
vocação que supõe grande radicalismo na escolha. Contudo, essa posição
existencial, muitas vezes obsessiva, gera frustração intensa no dia a dia,
predispondo ao burnout.
3) A ideia de que é Deus quem chama a uma vocação religiosa deixa o
religioso com um sentimento de obrigatoriedade existencial (quem pode se
negar a Deus?) próximo ao fatalismo. A formação torna-se, então, um
processo instrumental de fortalecimento na luta por realizar esse desafio
“externo”. Contava- -me um sacerdote jovem e frustrado, em processo
canônico para deixar seu ministério: “No seminário tínhamos somente uma
ideia: chegar a ser sacerdote; essa era nossa única meta, e os que a
abandonavam eram considerados fracassados”.
4) Os religiosos sentem a obrigação de trabalhar duramente e com
extrema dedicação, com o subsequente sentimento de culpa quando essa meta
não é alcançada. “Se lhe pedem que faça algo, Deus lhe dará a graça para
fazê-lo”. É uma ideia, frequente entre pessoas religiosas, que atenua a
possibilidade de um diálogo sobre a tarefa e a capacidade de realizá-la entre
quem, sendo o superior, sugere uma ocupação e quem a aceita.
5) A escolha do celibato pode ser acompanhada e motivada por
elementos narcisistas não reconhecidos, e isso leva a uma vida afetiva pobre
e, consequentemente, isolada. De outro lado, alguns consagrados vivem
relações sentimentais intensas e explosivas, seja no imaginário interior do
religioso ou da religiosa, seja na própria vida real. Ambas as situações
produzem um desequilíbrio que predispõe ao desgaste.
Os elementos institucionais que possibilitam o burnout, vistos no
primeiro capítulo, são facilmente identificáveis nas organizações religiosas.
Estas também predispõem ao desgaste.
Os religiosos frequentemente suportam sobrecargas de trabalho. Uma
religiosa já idosa que sofria de problemas psíquicos e físicos, devido à
sobrecarga de trabalho, expôs à sua superiora as razões de natureza médica
para reduzir suas atividades, e ouviu a seguinte resposta: “Não há uma
clínica boa perto da sua casa?” As instituições religiosas estão mais
dispostas em aumentar seus gastos com serviços de saúde a distribuir o
trabalho de forma mais adequada às possibilidades de seus membros, a fim
de prevenir a doença.
Por outro lado, os religiosos encontram-se numa encruzilhada entre
requerimentos pastorais, estruturas a manter e recursos humanos que
possuem. Essas instituições, em si mesmas estressadas, enfrentam a demanda
precipitadamente e sem programação. Isso impede que seus membros tenham
controle sobre o próprio trabalho. E o tempo de reflexão para poderem
dispor de feedbacks do que foi realizado por parte dos religiosos não existe.
Nas atividades pastorais em situações de indigência, em bairros carentes,
hospitais e escolas, são muitos os necessitados, e suas necessidades
excedem em muito as possibilidades reais de ajuda. As instituições
religiosas veem-se ante a dificuldade de quantificar seus resultados.
À parte disso, existe também um individualismo pastoral que limita a
comunicação interna. Como consequência, os irmãos jovens recebem pouco
apoio, não se chega a acordos sobre a gestão da organização, as decisões
são tomadas lentamente etc. Compreende-se assim por que algumas
instituições estejam à beira da falência. Muitos jovens religiosos queixam-se
de que, durante a formação, não adquiriram as competências necessárias
para enfrentar o tipo de atividades que lhes são impostas hoje.
Devemos lembrar também que as mudanças culturais estão afetando as
pessoas religiosas. Num mundo que se seculariza rapidamente, a própria
identidade e seu sentido se transformam num enigma para o religioso. Essa
incerteza profunda também é causa de desgaste profissional.
a) Estudos populacionais
Por tudo isso, a síndrome do desgaste profissional interessa à vida
religiosa. Algumas instituições pesquisaram o estado de esgotamento dos
seus membros, empregando o teste de Maslach, usado no primeiro capítulo.
São estudos que requerem a coragem de encarar a realidade objetiva e
mensurável, que acabam descobrindo problemas difíceis de resolver
imediatamente. A esse respeito,temos dois exemplos, um de Santiago do
Chile (cf. Hirart & Ocampo,2004) e outro da diocese de Pádua, na Itália (cf.
Mucci, 2007).
No primeiro, numa amostra de cento e vinte e sete sacerdotes, revela-se
que quarenta e cinco por cento dos entrevistados apresentam uma
probabilidade certa de desenvolver a síndrome. Comparando as respostas,
obtiveram-se médias mais altas para desgaste profissional do que em
estudos realizados em grupos de policiais e médicos da Espanha, ou com
professores de ensino médio e trabalhadores de saúde mental nos Estados
Unidos. Ao analisar a composição do grupo, o que apresentou maior risco de
desgaste foi o dos sacerdotes com idade compreendida entre quarenta e
quarenta e nove anos, nos estrangeiros, nos sacerdotes religiosos, do que os
sacerdotes diocesanos e entre párocos de período integral.
No outro estudo, foram analisados trezentos e vinte e um sacerdotes
diocesanos de Pádua. Foram estes os resultados: cento e vinte e quatro
clérigos padecem da síndrome na sua forma completa e precisam de
assistência. Trata-se de uma cifra elevada, pois estamos falando de mais de
um terço da população estudada.
Esses estudos indicam a gravidade do problema. É necessário, de
maneira urgente, que alguns instrumentos preventivos, enumerados a seguir,
sejam colocados em prática:
1) Promover o cuidado pessoal de seus membros por meio de atividades
de oração, recreação, formação continuada, psicoterapias e acompanhamento
personalizado, quando necessário.
2) Incrementar, na área institucional, grupos de apoio. Trata-se de grupos
com reuniões periódicas, especialmente entre os membros que, em suas
tarefas, estão expostos a situações de estresse relacional e a pessoas em
situação de extrema necessi dade. Podem ser supervisionados por
profissionais não pertencentes à comunidade.
3) Definir objetivos claros, realistas e acordados com todos os membros
da comunidade.
4) Orientar a busca de respostas originais diante das mudanças culturais.
5) Programas de treinamento e desenvolvimento para a formação
continuada que tenham como finalidade favorecer as competências
relacionais dos religiosos (por exemplo, oficinas de comunicação).
6) Atualização das competências profissionais dos membros adequadas
ao trabalho que cada um desempenha. Amedeo Cencini, especialista italiano
em vida religiosa, propõe de maneira taxativa: “formação permanente ou
frustração permanente” (cf. Cencini, 2011). Possibilitar um trabalho criativo
ou permiti-lo de forma diferente e personalizada.
7) Informar aos religiosos do problema do desgaste profissional e
oferecer controles periódicos com profissionais competentes.
8) Promover breves retiros, férias, encontros de formação permanente,
excursões etc., que melhorem as relações interpessoais entre os membros
das comunidades.
Com essas “sadias” recomendações, poderíamos concluir nosso trabalho.
No entanto, nossa metodologia, como o leitor já terá adivinhado, é ir do
fenômeno ao fundamento. A experiência religiosa, com base na sua
constituição como relação com o Ser transcendente, Deus, obriga-nos a
percorrer caminhos não transitados pela psicologia e pela sociologia. A vida
religiosa ajusta-se entre a paixão e o desencanto, e impõe perguntas mais
profundas, mais incertas e, quem sabe, mais reveladoras. Por exemplo:
O desgaste profissional, para quem empreendeu um caminho que tem
como meta a santidade, pode ser considerado como uma “provação de
Deus”? Deus pode querer ou permitir uma síndrome depressiva numa pessoa
que consagrou sua vida a seu serviço?
A opção pelo celibato pode levar a um desempenho afetivo de origem
narcisista e provocar uma vida afetivamente pobre, até chegar ao desgaste
profissional?
Alguns consagrados ficam emocionalmente esgotados (com desafeição) e
isolados das relações pessoais, incapazes de se abrir a seus próprios
sentimentos. Por esse motivo, surdos à própria vida sentimental, só
conseguem funcionar nas relações interpessoais a partir de uma postura
fixada na própria função ou no papel estabelecido. Se for assim, como
superar esse “pecado de origem narcisista” para viver uma verdadeira
transcendência na vida religiosa?
O que a síndrome do desgaste profissional ensina e sugere, em vista da
formação para a vida religiosa?
Essas perguntas acompanham minha tarefa de médico psiquiatra desde
quando me dediquei a acompanhar pessoas consagradas. É por isso que me
atrevo a expô-las sem pudor, oferecendo algumas pistas construídas com
esforço em mais de duas décadas de trabalho profissional. Por outro lado,
recordava João Paulo II: “Um grande desafio, que nos espera no final deste
milênio, é saber realizar a passagem, tão necessária como urgente,
do fenômeno ao fundamento” (Encíclica Fides et ratio, nº 83), dos
diferentes saberes e ciências à metafísica ou à sabedoria. Tentemos aceitar
esse desafio.
b) Superar os reducionismos
No livro De Trinitate, santo Agostinho descreve a psicologia humana
mediante uma história que facilita a compreensão da questão que nos ocupa.
Com o relato, Agostinho aborda, com uma boa arte narrativa, temas muito
atuais: a multicasualidade da doença, a relação medicina-psicologia, a
fadiga como causa de um esgotamento geral e a relação entre doença e
vontade de Deus. Com bom humor, o santo apresenta uma velha questão
médica: a incapacidade proverbial dessa categoria de colocar-se de acordo
entre colegas. Vamos ao relato:
Imaginemos um homem sábio cuja alma racional já participa da eterna e imutável verdade, a
qual ele consulta em todas as ações e nada faz sem estar ciente de sua liceidade, agindo
retamente em tudo, por sempre sujeitar-se em obediência a seu império. Esse homem, dócil às
inspirações da justiça divina, que no segredo intima suas ordens ao ouvido do coração e alenta-
o a aplicar-se em obras de misericórdia, fatiga seu corpo no trabalho até contrair grave
doença. Consultados os médicos, um afirma que o mal provém da aridez dos humores; outro,
da abundância; um diz a verdade, outro se equivoca; ambos, porém, referem-se a causas
materiais e próximas.
Contudo, se investigarmos a causa da deficiência de humores e a encontrarmos no trabalho
voluntário, teríamos chegado a uma causa superior, pois a ordem provém da alma e transmite-
se ao corpo que ela governa; mas ainda não é esta a suprema razão. Para encontrá-la, é
necessário remontarmos à Sabedoria imutável, à qual a alma do homem sábio serve em
caridade e, obediente a suas inspirações, se aplicou voluntariamente ao trabalho. Assim, a
causa primeira e suprema daquela doença é sempre a vontade de Deus. (De Trinitate, III-3)
À distância de cerca de dezesseis séculos, Viktor Frankl concordou com
santo Agostinho. Para Frankl existem duas leis da tridimensionalidade do
ser. A primeira: “Um mesmo elemento projetado de sua própria dimensão
em outras inferiores distintas desenha-se de modo que as figuras se
contradizem”. E a segunda: “Diferentes elementos projetados de sua
dimensão em uma dimensão inferior desenham-se de forma semelhante”
(Frankl, 1998, p. 38-40). Os reducionismos, sejam biológicos, psicológicos
ou sociológicos, podem mostrar diferentes elementos da mesma pessoa em
contradição, como acontece com o sábio de santo Agostinho. Uma depressão
será vista por uns como aflição, por outros como transtorno bioquímico nos
neurotransmissores, e também poderá ser dito, justamente, que se trata de
uma mera consequência de situações socioculturais adversas.
Por outro lado, o reducionismo iguala as pessoas que sofrem de um
mesmo sintoma. Assim, para o médico a insônia de três pacientes será
exatamente igual, um deles com problema de ansiedade, outro com um tumor
que secreta adrenalina e o terceiro com um conflito moral.
No exemplo agostiniano, vemos que os médicos, usando unicamente a
dimensão corpórea, discutiram a causa do esgotamento sem compreender
que, além de tudo, se tratava de um sábio que ofereceu seu corpo à fadiga
voluntária numa obra de misericórdia, a partir da escuta da vontade de Deus.
E com esse olhar redutivo, corremos o risco de concluirque todos os
esgotamentos são iguais, tanto o esgotamento do nosso sábio quanto o de um
viciado em cocaína afetado pela jogatina, o qual passou as últimas noites
acordado e jogando. Na escuridão da não identificação das dimensões,
“todos os gatos são pardos”. É evidente que igualar assim os pacientes
diminui as possibilidades de um tratamento eficaz. A ação médica precisa
distinguir para oferecer ajuda adequada, que será diferente para cada caso.
“O médico que tratou de dois neuróticos da mesma maneira errou ao menos
com um”, alertava Karl Jaspers.
Apliquemos essas considerações no primeiro período de burnout, ao
qual Maslach denomina fase do idealismo e da supervalorização das
possibilidades. Na história de vida dos religiosos, essa etapa coincide com
os primeiros anos do chamado vocacional. A história do sábio de santo
Agostinho mostra que a causa do entusiasmo inicial, que o levou a “fadigar
seu corpo no trabalho” e a responder radicalmente à sua vocação, poderia
estar nas diferentes dimensões do ser, e que não convém descartar a priori a
substância espiritual. O entusiasmo originário e idealista da entrega
vocacional pode ser resultado de um caráter narcisista, com sua visão
onipotente, “misturado” a uma graça inicial que acompanha o chamado de
Deus. As duas forças, pulsão inconsciente narcisista e graça de Deus, podem
contribuir no fenômeno do entusiasmo em medidas variadas e porcentagens
difíceis de decifrar. As crises existenciais, a que são candidatas todas as
pessoas que enfrentam a vida seriamente, com honestidade e coerência,
podem ser vistas como momentos de purificação da “mistura”, e os sábios
ficam mais sábios quando o ouvido atento à lei imutável se liberta dos
zumbidos narcisistas. A ausência dessas crises nos religiosos, longe de
indicar solidez, pode dever-se à fixação narcisista, que provoca uma “surdez
existencial” constitutiva e permanente. De alguma maneira, devemos desejar
o desgaste purificador.
Para acompanhar um religioso cansado, em suas várias fases de
desmantelamento da energia vital, é necessário um olhar inclusivo, que evite
os reducionismos e compreenda o outro em todas as suas dimensões. Entre
os religiosos e suas instituições há o risco do espiritualismo, a forma
espiritual do reducionismo que desconhece o aporte efetivo das ciências
farmacológica e psicoterapêutica à atenção dos membros com desgaste.
Por outro lado, o entusiasmo acrítico de alguns religiosos com a
psicologia pode gerar outros reducionismos. A experiência mostra que quem
olha a pessoa integralmente pode oferecer instrumentos e saberes humanos
com a humildade e o respeito de quem está consciente do limite do próprio
recurso; isso leva a reunir as possibilidades que brindam diversos
profissionais e várias ciências.
Outro elemento que surge da história do sábio de santo Agostinho é o
controvertido argumento do sacrifício. O apelo ao sacrifício perdeu o valor
em nossa cultura, inclusive entre os religiosos. Suspeita-se que, por trás da
ideia do sacrifício, se alojem pulsões masoquistas inconscientes, que
conduzem a atitudes servis. Para sair desse psicologismo, é necessário que
se descubra o profundo valor relacional que o sacrifício tem. Viktor Frankl,
judeu religioso e, portanto, dentro de uma tradição em que o sacrifício foi e
é instrumento na relação do homem com Deus, escreve:
“As coisas, pois, são relativas num sentido diferente do proposto pelo relativismo: estão em
relação com o não relacionável; o sistema referencial dos valores é Deus. Por isso, Deus não
pode ser uma magnitude de qualquer ordem, nem sequer uma magnitude infinita, e sim, a
ordem mesma de magnitudes. […] As coisas têm um valor e um sentido à medida que podem
transferi-los a outro, a algo superior, à medida que esse valor e esse sentido possam ser
sacrificados nas aras de alguém; nisso consiste a autêntica relatividade dos valores.
Numa palavra, ainda que pareça paradoxal, as coisas valem para ser sacrificadas. O sentido
sacrifical constitui o verdadeiro valor das coisas. O que, em última instância, determina o
preço de uma coisa é seu possível destino a algo superior, em último termo, ao supremo: “para
a maior glória de Deus” (Frankl, 2006, p. 280-284).
Outro ensinamento do relato agostiniano comentado pela logoterapia é: o
esgotamento é um valor relacionado ao valor supremo, Deus. O
discernimento que cabe fazer no burnout de religiosos consiste em
confrontar quanto esse esgotamento está ordenado a Deus e em que medida é
resultado de carências inconscientes, que levaram a um ativismo pastoral. A
primeira possibilidade dá valor ao cansaço; a segunda, banaliza-o.
c) Vocação religiosa, vocação ao amor
Para Vladimir Soloviev, prolífico escritor russo do final do século XIX,
a união humano-divina realiza-se no amor e na arte. O significado do amor,
livro que escreveu no fim de sua vida, é visto por muitos como a origem da
corrente filosófica personalista. A leitura do parágrafo dessa obra, abaixo,
ajudará a refletir sobre a relação entre o celibato na vida religiosa e o
narcisismo. O amor é um prodígio que nos liberta do egoísmo. Esse amor,
que compreende toda a realidade humana, inclui a dimensão erótico-sexual:
Só existe uma força capaz de aniquilar o egoísmo pela raiz e de forma definitiva, e essa força
realiza isso eficazmente: é o amor, o amor sexual em primeiro lugar. A mentira e o mal do
egoísmo consistem em atribuir a si, de forma exclusiva, um valor absoluto que é negado aos
demais. A razão mostra que isso carece de fundamento e é injusto. Mas é só o amor que
elimina essa atitude, obrigando-nos a reconhecer o valor absoluto do outro, não apenas em
nossa consciência abstrata, mas também nos sentimentos íntimos e em nossa vontade.
Quando conhecemos, graças ao amor, a verdade do outro, não abstratamente e sim na forma
essencial, e transportamos efetivamente o centro de nossas vidas para além dos limites de
nossa particularidade empírica, revelamos e realizamos nossa capacidade de transcender os
limites de nossa existência fatual e fenomênica, na capacidade de viver não só em nós
mesmos, mas também nos outros.
Soloviev, em seu livro O significado do amor, desafia o celibato
consagrado: por lhe faltar a força descentralizadora amorosa sexual, não
estaria alimentando nos religiosos uma sorte de egoísmo narcisista? Essa
situação explicaria o individualismo existente nas comunidades. Nas
comunidades masculinas, isso é expresso no fazer autônomo, enquanto se
mantêm relações cordiais e respeitosas. Nas comunidades femininas, a forma
individualista manifesta-se em relações comunitárias de competitividade e
ciúmes. Tanto o individualismo masculino quanto o feminino desgastam as
relações interpessoais e predispõem os membros de uma congregação ao
desgaste profissional.
É importante destacar que, na psicologia, o narcisismo não representa
apenas um transtorno, mas também leva em consideração aspectos sadios da
pessoa. Nesse sentido, é fonte de autoestima e assertividade, necessárias
para o funcionamento saudável; em situações favoráveis, suscita o
desenvolvimento de capacidades excepcionais, como carisma, liderança,
criatividade, bom humor e sabedoria. Mas quando gera uma reversão da
afetividade na direção da própria individualidade, justamente num
movimento contrário ao amor descrito por Soloviev, produz necessidades
negativas, que a psicopatologia descreve de maneira florida como
características da personalidade narcisista. São elas a pretensão de ser
considerado especial ao lado da fantástica certeza de ser de fato especial, a
necessidade de admiração, com tendências exibicionistas, e a hipocrisia nos
modos de se apresentar e de se vestir. No campo das relações interpessoais,
os narcisistas têm dificuldade para compreender os outros, e suas relações
são muito inconstantes. O padrão de atividade mostra uma intercalação de
períodos de entusiasmo seguidos de desmotivações dominadas pelo tédio e
pela apatia. Trata-se, evidentemente, de características que, com o tempo,
provocam frustração pessoal e comunitária e causamdesgaste profissional
naqueles com quem se convive. Não é raro encontrar esse tipo de desajuste
da personalidade em pessoas consagradas.
Disso se depreende que existe um desafio afetivo para a vida religiosa.
Um grupo de pesquisadores bolivianos indica que a vida religiosa vive entre
a paixão e o desencanto. A paixão é a afetividade que me descentraliza e me
envia na direção do próximo, que me parece atraente e, portanto, me permite
sair de minhas necessidades narcisistas. É difícil introduzir o afeto numa
regra religiosa. É viável que cada um tenha uma ideia diferente do que seja
uma família, do que seja o amor, do que seja o afeto. Mas percebe-se que,
quando a comunidade religiosa, por diferentes razões, renuncia ao objetivo
de viver como família, e os aspectos afetivos são deixados entre parêntesis,
renuncia-se à possibilidade de uma transcendência humana necessária à
transcendência teológica. A personificação do amor de Soloviev continua a
nos provocar.
d) O vazio existencial do sentido da tarefa
Já dissemos que o vazio existencial manifesta-se como uma perda de
interesse que pode levar a um estado de tédio e a uma falta de iniciativa
apática. É acompanhada por um profundo sentimento de sem sentido. O vazio
existencial não supõe que isso seja uma doença, mas pode provocá-la se for
enfrentado com pouco discernimento.
Apontamos também que a análise existencial ensina um discernimento
necessário: a vocação é constituída de dois elementos, uma intenção
subjetiva (propósitos pessoais) e uma intenção objetiva (pessoas, tarefas).
Quando esses elementos se dissociam, produz-se uma “dedicação aparente”.
Na paixão, o polo subjetivo consta dos sentimentos e dos afetos do
apaixonado, e a motivação objetiva é a pessoa por quem se se apaixona.
Quando o desgaste na vida religiosa é produzido? Quando a pessoa age
para satisfazer suas intenções subjetivas que têm origem nos compromissos,
nas obrigações e nas influências externas. Por outro lado, quando
secundariamente segue apenas a motivação objetiva, que compreende o
mundo dos valores. Esse sistema que, provavelmente, se introduz gradual e
lentamente na vida religiosa, coloca o religioso em risco de desgaste. Dou o
exemplo de um sacerdote que tem como propósitos pessoais levar uma vida
muito ativa, identificada numa lista importante solidária na sociedade, e
como sentido objetivo a comunidade a quem serve. Quando atividade e lista
ocuparem em sua motivação os lugares da comunidade objetiva a quem
serve, ocupação ilegítima que se produz de forma gradual, é possível cair no
burnout. É claro que o polo “propósito subjetivo” é o mais exterior dos dois
polos, por ser motivado por influências de terceiros. O “polo objetivo” é a
realidade que atrai e coloca em movimento a vontade de sentido que, por sua
vez, produz a saída e a descentralização de si mesmo.
É por isso que, na prevenção do desgaste entre religiosos, convém
repetir perguntas que, por serem óbvias, não devem ser abandonadas e, por
serem arriscadas, não devem ser evitadas. Por que estou fazendo isso? Eu
gosto de fazer isso? Sinto que é bom? Quero viver para isso? Vou querer ter
vivido para isso?
Concluímos enumerando os grandes desafios para superar a crise e as
crises da vida religiosa: personalizar a tarefa, dar vida a afetos e
sentimentos no sulco da autotranscendência descentralizadora, levando a
comunidade a vivenciar o estilo familiar, e a preparação dos membros para
discernir as diversas expressões da multidimensionalidade do ser nas
situações de desgaste profissional.
Em síntese, enfrentar o fenômeno com as ações de prevenção do burnout
oferecido pelas ciências e penetrar o fundamento da crise com a milenar
“sabedoria religiosa”.
1 “Logoterapia”, etimologicamente do grego: “terapia centrada no sentido”. Lógos quer dizer “razão’,
“sentido”, e é importante evidenciar que, desde o começo do pensamento filosófico grego, esse termo
indica deixar as coisas falar sem lhes impor uma interpretação estranha. Deixar que se manifestem,
que se imponham.
2 O paraguaio De los Santos Lima, os uruguaios Claudio Larrique, Celia Pereyra e Alejandro de
Barbieri, e eu.
3 Babel não só no sentido da diversidade dos idiomas. Calcula-se que participaram daquele congresso
mais de quinhentas correntes de psicologia, cada qual pretendendo ser a resposta aos problemas
psicológicos do homem.
4 A lista é longa e, segundo Gabriel Marcel, eles são “enviados de outro mundo”. Penso em Karol
Wojtyla, Teresa de Calcutá, João XXIII, Paulo VI, Simone Weil, Chiara Lubich, Martin Luther King,
Mahatma Gandhi, Martin Buber, Dietrich Bonhoeffer e muitos outros, que compensam com sua luz
um dos séculos mais obscuros da história.
5 Estrela de Davi em amarelo que os judeus eram obrigados a aplicar sobre suas roupas. [N.d.T.]
6 “O coração tem razões que a própria razão desconhece” (Blaise Pascal).
7 Lembro-me de um paciente que queria controlar racionalmente toda a sua vida. Depois de muitos
fracassos, ao se dar conta da impossibilidade de fazê-lo, entrou no meu consultório e disse: “Hoje eu
decidi ser espontâneo”. Durante a conversa, descobrimos que ser espontâneo e intuir o sentido da
vida não é resultado do controle dos raciocínios e das emoções, e sim de uma confiança básica na
vida que oferece sentido e na consciência capaz de descobri-lo espontaneamente.
8 Por exemplo, na decisão que Frankl toma de permanecer em Viena, durante a perseguição, vemos
que estão em jogo fatores situacionais – a vida de seus pais ou a ciência – e também valores
universais – “honra teu pai e tua mãe”. Destaco também a consciência atenta que reflete, busca
sinais, escuta a voz do inconsciente mediante sonhos etc.
9 De nous, em grego, “intelecto”.
10 Uso a expressão “acrescentados” do Sermão da Montanha, apesar do pouco uso corrente. “Buscai,
em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas” (Mt
6,33).
11 Doutrina mística que consiste na perfeição cristã no amor a Deus e na inação da alma, sem obras
exteriores. [N.d.T.]
12 Essa oração foi formulada pelo pastor Reinhold Niebuhr. Sua versão original e integral é: “Concede-
me, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para
modificar as que eu posso e sabedoria para distinguir uma da outra – vivendo um dia de cada vez,
desfrutando um momento de cada vez, aceitando as dificuldades como um caminho para alcançar a
paz, considerando o mundo pecador como ele é, e não como gostaria que ele fosse, confiando em
Deus para endireitar todas as coisas para que eu possa ser moderadamente feliz nesta vida e
sumamente feliz contigo na eternidade. Amém.”
Capítulo 3
O AMBIENTE DE TRABALHO. AS
RELAÇÕES DE COMUNHÃO,
REMÉDIO PARA O BURNOUT
“Toda vida verdadeira é encontro.”
Martin Buber
1. Sanar o ambiente de trabalho. Essas
complicadas relações entre colegas
Nos capítulos anteriores afirmamos que as instituições podem ter formas
de organização inadequadas ou injustas que causam desgaste profissional
para além do vigor dos envolvidos. Pessoas psicologicamente fortes podem
sucumbir nessas organizações desatentas. Convimos na importância de um
diagnóstico institucional e na urgente tomada de medidas para remediar a
situação. É um trabalho do qual não se pode esquivar.
Independentemente disso, em meu consultório, constato que a queixa da
maioria dos esgotados não se refere tanto à organização institucional, mas a
um ambiente de trabalho insano. Ou seja, sofrem as espinhosas relações
cotidianas entre colegas e companheiros de trabalho que dividem uma área
física e organizacional.
Nesse espaço, a luta interior que Soloviev colocou em xeque no capítulo
anterior, egoísmo x amor, transforma-se numa batalha campal. O amor, que
propõe o saudável esquecimento de si, transforma-se em interesse pelo
outro, respeito, solidariedade, ajuda concreta etc. Do contrário, o egoísmo
autorreferencial manifesta-se como individualismo, carreirismo,
competitivi dade, inveja, críticas cruéis e impiedosas, desconfiança,
vanglória,autoritarismo.
De nada servirão os instrumentos da psicologia cognitiva e ocupacional
esboçados no primeiro capítulo se não houver uma mudança de atitude que
leve à realização de um trabalho fundamentado no campo de relações de
comunhão entre colegas. Esses instrumentos introduzirão uma prática sem
fundamento, máscaras e rituais comunicativos, muito mais do que fatores de
comunicação e crescimento, deixando a possibilidade de que o desgaste
profissional alcance os vulneráveis.
A comunhão é para o espírito o que a comunicação é para o psiquismo.
Chega-se à comunhão com o que Frankl chamava de força indômita do
espírito. Portanto, o saneamento do ambiente de trabalho é possível
mediante o conhecimento e o esforço espiritual, ou com o que, na linguagem
moderna, poderíamos chamar de espiritualidade.
Desenvolvamos esses conceitos. Algumas perguntas vão nos servir para
começar a reflexão. Se dissermos que a comunhão é diferente e tem
qualidade superior à mera comunicação positiva, então podemos começar
perguntando: O que é a comunhão? Se não for apenas boa comunicação, um
estado de aber tura amigável, uma simples tolerância que não se envolve com
o outro, uma “coisa legal”, então quais serão suas características? O ser
espiritual, do qual falamos a propósito da logoterapia, predispõe os
indivíduos para a comunhão entre pessoas (não me refiro somente à que se
dá no amor esponsal entre homem e mulher)? Se isso for verdade,
necessitamos de determinada orientação e prática para alcançar essa
capacidade de gerar comunhão? Ou trata-se de qualidades naturais que todos
possuem? São mais bem recebidas em dotação na forma aleatória e, assim,
alguns as possuem e outros não?
São perguntas pertinentes que orientam a reflexão. Convido o leitor a
pensar suas respostas.
Vamos juntos à primeira interrogação. Com um olhar fenomenológico,
que visa a alcançar a essência das coisas, podemos definir a comunhão como
o encontro humano no qual aqueles que interagem se dão com sua
consciência responsável e sua confiança. Cada um se torna responsável pelo
outro e espera confiante que do outro parta a mesma atitude. Num segundo
momento, praticamente na sequência do primeiro, a comunhão torna-se ponto
de partida de uma atividade de ajuda concreta e mútua, livremente escolhida,
constituída de palavras e ações que sustentam e vitalizam as pessoas em sua
unidade e comunhão.
Desmembremos essa definição. A substância da comunhão é o encontro
humano. O que queremos dizer com “encontro humano”? O encontro humano,
no qual baseamos a relação de comunhão, não é um encontro qualquer, como
o que se pode dar com uma pessoa que caminha na rua ou o encontro
meramente funcional ou burocrático tramitação de um processo. O encontro
impele-nos a fazer parte do outro, ou seja, a participar na e da vida do
outro. Em guarani, a palavra “amigo” é chera’à, que significa literalmente
“parte de mim” ou “meu semelhante” e expressa muito bem o que estamos
dizendo.
Também expressa isso, por exemplo, Adrian van Kaam, psicólogo
existencialista e sacerdote holandês:
“O encontro humano pode prorromper de um momento a outro como um
presente inesperado da vida cotidiana. Por exemplo, sentados num bar,
trocamos as costumeiras frases dos encontros casuais. De repente, o outro
me conta da doen ça de um familiar, da perda de um amigo, de um
acontecimento triste por que passou naquele dia. Alguma coisa em sua
comunicação me toca e torna-se um convite a mim dirigido. Impele-me a dar
uma resposta que vá além do formal ou do acidental. É como se o outro, por
um instante, tivesse tirado sua máscara social e me convidado a entrar no
santuário de sua vida íntima. Eu respondo igualmente tirando minha máscara.
Algo amadurece em nós e sentimos uma realidade nova fortemente
vivenciada” (Van Kamm, 1985, p. 18).
Portanto, não bastam o sorriso formal, o cumprimento respeitoso, a
tolerância paciente para com os erros dos outros etc., embora sejam,
indubitavelmente, elementos básicos necessários para construir o encontro,
sejam necessidades sociais legítimas. Mas no encontro humano, esses gestos
pessoais tornam-se mútuos, ou seja, alguém oferece e outro recebe, num
caminho contínuo de mão dupla. Van Kaam prossegue:
“Às vezes, simples olhares cruzados, a prestação de um serviço feito de
forma especial, uma palavra, a mudança do tom de voz ou o gesto de uma
mão são suficientes para evocar a experiência dessa comunhão escondida de
interesse mútuo entre as pessoas. Elas descobrem reciprocamente, real e
profundamente, a própria personalidade mediante as mesmas palavras e
gestos” (Ibidem).
Repetimos que a comunhão é o encontro humano no qual aqueles que
interagem se doam com sua consciência responsável e sua confiança.
Falamos da consciência responsável quando tratamos da logoterapia.
Confiança significa o reconhecimento do valor do próximo e de suas
possibilidades. Gabriel Marcel afirma que amar o próximo significa esperar
dele algo novo e imprevisível. O novo e imprevisível é, além disso,
verdadeiro, bom e belo. Portanto, a confiança gera a atitude de abertura
positiva de quem espera um desenvolvimento do outro na direção de seu
próprio sentido. Immanuel Kant, com seu princípio ético categórico, instou-
nos que em nossos semelhantes reconhecêssemos fins e não os meios. Com a
logoterapia, não só entendemos que quem está ao meu lado é sentido (um
fim) para mim, mas também que ele tem um sentido para si no qual confio
unicamente, pois não posso conhecê-lo exatamente.
A rota de nossas perguntas conduziu-nos à questão se a pessoa gera
encontros humanos naturalmente com qualidades universais, que se podem
perder, se podem cultivar ou tecer com paciência, como faz um artesão, no
tear interior que é nosso espírito. O que aprendemos da logoterapia no
capítulo anterior diz que ser pessoa quer dizer ser essencialmente
autotranscendente em algo, valor ou tarefa, ou em alguém, mediante o amor.
Essa afirmação diz que estamos naturalmente preparados para o encontro
humano pelo fato de sermos pessoas; nossa essência espiritual está aberta ao
mundo dos outros. Por outro lado, é uma experiência que todos fazemos e
que confirma empiricamente o que dissemos.
De qualquer forma, o leitor atento às realidades sociais, ambientais e
políticas do mundo, e às vicissitudes em seu ambiente de trabalho, vai me
chamar de ingênuo. Não o recrimino; a autotranscendência mútua parece uma
cantata cuja partitura nesse mundo perdemos há muito tempo. Portanto, e
aprimorando o tiro, permita-me concluir, integrando logoterapia e realidade,
que a autotranscendência mútua é uma essência natural do homem que pode
ser escurecida por motivos pessoais e culturais e, por isso, requer atenção e
exercício para se desenvolver e se manifestar plenamente.
De modo análogo, a abertura espiritual é uma dimensão humana presente
em todo homem e em toda mulher como os músculos do corpo, e assim como
os músculos, desenvolve-se com um treinamento específico.
No livro mais conhecido do psicanalista alemão Erich Fromm, A arte de
amar (Fromm, 2006), o autor afirma que o amor não é uma sensação
prazerosa resultante de sentir-se amado, cuja experiência é uma questão de
ter sorte e encontrar a pessoa certa; mas é uma arte, uma capacidade que
requer conhecimentos e uma prática que requer esforço. Podemos imaginar
quais são os esforços; aqueles que foram vividos abertos à existência dos
demais encontraram muito trabalho; temos, entretanto, menos notícias dos
conhecimentos requeridos para que nosso espírito se abra à transcendência
do amor.
Resumindo, é possível desenvolver e cultivar a capacidade de amar
mediante exercícios e conhecimentos. Esses conhecimentos e o esforço de
viver “a arte de amar” constituem aquilo que, na linguagem moderna,
poderíamos chamar de espiritualidade. Nos anos 1970, Erich Fromm nem
pensava em falar sobre espiritualidade. Mas, profeticamente, esse
psicanalista, que não acreditava em Deus, encerrou seu livro com um
admirável canto de fé na natureza do ser humano, com o qual, segundo meu
entendimento,tanto os “bons” que creem e os “não menos bons” que não
creem podem concordar. Fromm conclui assim seu livro: “Ter fé na
possibilidade do amor, como fenômeno social e não apenas excepcional e
individual, é uma fé racional baseada na compreensão da natureza
verdadeira do homem” (Ibidem, p. 165). Amar faz parte de nossa natureza,
mas “reclama um estado de intensidade, de alerta, de vitalidade acentuada,
que só pode ser o resultado de uma orientação ativa e produtiva em muitas
outras esferas da vida” (Ibidem, p. 160). Portanto, o amor não se limita ao
âmbito familiar ou ao círculo dos amigos, mas estende-se às pessoas em
contato no trabalho, nos negócios e na profissão.
Hoje a espiritualidade não está mais circunscrita ao âmbito das religiões
e dos mosteiros; ela difunde-se entre leigos e religiosos, ateus e fiéis, sem
distinção. Por exemplo, a relação entre espiritualidade e saúde, tanto física
quanto psíquica, é centro de interesse de médicos, uma vez que a interação
entre ambas as esferas é inegavelmente positiva na prevenção e na cura de
enfermidades (cf. Anandarajah & Hight, s.d.).
Do ponto de vista médico, a espiritualidade é definida como a forma com
que se encontram significado, esperança, vigor, alívio e paz interior na vida,
com efeitos benéficos na saúde da pessoa. Ultimamente, os médicos estão
dando atenção à prática religiosa de seus pacientes, a seus valores e
princípios, ou ainda a seus interesses pela música, pela arte ou pela conexão
com a natureza.
De qualquer forma, nesses estudos, a espiritualidade é limitada à esfera
privativa. É uma descoberta individual, um caminho a ser percorrido na
solidão. Muitas vezes funciona como esconderijo para fugir do encontro
humano. Num famoso livro sobre espiritualidade de um mestre hoje muito
em voga, o autor conta que, enquanto falava com um discípulo que lhe‐ 
comunicava sobre seus sentimentos mais profundos, teve de interrompê-lo (e
deixá-lo sozinho) porque escutou um pássaro cantar numa árvore, e isso lhe
trouxe recordações de infância. A forte introspecção que essa lembrança
acarretou impediu-o de continuar com atenção a conversa e a comunhão com
o outro. É um exemplo de como uma espiritualidade pessoal,
indubitavelmente positiva, nem sempre contribui para o encontro entre
pessoas.
Uma velha piada de paróquia também confirma isso: “Pergunta: ‘Você
sabe definir uma freira santa?’ Resposta: ‘É a que faz sempre a vontade de
Deus e segue as normas da Igreja e da congregação’. Pergunta: ‘E você sabe
definir uma freira mártir?’ Resposta: ‘É a que vive com a freira santa!’” A
piada contribui com nossas investigações, mostrando a possibilidade de se
chegar ao burnout, espécie de martírio moderno, graças à convivência com
pessoas cem por cento perfeitas.
Espiritualidade é o conjunto de conhecimentos e esforços que nos levam
à transcendência. Em nossa busca de uma espiritualidade que incentive o
amor e o encontro humano, vimos que a colaboração da espiritualidade que
desenvolve unicamente os aspectos individuais da pessoa é insuficiente.
Requer-se uma espiritualidade que fundamente a comunhão.
A Igreja Católica, apesar de seu tesouro milenar de sabedoria, construído
com prática e pensamento, vê-se envolvida em situações conflituosas que a
tornam necessitada desse tipo de espiritualidade. A ambição nem sempre
medida de seus membros hierárquicos, gerando entre si relações
disfuncionais ou dificuldades organizacionais, foi notada por João Paulo II e,
recentemente, por Bento XVI (cf. Bento XVI, 2010). Num de seus
documentos programáticos no começo deste milênio, o papa polonês
preconizou uma espiritualidade da comunhão.
É necessário um prévio esclarecimento para compreender o texto dele,
citado a seguir. Com “instrumentos externos da comunhão”, o papa refere-se
aos diferentes corpos de comunicação e organização criados ou
revitalizados na Igreja Católica durante os anos do Concílio Vaticano II
(conselhos paroquiais, conferências episcopais, conselhos diocesanos,
conclaves etc.). Como João Paulo II define a espiritualidade de comunhão?
Espiritualidade da comunhão é ainda a capacidade de ver, antes de mais nada, o que há de
positivo no outro, para acolhê-lo e valorizá-lo como dom de Deus: um “dom para mim”, como
o é para o irmão que diretamente o recebeu. Por fim, espiritualidade da comunhão é saber
“criar espaço” para o irmão, levando “os fardos uns dos outros” (cf. Gl 6,2) e rejeitando as
tentações egoístas que sempre nos insidiam e geram competição, arrivismo, suspeitas, ciúmes.
Não haja ilusões! Sem essa caminhada espiritual, de pouco servirão os instrumentos exteriores
da comunhão. Revelar-se-iam mais como estruturas sem alma, máscaras de comunhão, do
que como vias para a sua expressão e crescimento. (Novo Millennio Ineunte, nº 43)
A carta do Papa propõe elementos positivos a serem cultivados e outros
negativos a serem repudiados e combatidos, no desenvolvimento de uma
espiritualidade interpessoal. Os elementos negativos nós os conhecemos
bem: representam o duro pão de cada dia que quebra os dentes em muitos de
nossos ambientes de trabalho. É por isso que considero importante analisá-
los. São claramente definidos, no documento, como “as tentações egoístas
que sempre nos insidiam e geram competição, arrivismo, suspeitas, ciúmes”.
Mestres da espiritualidade da Idade Antiga e Medieval chamaram a esses
elementos de vícios, e na literatura abundam “catálogos” deles escritos por
autores de renome1. Algumas descrições antigas desses defeitos conservam
uma atualidade incrível. Os vícios se conservaram, transmitidos por
gerações, sustentados com a prática, podendo assim chegar aos nossos dias
gozando de ótima saúde. Não são espécies em extinção que viveram num
mundo antigo. Por outro lado, as listas foram-se enriquecendo com a
transformação de alguns vícios, o que deu lugar a “catálogos atuais”, que
vale a pena descrever. De fato, a literatura contemporânea volta a propor sua
análise do ponto de vista religioso, leigo e filosófico2.
Para nos exercitarmos na comunhão, parece-me oportuna a análise desses
defeitos, por serem defeitos relacionais e, portanto, danificarem a essência
do encontro humano. Por outro lado, em nosso estudo da espiritualidade
para a comunhão, é bom começar pelo negativo. Vamos limitar nossa
investigação a dois “vícios” presentes e contaminantes de nossos ambientes
de trabalho: a vanglória e a inveja. Veremos como um espaço de relação
pode ser arruinado por essas duas irracionalidades, e como a atmosfera
laboral se esfria arrastando ao burnout quem respira diariamente num lugar
assim.
2. Vanglória e inveja, o sabor amargo de nossas
relações de trabalho
“Procure alcançar a satisfação de ver seus vícios morrerem antes de
você.”
Sêneca
Devo apresentar duas premissas. Em primeiro lugar, não se confunda
vanglória com a vontade de alcançar coisas grandes. Para santo Tomás, a
virtude da magnanimidade consiste em desejar coisas grandes; por ela, o
homem e a mulher virtuosos fazem isso, sendo um sinal de sua nobreza.
Então, não podemos pensar que é errado querer a excelência para nós e para
o trabalho que fazemos.
A segunda premissa é que o encontro humano pode dar-se legitimamente
de forma assimétrica, como o de um pai com seu filho, da professora com
seu aluno ou de um conselheiro com seu assistido. O sentido de
superioridade pode ser legítimo numa relação que, por sua estrutura
funcional, seja vertical.
O problema do soberbo é que ele se apaixona por sua própria
excelência, bem como ele produz uma presunção irracional de superar os
outros. O encontro humano torna-se, então, insensatamente assimétrico,
irracionalmente vertical.
Um sábio mestre de espiritualidade vê, boquiaberto, como seu jovem discípulo caminha sobre
as águas.
— Como você faz isso? — pergunta.
— É que, a cada passo, repito seu santo nome, mestre — responde devotadamente o jovem.
Mais tarde, toda a comunidade viu o sábio mestre afundar na água repetindo:
— Eu… eu… eu…
A relação entre inveja e soberba é imediata. Se o soberbo não conseguir
superar osdemais, como sua irracionalidade impõe, não ficará satisfeito.
Essa insatisfação gera o ressentimento que dá origem à inveja. Santo Tomás
define a inveja simplesmente como a tristeza pelo sucesso do próximo e o
sutil e perverso prazer por seu fracasso.
O filósofo Baruch Spinoza, em seu livro Ética, dá um programa singelo
para enfrentar esse vício (Spinoza, 2003, p. 140): não zombe, nem deprecie,
nem deteste o comportamento do próximo; tente compreendê-lo. O filósofo
holandês lembra que o caminho da empatia, ou seja, colocar-se no lugar do
outro para compreendê-lo, rompe a inveja mais consistente.
Afirmamos que tanto a inveja quanto a soberba são defeitos
“relacionais”, ou seja, ninguém é soberbo ou invejoso senão for na relação
com o próximo. O drama do personagem vaidoso de O pequeno príncipe
devia-se ao fato de ninguém passar pelo planeta dele para admirá-lo, porque
a vaidade é um vício que precisa do outro, é relacional.
A morte do sapo da conhecida fábula deve-se ao seu encontro irracional
com o boi e com seus filhos:
Um dia, um sapo viu um boi num pasto; estimulado pela inveja de seu
belo corpo, inflou sua pele enrugada. Então perguntou a seus filhos se ele era
tão grande como o boi. Eles negaram. Inflou de novo a pele com mais
esforço e perguntou novamente quem era o maior dos dois. Eles disseram
que era o boi. Quando, indignado, o sapo quis novamente se inflar com ainda
mais força, estourou.
Por que esses vícios estão tão arraigados na espécie humana? Sem
dúvida, por nossa necessidade de reconhecer, desenvolver e ter uma
identidade. Para nós, é imprescindível responder à pergunta: Quem sou eu?
A essa pergunta se responde unicamente de forma relacional. A
identidade não pode ser desenvolvida de forma solitária, a partir de um
diálogo interior. É claro que esse “algo” único e exclusivo que somos
conforme vimos na logoterapia, requer que, alguém reconheça isso para ser
descoberto por quem o possui, que é ao mesmo tempo um destinatário.
Frankl costumava repetir: “O eu torna-se eu somente no tu”. E Martin Buber:
“É tornando-me eu que digo tu”.
Justamente nessa relação sem soberba e sem inveja, o outro me descobre
e doa, com sua presença, minha identidade inutilmente buscada no inchaço
irracional do ego. O que teria acontecido com o sapo se o olhar do boi lhe
tivesse dado sua essência? “Você é o senhor do charco, de quem não escapa
inseto algum, e tudo isso, mesmo você não sendo um bicho muito grande”.
Ou se os filhos tivessem confirmado o amor filial para além da estatura
paterna?
Em que medida a soberba e a inveja afetam as relações de trabalho?
A soberba faz com que quem padeça dela tenda a estar no centro das
atenções e fixamente autocentrado; exige a admiração ou, ao menos, a
consideração de quem ela encontrou na periferia. Para alcançar esse ponto
central, o soberbo usa dois instrumentos típicos: a manipulação e a mentira.
A psicopatologia descreve o soberbo e o invejoso numa única espécie: o
narcisista, ao qual já nos referimos no capítulo anterior. O narcisista é
descrito como aquele que exige que os demais o considerem especial e
único. De acordo com nossa reflexão, ele de fato é tudo isso em essência; a
irracionalidade não está no conceito de ser especial. A insensatez está em
exigir o reconhecimento; no encontro humano, a espera reina sobre a
exigência. Quem espera o reconhecimento vai obtê-lo, cedo ou tarde; quem o
exigir vai gerar sentimentos negativos contra os outros e, finalmente, contra
si mesmo. Paradoxalmente, esses sentimentos funcionarão como cachorros
que latem constantemente e afastam a visita de todo mensageiro de
consideração positiva.
A tendência exibicionista leva o soberbo a falar ininterruptamente de si
mesmo, do que lhe acontece, do que faz, do que os demais dizem dele e
hipoteticamente pensam de sua pessoa… O soberbo entedia com seu
discurso autorreferencial. É provável que queiramos fugir do escritório
quando entra alguém assim.
Falar tanto torna-o incapaz de escutar e, por agir como se fosse surdo, o
soberbo cansa-se de tentar entender e compreender os outros em seus
pensamentos, sentimentos e vivências. Em suma, possui uma deficiência
empática.
É típico o complexo de donjuán, e não apenas nos homens, o qual leva os
soberbos e as soberbas a verem nos demais objetos de conquistas sexuais
para colecionar compulsoriamente. A sedução que, etimologicamente, quer
dizer “conduzir para si”, é um mecanismo que se ativa diante de qualquer
um. O narcisista se encontra epidermicamente sexualizado e erotizado; mas
sendo incapaz de se doar, sua paixão é inconstante. Se alguém o rejeita em
seu desejo de conquista obterá como resposta a raiva e a vingança.
No trabalho, o narcisista tem um esquema de êxito inicial seguido por
prestações medíocres com alguns flashes brilhantes.
O trabalho em equipe fica difícil, pois os momentos brilhantes e
medíocres se alternam, seguindo o próprio ritmo do narcisista. Uma equipe
requer estabilidade para que os participantes se introduzam paulatinamente
com seu próprio ritmo; um ritmo muito peculiar e com contínuos altos e
baixos não o permite. Imaginemos quão difícil se tornará o trabalho se o
narcisista for o coordenador da equipe, o que acontece não poucas vezes.
Os sentimentos de frustração transformam-se, como dissemos, em raiva e
desejo de vingança. A inveja é o único vício que não dá prazer. O fracasso
do outro não eleva o soberbo a uma superioridade suficiente. É por isso que
o gozo invejoso é sempre pobre, paradoxalmente pouco prazeroso. A inveja
é, praticamente, um sentimento secreto de raiva do qual ninguém se orgulha
e, portanto, não é comunicado. Suas manifestações são as críticas
sistemáticas e constantes ao invejado, que estranhamente aumentam de
maneira desproporcionada quando este faz as coisas melhor.
A psicanálise deu uma boa contribuição para a investigação desse tipo
de vício e de personalidade conturbada. Sua tese é a de que a fragilidade
psicológica dessas pessoas são a causa desses transtornos de personalidade.
Em nível inconsciente, eles se sentem pequenos e abandonados, a ponto de
precisarem negar o outro na tentativa de serem alguém. É por isso que não
devemos julgar essas pessoas; certamente convém uma crítica de seus
comportamentos com a contribuição de convicções alternativas ao
narcisismo, das quais apresentaremos uma lista para que nos ajude a superar
nossas soberbas e invejas. Depois poderemos ajudar o próximo a “ver o
vício morrer”:
1) Encontrar o prazer das coisas comuns e de ser uma pessoa comum.
2) Ser semelhante aos demais não contradiz o fato de que se é único.
3) Buscar a alegria de jogar em equipe.
4) Posso não ser sempre o melhor.
5) O trabalho excepcional nem sempre é necessário.
6) Os outros também têm necessidades. Posso descobri-las.
7) Os colegas são recursos, não são “a concorrência”.
8) As críticas podem me ajudar; cuido para que o sentimento de vergonha não me desabilite.
9) Espero o reconhecimento. Não o exijo; ninguém o deve a mim.
10) As situações reais são fascinantes, mais do que os sonhos de grandeza.
11) A superioridade e a inferioridade entre as pessoas são momentâneas. Sujeitas a
mudanças.
12) Todos têm defeitos, e cada um é especial a seu modo.
13) Posso conhecer melhor meus estados de ânimo e me responsabilizar por eles.
3. Dois cartazes
“Nada façais por egoísmo ou vanglória, mas com humildade, julgando
cada um os outros superiores a si mesmo.”
Paulo de Tarso
Há uns anos, em Roma, visitei um escritório onde trabalhava um grupo de
mais ou menos dez homens e mulheres, que coordenavam um projeto de
“adoção à distância”, com o qual apoiavam trinta e seis iniciativas
distribuídas em trinta e oito países. O trabalho era volumoso e muito
diversificado; supunha contatos com os “pais adotivos”, que colaboravam
com uma quantia em dinheiro, e com os voluntários responsáveis pelas
iniciativas. Em suma, esse grupo fazia parte do pequeno exército de “bons”.
O escritório, único, era amplo e luminoso; o mobiliário era modesto, mas
harmonioso. Nas paredespodiam-se ver fotos das crianças beneficiadas
pelos projetos brincando, estudando e sempre sorrindo. Um lindo catálogo
de sorrisos oriundos das Filipinas, dos Camarões, do Peru etc.
A relação entre a equipe era tão harmoniosa quanto o local, e o respeito
mútuo era vivo em cada interação. Não faltavam trocas de sorrisos, mesmo
em momentos em que o acordo entre eles não acontecia facilmente. Parecia-
me que eles refletissem os mil sorrisos das crianças dos quadros.
Curioso, detive meu olhar em dois pequenos cartazes perdidos entre as
fotos. Um dizia: “Considere os demais superiores a você mesmo”. O outro
continha a chamada “regra de ouro” da ética: “Trate as pessoas da maneira
como você quer ser tratado”. Perguntei o porquê desses cartazes, e eles me
responderam que representavam o que tinham compactuado, no último
encontro de planejamento, como princípio das relações deles.
Não se pode imaginar que dois cartazetes tenham o poder mágico de
sanar um ambiente de trabalho. E menos ainda, curar os muitos ambientes
contaminados por críticas impiedosas e sistemáticas, calúnias, soberbas e
invejas, assédios psicológicos ou sexuais, carreirismo desmedido etc.
De qualquer forma, nessa visita descobri a necessidade de um pacto de
princípios sobre aquelas coisas que representam o melhor de nossa natureza.
As mensagens cooperavam com o clima positivo de trabalho por
funcionarem como a memória de um acordo entre os que ali estavam.
Na medicina, nós, colegas, estamos unidos pelo mesmo código de ética,
o “juramento de Hipócrates”, com o qual nós nos comprometemos a nos
ajudar mutuamente. Havia, na medicina hipocrática, o princípio de que o
colega era um irmão. Pactuar um princípio é uma boa base para que se gerem
condutas coordenadas para o bem comum. Os acordos iniciais produzem
uma realidade que tende a se sustentar. Pensemos no pacto matrimonial ou no
dos aliados políticos que se unem para tentar mudar leis que considerem
injustas, ou no pacto entre as nações que fundou a ONU depois da Segunda
Guerra Mundial.
O leitor me tachará de ingênuo pela segunda vez. Dirá que os médicos
estão mais preocupados com seus honorários do que com o código da
deontologia; que há cada vez menos casamentos e que a ONU, desviada de
seus objetivos iniciais, já não tem força para garantir a paz no Planeta. Por
último, registramos mil vezes que a justiça não é monopólio de uma aliança
política etc.
De qualquer forma, não podemos atribuir esses resultados à
inconsistência do pacto inicial, mas sim à tendência a revoga-los própria de
uma era de fragilidade. Fica claro que o sentimento de pertencimento
comunitário é um fator que beneficia o clima relacional do trabalho. E que o
fator de pertencimento positivo previne o burnout.
Isso é confirmado pela especialista em burnout Cristina Maslach, que
afirma que uma comunidade empresarial forte previne o desgaste
profissional. Um sentido de comunidade representa um objetivo
demasiadamente utópico? Maslach crê que não. E acrescenta que
compartilhar valores é a melhor estratégia para construir tal comunidade. Os
valores compartilhados podem chegar a ser os principais elementos de
coesão no campo laboral (cf. Maslach & Leiter, 2000).
Por outro lado: prestem atenção os valores acordados nos cartazes
contêm o melhor da natureza humana. O primeiro pertence a uns dos textos
mais bonitos de uma carta de são Paulo e representa o melhor do judaísmo, o
cristianismo e a filosofia estoica greco-romana, que o apóstolo sintetizava.
O segundo texto é encontrado com infinitos matizes nos livros sagrados de
todas as culturas e religiões3 e atesta a existência de uma natureza humana
comum que prepara as pessoas para o encontro de reciprocidade. Somente
dessa maneira a regra de ouro germinou em geografias, contextos religiosos
e culturais tão diversos, como uma lei, no sentido de ordem universal.
1) Proponha um encontro entre seus companheiros de trabalho para fortalecer o sentido de
permanência no grupo.
2) A partir de um intercâmbio participativo, enumere aqueles valores compartilhados.
3) Pactuem entre todos o compromisso de revitalizá-los.
4) Com o transcorrer do tempo, enumere os sucessos obtidos pelo sentido de pertencimento e
de comunhão reativados.
5) Planeje um encontro futuro para verificar se, com o passar do tempo, a atenção e a força
não se diluíram. É preciso dizer isso com tempo.
4. Humildade e autoestima
“Senti que fui criada como um dom para quem me está próximo
e quem me está próximo foi criado por Deus como um dom para mim. Na
terra tudo está em relação de amor com tudo: cada coisa com cada coisa.
Mas é preciso viver o Amor para encontrar o fio de ouro entre os seres.”
Chiara Lubich
Os citados mestres de vícios e virtudes ensinam que a humildade é o
antídoto para a vanglória e a soberba. Santa Teresa afirmava que a
humildade é “andar na verdade”. Essa mesma santa espanhola ajuda-nos a
compreender que a pessoa humilde é aquela que se estima a si mesma de
acordo com a realidade. A pessoa humilde tem uma grande estima de si,
diferentemente de uma pessoa desmoralizada ou alienada; sabe de sua
própria dignidade e se estima em seu valor relacional infinito. Justamente
por estar consciente do caráter relacional dessa dignidade, o humilde se
reconhece na relação com Deus e com os demais, e é por isso que,
diferentemente do soberbo, procura com determinação que suas relações
sejam sempre vitais.
No texto de Chiara Lubich podemos reconhecer a humildade como
consciência do próprio valor, nascido da relação. Na primeira parte – “Senti
que fui criada como um dom para quem me está próximo” – percebemos a
consciência de grandeza em “ser para os demais”. Na segunda parte – “e
quem me está próximo foi criado por Deus como um dom para mim” –
notamos a consciência da necessidade do próximo e, para receber esse dom,
me descentro.
Com palavras de Soloviev, a mentira e o mal que existem na soberba,
vício contrário à virtude da humildade, “não consistem no fato de
determinada pessoa atribuir-se uma importância excessiva e pretenda ter um
valor absoluto e uma dignidade ilimitada, pois nisso ela tem razão (!), haja
vista que todo sujeito humano, como centro autônomo de forças vivas, como
potência de perfeccionismo infinito, como ser que é capaz de conter na
própria consciência e na própria vida a verdade absoluta, tem enquanto tal
um valor e uma dignidade incondicionados, é absolutamente insubstituível e
jamais se pode dar um valor excessivo de si mesmo (Soloviev, op. cit., p.
81).
A atitude irracional soberba consiste em pensar que se possui o valor à
margem da racionalidade.
Muitas vezes, os livros de autoajuda levam-nos a compreender que não
somos o que deveríamos ser e, por isso, somos invadidos pela vergonha.
Paradoxalmente, esses livros, que têm a intenção de devolver o valor
absoluto do nosso ser, obtêm como resultado o efeito contrário. Ficamos
lamentando constantemente nossas ideias irracionais, comportamentos
dependentes, sentimentos inadequados, e não alcançamos a tão sonhada
autoestima. Por que isso acontece? Porque a autoestima não pode ser
desenvolvida com base num doutrinamento voltado para o próprio valor. Se
temos um valor, ele é relacional. Viver no “saudável esquecimento de si”,
abertos à autotranscendência para com Deus, a natureza e nossos
semelhantes, vai nos devolver um valor que nem nós mesmos, ainda que com
a mais insensata soberba, podíamos imaginar. Nossa capacidade de nos
relacionarmos é infinita em possibilidades, e é daí que se torna infinito
nosso valor. Humildade e autoestima – conceito antigo o primeiro e
contemporâneo o segundo – expressam um único conceito, o de nos
valorizarmos com a verdade da relação.
Para encontrarmos o valor de nossas relações, proponho a seguinte
reflexão:
Pensar nas pessoas que amo de acordo com os diferentes tipos de relação (conjugal, filhos,
pais, amigos, colegas de trabalho etc.). Posso me acompanhar das fotografias delas.
Em minhas relações com eles e com cada um…
1) Descubro a essência dessas pessoas, seu caráter únicoe original? Posso ir definindo a
essência de suas pessoas com poucas palavras. Posso repetir essa pergunta à medida que vou
conhecendo cada uma. Uma pessoa permanecerá sempre como um mistério para mim, que
desvelo e que me surpreende a cada encontro.
2) Fazem com que eu descubra algo de mim que eu desconhecia? Expresso isso em poucas
palavras.
3) O que posso pactuar com eles enquanto compromisso comum baseado em ações e
atitudes? Penso no melhor momento para fazer a proposta.
4) O amor me fez sair de minha reclusão. Que egoísmo superei graças a essa pessoa?
5) Líamos no capítulo anterior o que Viktor Frankl escreve em seu livro Homo patiens: “ainda
que pareça paradoxal, as coisas valem para ser sacrificadas. O sentido sacrifical constitui o
verdadeiro valor das coisas. O que, em última instância, determina o preço de uma coisa é seu
possível destino a algo superior”.
Pergunto-me: O que sacrifiquei por essa relação?
6) Proponho-me a comunicar em algum momento essas reflexões às pessoas que amo.
Anexo: O desgaste e a necessidade de uma
liderança responsável
A comunhão de pessoas é organizada e ordenada; isso supõe que as
responsabilidades pela construção do projeto comum sejam distintas. Nesta
sessão queremos tratar da responsabilidade específica dos que coordenam
as tarefas, os chamados chefes. Essa categoria de pessoas está fortemente
vinculada ao burnout, quer como fator de facilitação ou prevenção da
síndrome naqueles com quem eles trabalham, quer como sujeitos vulneráveis
a sofrer dela. Por essa razão, merecem uma atenção especial.
Há muita coisa escrita sobre liderança, e várias teorias foram-se
desenvolvendo nas últimas décadas. Se o antídoto do burnout no ambiente
de trabalho são as relações humanas de comunhão, então é legítima a
pergunta: existem qualidades, virtudes, atitudes, ações e sentimentos
peculiares de uma pessoa que constrói a comunhão ao exercer um papel de
responsabilidade? Em outras palavras, é possível pensar numa liderança que
tenha como objetivo principal construir comunhão e tecer relações positivas
entre as pessoas para que, assim integradas, alcancem metas comuns? Uma
liderança exercida dessa maneira preveniria, sem dúvida, o desgaste
profissional no coordenador e nos que trabalham com ele.
A etimologia do termo leader oferece pistas para compreender essa
realidade. É uma palavra anglo-saxã com duas vertentes: uma latina e outra
original.
A latina vem de lid, que significa “disputa”, “discórdia”. A palavra
“lidar” tem a mesma raiz. O líder peleja com quem não contribui aos
objetivos pré-fixados.
Em inglês, to lead significa “guiar”. É um aspecto do líder: saber aonde
se deve chegar, conhecer o caminho e acompanhar os outros até a meta. Sua
experiência e seu plano de rota oferecem segurança ao grupo.
A raiz latina propõe uma postura ativa, de disputa, de busca de
mudanças. Para que as coisas mudem, sugere a peleja. Tira o que sobra,
corta o que não permite crescimento. Poderíamos dizer que essa acepção de
liderança tem muito do jardineiro que poda, aduba, revolve a terra e arranca
o mato que não colabora com a harmonia do jardim.
A etimologia do termo apresenta dois aspectos que podería mos
descrever com duas imagens: o jardineiro e o guia de excursão. Grandes e
pequenas lideranças são exercidas com uma combinação peculiar de ambos
os elementos. É conveniente ficarmos atentos para o caso de um dos
aspectos predominar. Uma ação forte e contínua de líder jardineiro pode
levar ao personalismo e ao autoritarismo, que geralmente dilui o
protagonismo e a responsabilidade da equipe de trabalho. Os membros da
equipe podem sentir-se, literalmente, como plantas ornamentais no
escritório. Por outro lado, o líder guia, por conhecer de antemão o caminho,
pode desprender-se do grupo e referir-se somente ao seu plano de rota, sem
consultar os membros com quem divide o projeto.
Levados ao extremo, o jardineiro e o guia têm um resultado comum:
diminuem o dinamismo criativo das pessoas que trabalham no setor que
lideram.
Esses modelos, por outro lado, ainda não respondem completamente à
pergunta inicial sobre uma liderança para construir comunhão. Um e outro
apresentam o líder como a referência central ou a mais importante. Já
sabemos que a atitude autorreferencial alimenta a soberba nos líderes.
Pensemos, então, juntos numa liderança para a comunhão.
Todo líder deseja ancorar suas decisões nos valores que escolheu. Na
Antiguidade, os barcos tinham, além das clássicas âncoras, outras
horizontais projetadas para a costa, que fixavam o barco enganchando-o nas
rochas da superfície. A nave permanecia unida à meta que se queria
alcançar, a costa. Algo desse tipo acontece com nossas metas, convicções e
princípios, ancoram-nos para frente.
Tomemos como exemplo de um líder indiscutível, Jesus Cristo, e sua
purificação no deserto. Suas típicas tentações de liderança ajudam em nossa
análise. O tentador apresenta a Jesus, que se prepara para a missão, três
atalhos para evitar o sofrimento da liderança: “manda que estas pedras se
transformem em pão”, “tudo isto te darei se, prostrado, me adorares” e
“atira-te [do alto do Templo] para baixo, porque está escrito: Deus dará
ordem a seus anjos […] e eles te tomarão pelas mãos” (cf. Mt 4,3-90). O
verdadeiro líder supera essas três tentações que, paralelamente às de Jesus,
poderíamos enumerar desta maneira:
1) A “espetacularização” superficial da ajuda.
2) A potência e o controle.
3) A popularidade demagógica.
Esses desejos vivem em nossa alma ao lado de nossa vida consciente.
Hoje os chamaríamos de “sombras”, numa linguagem que vem da psicanálise
junguiana.
A sombra é um conceito elaborado pelo psicanalista Carl Gustav Jung e
significa “o outro lado” da personalidade, o lado escuro e inferior. O autor
descreve-a da seguinte maneira:
“Todo indivíduo é acompanhado por uma sombra, e quanto menos ela
estiver incorporada à sua vida consciente, tanto mais escura e espessa ela se
tornará. Se uma inferioridade é consciente, sempre se tem uma oportunidade
de corrigi-la. […] Se as tendências reprimidas da sombra fossem totalmente
más, não haveria qualquer problema. Mas, de um modo geral, a sombra é
simplesmente vulgar, primitiva, inadequada e incômoda, e não de uma
malignidade absoluta” (Jung, 2011, p. 97). Parecido com o “lado escuro da
força”, para os fãs de Guerra nas estrelas.
Como a sombra se manifesta? Existem vários dinamismos:
a) A projeção, pela qual, às vezes, nos perguntamos: “Por que essa
pessoa me parece tão antipática?” Isso pode acontecer se ela, com suas
características, me representa aspectos odiados e obscuros de minha própria
pessoa. Podemos chegar ao reconhecimento da própria sombra mediante a
análise dessas projeções, o que ainda não significa uma integração.
b) Em casos patológicos, produz-se uma identificação total da pessoa
com sua sombra. A pessoa vive sua sombra mediante perversões ou
depressões clínicas.
c) Pode-se chegar a um ponto avançado de amadurecimento integrando a
sombra. Trata-se da aceitação da parte negativa da personalidade, para que
esta seja assumida como fonte de energia que, em vez de se dispersar na
sombra rejeitada, projetada ou ignorada, canaliza-se para nosso crescimento.
Para Jung, a aceitação da sombra é um passo essencial no processo de
individuação, ao que eu chamaria de personalização.
Nessa linha, líder é alguém que fez as pazes com sua sombra e ajuda o
próximo nessa tarefa. A paz com a sombra gera justiça e verdade. Portanto, o
líder integra, como uma ponte ou como um plano inclinado, instinto e
espírito, consciente e inconsciente, razão e sentimento. O líder não polariza,
mas se aproxima, conecta, integra, harmoniza, une.
Tornar consciente o inconsciente é o que define o trabalho psicanalista,
segundo o pai da psicanálise, Sigmund Freud. Em todo processo essencial de
crescimento de um líder, é necessário autoconhecimento. Trata-se de um
trabalho nunca terminado, sempre por completar. Essa tarefa, entretanto, é
conduzida sem esquecer que a vida exige um olhar aberto para o exterior;a
existência, que é saída de si, não se realiza apenas mergulhando no
inconsciente.
Quais são, então, os elementos que devo tornar conscientes?
Quais os tesouros de minha busca interior?
1) Procuro ter consciência de meus talentos e defeitos como ferramentas de encontro. Por
exemplo, João é gerente de um banco e sabe que sua timidez pode fazê-lo parecer muito frio e
sério. Procura, então, quebrar o gelo com uma piadinha ou comentando alguma novidade do
jornal. Em poucos minutos já se sentirá mais livre para encarar os problemas de trabalho com
os empregados.
2) Encontro meus desejos inconscientes. Miriam, por sua origem humilde, necessita
inconscientemente ter sucesso em tudo o que se propõe a fazer. Percebe que isso a torna
excessivamente ambiciosa e, quando participa de um concurso, diante de uma vaga, seu
estado de ansiedade atinge o limite. Ao saber disso, tenta relativizar o momento.
3) Encontro-me na estrutura de relação inconsciente que herdei do esquema familiar no qual
me criei e que reproduzo no grupo de trabalho. No sistema familiar, cada um ocupa um lugar
mais ou menos fixo (filho mais velho, caçula, filho único etc.) e, muitas vezes, continua
ocupando-o nas relações interpessoais. Para quem quiser se aprofundar no assunto,
recomendo o livro de Grün e Assländer, A arte de ser mestre de si mesmo para ser líder de
pessoas (2008), que contém um capítulo dedicado à estrutura sistêmica familiar paralela aos
sistemas organizacionais das empresas.
O autoconhecimento não é apenas um processo cognitivo, mas integra a
vontade e o desejo aos princípios que nos guiam. Depois de pensar sobre
nossas sombras inconscientes, voltemos às tentações de Jesus.
“Manda que estas pedras se transformem em pão”. A tentação da
superficialidade
Durante sua vida pública, Jesus viverá feitos extraordinários. Por que
não aceitar fazer algo extraordinário no deserto, de acordo com a proposta
do tentador? Simplesmente porque o tentador queria que essa manifestação
de Jesus se desse num contexto acidental, fenomenológico, sem sentido e
sem fundamento. O líder supera a tentação de trabalhar na superfície das
coisas. Realiza isso com um passo existencial que sai da inconstância
própria dos fenômenos, da “frivolidade metafísica”, nas palavras de Karl
Jaspers, para ir à solidez dos fundamentos.
O que isso quer dizer? Em seu livro O oitavo hábito, Steven Covey
utiliza uma citação de Alfred Whitehead, que esclarece e concretiza o que
estamos afirmando: “Há uma diferença entre princípios e estratégias. Em
certo sentido, o saber diminui à medida que a sabedoria aumenta, pois os
detalhes desaparecem em favor dos princípios. Os detalhes do saber, que
são importantes, vão sendo adquiridos ad hoc em cada circunstância da
vida, mas o hábito do emprego ativo dos princípios bem entendidos é a
posse definitiva da sabedoria” (Covey, 2005, p. 331).
O hábito do emprego ativo dos princípios fundamenta a liderança.
Exemplifico com quatro campos em que o passo da superficialidade ao
fundamento se faz necessário. Em cada um deles assinalo uma virtude que
contém a força impulsiva para o salto.
1) Do aparecer ao ser. Atenção para que a substância do que fazemos
resulte no fundamento de sua comunicação, e não o contrário. Conheço
pessoas que escrevem seus relatórios antes de ver os resultados da atividade
realizada. Inclusive científicos! O que “parece”, o que “aparece”, a
“aparência”, “aquilo que será aceito” substancia-se e transforma-se na coisa
em si. Vimos que a verdade é garantida pela humildade.
2) Do urgente ao importante. Tomados pela urgência, descuidamos do
que é importante. De novo Covey: “Estabelecer antes o que vem antes
significa organizar e finalizar as prioridades mais importantes. Seja qual for
a circunstância, implica viver com zelo os princípios mais valorizados e ser
impelido por eles e não pelos assuntos urgentes e as forças que os rodeiam”
(Ibidem, p. 175).
Um ministro da Saúde Pública constrói diferentes tipos de hospitais – de
emergência, para doentes crônicos… – e também elaborar políticas de
prevenção. Nenhum plano de saúde subsiste apenas com hospitais de
emergência. A virtude necessária para isso é a fortaleza, pois é a virtude
que se opõe ao medo e à própria ansiedade de ver tudo resolvido
imediatamente.
3) Da função à pessoa. A palavra pessoa deriva do grego prósopon,
“máscara”, e de ecoar a voz dentro da máscara. Provém da atividade dos
atores no teatro grego, que usavam máscaras, e sua voz ecoava dentro delas.
Em nossos trabalhos, somos pessoas com voz que ecoam nas máscaras dos
papéis que temos e, ao mesmo tempo, pessoas com a voz de nossa unicidade.
Vimos isso na análise existencial do trabalho, proposto pela logoterapia.
O que acontece quando a pessoa é vista unicamente pela função que
desempenha? Ou seja, como máscara e como voz que ecoa na máscara? A
pessoa é assimilada ao papel, à sua máscara, e se encapsula nela. É muito
difícil viver a alternância das lideranças quando as coisas funcionam assim.
A pergunta frente à mudança de funções ou à aposentadoria não é a lógica “o
que vou fazer agora?”, mas “quem sou eu agora?” A diferença é notável;
enquanto a primeira pergunta propõe novas tarefas, a segunda, por não ser
possível responder a ela exaustivamente a partir de uma função, leva ao
desespero.
Trabalhar com a máscara leva-nos a classificar os colaboradores, e isso
pode contaminar o verdadeiro encontro. “É simpática, culta, tem um QI 110”,
ou “é um pouco chato”, “suas ideias são sempre intransigentes”, “é tão
frívolo”, ou ainda, “está deprimido: assim que ele terminar de falar, terei
que ter minha conversinha sobre a importância de prevenir o burnout e
despachá-lo de férias”. Muitas vezes, minha formação, minha cultura, meus
interesses formam preconceitos, que são uma densa neblina no caminho para
o verdadeiro encontro. São as chamadas máscaras culturais ou sociais.
São um sintoma da confusão numa liderança de quem assimila a função
ao ser. A virtude necessária para o salto da função à pessoa é o
desprendimento.
4) Do sentimento arbitrário ao sentimento com lógos (razão). Muitos
líderes “sentem” que certas coisas precisam ser feitas a partir das esferas
intuitivas ou sentimentais. Isso dificulta a verbalização e a conseguinte
comunicação da ideia. Por isso, aquilo que pedem é visto como arbitrário. E
talvez seja mesmo; é difícil fazer comparações quando se trata de
sentimentos. O coração precisa da mente para se expressar. Vimos que
pacificar-nos com nossa sombra leva à virtude da coerência e da
integridade.
Em outras palavras, humildade, fortaleza, desprendimento e integridade,
junto com esforço constante, fundamentam a autoridade do líder. A
etimologia da palavra “autoridade” confirma isso. “Autoridade” significa
“fundamento”, “origem”, “fonte”.
“Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares”. A tentação do poder
como desejo de controle cognitivo e prático (saber tudo, estar em tudo)
Querer saber tudo e estar em tudo provém geralmente de sentimentos de
inferioridade. Vejamos os sintomas na gestão. Um líder que precisa de
controle total divide as pessoas, polariza os grupos e vê a todos fixos em
suas características, sem possibilidades de mudança.
Procura falar com cada subordinado individualmente e, em geral, nessas
conversas privadas, fazem-se referências negativas ao resto da equipe.
Quem sucumbiu à tentação do controle tem que fatiar… “Divide para
reinar”, recita o velho refrão.
Outro meio de reinar é polarizar o grupo apartando-o fanaticamente dos
outros integrantes da empresa. Nós somos os bons e o resto, o inimigo. Essa
manipulação é produzida com uma forte diminuição do senso de realidade. O
objetivo inconsciente é facilitar o controle.
Ver os colaboradores fatalmente imóveis também ajuda a exercer o
controle. Por isso, o líder expressa que os membros de sua equipe são
dominados por seu passado e por seu caráter incorrigível. É outra
manipulação da realidade que permite o controle; é mais fácil intervir no que
é estático.
Trancar-se em seu próprio escritório como computador igualmente
permite ter uma vã ideia de controle. Muitas vezes os chefes temerosos
evitam as dinâmicas próprias das relações flutuantes e surpreendentes,
passando horas em frente ao computador, trancados em seu escritório.
Simone Weil recomendava não exercer todo o poder do qual se dispõe
para poder suportar o vazio (cf. Weil, 2002, p. 23). E propunha imaginar
como seria uma paisagem, o escritório, a fábrica, a própria casa sem nossa
presença (cf. Ibidem, p. 77).
“Atira-te [do alto do Templo] para baixo, porque está escrito: ‘Deus dará
ordem a seus anjos […] e eles te tomarão pelas mãos’”. A tentação do
populismo demagógico
Alguns dirigentes procuram, inconscientemente, diminuir as pessoas que
os imitam para se engrandecerem. O defeito se dissimula rodeando-se de
“anões bajuladores”. Um reitor de universidade que sofria desse problema
não convidava os professores de renome para as cátedras, pois isso
evidenciariam sua incapacidade. Com o passar dos anos, o prestígio dessa
universidade decaiu muito.
O líder que não superou a tentação do populismo vê o grupo como uma
massa, ou seja, como um conjunto de pessoas sem personalidade. A vacina
contra o populismo é a consciência de que a comunidade de trabalho é
constituída de pessoas responsáveis. A responsabilidade não é algo que se
tem muito ou pouco. Não se trata de uma característica estoica ou de uma
autoexigência elevada. Algumas pessoas são estoicas, outras não, mas somos
todos responsáveis. Responsabilidade vem de “responder”. E a capacidade
de responder faz parte da natureza humana. Portanto, deve-se superar a
tentação com a confiança que cada um merece baseada em sua natureza, pela
qual cedo ou tarde responde.
Liderança para a comunhão
Superadas a sombra e as tentações, desenvolvem-se as atitudes próprias
de uma liderança para a comunhão. A partir de minha experiência, indico
algumas características que pude descobrir nos líderes que constroem a
comunhão.
1) Superadas as provas mencionadas, o líder alcança uma honestidade de
fundo que lhe permite um trato fino com as coisas e com as pessoas. Para
isso, aprendeu a renunciar às atitudes, ações, palavras, expressões e aos
hábitos que percebe contrários à verdade. Ele coloca-se em contato com as
pessoas com quem trabalha e se enriquece com a sabedoria dos que estão ao
seu redor. Vida e teoria, metas futuras e vida diária são nele articuladas.
2) A equipe de trabalho vive na dimensão do encontro humano.
Para isso, o líder perdeu a preocupação pelo sucesso de sua gestão. Não
fica obcecado por ser um bom dirigente e, de maneira sadia, esquece-se
também, espero, de tudo o que leu sobre liderança (inclusive estas páginas).
O responsável é, antes de tudo, um semelhante que atua a disponibilidade
humana e a compreensão humana, e só em segundo lugar exerce um papel de
liderança.
Para viver o encontro humano não só precisa “esquecer” as expectativas
que tem com relação ao próprio papel, bem como as com relação a seus
colaboradores. Simone Weil comenta a frase do pai-nosso: “assim como nós
perdoamos aos nossos devedores…” desta forma: “Os homens devem-nos o
que imaginamos que deveriam nos dar. Perdoar essa dívida. Aceitar que as
criaturas são diferentes do que imaginamos é imitar a renúncia de Deus.
Também eu sou diferente do que imagino ser. Saber disso é o perdão”
(Ibidem, p. 21).
3) O líder anuncia o sentido do que se faz e também dá sentido ao
próprio fracasso.
Em O homem sofredor, Frankl afirma que o sofrimento é motivo de
aprendizado. No caminho que o líder percorre com os outros, precisa ter
encontrado o sentido de suas próprias dores e de seus próprios fracassos.
Ele também é homo patiens e sua dor espera ser dotada de sentido para
evitar o desespero. O líder é capaz de sofrer e compreender o sentido que
isso tem.
Frankl, nesse mesmo livro, explica que a capacidade de sofrer não é uma
capacidade inata, mas que se adquire com decisões, com atitudes escolhidas.
O trabalho comum é, então, um lugar privilegiado para esse aprendizado
existencial. Todos, especialmente o líder, em suas horas de trabalho,
resolvendo conflitos interpessoais, institucionais, problemas econômicos e
financeiros, trâmites inúteis, sendo repreendidos muitas vezes injustamente,
respondem com uma boa atitude a essa exigência de sentido.
O dirigente é um homo patiens sujeito ao burnout. Dar sentido ao
sofrimento para superar o desgaste que leva ao desespero é seu grande
desafio. Muitas vezes isso é uma proeza de dimensões maiores do que as
complicadas batalhas financeiras.
4) O dirigente guia porque é, ao mesmo tempo, guiado. Ninguém está tão
no topo da escala hierárquica que não precise de um guia. Talvez eu esteja
sendo lido pelo papa ou pelo presidente dos Estados Unidos. Mas uma
equipe de trabalho ou uma pessoa sábia e de confiança fora do grupo
poderia orientá-los e guiar suas ações. Assim como os psicoterapeutas
precisam de supervisão e se ajudam seguindo conselhos de outros colegas,
os que guiam precisam de alguém que os guie.
Com nossa ênfase posta nas relações de comunhão no trabalho, gostaria
de referir-me a uma prática que, em alguns grupos, é realizada
sistematicamente. Alguns a chamam de “momento da verdade” ou “agir na
verdade”. Consiste essencialmente em dedicar um tempo ao estímulo
recíproco pelo que foi realizado, dando espaço para mostrar também
condutas não colaboradoras.
Os métodos podem ser diferentes, e é correto escolhê-los de acordo com
a personalidade dos participantes. Em geral, dedicam-se cerca de duas horas
mensalmente para que os membros da equipe comuniquem suas vivências
sobre o andamento do trabalho, a relação entre os companheiros e as
virtudes e os defeitos pessoais de cada um que influenciam o ambiente de
trabalho. Em alguns escritórios convida-se uma pessoa com experiência e de
comprovada confiança para coordenar o debate. Recomenda-se que se
julguem, tanto nas críticas quanto nos elogios, condutas e não pessoas. É
diferente dizer “você é um irresponsável” de apontar que “neste mês você
andou chegando seguidamente atrasado, até três vezes por semana”. A
primeira frase é uma crítica à pessoa, dificilmente comprovável; a segunda
expõe uma conduta que o interessado pode explicar e mudar.
Todos saem dessas reuniões liberados e renovados para voltar às tarefas
comuns. O responsável pelo setor beneficia-se especialmente porque, nesse
ambiente e com um coordenador externo, poderá receber elogios e críticas
que o “guiarão” em suas tarefas.
Faço notar que isso pode ser atuado com líderes “integrados às suas
sombras” e, portanto, liberados de possíveis sentimentos de vingança. Se
você assistiu a algum episódio da série House, pôde constatar no
personagem uma liderança que manipula pela informação que possui e que
tenta obsessivamente obter dos outros. É lamentável que se admire, por
conta de uma suposta genialidade, uma liderança dessa natureza. Seria
impróprio e perigoso para a equipe realizar momentos de verdade com essa
classe de conduta patológica.
5) A autoridade do líder que constrói comunhão baseia-se numa vontade
decidida em favor de seus colaboradores, clientes e colegas.
Algumas décadas depois do famoso livro de Erich Fromm A arte de
amar, uma autora cristã, Chiara Lubich, escreveu um livro homônimo
(Lubich, 2006) tendo como única fonte o Evangelho e sua própria
experiência. Nele, a autora destaca que quem vive o amor verdadeiro não
discrimina, ou seja, ama a todos; toma a iniciativa, que significa não espera
ser amado para oferecer amor. Na mesma linha de Fromm, indica que o amor
verdadeiro é concreto, portanto não é feito apenas de palavras ou
sentimentos. Quem vive esse amor vê-se a si mesmo no próximo, assim
como os guaranis chamam de chera’à seus amigos. Finalmente, ela afirma
que o amor evangélico tem a qualidade de fazer florescer o amor mútuo. O
responsável pela comunhão num grupo de trabalho entende que o amor é
completo quando se torna mútuo. E para que se torne mútuo, o líder deve
necessitar e permitir-se ser amado pelos outros. “Pedro, tu meamas?”,
pergunta Jesus ao seu apóstolo. O próprio Cristo quer ser amado. “Ame e
procure fazer-se amar” era o conselho de dom Bosco a seus seguidores,
consciente do valor da reciprocidade.
O livro de Chiara Lubich, escrito de forma ágil e por alguém que chegou
a liderar milhões de pessoas4, é um bom guia para quem deseja exercer uma
liderança que construa a comunhão. Com essa perspectiva, o serviço de
liderança valoriza os colaboradores. Um bom critério para avaliar a própria
liderança é fazer-se a seguinte pergunta: meu serviço engrandece ou diminui
meus colaboradores?
Estamos vivendo num tempo em que as conquistas são resultado de
equipes que trabalham em sinergia. Ou seja, em que o todo é mais do que a
soma das partes, e a relação das partes entre si é o elemento catalisador,
unificador e o mais estimulante da tarefa. Essa sinergia, creio, é a prevenção
mais eficaz da difusão da síndrome do burnout em nossos ambientes de
trabalho.
1 Por exemplo, Evágrio Pôntico, com seus Os oito espíritos da malícia e Os diversos pensamentos
da malícia, e santo Tomás de Aquino, com seu Os vícios capitais.
2 Por exemplo, Galimberti, 2004; Ravasi, 2007 e Savater, 2005.
3 Cristianismo, judaísmo, islamismo, budismo, hinduísmo, confucionismo, jainismo, siquismo, taoísmo,
bahái, zoroastrismo e até nas religiões tradicionais africanas.
4 Chiara Lubich (1920-2008), italiana, fundou e presidiu por décadas um movimento eclesial
internacional, de vasta difusão, o Movimento dos Focolares.
Capítulo 4
UMA CULTURA QUE DESGASTA?
“Os ‘novos vícios’ não são pessoais e sim ‘tendências coletivas’ às quais
o indivíduo não consegue opor uma resistência individual eficaz, sob pena
de ser excluído da sociedade. Então, por que falar deles? Para ao menos
ter consciência deles e não fazer passar por ‘valores da modernidade’
aquilo que são unicamente suas ‘complicações sinistras’.”
Umberto Galimberti
Neste capítulo trataremos da cultura pós-moderna1, considerada um fator
importante no desenvolvimento do que justamente podemos chamar de
epidemia do burnout. Vivemos uma etapa de fortes mudanças culturais,
etapa de crise. Se bem que isso já seja lugar comum, nem por isso é menos
preocupante. Alguns psicólogos não a levam em consideração em sua tarefa
profissional e correm o risco de compreender o burnout de forma tão
parcial que impedem que seja superado. O psicoterapeuta deve estar
preparado para enfrentar um diálogo filosófico com seus pacientes sobre o
tipo de cosmovisão cultural com que enfrentam a vida, verdadeira causa de
boa porcentagem de seus conflitos.
Vimos como o filósofo e psicólogo italiano Galimberti se pergunta sobre
a oportunidade desses temas socioculturais, visto que, tratando-se de
tendências coletivas irrefreáveis, há pouco a fazer. Entretanto, conclui que a
análise é necessária para gerar consciência, e ter consciência é um elemento
básico para forjar uma resistência adequada. Resistir às “complicações
sinistras” da cultura hodierna é outra forma de lutar, talvez a mais
determinante, contra o desgaste profissional.
Falamos de crise. Como esta se manifesta? Como um mal-estar social
que afeta toda a comunidade humana, não apenas indivíduos isolados e muito
menos unicamente os jovens. A causa não é exclusivamente psicológica ou
neuropsicológica. Do que se trata? De uma crise de sentido de dimensões
globais. Afeta todas as regiões do mundo, inclusive as mais protegidas. Um
cacique guarani da província de Misiones, Argentina, preocupado com o
alcoolismo entre os jovens de sua comunidade, concluiu: “Tudo isso é uma
grande crise espiritual”.
Com força profética e um gênero literário apocalíptico, Friedrich
Nietzsche antecipou o momento: “E vi uma grande tristeza descer sobre os
homens. Os melhores deles cansaram-se de suas obras. Proclamou-se uma
doutrina, que uma fé acompanhava: ‘tudo é vazio, tudo é igual, tudo foi’. E lá
dos montes, o eco repetia: ‘Tudo é vazio, tudo é igual, tudo foi!’ Em
verdade, já estamos cansados demais para morrer”. São palavras que
dispensam comentários.
Neste capítulo vamos nos referir a alguns elementos culturais envolvidos
no desgaste dos trabalhadores de nosso tempo: o consumismo, a vivência do
tempo humano fragmentada e o vazio existencial, este último provavelmente
a fonte de todas estas manifestações. Viktor Frankl chamou de neuroses
coletivas essa “loucura do homem” no sentido mais concreto e menos
psiquiátrico que se possa conceber. Terei cuidado, no trato desse tema
fundamental, de não usar tons apocalípticos; a tentação é grande e é muito o
que está em jogo.
1. Consumismo
“Uma humanidade que trata as coisas como descartáveis torna-se também
ela descartável.”
Todos nós temos experiência e, portanto, também uma ideia do fenômeno
do consumismo. Minha “primeira lembrança consumista” é da minha
adolescência. Tinha mais ou menos treze anos quando enlouqueci meus pais,
insistindo obstinadamente que me comprassem calças jeans desbotadas,
naquela época uma grande novidade entre os meninos, e não tê-las queria
dizer estar fora do jogo. Meus pais as compraram, não sem esforços, e, ao
vesti-las, por eu ser de estatura baixa, senti-me ridículo. Fui invadido por
uma grande tristeza e decepção. Mais tarde entendi a experiência: o que eu
havia desejado tanto como necessário para minha identidade, no momento
em que eu o tive, ele demonstrou sua incapacidade de oferecer o que eu
buscava e, como resultado, irrompeu em mim um sentimento de vazio e
decepção. Já adulto, pude viver a mesma experiência com carros, celulares,
computadores etc., e estou tentando evitá-las usando alguns “truques
existenciais” que compartilharei mais adiante.
Consumir coisas faz parte de um processo instintivo natural em todas as
espécies animais. Por nosso específico ser no mundo, em nossa espécie isso
se manifesta como uma escolha pessoal dirigida a um fim. Por isso vale a
pergunta: em que momento o consumismo se torna perverso, ou seja,
irracionalmente não orientado ao fim?
O consumismo é irracional quando se torna uma mentalidade e um estilo
de vida pela qual consideramos que só consumindo de acordo com nossos
desejos teremos garantido um lugar na sociedade, nossa identidade, o
exercício da liberdade e o bem-estar. Como se vê, similar à minha
experiência de adolescente. Portanto, para exercer o consumo são
prioritários a identidade e o livre movimento para as decisões.
No consumismo não atendemos ao “fim” das coisas visto como seu
sentido, e sim ao “fim” como término e destruição. As coisas se tornam
efêmeras; para respeitar a lei econômica do consumo-produção, somos
obrigados a trocá-las reiteradamente e, como consequência, temos de jogá-
las fora. As coisas, então, perdem valor.
Gandhi dizia que no mundo há o suficiente para todos, mas não basta para
a cobiça de uma só pessoa. A primeira parte da frase mostra que, numa
cultura de fraternidade, as coisas se substanciam como valores de troca. As
coisas se valorizam no amor e nas relações e, assim, se tornam prodigiosas,
capazes de saciar a todos. A segunda parte da frase gandhiana mostra a
cultura do consumismo, em que reina a cobiça, na qual as coisas serão
sempre incapazes de saciar a todos. Nem sequer todos os bens do mundo são
capazes de satisfazer a um só homem isolado e autocentrado em seu desejo.
Mas o que nos interessa nessas páginas é relacionar o consumismo com o
burnout. Repetimos que, segundo a logoterapia, essa síndrome está
relacionada com sentimentos de vazio existencial referidos ao sentido do
trabalho que realizamos. Isso leva à despersonalização como forma de
alienação e, portanto, ao desgaste.
Por que o consumismo é um fator agravante nesse processo? No
consumismo, como já notamos, as coisas perdem consistência e, como
consequência, o mundo se torna evanescente.
O trabalhador, por outro lado, encontra uma nova forma de alienação,
não a da teoria marxista, em que o produto realizado é alheio; é aquela outra,
a da vivência pós-moderna, em que os produtos não importam, não valem
nada, serão destruídos em pouco tempo. Maisainda, a despersonalização diz
respeito aos trabalhadores de instituições financeiras, em que a produção é
desmaterializada num mundo virtual. Que difícil encontrar o sentido do
trabalho com essa relação alienada com nosso produto desvalorizado!
Por outro lado, quando se está rodeado de coisas efêmeras e
inconsistentes, perde-se um fator de referência seguro no mundo tangível
para construir uma identidade certa.
Anulada a responsabilidade pelas coisas, recordemos que o consumismo
é também um grave problema ecológico. A liberdade encontra-se frente ao
espaço indefinido do “posso consumir tudo”, no qual não encontra firmeza
num objeto prazeroso de consumo com sentido.
A liberdade de decidir é substituída pela adesão conformista às novas
ofertas do consumo com a obrigatoriedade da compra. Seguir a tendência da
moda, das novas tecnologias, do turismo etc., é uma exigência que fica
difícil deixar de escutar, de tão insistentes e fortes que são suas publicidades
diárias. Como a proposta de compra aponta para nossos desejos legítimos de
felicidade e de amor, de liberdade e autorrealização, gera-se uma confusão
na consciência que decide, porque fantasia e realidade, mundo virtual e
concreto misturam-se continuamente. A linha divisória entre realidade e
imaginação torna-se tênue e porosa. Trabalhamos muito e sem motivação
clara para pagar nossas fantasias de realização e de identidade, que sempre
mudam. Mais um motivo para que o processo de dotação de sentido de nosso
trabalho diminua até parar.
Em síntese, o consumismo corrói grandes porções de nossa consciência
existencial. Perturba a autotranscendência para as coisas, a liberdade, a
responsabilidade e a capacidade de decidir. Assim como a demência, em
que se perdem setores importantes da função cerebral, também o
consumismo é um Alzheimer da existência, que esmaga os organismos
envolvidos na realização do sentido da vida.
Resistir a essa “consequência sinistra” da modernidade significa
educarmo-nos para uma relação com o mundo das coisas de modo consciente
e crítico, livre e responsável na dinâmica relacional com a natureza e com
nossos semelhantes. A seguir, uma ajuda da logoterapia:
Frente a uma decisão de compra, coloquemos em funcionamento todo o motor existencial:
1) O autodistanciamento: separemo-nos da situação e observemo-nos, para assim obter
informação. A maior quantidade de informação possível sobre minha necessidade e a dos
meus familiares, os efeitos dos produtos no sistema ecológico, a ética da produção, o custo e a
qualidade etc. É necessário, útil ou supérfluo?
2) A autotranscendência para compreender o valor da decisão. Que sentido tem esta
compra? De que forma ela se relaciona positivamente comigo mesmo e com meus familiares?
É fonte de solidariedade? Busco uma identidade fictícia mediante esse objeto?
3) A liberdade na decisão. Estou condicionado por fatores publicitários ou de aceitação
social?
4) A responsabilidade na ação. Obviamente, depois de ponderar em profundidade a compra,
decido e ajo. Compro se tiver de comprar e me esqueço de tudo se decidi não fazê-lo. Simples
assim.
2. A temporalidade fragmentada
“… o presente, ainda que custoso, pode ser vivido e aceite, se levar a uma
meta e se pudermos estar seguros desta meta, se esta meta for tão grande
que justifique a canseira do caminho.”
Bento XVI, Spe Salvi, nº 1
A vivência da temporalidade fragmentada é outra consequência dos
valores da modernidade. Nossa vida diária é expressa em constante
referência ao tempo: calendários, relógios, agendas; “outros tempos” são
lembrados e planeja-se o futuro. Há um paradoxo: ao lado da percepção de
domínio que temos sobre o tempo, nós o vivenciamos como enigmático e
escorregadio. Já dizia santo Agostinho: “O que é, pois, o tempo? Se ninguém
me pergunta, sei o que é; mas se quero explicá-lo a quem me pergunta, não
sei” (Confissões, XI, 22, 28).
“Estou apressado”, “o dia passou voando”, “as últimas horas no trabalho
pareciam eternas” são expressões frequentes, que indicam que o tempo não é
uma linha reta de duração constante em nossas vidas. Em nossa existência, o
tempo se dilui. No fundo, a vida, a alma e o tempo são conceitos que se
entrelaçam reciprocamente. Santo Agostinho conclui que o tempo é uma
distensão, uma expansão da alma. Dizia o bispo de Hipona: “Pelo que,
pareceu-me que o tempo não é outra coisa senão distensão2; mas de que
coisa o seja, ignoro. Seria para admirar que não fosse a da própria alma”
(Confissões, XI 26, 33). De acordo com santo Agostinho, nosso espírito se
dilata no presente, no passado e no futuro.
Nesta seção, queremos perguntar se a forma de viver o tempo do homem
moderno colabora para o desgaste profissional. Como o homem da pós-
modernidade vivencia o tempo? Que relação há entre a vivência coletiva de
um tempo frenético e o burnout?
Viktor Frankl tratou da fenomenologia do tempo humano e sua
psicopatologia. Encontramos um bom resumo de seu pensamento sobre o
tema numa conferência que apresentou em Innsbruck, Áustria, em 1947 (cf.
Frankl, 1992a). Nela, Frankl propõe fundamentar a certeza do sentido da
vida no tempo passado, que ele vê como eterno, incancelável e, portanto,
não transitório. Nesse passado, ficam registradas nossas escolhas de sentido,
na ação, na contemplação ou no sofrimento vivido com atitude digna. Para
explicar, ele emprega uma imagem muito representativa: a ampulheta, onde a
areia que caiu na parte inferior ficará ali para sempre, à diferença da areia
da parte superior, que poderá cair ou não. Essa solidez do passado em
comparação com o futuro reflete o que Frankl chama de “otimismo do
passado”. O mestre costumava dizer: “ter sido é a maneira mais segura de
ser”. Com base nisso afirmava que a precariedade da existência, mesmo a
própria morte, não lhe tira sentido à vida. Essa visão permite dar sentido à
vida, inclusive daquelas pessoas que a estão concluindo ou dos que a deixam
ainda jovens. Apesar da transitoriedade e precariedade que a morte iminente
dá à vida, a evocação dos momentos de plenitude do passado oferece a esses
pacientes certeza de sentido, gratidão e serenidade.
Viver criando no presente uma história eterna, abertos a um futuro rico de
possibilidades é uma forma sábia de viver o tempo. Mas vejamos, sem
pretendermos ser exaustivos, alguns elementos característicos da vivência
do tempo em nossa cultura pós-moderna (cf. Molenat, 2004, p. 38):
1) O interesse dos homens da cultura pós-moderna está focado no tempo
instantâneo; vive-se no imediato. O flash intermitente numa discoteca é uma
imagem representativa. É possível relacionar essa vivência temporal com o
consumismo, que analisamos anteriormente. A virtude já não consiste num
hábito, como era para os antigos, e sim na capacidade de mudança e
adaptação a um tempo mutável e precário. Não existem empregos estáveis.
Tampouco se pode assegurar que um jovem trabalhará por toda a sua vida no
mesmo tipo de trabalho para o qual se preparou. A precariedade domina o
mundo do trabalho.
2) Existe uma nova vivência do tempo e das idades de nosso corpo. Não
podemos evitar a morte, mas podemos afastá-la seguindo os conselhos
médicos que nos propõem viver mais, desde que não fumemos, façamos
atividades físicas, mantenhamos o colesterol numa boa faixa e comamos
fibras. Sabemos que temos certo controle sobre nosso estado “juvenil”
graças a uma nova especialidade, audaciosamente chamada de “medicina
anti-idade”. As consequências do fenômeno, do ponto de vista ético e das
escolhas de vida, são importantes. As escolhas fortes e irrevogáveis
(vocação, profissão, estilo de vida, casamento etc.) evaporam-se nas
infinitas possibilidades de um eterno recomeço na juventude. Nas relações
de trabalho, a atualização de uma eterna juventude aumenta a
competitividade intergeracional e perde-se o valor agregado da
complementaridade. Os especialistas maduros perdem o interesse pelos
jovens, e os jovens, que se sentem paradoxalmente com menos tempo,
trabalham freneticamente para substituir os “velhos”. A ajuda
intergeracional, ótimo recursona prevenção do burnout nos ambientes de
trabalho, empobrece-se.
3) Outro fenômeno. Já nos sentimos escravos do tempo, cujo poder era
antigamente representado pelo apito da fábrica ou pelo sino da igreja.
Nossos horários de trabalho tendem a se flexibilizar. O pretendido domínio
do tempo leva o homem contemporâneo a violentá-lo para se aproveitar dele
ao máximo. Essa liberdade gera, paradoxalmente, uma nova escravidão,
sustentada por um sentimento obsessivo de culpa quando o tempo não é
aproveitado em todas as suas possibilidades. Em nossas agendas não há
lugar para um momento de ócio. Lembro que ócio é a palavra grega que dá
origem ao termo escola. Para Aristóteles há uma relação hierárquica entre
descanso, trabalho e ócio. O descanso está em função do trabalho e o
trabalho em função do ócio, que, afinal, é para o filósofo o mais importante.
Segundo seu parecer, o ócio consistia em algo como o “cultivo do espírito”.
Assim, se Aristóteles visse algumas de nossas agendas, ficaria muito
surpreso e se perguntaria: Para que essas pessoas trabalham tanto?
4) Como consequência disso, o homem pós-moderno esqueceu-se da
virtude clássica da prudência e da medida certa do tempo, sentindo-se à
vontade com o excesso. Toxicodependência, esportes de alto risco, bulimia e
anorexia nervosa, ativismo e dependência do trabalho são alguns sintomas
clínicos dessa tendência. Tais excessos são motivados pelo desejo de
“aproveitar ao máximo” o tempo e o que ele pode dar.
Vivência temporal pós-moderna:
1) Tempo imediato.
2) Tempo sempre jovem.
3) Tempo sem ócio.
4) Tempo usado em excesso.
Em resumo, essa tendência coletiva de dividir o tempo em parcelas
mínimas e vivê-lo intensamente e desconexo da experiên cia passada e com
as expectativas futuras, sem dúvida, colabora com essa cultura de duas
caras: o frenético ativismo, de um lado, e a depressão e o burnout, de outro.
A fragmentação da vivência temporal impede também encadear os
tempos vividos para construir uma história, completa ou parcial. Viver num
presente descolado do passado e do futuro não entretece a identidade do ter
sido que, para Frankl, é uma maneira segura de ser. Para além da construção
temporal, as histórias fortalecem-se no relato comunitário.
A fast life de nossas cidades ocidentais – e não apenas nelas –,
caracterizadas pelo ativismo frenético e vazio, impõe uma dificuldade
posterior na narração de uma história: não dispomos de tempos comuns. A
flexibilidade do trabalho abrevia o tempo do estar juntos no contexto
familiar. Em qualquer família, alguém trabalha aos domingos ou de noite, ou
muda de turno semanalmente, ou viaja – os da capital para o interior e os do
interior para a capital. Se somarmos a isso as horas empregadas no
deslocamento para o trabalho, que em grandes cidades não são poucas, o
tempo comum familiar torna-se ínfimo. O relato e a relação diluem-se
paralelamente.
Como resistir às “complicações sinistras” da fragmentação temporal?
Podemos percorrer dois caminhos:
1) Viver o presente de forma criativa, conectados ao passado de nossa realidade histórica e
abertos ao futuro como tempo de esperança e de sentido.
2) Proteger o tempo do encontro e do relato. Contemos nossas histórias, nossos “causos”,
escutemos todas as histórias possíveis; trata-se de uma forma sublime de encontro no tempo
presente e graças ao tempo vivido. Esses momentos de relato comum infundem esperança à
visão futura. Se nos saímos bem no passado, confiamos que repetiremos a façanha no futuro.
3. As neuroses coletivas
“O meu coração está firme, ó Deus. […] eu vou despertar a aurora!”
Salmo 108
O que têm em comum as “complicações sinistras” de uma cultura que
perde o sentido das coisas com o consumismo e o tempo fragmentado?
Poderíamos acrescentar à lista das complicações sinistras as dependências
afetivas e ao trabalho, o alcoolismo, os transtornos alimentares e o clima de
violência familiar e social? O reaparecimento de uma fé reprimida mediante
a superstição e os gurus pseudocientíficos em busca de adeptos? O que há
por trás desses fenômenos?
O denominador comum é que todos os elementos podem ser interpretados
como a fuga para nos distanciarmos da angústia e do mal-estar provocado
pelo que Viktor Frankl chamou de vazio existencial. Ou, no melhor dos
casos, trata-se da busca, por diferentes caminhos, de sedar esse sofrimento.
São os mecanismos de defesa com os quais pretendemos “preencher” o
vazio existencial.
Como o definimos? Trata-se de um vazio interior que se abre frente à
constatação, consciente ou não, de nossa existência carecer de meta e
sentido. Observa-se o absurdo da própria existência produzido pela perda
do horizonte de valores e objetivos. Esse fenômeno é vivido pela maioria
das pessoas de forma latente, ou seja, não consciente. O alcoólatra acha que
é apenas um viciado e se envergonha; o dependente afetivo acredita que é
simplesmente um apaixonado; e o violento da torcida organizada sente
somente a necessidade de desafogar as múltiplas injustiças recebidas. O
vazio existencial é sofrido conscientemente por poucas pessoas; a maioria
manifesta-o por meio de sintomas colaterais, como os descritos acima. Uma
minoria, a qual eu chamaria de “os sumamente bons”, enfrenta-os sem
atalhos, enganos e ilusões. Trata-se de um vazio existencial doente, do qual
falaremos adiante.
As várias manifestações psicopatológicas de massa do vazio existencial
compõem o que Frankl chamou de neurose coletiva, por seu caráter
universal. Segundo esse autor, as neuroses coletivas manifestam-se com
quatro atitudes existenciais desajustadas, próprias da modernidade:
1) A atitude provisional frente à vida, sobre a qual nos detivemos
quando falamos do tempo fragmentado.
2) A atitude fatalista, que também vimos fazer parte da síndrome do
burnout.
3) O pensamento coletivista, que deixamos a Frankl descrever: “Se o
homem, no sentido dessas duas atitudes existenciais – a provisional e a
fatalista –, deixa de captar a situação, veremos que os outros dois sintomas
de uma patologia do espírito da época, o homem é capaz apenas de captar a
pessoa, ou seja, captar-se a si mesmo e aos demais enquanto pessoas. O
homem de hoje desejaria desaparecer em meio à massa; na verdade, o
homem desaparece na massa, renuncia a si para entregar-se a ela, renuncia a
si como ser livre e responsável” (Frankl, 1992b, p. 196).
4) O fanatismo. “O indivíduo que adota uma atitude coletiva omite sua
própria personalidade. Mas o fanático omite a personalidade do outro, de
quem pensa de maneira diferente. Não lhe concede beligerância; para ele, a
única coisa que importa é a própria opinião” (Ibidem).
Essas quatro atitudes da neurose coletiva representam o medo da
liberdade e a fuga da responsabilidade que, na proposta frankliana,
significam a perda do contato da pessoa com o ser espiritual próprio e o dos
outros.
No chamado mal-estar juvenil, a frustração existencial manifesta-se de
três maneiras: dependência de substâncias, violência e suicídio. Numa
conferência em Santiago do Chile, Frankl descreveu as circunstâncias em
que esses sintomas se evidenciam e reagrupou-os no que chamou de
síndrome do taxista:
“Certa vez convidaram-me numa universidade em Atlanta, Geórgia, para
uma conferência com o título: ‘A nova geração está louca?’ Tomei um táxi
para ir à universidade, e o motorista me perguntou para que eu ia ali. ‘Acabo
de chegar de Viena e tenho uma conferência a proferir’. ‘Sobre o que será
sua conferência?’ ‘A nova geração está louca?’, respondi. Ele riu, e eu lhe
propus: ‘Eu me encarrego do táxi e você da conferência’. Ele reagiu: ‘Sim,
poderia ser’. Então lhe perguntei: ‘Diga-me uma coisa: a nova geração está
louca?’ ‘Claro!’ ‘Por quê?’ ‘Porque se suicidam, matam-se uns aos outros e,
em terceiro lugar, consomem drogas’. Numa só frase ele tinha resumido a
neurose coletiva do momento: a depressão, a agressão e as drogas. Descobri
que a verdadeira origem de tudo isso é uma sensação de carência de sentido.
As pessoas recorrem às drogas, suicidam-se e cometem crimes. Não
pretendo dizer quetodos os casos de suicídio ou tentativas de tirar a própria
vida se devam a uma carência de sentido; mas sei efetivamente que, se
alguém precisa enfrentar dificuldades, conflitos familiares, desemprego ou
qualquer crise na vida, corre o risco de se suicidar se não tiver um
argumento para seguir adiante. Ao considerar o suicídio, em última análise a
pessoa se diz: ‘Por que não? Nada impede isso’. Entretanto, se houver um
sentido e se sentir responsável, preferirá seguir adiante” (Frankl, 1991).
Quero acrescentar à psicopatologia do tempo moderno, descrita por
Frankl, uma consequência direta do vazio existencial: a solidão improdutiva
e não desejada. No verão de 2003, uma onda de calor atingiu a Europa. Foi
um fenômeno que desencadeou uma emergência de saúde; muitas pessoas das
populações fragilizadas, como idosos e doentes, morreram de desidratação.
O fenômeno manifestou-se com força na França, onde centenas de idosos
mortos terminaram em necrotérios dos hospitais à espera de algum parente
que os identificasse e sepultasse. Mas os familiares estavam de férias. O
presidente Chirac, de volta de seu veraneio, condenou a falta de
solidariedade intergeracional da população francesa. O fato mostra, sem
disfarces, esse espinho social, a solidão e o isolamento, que não se dá
apenas com os idosos, mas também ao longo de todas as fases da vida, com
diversos matizes. Um espinho encravado na carne de nossa sociedade. Maria
Zambrano fala de uma solidão sem descanso, inquieta, confusa e
desamparada (cf. Zambrano, 2005), e chega a dizer: “estamos tão sozinhos
porque estamos terrivelmente inquietos e turvos”.
Sentimo-nos sozinhos: esse é o grande sintoma do vazio existencial,
revelando que a despersonalização própria do coletivismo ou do
individualismo, os tempos fragmentados da existência e o consumismo
pisoteiam a maior riqueza que temos, as relações interpessoais. O vazio é
um vazio de outros; a alma está despovoada de amigos, amores e afetos.
Uma lei da física diz que todo vazio tende a ser preenchido. Mas atenção,
já vimos que se pode preenchê-lo com dependências, mentiras e ilusões. O
que devemos fazer diante da dilatação do vazio existencial? Heidegger
alertava que já não é possível vencê-lo. Resta-nos olhá-lo nos olhos,
suportá-lo de pé ante a perda até que o que se propõe a preenchê-lo seja
digno de nosso ser pessoa na relação. A metáfora da luz faz pensar no vazio
como escuridão, noite. Os místicos do Século de Ouro espanhol chamavam-
no de noite escura. O homem orante do Salmo 108 propõe-nos ter um
coração firme durante a noite, com a intensão de despertar o amanhecer.
Mas o burnout visto como forma de crise espiritual será o tema de nosso
último capítulo.
1 A pós-modernidade indica, na reflexão sociológica, a condição peculiar em que se encontra a cultura
contemporânea a partir dos anos 1970, como consequência de transformações profundas e
irreversíveis em vários setores da sociedade. A visão sociológica destaca a presença de múltiplos
jogos linguísticos alternativos e incomensuráveis, cada um capaz de garantir internamente as
condições de sua própria interpretação, mas nenhum capaz de reivindicar um horizonte universal
característico da sociedade moderna (por exemplo, o iluminismo, o idealismo, o marxismo, o
capitalismo). Viktor Frankl intui e explica que o homem teve de pagar em dobro o tributo para ser
civilizado: “No início da história, o ser humano foi perdendo alguns dos instintos animais básicos que
regulam o comportamento do animal e asseguram sua existência. Tal segurança, assim como o
paraíso, está cerrada ao ser humano para todo o sempre. Ele precisa fazer opções. Acrescesse ainda
que o ser humano sofreu mais outra perda em seu desenvolvimento mais recente. As tradições, que
serviam de apoio para seu comportamento, atualmente vêm diminuindo com grande rapidez [a queda
dos grandes relatos, segundo os teóricos da pós-modernidade]. Nenhum extinto lhe diz o que deve
fazer e não há tradição que lhe diga o que ele deveria fazer; às vezes, ele não sabe sequer o que
deseja fazer. Em vez disso, ele deseja fazer o que os outros fazem (conformismo), ou ele faz o que
outras pessoas querem que ele faça (totalitarismo)” (Frankl, 2011, p. 131).
2 Distentionem significa, etimologicamente: “estender em sentidos opostos”. Portanto, para Agostinho,
a distensão da alma seria uma expansão de si em espera, atenção e memória.
Capítulo 5
A CURA DA ALMA “DESGASTADA”
“Os apóstolos se reuniram junto de Jesus e lhe contaram tudo o que
tinham feito e ensinado. Ele disse-lhes: “Vinde, a sós, para um lugar
deserto, e descansai um pouco!” Havia, de fato, tanta gente chegando e
saindo, que não tinham nem tempo para comer. Foram, então, de barco,
para um lugar deserto, a sós.” 
Evangelho de Marcos
1. A saída espiritual
“Numa época como a nossa, em que a desgraça paira sobre todos, o
serviço às almas não é eficaz, mas prepara-as realmente para a desgraça.
O que não é pouco”.
Simone Weil
Simone Weil (1909–1943), filósofa francesa, foi uma das pensadoras
mais lúcidas do século passado. Pensava que uma pessoa era completa se
pudesse trabalhar de forma manual e intelectual ao mesmo tempo, e como
não concebia não transformar em vida o que pensava, deixou o ensinamento
da filosofia e passou a trabalhar como operária na fábrica da Renault.
Trabalhou também na colheita nos vinhedos de Marselha. Nessas experiên‐ 
cias, com sua radical empatia, dividiu o sofrimento dos trabalhadores
agrícolas e metalúrgicos. Diria mais tarde: “Ali recebi para sempre a marca
da escravidão como a marca de ferro incandescente que os romanos
imprimiam na testa de seus escravos mais desvalorizados. Depois me
considerei sempre como uma escrava”.
Durante a Semana Santa de 1938, viveu uma experiência mística, original
e breve, de diálogo com Cristo, que fundamentaria sua teologia. Weil faria
do sofrimento humano o núcleo de sua teologia. Ela via em Cristo o sinal
autêntico de uma religião: um Deus à imagem e semelhança da condição
humana. Em sua antropologia religiosa, o sofrimento marca audazmente a
superioridade do homem sobre Deus, e ela acreditava que foi necessária a
encarnação para que essa superioridade não resultasse escandalosa. Sua
aproximação do catolicismo se deu mediante a amizade com alguns
sacerdotes, mas não chegaria ao batismo; mais uma vez ela escolheu a
vereda do deserdado: “Fico ao lado de todos aqueles que não podem entrar
na Igreja”.
Em seu ensaio O amor de Deus e a desgraça, descrevia com especial
profundidade seu pensamento. Estou convencido de que essa desgraça
weiliana, essa marca de escravidão, aporta uma descrição do burnout como
experiência espiritual.
Explico-me. O burnout é a perda da valorização da pessoa junto com sua
tarefa alcançando o vazio existencial, como já analisamos. A perda de um
sentido relativo ao imediato, à pessoa e à tarefa vão unindo elos em direção
a dimensões de sentidos mais transcendentais, até alcançar o que chamamos
de o último sentido, que fundamenta todo o sentido particular. É requerido
um valor máximo como pressuposto de toda valoração. Diz Frankl:
“Somente a partir de um valor absoluto, a partir de uma pessoa
absolutamente valiosa, pressupomos sempre o árbitro divino” (Frankl, 2006,
p. 281). Portanto, a perda de sentido na pessoa e em sua tarefa reflete a
perda inconsciente do valor absoluto; manifesta, em última instância, a
ausência da percepção de Deus na alma. Seguindo esse raciocínio, nas raízes
do burnout haveria uma percepção apagada de Deus.
No citado ensaio, Simone Weil escreve: “A desgraça faz com que Deus
esteja ausente durante um tempo, mais ausente do que um morto, mais ausente
do que a luz numa masmorra escura. Uma espécie de horror inunda toda a
alma, e durante essa ausência não há nada para amar” (Weil, 1993, p. 77).
Trata-se de uma extraordinária definição mística do vazio “existencial
doente” que mencionamos no capítulo anterior.
Além disso, a autora francesa indica como proceder para que a alma não
morra na masmorra da ausência do sentido último, nolugar onde nada tem
importância e dignidade para merecer ser apreciado e amado. Weil afirma
que o desgraçado, mesmo sem forças voluntárias, deve seguir orientado ao
amor. Sigamos seu raciocínio:
“E o mais terrível é que, se nessas trevas onde não há nada para amar, a
alma deixar de amar, a ausência de Deus torna-se definitiva. É preciso que a
alma continue amando no vazio ou que, ao menos, deseje amar, ainda que
seja com uma parte infinitesimal de si mesma. Então Deus virá um dia para
mostrar-se a ela e revelar a beleza do mundo, como ocorreu no caso de Jó.
Mas se a alma deixar de amar, cairá em algo muito semelhante ao inferno”
(Ibidem).
Esse texto de Weil deixa ensinamentos excepcionais para acompanhar
espiritualmente as pessoas “queimadas” e distancia-nos de um perigo que se
observa em quem recebe a logoterapia com superficialidade. O perigo de
querer preencher o vazio com a força da própria vontade. A Transcendência,
Deus, externo ao vazio do homem, tem a vontade de preenchê-lo. Resta como
responsabilidade humana amar, ainda que seja apenas a partir de um desejo
doentio, e esperar que Deus se mostre um dia. Nesse sentido, Weil pensa que
o Cristo crucificado é exemplo de quem se vê diante de um vazio infinito e
está à espera que o preencha quem corresponde: o Pai. Longe Dele as falsas
ilusões e as mentiras que funcionam como escapatórias e mascaram o
dramatismo que o vazio implica.
Encontrar e compreender esses textos foi uma das maiores experiências
intelectuais que fiz na vida. Havia trabalhado já havia mais de uma década
como psiquiatra e começava a sofrer os primeiros sintomas do meu burnout.
Portanto, essas palavras foram iluminadoras num período dominado pela
sobrecarga de trabalho e conflitos relacionais, que me desgastavam.
Agradeço que esse texto tenha “caído” em minhas mãos naquele momento
oportuno e ofereço-o como ajuda aos outros na espera, orientada justamente
para o sentido, evitando o voluntarismo e compreendendo que o amor chega
à totalidade, mesmo que se viva sozinho como um indício de desejo.
2. O segredo de padre Vilson
Pude transcorrer uns dias com padre Vilson, brasileiro, pároco “da
libertação”, comprometido com as Comunidades Eclesiais de Base. Nos
anos 1960, sob olhares suspeitos de autoridades civis e eclesiásticas,
acompanhou a ocupação dos morros de Florianópolis por parte dos
trabalhadores rurais sem-terra. Assim nasceram as favelas, assentamentos
precários que rodeiam a cidade turística. Meu amigo Vilson trabalhou
durante longos anos na urbanização e organização social dos assentamentos
com suas escolas, seus centros de saúde, suas capelas e organizações de
bairros. Ele continua vivendo e trabalhando hoje nas favelas de
Florianópolis, supervisionando cerca de sessenta obras de promoção
humana, vários projetos e atividades: casas para acolher crianças vítimas de
abusos, diversos programas educativos para adolescentes violentos retirados
dos cartéis das drogas, centros de saúde, escolas etc. Padre Vilson é também
pároco do lugar e assiste com disponibilidade às necessidades espirituais
das pessoas; além disso, foi encarregado pelo bispo do cuidado com o bem-
estar físico e espiritual dos sacerdotes da diocese.
Os que trabalham com ele descrevem-no como um “trator”, que tem sua
fé no coração e na mente, mas principalmente em suas mãos e em seus pés,
sempre caminhando. Uma vez que entendeu o que deve fazer, padre Vilson
não duvida nem especula, faz.
Passamos esses dias na pequena, mas acolhedora, casa da favela, de
cerca de quarenta metros quadrados no total, repartidos em dois andares,
para poder adaptar-se à geografia do morro. Padre Vilson não hesitou
deixar-me sua cama para minha estada e, sendo um bom gourmet, preparou
ele mesmo a comida para mim e para outro hóspede que aproveitava sua
hospitalidade naquela ocasião, um sacerdote italiano. A porta sempre aberta
dava para um beco da favela, e constantemente passavam pessoas para vê-
lo, pessoas do lugar e também do mundo acadêmico, empresarial e político,
interessadas em seu trabalho. Ele sente que sua missão é viver ao pé da letra
o evangelho do Juízo Universal de Mateus 25,35: “Pois tive fome e me
destes de comer. Tive sede e me destes de beber”.
Obviamente, uma pessoa assim provocou minha curiosidade científica:
Por que ele não perdeu seu entusiasmo inicial? Por que não havia sinais de
burnout ou ao menos de pré-burnout? Qual era o seu segredo? Contei-lhe do
projeto deste livro e pedi sua colaboração. Solicitei que me dissesse
espontaneamente, em breves palavras, três razões pelas quais trabalhava
tanto e não se cansava.
Imediatamente ele me esclareceu que se tratava de uma razão mística, ou
seja, misteriosa e espiritual, e, portanto, difícil de ser traduzida em palavras;
mas acatando o pedido esboçou as principais razões pelas quais acreditava
manter-se longe do esgotamento, resumindo-as em três frases.
Disse-me: “Primeiro vivo um dia de cada vez; segundo, de manhã,
durante a oração, coloco-me de acordo com Jesus para que todas as
dificuldades e sofrimentos que viver naquele dia sejam uma oportunidade
para uma relação direta com Ele. Ou seja, os obstáculos me recordarão, no
sentido mais pleno do termo (recordar significa “voltar ao coração”), sua
experiência de cruz e abandono. Por fim, tenho uma organização
descentralizada, tenho muitos e variados colaboradores que se foram
formando na tarefa comum. Confio nas pessoas que exercem liderança nas
várias áreas de atuação”. Pude comprovar essa última frase no momento em
que falávamos. Padre Vilson recebeu várias ligações em seu celular. Todas
com pedidos referentes aos seus diversos projetos e obras. Suas respostas
foram breves; apenas indicava a pessoa incumbida pela área em questão e
seu número de celular. Quando desligava, não parecia ficar preocupado com
a tarefa delegada e continuava vivendo livremente o que estava fazendo
antes da ligação – naquela manhã, responder às minhas perguntas.
O segredo de padre Vilson:
Viver um dia de cada vez.
De manhã, combinar com Jesus crucificado para descobri-lo nos obstáculos que aparecerão
no dia.
Descentralizar.
3. Mensagens de um sobrevivente dos campos de
concentração para se sobrepor ao burnout
“O essencial da vida é a fidelidade ao que alguém crê, seu destino, que se
revela nesses momentos decisivos, esses cruzamentos de caminhos que são
difíceis de suportar, mas nos abrem às grandes opções. Unidos na entrega
aos demais e no desejo absoluto de um mundo mais humano, resistamos.
Isso bastará para esperar pelo que a vida nos depara.”
Ernesto Sábato, A resistência
No Capítulo 2 deste livro apresentamos a logoterapia e a pessoa de seu
criador, Viktor Frankl. Também fizemos referência a seu livro
autobiográfico, Em busca de sentido. O relato de seu cativeiro nos campos
de concentração nazistas tem o valor comum a toda autobiografia, o valor de
ser um testemunho. Se, além disso, o escritor possui uma boa moral provada,
como Frankl, o testemunho torna-se incontestável. Por tudo isso, o leitor
recordará que afirmei que esse livro tem profundas analogias com o clássico
universal de santo Agostinho, As confissões.
Viktor Frankl alerta no prólogo que não pretende relatar as
monstruosidades cometidas nos campos de concentração, porque já havia
naquele momento muitos trabalhos a respeito. Sua intenção era descrever “a
lista interminável dos contínuos tormentos diários”. Em outras palavras, o
dia a dia do prisioneiro médio. Deixava de lado também as canalhices e os
atos heroicos, para falar do homem comum que enfrenta a prova semelhante
de sobrevivência.
Há algo universal no sofrimento que faz com que, quem é afetado por ele,
se veja numa comunicação profunda para além das variadas causas dos
padecimentos físicos, morais ou espirituais. É por isso que o livro de Frankl
levou consolo ao longo dos anos a inumeráveis pessoas sofridas. E em
muitos provocou uma mudança de atitude: deixaram de se sentir vítimas para
se transformarem em promotores dos direitos humanos mediante o relato da
experiência. No arquivoda casa de Frankl, em Viena, dezenas de milhares
de cartas dirigidas ao professor atestam a gratidão dessas pessoas. Evitando
fazer comparações, que não cabem diante da realidade atroz dos campos de
extermínio nazistas, perguntei-me se as observações de Frankl e suas
investigações sobre o prisioneiro comum poderiam ser úteis a pessoas
desgastadas pelo burnout. Não pude deixar de responder afirmativamente.
As palavras de Frankl enviam uma mensagem de esperança e um método
terapêutico. São uma ponte entre os atormentados prisioneiros do Lager e os
“queimados” desse século. Suas palavras são bálsamo para essas modernas
“queimaduras”. Uma verdadeira terapia espiritual.
Embora eu continue convidando o leitor a acessar toda a obra a que me
refiro, proporei algumas pérolas de sabedoria do cofre da vivência do
prisioneiro nº 119 104. Cada passagem será seguida de um princípio
aplicável à prevenção do burnout que, espero, ficará ancorado em nossa
memória graças à força do testemunho de Frankl. Os textos foram escolhidos
em função de sua utilidade terapêutica para o burnout. Guardo a esperança
de que o leitor, estimulado por essas breves pinceladas, se disponha a ler
todo o relato. Vamos aos textos.
Nos primeiros dias no campo, Frankl estuda as reações iniciais. Entre
elas, depara com uma especial curiosidade:
“Estávamos curiosos por saber o que aconteceria agora e quais seriam as
consequências. Por exemplo, as consequências de se ficar completamente nu
e molhado ao ar livre no frio do outono avançado. Nos dias seguintes, a
curiosidade cedeu lugar à surpresa; surpresa, por exemplo, de não se pegar
um resfriado!
São muitas as surpresas triviais que ainda aguardam o prisioneiro recém-
chegado. Quem é ligado à medicina aprende, sobretudo, uma coisa: os
compêndios mentem! Em algum livro de estudo constava que a pessoa não
consegue aguentar mais do que determinado número de horas sem dormir.
Trata-se de uma concepção totalmente errada. Eu mesmo tinha a convicção
de que havia certas coisas que eu simplesmente não conseguia fazer ou
deixar de fazer. Não poderia dormir ‘caso não…’ Não conseguia viver
‘sem…’ Na primeira noite em Auschwitz, dormi em beliches de três
andares, e em cada andar (medindo mais ou menos 2x2,5m) dormiram nove
pessoas, em cima de tábua nua; para cobrir-se, havia dois cobertores para
cada andar, isto é, para nove pessoas. Naturalmente só podíamos nos deitar
de lado, apertados e forçados um contra o outro, o que, por outro lado, face
ao frio reinante no barracão sem calefação, não deixava de ter suas
vantagens. Não era permitido levar sapatos para os beliches. Em grave
infração do código, um ou outro os usava a guisa de travesseiro, mesmo
estando completamente enlameados. No mais, nada nos restava senão apoiar
a cabeça sobre o braço esticado para cima, mesmo que quase o
destroncasse. Mas o sono leva consigo o estado consciente, eliminando
também o dolorido da posição.
Outras coisas surpreendentes que se consegue fazer: passar meses ou
anos no campo de concentração sem escovar os dentes e, mesmo assim, ter
uma gengiva em estado melhor do que em épocas de alimentação mais sadia,
apesar da considerável deficiência de vitaminas. Ou usar a mesma camisa
durante metade de um ano, até ela ficar completamente irreconhecível; não
poder lavar-se de forma alguma durante dias, nem parcialmente, por estar
congelada a água nos canos do lavatório; não ficar com pus nas mãos feridas
e sujas de trabalhar na terra (claro, enquanto não houvesse sintomas de
congelamento). Uma pessoa de sono leve, que costumava acordar com o
menor ruído no quarto ao lado, aperta-se agora contra um companheiro que
ronca a plenos pulmões a poucos centímetros de seu ouvido e consegue cair
em sono profundo logo depois de se deitar. Então nos dávamos conta da
verdade daquela frase de Dostoievski, que define o ser humano como o ser
que a tudo de habitua. Podem nos perguntar. Nós sabemos dizer até que
ponto é verdade que a pessoa a tudo se acostuma, sem dúvida! Mas ninguém
pergunte de que modo…” (Frankl, 2011, p. 31-32).
Quando se sentir transbordado pela angústia e pelos acontecimentos estressantes, tome
distância do que lhe acontece e observe-se do alto, vendo como suporta tudo isso. Descubra
de quanto você pode ser capaz. Você deparará com muitas surpresas.
“Face à situação sem saída, ao perigo de morte a nos espreitar a cada
dia, a cada hora e minuto, face à proximidade da morte de outros, da
maioria, era natural que quase todos pensassem em suicídio, mesmo que
apenas por um momento. Em virtude de minha ideologia básica, que se
esclarecerá adiante, na primeira noite em Auschwitz, pouco antes de
adormecer, fim a mim mesmo a promessa, uma mão apertando a outra, de não
‘ir para o fio’. Essa expressão, corrente no campo, designava o método usual
de suicídio: tocar no arame farpado, eletrificado em alta tensão” (Ibidem, p.
32-33).
Pactue consigo mesmo ou com pessoas próximas que não se renderá, aconteça o que
acontecer. Escreva, lembre-se de seu pacto, com algum objeto ou carta escrita, dê solenidade
ao seu compromisso.
“Ora, numa situação anormal, uma reação anormal simplesmente é a
conduta normal. Também como psiquiatras esperamos que uma pessoa,
quanto mais normal for, reaja de modo mais anormal ao fato de ter caído
numa situação anormal, como seja, de ter sido internada num manicômio.
Também um prisioneiro, ao ser internado num campo de concentração,
demonstra um estado de espírito anormal, embora não deixe de ser uma
reação psicológica natural e, conforme ainda se mostrará, típica naquelas
circunstâncias” (Ibidem, p. 36-35).
A situação de desgaste e burnout é uma situação anormal. Então, não se surpreenda por ter
reações anormais. Basta não acreditar que elas sejam sua verdadeira identidade e não tomar
decisões definitivas a partir dessa “anormalidade”.
“O interesse religioso dos prisioneiros, quando surgia, era o mais
ardente que se possa imaginar. Não era sem um certo abalo que os
prisioneiros recém-chegados se surpreendiam com a vitalidade e a
profundidade do sentimento religioso. O mais impressionante nesse sentido
devem ter sido as preces e os cultos improvisados, no canto de algum
barracão ou num vagão de gado escuro e fechado, no qual éramos trazidos de
volta após o trabalho numa obra mais distante, cansados, famintos e
passando frio em nossos trapos molhados” (Ibidem, p. 51).
A religiosidade sincera é descoberta nos momentos de sofrimento. Se você já era uma pessoa
religiosa antes de sofrer o burnout, aproveite para comprovar quão autênticas eram suas
orações ou se eram unicamente monólogos. No abismo da dor pede-se auxílio e, muitas vezes,
faz-se pela primeira vez a experiência de Deus como o único interlocutor que habita a
existência nua e crua de nossa interioridade.
“Por horas a fio, fazia discursos mentalmente. Por fim, passei a
reconstruir, com rabiscos estenográficos, em minúsculos pedaços de papel,
aquele manuscrito que tive que jogar fora antes da desinfecção em
Auschwitz” (Ibidem, p. 52).
Mantenha sempre seu diálogo interior. Ocupe-se, na medida do possível, com coisas que
tenham sentido para você.
“Apesar de todo o primitivismo que toma conta da pessoa no campo de
concentração, não só exteriormente, mas em sua vida interior, percebem-se,
embora esporadicamente, os indícios de uma expressiva tendência para a
vivência do próprio íntimo. Pessoas sensíveis, originalmente habituadas a
uma vida intelectual e culturalmente ativa, dependendo das circunstâncias e a
despeito de sua delicada sensibilidade emocional, experimentarão a difícil
situação externa no campo de concentração de forma, sem dúvida, dolorosa;
essa, não obstante, terá para elas efeitos menos destrutivos em sua existência
espiritual. Pois justamente para essas pessoas permanece aberta a
possibilidade de se retirar daquele ambiente terrível para se refugiar num
domínio de liberdade espiritual e riqueza interior. Essa é a única explicação
para o paradoxo de, às vezes, justamente aquelas pessoas de constituição
mais delicada conseguiremsuportar melhor a vida num campo de
concentração do que as pessoas de natureza mais robusta.” (Ibidem, p. 53).
Não se preocupe por sua condição fraca do ponto de vista físico; a fortaleza está em seu ser
espiritual.
E nas madrugadas… “Enquanto avançamos aos tropeços, quilômetros a
fio, vadeando pela neve ou resvalando no gelo, constantemente nos apoiamos
um no outro, erguendo-nos e arrastando-nos mutuamente. Nenhum de nós
pronuncia uma palavra mais, mas sabemos neste momento que cada um só
pensa em sua mulher. Vez por outra, olho para o céu, onde vão
empalidecendo as estrelas, ou para aquela região no horizonte em que
assoma a alvorada por trás de um lúgubre grupo de nuvens. Mas agora meu
espírito está tomado daquela figura à qual ele se agarra com uma fantasia
incrivelmente viva, que eu jamais conhecera antes na vida normal. Converso
com minha esposa. Ouço-a responder, vejo-a sorrindo, vejo seu olhar como
que a exigir e animar ao mesmo tempo; e – tanto faz se é real ou não a sua
presença – seu olhar agora brilha com mais intensidade do que o sol que está
nascendo. Um pensamento me sacode. É a primeira vez na vida que
experimento a verdade daquilo que tantos pensadores ressaltaram como a
quintessência da sabedoria, por tantos poetas cantada: a verdade de que o
amor é, de certa forma, o bem último e supremo que pode ser alcançado pela
existência humana. Compreendo agora o sentido das coisas últimas e
extremas que podem ser expressas em pensamento, poesia – e em fé humana:
a redenção pelo amor e no amor! Passo a compreender que a pessoa, mesmo
que nada mais lhe reste neste mundo, pode tornar-se bem-aventurada – ainda
que somente por alguns momentos – entregando-se interiormente à imagem
da pessoa amada. Na pior situação exterior que se possa imaginar, numa
situação em que a pessoa não pode realizar-se através de alguma conquista
pode consistir unicamente num sofrimento reto, num sofrimento de cabeça
erguida, nesta situação a pessoa pode realizar-se na contemplação amorosa
da imagem espiritual que ela porta dentro de si da pessoa amada. Pela
primeira vez na vida, entendo o que quer dizer: os anjos são bem
aventurados na perpétua contemplação, em amor, de uma glória infinita…”
(Ibidem, p. 54-55).
“Essa tendência para a interiorização, ao manifestar-se em certos
prisioneiros, possibilita a mais viva percepção da arte ou da natureza. A
intensidade dessa experiência faz esquecer por completo o mundo que o
cerca e todo o horror da situação” (Ibidem, p. 57).
Exercite sua imaginação na contemplação da beleza, da sabedoria, das pessoas amadas, a
natureza, a arte. Distancie-se do mundo estressante que rodeia você com o poder
contemplativo do espírito. Dedique a esse exercício cerca de vinte minutos diários.
“À minha frente, um companheiro cai por terra, e os que vão atrás dele
também caem. Num instante, o guarda está lá e usa seu chicote sobre eles.
Por alguns segundos, se interrompe minha vida contemplativa. Mas, num
abrir e fechar de olhos, eleva-se novamente minha alma, salva-se mais uma
vez do aquém, da existência prisioneira, para um além que retoma mais uma
vez o diálogo com o ente querido: eu pergunto – ela responde; ela pergunta –
eu respondo” (Ibidem, p. 55-56).
“Meu espírito ainda se apega à imagem da pessoa amada. Continuo
falando com ela, e ela continua falando comigo. De repente me dou conta:
nem sei se minha esposa ainda vive! Naquele momento, fico sabendo que o
amor pouco tem a ver com a existência física de uma pessoa. Ele está ligado
a tal ponto à essência espiritual da pessoa amada, a seu ‘ser assim’ (nas
palavras dos filósofos), que a sua ‘presença’ e seu ‘estar-aqui-comigo’
podem ser reais sem sua existência física em si e independentemente de seu
estar com vida. Eu não sabia, nem poderia ou precisaria saber, se a pessoa
amada estava viva. Durante todo o período do campo de concentração não se
podia escrever nem receber cartas. Mas isso, naquele momento, de certa
forma não tinha importância. As circunstâncias externas não conseguiam
mais interferir no meu amor, na minha lembrança e na contemplação amorosa
da imagem espiritual da pessoa amada. Se naquela ocasião tivesse sabido:
minha esposa está morta – acho que esse conhecimento não teria perturbado
meu enlevo interior naquela contemplação amorosa. O diálogo espiritual
teria sido igualmente intenso e gratificante. Naquele momento, apercebo-me
da verdade: ‘Põe-me como selo sobre o teu coração… porque o amor é forte
como a morte’ (Cantares 8,6)” (Ibidem, p. 66).
A pessoa que ama domina o mundo. Disponha-se a oferecer serviços de amor concreto aos
usuários com quem você trabalha e a seus colegas. Essa atitude, mais do que cansá-lo, vai
elevá-lo acima do sistema laboral burocrático e opressor.
“Estás na vala trabalhando. O crepúsculo que te envolve é cor-de-cinza,
o céu é cinzento, cinzenta a neve no pálido lusco-fusco, os trapos dos teus
companheiros são cinzentos, e também os semblantes deles são cor-de-cinza.
Retomas outra vez o diálogo com o ente querido. Pela milésima vez lanças
rumo ao sol teu lamento e tua interrogação. Buscas ardentemente uma
resposta, queres saber o sentido do teu sofrimento e teu sacrifício – o sentido
de tua morte lenta. Numa revolta última contra o desespero da morte à tua
frente, sentes teu espírito irromper por entre o cinzento que te envolve, e
nessa revolta derradeira sentes que teu espírito se alça acima deste mundo,
desolado e sem sentido, e tuas indagações por um sentido último recebem,
por fim, de algum lugar, um vitorioso e regozijante ‘sim’” (Ibidem, p. 58-
59).
Diga “sim” à vida apesar de tudo e espere atentamente que, em algum momento da vida,
Deus, as circunstâncias ou sua própria voz interior lhe devolvam um “sim” vitorioso.
“Também o humor constitui uma arma da alma na luta por sua
autopreservação. Afinal é sabido que dificilmente haverá algo na existência
humana tão apto como o humor para criar distância e permitir que a pessoa
se coloque acima da situação, mesmo que somente por alguns segundos.
Um amigo e colega com quem trabalhei lado a lado, por semanas a fio,
no local da construção, foi por mim adestrado na prática do humor: propus-
lhe o compromisso mútuo de inventarmos ao menos uma piada por dia, mais
especialmente uma ocorrência que poderia ter lugar após a nossa libertação
e volta para casa” (Ibidem, p. 61-62).
O senso de humor é uma arma de sobrevivência. Não é um dom gratuito caído do céu; é
preciso treiná-lo. Invente uma história divertida sobre seu trabalho a cada dia.
“Refiro-me àquela minoria de prisioneiros que passavam, a bem dizer,
por gente importante, os capos e cozinheiros, os chefes de depósito e os
‘policiais’ do campo. Em todos eles havia uma compensação do sentimento
primitivo de inferioridade. É que esses não se sentiam rebaixados de
maneira alguma, como ‘a maioria’ dos prisioneiros comuns, mas sentiam-se
como arrivistas. Alguns desenvolviam até um delírio de César em miniatura.
A reação psíquica da maioria, ressentida e invejosa, ao comportamento
daquela minoria se manifestava de diversas formas, às vezes também em
piadas maldosas” (Ibidem, p. 85).
Ao “delírio de grandeza” de alguns chefes respondamos com humor. Evitemos a inveja e as
queixas improdutivas.
“Quem dos que passaram pelo campo de concentração não saberia falar
daquelas figuras humanas que caminhavam pela área de formatura dos
prisioneiros, ou de barracão em barracão, dando aqui uma palavra de
carinho, entregando ali a última lasca de pão? E mesmo que tenham sido
poucos, não deixou de constituir prova de que no campo de concentração se
pode privar a pessoa de tudo, menos da liberdade última de assumir uma
atitude alternativa frente às condições dadas. E havia uma alternativa!”
(Ibidem, p. 88).
Certamente, até naquele ambiente de trabalho insano onde nos encontramos há alguém que
aposta nos outros. O desafio é descobri-lo e aliar-se a ele.
“Pois não somente uma vida ativa tem sentido, em dando à pessoa a
oportunidade de concretizar valores de forma criativa. Não há sentido
apenas no gozoda vida, que permite à pessoa realizar valores na experiência
do que é belo, na experiência da arte ou da natureza. Também há sentido
naquela vida que – como no campo de concentração – dificilmente oferece
uma chance de se realizar criativamente e em termos de experiência, mas que
lhe reserva apenas uma possibilidade de configurar o sentido da existência,
que consiste precisamente na atitude com que a pessoa se coloca face à
restrição forçada de fora sobre seu ser. Faz muito que o recluso está privado
de realizar valores criativos. Mas não se encontra sentido apenas na
realização de valores de criação e de experiência. Se é que a vida tem
sentido, também o sofrimento necessariamente o terá. Afinal de contas, o
sofrimento faz parte da vida, de alguma forma, do mesmo modo que o
destino e a morte. Aflição e morte fazem parte da existência como um todo”
(Ibidem, p. 89-91).
“Pela maneira com que uma pessoa assume seu destino inevitável,
assumindo com esse destino todo o sofrimento que se lhe impõe, revela-se,
mesmo nas mais difíceis situações, mesmo no último minuto de sua vida, uma
abundância de possibilidades de dar sentido à existência. A pessoa pode
permanecer corajosa e valorosa, digna e desinteressada, ou, na luta levada
ao extremo pela autopreservação, pode esquecer sua humanidade e acabar
tornando-se por completo aquele animal gregário, conforme nos sugeriu a
psicologia do prisioneiro do campo de concentração. Dependendo da atitude
que tomar, a pessoa realiza ou não os valores que lhe são oferecidos pela
situação sofrida e pelo seu pesado destino. Ela então será ‘digna de seu
tormento’ ou não” (Ibidem, p. 90-91).
O sofrimento não é negativo em si mesmo. Negativo é o sofrimento que não encontra seu
porquê. Dê sentido ao sofrimento, tentando compreender sua mensagem, seu ensinamento,
sua possibilidade de se transformar em oferenda.
“Não se podia prever quando chegaria ao fim essa forma de existência,
se é que jamais sucederia.
Como se sabe, o termo latino finis tem dois significados: o fim e a meta.
A pessoa cuja situação não permite prever o final de uma forma provisória
de existência também não consegue viver em função de um alvo. Ela também
não consegue mais existir voltada para o futuro, como o faz a pessoa numa
existência normal. Concomitantemente, altera-se toda a estrutura de sua vida
interior” (Ibidem, p. 94).
Coloque para si metas que possam alcançar “o final”, ou seja, que sejam realizáveis. Olhe o
futuro a partir da ação presente.
“Dessa tendência de voltar para o passado já falamos em outro contexto.
Ela se presta para a depreciação do presente, da realidade circundante,
implica certo perigo. Isso porque podem ser facilmente esquecidas as
possibilidades de influência criativa sobre a realidade, as quais não deixam
de existir também no campo de concentração, como ficou demonstrado em
diversos exemplos heroicos” (Ibidem, p. 95-96).
Concentre-se no momento presente e nele tome consciên cia do que pode fazer; e, na medida
do possível, faça. Sempre é possível realizar algo positivo em qualquer lugar, a qualquer
momento.
“Quem conhece as estreitas relações existentes entre o estado emocional
de uma pessoa e as condições de imunidade do organismo, compreenderá os
efeitos fatais que poderá ter a súbita entrega ao desespero e ao desânimo.
Em última análise, meu companheiro foi vitimado porque sua profunda
decepção pelo não cumprimento da libertação pontualmente esperada
reduziu drasticamente a capacidade imunológica de seu organismo contra a
infecção de tifo exantemático já latente. Paralisaram-se sua fé no futuro e sua
vontade de futuro, acabando seu organismo por sucumbir à doença. Assim a
voz de seu sonho acabou prevalecendo…” (Ibidem, p. 100).
Não coloque metas que dependam apenas de eventos externos. Não exija que tudo mude em
determinada data. O futuro não nos pertence, e a decepção pode ser devastadora.
“Aquela unicidade e exclusividade que caracterizam cada pessoa humana
e dão sentido à existência do indivíduo fazem-se valer tanto em relação a
uma obra ou uma conquista criativa, como também em relação a outra pessoa
e ao amor da mesma. Esse fato de cada indivíduo não poder ser substituído
nem representado por outro é, no entanto, aquilo que, levando ao nível da
consciência, ilumina em toda a sua grandeza a responsabilidade do ser
humano por sua vida e pela continuidade da vida. A pessoa que se deu conta
dessa responsabilidade em relação à obra que por ela espera ou perante o
ente que ama e espera, essa pessoa jamais conseguirá jogar sua vida fora.
Ela sabe do ‘porquê’ de sua existência – e por isso também conseguirá
suportar quase todo ‘como’” (Ibidem, p. 105).
Você é insubstituível para aqueles que o amam e ante o desenvolvimento de sua vida. É
suficiente essa constatação para que você compreenda seu grande valor; não duvide disso.
“E então, dias após a libertação, vais andando pelo campo livre,
atravessando campinas floridas, rumo a um lugarejo nos arredores do campo
de concentração; cotovias se alçam para as alturas e ouves seu canto de
alegria que ressoa no alto do ar livre. Em toda a volta não se enxerga
vivalma. O que te cerca é campo aberto, a terra, o céu, o regozijo das
cotovias e o espaço livre; nada mais. Interrompes tua caminhada neste
espaço livre, paras, olhas ao redor e olhas para o alto – e te prostras de
joelhos. Neste momento não sabes muito de ti mesmo nem muito sobre o
mundo. Dentro de ti apenas ouves as palavras, e sempre as mesmas palavras:
‘Na angústia gritei para o Senhor, e ele me respondeu no espaço livre’. –
Quanto tempo ficaste ali ajoelhado? Quantas vezes repetiste aquelas
palavras? A lembrança já não o sabe dizer… Mas naquele dia, naquela hora,
começou tua nova vida – isso sabes. E é passo a passo, não de outro modo,
que entras nessa nova vida, tornas a ser pessoa” (Ibidem, p. 115-116).
Seja agradecido. Registre todo o positivo que recebeu das pessoas, do mundo, de Deus, e não
se esqueça de agradecer.
“Por exemplo, um companheiro e eu caminhamos reto, cruzando os
campos em direção à prisão da qual há pouco fomos libertados; de repente
nos vemos diante de uma lavoura recém-germinada. Automaticamente quero
desviar dela. Ele, entretanto, me pega pelo braço e me impele reto em frente.
Balbuciei algo de que não se deve pisar a brotadura. Aí ele se exalta. Com o
olhar ameaçador grita: ‘O quê? E o que fizeram conosco? Liquidaram minha
mulher e meu filho na câmara de gás – isto, para não falar do resto – e tu
queres proibir que eu esmague uns talos de aveia?…’
Somente aos poucos se consegue levar essas pessoas a reen contrar a
verdade, tão trivial, de que ninguém tem o direito de praticar injustiça, nem
mesmo aquele que sofreu injustiça” (Ibidem, p. 117).
Seja coerente com seus princípios éticos. Quando vivemos num mundo pouco ético, nossa
integridade nos sustenta e garante.
4. Notas conclusivas
Certamente as palavras fortes de Frankl, vindas depois de superar o
abismo do ódio e da desumanização que as provocaram, ficarão repicando
no coração e na mente de quem está terminando de ler este livro. É o meu
desejo. Este estudo não pretendeu ser apenas uma ajuda para superar o
desgaste profissional, mas, segundo seu subtítulo, tentou apresentar uma
alternativa de vida na plenitude do sentido e da liberdade, conforme o
caminho da logoterapia.
O leitor que teve a paciência de nos acompanhar até o fim compreendeu a
amplitude do problema do desgaste profissional e possui algumas
ferramentas para enfrentá-las em seu próprio trabalho. Comprovamos que a
investigação da psicologia cognitiva e da psicologia ocupacional oferece
recursos válidos, dos quais tentamos oferecer suas aplicações mais
concretas.
Nossa preocupação com o burnout e o desejo de ajudar a quem dele
padece levou-nos também a entender suas dimensões culturais e ambientais.
A crítica ao consumismo, à competitividade, ao carreirismo e à sobrecarga
da produtividade levou-nos a compreender o que está em jogo na sociedade
pós-moderna: a desumanização do homem e de suas relações por meiode
inúmeros mecanismos perversos de alienação.
A formação para uma liderança responsável e com habilidades para
construir relações de comunhão demonstrou-se também um fator necessário e
determinante na prevenção do burnout.
A logoterapia e, especialmente, o exemplo da pessoa de Viktor Frankl
são valiosos recursos que tentamos apresentar. Espero que, nestas páginas, o
leitor tenha encontrado uma síntese completa e satisfatória dessa teoria da
psicologia existencial, que nos leva a colocar em jogo nossa liberdade e
responsabilidade para descobrir o sentido da vida. Convido a não
intelectualizar esses princípios. Devemos lembrar que não é possível
compreender algo sem atuá-lo simultaneamente.
Frankl observava que “a maioria das pessoas no campo de concentração
acreditava ter perdido as verdadeiras possibilidades de realização, quando
na realidade elas consistiam justamente naquilo que a pessoa fazia dessa
vida no campo: vegetar como os milhares de prisioneiros ou, como uns
poucos, vencer interiormente” (Ibidem, p. 96). Analogamente, o burnout faz
com que nos sintamos mortos, vegetativos, mal e definitivamente
“queimados” pelo estresse vivido. Recuperemos então o desafio e a
oportunidade que esse sofrimento nos oferece.
Encontrei-me, recentemente, num país vizinho, com um grupo de
aproximadamente setenta profissionais que trabalhavam com
toxicodependentes, em diferentes níveis e disciplinas. Eram especialmente
sensíveis ao tema do burnout e sentiam-se sozinhos no enfrentamento do
próprio cansaço e das inúmeras desilusões que esse duro trabalho comporta.
As instituições em que exerciam seu serviço não ofereciam recursos
necessários para preservar a saúde desses trabalhadores. Naquele momento,
a mim cabia transmitir os frutos das pesquisas psicológicas para sustar os
efeitos do desalento. Mas naquele “aqui e agora”, seus olhares profundos me
sugeriram fazer um apelo a custodiarem o tesouro da própria vocação de
serviço, visto como o centro mais genuíno do próprio existir, para além do
desencanto. Apresentei a vida como uma missão, e não como uma carreira.
Terminada minha conferência, sentia-me envergonhado, pois achava que
tinha feito um sermão supérfluo; não estávamos no culto dominical, e eu não
era um pastor ou sacerdote. Devia ter oferecido um tema científico, como se
esperava por minha qualidade de médico e “especialista estrangeiro”. Mas,
enquanto recolhia meus papéis, muitos vieram me cumprimentar e devolver
com gratidão o que minhas palavras tinham provocado em seus corações. A
partir de minha sugestão, manifestaram o desejo de recomeçar a luta
cotidiana. Essas palavras calorosas aliviaram meus cansaços e minhas
autoexigências superdimensionadas, e me demonstraram mais uma vez o
axioma da bondade: “Os bons são sempre bons”. Estejam diante de um
toxicodependente ou de um “especialista estrangeiro deslocado”. São
necessários, disse-me, para mim e para o mundo.
Que os homens “que descem de Jerusalém a Jericó” encontrem nas
peripécias de sua arriscada viagem samaritanos que possuam faixas, azeite e
vinho para curar, consolar e salvar.
Como a rede da intercomunicação sustenta nosso trabalho comum,
aguardo suas experiências, inquietudes, sugestões, críticas e comentários.
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	Capítulo 1
	O DESGASTE PROFISSIONAL DOS QUE AJUDAM (BURNOUT)
	1. Susana, uma médica cheia de energia
	2. O esgotamento profissional. Definição da síndrome
	3. Esgotamento emocional
	4. Despersonalização
	5. Baixa realização pessoal
	6. Avaliação pessoal
	7. Do diagnóstico à terapia
	8. Dicas para recuperar-se e prevenir o desgaste profissional
	9. Conselhos da psicologia cognitiva para agir na esfera pessoal
	10. Fatores externos
	Conclusões
	Capítulo 2
	O DESGASTE PROFISSIONAL VISTO PELA LOGOTERAPIA
	1. Viktor Frankl: “O homem que encontrou o sentido da própria vida ajudando outros a descobri-lo”
	2. Princípios básicos da logoterapia
	3. Os caminhos de sentido
	4. O sentido do trabalho
	5. Análise existencial, logoterapia e burnout
	Anexo: O desgaste nas vocações religiosas
	Capítulo 3
	O AMBIENTE DE TRABALHO. AS RELAÇÕES DE COMUNHÃO, REMÉDIO PARA O BURNOUT
	1. Sanar o ambiente de trabalho. Essas complicadas relações entre colegas
	2. Vanglória e inveja, o sabor amargo de nossas relações de trabalho
	3. Dois cartazes
	4. Humildade e autoestima
	Anexo: O desgaste e a necessidade de uma liderança responsável
	Capítulo 4
	UMA CULTURA QUE DESGASTA?
	1. Consumismo
	2. A temporalidade fragmentada
	3. As neuroses coletivas
	Capítulo 5
	A CURADA ALMA “DESGASTADA”
	1. A saída espiritual
	2. O segredo de padre Vilson
	3. Mensagens de um sobrevivente dos campos de concentração para se sobrepor ao burnout
	4. Notas conclusivas
	Referências