Prévia do material em texto
1. Compreender a neuroanatomofisiologia da linguagem As áreas funcionais relacionadas com a linguagem são bem estabelecidas nos adultos e constam de sítios mais ou menos concêntricos localizados no hemisfério esquerdo. Tais áreas abrangem a área de Broca, situadas no giro frontal ascendente esquerdo, envolvida, principalmente, no planejamento motor da linguagem, na articulação e no ritmo da fala. A área de Wernicke, situada na porção medial e superior do lobo temporal, está envolvida na compreensão da linguagem, enquanto que o fascículo arqueado, que liga estas duas áreas, relaciona-se com a integração, compreensão e expressão. O chamado giro angular está localizado no lobo parietal, e faz a integração entre as funções gnósicas e práxicas da linguagem, tendo grande participação nos processos de escrita e leitura. Outra área envolvida nestas funções é a do giro parietal inferior, ou giro supramarginal. O giro do cíngulo e outras áreas mais límbicas do lobo frontal também implicam o aspecto motivacional da linguagem, enquanto que o hemisfério direito, não dominante, associa-se, principalmente, com os aspectos não verbais da linguagem, como a pragmática e a prosódia. A prosódia representa o aspecto afetivo e emocional da fala, a entonação, a inflexão, o volume, a ênfase, bem como a expressão facial e a postura corporal que fazem parte do contexto de atribuição de significado não verbal da linguagem. Assim, a prosódia da fala tem localização nas porções posteriores do giro temporal superior do hemisfério cerebral direito (área análoga a de Wernicke). Por outro lado, a prosódia expressiva está localizada na região posterior do giro frontal inferior direito (análoga da área de Broca). A prosódia desenvolve-se precocemente na infância e se estabelece, funcionalmente, para a comunicação no período pré-escolar precoce. Crianças com dificuldade de prosódia receptiva e expressiva têm também dificuldade na interação social. O giro supratemporal esquerdo, córtexmotor e pré-motor ipsilaterais, putâmen esquerdo e parte de ambos os hemisférios cerebelares são responsáveis pela articulação durante uma tarefa de repetição de sílabas. A habilidade da linguagem requer a entrada de informações sensoriais (principalmente da audição e da visão), o processamento em vários centros do córtex cerebral e a coordenação de sinais motores para a vocalização e a escrita. Na maioria das pessoas, os centros para a habilidade da linguagem estão localizados no hemisfério esquerdo do cérebro. Até mesmo 70% das pessoas canhotas (cérebro direito dominante) ou ambidestras usam seu cérebro esquerdo para falar Essas áreas estão em amplo desenvolvimento na criança e são suscetíveis à plasticidade e mudança funcional quando da presença de insultos cerebrais localizados, ou mesmo mediante a exposição a desafios culturais como o aprendizado de línguas ou estudo de um instrumento musical. Os sinais de entrada para as áreas da linguagem vêm tanto do córtex visual (leitura) como do córtex auditivo (audição). Estes sinais sensoriais vão primeiro à área de Wernicke e depois à área de Broca. Após a integração e processamento, os sinais provenientes da área de Broca, ao chegar no córtex motor, iniciam uma ação falada ou escrita. O processo de aquisição da linguagem escrita, assim como o da linguagem oral, envolve diversas regiões cerebrais, entre elas a área parieto-occipital. Na região occipital, o córtex visual primário é o responsável pelo processamento dos símbolos gráficos, e as áreas do lobo parietal são responsáveis pelas questões vísuo-espaciais da grafia. Essas informações processadas são reconhecidas e decodificadas na área de Wernicke, responsável pela compreensão da linguagem, e a expressão da linguagem escrita necessita da ativação do córtex motor primário e da área de Broca. Para todo este processo ocorrer, é importante que as fibras de associação intra-hemisféricas estejam intactas. Neuro funcionamento da linguagem: O processo da linguagem é bastante complexo e envolve uma rede de neurónios distribuída entre diferentes regiões cerebrais. Em contato com os sons do ambiente, a fala engloba múltiplos sons que ocorrem simultaneamente, em várias frequências e com rápidas transições entre estas. O ouvido tem de sintonizar este sinal auditivo complexo decodificá-lo e transformá-lo em impulsos elétricos, os quais são conduzidos por células nervosas à área auditiva do córtex cerebral, no lobo temporal. O logo, então, reprocessa os impulsos, transmite-os às áreas da linguagem e provavelmente armazena a versão do sinal acústico por um certo período de tempo; A área de Wernicke, situada no lobo temporal, reconhece o padrão de sinais auditivos e interpreta-os até obter conceitos ou pensamentos, ativando um grupo distinto de neurônios para diferentes sinais. Ao mesmo tempo, são ativados neurônios na porção inferior do lobo temporal, os quais formam uma imagem do que se ouviu, e outros no lobo parietal, que armazenam conceitos relacionados. De acordo com este modelo, a rede neuronal envolvida forma uma complexa central de processamento. Para verbalizar um pensamento, acontece o inverso. Inicialmente, é ativada uma representação interna do assunto, que é canalizada para a área de Broca, na porção inferior do lobo frontal, e convertida nos padrões de ativação neuronal necessários à produção da fala. Também estão envolvidas na linguagem áreas de controlo motor e as responsáveis pela memória. Linguagem é troca de sons: barata - balata ; 2. Diferenciar os conceitos de fala e linguagem Fala: Chamamos de fala a comunicação produzida de maneira verbal. Para que ela ocorra de maneira eficaz, é necessário que os componentes de fala estejam funcionando bem. São eles: Articulação da fala, coordenação motora dos órgãos da fala e fonologia. ● Articulação dos sons (fonética): Quando o ar sai de nossos pulmões, ele passa pela nossa laringe, movimenta as pregas vocais, e, ao chegar na nossa boca, esse ar é articulado pelos lábios, pela língua, pela bochecha, pelos dentes, pela cavidade nasal e pelo véu palatino (popularmente conhecido como “céu da boca”). Por meio dessas movimentações, somos capazes de produzir os sons e falar. ● Coordenação de movimentos dos órgãos responsáveis pela fonação (práxis): Cada som que emitimos pela boca é produzido por um movimento diferente. Assim, quando pronunciamos um fonema (ou seja, quando pronunciamos o som de uma letra), até mesmo a quantidade de ar que soltamos faz diferença no som produzido. Para que a fala ocorra de forma correta, é necessário, então, que os órgãos responsáveis pela produção dos sons estejam se movimentando adequadamente. ● Fonologia (componentes de cada língua): Para que a fala de uma pessoa seja considerada eficaz, é preciso que essa pessoa seja capaz de dominar os componentes da sua língua materna. Por exemplo: entender o uso das regras gramaticais, ou produzir corretamente o som de cada letra). Linguagem: A linguagem inclui todo o sistema de comunicação do ser humano, seja verbal (fala) ou não verbal (vídeos, fotos, gestos, etc.). É graças a ela que conseguimos nos comunicar através de movimentos do corpo, de expressões faciais, pelo olhar, pela escrita e pela leitura. A linguagem é composta de 6 tipos de componentes: fonológicos, prosódicos, morfológicos, sintáticos, semânticos e pragmáticos. ● Fonológicos: são os sons de uma determinada língua. ● Prosódicos: são a entonação e a ênfase usados na transmissão da mensagem. ● Morfológicos: é a combinação de sons para formar palavras. ● Sintáticos: é a forma como as palavras são organizadas para formar frases. ● Semânticos: é o significado e o sentido das palavras. ● Pragmáticos: é o uso da linguagem, ou seja, a capacidade linguística e não linguística de se comunicar (por exemplo, uso de ironias, duplo sentido, expressões típicas de uma determinada região). Em resumo, a fala é a nossa capacidade de nos comunicar oralmente, e a linguagem é a capacidade global de comunicação. Ou seja, a fala é uma forma de linguagem,mas a linguagem não é apenas fala. https://simplificafono.com.br/linguagem/aprendizagem/processo-de-leitura/ Linguagem é o sistema simbólico usado para representar os significados em uma cultura, abrangendo seis componentes: fonologia (sons da língua), prosódia (entonação), sintaxe (organização das palavras na frase), morfologia (formação e classificação das palavras), semântica (vocabulário) e pragmática (uso da linguagem).11 A fala é o canal que viabiliza a expressão da linguagem e corresponde à realização motora da linguagem. Em outras palavras, a linguagem significa trocar informações (receber e transmitir) de forma efetiva, enquanto que a fala refere-se basicamente à maneira de articular os sons na palavra (incluindo a produção vocal e a fluência) 3. Relacionar a desenvolvimento neuropsicomotor à aquisição da linguagem, no primeiro ano de vida. Distúrbios da fala e da linguagem na infância Ao nascer, inicia-se o estágio pré-linguístico, quando acontecem as reações de reflexo instintivas da criança, Cairuga, Castro e Costa (2014, p. 123) explicam este estágio do desenvolvimento em poucas palavras, sendo que “A comunicação inicial dá-se pelo choro, sorriso, grito, bocejo, gemido,etc., basicamente relacionados a reações fisiológicas do bebê.” O bebê já identifica a voz dos pais ou pessoas com quem teve maior contato durante a gestação, principalmente da mãe, o que pode proporcionar conforto à criança. Comunica-se através do choro e expressões emocionais, sinalizando conforto ou desconforto. O balbucio inicia-se ao redor dos 3 meses e os bebês partem da imitação acidental dos sons ouvidos e, posteriormente, evoluem para uma imitação mais voluntária. Por volta do final do 1º ano de vida, as crianças emitem a sua primeira palavra e, cerca de 8 meses a 1 ano mais tarde, começam a falar utilizando frases. O choro também expressa uma comunicação bastante variada do lactente e os pais muitas vezes são capazes de distinguir seu significado pelos diferentes matizes, tonalidade e intensidades que podem sinalizar fome, sono ou aborrecimento. Durante as 6 semanas e os 3 meses de vida, os bebês começam a produzir sons quando estão contentes emitindo murmúrios e sons vocálicos. Dos 3 aos 6 meses, os bebês começam a brincar com os sons da fala e tentam ajustá-los de acordo com as pessoas que encontram à sua volta. Entre os 6 e os 10 meses, a criança começa a repetir sequências de consoantes-vogais como “ma-ma, da-da, pa-pa”. Esta lalação não é uma verdadeira linguagem, na medida em que não comporta significado O desenvolvimento da linguagem prossegue com a imitação acidental dos sons da fala que as crianças ouvem e depois reproduzem. Com cerca de 9 a 10 meses de vida, os lactentes imitam deliberadamente sons sem os compreenderem. Acredita-se que lactentes começam a reconhecer os sons da fala ainda no útero. São capazes de distinguir sons da fala da língua materna. Lactentes com 8 meses prestam atenção ao modo como as palavras soam e armazenam esses padrões de sons na memória. Aparentemente, ao prepararem-se para compreender o discurso, começam por se familiarizar primeiro com os sons das palavras e, mais tarde, associam-lhes significados. Entre os 9 e os 12 meses, aprendem alguns gestos sociais convencionais, como dizer adeus, abanar com a cabeça para significar sim, abanar com a cabeça para significar não e por volta dos 13 meses, a criança usa gestos representacionais mais elaborados como, por exemplo, leva uma xícara vazia à boca ou levanta os braços para mostrar que quer ser levado ao colo. Gestos simbólicos, tais como soprar para significar “quente”, geralmente emergem na mesma fase que a criança pronuncia as suas primeiras palavras; esses gestos revelam que as crianças compreendem que os objetos e as ideias têm nomes e que os símbolos podem referir-se a coisas, episódios, desejos e circunstâncias específicas do cotidiano. A criança emite, em média, a primeira palavra por volta dos 10 meses, iniciando o discurso linguístico, ou seja, a expressão verbal que veicula um significado. Passará a usar muitas palavras e irá mostrar alguma compreensão da gramática, da pronúncia, da entoação e do ritmo. Assim compreendem muitas palavras antes de serem capazes de utilizá-las, ou seja, o seu vocabulário passivo desenvolve-se mais rapidamente do que o seu vocabulário ativo. As primeiras palavras compreendidas entre os 9 ou 10 meses são as que, em geral, ouvem mais vezes. Essas palavras são o seu próprio nome e a palavra “não”. Por volta dos 13 meses, a maioria das crianças compreende que uma palavra representa um objeto ou acontecimento específico, podendo rapidamente aprender o significado de uma nova palavra. a aquisição da linguagem representa a interação entre todos os aspectos do desenvolvimento físico, cognitivo, emocional e social da criança. À medida que amadurecem as estruturas cerebrais necessárias à produção de sons, à discriminação auditiva, ao controle fonatório da fala, há maior complexidade na associação de significados e contextos que facilitam tanto a forma, a interação como a comunicação social da criança com os pais, outros adultos, outras crianças e com ela mesma. Tal desenvolvimento formará a base da natureza narrativa do discurso, do pensamento e da metacognição Os primeiros anos de vida da criança são determinantes para o desenvolvimento adequado da linguagem. Em ambiente comunicativo e a partir da interação com a família, a criança adquire as bases para um desenvolvimento sadio da linguagem, no que diz respeito à sua forma, conteúdo e uso. A aquisição normal da linguagem é dependente de uma série de fatores como o contexto social, familiar e histórico pré, peri e pós-natal do indivíduo, suas experiências, capacidades cognitivas e orgânico-funcionais. A integridade auditiva é um pré-requisito para esse processo, bem como as estruturas envolvidas na produção de fala. É por meio da audição que a criança tem acesso à linguagem oral, sendo capaz de detectar, identificar, discriminar, reconhecer os sons da fala para, posteriormente, compreendê-los e produzi-los. Nos primeiros anos de vida, pela função auditiva, a criança se familiariza com a estrutura da língua materna e organiza informações linguísticas necessárias ao desenvolvimento da linguagem oral. Durante o desenvolvimento da fala a criança adquire o inventário fonético, articulação dos sons e os organiza de acordo com as regras linguísticas da língua materna. Para isso, a criança experimenta diversos processos fonológicos na tentativa de aproximar a sua produção de fala à do adulto para que, aos quatro anos, já tenha condições de produzir e utilizar adequadamente todos os sons da língua materna. A linguagem pode começar a partir dos 8 meses quando ele começa a engatinhar. Ele começa ter intenção comunicativa, exploração do meio. 12 meses primeiras palavras com significados. A primeira palavra pode ser uma palavra que nem exista: bubu (bico) Distúrbios: Os distúrbios disfásicos da infância, diferentemente dos quadros observados nos adultos, relacionam-se geralmente com as alterações cerebrais bilaterais, não resultam em disfunções importantes da fala, uma vez que há maior plasticidade cerebral nas crianças, principal mente quando as lesões são congênitas ou ocorrem antes dos 4 anos de idade. A classificação das disfasias nas crianças são basicamente subdivididas em três esferas: 1. Disfasia expressiva – caracterizada por dificuldade na articulação de fonemas, palavras, com percepção normal ou pouco afetada. 2. Disfasia receptiva-expressiva – que se caracteriza por agnosia verbal auditiva, na qual há grande dificuldade na compreensão auditiva verbal e preservação da linguagem não verbal. 3. Disfasias de processamento de ordem superior – caracterizam-se por dificuldades denominadas de semântico-pragmáticas, em que as crianças apresentam uma fluência verbal adequada, muitas vezes excelente memória verbal e musical, mas dificuldades nos aspectos pragmáticos e prosódicos da fala Na afasia de Broca, hádificuldade da fala expressiva, o vocabulário é restrito à estereotipia e ao jargão. Na afasia de percepção ou sensorial de Wernicke, o aspecto mais comprometido é a compreensão da fala; a fluência pode estar mantida, embora o conteúdo e a integridade narrativa estejam prejudicados. Na afasia de condução, não há dificuldade nem na expressão, nem na compreensão, mas há comprometimento tanto da repetição, quanto da nomeação. Na chamada afasia transcortical, há falhas na elaboração e na organização das respostas linguísticas. Na afasia anômica, há apenas dificuldade para nomeação, enquanto que a afasia mista se caracteriza pelo envolvimento de todas as funções da linguagem