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Raphaela Faria – MEDICINA XXIX TRANSTORNOS DO HUMOR Os transtornos depressivos incluem transtorno disruptivo da desregulação do humor, transtorno depressivo maior (incluindo episódio depressivo maior), transtorno depressivo persistente (distimia), transtorno disfórico pré-menstrual, transtorno depressivo induzido por substância/medicamento, transtorno depressivo devido a outra condição médica, outro transtorno depressivo especificado e transtorno depressivo não especificado. TRANSTORNO DEPRESSIVO MAIOR A. Cinco (ou mais) dos sintomas durante mesmo período de duas semanas (mudança em relação ao funcionamento anterior); sendo pelo menos um dos sintomas (1) humor deprimido ou (2) perda de interesse ou prazer (anedonia). Nota: Não incluir sintomas nitidamente devidos a outra condição médica. 1. Humor deprimido a maior parte dos dias, quase todos os dias, indicado por relato subjetivo (sente-se triste, vazio, sem esperança) ou por observação de outras pessoas (parece choroso); Nota: em crianças e adolescentes pode ser humor irritável. 2. Acentuada diminuição do interesse ou prazer em todas ou quase todas as atividades na maior parte do dia, quase todos os dias (relato subjetivo ou observação de terceiros) 3. Perda ou ganho de significativo de peso sem dieta (alteração > 5% do peso corporal em 1 mês) ou oscilação do apetite todos os dias (em crianças e adolescentes considerar o insucesso em obter o ganho de peso adequado) 4. Insônia ou hipersonia quase todos os dias; 5. Psicomotricidade: agitação ou retardo psicomotor quase todos os dias (observáveis por outras pessoas) 6. Falta de energia: fadiga ou perda de energia quase todos os dias; 7. Sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva ou inapropriada (que podem ser delirantes) quase todos os dias (não meramente culpa ou recriminação por estar doente); 8. Capacidade diminuída para pensar ou concentrar, ou indecisão, quase todos os dias (relato subjetivo ou observação de terceiros); 9. Pensamentos recorrentes de morte (não somente medo de morrer), ideação suicida recorrente sem um plano específico, uma tentativa de suicídio ou plano específico para cometer suicídio. B. Os sintomas causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes na vida do indivíduo C. O episódio não é atribuível aos efeitos fisiológicos de uma substância ou a outra condição médica. Nota: Os Critérios A-C representam um episódio depressivo maior. Nota: Respostas a uma perda significativa (luto, ruína financeira, perdas por desastre natural, doença médica grave ou incapacidade) podem incluir os sentimentos de tristeza intensos, ruminação acerca da perda, insônia, falta de apetite e perda de peso (Critério A), que se assemelham a um episódio depressivo. Embora tais sintomas possam ser considerados apropriados à perda, a presença de um episódio depressivo maior também deve ser considerada. Essa decisão requer o julgamento clínico baseado na história do indivíduo e nas normas culturais pra expressão de sofrimento no contexto da perda. D. A ocorrência do episódio depressivo não é mais bem explicada por transtorno esquizoafetivo, esquizofrenia ou outros transtornos psicóticos (diagnóstico diferencial com quadro psicótico). E. Nunca houve um episódio maníaco ou hipomaníaco (diagnóstico diferencial com bipolaridade). Nota: Essa exclusão não se aplica se todos os episódios do tipo maníaco ou do tipo hipomaníaco são induzidos por substância ou são atribuíveis aos efeitos psicológicos de outra condição médica. SUBTIPOS DE DEPRESSÃO Depressão melancólica: depressão matinal, falta de reatividade do humor, boa resposta a antidepressivos Depressão atípica: hipersensibilidade à rejeição, hipersonia, hiperfagia, reatividade de humor Depressão psicótica: presença de sintomas psicóticos associados Depressão sazonal: recorrência dos sintomas em uma época do ano, geralmente outono ou inverno (países europeus). EPIDEMIOLOGIA E FISIOPATOLOGIA CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS DSM - 5 - Sintomas depressivos: 13 a 20% - Transtorno depressivo maior: 3,7 a 6,7% - 2 a 3 vezes + frequente em mulheres - Maior prevalência (1º episódio): 25 a 44 anos - Causa ainda desconhecida - Interação do múltiplos fatores: genética, bioquímica, psicodinâmica, socioambientais - Fatores socioambientais: eventos cruciais na vida: perda de ente querido (20% tem depressão), evidência de fator predisponente - Teorias biológicas: As principais teorias relativas à base biológica da depressão situam-se nos estudos sobre neurotransmissores cerebrais e seus receptores. Neurotransmissores cerebrais. a principal hipótese envolve as monoaminas, que se subdividem em catecolaminas: dopamina (DA) e noradrenalina (NE), e na indolamina: serotonina (5HT). Essa hipótese baseia-se no conceito da deficiência das aminas biogênicas, particularmente NE, 5HT e DA, como a causa das depressões. Fatores neuroendócrinos: eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal, eixo hipotalâmico-pituitário-tireoides. O eixo neuroendócrino estudado na depressão é o hipotálamo-hipófise-adrenais (HHA) e sua conexão com estruturas do sistema límbico, como o hipocampo e a amígdala. Sabe-se que na vigência de situações de estresse crônico, assim como na depressão maior, ocorrem maior liberação de CRH e mais estimulação de estruturas do locus coeruleus, com ativação do sistema nervoso simpático. As catecolaminas liberadas modulam uma série de atividades das células imunes, tais como proliferação de linfócitos e produção de citocinas e anticorpos. Além disso, nessas condições, estimulação do núcleo dorsal da rafe com aumento do turnover de serotonina no hipotálamo, ambos já relacionados a alguns dos sintomas de ansiedade. Por outro lado e em contrapartida, reconhece-se que algumas citocinas pró- inflamatórias sejam potentes ativadores do eixo HHA. A liberação de hormônio de liberação de corticotropina (CRH) por elas também ativa regiões do SNC, em especial o eixo HHA, com liberação de glicocorticóides, os quais diminuem a atividade de células NK e a proliferação de linfócitos. CORRELAÇÃO COM OUTRAS PATOLOGIAS OU SUBSTÂNCIAS Medicamentos: opioides, antibióticos (ampicilina), AHA, antineoplásicos, cimetidina, levodopa, contraceptivos orais, benzodiazepínicos Substâncias de abuso: álcool, cocaína, opioides Doenças neurológicas: hematoma subdural crônico, demências, doença de Huntington, enxaqueca, esclerose múltipla, hidrocefalia de pressão normal, AVC, doença de Parkinson (principalmente no início), epilepsia do lobo frontal Doenças infecciosas: brucelose, encefalite, HIV, hepatite infecciosa, influenza, mononucleose, endocardite bacteriana, sífilis, tuberculose, pneumonia viral Neoplasias: carcinoma broncogênico, tumores no SNC, carcinomatose disseminada, linfoma, CA de pâncreas Doenças metabólicas e endócrinas: doença de Addison, anemia, hipertireoidismo, doença de Cushing, diabete, insuficiência hepática, hipocalemia, hiponatremia, hipoparatiteoidismo, hipopituitarismo, hipotireoidismo, pelagra, anemia perniciosa, porfiria, deficiência de tiamina, vitamina B12 e folato, uremia Raphaela Faria – MEDICINA XXIX TRATAMENTO O primeiro passo inclui determinar se eles podem ser tratados com segurança ambulatorialmente. Isso inclui avaliação de comprometimento funcional, gravidade dos sintomas e presença de intenção ou comportamento suicida. A transferência para emergência para tratamento rápido, é normalmente necessária para indivíduos com risco iminente de automutilação (comportamento e/ou plano suicida ativo, incapacidade de cuidar de si mesmo), risco de prejudicar outras pessoas, ou necessidade de desintoxicação aguda de drogas ou álcool que complicam o manejo da depressão. A gravidade da depressão é determinada pela combinação do grau de comprometimento funcional e do número, frequência, intensidade e duração dos sintomas do indivíduo. TRATAMENTONÃO FARMACOLÓGICO - Psicoterapia interpessoal - Terapia cognitivo – comportamental (TCC) - Terapia conjugal e familiar - Deve-se procurar indicar o tipo de terapia de acordo com o perfil de cada paciente - O tratamento exclusivamente em psicoterapia deve ser reservado para casos de depressão leve - A maior eficácia de tratamento é obtida na associação entre medicação antidepressiva + psicoterapia TRATAMENTO FARMACOLÓGICO Pacientes com TDM cujo tratamento inicial inclui medicação: antidepressivos de segunda geração, como inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS) ou inibidores seletivos da recaptação da noradrenalina (IRSN) são geralmente a primeira escolha, com base em sua eficácia e tolerabilidade. Medicamentos: tricíclicos, inibidores da MAO, ISRS, dupla-ação (venlafaxina, duloxetina), outras antidepressivos Princípios do uso: iniciar com doses baixas, aumentar gradativamente até mínima dose eficaz, manutenção do tratamento (mínimo 6 meses), prevenção de recaídas, orientar paciente e família quanto à possibilidade de recidivas. - Condições especiais: Mania ou hipomania prévia: associar estabilizador do humor Sintomas psicóticos: associar antipsicótico Abuso/dependência de substâncias: importante desintoxicação anterior Gravidez: avaliar risco-benefício (evitar principalmente durante 1º trimestre) usar Sertralina, Escitalopram e fluoxetina Amamentação: evitar se possível antidepressivos (medicamentos chegam no leite) ELETROCONVULSOTERAPIA (ECT) Indicações: eficaz para todos os tipos de depressão maior necessidade de resposta rápida, riscos menores com ECT do que com medicações, história de melhor resposta ao ECT, preferência do paciente Contraindicações: aumento da pressão intracraniana, feocromocitoma, lesões cerebrais expansivas, hemorragia intracraniana, IAM recente, aneurisma vascular Curso de tratamento: procedimento realizado com anestesia geral, de 6 a 13 sessões com intervalo de 1-2 dias. É necessário o consentimento do paciente ou familiar. Tratamento de manutenção com sessões mensais CURSO E PROGNÓSTICO - Aprox. 50% dos pacientes terão 3 episódios ao longa da vida - Entre os que tiveram 3 episódios 90% terão um quarto episódio - Episódios ↑ na frequência, duração e intensidade - 20 a 30%: tem sintomas residuais entre os episódios - Tratamento de manutenção: diminuição do risco de recaídas - Fatores predisponentes são mais importantes nos primeiros episódios - Fatores de mau-prognóstico: comorbidades psiquiátricas, abuso de substâncias, idade precoce de início, crises de longa duração, necessidade de hospitalização TRANSTORNO DEPRESSIVO PERSISTENTE (DISTIMIA)F34.1 Distimia: deriva do grego (“humor desordenado”) mau humor crônico, dificuldade de notar sintomas A. Humor deprimido na maior parte do dia, na maioria dos dias - relato subjetivo ou observação feita por outras pessoas, pelo período mínimo de dois anos. Nota: Em crianças e adolescentes, o humor pode ser irritável, com duração mínima de um ano. B. Presença, enquanto deprimido, de duas (ou mais) das características: 1. Apetite diminuído ou em excesso. 2. Insônia ou hipersonia. 3. Baixa energia ou fadiga. 4. Baixa autoestima. 5. Concentração pobre ou dificuldade em tomar decisões. 6. Sentimentos de desesperança. C. Durante o período de dois anos (um ano em crianças ou adolescentes) de perturbação, o indivíduo jamais esteve sem os sintomas dos Critérios A e B por mais de dois meses. D. Os critérios para um transtorno depressivo maior podem estar continuamente presentes por dois anos. E. Jamais houve um episódio maníaco ou hipomaníaco e jamais foram satisfeitos critérios para transtorno ciclotímico. F. A perturbação não é mais bem explicada por um transtorno esquizoafetivo persistente, esquizofrenia, transtorno delirante, outro transtorno do espectro da esquizofrenia e outro transtorno psicótico especificado ou transtorno do espectro da esquizofrenia e outro transtorno psicótico não especificado. G. Sintomas não se devem a substância (droga de abuso, medicamento) ou a condição médica (hipotireoidismo). H. Os sintomas causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo. - Tratamento: antidepressivos, psicoterapia CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS DSM - 5